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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanga a todo aquele que no-la pedir
{1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanga e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenga católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
'"i controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
■ dissipem e a vivencia católica se fortalega no
Brasil e no mundo. Queira Deus abengoar
este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada
em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
Ano xli Abril 2000 455
Alfa e Ómega
Quais os dogmas do Catolicismo?

Justificacáo: A posicáo de Martinho Lutero

Justificagáo: O Concilio de Trento (1545-1563)

Justificacáo: O Acordó Católico-Luterano

A Beatificacáo de Francisco e Jacinta Marto

Vozes do Leste Europeu

Homeopatía e Espiritismo
PERGUNTE E RESPONDEREMOS ABRIL 2000
Publicacáo Mensal N°455

Diretor Responsável SUMARIO


Estéváo Bettencourt OSB Alfa e Ó mega 145
Autor e Redato r de toda a materia
Muitos perguntam:
publicada neste periódico
Quais os dogmas do Catolicismo? 146
Diretor-Administrador: Católicos e Luteranos se encontram (I):
D. Hildebrando P. Martins OSB Justificacáo: A posicáo de Martinho
Lutero 156
Administracáo e Distribuicáo:
Católicos e Luteranos se encontram (II):
Edicóes 'Lumen Christi"
Justificacáo: O Concilio de
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5° andar - sala 501
Trento (1545-1563) 164
Tel.: (021) 291-7122
Fax (021) 263-5679 Católicos e Luteranos se encontram (III):
Justificacáo: O Acordó
Enderezo para Correspondencia: Católico-Luterano 169
Ed. "Lumen Christi" Os Videntes de Fátima:
Caixa Postal 2666 A Beatificacáo de Francisco e
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ Jacinta Marto 175

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e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" Ciencia e Fé:
na INTERNET: http://www.osb.org.br Homeopatía e Espiritismo 185
e-mail: LUMEN.CHRISTI ® PEMAIL.NET

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO^-

Os Mártires do século XX. - Nacional-socialismo hitlerista e Igreja Católica de 1933 a


1939. - Os icones orientáis: adoracáo ou veneracáo? - O veráo do "topless". - E as
praias de nudismo?

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Obs.: Correspondencia para: Edicóes "Lumen Christi"


Caixa Postal 2666
. 20001-970 Rio de Janeiro - RJ
ALFA E ÓMEGA
O mes de abril é o mes da Páscoa. - E Páscoa é o duelo da Vida (de
Deus) com a morte (do homem), donde sai vitoriosa a vida, recriando o ho-
mem; Cristo aparece como novo Adáo, Pai de nova humanidade. Isto vem
expresso na vigilia de Páscoa, em que o cirio é ornamentado pelas letras Alfa
e Omega, que designam o Cristo vivo "ontem, hoje e pelos séculos (Hb 13,8),
Principio e Fim, Alfa e Ómega. A Ele pertencem o tempo e a eternidade". Isto
significa duas grandes verdades:
- Jesús Cristo é o Rei dos séculos; é o Senhor dos tempos, que Ele
resgatou com o seu sangue. O Apocalipse O apresenta a declarar: "Eu sou o
Primeiro e o Último, o Vívente; estive morto, mas eis que estou vivo pelos
séculos dos séculos, e tenho as chaves da Morte e do Hades" (Ap 1,17s). Por
isto Ele traz ñas máos o livro da historia da humanidade (cf. Ap 5,1 -15); tudo
o que acontece sobre a térra, está escrito nesse livro. Nada escapa aos desig
nios do Rei dos reis e do Senhor dos senhores (cf. Ap 19,16).
- O tempo dos homens, sujeíto a limítacoes, está relacionado com a
eternidade. Recebeu em seu bojo a presenca do Eterno, que o vai transfigu
rando ou vai conferindo ao tempo um valor de eternidade. A vivencia de cada
homem no tempo dará configuracáo á sua eternidade. Cada qual colherá o
que tiver semeado e na proporcáo de quanto tiver semeado (cf. 2Cor 9,6). Diz
o Papa Joáo Paulo II: "A existencia humana, apesar de sujeita ao tempo, é
colocada por Cristo no horizonte da imortalidade". E cita Santo Ireneu: "Ele se
fez homem enire os homens para reunir o fim com o principio, isto é, o ho
mem com Deus" (Adv. Haer. 4,10,4). Cf. Carta aos Andaos n° 2.
O tempo e a eternidade, a mortalidade e a imortalidade se tocam no
homem peregrino, fazendo dele algo de ambiguo. Essa ambigüidade, que
assusta, é também algo de muito consolador, pois confere a certeza de que
os aspectos negativos nao definem o cotidiano do homem. Por tras do doloro
so e penoso há a gloria e a vitória fináis. Se o ser humano é um vaso de argila
portador de valioso tesouro (cf. 2Cor 4,7), convém ao cristáo considerar mais
e mais o tesouro da vida eterna que nele se encontra, deixando que sua vida
corporal seja transparente para esse ¡menso valor.
A Escritura se compraz em realfar o caráter contrastante da vida com
Deus mediante outra imagem muito significativa: "Em verdade, em verdade
vos digo: chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará... Quando a
mulher está para dar á luz, ela se entristece, porque a sua hora chegou; quan
do, porém, dá á luz a crianca, ela já nao se lembra dos sofrimentos pela
alegría de ter vindo ao mundo um homem. Também vos agora estáis tristes;
mas eu vos verei de novo e o vosso coracáo se alegrará e ninguém vos tirará
a vossa alegría" (Jo 16,21 s). A vida presente é comparada a um parto doloro
so, mas está prenhe da alegría de formar o Cristo Jesús no cristáo. O Senhor,
que morre para vencer a morte e ressuscita para renovar a vida, é o grande
referencial do cristáo, que, unido a Ele, dirá: 'Tudo posso naquele que me
fortalece" (Fl 4,13).
E.B.

145
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XLI - N9 455 - Abril de 2000

Muitos perguntam:

QUAIS OS DOGMAS DO CATOLICISMO?

Em síntese: Vai, a seguir, publicado o Credo do Povo de Deus


redigido pelo Papa Paulo VI por ocasiáo do encerramento do Ano da Fé
1967-1968. O Pontífice tinha em vista precisamente explicitar alguns pon
tos da doutrina da fé controvertidos em ceños ambientes católicos; tenta-
va assim dirimir dúvidas que pairavam, e aínda podem estar pairando, na
mente de muitos fiéis católicos. O texto faz eco ao Símbolo Niceno-
constantinopolitano, datado de 381 e póe em relevo os tragos que este-
jam sendo questionados em nosso século.

Nao é raro acontecer que a Redacáo de PR receba cartas que


perguntam quais sao os dogmas da Igreja Católica. O fato se compreen-
de bem, visto que varias teorías hoje em dia circulam, apresentando nova
versáo dos artigos de fé.

Á pergunta poder-se-ia responder apontando o Símbolo' Apostóli


co, o Símbolo Niceno-constantinopolitano2, o Símbolo Atanasiano..., tex
tos redigidos nos primeiros sáculos do Cristianismo. Todavía a fé é ques-
tionada de maneiras inéditas em nossos dias. Em conseqüéncia o Papa
Paulo VI houve por bem proclamar o ano de 29/06/1967 a 29/06/19683
ANO DA FÉ e na solenidade conclusiva desse Ano promulgou o Credo
1A palavra Símbolo vem do verbo grego syn-bállo, que significa fazer convergir ou
atirar conjuntamente. O Símbolo vem a ser um compendio. Símbolo de Fé é a
síntese das verdades da fé.
2 Tal Credo foi composto parcialmente no Concilio de Nicéia I (325) e rematado no de
Constantinopla I (381), quando á profissáo de fé no Filho consubstancial ao Paise
acrescentou a profissáo na Divindade do Espirito Santo Senhor e Fonte de Vida.
3 A data de 29/06 foi escolhida porque é a da festa dos Apostólos Sao Pedro e Sao
Paulo.

146
QUAIS OS DOGMAS DO CATOLICISMO?

do Povo de Deus, que nao é senáo o Credo Niceno-constantinopolitano


desdobrado e explicitado a fim de elucidar dúvidas hoje levantadas sobre
verdades de fé. Merecem especial atencáo as palavras do Papa proferi
das na Homilia da Missa em que apresentou ao público o Credo do Povo
de Deus:

«Vamos fazer urna profissáo de fé, recitar um Credo, que, sem ser
urna definigáo dogmática propriamente dita, repete substancialmente, com
alguns desenvolvimentos exigidos pelas condigóes espirituais do nosso
tempo, o Credo de Nicéia, o Credo da ¡mortal Tradigao da Santa Igreja de
Deus.

Fazendo-o, estamos conscientes da inquietagáo que agita certos


meios modernos, em relagáo a fé. Eles nao se eximem do influxo do mun
do em profunda transformagáo, no qual sao postas em causa ou em dis-
cussáo tantas certezas. Vemos mesmo que até católicos se deixam do
minar por urna especie de sede de mudanga e de novidade. A Igreja, sem
dúvida, tem sempre o dever de continuar o seu esforgo para aprofundar e
apresentar de modo sempre mais adaptado as geragóes que se suce-
dem, os insondáveis misterios de Deus, ricos, para todos, de frutos de
salvagáo.

Mas é preciso, ao mesmo tempo, ter o maior cuidado, ao cumprir o


indeclinável dever de ¡nvestlgagáo, de nao atentar contra os ensinamentos
da doutrina crista; isso seria causar perturbagáo e perplexidade em mui-
tas almas fiéis, como infelizmente se pode verificar nos dias de hoje».

Seguem-se o texto da citada Homilia de Paulo VI e o do Credo dito


"do Povo de Deus" assim apresentado.

1. A Homilia

«Veneráveis Irmáos
e caros Filhos

Terminamos com esta Liturgia solene a celebracáo do XIX cente


nario do martirio dos Santos Apostólos Pedro e Paulo e damos assim
também por encerrado o Ano da Fé. Nos o dedicamos á comemoracáo
dos Santos Apostólos, para testemunhar a nossa vontade inquebrantá-
vel de conservar o depósito da Fé1 que eles nos transmitiram, e para
fortificar o nosso desejo de a viver na atual conjuntura histórica, em que a
Igreja, peregrina no meio do mundo, se encontra.

Sentimo-nos no dever de agradecer publicamente a todos os que


responderam ao nosso convite, conferindo ao Ano da Fé magnífica pleni-

1 Cf. 1Tm 6, 20

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

lude, mediante o aprofundamento da adesáo pessoal á Palavra de Deus,


mediante a renovacáo, ñas diversas comunidades, da profissáo de fé, e
mediante o testemunho de urna vida auténticamente crista. Aos nossos
Irmáos no Episcopado, de modo muito especial, e a todos os fiéis da
Santa Igreja Católica, queremos exprimir o nosso reconhecimento e dar-
Ihes a nossa Béncáo.

Parece-Nos que também devemos cumprir o mandato conferido


por Cristo a Pedro, de quem somos Sucessor, embora o último na ordem
dos méritos, a saber: de confirmar na fé os nossos irmáos.1 Cónscio da
nossa fraqueza humana, mas com toda a forca que tal mandato imprime
no nosso espirito, vamos fazer urna profissáo de fé, recitar um Credo,
que, sem ser urna definicáo dogmática propriamente dita, repete subs-
tancialmente, com alguns desenvolvimentos exigidos pelas condicóes
espirituais do nosso tempo, o Credo de Nicéia, o Credo da ¡mortal Tradi-
gáo da Santa Igreja de Deus.

Fazendo-o, estamos consciente da inquietacáo que agita certos


meios modernos, em relacáo á profunda transformacáo, no qual sao pos
tas em causa ou em discussáo tantas certezas. Vemos mesmo que até
católicos se deixam dominar por urna especie de sede de mudanca e de
novidade. A Igreja, sem dúvida, tem sempre o dever de continuar o seu
esforco para aprofundar e apresentar de modo sempre mais adaptado as
geracóes que se sucedem, os insondáveis misterios de Deus, ricos, para
todos, de frutos de salvacáo.

Mas é preciso, ao mesmo tempo, ter o maior cuidado, ao cumprir o


indeclinável dever de investigacáo, de nao atentar contra os ensinamentos
da doutrina crista; isso seria causar perturbacáo e perplexidade em mui-
tas almas fiéis, como infelizmente se pode verificar nos dias de hoje.

A este respeito, importa salientar que, além daquilo que se pode


observar e científicamente verificar, a inteligencia que Deus nos deu atin
ge o que é, e nao somente a expressáo subjetiva das estruturas e da
evolucáo da consciéncia; e, por outro lado, salientar também que o papel
da interpretado - da hermenéutica - é procurar compreender e deduzir,
respeitando a palavra pronunciada, o sentido de que um texto é veículo,
e nao recriar, de algum modo, esse sentido, segundo hipóteses arbitrari
as.

Mas, ácima de tudo, pomos nossa inquebrantável confianca no


Espirito Santo, alma da Igreja, e na fé teologal, sobre a qual assenta a
vida do Corpo Místico. Sabemos que as almas esperam a palavra do
Vigário de Cristo e procuramos corresponder a esta expectativa com as
1 Cf. Le 22, 32

148
QUAIS OS DOGMAS DO CATOLICISMO?

instrucóes que damos regularmente. Hoje, porém, nos é proporcionado o


ensejo de pronunciar urna palavra mais solene.

Neste dia, escolhido para o encerramento do Ano da Fé, nesta


testa dos Bem-Aventurados Apostólos Pedro e Paulo, queremos render
ao Deus Vivo a homenagem de urna Profissáo de Fé. E como outrora o
Apostólo Pedro, em Cesaréia de Felipe, tomou a palavra, em nome dos
Doze, para confessar com verdade, prescindindo das opinioes humanas,
0 Cristo Filho de Deus Vivo, assim também hoje o seu humilde Sucessor,
Pastor da Igreja universal, eleva a sua voz, para prestar, em nome de
todo o Povo de Deus, firmíssimo testemunho á Verdade divina, confiada
á Igreja para que ela a anuncie a todas as Nacóes.

Queremos que a nossa Profissáo de Fé seja bastante completa e


explícita para responder, de maneira adequada, á necessidade de luz
que tantas almas fiéis sentem, e que experimentam também todos os
que, no mundo, seja qual for a familia espiritual a que pertencam, estáo
em situacáo de procura da Verdade.

Para a gloria do Deus Santíssimo e de Nosso Senhor Jesús Cristo,


confiando na ajuda da Santíssima Virgem María e dos Bem-Aventurados
Apostólos Pedro e Paulo, para utilidade e edificacáo da Igreja, em nome
de todos os Pastores e de todos os fiéis, vamos pronunciar agora esta
Profissáo de Fé, em plena comunháo espiritual com todos vos, queridos
Irmáos e Filhos.

2. Profissáo de Fé

Cremos em um só Deus, Pai, Filho e Espirito Santo, Criador das


coisas visíveis, como este mundo, onde se desenrola a nossa vida pas-
sageira; Criador das coisas invisíveis como os puros espíritos, que tam
bém sao denominados Anjos; e Criador, em cada homem, da alma espi
ritual e ¡mortal1.

Cremos que este Deus único é absolutamente uno na sua essén-


cia infinitamente santa, assim como em todas as suas perfeicóes, na sua
onipoténcia, na sua ciencia infinita, na sua providencia e no seu amor.
Ele é Aquele que é, como Ele mesmo o revelou a Moisés;2 Ele ó Amor,
como no-lo ensinou o Apostólo Sao Joáo;3 de tal maneira que estes dois
nomes, Ser e Amor, exprimem inefavelmente a mesma divina realidade
d'Aquele que se quis dar a conhecer a nos e que, habitando urna luz
inacessível,4 é, em si mesmo, ácima de todo nome, de todas as coisas e

1 Cf. Dz. Sch. 3002


2 Cf. Ex 3, 14
3 Cf. Uo 4, 8
ACf. í 7/7? 6, 16

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

de toda inteligencia criada. Só Deus pode dar-nos o conhecimento exato


e pleno de si mesmo, revelando-se como Pai, Filho e Espirito Santo, de
cuja vida eterna somos chamados a participar, aqui na térra, na obscuri-
dade da fé, e, depois da morte, na Luz eterna. As relacoes mutuas que
constituem eternamente as tres Pessoas, que sao, cada urna délas, o
único e mesmo Ser divino, sao a bem-aventurada vida íntima de Deus
tres vezes santo, infinitamente ácima de tudo o que podemos conceber á
maneira humana.1 Entretanto, rendemos gracas á Bondade divina pelo
fato de numerosíssimos crentes poderem dar testemunho conosco, dian
te dos homens, da Unidade de Deus, embora nao conhecam o Misterio
da Santíssima Trindade.

Cremos, portante, no Pai que gerou eternamente o Filho; no Filho,


Verbo de Deus, que é eternamente gerado; no Espirito Santo, Pessoa
incriada, que procede do Pai e do Filho, como seu eterno Amor. Assim,
ñas tres Pessoas divinas, 'coaeternae sibi et coaequales',2 superabundam
e consumam-se, na superexceléncia e na gloria próprias do Ser incriado,
a vida e a felicidade de Deus perfeitamente uno, e sempre 'deve ser
venerada a Unidade na trindade e a Trindade na Unidade'.3

Cremos em Nosso Senhor Jesús Cristo, que é o Filho de Deus. Ele


é o Verbo eterno, nascido do Pai antes de todos os sáculos e
consubstancial ao Pai, 'homoousios to Patri',4 e por Ele tudo foi feito. Ele
se encarnou por obra do Espirito Santo no seio da Virgem Maria e se fez
homem. Portante, é igual ao Pai, segundo a divindade, e inferior ao Pai
segundo a humanidade,5 e é uno, Ele próprio, nao por urna impossível
confusáo de naturezas, mas pela unidade da pessoa.6

Habitou entre nos, cheio de graca e de verdade. Anunciou e instau-


rou o Reino de Deus e nos fez conhecer nele o Pai. Deu-nos o seu man-
damento novo de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou. En-
sinou-nos o caminho das Bem-Aventurancas evangélicas: pobreza de
espirito, mansidáo, sofrimento suportado com paciencia, sede de justica,
misericordia, pureza de coracáo, vontade de paz, perseguido suportada
pela justica. Padeceu sob Póncio Pilatos, Cordeiro de Deus que carre-
gou sobre si os pecados do mundo; morreu por nos na Cruz, salvando-
nos com o seu sangue redentor. Foi sepultado e, por seu próprio poder,
ressuscitou ao terceiro dia, elevando-nos por meio de sua Ressurreicio
á participacáo da vida divina, que é a vida da graca. Subiu ao céu e vira

1 Cf. Dz.Sch. 3016


2 Cf. Dz.Sch. 75
3Dz.Sch. 75
*Dz.Sch. 150
5 Cf. Dz.Sch. 76
sCf.lbid.

150
QUAIS OS DOGMAS DO CATOLICISMO?

de novo, mas desta vez com gloria, para julgar os vivos e os mortos: cada
um segundo os seus méritos - os que corresponderam ao Amor e á Mi
sericordia de Deus, indo para a vida eterna; os que os recusaram até ao
fim, indo para o fogo que nao se extinguirá jamáis.

E o seu Reino nao terá fim.

Cremos no Espirito Santo, que é Senhor e que dá a vida; que é


adorado e glorificado com o Pai e com o Filho. Foi Ele que nos falou por
meio dos profetas; Ele nos foi enviado por Jesús Cristo, depois da sua
Ressurreigáo e da sua Ascensáo ao Pai. Ele ilumina, vivifica, protege e
conduz a Igreja; Ele purifica os seus membros, se estes nao se furtam á
agáo da graga, que penetra no mais íntimo da alma, torna o homem ca
paz de responder ao apelo de Jesús: 'Sede perfeitos, como também o
vosso Pai celestial é perfeito' (Mt 5, 48).
Cremos que Maria é a Máe sempre Virgem do Verbo Encarnado,
nosso Deus e Salvador Jesús Cristo,1 e que, em razáo desta eleigáo sin
gular, ela foi, em consideragáo dos méritos do seu Filho, resgatada de
maneira sublime2, preservada de toda mancha do pecado original,3 e re
pleta do dom da graga, mais do que todas as outras criaturas.4

Associada por um vínculo estreito e indissolúvel aos Misterios da


Encarnacáo e da Redengáo,5 a Santíssima Virgem Maria, a Imaculada,
foi, no termo de sua vida terrestre, elevada em corpo e alma á gloria
celeste6 e configurada ao seu Filho ressuscitado, antecipando a sorte
futura de todos os justos. Cremos que a Santíssima Máe de Deus, Nova
Eva, Máe da Igreja,7 continua no céu a desempenhar o seu papel mater
no em relagáo aos membros de Cristo, cooperando para o nascimento e
desenvolvimento da vida divina ñas almas dos resgatados.8
Cremos que em Adáo todos pecaram; isto significa que a falta ori
ginal, cometida por ele, fez com que a natureza humana, comum a todos
os homens, caísse num estado em que arrasta as conseqüéncias desta
falta e que nao é aquele em que ela se encontrava antes, nos nossos
primeiros pais, constituidos em santidade e justiga, e em que o homem
nao conhecla o mal nem a morte. A natureza humana assim decaída,
despojada da graga que a revestía, ferida ñas suas próprias forgas natu-
1 Cf. Dz.Sch. 251-252
2 Cf. Lumen Gentium 53
3 Cf. Dz.Sch. 2803
4 Cf. Lumen Gentium 53
5 Cf. Lumen Gentium 53, 58, 61
6 Cf. Dz.Sch. 3903
7 Cf. Lumen Gentium 53, 56, 61, 63; Paulo VI, Aloe, no encerramento da III Sessáo
do Concilio Vat. II: AAS, LVI[1964] 1016; Exhort. Apost. Signum Magnum, Introd.
8 Cf. Lumen Gentium 62, Paulo VI, Exhort. Apost. Signum Magnum, P. 1, n. 1.

151
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

rais e submetida ao dominio da morte, é que é transmitida a todos os


homens, e neste sentido é que cada homem nasce em pecado. Profes-
samos, pois, com o Concilio de Trento, que o pecado original é transmi
tido com a natureza humana, 'nao por imitacáo, mas por propagacáo' e
que, portanto, ele é 'próprio de cada um'.1

Cremos que Nosso Senhor Jesús Cristo, pelo sacrificio da Cruz,


nos resgatou do pecado original e de todos os pecados pessoais, come
tidos por cada um de nos, de modo que, segundo a frase do Apostólo:
'onde abundou o pecado, ai também superabundou a graca'.2

Cremos num só Batismo, instituido por Nosso Senhor Jesús Cristo


para a remissáo dos pecados. O Batismo deve ser administrado mesmo
ás criancinhas que nao foram ainda capazes de cometer algum pecado
pessoal, a fim de que, tendo nascido privadas da graca sobrenatural,
renascam 'da agua e do Espirito Santo' para a vida divina em Jesús Cristo.3

Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica, edificada por


Jesús Cristo sobre essa pedra que é Pedro. Ela é o Corpo Místico de
Cristo, sociedade visível instituida com órgáos hierárquicos e comunida-
de espiritual simultáneamente; Igreja terrestre, Povo de Deus em pere-
grinacáo aqui na térra e Igreja cumulada de bens celestes; germe e co-
meco do Reino de Deus, por meio da qual continuam, ao longo da histo
ria humana, a obra e as dores da Redencáo; e que aspira pela sua reali-
zacáo completa, para além do tempo, na gloria.4 No decurso do tempo, o
Senhor Jesús edifica a sua Igreja pelos sacramentos que emanam da
sua Plenitude.5 Por eles é que a Igreja faz com que os seus membros
participem no misterio da Morte e da Ressurreicio de Cristo, na graca do
Espirito Santo, que Ihes dá vida e acao.6 Ela é, portanto, santa, nao obs
tante compreender no seu seio pecadores, porque nao possui em si ou-
tra vida senáo a da grapa: vivendo da sua vida é que os seus membros se
santificam; e subtraindo-se á sua vida é que eles caem em pecado e ñas
desordens que ofuscam o brilho da sua santidade. É por isso que ela
sofre e faz penitencia por essas faltas, tendo o poder de curar délas os
seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espirito Santo.
Herdeira das promessas divinas e filha de Abraáo segundo o Espi
rito, por aquele Israel de que ela conserva com amor as Escrituras e do
qual venera os Patriarcas e os Profetas; fundada sobre os Apostólos e
transmitindo de geracáo em geracao a sua palavra sempre viva e os
1 Dz.Sch. 1513
2 Rm 5, 20
3 Cf. Dz.Scb. 1514
4 Cf. Lumen Gentium 8 et 5
s Cf. Lumen Gentium 7, 11
6 Cf. Sacrosanctum Concilium 5, 6; Lumen Gentium 7, 12, 50

152
QUAIS OS DOGMAS DO CATOLICISMO?

seus poderes de Pastores no Sucessor de Pedro e nos Bispos em comu


nháo com ele, perpetuamente assistida pelo Espirito Santo, tem o encar
go de conservar, ensinar, explicar e difundir a Verdade que Deus revelou,
de maneira ainda velada pelos Profetas e plenamente pelo Senhor Je
sús. Oremos em tudo o que está contido na Palavra de Deus, escrita ou
transmitida, e que a Igreja nos propoe para acreditarmos como divina
mente revelado, seja por urna afirmacáo solene, seja pelo magisterio or
dinario e universal.1 Oremos na infalibilidade de que goza o Sucessor de
Pedro, quando ensina 'ex cathedra', como Pastor e Doutor de todos os
fiéis,2 e que o Colegio dos Bispos também possui quando com ele exerce
o magisterio supremo.3

Oremos que a Igreja, fundada por Jesús Cristo e pela qual Ele orou,
é indefectivelmente una na fé, no culto e no vínculo da comunháo hierár-
quica. No seio desta Igreja, a rica variedade dos ritos litúrgicos e a diver-
sidade legítima de patrimonio teológico e espiritual e das disciplinas par
ticulares, longe de prejudicarem a sua unidade, manifestam-na
grandemente.4

Reconhecendo também a existencia, fora do organismo da Igreja


de Cristo, de numerosos elementos de verdade e de santificacáo, que
Ihe pertencem como coisa própria e impelem á unidade católica,5 e eren-
do na acáo do Espirito Santo, que suscita no coracáo dos discípulos de
Cristo o desejo desta unidade,6 temos a esperanca de que os cristáos,
que nao estáo ainda em plena comunháo com a única Igreja, se reuniráo
um dia num só Rebanho e com um único Pastor.

Oremos que a Igreja é necessária para a salvacáo, pois Cristo,


único Mediador e Caminho da salvacáo, se torna presente para nos no
seu Corpo, que é esta Igreja.7 Mas o designio divino da salvacáo esten-
de-se a todos os homens; e aqueles que, sem culpa de sua parte, igno-
ram o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, mas sinceramente procuram a
Deus e, sob o infiuxo da grapa, se esforcam por cumprir com obras Sua
vontade, reconhecida nos ditames da própria consciéncia, podem obter
a

Cremos que a Missa, celebrada pelo sacerdote, que representa a


pessoa de Cristo, em virtude do poder recebido pelo sacramento da Or-

1 Cf. Dz.Sch. 3011


2 Cf. Dz.Sch. 3074
3 Cf. Lumen Gentium 25
4 Cf. Lumen Gentium 23; Oríentalium Ecclesiarum 2, 3, 5, 6
5 Cf. Lumen Gentium 8
6 Cf. Lumen Gentium 15
7 Cf. Lumen Gentium 14
8 Cf. Lumen Gentium 16

153
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

dem, e oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do seu Cor
po Místico, é o sacrificio do Calvario, tornado sacramentalmente presen
te sobre os nossos altares. Cremos que, como o pao e o vinho consagra
dos pelo Senhor, na Última Ceia, foram convertidos no seu Corpo e no
seu Sangue, que iam ser oferecidos por nos na Cruz, assim também o
pao e o vinho consagrados pelo sacerdote se convertem no Corpo e no
Sangue de Cristo glorioso que está no céu; e cremos que a misteriosa
presenca do Senhor naquilo que continua a aparecer aos nossos senti
dos do mesmo modo que antes, é urna presenca verdadeira, real e subs
tancial.1

Cristo nao pode estar assim presente neste Sacramento senáo pela
conversáo, no seu Corpo, da substancia mesma do pao e pela conver-
sáo, no seu Sangue, da substancia mesma do vinho, permanecendo ape
nas inalteradas as propriedades do pao e do vinho, que os nossos senti
dos percebem. Esta conversáo misteriosa é denominada pela Igreja, de
modo muito apropriado, 'transubstanciacao'. Toda explicacáo teológica
que procura alguma compreensáo deste misterio deve, para estar de
acordó com a fé católica, admitir que na própria realidade, independente-
mente do nosso espirito, o pao e o vinho cessaram de existir depois da
consagracao, de tal modo que estáo realmente diante de nos o Corpo e o
Sangue adoráveis do Senhor Jesús, sob as especies sacramentáis do
pao e do vinho,2 conforme Ele assim quis, para se dar a nos em forma de
alimento e para nos associar á unidade do seu Corpo Místico.3

A única e ¡ndivisível existencia do Senhor glorioso que está no céu


nao é multiplicada, mas torna-se presente pelo Sacramento, em todos os
lugares da térra onde a Missa é celebrada. E permanece presente, de
pois do sacrificio, no Santíssimo Sacramento, que está no Sacrário, co-
racáo vivo de cada urna das nossas igrejas. E é para nos um dulcíssimo
dever honrar e adorar, na sagrada Hostia, que os nossos olhos véem, o
Verbo Encarnado, que eles nao podem ver e que, sem deixar o céu, se
tornou presente no meio de nos.

Confessamos que o Reino de Deus, comecado aquí na térra na


Igreja de Cristo, nao é deste mundo, cuja figura passa; que o seu cresci-
mento próprio nao pode ser confundido com o progresso da civilizacáo e
da ciencia ou da técnica humanas; mas consiste em conhecer sempre
mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar sem
pre mais ardentemente os bens eternos, em responder sempre mais de
cididamente ao Amor de Deus, e em distribuir sempre mais largamente a
graca e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo Amor que leva

1 Cf. Dz.Sch. 1651


1 Cf. Dz.Sch. 1642, 1651-1654; Paulo VI, Ene. Mysterium Fldei
3 Cf. S. 7/7., ///, 73, 3

154
QUAIS OS DOGMAS DO CATOLICISMO? 11

a Igreja a preocupar-se constantemente com o verdadeiro bem temporal


dos homens. Nao cessando de recordar aos seus filhos que eles nao
possuem aqui na térra morada permanente, com insistencia os incita a
contribuir, cada um segundo a sua vocacáo e os seus meios, para o bem
da cidade terrestre, a promover a justica, a paz e a fraternidade entre os
homens e a proporcionar ajuda aos seus irmáos, principalmente aos mais
pobres e aos mais infelizes. A grande solicitude da Igreja, Esposa de
Cristo, pelas necessidades dos homens, pelas suas alegrías e esperan-
cas, pelas suas penas e esforcos, nao é senáo a expressáo do seu ar-
dente desejo de Ihes dar a sua presenca, para iluminá-los com a luz de
Cristo e reuni-los todos n'Ele, seu único Salvador. Tal sollcitude nao sig
nifica absolutamente que a Igreja se conforme com as realidades deste
mundo, ou que perca o ardor da expectativa do seu Senhor e do Reino
eterno.

Cremos na vida eterna. Cremos que as almas de todos os que


morrem na graca de Cristo, quer se devam ainda purificar no Purgatorio,
quer sejam recebidas por Jesús no Paraíso no mesmo instante em que
deixam os seus corpos, como sucedeu com o Bom Ladráo, formam o
Povo de Deus, para além da morte, a qual será definitivamente vencida
no dia da Ressurreicáo, em que estas almas se reuniráo aos seus cor-
pos.

Cremos que a multidáo das almas que já estáo reunidas ao redor


de Jesús e de Maria no Paraíso, forma a Igreja do céu, onde, na eternida-
de feliz, véem a Deus como Ele é1 e onde sao também, em graus diver
sos, associadas aos santos Anjos no governo divino exercido por Cristo
glorioso, intercedendo por nos e ajudando a nossa fraqueza com a sua
solicitude fraterna.2

Cremos na comunhao de todos os fiéis de Cristo: dos que ainda


peregrinam sobre a térra, dos defuntos que ainda estáo em purificacáo e
dos bem-aventurados do céu, formando todos juntos urna só Igreja. E
cremos que nesta comunhao o amor misericordioso de Deus e dos seus
santos está sempre pronto para ouvir as nossas oracdes, como Jesús
nos disse: "Pedí e recebereis".3 Assim, com fé e com esperanca, nos
aguardamos a ressurreicao dos mortos e a vida do mundo que há de vir.

Bendito seja Deus, tres vezes Santo. Amém.

Vaticano, Basílica de S. Pedro, 30 de junho de 1968.

PAULO PP. VI

1 Cf. Uo 3, 2; Dz.Sch. 1000


2 Cf. Lumen Gentium 49
3Cf. Le 10, 9-10; Jo 16, 24

155
Católicos e Luteranos se encontram (I):

JUSTIFICAQÁO: A POSIQÁO DE
MARTINHO LUTERO

Em síntese: Aos 31/10/99 foi assinado um Acordó entre Luteranos


e Católicos, que a imprensa divulgou em termos inexatos, ¡aneando per-
plexidade em muitos leitores. Daí o propósito, dos tres artigos seguintes,
de esclarecer a questáo, comegando por evidenciar o pensamento de
Lutero, muito pessimista em relagáo á natureza humana ferida pelo peca
do e incapaz e produzir o bem; o homem afé tido como escravo do peca
do ou invencivelmente pecador.

É notorio que aos 31/10/99 foi assinado em Augsburgo (Alema-


nha) um Acordó entre Católicos e Luteranos a respeito da justificacáo ou
da maneira como o homem se pode tornar amigo de Deus. Tal documen
to foi inadequadamente apresentado pela imprensa aconfessional, de
modo a confundir as mentes. Eis, por exemplo, o que refere o jornal O
GLOBO em sua edicáo de 1 ° de novembro de 1999, p. 22:

"Lutero - que também representava os interesses da emergente


burguesía alema - defendía que o homem é salvo apenas por sua fé.
Para a Igreja Católica, porém, também eram levadas em conta as suas
boas obras...

Os dois lados recuaram em posigóes fundamentáis. Em seu ponto


mais importante, o documento diz: 'Junto confessamos: só pela graga e
pela fé na agáo salvadora de Cristo e nao com base em nossos méritos,
somos aceitos por Deus e recebemos o Espirito Santo, que renova nos-
sos coragóes e nos habilita e conclama a realizar as obras de bem'".

Quem lé tal noticia, pode conceber a impressáo de que houve con-


cessóes de parte a parte, como as pode haver entre partidos políticos, a
fim de constituirem urna Frente Única, por exemplo, contra o ateísmo - o
que seria totalmente falso. A Igreja sabe que nao Ihe é lícito alterar o
depósito da Revelacáo como se fosse filosofía humana; o que ela deseja
e tem feito, é dialogar com os irmáos separados para tentar dissipar equí
vocos e preconceitos. Tal foi justamente o caso ocorrido nos últimos tem-
pos entre católicos e luteranos.

Quanto ao texto ácima transcrito, professa urna verdade que sem-


pre foi proclamada por católicos e luteranos: ninguém merece por suas

156
JUSTIFICAgÁO: A POStQÁO DE MARTINHO LUTERO 13

boas obras tornar-se justo ou amigo de Deus. A isto é acrescentada na


Declaracáo Conjunta a necessidade das boas obras para que o cristáo
persevere na amizade de Deus; cada qual será julgado na base do seu
comportamento frente aos irmáos (ou ao Cristo) faminto(s),
encarcerado(s), enfermo(s), como observa Jesús em Mt 25, 31-46. É o
que se depreenderá com mais clareza dos textos que apresentaremos
no terceiro artigo desta serie, texto referente ao citado Acordó.

Passemos agora ao pensamento de Lutero. No artigo seguinte con


sideraremos a resposta dada pelo Concilio de Trento e no terceiro voltar-
nos-emos para o Acordó recente.

Como paño de fundo, seja abordado o pensamento nominalista.

1. O Nominalismo

Nominalismo é a doutrina filosófica dos sáculos XIII / XIV que afir


ma nao haver conceitos gerais ou universais, mas apenas palavras que
designam realidades individuáis. Assim, por exemplo, o conceito de flor
é um universal que se realiza concretamente na rosa, no cravo, na viole
ta, no lirio... Ora o Nominalismo professa que a essa palavra flor nada
corresponde na realidade; é mero sopro de voz.

O Nominalismo professava também o voluntarismo, doutrina que


atribuía á vontade predominancia sobre a inteligencia. Em conseqüéncia
dizia que as verdades metafísicas e moráis dependem únicamente da
vontade de Deus; assim dois mais dois seriam quatro únicamente por
que Deus o quer; poderiam valer tres, se Deus o quisesse. Tais idéias
foram, já antes de Lutero, aplicadas á doutrina da justificacáo ou do tor
nar-se amigo de Deus.

Alias, já Duns Scotus O.F.M. (t 1308) havia ensinado que, de


potentia absoluta (a rigor, considerando-se o poder de Deus como tal),
Deus poderia receber na bem-aventuranca celeste um pecador sem Ihe
infundir a graca ou manchado por pecados nao absolvidos; só nao o faz
porque estabeleceu a ordem de coisas vigentes ou de potentia ordinata:

"Deus - de potentia absoluta - nao está obrigado a infundir a


graga que vivifica a alma, para justificar o impío e acolhé-lo na vida eter
na, pois Deus nao vinculou o seu poder... a alguma criatura" (Duns Scotus,
Reportata Parisiensia I, distingáo 17, questáo 1).

Ora os nominalistas, movidos por sua aversáo á esséncia e pelo


senso do todo-poderoso arbitrio divino, desenvolveram o principio de Duns
Scotus: Deus poderia receber na gloria celeste urna alma que nao tenha
a graca divina, embora na verdade nao o faga; poderia deixar que coexis-

157
14 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

tam na mesma alma o pecado (falta de amor) e o amor, mesmo que Ele
na realidade nao o permita; poderia acolher como meritorios atos pratica-
dos por um pecador sem amor, embora hoje de potentia ordinata o amor
seja necessário para que naja mérito. Em suma, Deus poderia justificar
(tornar justo ou amigo de Deus) um pecador sem o transformar interior
mente, embora Ele tenha decidido transformar interiormente os pecadores.

Pois bem. Lutero e os reformadores do século XVI afirmaram que


Deus faz realmente (de potentia ordinata) o que Ele faria de potentia
absoluta segundo os nominalistas.

Á influencia nominalista acresce-se a da devotio moderna (devo-


cáo moderna). Oriunda nos Países-Baixos em fins do século XIV por
obra de Gerard Grote e dos Irmáos da Vida Comum, a devotio moderna
privilegiava os sentimentos e a experiencia religiosa subjetiva ácima da
razáo, da qual a Escolástica decadente abusava, caindo em raciocinios
sutis e dialética. Ora Lutero e os reformadores se voltaram contra o
"racionalismo" escolástico, exaltando a experiencia religiosa subjetiva e
a simplicidade do linguajar bíblico. Lutero tinha urna personalidade forte-
mente emotiva e sentimental, mas sinceramente religiosa.

Consideremos explícitamente o seu modo de pensar.

2. Lutero e suas concepcóes

Antes do mais, convém notar a

2.1. Evolucáo do pensamento de Lutero

O pensamento de Lutero foi-se desenvolvendo aos poucos na base


de tres fatores principáis:

a) educacáo severa por parte do pai, que se irava freqüentemente


e surrava o filho a ponto de amedrontá-lo;

b) formacáo filosófica nominalista, forjada pelas sentencas de Gui-


Iherme Ockam (1270-1342). O voluntarismo dessa escola muito contri-
buiu para alimentar o medo em Lutero; diante de Deus, cuja vontade é
insondável e está ácima da lógica, perguntava Lutero: estarei predesti
nado a salvar-me ou nao? - Esta interrogacáo Ihe suscitou fases de grande
angustia; Lutero se via entre duas sentencas confutantes em sua alma: a
vida crista e a salvacáo sao incompatíveis com o pecado (sentenca bíbli
ca clássica), mas o pecado é inevitável, pois a própria concupiscencia
desregrada já é pecado (sentenca da escola agostiniana extremada).

c) entrada no convento dos frades agostinianos de Erfurt sem ter


vocacao ou por razáo emotiva; tendo escapado da morte numa tempesta-
de em que um raio quase o fulminou, prometeu a Santa Ana que se faria

158
JUSTIFICAgÁO: A POSIQÁO DE MARTINHO LUTERO 15

frade. E fez-se frade quinze dias depois, embora dissuadido por seus
amigos.

No convento Lutero sentiu o contraste entre o ideal de urna vida


observante e fiel á Regra e a sua realidade pessoal. Procurou resolver o
problema mediante práticas ascéticas e oracóes; quería viver como "um
monge irrepreensível". Sentia-se diante de Deus inquieto em sua consci-
éncia e pecador; nao podia encontrar paz ñas suas obras expiatorias.

Em 1505, com pouco menos de vinte anos de ¡dade, Lutero entrou


no convento. Em 1519 descobriu a solucáo para o seu caso, solucáo que
Ihe ia aflorando á mente desde 1514: em Rm 1,1.7 Frei Martinho lia: "O
justo vive da fé"; esta bastaría para torná-lo amigo de Deus, sem neces-
sidade de boas obras; seria urna fé nao intelectualizada, mas fé fiducial,
isto é, confiante, que Ihe permitiría sentir-se amigo de Deus em sua situ-
acáo concreta.

Eis agora, em síntese, as grandes linhas da doutrina que decorreu


dessa evolucáo:

2.2. Assim pensava Lutero

a) Após a culpa de Adao, o homem está intrínsecamente afetado e


irremedíavelmente vendido ao pecado. Assim o antigo pessimismo
agostíniano se exprime em Lutero.

b) Conseqüentemente a vontade humana nao é livre, mas servidora


do pecado. É o que se lé na obra De servo arbitrio, escrita em 1525
contra o humanista Erasmo de Rotterdam. Esta tese é deduzida também
do fato de que a vontade de Deus é absoluta e suprema, de modo que
ninguém Ihe pode contradizer. O reformador ilustra a sua posicao nos
seguintes termos:

"A vontade humana, posta entre Deus e Satanás, é semelhante a


um jumento. Quando Deus a cavalga, ela vai aonde Deus quer que ela
vá... Mas, quando Satanás a cavalga, vai onde Satanás quer que ela vá.
Nao está em seu poder procurar um ou outro desses dols cavaleiros; sao
eles que combatem entre si para apoderarse déla e a possuir" (Weimarer
Ausgabe der Lutherwerke 18,635). Citado como WA.

Ou ainda:

"Se Deus está em nos, Sata fica ausente e nao podemos senáo
querer o bem. Se Deus está ausente, Sata se faz presente e nao pode
mos senáo querer o mal" (WA 18, 670).

Considerado em sí mesmo ou sem o Espirito de Deus, o género


humano é "o reino do diabo", é "um caos confuso de trevas".

159
TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

Todavía o deterninismo luterano nao é total. O homem nao é livre


para escolher o que diz respeito diretamente á vida eterna, mas é livre
para escolher entre os bens temperáis (de ordem sócio-económica).

c) Estando radicalmente deteriorada, a natureza humana nao pode


ser justificada por urna transformacáo interior; nada consegue eliminar a
sua pecaminosidade nem prevalecer contra ela. Daí a necessidade de
urna justica (= santidade) exterior que, sem extirpar a realidade do peca
do, faca o homem passar por santo; Deus gratuitamente deixa de impu
tar o pecado e aplica ao pecador os méritos de Cristo, que recobrem o
réu como urna capa meramente extrínseca. O Pai assim vé no pecador a
imagem de seu Filho feito homem e aceita esse infrator. É o que Lutero
professa:

"O cristáo é mais candido do que a nevé... Todavía é preciso obser


var diligentemente que essa pureza pertence a outrem; na verdade, Cris
to nos ornamenta e nos reveste com a sua justiga. Se olhas táo somente
para o cristáo, deixando de lado a justiga e a pureza de Cristo, como o
cristáo é em si, mesmo quando é santíssimo, entáo nao encontrarás pu
reza alguma, mas, porassim dizer, o diabólico negrume"(Comentário do
Miserere).

"Os santos sao sempre intrínsecamente pecadores; por feto a sua


justificagáo é sempre extrínseca. Ao contrario, os hipócritas sao sempre
justos intrínsecamente (segundo pensam); por feto sao sempre pecado
res extrínsecamente (segundo o modo de verde Deus)... Porconseguin-
te, somos extrínsecamente justos quando nao o somos pomos mesmos
nem por nossas obras, mas únicamente pelo conceito que Deus tem de
nos. E, como esse conceito nao depende de nos, também nao depende
de nos a nossa justiga" (WA 56, 268s).

Essa modalidade de justificacáo é dita "forense, imputativa, mera


mente jurídica".

Eis outros dizeres muito significativos:

"A beleza que está em nos, nao é nossa, mas é daquele que cobre
a nossa feiura" (WA 56, 280).

"As nossas obras nao sao boas senáo porque Deus asjulga boas.
E sao e nao sao boas na proporgáo em que ele as julga boas ou nao
boas" (WA 56, 394).

Tem-se ai urna expressao da formacáo nominalista de Lutero: os


nomes nao tém sempre algo de correspondente na realidade.

Desse modo natureza e graca ficam radicalmente separadas, as


sim como razáo e fé. Quando age de acordó com a sua natureza, o ho-

160
JUSTIFICAQÁO: A POSIQÁO DE MARTINHO ÜJTERO 17

mem nao pode senáo pecar; e, quando pensa de acordó com o seu inte
lecto, nao pode senáo errar. As virtudes e os conceitos dos antigos pré-
cristáos nao sao senáo vicios e erros. Nenhum esforco humano pode
salvar o homem, mas táo somente a graca e a misericordia de Deus.
Esta é a única proposicáo certeira que, segundo Lutero, nos dá a paz.

d) Se o homem é radicalmente pecador, como pode atrair sobre si


a justica de Cristo? - Certamente nao por suas pretensas boas obras ou
por seus esforcos próprios. As boas obras seriam até um obstáculo para
a justificacáo ou para tornar-nos amigos de Deus, pois nos comunicari-
am urna satisfacáo ou urna seguranca meramente humana e impediriam
que nos abandonássemos únicamente á salvacáo que paradoxalmente
vem da Cruz. Por conseguinte, a condicáo - e única condicáo - para que
a justica de Cristo recubra o homem, é a fé,... fé entendida nao no senti
do intelectualista, mas no sentido de confianca em Cristo Salvador: fé
fiducial. Para Lutero, a fé é urna atitude do ser humano que se entrega a
Deus e, em troca, recebe a conviccáo de que Deus Ihe outorga a sua
misericordia e Ihe propicia a salvacáo. É a experiencia de sentir-se per-
doado e envolvido pela justica ou santidade de Cristo.

Como se compreende, a fé é gratuito dom de Deus, que o dá a


quem Ele predestinou para a salvacáo, retirando a criatura humana da
massa damnsta agostiniana ou da massa da humanidade condenada
de que falava Santo Agostinho.

e) Lutero admitía nao somente a preciéncia de Deus a respeito de


tudo o que o homem faz, mas também a predeterminacáo e a
predestinacáo que extinguem o livre arbitrio:

"Se Deus sabia, desde toda a eternidade, que Judas havia de ser
traidor, a traicáo cometida por Judas foi necessária e nao estava em po
der de Judas ou de alguma outra criatura agir de outra maneira ou mudar
a vontade de Deus. A onipoténcia de Deus movia Judas... Porque Deus
quer as coisas que Ele prevé... E, como a vontade de Deus é a causa
principal de tudo quanto acontece, ela faz que o nosso querer seja ne-
cessário... Por conseguinte, onde fica o livre arbitrio? ... O nosso livre
arbitrio opóe-se diametralmente á preciéncia e a onipoténcia de Deus"
(WA 18, 718).

Lutero confunde preciéncia (que Deus certamente tem) com


predeterminacáo sufocadora da Iiberdade. Deus pode saber de antemáo
o que os homens Iivremente váo fazer, sem tirar nem diminuir a Iiberdade
do homem.

Lutero professava a predestinacáo ao céu ou ao inferno indepen-


dente dos méritos ou deméritos da criatura. Sofreu angustias e tormento
sos dramas ao pensar que Deus arbitrariamente (mera volúntate) possa

161
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

condenar alguém como se se deleitasse nos pecados e na desgraca dos


reprobos:

"Eu mesmo, mais de urna vez, me senti perturbado, caindo no pro


fundo abismo do desespero, e desejei nao ter nascido nem ser homem,
até que reconheci quáo salutar era aquele desespero e quáo próximo da
graga. Por isto muitos se esforgaram e suaram, procurando desculpas
para a bondade de Deus e acusagdes contra a vontade do homem, e
encontraram distingoes entre a vontade de Deus ordenada e a vontade
absoluta, entre necessidade de conseqüéncia e conseqüente e coisas
semelhantes que para nada servem... Porque nos nao fazemos coisa
alguma segundo o livre arbitrio, mas sim conforme Deus o previu" (WA
18, 719).

Mais explícita e concretamente escreveu Lutero:

"O homem, antes de transformarse em nova criatura do reino espi


ritual, nada faz, em nada se esforga em vista de preparar essa renovagáo
e esse reino: urna vez regenerado, nada faz e em nada se esforga para
perseverar nesse reino... Pois comopodem aspirarao bem... ou terforga
para o praticarse todos (como diz o Apostólo) se desviam do bem?" (WA
18, 761).

f) Apesar de todo esse pessimismo, Lutero afirma que o justo rece


be o Espirito Santo, o qual atua ñas almas retas e Ihes comunica os dons
da castidade, da obediencia, da paciencia, embora somente no reino dos
céus conseguiremos a sua plenitude.

g) Na lógica do pensamento de Lutero, entende-se que ele atribua,


no culto divino, o primado á pregacao e considere os sacramentos como
meros meios para transmitir e provocar a fé fiducial.

3. Outros Reformadores

Todos os reformadores do século XVI compartilham as idéias bási


cas de Lutero. Cada qual, porém, Ihes acrescentou seus matizes própri-
os. Examinemos tres deles em particular.

3.1. Melancton ou Filipe Schwarzerd (Térra Negra) 1497-1560

Filipe Schwarzerd helenizou o seu nome, que ficou sendo Melancton


ou, como dizia Lutero latinizando, Nigroterráneo. Foi discípulo e partida
rio moderado de Lutero. Nao quis negar o valor das boas obras; se elas
nao justificam, ao menos sao frutos e testemunhos da fé: nao precedem
nem merecem a fé, mas seguem-se necessariamente. Melancton reco-
nheceu a liberdade de arbitrio e a colaboracáo do homem com a acáo
divina no íntimo da criatura.

162
JUSTIFICAQÁO: A POSIgÁO DE MARTINHO LUTERO 19

3.2. Joáo Calvino (1509-1564)

O pensamento de Calvino é dominado pela nogao da absoluta so


beranía de Deus, que tudo dispós com üvre e imutável vontade exclusiva
mente para a sua gloria. Conseqüentemente Calvino professa a dupla
predestinacáo:

"Os homens nao foram criados em condigóes iguais; para uns é


decretada a vida eterna, e para outros a condenagáo eterna" (Institution
de la religión chrétienne 3, 21, 5).

Nos condenados é manifestada e exaltada a justica divina e, nos


que se salvam, a misericordia. O ato divino de predestinar precede a
própria previsáo do pecado de Adáo e explica todo o comportamento dos
homens (é a predestinacáo supralapsária).

Calvino também julga que a humanidade foi intrinsecamente dete


riorada pelo pecado. O homem decaído nao tem possibilidade de esco-
Iher entre o bem e o mal, pois é sempre ¡nevitavelmente atraído pelo mal.
A justifícacáo ocorre mediante a fé apenas sem obras preparatorias.

Todavía Calvino enfatiza maís do que Lutero a acáo do Espirito


Santo ñas almas justas, da qual decorrem a conversáo, o cumprimento
dos mandamentos e o zelo pela gloria de Deus. Atribuí grande importan
cia as obras Doas como testemunhos da fé; esta atitude dinamizou as
populacoes calvinistas da Suíca, da Holanda e da Inglaterra: sentiam-se
certas de sua predestinacáo para a gloria e fortemente impelidas a
testemunhá-lo com obras de ardorosos profissionais e comerciantes.

3.3. Ulrico Zvínglio (1484-1531)

Em Zürich Zvínglio, embora abracasse as idéias básicas de Lutero,


foi, de certo modo, opositor do reformador germánico: professava um
humanismo de teor erasmiano (que Lutero abominava) e, em conseqüén-
cia, negava o pecado original e reconhecia as virtudes dos pagaos.

A resposta católica foi dada aos reformadores, especialmente a


Lutero, pelo Concilio de Trento (1545-1563).

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163
Católicos e Luteranos se encontram (II):

JUSTIRCAQÁO: O CONCILIO
DE TRENTO (1545-1563)

Em síntese: O Concilio de Trento se deteve tongamente sobre a


temática da justificagáo, afirmando a primazia da graga para que o ho-
mem se possa tomar amigo de Deus. A graga, porém, nao extingue a
liberdade do homem, que fica sendo responsável por seu comportamen-
to. Ninguém pode arrogar a si a certeza da salvagáo; daía necessidade
de constante vigilancia para que o justo nao recaia no pecado. Caso feto
acontega, a misericordia divina Ihe oferece o recurso do Sacramento da
Reconciliagáo. Nao há predestinagáo para a condenagáo.

Contam-se vinte e um Concilios ecuménicos, isto é, gerais, na Igreja,


desde o de Nicéia I (325) até o do Vaticano II (1962-65). O de Trento é o
décimo nono, realizado de 1545 a 1563; vem a ser um dos mais impor
tantes, pois teve enorme repercussao na historia moderna da Igreja. Dis-
tingue-se por duas notas características: a) renovacáo da disciplina da
Igreja, e b) tomada de posicáo frente ás teses protestantes.

Este segundo ponto teve, entre outras expressoes, o Decreto so


bre a Justificagáo (Denzinger-Schónmetzer, Enquirídio 1520-1583, cita
do DS) promulgado na sexta sessáo. Resulta dos debates de 44 Congre-
gacoes especiáis e 61 Congregacoes gerais. O respectivo texto foi total
mente feito e refeito num total de tres vezes; muito numerosas sao as
emendas a que foi submetido. As discussoes entre os padres conciliares
foram vivazes, exigindo atencáo precisa ao linguajar adotado, a fim de
que o Concilio nao oficializasse o modo de exprimir-se de determinada
escola teológica em detrimento de outras. Em suma, tal decreto ocupou
os conciliares desde 23/06/1546 até 13/01/1547, quando foram votados
com unanimidade o Prólogo, os dezesseis capítulos e os trinta e tres
cánones que integram o Decreto.

O documento se divide em tres grandes Partes: 1) a situacáo do


nao crente que procura a justica ou a amizade com Deus; 2) a situacáo
do cristáo que deve perseverar na justica ou na amizade com Deus; 3) a
situacáo do cristáo que, tendo caído em pecado grave, deseja obter a
justica ou a amizade com Deus perdida.

164
JUSTIFICAgÁO: O CONCÍLIO DE TRENTO (1545-1563) 21^

Vejamos

1. O teor do Decreto

Eis o conteúdo do Decreto:

Prólogo: proclama o valor dogmático e definitivo do Decreto intei-


ro, com seus capítulos e seus cánones, a fim de por termo as discussóes
e dúvidas que possa haver em torno do tema da justificacáo: DS 1520.

Capítulos 1-4: afirmam a necessidade da justificacáo, pois a natu-


reza humana está decaída em conseqüéncia do pecado de Adáo (DS
1521). A justificacáo é oferecida ao homem por Jesús Cristo, que por
todos morreu e ressuscitou (DS 1522s). Pelo Batismo o cristáo se torna
participante da grapa que o Salvador Ihe oferece (DS 1524).

Capítulos 5-6: há necessidade de que os adultos se preparem para


a justificacáo (DS 1525). A iniciativa é do Senhor Deus, mas o homem
deve aceitar o dom de Deus e a ele se abrir, renunciando ao pecado e
entregando-se com fé e confianca ao Senhor (DS 1526s).

Capítulo 7: sao enumeradas as causas da justificacáo (DS 1528-


31):

- a causa final é a gloria de Deus e de Cristo assim como a vida


eterna a ser alcancada por todos os justos;

- a causa eficiente é a misericordia de Deus, que gratuitamente


lava e santifica, marcando e ungindo com o Espirito Santo da promessa,
que é penhor da nossa heranca;

- a causa meritoria é o dileto Unigénito do Pai e Nosso Senhor


Jesús Cristo, que, embora sendo nos seus inimigos, pelo infinito amor
com que nos amou, fez com que merecéssemos a justificacáo com a sua
santíssima Paixáo sobre o madeiro da Cruz e, por nos, satisfez a Deus Pai;
- a causa instrumental é o sacramento do Batismo, que é o sa
cramento da fé, sem a qual nunca é concedida a alguém a justificacáo;

- finalmente, a única causa formal é a justica de Deus, nao certa-


mente aquela pela qual Ele é justo, mas aqueta pela qual Ele nos torna
justos. Com essa justica, isto é, por dom de Deus, somos renovados
interiormente no espirito e nao apenas somos considerados justos, como
tambóm somos chamados justos e o somos de fato, recebendo em nos,
cada qual, a própria justica, á medida que o Espirito Santo a distribuí aos
individuos como quer e segundo a disposicáo e a cooperacáo próprias
de cada um.

«Com efeito, embora ninguém possa serjusto, a nao ser aquele ao


qual sao transmitidos os méritos da Paixáo de nosso Senhor Jesús Cris-

165
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

to, isso, no entanto, nessa justificagáo do pecador, se realiza quando, por


mérito da própria santíssima Paixáo, o amor de Deus é difundido pelo
Espirito Santo no coragáo daqueies que sao justificados e os incluí. Por
essa razáo, na própria justificagáo, juntamente com a remissáo dos pe
cados, o homem recebe todos esses dons por meio de Jesús Cristo, no
qual se inseriu: a fé, a esperanga e a caridade. Com efeito, se á fé nao se
agregar também a esperanga e a caridade, ela nao une perfeitamente a
Cristo nem nos torna membros vivos do seu Corpo. Por esse motivo, é
absolutamente verdadeiro afirmar que, sem as obras, afeé morta e inútil
e que, em Cristo, nao vaiem nem a circuncisáo nem a incircuncisáo, mas
sim a fé operante por meio da caridade".

Capítulos 8-15: sao enumeradas as características da justificacáo:


dá-se pela fé, portanto é gratuita (DS 1532):

"Quando, ademáis, o Apostólo diz que o homem é justificado pela


fé e gratuitamente, essas palavras devem ser entendidas segundo a in-
terpretagáo aceita e manifestada pelo concorde e permanente juízo da
Igreja Católica, isto é, que somos justificados mediante a fé, porque a fé
é o principio da salvagáo humana, o fundamento e a raíz de toda justifica
gáo, sem a qual éimpossível agradar a Deus e alcangara comunháo que
seus filhos tém com ele. Diz-se ainda que nos somos justificados gratui
tamente porque nada daquilo que precede a justificagáo - tanto a fé como
as obras - merece a graga da justificagáo, pois, com efeito, ela é pela
graga, nao é pelas obras; caso contrario (como diz o próprio Apostólo) a
graga nao seria mais graga".1

Nao tem valor a fé fiducial dos hereges na medida em que ela te


merariamente exalta a confianca. Nao há dúvida, Cristo nos redimiu do
pecado. Mas nem por isto alguém pode presumir afoitamente ter conse
guido a graca de Deus (DS 1533s).

A amizade de Deus (ou a justica do homem) pode intensificar-se


como também pode perder-se (DS 1535).

A observancia dos mandamentos de Deus é possível e obrigatória


- o que redunda em valorizar o esforco do homem para praticar as boas
obras prescritas (DS 1536s):

"Ademáis, ninguém, por mais justificado que esteja, se deve consi


derar livre da observancia dos mandamentos, ninguém deve fazer sua
aquela expressáo temeraria e proibida pelos Padres sob pena de
excomunháo, isto é, a de que é impossível para o homem justificado ob-
servar os mandamentos de Deus. Com efeito, Deus nao ordena o im-
' Vé-se assim que, quando a Igreja proclamou mais urna vez esta verdade em 1999,
nada afirmou de novo nem fez concessáo alguma ao luteranismo. Apenas anunciou,
juntamente com os luteranos, urna verdade bíblica sempre professada.

166
JUSTIFICAQÁO: O CONCILIO DE TRENTO (1545-1563) 23

possível. Mas, quando ordena, adverte que se faga aquilo que se pode e
se peca aquilo que nao se pode - e nos ajuda para que possamos. Os
seus mandamentos nao sao gravosos, o seujugo é suave e o seu peso é
leve. Com efeito, aqueles que sao filhos de Deus amam a Cristo e aque
les que o amam (como ele próprio diz) observam as suas palavras, coi
sas que, com a ajuda de Deus, certamente podem fazer. Com efeito, nes-
ta vida mortal, por mais santos e justos que sejam, algumas vezes eles
caem em faltas leves e cotidianas, que também sao ditas veníais, mas
nem por isso deixam de ser justos. É própria dos justos a expressáo,
humilde e verdadeira: 'Perdoa as nossas dividas'".

É falso dizer que o justo, ao praticar toda e qualquer boa obra, peca
ao menos venialmente ou levemente (DS 1538s).

A justificacáo supóe a predestinacáo. Esta fica sendo oculta e ¡m-


penetrável ao homem, de modo que ninguém pode presumir algo a res-
peito da sua sorte definitiva (DS 1540).
É possível ao homem perseverar na justica recebida ou na amiza-
de de Deus. Saiba, porém, que a própria perseveranca é dom de Deus,
que em nos realiza o querer e o realiza até o fim (cf. Fl 2,13). Por conse-
guinte, quem está em pé cuide de nao cair (cf. 1Cor 10,12); com temor e
tremor dedique-se á sua salvacáo (cf. Fl 2,12) em vigilias, jejuns, esmo-
las, oracóes e caridade (cf. 2Cor 6, 3-8). DS 1541.
Aqueles que perderam a justica ou a amizade com Deus por pecado
grave, podem readquiri-la mediante o sacramento da Penitencia (DS 1542s).

O pecado mortal faz perder a graca, nao porém a fé (DS 1544).

Capítulo 16: propóe os frutos da justificacáo crista (DS 1545-1500):

"Para os homens justificados desse modo, tanto os que conserva-


ram a graga recebida como os que, depois de té-la perdido, a recupera-
ram, devem-se propor as palavras do Apostólo: 'Abundai ñas obras boas,
sabendo que vosso trabalho no Senhor nao é em váo. Com efeito, ele
nao é injusto e nao esquece aquilo que fizestes, nem o amor que
demonstrastes por seu nome'. E: 'Nao abandonéis portanto a vossa con-
fianga, para a qual está reservada urna grande recompensa' (Hb 10, 35).
Por isso, aqueles que agem bem até o fim e tém esperanga em Deus
deve-se propor a vida eterna, seja como graga prometida misericordiosa
mente aos filhos de Deus pelos méritos de Jesús Cristo, seja como re
compensa a ser dada fielmente, pela promessa do próprio Deus, por suas
boas obras e seus méritos. Com efeito, essa é aquela coroa da justiga
que, depois de sua luta e de sua corrida, o Apostólo dizia ter sido reser
vada para ele e que Ihe seria dada pelo justo juiz, nao somente a ele, mas
também a todos aqueles que amam a sua vinda".

167
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

Seguem-se trinta e tres cánones que repelem, sob forma de nega-


cóes, os erros que em linguagem mais afirmativa sao apontados nos
capítulos (DS 1551-1583).

2. Observacáo final

Embora elaborado no contexto do debate contra o protestantismo,


o Decreto sobre a Justificacao guardou o equilibrio devido, procurando
abranger por completo a doutrina da fé. O documento é inspirado pela
intencáo de salvar tanto o primado da iniciativa divina como a necessida-
de de colaboracáo do homem; ninguém se salva e ninguém se perde
sem que esteja envolvida a sua responsabilidade pessoal. A graca de
Deus é conferida gratuitamente, mas ela nao anula nem dispensa o exer-
cício da liberdade humana. A viva confianca em Deus deve estar associ-
ada a um santo temor decorrente da consciéncia que o cristáo tem da
sua fragilidade.

O texto do Decreto reflete o pensamento de S. Agostinho, cujas


idéias básicas e cuja psicologia ele traduz. Além disto, percebem-se ai
as grandes linhas da teología escolástica do sáculo XIII (S. Boaventura,
S. Tomás de Aquino, S. Alberto Magno...), que deram estrutura sistemá
tica á doutrina dos mestres anteriores. Tais linhas de pensamento esta-
vam muito vivas, em Trento, apesar das afirmacoes do Nominalismo dos
séculos XIV / XV.

O Concilio de Trento, apesar de seus claros pronunciamentos, nao


conseguiu encerrar os debates sobre a justificacao. Ficaram pendentes
questóes minuciosas relativas á graca de Deus e á liberdade do homem.
A presenca do protestantismo com suas teses exigía um aprofundamen-
to da temática. Foi o que se deu por ocasiáo da controversia molinista-
tomista de fins do sáculo XVI e das disputas baianista e jansenista dos
séculos XVII / XVIII.

Todavía ao tema que estamos explanando, interessa agora consi


derar o ponto de chegada da questáo como foi debatida entre católicos e
luteranos ñas últimas décadas.

O Dom de Deus. Antropología Teológica. - Ed. Vozes, Petrópolis


1997, 210 x 135mm, 380 pp.

O autor considera o ser humano mais como um ser para do que um


ser que tem sua esséncia ou sua natureza estática. Em conseqüéncia,
faz urna revisao dos conceitos dejustiga original, pecado original e graca
que destoa dos clássicos principios da Antropología, muitos deles abo
nados por Concilios ou pelo magisterio da Igreja. As conclusóes do autor
sao, por vezes, obscuras, pois pretendem guardar fidelidade aos termos
da fé sem abonar o clássico sentido das verdades da fé.

168
Luteranos e Católicos se encontram (III):

JUSTIFICAQÁO: O ACORDÓ CATÓLICO-LUTERANO

Em síntese: Abaixo váo transcritos em tradugáo portuguesa pon


tos importantes da famosa Declaragáo Conjunta Católico-Luterana assi-
nada a 31/10/99. A leitura desses textos evidencia que ninguém merece,
por suas boas obras, tornarse justo ou amigo de Deus, mas também
mostra a necessidade das boas obras para que o cristáo possa permane
cer na graga recebida. Cada qual será julgado na base do seu comporta-
mentó frente aos irmáos necessitados, conforme Mt 25, 31-46. Sempre
foi pacífico na Igreja Católica que, assim como ninguém comega a ser
amigo de Deus porque o mereceu, assim também ninguém pratica as
boas obras necessárias á salvagáo sem a graga de Deus.

A Declaragáo Conjunta Católico-Luterana foi elaborada durante


anos de estudos por urna Comissáo mista de teólogos católicos e luteranos
e, finalmente, submetida ao parecer da suprema autoridade de cada urna
das duas confissóes religiosas. A Federacao Luterana Mundial aprovou-
a aos 17/06/98, ao passo que a Igreja Católica aos 25/06/98 pediu ulteri
ores esclarecimentos, que foram obtidos e aprovados num Anexo á De
claragáo Conjunta.

O Comunicado que acompanha a Declaragáo e seu Anexo assina-


do pelas duas partes interessadas, diz o seguinte:

"Os dois parceiros do diálogo estáo dispostos a prosseguir e


aprofundar o estudo dos fundamentos bíblicos da doutrína da justifica-
gáo. Procuraráo assim progredir na sua compreensáo comum da doutri-
na da justificagáo, para além dos pontos abordados na Declaragáo Con
junta e no Anexo que'a completa. Na base do consentimento obtido, a
continuagáo do diálogo é necessária em particular no tocante as ques-
toes específicamente mencionadas na Declaragáo Conjunta n" 431 como
sendo pontos que exigem mais ampios esclarecimentos, a fim de se atin
gir plena comunháo eclesial, ou urna unidade na diversidade em que as
diferengas remanescentes seriam 'reconciliadas' e nao daríam mais moti-

1 Eis os pontos que, conforme o citado n° 43, necessitam de ulterior estudo: a relagáo
entre a Palavra de Deus e o magisterio da Igreja, a Eclesiologia, a autoridade na
Igreja e a unidade da Igreja, o ministerio sacerdotal e os sacramentos, a relagáo
entre justificagáo e Ética Social (N. da Redagáo).

169
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

vo de divisao. Luteranos e católicos prosseguiráo em seus esforgos para


testemunhar em comum um espirito ecuménico, a fim de interpretar a
mensagem da justificacao numa linguagem acessível aos homens e as
mulheres de nosso tempo e em vista das preocupagóes tanto individuáis
quanto sociais dos nossos días".

A Declaracáo Conjunta é um documento extenso de vinte páginas,


de modo que nao pode ser na íntegra transcrito em nossa revista. Toda
vía o Anexo exprime claramente o que o longo texto quer dizer, de modo
que, a seguir, vai apresentado o teor desse Anexo em traducao portu
guesa.

"Pelo presente documento a Igreja Católica e a Federacáo Luterana


Mundial confirmam a Declaracáo Comum a propósito da doutrina da jus
tificacáo em sua íntegra.

1. Os esclarecimentos seguintes enfatizam o consentimento esta-


belecido na Declaracáo Comum sobre a Doutrina da Justificacao (DC)
concernentes as verdades fundamentáis da justificacáo. Assim aparece
nítidamente que as condenacóes mutuas dos tempos antigos nao se re-
ferem as doutrinas católica e luterana da justificacáo tais como sao apre-
sentadas na Declaracáo Comum.

2. 'Confessamos juntos: é somente pela graca, por meio da fé na


acáo salvífica de Cristo, e nao por causa de méritos nossos, que somos
aceitos por Deus e recebemos o Espirito Santo, que renova os nossos
coracoes, nos habilita e nos chama a cumprir boas obras' (DC 15).

A) 'Confessamos juntos que é somente por graca que Deus per-


doa aos seres humanos os pecados e os liberta da escravidáo do peca
do...' (DC 22). Pela justificacáo perdoados sao os nossos pecados e so
mos justificados, e Deus o realiza 'oferecendo a vida nova em Cristo' (DC
22). 'Por conseguinte, justificados pela fé, estamos em paz com Deus'
(Rm 5, 1). Somos 'chamados filhos de Deus, e nos o somos realmente'
(1Jo 3,1). Somos auténtica e interiormente renovados pela acáo do Es
pirito Santo, ficando sempre dependentes da obra dele em nos. 'Por con
seguinte, se alguém está em Cristo, é urna nova criatura. O mundo anti-
go passou, eis que se fez urna realidade nova' (2Cor 5,17). Neste senti
do, os justificados deixam de ser pecadores.

Todavia nos nos engañaríamos se disséssemos que nao temos


pecado (Uo 1, 8-10; cf. DC 28), 'pois todos nos tropecamos' (Tg 3, 2).
'Quem percebe os seus erros? Perdoa-me as faltas ocultas!' (S119,13).
E, quando oramos, apenas podemos dizer com o coletor de impostos:
'Meu Deus, tem piedade do pecador que eu sou' (Le 18, 13). Isto se
exprime de muitas maneiras em nossas liturgias. Juntos ouvimos a exorta-

170
JUSTIFICAQÁO: O ACORDÓ CATÓLICO-LUTERANO 27

cao: 'Que o pecado nao reine em vosso corpo mortal para vos fazer obe
decer ás suas cobicas' (Rm 6,12). Isto nos lembra o perigo permanente
que vem do poder do pecado e de sua acáo sobre os cristáos. Nesta
medida, luteranos e católicos podem compreender juntos que o cristáo é
simul iustus et peccator (simultáneamente justo e pecador), apesar das
diferentes abordagens deste tema expostas em DC 29-30.

B) O conceito de concupiscencia é utilizado em sentidos diferentes


pelo lado católico e pelo lado luterano. Nos escritos confessionais
luteranos, a concupiscencia é entendida como o desejo egoísta do ser
humano, que, á luz da Lei no sentido espiritual, é considerado como pe
cado. Na concepcao católica, a concupiscencia é urna tendencia que
subsiste na pessoa humana mesmo após o Batismo, proveniente do pe
cado e tendente ao pecado. Apesar das diferencas que aqui aparecem,
pode-se reconhecer na perspectiva luterana que o desejo se pode tornar
a abertura pela qual o pecado ataca. Em conseqüéncia do poder do pe
cado, o ser humano inteiro traz a tendencia a opor-se a Deus. Essa ten
dencia, segundo as concepcóes luterana e católica, 'nao corresponde ao
plano inicial de Deus em relacáo aos homens' (DC 30). O pecado tem
urna característica pessoal e, a este título, leva á separacáo de Deus. É a
cobica egoísta do velho homem e a falta de confianca e de amor a Deus.

A realidade da salvacáo no Batismo e o perigo do poder do pecado


podem ser expressos de tal modo que, de um lado, o perdáo dos peca
dos e a renovacáo do género humano em Cristo pelo Batismo sao
enfatizados e, de outro lado, pode-se ver que mesmo o cristáo justificado
'nao está isento do poder sempre ainda ameacador nem do dominio do
pecado1 (cf. Rm 6,12-14); ele nao está dispensado de combater constan
temente... a aversáo a Deus' (DC 28).

C) A justificacáo intervertí 'sonriente por graca' (DC 15 e 16). Única


mente por meio da fé a pessoa é justificada 'independentemente das
obras' (Rm 3,28; cf. DC 25). 'A graca cria a fé nao somente quando a fé
nasce em alguém, mas também enquanto a fé perdura" (Sao Tomás de
Aquino, Summa Theologiae ll/ll 4,4 ad 3). A obra da graca de Deus nao
excluí a acáo do homem; Deus realiza tudo, o querer e o agir; eis por que
somos chamados a agir bem (cf. Fl 2, 12ss). 'Disto se segué que nos
podemos e devemos cooperar pela forca do Espirito Santo... desde que
o Espirito Santo tenha comecado em nos sua obra de regeneracáo e de
renovacáo pela Palavra e pelos sacramentos...' (Fórmula de Concordia,
FC SC II 64s, n° 975 in: La foi des Eglises luthériennes. Confessions
et catéchismes. Paris / Genéve 1991; BSLK 897, 37ss).

D) A graca, na medida em que é comunháo dos justificados com


Deus na fé, na esperanca e na caridade, é sempre recebida em conseqü-

171
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

éncia da obra criadora e salvífica de Deus (cf. DC 27). Nao obstante, é da


responsabilidade dos justificados nao esbanjar essa gra'ca, mas viver nela.
A exortacáo a realizar boas obras é exortacáo a por em prática a fé (cf.
Apologie de la Confession d'Augsbourg IV n° 129 in: La Foi des
Eglises luthériennes...; BSLK 197, 45). As boas obras dos justificados
deveriam ser praticadas 'para que a vocacáo seja consolidada, isto é, a
fim de que o cristáo nao perca sua vocacáo pecando novamente1 (Apol.
XX, 13, n° 270 in: La Foi des Eglises luthériennes...; BSLK 316,18-24,
com referencia a 2Pd 1,10. Cf. também FC SC IV; 33, n° 1012 in: La foi
des Eglises luthériennes...; BSLK 948, 9-23). Neste sentido, luteranos
e católicos podem compreender juntos o que é dito a respeito da 'preser-
vacáo da graca' em DC 38 e 39. Por certo, ludo o que na pessoa prece
de e segué o livre dom da fé nao é a causa da justificacáo e nao a mere
ce' (DC 25).

E) Pela justificacáo, somos incondicionalmente postos em comu-


nhao com Deus. Isto incluí a promessa da Vida eterna: 'Se nos fomos
totalmente unidos, assemelhados á sua morte, nos o seremos também
no tocante á sua ressurreicáo' (Rm 6,5; cf. Jo 3,36; Rm 8,17). No dia do
último juízo, os justificados seráo julgados também segundo as suas obras
(cf. Mt 16, 27; 25, 31-46; Rm 2, 16; 14, 12; 1Cor 3, 8; 2Cor 5, 10, etc.).
Seremos confrontados a um julgamento no qual a sentenca misericordi
osa de Deus aprovará tudo o que, em nossa vida e em nosso agir,
corresponder á sua vontade. Ao contrario, tudo o que houver de mau em
nossa vida, será revelado e nao terá acesso á Vida eterna. A Fórmula de
Concordia diz também: 'Deus quer que os fiéis pratiquem boas obras; tal
é a sua ordem, tal é o seu preceito;... obras ñas quais o Espirito Santo
age, obras que agradam a Deus por causa de Jesús Cristo. E Ele prome
te recompensar gloriosamente seus fiéis tanto neste mundo como no
mundo vindouro' (FC SD IV, 38). Toda recompensa é urna recompensa
dada á graca, que nao temos o direito de pretender obter.

3. A doutrina da justificacáo é a pedra de toque da fé crista. Ne-


nhum ensinamento pode ir de encontró a esse criterio. Em tal sentido, a
doutrina da justificacáo é 'um criterio indispensável que remete inces-
santemente a Cristo o conjunto da doutrina e da prática da Igreja' (DC
18). A este título, ela tem sua verdade e seu significado específico no
contexto geral da confissáo de fé trinitaria fundamental da Igreja. Juntos,
'temos por meta confessar em toda parte o Cristo, colocar táo somente
nele nossa confianca, pois ele é o único Mediador (1Tm 2, 5s), pelo qual
Deus se dá no Espirito Santo e oferece seus dons renovadores' (DC 18).

4. A resposta da Igreja Católica nao tenciona por em questáo a


autoridade dos Sínodos luteranos ou da Federacáo Luterana Mundial. A
Igreja Católica e a Federacáo Luterana Mundial iniciaram o diálogo e o

172
JUSTIFICACÁO: O ACORDÓ CATÓLICO-LUTERANO 29

continuam como parceiros dotados de iguais direitos (par cum par). Ape-
sar de haver diferentes concepgóes de autoridade na Igreja, cada parceiro
respeita o processo seguido pelo outro no tocante as decisoes doutrinárias".

REFLETINDO...

Como se pode perceber, o texto do Anexo, como também o da


Declaragáo Conjunta, nao é de fácil leitura, pois desee a minucias, por
vezes, repetitivas. Todavía pode-se dizer que, através da linguagem cau
telosa e tendente á precisáo, exprime tres pontos doutrinários de grande
significado:

1) Ninguém se torna justo ou amigo de Deus por seus próprios


méritos, pretensamente anteriores á graca de Deus. Tal verdade já foi
definida pela Igreja durante a controversia semipelagiana, tendo em vista
a tese herética segundo a qual a entrada na fé e na amizade com Deus
se devia únicamente á iniciativa do homem. A gratuidade do chamado
divino e a concessáo da graca correspondente sao totalmente gratuitas.
Verifica-se, alias, que a Declara$ao enfatiza constantemente o aspecto
"gratuidade" - o que dá a impressáo de que basta crer e aceitar o dom de
Deus para conseguir a salvacáo. Ora tal conclusáo seria falsa, pois o
próprio documento reconhece nítidamente a necessidade e o valor das
boas obras para se obter a salvacáo eterna (cf. n°3a seguir).

2) Mesmo feíto justo ou amigo de Deus, o homem continua sendo


simultáneamente santo e pecador. Santo, porque os pecados Ihe foram
perdoados. Pecador, porém, porque, mesmo após o perdáo, fica a cobi-
ca desregrada no íntimo do homem, resquicio do pecado absolvido. Este
fato é de experiencia cotidiana e inegável. Todavía aqui se estabelece
urna diferenga entre luteranos e católicos, que nao foí superada; com
efeito, para os luteranos o simples fato de haver tendencias desregradas
no homem já é pecado, e, como essas tendencias persistem geralmente
até a morte do individuo, Lutero considerava o homem irremedíavelmen-
te vendido ao pecado ou escravo do pecado. Para os católicos, a concu
piscencia remanescente é conseqüéncia do pecado e tende ao pecado,
mas nao é pecado se nao quando aceita e alimentada voluntariamente;
quando combatida, nao pode ser tida como pecado, pois todo pecado é
um ato consciente e cometido com responsabilídade. - A questáo por-
tanto deverá provavelmente ser objeto de ulteriores conversacóes entre
as partes interessadas.

3) Assim como ninguém entra na amizade com Deus por seus


méritos próprios, assim também ninguém fica nessa amizade a nao ser
que traduza sua fé em obras boas. A fé inerte é condenável, conforme
Sao Tiago (2, 14-26). O Documento nao cita a epístola de Sao Tiago,
mas cita o Evangelho e Sao Paulo, especialmente o quadro do juízo final:

173
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

"no día do último juízo os justificados seráo julgados segundo as suas


obras... Deus quer que os fiéis pratiquem boas obras; tal é a sua ordem,
tal é o seu preceito" (Anexo n° 2). Verdade é que ninguém pratica algo de
bom senáo por graca ou dom de Deus; ao homem, porém, toca a liberda-
de de corresponder ou nao á grapa divina; caso nao Ihe corresponda e
cometa o mal, ele se excluí da vida eterna. Donde se vé que nao se pode
apregoar simplesmente a salvacáo só pela fé, sem se levar em conta o
que a criatura humana tenha ou nao tenha feito.

Em síntese, pode-se dizer que o Acordó luterano-católico reconhe-


ce que

a) ninguém entra na amizade com Deus porque o tenha merecido


mediante boas obras, mas

b) ninguém permanece nessa amizade se nao exteriorizar sua fé


através de boas obras,... boas obras que sao suscitadas pela graca, sen
do que a graca tanto pode ser aceita como pode ser rejeitada pelo cristáo.

Continuagáo da pág. 192:

Em síntese: vé-se que a psicografia ou escrita automática se expli


ca pela combinacáo de dois fenómenos parapsicológicos:

- a utilizacáo de dados já conhecidos pelo sujeito, mas arquivados


no seu inconsciente. Tal utilizacáo pode ser provocada quando, por acáo
da hipnose ou do transe, a mente perde o controle sobre as faculdades
do sujeito;

- a exteriorizacáo, mediante os músculos motores (até os da máo),


das idéias que afloram ao consciente do sujeito. Tal exteriorizacáo se
deve á constituicáo psicossomática do ser humano: as nossas atividades
psíquicas espirituais tém sua repercussáo em nosso soma ou corpo, de
modo que nao raro se traduzem, total ou parcialmente, por sinais do cor
po (no caso em pauta, pelos movimentos do braco e da máo que escrevem).
Note-se, alias, que as respostas dadas por um copo que se move
em cima de urna mesa (escrevendo Sim ou Nao ou nomes ou coisas
semelhantes) nao sao senáo urna forma de escrita automática. Em tal
caso, nao é a máo que escreve diretamente, mas é um ser humano que
comunica ao copo os movimentos correspondentes ás idéias, intencóes,
aspiracoes que esse mesmo sujeito traz em si de maneira consciente ou
inconsciente. O copo dá como resposta táo sonriente aquilo que urna ou
algumas das pessoas que o cercam, sabe(m), pensa(m) ou deseja(m),
ás vezes de maneira inconsciente.

Estéváo Bettencourt O.S.B.

174
Os Videntes de Fátima:

A BEATIFICAQÁO DE FRANCISCO
E JACINTA MARTO

Em síntese: A Beatificagáo de Francisco e Jacinta Maño, adoles


centes e videntes de Fátima, causa surpresa: podem tais criangas ter tido
afee o amor característicos da santidade proclamada pela Igreja quando
beatifica ou canoniza alguém? - A resposta a tal indagagáo é dada pelo
Sr. Bispo D. Alberto Cosme do Amaral numa valiosa homilía proferida na
basílica de Fátima aos 20 de fevereiro de 1981, quando se comegava a
mover o Processo respectivo de Beatificagáo; o prelado cita testemu-
nhos de peritos que atribuem aos adolescentes a compreensáo suficien
te para viverem urna santidade heroica.
* * *

A Beatificagáo de Francisco e Jacinta Marto (13/05/2000), peque-


nos pastores e videntes de Fátima, suscita questionamentos. Na verda-
de, os dois morreram em idade adolescente: Francisco nasceu a 11/06/
1908 e faleceu aos 4/04/1919, com menos de onze anos de idade, e
Jacinta viveu de 11/03/1910 a 20/02/1920 (quase dez anos!). - Donde a
pergunta: podem criancas de táo pouca idade ter compreendido a gran
deza da fidelidade a Cristo a ponto de poderem ser proclamadas santas?
A santidade dos Santos canonizados pela Igreja nao requer maturidade
tal que um adolescente ainda nao pode vivenciar? - A tais perguntas
quis o Sr. Bispo de Leiria-Fátima, na época D. Alberto Cosme do Amaral,
responder numa homilía bem estruturada, proferida na basílica de Fáti
ma aos 20/02/1981.0 texto conserva sua atualidade, de modo que vai, a
seguir, reproduzido.

SANTIDADE HEROICA
"Diante de nos ábrese a perspectiva da Beatificagáo e Canonizagáo
dos Servos de Deus Jacinta Marto e Francisco Marto. A abertura dos
processos informativos faz nascera esperanga de que viráo a ser beati
ficados e canonizados.

Unidos na vida, na morte e na gloria do Céu, nao os separemos


hoje na reflexáo e na celebragáo desta tarde. De inicio, acolhamos em
nosso coragáo e em nossas súplicas esta esperanga que bem pode tor
narse realidade jubilosa.

175
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

Aqueta palavra de Jesús - "Sede períeitos como o Pai do Céu é


períeito" - dirígese a todos nos e nao apenas a um pequeño grupo de
privilegiados. Se o Senhornáo restringiu o seu apelo, nao podemos limi
tara capacidade de resposta a certa categoría depessoas, a determina
dos grupos etários, aos que abragaram tal ou tal estado de vida.

O Concilio Vaticano II, interpretagáo auténtica do Evangelho para


os homens de hoje, proclama, sem rodeios e com firmeza, a chamada
universal á santidade: "É perfeitamente claro que todos os fiéis, de qual-
quer estado ou condigáo, sao chamados á plenitude da vida crista e á
perfeigáo da caridade" (LG. n940).

Pela historia, sabemos que a canonizagáo de criangas mártires nao


é problema. Mas, urna vez que o Concilio nao excetua ninguém, nao nos
é lícito duvidar de que também as criangas nao mártires podem ser cano
nizadas. Há portante urna conclusáo que se impoe: "Todo homem que
atingiu o uso da razáo pode chegar aos mais altos cumes da santidade
canonizável, no exercício quotidiano do próprio dever".

O Papa Bento XIV, a maior autorídade nestes assuntos, diz que,


mesmo no caso de criangas mártires, é necessáría a aceitagáo voluntaría
da morte. Á luz desta palavra, nos podemos concluir que os Servos de
Deus1 devem ser considerados mártires, porque sofreram voluntariamente
a morte, antecipadamente, no seu coragáo, porque estavam plenamente
convencidos de que iam matá-los e firmemente decididos a morrer2. Eles
quiseram a morte por um motivo sobrenatural - fidelidade a mensagem
recebida, mensagem que está perfeitamente identificada com o depósito
da fé e com o Magisterio da Igreja. Morreram em seus coragóes, numa
atitude de fé explícita acerca duma verdade revelada: a existencia do
Céu: "Se nos matarem, nao faz mal; vamos mais depressa para o Céu".
Como a sagrada teología tem afirmado, sempre o batismo de dese-
jo foi considerado suficiente para a justificagáo, em ordem á salvagao
eterna. Por que nao admitir que também o martirio de desejo basta para
a canonizagáo? A resposta afirmativa parece impor-se.

Mas, situando-nos no plano da canonizagáo de criangas, por moti


vo de heroicidade crista, temos que concluir que também sob este aspec
to os Servos de Deus sao canonizáveis, pois as suas vidas foram verda-
deiramente heroicas. Com efeito, o professor Pende, Doutor em Medici
na, afirma a possibilidade de encontrar fortes experiencias espirítuais e
heroicidade de virtudes, aínda antes da pré-adolescéncia: "Para nos nao
é difícil admitir, com fundamentos nos dados da ciencia, que numa crian-
' Servos de Deus: Francisco e Jacinta (N.d.R.).
2 Os videntes foram ameagados de morte por quem nao Ihes dava crédito (N.d.R.).

176
A BEATIFICAQÁO DE FRANCISCO E JACINTA MARTO 33

ga dos quatro aos sete anos, sobretudo se a crianga é invadida pela


graga, sejam possfveis manifestagóes de heroicidade, de modo que já
em tal idade, como na puberdade, sao possfveis voligóes prudentes e
livres, isto é, urna vida espiritual consciente e meritoria" (Cit. por Casieri,
no livro La Perfezione Cristiana in Benedetto XIV, pag. 118). Ora, se é
possível a heroicidade de virtudes em criangas de quatro a sete anos,
com maioria de razáo podemos encontrá-la na pré-adolescéncia, dos oito
aos treze anos, como realmente verificamos nos Servos de Deus Fran
cisco e Jacinta.

Por seu lado, S. Tomás diz que "todos os meninos que morreram
depois do batismo e antes do uso da razáo podem ser canonizados". Se
esses que sao inconscientes e por isso incapazes de virtude sao sujeitos
de canonizagáo, que dizer daqueles que depois do uso da razáo viveram
em graga e praticaram virtudes heroicas?!

Há quem diga que a heroicidade de virtudes só é possível quando


algum milagre transforma a crianga em adulto. Ora é precisamente o caso
dos pastorinhos Francisco e Jacinta. A sua vida, depois das aparigóes,
transformou-se de tal modo que somos levados a concluir que estamos
verdadeiramente em face de um milagre de ordem moral. Podemos até
dizer que a maior e mais chocante prova da veracidade dos aconteci-
mentos da Cova da fría está precisamente nessa mudanga profunda e
radical da vida dos Servos de Deus. Basta conhecer a sua fidelidade á
oragáo no mais alto grau, que é a contemplagáo unitiva, o seu amor a
mortificagáo penitente, reparadora e suplicante, para concluirmos que o
dedo de Deus está aqui. A perseveranga na oragáo e penitencia que
poderíamos considerar talvez normal num adulto em crescimento na fé e
no amor, numa crianga reveste verdadeiro caráter de heroicidade.

No seu livro - Existencia das virtudes heroicas ñas criangas - o


Padre Garrigou-Lagrange, teólogo de indiscutível autoridade, diz que a
heroicidade, mesmo antes da pré-adolescéncia, é possível; e exemplifica
a sua tese precisamente com a vida de Francisco e Jacinta, videntes de
Fátima. Nestas criangas, encontramos urna real heroicidade de virtudes
(cf. Casieri, 120-121).
Segundo a antiga norma filosófica, que continua atual, "de esse ad
posse valet illatio"1, é possível a virtude heroica ñas criangas, porque ai
temos diante de nos a realidade que nos impressiona e choca porventura.

Se atendermos ao parecer de pessoas táo competentes, de reco-


nhecida autoridade, aparece clara a possibilidade de viver heroicamente
as virtudes na pré-adolescéncia e, em casos particulares, mesmo antes.

1 O possível nem sempre é real, mas o real é sempre possível (N.d.R.).

177
34 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

Sob o ponto de vista psicológico, temos de reconhecer nos Sen/os de


Deus um esforgo arduo e perseverante, em ordem ao seu progresso moral
e espiritual, lutando, lutando sempre.

A virtude heroica, canonizável, deve agir por um motivo sobrenatu


ral, sem cálculos e motivos humanos. Sabemos que os Servos de Deus
eram sempre ¡mpulsionados por algo de sobrenatural: "Porque Nossa
Senhora pediu; para a conversáo dos pecadores; para que as almas nao
váo para o inferno; para repararas ofensas contra o Imaculado Coragáo
de María".

A virtude heroica reclama um modo de atuar superior ao que é ordi


nario em pessoas da mesma idade. Quando e onde encontramos nos
criangas que tenham correspondido ao chamamento divino, com heroica
perseveranga, como Francisco e Jacinta? Mais aínda: Quando e onde
encontramos nos adultos que tenham levado a sua vivencia crista a táo
alto nivel? Nao há dúvida: o caminho trilhado pelos Servos de Deus é
inequívocamente um caminho extraordinario.

S. Tomás afirma categórico: "Na juventude, e na infancia, mesmo,


pode encontrarse a períeita idade espiritual". Para Garrigou-Lagrange:
"Nem a velhice nem a idade madura sao necessárias á santidade".
Por outro lado, sabemos que o Senhor revela mais vivamente o
Seu misterio de amoraos debéis e pequeninos; que em todos os tempos
se serviu dos pequeños e fracos para a realizagáo dos Seus designios
de salvagáo. Podemos concluir dizendo: Qualquer idade, estado ou con-
digáo de vida é suscetível de acolher a graga divina e corresponder em
grau heroico; qualquer idade, sob a agáo da graga, é capaz de cristianis
mo heroico; qualquer idade pode realizar virtudes heroicas e ser inscrita
no catálogo dos santos. E, se freqüentemente é difícil provar o heroísmo,
no caso dos Servos de Deus, esse heroísmo impóe-se ao nosso espirito
e ao nosso coragáo com a claridade de um sol a pino.

Poderíamos aínda acrescentar que a Igreja antecipa a idade dos


Santos, antecipando a idade para a recepgáo dos sacramentos. Pió X, o
Papa da Eucaristía, que permitiu a comunháo a partir do uso da razáo,
anunciou profeticamente: "Deus terá os Seus santos também entre as
criangas".

A santidade do Francisco e da Jacinta nao é fruto de propaganda;


é urna santidade silenciosa, normal. Como disse alguém, a santidade
dos pequeños só tem um cronista: Deus.

Na seqüéncia da nossa celebragáo, agradecemos ao Senhor estes


dois tesouros; pedimos-lhe por intermedio de María que a Suprema Auto-
178
A BEATIFICACÁO DE FRANCISCO E JACINTA MARTO 35

ridade da Igreja proclame, perante o mundo, a santidade heroica destas


criangas, para a gloria da SSma. Trindade, que eles tanto adoraram e
amaram, para a conversáo e santificagáo de todos os homens".

O acume dos peritos da Congregacáo para as Causas dos Santos


(Roma) entre 1981 e 1999 só fez confirmar a sentenca dos mestres cita
dos pelo Sr. Bispo de Leiria-Fátima. É notorio que todo processo de Be
atificacáo e Canonizacao vem a ser um crivo fino que procura apurar
com lealdade a verdade dos fatos, sem preconceitos em favor de alguma
causa. Daí a Beatificacáo dos dois videntes, apoiada, alias, sobre dois
auténticos milagres obtidos pela intercessáo dos dois adolescentes. A
Beatificacáo dos mesmos confirma a genuinidade das aparicoes e da
mensagem de Fátima, assim como é um estímulo para que tomem cons-
ciéncia todos de que a santidade heroica é possível em qualquer faixa
etária, pois Deus chama todos os seus filhos á perfeicáo e jamáis á me-
diocridade.

Madre Maria José de Jesús no Caminho da Perfeicáo, por Dante


Marcello Gallian. Copyright do autor, Sao Paulo 1997, 140 x 210mm,
271pp.

O autor redigiu sua tese doutoral em Historia Social pela Universi-


dade de Sao Paulo, apresentando a figura da carmelita Madre Maria José
de Jesús, do convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro, no seu con
texto histórico. Filha de Capistrano de Abreu, historiador agnóstico, en-
tregou-se á vida mundana com seus bailes, saraus, teatros, até que aos
vinte anos de idade se converteu decididamente á fé católica e ingressou
no Carmelo; neste ocupou cargos de relevo, sempre com grande humil-
dade. Muito contribuiu para a renovagáo da vida carmelita; Madre Maria
José foi urna figura culta, poetisa, que deixou escritos de espiritualidade.
Morreu em 1959, com 77 anos de idade, em fama de santidade, que deu
motivo a que se iniciasse o seu processo de Beatificagáo. - O livro ultra-
passa os limites da hagiografía, pois póe em relevo o panorama político-
religioso de fins do sáculo XIX e comego do século XX. Ás pp. 200s lé-se:
"A oragáo dos santos: eis o meio que D. Leme, em consonancia com o
Magisterio de Roma, apregoava e reconhecia como o mais eficaz. 'Os
povos valem e existem enquanto, no meio das multiddes, houver alguns
santos. Dez justos... teriam salvo Sodoma', afirmava ... 'Quem sabe se
nao foi a prece silenciosa e ardente de urna das nossas carmelitas... que
salvou o Brasil ñas incertezas e amarguras de tempos que nao váo Ion-
ge?".

179
VOZES DO LESTE EUROPEU

No Sínodo dos Bispos da Europa realizado em Roma no mes de


outubro pp., fizeram-se ouvir vozes diversas, muitas délas provenientes
do Leste Europeu ou de países ex-comunistas. É sempre de grande im
portancia conhecer a situacáo dos irmaos perseguidos para que mais se
compreenda o valor de poder professar a fé com liberdade. Eis por que,
continuando a serie iniciada em 454/2000, PR váo, a seguir, publicados
mais alguns significativos depoimentos:

As dificuldades ligadas á pregacáo na Rússia

D. Klemens PICKEL
Bispo Auxiliar da Rússia Européia

"Desejaria falar-vos do 'distante Oriente" europeu, cuja Igreja foi


durante anos condenada ao silencio. Depois da revolucáo bolchevista de
1917, as estruturas eclesiais na Rússia foram sistemáticamente des
truidas. Bispos, sacerdotes e religiosos foram mortos ou encerrados em
horríveis campos de concentracáo. Neste século que está a chegar ao
seu fim, a térra russa está impregnada do sangue de ¡números mártires
de todas as confissóes.

Hoje, a Conferencia Episcopal Russa está associada as Conferen


cias Europeias, embora 13 milhoes de quilómetros quadrados da Rússia
facam parte da Asia. Os confins do territorio de que se ocupa o nosso
Sínodo estáo, portanto, marcados pelo Atlántico a Oeste e pelo Pacífico
a Leste.

Como sacerdote católico da Diocese de Dresden-MeBen, em 1990


transferi-me para a Uniáo Soviética a fim de ajudar as pessoas espalha-
das pelo vasto territorio, que desde há 50-60 anos esperavam um sacer
dote. Elas resistiram e transmitiram a sua fé. Nem todos, naturalmente.
Tomara-se muito perigoso orar juntamente com as criancas. A chama
que permaneceu era pequenina, mas era urna chama, ou melhor, um
fogo se se compara com a luz artificial da vida eclesial, da qual conheci
os diversos matizes. Poderia parecer urna exageracáo, mas a verdade é
que eu, que vinha para ajudar, tive de constatar que era eu que recebia
ajuda. Durante toda a vida nunca senti táo grande alegría pela minha
chamada ao sacerdocio quanta experimentei no momento em que pude
administrar os Sacramentos a pessoas que os esperavam com anseio.

180
VOZES DO LESTE EUROPEU 37

O territorio que antes pertencia á minha paróquia, tornou-se hoje


a minha (quase) Diocese. Trata-se do mais pequenino dos quatro ter
ritorios jurisdicionais na Rússia, no Sul da parte européia do País,
grande quatro vezes a Alemanha. Sou ajudado por 35 sacerdotes pro
venientes de 8 Países diferentes. Entre eles, infelizmente, nao há rus-
sos. Apesar de a nova lei sobre a religiáo requerer, a partir de 1/1/
2000, a cidadania russa ou pelo menos a green card para todos os
que estáo á frente das comunidades religiosas, ela nao prevé a possi-
bilidade de insercáo de sacerdotes estrangeiros. Dos 70 seminaristas
de S. Petersburgo 7 pertencem ao territorio da minha competencia.
As 50 comunidades católicas no Sul da Rússia estáo á distancia de
300 quilómetros entre si. Os sacerdotes devem estar dispostos a car-
regar esta cruz na solidáo. A falta de lógica e a corrupcáo das autori
dades locáis complicam ainda mais a situacáo. Até na própria comu-
nidade é multas vezes difícil encontrar alguém em quem confiar e a
quem confiar responsabilidades, porque a palavra altruismo é estra-
nha ao homo sovieticus. Depois de urna acáo caritativa de urna co-
munidade da cidade, o jornal local escreveu: 'Vejamos agora o que
pediráo em troca. Jamáis foi feito algo por nada1. No entanto, estas
pessoas querem crer. O comunismo destruiu-lhes a dignidade, mas
elas permaneceram seres humanos, almas amputadas que sofrem
porque permitiram que fossem afastadas de Deus. Muitas vezes esta
mutilacáo já teve origem há duas ou tres geracóes anteriores.

Entre as 40 religiosas que me assistem, há também 17 irmás de


urna Congregacáo autóctone, fundada pelo saudoso Arcebispo letáo,
Jurgis Matulaitis. Quando antes falei do fogo que encontrei, refería
me sobretudo a estas irmás. Muitas délas ainda recordam a clandes-
tinidade, a perseguicáo e os interrogatorios do KGB. Enquanto duran
te o dia trabalhavam como enfermeiras, professoras ou costureiras, á
noite preparavam as pessoas para receber os Sacramentos, a fim de
estarem prontas se um dia passasse um sacerdote. Através da sua
fidelidade quotidiana, estas religiosas ensinaram-me muito sobre a
vida espiritual. Nao sao pessoas cultas, e no entanto acompanharam
¡numeras pessoas no caminho da primeira confissao. Jamáis eu teria
imaginado poder verificar urna conversáo interior táo profunda no Sa
cramento da Penitencia. Cada ano elas contam com novas vocacóes.
As jovens já nao provém de familias crentes, mas das comunidades
em que essas religiosas servem a Cristo e amam a Igreja. O bom
exemplo, o fogo, é contagioso. Há pouco tempo decidiram fazer, du
rante nove meses, urna novena pelas vocacóes. A novena significa
oracáo, sacrificio, trabalho intenso sobre si mesmas... Resultado: nove
postulantes em breve tempo.

181
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

Quereria exprimir, também alguma palavra sobre a situacáo


ecuménica no Sul da Rússia, do qual fazem parte também áreas mu-
culmanas, como por exemplo o Tataristáo, o Basquiristáo, a Chechénia
e o Daguestáo e a República budista de Kalmykia. Nos encontros com
os meus coirmaos ortodoxos, de vez em quando emerge o temor do
contato, devido ao nao conhecimento. Contudo, ouso falar de desen-
volvimentos positivos. O que nos aproxima em maior medida é a posi-
cao defensiva (secularizagáo, islamismo); também o Catecismo da
Igreja Católica, muitas vezes, revelou-se urna boa base de diálogo
Por fim, mas nao por menosprezo, posso afirmar que também o amor
pela Igreja de vez em quando nos reúne. Muitos sao os motivos para
agradecer a Deus e muitos para O suplicar".

Perspectivas de acáo pastoral na Lituánia


D. Audrys Juozas BACKIS
Arcebispo de Vilna (Lituánia)

"Na Lituánia, cinqüenta anos de perseguicáo e de opressáo sob


o regime soviético nao desenraizaram a fé em Jesús Cristo em tantos
homens e mulheres, que sofreram o cárcere, deportacoes e discrimi-
nacoes de todo tipo, por causa da sua fé. A Colina das Cruzes, que o
Santo Padre visitou e fez conhecer em toda a Europa, é o símbolo da
fe daqueles que em Cristo crucificado e ressuscitado encontraram as
razoes de viver e de esperar. Com a cruz e o rosario na máo, muitas
familias viveram a fé de modo auténtico. Ao lado da preciosa heranca
deixada pelos mártires, desejaria recordar o importante papel das máes
que, num ambiente hostil, souberam transmitir aos filhos o amor de
Deus e do próximo, juntamente com as tradicoes religiosas do povo.
Contudo, a luta contra a religiáo promovida com todos os meios
na escola e na sociedade deixou profundas feridas. Esta negacáo e
exclusáo de Deus feriu o homem no seu ser, obrigando-o muitas ve
zes a usar urna máscara, a fim de poder sobreviver. A falta de respeito
pela pessoa humana ofuscou ñas consciéncias a sinceridade, a ho-
nestidade, a confianca recíproca, o sentido de responsabilidade, fal
seando as relacóes interpessoais.

Com a queda do comunismo, as novas geracóes encontraram-


se despreparadas para utilizarem bem a liberdade, deixando-se ofus
car pelos bens oferecidos pela sociedade de consumo, que parecía
prometer urna vida de bem-estar sem fadiga.

Como anunciar Cristo áquele que considera a Igreja como urna


instituicáo de poder que - tendo desaparecido a ideología marxista -
182
VOZES DO LESTE EUROPEU 39

procura impor a sua 'ideología1, as suas normas moráis na vida privada e


pública?

A Relatio ante disceptationem insiste, com razáo, no papel da


catequese e na formacáo dos catequistas e dos professores de reli-
giao. A Igreja na Lituánia está inteiramente empenhada num esforgo
catequético, encorajado pelas ¡ndicacóes que nos foram dadas pelo
Santo Padre durante a nossa recente visita ad Limina: 'É importante
que o Evangelho seja anunciado como urna 'noticia', a 'boa nova',
toda centrada na pessoa de Jesús, Filho de Deus e Redentor do ho-
mem. A catequese deve ajudar as pessoas a 'encontrar' Jesús Cristo,
a dialogar com Ele, a imergir-se n'Ele. Se nao houver a vibrado deste
encontró, o cristianismo tornar-se-á um tradicionalismo religioso sem
alma, que fácilmente cederá aos ataques do secularismo ou as sedu-
goes de propostas religiosas alternativas' (17 de Setembro de 1999;
ed. port. L'Osserv. Rom. de 2.10.1999; pág. 3, n. 4). So o testemunho
de vida do catequista, seja ele sacerdote, seja pessoa consagrada ou
leigo, poderá 'contagiar' os seus ouvintes.

Na minha opiniáo, a primeira comunidade a testemunhar a fé e


a anunciar o Evangelho da esperanga é a familia. É a primeira e
insubstituível escola de vida, que abre á fé, á oragáo, ao amor do pró
ximo. Na familia experimenta-se a alegría de amar e de ser amado, a
alegría de viver. Compartilho plenamente quanto está afirmado no n9
76 do Instrumentum laborís sobre a importancia, para as Igrejas na
Europa, de proclamar a 'verdade do matrimonio sobre a familia', de
dedicar urna particular solicitude á familia. As Igrejas européias nao
devem deixar nenhuma tentativa, a nivel nacional e comunitario, para
promover urna política da familia que respeite o designio do Criador,
prestando assim um auténtico servigo á inteira sociedade.

Constatamos que nos nossos países há murtas familias dividi


das, que nao podem oferecer aos filhos um testemunho de amor, de
fé, de esperanga. É preciso dar príoridade á pastoral juvenil. Os jo-
vens buscam comunidades fraternas e acolhedoras, que déem autén
tico testemunho de caridade vivida. Muitas vezes as nossas paróqui-
as nao sao capazes de responder a essas expectativas.

Como pastor, desejo agradecer aos novos Movimentos eclesiais o


seu testemunho de vida em comunháo fraterna, que já é evangelizagáo.
A nova evangelizagáo já está a caminhar e devemos reconhecer
o sopro do Espirito. Diante das grandes dificuldades de um mundo
que ignora Deus, devemos caminhar sem temor nem compromissos,
urna vez que a Igreja permanecerá sempre signum contradictionis".
183
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

O reflorescimento da Igreja na Estonia

D. Erwin Josef ENDER


Administrador Apostólico "ad nutum Sanctae Sedis" da Estonia

"Segundo o n9 3 do Instrumentum laboris, o atual Sínodo quer


confessar Jesús Cristo como fonte de esperanca para a Europa. Quer
fazé-lo 'através duma atenta e sapiencial leitura do tempo presente, a
fim de descobrir nele os 'sinais' e as 'sementes' de esperanca que,
em todo o caso, nao faltam'. A sobrevivencia da Igreja na Estonia e o
seu reflorescimento hodierno sao urna confirmacáo concreta, sinal e
fruto dessa esperanca contra toda a esperanca.

A vida e a cultura católica, que depois da primeira evangeliza-


cao do século XII se tinham desenvolvido.com notável sucesso na
Estonia, por duas vezes foram abatidas bruscamente, primeiro pela
reforma protestante, no século XVI, e depois pela opressáo e perse-
guicáo comunista após 1940. Desta última vez, o próprio Administra
dor Apostólico, D. Eduard Profittlich, tornou-se a vítima mais ilustre e
morreu como Bispo mártir. Contudo, depois da independencia em 1991,
a Igreja Católica na Estonia procurou e ainda está a procurar ressurgir
para urna nova vida e um novo vigor. Ela tornou-se ponto de referen
cia espiritual numa sociedade, onde cerca de 80% se declaram indife
rentes e nao pertencem a qualquer religiáo. Cerca de 60 pessoas con-
vertem-se ainda cada ano á Igreja Católica, entre as quais numerosos
homens e mulheres da arte e da cultura. As Irmas brigidinas e os Pa
dres dominicanos estáo a retomar a missáo, e já no passado as suas
Ordens desenvolveram na Estonia um notável sucesso.
Numerosos sao os sinais de esperanca e de encorajamento que
acompanham o presente reflorescimento da Igreja na Estonia, sobre-
tudo a solidariedade e o apoio substancioso de outras Igrejas irmás,
que permitem a presente reconstrucáo dessa Igreja local.

A solidariedade efetiva de outras Igrejas irmás é um grande si-


nal e sementé de esperanca para esta comunidade católica no Bálti
co. Por outro lado, a sobrevivencia e o novo promissor reflorescimento
da Igreja Católica na Estonia, após séculos de marginalizacáo e per-
seguicáo devem ser, apesar das suas dimensoes modestas, também
para a inteira Igreja de Cristo na Europa e no mundo, motivo de ale
gría e de esperanca. Inesperadamente Cristo vivo na sua Igreja pode
tornar-se, como o demonstra a Igreja na Estonia também em condi-
coes difíceis, fonte de nova vida e de urna renovada Primavera da
Igreja".

184
Ciencia e Fé:

HOMEOPATÍA E ESPIRITISMO

Em síntese: A homeopatía, fundada em 1796 pelo médico alemáo


Dr. Christian Friedrich Samuel Hahnemann, tem base científica, e nao
religiosa. Vale pelos seus principios científicos. O fato de que os espiritas
se servem freqüentemente do tratamento homeopático nao torna essa
terapia intensa aos cristáos; nem produz contaminagáo. A psicografía,
que diz transmitir mensagens do além em favor da homeopatía, é fenó
meno meramente humano ou parapsicológico, no qual nao há interven-
gáo alguma de seres superiores desencarnados.
* * *

A Redacáo de PR recebeu a seguinte carta, á qual propóe respos-


ta ñas páginas subseqüentes:

«Recentemente recebi em minhas máos urna obra espirita


mediúnica, ditada pelo espirito de RAMATIS ao médium Hercílio Maes,
sob o título de 'FILOSOFÍA DA ALMA', pela editora Freitas Bastos. Esta
obra aborda temas como vicios, alimentagáo incorreta, doengas e suas
causas e, porfim, faz urna análise do uso e das conseqüéncias da medi
cina tradicional e da medicina homeopática.

Gostaria de dizer que, sendo urna obra espirita, tudo é colocado


dentro da realidade em que eles créem no plano espiritualista e
reencarnacionista... Diante do que //, creio até que a homeopatía tenha
nascido dentro do meio espiritualista e tem o objetivo de substituir a me
dicina tradicional. Na página 224, a homeopatía é colocada como energía
pura e é comparada ao passe espirita, com a diferenga de que a
homeopatía é recebida VÍA ORAL1.

A partir da leitura deste livro em fevereiro de 98, prometí a mim


mesma que nao mais usaría homeopatía, porém o tempo passou e, há
mais ou menos seis meses, comecei um novo tratamento com os meus

1 Efe o que se le á p. 224 do referido livro:


«O veículo aquoso que serve para a dose infinitesimal significa o condensador ou o
sustentador da energía catalisadora, que transiere a carga de forga para o organis
mo físico, assim como o médium espirita ou o magneticista ofertam suas energías
para o paciente. Na medicina homeópata, a substancia mineral, vegetal ou animal,
depois de potencializada, é transferida por via bucal, enquanto no passe espirita ou
magnético é o próprio médium ou magnetista quem aplica diretamente o 'quantum'
energético ao enfermo» (Nota da Redagáo).

185
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 455/2000

filhos para alergia, que utilizava medicamentos alopáticos associados a


doses concentradas de homeopatía. Rezei, pedindo a Deus que nada
pudesse mudar o nivel espiritual.

De todos os tratamentos, este foi o que obteve maior sucesso, po-


rém o que me chamou a atengáo e me fez voltara refletir sobre o assunto,
foi que minha filha mais nova, de 5 anos, comegou a ter medo de muitas
coisas e também a acordar a noite, dizendo estar vendo bichos como
aranhas, formigas, baratas, cobras; mesmo acendendo as luzes do quarto e
mostrando que nao havia nada, ela, ás vezes, dizia que continuava vendo.

Eu me deitava junto déla e conversava e depois propunha rezar a


Ave-María, pois logo Nossa Senhora iría trazer um sonó tranquilo; só
assim ela voltava a dormir, depois de muitas Ave-Marías.

Preocupada, ligue! para o médico, achando que fosse efeito de um


medicamento alópata, 'Leucogem', que ela havia comegado a tomar (ape-
sarde que na bula nao constava algum efeito colateral). O médico come
gou a falar sobre campo energético e disse que era reagáo das doses
homeopáticas, e que isto, ás vezes, acontece com algumas pessoas!
Diante do exposto, cortei por completo as doses homeopáticas e
comecei a fazer urna oragáo de descontaminagáo para mim, meu marido
e meus filhos».

A carta em foco sugere tres pontos á nossa consideracáo: 1) a


Homeopatía e sua identidade; 2) contaminacáo espiritual; 3) psicografia.
- Abordemos cada qual dos tres aspectos de per si.

1. Homeopatía: identidade

Extraímos da Enciclopedia MIRADOR Internacional, volume 11, pp.


5825s os seguintes dados:

HOMEOPATÍA

1. Etimología. Formagáo culta, do inicio do séc. XIX, dos radicáis


gregos hómoios, 'semelhante'e páthos, 'dor, enfermidade', para designar
o sistema de prática médica fundado em Leipzig pelo Dr. Hahnemann em
1796, pelo qual as doengas sao tratadas por doses mínimas de remedios
que produziriam em pessoas sadias os mesmos síntomas dessas doen
gas. O gr. homoiophathéia, divulgado pelo lat. cient. homeopathia, em
oposigáo a allopathia, dogr. állos, 'diferente', epathia 'enfermidade, influ
encia', divulgou-se em quase todas as línguas com a popularizagáo do
sistema de Hahnemann, táo antigo quanto o adagio latino 'similia similibus
curantur' (as coisas [ou efeitos] semelhantes curam-se com coisas [ou
causas] semelhantes). Citam-se em portugués, dentre outros, os deriva
dos homeopático e homeópata. O esp. homeopatía, com os derivados
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HOMEOPATÍA E ESPIRITISMO 43

homeopático e homeópata, documentam-se em 1884; o ir. homéopathie,


homéopathique e homéopathe, em 1827; o ing. homeopathy ou
homoeopathy em 1826, diretamente do al. Homóopathie, de 1800, com
derivados como o ing. homeopath (1824) e homeopathist (1830). Tam-
bém do séc. XIX é o it. omeopatia e o deriv. omeopatico.
2 Conceituagáo. A homeopatía ou homeoterapia é um sistema
médico fundado no séc. XVIII por Christian Friedrich Samuel Hahnemann
(1755-1843). Apresentando urna doutrína coerente, se bem que maleável,
a homeopatía baseia-se no principio da similitude, no principio da dilui-
gáo ou atenuagáo da substancia medicamentosa, e aínda nos principios
de individualizagáo do doente e do remedio.
3. Descoberta do principio de similitude. Insatisfeito com a me
dicina de seu tempo, Hahnemann interrompeu a prática clínica e dedicou-se
a traduzir livros médicos como ganha-páo. Em 1790, com 35 anos de idade,
ao traduzir a obra A Materia médica, de William Cuiten (1710-1790), ficou
intrigado pelas explicagóes dadas a respeito das propriedades da quina.
3.1. Hahnemann decidiu experimentar em si mesmo a agáo da dro
ga, tomando durante varios dias fortes doses. Observou o aparecimento
de síntomas de um estado febril intermitente, semelhante as febres cura
das pela quina. Concluiu entáo que as substancias que provocam urna
especie de febre cortam as diversas variedades de febre intermitente.
3.2. Hahnemann realizou, em si e seus discípulos, experiencias
semelhantes com o mercurio, a beladona, a digital e outras drogas, che-
gando sempre a resultados idénticos. Formulou entáo o principio simiiia
similibus curantur(os semelhantes sao curados pelos semelhantes), base
de sua doutrina homeopática. Retomando contato com alguns aspectos
da tradigáo hipocrática (principalmente o seu sintomatologismo),
Hahnemann expóe suas concepgóes médicas sucessivamente no
Organon der Heilkunst (1810; Sistema de medicina), em Reine medizi-
nische Wissenschafí (1811-1821; Ciencia médica pura), e em Homóopa-
thische Lehre und Behandlung der chronischen Krankheiten (1822; Teo
ría e tratamento homeopático das doengas crónicas).
3.3. Atualmente, poderia formularse o principio essencial da
homeopatía da seguinte forma: toda substancia que, em dose ponderável,
é capaz de provocar no individuo sao um quadro sintomático dado, pode
também fazer desaparecer síntomas semelhantes no individuo doente,
se prescrita em pequeñas doses.
4. Principio de diluigáo ou atenuagáo. Na definigáo ácima, está
já incluido um outro principio cuja descoberta se deve igualmente a
Hahnemann. Para a medicina homeopática, o processo de preparagáo
dos medicamentos baseado em diluigóes infinitesimais seria capaz de
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desenvolver extremamente as virtudes medicináis dinámicas das subs


tancias grosseiras.

4.1. A diluigáo hahnemanniana é preparada de acordó com o méto


do dos frascos separados, em diluigdes decimais ou centesimais, as quais
sao as mais usadas em Franga e no Brasil. Para obtera primeira diluigáo
centesimal, colocase no primeiro frasco uma parte ponderável do medi
camento e completase com cem partes, em voiume, do veículo. Para
obter uma segunda diluigáo centesimal, uma parte do voiume da primeira
diluigáo é despejada no segundo frasco e acrescentamse 99 partes, em
voiume, do vefculo. Para as diiuigóes ulteriores procedese da me'sma
maneira, até o último frasco. A escala decimal faz-se acompanharpor um
X (ou um D). Se a escala é centesimal, nao é necessário adicionar sinal
algum, embora se usem por vezes as letras CH ou apenas H.
5. Principio de individualizagáo do doente. Na perspectiva
hahnemanniana, nao existem propriamente doengas, mas doentes. Sen
do toda doenga individual, todos os sintomas tém importancia, pois tradu-
zem a reagáo individual do doente. É indispensável individualizar a doen
ga e a forma que ela reveste no sujeito considerado. Conseqüentemente,
cada forma clínica é ao mesmo tempo uma forma terapéutica. Embora
todos os sintomas sejam importantes, nao deixa de ser necessário avall
ar a importancia peculiar de cada um deles e, eventualmente, sua signifi-
cagáo especial no conjunto.

6. Individualizagáo do remedio. Se a doenga exprime seus


caracteres pelo síntoma que provoca no homem doente, é por aqueles
que provoca no homem sao que o remedio exprime os seus. Á imagem
da doenga corresponde uma contra-imagem do remedio. As característi
cas do remedio sao obtidas pela experimentagáo no homem sao.
7. Materia médica homeopática. A recolha dos protocolos de ex
perimentagáo, sobre o homem sao, dos remedios estudados, ou
patogenesias, forma a materia médica homeopática. Hahnemann r'eco-
mendava que seprocedesse á experiencia em numerosas pessoas dife
rentes, feitas com grande cuidado. Os sintomas observados deviam ser
recolhidos cuidadosamente. Sua ordem de aparigáo devia ser anotada
para discernir dos efeitos primitivos os efeitos secundarios.
8. Concepgóes clínicas e terapéuticas. As concepgóes de
Hahnemann fizeram reviver muitos elementos da tradlgáo hipocrática
comoaatengáo ao regime alimentar, fatores climáticos, ecológicos e psi
cológicos, existencia de uma energía vital medicadora que o remedio se
limita a suscitar e estimular. Para os homeópatas, todas as doengas tra-
duzem uma revolta no organismo ameagado. As doengas crónicas sao
devidas antes de tudo á psora (bagagem patológica, hereditaria e adqui
rida), á tuberculosa, á sífilis, á sicose (conseqüéncia hereditaria ou ad-
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homeopatía e espiritismo ' 45

quirida da gonococia) e, enfim, ao cáncer, as mais das vezes preparado


pelo estadio sicótico. O médico homeópata atribuí grande importancia á
historia clínica do paciente.
9. Evolugáo da homeopatía. Aínda em vida do mestre, mas, so-
bretudo, após sua morte, os discípulos de Hahnemann divergiram quanto
a atitude a adotar frente a medicina dominante: os 'puros' defendiam urna
orientagáo exclusivamente homeopática, enquanto os 'ecléticos' eram
favoráveis á utilizagáo de outras terapéuticas, sempre que necessário.
9.1. Em 1835, a Academia Francesa de Medicina condenava a
homeopatía, assim relegada durante muito tempo a urna imagem de seita
herética, de que ainda hoje sofre. A condenagáo nao impediu urna difu-
sáo apreciável das doutrinas da escola. De 1835 a 1848, Léon Simón
realizou em Franga cursos públicos de homeopatía que ficaram famosos.
Chegando em 1841, o francés Benoit-Jules Mure, que no Brasil passou a
ser conhecido como Bento Mure, fundou a escola homeopática do Rio de
Janeiro. De regresso á Europa, em 1848, publicou em 1849 a obra Doctrine
de l'école de Rio de Janeiro (Doutrína da escola do Rio de Janeiro).
9.2. Depois de um período de querelas internas e de hostilidade
exterior, surge em 1889 a Sociedade Francesa de Homeopatía, na qual
se verifica urna reaproximagáo de 'puros' e 'ecléticos', e que assinala um
ressurgimento das concepgóes hahnemannianas.
9.3. No séc. XX, destacase o ensino de Fierre Joussere de Edouard
Vannier, de características ecléticas e, mais recentemente, a obra de Fierre
Vannier. Em 1925 é fundada em Rotterdam, Países Baixos, a Liga Home
opática Internacional. Em 1931, surge o Centro Homeopático de Franga
e, em 1932, a Biblioteca Homeopática Internacional, no hospital Saint-
Jacques, de París.
9.4. Se bem que continué sendo urna corrente minoritaria dentro
da medicina contemporánea, a homeopatía, favorecida por um
renascimento do hipocratismo, tem obtido nos anos mais recentes urna
audiencia crescente. Os autores homeópatas assinalam mesmo urna con
vergencia entre as suas concepgóes fundamentáis e as principáis deseo-
bertas da medicina moderna oficial, pondo ao mesmo tempo em relevo o
uso diferente que fazem dessas descobertas.
9.5. A vacinagáo, as curas realizadas com principios extraídos das
próprias manifestagóes patogénicas, os antibióticos (em homeopatía, subs
tituidos pelos nosódios e bioterápicos, simples ou complexos), os trata-
mentos de alergias baseados em específicos individuáis, aparentam-se
ao principio da similitude hahnemanniano. Quanto á atenuagáo da subs
tancia medicamentosa, os homeópatas observam que a medicina clássi-
ca faz hoje uso corrente de diluigóes elevadíssimas.

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9.6. No que diz respeito a individualizagao do doente e á importan


cia dos fatores biográficos e psicológicos, a moderna medicina
psicossomática e as mais fecundas correntes da psicoterapia seriam uma
confirmagáo dos principios homeopáticos. A importancia do regime ali
mentar, confirmada pela moderna ciencia da nutrigáo, a influencia dos
fatores ecológicos e de regras de conduta individual foram igualmente
sublinhadas pela moderna medicina preventiva, especialmente pelas cor-
rentes neo-hipocráticas e naturoterapéuticas.

10. Homeopatía no Brasil. Até á chegada de Benoit Jules dito


Bento Mure, integrado na colonia de Sai, de Santa Catarina, existem
apenas referencias ¡soladas á homeopatía, no Brasil. Mure e Joáo Vicente
Martins, médico que adota as novas concepgóes, sao os ardentes
propagadores no Brasil da doutrina hahnemanniana. Em 1842, surge o
Instituto Homeopático do Sai. No mesmo ano, Mure e Vicente Martins
abrem a primeira farmacia homeopática do Rio de Janeiro.
10.1. Em 1844, Mure funda o Instituto Homeopático do Brasil, que
viña mais tarde a ser dirigido porJoáo Vicente Martins e Thomas Coch'rane.
Em 1845 é criada a Escola Homeopática do Brasil, sob a diregáo de
Vicente Martins, a qual em 1847 é substituida pela Academia Médico-
Homeopática do Brasil.

10.2. Entre osprimeims adeptos da homeopatía no Brasil, contam-


se personalidades notáveis como Joáo Vicente Martins (1810-1854), Do
mingos de Azevedo Duque-Estrada (1812-1900), Sabino Olegario Ludgero
Pinho (1820-1869), Maximiano Marques de Carvalho (1820-1896), Anto
nio do Regó (1820-1896), Saturnino Soares de Meireles (1828-1909),
Manuel Antonio Marques de Paria (1835-1893), Alexandre José de Meló
Moráis (1843-1919), Joaquim Duarte Murtinho (1848-1911), Cássio Bar
bosa de Resende (1879-1971) etc. Desde a obra de divulgagáo de Mure,
a homeopatía caracterizou-se por uma atitude de divulgagáo e esclareci-
mento junto ao público, através de livros e publicagóes, algumas especi
almente destinadas as classes populares. A homeopatía era bem vista e
procurada no interior do Brasil, onde havia poucos médicos.

10.3. Em 1883, a Santa Casa de Misericordia admitiu o tratamento


homeopático, ficando sua enfermaría homeopática confiada ao Dr.
Saturnino Soares de Meireles. Já em 1858, o Hospital da Venerável Or-
dem Terceira da Penitencia tinha aberto uma enfermaría homeopática,
seguindo-se em 1859 o Hospital da Beneficencia Portuguesa, em 1873 ó
Hospital da Ordem Terceira do Carmo, em 1902 o Hospital Central do
Exército e em 1909 o Hospital Central da Marinha.
10.4. Em 1914, por iniciativa do Dr. Licínio Cardoso, fundou-se no
Rio de Janeiro, a Faculdade Hahnemanniana e, a ela anexo, o Hospital
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HOMEOPATÍA E ESPIRITISMO 47

Homeopático do Rio de Janeiro. Hoje, essa Faculdade transformou-se


em Escola de Medicina e Cirurgia do Instituto Hahnemanniano e a orlen-
tacáo dos estudos é, paradoxalmente, alopática, sendo meramente fa
cultativo o estudo da homeopatía. Existem no Brasil diversas associa-
goes homeopáticas, como a Associagáo Paulista de Homeopatía, a Fe-
deragao Brasileira de Homeopatía etc. Encontram-se no Brasil, principal
mente em Sao Paulo e no Rio de Janeiro, varios laboratorios homeopáticos.
De toda esta explana$áo depreende-se que a homeopatía, como
tal, nao está associada ao Espiritismo nem a alguma corrente "mística".
No parágrafo 10.3 atrás as referencias ás ¡nstituicóes católicas evidenci-
am que o tratamento homeopático é compatível com a fé católica. Há
mesmo muitas pessoas genuinamente católicas hoje em dia que se tra-
tam pela homeopatía. Se os espiritas privilegiam tal tratamento, ¡sto se
deve a interprétaseos pessoais nao obrigatórias.
2. Contaminacáo espiritual?

"Comecei a fazer urna oragáo de descontaminagáo para mim, meu


marido e meus filhos". - Nao há contaminacáo espiritual como há conta-
minafáo física; existem microbios, bacterias, virus que transmitem doen-
cas corporais contagiosas, mas nao existem microbios espirituais que
acarretam desgrasas físicas ou moráis. Pode haver instrumentos do pe
cado (armas ilícitas, por exemplo), mas nao há bacterias do pecado.
Quanto ás reacoes da menina que via animáis no quarto, acordan
do de noite assustada, podem-se-lhe dar tres explicacóes:
- eram reacóes de excitasao nervosa provocadas pela própria
medicasáo, como insinuou o médico consultado;
- eram efeitos da sugestáo. A menina, impressionada por algum
relato, terá imaginado ver aranhas, formigas, baratas, cobras...
- pode tratar-se da agáo simultánea dos dois fatores: sugestáo e
efeitos da medicasáo.
Em suma, nao há que recorrer ao além para explicar o fenómeno.
3. Psicografia: como explicar?

A explicasáo da psicografia ou escrita automática por comunica-


cáo de um espirito desencarnado a um médium só pode ser sustentada
por quem nao conhesa as experiencias mais sólidas e evidentes da
parapsicología.

Com efeito. Está averiguado que, quando alguém pensa, os seus


músculos motores (inclusive os dos brasos e das máos) sao (em graus
diversos) ativados, de maneira inconsciente, no sentido de reproduzirem
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de modo sensível ou visível as ¡déias que passam pela mente de tal su-
jeito. Realiza-se entáo o que se chama escrita automática, isto é, escri
ta que nao resulta da vontade consciente, mas se deve a motivos incons
cientes.

Sao numerosos os casos de acoes automáticas na vida de urna


pessoa. Assim urna datilógrafa, por exemplo, no comeco de sua carreira
realiza, de maneira deliberada e consciente, os diversos atos de sua arte;
com o tempo, porém, passa a executar muitos deles de modo mais e
mais mecánico ou automático ou inconsciente. Algo de semelhante se
dá com quem dirige um carro... Geralmente as pessoas andam automá
ticamente, mas, ao pisarem em solo escorregadio, comecam a prestar
atencao aos lugares onde pisam, de modo que perdem algo do seu
automatismo. O sonámbulo é alguém que, em estado de sonó ou de
maneira inconsciente, se levanta da cama, anda, fala e escreve; faz isto
tudo nao porque esteja guiado por um espirito desencarnado, mas sim-
plesmente porque a sua fantasía trabalha ou sonha durante o sonó e
sonhando, impele os músculos das pernas, das máos, da língua... a tra-
duzir em atos concretos e perceptíveis aquilo que passa pela imaqinacáo
do paciente.

Tais fenómenos sao naturais e explicam perfeitamente a escrita


automática atribuida a espíritos do Além. Pode mesmo acontecer em
casos de psicografia, que a pessoa nao só escreva, mas também dese-
nhe, embora nunca tenha aprendido a desenhar.
O que o psicógrafo escreve, sao idéias, frases, trechos de poesía
ou prosa que se encontram no seu inconsciente e que ele mesmo fre-
qüentemente nao sabe que traz dentro de si. Ao ler o que escreveu em
psicografia, o psicógrafo se surpreende, pois julga que nunca aprendeu
tais nocóes; daí atribui-las a espíritos desencarnados. - Na verdade po
rém, desde que abrimos os olhos e os ouvidos, vamos colhendo impres-
soes que se váo depositando no inconsciente. Geralmente só trazemos
em nossa consciéncia psicológica 1/8 das nocóes que adquirimos atra-
vés dos tempos; 7/8 ficam latentes no inconsciente ou nao explorados
Quando, porém, somos submetidos a hipnose ou entramos em transe1
por auto-sugestáo ou hétero-sugestáo, os conhecimentos guardados no
inconsciente podem vir á baila, combinados entre si de maneira livre ou
fantasiosa. Por terem estado latentes no inconsciente, parecem-nos es-
tranhos, como se nos tivessem sido comunicados por inspiracáo «do
Além». y
Continua na pág. 174

1 O transe é um estado em que a pessoa, embora adormecida ou aparentemente


msensivelao que a cerca, se acha em grande atividade mental. Tal pessoa é entáo
altamente suscetivel a sugestoes.

192
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