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P rojeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-UNE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanca a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanca e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenga católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


■ Responderemos propoe aos seus leitores:
í aborda questóes da atualidade
'] controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
: dissipem e a vivencia católica se fortalega no
Brasil e no mundo. Queira Deus abengoar
-'" este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se ertcarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada


em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
Ano xli Dezembro 2000 462
"Os Livros seráo abertos" (Ap 20, 12)

O Papa Pió IX: Figura controvertida

Terceiro Segredo de Fátima nao todo revelado?

"500 anos. Reflexoes sobre a Evangelizacáo", por


Evandro Faustino

"Um fantasma chamado 'Velhice'"


'«=3
Ensino religioso ñas escolas públicas :

Casamento sob Pressáo

Tatuagem: para qué?

índice Geral de 2000


PERGUNTE E RESPONDEREMOS DEZEMBRO2000
Publica9áo Mensal N°463

Diretor Responsável SUMARIO


Esléváo Bettencourt OSB "Os Livros seráo abertos" (Ap 20, 12) . 529
Autor e Redator de toda a materia
Sim ou nao?
publicada neste periódico
O Papa Pió IX: Figura controvertida 530

Diretor-Administrador: "Profecías" sinistras:


D. Hildebrando P. Martins OSB Terceiro Segredo de Fátima nao todo
revelado? 542
Administracáo e Distribuicáo: Ponto discutido:
Ed¡9óes "Lumen Christi" "500 anos. Reflexóes sobre a Evangeliza-
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5o andar - sala 501 cáo, por Evandro Faustino 549
Tel.: (0XX21) 291-7122 A Terceira Idade:
Fax (0XX21) 263-5679 "Um fantasma chamado 'Velhice'" 557
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NO PRÓXIMO NÚMERO:

Aínda a Declaracáo "Dominus lesus". - O Primado de Pedro. - O Concilio do Vaticano I


(1870). - Contemplacáo: Sim ou Nao? - "A Metamorfose dos Pecados Capitais"
(Megazine). -"Cuentista afirma: Existe o Inferno" (Folha Universal). -O Quadrado Miste
rioso.

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"OS LIVROS SERÁO ABERTOS"
(Ap20,12)

Diz o Apocalipse (20,12) que no dia do juízo os livros seráo abertos...

Que livros sao esses?

Designam simbólicamente a vida humana. Com efeito; a vida de cada


ser humano pode ser tida como um livro, cujas páginas váo sendo escritas
dia por dia, as vezes sem falha alguma, outras vezes com letra trocada,
sílaba omitida, pontuacao errada... Cada ano é um capítulo desse livro; con-
seqüentemente, ao chegar o fim do ano (capítulo) é oportuno que o escritor
olhe para tras e verifique as imperfeicdes da sua redacáo para poder corrigi-
las. A conclusáo de um ano aviva a consciéncia de que haverá urna Grande
Conclusáo, a Conclusáo de todos os anos, momento em que cada escritor
entregará ao Criador o livro de sua vida. É para desejar que o possa entregar
rematado, limpo e belo.

E, a fim de que isto aconteca, no término de cada ano há um Natal....


Natal vem a ser um certo paradoxo. Sim; em meio ao que vai envelhecendo,
alquebrado pelo cansaco e a fragilidade corporal, coloca-se urna grande
novidade: urna crianca nasce... e nasce diversamente das outras enancas,
embora compartilhe o frío e a fome das demais; a crianca do Natal é porta
dora de vida eterna. Ela vem dizer que a conclusáo do nosso livro nao é
senáo a passagem para usufruirmos, por todo o sempre, das belas páginas
redigidas no dia-a-dia. O livro que escrevemos na paciencia perseverante e
teimosa de cada dia jamáis será arquivado e empoeirado; será a medida de
nossa felicidade definitiva, pois veremos a face da Beleza Infinita na propor-
cáo de quanto tivermos escrito de nobre e magnánimo ñas páginas do nos-
so diario. A vida parece passar e perder-se; nao, ela nao passa; ela vai-se
abrindo sempre mais até chegar á sua plenitude.

Possa o contraste do Natal - o Novo dentro do velho - ajudar os ho-


mens a compreender que tudo vale aqui na térra, desde que escrito por
amor a Deus e ao próximo! O vigor da eternidade vai penetrando cada vez
mais a vida dos cristáos peregrinos, de modo que nao há velhice propria-
mente dita, mas sim um involucro vetusto que vai sendo mais e mais preen-
chido pelo Eterno, até o dia em que nao mais será necessário tal involucro,
pois o conteúdo dele terá sido transfigurado pela Grande Novidade!
Escrevamos, portanto... E escrevamos sabiamente, conscientes do
misterio dessa redacáo. É na penumbra e no incómodo da fé que procura
mos redigir corretamente. Um dia os garranchos do nosso diario nos apare
ce rao como letras de ouro, gracas ao Dom do Natal, que todos os anos vem
comunicar novo sentido á labuta de quem se esforca por escrever certo.
Santo Natal e Feliz 2001 para todos!

E. B.

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XLI - Ns 463 - Dezembro de 2000

Sim ou nao?

O PAPA PIÓ IX: FIGURA CONTROVERTIDA

Em síntese: O Papa Pió IX foi beatificado a 3/9/00, apesar de mui-


tos protestos que se levantaram contra tal ato. Foi acusado de anti
semitismo, autoritarismo e excessivo conservadurismo. Todavía as obje-
góes suscitadas pela crítica foram devidamente examinadas pela Con-
gregagáo para as Causas dos Santos, que concluiu nao serem dirimen
tes. Pió IX foi um homem de fé profunda, que o moveu por todo o seu
longo pontificado; viveu-a dentro dos parámetros de seu tempo, diferen
tes dos atuais. É sobre este paño de fundo que se deve considerar o seu
procedimento no caso dojudeu Edgar Mortara, que se tornou espontáne
amente sacerdote católico. A Beatificagáo de Pió IX foi preparada por
minucioso processo, que teve sua confirmagáo num milagre reconhecido
como sinal de Deus, que comprovava as virtudes heroicas do Pontífice.
* * *

O Papa Pío IX, que governou a Igreja de 1846 a 1878, foi beatifica
do aos 3/9/00 após numerosos protestos da opiniáo pública. Levanta-
ram-se contra ele severas acusacoes de anti-semitismo, autoritarismo e
excessivo conservadorismo. Visto que nem tudo é claro no noticiario da
imprensa, o presente artigo apresentará um esboco biográfico de Pió IX,
o seu "anti-semitismo" e alguns traeos do seu processo de Beatificacáo.

1. Esboco Biográfico

1.1. A figura de Pío IX

Pió Vil, ao falecer em 1823, deixou o Estado Pontificio assaz agita


do, pois se faziam ouvir vozes em favor da unificacáo da península itálica
- o que implicaría a extincáo do Estado Pontificio. Os Papas seguintes
Leáo XII (1823-29), Pió VIII (1829-30) e Gregorio XVI (1831-46) tiveram
que enfrentar os movimentos nacionalistas italianos, sendo que Gregorio

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O PAPA PIÓ IX: FIGURA CONTROVERTIDA

XVI resistiu severamente aos mesmos. A Austria tinha interesse em manter


o Estado Pontificio; por isto ajudava o Papa a reprimir as revolucóes in
ternas; temía a eleicáo de um Pontífice que favorecesse as aspiracóes
italianas. Quanto aos Cardeais, eram, na maioria, do parecer de que o
Governo papal se devia mostrar mais aberto.

Em táo difíceis circunstancias, foi eleito Papa o Cardeal Mastai-


Ferretti (16/06/1846), que tomou o nome de Pió IX. Tinha vivo sentimento
nacional e largueza de espirito; conseguirá tomar-se popular mesmo ñas
regioes em que o Governo pontificio era menos estimado. Por isto o povo
italiano regozijou-se com tal eleicio, na expectativa de ser libertado do
jugo austríaco e experimentar instituicoes liberáis. Alias, a propósito des-
te Papa, corre até hoje a noticia de que foi filiado á Maconaria; quem
primeiro espalhou este rumor, foi Carlos Gasola, no jornal Positivo de
Roma, aos 23/03/1849 (ao menos, é o que parece); todavía neste mes
mo periódico o próprio articulista se retratou aos 18/06/1857. Este "boa
to" se baseava na confusáo do nome de Giovanni Mastai-Ferretti (o de
Pió IX) com o de Giovanni Ferrettí Mastai, jovem de vida livre e conhecido
em Roma por seus desvarios.

Pió IX era um pastor afável, simpático e jovial; sofría, porém, de


indecisáo e hesitacio ñas horas mais importantes; inseguro como era,
adotava meias-medidas, que a ninguém satisfaziam. Era pessoalmente
alheio aos recursos da diplomacia; por isto confiou grande parte da admi-
nistracáo do Estado Pontificio ao seu Secretario de Estado, o Cardeal
Antonelli, a quem muito obedeceu. Se Pió IX é críticável como chefe de
Estado, ele nao merece censura como Pastor: com grande energía e
plena dedicacáo entregou-se as suas tarefas de guardíáo da S. Igreja,
elevando extraordinariamente o prestigio do Papado, durante o mais lon
go pontificado de toda a historia (1846-1878 = 32 anos). Este longo perí
odo é assinalado por quatro grandes facanhas, entre outras: a entrega
do Estado Pontificio (1870), o Concilio do Vaticano I (1869/70), a defini-
cáo do dogma da Imaculada Conceicáo (1854) e a publicacao do Syllabus
(compendio de proposicóes erróneas da época) em 1864. Veremos, a
seguir, as vicissitudes do Estado Pontificio ou a Questao Romana.

1.2. O declínio do Estado Pontificio

Pió IX abriu o seu pontificado concedendo anistia aos desordeiros


encarcerados sob Gregorio XVI; mostrava assim que seguiría orientacáo
mais liberal que a de seus antecessores. Mandou construir estradas de
ferro, autorizou a publicacáo de jomáis novos; abrandou a censura políti
ca. A Roma concedeu a estrutura de municipalidade; abriu o acesso de
seu Ministerio a varios leigos; criou duas Cámaras Legislativas, das quais
urna seria nomeada pelo Papa e a outra eleita pelo povo; ambas estari-
am subordinadas ao Colegio Cardinalício como Senado. A populacáo

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

italiana se regozijou profundamente com estas medidas, enquanto a Aus


tria as via com maus olhos e a Franca as apoiava.

O ano de 1848 foi um período de agitacóes em varios países da


Europa. Em abril, o rei Carlos Alberto, do Piemonte-Sardenha, que enca-
becava o movimento de unificacáo da península itálica declarou guerra á
Austria (que apoiava o Estado Pontificio). Pió IX, diante do confuto, de-
clarou-se neutro, pois nao ousava contraditar os patriotas italianos nem
quería magoar a Austria católica. O Papa procedía assim como Pai co-
mum. Todavía a sua atitude provocou a ira dos nacionalistas italianos.
Cercaram o palacio do Quírinal, onde morava o Pontífice, e o ameaca-
ram seriamente. Para salvar-se, Pió IX, dissimulado sob outros trajes,
fugiu para Gaeta no Reino de Ñapóles (24/11/1848).

Aos 09/02/1849, urna Assembléia Constituinte em Roma procla-


mou a República. Houve dolorosas profanacóes cometidas pelos chefes
revolucionarios: Armellini, por exemplo, incensou o Povo, "único Sobera
no e verdadeiro Deus"; Mazzini, no dia de Páscoa, sentado no trono pa
pal em S. Pedro, mandou celebrar a liturgia por sacerdotes depravados.
Igrejas foram saqueadas e muitos clérigos maltratados.

Pío IX em Gaeta apelou para as potencias européias, pois o Con-


gresso Internacional de Viena (1815) tinha reconhecido e confirmado as
fronteiras do Estado Pontificio. - A Austria e a Franca (aquela por am-
bicáo; esta, em parte, por rivalidade) acorreram ao chamado. Após duras
lutas, o general francés Oudinot ocupou Roma (julho de 1849) procla
mando ai de novo a soberanía pontificia. O Papa voltou á sua capital em
1850, preocupado com o desencadear dos acontecímentos.

As ocorréncías recentes fizeram que o Papa e o Cardeal Antonelli


rejeitassem a abertura política iniciada; por seu lado, os austríacos e os
franceses mantiveram as tropas na Italia, a fim de evitar novas insurrei-
c5es. Isto irritou muito os ánimos dos patriotas, que se concentravam no
reino do Piemonte-Sardenha; cada vez mais desejosos de mudar a situ-
acáo, afirmavam "Igreja livre no Estado livre"; o espiritual e o temporal
deveriam ser independentes um do outro; a casa de Savoia entraría em
Roma e o Papado, desembarazado de cuidados temporais, tería plena
autonomía para realizar sua míssáo evangelizadora no mundo. Tais idéí-
as foram plenamente assumidas pelo Primeiro-Ministro Camillo Cavour,
homem genial, mas maquiavélico, que de 1852 a 1861 dirigiu a política
do Piemonte-Sardenha; alias, nos territorios deste reino, os jesuítas (de
fensores do Papa) foram expulsos, muitos mosteiros contemplativos fe
chados e o clero destituido de suas prerrogativas.

Cavour, no seu maquiavelismo, resolveu lutar pela expulsáo dos


austríacos da Italia, embora estes fossem mais numerosos do que as
tropas piemontesas. Para tanto, recorreu a um sonhador, aventureiro,

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O PAPA PIÓ IX: FIGURA CONTROVERTIDA

que era Napoleio III, Imperador da Franca; conseguiu realmente entrar


em acordó com este monarca, declarando a guerra á Austria (notemos
que a Franca fora aliada da Austria em 1848!).

A campanha bélica foi favorável aos franco-piemonteses; expulsa-


ram os austríacos e os italianos tomaram posse de grandes porcoes do
Estado Pontificio. Pió IX, destituido de apoio, resolveu formar o exército
dos "zuavos pontificios", voluntarios (em parte estrangeiros), comanda
dos pelo general La Moriciére. Este exército, improvisado e despreparado,
foi vencido em Castelfidardo (18/09/1860), de modo que Vítor-Emanuel lí
(1849-1870) do Piemonte ocupou novas provincias pontificias e foi pro
clamado "reí da Italia" aos 27/03/1861, com sua capital em Florenca.
Enquanto estes acontecimentos se desenrolavam no Norte e no
Centro da Italia, surgía ao Sul um novo perigo: o patriota Giuseppe
Garibaldi, inimigo fanático do poder temporal do Papa, após derrubar o
rei de Ñapóles, fundou a República Napolitana, e anunciou a marcha
sobre Roma.

Em 1861, portanto, o Estado Pontificio via-se despojado de dois


tercos dos seus territorios, reduzido a Roma e á parte mais antiga do
Patrimonio de S. Pedro, praticamente impossibilitado de subsistir em vir-
tude do esgotamento financeiro. Cavour reivindicava Roma como capital
da Italia; prometia aos católicos respeito á autonomía espiritual da Santa
Sé; antes, afirmava que o Papa exerceria sua acáo pastoral com mais
liberdade e eficacia, porque, renunciando ao poder temporal, teria contri
buido para a pacificacáo da Italia.

Nos anos seguintes, o Piemonte fez varias propostas ao Papa, in-


citando-o a ceder o resto dos seus Estados. Pío IX e Antonelli respondi-
am firmemente: "Non possumus. Nao podemos!"; ceder o territorio da
Igreja, diziam, nao está em poder do Papa ou dos Cardeais; apelavam
para a Constituicáo de Sao Pió V, que Pió IX tivera de jurar e que proibia
ao Papa alienar, direta ou indiretamente, os bens da Igreja; nem indeni-
zacoes financeiras nem acordos e garantías internacionais poderiam
demover a Santa Sé dos seus principios. - Esta resistencia há de ser
entendida também á luz de fatos passados da historia do Papado: a inde
pendencia territorial era condicáo para que o Papa nao estivesse sujeíto
as influencias e ao controle de soberanos estrangeiros; o exilio de Avinháo
(1305-1378), tirando os Pontífices do seu territorio próprio, redundara em
descrédito dos Papas, pois o mundo percebía que eram freqüentemente
inspirados pelo dominio dos reis de Franca.

A Pió IX só restava urna esperanca: a intervencáo de potencias


estrangeiras em favor do Estado Pontificio. Estas, porém, pareciam can
sadas e desinteressadas do assunto.

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

Entrementes, continuavam as operacoes bélicas. Em 1867,


Garibaldi, por instigacao secreta do Piemonte, fez nova incursáo sobre
Roma com 6 mil homens. Por pouco nao tomou a cidade; nao tendo
atacado no momento oportuno, as tropas papáis e francesas o venceram
em 03/11/1867.

A Questáo Romana ficou estacionaria até 1870, quando rebentou


a guerra franco-alema. Alegando precisar das suas tropas, Napoleáo III
retirou-as da Italia, onde guardavam o pequeño Estado Pontificio. Assim
mais nenhum obstáculo se opunha ao golpe final da corte de Florenca.
Em breve, apareceram diante de Roma 60 mil piemonteses, comanda
dos pelo general Cardona. A defesa pontificia, sob o general Kanzier, só
contava 10 mil soldados, de modo que a resistencia era ¡mpossível. De-
pois de alguns golpes de artilharia piemontesa, Pió IX mandou capitular
aos 20/09/1870.0 poder temporal do Papa assim caía - note-se - pou-
cos meses depois que fora definido pelo Concilio do Vaticano I (junho
1870) o primado de magisterio e jurisdicáo do Romano Pontífice. Reco-
nhecera-se o papel capital do Papa no plano espiritual.
Os protestos de Pió IX e do Cardeal Antonelli de nada serviram.
Em junho de 1871 Vítor Emanuel estabeleceu sua residencia no Quirinal,
onde outrora haviam morado os Papas, ficando o Pontífice no Vaticano.

1.3. Apósa queda...

Para dar aspecto de legalidade aos acontecimentos, o rei mandou


realizar um plebiscito em Roma, que Ihe deu razáo por 40 mil vozes con
tra 46. Em margo de 1871 publicou a "lei das garantías", que declarava
inviolável a pessoa do Papa e Ihe reconhecia as honras de soberano;
concedia-lhe os palacios do Vaticano, do Latráo e de Cstel Gandolfo com
urna renda anual de 3.225.000 liras; o rei se empenhava por garantir a
livre administracáo pontificia, inclusive a realizacáo de futuros conclaves
e Concilios Ecuménicos. - Pió IX rejeitou a lei das garantías, assim como
a renda anual, pois a aceitacáo equivaleria a reconhecer a usurpacáo;
confiava na solídariedade dos fiéis, que para o futuro, como até entáo,
haveria de suprir as deficiencias do erario pontificio. O governo italiano,
inspirado pela Maconaria, mostrou-se hostil aos sacerdotes e á relígiao
até a guerra de 1914. Desde 1870 até o fim da Questáo Romana (11/02/
1929), os Papas se consideraram prisioneiros no Vaticano.
A perda do poder temporal teve o mérito de emancipar o Papa das
solicitudes e solicitacSes dilaceradoras da administracáo de um Estado.
Pode sobressair mais na singularidade de sua missáo espiritual.
Depois das tendencias centrífugas ou nacionalistas dos séculos
XVII/XVIII, Roma tornou-se um ponto de convergencia dos bispos e dos
fiéis do mundo inteiro. Um Concilio Ecuménico e quatro grandes assem-

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O PAPA PIÓ IX: FIGURA CONTROVERTIDA

bléias de bispos e fiéis realizaram-se sob Pió IX: 1) a primeira por oca-
siáo da definicáo da Imaculada Conceicáo em 18541; 2) a segunda em
Pentecostés (08/06) de 1862, quando foram canonizados 26 mártires ja
poneses, dos quais 23 franciscanos e 3 jesuítas. Mais de 300 bispos
entáo reunidos protestaram contra as violencias cometidas contra a San
ta Sé; redigiram um documento, que de varias partes do mundo recebeu
adesóes, justificando o poder temporal do Papa para o livre exercício do
seu pontificado; 3) aos 29/06/1867 comemorou-se o 18S centenario do
martirio dos Apostólos S. Pedro e S. Paulo, com a presenca de mais de
500 bispos e cerca de 10.000 peregrinos; 4) a quarta assembléia foi a
mais concorrida: em 1877, ano anterior ao da morte do Papa, celebrou-
se o 509 aniversario da sua ordenacáo episcopal. O Pontífice, já muito
idoso, despojado de todo poder temporal, foi alvo de especial deferencia
dos peregrinos, que Ihe levaram dons naturais e dinheiro no valor de 7
milhoes de francos; amavam-no sinceramente, considerando-o "o már
tir", "a cruz da cruz".

Antes que Vítor Emanuel morresse (09/01/1878), Pió IX absolveu-


o da excomunháo, permitindo que recebesse os últimos sacramentos.

1 A definigáo do dogma da Imaculada Conceigáo foi cercada de fatos muito significa


tivos.
Já existia a devogáo dos fiéis a esse privilegio de María, afirmada na S. Liturgia e
em obras teológicas, quando aos 27/11/1830 urna Irma de Caridade de París, Cata
rina Labouré, em oragáo viu Nossa Senhora: os seus pés repousavam sobre o globo
terrestre; de suas máos voltadas para a térra jorravam feixes de luz. Formou-se em
tomo da Virgem urna moldura oval, sobre a qual se liam em letras de ouro estas
palavras: "Ó María concebida sem pecado, rogai por nos, que recorremos a vos". A
Religiosa recebeu também a ordem de mandar cunhar urna medalha de acordó com
tal modelo. Informado da ocorréncia, o arcebispo de París, Mons. de Quélen, permi-
tiu a cunhagem da medalha, que se propagou rápidamente. - Tais fatos só fizeram
aumentar no espirito dos crístáos a devogáo á Imaculada e o desejo de que se defi-
nisse o dogma respectivo. Numerosos e insistentes pedidos foram encaminhados á
Santa Sé nesse sentido.
Pió IX mandou estudar o assunto por parte de bispos e teólogos e resolveu final
mente proceder á definigáo aos 8/12/1854 na basílica de Sao Pedro empresenga de
mais de duzentos bispos e enorme multidáo de fiéis.
Ora menos de quatro anos após a definigáo da Imaculada, deu-se um acontecí-
mentó, que contribuiu extraordinariamente para confirmar a palavra do Papa: as de-
zoito aparigóes de Lourdes, de 11/02 a 16/07 de 1858, sendo que a 25/03 a Bem-
aventurada Virgem declarou expressamente ser a Imaculada Conceigáo; era como
que o eco da aparigáo a S. Catarina Labouré e urna resposta á declaragáo do Papa
em 1854.
Note-se aínda: ao definir o dogma da Imaculada Conceigáo, Pío IX afirmava tam
bém que estaría excluido do seio da Igreja de Cristo todo aquele que daí em diante
ousasse rejeitar tal definigáo... Assim procedendo, Pío IX já estava implícitamente
proclamando a infalibilidade papal em materia de fé e de Moral. - A definigáo desta
verdade devía ocorrerpouco depois, por ocasiáo do Concilio do Vaticano I (1870).

535
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

Apesar das suas facanhas, o rei nutrirá sempre no fundo da alma os


sentimentos religiosos da casa de Savoia.

2. O "anti-semitismo" de Pió IX

O principal título de anti-semitismo atribuido a Pió IX está ligado ao


caso de Edgar Mortara. Vejamos, pois, o que se deu na realidade.

2.1. Osfatos

Edgar (ou Edgardo) Mortara era filho de um casal de judeus resi


dentes no Estado Pontificio. Em 1852, quando o menino tinha dois anos
de idade, caiu gravemente enfermo, a ponto que os médicos nao tinham
esperanca de salvá-lo. Foi entáo que a sua ama, urna jovem católica,
resolveu batizá-lo. Eis, porém, que Edgar recuperou a saúde para gran
de surpresa dos médicos.

Aos sete anos de idade, o menino ainda nao recebera a ¡nstrucáo


religiosa correspondente ao seu Batismo - o que era inconcebível na-
quela época, mormente no Estado Pontificio, regido pelas leis da Igreja.
As autoridades civis do Estado foram procurar os genitores de Edgar e
Ihes perguntaram se queriam encarregar-se de prover á instrugáo católi
ca do seu filho. Tendo sido negativa a resposta, Edgar foi retirado da
casa de seus pais e levado para Roma. Nesta cidade o Papa quis orien
tar pessoalmente a educacáo de Edgar, tornando-se como que um se
gundo pai do menino.

Onze anos mais tarde, o jovem retornou á casa paterna com dezoi-
to anos de idade. Conviveu tranquilamente com pai e máe durante um
mes; foi-lhe dado entáo escolher a religiáo que desejava seguir. Edgar
optou livre e conscientemente pelo Catolicismo. Voltou para Roma e lá
procurou um Seminario, desejoso de se tornar padre. Na verdade, foi
ordenado em 1873 e permaneceu fiel á sua vocacáo por todo o resto de
sua vida. Quando foi aberto o processo de Beatificacáo de Pió IX em
1907, o Pe. Edgar Mortara foi urna das primeiras testemunhas que ates-
taram a bondade e as virtudes notáveis do Pontífice. Este nutria afeicáo
paterna para com Edgar e, por sua vez, Edgar muito estimava Pío IX.
2.2. Que dizer a propósito?

Está claro que o procedimento de Pió IX foi condicionado pelas


circunstancias do século passado. Nao se entendía entáo que urna crian-
ca batizada nao fosse educada na fé católica; ela o devia ser por forca
das leis vigentes no Estado Pontificio, que eram as leis da Igreja. O que
as autoridades do Estado fizeram á familia Mortara, elas o teriam feito a
qualquer familia católica que se recusasse a educar na fé católica os
filhos batizados. É de notar, alias, que somente Edgar e nenhum de seus
sete irmáos foi levado para longe da casa paterna.

536
O PAPA PIÓ IX: FIGURA CONTROVERTIDA

Pergunta-se entáo: a ama que batizou secretamente o menino, pro-


cedeu corretamente? - Deve-se dizer que procedeu de acordó com os
difames de sua consciéncia orientada por sua fé. Aínda hoje o Código de
Direito Canónico autoriza o Batismo de enancas postas em perigo de
morte, mesmo quando filhas de pais nao católicos1.

Em nossos dias, porém, ninguém ousaria arrebatar urna crianca


da casa dos pais a fim de Ihe ministrar instrucáo católica. Esperar-se-ia
que o adolescente ou o jovem optasse livremente pelo Credo que nortearía
sua vida. No século XIX, porém, isto nao seria compreendido.
2.3. Aínda Pió IX e os judeus

Nem sempre se poem em relevo outros tragos do relacionamento


de Pió IX com os judeus.

Assim, pouco depois de eleíto em 1846, o Papa foi saudado pelos


judeus como sendo seu melhor amigo na Italia, pois o Papa recém-eleito
se mostrava liberal.

Em 1847, o rabino-chefe da Universidade Judaica em Roma, Mosé


Israel Kazzan, dedicou um salmo e urna oracáo ao "glorioso e ¡mortal"
Papa.

Na noite de 17 para 18 de abril de 1848 Pió IX ordenou que fossem


derrubadas as portas do ghetto dos judeus em Roma e eximiu-os de
qualquer tarefa humilhante que Ihes tocava prestar na cidade. Declarou
que nao eram estrangeiros e mandou que tropas armadas patrulhassem
as rúas do ghetto para defender seus habitantes contra qualquer incur-
sáo do povo descontente pela "emancipacáo" do ghetto.

Verdade é que Pió IX reprimiu os judeus que se haviam associado


as torgas nacionalistas revolucionarias que ameacavam a seguranca do
Estado Pontificio. Nao o fez, porém, porque tais homens eram judeus,
mas porque eram adversarios da ordem vigente no Estado.

Eis o que se pode dizer a respeito do "anti-semitismo" de Pió IX.


Como se vé, os fatos nao justificam a acusacáo levantada contra o Pon
tífice.

1 Eis o teor do canon 868 do atual Código de Direito Canónico:


"Can. 868 - § 1. Para que urna enanca seja licitamente batizada, é necessário que:
1a os pais, ou ao menos um deles ou quem legítimamente faz as suas vezes,
consintam;
2S naja fundada esperanga de que será educada na religiáo católica; se essa es-
peranca faltar de todo, o batismo seja adiado segundo as prescrigóes do direito
particular, avisándose aos pais sobre o motivo;
§ 2a. Em perigo de morte, a crianca fllha de pais católicos, e mesmo náo-
católicos, é licitamente batizada mesmo contra a vontade dos pais».

537
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

3. O Processo de Beatificacáo

O Processo de Beatificacáo de Pió IX foi iniciado em 1907 sob o


pontificado de Pió X (1903-14). Foi um dos mais longos e debatidos pro-
cessos da Congregacáo para as Causas dos Santos, pois o "Advogado
do Diabo" (encarregado de contestar as virtudes do candidato) conse-
guiu que fosse suspenso mais de urna vez, nao por causa de acusacóes
de ordem moral, mas porque se objetavam ao Pontífice atitudes duras,
impulsivas e, por vezes, indelicadas, que afetavam a sua imagem. Nao
obstante a oposicáo, os Papas foram sucessivamente reabrindo o pro
cesso, pois Pió IX, apesar de seu temperamento, revelara ser um ho-
mem de profunda fé e grande zelo apostólico. Em pleno século de
racionalismo e materialismo, a Igreja, sob Pió IX, conheceu extraordina
ria vitalidade: foram entáo fundadas diversas Congregacoes Religiosas
dedicadas ao tratamento de enfermos, á educacáo de adolescentes e
jovens, as missoes; entre 1862 e 1865 Pió IX teve a ocasiáo de aprovar
74 novas Congregagóes Religiosas femininas; no final do século XIX havia
44.000 Irmas trabalhando em territorios de missáo; em 1877 somente a
Franca contava 30.287 Religiosos e 127.753 Religiosas.

O grande impulso para a Beatificacáo de Pió IX foi dado por Paulo


VI (1963-78), consciente das grandes realizacóes do pontificado de Pió
IX. Em 1975 resolveu reabrir o Processo que fora suspenso, confiando a
um perito suíco, Cario Snider, a tarefa de investigar com exatidáo os fa-
tos relativos ao controvertido Pontífice. Cario Snider, estudioso leigo que
trabalhara por varios anos na Congregacáo para as Causas dos Santos,
examinou toda a documentacáo respectiva e concluiu sua pesquisa após
nove anos, entregando á Congregacáo para as Causas dos Santos um
documentário de mais de 200 páginas, que comprovavam a heroicidade
das virtudes de Giovanni Maria Mastai Ferretti (1792-1878).
Snider afirmava que Mastai Ferretti fora um homem bom e dedica
do ao seu pesado encargo; era dotado de certo tom de ironía que nem
todos compreendiam de ¡mediato. Muita atencáo merecía urna certa de
ficiencia física do Papa, a saber: a epilepsia, de que sofreu a vida inteira
e que o acometía imprevistamente, tornando-o nervoso, irascível e
imprevisível; tais crises explicam as suas atitudes, por vezes, bruscas e
impulsivas. Snider, porém, realcou os esforcos que o Papa fazia para se
dominar, esforcos que Ihe valeram (com a graca de Deus) a fortaleza de
ánimo, da qual deu pravas durante todo o seu pontificado, enfrentando
adversidades de ordem política, estratégica e intelectual ou filosófico-
religiosa. Snider enfatizou grandemente o empenho do Pontífice por cum-
prir suas tarefas, lutando contra múltiplas dificuldades, e pedia aos juízes
do Processo que nao se deixassem impressionar pela oposicáo levanta
da por Bismarck, chanceler alemáo promotor do Kulturkampf ou da perse-

538
O PAPA PIÓ IX: FIGURA CONTROVERTIDA

guicáo á Igreja (1871-78), nem pelas ameacas da Inglaterra dirigidas con


tra a noticia de que se estava para definir a infalibilidade papal (os ingle
ses chegaram a mandar um navio de guerra ao litoral da Italia para ad-
moestar o Pontífice!)1. Snider pedia outrossim especial atencáo para os
tempos agitados em que se desenvolveu o pontificado em foco.

O relatório de Cario Snider calou fundo na mente dos interessados


e chegou finalmente ao conhecimento de Joáo Paulo II, que resolveu
fazer o que até o ano 2000 nenhum Papa ousara fazer. O impulso decisorio
para tanto foi um milagre (devidamente examinado e comprovado por
peritos) ocorrido em favor de urna Religiosa francesa na década de 1980.
Aos 15 de Janeiro de 1986, a cura dessa Religiosa posta em estado ter
minal, após ter recorrido á intercessáo de Pió IX, foi reconhecida como o
sinal de Deus que referendava o parecer dos juízes favoráveis á Beatifi-
cacáo de Pió IX.

Todavía aínda quatorze anos foram necessários para que o Santo


Padre resolvesse proceder á Beatificacáo, dada a forte oposicáo que se
fazia ouvir contra o Pontífice mal entendido e desfigurado pela crítica.
Deve-se sublinhar que a decisáo de Joáo Paulo II nao se deve a razóes
políticas, como se fosse o Papa, em sua habilidade administrativa, quem
decidisse beatificar ou canonizar alguém. O Papa é servidor da verdade,
do amor e da justica. A Beatificacáo de Pió IX bem evidencia que a Igreja
nao se norteia por desejo de ganhar simpatía e aplausos meramente
humanos, mas por criterios objetivos, como quem quer ser fiel a Deus,
Justo Juiz e Tutor da Verdade e do Amor.

A Beatificacáo de Pió IX e a de Joáo XXIII demonstram a vitalidade


da Igreja em épocas diferentes, ñas quais Deus quis suscitar os Pastores
adequados para a sua Igreja. Entre Pió IX e Joáo Paulo II outros grandes
vultos de Pontífices marcaram a historia da Igreja e da Humanidade, fa-
zendo prorromper do ánimo do fiel observador um hiño de gratidáo ao
Senhor Deus.

4. Fala o Papa Joáo Paulo II

Por ocasiáo da Beatificacáo de Pió IX, aos 3/9/00, o Santo Padre


Joáo Paulo II proferiu a respectiva homilía, da qual sejam transcritos os
seguintes dizeres:

"Ao ouvir as palavras de aclamagáo ao Evangelho: 'Senhor, guia-


nos pelo caminho reto', nosso pensamento se volta espontáneamente

1 Aínda por ocasiáo dos funerais de Pió IX em 1878 registrou-se um tumulto: os


revolucionarios nacionalistas italianos e os anticlericais quiseram apoderarse do
caixáo do Pontífice para langá-lo no rio Tibre. Foram impedidos de o fazer pelos fiéis
devotos, que rezavam o terco acompanhando o cortejo fúnebre.

539
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

para a vida humana e religiosa do Papa Pió IX, Giovanni María Mastai
Ferretti. Frente aos eventos tormentosos do seu tempo, foi um exemplo
de adesao incondicional ao imutável depósito das verdades reveladas.
Fiel, em todas as circunstancias, aos compromissos do seu ministerio,
ele soube tributar a primazia absoluta a Deus e aos valores espirituais.
Seu muito longo pontificado nao foi nada fácil e muito teve que sofrerno
cumprimento de sua missáo a servigo do Evangelho. Foi profundamente
estimado, mas também odiado e caluniado.

Todavía foi precisamente em meto a essas contradigoes que brí-


Ihou mais vivamente a luz de suas virtudes; provagóes prolongadas forta-
leceram sua confianga na Providencia Divina, Providencia cujo dominio
soberano sobre a historia humana ele jamáis pos em dúvida. Foi dafque
nasceu a profunda serenidade de Pió IX, mesmo diante das
incompreensóes e dos ataques de tantas pessoas hostis. Costumava di-
zer a quem com ele convivía: 'No setor das coisas humanas, é preciso
que nos contentemos com fazero melhorpossível e, quanto ao mais, que
nos entreguemos á Providencia, que suprirá os defeitos e as insuficienci
as do homem'.

Sustentado por esta íntima convicgáo, Pió IX convocou o Concilio


ecuménico do Vaticano I, que esclareceu com autoridade magistral cer
tas questóes entáo debatidas, confirmando a harmonía entre a fé e a
razáo. Nos momentos de provagáo, Pió IX encontrou sustentáculo em
María, para com a qual ele nutría grande devogáo. Proclamando o dogma
da Imaculada Conceigáo, recordou a todos que, ñas tempestades da exis
tencia humana, a luz de Cristo brilha na Virgem, mais forte do que o peca
do e a morte".

Eis, em sintese, alguns dos aspectos positivos da personalidade


de Pió IX, que, por graca de Deus, Ihe valeram o título de Bem-aventurado.

Na mesma homilía dizia aínda o Santo Padre:

"A santidade é vivida na historia e nenhuma salvagáo escapa aos


limites e aos condicionamentos próprios da nossa humanidade. Ao bea
tificar um de seus filhos, a Igreja nao celebra as opgóes históricas parti
culares que ele realizou, mas antes Ela o indica como devendo ser imita
do e venerado por causa de suas virtudes e como um louvor á graga
divina que resplandece nessas virtudes".

Tais palavras querem lembrar que cada Santo vive num contexto
histórico próprio, em que ele tem de exercer a fé e o amor. As expressóes
da fé e do amor podem variar de época para época, ditadas pelas exi
gencias de cada momento. Em nossos dias nao se repetiriam todas as
facanhas dos antepassados, mas, apesar disto, pode-se e deve-se reco-

540
O PAPA PIÓ IX: FIGURA CONTROVERTIDA 13

nhecer a heroicidade com que sinceramente os Santos exprimiram suas


virtudes.

Para ilustrar esta afirmacao, sejam citados alguns exemplos de


Santos cuja grandeza de alma pode merecer admiracáo, sem que hoje
se possa ou deva reproduzir o que fizeram:

Sao Simeáo Estilita (t 459) viveu muito tempo no topo de urna


coluna de 40 cóvados, onde jejuava e rezava.

Sao Simeáo Estilita, o Jovem (t 502), fez coisa semelhante.

Santo Aleixo (século V), na noite de nupcias, fugiu de Roma e foi


para Edessa na Siria, onde passou dezessete anos como mendigo. Atra
ído por um sinal do céu, voltou para Roma, onde ninguém o reconheceu;
foi ter á casa de seus familiares, que o acolheram num recanto como se
fosse um mendigo. Ai morreu. Só depois de sua morte, um papel deixa-
do por Aleixo deu a saber quem ele era.

Sao Bento-José Labre (t 1783) fez-se peregrino e mendigo ñas


estradas da Franca.

Sao Luís, rei de Franca (t 1271), organizou duas Cruzadas para


resgatar os santuarios da Palestina. Morreu ao dirigir a segunda cruzada,
vítima de peste, as portas de Túnis.

Santa Joana d'Arc (t 1431) foi guerreira, comandante de tropas...

Aos 4/9/00 dizia mais urna vez o Santo Padre, falando a um grupo
de peregrinos:

"Pió IX era estimado por causa de sua bondade paterna: ele gosta-
va de pregar como um simples sacerdote, administrar os sacramentos
ñas igrejas e nos hospitais, encontrar o povo romano ñas rúas da Cida-
de. O mundo nem sempre o compreendeu: aos 'hosanas' do inicio de seu
pontificado seguiram-se em breve acusacoes, ataques e calúnias. Toda
vía ele jamáis deixou de ser indulgente para com os próprios inimigos. O
espirito de pobreza, a fé em Deus e o abandono ñas máos da Providen
cia, unidos a um agudo senso de humor, ajudaram-no a superar os mo
mentos mais dificéis. 'Minha política, costumava ele repetir, é: Painosso,
que estás nos céus'; indicava ele assim que o seu Guia, em todas as
encruzilhadas da vida e do governo da Igreja, era Deus, no qual ele de-
positava total coni'langa. Pió IX vivenciou também um abandono filial á
Virgem María, da qual ele definiu o dogma da Imaculada Conceigáo.

É-me outrossim caro recordar que Pió IX foi particularmente solici


to para com a Térra Santa, onde ele quis restaurar o Patriarcado latino de
Jerusalém. Para sustentá-lo, restabeleceu, em seguida, a Ordem dos
Cavaleiros do Santo Sepulcro de Jerusalém".

541
"Profecías" sinistras:

TERCEIRO SEGREDO DE FATIMA


NAO TODO REVELADO?

Em síntese: Há quem insista em dizer que o terceiro segredo de


Fátima nao foi totalmente revelado, devendo aínda ocorrer diversas cala
midades precursoras da segunda vinda de Cristo. Váo, a seguir, publicadas
"profecías" desse tipo com a respectiva refutagáo. A situagáo sombría do
mundo atualleva muitas pessoas a crer que "só Deus dará um jeito", e o
dará drásticamente. Tal previsáo carece de fundamento.
* * *

Varios fiéis católicos insistem em dizer que o terceiro segredo de


Fátima nao foi totalmente revelado, de modo que se esperam ainda di
versas calamidades, que precederáo a segunda vinda de Cristo. - A títu
lo de ilustracáo váo, a seguir, publicados dois espécimens dessa menta-
lidade sinistra, que a muitos impressiona; ao que acrescentaremos urna
reflexáo serena.

1. "Somente quatro dentre trinta e nove páginas foram reveladas!"

1.1. A "profecía"

Via internet recebemos do Pe. Leo Persch, de Pelotas (RS), a se-


guinte mensagem:

Nos dias 13/05/2000 e 26/06/2000 foram divulgadas informacóes


parciais sobre o terceiro segredo de Fátima. O manuscrito da confidente
Irma Lucia, redigido em 1944, abrange um total de 43 páginas das quais
somente 4 (quatro) foram divulgadas, cujo conteúdo afeta diretamente a
pessoa do Papa Joáo Paulo II. Ficamos na expectativa da divulgagáo
das restantes 39 páginas, com os conteúdos queja foram abordados, em
diversas ocasides, pelos papas Joáo XXIII, Paulo VI, e, nomeadamente,
pelo próprio Joáo Paulo II. Em toda a sua extensáo, o documento fala
sobre:

1-O afastamento e a morte de Joáo Paulo II;

2- A grande tribulagáo (Apocalipse);

3- A grande purificagáo da humanidade e de toda a criagáo;

4- A nova evangelizagáo em todo o mundo em testemunho a todos


os povos;

542
TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA NAO TODO REVELADO? 15

5- A nova criagáo;

6- A vinda gloriosa de Jesús;

7- A civilizagáo do amor e da paz no terceiro milenio.

Com excegáo do trágico afastamento e morte de Joáo Paulo II,


nada mais consta ñas 4 páginas do texto que foi publicado. Numa atitude
injustificável, a mídia declarou que se trata, nessas 4 páginas, da "íntegra
do terceiro Segredo de Fátima"- o que é inadmissfvel.

Além disso, torgas sinistras estao inculcando que todo o terceiro


segredo já aconteceu no día 13 de maio de 1981, o que é um absurdo,
porque implica em flagrante contradigáo com as 4 páginas que foram
publicadas. Naquele día fatídico do atentado contra o Papa nao acon
teceu nada daquilo que foi publicado sobre o terceiro segredo. O Papa
"nao caminhou por urna cidade em ruinas"; "nao encontrou cadá
veres de mártires da fé"; "nao veio escoltado por soldados com
armas de logo e flechas"; (Nota: ali estava apenas um pistoleiro con
tratado, AHAgca); "nao subiu urna montanha acompanhado por urna
multidáo de fiéis"; "nao apareceu no alto do monte urna tosca cruz
de madeira, perante a qual o Papa se ajoelhou e rezou pelos que
morreram mártires"; "o Papa nao foi morto sob o disparo de ar
mas de fogo e flechas pelos soldados"; "o grupo de soldados nao
matou ali varios bispos, padres e religiosos, juntamente com nu
merosos fiéis", etc..

Apesar da total contradigáo entre os fatos de 1981 e a profecía de


Fátima, o mundo ficou fascinado com a engenhosa interpretagáo de que
a profecía do terceiro segredo já se cumpriu. Sabemos - e todos o reco-
nhecem - queja se cumpriram o primeiro segredo (anuncio da 2a guerra
Mundial) e o segundo (sobre a ascensáo e queda do comunismo), ambos
publicados em 1929. Ora, a queda do comunismo e a conversao da Rússia
aconteceram em 1991, e agora, no ano 2000, um público, como que hip
notizado pela mídia, engoliu o anuncio de que o terceiro segredo já acon
teceu 10 anos antes do segundo segredo. E isso num único día. "Nos
tempos fináis - diz a Biblia - os homens nao mais suportaráo a doutrina
da salvagáo, ... afastaráo os ouvidos da verdade para acreditar em fábu
las" (2Tm 4, 3s).

Bem antes das aparigóes em Fátima, Sao Pío X (Papa, 1903-1914),


tomando conhecimento de varias mensagens de María sobre o desenla
ce trágico de um papa futuro, exclamou: "Por ventura serei eu, ou será
um de meus sucessores?". O terceiro segredo de Fátima nao é novidade,
já anunciado desde sáculos por videntes e desde milenios pela Biblia.

543
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

O terceiro segredo de Fátima se cumprirá aopé da letra, bem como


todas as profecías da Biblia (isto é, todos os Profetas, varios Salmos, o
Evangelho, as Cartas e o Apocalipse). Os últimos papas muito falaram a
respeito, conforme vimos. Um claríssimo resumo se encontra em quatro
versículos de Zacarías: 13, 7.8.9; 14, 5...

Já anunciamos que o fumo de satanás bloqueia cada vez mais o


Vaticano, até o día em que vai explodirem cheio contra o "Corpo místico
de Cristo", que é a "sua Igreja". Seu alvo principal é o papado, Paulo VI
experimentou em cheio e na própria carne este veneno satánico, Joño
Paulo I foi sua vítima fatal e Joao Paulo II seu eterno perseguido, com
atentados, obstrugdes e campanhas de difamagáo, até chegar a hora
fatal de seu doloroso e glorioso desenlace. A perversidade dos impíos
descarregará todo o seu furor contra os cristáos, conforme o terceiro se
gredo e a Biblia, "quando a forga do povo santo for inteiramente reprimi
da" (Daniel 12, 7), bem como Ap 6, 7-8, "sobre a quarta parte da térra".
No evangelho as provas estáo em Mt 10, 17-23; Me 13,9-13; Le 2, 12-19,
Jo 16, 2-4 etc..

' Com a derrubada do Papa Joáo Paulo II, conforme 2Tes 2, 7-12, "O
impío (o anticristo, urna indisfargável encarnagáo de satanás) se mani
festará publicamente usurpando o trono de Sao Pedro. Ele vai desenca-
dear a grande rebeliao universal dos povos da Térra, contra Deus e seu
Cristo", conforme anuncia todo o salmo 2 e todo o capítulo 13 do Apoca
lipse.

Outrogrande triunfo de satanás é confundirá Parusia, a Vinda Glo


riosa de Cristo, com o Fim do Mundo. O maligno conseguiu injetar mais
este veneno na opiniáo da maioria dos cristáos e como é custoso
convencé-los da falsidade desse lamentável equívoco! Encarecemos a
necessidade urgente de retorno ao sentido original da Biblia, dos Apos
tólos e dos primeiros Cristáos, para nao se tornarem vítimas de urna fatal
desilusáo. Aguardamos, isso sim, o fim do príncipe deste mundo (Ap 20,
1-3), de "Satanás e os espírítos malignos, que andam pelo mundo para a
perdigáo das almas" (Leáo XIII). Esperamos a "Nova Criagáo" (Mt 19,
28), a "Restauragáo universal" (At 3, 20-21), o Novo Mundo que há de vir,
que é "o Novo Céu e a Nova Térra" (2Pd 3, 13; Ap 21, 1), e "o Glorioso
Terceiro Milenio". É disso que fala o terceiro segredo de Fátima, os Pa
pas do século passado e principalmente todos os Papas do século XX.
Com o esplendor da vinda Gloriosa de Jesús, este mundo caduco e satá
nico vai terminar, e a nova criagáo feita por Deus vai comegar. Por isso, já
desde quase dois mil anos sempre rezamos: "Venha a Nos o Vosso Rei
no", e desde 1969 pedimos ñas oragóes litúrgicas e em todas as Missas:
"Vinde, Senhor Jesús - esperamos a Vossa Vinda Gloriosa". Amém.

Pe. Leo Persch

544
TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA NAO TODO REVELADO? 17

1.2. Refletindo...

Proporemos quatro observacóes.

1) Leitura subjetiva da Biblia

As "profecías" atrás apresentadas derivam-se de urna leitura sub


jetiva da Biblia, desligada da Palavra oral do Senhor que bercou a Biblia
e a acompanha através dos séculos. A Biblia só pode ser auténticamente
entendida se recolocada dentro da Tradícáo oral formulada pelo magis
terio da Igreja. Em caso contrario, corre-se o risco de introduzir na Escri
tura Sagrada teses preconcebidas, em vez de deduzir da mesma a sua
genuína mensagem. As modernas "profecías" apelam para o texto sa
grado sem recurso ao respectivo contexto e á mentalidade dos autores
antigos; disto podem resultar interpretacóes gravemente erróneas.
2) Fim dos tempos?

A distincáo entre fim dos tempos e fim do mundo carece de funda


mento na Escritura e na Tradicáo. Estas só conhecem urna segunda vin-
da de Cristo, que rematará a historia como ó vivida neste mundo e con
sumará a obra da Redencáo. Nem o milenarismo nem o conceito de urna
nova era, só de paz e amor, tém apoio objetivo. Sao projecóes da imagi-
nacáo de quem verifica quáo ingratos sao os tempos atuais a ponto mes-
mo de exigirem urna intervencáo drástica de Deus para por fim aos ma
les e inaugurar bonanca sobre a térra. Esta expectativa corresponde a
um mecanismo psicológico: procura-se urna solucáo para os desatinos
presentes, solucáo que nenhum homem é capaz de dar e que por isto é
transferida para o poder de Deus, Senhor da historia.

A fé, porém, lembra os dizeres de Jesús em Le 17, 22: "Dias viráo


em que desejareis ver apenas um dos dias do Filho do Homem, mas nao
o veréis". Já o Senhor previu a inclemencia dos tempos atuais e o anseio
que espontáneamente brotaria da mente dos discípulos desejosos de
urna intervencáo retumbante do Senhor...; previu também o nao atendi-
mento a tal expectativa... Em conseqüéncia dir-se-á que, em vez de aguar
dar solucóes portentosas, compete aos cristáos fortalecer sua fidelidade
á grandiosa vocacáo de ser "sal da térra" e "luz do mundo" (Mt 5,13s); se
os vocacionados falham, o mundo há de se ressentir enormemente, pois,
"se o sal perde o seu sabor, nao há coisa alguma que o substitua" (cf. Mt
5, 13). Estas verdades sao mais importantes do que as "profecías".

3) Nao totalmente revelado?

É falsa a alegacáo de que, de 43 páginas do segredo, somente 4


foram reveladas, restando 39 páginas a ser ainda descobertas ao públi
co. A Congregacáo para a Doutrina da Fé, ao publicar as quatro páginas

545
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

do terceiro segredo de Fátima, teve o cuidado de publicar o fac-simile do


texto escrito á máo pela Ir. Lucia, de modo que o leitor pode cotejar o
impresso e o manuscrito, verificando que este foi totalmente revelado. As
39 páginas restantes contém urna carta do Santo Padre á Ir. Lucia, o
relato de urna visita de Mons. Tarcisio Bertone á mesma Irma, a alocucáo
do Cardeal Angelo Sodano em Fátima e a explanacáo feita pelo Cardeal
Joseph Ratzinger em torno do terceiro segredo. Estes textos já nao sao
partes integrantes do teor do segredo.

Como observa o Cardeal Ratzinger, o segredo nao contém predi-


coes, mas um retrospecto da historia da Igreja no século XX, que foi urna
época de numerosos mártires e confessores da fé,... época violenta que
atingiu a pessoa do próprio Papa. É arbitrario dizer que Joáo Paulo II
ainda há de ser assassinado e substituido por um antipapa que fará ces-
sar a oblacáo da Eucaristía. Nem o segredo de Fátima nem o texto bíbli
co dáo embasamento a tal hipótese.

4)A Decepcáo

Muito sabiamente alude o Cardeal Ratzinger á surpresa e á decep


cáo de muitas pessoas que julgavam poder prever o futuro ñas linhas do
terceiro segredo:

«Chegamos a urna última pergunta: que é que significa no seu con


junto (ñas suas tres partes) o segredo de Fátima? Que é que nos diz a
nos? Em primeiro lugar, devemos supor, como afirma o Cardeal Sodano,
que 'os acontecimentos a que faz referencia a terceira parte do segredo
de Fátima parecem pertencerjá ao passado'. Os diversos acontecimen
tos, na medida em que lá sao representados, pertencemjá ao passado.
Quem estava á espera de impressionantes revelagoes apocalípticas so
bre o fim do mundo ou sobre o futuro desenrolar da historia, deve ficar
desiludido. Fátima nao oferece tais satisfagóes á nossa curiosidade, como,
alias, a fé crista em geral, que nao pretende nem pode ser alimento para
a nossa curiosidade. O que permanece - dissemo-lo logo ao inicio das
nossas reflexóes sobre o texto do segredo -éa exortagáo a oragáo como
caminho para a salvagáo das almas, e no mesmo sentido o apelo á peni
tencia e á conversáo».

2. Nova Aparicáo em Fátima aos 25/07/00?

2.1. O texto

O jornal "Estado de Minas", em sua edicáo de 14/02/00, traz a se-


guinte noticia:

«Segundo o ex-empresário Raymundo Lopes, que foi agraciado


com as aparigóes de Nossa Senhora durante cinco anos, a próxima apari-

546
TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA NAO TODO REVELADO? 19

gao ja tem dia marcado. A própria santa foi quem marcou o encontró. 'A
partir da última aparigáo, que aconteceu na Praga do Papa no día 11 de
fevereiro de 1997, Nossa Senhora iniciou o seu afastamento da Térra
marcando o seu retorno para 25 de julho de ano 2000. O encontró vai
acontecer em Portugal na Cova da iría', conta.
A nova aparigáo foi anunciada porum anjo, que revelou a Raymundo
a mensagem da Santíssima Virgem. Neste dia o anjo Ihe ensinou urna
oragáo para ser rezada até o retorno da santa. Disse-lhe também que a
mensagem deveria chegarao Arcebispo de Leiria até o dia 22 de setem-
bro de 1999".

Segundo o Sr. Raymundo Lopes, a aparicáo de fato ocorreu; o res


pectivo relato foi assim elaborado pelo vidente:

«Obedecendo a vontade da Divina Misericordia, emanada pela San


tíssima Virgem María, passo a relatar parte do que vi e ouvi na Cova da
iría no dia 25 de julho de 2000.
Eram exatamente doze horas, quando percebi urna leve brisa a
rogar minha cabega, e vino céu um claráo como se fosse um relámpago.
Logo depois, a urna distancia de aproximadamente dez metros do
local onde me encontrava, vi Nossa Senhora, toda vestida de branco,
tendo ñas máos quatro rosas douradas...

Aqui contém o que Nossa Senhora me pediu para guardar reser


vas até o dia 15 de outubro deste ano.

Nossa Senhora entáo me disse:

Esta visáo que Deus Ihe permite, deverá escrever, e estarnas máos
dos dois Serafins, o Senhor Bispo de Leiria e do Senhor Cardeal de Belo
Horizonte, sem mais tardar. Guarde reservas sobre ela até o dia 15 de
outubro deste ano; é o prazo que o Senhor Deus fornece a estes bispos
para que isso chegue ao Vaticano.

O que vou Ihe relatar agora, poderá ser dito de ¡mediato:


Nao fizeram o que pedí aqui. Oque Deus permitiu á pastora Lucia
ver e relatar, aínda nao se cumpriu. É urgente e necessário que o corpo
clerical da Igreja promova urna consagragáo do mundo ao meu Coragáo
Imaculado, pois existe um pequeño tempo para que essas coisas pos-
sam ser modificadas, antes de se cumprirem.

Se fizerem o que pego, muita coisa será atenuada; entretanto, tem-


pos sombríos para a Igreja viráo.

Pela vontade da Divina Misericordia, devo proteger a Igreja na Amé


rica Latina, em especial no Brasil, na Europa e em Portugal, para que

547
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

nao caiam no pecado da apostasia, e possam dar ao mundo o exemplo


defé.

Entáo eu perguntei: Santfssima virgem, o que era aquilo que vi?

Ela me respondeu:

Nao cabe a vocé discernir sobre isso, entregue a esses bispos o


que irá escrever.

Dizendo isso, comecei a sentir de novo urna leve brisa no meu ros
to. Nossa Senhora comegou a se afastarno firmamento e nao vimais nada.
Raymundo Lopes

Cova da fría (Portugal) '


25 dejulho de 2000»

2.2. Comentando...

Antes do mais, convém perguntar: qual mensagem devia ser guar


dada em segredo até 22 de setembro de 1999? É de notar que a nova
revelacáo só havia de ocorrer aos 25/07/00, conforme o jornal "Estado de
Minas". Terá havido erro gráfico na página de jornal, devendo-se ler 2000
em vez de 1999?

A "nova aparisáo" terá deixado urna mensagem ainda nao revela


da. Todavía em carta particular o Pe. Fernando Leite, do Secretariado
Nacional do Apostolado da Oracáo de Portugal, escreveu:

"É um puro engaño a aparigáo ou as aparigóes do ex-empresário


Raymundo Lopes. Fez muito bem o Cardeal em proibir tal exibigáo".
O mesmo sacerdote dissipa outra ilusáo na mesma carta, ao dizer
com referencia a urna exposicáo feita em Belo Horizonte:

"Quanto á exposigáo de roupas usadas pelos pastorinhos em Fáti-


ma no dia da Aparigáo de Nossa Senhora na Cova da fría, tudo é um
engaño. Nao existe tal coisa em Portugal, e muito menos se iría mandar
para o Brasil".

Tais noticias incutem urna vez mais a urgente necessidade de sa-


dio senso crítico e sabio discernimento quando se trata de narracoes
"maravilhosas". O caminho normal do cristao é o da fé. "O justo vive da
fe" (Rm 1,17).

QUE DAREI AOS AMIGOS COMO PRESENTE DE NATAL? - UMA


ASSINATURA DE PR, QUE LHES LEMBRARÁ MEU NOME O ANO
INTEIRO.

548
Ponto discutido:

"500 ANOS. REFLEXÓES SOBRE


A EVANGELIZAQÁO"
por Evandro Faustino

Em síntese: A evangelizagáo do Brasil e da América em geral tem


sido controvertida. Há quem aponte os aspectos sombríos da mesma,
sem levar em conta quanto de grandioso e heroico houve por parte dos
missionários e de outros cristáos desejosos de dilatar o Reino de Cristo á
custa de enormes sacrificios. O Iivro de Evandro Faustino poe em relevo
quadros desconhecidos do grande público, que mostram o valor de mui-
tos homens merecedores do louvorda posteridade. O texto que se segué
apresenta aspectos muito positivos da evangelizagáo do Brasil.
* * *

Evandro Faustino traz o título de Doutor em Historia pela Universi-


dade de Sao Paulo; além do qué, é professor da Universidade de Sao
Marcos e do Colegio Sao Norberto. Publicou varios livros sobre historia
dos quais o mais recente se intitula: "500 Anos. Reflexoes sobre a Evan-
gelizacáo"1. Procura por em relevo aspectos da evangelizado do Brasil
desconhecidos pelo grande público e omitidos por aqueles que censu-
ram o trabalho missionário realizado no Brasil, como se fosse obra de
exploracáo do indígena efetuada em parceria com a Coroa de Portugal
ou a de Espanha.

Dada a importancia da temática, reproduziremos, a seguir, algu-


mas páginas da obra que desvendam horizontes pouco divulgados.
A MOTIVApÁO DO MISSIONÁRIO
"Vejamos urna afirmacáo equívoca que se costuma propalar:
'O interesse da Igreja na catequese dos indios na América era o da
exploracao comercial'.

Apelemos para o bom senso. Imagine-se o leitor na pele de um


jesuíta ou um franciscano, na Europa do século XVI. 'Vocé é urna pessoa
de inteligencia e capacidade marcadamente ácima da media, porque antes
de ser admitido á Ordem teve que passar por testes rigorosíssimos em
que a maior parte dos candidatos sucumbiu. Por ideal, por vocacáo, por
Deus, vocé renunciou a tudo: renunciou á vontade própria pelo votó de
1 Ed. Quadrante, Sao Paulo 2000, 110 x 170 mm, 70 pp.

549
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

obediencia; renunciou ao santo e legítimo direito de constituir familia pelo


voto de castidade; renunciou aos bens de fortuna pelo voto de pobreza.
Estudou, e estudou muito, durante anos e anos: filosofía, teología, her
menéutica, pastoral.
Pois bem, agora o seu superior o chama e Ihe diz: 'Vocé vai partir
para a América, para o interior do Brasil, para os sertoes do Paraguai ou
para a longínqua California. Terá de fazer uma viagem por mar em que a
probabilidade de morrer em um naufragio, ou torturado por corsarios
calvinistas, ou escravizado por piratas árabes, é de mais ou menos cin-
qüenta por cento. Vai abrir uma missáo onde os indígenas já mataram
tres antecessores seus. Se sobrevivér ao primeiro contato com eles, terá
que aprender a língua dos selvagens e passar o resto da vida
catequizando-os, enquanto mora em uma choupana, só, passando fome
e frió, enfrentando oncas e serpentes, esquecido pelos outros homens.
Mas.'coragem! No futuro essa missáo irá prosperar, tornando-se um
entreposto comercial que trará muito lucro. Vocé nao irá receber um tos-
táo, é claro, porque, além de ter feito voto de pobreza, provavelmente já
terá morrido... Mas os futuros comerciantes brasileiros, portugueses ou
italianos lucraráo as suas custas, e isso é o que importa'...
Caro leitor: esses argumentos convencé-lo-iam a vir para a Améri
ca e a dedicar-se de corpo e alma á evangelizacao?
No entanto, eles vieram. Sofreram mais de cem naufragios em cin-
qüenta anos, mas persistiram em vir. Morreram tragados pelas ondas, ou
em epidemias, ou as máos dos corsarios, mas continuaram chegando
em número cada vez maior. 'Apenas no período de 1686 a 1727, cento e
treze jesuítas que partiram da Espanha encontraram a morte em naufra
gios. Muitos outros foram vítimas de epidemias e de corsarios'1.
Vencido o océano, enfrentaram ñas selvas perigos tao atrozes que
fizeram muitos deles fugir2: 'Os relatos descrevem missionários atraves-

1 Máxime Haubert Indios e jesuítas no tempo das missóes, Companhia das Letras-
Círculo do Livro, Sao Paulo, 1990, págs. 14 e 47. Em 1570, por exemplo, o padre
Inácio de Azevedo, que já estivera no Brasil como visitador apostólico, retornava
para cá com trinta e nove missionários novos. A expedigáo partiu de Lisboa a 5 de
junho No día 15 dejulho, entre as ilhas de Terga-Corte e Las Palmas (Cananas), o
navio foi atacado por piratas franceses calvinistas chefiados por um espanhol, Jaquez
Soria e todos os jesuítas massacrados e langados ao mar. Em outubro do ano se-
guint'e aconteceu o mesmo com outros doze jesuítas chefiados pelo padre Pero
Días- o barco, que trazia também o novo govemador-geral Luís de Vasconcelos, caiu
ñas máos de outro corsario francés, Jean Capdeville, que matou o governador e
martirizou os religiosos.
2 "A maioria dos padres e dos monges fogem dessa tena ingrata e hostil, onde colo
nos pobres demais só podem oferecer-lhes rendas irrisorias e onde só se arríscam a
ser martirizados por selvagens pagaos" (ibid., pág. 40).

550
"500 ANOS. REFLEXÓES SOBRE A EVANGELIZAQÁO" 23

sando montanhas abruptas, florestas densas ou desertos sinistros, ríos


cortados por corredeiras onde as pirogas se chocam contra os escolhos.
Na bacia do Paraná e do Uruguai, surgem a floresta tropical, as chuvas
torrenciais, os pantanos, o calor úmido, 'todos os ¡nsetos e pragas que a
vinganca de Deus enviara ao Egito'. [...] Muitas vezes é preciso atraves-
sar rios a pé. Conta-se que o padre Lorenzana estava com agua até o
pescoco e, para se dar coragem, cantava a plenos pulmoes que nada
supera a busca de Cristo: 'No hay tal andar como buscara Cristo, no hay
tal anclar como a Cristo buscar". E o padre Montoya, roubado pelos carre-
gadores e abandonado na selva sob a chuva torrencial, conta que se
deitou sob urna árvore para passar a noite: 'A agua que corría pelo chao
servia-me de leito, e a que caía do céu de cobertor'1.

Que promessas de ¡ncertos lucros futuros poderiam levar urna pes-


soa a suportar esses sofrimentos? Que vantagens comerciáis motivari-
am alguém a cantar assim?

Depois, quando chegavam aos indios que procuravam converter,


eram freqüentemente recompensados com o martirio, ás vezes acompa-
nhado de requintes de crueldade, como sucedeu ao padre Blas da Silva:
'O padre Blas da Silva, tendo caído ñas máos dos paiguás, foi despido
pelos bárbaros. O cacique adornou-se com as vestimentas sacerdotais e
parodiou as cerimónias da religiáo católica, abusando do cálice para as
suas bebedeiras. Como o jesuíta, encolerizado, os ameacasse com to
dos os castigos do céu, ele bateu-lhe com o cálice sagrado na boca táo
violentamente que fez saltar varios dentes. O missionário, no entanto,
continuou a ameacá-lo e a exortá-lo, até que o pagao, exasperado, o
matou a socos'2.

Vamos supor, porém, que chegassem a voltar aos seus conventos


de origem: 'A saúde daqueles que voltam está minada pelo paludismo,
pela disenteria, por febres de todo o tipo; o corpo está amortecido por
feridas, quedas, sanguessugas, mordidas de serpentes, larvas que se
instalaram entre a carne e a pele e que tiveram de ser extirpadas com
pontas de ferro. O rosto está corroído pela barba e pelo sol, dilacerado
pelos galhos, comido por mosquitos, moscardos, abelhas, moscas que
sugam o sangue, magro de fome e de insónia. A alma está engrandecida
por ter tocado ao mesmo tempo o céu e o inferno. Amedrantados, seus
companheiros mal ousam reconhecé-los, mas os recém-chegados jo-
gam-se nos seus bracos chorando de alegría se, nessa busca pelas tre-
vas e pelo sofrimento, conseguiram arrancar algumas almas, algumas
familias, por vezes toda urna tríbo, ás garras de Satanás'3.

1 Ibid., págs. 52 e 53.


2 Ibid, pág. 56.
3 Olavo de Carvalho, loe. cit.

551
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

Mesmo assim, o esforco heroico dos missionários foi adiante, sem


interrupcáo e sem desánimos. Aos primeiros desbravamentos, seguiu-
se o esforco cotidiano, silencioso e sem fim, de educar e formar na fé as
sucessivas geracóes. Ao lado de um Nóbrega e de um Anchieta, quem
conhece os nomes de um Leonardo Nunes, um Antonio Pires, um Joáo
de Azpicuelta Navarro, que foram os seus companheiros? E das cente
nas e centenas de outros, sacerdotes e leigos, religiosos e seculares,
gracas aos quais recebemos em heranca o legado precioso da fé? E
monumental esse esforco, individual e coletivo, reconhecido ou nao. Que
forca pode té-lo motivado e sustentado, senáo uma fé viva e ardente?
Converter as almas que custaram o preco do sangue de Cristo...
Trazer ovelhas para o redil da Santa Igreja... Ser mártir... Isso era o que
movia a alma dos homens de fé daqueles tempos. Isso forjou um Junípero
Serra, um Toríbio de Benavente, um Sao Luís Beltráo, um Sao Pedro
Claver, um José de Anchieta!... Nos talvez nao tenhamos os mesmos
ideáis de heroísmo. Mas nao neguemos aos que os tiveram esse direito.
Saibamos compreender, e - quem sabe? - admirar» (pp. 16-20).

A "VIOLACÁO DA CULTURA INDÍGENA"


«Outro equívoco, um pouco diverso do da 'invasao do territorio', é
0 do 'atentado á cultura1. A invasao teria sido feita em completo desres-
peito pela cultura indígena, que foi assim destruida, num auténtico crime
de 'genocidio cultural*. Alguns argumentam que teria sido melhor para os
indios que os europeus nunca tivessem vindo á América.

Já Charles Darwin observava que 'sempre que se póem em conta


to duas culturas, uma superior e outra inferior, a cultura inferior sofre
¡mediatamente de um declínio de populacáo, por perda dos grandes
referenciais que sustentam a cultura primitiva". Hoje em dia, a mentali-
dade relativista dominante apresenta uma forte ojeriza pelas classifica-
cóes absolutas e por isso nao admite que se considere uma cultura como
inferior ou superior. Mas, ao menos do ponto de vista técnico, é simples-
mente inevitável reconhecer o primitivismo da cultura ou da civilizacáo
indígena brasileira: 'Sem escrita e sem historia, [os indios brasileiros]
encontravam-se pouco mais que na era da pedra polida'2.
Os resultados do encontró de uma cultura táo frágil com a do
Renascimento europeu tinha de ser, sob muitos aspectos, perturbador e
desastroso: 'Era muito difícil, se nao impossível, que os indígenas com-

1 Pergunte e responderemos, n. 355, dezembro de 1991, pág. 19.


2 Jorge Pimentel Cintra, O impacto das novas técnicas na América, comunicagáo
apresentada no Congresso América 92, organizado pela Faculdade de Filosofía e
Letras da USP.

552
"500 ANOS, REFLEXÓES SOBRE A EVANGELIZACÁO" 25

preendessem o modo de vida dos europeus, como era difícil aos euro-
peus compreenderem por que os indígenas nao assimilavam a cultura
européia'1.

Os primeiros a perceberem essa dificuldade, e todos os problemas


que trazia consigo, foram exatamente os missionários, sobretudo
franciscanos e jesuítas, justamente os mais acusados de descaso em
relacáo á cultura indígena. Percebendo o abismo cultural que separava a
Europa da América e buscando preservar ao máximo os valores indíge
nas diante do choque cultural que se mostrava inevitável, procuraram
criar as condicóes mais favoráveis para transmitir sem traumas aos indi
os a cultura européia. Assim nasceram as missoes ou redugóes, que se
espalharam por todo o continente, do Alasca á Térra do Fogo, do Atlánti
co ao Pacífico.

Hoje, a quinhentos anos de distancia, parece muito fácil encontrar


pontos falhos e fazer críticas as missoes, sobretudo porque, além do
catecismo, também se ensinavam aos indios as mais modernas técnicas
européias em todos os campos, da agricultura á ourivesaria, da contabi-
lidade ao canto polifónico. Mas 'que faríamos nos naquela época, inseri
dos na mentalidade de entáo? [...] O fato é que aqueles missionários
partiam de urna serie de pressupostos e agiam em conseqüéncia; esco-
Ihida a direcáo, nao mediam esforcos. E tinham como primeiro pressu-
posto o fato de que ninguém pode ser forcado á integracáo com outra
sociedade táo diferente. Por isso respeitaram muito, talvez mais do que
atualmente, os valores da sociedade indígena'2.

Assim como há valores culturáis que sao absolutos, também há


conhecimentos técnicos que constituem patrimonio da humanidade e que
nao podem ficar restritos a um grupo ou a urna nacáo. Seria justo que os
conhecimentos das mais recentes descobertas da genética, ou da
tecnología de sementes, ou dos transplantes de órgáos, ou da clonagem,
ficassem reduzidos a um pequeño grupo que os manipulasse segundo
seus próprios criterios internos? Seria justo recusar a um setor da huma
nidade os beneficios alcanzados por outro? Imaginemos por um momen
to que um grupo de cientistas suecos descobrisse a cura real e efetiva da
Aids, mas que se recusasse a fornecer essa descoberta aos países afri
canos - precisamente aos que mais necessidade tém déla -, sob a ale-
gacio de que eles sao de outra cultura. Que justos e indignados clamo
res subiriam de todas as partes do mundo contra essa prepotencia!

Esse era precisamente o problema com que se defrontavam os


missionários do século XVI, quando a colonizacáo efetivou o contato da

1 Pergunte e responderemos, n. 355, dezembro de 1991, pág. 18.


2 Jorge Pimentel Cintra, op. cit.

553
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

sofisticada tecnología do Renascimento com as técnicas neolíticas das


tribos brasileiras1.

Quais eram os conhecimentos técnicos dos indígenas do Brasil?


'Destaque-se a bebida fermentada, o cauim, os artigos de producáo indí
gena: madeiras, peles, carnes e peixes, pássaros e ervas medicináis, e
talvez mais alguns poucos produtos que se comercializavam entre o pla-
nalto e a praia. Mas nao passamos disso: uma técnica rudimentar que
consistía na transmissáo, de geracáo em geracáo, do resultado de diver
sas experiencias de acertó e erro'2. Em contraste, qual era o conheci
mento técnico efetivamente trazido ao Brasil pelos europeus? Podería-
mos estender-nos por varias páginas falando de edificacao, metalurgia,
hidráulica, pavimentacao, construcáo de pontes, industria alimenticia, arte
textil, técnicas agrícolas, pastoreio, criacáo de gado, carpintaria, estatuaria,
ourivesaria, etc. Seria justo reservar esse conhecimento ao homem branco
e nao permitir que os indios o aproveitassem também?

Mas o bom senso prevaleceu e muitos colonizadores, particular


mente os missionários, se dispuseram a ensinar as técnicas da Europa
aos indios, com o evidente interesse de ajudá-los, e nao como uma afronta
premeditada á sua cultura. Alias, essa ausencia de preconceito cultural
fica evidente na medida em que, por sua vez, os colonizadores adotaram
com toda a simplicidade os costumes e técnicas indígenas que julgaram
melhores que os seus, como por exemplo o uso da rede... e o banho
freqüente.

Se fóssemos considerar isso um genocidio cultural, teríamos que


denunciar também as influencias maléficas sofridas pela cultura ociden-
tal. Um dos costumes que passou de um lado para o outro foi, por exem
plo, o hábito indígena de fumar. Haveria hoje no mundo um tribunal que
aceitasse um processo contra os indios e os missionários, movido pelo
mais delirante inimigo do cigarro, pedindo uma indenizacáo pelos males
que o fumo brasileiro fez nos costumes, na cultura e na saúde dos euro
peus? Ou deveremos pelo menos exigir dos indios um pedido de perdáo
pela propagacao da nicotina na Europa?

Mas, para que pudesse haver qualquer transmissáo de conheci


mentos, havia uma condicao previa que era o dominio da língua. Foi o
que perceberam os missionários. E, fato curioso, ao invés de 'imporem'
aos 'dominados' a língua européia 'dominante' - veículo alias muito mais

1 Esse tema é abordado no befo trabalho de Jorge Pimentel Cintra, professor de


Filosofía da Ciencia e da Técnica na Escola Politécnica da USP, queja citamos e que
nos servirá de guia para todo este parágrafo.
2 Jorge Pimentel Cintra, op. cit.

554
"500 ANOS. REFLEXÓES SOBRE A EVANGELIZACÁO" 27

apto para transmitiros conhecimentos técnicos que desejavam transferir


-, a primeira medida que tomaram foi aprender as línguas indígenas e
compendiá-las em gramáticas. E, se hoje conhecemos a língua tupi na
sua forma clássica, é porque o padre Anchieta cometeu a 'afronta1 cultu
ral de recolhé-la e dar-lhe uma forma escrita, criando ao mesmo tempo a
primeira poesía, o primeiro teatro e a primeira literatura em tupi que se
conservaram até hoje. A quase totalidade das línguas indígenas que so-
breviveram até os nossos dias, só o fizeram porque os missionários, já
nos primeiros contatos, se empenharam em estudá-las e conservá-las.

Qual foi o resultado desse ¡menso trabalho de aculturacáo que du-


rou tres séculos e que nao teve paralelo na historia? Está exposto e ana-
lisado em uma ¡mensa quantidade de obras dedicadas ao assunto. Mas
tomemos o testemunho dos próprios indígenas, mais expressivo e fácil
mente verificável através de uma reacáo sintomática. Quando, depois da
Independencia da América, os indios foram convidados a autogerir-se e
organizar-se, aqueles que tinham sido formados ñas colonias inglesas
optaram por voltar á sua cultura de origem. Já a totalidade dos indígenas
que haviam sido formados ñas culturas latinas e católicas preferiram con
tinuar nos novos costumes1.

Alias, essa constatacáo remete a um aspecto curioso do debate


sobre a integracáo ou preservacáo da cultura indígena. Muitos clamam e
opinam sobre o que se deve fazer a respeito dos indios. Mas poucos,
pouquíssimos, se preocupam de investigar junto aos indios o que eles
realmente desejam, antes de serem doutrinados pelas ONGs e pelos
seus antropólogos...

Há uma corrente sociológica, e talvez também ideológica e políti


ca, que defende acirradamente a idéia do isolacionismo: o indio, aínda
hoje, deveria ser mantido á margem da influencia do branco. Mal compa
rando, e pedindo desculpas pela crueza da expressáo, parece que essas
pessoas preferem manter os indios numa especie de 'jardim zoológico'
cultural, para objeto da curiosidade e do estudo dos outros povos. Se os
indios real e livremente assim o desejarem, tudo bem. Mas será que o
querem? Quando os vemos vestindo roupas 'de branco', jogando fute-
bol, comercializando seu mogno e suas pedras no exterior, adquirindo
televisores e video-cassetes, tendo 'sites' na Internet e talando em celu
lares, é difícil achar que realmente o queiram2.

1 Pergunte e responderemos, n. 358, margo de 1992, pág. 6.


2 Cfr., por exemplo a Folha Revista de 16.04.2000, com reportagem a respeito da
primeira "grife" indígena de alcance nacional; o artigo O mito do indio, de Miguel
Reate, em O Estado de Sao Paulo, 26.06.92; a reportagem de Márcia Guerreiro, Tutu
Pombo, o cacique que ganha dinheiro, em O Estado de Sao Paulo, 21.06.1990; ou
aínda a de Roldáo Anuda, em O Estado de Sao Paulo de 6.08.2000.

555
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

Ora, se eles nao quiseram ir para o 'zoológico', quem terá autorida-


de para impedi-los? Nao teráo eles o direito de buscar o convivio social e
a integracáo com os outros povos? Exageras á parte, bem cabe aquí o
comentario de Olavo de Carvalho: 'Muitos de nossos indios abandona-
ram a cultura tribal, entraram na nova sociedade, adotaram a religiáo
crista. O Parlamento e as Universidades estao repletos deles, e cada
familia antiga deste país se orguiha de ter mais que uma gota de sangue
indígena. Os outros caíram vítimas de uma antropología maluca [...] e
empenhada em conservá-los como objetos de museu e bichinhos de esti-
macáo. Os primeiros representam a forca e a gloria das racas indígenas. Os
segundos, a vergonha e a morbidez de um atavismo insano, alimentado e
manipulado por um dominador mais rico e malicioso do que aquele contra o
qual hoje ostentam uma revolta esquizofrénica e deslocada no tempo".

Fala-se muito, atualmente, dos males que os europeus trouxeram


aos indios da América, e particularmente do Brasil. Mas a justica e a
eqüidade mandariam perguntar: será que nao trouxeram também algo
de bom? 'Será que a contribuicáo do homem branco no Brasil e na Amé
rica se limitou ao genocidio dos povos nativos e á destruicáo da sua
cultura, sem que tenha acrescentado mais nada em materia de principi
os civilizatórios, de religiáo, de arte, de direito, de moral, de tecnología,
de pensamento, de ciencia, decisivos para a formacáo de nossa perso-
nalidade nacional e da nossa identidade cultural? Será que o homem
branco só trouxe devastacáo? Ou introduziu, ao mesmo tempo, certas
instituicoes, certos principios e valores essenciais para nossa vida e nos
sa cultura? Em suma, será que nao valeu a pena construir o Novo Mun
do, este onde respiramos e que lutamos por aperfeicoar? No caso do
Brasil, seria melhor que, após a chegada de Cabral, os portugueses se
fizessem ao largo para sempre, abandonando aqueles homens e mulhe-
res cor de cobre á bem-aventuranca paradisíaca?2" (pp. 24-31).

CURSOS POR CORRESPONDENCIA


"CONHECER A DEUS É VIVER, E SERVIR A DEUS É REINAR".
CARO(A) AMIGO(A), VIDA TRANQUILA SÓ SE PODE OBTER
MEDIANTE TOTAL FIDELIDADE A DEUS. ELE É O GRANDE TU DA
VIDA HUMANA. PROCURE, POIS, CONHECER MELHOR ESSE NO-
BRE REFERENCIAL. ELE CRIOU O SER HUMANO PARA O INFINITO
E O MARCOU COM A SEDE DO INFINITO. CURSOS POR CORRES
PONDENCIA DA ESCOLA "MATER ECCLESIAE"; TELEFAX: 0 XX 21
242-4552 OU CAIXA POSTAL 1362, 20001-970 RIO (RJ).

1 Olavo de Carvalho, loe. cit.


2 Gilberto de Meló Kujawski, 500 anos - da lenda dourada a lenda negra, em O
Estado de Sao Paulo, 20 de abril de 2000.

556
A Terceira Idade:

'UM FANTASMA CHAMADO 'VELHICE'

Em síntese: A velhicepode ser penosa. Daía necessidade de que


os andaos sejam ajudados a vivenciá-la com serenidade e mesmo com
certa alegría: a alegría da maturídade, da sabedoria experimentada, da
tarefa cumprida... O livro "Envelhecer com Dignidade", da Irma Gema
Destéfani, vem a ser um repertorio muito útil de conselhos e sugestóes
para que alguém se sinta tranquilo na terceira idade tanto no plano físico
quanto no espiritual. O artigo seguinte apresenta algumas das mais sig
nificativas páginas dessa obra.
* * *

A Redacáo de PR recebeu urna carta que bem merece resposta


pública. Eis como comeca:

"Um fantasma chamado Velhice está á espreita ejá comego a sen


tir os seus efeitos. Opiordeles é a depressáo que, sem pedir licenga, foi-
se instalando sem a menor cerimónia e me angustia com perguntas do
tipo: 'Para que fazeristo? Para que fazeraquilo? Vocé vai morrer mesmo,
para que se importar com casa, roupas e outras bobagens?' Se ela pa-
rasse por ai, tudo bem. Mas o pior mesmo é que me tira também a vonta-
de de rezar. E sem oragáo nao me sinto gente, nao tenho torgas nem
ánimo nem coisa alguma. Já é táo triste olhar no espelho e ver aqueta
devastagáo triste do tempo implacável. Nao me posso conformar com
istol Se essa devastagáo fosse só na superficie do ser humano, vá láí
Mas penetra-lhe a alma; meu Deus, como isto me apavora!"

O questionamento assim formulado é freqüente; muitas pessoas


se angustiam diante da perspectiva do envelhecer. Ora, para responder
a tal situacáo, acaba de ser publicado o livro "Envelhecer com Dignida
de", da autoría da Irma Gema Destéfani1, portador de oportunas refle-
xóes sobre a terceira idade; mostra como esta pode ser vivenciada com
serenidade e mesmo alegría; procura assim dissípar o complexo de infe-
rioridade que pode acometer muitos anciáos.

De tal obra váo, a seguir, reproduzidas algumas das mais interes-


santes páginas.

«4. O DESAFIO DO ENVELHECIMENTO

Fazer do tempo da velhíce urna fase rica e serena é um desafío


para o idoso, para o acompanhante de idosos e para todos.

1 Ed. Loyola, Sao Paulo 2000, 140x210mm, 146 pp.

557
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

Quanto mais se vive, mais se envelhece. Envelhecer é nosso des


tino. Envelhecendo, temos perdas e dores, mas, em contrapartida, au-
mentam a sabedoria e a vitalidade interior.

O corpo que envelhece nos torna conscientes de que fomos feitos


para a eternidade e devemos aceitar nossas imperfeicóes como parte do
desafio existencial.

O anciáo nos convida a valorizar aquilo que temos, nao como um


direito, mas como um dom que nos foi dado; nos lembra que a verdadeira
seguranca nao está no sucesso, mas na confianca em Deus. Ele nos
ensina também que a identidade pessoal nao se baseia no 'fazer', nem
no 'ter', mas no 'ser'.

A velhice, se bem vivida, pode representar o período mais profun


do e rico da existencia. Tem-se mais tempo para cultivar amizades, culti
var a própria espiritualidade, dialogar com outros, escutar as pessoas,
ser profeta de serenidade.

A qualidade dos anos futuros depende da qualidade dos anos que


vivemos em qualquer etapa anterior.

Algumas dicas que poderáo ajudar a envelhecer sabiamente:

1. Na velhice permanecem nossas características. Se somos ale


gres, generosos e criativos, geralmente continuaremos assim.
Se somos exigentes, descontentes, egoístas, com o passar do
tempo o seremos sempre mais. Cabe a nos, hoje, fazer a esco-
Iha e desenvolver as atitudes que preparam o nosso amanhá.

2. Prevenir a solidáo, aumentando, hoje, nosso círculo de amiza


des.

3. Fundamentar a vida com valores que prevalecem. Se basea-


mos a dignidade no "fazer", no trabalho, o que será de nos quan-
do vier a aposentadoria ou a incapacidade física?

4. Despertar interesses diversos como esporte, arte, servico de


voluntariado, envolvimento em atividades culturáis, sociais e
espirituais; a terceira idade será um período ideal para essas
realizagóes.

5. Cultivar a alegría. As pessoas que gozam mais da terceira idade


sao aquelas que espalham um sentimento de alegría. Quem sabe
captar o lado alegre e cómico da vida nao envelhece.

6. Trabalhar sempre a integracao do exterior com o interior, o pas-


sado com o futuro. Quem vive só de exterioridade torna-se su-

558
"UM FANTASMA CHAMADO 'VELHICE'"

perficial e vazio. Quem valoriza só o passado torna-se triste e


amargo. Quem se preocupa só com o futuro torna-se ansioso e
angustiado.

Todos devemos nos responsabilizar pelo futuro, conscientes de que


as atitudes e acóes de hoje sao o fundamento do amanhá.

(Texto baseado no Hvro Criatividade a servigo dos doentes -


de Arnaldo Pancrazzi, pp. 17s).

«5. A VELHICE, COMO VIVÉ-LA BEM


Vivemos numa sociedade do trabalho. Essa sociedade tem seus
contravalores, entre eles, o preconceito da idade.

Atualmente, o jovem é mais valorizado do que o idoso, porque tem


a capacidade de produzir. Os idosos nao produzem mais. Assim, as pes-
soas sao divididas em produtivas e improdutivas, ativas e ¡nativas. A ju-
ventude é valorizada, e apenas se suporta a velhice.

Precisamos conscientizar-nos de que cada idade tem seu valor.

Paulo VI dizia a um grupo de pessoas idosas: "Neste mundo técni


co, no qual se julgam os homens em funcáo do que eles produzem, vos
deveis testemunhar que há aspectos da vida que nao se medem com
dinheiro: sao os valores humanos é culturáis, moráis e sociais".

Sao os valores que fazem do ser humano um Homem ou urna


Mulher, e nao urna máquina. Mas, para que os anciáos sejam tais, é
preciso que facam de sua velhice urna fase de vida realmente rica e bela,
que de fato confirme o elogio das Escrituras: "Quao befo é para a velhi
ce o saber julgar e para os anciáos o saber aconselhar. Quao bela é
a sabedoria das pessoas de idade avangada... A experiencia consu
mada é a coroa dos anciáos; o temor de Deus é a sua gloria" (Eclo
25, 5-6).

Na busca desse verdadeiro sentido da velhice, Afonso Deeken, em


sua obra Saber envelhecer, apresenta quatro perigos a ser evitados e
treze atitudes a ser tomadas.

Perigos:

a) Negacáo da velhice: pessoas que negam estar envelhecendo


e procuram obstinadamente permanecer jovens.

b) Rancor e ciúmes: em relacáo aos mais jovens a ponto de se


alegrar com a derrota deles.

c) Fugas da velhice: "quando eu era moco, nao era assim... na-


quele tempo havia amigos".

559
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

d) Egoísmo na velhice: há pessoas idosas que vivem chorando


miseria, mas, quando morrem, deixam até urna pequeña fortu
na. Há idosos agressivos que nao suportam enancas que brin-
cam no patio ou vizinhos com hábitos diferentes.

Atitudes a ser tomadas:

1. Aceita?áo da velhice: a aceitacáo se traduz em tranqüilidade e


autoconfianca.

2. Aprender o desapego e a sabedoria: que permite conhecer o


verdadeiro sentido das coisas. Nesse momento, os mais velhos
terao trocado o trono do poder pela sabedoria.

3. Saber enfrentar a solidáo: tornar-se disponíveis aos outros:


correspondencias, telefones etc.; o vazio da solidáo pode abrir
o coracao do homem e torná-lo mais consciente da presenca de
Deus que fala no silencio. O Senhor está conosco. Ele nao nos
abandona. Ele experimentou a solidáo no Jardim das Oüveiras
e na Cruz. Ele sabe o quanto é difícil estar só.

4. Procurar realizar alguma coisa: muitos homens realizaram


obras espetaculares na velhice. Sófocles tinha por volta de 80
anos quando escreveu Édipo Rei. Goethe tinha mais de 80 anos
quando terminou Fausto. Michelangelo tinha 70 anos quando
terminou a cúpula de Sao Pedro. Verdi, Haydn, Handel compu-
seram pegas imortais com mais de 70 anos.

5. Nao se preocupar, apenas ocupar-se: Cristo disse: "Nao vos


inquietéis. Vinde a mim..." {Mt 6).

6. Saber enfrentar o inesperado: lembrar que Abraao tinha 75


anos quando teve de recomecar sua vida (Gn 12,1-5).

7. Assumir o sofrimento: quando aceito e suportado por Cristo,


tem o poder redentor para salvar outras pessoas (2Cor 1, 6; Cl
1,24).

8. Descobrir a alegría de envelhecer: procurar alegrar-se ñas


paróquias, em cursos etc. Viver o conselho do apostólo: "Alegrai-
vos sempre" (Fl 4, 4).

9. Redimir a vida pela contricáo: mediante um arrependimento


sincero sentir que, apesar de nossas falhas, a Providencia Divi
na nao nos abandona.

10. Buscar a plenitude: acordar dentro de si torgas interiores que


permitam o desenvolvimento das novas dimensSes da vida.

560
"UM FANTASMA CHAMADO 1VELHICE'" 33

11. Aprofundar a fé: dar testemunho da sabedoria, da bondade e


do amor (Le 5, 20).

12. Perceber o sentido das coisas: grande problema é nao sentir


se necessário, é o temor de ser inútil, de servir apenas para
incomodar os outros... É preciso ver um sentido ñas coisas e
principalmente na vida. "Aquele que sabe o porqué da vida pode
suportar-lhe o como" (Nietzsche).

13. Aceitar o fato inevitável da morte com alegría: assumi-la com


alegría, pois é a volta para a casa do Pai (Jo 14, 1-3).

A vida nasce, progride até a maturidade, depois decresce até o


ponto que se chama morte, mas nao cessa de subir, até o florescimento
final, que é a Ressurreicáo. A nossa preocupacáo nao deve ser dar anos
á nossa vida, mas vida aos nossos anos. Fazendo assim, teremos vivido
bem a nossa velhice» (pp. 19-21).

«8. AS PERDAS NA TERCEIRA IDADE

É importante lembrar que as pessoas idosas sofrem perdas e que


seus sentimentos ficam mais agucados com o avancar da idade.

Vejamos algumas perdas mais comuns na terceira idade:

1. Perda gradual das pessoas queridas: pais, irmáos, amigos


de infancia e juventude, contemporáneos com quem partilhou a
vida váo se distanciando ou mesmo desaparecendo, pelas mais
diversas causas: doencas, limitacóes, morte e tantas outras si-
tuacóes. É entáo muito fácil surgir um vazio e a solidáo que faz
sofrer muito.

2. Perda dos papéis sociais: é muito difícil, especialmente para


aqueles cuja imagem está ligada ao trabalho. Quando, pela
aposentadoria ou outra situacáo, deixa o trabalho, com ele per-
de amizades, cargos, status, colaboradores etc., e isso traz a
sensacao de inutilidade, abandono, perda do sentido de viver.

3. Perda da saúde: a própria idade vai causando a diminuicáo da


vitalidade e as limitacóes aparecem. Pela falta de resistencia,
podem surgir doencas com mais facilidade, fazendo-os confron-
tar-se com sua fragilidade e mortalidade, o que ameaca sua
necessidade de seguranca e controle.

4. Perda da habitagáo: devido á situacáo sempre mais precaria e


preocupante, muitas vezes a pessoa ¡dosa é obrigada á opeáo
dolorosa de deixar a casa onde viveu muitos anos e a missáo
em que doou sua vida. Esta ruptura pode ser muito traumatizante,

561
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

levando a pessoa a um grande sofrimento e mesmo a fechar-se


em si mesma e renunciar a viver.

O importante é a pessoa preparar-se para aceitar a vida e integrar


se nela, tentando dar um sentido a este sofrimento e lembrando que o
essencial, nem a idade, nem a doenca e ninguém poderá tirar.

Mas é preciso que os cuidadores de idosos que com eles convivem


saibam o que essas perdas podem gerar especialmente em nivel psico
lógico:
• Inseguranca, medo da solideo;
• sentimento de inutilidade;
• retrocesso gradual de inteligencia;
• alteracáo da auto-imagem;
• desprestigio e desvalorizacao pessoal;
• reducáo do mundo social;
• sentimentos de inveja e ciúmes;
• egoísmo, ambicáo do poder;
• tedio, irritacao, apatía;
• ansiedade, revolta, tristeza;
• sentimento de culpa;
• redusáo da capacidade de trabalho;
• apego exagerado as coisas que Ihe pertencem;
• carencia afetiva, com todas as suas manifestacoes;
• depressao, comportamento regressivo etc.

Como ajudar ñas perdas:

1. Permitir desabafos: deve-se dar espaco para que a pessoa


possa expressar seus sentimentos e emocóes relacionados as
perdas. Escutar com atencáo, sem se preocupar em desculpar,
darconselhos ou muitas explicacóes, simplesmente escutar com
amor e respeito.

2. Valorizara presenca: estar junto, sendo presenca de esperan-


9a, misericordia e ternura por meio de pequeñas atencóes, ges
tos de apoio, um abraco, urna oracáo etc.

3. Motivar escolhas: diante da perda, muitos sentem-se vítimas.


Ajudar a fazer escolhas é permitir que a vida continué. Afinal
cada um pode escolher como viver após urna perda: superá-la
na fé e esperanca ou acabar com o sentido da vida; sozinha, as
vezes, a pessoa nao consegue.

562
"UM FANTASMA CHAMADO 'VELHICE'" 35

4. Respeitar as reacóes: cada um reage de urna maneira. A nos


compete acolher e respeitar as reacóes do outro, nao julgar se é
certo ou errado, mas apoiar o que ajuda a pessoa.

5. Cultivar recordacóes: quanto mais a pessoa talar sobre as per-


das, mais se libertará. Colaborar escutando com atencáo e amor.

6. Evitar frases prontas: certas frases prontas podem ser muito


perigosas, dependendo da pessoa, da realidade em que se en-
contra, de sua formagáo etc. Evitar frases como: procure esque-
cer..., foi melhor assim..., seja forte..., foi Deus que quis..., com
o tempo tudo passa... etc. Geralmente sao frases injustas, de-
sumanas e ferem a pessoa.

O que a pessoa pode fazer para superar as perdas?

1. Comunicar o que senté: dizer a alguém que escute em profun-


didade todos os sentimentos, angustias, medos etc. é a melhor
maneira para curar-se.

2. Tomar decisóes: decidir-se a viver o momento presente sem


dramatizar o futuro ou prender-se ao passado. Tomar pequeñas
decisoes que permitam construir o novo após a perda.

3. Aprender a separar-se: tudo o que é humano um dia acaba. Viver


intensamente sem prender-se a nada é urna sabedoria de vida
para superar as perdas. Nada é eterno. Isto nao quer dizer nao
amar, ou esquecer, mas criar um espaco entre a pessoa e a perda.

4. Ser paciente consigo mesmo: há momentos, após urna per-


da, em que parece que superamos; logo a seguir, caímos no
desánimo, na tristeza. Momentos de fé e momentos de descren-
ca. Somos frágeis. O importante é nao permanecer no desánimo.

5. Cultivar a fé: há momentos e situagóes na vida que só sao su


perados pela fé. Mas ela nao vem de repente. Devemos cultíva
la e pedi-la a Deus, pois é um dom.

6. Aprender a perdoar: após urna perda, geralmente encontra


mos pessoas que nao nos compreenderam e nos fizeram so-
frer; ás vezes, nos mesmos nos sentimos culpados. É importan
te perdoar os outros e a nos mesmos por aquilo de que nao
gostamos e pelo qual sofremos. Sem perdáo, é impossível pro-
gredir na vida.

7. Acreditar em si: experiencias dolorosas podem nos tornar mais


humanos, compreensivos, temos, despertar a criatividade e re
velar novas capacidades. O sofrimento pode mudar a pessoa.
Acreditar que eu posso.

563
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

8. Estabelecer novos relacionamentos: após a perda a vida con


tinua e novos relacionamentos ajudam a dar sentido a ela e nos
devolvem a felicidade, que é feita de pequeños gestos concre
tos.

9. Tornar a sorrir: lembrar o que nos faz sorrir, relacionado com a


perda, faz muito bem. O bom humor ajuda a adocar o amargo
da vida.

10. Comecar a doar-se: o modo mais eficaz de vencer a dor, a


perda, é envolver-se com os sofrimentos dos outros. Á medida
que me preocupo com o outro, escutando, servindo, ajudando,
orientando, vou esquecendo a própria dor e dando sentido á
vida.

É importante lembrar que a cada perda se segué um luto, que se


manifesta com sinais visíveis no comportamento» (pp. 26-29).

O Amor e o Preservativo, por Tony Antrella. Tradugáo de Dion


DaviMacedo. Ed. Loyola, Sao Paulo 1999, 140x210mm, 255pp.

O autor é psicanalista e professor católico. Considera o amor se


gundo categorías psicológicas mais do que a luz dos principios cristáos.
Por istojulga que o preservativo nao deve ser usado para justificar qual-
quer tipo de relagáo sexual, mas, sim, no caso de pessoas que nao te-
nham condigóes de se autodominar. O autor procura justificar sua posi-
gáo citando testemunhos de outros autores católicos que assim pensam.
Todavía, áp.201 o próprio Tony Antrella cita o texto que refuta sua posi-
gáo:

"O Cardeal Angelini, Presidente do Pontificio Conselho de Saúde,


definiu o papel da Santa Sé em relagáo ...as reagóes de alguns cristáos:
'O magisterio da Igreja - e o Papa faz alusáo a ele com muita delicadeza
- declara que os preservativos sao ¡lícitos. No que concerne a prevengáo
da doenga, nao é possfvel banalizar um problema de tal gravidade limi
tándose a falar em mal menor - á parte o lato de que, moralmente, se
gundo a Igreja Católica, nao se trata de um mal menor... Que haja na
Igreja urna, dez ou cinqüenta pessoas que falem a título pessoal, isso é
apenas responsabilidade dessas pessoas. Aqui falamos a partir da posi-
gáo do magisterio da Igreja. Um cristáo nao é a Igreja inteira. Se nao age
de acordó com os ensinamentos da Igreja, nesse momento ele nao se
pode dizer católico".

O livro é rico em citagóes e informagóes, mas defende urna tese


que pretende ser simpática, mas nao condiz com os principios da Ética
crista.

564
No Estado do Rio:

ENSINO RELIGIOSO ÑAS ESCOLAS PÚBLICAS

Em síntese: Por lei sancionada pelo Gobernador do Estado, o en-


sino religioso pluriconfessional tornou-se obrigatório ñas escolas oficiáis
do Estado do Rio. Assim póe-se termo final ao ensino aconfessional ou
interconfessional, que equivalía, de ceño modo, á Educagáo Moral e Cí
vica. A lei visa a atender a dimensao religiosa congénita em todo ser
humano, deixando liberdade a cada familia para aceitar a proposta ou
nao e, em caso positivo, escolher o Credo em que háo de ser educados
seus filhos. Nao ministrar ensino religioso equivale a dizer á crianga que
ela pode entender a si e a vida sem relagáo com Deus.
* * •

A partir de 14/9/2000 o ensino religioso pluriconfessional é obriga-


toriamente ministrado ñas escolas oficiáis de ensino fundamental do Es
tado do Rio, ficando a matrícula deixada á livre opcáo dos genitores ou
dos responsáveis da crianca até os dezesseis anos de idade.

A nova lei é muito importante a mais de um título. Eis por que, a


seguir, vai proposto o texto da lei, ao qual se acrescentaráo algumas
reflexoes.

1. O teorda lei

LEÍ N9 3.459 DE 14 DE SETEMBRO DE 2000

DISPÓE SOBRE ENSINO RELIGIOSO


CONFESSIONAL ÑAS ESCOLAS DA REDE
PÚBLICA DE ENSINO DO ESTADO DO RIO
DE JANEIRO.

O Governador do Estado do Rio de Janeiro


Fago saber que a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro
decreta e eu sanciono a seguinte Lei.

Art. 1Q - O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, é parte inte


grante da formacáo básica do cidadáo, e constituí disciplina obrigatória
dos horarios normáis das escolas públicas, na Educagáo Básica, sendo
disponível na forma confessional de acordó com as preferencias mani
festadas pelos responsáveis ou pelos próprios alunos a partir de 16 anos,
inclusive, assegurado o respeito á diversidade cultural e religiosa do Rio
de Janeiro, vedadas quaisquer formas de proselitismo.

565
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

Parágrafo Único - No ato da matrícula, os país ou responsáveis


pelos alunos deverao expressar, se desejarem, que seus filhos ou tutela
dos freqüentem as aulas de ensino religioso.

Art. 2- - Só poderáo ministrar aulas de Ensino Religioso ñas esco


las oficiáis professores que atendam as seguintes condicoes:

I - que tenham registro no MEC, e de preferencia que pertencam


aos quadros do Magisterio Público Estadual;

II - que tenham sido credenciados pela autoridade religiosa com


petente, que deverá exigir do professor formacáo religiosa obtida em ins-
tituicáo por ela mantida ou reconhecida.

Art. 3S - Fica estabelecido que o conteúdo do ensino religioso é


atribuicao específica das diversas autoridades religiosas, cabendo ao
Estado o dever de apoiá-lo integralmente.

Art. 49 - A carga horaria mínima da disciplina de Ensino Religioso


será estabelecida pelo Conselho Estadual de Educacáo, dentro das 800
(oitocentas) horas-aulas anuais.

Art. 5Q - Fica autorizado o Poder Executivo a abrir concurso público


específico para a disciplina de Ensino Religioso, para suprir a carencia
de professores de Ensino Religioso para a regencia de turmas na educa
cáo básica, especial, profissional e na reeducacáo, ñas unidades escola
res da Secretaria de Estado de Educacáo, de Ciencia e Tecnología e de
Justica, e demais órgáos a criterio do Poder Executivo Estadual.

Parágrafo Único - A remuneracáo dos professores concursados


obedecerá aos mesmos padroes remuneratorios de pessoal do quadro
permanente do Magisterio Público Estadual.

Art. 69 - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicacáo,


revogadas as disposicoes em contrario.

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000.

ANTHONY GAROTINHO

2. Comentando...

Cinco tópicos se propóem á reflexáo.

2.1. Opiniáo pública

Ao lado de pareceres desfavoráveis á nova lei, a imprensa noticiou


opinióes muito positivas, como se vé a seguir:

«Pesquisa por amostragem divulgada em maio pelo Núcleo de


Pesquisas Sociais Aplicadas, Informagáo e Políticas Públicas (DataUff),

566
ENSINO RELIGIOSO ÑAS ESCOLAS PÚBLICAS 39

encomendada pelo Centro de Aríiculagáo de Populagóes Margina/izadas


(Ceap), apontou que 85% dos entrevistados no estado do Rio acham que
deve haver ensino religioso ñas escolas públicas».

«O rabino Eliezer Stauber, da Sinagoga de Copacabana, conside


ra a lei positiva. 'Vida sem religiáo traz urna vida sem conteúdo. Muitos
problemas que estamos passando aqui no Brasil sao porque estamos
nos afastando da religiáo, seja ela qual for', afirmou. Para o rabino, nao
faltaráo professores. 'Nao falta gente para ensinar, falta para aprender',
disse Stauber».

(Noticias extraídas do JORNAL DO BRASIL, edicáo de 15/9/00, p. 20).

2.2. O valor da Religiáo

A Religiáo re-liga o ser humano ao Transcendental. Todo homem


tem em si o senso religioso congénito, pois todos foram feitos para algo
mais do que as coisas visíveis. Esse algo mais pode tomar nomes diver
sos, mas, em última análise, é o Absoluto, o Infinito, o Eterno. Bem dizia
S. Agostinho: "Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso cora-
cáo enquanto nao repousa em Ti" (Confissóes 11). Educar urna crianca
sem religiáo implica dizer-lhe que a Religiáo é secundaria ou um hobby,
ao passo que Geografía, Historia, Matemática... sao essenciais para for
mar a personalidade - o que significa desfigurar o ser humano; este nun
ca encontrará a resposta plena para as suas aspiracóes congénitas nem
ñas ciencias humanas nem ñas ciencias ditas "exatas".

A propósito vem a carta de um leitor publicada no JORNAL DO


BRASIL de 20/9/00 p. 8:

«Sabe-se hoje que a diversidade de religióes é quase táo grande


quanto o próprio número de alunos. Assim, por mais democrático que
pretenda ser o estado, o ministerio dessa nova disciplina jamáis terá a
abrangéncia necessária. Por que, entáo, nao deixar de lado ritos e ra-
zóes de fé e simplesmente transmitir aos alunos principios éticos, dejus-
tiga e de respeito ao próximo? Enfim, humanizar os homens de amanhá,
já que sabidamente hoje está em curso um processo de animalizagao
bem-sucedido. É evidente que a causa da violencia nao é o esquecimen-
to de Deus, e sim o afastamento dos reais valores humanos. Finalmente,
formarmos homens tementes a Deus que atribuam seus destinos a enti
dades sobrenaturais é irrelevante. Precisamos, sim, de homens consci
entes de que o mundo poderá ser um bom lugar para se viver, dependen-
do do que eles fizerem ou deixarem de fazer. Antonio José Ferreira
Freiré - Rio de Janeiro».

Em resposta, convém notar que nao há sólida formacáo ética sem


embasamento em Deus ou no Absoluto. Todo sistema de Ética funda
mentado apenas ñas leis dos homens é relativo e volúvel; recai-se na

567
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

Ética da Situacao, que é a Ética ditada pelas circunstancias transitorias


do momento; entáo "cada qual na sua", diria a linguagem popular. A pró-
pria lei natural, que o Sr. Antonio José proporia como fundamento da
formacáo dos adolescentes ("nao matar, nao roubar, nao adulterar...") é a
lei de Deus gravada nos coracoes. O valor absoluto dessa lei só se expli
ca pelo fato de que ela vem do Criador, que imprimiu seu sinete absoluto
no íntimo de cada criatura; o "Fabricante" ai colocou a marca da "fábrica".

2.3. Religiáo pluriconfessional

Varias escolas tém ministrado um ensino religioso aconfessional,


isto é, isento de qualquer confissao religiosa ou de qualquer Credo; as
aulas de Religiáo nao dividiriam a turma em parte católica, parte protes
tante, parte judaica..., mas dar-se-ia a todos o mesmo conteúdo capaz
de satisfazer á crenca de cada um. Disto tem resultado que a disciplina
"Religiáo" se tem tornado uma sucedánea de Educacáo Moral e Cívica;
pode-se assim criar uma nova Religiáo pálida e diluida - o que nao interessa
a ninguém. Já que existem diversas confissóes religiosas em nossa popula-
cao, é mais oportuno que se leve em conta a identidade de cada Credo e se
oferecam aos alunos os artigos do Credo que eles professam num ensino
pluriconfessional. O que importa, é nao abrir polémica nem praticar
proselitismo; haja respeito mutuo, exigido pelas normas da boa educacáo.

Dirá alguém: sao tantas as confissóes religiosas que será impossí-


vel atender a cada qual em particular. - Eis a resposta:

2.4. Cadastramento dos Credos religiosos

Para que determinada confissao religiosa tenha o direito de minis


trar aulas ñas escolas públicas, é necessário que esteja cadastrada na
Secretaria de Educagáo. Este cadastramento dependerá do conceito de
Religiáo: afinal que é que se entende por "Religiáo"? Será qualquer siste
ma de "Mística"? Será uma oficina de curas portentosas?... um "Pronto
Socorro" diferente?

Na verdade, pode-se dizer que o conceito de Religiáo implica tres


elementos essenciais: um Credo, um culto que exprima a dependencia
do homem frente a Deus, uma conduta moral correspondente.

Um Credo... A Religiáo, sendo a ligacáo do homem com Deus,


oferece uma cosmovisáo ou uma visáo global de Deus, do mundo e do
homem. A Religiáo é abrangente; ela projeta um olhar sobre Deus e tudo
o que existe, avallando cada realidade á luz da Divindade.

Um culto sagrado... A dependencia do homem frente a Deus se


exprime pela oracáo. Esta é uma atitude espontánea de todo ser huma
no, que, cedo ou tarde, reconhece a sua fragilidade física e moral. A
oracáo é sempre pessoal e íntima, mas, já que o ser humano é social, ela

568
ENSINO RELIGIOSO ÑAS ESCOLAS PÚBLICAS

assume expressóes coletivas, que sao o culto sagrado; este consta de


sinais sensíveis, como sao palavras, gestos, cantos, atitudes corporais,
vestes, uso de objetos, que tomam o nome de "Rito", o rito requer um
ámbito adequado ou um templo, um santuario...; em muitos casos é diri
gido por um ministro do culto.

O culto divino compreende quatro momentos importantes:

1) adoracao ou reconhecimento da soberanía da Divindade, que


por definicáo é o Ser Absoluto;

2) agradecimento pelos beneficios recebidos, entre os quais os


dons naturais ou os frutos da térra;

3) expiacáo ou pedido de perdao por faltas cometidas;

4) súplica ou ¡mpetracáo decorrente de experiencia de fragilidade


e carencia do ser humano.

D¡stingue-se a súplica da magia, que é precisamente o contrario;


vem a ser a tentativa de manipular a Divindade; depende nao do favor de
Deus, mas do poder de um homem tido como possuidor de segredos
maravilhosos. A magia visa a obter beneficios ou mesmo maleficios (em
detrimento do próximo) recorrendo a sons, "oferendas", "despachos"...

Ética... O contato com a Divindade deve manifestar-se no compor-


tamento do homem religioso frente a Deus, aos homens e a si mesmo.
Por conseguinte a Religiáo que nao repercuta no comportamento do ho
mem, dignificando-o e aperfeicoando-o, é morta ou até hipócrita. Se a
Divindade é o Sumo Bem, o auténtico cultor da Divindade nao pode viver
urna vida alheia ao Bem, mas, ao contrario, deve tender a praticar o bem.
A Religiáo suscita a Ética.
Tais sao os elementos constitutivos de qualquer auténtica corrente
religiosa.

2.5. Notas complementares

a) As escolas públicas do ensino fundamental estáo obrigadas a


Oferecer aulas de religiáo. Fica, porém, aos pais ou seus representantes
ou aos alunos após dezesseis anos de idade a liberdade para aceitar ou
nao o ensino da Religiáo e, caso positivo, optar pelo Credo de sua escolha.

b) As exigencias impostas aos professores da rede oficial nao atin-


gem os da rede particular. Toca á autoridade religiosa credenciar os pro
fessores de seu Credo para lecionarem nos colegios particulares.

A iniciativa do Governo do Estado do Rio merece consideracáo da


parte de outras autoridades civis, pois implica um real servico á popula-
cáo brasileira.

569
Caso de Declaradlo de Nulidade:

CASAMENTO SOB PRESSÁO

Em síntese: O casamento é um contrato que só pode ser válido se


livremente contraído pelos interessados. A violencia infligida a um dos
nubentes o torna nulo. Quem está consciente disto, nao se pode aínda
comportar como solteiro, pois todo casamento é celebrado publicamente
e, conseqüentemente, há de ser declarado nulo publicamente (quando
de fato é nulo). O casamento interessa a toda a sociedade, pois constituí
a familia, que é a célula-máe da sociedade civil e eclesiástica. Casamen
to secreto nao é considerado válido pelo Direito Eclesiástico.

A Redacáo de PR recebeu a seguinte pergunta:

«Eis a questáo: Um homem se casou contra a vontade, porque foi


engañado. A mulher forjou urna gravidez e, quando ele descobriu, quis
acabar o relacionamento; entáo ela chantageou, atentando contra a pro-
pría vida; assim ele foi forgado a casarse. Se depois ele tiver um relacio
namento extra-conjugal, ele estará em adulterio? Tendo em vista que este
casamento é nulo».

A nossa resposta compreenderá tres etapas:

1. Sob pressáo

É de crer que o casamento em foco, caso celebrado na Igreja, haja


sido nulo. Com efeito; o matrimonio é produzido pelo consentimento dos
nubentes; ora o consentimento é um ato da vontade, que é urna faculda-
de essencialmente livre. Consentir á forca nao é consentir. Por isto reza o
canon 1103:

"É inválido o matrimonio contraído por violencia ou por medo grave


proveniente de causa externa, aínda que nao dirigido para extorquir o
consentimento, quando para dele se livrar, alguém se veja obrigado a
contrair o matrimonio".

Comentando o canon, vemos que é nulo o casamento produzido


por violencia ou medo, desde que se cumpram as seguintes condicóes:

1) o mal que a pessoa teme, se nao aceitar o casamento, deve ser


grave;

570
CASAMENTO SOB PRESSÁO 43

2) o medo há de ser incutido por urna causa externa (ameaca de


morte, de denuncia, de vinganca...). Nao seja mero fruto da imaginacáo
ou da sensibilidade de quem se casa. Nao é necessário que o medo ou a
violencia visem diretamente ao consentimento matrimonial, mas basta
que o nubente, pressionado ou colocado numa situacáo embaracosa nao
explícitamente relativa ao matrimonio, julgue nao ter outra saída senáo
casar-se.

Embora o casamento contraído sob pressáo seja nulo, quem as-


sim se casou nao se pode comportar como solteiro antes que a nulidade
seja declarada publicamente pela autoridade competente, como se dirá
a seguir.

2. Processo de Declaracáo de Nulidade

Á Igreja nao toca anular casamento validamente contraído e car-


nalmente consumado. Todavía ela pode - e mesmo deve - declarar nulo
um casamento que, embora aparentemente válido, foi nulo por existen
cia de um impedimento dirimente ou decisivo. O casamento celebrado
sob pressáo recai sob esta cláusula. Deve ser levado ao Tribunal Eclesi
ástico, para que, feitas as devidas investigacóes, seja finalmente decla
rado nulo. Antes da declaracáo de nulidade, nao é lícito aos "esposos"
comportar-se como solteiros, pois, assim como o matrimonio é celebra
do publicamente, assim também deve ser publicamente declarado nulo.
A razáo disto é que o casamento interessa á sociedade, já que constituí a
céiula-máe da sociedade civil e eclesiástica; ele funda a igreja domésti
ca. Por ¡sto a sociedade tem que ser notificada para que ela possa reconhe-
cer um novo casamento válido após um primeiro "casamento" inválido.

Levantam-se, porém, duas objecóes:

2.1. "Um processo jurídico custa caro!"

A propósito há muita desinformacáo ou mesmo falsas concepcóes.

Compreende-se que tal processo acarreta despesas, pois supóe


sessóes em que sao ouvidas as partes interessadas, as testemunhas, os
peritos...; sao pagos os oficiáis do Tribunal. Todavía os Tríbunais da Igre
ja nao dependem totalmente dos honorarios que recebem. A admínístra-
cáo da justica é um dever da Igreja em relacáo a todos, ricos e pobres.
Por ¡sto, se há taxas, estas sao adaptadas as condicoes das partes en
volvidas. A propósito escreve o Pe. Jesús Hortal S.J.:

«Nao existe, no Brasil, urna tabela, em ámbito nacional, para os


tríbunais eclesiásticos. Alguns nao cobram praticamente nada. Em ou-
tros, a maioria, as despesas com um processo de declaragáo de nulidade
ficam entre um e quatro salarios mínimos. Sao taxas que nao cobrem os

571
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

gastos reais, com todas as sessóes de interrogatorios das partes, das


testemunhas, dos peritos, etc. Na realidade, as dioceses contribuem para
cobrír o resto. É verdade que ficam a parte, os honorarios dos advoga-
dos. Mas, em geral, é gente que trabalha nesse campo mais por amor á
Igreja do que por outra coisa. Por isso, se se compara com os processos
civis de separagao judicial ou de divorcio, o que eles cobram é bem pouco.

Por outro lado, nao esquega: se vocé nao pode pagar nem sequer
as taxas estabelecidas pelo tribunal, nao desista. Vocé tem direito á jus-
tiga. Pega o beneficio total ou parcial de pobreza, de acordó com sua
condigno económica. O seu pároco Ihe poderá dar o atestado correspon
dente. Apresente-o na secretaria do tribunal, quando apresentar a sua
demanda ou petigáo inicial. Se realmente precisa desse beneficio, nao
tenha vergonha empedi-lo» (Casamentos que nunca deveríam ter exis
tido, pp. 57s).

2.2. "Já se passou tanto tempo! Vale ainda a pena?"

O Direito Civil estipula um prazo para se pleitear a anulacáo do


casamento; passado o prazo, já nao é possível recorrer á Justica para
obter a anulacáo. Poder-se-ia pensar que também na Igreja há um prazo
para se pedir a declaracáo de nulidade. Tal, porém, nao se dá, pois de
claracáo de nulidade nao é anulacáo; é a verificacáo de que tal ou tal
matrimonio nunca foi válido; ele nao se torna válido com o passar do
tempo, de modo que em qualquer época, mesmo após decenios de vida
comum, as partes interessadas podem solicitar a um Tribunal que man
de averiguar se nao houve um impedimento dirimente no ato de contrair
o casamento.

Está claro que revolver o passado para descobrir um eventual im


pedimento matrimonial pode ser incómodo e doloroso; todavía é neces-
sário para o bem das partes interessadas. Escreve o Pe. Jesús Hortal
S.J.:

«O que se pede é a declaragao de nulidade, nao a anulagáo. Quer


dizer, sao casos em que nunca houve matrimonio. Entao, nao importa
que passe mais ou menos tempo. O que produz o matrimonio nao é o
tempo, mas o consentimento das partes jurídicamente habéis, legitima-
mente manifestado. Por isso, dá na mesma que tenha passado só um dia
ou que tenham passado vinte anos; se faltarem esses elementos, o ma
trimonio continuará a ser nulo» (obra citada, p. 58).

3. Adulterio?

Seria adulterio o relacionamento extra-conjugal de quem está ca


sado sob pressáo e ainda nao obteve a declaracáo de nulidade?

572
CASAMENTO SOB PRESSÁO 45

Respondemos:

a) no plano jurídico, seria, sim, adulterio, pois, enquanto nao se


declara publicamente a nulidade, a pessoa passa por casada. Presúme
se, no foro externo, a validade do casamento até se manifestar o contra
rio. A presuncáo é sempre em prol da validade, conforme o axioma jurídi
co: "Melior est conditio possidentis. - Melhor é a condicao de quem
possui", isto é, presume-se que o status quo seja legítimo enquanto nao
se demonstra a ilegitimidade respectiva;

b) no plano moral, seria urna relacao extra-conjugal, que nunca


pode ser legítima. Com efeito; amar é querer bem um ao outro; implica
doacao ou entrega, para que o bem do ser amado possa ser atingido.
Ora só no matrimonio validamente constituido é que ocorre a uniáo plena
e comprometida entre os cónjuges; somente entáo existe o ambiente
adequado para as relacóes sexuais, que supóem um lar e amor estável
entre esposo e esposa para que possam educar seus filhos.

Com outras palavras: a relacáo sexual é algo de tao íntimo e pro


fundo que ela nao pode ser a primeira demonstracáo do amor nascente;
é, antes, a expressáo suprema da maturacáo e da consolidacáo desse
amor. Unir-se sexualmente significa doar-se por completo e, por conse-
guinte, comprometer-se totalmente. Quem separa a sexualidade do amor
comprometido, procura apenas o prazer egoísta anexo as relacóes sexu
ais; esse prazer nao é a finalidade da sexualidade, mas é algo que o
Criador acrescentou á vida sexual para facilitar o desempenho de sua
funcáo unitiva e fecunda. As relacóes entre sexualidade e amor podem
ser assim expostas:

a) Prostituicáo: é a relacáo entre "anónimos", que muitas vezes


nao tém amor mutuo;

b) Amor livre: é relacáo entre pessoas que se conhecem e amam


mutuamente, mas sem compromisso ou sem assumirem definitivamente
o seu consorcio;

c) Noivado: é amor, já, de certo modo, comprometido, mas ainda


com reservas, podendo cada qual afastar-se;

d) Casamento: amor comprometido e duradouro, clima apto para


a doacáo sexual, ao passo que nos tres casos anteriores esta é despro
positada.

Eis o que nos ocorre dizer em resposta ao amigo missivista.

573
Com a Medalha de Sao Bento:

TATUAGEM: PARA QUÉ?

Em síntese: Um correspondente, náopodendo usar a medalha de


Sao Bento pendente do pescogo, quer mandar fazer urna tatuagem da
mesma em cada um de seus bragos. - Em resposta dizemos-lhe que a
medalha é um sacramental, nao um amuleto nem um pára-raio. Ela é
benta pela Igreja, que pede gragas e béngáos para quantos a usem com
fé e devogao. A tatuagem supóe mentalidade mágica ou o dominio do
mago sobre forgas superiores ou divinas - o que vem a ser exatamente o
contrarío da auténtica atitude religiosa.
* * *

Um correspondente de PR enviou a seguirte mensagem eletrónica:


"Acontece que, há alguns anos, estava eu com muitos problemas -
digamos problemas de espirito - e minha máe mandou fazer para todos
os seus filhos e parentes mais chegados um crucifixo com a medalha de
Sao Bento. Eles foram feitos na Franga e nao foram baratos. Tenho muito
medo de perder esse crucifixo com a medalha; além do qué é muito gran
de para ser usado pendente do pescogo.

Escrevo para saber o seguinte: tenho vontade de fazer urna tatua


gem da medalha de Sao Bento, urna em cada brago, copiando a medalha
de um chaveiro que minha máe me deu. Nao sei exatamente se há algum
problema, mas pensó que o que fazemos com amor e respeito nao é
pecado, pois a minha idéia é ficar protegido do inimigo.
Gostaria de saber se existe algum problema da parte da Igreja".

EM RESPOSTA

Meu caro amigo, procuremos averiguar qual o sentido da medalha


de Sao Bento e o porqué de urna eventual tatuagem.

1. A Medalha de Sao Bento

A medalha de Sao Bento nao é um bentinho nem um amuleto de


valor apotropaico ou profilático. É um sacramental.
E que é um sacramental?
É um objeto que a Igreja benze, pedindo a Deus que derrame suas
gracas e béncáos sobre quantos o usarem com fé e devocáo. A oracáo
da Igreja é valiosa diante de Deus; daí a procura da béncáo da medalha.
Esta nao tem eficacia mágica nem mecánica, mas supóe e requer a de-
dicacáo íntima ao Senhor da parte dos respectivos usuarios.
A medalha nao age automáticamente contra todas as adversida
des, como se fosse um talismá ou vara mágica.

574
TATUAGEM: PARA QUÉ? 47

Todo cristáo, a exemplo de Jesús Cristo, deve carregar a sua cruz.


Pois, é necessário que nossas faltas sejam expiadas; nossa fé seja pro-
vada; e nossa caridade purificada, para que aumentem nossos méritos.
O símbolo da nossa redencáo, a Cruz, gravada na medalha, nao tem
por fim livrar-nos da prova; no entanto, a virtude da Cruz de Jesús e a inter-
cessao de Sao Bento produziráo efeitos salutares em muitas circunstancias.
A medalha de Sao Bento traz algumas letras, que suscitam a curi-
osidade do público. Eis como se explicam:

Numa das faces da medalha aparece urna grande Cruz. Por qué?

Sao Bento servia-se do Sinal da Cruz para fazer milagres e vencer


as tentacóes. Daí veio o costume, muito antigo, de representá-lo com
urna cruz na máo.

Através dos séculos, foram cunhadas medalhas de Sao Bento de


varias formas. Desde o sáculo XVII, comecaram-se a cunhar medalhas,
que tém de um lado a imagem do Santo com um cálice, do qual saem
urna serpente e um corvo com um pedaco de pao no bico, lembrando as
duas tentativas de envenenamento das quais Sao Bento saiu milagrosa
mente ileso. O outro lado da medalha apresenta urna cruz entre cujos
bracos estáo gravadas as iniciáis C S P B; em latim: Crux Sancti Patris
Benedicti: "CRUZ DO SANTO PAI BENTO".

• Na haste vertical da cruz léem-se as iniciáis: C S S M L:


Crux Sacra Sit Mihi Lux:
"A CRUZ SANTA SEJA MINHA LUZ".

• Na haste horizontal: N D S M D:
Non Draco Sit Mihi Dux:
"NAO SEJA O DRAGÁO O MEU GUIA".
• No alto da cruz está gravada a palavra PAX, "Paz", que é lema da Ordem de
Sao Bento. Ás vezes, PAX é substituido pelo monograma de Cristo: IH S.
• A partir da direita de PAX estáo as iniciáis: V R S N S M V:
Vade Retro Sátana Numquam Suadeas Mihi Vana:
"RETIRA-TE, SATANÁS, NUNCA ME ACONSELHES COISAS VAS!"
• SMQLIVB:
Sunt Mala Quae Libas Ipse Venena Bibas:
"É MAU O QUE OFERECES, BEBE TU MESMO
OS TEUS VENENOS!"

Na outra face de algumas medalhas está representado Sao Bento


a segurar na máo esquerda o livro da Regra que escreveu para os mon-
ges; e, na outra máo, a cruz.

Ao redor do Santo lé-se a seguinte jaculatoria ou prece:

EIUS • IN • OBITU • NRO • PRAESENTIA • MUNIAMUR

575
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

Em portugués: "Sejamos confortados pela presenta de Sao


Bento na hora de nossa morte".

O uso habitual da medalha tem por efeito colocar-nos sob a espe


cial protecáo de Sao Bento, principalmente quando se tem confianca nos.
méritos de táo grande Santo e ñas grandes virtudes da Cruz de Nosso
Senhor Jesús Cristo!

Sao Bento é patrono de urna boa morte, assim como Sao José o é.

2. A Tatuagem

A tatuagem nao produz efeito algum, pois nao é um sacramental. Sua


origem está ñas crencas esotéricas e no mundo da magia. - E que é a magia?

A magia é a artimanha que pretende torear poderes superiores ou a


própria Divindade a agir segundo as intencoes do mago, seja para obter
beneficios, seja para realizar maleficios. O mago, e só ele, conheceria os
segredos para conseguir o que os meios convencionais nao conseguem. A
arte mágica assim entendida vale mais do que a oracáo, e vem a ser exata-
mente o contrario de urna auténtica atitude religiosa. A magia é a caricatura
da religiáo, pois coloca o homem ácima da própria Divindade, que ele con-
segue dominar com seus encantamentos. Explora a crendice popular: já
que nem todos os problemas se resolvem como as pessoas desejam, a
magia promete a realizacáo do sonho ou o éxito ardentemente almejado.

A tatuagem resulta em perda de dinheiro, perda de tempo, como


também pode ser anti-higiénica.

O amigo, que deseja protecáo contra o inimigo, tenha certeza de


que a melhor protecáo se obtém mediante urna conduta de vida reta e fiel
aos preceitos do Senhor; quem vive na graca de Deus, evitando o peca
do, pode dizer com Sao Paulo:

"Nos sabemos que Deus coopera em tudo para o bem (Jaqueles


que o amam... Se Deus está conosco, quem estará contra nos? Aquele
que nao poupou o seu próprio Filho, mas O entregou por todos nos, como
nao nos haverá de agraciar em tudo junto com Ele? Quem nos separará
do amor de Cristo? A tribulagáo, a angustia, a perseguicao, a fome, a
nudez, operígo, a espada?" (Rm 8, 28.31s.35).

"O que se faz por amor e respeito, nao é pecado...". Esta frase
repete o que já Santo Agostinho dizia: "Ama e faze o que quiseres". - O
sentido destes dizeres depende de como se entende a palavra amor. Na
verdade, existem duas modalidades de amor: o de cobica, interesseiro, e
o de benevolencia, que ama para fazer o bem ao ser amado. Somente o
amor de benevolencia (agápe) legitima plenamente o comportamento
humano. Ás vezes dá-se o nome de amor a urna contrafacáo do agápe.
Eis o que nos ocorre dizer ao caro amigo devoto de Sao Bento.
Estéváo Bettencourt O.S.B.

576
Pergunte

Responderemos

índice Geral de 2000


50 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

ÍNDICE

(Os números á direita indicam, respectivamente, fascículo, ano de edicáo e página)

«ABRAÁO E SUA LENDA" por Walter Vogels "fSSSSS1 P' tnl


REALIDADE HISTÓRICA DO PATRIARCA 462/2000, p. 509
ABORTO: CARTA AO MINISTRO JOSÉ SERRA 460/2000, p. 431
ESTRATEGIAS ABORTISTAS 454/2000, p. 125
FUNDAMENTADO NO PROBABILISMO 462/2000, p. 500
MORAL CATÓLICA 460/2000, p. 396
UMA OPQÁO PERIGOSA 461/2000, p. 457
"A CONFISSÁO E O PERDÁO" por Jean Delumeau 457/2000, p. 261
ACÓLITO E ACOLITA DE MISSA? SÜ5' P" «§
ACORDÓ CATÓLICO-LUTERANO 455/2000, p. 169
«A FALTA QUE O SEXO FAZ" ("O GLOBO") "59 2000, p. 367
ALBANIA: PERSEGUICÁO RELIGIOSA 456™' P' lll
ALEXANDRE VI, PAPA: esboco biográfico: ,««SS' P' Íao
ALLEN SHARON R. e Messlanidade de Jesús 457/2000, p. 242
ALUCINAQÁO: QUE É? : 460 2000, p. 391
AMORIM HELIO: «DESCOMPLICANDO A FE" 46°£222I P' ill
ANCIÁOS: CARTA DE JOÁO PAULO II AOS 458/2000, p. 290
ANO 2000: PROFECÍAS DESMENTIDAS 454/2000, p. 131
"ANUARIO ESTATÍSTICO DA IGREJA" 459/2000, p. 344
APARIQÁO EM FÁTIMA AOS 25/07/00? 463'*°°°' P" *£
APROVAQÁO DE ESCRITOS NA IGREJA *S7/2S25: P- 2«í
AQUINO EDUARDO: "LABIRINTOS DO CORPO E DA ALMA" 458/2000, p. 326
"AS DIFÉRENQAS ENTRE A IGREJA CATÓLICA E AS IGREJAS
EVANGÉLICAS" por Jaime Francisco de Moura 462/2000, p. 522

BEATIFICACÁO DE FRANCISCO E JACINTA MARTO 455/2000, p. 175


BEBÉ PERFEITO: ÉTICA E CIENCIA 453/,^ P" B?5
BENTO, SAO, E MEDALHA 463/2000, p. 574
BETHENCOURT, FRANCISCO. "Historia das Inquisicóes": 460/2000, p. 407
BIGAMIA E CRISTIANISMO 452/2000, p. 21
BLET PIERRE, S.J.: ENTREVISTA SOBRE PIÓ XII E NAZISMO 454/2000, p. 100

CARTA ABERTA AOS PROTESTANTES por Fábio Moráis 459/2000, p. 380


AO MINISTRO JOSÉ SERRA 460/2000, p. 431
DE JOÁO PAULO II AOS ANCIÁOS 458/2000, p. 290
"CASÁIS EM SEGUNDA UNIÁO" por Luciano Scampini 453/2000, p. 73
CASAMENTO SOB PRESSÁO 463/2000, p. 570
CASTIDADE: Sentido e Valor da 459/2000, p. 338
"CATÓLICAS PELO DIREITO DE DECIDIR": Pronunciamentos dos
Bispos americanos 461/2000, p. 461
CATOLICISMO: QUAIS OS DOGMAS? 455/2000, p. 146
CDD: QUEM SAO? 461/2000, p. 461
578
ÍNDICE GERAL DE 2000 51

CENSURA DE LIVROS NA IGREJA 457/2000, p. 254


CHA SAGRADO: "UNIÁO DO VEGETAL" 461/2000, p. 472
CIENCIA E ÉTICA EM BUSCA DO BEBÉ PERFEITO 453/2000, p. 95
CÍRCULO DE FÉ E OBRAS SOCIAIS: QUE É? 462/2000, p. 516
COMUNHÁO EUCARÍSTICA E DIVORCIADOS RECASADOS 461/2000, p. 466
NA MÁO 457/2000, p. 273
COMUNICACÁO COM MORTOS POR MEIOS ELEJRÓNICOS (1STO É") . 460/2000, p. 386
CONFISSÁO DE FALTAS E PEDIDO DE PERDÁO 459/2000, p. 338
DOS PECADOS: MERA EXIGENCIA DA IGREJA? 457/2000, p. 261
CONSCIÉNCIA ESCRUPULOSA 452/2000, p. 10
FORMAQÁO 457/2000, p. 267
CORNWELL, JOHN: "PIÓ XII, O PAPA DE HITLER" 454/2000, p. 98
COR UNUM Pontificio Conselho: Obras Caritativas do Papa em 1999 458/2000, p. 297
CREDO DO POVO DE DEUS PELO PAPA PAULO VI 455/2000, p. 146
CRISTIANISMO E Prof. LEO MOULIN 454/2000, p. 114
CRISTIANISMO: PANORAMA 453/2000. p.50
CRUZADAS E IDADE MEDIA 454/2000, p. 122
"CURSO DE MILAGRES": Corrente Filosófico-Religiosa 458/2000, p. 329

DAIME, SANTO: QUE É? 461/2000, p. 472


DECLARACÁO "DOMINUS IESUS". Congregacáo para a Doutrina
da Fé: salvagáo por Cristo e pela Igreja 462/2000, p. 524
DELUMEAU, JEAN: "A CONFISSÁO E O PERDÁO" 457/2000, p. 261
"DESCOMPLiCANDO A FÉ" por Helio Amorim 460/2000, p. 423
DESTEFANI IRMA GEMA: "ENVELHECER COM DIGNIDADE" 463/2000, p. 557
dinastía- que é? lícita a um cristáo? 458/2000, p. 335
DIVORCIADOS RECASADOS E COMUNHÁO EUCARÍSTICA 461/2000, p. 446
DOGMAS: QUAIS OS DO CATOLICISMO? 455/2000, p. 146
"DOMINUS IESUS": Declaracáo da Congregacáo para a Doutrina
da Fé: salvacáo por Cristo e pela Igreja 462/2000, p. 524

ECUMENISMO NO SUL DA RÚSSIA 455/2000, p. 182


EMMERICH, ANNA CATHARINA: "VIDA, PAIXÁO E GLORIFICAQAO
DO CORDEIRO DE DEUS" 458/2000, p. 313
ENSINO RELIGIOSO ÑAS ESCOLAS PÚBLICAS DO RIO DE JANEIRO . 463/2000, p. 567
ENVELHECIMENTO SADIO 463/2000, p. 557
ESCRITOS APROVADOS PELA IGREJA 457/2000, p. 254
ESCRÚPULOS: FORMAQÁO DA CONSCIÉNCIA 457/2000, p. 268
QUE SAO? 452/2000, p. 9
ESPIRITISMO E HOMEOPATÍA 455/2000, p. 185
ESTATÍSTICA NA IGREJA 459/2000, p. 344
ÉTICA E CIENCIA: EM BUSCA DO BEBÉ PERFEITO 453/2000, p. 95
EVANGEUZAQÁO: 500 ANOS. REFLEXÓES 463/2000, p. 549
EXORCISMO: prática regulamentada 453/2000, p. 91
EXPLOSÁO DEMOGRÁFICA INFUNDADA 462/2000, p. 506

FARSA E PARAÍSOS FISCAIS NA IURD 452/2000, p. 30


FÁTIMA: BEATIFICACÁO DOS VIDENTES 455/2000, p. 175
NOVA APARICÁO EM 25/07/00? 463/2000, p. 546

579
52 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

O TERCEIRO SEGREDO REVELADO 461/2000, p. 434


TERCEIRO SEGREDO NAO TODO REVELADO? 463/2000, p. 542
FAUSTINO, EVANDRO. 500 ANOS, REFLEXÓES 463/2000, p. 549
FÉ E APROVACÁO DE ESCRITOS NA IGREJA 457/2000, p. 254
FECUNDAQÁO ARTIFICIAL E MORAL CATÓLICA 453/2000, p. 95
FEMINISMO E CDD 461/2000, p. 463
FEUDALISMO E IDADE MEDIA 454/2000, p. 115
FORMAQÁO DA CONSCIÉNCIA 457/2000, p.261
"FILOSOFÍA DA ALMA" (obra espirita), por Heráclito Maes 455/2000, p. 185
FRANCISCO E JACINTA MARTO: BEATIFICADOS 455/2000, p. 175

GRAQA E JUSTIFICAQÁO (Concilio de Trento) 455/2000, p. 164

HERÓIS DA FÉ 456/2000, p. 204


"HISTORIA DAS INQUISICÓES: PORTUGAL, ESPANHA E ITALIA;
SÉCULOS XV-XIX" por Francisco Bethencourt 460/2000, p. 407
DO PATRIARCA ABRAÁO 462/2000, p. 509
HITLER E IGREJA CATÓLICA 456/2000, p. 208
HOMEOPATÍA E ESPIRITISMO 455/2000, p. 185
HUBER, GEORGES: "O DIABO HOJE" 453/2000, p. 85

ÍCONES: QUE SAO? 456/2000, p. 219


ICONOCLASMO 456/2000, p. 223
IDADE MEDIA E INQUISICÁO 454/2000, p. 120
SIM OU NAO? 454/2000, p. 109
IERROCHUA OU YEHOSHUA OU JESÚS? 456/2000, p. 238
IGREJA CATÓLICA: ORIGEM 459/2000, p. 360
"CATÓLICA APOSTÓLICA CARISMÁTICA" E PAPA PIÓ II .... 458/2000, p. 328
CATÓLICA E IGREJAS EVANGÉLICAS: Diferencas 462/2000, p. 522
E INQUISIQÁO EM PORTUGAL 460/2000, p. 413
E INQUISICÁO NO BRASIL 460/2000, p. 420
EM ESTATISTICA ; 459/2000, p. 344
E NAZISMO DE 1933 A 1939 456/2000, p. 208
E SEXO ("ISTO É") 462/2000, p. 485
PEDE PERDÁO PELA FALTA DE SEUS FILHOS 452/2000, p. 2
PESSOA E PESSOAL 462/2000, p. 487
IGREJAS EVANGÉLICAS E IGREJA CATÓLICA: Diferencas 462/2000 p 522
IMAGENS DO INVISÍVEL (ÍCONES) 456/2000 p 222
INQUISICÁO E IGREJA 452/2000, p. 2
E IDADE MEDIA 454/2000, p. 120
EM PORTUGAL 460/2000, p. 413
HISTORIA 460/2000, p. 407
NO BRASIL 460/2000, p 420
IURD: FARSA E PARAÍSOS FISCAIS 452/2000, p. 30

JESÚS: "DOMINUS IESUS" Declaracáo da Congregacáo para a Doutrina


da Fé: salvacáo por Cristo e pela Igreja 462/2000, p. 524

580
ÍNDICE GERAL DE 2000 53

JESÚS HISTÓRICO: ¡magem subjetiva? 458/2000, p. 305


OU IERROCHUA OU YEHOSHUA? 456/2000, p. 238
RECONHECIDO ATRAVÉS DAS ESCRITURAS 457/2000, p. 242
JETER, P. HUGH: "SERÁ MESMO CRISTÁO O CATOLICISMO ROMANO?" 452/2000, p. 35
JOÁO PAULO I: LUZES SOBRE A MORTE DE 462/2000, p. 495
II: CARTA AOS ANCIÁOS 458/2000, p. 290
PEDIDO DE PERDÁO 459/2000, p. 338
PRONUNCIAMENTO DA ONU 461/2000. p. 478
JUDAISMO: ANTl-SEMITISMO E IGREJA 452/2000, p. 2
"JUDEUS DO VATICANO" por Avraham Milgram 459/2000, p. 382
E PIÓ IX 463/2000, p.537
MESSIÁNICOS: ELA RECONHECEU JESÚS
ATRAVÉS DAS ESCRITURAS 457/2000, p. 242
JUSTIFICACÁO: POSICÁO DE MARTINHO LUTERO 455/2000, p. 156
E GRACA 455/2000, p. 164
ACORDÓ CATÓLICO-LUTERANO 455/2000, p. 169
E CONCILIO DE TRENTO (1545-1563) 455/2000, p. 164
JURKEWICZ, REGINA SOARES E ABORTO 462/2000, p. 500

"LABIRINTOS DO CORPO E DA ALMA" por Eduardo Aquino 458/2000, p. 326


LESTE EUROPEU: TESTEMUNHOS 454/2000, p. 143
LETÓNIA: TESTEMUNHOS DE FÉ 454/2000, p. 143
LOPES, RAIMUNDO: NOVA APARICÁO EM FÁTIMA AOS 25/07/00? ... 463/2000, p. 546
LÍNGUAS QUE JESÚS FALAVA 454/2000, p. 137
LITURGIA: FUNCÓES EXERCIDAS POR MULHERES 457/2000, p. 285
LUTERO, MARTINHO E JUSTIFICACÁO 455/2000, p. 156

MAES, HERCÍLIO: "FILOSOFÍA DA ALMA" 455/2000, p. 185


MARÍA SSMA.: venerada no século III 457/2000, p. 280
MÁRTIRES DO SÉCULO XX 456/2000, p. 194
MATRIMONIO INDISSOLÚVEL 453/2000, p. 79
MEDALHA DE SAO BENTO: SACRAMENTAL, NAO TATUTAGEM 463/2000, p. 574
MEDITAQÁO TRANSCENDENTAL: QUE É? 458/2000, p. 322
METODISTAS PEDEM PERDÁO A CATÓLICOS 461/2000, p. 479
MILAGRE EUCARÍSTICO EM PORTO ALEGRE 458/2000, p. 334
MILGRAM, AVRAHAM. "OS JUDEUS DO VATICANO" 459/2000, p. 382
MISSA: ACÓLITO E ACOLITA 457/2000, p. 261
MISSAS GREGORIANAS: QUE SAO? 453/2000, p. 92
MORÁIS, FÁBIO: CARTA ABERTA AOS PROTESTANTES 459/2000, p. 380
MORTE: CONCEITO CRISTÁO 453/2000, p. 66
DE JOÁO PAULO I 462/2000, p. 495
"NAO SEI O QUE HÁ DO OUTRO LADO" 453/2000, p. 64
- PÁSCOA 462/2000, p. 519
MORTOS: SUFRAGIOS 453/2000, p. 92
MOULIN, PROF. LEO E CRISTIANISMO 454/2000, p. 114
MOURA, JAIME FRANCISCO DE: "As diferengas entre a Igreja
Católica e as Igrejas Evangélicas" 462/2000, p. 522

"NAO SEI O QUE HÁ DO OUTRO LADO" ("VEJA") 453/2000, p. 64

581
54 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

NAZISMO E IGREJA DE 1933 A 1939 456/2000, p. 208


NUDISMO? 456/2000, p. 232
NULIDADE DO CASAMENTO 463/2000, p. 570

OASKA: QUE É? 461/2000, p. 472


OBRAS CARITATIVAS DO PAPA EM 1999 458/2000, p. 297
"O DIABO HOJE" porGeorges Huber 453/2000, p. 85
ONU: PRESENCA DA SANTA SÉ CONFIRMADA 462/2000, p. 482
PRONUNCIAMENTO SOBRE JOÁO PAULO II 461/2000, p. 478
ORACÁO: DIFICULDADES E PISTAS DE SOLUCÁO 461/2000, p. 444
MARIANA DO SÉCULO III 457/2000, p. 280
ORDENAQÁO CLANDESTINA DE SACERDOTES E BISPOS 459/2000, p. 349
"OS JUDEUS DO VATICANO" por Avraham Milgram 459/2000, p. 382

PAPA ALEXANDRE VI (1492-1503) 459/2000, p. 355


JOÁO PAULO II. ACÁO CARITATIVA EM 1999 458/2000, p. 297
CARTA AOS ANCIÁOS 458/2000, p. 290
PEDIDO DE PERDÁO 459/2000, p. 338
PRONUNCIAMENTO SOBRE, NA ONU 461/2000, p. 478
PIÓ II E "IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA CARISMÁTICA" 458/2000, p. 328
PIÓ IX: FIGURA CONTROVERTIDA 463/2000, p. 530
PAPADO: ORIGEM 459/2000, p. 360
PARAÍSOS FISCAIS E FARSA NA IURD 452/2000, p. 30
PAULO VI, PAPA: CREDO DO POVO DE DEUS 455/2000, p. 146
PECADO E ESCRÚPULOS 452/2000, p. 10
SANTIDADE NA IGREJA 462/2000, p.487
PERDÁO: ANTI-SEMITISMO E IGREJA 452/2000, p. 2
AOS INIMIGOS 456/2000, p.202
E PEDIDO DE PERDÁO 459/2000, p. 338
IGREJA PEDE PELA FALTA DE SEUS FILHOS 452/2000, p. 2
METODISTAS PEDEM A CATÓLICOS 461/2000, p. 479
UNIDADE DA IGREJA 452/2000, p. 7
PERDAS NA TERCEIRA IDADE 463/2000, p. 561
PERSCH, PE. LEO: 3« SEGREDO DE FÁTIMA NAO TODO REVELADO?... 463/2000, p. 542
PESSOA E PESSOAL DA IGREJA 462/2000, p. 487
PIÓ IX E JUDEUS 463/2000, p. 537
FIGURA CONTROVERTIDA 463/2000, p. 530
XII E BLET PIERRE, S.J 454/2000, p. 100
E "OS JUDEUS DO VATICANO" 459/2000, p.382
E SUA ÉPOCA 456/2000, p.208
"O PAPA DE HITLER" por John Cornwell 454/2000, p. 98
TESTEMUNHO DE ISRAEL ZOLLI 461/2000, p. 480
PODER REGIO E INQUISICÁO EM PORTUGAL 460/2000, p. 413
PRESERVATIVO: DEBATE SOBRE 461/2000, p. 449
DE DOIS MALES O MENOR? 460/2000, p. 429
PRONUNCIAMENTOS DA CNBB 461/2000, p. 449
PROBABILISMO: QUE É? 462/2000, p. 500
PROCTER E GAMBLE DESMENTE 459/2000, p. 379
"PROCURÁIS O JESÚS HISTÓRICO?" por Rochus Zourmond 458/2000, p. 305
PROFECÍAS DESMENTIDAS: ANO 2000 454/2000, p. 131

582
ÍNDICE GERAL DE 2000 55

PROTESTANTES. CARTA ABERTA AOS 459/2000, p. 380


PSICOGRAFIA: COMO EXPLICAR? 455/2000, p. 191

"500 ANOS. REFLEXÓES SOBRE A EVANGELIZACÁO" por


Evandro Faustino 463/2000, p. 549

RACISMO: "O MITO DO SÉCULO XX" 456/2000, p. 209


RECONCILIACÁO, SACRAMENTO DA: ORIGEM 457/2000, p. 261
RELIGIÁO: ENSINO ÑAS ESCOLAS PÚBLICAS DO RIO DE JANEIRO . 463/2000, p. 567
REVELACÓES E VISÓES: ANNA CATHARINA EMMERICH 458/2000, p. 313
RISCOS: poesía 458/2000, p. 336

SALVACÁO POR CRISTO E PELA IGREJA: "DOMINUS IESUS" 462/2000, p. 524


SANTA SÉ: PRESENQA CONFIRMADA NA ONU 462/2000, p. 482
SANTIDADE E PECADO NA IGREJA 462/2000, p. 487
SCAMPINI, LUCIANO: "CASÁIS EM SEGUNDA UNIÁO" 453/2000, p. 73
SEGREDO DE FÁTIMA REVELADO 461/2000, p. 434
TERCEIRO SEGREDO NAO TODO REVELADO? 463/2000, p. 542
"SERÁ MESMO CRISTÁO O CATOLICISMO ROMANO?" por
HughP. Jeter 452/2000, p. 35
SEXO "A FALTA QUE O SEXO FAZ" ("O GLOBO") 459/2000, p. 367
"NA IGREJA" ("ISTO É") 462/2000, p. 485
PRESERVATIVO: DE DOIS MALES O MENOR? 460/2000, p. 429
SÍNODO DOS BISPOS DA EUROPA: TESTEMUNHOS 455/2000, p. 180
SUB TUUM PRAESIDIUM. ORAQÁO MARIANA DO SÉCULO III 457/2000, p. 280
SUDARIO SANTO: AUTENTICIDADE 453/2000, p. 55
SUFRAGIOS PELOS DEFUNTOS 453/2000, p. 92

TATUAGEM: PARA QUÉ? 463/2000, p. 574


TERAPIA E MÍSTICA. YOGA 459/2000, p. 375
TERCEIRA IDADE: SABER ENVELHECER 463/2000, p. 557
TESTEMUNHOS DO LESTE EUROPEU 454/2000, p. 143
e 455/2000, p. 180
TOPLESS" E VERÁO: QUE DIZER? 456/2000, p. 226
TRANSCOMUNICADORES COM MORTOS 460/2000, p. 386

"UNIÁO DO VEGETAL". OASKA 461/2000, p. 472

"VIDA PAIXÁO E GLORIFICACÁO DO CORDEIRO DE DEUS" por


Anna Catharina Emmerich 458/2000, p. 313
VOGELS, WALTER: "ABRAÁO E SUA LENDA" 462/2000, p. 508

583
56 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 463/2000

YEHOSHUA OU IERROCHUA OU JESÚS? 456/2000 D 238


YOGA: QUE É? ™;: «MoS £ 375
Z

ZOLLI, ISRAELE: TESTEMUNHO SOBRE PIÓ XII 461/2000 p 480


ZOURMOUND, ROCHUS: "PROCURÁIS O JESÚS HISTÓRICO?" 458/2000^ p! 305
EDITORIAIS

200°! 452/2000 D 1
"ABANDONASTE O TEU PRIMEIRO AMOR" (Ap 2, 4) 457/2000' p 241
ALFA E OMEGA 455/2OOo' D 145
A MARCA DA BESTA (Ap 13, 1-18) ZZZ 454/2OOo" p 97
A PARÁBOLA DO JARRO FISSURADO 456/2000* D 193
"ATE QUE RAIE O DÍA..." (2Pd 1, 19) ZZ 461/2OOo' p 433
"DEUS AMA A QUEM DÁ COM ALEGRÍA" (2Cor 9, 7) 453/2000* p 49
"OS LIVROS SERÁO ABERTOS" (Ap 20, 12) 463/2OOo' p 529
"SEDE SANTOS...» (Lv 11, 45) '..!.. ' 458 2000 p 289
UM DEUS QUE CASTIGA 460/2000 p 385
UM SANTO DESEJ.0 462/2000 p 481
UMA VIDA QUE NAO BUSCA 459/2000¡ p. 337

LIVROS APRECIADOS

AGOSTINI, O.F.M., FREÍ NILO, Teología Moral 452/2000, p. 29


ANTRELA, TONY, O amor e o preservativo 463/2000 p 564
AQUINO, FELIPE, Escola da fé I - A sagrada Tradicáo ". 459/2000,' p. 384
BESSIERE, GERARD, Jesús, o Deus surpreendente 458/2000 p 304
BRUN, PE. NADIR JOSÉ, Belas e grandes orapSes 46O/2OOo' p' 390
CLOWES, BRIAN, Fatos da vida. Um guia indispensável para as
questóes da vida e da familia 453/2000 p 72
CRESCENT, ELIANE PORTALONE, Rosario: Caminho da paz 453/2OOo" p 63
FERREIRA, MONS. JOSÉ LÉLIO, María. Breve introducáo á Mariologia 457/2000 d 260
FIORES, STEFANO DE, A "nova" espiritualldade. As novas
espiritualidades na Igreja desafiam o futuro.. 462/2000 p 515
GALLIAN, DANTE MARCELLO, Madre Maria José de Jesús no
caminho da perfeicáo 455/2000 p 179
GUIMARAES, FREÍ ALMIR RIBEIRO, Na busca do Senhor 457/2000* d 272
KUHL-MARTINI, DOROTHEA, Marilyn e o Papa Joáo XXIII Cartas"" '
entre o céu e o inferno 457/2000 p 284
KLOPPENBURG, O.F.M., FREÍ BOAVENTURA,Trindade. O Amor em Deus 461/2000' p 456

LELOUP. JEAN-YVES, Pa.avras da Fonte.^^TZ: tllS f 354*


LINN, MATHEW, SHEILA E DENNIS, Cura da dor mais profunda 460/2000' p 428
MOSER, D. HILARIO, O Sacramento do Matrimonio. Guia prático
em perguntas e respostas 453/2000 p 84
NOE, CARDEAL VIRGILIO, A Porta Santa da Basílica de S. Pedro
no Vaticano 460/2000 d 432
SCHIERHOLT, Dr. JOSÉ ALFREDO, Frei Boaventura P<
Kloppenburg, O.F.M 452/2000 d 20
STEIGER, ANDRE, Compreender a historia da vida '
TÉRRA, D. JOÁO EVANGELISTA MARTINS, S.J., Evangelho de
Joáo. Urna leitura espiritual 456/2000 contra capa

584
LIVROS Á VENDA NA LUMEN CHRISTI:
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lecido a 2/12/83). Teólogo conceituado, autor de um tratado completo de Teología
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Aquino em Roma. Para Professores e Alunos de Teología, é um Tratado de "Deus Uno e
Trino", de orientacáo tomista e de índole didática. 230 págs R$ 18,40.
LITURGIA PARA O POVO DE DEUS (4a ed., 1984), pelo Salesiano Don Cario Fiore,
traducáo de D. Híldebrando P. Martins OSB. Edigáo ampliada e atualizada, apresenta
em línguagem simples toda a doutrína da Constituigáo Litúrgica do Vat. II. É um breve
manual para uso de Seminario, Noviciados, Colegios, Grupos de reflexáo, Retiros, etc.,
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OS CISTERCIENSES - Documentos Primitivos, foi publicado originalmente na Franca
(Citeaux Commentarii Cistercienses), tendo urna introducáo e bibliografía do irmáo
Francois de Place, da Abadía de Notre Dame de Sept-Fons. Sua edicáo no Brasil foi
urna iniciativa do Mosteiro Trapista de Nossa Senhora da Assuncáo de Hardenhausen -
Itatinga, em Sao Paulo, tendo o apoio dos beneditinos do Rio de Janeiro. A traducáo é do
jornalist'a Irineu Guimaráes, por muitos anos correspondente no Brasil do jornal francés "Le
Monde". Padre Luís Alberto Rúas Santos, O. Cist., foi o responsável pela revisáo da obra.
O livro sai pela Musa Editora, de Sao Paulo, em coedicáo com a "Lumen Christi", do
Rio de Janeiro (254 páginas) R$ 25,00.
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OSB. 2» edicáo revista - 1997. 215 págs R$ 16>50-
• A PROCURA DE DEUS, segundo a Regra de Sao Bento. Esther de Waal
Traduzido do original inglés pelas monjas do Mosteiro do Encontró, Curitiba/PR.
CIMBRA- 1994. 115 págs R$ 18>10;
Apresentado pelo Dr. Roberto Runde, arcebispo anglicano de Cantuária, pelo Cardeal
Basil Hume, OSB, arcebispo de Westminster e de D. Paulo Rocha, OSB, abade de Sao
Bento da Bahía.
- PERSPECTIVAS DA REGRA DE SAO BENTO, Irma Aquinata Bóckmann OSB.
Comentario sobre o Prólogo e os capítulos 53,58,72,73 da Regra Beneditina - Traducáo
do alemáo por D. Mateus Rocha OSB. A autora é professora no Pontificio Ateneu de Santo
Anselmo em Roma (Monte Aventino). Tem divulgado suas pesquisas nao só na Alemanha,
Italia, Franca, Portugal, Espanha, como também nos Estados Unidos, Brasil, Tanzania,
Coréía e Filipinas, por ocasiáo de Cursos e Retiros. 364 págs R$ 11,10.
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O genio, ou seja, a santidade de um monge da Igreja latina do século VI (480-540) - SAO
BENTO - transformou-o em exemplo vivo, em mestre e em legislador de um estado de vida
crista empanhado na procura crescente da face e da verdade de Deus, espelhada na traje-
tória de um viver humano renascido do sangue redentor de Cristo. - Assim, o discípulo de
Sao Bento ouve o chamado para fazer-se monge, para assumir a "profissáo" de monge".

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guesa dos Monges de Singeverga. 682 págs R$ 35,00.

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rencias Espirituais. 3a edicáo portuguesa pelos monges de Sjngeverga.
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Sao Geraldo, Presidente da CIMBRA. Trecho da Apresentacáo:
"... Dada a proximidade do Jubileu do ano 2000, as Comunidades Monásticas da
Ordem de Sao Bento (OSB), Ordem Cistercierise (O. Cist.) e Ordem Cisterciense da
Estrita Observancia (Trapista, OCSO) reuniram-se para refletir sobre varios aspectos
'A Vida Monástica e o Terceiro Milenio: Desafios e Promessas'. O resultado do que
foi esse belo e rico mosaico da heterogénea Vida Monástica em sua dimensáo lati
no-americana. Deseja que todos os nossos leitores pos'sam tirar muito proveito dele...".
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Pierre de Solesmes. Traduzido e adaptado para o Brasil pelos monges do Mosteiro
da Ressurreicao. Mosteiro da Ressurreicáo, Edicoes. Prefacio da edicáo brasileira
por Dom Joaquim de Arruda Zamith, OSB, Abade-Presidente da Congregacáo
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