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A sexualidade nas Ciências Sociais: leitura crítica das convenções 1

Luiz Fernando Dias Duarte, Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro

1. Introdução

O campo contemporâneo das ciências sociais tornase cada vez mais vasto e diferenciado, implicando uma convivência complexa de cânones e tendências mais ou menos tolerantes ou dialogais. Aprofundase assim, por um lado, a característica polimorfia epistemológica das ciências humanas ("morais" ou "do espírito"), em contraste com a disposição mais linear e univocizante das ciências naturais ou matemáticas. Reforçamse, por outro lado, dentro do próprio campo, disposições mais restritivas, dispostas a defender do pluralismo dominante 2 novas ortodoxias emergentes. Em um tal cenário, a compreensão de qualquer elemento discursivo ou analítico específico exige a aplicação de uma estratégia historicizante fundamental, que permita perceber as condições de surgimento e evolução tópicas nos meandros das "escolas", movimentos e tendências epistemológicas enoveladas.

O instituto da "sexualidade" não escapa a tal injunção. Exige mesmo uma mais especificada pesquisa, pelo fato de não ser uma categoria central entre as que são instrumentais para as ciências sociais. Isso faz com que as diversas vozes ativas não se pronunciem de maneira explícita e necessária sobre ela, ou que – eventualmente – sequer a considerem relevante ou estruturante para seus propósitos analíticos. Vemse avolumando, por outro lado, nas últimas décadas, uma bibliografia dedicada a sua presença no mundo social ou a fenômenos que dela dependem ou com ela convivem de modo mais ou menos intrínseco. Faremos um uso tão intenso quanto possível dessa bibliografia explícita, com ênfase nos desenvolvimentos brasileiros das polêmicas internacionais.

Consideraremos como "ciências sociais", para os fins desta análise, apenas a antropologia

e a sociologia. A sexologia é um saber mais liminar, mais ambíguo, menos institucionalizado, que

deve merecer interpretações específicas, às quais remeto (cf. Vance, 1995: 9; Béjin, 1985 e Russo

& Carrara, 2002). Se a ciência política se encontra muito pouco presente nessa seara; a história

1 Este trabalho foi apresentado originalmente como uma comunicação ao Seminário Sexualidades e Saberes:

convenções e fronteiras (Mesa-Redonda "Convenções da sexualidade"), realizado em 2003, em Campinas. Foi publicado como "A sexualidade nas ciências sociais: leitura crítica das convenções". In Piscitelli, Adriana; Gregori, Maria F. & Carrara, Sérgio (orgs.) Sexualidades e Saberes: Convenções e Fronteiras, Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2004. 2 No sentido descritivo regular, mas também no sentido programático com que Mariza Peirano sugere uma "antropologia no plural", sinal da disposição de um universalismo reflexivo (Peirano,1992: 250).

por outro lado – está intensamente presente (cf. Vance, 1995: 9) – mas se fará aqui representar apenas pelas repercussões impostas por seus desenvolvimentos aos saberes sociais em sentido estrito. As ciências sociais não se desenvolveram en vase clos . Nutriramse de influências externas

e emitiram elas próprias ondas de significação que compuseram as inúmeras interfaces da

sexualidade com a medicina , a psiquiatria, o direito, a psicologia, a psicanálise, a criminologia, etc.

Esses saberes (que também são "humanos") aparecerão aqui na medida em que se puder reconhecer seus sinais dentro do campo estrito delimitado. Esse é um ato de demarcação sempre muito arbitrário, sobretudo hoje em dia, em que novas tendências analíticas sonham romper com os limites estanques das disciplinas.

Creio que faz parte do senso comum acadêmico considerar a antropologia mais próxima do tema da sexualidade do que a sociologia. J. Pierret, por exemplo, considera que o tema só emergiu na sociologia a partir dos desafios da epidemia da aids (Pierret, 1998: 49). Seria para tanto necessário, porém, ignorar a sua presença em G. Simmel, em W. Thomas ou em N. Elias, por exemplo. Até mesmo por não ser possível traçar uma fronteira exata entre os dois saberes (sobretudo em sua acepção corrente no Brasil), podese considerar que ambos contribuíram para

o estoque atual de reflexões e pesquisa sobre o tema, ainda que de forma diferenciada 3 . C. Vance

considera que a antropologia, apesar de sua reputação de interesse e competência no tema, foi na

verdade "muito pouco corajosa ou até mesmo adequada em sua investigação da sexualidade" (Vance, 1995: 8). Sua descrição de um clima de desencorajamento e desconfiança a esse respeito parece ser específica, porém, do ambiente acadêmico norteamericano; podendo ter a ver com o afastamento diferencial em relação à Escola de Cultura e Personalidade (onde havia um lugar saliente para a sexualidade) prevalecente naquele país a partir dos anos 1960.

Nosso propósito será o de apresentar e contextualizar as principais premissas, as convenções estruturantes, com que se desenvolveu o tema em nosso campo. Isso incluirá sobretudo a análise do que chamo de "desentranhamento" da sexualidade como ente de razão moderno (com a conseqüente invenção do "entranhamento" não moderno e do "reentranhamento" programático neoromântico), a demarcação da tensão contínua entre "fisicalismo" e "simbolismo" na definição dos fenômenos da sexualidade, e – finalmente – o peso ideológico dos valores do "prazer" e da "interioridade" (com suas coortes de conotações) nas configurações culturais vulgares e eruditas (aí incluídas as ciências sociais).

É nesse sentido que devo reiterar que só a historicização da presença da sexualidade e das ciências sociais nos processos culturais mais amplos que suscitaram a emergência desses saberes, por um lado, e da própria categoria, por outro, permite a compreensão do fenômeno: o processo do "desentranhamento" (em relação à família, à reprodução, à religião, à moralidade etc.), a emergência das ideologias portadoras do "fisicalismo" (o universalismo / racionalismo) e do "simbolismo" (o romantismo) e a hegemonia dos valores da interioridade (psicologização) e do

3 "A primeira [a sociologia] tem contribuído com grandes inquéritos sobre o comportamento sexual da população, enquanto a segunda [a antropologia], em princípio, tem respondido pelas descrições detalhadas de valores e práticas de grupos sociais demarcados" (Heilborn, 1999: 7)

prazer ( hedonismo ) são processos amplos, demarcadores dos movimentos de toda nossa cultura – e não apenas da sexualidade.

2. A cultura ocidental moderna e a invenção da sexualidade

A compreensão da especificidade da "cultura ocidental moderna", da "sexualidade" e da

relação histórica que as une não pode ser aqui senão esboçada, com a remissão para uma bibliografia especializada mais completa. Não se pode deixar de sublinhar também que se trata de um recorte ou proposta tentativa, uma malha de interpretação entre outras possíveis – e nem por

isso menos indispensável para o exercício do pensamento crítico.

Em um trabalho anterior propus que as categorias fundamentais para compreender a relação entre sexualidade e sensibilidade na construção da Pessoa ocidental moderna eram as da "perfectibilidade", da "experiência" e do "fisicalismo" (Duarte, 1999:24). Com efeito, a suspensão da crença nas determinações holistas do mundo, característica da grande transformação em direção à modernidade, implicava a ênfase cosmológica na conveniência, interesse e inevitabilidade de definição do ser humano como transformável, mutável, em função de uma experiência constante do mundo sensível que lhe garantia a relação com um mundo concreto, palpável, de realidades imanentes. Uma das implicações mais claras dessa disposição foi a invenção do corpo humano, em sua acepção moderna: uma máquina concreta ( res extensa ), dotada de dispositivos informacionais (sentidos, sensibilidade, sentient being ), adaptada a funções animais específicas ( Homo sapiens ) e habitada por disposições abstratas de estatuto controvertido ( res cogitans, understanding , razão, mind , Geist , esprit , etc.), freqüentemente associadas a uma "vontade", ou seja, a uma propensão a intervir positivamente no mundo. O caráter crucial dessas disposições "morais" fez suscitar ao mesmo tempo, porém, uma ênfase peculiar na "interioridade" desse corpo, ambiguamente compreendida tanto como um plano de propriedades autônomas quanto como uma dimensão peculiar da fisicalidade fundamental de todas as coisas 4 . Estabeleciam se assim as condições para a hegemonia da noção moderna de "natureza" (cf. Gusdorf, 1985; Thomas, 1988; Descola, 1992 e Strathern, 1992, p. e.) e para o desenvolvimento da complexa e ambivalente noção de "natureza humana".

O estatuto dos sentidos corpóreos, das sensações e da sensibilidade humana foi um dos

objetos privilegiados da reflexão filosófica e científica (na fisiologia do sistema nervoso, por exemplo) dos séculos XVII e XVIII, demonstrando cabalmente a autonomização dessa dimensão

nova da qualidade do ser humano (cf. Figlio, 1975; Lawrence, 1979; Le Breton, 1988; Duarte, 1986). No contexto das indagações sobre a composição desse complexo e misterioso aparelho informacional surgiu uma nova dimensão ontológica da antiga tópica moral e filosófica do amor,

4 Em outro trabalho, sugeri que essa configuração cosmológica podia ser vista como dando continuidade a um esquema presente na cultura européia pré-moderna de ênfase num "mandamento de verdade, vontade e interioridade" na construção da Pessoa cristã ideal (cf. Duarte & Giumbelli, 1994).

do desejo e da concupiscência (a libido , em Santo Agostinho, por exemplo). A possibilidade de observação de uma disposição desejante e erótica no corpo humano armavase agora sobre a base da máquina sensorial. O clássico tema da "ereção involuntária" masculina, base da interpretação agostiniana da Queda (cf. Foucault & Sennet, 1981), passou a ser, no final do Século XVIII, um dos tópicos da especulação sobre a nova fisiologia corporal 5 . Creio que se possa considerar essa crescente ênfase erudita na sensibilidade como uma das etapas de um outro processo crucial da modernidade: o da emergência e progressiva hegemonia de uma ética hedonista, ao mesmo tempo derivada de e oposta ao originário dolorismo cristão (cf. Sahlins, 1996). A afirmação de um critério mundano de "satisfação" e "prazer" como justificação da vida humana é um dos traços mais característicos da inflexão moderna da cultura ocidental e certamente se associa ao processo de requalificação do "erotismo" no quadro das fontes específicas de prazer (ver o mito de Don Juan, por exemplo; e o conceito de "libertinagem", tão fundamental no século XVIII). É de fundamental importância nesse processo a conotação de "transgressão" na obtenção do prazer. O estatuto último dessa correlação é motivo de dissensão, não nos cabendo aqui senão sublinhar que a sua representação é corrente na cultura ocidental moderna e cresce na exata medida e ritmo em que se impõe o ideário de um indivíduo autônomo em relação à sociedade (vista como instância repressora externa).

Considero importante ressaltar a coetaneidade dessa disposição maior com quatro outros fenômenos aparentados, importantes no alvorecer da modernidade. O primeiro é o da nova classificação universalista do mundo vivo, proposta e desencadeada por Lineu; em que a chave ordenadora é justamente a das modalidades diferenciais da "reprodução" na "natureza", da condição "sexuada" ou não desses processos e de suas implicações para a gestação dos novos seres (vegetais e animais). A segunda é a da demonstração por T. Laqueur da emergência, nesse período, do "modelo dos dois sexos", ou seja, da distinção física essencial (de "natureza") entre os dois sexos, contra o pano de fundo da tradicional teoria da unidade fundamental modulada (cf. Laqueur, 1987). A terceira é a da obra do Marquês de Sade, em que a sexualidade aparece pela primeira vez – sob a forma de uma ficção de caráter fortemente político – como um instituto próprio da condição humana, independente da religião e da moralidade, e suficientemente crucial para determinar por si mesmo a carreira dos sujeitos sociais (de forma ativa ou passiva) (cf. Sade, 1995). E a quarta, finalmente, é a da constituição ao longo do século XVIII das primeiras formulações sistemáticas de uma economia política, ou seja, de uma teoria da reprodução coletiva da espécie humana. A fisiocracia, considerada comumente como a primeira de tais fórmulas, enfatizava particularmente a preeminência da produção "natural" a partir da terra – a agricultura (cf. Polanyi, 1980). Nos quatro casos, assiste se ao desentranhamento (a disembeddedness de Polanyi) de uma nova dimensão do humano a partir de sistemas classificatórios precedentes que a

5 Não podemos deixar de lembrar o ilustrativo episódio evocado por J. Jamin (1979 e 1983) da surpresa dos nativos de uma ilha polinésia com a ereção involuntária do marinheiro que haviam despido à força – episódio que tantas interpretações suscitaria sobre o estatuto da sexualidade "primitiva". Todo o contexto da Expedição, promovida pelos Idéologues (no contexto dessa versão radical do empirismo chamada de "sensualismo") é importante para o desentranhamento da "sensibilidade"; entre a inspiração culturalista do Barão DeGérando e a fisicalista de Buffon.

mantinham em relação integrada 6 . No primeiro e no segundo casos está em jogo a ruptura da qualidade físico moral da Grande Cadeia dos Seres (e seu coroamento pela providência divina),

buscandose estabelecer a determinação dos fenômenos (diferença das espécies e diferença dos gêneros) pelas suas características físicas imanentes – e, dentre elas, prioritariamente a sua estrutura reprodutiva 7 . No caso de Sade e da fisiocracia, a ruptura atinge a qualidade físico moral da condição humana, seja pela ênfase nas condições "naturais" da reprodução coletiva (e seu propiciamento político), seja pela ênfase na condição hedonista, "não reprodutiva" (antes mesmo

destrutiva), do desejo (e sua revolucionária apologia): "Français, encore un effort 1995) 8 .

!" (Sade,

Ao longo do Século XIX assistese, em uma primeira vertente de nossa temática, ao desenvolvimento linear da pesquisa biológica, incluindo se aí a fisiologia da reprodução em todos os níveis naturais. Ela faz parte da linhagem mais imediata dos saberes biomédicos contemporâneos – e de seu intrínseco reducionismo fisicalista. Em outra, concomitante, pode se constatar a progressiva retomada da diferença, a partir sobretudo da teoria da degeneração 9 , em que avulta a tematização da condição normal da sexualidade e suas vicissitudes. Em seu enfoque também basicamente fisicalista, avulta a preeminência da categoria "instinto sexual", construída para expressar em princípio a condição "natural" (no limite, "animal") dos fenômenos da reprodução e da sexualidade. O conceito de "perversão" veio expressar ao fim do período a preocupação com as chamadas "anomalias" desse "instinto sexual" ou "genésico". A literatura celebra a monumental e influente Psychopathia Sexualis de Von Krafft Ebing [1ª edição em 1888] como o acme de tal produção (cf. Loyola, 1999: 11, p. e.; Duarte, 1989a). Pode se considerar como uma terceira vertente dos processos oitocentistas a que conduziu a psicologia para uma

6 Heilborn & Sorj chamam de "sexualidade autonomizada" ao resultado desse processo (1999: 219). A

categoria "autonomia" nessa locução é expressiva do fundamento liberalizante do "desentranhamento". Mesmo nos casos mais abstratos, sempre pulsa a idéia de se assistir à libertação de um ente que se mantinha encarcerado na totalidade anterior: a sexualidade em relação à moralidade; o orgasmo em relação ao conjunto

Uma outra fórmula,

mais metodológica, de se referir ao desentranhamento é a de "descontextualização", como, por exemplo, em Singly, 1995: 162.

7 Chamo de "físico-moral" a todo sistema de representações sobre a pessoa que não pressuponha uma lógica exclusiva do corpo, da fisicalidade, tal como a que suporta a ideologia da Biomedicina ocidental (cf. Duarte,

1986).

8

Sade manteve uma verdadeira cruzada pessoal a favor do desentranhamento da sexualidade em relação à moralidade (o pudor), na apologia de categorias tais como a libertinagem, a luxúria, a depravação, o gozo. O argumento da "natureza" era aí crucial, como no seguinte trecho da Philosophie du Boudoir: "Détaillons maintenant et commençons par analyser la pudeur, ce mouvement pusillanime, contradictoire aux affections impures. S´il était dans les intentions de la nature que l´homme fût pudique, assurément elle ne l´aurait pas "

fait naître nu

dos prazeres eróticos; a homosexualidade em relação ao erotismo difuso entre iguais etc

(Sade, 1995: 40)

9 O processo de constituição de novas teorias diferencialistas contra o pano de fundo do ideal igualitário da ideologia individualista foi muito complexo e amplo, afetando sobretudo as questões da raça, do gênero e da doença ao longo do século XIX. O ponto crucial dessa diferença restaurada é o seu argumento "científico" e localizado, por oposição ao estatuto "cosmológico" da diferença hierárquica. Ver, sobre esse ponto, sobretudo, Laqueur, 1987; Costa, 1992; Carrara, 1996; Russo, 1997; Duarte, 2001, e Rohden, 2001.

psicofísica e lhe atribuiu a condução de pesquisas sobre as reações dos sistemas sensoriais – aí incluída a "excitação sexual".

Também ao longo dessas três vias é possível acompanhar o desentranhamento de uma "sexualidade" das propriedades corporais mais abrangentes associadas à "reprodução" (ver a noção de "aparelho reprodutor", fundamental para a afirmação da diferença sexual) e à "sensibilidade". Aqui porém, diferentemente do corpus anterior, o processo ideológico conduz a uma progressiva e imprevista reaproximação do "moral". Tanto o "instinto" quanto a "excitação" são dificilmente contidos dentro dos limites de uma estrita fisicalidade. A própria definição das categorias pressupõe dimensões morais, valorativas, das práticas sexuais. Sucessivas cruzadas contra o onanismo, a prostituição, a pornografia, a promiscuidade proletária ou o relaxamento moral das elites nutriram se de racionalizações eruditas baseadas em fragmentos mais ou menos conseqüentes dos saberes biomédicos e psiquiátricos – no horizonte geral da degeneração e sua coorte de fantasmas (atavismos, taras, perigos da miscigenação racial etc.) (cf. Foucault, 1975 e 1977; Donzelot, 1980).

A própria doutrina das igrejas cristãs estabelecidas adaptou se estrategicamente a esse

horizonte imanentista, fisicalista e determinista. Boa parte da intensa pastoral das famílias (e da moralidade) no âmbito da Igreja Católica passou a se nutrir desses saberes "científicos"; em curiosa aliança com doutrinas materialistas e reducionistas tanto à direita quanto à esquerda. O

conceito de uma "natureza" dada, com implicações diretas sobre a vida humana, sob as espécies de um "direito natural" e de uma "natureza humana" sustenta esses desenvolvimentos doutrinários, tanto quanto todos os demais hegemônicos em nossa cultura nesse período.

É, finalmente, necessário evocar os desenvolvimentos extremamente influentes que a

temática da sexualidade suscitou na arte em geral e, em particular, na literatura. O romantismo promoveu a emergência da concepção moderna de uma arte expressiva das forças interiores de sujeitos "criadores", individualizada na autoria e na recepção, e fortemente comprometida assim com a promoção das emoções privadas e com uma sensibilização generalizada do público. A temática do amor (dito justamente "romântico"), inicialmente concentrada nas convenções relativas à troca pública dos afetos e à adesão interior, voltase ao longo do século XIX para a apresentação explícita da sexualidade (sobretudo através dos amores ilícitos e – no limite "antinaturais"). O essencial da passagem a um suposto "realismo" na literatura ocidental oitocentista consiste na maior explicitude das condições de exercício do desejo sexual, em oposição ou nas margens das convenções oficiais da família. Em muitos casos, os desenvolvimentos se nutriram das fórmulas disponíveis nos saberes médicos e psicológicos – e não apenas no âmbito explícito do chamado "naturalismo". Esse processo de transformação temática – que encontrou seu apogeu na literatura da primeira metade do século XX – só não avançou indefinidamente porque a evolução das características formais, expressivas, da arte acabou por privilegiar a maneira, o estilo, em detrimento de qualquer conteúdo descritivo. Foi

porém repassado, em suas qualidades mais substantivas, mais ou menos linearmente, para o cinema e a televisão ocidentais, onde ainda viceja plenamente até hoje 10 .

3. A ciência romântica e a sexualidade:

Se o florescimento da sexualidade no contexto da ficção literária pode ser considerado como um aspecto da "pesquisa" sobre a sensibilidade e a interioridade decorrente do fisicalismo intrínseco ao universalismo moderno, ele dá testemunho – como mencionei – por outro lado, da deriva romântica.

Esclareci em outros textos a acepção com que trabalho de "romantismo" – termo mais que banalizado em nosso senso comum acadêmico (cf. Duarte, 1999a, 2004, 2006). Considero como tal todo movimento de rejeição, recusa, denúncia ou desafio ao universalismo / racionalismo / fisicalismo essencial ao exercício cognitivo da ideologia individualista desde o século XVIII. Um dos principais desses movimentos foi o da Naturphilosophie germânica do século XIX, cuja disposição reativa ao racionalismo não a impedia de considerar necessário o avanço do conhecimento científico. Aspirava, isto sim, a produzir uma ciência alternativa, comprometida com a totalidade, o fluxo, a subjetividade e a sensibilidade – tal como propôs tipicamente Goethe ao escrever contra Newton sua Farbenlehre . A preocupação com as mediações subjetivas do conhecimento fez justamente com que fossem aí particularmente desenvolvidas a fisiologia e diversas psicologias, dispostas a esclarecer os processos da sensibilidade (entre os sentidos e os sentimentos). Das Afinidades Eletivas, entendidas por Goethe como uma verdadeira pesquisa sobre a dinâmica da vida interior, à psicologia de W. Wundt ou à psicanálise de S. Freud distende se um século de intensa especulação sobre o que G. Simmel chamou tão oportunamente de "individualismo qualitativo". Entendia como tal uma versão paradoxal do individualismo original, político ou sócio político (que ele chamava de "quantitativo"), comprometido com a vida íntima dos sujeitos, com a amplitude de seus horizontes interiores (para usar da expressão tão típica de N. Elias, epígono desse movimento). O cidadão moderno não era apenas livre e igual no plano público: devia ser também autônomo, intenso e criativo em sua condição íntima, em suas disposições vitais. O modelo da Bildung romântica, processo ideal de autoformação dos sujeitos, previa uma considerável disposição de auto exame e autocrítica, essencial para o florescimento da arte expressiva, da literatura confessional, da introspecção psicológica e da modelização da dinâmica psíquica. Esse processo de objetivação da "vida subjetiva" assumiu sempre – como é notório – a forma de uma oposição ao fisicalismo, denunciado pelos ideólogos românticos como um materialismo desvitalizante. Oposição metódica ao fisicalismo como fim certamente , mas sistemática passagem pela fisicalidade com vistas à recuperação do Geist (o valioso "espírito").

10 Uma das manifestações mais radicais do desentranhamento é o surgimento da produção intensiva e industrial de uma pornografia altamente especializada (com veículos próprios e públicos de divulgação), de cuja diferença em relação à ars erotica de outras culturas muito se poderia discutir.

É nesse contexto que se pode compreender a presença da sexualidade como temática "científica" nos saberes eruditos ao final do século XIX. Afinal, as manifestações da vontade ( voluntas / voluptas), do desejo ( libido ) e do amor – contínuas preocupações da pesquisa romântica – eram inextricáveis do que se estava vindo a chamar de "sexualidade". Seu entendimento como uma pulsão interior ( Trieb ) essencial à compreensão do engajamento subjetivo atravessava radicalmente a tensão entre o físico e o moral, de um modo que fica modelarmente expresso na sempre citada Psychopathia Sexualis, de Krafft Ebing. Como demonstrei em outro trabalho (Duarte, 1989a), a tensão entre o fisicalismo fundamental do pensamento médicopsiquiátrico de que o autor era um portavoz eminente e o horizonte de valoração da vida espiritual ou moral em que se banhava a alta cultura findesiècle (inspirada diretamente pelo romantismo) impõe enorme complexidade e dinamismo ao modelo proposto de uma vita sexualis 11 . A teoria das perversões, ali desenvolvida, impunha uma atenção tipicamente degeneracionista às condições físicas da reprodução e descendência, mas – ao mesmo tempo – atribuía um estatuto ambiguamente superior a determinadas experiências, como as da chamada "sexualidade antipática" (o que se viria a chamar de "homossexualidade"), considerada mais "moral" ou "psicológica" do que o fetichismo ou o bestialismo, por exemplo (cf. Duarte, 1988:24). Essa representação da sexualidade pode ser considerada uma variação do tema do Homo duplex:

o ser humano carrega, entre outros, um "instinto primário" da sexualidade que o aproxima dos animais mas que pode, ao mesmo tempo, suscitar nele um processo de "sublimação" (entre o sentido da Aufhebung hegeliana e o da Sublimierung freudiana) espiritualizante. Esse processo está associado ao suposto avanço dos controles coletivos, "morais", da civilização sobre a "natureza" – distanciando os europeus oitocentistas tanto dos animais, quanto das crianças ou dos "povos primitivos". Ao mesmo tempo, porém – como a outra face da moeda temese os "males da civilização", os sintomas de uma sensibilidade excessivamente excitada pela vida moderna, urbana, artificial 12 .

Essa complexa interação entre disposição científica e avaliação moral nutriuse, no nível mais abstrato, de uma transfusão mais ou menos contínua de empirismo no corpo teórico do romantismo (vejase a influência de Stuart Mill sobre Nietzsche, e. g.), resultando em diversas fórmulas epistemológicas interessantes – entre as quais certamente avulta a oposição entre as "ciências da natureza" ( Naturwissenschaften ) e as "ciências morais" ( Geisteswissenschaften), consolidada e legada por Dilthey às então incipientes justificações da existência de "ciências

11 "Se é verdade, por um lado, que as questões morais devem ser consideradas, na lógica do modelo, como "funcionais" ou "epifenomenais" em relação à determinação física, há também, por outro lado, efeitos de retorno do nível moral sobre o nível físico, desde que – supostamente – essas "funções" não estejam totalmente toldadas ou subvertidas pela gravidade do estado de degeneração" (Duarte, 1988: 16). 12 O tema que chamei de "males da civilização" (Duarte, 1986) é muito precoce em relação à emergência da própria civilização. Já no século XVIII elevavam-se críticas sobre o excesso de estímulos à sensibilidade, presentes na vida de corte e na vida urbana, loci por excelência da civilização. Ao final do século XIX, o tema deixa de ser cultivado apenas pelos pregadores, reformadores sociais e romancistas, para merecer as primeiras análises sistemáticas (em Simmel, 1973, a propósito do tipo blasé, e em Freud, 1977, a propósito das "doenças nervosas modernas"). Sua relação com a sexualidade foi particularmente sublinhada no contexto do degeneracionismo: "A tensão exagerada do sistema nervoso estimula a sensualidade, leva a excessos tanto o indivíduo quanto as massas e solapa as próprias fundações da sociedade, e a moralidade e pureza da vida familiar" (Krafft-Ebing, 1965: 7, apud Duarte, 1988: 21)

humanas" ou "sociais". Com isso, consolidavam se as perspectivas "positivistas" de estanquização das diferentes ciências, impondo novos rumos aos desenvolvimentos relativos ao estatuto da sexualidade. O principal, a marcar fundamente o século XX, foi o da oposição entre os saberes "psicológicos" e os saberes "sociais" – particularmente pertinente para a história em questão.

Antes, porém, de passarmos a esse ponto, convém lembrar que as pesadas conotações morais do tema da sexualidade impunham certamente um grande constrangimento à pesquisa e à reflexão pública e sistemática. O temor da censura policial explícita era apenas a parte mais visível de uma generalizada disposição cultural em manter privada, velada, imprecisa, a consciência de fenômenos a que todos concordavam – no entanto – em atribuir as mais graves qualidades e desafios. O aspecto mais superficial – e, no entanto, tão revelador – é o da curiosa injunção de um saber que ainda tinha que se expressar em latim no final do século XIX, pelo menos um século depois da transição da escrita erudita para as línguas modernas. A Psychopathia Sexualis já representava uma considerável liberação em relação a essa injunção, mas é significativo o fato do título ter portado a forma latina, assim como uma série de locuções genéricas e descritivas (de vita sexualis a coitus inter homines) 13 . A Introdução de Malinowski a seu The Sexual Life of Savages , em 1929, ainda ostenta vários parágrafos explicativos da possibilidade e da conveniência de publicar um texto tratando de tais assuntos (e com título tão explícito), que eram para os nativos, como ele considera importante dizer afinal, "a thing serious and even sacred" (Malinowski, 1929: xxiii xxiv). Isso demonstra o quanto as diversas características da vida humana representadas pela nova categoria da "sexualidade", desentranhada ao nível erudito, ainda se mantinham entranhadas na dimensão englobante de uma "moralidade".

Certamente não é exagerado sublinhar a importância do surgimento da obra de Freud para – por assim dizer – acelerar esse processo de desentranhamento e tornálo uma explícita e desafiadora questão pública. A emergência da temática da sexualidade nas ciências sociais, por exemplo, é certamente devida ao impacto da obra de Freud e ao papel que esse instituto aí desempenha. A difusão e recepção da psicanálise estiveram como é notório – fortemente condicionadas pelas reações ao peso da sexualidade na sua construção. As acusações e desqualificações de um saber "pansexualista" atravessaram o mundo e pesaram fortemente nos caminhos de sua institucionalização original (cf. Russo, 1998 e 2000).

Não cabe aqui rever a complexa forma pela qual a sexualidade se apresenta na construção da psicanálise. Alguns traços principais nos permitirão compreender como esse saber se apropria da tradição erudita precedente (e do espírito do tempo) e a recompõe para o nosso consumo futuro. É, nesse sentido, importante lembrar o quanto se pode reconhecer em Freud uma

13 A língua alemã, diferentemente das linguas latinas, enfrentou com particular nitidez, no final do século XIX, o processo de desentranhamento semântico acarretado pelo desentranhamento conceitual da sexualidade. A antiga categoria Geschlecht – que englobava as conotações de espécie, gênero (gramatical), sexo, raça, família, geração, estirpe e genealogia – cedeu lugar a novos termos derivados do latim sexus, como já se vê nitidamente em Freud (cf. Duarte, 1989a ). Marcuse nos dá um outro exemplo da maior lentidão ou resistência da língua alemã a expressar o desentranhamento nessa área: a palavra Sinnlichkeit continuaria até hoje abrangendo as acepções de "sensorialidade" e de "sensibilidade" autonomizadas nas linguas cisrenanas (cf. Marcuse, 1968: 163).

combinação complexa entre o universalismo (e o fisicalismo intrínseco a um neurologista de formação) e o romantismo, com implicações imediatas para a nossa questão (cf. Loureiro, 2002).

O primeiro ponto é o do desentranhamento. Freud hesita no estatuto atribuível à sexualidade, como é notório, ao longo de sua obra, mas não parece se desprender em nenhum momento da representação coetânea da existência de um ente separado do tecido espesso da vida humana. A definição de uma etiologia "sexual" das doenças nervosas, a ancoragem da dinâmica psíquica nas vicissitudes relacionais de uma pulsão "sexual" (tardiamente associada a um "princípio do prazer"), ou qualquer outra propriedade dessa crucial dimensão do humano pressupõem a possibilidade de percebêla isolada, desentranhada – pelo menos como ente de razão. Encontra se, nesse sentido, em continuidade com o movimento de seu tempo. Também dá continuidade à representação do enorme potencial estruturante desse fenômeno, de sua crucialidade . Como Krafft Ebing, considerao presente tanto na raiz do melhor quanto na do pior desempenho subjetivo. Concede todo um novo estatuto à idéia romântica da sublimação, no quadro de uma psicodinâmica sistemática.

um ponto em que se afasta, porém, radicalmente do horizonte contemporâneo – e que fará a fortuna crítica de sua proposta: a sexualidade é desnaturalizada, concebida como uma força psíquica sui generis, inassimilável à representação biomédica, fisicalista, dos "instintos" e "funções" orgânicas 14 . Trata se de questão polêmica, em que a dimensão romântica do pensamento de Freud se expressa diretamente, com as inevitáveis dificuldades de leitura e assimilação pela ciência hegemônica. As vicissitudes da tradução da categoria Trieb para as línguas cisrenanas testemunham exemplarmente dessa tensão.

Para além das propriedades analíticas precisas da categoria da sexualidade na teoria freudiana, deve se atentar para o modo como a difusão generalizada e paulatina da literatura psicanalítica pôde servir a um processo cultural mais geral. O primeiro efeito foi certamente, mais uma vez, de confirmar a tendência ao desentranhamento, à nomeação do fenômeno como ente específico (mesmo que com fronteiras imprecisas). Mas também serviu para confirmar as suas conotações de crucialidade no horizonte do humano (tanto no sentido positivo quanto no negativo), contribuindo para a ênfase na interioridade (a psicologização em geral pode ser vista como um acirramento da interiorização moderna) e na ética hedonista moderna. Mesmo que as linhas principais da psicanálise não a vejam como um processo de apologia ou facultação linear do prazer, não podemos nos esquecer de variações aproximáveis desse sentido, como na obra de W. Reich, de renovada influência ao longo do século (cf. Béjin, 1985).

A primeira manifestação sistemática do tema da sexualidade no âmbito da etnologia se dá na obra de B. Malinowski 15 . Conhece se hoje bastante bem a complexidade da carreira desse pioneiro da antropologia moderna e o peso, dentro dela, da tradição romântica em geral e da

14 A sexualidade seria cosa mentale, na paráfrase à notória expressão de Leonardo Da Vinci (la pittura è cosa mentale). 15 Não se tratava porém da primeira manifestação de uma influência da psicanálise nos saberes etnológicos, como esclareci em Duarte, 1989b. O estatuto do sonho e o do trauma tinham anteriormente inspirado Rivers e Seligman.

leitura de Freud, em particular (cf. Stocking, 1986; Strenski, 1982, e. g.). Essa percepção foi longamente empanada pela maior explicitude das influências empiristas em seu pensamento, tendo contribuído certamente para essa reavaliação contemporânea a publicação póstuma de seu fascinante caderno de campo 16 (cf. Malinowski, 1967).

Mesmo uma análise superficial do livro de 1929 é bastante reveladora. O autor declara na Introdução que "to the average normal person, in whatever type of society we find him, attraction by the other sex and the passionate and sentimental episodes which follow are the most significant events in his existence, those most deeply associated with his intimate happiness and with the zest and meaning of life." (Malinowski, 1929: 1 – meu itálico). Independentemente da eventual justeza etnográfica de tal afirmação, chama desde logo a atenção a ênfase nas dimensões que antes mencionei: a crucialidade, a interioridade e o prazer.

A estrutura do livro revela a complexa relação entre o desentranhamento implicado em

escrever um livro sobre a "vida sexual" e o entranhamento etnograficamente percebido e descrito. Afinal, os primeiros capítulos são dedicados sucessivamente ao que se chama hoje de "relações de gênero" ("relação entre os sexos", no original; incluindo as informações básicas sobre o "sistema de parentesco"), ao casamento (inclusive suas preliminares) e à reprodução. Só então surge o contraponto da "licence ", da "vida erótica", culminando em informações sobre "morals and manners" e num curioso capítulo final sobre um "mito de incesto". Uma análise mais acurada dos desenvolvimentos internos poderia ser reveladora da solução encontrada por Malinowski para o desafio que considero mais típico da presença da sexualidade nas ciências sociais: a tensão entre entranhamento e desentranhamento 17 .

A estrutura de Sexo e Repressão tem ainda mais nítida essa tensão entre entranhamento

prático e desentranhamento conceitual: sob um título tão explícito apresentam se, sobretudo, uma minuciosa demonstração do caráter matrilinear do sistema de parentesco e uma longa discussão com a psicanálise a propósito da necessidade de contextualizar (reconhecer o entranhamento, nos meus termos) o proposto "complexo de Édipo" universal. O único ponto em que se manifesta um efetivo desentranhamento etnográfico é no tocante à sexualidade infantil, pela primeira vez tratada na etnologia.

A leitura do Diário, por sua vez, revela o quanto as qualidades cosmológicas da

sexualidade moderna (crucialidade / interioridade / prazer) constituíam uma dimensão estruturante do "zest and meaning of life" pessoal de Malinowski e o quanto estiveram presentes na intensa experiência da pesquisa de campo. Retenho apenas aqui a referência significativa à sua percepção de um "undercurrent of desire" (Malinowski, 1985: 102) perpassando sob toda a vida

16 Havelock Ellis se refere, em seu prefácio a The Sexual Life of Savages, a "the fertilizing value of Freud´s ideas" no pensamento de Malinowski (apud Malinowski, 1983: xi) 17 Na verdade, sugeri em outra ocasião que esse dilema a respeito do estatuto da sexualidade apenas reitera a aporia estruturante do pensamento antropológico, facilmente exemplificável pela histórica polêmica entre "formalismo" e "substantivismo" na antropologia econômica (cf. Duarte apud Heilborn, 1999: 62): até que ponto os entes de razão característicos da cultura ocidental moderna – e que fundamentam nossa comparação de corte universalista – podem ser aplicados à compreensão das demais culturas ?

social convencional (inclusive a sua, pessoal). A típica tensão fin desiècle entre "instinto primário" e "força espiritual" ou "moral" parece ainda aqui se apresentar na base da experiência vital, inclusive sob a forma de uma crença na capacidade de ação propiciatória da segunda sobre o primeiro 18 .

Malinowski não constituiu uma tradição com seus volumosos trabalhos relativos à sexualidade 19 . O que se poderia considerar como a primeira "tradição" nesse sentido é a dos discípulos de F. Boas. Embora não me conste existirem desenvolvimentos específicos sobre esse tema na obra de Boas, podese compreender que ele emerja no ambiente intelectual por ele propiciado nos EUA, por motivos semelhantes aos de Malinowski: a influência romântica estimulante da atenção à sensibilidade subjetiva, inclusive da sexualidade (e de suas implicações de crucialidade / interioridade / prazer).

A discípula a tratar mais explicitamente de sexualidade foi Margaret Mead. O título de sua obra mais conhecida ( Sexo e Temperamento , publicada em 1935) é, no entanto, uma falsa pista. Na verdade, a autora trata fundamentalmente da construção diferencial dos "gêneros" em relação com estilos de comportamento e atitudes psicológicas tipificadas. Muita informação sobre questões que podem ser consideradas relativas à sexualidade ocorre ao longo da obra, mas com um estatuto subordinado (cf. Mead, 1969). Foi em outras obras, relativas sobretudo à socialização nos papéis de "gênero" que a temática se apresentou de forma mais direta (cf. Mead, 1923; sobretudo). Podese verificar como ainda aqui a tensão entre entranhamento e desentranhamento foi fundamental. O estatuto da sexualidade na etnografia meadiana se subordina ao trabalho mais estruturante e permanente de uma relativização dos papéis de gênero indissociável das lutas ideológicas pela igualdade no seio da sociedade norte americana.

A presença da sexualidade também se faz presente em muitas dimensões da obra de Ruth Benedict, ou do Naven , de Gregory Bateson (obra em que ecoa, a par de outras, a influência do culturalismo boasiano) 20 . Elas aparecem já, a esta altura, porém, como dimensões da vida nativa, indissociáveis da etnografia (com as implicações holistas do chamado "método monográfico"). O desentranhamento da sexualidade como categoria de pensamento aparece nesta seara, possivelmente pela primeira vez, subordinado ao princípio de uma espécie de "reentranhamento etnográfico", ou seja, da estratégia antropológica de buscar subverter as estanquizações classificatórias do pensamento ocidental através de uma apresentação supostamente "integral"

18 Ver, a esse respeito, a análise por A. Loyola da "plasticidade dos instintos" em Malinowski (Loyola, 1998:

21). É interessante aproximar deste ponto a análise sugestiva que faz Pulman da contradição entre a afirmação retórica reiterada por Malinowski da existência de uma "liberdade sexual" entre os trobriandeses e sua informação etnográfica recorrente de um intenso e constante condicionamento social das suas manifestações (cf. Pulman, 2003).

19 No sentido, inclusive, de que o reconhecimento da importância estratégica que tem a obra de Malinowski para a tradição antropológica – tal como tende a ser vista hoje – não costuma envolver as duas obras relativas à sexualidade.

20 Ele publicou um artigo mais explícito sobre sexualidade (Sex and Culture) em 1947, citado na minuciosa revisão da literatura antropológica sobre o assunto feita por Vance (1995).

das outras culturas (em eco às ênfases românticas na totalidade e na subjetividade) 21 . As informações sobre questões de sexualidade passam assim a permear os textos etnológicos nas clássicas rubricas da cosmologia, do parentesco, da reprodução, da construção do corpo, da diferença de gênero ou do ritual 22 . Sublinhese, porém, que a disposição de reentranhamento não pode corresponder a um efetivo entranhamento (no nível da etnografia): o observador dispõe de uma grade classificatória em que a categoria sexualidade está presente (e é valorada de determinada maneira) e qualquer ato analítico seu pressupõe essa condição.

É necessário mencionar, ainda que brevemente, o estatuto das questões associadas à sexualidade na direta tradição da sociologia romântica alemã. Tanto em Simmel quanto em Elias podemos reconhecer a valoração da vida sexual como dimensão importante das forças subjetivas em jogo na dinâmica social. Em Simmel a temática é quase onipresente sob a fenomenologia das formas da sociabilidade urbana moderna (eros, amor, díade, sedução, prostituição, coquetismo, etc.). Ela se apresenta sempre, porém, fortemente entranhada nos processos sociais abrangentes em exame. Embora se possa reconhecer uma crescente explicitude sobre a dimensão propriamente sexual do vínculo social amoroso entre o artigo de 1892 sobre a prostituição feminina e os fragmentos de 192122 (publicados postumamente) sobre a "natureza erótica" (Simmel, 1993: 175 e seg.), prevalece a impressão de entranhamento – pelo menos na comparação com os desenvolvimentos posteriores.

No segundo autor (uma boa geração mais moço que Simmel), a influência direta de Freud já suscita uma apresentação bem mais desentranhada dessas questões, na construção mesma de sua teoria do "processo civilisatório". Vemos aí – como no modelo findesiècle típico os controles sociais (e o autocontrole, progressivamente) contribuindo para a modulação das forças humanas primordiais em expressões sublimadas, destituídas do potencial agressivo ou destrutivo original (cf. Rohden, 2004).

O interesse de uma avaliação sistemática da questão na obra de Max Weber se acentua pela discrepância entre a brevidade de seus dois únicos textos explícitos sobre a sexualidade (cf. Weber, 1974 e 1978) e a extensão e profundidade da análise das demais éticas comportamentais em sua obra 23 . Encontrase aí uma valoração trans histórica do "amor sexual" ("a maior força irracional da vida" Weber, 1974: 393), que se entranha nas formas primordiais da religião (as religiões ditas "orgiásticas") e se mantem numa permanente fonte de tensão com a racionalização geral do mundo social (e particularmente da racionalização religiosa). Muitos temas fundamentais

21 A formação boasiana de Gilberto Freyre certamente se encontra por trás da notável presença da questão da sexualidade em suas pioneiras análises da cultura brasileira (Casa-Grande e Senzala é de 1933).

22 O texto clássico de Marcel Mauss sobre as "técnicas do corpo" (apresentado em 1934 e publicado em 1936; Mauss, 1974), comumente considerado como um dos sinais precursores do interesse pela sexualidade na antropologia, já que inclui um parágrafo sobre as "posições sexuais" no item sobre as "técnicas de reprodução" (cf. Loyola, 1998: 26), deve ser, na verdade, incluído no programa dessa disposição integradora, totalizante, para que Mauss, no plano teórico, tanto contribuiu ("l'homme total").

23 Sobre a relação entre essas características da sexualidade na obra de Weber e o predomínio da questão da racionalidade, como expressão de questões de sua própria e conturbada vida pessoal, ver Mitzman, 1970 e Schwentker, 1996.

das éticas religiosas serão definidos assim, segundo ele, como barreiras à sexualidade, como nos casos óbvios da luta contra a prostituição e da defesa da castidade sacerdotal. A análise weberiana depende, nesse ponto, de uma interpretação da relação entre a sexualidade e a vida social fortemente baseada em uma teoria da sublimação (mais geral no pensamento de seu tempo e certamente paralela à versão de Freud, por cuja obra só se interessou muito tardiamente). O confronto entre as éticas do misticismo e do ascetismo (como tipos ideais) e a sexualidade pareceria decorrer assim de uma competição pelas forças íntimas dos sujeitos sociais. Um ponto bem rico de sua argumentação em relação à sexualidade é o de que essa força pode, por um lado, se opor à racionalização, mas pode também, por outro, se oferecer à racionalização. O resultado deste último processo seria o "erotismo", enquanto "esfera cultivada conscientemente e, portanto, não rotinizada" (Weber, 1974: 394), que caracterizaria os estágios superiores do "amor maduro do intelectualismo" (ibidem: 397). Um quadro de sugestiva ambigüidade, que ganharia muito em ser comparado com a proposta analítica de Foucault de distinção entre ars erotica e scientia sexualis.

É também muito ambíguo o estatuto da sexualidade no âmbito da Escola de Chicago e de seus principais desenvolvimentos posteriores. Embora uma obra pioneira como o The TaxiDance Hall , de Paul Cressey (originalmente uma tese de mestrado na Universidade de Chicago), já tivesse tratado em 1932 da questão candente da prostituição numa perspectiva sociológica, os estudos dos problemas urbanos, dos "social problems" e do "comportamento desviante" – tão abrangentes em seu escopo – não envolveram pesquisa sistemática sobre sexualidade até os anos 1970 24 . Um caso excepcional a examinar é o de William Thomas, eminente membro da primeira geração da Escola, que publicou seis artigos sobre sexualidade no início de sua carreira, entre 1897 e 1907 (ainda entre a Völkerpsychologie aprendida na Alemanha e a institucionalização da sociologia em Chicago), sem qualquer herança notável na área em exame.

4. As ciências sociais e a sexualidade hoje

É tão marcante quanto a obra de Freud, para a tematização da sexualidade nas ciências sociais, a publicação do primeiro volume da História da Sexualidade de Michel Foucault em 1976 ("A Vontade de Saber") 25 . Isso significa reconhecer, nesse evento, em primeiro lugar, que a marca do pensamento romântico nessa obra, seja pela importância precedente da psicanálise (enquanto

24 A influente coletânea The Other Side, organizada por Howard Becker em 1964, contem dois artigos relativos à homosexualidade, por exemplo (de John Kitsuse e de John Reiss Jr.), tratada porém como uma das instâncias dos comportamentos desviantes em meio urbano. A Antropologia Urbana no Brasil, iniciada com o programa sistemático de pesquisa de Gilberto Velho, também envolveu questões de sexualidade, que se mantiveram englobadas pela temática mais ampla do desvio e do estigma (cf. Velho, 1974). Sob sua orientação foram produzidas teses pioneiras nessa área, como, por exemplo, as de Guimarães (2007; defendida em 1977) e de Gaspar (1985, defendida em 1984). 25 C. Vance recusa a atribuição de um caráter univocamente estratégico a Foucault nesse campo; evocando a importância concomitante dos ativistas anglo-saxões (cf. Vance, 1995:12).

teoria e enquanto visão de mundo), seja pela influência estruturante do pensamento filosófico de Nietzsche, a votara a uma afinidade fundamental com a crise neoromântica dos anos 1960.

Entre os sinais dessa crise encontravase uma valorização explícita da sexualidade nas suas citadas dimensões de crucialidade, interioridade e prazer 26 . A chamada "liberalização dos costumes" representava a transposição do seu desentranhamento para o plano do comportamento público, generalizado. Não cabe aqui desenvolver a análise desse "romantismo de massa", mas pode se certamente sublinhar a importância dos novos meios de comunicação, globalizados, e dos novos patamares do consumo de bens de satisfação sensorial (cf. Duarte, 1999b). O processo do "consumismo moderno", tão finamente analisado por C. Campbell (1995), atingia seu apogeu novecentista – e nele avultava com particular ênfase a questão de uma "satisfação sexual" separada das condições relacionais e morais de sua prática 27 .

A proposta de Foucault não se resumia porém na repetição dos jargões românticos. Pelo contrário, ela demonstrava que – contrariamente ao senso comum – a sexualidade não era um valor universal, vítima, na cultura ocidental, de uma repressão obscurantista. Antes tratavase de um valor obsessivamente cultivado, na reverência àquilo que ele veio a chamar de "sexo rei". Obtinhase assim, pela primeira vez, uma análise históricocultural precisa e abrangente do processo que venho chamando aqui de "desentranhamento". A "história" da sexualidade era assim a sua "genealogia" – a demonstração de sua "construção social".

Como bem demonstrou Foucault (1977), a construção moderna da Pessoa dependeu da emergência da “sexualidade” como nova instância de verdade do sujeito – nevrálgica e delicada. Sexo e poder não seriam antípodas e, ao contário do que propunha a hipótese repressiva, as sociedades ocidentais modernas apenas superficialmente poderiam ser classificadas de antisexuais. Sob o moralismo burguês, a partir do século XIX, teria ocorrido de fato uma incitação generalizada a colocar o sexo em discurso, fazendo dele aquilo que, do interior do sujeito, tinha o poder de dizer a sua verdade e que – quando negligenciado – podia determinar a sua ruína e a ruína da família, da raça e da nação. Articulando o individual e o coletivo, o dispositivo da sexualidade corresponde a um processo de sexualização generalizada, que terá nas crianças um de seus principais focos e que transformará a família em locus permanente de observação, reflexão e controle do comportamento sexual de seus membros.

Não apenas em função do forte estímulo reflexivo e historicizante da proposta de Foucault (mas com crescente referência a ela), iniciase nessa década de 1970 um processo de intensíssima produção intelectual sobre a sexualidade em seus mais diversos aspectos e dimensões. Dada a amplitude dessa bibliografia, privilegiarei aqui as referências à produção brasileira, até mesmo porque ecoa as grandes linhas internacionais do campo.

26 Não se pode deixar de lembrar a importância nesse contexto do filósofo H. Marcuse e seu Eros e Civilização (uma discussão com Freud, fundamentalmente) – Marcuse, 1969 [1955]. 27 Considera-se comumente como um fator relevante a supostamente definitiva superação do desafio das doenças sexualmente transmissíveis pela invenção da penicilina, contemporânea da II Grande Guerra (cf. Carrara, 1996)

Até os anos 1960, apenas dois autores tinham se dedicado mais explicita e sistematicamente no Brasil à análise sociológica da sexualidade: Gilberto Freyre (cf. Bocayuva, 2001) e Roger Bastide 28 . Em ambos pulsava a disposição em tratar das dimensões "subjetivas" da vida social, por força de influências românticas nada habituais no campo intelectual brasileiro (cf. Duarte, 2005; para a demonstração deste ponto em R. Bastide). Ainda em ambos os casos, tratavase de reconhecer um ethos relacional próprio a certas manifestações culturais características do universo social brasileiro (a cultura patriarcal, para Freyre; a cultura afrobrasileira, para Bastide), como um contraponto discrepante da norma contemporânea oficial 29 . Além do desentranhamento, reconhece se aí em ação o eixo crucialidade / interioridade / prazer, particularmente tingido pela conotação de transgressão ou oposição aos mores oficiais (como efeito da própria obra no campo, no caso de Freyre; como suposta e valorizada propriedade do objeto, no caso de Bastide).

As condições de emergência dessas obras são totalmente diferentes das que caracterizam a produção pós 1960. Para além da já mencionada atmosfera neoromântica da ContraCultura, percebese na literatura crítica a ênfase na importância dos processos de dissociação crescente entre a sexualidade e a reprodução (sobretudo, inicialmente, os recursos de contracepção), de recrudescimento da luta pela aplicação do ideal individualista à condição feminina, de organização da luta pela possibilidade de usufruto de sexualidades não convencionais e – finalmente, nos anos 1980 – do advento de uma nova, inesperada e assustadora epidemia ligada à sexualidade (cf. Heilborn, 1999: 7 8). Esses fatores empíricos reforçariam de maneira radical a crucialidade tradicional do instituto, ensejando a emergência de um campo institucionalizado de reflexão sociológica sistemática sobre a sexualidade. Esse campo manteria, inclusive, uma relação – ainda que tensa – com os movimentos sociais proliferantes nessa área no mesmo período.

No Brasil particularmente, além desses condicionamentos mais gerais, o desafio da interpretação sociológica das marcantes diferenças culturais intranacionais teria reforçado o interesse no estudo da sexualidade, em função inclusive de suas implicações sobre processos sociais considerados como problemas nacionais abrangentes (saúde, natalidade, etc.) (cf. Heilborn, 1999: 4243).

Dessa abundante literatura brasileira pós 1960, vou me referir a quatro casos que considero expressivos (ou sintomáticos) da forma como as grandes convenções antes especificadas repercutiram na produção nacional. Todos quatro pressupõem o "desentranhamento temático" (ou conceitual) – como não poderia deixar de ser – e interpelam assim diretamente questões ditas de "sexualidade". Eles tematizam ativamente, além disso, o desafio do "desentranhamento etnográfico", ao explorar diferentes dimensões da sexualidade nas

28 Margareth Rago lembra como pioneiros do que ela chama de "centralidade conferida à sexualidade no discurso dos historiadores, voltados para a interpretação científica da realidade brasileira e para a definição da "

o Retrato do Brasil, de Paulo Prado [1928], e o Macunaíma, de Mário de Andrade

[1928] (Rago, 1998: 178). Como se trata de interpretações isoladas, de caráter mais claramente ensaístico ou literário, embora muito prestigiosas, prefiro me ater aos dois outros projetos intelectuais citados. 29 Apesar da grande distância histórica e epistemológica, creio que se possa considerar os textos de Roberto

Da Matta relativos à sexualidade no Brasil como aparentados a esta tradição (cf. DaMatta, 1983 e 1986).

identidade nacional

representações e práticas correntes no Brasil. Um deles é de autoria de um psicanalista, mas o seu tom é francamente sociológico, até mesmo pela fluência de seu autor em filosofia social. O primeiro é o do artigo de Peter Fry sobre a convivência entre dois modelos contrastantes de práticas sexuais entre homens no Brasil (cf. Fry, 1982 [1974]). O primeiro modelo seria o das relações entre homens "ativos" e "passivos" ( bichas), em que apenas os segundos são considerados "homossexuais" e, assim, expostos ao desprezo, derrisão e eventual violência que acomete esse papel social. O segundo modelo é o das relações entre homens que se consideram como gays ("homossexuais"), mais por identificação "subjetiva" do que em função de quaisquer comportamentos efetivos. O primeiro modelo, considerado como mais tradicional (e, assim, mais presente nas classes populares, por exemplo), teria dado lugar progressivamente na modernidade ao segundo, associável ao horizonte das representações individualistas, com sua ênfase na igualdade e na interioridade (o título do artigo é bem claro: "da hierarquia à igualdade"). Eis um caso em que a diferença cultural intranacional se impõe como questão, em claro cruzamento com a questão do entranhamento. A proposta de Fry descreve um modelo hierárquico em que a (homo)sexualidade se encontra imersa, entranhada, no código mais amplo das relações entre os gêneros, não representando certamente a disposição interiorizante aqui sublinhada como um dos atributos da sexualidade moderna. Embora o prazer sensual esteja certamente comprometido na atualização deste modelo, devese atentar para o seu englobamento pelo que se poderia chamar de "sentimento de dominação" (o prazer, tanto do ativo quanto do passivo, passa pela experiência da posição específica privilegiada). Também é notável que, ao preservar uma suposta disposição ambisexual do agente ativo, mantemse a (homo)sexualidade englobada pela reprodução (implicada nas relações hierárquicas heterosexuais). No polo oposto, encontrase o modelo "igualitário", portador pleno do desentranhamento e das características da crucialidade 30 / interioridade / prazer. Veremos depois como esta oposição entre "comportamento" e "identidade" é um traço estruturante do campo contemporâneo dos debates sobre a sexualidade 31 .

O outro texto é o que eu próprio publiquei em 1987 sobre "sexo e moralidade nas classes trabalhadoras" (cf. Duarte, 1987). Meu interesse principal nesse trabalho era o de reforçar a proposta mais ampla por mim defendida de que as classes trabalhadoras (ou "populares") no Brasil não compartilhavam dos pressupostos individualistas da cultura oficial, letrada ou hegemônica, de que são portadoras em princípio as classes médias e as elites. Procurava, nesse artigo, demonstrar que a experiência do "sexo" ou da "sexualidade" nesse meio cultural não era dissociável de uma "moralidade". Com a demonstração do entranhamento fundamental em que se davam os valores e práticas que o pensamento moderno associa à sexualidade, buscava tornar mais claras as graves implicações que essa condição impunha à relação entre as disposições e agentes modernizantes e os membros das classes populares (como fiz, em outros textos, a respeito dos processos de disponibilização dos recursos da psicanálise e da cidadania para o

30 O autor discute explicitamente o que chamo de "crucialidade" do tema, evocando Freud: "as noções de hierarquia e igualdade, quando expressas através da linguagem do sexo, calam mais fundo na consciência do que através de quaisquer outras linguagens" (Fry, 1982: 112) 31 Na bibliografia de Fry consta o nome de J. Weeks (1977) cujo pioneirismo a respeito deste ponto é sublinhado por C. Vance (Vance, 1995)

"povo"). Como no texto de Fry, avultava aí o tema do desentranhamento, sob a forma da demonstração da presença legítima de seu negativo no interior da sociedade brasileira.

O terceiro trabalho é o de Jurandir Freire Costa sobre a inconveniência da reificação social da categoria "homossexualidade" (uma "identidade") e a defesa da categoria "homoerotismo" (um "comportamento") para designar a prática sexual entre membros do mesmo gênero. O trabalho, na verdade, consiste em dois livros (cf. Costa, 1992 e 1995) em que essa proposta é desenvolvida com argumentos históricos, culturais e clínicos. A demonstração da produção de um sofrimento psíquico acentuado pelas incongruências entre a condição vital abrangente dos sujeitos e a necessidade de se identificar como um "homossexual" (com todas as implicações privadas e públicas de tal ato) corresponde, no meu modelo, à defesa de um "reentranhamento" da (homo)sexualidade no tecido vital (psicológico) abrangente. Para J. F. Costa, embora a questão das fronteiras culturais intranacionais não se coloque, permanece a fronteira entre um modo tradicional e um modo moderno (desentranhado) de construção dos sujeitos. Seu interesse não é, assim, como o dos dois autores anteriores, o de falar em nome da legitimidade de um entranhamento presente (e socialmente próximo), mas o de defender um reentranhamento terapêutico (com argumentos que não deixam de passar pela evocação histórica do entranhamento passado ou pela notícia etnográfica de um entranhamento presente, distante e alternativo) 32 .

O quarto trabalho é a tese de Maria Luiza Heilborn (2004; defendida em 1992) sobre a conjugalidade diferencial entre casais heterosexuais, homosexuais masculinos e homosexuais femininos (no interior das classes médias urbanas). A autora demonstra que os casais homosexuais masculinos apresentam um padrão de comportamentos e expectativas relacionais simetricamente inverso ao dos casais homosexuais femininos (ficando os heterosexuais numa posição intermediária). O ponto mais interessante de sua análise é o de que os arranjos conjugais homosexuais, aparentemente situados numa posição alternativa, contraditória, ou mesmo antagônica às convenções hegemônicas atualizam de modo quase caricatural os modelos habitualmente associados aos ethos sexuais masculino e feminino: ênfase na individualidade dos parceiros e na dimensão "sensorial" da relação no caso dos homens; ênfase na relacionalidade dos parceiros e na dimensão "afetiva" da relação no caso das mulheres. Isso apontaria para um "desentranhamento" diferencial entre os dois gêneros, em nossa cultura, de cujo estatuto se interroga longamente a autora, baseada em diversas propostas sobre a condição simbólica estruturante dessa "diferença".

Os quatro textos apresentam interpretações de material etnográfico brasileiro em um período bastante crítico para a institucionalização da pesquisa sociológica sobre a sexualidade e põem em cena – a meu ver – diferentes facetas das convenções eruditas que estou buscando modelizar. Uso os como material de instigação para a análise mais tópica que em seguida se desenvolve.

32 Esta atitude programática constitui também uma das dimensões importantes dos dois volumes finais da História da Sexualidade de Foucault. Ali, sob o pretexto da visitação ao modelo do "cuidado de si" da cultura mediterrânea clássica, faz-se o processo crítico do desentranhamento implicado na scientia sexualis moderna.

A sexualidade nas ciências sociais aparece na literatura mais recente subordinada à

polêmica do "construcionismo", ou "teoria da construção cultural" (como a chama C. Vance 1995: 9). Tratase da disposição em considerar todos os fenômenos subsumidos nessa rubrica como culturalmente instituídos e não como fatos "naturais" modulados pela cultura. Esta última atitude é chamada por C. Vance de "modelo da influência cultural" (1995: 1821) e certamente considerada insuficiente ou antiquada: "a sexualidade é vista como o material básico – uma espécie de massa de modelar – sobre o qual a cultura trabalha, uma categoria naturalizada que permanece fechada à investigação e à análise". De qualquer modo, este último modelo já teria sido uma resposta à permanente ameaça de interpretações "essencialistas" da sexualidade (os modelos fisicalistas deterministas) (1995: 21). C. Vance considera ainda necessário distinguir entre uma versão "radical" e outra "moderada" da teoria construtivista, ambas emergentes a partir dos anos 1970. A primeira consideraria culturalmente construídas todas as dimensões do fenômeno, inclusive as dimensões do "desejo", "impulso", "pulsão" ou "apetite sexual" (1995: 17). A segunda consideraria como construídas apenas as modalidades de exercício desse "desejo". A. Loyola comenta a respeito do "construcionismo" que, apesar de sua oportuna disposição desnaturalizante, ele "não elimina o problema dos invariantes da sexualidade", invocando F. Héritier na denúncia do solipsismo intrínseco ao culto à singularidade corrente no pensamento social contemporâneo (cf. Loyola, 1998: 31).

A forma como M. Heilborn & E. Brandão resenham a polêmica do "construcionismo" é

particularmente interessante, pois o articula com o "desentranhamento". Quando as autoras dizem (explicando a posição do construtivismo) que "os significados sexuais e, sobretudo, a própria noção de experiência ou comportamento sexual não seriam passíveis de generalização, dado que estão ancorados em teias de significados articuladas a outras modalidades de classificação, como o sistema de parentesco e de gênero, as classificações etárias, a estrutura de privilégios sociais e de distribuição de riqueza etc.", elas estão na verdade descrevendo o citado

entranhamento etnográfico (cf. Heilborn & Brandão, 1999: 9). Podemos compreender que o "construcionismo" seja assim propriamente o modo "desentranhado" de falar do "entranhamento". Ou seja, um modo de fazer estranhar a "naturalização" corrente em nossa cultura, pela culturalização das ocorrências comparadas.

A observação da polêmica do construcionismo no campo contemporâneo dos estudos sobre a sexualidade nos permite compreender assim, melhor, as condições contemporâneas do tema do entranhamento, que privilegiei neste trabalho. Com efeito o tema do construcionismo se desenvolve a partir de um certo patamar do processo de desentranhamento, como uma resposta radical à solução universalista, fisicalista, da redução à "natureza". Como dissera antes, a tradição dos estudos da sensibilidade se bifurca na via racionalista, fisicalista, biomédica, e na via romântica, simbolizante, psicosociológica. Esta última se estrutura inicialmente na forma do "modelo da influência cultural" (Vance lhe atribui a dominância no período que vai de 1920 a 1990; cf. Vance, 1995: 18). A essa altura porém as exigências políticas de afirmação da autonomia radical dos processos identitários em relação às supostas determinações naturais levam a uma reestruturação da argumentação erudita, bem expressa no

texto aqui muito citado de C. Vance. Ela é bem clara quanto à oportunidade e urgência dessa atitude mais afirmativa em relação ao essencialismo biomédico (24), sempre ameaçador de uma compreensão mais plural e acolhedora da diferença humana.

Um entre diversos pontos mais específicos das discussões sobre o caráter "construído" da sexualidade e das suas qualidades "universais" é o do estatuto da "diferença de gênero". Embora ele possa ser tratado como mais abrangente do que a sexualidade, é dela inextricável. Muitos dos argumentos envolvidos nessa questão remetem inclusive ao suposto estatuto "natural" de toda ou parte dessa diferença, repousando – nesse caso – sobretudo na condição "reprodutora" do corpo feminino. Tratase de uma das mais explícitas manifestações da dimensão igualitarista da ideologia individualista, em seu contínuo questionamento da diferença, como bem resenham Heilborn & Sorj (1999). Duas grandes tendências polares são expressivas da dinâmica da questão. A primeira lança mão da temática da "dominação", inicialmente construída em nossa cultura contra a "diferença de classe". Encontramse aí diversas variantes mais ou menos acadêmicas do feminismo, reverberando nas recentes propostas analíticas muito citadas de P. Bourdieu e M. Godelier (cf. Heilborn, 1999; Loyola, 1998). A outra tendência caminha no sentido de um entendimento simbólico da diferença. M. Heilborn desenvolveu essa questão com grande clareza em sua citada tese de doutorado, evocando as inspirações pioneiras de F. Héritier e de M. Moisseeff e desenvolvendo o tema à luz da teoria da "hierarquia" de L. Dumont e da "preeminência" de R. Hertz (Heilborn, 2004). A proposta de F. Héritier da "valência diferencial dos sexos" também é evocada na revisão temática de A. Loyola (cf. Loyola, 1999: 35).

Uma outra "forma fenomenal" da problemática do desentranhamento, recorrente no campo, é a da oposição entre "comportamento" e "identidade" sexuais. Ela estava presente em estado bruto nos textos brasileiros que revi há pouco, mas tem retornado mais explicitamente (e com essa nomenclatura) na literatura recente (cf. Vance, 1995: 13; Heilborn, 1999: 40 41). Os trabalhos de J. F. Costa se centram exatamente nesse ponto, denunciando a transformação de "comportamentos" em "identidades" operada pelos pressupostos de "crucialidade" e "interioridade" (nos meus termos) ativos em nossa cultura hegemônica. Embora o tema hoje se desenvolva sobretudo em relação à homossexualidade e à questão do comingout , ele já estava presente, por exemplo, na disposição programática de M. Mead de desnaturalizar a associação entre identidade de gênero e determinados padrões de atitudes e comportamento. A categoria identidade pode aparecer nesse sentido pesado, substantivado, de "identidade pessoal", mas pode também inspirar, no formato mais leve das "identidades sociais", uma série de instrumentos analíticos para o trabalho etnográfico ou sociológico. Penso particularmente nas metáforas teatrais relativas aos processos de manifestação social da sexualidade na vida dos "atores":

cenários sexuais, carreiras sexuais, roteiros sexuais, etc. M. Heilborn lembra a importância pioneira nesse sentido do trabalho de Simon & Gagnon (1973).

As dimensões de "interioridade" e "prazer" da configuração da sexualidade moderna implicam em algumas convenções específicas. A primeira e mais importante é a da correlação entre sexualidade e "intimidade" ou "privacidade" (cf. Heilborn & Brandão, 1999: 8; Pierret, 1998:

66; Loyola, 1999: 35) 33 . Ainda aqui o estatuto último dessa correlação é controvertido. O que importa é que ela instrui diversas propriedades do modo como a categoria se atualiza. A mais imediatamente relevante é a dos condicionamentos à objetivação sociológica de tópicos de sexualidade, mormente nas pesquisas conduzidas nas sociedades ocidentais modernas, tanto do ponto de vista dos valores dos pesquisadores quanto dos "nativos" 34 (cf. Bozon, 1995). Percebe se aí uma aparente contradição entre um nível de nossas manifestações culturais que levou Foucault a mencionar uma "incitação a falar sobre o sexo" e um outro que induz uma retração da fala ou mesmo da reflexão sobre o tema. A pesquisa sociológica e antropológica envolvendo a sexualidade tende assim a ser hiperreflexiva no tocante a sua metodologia, uma vez que a qualidade dos materiais é severamente constrangida pela legitimidade do seu fluxo público em condições específicas (interação intercultural, intergêneros, interclasses, inter etária, etc.) 35 . A dimensão da interioridade envolve ainda uma outra área de significados e negociações muito intensas: a da tensão entre o "sensual" e o "sentimental". Já a mencionamos nos nossos quatro exemplos expressivos. se articulam muito intensamente desentranhamento, interioridade e prazer. Com efeito, tratase de tematizar, em primeiro lugar, a separação ou autonomização de dois níveis da experiência supostamente integrados na origem: um prazer sensorial do sexo (dito sensual) e um prazer afetivo ou sentimental (correspondente em nossa cultura à ideologia do amor) (cf. Singly, 1995). O desentranhamento é aí mais do que nunca uma construção cultural – e toda a análise em torno das ocorrências dessa dissociação em nossa cultura se tingem desse etnocentrismo. A questão é porém mais grave, já que afeta a representação mais profunda de uma correlação entre o "sensual" e o "masculino" e entre o "afetivo" e o "feminino" (cf. Heilborn, 2004). Expressase ainda numa figura muito recorrente da ideologia do amor em nossa cultura: a da contradição entre o sentimento e o dinheiro. O trabalho analítico de Simmel foi pioneiro nessa área, dedicandose inclusive à "prostituição", um fenômeno intensamente discutido em toda a história de nossa cultura, por colocar justamente em cena o desafio da boa correlação entre "sexualidade", "interioridade" e "prazer". O tema da boa prostituta / prostituta má, capaz de arruinar a adequada construção social dos sujeitos sociais, tendeu a converterse, ao longo do século XIX, por força do imaginário da transgressão romântica, na versão oposta da prostituta boa, entranhada, capaz do sacrifício às exigências da moral coletiva (vejase a Dama das Camélias , de Alexandre Dumas, retomada em La Traviata de Verdi; e a Boule de Suif, de Guy de Maupassant, retomada na Geni , de Chico Buarque). É expressiva a dedicação das ciências sociais a esse tema

33 M. Bozon lembra com propriedade a clareza da demonstração por N. Elias do processo de privatização da sexualidade na cultura européia dentro do "processo civilizatório" abrangente (Bozon, 1995: 40).

34 Para alguns pesquisadores, a experiência etnográfica parece indicar que, nas sociedades ocidentais (ou pelo menos nas metropolitanas, dentre elas) o entranhamento da vivência das "práticas sexuais" continue sendo a regra, apesar da colocação do sexo em discurso e da "revolução sexual": "la majorité des individus trouvent insupportable l´idée d´autonomiser les pratiques qui ont lieu pendant un rapport sexuel, de les séparer de leurs significations affectives. Cela entraîne un refus d´en parler précisément, qui est une indication précise sur la manière dont l´activité sexuelle est vécue et 'prise' dans les relations" (Bozon, 1995: 42 – meu itálico).

35 Ocorre mesmo uma rejeição tópica da associação entre sexualidade e intimidade, no contexto da consideração de um fenômeno público como a prostituição (considerada como um "trabalho sexual") – cf. a idéia de "sexual but not intimate" em Miller, 2000:97).

obligé , desde os clássicos de G. Simmel, W. Thomas e P. Cressey até os abundantes estudos sobre o "comércio do sexo" nos nossos dias (cf. Bozon, 1995: 46).

Em um outro nível de relevância, desenhamse as implicações epistemológicas mais abstratas da correlação entre sexualidade e prazer. O apogeu do romantismo correspondeu a uma apoteose da vida individual do sujeito, com suas características de singularidade (totalidade individual), interioridade, intensidade (criatividade), potência e fluxo. F. Nietzsche ofereceunos em O Nascimento da Tragédia a versão mais radical desse sujeito ideal, em suposto contraponto ao "escravo" da tradição central filosófica e religiosa do Ocidente. Para tanto, hipostasiou o mito do dionisismo, como modo do entranhamento originário grego pré socrático. Nesse mito, o gôzo não se subordina às convenções parcelares e desentranhadas da vida ocidental, correspondendo a fulgurações de prazer, terror e êxtase – de cuja potência e intensidade teríamos sido desde então expulsos. Esse modelo muito poderoso, inclusive por buscar integrar os próprios modos expressivos e reflexivos autonomizados na cultura ocidental moderna (filosofia, arte, ciência, etc.), influenciou diversos desenvolvimentos imaginários da sexualidade moderna. Nessa linhagem, ressaltase sempre o caráter irredutível da "experiência", particularmente no âmbito das dimensões mais radicalmente reveladoras da individualidade / interioridade, como a arte, a religião e a sexualidade. O próprio Foucault, tão importante para a dinâmica deste campo, é um herdeiro dessa tradição, embora de um modo menos "dionisíaco" que o de G. Bataille ou M. Maffesoli, por exemplo. Outros desenvolvimentos contemporâneos se inspiram do programa filosófico contido no AntiOedipe de G. Deleuze e F. Guattari. Essa obra, montada explicitamente como uma paráfrase das teorias de Freud, é o mais importante manifesto do neoromantismo contemporâneo, concentrando sua reinterpretação do estatuto do vínculo social a partir de categorias tais como "desejo", "libido" e "sexualidade". Como exemplo da convenção "dionisíaca" entre nós, menciono o trabalho de N. Perlongher sobre os jovens vendedores de serviços sexuais em São Paulo (cf. Perlongher, 1987). O que nos lembra, aliás, o quanto o tema da "prostituição" bem articula todas as convenções culturais aqui especificadas.

Todas as problemáticas que temos até aqui levantado reverberam nas estratégias de pesquisa e na organização do campo, essenciais para o desenvolvimento de qualquer empreendimento acadêmico no mundo contemporâneo. Expressase aí prioritariamente na forma do dilema entre "especialização" e "integração", ou seja, numa versão pragmática do tema do desentranhamento. A. Loyola, por exemplo, expressando uma tendência que é certamente majoritária na antropologia em relação a muitos temas, se manifesta contrária à especialização dos estudos da sexualidade (1999: 18), em detrimento de sua articulação com as diversas áreas de significação lindeira (ela própria cita os estudos de gênero 36 , 1999: 22 – , e a questão do amor / paixão, 1999: 35). Heilborn & Brandão analisam a questão, inclusive do ponto de vista de suas implicações metodológicas, ao tratarem da "não univocidade do sentido do sexual" (1999: 8). C. Vance resenha, no mesmo sentido, as relações fundamentais com "reprodução" (1995: 1922), com "gênero" (1995: 10) e com "identidade" (1995: 12).

36 Ver uma revisão específica e sistemática do "gênero" em Scott, 1995.

Não me detive aqui nos desenvolvimentos da etnologia das últimas décadas. Creio ser possível dizer que a situação desse campo de estudos é muito específica: nele o reentranhamento es