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transversalidades

fotografia sem fronteiras
viagens

paisagens

imagens

transversalidades
transversalidades
2015

trans
versa
des
Título

Transversalidades 2015 – fotografia sem fronteiras

|

viagens, paisagens, imagens

Coordenação

Rui Jacinto

Júri do Concurso

Gonçalo Rosa da Silva | Henrique Cayatte | Jorge Pena
Valentín Cabero Diéguez | Victorino García

|

Lúcio Cunha

|

Rui Jacinto

|

Santiago Santos

|

Susana Paiva

Textos

António Campar | Álvaro Domingos | Garrido Miranda | José Borzacchiello da Silva | José Manuel Simões
Maria Auxiliadora da Silva | Maria Laura Silveira | Paulo Peixoto | Roberto Lobato Corrêa | Rui Jacinto | Thalita Xavier
Produção

Alexandra Isidro

Ana Sofia Martins

|

Revisão

Ana Margarida Proença

|

Ana Sofia Martins

Concepção e montagem da exposição

António Freixo

|

Renato Coelho

|

Arménio Bernardo

Design | pré-impressão

Via Coloris, Design de Comunicação, lda.
Impressão | acabamento

Marques e Pereira, lda.
Tiragem

1000 ex.

Depósito legal

335972/11
ISBN

978-989-8676-09-2
Edição

Centro de Estudos Ibéricos
R. Soeiro Viegas, 8
6300-758 Guarda
www.cei.pt

O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos,
não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e opiniões neles expressos.
A opção ou não pelas regras do Novo Acordo Ortográfico
é da responsabilidade dos autores.

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transversalidades
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2015

fotografia sem fronteiras
viagens paisagens imagens

6 Viagens, Paisagens, Imagens: Fotografia e Território
Rui Jacinto

16 Melhor portfolio

tema 1

Paisagens, biodiversidade e património natural

23 Imagens vencedoras
Portugal

26 A paisagem vista através de uma lente
António Campar

29 Portfolios e imagens
Brasil e o Mundo

51 Memórias geográficas, paisagens literárias

Maria Auxiliadora da Silva, Thalita Xavier Garrido Miranda

55 Portfolios e imagens

tema 2

Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

índice

73 Imagens vencedoras
Portugal

77 Rural, modos de ficcionar
Álvaro Domingos

80 Portfolios e imagens
Brasil e o Mundo

93 Paisagem, campo e cidade

José Borzacchiello da Silva

98 Portfolios e imagens

índice
índice

tema 3

Cidade e processos de urbanização

119 Imagens vencedoras
Portugal

123 A cidade é passado e presente ansiando pelo futuro
José Manuel Simões

128 Portfolios e imagens
Brasil e o Mundo

146 A cidade, feixe de razões e temporalidades
Maria Laura Silveira

149 Portfolios e imagens

tema 4

Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

e

163 Imagens vencedoras
Portugal

166 100 anos é muito tempo. 100 quilómetros é muito longe
Paulo Peixoto

169 Portfolios e melhores imagens
Brasil e o Mundo

178 Cultura e Sociedade: Diversidade Cultural e Social
Roberto Lobato Corrêa

181 Portfolios e melhores imagens
196 Legendas e comentários das imagens

viagens

I paisagens I imagens

Viagens, Paisagens, Imagens: Fotografia e Território
Rui Jacinto *
“As fotografias são uma forma de imobilizar e aprisionar a realidade, considerada rebelde e inacessível. Ou ainda de
ampliar uma realidade que sentimos retraída, esvaziada, perecível, remota. Não se pode possuir a realidade mas pode
possuir-se (e ser-se possuído por) imagens” (Sontang, 1986: 144).

F

otografia e cultura territorial: o estado do
mundo e a reconstrução material e afetiva da
sua percepção. As fotografias que captamos e as
que a cada minuto nos chegam através de diferentes
meios e suportes mostram como são mutáveis os mapas materiais e afectivos que moldam a percepção do
mundo que nos rodeia. Ainda não terminou 2015, declarado Ano Mundial do Solo e Europeu do Desenvolvimento, e os nossos olhos já estão cheios de imagens
da escalada da guerra, dos atentados ao património e
das diferentes crises, das económicas e sociais às políticas, que persistem e teimam em alastrar. A icónica
imagem do menino sírio, de apenas três anos, resgatado sem vida, numa praia do Mediterrâneo, continua
cravada na nossa retina, alertando consciências para
a importância do momento crítico que atravessamos.
O impacto, a emoção e a corrente de solidariedade
geradas por esta fotografia acabou por ser tão efémera
como outras que a antecederam, mostrando a incapacidade das imagens resistirem, nos dias que correm, à
voracidade da comunicação.

tentável”, arrisca-se a ter igual sorte de tantas outras
declarações, feitas no último quarto de século, igualmente generosas, que o tempo revelou inconsequentes.
Lembremos as propostas que levaram à revisão do
Conceito e Medição do Desenvolvimento Humano,
defendida no Relatório do Desenvolvimento Humano
(1990), da agenda para um desenvolvimento global,
onde se destacaram os “Objetivos de Desenvolvimento
do Milénio” (2003), uma ambiciosa assumpção que
preconizava “Um Pacto Entre Nações para Eliminar a
Pobreza Humana”. Sem lograrem resultados palpáveis,
estas (boas) intenções, acabaram por se banalizar,
descredibilizar, quiçá, desacreditar. Contudo, o tempo
acabou por enriquecer a agenda do desenvolvimento
global com a inclusão de temas tão díspares quanto
pertinentes: Participação das Pessoas, Segurança
Género e Desenvolvimento, Crescimento Económico
Erradicar a Pobreza, Padrões de Consumo, Direitos
Humanos e Desenvolvimento Humano, Novas Tecnologias, Liberdade Cultural, Cooperação Internacional,
Água (Escassez e Crise Mundial da Água; Alterações
Climáticas, Mobilidade, Sustentabilidade e Equidade,
Reduzir as Vulnerabilidades e Reforçar a Resiliência.

As mensagens igualmente positivas, entretanto surgidas, parecem aguardar destino semelhante, como a recente encíclica, “Laudato Si - sobre o cuidado da casa
comum”, anunciada em 18 de Junho. Este veemente
apelo do Papa Francisco para se cuidar do ambiente
fazendo um uso mais justo e uma gestão mais equilibrada dos recursos (solo, ar, água, património, etc.),
consentânea com o apelidado desenvolvimento “sus-

Muitas destas preocupações pareciam exteriores e
distantes da Europa, que vivia entre euforia e deslumbramento a queda do Muro de Berlim (1989), até ao
momento em que lhes começaram a bater à porta. A
crise que se agravou depois de 2008 foi esvanecendo
um estado de espírito que atingiu a economia e conta-

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transversalidades

minou a sociedade, com índices de desemprego desesperantes, até atingir o âmago da construção europeia,
ressuscitando memórias e fantasmas que se julgavam
sepultados. A situação financeira da Grécia, que
atingiu o seu zénite em 2015 numa dramática cimeira,
realizada em Bruxelas num interminável domingo de
Julho, convocada para “negociar” a resolução deste
problema, havia de se prolongar, ininterruptamente,
antes terminar sem honra nem glória quando já ia alta
a manhã de segunda-feira. A Europa acordou diferente, suspensa e sobressaltada, à mercê dum futuro mais
incerto.

I fotografia sem fronteiras

espírito crítico e aumenta o risco da liberdade se diluir
numa cultura visual que resvala cada vez mais para o
puro entretenimento. Tais acontecimentos ocorrem
quando “a economia afectiva dos corpos mudou,
enquanto os nossos modelos mentais correspondentes
não desapareceram ainda. O mapa material (demográfico, comunicacional, urbanístico) do nosso país modificou-se e, com ele, o mapa dos nossos investimentos
afectivos. A paisagem é um corpo. Mas o horizonte
espiritual do nosso povo inteiro, dos nossos homens
políticos e dos nossos governantes, com excepção de
certos artistas e homens de cultura, continua a ser o
de antigamente, não tendo sequer integrado as transformações da cartografia do espaço físico e do tempo”
(Gil, 2005: 73).

O quadro, já de si complexo, agravou-se com a crise
emigratória, de dimensões e consequências imprevisíveis, o que faz aumentar a pressão da “fronteira
da fome” que, galgando o Mediterrâneo, invade o
continente. Todas estas dinâmicas e incertezas estão a
mudar o estado do mundo e a geopolítica, acentuando
as desigualdades económicas, sociais e territoriais que
moldam as geografias emergentes, das globais e europeias às nacionais e locais. No plano doméstico não
estamos imunes a processos tão violentos e dolorosos,
tanto mais que as políticas públicas encetadas desde
que Portugal aderiu à CEE, entre virtudes e defeitos,
não lograram reverter as assimetrias estruturais existentes, vulnerabilidades que se agudizaram e adquiriram novos contornos com a recente crise.

A nova cultura territorial implica uma nova percepção
do mundo e do espaço vivido cuja renovação também
passa pelas viagens que se fazem, reais e virtuais,
as paisagens que se alcançam e as imagens que se
interiorizam. Embora passado, portanto, já memória,
qualquer fotografia desperta sentimentos que nos
surpreendam e emocionam onde é possível alicerçar a
réstia de sonho indispensável para perscrutar o futuro
com mais esperança.
“A fotografia, sendo uma forma de comprovar a
experiência, é também um meio de a negar, ao
limitá-la a uma procura do fotogénico, ao convertê-la numa imagem, numa recordação. A viagem
torna-se uma estratégia para acumular fotografias.
O próprio acto de fotografar é tranquilizante e
atenua a sensação de desorientação que as viagens
provavelmente exacerbam” (Sontang, 1986: 19).

O panorama imagético do mundo e do país mudou
com este turbilhão de transformações, acompanhado
duma produção avassaladora e exponencial de imagens e da subtil substituição da palavra escrita pela
imagem e pelo audiovisual, colocando-nos à beira
duma poluição visual que incapacita a retenção, com
perenidade, de testemunhos visuais representativos do
tempo que vivemos. Semelhante evolução, além de
diminuir a capacidade de refletir e imaginar, reduz o

Viagem e fotografia: retalhos do mundo, fragmentos
da memória. A viagem e a fotografia são indissociáveis
porque é absolutamente necessário deslocarmo-nos

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viagens

I paisagens I imagens

para captar imagens e possuir um registo fotográfico
para garantir a sua efetiva realização. A viagem, hoje,
só parece existir quando temos uma imagem que a
testemunhe, qual troféu que se exibe para gáudio
pessoal, provar como somos nómadas e cosmopolitas,
documento que se guarda para memória futura. A
necessidade de termos um registo faz com que cada um
recorra a técnicas diferentes conforme as que melhor
domina: “a aguarela ou a fotografia, o poema ou o
desenho, a nota breve ou a longa dissertação, a carta
ou o postal. Cada suporte invoca um tempo singular:
a velocidade excessiva da máquina fotográfica por um
lado, a demorada paciência da escrita por outro, a imagem aqui o texto acolá, a cor misturada com a água
num caso, traço vivo, seco e cursivo no outro, o verbo”
(Onfray, 2009: 54).

e variadas: sem recuarmos a um tempo mais longínquo, lembremos a viagem de Alexander von Humboldt pela América do Sul, entre 1799 e 1804, que
relatou em Viagem às Regiões do Equinócio do Novo
Continente, ou a realizada por Xavier de Maistre, feita
nove anos antes, num espaço fechado, na primavera
de 1790, durante os meses da sua convalescença, que
originou a célebre Viagem à Volta do Meu Quarto.
Estas duas aproximações traduzem abordagens radicalmente distintas da viagem: “a primeira necessitou de
dez mulas, trinta baús de bagagem, quatro intérpretes,
um cronómetro, um sextante, dois telescópios, um
teodolito Banda, um barómetro, uma bússola, um higrómetro, cartas de recomendação do rei de Espanha
e uma pistola. A segunda, um pijama cor-de-rosa e um
pijama azul” (Botton, 2004: 240).

A captação de imagens tornou-se numa importante
motivação para se realizarem viagens que, juntamente
com a sua turistificação, alteraram tanto a vivência
como o encantamento que as envolviam. Por esta razão, há quem considere que “a viagem distorce a nossa
curiosidade vinculando-a a uma lógica geográfica superficial. Tão superficial como seria a de um programa
de estudos universitários que fizesse as suas indicações
bibliográficas considerando o seu volume em vez do
seu conteúdo” (Botton, 2004: 126). Contudo, nunca
deixou de existir um entendimento, porventura mais
romântico e telúrico, para quem “o viajar é viver”, “é
ampliar de um modo indefinido a existência”, pois “a
imobilidade pertence aos túmulos: à vida pertence o
movimento” (Herculano, 189…; 185-8). Os que cultivam esta perspetiva continuam a acreditar que “de vez
em quando, em viagem, acontece alguma coisa inesperada que transforma toda a natureza da vida e fica com
o viajante” (Theroux, 2012: 355).

Foi nesta última que Almeida Garrett se inspirou para
engendrar, por oposição, as suas típicas, simbólicas e
míticas Viagens na minha terra, publicadas sob a forma
de folhetim, durante os anos de 1845 e 1846, que abriu
com a seguinte observação: ”Que viaje à roda do seu
quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em
Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo —
entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus
nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é
de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.” É a proposta duma
viagem alternativa, a céu aberto, que fosse inspiradora
de “pensamentos novos, uma coisa digna do século”,
que não originasse nem se resumisse a “quaisquer dessas
rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões
de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da
Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.“ Nesta viagem que empreendeu
Tejo arriba, onde “está simbolizada a marcha do nosso
progresso social”, o autor critica “esta gente de Lisboa”
que “não vêem mundo, não viajam, não saem” e que,

Os motivos e as formas de viajar sempre foram muitas

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transversalidades

não indo além do Chiado, da rua do Oiro e do teatro
de S. Carlos, “como hão-de alargar a esfera de seus
conhecimentos, desenvolver o espírito, chegar à altura
do século?”

I fotografia sem fronteiras

esbaforido, para a superfície do brilho das coisas (o
ideal seria cortar-lhes as pálpebras!), e o aristocrático
– em que os homens dão ao mundo a honra de se
deslocarem, para continuarem no empenho de desconhecê-lo. Uns buscam, passivos, o que lhes mostram.
Os outros trazem em si o que depois fingem encontrar”
(Ferreira, 1971: 31. O modo de viajar, como de fotografar, mudou ao ponto de assumir possibilidades quase
infinitas, umas mais desassossegadas - “As viagens
são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos,
senão o que somos” (Fernando Pessoa) -, outras mais
metafóricas e sentimentais, como as sugeridas por Mia
Couto: “Lançamos o barco, sonhamos a viagem: quem
viaja é sempre o mar” (Mar me quer); “A viagem não
começa quando se percorrem distâncias, mas quando
se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem
acontece quando acordamos fora do corpo, longe do
último lugar” (O outro pé da sereia: 77).

Por essa altura, viajar para conhecer mundo começa a
ser sinónimo de cosmopolitismo, como nos dá conta
Eça de Queiroz, em As cidades e as serras, livro publicado em 1901, um ano depois da sua morte: “Parti
então, com muita alegria, para a minha apetecida
romagem às Cidades da Europa. Ia viajar!... Viajei.”
Estávamos nos alvores do turismo de massas, que o
autor antevia com esta apreciação irónica: “Trinta e
quatro vezes, à pressa, bufando, com todo o sangue
na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia
num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocando, a
arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação
para sorver desesperadamente limonadas mornas
que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes
subi derreadamente, atrás dum criado, a escadaria
desconhecida dum Hotel; e espalhei o olhar incerto
por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama
desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para
pedir em línguas desconhecidas um café com leite que
me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a
lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com
cocheiros que me espoliavam” (etc., etc.). Remata esta
passagem do livro de maneira caustica: “Gastei seis
mil francos. Tinha viajado.”

Os nómadas em que nos transformamos, como
concluiu Saramago ao fazer a sua Viagem a Portugal,
deixaram de estranhar que “a viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa.
Quando o viajante se sentou na areia da praia disse:
“não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim
de uma viagem é apenas o começo doutra”. Voltar a
percorrer caminhos e lançar novos, distantes e mais
(des)comprometidos olhares é aceitar que “viajar não
faz bem apenas aos homens,/ também, é bom para
os próprios percursos/ ter homens que os percorram./
Um caminho é como uma casa:/ é necessário abrir
a janela, de vez em quando, / para que o ar circule./
Precisa de ser arejado, o caminho, e os homens/ que
o percorrem são os que executam este ofício./ São os
homens e as mercadorias/ que conservam a estrada”
(Tavares, 2011) Visitar velhos itinerários é, por vezes,
expressar o desejo de regressar ao lugar de partida,

Quando o turismo de massas já dominava e se havia
afirmado como verdadeira industria José Gomes
Ferreira fornece-nos um retrato mais consentâneo
com esta modernidade emergente: “Em meu entender,
a intricadíssima arte de viajar pode resumir-se em
dois estilos essenciais: o turístico, inerente a uma
multidão de monstros de olhos muito abertos que
olham, olham, OLHAM, com entusiasmo de rebanho

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viagens

I paisagens I imagens

como se depreende das imagens que as comunidades
em diáspora partilham nas redes sociais. São imagens
de virtuais viagens às respetivas origens, exercício de
memória contra o esquecimento, afirmação de pertença contra a perda de referências dum território e duma
comunidade a que se continua umbilicalmente ligado.
“Eis como funciona a memória: recolhe na imensidão
extensa lenta da diversidade os pontos de referência
vivos e densos necessários à cristalização, reconstituição, e fortalecimento das recordações. A substância da
recordação é aquilo que deslumbra o espírito depois de
abandonada a geografia” (Onfray, 2009: 52). Assim se
combate a ausência e se alimenta a expetativa dum regresso às origens, ao torrão natal, às pequenas pátrias
que nunca deixam de ser a nossa casa comum.

seu imediato. Emoções difusas, percepções desordenadas, ideias confusas, fragmentos e pedaços de real sem
qualquer relação à partida, a não ser o facto de serem
apreendidos em determinado lugar, tempo, hora e
sítio” (Onfray, 2009: 52).
“A paisagem está lá, para dizer que o mundo
exterior existe e nos escapará sempre um pouco,
à revelia dos nossos desejos e dos nossos talentos.
Talvez então a paisagem não seja senão a metáfora de uma exterioridade distante e maior, muito
maior, que as leis e os livros. À apreensão do
espaço que a paisagem é, talvez não possa afinal
aplicar-se nem a mediação do peso da história
nem a das narrações, mas tão-só esse outro
mistério que a intuição é. O espaço percebido
deixará então de oferecer-se como representação
para revelar-se como imagem, imagem do próprio
espaço” (Carvalho, 2005: 129).

As imagens captadas durante tais itinerários são
crónicas de lugares onde se demorou o olhar a procurar o outro mas que é, tantas vezes, uma tentativa
desesperada de nos encontrarmos a nós mesmos. Tais
imagens, sejam banais subprodutos da viagem ou
documentos intencionais recolhidos por profissionais,
são o espelho dum mundo em mudança, retrato da
transformação de lugares que, assim, vão perdurar na
memória. Embora a fotografia seja “uma língua estrangeira que todo mundo acha que sabe falar” (Philip-Lorca di Corcia), é uma linguagem indispensável
para recolhermos os retalhos do mundo e, a partir
destes fragmentos da memória, contarmos a história
da permanente viagem, porque, como ensina qualquer
Manual do Viajante, “é muito raro poder dizer-se que
uma viagem é perfeita antes de acabar. Mas acontece”
(Mendonça e Costa, 1907). As imagens que ficam do
tempo que passa são “a substância da recordação é
aquilo que deslumbra o espírito depois de abandonada
a geografia”. Porque, antes de mais, “é preciso tomar
em consideração esse conjunto de imagens e de sensações ao qual se reduz inevitavelmente uma viagem no

Paisagens e imagens fugidias: fixar sinais dum
mundo que nos escapa. As imagens submetidas a
concurso, sobretudo as seleccionadas para figurarem
no presente catálogo, esboçam distintas cartografias
onde se inscrevem e perpetuam a memória dos lugares.
Desenhada a partir de traços naturais e humanos e
de modos de vida, rurais e urbanos, que teimam em
subsistir, estas complexas topografias são referências
incontornáveis que definem, identificam e decifram o
código genético das paisagens e das comunidades que
as foram moldando.
Paisagens, biodiversidade e património natural.
O mosaico paisagístico que o catálogo permite percorrer é trespassado pela diversidade de contextos
onde se observam distintas relações entre o homem
e o meio. Há uma presença forte do mar, limitado
por praias, arribas e escarpas que o céu prolonga

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transversalidades

em infinitos reflexos espelhados na água e nostálgicos pôr-do-sol. O tempo é um grande escultor
(geo)morfológico, de vales, como os modelados
por glaciares, de cavernas, com as suas estalactites
e estalagmites, de (geo)monumentos, quando se
conjuga favoravelmente a estrutura e a litologia do
terreno. Há, ainda, paisagens antropizadas, onde o
homem explora recursos, seja a pesca, a extração
de sal ou a energia eólica, cujas torres começam a
pontuar o horizonte. As paisagens consideradas Património da Humanidade estão bem representadas
tanto pelas que sofreram uma forte ação do homem
(socalcos do Douro, p. ex.) como pelos que ainda
se apresentam em relativo estado puro (Lençóis
Maranhenses).

I fotografia sem fronteiras

quase sem agricultura, em renaturalização devido ao
abandono: retratam fechaduras de portas que já não
se abrem, casas antigas, abandonadas, em ruínas; a
aldeia é um mundo onde se confrontam presença e
ausência e a relação tensa entre tradição e modernidade pré-anuncia a transição dum paradigma do
espaço para o do tempo, ditando uma nova empatia
dos ausentes e dos exógenos com estes territórios.
No limiar dum novo tempo, o discurso imagético
sobre o rural mitifica uma estética que se expressa
mais através de imagens a preto e branco, recorre a
retratos de pessoas deslocadas no tempo, marcadas
pela ausência e por modos de vida que nos parecem
distantes.
Cidade e processos de urbanização. As topografias
da memória e as contradições urbanas estão plasmadas em imagens que mostram o contrate entre
o novo e o velho, o antigo e o moderno, sinais do
passado e da modernidade que se espelham tanto
na nova arquitetura como nos vazios e espaços
abandonados que proliferam nos centros e nas periferias. As cidades estão em permanente transformação, coexistindo espaços públicos novos ou renovados paredes-meias com vazios e ruínas - alguns
centros históricos são situações paradigmáticas -,
que o colorido dos graffiti assinalam e destacam.
As paisagens, os ambientes e as vivências urbanas
mudam ao ritmo das refuncionalizações e das novas centralidades, vincando ainda mais segregação
(favelas, p. ex.), a pobreza e a solidão urbana.

Espaços rurais: povoamento, atividades, modos
de vida. O despovoamento, o envelhecimento e o
abandono são retratos que se impuseram, depois
dos campos terem sofrido, ao longo de mais de meio
século, sucessivas vagas de crises com diferentes
matizes. A agricultura mais moderna, competitiva e
tecnologicamente evoluída está pouco representada,
prevalecem as imagens de hortas cultivadas por
idosos, rendidos à pura subsistência. Os sinais de
vitalidade nos campos chegam dos países do Sul,
das pampas argentinas ou dos sertões do Paraná,
colonizados pelo agronegócio. Os modos de vida
que os concorrentes mais valorizaram são os de
pendor tradicional, em vias de extinção (pastores,
transumâncias, matança do porco, capeia raiana,
etc.), as atividades, as profissões e os saberes artesanais ligados a uma fase proto-indústria e (ferreiro,
moleiro, alfaiate, etc.). Nas aldeias procuram marcas
do património e da arquitetura rural, certos detalhes e alguns e estereótipos dum passado glorioso
quando eram os núcleos que organizavam o espaço
e a sociedade rural. O que nos mostram é um rural

Cultura e sociedade: diversidade cultural e
social. O catálogo permite uma viagem a diferentes
lugares emblemáticos das mudanças que percorrem
o mundo, visitar paisagens naturais e humanas
mais ou menos familiares ou exóticas. O contacto
com outros povos e outras culturas d’aquém e

11

viagens

I paisagens I imagens

d’além fronteiras permite conhecer outros modos
de vida, usos e costumes que se registam para
memória futura. Bases de futuros diálogos e cooperação entre territórios e culturas.

O investimento que é feito para divulgar, promover
e construir novas imagens de territórios e lugares é
correlativo da proliferação de folhetos, desdobráveis e
livros editados por diferentes entidades. As imagens
incluídas neste catálogo não se inscrevem nesta preocupação, exploram outros pontos de vista, abordando
a partir doutros ângulos lugares perdidos no mapa,
longe da vista e porque, aparentemente, nada de relevante aí acontece, foram apagados e esquecidos pela
(in)cultura territorial dominante representada pela
generalidade dos média. A origem e o principal objectivo do Projecto Transversalidades é o de resgatar
através da imagem territórios silenciados, promover
a inclusão de lugares e de pessoas que foram sendo
remetidas para a lonjura do esquecimento. Ao reconhecer a importância e o valor estético, documental e
pedagógico da imagem, além de promover a cooperação entre instituições e territórios, o Transversalidade
contribui para recentrar periferias, desencravar e
incluir territórios para, deste modo, promover através
duma cultura visual e territorial renovadas uma nova
geografia visual e inclusiva.

Recolhidas em aprazíveis viagens, encontros inesperados ou momentos insólitos, as imagens aqui
partilhadas oscilam entre uma beleza bucólica e
onírica, que idealizamos intemporal, e o seu oposto
quando mostram a exclusão de pessoas, territórios ou
denunciam efeitos negativos sobre o meio. Exprimindo
tensões e conflitos ou retratando desastres naturais ou
o sofrimento humano as fotografias não são inócuas,
tanto mais que o ato de fotografar implica selecionar
o que se pretende mostrar e escolher o que fica de
fora: “enquadrar é excluir, é delimitar um in e um
off, é, finalmente, fraccionar o mundo, privilegiar um
aqui contra um ali, de forma tal que o nosso olhar é
incapaz de fixar do mesmo modo. Escolher um “aqui”
equivale, finalmente, a escolher um “agora”; oblitera-se
um “além” e um “aquém” como se despreza um “antes”
e um “depois” (Castello-Lopes, 2004: 83).

* CEI, CEGOT – Universidade de Coimbra.





Referências:
Alain de Botton (2004) – A arte de viajar. Dom Quixote.
Bruce Chatwin (2008) – Anatomia da Errância. Quetzal.
L. Mendonça e Costa (Coord.; 1907; 1940) – Do Manual do Viajante em Portugal (Descrição de viagens em Portugal, continuado por Carlos
d’Ornelas, 7ª ed. 1940.
Michel Onfray (2009) – Teoria da viagem. Uma poética da geografia. Quetzal.
Paul Theroux (2012) – A arte da viagem. Quetzal.

Alexandre Herculano. Apontamentos de viagem [1853-1854]. Bertrand, 1973 (pref. e notas de Vitorino Nemésio).
Gonçalo M. Tavares (2011) – Uma Viagem à Índia. Caminho.
José Gomes Ferreira (1971) – O Irreal quotidiano. Histórias e invenções. Portugália.
José Saramago (1983) – Viagem a Portugal. Caminho.
Mia Couto (2006) – O outro pé da sereia. Caminho.
Ruy Duarte Carvalho (2005) – As paisagens propícias. Cotovia.

Gérard Castello-Lopes (2004) – Reflexões sobre a fotografia. Assírio & Alvim.
José Gil (2005) – Portugal, hoje: o medo de existir [Da economia dos afectos], Relógio d’ Água.
Susan Sontang (1986) – Ensaios sobre fotografia. Dom Quixote.

12

transversalidades
transversalidades
2015

fotografia sem fronteiras
viagens paisagens imagens

transversalidades
transversalidades
melhor portfolio

viagens

I paisagens I imagens

melhor portfolio

Javier Arcenillas, Espanha
11.4.6.
Vertedero de Tegucigalpa
*(1) Vertedero de Tegucigalpa (Honduras), 2014
11.4.2.
Vertedero de Tegucigalpa
*(2) Vertedero de Tegucigalpa (Honduras), 2014

16

transversalidades

11.14.1.
Vertedero de Tegucigalpa
*(3) Vertedero de Tegucigalpa (Honduras), 2014

17

I fotografia sem fronteiras

viagens

I paisagens I imagens

melhor portfolio

Javier Arcenillas, Espanha
11.4.3.
Vertedero de Tegucigalpa
*(4) Vertedero de Tegucigalpa (Honduras), 2014
11.4.4.
Vertedero de Tegucigalpa
*(5) Vertedero de Tegucigalpa (Honduras), 2014

18

transversalidades

11.4.5.
Vertedero de Tegucigalpa
*(6) Vertedero de Tegucigalpa (Honduras), 2014

19

I fotografia sem fronteiras

transversalidades
transversalidades

tema 1

Paisagens, biodiversidade
e património natural

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

prémio tema

Ary Attab Filho, Brasil
2.1.1
Lençóis I
*(7) Barreirinhas MA (Brasil), 2014

22

transversalidades

23

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

menções honrosas

João Pedro Costa, Portugal
38.1.3.
Concentração
*(8) Fortaleza de Sagres (Portugal), 2014

24

transversalidades

Asier Gogortza, Pais Basco
41.1.2
Bertze Aldea 2
*(9) Bera/Sara (Pais Basco), 2015

25

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

A paisagem vista através de uma lente
António Campar de Almeida *

Q

uando se fala de paisagem vem imediatamente à ideia, para o comum das pessoas, a visão
de um espaço, mais ou menos afastado do
observador, mas onde este consegue distinguir os seus
elementos constitutivos, permitindo que, a qualquer
momento, a descreva e distinga de outra qualquer.
Porém, a paisagem é mais do que um cenário estático,
não se pode caraterizar apenas pelo que é visto num
determinado momento. Qualquer paisagem carrega
uma história repleta de eventos com maior ou menor
grau de traumatização, diga-se de transformação
rápida, intercalados com tempos de maior estabilidade,
mesmo as paisagens ditas naturais. Ou seja, a paisagem
é dinâmica, e esta é mais ampla do que aquilo que
é deduzido pela observação do resultado visto num
determinado momento. Significa que cada paisagem
resulta da transformação, natural ou humana, de outras paisagens que a antecederam. Ora, há elementos
destas que vão ficando preservados, restantes. Cabe,
então, ao observador mais atento e desperto para esta
realidade identificá-los e, se esse for o seu intento,
salientá-los como resquícios patrimoniais, naturais
ou culturais, consoante o caso, capazes de traduzir ou
representar cada uma das paisagens desaparecidas e,
se possível, reproduzi-las, embora concetualmente, por
comparação com casos por si conhecidos.

Para além do aspeto sensorial, tangível, das caraterísticas da paisagem, há as componentes emocional e simbólica que, em regra, são tanto mais fortes e arreigadas
quanto o observador faz parte dessa paisagem e, em
especial, se nela reconhece muito do seu contributo
ou apenas muita da sua vida. Neste caso, passa-se do
campo objetivo para o subjetivo e, porventura, psico-religioso. Mais facilmente, porventura, estas pessoas
reconhecem os elementos tangíveis e intangíveis da
“sua” paisagem, imbuindo-se do espírito do lugar,
ou seja identificando-se com ela, condição para a
identidade local dessa paisagem. Essa identidade local
tem-se alargado para níveis regionais, nacionais e até
internacionais, na sequência da cada maior facilidade
de circulação das pessoas e do papel dos meios de
comunicação social na divulgação das paisagens mais
valoradas e apreciadas em função de diversificados
critérios. E há pessoas que se ligam emocionalmente a
paisagens, por vezes apenas a partir da observação de
fotografias.
Se há tecnologia que se adapta bem à representação
da paisagem é a da fotografia. Pelo menos se entendermos paisagem no sentido comum daquilo que a nossa
vista alcança e discerne da superfície terrestre, sólida
ou líquida. Neste sentido, ainda comum, qualquer
trecho, maior ou menor, de espaço terrestre captado
pela objetiva de uma máquina fotográfica reproduziria
uma paisagem. Neste caso, estaríamos perante uma
conceção bastante limitada de paisagem, mas também
de fotografia de paisagem.

A paisagem, porém, também é caraterizável pelos
outros sentidos (do som, do cheiro, do gosto, do tato).
Os dois primeiros, em especial, podem ser muito
impressivos. Há sons e cheiros que se identificam com
certas paisagens, de modo que quando são sentidos por
quem foi marcado por eles, têm o condão de lhes fazer
reviver ou rever essas paisagens.

A paisagem é, na essência, heterogeneidade: na sua
composição, na sua morfologia, na sua estrutura e

26

transversalidades

orgânica, na sua evolução e dinâmica, na sua perceção
e aqui não se deve ter apenas em conta o sentido
visão, mas todos os outros sentidos, como foi acima
referido, nas emoções e sentimentos que despertam,
onde o sentimento de identidade pode ser muito
forte. Ou seja, um campo muito vasto de modos de
abordagem, que podem ir desde os mais positivistas de
caraterização biofísica do espaço, às estruturas criadas
pelas comunidades humanas que aí permaneceram
por mais ou menos tempo, até aos mais subjetivos de
apreciação e valoração da mesma paisagem, por quem
esteja dentro ou esteja fora dela.

I fotografia sem fronteiras

de ramos, cicatrizes de fogos, tantas vezes múltiplos, e
há que escolher bem o ângulo para conseguir apanhar
o máximo dessa história que consegue contar. Há casos, no entanto, em que a vetustez de algumas árvores
chegam a enganar os mais conhecedores e a história
da paisagem acaba por ser deturpada, como aconteceu,
por exemplo, com o conhecido cedro-do-Buçaco, de
facto um cipreste originário das montanhas da América Central, mas que ao ser classificada pelo botânico
inglês Philip Miller, em 1768, a partir de exemplares
levados de Portugal, onde havia árvores com mais de
cem anos, o levou a atribuir-lhe o nome específico de
português, Cupressus lusitanica. Antes de 1640 não
deveria existir qualquer exemplar desta espécie no
Buçaco, de onde teriam sido levados exemplares.

A fotografia de paisagem só o é quando o lampejo
correspondente à obtenção da imagem pela objetiva
consegue captar os mais importantes elementos caraterizadores da paisagem. É desejável que mostre a sua
alma, o espírito do lugar, o seu caráter, aquilo que a
singulariza ou pelo menos a torna tão valiosa ao olhar
do mais exigente observador. E aqui entra a subtileza,
a finura, de observação do fotógrafo que vê mais do
que aquilo que a sua vista alcança, vê umas vezes com
a razão, outras vezes com o coração. A subtileza manifesta-se muitas vezes no elemento que na fotografia
é “puxado” para primeiro plano porque protagoniza
toda a evolução, todas as condições que explicam a
composição daquela paisagem. Uma simples construção humana – um marco, um cruzeiro, uma cabana –
inserida no meio de uma matriz florestal igual a tantas
outras, noutras áreas, pode ser o elemento distintivo
e valorativo daquela paisagem. A rugosidade da face
tisnada de um agricultor ou de um pescador mostra a
exposição frequente e longa à dureza dos elementos
naturais que foram moldando aquela face durante inúmeros verões escaldantes e invernos inclementes. As
árvores velhas, especialmente se isoladas, também se
prestam bem a este protagonismo. Nestas, as rugas são
diferentes, são as feridas de grandes cortes ou derrubes

A paisagem, além da sua evolução e dinâmica ao
longo do tempo, tem movimentos, aromas, sons que
a atravessam em cada momento. A boa fotografia
consegue transmitir o movimento, por exemplo através do ondulado de uma ceara ou do estiramento das
folhas e ramos num sentido quando impulsionados
pelo vento, ou ainda pela queda das folhas das árvores
no outono, mas também através do voo ou corrida
de animais, ou então da água em fios leitosos numa
cascata ou rápido de um rio ou ainda as ondas e a sua
espuma. As dunas eólicas, como está implícito na sua
denominação, existem pelo movimento do ar, pelo
vento. E as pequenas rugas na superfície das dunas, os
ripples, até indicam a orientação do vento que esteve
a soprar quando da sua formação e, grosseiramente, a
sua velocidade – é todo um conjunto de informações
que é dado por uma fotografia bem tirada, aproveitando uma inclinação devida do Sol. As poeiradas e os
fumos, de origem natural ou humana, são sempre um
indicador de movimento. Já os sons e os aromas exigem um maior conhecimento por parte do observador
da fotografia para os percecionar na paisagem. Em

27

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

alguns casos é fácil deduzi-los através da posição da
boca ou do bico dos animais, da queda de chuva, da
presença de máquinas em movimento, da presença de
flores de aroma agradável, mas também de substâncias
com cheiro que se sabe desagradáveis, etc. No caso
das dunas, o movimento das areias também tem um
som específico, resultante do facto de saltarem e chocarem com outras na superfície. Em quaisquer destas
situações a fotografia ganha vida e a paisagem revela a
sua respiração, o seu pulsar.

à observação por parte da maioria das pessoas. Pelo
menos somos levados a concluir isso pelo que tem sido
construído junto à costa de modo a que o mar esteja
sempre à vista por quem descansa, conversa, passeia,
corre, almoça ou simplesmente toma um café. Não
basta haver uma avenida paralela à praia a algumas
dezenas de metros de distância, se há uma duna a interpor-se, constrói-se um passadiço em madeira sobre
a duna frontal para as pessoas passearem a ver o mar!
Um bar ou restaurante a trinta ou cinquenta metros
da praia não é suficiente, constrói-se equipamentos
equivalentes sobre a duna ou mesmo na praia! Somos,
de facto um povo virado para o mar…

Em Portugal há uma paisagem que, apesar de relativamente monótona, o mar, é tida como muito apreciável

* Professor do Departamento de Geografia da Universidade de Coimbra, FLUC, CEGOT.

28

transversalidades

Paulo Bizarro, Portugal
12.1.4.
Pontão
*(12) Carcavelos (Portugal), 2013
12.1.2
Vazante
*(13) Brejo Largo (Portugal), 2014

12.1.5
Chuva de estrelas
*(10) Costa Vicentina (Portugal), 2013
4.1.35.4.12.1.1
Remoinho
*(11) Costa Vicentina (Portugal), 2014

29

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

José Paiva, Portugal
87.1.4.
Stormy sunset
*(16) Serra S. Macario (Portugal), 2014
87.1.1.
Motion
*(17) Praia da Adraga (Portugal), 2014

87.1.3
Bridge
*(14) Cabo Raso (Portugal), 2014
4.1.35.4.87.1.2.
Milky Way
*(15) Praia da Adraga (Portugal), 2014

30

transversalidades

Vanda Rita, Portugal
84.1.2.
No fim do Mundo
*(20) Cabo de São Vicente (Portugal), 2015
84.1.4.
Reflexos
*(21) Praia da Cordoama (Portugal), 2014

84.1.1.
Enseada do beliche
*(18) Beliche - Sagres (Portugal), 2015
4.1.35.4.84.1.3.
Costa Vicentina
*(19) Praia da Barriga - Vila do Bispo (Portugal), 2014

31

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Rita Dinis, Portugal
30.1.3.
Contemplação
*(24) Ericeira (Portugal), 2015
30.1.2.
Raízes do meu ser
*(25) Vila Nova de Milfontes (Portugal), 2015

30.1.4.
Gaivotas em terra...
*(22) Ericeira (Portugal), 2015
4.1.35.4.30.1.1.
Caminhos que vão dar ao mar
*(23) Ericeira (Portugal), 2015

32

transversalidades

Maria Isabel Dias Nobre, Portugal
51.1.2.jpg
Arribas Esculpidas
*(28) Praia da Galé - Grândola (Portugal), 2015
51.1.1.
Arriba Fóssil
*(29) Praia da Galé - Grândola (Portugal), 2015

51.1.3.
As Arribas e o Mar
*(26) Praia da Galé - Grândola (Portugal), 2015
4.1.35.4.51.1.4.
Da praia à arriba
*(27) Praia da Galé - Grândola (Portugal), 2015

33

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Inês Pereira Leonardo, Portugal
50.1.1.
Costa de pedra, serra de vida
*(32) Serra da Arrábida (Portugal), 2014
50.1.2.
Pedra da Anicha
*(33) Portinho da Arrábida (Portugal), 2013

50.1.3.
Pedras do Parque Marinho
*(30) Portinho da Arrábida (Portugal), 2013
4.1.35.4.50.1.6.
Senhor da Pedra
*(31) Praia de Miramar, Vila Nova de Gaia (Portugal), 2014

34

transversalidades

João Pedro Costa, Portugal
38.1.1.
Linhas de Esperança
*(36) Fortaleza de Sagres (Portugal), 2014
38.1.4.
Camuflagem
*(37) Fortaleza de Sagres (Portugal), 2014

38.1.5.
Tempestade Hércules
*(34) Fortaleza de Sagres (Portugal), 2014
4.1.35.4.38.1.2.
No limite
*(35) Fortaleza de sagres (Portugal), 2014

35

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Pedro Bastos, Portugal
39.1.3.
Brumas 2 do Arouca Geoparque
*(40) Arouca (Portugal), 2015
39.1.2.
Brumas I do Arouca Geoparque
*(41) Moldes / Arouca (Portugal), 2015

39.1.4.
Ponte Vasco da Gama 1
*(38) Lisboa (Portugal), 2014
4.1.35.4.39.1.5.
Ponte Vasco da Gama 2
*(39) Lisboa (Portugal), 2015

36

transversalidades

Leandro Guardado, Portugal
116.1.5.
Sob a neve
*(44) Serra da Estrela (Portugal), 2014
116.1.1.
Acima do céu
*(45) Serra da Estrela (Portugal), 2015

116.1.3.
Sob a ponte
*(42) Cacilhas (Portugal), 2015
4.1.35.4.116.1.6.
Reprodução
*(43) Vila Franca de Xira (Portugal), 2015

37

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Pedro de Oliveira Simões Esteves, Portugal
74.1.3.
Inverno
*(48) Parque Natural da Serra da Estrela (Portugal), 2015
74.1.5.
A montanha
*(49) Parque Natural da Serra da Estrela (Portugal), 2014

74.1.2.
Reflexo
*(46) Parque Natural da Serra da Estrela (Portugal), 2015
4.1.35.4.74.1.4.
Neve
*(47) Parque Natural da Serra da Estrela (Portugal), 2015

38

transversalidades

João Tremoceiro, Portugal
4.1.2.
Manhã fria Trás-os-Montes #2
*(52) Macedo do Mato, Trás-os-Montes (Portugal), 2014
4.1.3.
Manhã fria Trás-os-Montes #3
*(53) Macedo do Mato, Trás-os-Montes (Portugal), 2014

4.1.1.
Manhã fria Trás-os-Montes #1
*(50) Macedo do Mato, Trás-os-Montes (Portugal), 2014
4.1.35.4.4.1.5.
Manhã fria Trás-os-Montes #5
*(51) Macedo do Mato, Trás-os-Montes (Portugal), 2014

39

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Delfim Pereira Ferreira, Portugal

Leonardo Guedes, Portugal

26.1.5.
Lagoa
*(54) Mira-Minde (Portugal), 2015
4.1.35.4.26.1.4.
Carreiro
*(55) Mira-Minde (Portugal), 2015

28.1.4.
Rio Acima
*(56) Região do Douro (Portugal), 2015
28.1.6.
Socalcos
*(57) Região do Douro (Portugal), 2015

40

transversalidades

Rui Manuel Gaspar Gonçalves, Portugal

António Rilo, Portugal
78.1.2.
Apanha do Crico II
*(60) Ria de Aveiro - Costa Nova (2013)
78.1.4.
Apanha do Crico IV
*(61) Ria de Aveiro - Costa Nova (2013)

81.1.5.
Névoa matinal
*(58) Polje de Minde - Mira (Portugal), 2014
4.1.35.4.81.1.3.
O repasto
*(59) Viera de Leiria (Po rtugal), 2014

41

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

56.1.3.
Andreia Rodrigues, Portugal

Daniela Tedim, Portugal

Cores
*(64) Póvoa de Lanhoso, Sobradelo da Goma (Portugal), 2014
96.1.1.
Stela, Portugal

4.1.35.4.21.1.2.
Primavera
*(62) Porto (Portugal), 2013
21.1.3.
Verão
*(63) Porto (Portugal), 2012

Sunset Essence
*(65) Praia do Porto de Mós, Lagos (Portugal), 2015

42

transversalidades

73.1.4.
Jorge Marques, Portugal

I fotografia sem fronteiras

104.1.3.
André Bernardes da Silva Dimas, Portugal

A caminho da Praia

Pôr do sol sobre o Farol
*(68) Serra da Boa Viagem - Figueira da Foz (Portugal), 2014
75.1.4.
Susana Pimenta Porteiro, Portugal

*(66) Figueira da Foz (Portugal), 2013

68.1.5.
Pedro Flávio Martins, Portugal
Montanhas de Eólicas

Pôr do sol
*(69) Estoril (Portugal), 2015

*(67) Serra da Estrela (Portugal)

43

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

23.1.2.
Marta Carvalhinho Gomes Esteves, Portugal

80.1.5.
Alexandre Manuel P A Nunes, Portugal

Praia Grande

Maré Baixa
*(72) Estuário do Sado (Portugal), 2015
89.1.5.
Diana Sofia Marques Gomes, Portugal

*(70) Ericeira (Portugal), 2014

47.1.6.
Paulo Jorge Morgado Oliveira, Portugal
Falésia

Poluição nas Margens do Tejo
*(73) Vila Franca de Xira (Portugal), 2015

*(71) Albufeira (Portugal), 2015

44

transversalidades

77.1.1.
Maria João Silva, Portugal

20.1.3.
João Costa, Portugal

Anoitecer

Amendoeira & filhos
*(76) Sequeiros - Torre de Moncorvo (Portugal), 2015
46.1.1.
Tiago Duro, Portugal

*(74) Carrasqueira - Sado (Portugal), 2014

89.1.3.
Diana Sofia Marques Gomes, Portugal
Gaivotas e Patos

Ponte sobre ponte...

*(75) Vila Franca de Xira (Portugal), 2015

*(77) Gerês (Portugal), 2015

45

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

20.1.6.
João Costa, Portugal

22.1.3.
Inês M. Silvestre, Portugal

FugaDouro

Debut de la journee
*(80) Almada (Portugal), 2015
102.1.2.
Luís Carlos Ruas Coelho, Portugal

*(78) Torre de Moncorvo (Portugal), 2015

62.1.5.
Jorge Alves, Portugal
As árvores

Naturalidade da vida rural
*(81) Piódão - Coimbra (Portugal), 2013

*(79) Queimadas - Santana (Portugal), 2015

46

transversalidades

85.1.4.
Adriano José da Silva Costa, Portugal

32.1.2.
Jonas Weber, Portugal

Floresta da saúde

Reflexo 2
*(84) Tábua - Candosa (Portugal), 2015
88.1.3.
Rossana Ferreira, Portugal

*(82) Sanatório da Guarda (Portugal), 2015

88.1.2.
Rossana Ferreira, Portugal
Estalactites ...

Estalagmites

*(83) Grutas de Alvados (Portugal), 2015

*(85) Grutas de Alvados (Portugal), 2015

47

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

99.1.3.
Rui Viegas, Portugal

96.1.4.
Stela, Portugal

Vinhas

Wild horses on a fog’s sunrise
*(88) Aljustrel, Alentejo (Portugal), 2015
73.1.6.
Jorge Marques, Portugal

*(86) Peso de Régua (Portugal), 2015

85.1.3.
Adriano José da Silva Costa, Portugal
Geometria gelada

Vale Glaciar
*(89) Serra da Estrela (Portugal), 2013

*(87) Guarda (Portugal), 2014

48

transversalidades

109.1.1.
João Pedro da Conceição Gaspar, Portugal

11.1.5.
Catarina Cardoso Sarabando, Portugal

No title

Pré-borboleta
*(92) Mareco, Viseu (Portugal), 2014
75.1.3.
Susana Pimenta Porteiro, Portugal

*(90) Vila de Rei (Portugal), 2015

79.1.1.J
Manuel Alberto Azevedo Gomes Novo, Portugal
Nas Linhas da Natureza

Flor

*(91) Darque - Viana do Castelo (Portugal), 2015

*(93) São João do Estoril (Portugal), 2015

49

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

64.1.2.jpg
Patrícia Pereira, Portugal

60.1.2.
Luís Gonçalves, Portugal

Velejar
*(95) Barra, Aveiro (Portugal), 2015

Moinho
*(94) Lezíria Grande - Vila Franca de Xira (Portugal), 2015

50

transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Memórias geográficas, paisagens literárias
Maria Auxiliadora da Silva *
Thalita Xavier Garrido Miranda **
A imagem diz o indizível: as plumas leves são pedras. Há que retornar á linguagem para ver como a imagem pode
dizer o que, por natureza, a linguagem parece incapaz de dizer (PAZ, 1996, p 44).

N

a união entre Geografia e Arte, o olhar geográfico percorre diversas manifestações artísticas, ávido por decifrar como o espaço pode
despertar os sentidos humanos e acumular significados
e simbolismos que contribuem para a compreensão da
sociedade. Através da combinação de palavras ou de
sucessivas imagens, o ato criativo transfere a sensibilidade do artista para sua obra, e esta passa a carregar
informações preciosas para pesquisadores interessados
na relação sujeito-mundo.

pectos simbólicos e afetivos que ajudem a recompor a
realidade criada, que se fundamenta em uma realidade
percebida, em uma memória geográfica.
Nesse diálogo interdisciplinar, o geógrafo transita
entre materialidades e imaterialidades, ora recorrendo
à obra como um documento histórico que permite a
reconstituição de espaços físicos, costumes e práticas
sociais de um determinado período, ora recorrendo a
aspectos mais subjetivos da realidade representada, explorando a obra como reveladora de parte da essência
do mundo ou do ser no mundo (MARANDOLA JR.,
2010). Na presente reflexão, considera-se que os dois
caminhos sejam complementares, ambos colocando o
pesquisador diante da possibilidade de aprofundar importantes discussões para o conhecimento geográfico,
como o papel da memória e o estudo da paisagem.

Neste contexto o espaço geográfico aparece representado em diferentes manifestações culturais, como a
literatura, o cinema, a fotografia, entre outros. E diante das possibilidades criativas envolvendo essas formas
de arte, cabe ao geógrafo identificar espacialidades
e temporalidades nas diversas versões da realidade,
construídas a partir do imaginário e da memória de
cada artista.

Um dos escritores baianos que trouxe o imaginário
para seus livros, com narrativas bem situadas no tempo
e no espaço, foi Jorge Amado. Sua obra foi produzida
no século XX e ele soube bem entrelaçar a arte e a
política, retratando contextos sociais da Bahia, baseado
em vivências próprias, e remetendo à reflexão sobre o
real. Assim como em outras obras de vários autores,
percebe-se como o passado de um lugar colabora para a
compreensão do presente através da memória.

No caso da literatura, parte-se do princípio que
toda história acontece sobre um pano de fundo que
transforma o espaço em elemento fundamental para a
compreensão da totalidade representada pelo escritor.
Até mesmo a poesia, muitas vezes, é inspirada pela
atmosfera na qual o poeta está inserido e da qual retira
elementos para compor seus versos. Sendo assim, ao
caminhar ao lado de uma personagem fictícia dentro
de um romance ou ao lado de um poeta numa poesia,
o geógrafo é convidado a perceber o espaço através
das sensações do narrador, na tentativa de decifrar as-

Felizmente, cada vez mais, os geógrafos recorrem à
memória geográfica e ao estudo da paisagem para explicar o que se passa na cidade, no território. Grandes
51

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

geógrafos como Jean Tricart, Pierre Monbeig, Orlando
Ribeiro, Aziz Ab’Saber, entre outros, já estudavam a
paisagem com o fim de ampliar o conhecimento da
ciência geográfica, estimulando assim, a memória de
seus alunos. Estudar a memória geográfica através da
literatura é uma nova perspectiva, um assunto interessante devido a sua singularidade. Trata-se do olhar
transdisciplinar no processo de conhecimento do
passado e do presente, valorizado pela memória e pela
percepção da paisagem.

permitida através da sensibilidade do escritor, resgatada pela memória, surgem aspectos da dimensão
cultural existente. Cada sujeito, em sua relação com
o mundo exterior, apresenta uma forma particular de
apreender as relações que conferem sentido àquilo que
é visto e percebido. Mas essa apreensão está sempre
carregada de elementos e valores da sociedade em que
o sujeito está inserido. Nessa perspectiva, a literatura
pode ser considerada expressão viva do contexto histórico e social no qual foi criada.

Além de expandir o espaço vivido pelo leitor, algumas
obras literárias promovem a paisagem como reflexo
da relação viva e permanente entre homem e espaço
geográfico. Muitas vezes, a sensibilidade do escritor se
volta para descrições detalhadas da paisagem numa
profunda interação que, de fato, coloca a mesma como
uma personagem a mais da trama. Assim, lança-se
o olhar sobre um espaço animado, vivo, e através da
memória compartilhada pelo escritor, o leitor chega a
se apropriar das sensações descritas podendo interagir
intimamente com a dimensão espacial criada.

A descrição literária de uma cidade, por exemplo, nos
leva a recordar das cores, dos perfumes, dos ruídos, das
praças, das ruas e ruelas, dos becos que se abrem para
outras praças ou para um aglomerado de casas, enfim,
dos elementos que compõem a dinâmica urbana.
Na totalidade representada, ao imaginário sensitivo
trazido pelo escritor, somam-se aspectos da realidade
concreta, que alimentam esse imaginário.
Ufú é a capital de Ifi, a nação mais rica de que a história
tem notícia. Naturalmente, Ufú é a mais vasta cidade que os
homens já construíram, e continua a crescer. Seu núcleo é

Estabelece-se, dessa maneira, uma troca de experiências entre leitor e narrador, na qual a paisagem
aparece como “espaço do sentir, ou seja, o foco
original de todo o encontro com o mundo” (BESSE,
2014, p.80). Ao superar o que está ao alcance da vista
e o usual enquadramento do que é belo, a paisagem
acompanha viva, em luz, cheiros e sons, o estado de
espírito de quem nela se insere, seja de forma concreta
ou recorrendo a imaginação. Segundo Dardel (2011),
é através dessa interação com a paisagem que o sujeito
entra em contato com a totalidade do seu ser, que
percebe suas ligações existenciais com o mundo, ou
sua geograficidade.

constituído de vários núcleos menores divididos em centenas
de avenidas vastíssimas, a tal ponto que ninguém nunca
percorreu qualquer delas de uma ponta a outra, muito embora
os habitantes de Ufú quase nunca andem a pé; passam boa
parte de sua vida em ônibus, trens, subterrâneos, automóveis
ou helicópteros. (GULLAR, 1997, p.7)

Assim, a paisagem literária, mesmo quando fictícia,
como é o caso da cidade de Ufú imaginada por
Ferreira Gullar, torna-se uma ponte que nos induz à
compreensão da realidade.
Godofredo Filho, professor, poeta, nascido em Feira de
Santana, que adotou Salvador como sua cidade, encantou-se pela Ladeira da Misericórdia, cuja idade é da

E a partir dessa profunda interação com a paisagem,

52

transversalidades

fundação da cidade de Salvador e, tomou-se de afetividade, fazendo dela um poema onde a memória passeia,
ora pela realidade com a presença dos escravos, nobres
e figuras históricas, ora pela ficção.

I fotografia sem fronteiras

Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo
(GIL, n.p.)

Tanto as paisagens da cidade de Salvador quanto as
do Recôncavo Baiano, da Zona do Cacau e do Sertão
Baiano, aparecem descritas nas obras de grandes
nomes tais como, Jorge Amado, Godofredo Filho,
Dorival Caymmi, Vasconcellos Maia, Hélio Simões,
Florisvaldo Matos, Caetano Veloso, Gilberto Gil,
Milton Santos, Jose Carlos Capinan com o seu “Canto
quase Gregoriano” (de Gregório de Matos), só para
citar alguns baianos (PINHEIRO; SILVA, 2004).

Em palavras como estas, o artista reflete as relações
que os espaços estabelecem entre si em diálogo com
os personagens, relatando experiências de vida. Nesse
sentido, cabe ressaltar a importância de obras literárias
que permitem acesso a paisagens menos visíveis,
aquelas que nem sempre aparecem em cartões postais
ou propagandas de turismo, mas que são igualmente
animadas pelas pessoas que vivem ali.
Prosseguindo pela literatura brasileira, é preciso citar
os clássicos que elegem como cenário a paisagem do
sertão, dentre os quais podemos destacar: Grande
Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, Vidas Secas
de Graciliano Ramos, e Os Sertões de Euclides da
Cunha, cada um representando o sertão de uma parte
do interior do Brasil.

Em suas obras, esses poetas, contistas, compositores
e geógrafos, de ontem e de hoje, contam e cantam
a seu jeito, as belezas e mazelas desses territórios,
enaltecendo aspectos da paisagem no presente de suas
vidas e nas memórias do passado, tais como: o mar,
os pescadores de Xaréu, as praças, ladeiras, becos e
ruas, as baianas de acarajé, os sabores, a conquista das
terras do cacau, a seca do Nordeste, e os diversos tipos
característicos que dão vida a esses espaços:

Ao retratarem a vida do povo sertanejo, exaltando a
relação do mesmo com a paisagem, as obras citadas,
entre outras tantas, reforçam identidades culturais e
denunciam o cotidiano de um Brasil longe do foco de
desenvolvimento. E apesar do tempo passado desde
a publicação de cada um desses romances, algumas
problemáticas abordadas continuam atuais.

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado

Entre denuncias de realidades sociais e relatos das
sensações humanas, a literatura exalta a relação sujeito-mundo em construções subjetivas, que colocam
razão e emoção lado a lado em discussões geográficas.
Ignorando fronteiras é possível penetrar inúmeras
paisagens literárias, repletas de sentimentos e realidade.
Da natureza percebida por Manoel de Barros no panta-

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo

53

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

nal Mato-Grossense à urbanidade carioca retratada por
Machado de Assis; Da África poética de moçambicano
Mia Couto ao mar de lirismo do chileno Pablo Neruda;
Do sossego da Cidade de Goiás nas palavras de Cora
Coralina ao Desassossego moderno da Lisboa de Fernando Pessoa; Das cidades invisíveis de Ítalo Calvino
às cidades inventadas do poeta Ferreira Gullar...

da leitura, cada leitor tem, por sua vez, a oportunidade
de ressignificar as paisagens e lugares numa (re)construção permanente do espaço e da sociedade.
Dando acesso ao indizível sobre os conflitos humanos
e as problemáticas sociais, a arte literária, entre outras
manifestações artísticas, se apresenta como matéria-prima dessa permanente construção. Ao oferecer um
leque de possibilidades para a produção de conhecimento geográfico, o diálogo aberto entre geografia e
literatura vem sedimentando a relação entre arte e
vivência do espaço geográfico e, como uma boa prosa,
parece estar longe de se esgotar.

Assim, através da descrição de vivências e de acontecimentos de paisagem, cada lugar representado na
literatura, real ou imaginário, acumula uma carga de
simbolismo e significado à medida que é vivenciado
pelos poetas ou personagens. E a partir da experiência

* Professora Doutora do curso de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Bahia, coordenadora do Grupo de Pesquisa PEU (Produção
do Espaço Urbano).
** Geógrafa, mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Bahia, sob a orientação da Professora Doutora Maria
Auxiliadora da Silva, integrante do grupo de pesquisa PEU (Produção do Espaço Urbano).







Referências:
BESSE, Jean-Marc. Ver a terra: seis ensaios sobre a paisagem e a geografia. Tradução de Vladimir Bartalini. São Paulo: Perspectiva, 2014.
DARDEL, Eric. O homem e a terra. São Paulo: Perspectiva, 2011.
GIL, Gilberto. Lamento sertanejo. [s.n.]. Não paginado. Disponível em: <http://letras.mus.br/gilberto-gil/46212/>. Acesso em: 31 ago. 2015.
GULLAR, Ferreira. Cidades Inventadas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.
MARANDOLA JÚNIOR, Eduardo. Geograficidades vigentes pela literatura. In: SILVA, Maria Auxiliadora da; SILVA, Harlan Rodrigo Ferreira da
(Orgs.). Geografia, literatura e arte: reflexões. Salvador: EDUFBA, 2010. p. 21-32.
PAZ, Otávio. Signos em rotação. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.316 p.
PINHEIRO, Délio José Ferraz; SILVA, Maria Auxiliadora (Orgs.). Visões imaginárias da cidade da Bahia: diálogo entre a Geografia e a literatura. Salvador: EDUFBA, 2004. 184 p.

54

transversalidades

Leila, Espanha
114.1.3.
La cruz
*(98) Ávila (Espanha), 2014
114.1.2.
Quien dispara
*(99) Guadalajara (Espanha), 2013

114.1.5.
Sonrisa de mis cardos
*(96) Sepúlveda (Espanha), 2014
4.1.35.4.114.1.4.
La compañía
*(97) Ávila (Espanha), 2014

55

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Mariana Sánchez Salvador, Portugal
52.1.2.
Laguna Colorada II
*(102) Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa (Bolívia), 2013
52.1.5.
Laguna Colorada V
*(103) Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa (Bolívia), 2013

52.1.1.
Laguna Colorada I
*(100) Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa (Bolívia), 2013
4.1.35.4.52.1.6.
Laguna Colorada VI
*(101) Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa (Bolívia), 2013

56

transversalidades

Paula Cristina Correia dos Santos, Alemanha
82.1.4.
Habitantes das Alturas
*(104) Puna de Atacama (Argentina), 2015
4.1.35.4.82.1.6.
Um refúgio escondido
*(105) Tafí del Valle, Tucumán (Argentina), 2015

82.1.5.
O passado à luz das estrelas
*(106) Valle Calchaquí, Tucumán (Argentina), 2015

57

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Asier Gogortza, Pais Basco
41.1.4.
Bertze Aldea 4
*(109) Bera/Biriatu (Pais Basco), 2015
41.1.6.
Bertze Aldea 6
*(110) Erratzu/Aldude (Pais Basco), 2015

41.1.3.
Bertze Aldea 3
*(107) Bera/Biriatu (Pais Basco), 2015
4.1.35.4.41.1.5.
Bertze Aldea 5
*(108) Etxalar/Sara (Pais Basco), 2015

58

transversalidades

Rodrigo Lima, Brasil
numero
W.O
*(113) Minas Gerais (Brasil), 2014
numero
W.O
*(114) Minas Gerais (Brasil), 2014

21.3.5.
W.O
*(111) Minas Gerais (Brasil), 2014
4.1.35.4.número
W.O
*(112) Minas Gerais (Brasil), 2014

59

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Sonia Sánchez Díaz, Espanha
31.1.4.
Posta da sol
*(117) Loiba, Galicia (Espanha), 2014

31.1.2.
The best bank of the world
*(115) Loiba, Coruña (Espanha), 2014
4.1.35.4.31.1.5.
Entrando en água
*(116) Viveiro, Lugo, Galicia (Espanha), 2014

60

transversalidades

101.1.3.
Daniel Guimarães Chaves, Brasil
Rio de Janeiro Panorâmico
*(118) Cidade de Niterói (Brasil), 2015

100.1.6.
Ana Penha, Portugal

101.1.2.
Daniel Guimarães Chaves, Brasil

“Dusk”

Pôr do sol no Corcovado
*(120) Corcovado (Brasil), 2014

*(119) Banff (Canadá), 2014

61

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

Djime Dourado Silva, Brasil

Pedro Flávio Martins, Portugal
68.1.1.
Aurora Boreal
*(123) Kvaløya, Tromso (Noruega), 2015
68.1.2.
Noite Polar
*(124) Tromso (Noruega), 2015

44.1.3.
Morro das Tocas
*(121) Itatim, Bahia (Brasil)
4.1.35.4.44.1.1.
Morrão
*(122) Chapada Diamantina, Bahia (Brasil)

62

transversalidades

Roberto Peixoto Joele, Espanha

Guilherme Bergamini, Brasil
43.1.3.
Três Marias
*(127) Três Marias, Minas Gerais (Brasil), 2013
43.1.6.
Lago Titicaca
*(128) Lago Titicaca (Bolívia), 2013

13.1.3.
032min
*(125) Madrid (Espanha), 2014
4.1.35.4.13.1.2.
08min
*(126) Madrid (Espanha), 2014

63

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

2.1.2.
Ary Attab Filho, Brasil

50.1.5.
Inês Pereira Leonardo, Portugal

Lençóis II

Pedras protegidas

*(129) Barreirinhas MA (Brasil), 2014

*(131) Playa de La Franca, Ribadedeva, Asturias (Espanha), 2014

2.1.3.
Ary Attab Filho, Brasil

50.1.4.
Inês Pereira Leonardo, Portugal

Lençóis III

Pedras no caminho
*(132) Playa del Borizo, Llanes, Asturias (Espanha), 2014

*(130) BarreirInhas MA (Brasil), 2014

64

transversalidades

55.1.6.
Pedro Miguel Barbas da Silva Carvalho, Portugal

6.1.5.
Rui Pedro Bordalo, Portugal

A minha Ponte

Sem título

*(133) Ponte dos franceses, Puerto Seguro (Espanha), 2015

*(135) Praia das Catedrais (Espanha), 2013

55.1.4.
Pedro Miguel Barbas da Silva Carvalho, Portugal

6.1.2.
Rui Pedro Bordalo, Portugal

Cavalariças

Sem título
*(136) Praia das Catedrais (Espanha), 2013

*(134) Real Fuerte de la Concepción (Espanha), 2015

65

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

76.1.6.
Alejandro Carnicero, Espanha

105.1.1.
Ricardo Manuel Azevedo Brandão, Portugal

Meandro Melero

Quarenta anos depois

*(137) Cáceres (Espanha), 2015

*(139) Treboul (França), 2014

33.1.4.
Alejandro Cuadra Santana, Espanha

24.1.1.
Martín Varela Fernández, Espanha

Relax al atardecer

Ruta a Cares -1
*(140) Castilla León (Espanha), 2014

*(138) Logroño (Espanha), 2015

66

transversalidades

105.1.3.
Ricardo Manuel Azevedo Brandão, Portugal

113.1.1.
Erica Montilha, Brasil

Paisagem outono

Chão Verde

*(141) Pierrefort (França), 2014

*(143) Marília (Brasil), 2014

97.1.3.
Leonice Seolin Dias, Brasil

48.1.6.
Carmen Hernández Martín, Espanha

Restou uma no canavial

El nacimiento
*(144) La Alameda-Tolbaños, Ávila (Espanha), 2015

*(142) Município de Osvaldo Cruz (Brasil), 2014

67

I fotografia sem fronteiras

I

1 Paisagens, biodiversidade e património natural

113.1.6.
Erica Montilha, Brasil

46.1.6.
Tiago Duro, Portugal

Tarde no Sertão

Profundidade nevada...

*(145) Marília (Brasil), 2015

*(147) Zakopane (Polónia), 2015

81.1.2.
Rui Manuel Gaspar Gonçalves, Portugal

97.1.2.
Leonice Seolin Dias, Brasil

Apanhei-te

Nostalgia no campo
*(148) Município de Osvaldo Cruz (Brasil), 2014

*(146) Polje de Minde-Mira (Minde), 2013

68

transversalidades

103.1.1.
Ramón Gómez, Espanha

103.1.3.
Ramón Gómez, Espanha

Vida eterna
*(150) Concejo de Arzua (Espanha), 2013

Camino
*(149) Castrillo de los Polvazares (Espanha), 2013

69

I fotografia sem fronteiras

transversalidades
transversalidades

tema 2

Espaços rurais:
povoamento, atividades,
modos de vida

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

prémio tema

Susana Girón, Espanha
24.2.2.
Cañada Real
*(151) Castilla la Macha (Espanha), 2014

72

transversalidades

73

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

menções honrosas

Ricardo Miguel Couto Ferreira Catarro, Portugal
66.2.1.
Botas de Trabalho
*(152) Fazendas de Almeirim (Portugal), 2013

74

transversalidades

Nuno André Ferreira, Portugal
75.2.6.
Entre a cidade e as Roças
*(153) São Tomé e Príncipe (São Tomé e Príncipe), 2013

75

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

menções honrosas

Rocío Garrido Martín, Espanha
73.2.4.
Konso, Patrimonio de la Humanidad
*(154) Konso (Ethiopia), 2014

76

transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Rural – modos de ficcionar
Álvaro Domingos *

N

ão se sabe o que seja a ruralidade de tanto que
o tema se foi expandindo do real para o imaginário, ou do discurso científico para a poesia
e para todas as artes, mensagens publicitárias, novelas,
calendários e prospectos turísticos. Da enxurrada de
assuntos pode-se pescar qualquer coisa, desde a denúncia política da miséria dos camponeses de África no limiar da auto-subsistência, às místicas da permacultura
ou à síntese perfeita da comunhão dos homens com a
natureza, sustentável, claro, seja lá o que isso for.

cultura europeia mudam estas tonalidades de forma
radical. J. Gottfried Herder (1744-1803, o inventor
do volkgeist), os irmãos Grimm (os contos dos irmão
Grimm são publicados pela primeira vez em 1812)
e toda a geração do romantismo, re-inventaram o
povo enquanto entidade real/imaginária, jardineiro
da paisagem, guardião da alma da nação e de coisas
preciosas e puras, em tudo diferente da artificialidade
e dos vícios da cidade. Como escrevia Jules Michelet
(Le Peuple, 1846) o povo simples e sábio era rico de
sentimentos e de bondade do coração, dotado de
espírito de sacrifício e de amor pelo outro, de força, de
tenacidade, de generosidade, de prudência, de virtude,
coragem, trabalhador, esforçado, sofredor, heróico,
altruísta, e possuidor de outras elevadas causas pelo
bem-estar da comunidade, da família, do amor à
pátria. O povo (rural, claro) encontra em Michelet um
dos expoentes mais encantatórios enquanto criação de
um arquétipo de pureza e de autenticidade de valores.
Em Portugal a ideologia tóxica do salazarismo e do
bom povo rural que enchia as igrejas, ainda foi beber a
este arquétipo, apesar da miséria das condições de vida
e da emigração em massa.

Na cultura europeia convivem raízes e representações
distintas e contraditórias sobre o mundo rural e dos
rurais, ora uma espécie rústica de infra-humano, grosseiro, andrajoso, embriagado, ora uma entidade quase
metafísica, sabedora das coisas do céu e da terra, dono
de segredos ancestrais e da alma da nação.
No classicismo das éclogas e das bucólicas, o campo,
espécie de geografia metafísica, povoa-se de pastores e
pastoras, prados floridos – como antes nas cantigas de
amigo – deuses gregos e romanos e outros adereços sentimentais para compor poesia sobre prazeres inocentes
saturados de lirismo, faunos e metáforas. De tão afastadas dos rigores da vida dos camponeses, estas construções literárias dizem-nos apenas do nulo interesse que
esse mundo representava para a cultura erudita então
acantonada numa élite por entre clérigos e aristocratas.
Que poderiam os rústicos adiantar nos brilhos dos salões que não fosse boçalidade e cheiro a esterco? Pois se
até confundiam deus com bruxedos e esconjuros…

“Uns após outros desbravaram as terras, cultivaram a
vinha e o milho, criaram os filhos, sofreram. A vida é
áspera, há desgostos, angústias, privações, injustiças que
parece ninguém poder reparar. Um ambiente de carinho,
porém, envolve o lar e uma luz superior ilumina a existência: a velha igreja e o seu adro foram feitos a expensas
de todos os vizinhos, com esmolas e trabalho; o cemitério
também. Numa parte e noutra há verdadeiramente o
suor do rosto, a preocupação do viver, a tradição do sangue, o património moral.

Rousseau (Émile ou De l’education, é publicado em
1762) e outros filósofos escritores muito influentes na

77

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Do fundo das consciências claramente surgem estes
imperativos: o trabalho na vida, a propriedade na terra,
a virtude na família, a esperança nas almas.1

ções europeias e nos “zoos humanos”, enfatizava mais
o “indígena” e certas curiosidades raciais, de costumes,
de objectos e adornos.

Para além das várzeas e dos montes há outras várzeas
e outros montes, onde vivem e trabalham homens da
mesma raça, parentes próximos ou remotos, que falam
a mesma língua, têm os mesmos sentimentos. Como
quem desbrava o campo para cultivar e levanta as
paredes duma casa para nela viver, há muitos séculos
grandes chefes traçaram com a espada os limites e
disseram: aqui se vai edificar a casa lusitana.”

A intensidade do processo de modernização em modo
industrialista provoca na Europa e nos EUA uma
acelerada desruralização. Modos de vida, sistemas
de agrícolas, práticas tradicionais, regimes de autosubsistência, e paisagens de séculos, reduziram-se e
transformaram-se abruptamente com a importância
da economia agrícola a caminhar para um resíduo
estatístico em termos de emprego e produto.

A esta matriz romântica e mística acrescenta-se depois
a produção científica da antropologia, da etnografia
ou da geografia. Todas juntas foram convivendo com
sucessivas tendências de estetização dos campos, desde
as paisagens de Poussin ou Lorrain ainda no sec XVII,
com os campos a servir de fundo para cenografias
mitológicas, até ao misticismo de Millet no célebre
Angelus (1857), representando a oração do fim da
tarde. Para além disso, a festa, o trabalho, os trajos, as
procissões foram ganhando popularidade e a vulgarização da fotografia, deu asas e popularidade ao pitoresco
como regime de visibilidade dominante. Entretanto, o
desenvolvimento da etnografia mais ou menos científica deu uma outra seriedade à questão. É na literatura
e em autores como Aquilino Ribeiro que encontramos
peças magistrais sobre a condição camponesa.

É aqui que o “rural” começa a perder completamente
o sentido. Antes, com esforço, o adjectivo procurava
abarcar uma triologia em que havia simultaneidade
entre a agricultura como pilar económico da produção e do trabalho; o campesinato e os seus valores
conservadores ligados à tradição, à religiosidade, aos
antepassados; e a paisagem como marca visual desta
economia/sociedade que se inscrevia num território
com as suas marcas naturais e culturais específicas.
Esta tripeça produzia um certo efeito de totalidade
que fazia com que a alusão a qualquer um dos seus elementos arrasta-se os restantes quase automaticamente
– fosse um burro, uma vaca, uns tamancos, uma casa
tosca, uma senhora vestida de preto a rezar ou a fiar…
e logo o rural se lhe colava sem qualquer hesitação. A
pré-modernidade ajudava a compor as diferenças.

Fora da Europa, o mundo colonial era claramente outro mundo. A economia da plantação, o esclavagismo
ou a agricultura indígena não formavam um quadro
“rural” estável e inteligível que se comparasse ao dos
países colonizadores. Na grande Ásia, os camponeses
eram apenas uma massa de escravos da terra constantemente ameaçados de calamidades e fome. No
entanto, a moda do exotismo tropicalista nas exposi-

Hoje a agricultura de plantação colonial migrou para
a produção ainda em maior escala inserida em fileiras
agro-industriais e interesses do capitalismo global. Na
soja, na cana-do-açúcar, na carne, no café ou na fruta… o português do Brasil chama-lhe “agro-negócio”.
Tal como outro qualquer processo de modernização
intensivo, a tecnologia, a empresarialização, a especialização, a intensidade químico-biológica, etc., espan78

transversalidades

taram os pastores da arcádia rural e trouxeram as polémicas dos transgénicos, da luta pela água, da emissão
de gases com efeito de estufa, do neo-esclavagismo, da
fome da terra, da deflorestação, das catástrofes ecológicas ou dos direitos dos animais.

I fotografia sem fronteiras

Asa Branca, a música e poema de Luís Gonzaga e
Humberto Teixeira (1947), é uma espécie de hino do
sertanejo pobre do Nordeste brasileiro; camponês,
vaqueiro ou sem terra, dependente dos caprichos da
seca, emigrante, as mais das vezes. Miséria e nostalgia
convivem nesta poética de retorno impossível a um
mundo rural perdido, mas por isso, mais presente para
compensar tristezas em terras estranhas.

Perturbou-se completamente a paz que se dizia haver
nos campos e a reacção cada vez mais radical e violenta
à agricultura intensiva e às suas paisagens e produtos
tecnológicos, voltou-se para uma nostalgia latejante,
uma constante rememoração de um mundo mais que
perfeito do velho campo enquanto paraíso perdido. Este
outro campo, semântico e imaginário, não tem limite e
a sua expansão é directamente proporcional a um certo
desencantamento do mundo que por aí vai.

Asa Branca
Quando olhei a terra ardendo
qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu,ai
por que tamanha judiação

A fotografia é excelente para ficcionar esta realidade e
tapar o vazio deixado pelo sentimento de perda desse
mundo mais que perfeito ou, ao contrário, ilustrar e
mesmo denunciar as misérias nos eufemisticamente
chamados países em vias de desenvolvimento onde
ficaram os milhões de trabalhadores da terra que ainda não incorporaram a urbanização da pobreza e que
sobrevivem entre conflitos violentos constantes, secas,
más condições de saúde, subnutrição e abandono por
parte do estado.

Que braseiro, que fornalha,
nenhum pé de plantação
Por falta d’água perdi meu gado,
morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a Asa Branca
bateu asas do sertão
Entonce eu disse: adeus Rosinha,
guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas léguas
nessa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
pra eu voltar pro meu sertão

As infinitas ambiências que se podem congelar numa
imagem são bem reveladoras das incontáveis dobras
que os “espaços rurais” permitem designar – às vezes
parecem instantâneos do início do mundo e do paraíso antes da serpente; outras, Ceres vinda do Olimpo
pelo Maio com braçadas de trigo e de papoilas; outras,
o trabalho penoso, o viver-se com pouco, o olhar duro,
os animais, bichos entre outros, como diria Torga.

Quando o verde dos teus olhos
se espaiá na plantação
Eu te asseguro, não chores não, viu
Que eu voltarei, viu, meu coração

* Professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.
1
António Oliveira Salazar (1936) «As grandes certezas da Revolução Nacional» - Discurso pronunciado em Braga, no 10º aniversário do 28 de Maio,
in «Discursos», Vol. II, págs. 128-129.

79

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

António Costa Pinto, Portugal
31.2.5.
Carnaval de Lazarim
*(155) Lazarim (Portugal), 2015
4.1.35.4.31.2.6.
Carnaval de Lazarim
*(156) Lazarim (Portugal), 2015

numero
Carnaval de Lazarim
*(157) Lazarim (Portugal), 2015

80

transversalidades

Telma de Jesus Monteiro Miragaia, Portugal
41.2.3.
Safra
*(160) Donfins do Jarmelo (Portugal), 2013
41.2.1.
Mateus Miragaia - o último dos ferreiros
*(161) Donfins do Jarmelo (Portugal), 2013

41.2.2.
Esmeril
*(158) Donfins do Jarmelo (Portugal), 2013
4.1.35.4.41.2.5.
Cabeleireiro ao domícilio
*(159) Donfins do Jarmelo (Portugal), 2014

81

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Jorge Bacelar, Portugal
71.2.6.
Na Ruralidade, o carinho, a ternura e a confiança
*(164) Murtosa (Portugal), 2015
71.2.1.
O passado e o presente
*(165) Murtosa (Portugal), 2015

71.2.2.
A galinha dos ovos certos
*(162) Murtosa (Portugal), 2015
4.1.35.4.71.2.3.
Agnus Dei
*(163) Estarreja (Portugal), 2015

82

transversalidades

Carlos Augusto Maia Torres Mendes, Portugal
13.2.1.
Gentes do Caramulo
*(168) Serra do Caramulo (Portugal), 2014
13.2.4.
Gentes do Caramulo
*(169) Serra do Caramulo (Portugal), 2014

13.2.2.
Gentes do Caramulo
*(166) Serra do Caramulo (Portugal), 2014
4.1.35.4.13.2.3.
Gentes do Caramulo
*(167) Serra do Caramulo (Portugal), 2015

83

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Miguel Mesquita, Portugal
5.2.6.
Pastor 1
*(172) Montalegre (Portugal), 2013
5.2.5.
Ceifa
*(173) Mogadouro (Portugal), 2013

5.2.1.
Pastor
*(170) Serra Estrela (Portugal), 2014
4.1.35.4.5.2.1.
Fiar lã
*(171) Montalegre (Portugal), 2014

84

transversalidades

Luís Sarmento, Portugal
68.2.1.
A tradição de Secar
*(176) Nazaré (Portugal), 2014
68.2.6.
A bota do Sapateiro
*(177) Santarém (Portugal), 2014

68.2.5.
Salineiro
*(174) Aveiro (Portugal), 2014
4.1.35.4.68.2.3.
O Alfaiate
*(175) Lisboa (Portugal), 2014

85

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Filipe Barroso, Portugal

Vitor Pina, Portugal
59.2.3.
Construção das esteiras_a
*(180) Corte D´Ouro (Portugal), 2014
59.2.4.
Construção das esteiras_b
*(181) Corte D´Ouro (Portugal), 2014

34.2.5.
O cucharro
*(178) Beja (Portugal), 2015
4.1.35.4.34.2.6.
Saciando a sede
*(179) Beja (Portugal), 2015

86

transversalidades

I fotografia sem fronteiras

38.2.4.
Ângela Gonçalves Afonso Cordeiro, Portugal

Ângela Gonçalves Afonso Cordeiro, Portugal

Cuscos Transmontanos 4

38.2.5.
Cuscos Transmontanos 5
*(182) Fresulfe, Vinhais (Portugal), 2015
Portugal.1.35.4.38.2.2.
Cuscos Transmontanos 2
*(183) Fresulfe, Vinhais (Portugal), 2015

*(184) Fresulfe, Vinhais (Portugal), 2015

54.2.2.
Isidro Manuel Rito Vieira, Portugal
Grão a grão pelo olho da mó
*(185) Concelho de Nordeste, Ilha de São Miguel (Portugal), 2014

87

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

42.2.5.
António Campos, Portugal

72.2.5.
João Martins, Portugal

Capeia

Ça va

*(186) Lageosa da Raia, Sabugal (Portugal), 2014

*(188) Alfaiates, Guarda, Sabugal (Portugal), 2014

42.2.4.
António Campos, Portugal

72.2.4.
João Martins, Portugal

Corrida

Ronaldo
*(189) Alfaiates, Guarda, Sabugal (Portugal), 2014

*(187) Lageosa da Raia, Sabugal (Portugal), 2014

88

transversalidades

26.2.2.
Bruno Miguel Santos Andrade, Portugal

20.2.1.
Guilherme Limas, Portugal

Ciclo do Porco - Matança I

Matança do Porco Bízaro
*(192) Montalegre (Portugal), 2013

*(190) Dornelas (Portugal), 2013

26.2.6.
Bruno Miguel Santos Andrade, Portugal
Ciclo do Porco – Fumeiro
*(191) Dornelas (Portugal), 2013

89

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

62.2.3b.
Isabel Alcinda de Sá Barreira, Portugal

19.2.1.
Iolanda Eugénia Rodrigues Veiros, Portugal

O ciclo da lã 3

Mistério

*(193) Póvoa, Miranda do Douro (Portugal), 2015

*(195) Linhares, Carrazeda de Ansiães (Portugal), 2014

62.2.4.
Isabel Alcinda de Sá Barreira, Portugal

51.2.3.
Ruben Carrilho, Portugal

O ciclo da lã 4

*(194) Póvoa, Miranda do Douro (Portugal), 2015

*(196) Amareleja (Portugal), 2013

90

transversalidades

32.2.5.
João Pedro Vitorino, Portugal

32.2.3.
João Pedro Vitorino, Portugal

Agricultura II

Agricultura

*(197) Lagares da Beira (Portugal), 2015

*(199) Lagares da Beira (Portugal), 2015

21.2.2.
Ana Isabel Freitas, Portugal

29.2.5.
Maria de Fátrima de Matos Barros, Portugal

De geração em geração

Quarto
*(200) Caldelas, Amares, Braga (Portugal), 2014

*(198) Sabrosa (Portugal), 2013

91

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

67.2.1.
Andreia Julieta Gonçalves Bernardo, Portugal

67.2.4.
Andreia Julieta Gonçalves Bernardo, Portugal

A caminho da pastagem

Flores de Inverno

*(201) Lageosa do Mondego (Portugal), 2014

*(203) Sabugal (Portugal), 2014

8.2.2.J
Ana Santos, Portugal

7.2.2.
Maria Helena Pacheco de Amorim Rodrigues Gonçalves, Portugal

Hora vigilante

Verdeperto
*(204) Odemira (Portugal), 2014

*(202) Regoufe, Arouca (Portugal), 2014

92

transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Paisagem, campo e cidade
José Borzacchiello da Silva *

A

paisagem decorrente de cada momento histórico é explicativa das múltiplas relações mantidas
pela sociedade em seu constante movimento.
Recorrendo-se por analogia ao pensamento de Lavoisier1, para se compreender o discurso da paisagem
e seu apelo visual é necessário partir do pressuposto
que acata e nega as assertivas do famoso cientista
que afirmou “na natureza nada se cria, nada se perde,
tudo se transforma”. A paisagem está em constante
movimento. A paisagem não morre e sim, se modifica
conforme os diferentes arranjos espaciais contidos nos
múltiplos contextos culturais. Tais arranjos resultam
numa experiência visual com suas formas denominadas de paisagem. Compreendida muitas vezes como
natureza, no seu estado puro, a paisagem evoluiu como
conceito e incorporou todos os traços da vida contemporânea, expondo em cenas cotidianas erros e acertos
da humanidade.

rural e urbano impõem desafios e geram muitas discussões. Na contemporaneidade esse debate se amplia,
ultrapassando o contexto das formas e perpassando
análises relacionadas ao agrícola, ao agrário, ao rural
e ao urbano sob a ótica da apreensão das atividades
que animam o território e garantem espacialidades
diferenciadas. As cidades cresceram muito. Nelas,
a reprodução da vida cotidiana está inserida numa
trama complexa. As cidades tornaram-se locais de
aglomeração com características próprias nas suas relações intra-urbanas. A malha das redes territorializadas
associada aos comandos das redes digitais fazem da
cidade locais excepcionais de prestação de serviços de
toda ordem, conforme seu tamanho funcional. A cidade chega ao campo ou o campo chega à cidade. Não
há mais sentido a recuperação das teorias pautadas
na dicotomia campo versus cidade, distinguida com
nitidez conceitual o que é um e o que é o outro bem
como a do continuum rural urbano. Não há também
uma distinção clara do que é campo, do que é cidade.
O urbano, entretanto, ultrapassa os limites da cidade.
É fundamental que se considere a paisagem, sob a
perspectiva de usos diferenciados, dando margem à
discussão atual que abrange o novo rural, a nova ruralidade. A constatação da inovação do mundo rural
com várias características do modo de vida urbano,
tem sido recorrente em várias áreas do conhecimento.

A geografia aborda as relações mantidas entre campo
e cidade, rural e urbano considerando a construção
de perfis que identifiquem e permitam classificar as
diferentes formas mediante a densidade demográfica,
infra-estrutura instalada, equipamentos e serviços à
disposição dos habitantes. Campo e cidade estão inseridos no mundo do trabalho com formas consoantes às
atividades socialmente desenvolvidas. Campo e cidade
formam um par, pois se complementam. O grau de
tecnologia contido nas diferentes formas se manifesta
em referencial de acessibilidade, conexão com o mundo à sua volta, conforto e comodidade oferecido aos
seus habitantes.

A ciências sociais, inclusive a geografia, em suas
abordagens clássicas sobre a distinção entre campo e
cidade, e de rural e de urbano, identificavam características próprias de cada uma dessas espacialidades ,
detectando reduzidos pontos de mediação. Campo e
cidade e rural e urbano eram traduzidos como pares

Os exercícios de conceituar e definir campo e cidade,

93

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

dialéticos que se opunham, correspondendo ao tradicional e ao moderno.

a identificação e classificação do rural e do urbano
quanto aos itens ligados à distribuição da população e
ocupação do território e caracterização e descrição do
espaço compreendendo levantamento de necessidades
e estabelecimento de prioridades de infra-estrutura,
equipamentos e serviços a serem instalados.. Esse
conjunto conduz à compreenção dos elementos responsáveis pela configuração da paisagem e gestão do
território. Nesta direção, a identificação, reconhecimento e delimitação do que é rural e do que é urbano
são considerados essenciais para a pertinência e
eficiência de análises, interpretações e implementação
de políticas públicas.

Na literatura portuguesa, autor do porte de Eça de
Queiroz (1998-26) descreve essa diferenciação em seu
livro A Cidade e as Serras.
“E, descendo os Campos Elísios, encolhido no
paletó, a cogitar neste prato simbólico, considerava
a rudeza e o atolado atraso da minha Guiães,
onde desde séculos a alma das laranjas permanece
ignorada e desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aqueles pomares que ensombram
e perfumam o vale, da Roqueirinha a Sandofim!
Agora porém, bendito Deus, na convivência de
um tão grande iniciado como Jacinto, eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da
civilização.”2

Sob a ótica da dinâmica territorial a questão posta
é saber como se estabelece a diferenciação entre o
campo e a cidade e de que forma pode-se detectar
diferentes níveis de complementaridade realizados
entre essas formas distintas de organização do território. WILLIAMS (1989, p.167) chama a atenção sobre
o conceito de paisagem. O autor ultrapassa o visível da
aparência e escreve:
“Raramente, uma terra em que se trabalha é uma
paisagem. O próprio conceito de paisagem implica
separação e observação. É possível e interessante
levantar a história da paisagem na pintura, da paisagem na literatura, do paisagismo e da arquitetura
paisagística, mas na análise final devemos relacionar essas histórias às histórias comuns de uma terra
e da sociedade nela existente.”3

O contraponto entre Guiães e Paris, aparece no texto
sob a observação da alteridade, ou seja, pautado nos
procedimentos do sujeito social ajustado à vida urbana.
A abordagem focada na teoria do tradicional e do
moderno tem seu embasamento na sociologia e na
antropologia, ciências preocupadas em diferenciar
tipos de organização social e verificar níveis de incorporação de inovações de toda ordem nos diferentes
grupos sociais. Identifica, ao mesmo tempo, a cidade
como espaço privilegiado com forte poder de atração
sobre os habitantes do campo, bem como de maior expressão quanto às imposições de códigos de posturas e
de disciplinamento, tidos como necessários à vida coletiva em áreas de aglomerações e maiores densidades.
A cidade e o urbano são também concebidos como
espaços de implantação de políticas públicas voltadas
para o bem estar social.

A paisagem, além de suas raízes contidas na história
de seus produtores, adquiriu importância e significado
e é claro, não ficou imune à lógica do mercado.
A conquista da velocidade, a facilidade de transporte
e de deslocamento resultou nas viagens, dirigidas cada
vez mais, para destinos mais distantes. Com elas a

A geografia em sua abordagem preocupa-se mais com

94

transversalidades

intensificação da busca pelo diferente, pelo exótico, o
desconhecido. O aumento desse interesse manifesto
em desejos de partir para o desconhecido ampliou o
universo paisagístico. Campo e cidade em sua diversidade de formas e de dinâmicas tornaram-se objetos
de desejo e de consumo. Consumo da paisagem. Essa
busca associada à conquista do tempo livre a partir
dos avanços nas relações de trabalho, intensificou
o número de rotas e trajetos, ressignificou o campo
e o rural como paisagem, fez da cidade o centro das
inovações do controle político como sede do poder e
dos grandes acontecimentos, transformou as viagens
em produto de qualidade, valorizado pelo mercado.
Vender vistas, ângulos, mar, montanhas, lagos, campos cultivados, parques, pastagens, natureza, tornou-se
comum na lógica imobiliária.

I fotografia sem fronteiras

A sociedade contemporânea é, sem dúvida, grande
consumidora de paisagem. A imagem transporta
recortes da paisagem, cria desejos de deslocamentos.
A conquista do lazer e do ócio propiciou viagens de
férias, criação de colônias de veraneio, a descoberta
de “paraísos”: sol, areia, mar, mata, floresta garantiam
à cidade um fluxo intenso de viagens e deslocamentos.
A urbanização acelerada isolou o citadino da natureza
em seu estado mais natural. A recriação da natureza
em ambiente urbano em forma de parques, bosques,
florestas e jardins, não foi o suficiente para atender aos
anseios e desejos de um retorno ao ambiente natural
em busca de aromas, ruídos, silêncio, brisas, neve. O
cheiro da terra, a faina diária em contato com instrumentos que facilitam os cultivos. Ver os campos, a
colheita, o rebanho, a ordenha, o leite fresco.

O campo e a natureza “selvagem” não ficaram de fora.
À medida que a vida urbana fica mais complexa, mais
valorizada fica a paisagem, especialmente a bucólica, a
que permite ao homem “adentrar à natureza”.

As imagens remetem a tempos imemoriais que a cidade não apaga.
Campo, cidade, estradas, caminhos, avenidas. Os
logradouros públicos são testemunhos de trajetos e
percursos, são traços de ligação, unem pontos, são
atravessados por produtores, mercadores, peregrinos,
migrantes. As vias unem pontos repletos de referências, com cruzamentos, atalhos, desvios. Árvores,
rochas, rios, campos cultivados, fábricas, moinhos,
monumentos ou edifícios de prestígio, marcam localizações, se inscrevem nos arcabouços da memória,
contém narrativas de fatos e acontecimentos. Nas
lembranças dos cidadãos, os fatos mais marcantes. O
campo distante é sonhado no emaranhado do cotidiano urbano. A cidade para muitos é o sonho, o porvir.
Os que fizeram a travessia, campo e cidade povoam a
memória ou desaparecem no esquecimento. Mapas,
lembranças, imagens fugidias de um, de outros territórios adquirem formas fragmentadas. Nas recordações

Em outra passagem Queiroz (1998-38) escreve
“Jacinto circungirou os olhares muito abertos,
como se, através da vida universal, procurasse
ansiosamente uma coisa natural e simples. Depois,
descansando sobre mim os mesmos largos olhos
que voltavam de muito longe, cansados e com
pouca esperança:
- Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!”4
Eça de Queiroz explora no texto a cidade como produto construído a cada pedaço. Registra seus distanciamento da natureza natural, do campo e da cidade.
Revela a natureza recriada na cidade em parques e jardins. Reforça a idéia da cidade como local de consumo
de tudo, inclusive de paisagem.

95

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

a junção das partes forma um puzzle com escalas diferentes, elimina vazios e transformam-se em imagens
de totalidade que mascaram o real mas que são reais
para os que as imaginam.

Andar pelas ruas da cidade remete à história da paisagem. Essa volta ao passado remete à reminiscências
dos que ali viveram ou dos que conhecem ou conheceram cada pedaço com suas permanências e mudanças. Demolições, edifícios preservados, inovações
tecnológicas transformam a cidade e mesmo o campo.
Os lugares são referências para os que se identificam
com ele, para os que acompanharam seus ajustes ou
permanências na passagem do tempo. A topografia,
o arruamento, a disposição das edificações, templos,
espaços públicos, as formas de cultivos, a rotação da
terra, a disposição das propriedades, os implementos
agrícolas contém uma cartografia sinuosa que obedece
às curvas impostas pela geografia do lugar. Apegamonos aos lugares. Pontos de parada, entrada, saída,
chegada, partida. Estação ferroviária, rodovias, ônibus,
automóveis, motocicletas, cavalos, carroças, carruagens, portos, aeroportos, mostram a diferença dos
lugares, registram seus usos. Campo, cidade, urbano,
suburbano. A cidade intra e extra muros. A cidade,
transformando-se em lugar especial, local de compras,
de fábricas, de centros de transporte e de distribuição.

Os logradouros são pontos de passagem, de encontro,
de trocas de solidariedades. As praças públicas são
utilizadas conforme o domínio das atividades. Nelas
ócio e negócio se opõem e dão significados diferentes
a formas idênticas. O campo local da faina diária do
camponês pode ser local de vilegiatura para os adeptos
do turismo rural. Lazer e trabalho são importantes
em qualquer aglomerado humano, independente de
seu porte e tamanho funcional. Praça, parques, jardins, bosques são espaços de fluição e fruição. Alguns
guardam reminiscência da vida no campo. No campo,
muitos almejam o burburinho e a agitação da vida
urbana
Os espaços públicos, arejam as cidades. São espaços de
atividades e de pouso, de tranquilidade. A praça é o
lugar do negócio mas permite a pausa, o relaxamento,
a calma. No campo o largo, a praça, o adro da igreja,
do templo é lugar de encontro, pode ser o lugar da
feira. Considerando o número de usuários, as praças,
no bairro constituem espaços possíveis de animação
da vida cotidiana. Nos bairros das cidades e no campo
os espaços públicos são reconhecidos como espaços
identitários da comunidade, onde são construídos
laços de solidariedade e trocas simbólicas de forte
significado. Além das praças, os demais logradouros
também são espaços de confrontos e conflitos. Grupos distintos tentam territorializá-los, instituindo múltiplas pelejas envolvendo a disputa entre grupos rivais.
Constantemente surgem problemas entre os usuários
das praças nas lutas renhidas pela demarcação de
territórios conforme interesses de grupos e vínculos
identitários.

As cidades crescem, o campo se esvazia e produz cada
vez mais. A automação provoca a saída do camponês
para a cidade. A agitada vida urbana leva o citadino
para o campo com seus computadores e telefones
celulares plugados à internet. As redes sociais estão
em toda parte, desconhecem as diferenças espaciais, se
instalam no campo, na cidade, se ajustam ao mercado, estimulam o consumo.
Sábias são as palavras de WILLIAMS (1989, p.71) em
sua leitura da cidade medieval. O autor detecta transformações fundamentais para compreensão da cidade
contemporânea.
“As causas sócio-econômicas do crescimento das
cidades, o novo movimento urbano da Alta Idade
96

transversalidades

Média, o povoamento pós-feudal - tais questões
ainda são altamente controvertidas. Há argumento
em favor de um certo grau de crescimento independente, como na extensão do comércio (Pirenne).
Houve crescimento em relação a habitações de religiosos e casernas. Houve um desenvolvimento importantíssimo na produção artesanal independente,
com tendências próprias referentes à concentração
e às formas urbanas de controle. Porém, direta ou
indiretamente, a maioria das cidades aparentemente se desenvolveu com um aspecto de ordem agrícola: num nível mais simples, como mercados; num
nível mais elevado, refletindo a verdadeira ordem
social, como centros de finanças, administração
e produção secundária. Surgiam então formas de
interação e tensão as mais variadas, e algumas
cidades adquiriram certo grau de autonomia.”

dos agentes e atores produtores do espaço com suas
vivências e experiências. Narrativas, depoimentos,
documentos, edificações são os suportes da memória
representados pelo casario, lojas comerciais, edifícios
de prestígio, profissões remanescentes de atividades em
desuso dão conta da tarefa de recuperação da essência
dos lugares. A paisagem é cúmplice das lembranças,
oferece meios para se desvendar, no emaranhado do
espaço com seus componentes, o enfoque da dimensão
afetiva dos espaços urbanos das cidades. Sua inserção
na metrópole merece destaque. A história dos lugares
contém passagens traduzidas num esquema especial
de muita estima pelo lugar, presente nas falas, nos
gestos, nas expressões. Revelam vínculos de pertencimento que permitem inserir e confrontar espaços
em múltiplos diálogos com a cidade, construindo
uma cartografia urbana inovadora, pautada nos intercâmbios, trocas cotidianas desenhadas e assumido no
sentimento de apego ao lugar

E assim a cidade foi se consolidando, reafirmando seu
papel de controle e comando. A população, por sua
vez, valoriza suas praças, embora não as utilizem mais
por não terem novos equipamentos. O jovem quer
uma praça com ambiente wireless, onde possa plugar
seus diferentes equipamentos eletrônicos e assim, continuar conectado ao mundo. Nas cidades os moradores
usam os espaços para o negócio, para o ócio e o lazer.
Trabalham, praticam caminhadas e fazem exercícios
ao ar livre. Essas práticas provocam maior ocupação
dos espaços públicos.

A memória que advém das lembranças dos lugares são
reminiscências que remetem à identidade e ao pertencimento. O ajuste do corpo à forma e à vida urbana ou
rural advém da configuração da vida moderna. A regulação do tempo, a obediência à linguagem de sinais,
a identificação de marcos referenciais que garantem
o sentido de direção movimenta uma multidão nas
principais vias comerciais e de serviços das áreas mais
dinâmicas das cidades ou garantem uma vida mais calma no campo. Todo cuidado é pouco pois nem sempre
essa afirmação é verdadeira.

A memória individual e coletiva reside no cotidiano

* Geógrafo e Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-Brasil.
1

3

4

5

2

I fotografia sem fronteiras

Antoine Laurent de Lavoisier (Paris, 1743/1794)
QUEIROZ, Eça de, A Cidade e as Serras. Fortaleza, Diário do Nordeste, 1998, p. 26
WILLIAMS, Raymond. O Campo E A Cidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.167
QUEIROZ, Eça de, A Cidade e as Serras. Fortaleza, Diário do Nordeste, 1998, p. 38
WILLIAMS, Raymond. O Campo E A Cidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.71

97

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Angel Barreiro Araújo, Espanha
37.2.5.
Cura de fuego 5
*(207) San Bartolomé de Pinares, Ávila (Espanha), 2015
37.2.1.
Cura de fuego 1
*(208) San Bartolomé de Pinares, Ávila (Espanha), 2015

37.2.3.
Cura de fuego 3
*(205) San Bartolomé de Pinares, Ávila (Espanha), 2015
4.1.35.4.37.2.2.
Cura de fuego 2
*(206) San Bartolomé de Pinares, Ávila (Espanha), 2015

98

transversalidades

Susana Girón, Espanha
24.2.6.
Campamento nocturno
*(211) Castilla la Mancha (Espanha), 2014
24.2.1.
Pastores trashumantes
*(212) Castilla la Mancha (Espanha), 2014

24.2.3.
Un alto en el camino de pastores
*(209) Castilla la Mancha (Espanha), 2014
4.1.35.4.24.2.5.
Rebaño
*(210) Castilla la Mancha (Espanha), 2014

99

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Jaime Gómez Giganto, Espanha
36.2.2.
Inca de Oro 002
*(215) Inca de Oro (Chile), 2015
36.2.4.
Inca de Oro 004
*(216) Inca de Oro (Chile), 2015

36.2.3.
Inca de Oro 003
*(213) Inca de Oro (Chile), 2015
4.1.35.4.36.2.1.
Inca de Oro 001
*(214) Inca de Oro (Chile), 2015

100

transversalidades

Alexandre da Luz Mendes, Portugal
49.2.2.
Pequeno Monge
*(217) Angkor Wat (Cambodja), 2014
49.2.3.
Pequenos monges fumando
*(218) Angkor Wat (Cambodja), 2014

49.2.4.
Bo Cambodian
*(219) Angkor Wat (Cambodja), 2014
49.2.5.
Bo indeciso
*(220) Angkor Wat (Cambodja), 2014

101

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

César Passinhas, Portugal
6.2.5.
No campo
*(223) Caala (Angola), 2014
6.2.1.
O pastor
*(224) Caala (Angola), 2015

6.2.6.
Crianças
*(221) Caala (Angola), 2014
4.1.35.4.6.2.2.
Cana de açucar
*(222) Caala (Angola), 2014

102

transversalidades

Charleine Boieiro, Portugal
1.2.3.
Sem título
*(227) Erdenet (Mongólia), 2013
1.2.4.
Sem título
*(228) n/a (Mongólia), 2013

1.2.1.
Erdenet
*(225) Erdenet (Mongólia), 2013
4.1.35.4.1.2.2.
Ovoo
*(226) n/a (Mongólia), 2013

103

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Daniel Jesús Sánchez Escalera, Espanha
3.2.5.
Señales
*(231) Marchena, Sevilla (Espanha), 2013
3.2.1.
Al hecho
*(232) Marchena, Sevilla (Espanha), 2013

3.2.3.
Desolación
*(229) Marchena, Sevilla (Espanha), 2013
4.1.35.4.3.2.4.
Como un viejo
*(230) Marchena, Sevilla (Espanha), 2013

104

transversalidades

Guillermo Quintanilla Benavente, Espanha
76.2.4.
Mercado de San Pedro, Cusco 2
*(235) Cusco (Perú), 2013
76.2.3.
Mercado de San Pedro, Cusco
*(236) Cusco (Perú), 2013

76.2.2.
Mercado de Pisac
*(233) Pisac (Perú), 2013
4.1.35.4.76.2.6.
Snake
*(234) Pisac (Perú), 2013

105

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Jose Beut Duato, Espanha
17.2.5.
Romania 5
*(239) Jina (Rumania), 2014
17.2.2.
Romania 2
*(240) Jina (Rumania), 2014

17.2.4.
Romania 4
*(237) Jina (Rumania), 2014
4.1.35.4.17.2.6.
Romania 6
*(238) Jina (Rumania), 2014

106

transversalidades

Nuno André Ferreira, Portugal
75.2.3.
Entre a cidade e as Roças
*(243) São Tomé e Príncipe (São Tomé e Príncipe), 2013
75.2.1.
Entre a cidade e as Roças
*(244) São Tomé e Príncipe (São Tomé e Príncipe), 2013

75.2.2.
Entre a cidade e as Roças
*(241) São Tomé e Príncipe (São Tomé e Príncipe), 2013
4.1.35.4.75.2.5.
Entre a cidade e as Roças
*(242) São Tomé e Príncipe (São Tomé e Príncipe), 2013

107

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

José António Rodrigues de Almeida Pereira, Cabo Verde
22.2.2.
Oceano de adversidades...mar de coragem
*(247) S. Pedro, S. Vicente (Cabo Verde), 2015
22.2.5.
Vento leste
*(248) S. Pedro, S. Vicente (Cabo Verde), 2015

22.2.4.
Roda d´Fortuna
*(245) S. Pedro, S. Vicente (Cabo Verde), 2015
4.1.35.4.22.2.3.
Um sonho de pernas para o ar.
*(246) S. Pedro, S. Vicente (Cabo Verde), 2015

108

transversalidades

Adan Bruno Costa da Silva, Brasil
23.2.4.
Sem título
*(251) Ilha de Maiandeua (Brasil), 2014
23.2.5.
Sem título
*(252) Ilha de Maiandeua (Brasil), 2014

23.2.2.
Sem título
*(249) Ilha de Maiandeua (Brasil), 2014
4.1.35.4.23.2.1.
Sem título
*(250) Ilha de Maiandeua (Brasil), 2014

109

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

Rocío Garrido Martín, Espanha

Yolanda Neris de Oliveira, Brasil
60.2.2.
Belezas da Mantiqueira
*(255) São Bento Sapucaí, SP (Brasil), 2015
60.2.4.
Pedra do Baú
*(256) São Bento do Sapucaí, SP (Brasil), 2015

73.2.2.
Mercado
*(253) Dire Dawa (Ethiopía), 2014
4.1.35.4.73.2.3.
Casa Dorze
*(254) Dorze (Ethiopía), 2014

110

transversalidades

18.2.2.
José Pinto, Portugal

45.2.4.
Felipe Tomás Jiménez Ordóñez, Espanha

2 - Maré Baixa

Alhambra III

*(257) Combarro, Galiza (Espanha), 2015

*(259) Ciudad Real (Espanha), 2014

43.2.1.
Martha Alicia Moreschi, Argentina

55.2.3.
Lucas Zenha Antonino, Brasil

Bello paisaje labrado

Entrelaços de Esperança
*(260) Campo Formoso, Bahia (Brasil), 2014

*(258) Moray (Peru), 2014

111

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

61.2.3.
Jordi, Espanha

67.2.2.
Andreia Julieta Gonçalves Bernardo, Portugal

Viaje al oasis

Titulo

*(261) Novelda (Espanha), 2015

*(263) Pirinéus (Espanha), 2013

14.2.1.
Cátia Castanheira Ferreira, Portugal

40.2.6.
Ilda Susete Correia, Portugal

Trabalhar o mar

Marcos de Fronteira VI
*(264) San Martín del Pedroso, Zamora (Espanha), 2015

*(262) Pasajes San Juan, San Sebastián, País Basco (Espanha), 2014

112

transversalidades

61.2.1.
Jordi, Espanha

46.2.4.
Roberto Conde Álvarez, Espanha

Ermita a la luz de Venus

Antigua edificación

*(265) Elda, Alicante (Espanha), 2015

*(267) Rascafría (Espanha), 2015

46.2.3.
Roberto Conde Álvarez, Espanha

27.2.1.
Daniel, Espanha

Antiguo cementerio

Old window
*(268) Almería (Espanha), 2015

*(266) Rascafría (Espanha), 2015

113

I fotografia sem fronteiras

I

2 Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida

2.2.1.
Miriam Lago, Portugal

28.2.1.
Catarina Bettencourt, Portugal

Lviv

Camponesa

*(269) Lviv (Ucrânia), 2013

*(271) Shan State, (Myanmar), 2015

51.2.1.
Ruben Carrilho, Portugal

2.2.5.
Miriam Lago, Portugal

Nostalgia

Sem título
*(272) Olshanka (Ucrânia), 2013

*(270) Amareleja (Portugal), 2013

114

transversalidades

25.2.2.
Ana Rita Matias, Portugal

64.2.3.
Ramón Ángel Acevedo Arce, Chile

Meninos de um rio 2

Jóvenes mujeres - músicos

*(273) Pium, RN (Brasil), 2014

*(275) San Pedro y San Pablo Teposcolula (México), 2014

25.2.3.
Ana Rita Matias, Portugal

28.2.3.
Catarina Bettencourt, Portugal

Meninos de um rio 3

Na loja
*(276) Shan State, (Myanmar), 2015

*(274) Pium, RN (Brasil), 2014

115

I fotografia sem fronteiras

transversalidades
transversalidades

tema 3

Cidade e processos
de urbanização

I

3 Cidade e processos de urbanização

prémio tema

António Alves Tedim, Portugal
34.3.1.
Metades
*(277) Porto, Estação de S.Bento (Portugal), 2015

118

transversalidades

119

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

menções honrosas

António Carlos Pereira da Costa, Portugal
14.3.1.
Do not tell them
*(278) Porto (Portugal), 2013

120

transversalidades

Jonathan Carvajal, Colombia
22.3.1.
From the serie the edge
*(279) Reikavik (Islandia), 2014

121

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

menções honrosas

Miguel Louro Costa, Portugal
60.3.1.
Sem título
*(280) Odivelas (Portugal), 2014

122

transversalidades

I fotografia sem fronteiras

A cidade é passado e presente ansiando pelo futuro
José Manuel Simões *
1. Evocando a cidade e o fenómeno urbano

Segundo os dados da Organização das Nações Unidas
(ONU), por volta de 1900, apenas 10% da população
mundial vivia em centros urbanos. Hoje, tal valor elevou-se para 54% (3,9 mil milhões de pessoas), sendo
que nas regiões classificadas como mais desenvolvidas
tal valor atinge já os 78,3%. Em 2050, estima-se que a
população urbana, cujo crescimento global anual é de
0,8%, alcance os 66,4% (85,4% nas regiões mais desenvolvidas, cujo crescimento anual é actualmente de
apenas 0,3%, e 63,4% nas restantes regiões). O ritmo
de crescimento anual global da população urbana é
hoje de 0,8%, mas nas regiões mais desenvolvidas é de
apenas 0,3% enquanto nas restantes regiões é de 1,2%.
No contexto da população mundial a população urbana Actualmente, existem 488 cidades com mais de um
milhão de habitantes (eram apenas 144 em 1970), e,
destas, 41 possuem mais de 10 milhões de habitantes
(eram apenas 3 em 1970).

“O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente
o desejo de uma cidade”
Italo Calvino, Le Città Invisible, 1990

A

cidade é um sítio e uma posição. A cidade é
tempo e espaço imaginado e desenhado, paisagem artificializada, densificada e volumetrizada.
A cidade é pequena, média, grande, e cada vez mais
enorme. A cidade é concentrada, linear, compacta, e
fragmentada. A cidade é pedra, tijolo, cimento, madeira, ferro, vidro... A cidade é mostruário de casario,
acomodação e miscigenação de edifícios, grandes e
pequenos, coloridos e monocromáticos, novos e envelhecidos pelo tempo, pelas intempéries e pelo desmazelo. A cidade é infra-estrutura, aérea e subterrânea,
avenidas, ruas, azinhagas, becos, calçadas, escadarias,
largos, praças, pontes, túneis, canalizações, cabos,
fibras… A cidade também é verde, sejam jardins, parques, hortas ou simplesmente flores à janela.

O fenómeno urbano é, pois, uma das realidades mais
marcantes e impulsionadoras da transformação dos
territórios. Mas, a aceleração da urbanização trouxe
também problemas e desafios de grande diversidade e
magnitude, requerendo novas reflexões e intervenções.

Mas, a cidade é também espaço vivido e memória,
trabalho, sociabilização e lazer, tradição e inovação
e arte, conhecimento e tecnologia, capital, empresas
e trabalhadores. A cidade é poder, negócio, gestão
e competitividade. A cidade é contraste e conflito,
mosaico assimétrico de riquezas e misérias, de abundância e privação, de indiferença e exclusão, mas
também de hospitalidade, assimilação e inclusão. A
cidade é mobilidade e interacção, palco de deambulações, rotinadas e errantes, destino de chegada e de
partida, de pendulares, visitantes e turistas, e de migrantes que buscam novas paragens e oportunidades.
A cidade é, antes de mais, pessoas!

2. Buscando novos conceitos e modelos de cidade
“A forma de uma cidade muda mais depressa, ai de nós, que o coração de um mortal.”
Charles Baudelaire, Le Cygne,1857

Hoje, deseja-se que a cidade seja resiliente e sustentável, mas também saudável, inclusa, criativa, inteligente, competitiva e para muitos «humana» e «feliz».
123

I

3 Cidade e processos de urbanização

A resiliência, conceito baseado na aptidão de um
determinado sistema para recuperar o seu equilíbrio
depois de ter sofrido uma perturbação, foi introduzido
nas problemáticas territoriais no início da década
de setenta com os estudos do ecologista canadiano
Crawford Holling. Apesar de se ter tornado ´no seio da
comunidade científica um conceito da modernidade,
reveste-se, contudo, de alguma complexidade e até paradoxalidade, na medida em que a esmagadora maioria
das cidades, ao revés de muitos prognósticos científicos, conseguem atravessar prolongados ciclos de crise
e de desestruturação urbanística, económica e social,
motivados por factores bélicos, catástrofes naturais e
tecnológicas ou recessões da economia, adaptando-se
em cada momento e conseguindo prolongar intemporalmente a sua existência concreta.

onde se sublinha que doravante «as cidades deverão
situar a sua política numa perspectiva a longo prazo».
Em 1992, a ideia de «organização urbana sustentável»
aparece como um objectivos centrais da «Agenda 21»,
adoptada na Cimeira Planeta Terra do Rio de Janeiro
e, quatro anos mais tarde, na Conferência Habitat II
da ONU, o “Plano de Acção Global” estende consideravelmente o conceito de sustentabilidade na direcção
dos assentamentos humanos. À escala europeia, o
relatório Towards Sustainability (1993) da Comissão
Europeia especifica claramente o papel e o comprometimento da Comunidade na organização do espaço
e na coesão económica e social da Europa, e na prossecução do desenvolvimento urbano sustentável.
Hoje, do ponto de vista instrumental, afirmam-se quer
as políticas e acções estimuladoras da reabilitação urbana, visando a recuperação patrimonial e a revitalização social e económica dos centros históricos, tendo
ainda como pano de fundo a atenuação da dispersão e
fragmentação urbana de modo a favorecer a compactação da cidade, quer as políticas e acções conducentes
ao «baixo carbono», intervindo na eficiência energética da mobilidade e transportes e dos edifícios. Numa
outra vertente, mas com o propósito análogo de aprofundar a sustentabilidade, destaquem-se as iniciativas
de gestão territorial e urbanística tendentes a tornar
a cidade mais «verde» e «biofílica» (jardins, parques
urbanos, hortas urbanas, “telhados verdes”…) e as que
recorrem cada vez aos ensinamentos do estudo do metabolismo das cidades e parametrização da capacidade
de carga dos lugares.

O conceito de sustentabilidade, imbrica-se com o
da resiliência, e é uma temática que nas últimas
décadas tem estado presente nas preocupações e
análises científicas de todos os que se debruçam
sobre as dinâmicas e transformações do território.
O conceito começou a ser forjado há cerca de um
século, na medida em que a ideia “pensar global,
agir local”, habitualmente atribuída ao biólogo René
Dubos, está implícita no livro Cities in Evolution do
urbanista escocês Patrick Geddes. Mas, é a partir de
1987, quando a Comissão Mundial para o Ambiente e
Desenvolvimento da ONU, presidida pelo norueguês
Gro Brundtland, publica o relatório Our Common
Future, onde se avança uma definição do desenvolvimento sustentável na intersecção dos vectores
ambiente, sociedade e economia, como sendo aquele
que “responde às necessidades do tempo presente, sem
comprometer a possibilidade para as gerações futuras
de responder às suas próprias necessidades”. Nos anos
noventa, o conceito surge igualmente no relatório da
OCDE Environmental Policies for Cities in the 1990s,

No que se refere ao conceito de «cidade saúdavel»,
deve relembrar-se que as primeiras preocupações com
esta temática remontam a cerca de dois mil e quatrocentos anos, com a publicação da obra do médico
grego Hipócrates subordinada ao tema “Sobre os Ares,

124

transversalidades

as Águas e os Lugares”, onde são induzidas as relações
entre as características da água, do clima e da cidade
e a saúde das populações. A partir de meados do século XIX, num contexto de deterioração crescente das
condições de vida de muitas cidades norte-americanas
e europeias, industrializadas, começam a emergir movimentos cívicos clamando por cidades mais habitáveis e, em resposta, novos conceitos de planeamento
da cidade embuidos pelos ideais higienistas. A preocupação com a construção de cidades mais saudáveis
viria a renascer de forma intensa a partir de meados
dos anos setenta, primeiro impulsionada pelas conclusões do chamado Relatório Lalonde (A New Perspective
on the Health of Canadians, 1974), depois, com a
reorientação do enfoque da Organização Mundial de
Saúde (OMS), ao lançar, em 1978, em Alma-Ata, na
primeira conferência internacional sobre Cuidados
de Saúde Primários, o ambicioso desafio da obtenção
da «Saúde para Todos». Mais tarde, em 1986, num
simpósio em Lisboa, a OMS lançaria formalmente o
projecto «Cidades Saudáveis», preconizando que uma
cidade saudável é aquela que articula o vasto conjunto dos seus atores, objectivando a orientação de
acções direccionadas à produção colectiva da saúde
e à construção de uma rede de solidariedade, com o
objectivo comum de melhorar a qualidade de vida da
população.

I fotografia sem fronteiras

cidade sempre coexistiram grupos socio-económicos
diferenciados, uns, segregados e marginalizados social
e economicamente, seja pela debilidade do poder de
compra e condição precária do emprego, seja pela
etnicidade e comportamentos sociais, outros, pelo
contrário, detentores de muito poder e capital, dando
origem a grandes clivagens na matriz social e económica dos residentes na cidade. Hoje, as preocupações
com a problemática da inclusão social na cidade vão
muito no sentido do combate à pobreza extrema, da
valorização das especificidades culturais de grupos
étnicos trazidos ao encontro da cidade pelas correntes
migratórias internacionais, e da aceitação de comportamentos sociais de minorias específicas, mormente as
associadas à questão do género.
A criatividade é uma questão da modernidade, projectada no mundo académico, no dos planeadores e gestores do território e no dos media com as publicações
de autores como Charles Landry e Richard Florida. A
cidade criativa emerge da articulação entre as novas
tecnologias e novos tipos de economia baseados na
criatividade e inovação e na expressão artística, tudo
maturado no seio de uma comunidade diversa, com
boa qualidade de vida, com elevado nível educacional,
culturalmente dinâmica, e apoiada em reconhecidas
instituições de ensino e investigação e em boas infra-estruturas tecnológicas. Richard Florida sublinha que
certas cidades, mais do que outras, possuem a capacidade de atrair empresas e pessoas criativas e inovadoras, capacidade inerente a um conjunto de factores
identificados como os três «T’s»: Talento, Tolerância e
Tecnologia.

A inclusão, ainda que seja um desígnio facilmente
consensualizavel por todos os que se norteiam por
princípios de justiça social e de igualdade de oportunidades, está longe de ser uma realidade, sendo por isso,
desde há muito, uma temática recorrente no estudo da
cidade. Destaquem-se, desde logo, as análises de Henri
Lefebvre, Manuel Castells, David Harvey e Peter Hall,
cujas obras iniciais revelam pioneirismo e marcaram,
na transição dos anos sessenta para os setenta, o pensamento científico e social de muitos urbanistas. Na

A expansão e desenvolvimento das novas tecnologias,
reforça a ideia de que os edifícios e as cidades podem
ser «inteligentes», alavancando novos conceitos
estratégicos de enquadramento do planeamento e

125

I

3 Cidade e processos de urbanização

intervenção urbana, como os de «smart city», «cyber
city» e, sobretudo, reposiciona a cidade num tempo,
que sendo presente, é já futuro, preparando-a para
os desafios da competitividade interurbana, a várias
escalas, sob o manto da globalização. A prazo as
fachadas da maioria dos edifícios da cidade tornarse-ão enormes ecrãs de comunicação e divulgação
permanente de informação, e no espaço público
surgirão paisagens virtuais animadas, diversificadas e
convidativas. E, tendo como horizonte um futuro não
muito longínquo, estão já projectar-se grandes cidades
flutuantes e auto-suficientes que poderão cruzar os
mares itinerando pelo mundo.

3. Deambulando pela cidade
“A câmera é um instrumento que ensina as pessoas a ver sem câmera”
Dorothea Lange

Como escreveu o geógrafo Yu-Fu Tuan na sua Topophilia (1974), “O Homem depende mais conscientemente
da visão do que dos demais sentidos para progredir no
mundo. Abre-se-lhe um mundo mais amplo e chega até si,
através dos olhos, bastante mais informação espacialmente detalhada e específica”.
A fotografia é uma oportunidade e um impulso sensorial para captar um momento efémero. É um ângulo de
visão, reflectido ou inesperado, que premeia a atenção
ou a persistência e a destreza de decisão. É um jogo de
luzes e sombras, de cores e tons que se harmonizam e
contrastam numa composição singular. É um resultado
que regista, elucidando ou lançando a dúvida, e que,
sobretudo, perpetua para além do momento. E, há
ainda a fotografia reinventada, forjada na manipulação
tecnológica do registo fotográfico, num compósito de
processos de adição e subtracção de elementos, ou de
alteração cromática e incorporação de filtros. Independentemente do olhar ou da tecnologia, a fotografia
prossegue paulatinamente a sua já longa aventura, e, na
contemporaneidade, a imagem vulgarizou-se e ganhou
uma força transformadora e galvanizadora do mundo.

Mas, há também cada vez mais desencantados com a
longa e sinuosa «viagem da cidade», alertando para: i)
a voragem do betão e do capital, que à sua passagem
adultera ou mesmo destrói paisagens e patrimónios
de identidade e valor, normalizando arquitecturas e
tornando os cidadãos em sujeitos passivos e meros
números de estatística; ii) as gritantes segregações
sociais, que em muitos casos deram lugar a «guettos»;
iii) o enfraquecimento das tradicionais relações de
vizinhança e de solidariedade local, motivado por um
urbanismo e uma evolução económica e societal que
nos empurra para o «individualismo». Em alternativa,
reclamam a materialização de uma cidade mais humanizada, pela sua escala, pela qualidade do edificado
e do espaço público, pela recuperação patrimonial e
identitária, pela disponibilização de serviços de proximidade que garantam a satisfação das necessidades
do quotidiano e estimulem as relações de vizinhança e
o pedestrianismo, pelo estímulo ao envolvimento dos
cidadãos. Uma cidade que também se possa afirmar
como uma «slow city», em rejeição ao modelo disseminado da «fast city». E, se tal for alcançado, a «cidade
feliz» que alguns preconizam, poderá não ser uma
utopia!

Movendo-se por entre o edificado e o movimento
da cidade, seja de dia, seja de noite, o fotógrafo é um
intérprete atento ao inesperado, ao pormenor e aos
enquadramentos cénicos. Uns, focam-se mais no vigor
e diversidade física da cidade, procurando ângulos
despidos de pessoas, descortinando e registando a
força e rasgo da arquitectura e da engenharia e a intemporalidade do património. Outros, pelo contrário,
mergulham nos quotidianos dos urbanitas, captando

126

transversalidades

ora estilos identitários e expressões fisionómicas e
do olhar, ora vivências, de jovens, adultos e idosos,
de trabalhadores, consumidores e ociosos e turistas.
Uns deixam-se tanger pela estética, buscando equilíbrios e profundidades de enquadramento, beleza e
composições cénicas e artísticas. Outros, vestem-se
de guardiões da História, buscando o registo do facto
memorável, seja tragédia, seja evento festivo, seja,
ainda, um momento singular de superação do génio
da Humanidade. Outros ainda, assumem-se como
protagonistas activos da Sociedade, denunciando a
injustiça e a movimentação social, os poderes abusivos
e os conluios, as decisões erradas impactantes sobre as
pessoas, as empresas ou o território...

I fotografia sem fronteiras

Fotografar na transversalidade de territórios, sociedades e culturas, penetrando no âmago da cidade, aqui,
nas profundezas da terra, ansiando pelo transporte
para casa (pernas para que te quero!), ali desfiando
conversas na calçada (espelho meu diz-me com quem
vou eu?), mais além no eixo da dúvida, porque os
combustíveis fósseis estão a esgotar-se (gasóleo ou
gasolina?), e por fim, enquadrando a dura realidade da
vida e da cidade que se compõe e decompõe incessantemente em cada instante (“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança. Tomando sempre
novas qualidades”. Camões)

* Professor e Investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT-ULisboa)

127

I

3 Cidade e processos de urbanização

Pessoa Neto, Portugal
62.3.5.
Arquitetura Grande Porto
*(283) Porto (Portugal), 2015
62.3.6.
Arquitetura Grande Porto
*(284) Maia (Portugal), 2015

62.3.4.
Arquitetura Grande Porto
*(281) Maia (Portugal), 2015
4.1.35.4.62.3.2.
Arquitetura Grande Porto
*(282) Maia (Portugal), 2015

128

transversalidades

David Pissarra, Portugal
32.3.1.
Sem título
*(287) Lisboa (Portugal), 2015
32.3.3.
Sem título
*(288) Lisboa (Portugal), 2015

32.3.4.
Sem título
*(285) Lisboa (Portugal), 2015
4.1.35.4.32.3.5.
Sem título
*(286) Lisboa (Portugal), 2015

129

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

Luís Filipe Pessoa Neto, Portugal
35.3.6.
Verde entre betão
*(291) Bairro da Bouça, Porto (Portugal), 2015
35.3.4.
Destinos diferentes
*(292) Bairro da Bouça, Porto (Portugal), 2015

35.3.2.
Passear o cão
*(289) Bairro da Bouça, Porto (Portugal), 2015
4.1.35.4.35.3.3.
Rotina
*(290) Bairro da Bouça, Porto (Portugal), 2015

130

transversalidades

José Figueira, Portugal
50.3.1.
A rega das minhas plantinhas bonitas e viçosas
*(295) Mouraria, Moura, Alentejo (Portugal), 2015
50.3.4.
Números de porta 14 e 16
*(296) Mouraria, Moura, Alentejo (Portugal), 2015

50.3.2.
Dois dedos de conversa ao final do dia
*(293) Mouraria, Moura, Alentejo (Portugal), 2015
4.1.35.4.50.3.6.
Vasos à janela
*(294) Mouraria, Moura, Alentejo (Portugal), 2015

131

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

Oksana Zagoruy, Portugal
12.3.2.
The Moment
*(299) Porto (Portugal), 2015
12.3.5.
Golden Hour III
*(300) Porto (Portugal), 2015

12.3.3.
Golden Hour
*(297) Porto (Portugal), 2015
4.1.35.4.12.3.4.
Golden Hour II
*(298) Porto (Portugal), 2015

132

transversalidades

Jorge Filipe Ascensão, Portugal
61.3.4.
Arte Urbana
*(303) Covilhã (Portugal), 2015
61.3.2.
Arte Urbana
*(304) Covilhã (Portugal), 2015

61.3.5.
Arte Urbana
*(301) Covilhã (Portugal), 2015
4.1.35.4.61.3.1.
Arte Urbana
*(302) Covilhã (Portugal), 2015

133

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

Rodolfo Gil, Portugal
55.3.6.
Lugares de Passagem 6
*(307) Lumiar, Lisboa (Portugal), 2015
55.3.5.
Lugares de Passagem 5
*(308) Lumiar, Lisboa (Portugal), 2015

55.3.2.
Lugares de Passagem 2
*(305) Lumiar, Lisboa (Portugal), 2015
4.1.35.4.55.3.3.
Lugares de Passagem 3
*(306) Lumiar, Lisboa (Portugal), 2015

134

transversalidades

Paulo Alexandre Teixeira Vahia, Portugal
24.3.1.
Alienação I
*(311) Lisboa (Portugal), 2014
24.3.3.
Alienação III
*(312) Lisboa (Portugal), 2015

24.3.4.
Alienação IV
*(309) Lisboa (Portugal), 2015
4.1.35.4.24.3.6.
Alienação VI
*(310) Lisboa (Portugal), 2014

135

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

António Carlos Pereira da Costa, Portugal
14.3.5.
2x2
*(315) Porto (Portugal), 2013
14.3.3.
Playground
*(316) Casa da Musica, Porto (Portugal), 2013

14.3.4.
1 to 1
*(313) Foz do Douro, Porto (Portugal), 2014
4.1.35.4.14.3.2.
The Great Wall
*(314) Coimbra (Portugal), 2014

136

transversalidades

Hugo Jorge Pires Ferreira, Portugal

Paulo Alexandre da Costa Fernandes, Portugal
48.3.4.
New | Old
*(319) Porto (Portugal), 2015
48.3.6.
New ^ Old
*(320) Porto (Portugal), 2013

2.3.4.
Coimbra - Pedro&Inês.
*(317) Coimbra (Portugal), 2015
4.1.35.4.2.3.1.
Coimbra - Reflexos no Mondego.
*(318) Coimbra (Portugal), 2015

137

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

Sill Scaroni, Portugal

José Carlos Silva, Portugal
37.3.3.
Pernas ao léu
*(323) Lisboa (Portugal), 2014
37.3.2.
ZigZag
*(324) Lisboa (Portugal), 2013

119.1.1.
Simetrias
*(321) Lisboa (Portugal), 2014
4.1.35.4.119.1.3.
O rosto
*(322) Tomar (Portugal), 2014

138

transversalidades

António Alves Tedim, Portugal

João Paulo Lopes Correia Santiago, Portugal
25.3.4.
Nave Espacial
*(327) Aeroporto Sá Carneiro, Porto (Portugal), 2013
25.3.2.
Corte Transversal
*(328) Parque das Nações, Lisboa (Portugal), 2014

34.3.2.
Visitantes
*(325) Estação de S.Bento, Porto (Portugal), 2015
4.1.35.4.34.3.4.
Será que vem a horas?
*(326) Estação de S.Bento, Porto (Portugal), 2015

139

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

36.3.1.
Hugo Gabriel da Silva Vieira, Portugal

66.1.5.
Adelina Clarisse Monteiro da Cunha, Portugal

Ponte Luiz I

Passeio em Barco Rabelo

*(329) Margem do Douro, Porto (Portugal), 2014

*(331) Foz do Rio Douro, Porto (Portugal), 2014

54.1.5.
Joana Pais, Portugal

54.1.6.
Joana Pais, Portugal

O meu Porto

O meu Porto
*(332) Serra do Pilar (Portugal), 2014

*(330) Serra do Pilar (Portugal), 2014

140

transversalidades

27.3.1.
José Manuel Martins Rosário, Portugal

47.3.3.
Laurentino Simão, Portugal

Gaiola Pombalina

Cidades do interior - diversificar e valorizar 3

*(333) Lisboa (Portugal), 2014

*(335) Évora (Portugal), 2014

23.3.4.
Mariana Alexandra Ferreira, Portugal

59.3.3.
Sérgio Almeida, Portugal

Toda a Terra

Justiça

*(334) Lisboa (Portugal), 2015

*(336) Coimbra (Portugal), 2014

141

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

58.3.2.
LuÍs Miguel Ferraz, Portugal

1.3.1.
Paulino Mendes Silva, Portugal

Não lugares

O abandono de um ex-libris

*(337) Lisboa e Zona Sul (Portugal), 2013

*(339) Guarda (Portugal), 2014

58.3.4.
LuÍs Miguel Ferraz, Portugal

16.3.2.
Ana Elias, Portugal

Não lugares

Passagem
*(340) Amadora (Portugal), 2015

*(338) Lisboa e Zona Sul (Portugal), 2013

142

transversalidades

51.3.2.
Sofia F. Augusto, Portugal

40.3.5.
Alexandre Luís, Portugal

Space Invaders II

Estruturas

*(341) Porto (Portugal), 2014

*(343) Guarda (Portugal), 2015

51.3.5.
Sofia F. Augusto, Portugal

13.3.6.
Diana Santos, Portugal

Space Invaders V

Retrato desfocado
*(344) Lisboa (Portugal), 2015

*(342) Porto (Portugal), 2014

143

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

49.3.2.
Lívia Acácio, Portugal

20.3.2.
Isabel Guedes Pereira, Portugal

Convivências no Templo

Cruzeiro

*(345) Coimbra (Portugal), 2015

*(346) Lisboa (Portugal), 2014

102.1.1.
Luís Carlos Ruas Coelho, Portugal
Rua suburbana
*(347) Rossio, Lisboa (Portugal), 2014

144

transversalidades

39.3.1.jpg
José Manuel G. Marques, Portugal

36.3.4.
Hugo Gabriel da Silva Vieira, Portugal

Vista para o céu…

Cair do Sol no Monte do Pilar

*(348) Guarda (Portugal), 2015

*(350) Póvoa de Lanhoso (Portugal), 2015

37.1.1.
Nuno Alexandre dos Santos Sousa, Portugal

66.3.3.
João Coutinho, Portugal

Gerês 1

Mar de chamas
*(351) Foz do Douro, Porto (Portugal), 2015

*(349) Gerês (Portugal), 2013

145

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

A cidade, feixe de razões e temporalidades
Maria Laura Silveira *

A
A

partir de conteúdos científicos, informacionais e
financeiros, o sistema técnico que caracteriza a
globalização tem permitido ocupar áreas novas
para a produção e centralizar, ainda mais, os comandos políticos num pequeno número de pontos no
território. As grandes empresas e agentes financeiros
aumentam seu controle sobre os territórios nacionais,
privilegiando áreas aptas para seus interesses, enquanto
parecem distanciar-se das atividades banais da cidade.
Assim, em boa parte dos países latino-americanos, a
agricultura moderna e a indústria dispersa demandam
a especialização dos serviços urbanos. Dir-se-ia, contudo, que é uma difusão concentrada das variáveis
contemporâneas, responsável por uma aceleração dos
processos de urbanização com o aumento da população
urbana, do número de cidades e das demandas materiais e imateriais, produtivas e consumptivas, mercantis
e sociais. Tarefas vinculadas à técnica, propaganda
e marketing, administração e logística, exportação,
informação estratégica e finanças tornam-se basilares
e, em decorrência, o circuito superior da economia
urbana (Santos, 1975) se robustece, ainda que de modo
seletivo, nas grandes cidades e em algumas cidades
médias. Atividades modernas solicitam mais atividades
modernas e novas relações se estabelecem entre as
aglomerações urbanas fazendo dialogar entre si tais
patamares da economia superior. Daí a densidade
técnica, informacional e normativa ao longo da rede
urbana nas porções mais modernas do território.

e, além disso, as diferenças salariais e de renda são
profundas. Nessa dinâmica, o papel do Estado tem sido
freqüentemente o de criar as melhores condições territoriais e econômicas para as grandes empresas e, por
vezes, redistribuir uma parcela da renda entre os mais
pobres sem atentar para as necessidades da produção
menos capitalizada.
Ainda mais nos países onde a modernização agrícola e
a concentração da terra são de toda evidencia há uma
tendência à formação de enormes manchas urbanas,
permanentemente alimentadas por imigrantes rurais
que, tantas vezes, se somam aos imigrantes estrangeiros
e engrossam o circuito inferior. Em outras palavras,
os pobres e desempregados, incluindo os imigrantes,
procuram na grande cidade formas de sobrevivência.
Daí a profusão de trabalhos, de todo tipo e natureza,
que constituem divisões do trabalho em permanente
transformação. Metáforas como monstropole, cidades
que sofrem elefantíase ou atividades-esponja foram
utilizadas no intuito de descrever os traços morfológicos e econômicos desses fenômenos. As ilhas de
modernidade no território amiúde coexistem com o
empobrecimento geral da população rural e urbana, de
modo que a sobrevivência depende dessa multiplicação
de divisões do trabalho, isto é, de circuitos de produção
e consumo pouco capitalizados. Entretanto, os circuitos
superior e inferior são opostos pela diferença de capital,
tecnologia e organização (Santos, 1975) e, ao mesmo
tempo, interdependentes nas funções e demandas,
mesmo quando uma paisagem fragmentada possa por
ventura obscurecer essa articulação.

Entretanto, o crescimento da economia, o adensamento dos objetos no território e a tecnificação e organização das ações contemporâneas parecem responder,
em boa parte das sociedades latino-americanas, a um
exercício de concentração econômica. Não há tampouco uma significativa expansão da base de empregos que
acompanhe a modernização material e organizacional

Há inúmeras tarefas, imprescindíveis a essa economia
superior, cuja realização não interessa aos atores
hegemônicos. Transportes, consertos, distribuição,
abastecimento, contabilidade, produção de certos
146

transversalidades

insumos ou serviços, entre tantas outras, são atividades
confiadas a firmas de capitais mais reduzidos, cuja
interlocução com a técnica e a organização do circuito
superior é a condição mesma da sua existência. É a porção marginal do circuito superior, capaz de contribuir
a unificar as etapas da divisão territorial do trabalho
hegemônica. Exercendo um papel essencial nessa cooperação, a porção marginal do circuito superior obtém,
todavia, lucros modestos em função do poder que os
agentes hegemônicos detêm para impor as condições
e o valor do trabalho aos demais agentes. Entretanto,
o poder público não é alheio a essa desigualdade no
valor do trabalho. A existência de tal porção marginal
na economia superior permite diminuir custos sem por
isso abater os preços finais dos bens e serviços. Assim,
a situação de oligopólio se fortalece por esse caminho,
embora não se complete graças à própria existência de
tais pequenas e médias empresas.

I fotografia sem fronteiras

dem ser retratados como paisagens do desespero como
na imagem cunhada por Relph para fazer alusão à
cidade da revolução industrial. Não poucas metrópoles
latino-americanas vêem transformados seus centros
históricos e outras porções com importantes reformas
urbanísticas, cujo ar renovado produz revalorizações,
fluxos e polarizações. Hoje a nova economia política
da cidade inclui a estetização e fundamentalmente o
alargamento das formas e normas do consumo que é
crescentemente simbólico. O gigantismo da técnica
contemporânea não raro manifesta-se na impertinência dos grandes objetos arquitetônicos na paisagem que,
vinculados a novos conteúdos culturais ou comerciais,
revelam que a reprodução ampliada do capital abraça
lugares e atividades impregnando-os de uma razão
entendida como racionalidade.
Hoje o peso da produção material na metrópole tende
a diminuir em função dos processos de desconcentração industrial que, todavia, estão longe de alcançar
os estabelecimentos do circuito inferior e, inclusive,
a porção marginal do circuito superior. Malgrado a
difusão concentrada das variáveis contemporâneas,
nossa época conhece, mais do que nunca antes, uma
banalização dos sistemas técnicos que, em arranjos
diversos, redefinem as forças produtivas, as relações
de produção e, em definitivo, os lugares. Daí o uso
desses novos meios de produção entre os mais pobres.
Cada um ao seu compasso é capaz de usar os dados da
época e o fenômeno técnico na contemporaneidade
é prova incontestável disso. Mais divisível, a técnica
atual permite renovar o conteúdo das formas materiais
passadas, dando-lhes novo sentido. Uma verdadeira
presentificação do que já existe, no dizer de Sartre.
Nos centros antigos e deteriorados das metrópoles, mas
também nas periferias cuja formação é mais ou menos
recente podemos observar uma profusão de formas simples de fabricação, comércio e serviços, incluindo especialmente a reparação de objetos banais e de objetos
tecnológicos avançados. Do conserto de panelas ao de
computadores e celulares, esse conjunto de agentes par-

Das grandes empresas, cujo território é o país e o
mundo, ao vendedor de rua, cujo território é a calçada
e cujo capital cabe na própria mão, a metrópole é a
síntese de todas as divisões territoriais do trabalho e
o reino das inúmeras temporalidades da globalização.
Os intermediários e, a cada dia mais, os intermediários
financeiros são os responsáveis pelos múltiplos fios que
entretecem essas formas de trabalho. Velocidade e lentidão, antecipação e espera, fluxos e massas, mobilidade
e imobilidade são imagens aptas para pensar como
cada agente interpreta seu tempo e utiliza as possibilidades técnicas do período.
Produtora e usuária de grandes objetos e superfícies,
essa economia superior não se renova sem um uso
intensivo da técnica e do capital e, em decorrência,
parece não deixar interstícios para o trabalho humano
advindo de saberes empiricamente construídos. Meios
compósitos de edifícios inteligentes e helipontos em
modernos centros empresariais, aeroportos, grandes
centros comerciais, condomínios fechados, antigos
prédios revitalizados e arquitetura de autor já não po147

I

3 Cidade e processos de urbanização

ticipa do tempo da globalização e amplia, ao seu ritmo,
a base técnica contemporânea. Eis o circuito inferior,
cujos atores amiúde dividem e unificam o trabalho, não
sem bulício, em espaços públicos. São paisagens onde
os corpos estão presentes, os capitais são pequenos e as
combinações técnicas podem ser surpreendentes.

economia é vista como informal, ilegal e improdutiva.
A razão vincula-se ao cuidado da vida, ainda que nos
discursos mais visíveis não possa galgar o status de
racionalidade. Nessas condições, poderíamos perguntar-nos, na metrópole contemporânea, quem se arroga
o direito de legitimar a quem?

A aglomeração é a condição de existência para os
agentes e atividades da pobreza. Quem carece de força
para criar demanda apenas pode sobreviver onde esta
já existe. Nos densos centros das metrópoles cada
pedaço da calçada desponta como uma oportunidade
de dividir os custos da centralidade e de aproveitar os
enormes fluxos de pedestres. Escadas, paredes, estações
de metrô, trens e ônibus, mercados de rua, pontos
fixos e intermitentes, associações impensadas de ramos
são a arena de uma economia cuja organização é um
dado a ser repensado a cada dia. Nas periferias, esses
afazeres, associados ao cuidado das crianças, dos idosos
e da casa, as relações de vizinhança, as festas populares
e religiosas insistem em reunificar o espaço da vida
e o espaço do trabalho. A lentidão é, portanto, um
dado da existência. O cotidiano é reinventado nessa
imensidão de “gestos-fio” como denomina Ribeiro a
ação espontânea, singelamente concebida e portadora
dos valores compartilhados, que relacionam os saberes
na co-presença. O reconhecimento do outro, que não
busca impor normas e que precisa resolver o sustento
do dia, leva a um diálogo permanente e fortalece o que
Santos (1996) denomina densidade comunicacional.
Essa reprodução simples da vida está nas antípodas
da produção de organizações e normas que antecipem
a eficácia das ações e, por isso, tantas vezes, essa

Entretanto, as ruas das metrópoles latino-americanas
revelam uma paisagem de oposições e interdependências. Nos bairros da periferia, publicidade e crédito
mostram essa inter-relação e o permanente alargamento das possibilidades de consumir, levando a fortalecer
a ideologia que busca convencer sobre a homogeneidade social das benesses da época. Concomitantemente,
renova-se a arte da imitação, tão indissociável nos dias
de hoje da arte da criação.
A cidade e, mormente, a metrópole agrega no seu seio
um leque de próteses e semoventes de idades diversas
e uma pluralidade de práticas, idéias, normas, cosmovisões e formas de fazer que não se explicam apenas
pelo presente nem apenas pela divisão territorial do
trabalho hegemônica. A riqueza dessa diversidade sócio-técnica é ofuscada por uma desigualdade estrutural,
cujas causas são políticas e cujas conseqüências principais são as restrições aos bens e serviços de direito
comum sem os quais a vida social perde o rumo. É uma
desigualdade estrutural, herança e cenário para a atual
vida de relações. Todavia, quando grande parte da sociedade torna-se incapaz de exercitar os mandamentos
atuais é possível vislumbrar os confins da racionalidade
dominante. É tempo de indagar acerca das razões plurais que constroem a vida social na cidade.

* Investigadora Independiente do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) no Instituto de Geografia da Universidade de
Buenos Aires.





Referências:
Relph, Edward. Place and placelesness. Londres: Pion, 1976.
Ribeiro, Ana Clara Torres. “Sociabilidade, hoje: leitura da experiência urbana”. Caderno CRH, Salvador, v. 18, n.45, p. 411-422, set./dez. 2005.
Santos, Milton. L’Espace Partagé. Les deux circuits de l’économie urbaine des pays sous-développés. Paris: M.-Th. Génin, 1975.
Santos, Milton. A Natureza do Espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. Hucitec: São Paulo, 1996.
Sartre, Jean-Paul. Crítica de la Razón Dialéctica. Precedida de Cuestiones de Método. Buenos Aires: Losada, 3 ed., 1979.

148

transversalidades

Jonathan Carvajal, Colombia
22.3.2.
From the serie the edge
*(354) Reikavik (Islandia), 2014
22.3.4.
From the serie the edge
*(355) Reikavik (Islandia), 2014

22.3.3.
From the serie the edge
*(352) Reikavik (Islandia), 2014
4.1.35.4.22.3.6.
From the serie the edge
*(353) Reikavik (Islandia), 2014

149

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

Rosa Rodríguez Sánchez, Espanha
28.3.6.
Skyline
*(358) Shanghai (China), 2014
28.3.2.
Passado e presente
*(359) Shanghai (China), 2014

28.3.1.
Habitação
*(356) Shanghai (China), 2014
4.1.35.4.28.3.4.
Reflexão
*(357) Beijing (China), 2014

150

transversalidades

Nuno Almeida, Portugal
31.3.5.
As figuras e a fonte
*(362) Barcelona (Espanha), 2014
31.3.3.
Aleph
*(363) Barcelona (Espanha), 2014

31.3.6.
O cemitério Poblenou
*(360) Barcelona (Espanha), 2014
4.1.35.4.31.3.4.
A cidade luz
*(361) Barcelona (Espanha), 2014

151

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

Luís Miguel Lopes Pina, Alemanha
53.3.1.
Torre misteriosa
*(366) Munique (Alemanha), 2013
53.3.3.
Um dia mais em Paris…
*(367) Paris (França), 2014

53.3.4.
Tempos negros
*(364) Frankfurt (Alemanha), 2014
4.1.35.4.53.3.2.
Simetria infinita
*(365) Paris (França), 2014

152

transversalidades

Goretty Gutiérrez, Espanha
45.3.4.
Underground 4
*(370) Londres (Inglaterra), 2013
45.3.2.
Underground 2
*(371) Londres (Inglaterra), 2013

45.3.5.
Underground 5
*(368) Londres (Inglaterra), 2013
4.1.35.4.45.3.1.
Underground 1
*(369) Londres (Inglaterra), 2013

153

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

Rodrigo Vilar, Brasil
120.1.3.
Retrato da Arquitetura
*(374) São Paulo (Brasil), 2014
120.1.1.
Felicidade
*(375) São Paulo (Brasil), 2014

120.1.4.
Contrastes I
*(372) São Paulo (Brasil), 2014
4.1.35.4.120.1.6.
Que Plano é esse?
*(373) São Paulo, zona sul (Brasil), 2014

154

transversalidades

Vicente , Espanha
64.3.6.
Formas de vivir_6
*(376) Nueva Delhi (India), 2013
64.3.4.
Formas de vivir_4
*(377) Nueva Delhi (India), 2013

numero
Formas de vivir_1
*(378) Nueva Delhi (India), 2013

155

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

17.3.1.
Patricia Sánchez Maldonado, Espanha

52.3.1.
Javier Yárnoz Sánchez, Espanha

Pared sobre pared

Escenas de calle nº 1
*(381) Vitoria (Espanha), 2014

*(379) Zamora (Espanha), 2015

44.3.4.
Alejandro López Redondo, Espanha
Paz
*(380) Salamanca (Espanha), 2015

156

transversalidades

3.3.2.
Hugo Miguel Branco da Fonseca, Portugal

42.3.4.
Angela Sairaf, Espanha

Escada da Vida

La felicidad la devora el tiempo 4

*(382) Madrid (Espanha), 2014

*(384) Alicante (Espanha), 2014

3.3.1.
Hugo Miguel Branco da Fonseca, Portugal

42.3.1.
Angela Sairaf, Espanha

Escalar o Céu

La felicidad la devora el tiempo 1
*(385) Madrid (Espanha), 2013

*(383) Madrid (Espanha), 2014

157

I fotografia sem fronteiras

I

3 Cidade e processos de urbanização

63.3.3.
Carla Sofia Martins, Portugal

26.3.4.
Ignacio González Castaño, Espanha

França 3

Brooklyn Heights

*(386) Paris (França), 2013

*(387) Nueva York (Estados Unidos), 2014

39.3.5.
José Manuel G. Marques, Portugal
Vidro e fumo...
*(388) Pequim (China), 2015

158

transversalidades

11.3.1.
Anael Ribeiro Soares, Brasil

65.3.6.
Regys Loureiro de Macêdo, Brasil

Habitar: o estado do ser no/com o mundo
*(389) Juazeiro do Norte (Brasil), 2014
43.3.3.
Maria Elizabeth Pierella, Argentina

Descanso
*(391) Rio Grande, RS (Brasil), 2015

Palafitos
*(390) Isla de Chiloé (Chile), 2015

159

I fotografia sem fronteiras

transversalidades
transversalidades

tema 4

Cultura e sociedade:
diversidade cultural
e social

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

prémio tema

Tiago Lopes Fernández, Portugal
63.4.5.
Rituais Maia #5
*(392) Chichicastenango (Guatemala), 2014

162

transversalidades

163

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

menções honrosas

Arturo López Illana, Espanha
13.4.3.
En la tribu 3
*(393) Rio Omo (Etiopia), 2014

164

transversalidades

José María Rubio Calonge, Espanha
44.4.3.
Kiev, Enero 2014 3
*(394) Kiev (Ukrania), 2014

165

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

100 anos é muito tempo. 100 quilómetros é muito longe.
Paulo Peixoto *

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...
Fernando Pessoa – Tempo da Travessia

E

screvo este texto sugestionado e instigado pelas
três fotografias do catálogo “Transversalidades:
Fotografia sem Fronteiras” – 2015, incluídas no
tema Cultura e sociedade: diversidade cultural e social.
Cada uma delas, não obstante a sua polissemia, me
traz uma ideia concreta e imediata ao pensamento.
As três, em conjunto, convidam-me a refletir sobre a
importância da diversidade cultural.

janeiro numa cidade fria, embora sem neve; tudo faz
transparecer que o carro é apenas um elemento petrificado da paisagem e que não vai a lado nenhum. Até
porque parece não haver lugar nenhum para ir. Mas
vejo no carro um convite. Se as raízes e o território
nos dão uma roupagem cómoda porque ajustada ao
nosso corpo e se os rituais nos parecem transportar
sempre aos mesmos lugares, o carro apela à travessia
necessária para sairmos da nossa zona de conforto.
Parece petrificado, acentuando a ideia que sozinho
não vai a lado nenhum, mas com a ousadia a que Pessoa apela é capaz de fazer uma travessia qualquer.

A fotografia de Arturo López Illana, convocando
a ideia de tribo, remete-me à territorialidade, à
familiaridade e às raízes. Os rituais Maia, de Tiago
Lopes Fernández, relevam o caráter repetitivo mas
simbolicamente complexo das nossas vidas encaixadas
num tempo e num espaço onde ganham os sentidos
densos e, por vezes, imperscrutáveis das cumplicidades
silenciosas. O carro em Kiev, de José María Rubio Calonge, sugere-me a individualização, a mobilidade e a
aventura inerentes a esse ícone maior das civilizações
modernas: o automóvel.

Na metalinguagem das narrativas científicas e mediáticas dos nossos dias, chamamos, fácil e acriticamente,
identidade e património a essas zonas de conforto
onde nos reconhecemos e somos reconhecidos. Mas
a importância da diversidade cultural não está só em
reconhecer as identidades e os patrimónios dos outros.
Está, sobretudo, em sermos capazes de nos dar conta
que a nossa identidade e o nosso património só se concretizam e só se realizam quando nos confrontarmos
e interagirmos com outras identidades e com outros
patrimónios. Quando formos capazes e estivermos dis-

O preto e branco desta última fotografia; as rodas
encobertas por floreiras vazias, quais rodas de pedra
presas ao chão; a ausência de pessoas; um dia frio de

166

transversalidades

poníveis para conhecer e não apenas para reconhecer.
Quando formos capazes de fazer essa travessia que nos
retira das nossas próprias margens e que nos mostra
que é nos outros e no diverso que somos mais nós.

I fotografia sem fronteiras

rior, tem a ver com a evolução das funções sociais do
património. Olhemos genericamente para cada uma
delas.
Não há dúvida que os valores do património cultural,
hoje como há 100 anos atrás, continuam a ser essenciais para a sociedade. Mas se ao património tivermos
de associar uma intenção declarada, se tivermos de
lhe atribuir uma vontade para realizar algum coisa, se
tivermos de lhe associar uma missão atualizada e sintonizada com os valores da democracia e da liberdade,
o património assume um desígnio claro. Esse desígnio
assenta, inequivocamente, na necessidade de conceber
novos meios que liguem os cidadãos ao património,
fazendo evoluir as lógicas da conservação e da preservação para lógicas de participação. O património não
é mais, nem pode ser, uma prática de representação
dos poderes e dos agentes vencedores em determinados momentos da história. O património é, e tem
de ser cada vez mais, uma realidade vivida, sentida e
apropriada pelas comunidades. O património dos anos
90 do século XX, graças à mediação das várias ciências
que se foram interessando pelo património e às ações
de agentes muito diversos, e que reinventaram o termo
e a realidade a que ele se refere, já não é um património tão essencialista, tão monumental, tão disciplinar,
tão ligado a um conjunto restrito de ideias. Um
património mais plural é um desiderato de qualquer
sociedade ou comunidade que queira não só preservar
a sua diversidade, mas também converter essa diversidade em fonte de reflexividade e de transformação
social. O património reifica e simboliza a identidade e,
nessa medida, deve traduzir a diversidade que toda a
identidade comporta. No mesmo universo identitário,
as pessoas vivem em diferentes compartimentos temporais e espaciais.

Como lembrava repetidas vezes Einstein, enquanto
seres humanos somos parte de um todo. Uma parte
restrita a um tempo e a um espaço que define a nossa
zona de conforto. Nesta zona, vivemos na ilusão ótica
que somos algo separado do resto e do todo. Essa
ilusão é, acima de tudo, uma prisão da qual temos de
procurar sair por via da ampliação dos nossos círculos
de empatia.
Na verdade, sem grande esforço, estamos sempre a encher as nossas vidas de fronteiras. As fronteiras criam
tempos e espaços com lados em que nos sentimos mais
seguros. Mas as fronteiras não deixam de ser prisões.
E a segurança pode obstar à mudança. A importância
da diversidade cultural não está só em vermos o
outro lado, está na capacidade em entrarmos nele. A
travessia não é só um fluxo. Não é apenas um vai-evem em que mais nada acontece além do movimento.
É também uma mudança da nossa condição social e
da mudança que provocamos nos outros. Por isso, a
ideia de “Fotografia sem fronteiras” é, também ela,
um convite à travessia, na medida em que a fotografia
pode e deve ser o princípio de um outro olhar. E olhar
desperta os outros sentidos.
Volto ao património para destacar duas dimensões1
dos processos de patrimonialização que são importantes para pensar a relevância da diversidade cultural
nas nossas sociedades. Uma das características mais
marcantes da noção de património é o percurso feito,
no domínio das práticas de patrimonialização e das
categoriais patrimoniais, na segunda metade do século
XX. Outra dimensão, inevitavelmente ligada à ante-

Relativamente à segunda dimensão, cabe assinalar a

167

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

diversificação dos usos sociais do património. Se representar os momentos épicos ou emblemáticos de uma
nação ou comunidade não deixou de ser uma função
importante do património, outras funções foram ganhando relevância, sobretudo no pós Segunda Guerra
Mundial: funções educativas; funções económicas;
funções recreativas e de lazer; funções políticas;
funções urbanísticas, etc. Em todas elas, o património
tornou-se o instrumento que simboliza e corporiza
sentidos diferenciados de tempo. E é através dele que
diferentes sentidos de tempo estão hoje a criar sentidos
de lugar. Nessa medida, as dinâmicas de participação e
de apropriação dos lugares estão intimamente ligadas
a processos de patrimonialização. Quanto mais plurais
e ecléticos forem esses processos, quanto mais forem
capazes de reconhecer e de promover a diversidade,
mais o sentido de lugar se constitui como uma fonte
de renovação e de sustentabilidade. A função mais
atualizada do património está em dar conta que ele
não é uma coisa do passado, mas sim do presente e,
sobretudo, do futuro.

entrar o diverso; é reconhecermo-nos nos que não são
como nós.
Uma das minhas travessias é cruzar o Atlântico num
universo patrimonial que me revela, apesar da distância geográfica e da sua diversidade interna, uma identidade partilhada. Essa identidade, onde nem “sou eu,
nem sou outro”, mas “qualquer coisa de intermédio”2,
cria-me ao mesmo tempo uma zona de conforto e outra de desconforto. Do meu lado de lá, ao contrário do
meu lado de cá, “100 anos é sempre muito tempo”. Do
meu lado de cá, ao contrário do meu lado de lá, 100
quilómetros é sempre muito longe. A verdade é que
fazendo essa travessia entre sentidos diversos de tempo
e de espaço, quando saio da minha zona de conforto,
sem ficar desconsertado, tudo fica menos longe e menos inalcançável, no tempo e no espaço.
A travessia qualifica na exata medida em que a troca
de roupas que promove nos expõe temporariamente
num momento desconcertante de nudez. E também
porque, momentaneamente, nos retira dos caminhos
conhecidos sem nos dar a conhecer outros. Precisamos, para não ficar à margem de nós mesmos, do
tempo e do espaço que obriguem a nossa mente a
espantar-se e a nossa imaginação a voar. Aprendi e
ensinei, na travessia, que100 quilómetros é já ali e
que 100 anos foi apenas ontem ou que poderá ser já
amanhã. Ou, quem sabe, ainda hoje!

Einstein acrescentava ao seu pensamento em cima
descrito que o tempo e o espaço das nossas vidas
quotidianas são modos através dos quais pensamos
o que somos e o que fazemos. Não são condições em
que vivemos aprisionados. Nesse contexto, o desafio
é sempre o de alargar o tempo e o espaço das nossas
vidas quotidianas. Para fazer isso, a solução óbvia é
abrir a porta à diversidade; é entrar no diverso e deixar

* Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Pesquisador do Centro de Estudos Sociais (CES)
1

Entre outras que deixo de lado por economia de texto.
Do poema “7”, de Mário de Sá Carneiro, em “Eu não sou eu nem o outro”.

2

168

transversalidades

Bruno Silva, Portugal
32.4.2.
Francisco (2)
*(397) Gondomar (Portugal), 2015
32.4.3.
Francisco (3)
*(398) Gondomar (Portugal), 2015

32.4.5.
Francisco (5)
*(395) Gondomar (Portugal), 2015
4.1.35.4.32.4.4.
Francisco (4)
*(396) Gondomar (Portugal), 2015

169

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Jenniffer Simpson dos Santos, Portugal
48.4.1.
O povo é quem mais ordena_1
*(401) Lisboa (Portugal), 2015
48.4.3.
O povo é quem mais ordena_3
*(402) Lisboa (Portugal), 2015

48.4.5.
O povo é quem mais ordena_5
*(399) Lisboa (Portugal), 2015
4.1.35.4.48.4.6.
O povo é quem mais ordena_6
*(400) Lisboa (Portugal), 2015

170

transversalidades

Arnaldo Alves de Carvalho, Portugal
38.4.5.
Vozes al alto#5
*(405) Coimbra (Portugal), 2013
38.4.2.
Vozes ao alto#2
*(406) Coimbra (Portugal), 2013

38.4.6.
Vozes ao alto#6
*(403) Coimbra (Portugal), 2013
4.1.35.4.38.4.4.
Vozes ao alto#4
*(404) Lisboa (Portugal), 2013

171

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

José Pedro Martins, Portugal
41.4.6.
Benção dos Animais VI
*(409) Mixões da Serra (Portugal), 2013
41.4.2.
Benção dos Animais II
*(410) Mixões da Serra (Portugal), 2013

41.4.3.
Benção dos Animais III
*(407) Mixões da Serra (Portugal), 2013
4.1.35.4.41.4.5.
Benção dos Animais V
*(408) Mixões da Serra (Portugal), 2013

172

transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Iván Antonio Álvarez Merayo, Espanha
45.4.2.
Efémero 2
*(413) Santuário de Nossa Senhora da Peneda, Arcos de Valdevez (Portugal), 2015
45.4.4.
Efémero 4
*(414) Santuário de Nossa Senhora da Peneda, Arcos de Valdevez (Portugal), 2015

45.4.1.
Efémero 1
*(411) Santuário de Nossa Senhora da Peneda, Arcos de Valdevez (Portugal), 2015
4.1.35.4 45.4.3.
Efémero 3
*(412) Santuário de Nossa Senhora da Peneda, Arcos de Valdevez (Portugal), 2015

173

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

João Vasco dos Santos Ribeiro, Portugal

Bruno Lisita Rezende, Portugal
18.4.5.
Para quem tem fé, a vida nunca tem fim.
*(417) Coimbra (Portugal), 2014
18.4.4.

*(418) Coimbra (Portugal), 2014

26.4.2.
Sítio de Pós memória 2
*(415) Cemitério dos Prazeres (Portugal), 2013
4.1.35.4.26.4.1.
Sítio de Pós memória 1
*(416) Cemitério dos Prazeres (Portugal), 2013

174

transversalidades

25.4.5.
Nuno de Santos Loureiro, Portugal

Fernando José Curado Matos, Portugal

Que lindos passarinhos...

3.4.5.
Forcão, (Capeia Arraiana)
*(419) Aldeia de Alfaiates, Sabugal, Guarda (Portugal), 2014
4.1.35.4.número
Encerro, (Capeia Arraiana)
*(420) Aldeia de Alfaiates, Sabugal, Guarda (Portugal), 2014

*(421) Moncarapacho, Algarve (Portugal), 2015

25.4.6.
Nuno de Santos Loureiro, Portugal
Reminiscências das Feiras de Gado no Algarve
*(422) Pereiro, Algarve (Portugal), 2015

175

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

23.4.6.
Carlos Cabral, Portugal

51.4.6.
Paulo Alexandre Rafael da Silva, Portugal

O bairro

Promessa descalça

*(423) Rabo de Peixe, S. Miguel, Açores (Portugal), 2014

*(425) Ponta Delgada (Portugal), 2015

23.4.4.
Carlos Cabral, Portugal

36.4.2.
Ana Margarida Rodrigues Parreira, Portugal

High School

Rostos Invisíveis
*(426) Lisboa (Portugal), 2014

*(424) Rabo de Peixe, S. Miguel, Açores (Portugal), 2014

176

transversalidades

29.4.3.
Ana Paula Costa Cebola Oliveira, Portugal

64.4.3.
Catarina Isabel dos Reis Pereira, Portugal

Labor

Comunica

*(427) Cacela Velha (Portugal), 2014

*(429) Valhelhas (Portugal), 2105

66.4.5.
Ricardo Jorge Anjos Campos, Portugal

47.4.3.
Nuno França Machado, Portugal

Vidas nos Mercados

Brio

*(428) Mercado Abastecedor de Lisboa (Portugal), 2014

*(430) Ponta Delgada (Portugal), 2015

177

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Cultura e Sociedade: Diversidade Cultural e Social
Roberto Lobato Corrêa *

C

omo toda construção humana, a cultura exibe
uma inequívoca espacialidade e temporalidade,
que se traduz em enorme diversidade cultural.
Esta diversidade é o resultado de complexas e mutáveis
relações envolvendo o Homem e a Natureza, assim
como as relações entre os Homens. A diversidade,
por outro lado, é ao mesmo tempo reflexo, meio e
condição de existência e reprodução humana. Mais do
que isto, constitui-se em característica eminentemente
humana e distintiva dos outros animais.

restrito. Cultura é o conjunto de significados e suas representações que os diferentes grupos sociais elaboram
e reelaboram visando dar sentido às diferentes esferas
da vida. Trata-se de prática interpretativa daquilo que
cada grupo, assim como os outros grupos, fez e está
fazendo. Esta perspectiva de compreender a cultura é
mais recente, do século XX, e tem nas filosofias dos
significados a sua matriz. Autores como Ernst Cassirer, Martin Heidegger, Raymond Williams, Clifford
Geertz e Denis Cosgrove, este entre os geógrafos, são
referências fundamentais no âmbito dessa visão. A
diversidade cultural e social manifesta-se por meio de
“mapas de significados”, quer dizer, os diferentes mapas
que recobrem a superfície terrestre. Estes mapas ora
se justapõem ora se recobrem parcial ou totalmente,
denotando os diversos significados elaborados na complexa e variada experiência humana sobre a superfície
terrestre. Em resumo, regiões culturais e “mapas de significados” são as expressões que designam, cada uma a
seu modo, a diversidade cultural e social.

A despeito da polissemia que o termo cultura tem,
é possível concebê-la em dois grandes grupos. O
primeiro referente à cultura como o conjunto de
características materiais e não-materiais criados pelos
diferentes grupos humanos. Aí estão incluídos as
técnicas e os artefatos ligados à produção, à habitação,
ao vestuário, à dieta alimentar, as crenças religiosas, os
códigos morais, as leis, as artes e tudo mais que disser
respeito à existência e reprodução humana. Trata-se de
um conceito amplo, adotado tanto na academia como
no senso comum. Na academia esta conceituação tem
uma longa tradição que advém da etnografia e dela
estendeu-se à antropologia e à geografia cultural. Nomes como Edward Tylor, Franz Boas, Alfred Kroeber
e Carl Sauer, este entre os geógrafos, são expoentes na
adoção dessa visão de cultura. É nesta perspectiva que
se pode falar, por exemplo, em cultura dos esquimós,
dos índios da Amazônia, dos povos do deserto, assim
como em cultura chinesa e do homem metropolitano.
As possibilidades de recortar o mundo em regiões
culturais é imensa.

Se regiões culturais e “mapas de significados” são
expressões vinculadas sobretudo à tradição anglo-americana, gêneros de vida e espaços vividos vinculam-se
à tradição francesa. Denotam também a diversidade
cultural e social da humanidade, aproximando-se
bastante de seus congêneres região cultural e “mapas
de significados”. Paul Vidal de la Blache e Armand
Frémont são as principais referências dessas leituras
sobre a diversidade cultural e social.
A cultura está em toda parte, parafraseando Denis
Cosgrove, mas é na diversidade de paisagens culturais
que ela se manifesta em primeiro lugar. Por isso na

O segundo grupo considera a cultura de modo mais

178

transversalidades

geografia a paisagem sempre teve forte destaque, tanto
na geografia alemã quanto na inglesa, americana ou
francesa. Este interesse do geógrafo manifestou-se
tanto com base na versão da região cultural como na
dos “mapas de significados”.

I fotografia sem fronteiras

sua construção e apropriação pelas classes dominantes
e os diversos grupos diferentemente subalternizados.
A paisagem pode ser também residual e emergente,
denotando a espacialidade desigual dos processos
sociais. Entre os inúmeros significados intencionados
pelos seus construtores estão aqueles que procuram
criar simbolicamente uma transposição no espaço e
no tempo do usuário da paisagem. Fala-se das paisagens da simulação, construídas ou reconstruídas, que
simulam novas experiências no espaço e no tempo. Os
shopping-centers e os parques temáticos estão impregnados de paisagens da simulação. Ícones metonímicos
e ícones de lugares constituem as formas materiais dessas paisagens. Estimular o consumo, tornando-o um
ato prazeroso, é a intenção destas construções.

A paisagem é considerada como expressão fenomênica
da região cultural. Trata-se de um conjunto de formas
materiais articuladas entre si e que cumprem funções
que integram um dado grupo social. Os gêneros de
vida estão aí inscritos. Apresenta uma espacialidade
que impõe limites espaciais e uma temporalidade que
descreve a sua criação, transformação e desaparecimento. A paisagem, segundo Carl Sauer, é o produto
da cultura, transformada em agente das formas criadas
pela humanidade. A diversidade cultural e social é,
assim, o produto de um agente situado acima da sociedade, controlando a sua ação. Mas as regiões culturais
e suas paisagens estão por toda parte, manifestando-se
em diversas escalas espaciais e criando um complexo
sistema de regiões e paisagens culturais. Este sistema
não está, contudo, congelado, mas transforma-se por
meio da ação humana a exemplo das paisagens agrárias modernizadas após a Segunda Guerra Mundial e
as paisagens agrárias deterioradas, transformadas em
extensas áreas com pobre vegetação secundária e vazias de seres humanos. A diversidade cultural e social
é assim refeita.

É a paisagem dos excluídos, no entanto, que descreve
com vigor as desigualdades culturais e sociais. As
favelas, as áreas de cortiços e de auto-construção
localizadas nas periferias, abrigando parcela crescente
da população, são parte da marca, e das condições, da
modernidade. A eles acrescenta-se, ainda que temporariamente, os acampamentos de refugiados oriundos
de outras áreas e que dela fogem expulsos pelas guerras, perseguições e miséria.
As regiões étnicas constituem outra expressão
da diversidade cultural e social da humanidade.
Concentração espacial da população com o mesmo
genótipo, língua, costumes e em muitos casos religião
dominante, as regiões étnicas são atualmente regiões
residuais ou onde o peso dominante das hegemonias
de uma etnia foi diminuído. Os países da Europa,
Ásia e África exibem regiões étnicas, mais ou menos
dissolvidas que, sob um mesmo território político,
formam comunidades imaginadas, com tensões no
seu interior. Bascos, corsos, chechenios e curdos são
exemplos de situações de tensões de natureza étnica.

A diversidade cultural e social sugere que as paisagens
não sejam analisadas apenas na perspectiva morfológica, enfatizando-se as relações entre processo e forma,
perspectiva que ainda cumpre importante papel em
áreas ainda pouco conhecidas pelos geógrafos. Na
perspectiva dos “mapas de significados” a paisagem foi
vista como marca e matriz social, vinculada às classes
sociais e a outros significados. Nesse sentido a paisagem é um reflexo e uma condição social, denotando a

179

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

A África, por outro lado, oferece uma diversidade
ainda maior das regiões étnicas, cujo conteúdo não é
muito conhecido, oferecendo ainda inúmeros “mapas
de significados” construídos e vivenciados pelas suas
populações.

são os elementos que definem a variedade cultural e
social da humanidade. A diversidade cultural, traço
fundamental da humanidade, deve ser objeto de convivência fraternal entre os membros da comunidade
humana. A unidade na diversidade deve ser sempre
buscada. A diversidade cultural é sempre benvinda,
mas não as desigualdades sociais. Estar a favor das diferenças e contra as desigualdades é, na verdade, uma
agenda para todos.

Regiões culturais, “mapas de significados”, paisagens
da classe dominante e dos excluídos, paisagens da simulação, etnias em sua espacialidade e tensões étnicas

* Professor do Programa Pós- Graduação de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. (UFRJ e UERJ).

180

transversalidades

Arturo López Illana, Espanha
13.4.5.
En la tribu 5
*(433) Rio Omo (Etiopia), 2015
13.4.2.
En la tribu 2
*(434) Rio Omo (Etiopia Etiopia), 2014

13.4.6.
En la tribu 6
*(431) Rio Omo (Etiopia), 2014
4.1.35.4.13.4.1.
En la tribu 1
*(432) Rio Omo (Etiopia), 2014

181

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Cecília de Fátima dos Santos, Portugal
67.4.6.
Família Li
*(437) Ha Giang (Viet Nam), 2013
67.4.3.
Família Li
*(438) Ha Giang (Viet Nam), 2013

67.4.4.
Família Li
*(435) Ha Giang (Viet Nam), 2013
4.1.35.4.67.4.5.
Família Li
*(436) Ha Giang (Viet Nam), 2013

182

transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Felipe Estrela Campal, Brasil
46.4.1.
Tangará
*(441) Aldeia Guarani Estiva, Viamão, Rio Grande do Sul (Brasil), 2015
46.4.5.
Opy
*(442) Aldeia Guarani Estiva, Viamão, Rio Grande do Sul (Brasil), 2015

46.4.4.
Guria
*(439) Aldeia Guarani Estiva, Viamão, Rio Grande do Sul (Brasil), 2015
4.1.35.4.46.4.3.
Talcira
*(440) Aldeia Guarani Estiva, Viamão, Rio Grande do Sul (Brasil), 2015

183

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Tiago Lopes Fernández, Portugal

António Joaquim da Costa Marciano, Brasil
56.4.1.
A Dignidade
*(445) São Bento Sapucaí (Brasil), 2015
56.4.3.
Famílias
*(446) São Bento Sapucaí (Brasil), 2015

63.4.4.
Rituais Maias #4
*(443) Chichicastenango (Guatemala), 2014
4.1.35.4.63.4.1.
Rituais Maias #1
*(444) Chichicastenango (Guatemala), 2014

184

transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Antonio Pérez, Espanha
30.4.4.
004 Caminantes (Familia Siria en Melilla (Espanha) África.
*(447) Melilla (Espanha) África (Espanha), 2015
4.1.35.4.30.4.1.
001 Caminante (B. de Nigeria, en Melilla (Espanha) África
*(448) Melilla (Espanha) África (Espanha), 2015

30.4.5.
005 Caminantes (Familia marroquí, acogida en el CETI en la salida de tarde en Melilla
(Espanha) África.
*(449) Melilla (Espanha) África (Espanha), 2015

185

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Ignacio Izquierdo, Espanha
15.4.6.
Mundos invisibles
*(450) Madrid (Espanha), 2015
4.1.35.4.15.4.4.
Mundos invisibles
*(451) Madrid (Espanha), 2015

15.4.5.
Mundos invisibles
*(452) Madrid (Espanha), 2015

186

transversalidades

José María Rubio Calonge, Espanha
44.4.2.
Kiev, Enero 2014 2
*(455) Kiev (Ukrania), 2014
44.4.6.
Kiev, Enero 2014 6
*(456) Kiev (Ukrania), 2014

44.4.5.
Kiev, Enero 2014 5
*(453) Kiev (Ukrania), 2014
4.1.35.4.44.4.4.
Kiev, Enero 2014 4
*(454) Kiev (Ukrania), 2014

187

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Marta Dias, Portugal

Mercedes Soria Pérez, Espanha
43.4.1.j
Masai Woman
*(459) Amboseli (Kenya), 2013
numero
Inseparables
*(460) Amboseli (Kenya), 2013

4.4.2.
Vida em Dulombi
*(457) Dulombi (Guiné-Bissau), 2015
4.1.35.4.4.4.5.
Vida em Dulombi
*(458) Dulombi (Guiné-Bissau), 2015

188

transversalidades

34.4.3.
José Fº Galvez Pujol, Espanha

17.4.1.
Lília Reis, Portugal

Juego de cartas

Sonhando na multidão

*(461) Orihuela (Espanha), 2014

*(463) Paris (França), 2014

34.4.5.
José Fº Galvez Pujol, Espanha

5.4.2.
Nuno Lobito, Portugal

Juegos

Inshala
*(464) Gaza (Palestina), 2013

*(462) Orihuela (Espanha), 2015

189

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

2.4.3.
Bárbara Cavalheiro de Andrade, Brasil

Marco António Domingos Pedro, Portugal

Compaixão

40.4.2.
Tradições Geracionais
*(465) El Rocio (Espanha), 2014
4.1.35.4.40.4.3.
Dor, Fé e amor
*(466) El Rocio (Espanha), 2014

*(467) Praça Dante Alighieri, Caxias do Sul-RS (Brasil), 2015

20.4.2.
Everaldo Jacob Silva, Brasil
Piaçava
*(468) Bahia (Brasil), 2014

190

transversalidades

Claudio Carbone, Italia

Gabriel Bicho, Brasil
14.4.2.
Rio da vida
*(471) Pará (Brasil), 2014
numero
Rio da vida
*(472) Pará (Brasil), 2014

9.4.6.
Comerciante
*(469) San Cristobal de las Casas (México), 2014
4.1.35.4.9.4.2.
Cozinha
*(470) San Cristobal de las Casas (México), 2014

191

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

39.4.2.
Flora Sousa Pidner, Brasil

16.4.1.
María Peña Coto, Espanha

Contrastes Técnicos

Melasti

*(473) Salvador (Brasil), 2014

*(475) Bali (Indonesia), 2015

54.4.2.
Ana Cristina Cabaço Batista, Portugal

16.4.3.
María Peña Coto, Espanha

Encantador de turistas

Espectadora de la ceremonia de “Ogoh Ogoh”
*(476) Bali (Indonesia), 2015

*(474) Kiriwina Island (Papua Nova Guine), 2014

192

transversalidades

68.4.1.
João Romba, Portugal

37.4.3.
Julio, Espanha

Sem título 1

Ofrendas

*(477) Rishikesh (India), 2013

*(479) Luang Prabang (Laos), 2014

68.4.6.
João Romba, Portugal

37.4.1.
Julio, Espanha

Sem título 6

Orando
*(480) Chiang Mai (Tailandia), 2014

*(478) Rishikesh (India), 2013

193

I fotografia sem fronteiras

I

4 Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

28.4.3.
Marcos Farias Ferreira, Portugal

70.4.4.
Susana Cristina Rodrigues Gasalho, Portugal

Esther

Última paragem

*(481) Kigarama (Ruanda), 2014

*(483) Trans-mongoliano (Rússia), 2014

12.4.6.
Sylara Silva Silvério, Brasil

70.4.6.
Susana Cristina Rodrigues Gasalho, Portugal

Refrescante

Genuidade
*(484) Xiahe (China), 2014

*(482) Porto de Galinhas (Brasil), 2015

194

transversalidades

60.4.3.
Luz Dary Cortés Marín, Espanha

62.4.1.
Alcino Alberto Martins da Fonseca, Portugal

Habitación con vistas III
*(486) Madrid (Espanha), 2014

Atreve-te!
*(485) Avilés (Espanha), 2015

195

I fotografia sem fronteiras

legendas
*legendas

1-6
Desde mediados de los noventa los asentamientos limítrofes con los vertederos de basuras en las grandes
capitales centroamericanas han sufrido una trasformación radical. A día de hoy son numerosas las familias
que viven del reciclado de los residuos desechables en
estas macrociudades del plástico o el vidrio, su supervivencia económica depende de ello. Familias dentro
del vertedero de tegucigalpa son fiel reflejo de comunidades adaptadas a la recolección de desechos en los
Vertederos.
7
Lençóis Maranhenses.
8
Em alguns dias,nos meses da época do sargo, o número de pescadores que procura as águas da Fortaleza de
sagres para pescar, é substancial.
Alguns pesqueiros, os melhores, ficam lotados, exigindo dos pescadores redobrada atenção e concentração.

9
“Bertze Aldea.”
En euskera, bertze aldea significa “el otro lado”. Pasar
al otro lado. Traer del otro lado. Ser del otro lado. Son
expresiones que se pueden escuchar todos los días en
cualquier pueblo de frontera.
Una frontera es una grieta que separa un territorio en
dos. Una raya que convierte la tierra en territorio. Son
los mojones fronterizos los que delimitan físicamente
por donde pasa esa raya. Todo lo que queda más alla
del mojón se convierte en “el otro lado”.
Pero las fronteras no han estado siempre ahí. El paisaje que conocemos tampoco ha sido siempre igual.
En ese sentido, tanto el paisaje como la frontera son
conceptos arbitrarios, que se transforman al ritmo de
las sociedades.
Con esta serie de fotografías he querido plantear algunas preguntas sobre la tierra, el territorio y el paisaje. Para ello, he colocado la cámara justo encima de
la raya fronteriza y he cubierto de negro y blanco los
mojones, descontextualizandolos de aquello que llamamos el paisaje.
10, 11
Longa exposição noturna perto do Cabo Sardão.
12
Local de pescadores ao final da tarde.
13
Praia do Brejo Largo, Costa Vicentina.
14
Por do sol sob formação rochosa no Cabo Raso.
15
Movimento das correntes de água entre as formações
rochosas da praia.
16
Por do sol durante uma tempestade sob campos com
flores.
17
Movimento das correntes de água entre as formações
rochosas da praia.
18
Fotografia capturada num final de tarde com correntes
de ar instáveis que proporcionaram este tipo de nuvens
fora do vulgar. Pareciam ilhas flutuantes no horizonte.
A enseada do beliche fica em Sagres a caminho do

cabo de São Vicente e serve de abrigo nos dias de nortada às embarcações, desde os séculos passados.

19
Neste recanto da praia da barriga em Vila do Bispo, o
acesso só pode ser feito em dias de grandes marés vazas. Neste dia o desareamento da praia proporcionou
este cenário espectacular.
A Praia da Barriga faz parte do parque natural do sudoeste alentejano e costa vicentina.

20
Fotografia capturada num final de tarde com correntes
de ar instáveis que proporcionaram este tipo de nuvens
fora do vulgar. Nuvens Tubulares.
O Cabo de São Vicente é um lugar mítico e único onde
cada final de tarde se transforma em algo mágico,
como neste dia.
21
Nos dias de maré vazia as praias da costa sudoeste de
Portugal são sempre diferentes de dia para dia e os
reflexos e impressões na areia cativam o nosso olhar.
Foto captada na praia da Cordoama em Vila do Bispo
num final de tarde único.
A praia da Cordoama faz parte do parque natural do
sudoeste alentejano e Costa Vicentina.
22
Praia de S. Sebastião em dia de chuva.
23
Tirada na minha terra, Ericeira. Localizada entre a praia
de S. Sebastião e a praia do Algodio.
24
Tirada com um pouco de sorte por ter “apanhado”
estas duas pessoas no momento certo num espantoso
final de dia na Ericeira, praia do Algodio.
25
Vila Nova de Milfontes, Alentejo.
26
Praia da Galé - Fontaínhas do mar.
27
Praia da Galé- Fontaínhas do mar.
28
Praia da Galé - Fontaínhas do mar. Detalhe da arriba.
29
Praia da Galé - Fontaínhas do mar. Recorte da arriba.
30
A rocha aponta o caminho para o oceano. Aqui a costa
é templo protegido e o seu nome é Parque Marinho
Professor Luiz Saldanha. Uma homenagem a quem
dedicou parte da vida ao estudo desta costa rica em
fauna e flora, refúgio de diversas espécies que crescem aqui. Ao fundo, na costa, ergue-se sobre as águas
desde 1676 a Fortaleza da Nossa Senhora da Arrábida,
hoje Museu Oceanográfico.
31
Em plena convivência com a natureza e relação com
o mar, sobre um rochedo foi construída em 1686 a
Capela do Senhor da Pedra e nos dias de hoje, anualmente é aqui realizada uma romaria, assim manda a
tradição antiga. Local de lenda, de culto, de mistérios e
milagres. A magia persiste para as centenas de pessoas
que visitam o local.

196

32
Numa pequena praia da costa da Serra da Arrábida,
vislumbra-se uma linha costeira pontilhada de rochas
aqui e ali, deixando revelar a diversidade de processos
geológicos talhados pelo tempo, ao tempo do oceano.
Acima, eleva-se a silhueta deste Parque Natural.

33
Não muito longe da praia do Portinho da Arrábida surge a Pedra da Anicha. Um ilhéu que encerra em si a
lembrança de uma antiga linha de costa. Muito mais
que uma simples pedra ou lembrança, é uma reserva
zoológica do Parque Natural da Arrábida, tal é a sua
riqueza e diversidade biológica.
34
No dia 6 de Janeiro de 2014, a ondulação da tempestade Hércules devastou a costa portuguesa.
Na manhã dessa segunda-feira, muitos pescadores
tentavam a sua sorte nas falésias da Fortaleza de Sagres. De repente, a altura das ondas começou a crescer
vigorosamente apanhando alguns desses pescadores
desprevenidos. Pouco depois, ficou impossível pescar.

35
A pesca à linha do alto da falésia da Fortaleza de Sagres, que tem cerca de 40 metros de altura, é uma
coreografia permanente de equilibrismo sem rede, que
por vezes, felizmente poucas, não tem o fim desejado.
36
A Fortaleza de Sagres é uma referência regional da
pesca desportiva.
Diariamente, é procurada por dezenas, e por vezes
centenas, de pescadores que, cheios de fé, anseiam
capturar das suas águas, espécies como o sargo, o robalo e a dourada.
Nesta manhã de domingo do dia de Janeiro de 2014,
a posição das finas e quase invisíveis linhas de pesca,
permitiu que por momentos, o sol as revelasse e as
transformasse em poderosas cordas.
37
Este pesqueiro situa-se a meio da rocha da Fortaleza
de Sagres, a cerca de 20 metros de altura da água.
É um pesqueiro de excelência para a pesca do sargo
mas o difícil acesso faz com que só os pescadores mais
arrojados, para lá vão.
38 - 39
Nascer do Sol na Ponte Vasco da Gama.
40
Brumas da freguesia de Arouca, Território Arouca Geoparque.
41
Brumas da freguesia de Moldes - Arouca, Território
Arouca Geoparque.
42
Fim de dia junto ao Tejo.
43
Imagem que capta a realidade e a sua reprodução em
street art.
44
Imagem captada junto a um curso de água de baixo
do gelo.
45
Imagem captada ao por-do-sol na Serra da Estrela.

transversalidades

46
Reflexo no lago do Vale do Rossim.
47
Vale do Rossim coberto de neve.
48
O Inverno no Covão d’Ametade.
49
Montanhas no Parque Natural da Serra da Estrela.
50
Foto tirada nos arredores de Macedo do Mato, perto
de Izeda, Trás-os-Montes. A manhã estava fria, uma
das mais frias do ano, com nevoeiro, mas com o sol
pronto para despontar e inundar de luz os lameiros.
Os dióspiros são fruta da época.
51 - 53
Foto tirada nos arredores de Macedo do Mato, perto
de Izeda, Trás-os-Montes. A manhã estava fria, uma
das mais frias do ano, com nevoeiro, mas com o sol
pronto para despontar e inundar de luz os lameiros.
54
Esta lagoa é a unica na Polje,que tem traços naturais.
Todas as outras são origem de poços, esta tem vegetação típica de lagos.
55
Carreiro ou caminho que nos dá acesso aos terrenos.
Na Polje coberto de água ,tornando uma tarefa difícil,
para nos deslocarmos usando umas galochas,os habitantes e curiosos usam para desfrutar deste local.
56
Cruzeiro a subir o Rio Douro.
57
Socalcos das vinhas do Douro.

66
Fotografia que retrata o Estuário do rio Mondego, junto à foz, na Figueira da Foz.

85
Ao longo da visita encontramos diversas galerias esculpidas pela natureza ao longo de milhares de anos.

67
Torres eólicas, implantadas sobre a serra do Açor, fotografadas a partir da Torre, ponte mais alto de Portugal
continental.

86
Colina coberta de estruturas para a plantação da uva.

68
Pôr do Sol sobre o Farol na Serra da Boa Viagem, Figueira da Foz.
69
Pôr do sol Inspirador.
70
Existem paraísos como este em Portugal.
71
Pôr do sol na Falésia.
72
Reserva Natural do Estuário do Sado: riqueza, beleza e
sustentabilidade.
A maré baixa deixa a descoberto o enorme sapal existente no estuário.
73
A poluição das margens do Rio Tejo são notadas não
só pela cor da água, mas também pela presença do
skate, prova do impacto negativo que o Homem tem
na Natureza.
74
A noite cai lentamente sobre as águas.
75
Num desentendimento entre gaivotas e patos, estes
lutam por um lugar, formando um círculo perfeito.

58
A tranquilidade das águas do Polje são, ao amanhecer,
um verdadeiro encontro com a natureza.

76
Amendoeiras em flor. Espécies tradicionais que vão
desaparecendo com a introdução de outras híbridas e
importadas.

59
Na arte xávega, no puxar das redes, o peixe miúdo serve de repasto às gaivotas que acostam à praia.

77
Relatos de um belo passeio de domingo, pelo nosso
belo Portugal.

60, 61
Apanha do berbigão, na gíria, conhecido por crico, na
Ria de Aveiro.
A Ria de Aveiro, rica em bivalves, ainda hoje vai dando
subsistência a pescadores e outros. Sempre que a maré
baixa a Ria transcende-se, num espetáculo digno de
registo. Homens e mulheres caminham sobre as águas
baixas e lamacentas, arrancando-lhe das entranhas o
seu sustento.

78
As fugas de um rio outrora livre e agora aprisionado.

62
Por do sol Primavera.
63
Por do sol Verão.
64
Esta foto, foi tirada no mês de Dezembro ao fim da
tarde,no alto do Merouço em Sobradelo da Goma.
Onde podemos ver a beleza do por do sol na estação
de Inverno.
65
Captei o sol a se esconder atrás da rocha, enquanto as
pessoas conviviam na praia, gaivotas presentes na foto
assim como a essência do por do sol.

I fotografia sem fronteiras

79
Um olhar de outro lado da casa das Queimadas.
80
O nascer de um dia (que não é) comum.
81
“Oh rapaz, eu com 87 anos ainda faço todas as lides
de casa, só tenho pena que não haja mais juventude
por estas bandas” - Dona Ana.
82
Na bio-diversidade desta floresta, com predominância
das secóias gigantes oriundas da América, as suas cores salientam a sua beleza.
83
Uma das primeiras galerias que encontramos e que nos
faz abrir a boca perante a beleza circundante.
84
Charco com uma rica biodiversidade.

197

87
Sobe o desenho de uma calçada de paralelos os restos
da neve caída sobrevive ao aumento da temperatura.
88
Família de cavalos selvagens durante um nascer do sol
presenciado por um nevoeiro baixo.
89
Foto do Vale Glaciar, na Serra da Estrela, concelho de
Manteigas.
90
Formação de apiários. Alunos assistem à explicação do
professor, enquanto verificam os quadros, que constituem o interior da colmeia.
91
Escaravelho sobe na erva cruzada com as flores esbatidas no fundo.
92
Uma lagarta de pieris rapae degustando uma folha de
couve.
93
Flor de cores saturadas, só vistas à luz do sol.
94
A imensidão dos campos agrícolas da Lezíria Sul de Vila
Franca de Xira.
95
Desporto de fim de tarde.
96
Esta foto está realizada en los campos de un pueblecito llamado Encinas. Fue un seguidor quien me alentó
a realizarla, pues estaba al lado de Sepúlveda, zona
donde pasé unas vacaciones. Me hizo gracia pasar por
una población tan pequeñita y que dos de sus calles
más visibles se llamaran “Calle del diablo” o “Calle del
infierno”.
97
Fotografía realizada en las cercanías del pueblo de Velayos, en un camino que está entre los campos de cultivo. Es un homenaje a las labores del hogar y a mis dos
grandes compañeras, mis perritas Milka y Menta, que
me acompañan siempre que salgo a hacer mis fotos.
98
Hace tiempo que quería realizar un ejercicio de composición en la naturaleza, una fotografía cuyo peso no
lo llevara la parte más conceptual, sino sus líneas y colores. La he titulado “La cruz” y es una hija del verano.
La fotografía está realizada en los campos de cultivos
de las cercanías del pueblo de Velayos.
99
Hace mucho tiempo que deseaba realizar una imagen bajo el juego de palabras de “disparar una foto”.
Pero he querido dar un pasito más. Me imagino a un
Cupido moderno, dejando el carcaj de flechas en una
esquina y recargando un revólver.
Gracias a la fotógrafa Mara Hernández descubrí este
campo de lavanda en Brihuega (Guadalajara). Era la
primera vez que veía uno y puedo decir que es una de
las maravillas de la naturaleza.

*legendas

100 - 103
A Laguna Colorada Roja localiza-se na Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa, no planalto boliviano. Contém sedimentos minerais e algas coloridas
que tingem as suas água de um vermelho vivo, quando
agitadas pelo vento, criando uma paisagem surrealista,
quase irreal. Aqui, os flamingos são apenas incomodados pelos ocasionais visitantes, pequenos seres que
contrastam com a escala imponente da paisagem envolvente.
104
Cruzando a Cordilheira IV:
Chegámos a um país diferente pelo Paso de Jama.
É um lugar realmente isolado, um território perdido
onde a maioria está apenas de passagem até terminar de preencher os vários formulários e cumprir todos
os trâmites necessários para atravessar a fronteira do
Chile à Argentina - é um processo que se estranha entre países irmãos e que partilham tantos quilómetros
lado a lado. No entanto, certas coisas não conhecem
fronteiras. Vemos de imediato um grupo de crianças,
provavelmente filhos dos trabalhadores do controlo
de fronteira, a jogar à bola, num cenário de lagunas
e flamengos. Seguimos acompanhados de lamas e
vicunhas, as quais tampouco reconhecem fronteiras,
passeando-se tranquilamente no meio da estrada.
Ostentando os seus colares de lã colorida, olham-nos
sub-repticiamente, com um misto de cautela e curiosidade. Mais à frente, esperam-nos salares de puro
branco onde pessoas de tez nativa, com pele morena,
cabelos escuros e olhos amendoados, vendem pequenas lembranças para o viajante que por ali passe, como
pequenas lamas feitas de pedra de sal.
105
Cruzando a Cordilheira VI:
Atravessando para o outro lado da cordilheira, as paisagens Argentinas sucederam-se numa diversidade
impressionante. Desde a Puna de Atacama, com os
seus rebanhos de lamas e burros, a desfiladeiros assombrosos de tons terracota repletos de catos gigantes e
raposas esquivas. Seguindo para sudeste, sem darmos
conta, surgiu uma vegetação luxuriante, como se houvéssemos entrado num outro universo - incrivelmente,
do outro lado das montanhas, está o deserto mais árido
do mundo, o Atacama. Chegámos a uma pérola remota, escondida de tudo. Tão similar a outras paisagens
em muitos aspetos, mas tão infinitamente única à sua
maneira. É Tafí del Valle, onde o tempo parece não ter
lugar. Quando olhamos o mapa, parece-nos que estes
lugares estão “”já ali ao lado””. Somos, inocentemente, enganados pelas distâncias que parecem curtas. No
entanto, passam-se horas, dias a caminho, em que se
sucedem estradas em linha reta que nos parecem sem
fim, para dar lugar a um serpentear de subidas e descidas. As barreiras naturais, e estruturais, deixam algo
isoladas estas comunidades. Pequenos refúgios, onde a
tradição, e a natureza, ainda prevalecem.
106
“Cruzando a Cordilheira V:
Aqui, os catos gigantes, uma raposa ocasional e um
par de lamas são os únicos com que compartilhamos
o local. O sol pôs-se e as ruínas da cidade pré-inca de
Quilmes, um dos mais importantes e bem preservados
sítios arqueológicos da Argentina, são apreciadas à
luz das estrelas - e das nossas lanternas. No céu, a Via
Láctea estende o seu braço de uma forma a que, nas
nossas cidades luminosas, já não estamos habituados.
Aqui no sul vem acompanhada da Grande e da Pequena Nuvem de Magalhães. No seu conjunto, formam

um património impressionante que urge preservar: não
só o que se nos apresenta na terra, mas também este
esplendoroso espetáculo celeste.
107 - 110
Bertze Aldea
En euskera, bertze aldea significa “el otro lado”. Pasar
al otro lado. Traer del otro lado. Ser del otro lado. Son
expresiones que se pueden escuchar todos los días en
cualquier pueblo de frontera. Una frontera es una grieta que separa un territorio en dos. Una raya que convierte la tierra en territorio. Son los mojones fronterizos
los que delimitan físicamente por donde pasa esa raya.
Todo lo que queda más alla del mojón se convierte en
“el otro lado”. Pero las fronteras no han estado siempre ahí. El paisaje que conocemos tampoco ha sido
siempre igual. En ese sentido, tanto el paisaje como la
frontera son conceptos arbitrarios, que se transforman
al ritmo de las sociedades. Con esta serie de fotografías he querido plantear algunas preguntas sobre la
tierra, el territorio y el paisaje. Para ello, he colocado la
cámara justo encima de la raya fronteriza y he cubierto
de negro y blanco los mojones, descontextualizandolos
de aquello que llamamos el paisaje.
111 - 114
Após os jogos da Copa do Mundo, diversos campos,
tantos em área urbana quanto rural , são abandonados, dando a duvida se o Brasil é mesmo o país do
futebol.
115
Un lugar insólito en la costa gallega (España).
116
Delfín entrando en el agua de la ría de Viveiro (Lugo).
117
Un día cualquiera una puesta de sol impresionante.
118
Esta foto mostra parte da cidade de Niterói e parte do
Rio de Janeiro ao fundo. A imagem foi capturada pouco após o pôr do sol e um pouco antes do anoitecer.
119
“Dusk”.
120
Esta foto mostra o Morro do Corcovado e parte da Floresta da Tijuca no pôr do sol. Neste exato momento a
cidade era tomada por nuvens carregadas e dentro de
uma hora já estava chovendo.
121
Registro feito durante uma viagem de campo para
coletas de amostras de pedras para pesquisa sobre as
formações rochosas de relevos residuais do centro-sul
da Bahia.
121
Fotografia feita durante uma expedição realizada pela
disciplina de Biogeografia do curso de Geografia da
Universidade Federal da Bahia, no qual se buscou estudar os diferentes tipos de biomas que existe na região,
assim compreender como fatores naturais influenciaram sua formação.

125
Esa fotografía es parte de un proyecto realizado en
algunos parques naturales de Madrid. Espacios destinados al ocio, donde lo que me interesa es buscar y
recoger cosas que la personas que frecuentan esos parques tiran al suelo. Con eses “desechos”, que muchas
veces pasan desapercibidos pues se mimetizan con la
naturaleza en si, hago esculturas temporales y utilizo el
medio fotográfico como registro del mismo.
* 032min - tiempo necesario una vez en el parque para
encontrar y recoger los elementos de la foto.
126
Esa fotografía es parte de un proyecto realizado en
algunos parques naturales de Madrid. Espacios destinados al ocio, donde lo que me interesa es buscar
y recoger cosas que la personas que frecuentan esos
parques tiran al suelo. Con eses “”desechos””, que
muchas veces pasan desapercibidos pues se mimetizan
con la naturaleza en si, hago esculturas temporales y
utilizo el medio fotográfico como registro del mismo.
* 08min - tiempo necesario una vez en el parque para
encontrar y recoger los elementos de la foto.
127
Três Marias - Lago de Furnas.
128
Considerado o lago navegável mais alto do mundo,
com sua superfície a 3.812 metros acima do nível do
mar.
129, 130
Lençóis Maranhenses.
131
A playa de La Franca está integrada na Paisagem Protegida da Costa Oriental das Asturias. Ponto de eleição
para paragem de aves, local de grutas pré históricas
outrora habitadas, covas esculpidas pelo tempo, e na
maré baixa um extenso areal torna possível a descoberta de caminhos entre as rochas e as escarpas. Aqui,
cada passo dado, torna-se uma aventura.
132
De uma enorme beleza e interesse paisagístico... Foi
com esta expectativa, que visitei a Playa del Borizo. A
surpresa não podia ser maior. Percorrendo o caminho
ondulante entre rochas de diversos tamanhos, formatos e cores, envolvendo em si ainda a água da última
maré, chegamos junto costa, onde surge a ilha de Borizo, como uma porta aberta para o mar.
133
Ponte sobre o rio Agueda em Espanha.
134
Estábulo Real.
135 - 136
Praia das Catedrais, Município de Ribadeo, Galiza.
137
Se trata de un meandro, curva descrita por el curso de
un río, muy famosa en el lugar. Con esa curvatura la
foto gana un gran dinamismo compositivo sumado al
juego de diagonales de las montañas.

123
Aurora Boreal fotografada junto ao mar em Kvaløya Tromso, Círculo Polar Ártico.

138
Un bonito cisne nadando por las aguas del lago con
luz de atardecer.

124
Aurora Boreal fotografada nas montanhas Kvaløya,
Tromso, Círculo Polar Ártico.

139
Após quarenta anos, o lago da barragem de Serrans é
esvaziado para manutenção da mesma. Então ficam a

198

transversalidades

descoberto antigas habitações e caminhos existentes,
bem como uma magnífica paisagem...
140
Las fotos han sido tomadas en la La Ruta del Cares,
la cual está situada en el Parque Nacional de los Picos
de Europa.
Transcurre entre las localidades de Caín y Poncebos,
atravesando el desfiladero que sigue el río en una de
las rutas de senderismo más espectaculares que se
pueden hacer en toda Europa. La ruta ,transcurre entre
las rocas de las montañas, es un trayecto o de un poco
más de 11 kilómetros de distancia entre el pueblo de
Caín (León) y Poncebo (Asturias).
141
Paisagem característica dos Montes do Cantal, aquando da chegada do outono.
142
Uma área de plantio da cana-de-acúçar com uma árvore florida restante, após vários processos de ateamento
de fogo. Possivelmente, deixará de existir.
143
Plantação de Café na região de Marília-SP.
144
Ternero con dos horas de vida en plena primavera.
145
Gado aproveita os últimos raios de sol do dia.
146
Biodiversidade no polje Minde-Mira.
147
Uma bela cidade polaca, onde a neve é senhora e reina
soberanamente.
148
Vista parcial de área de cultivo de cana-de-açúcar. Duas
árvores que após vários processos de ateamento de
fogo apresentam os troncos queimados, galhos finos
e folhas pequenas e secas. Hoje, as árvores lutam para
sobreviver...
149
Localidad preciosa camino del Bierzo.
150
Mujer trabajadora en el tránsito del Camino de Santiago. Toda una vida de trabajo rural.
151
Two herds of sheeps walk on the Royal Path ”Los Chorros”, trought Castilla la Mancha province. The width
of the royal glen, is determined by an ancient law of
the Middle Ages. 90 shepherd canes that is equivalent
to 75.22 meters. This width allows the cattle have
enough grass during their migration, and moreover
avoid eating areas cultivated by farmers. This public
land must be respected, although it is common to find
areas of the paths invaded by plantations or even used
as a dump. Spain is the only country that maintains
a network of historic paths that exceed 125,000 km.
The origin of many of these ways, some of them with
more than 8,000 years of history, is on the migrations
that have historically made nomadic shepherds. Until
the early nineteenth century, 5 million of head of cattle
roamed these corridors of biodiversity. Today transhumance in Spain is threatened due to the scarcity of public aid and generational relief difficult. Just represented by about 50 families who handle about 200,000
head of cattle through 50,000 miles of streams and

cattle trails. Transhumance, threatened by the new
agricultural policy of the European Union and the legal
obstacles, for many naturalists and conservationists represents the possibility of generating 5,000 direct jobs
and contribute to important conservation of biodiversity, natural and cultural heritage manner. 1000 sheep
or 100 cows generate daily 3 tons of manure and over
5 million of seeds of which 30% end germinating. One
option for sustainable development which is also a heritage from oblivion for many towns and rural areas
of Spain.
The Belenchón family travels for many years 500 km
between Guadalaviar (Teruel) La Carolina (Jaén) on a
walking trip that lasts 28 days. With more than 3,000
sheep, 300 cows, 23 dogs and 16 horses, most are
grandchildren, children and parents of trashumants.
Down south in winter pasture looking abundance and
benevolence of the weather. In La Carolina they will
live between December and May before starting the
migration again return to Teruel in June, when the heat
in Andalusia depleted pastures and dry terrain.
152
O levantar, o acordar para ir trabalhar mais um dia. Ao
longo de 89 anos, esta rotina tornou-se banal, para
o mestre Vírgilio (O verdeiro Fazendeiro). Vida muito
dura e a fraca recompensa monetária era uma constante, mas nunca desistiu.
153
São Tomé e Príncipe é um dos países que tem uma das
piores classificações no índice de desenvolvimento humano em todo o mundo. É nas crianças deste país africano que é mais expressiva essa falha e o investimento
no futuro do país tem de começar pelos mais jovens.
154
Konso es una de las ochos poblaciones etíopes declaradas Patrimonio de la Humanidad. El día que estuvimos visitando los niños no tenían escuela y jugaban
a esconderse de nosotros. Es una población remota
de difícil acceso para el turista, de los que no están
acostumbrados.
155 - 157
Máscaras de bruxas e diabos do Carnaval triste de Lazarim.
158, 160, 161
Mateus Miragaia de 73 anos é o último ferreiro a fazer
tesouras de tosquiar a lã em Portugal. Mantém a sua
oficina activa, em Donfins do Jarmelo, para mostrar
esta arte em vias de extinção.
159
Imelda de 69 anos desloca-se diariamente na sua bicicleta a 7 casas de idosos das aldeias de Donfins e
Urgueira do Jarmelo para os ajudar na sua vida diária.
Pretende continuar a trabalhar mesmo depois dos 70
anos.
162
A senhora Silvina, sentada na sua cozinha, segura a
sua melhor galinha! Com um olhar fixo e possessivo,
diz-nos que a poedeira é só dela. Estes velhos agricultores da Murtosa lutam diariamente, do nascer ao
pôr-do-sol, para poder colocar alguma coisa na mesa.
Vivem um dia de cada vez e são pessoas simples, amigas e honestas.
163
O senhor Manuel Pires Tavares, um velho agricultor de
Estarreja, gosta de se sentar a descansar na companhia
dos seus animais com os quais parece saber conversar.

199

I fotografia sem fronteiras

Chama-os pelo nome que lhes atribuiu e trata-os com
carinho. Não por só por lhe garantirem o seu ganhapão mas porque os considera muito.
164
O Feitas é um pequeno agricultor da Murtosa. Tem
poucas cabras e trata delas com carinho. Quando nasce um animal, na sua exploração, apressa-se a dar-lhes
um nome para ser mais fácil falar com ele. Durante o
dia trata da pequena horta, pela manhã e ao final do
dia vai cortar pasto para dar de comer ao seu gado.
Nesta foto vemos o Feitas segurando, com carinho,
em dois cabritinhos gémeos, os mais novos da sua
exploração e que são o garante da continuidade do
seu sustento.
165
Ante o milagre da vida, o sorriso nos lábios de quem
já pouco espera… porém, a certeza da continuidade
das espécies.
166 - 169
Foto do meu projeto de fotografia, ”As Gentes do Caramulo”.
Desde 2007 que acompanho estas pequenas comunidades rurais que existem pelas montanhas do Caramulo e que tanto me tem ensinado e apaixonado.
Acompanhei este casal que levava o rebanho a caminho do pasto, depois disto estive alguns momentos à
conversa com eles.
170
Preparado para o frio com a sua capucha.
171
A fiar lã para fazer meias.
172
Também com a sua capucha.
173
A carregar os molhos.
174
A construção de um monte de sal tem de ser feito com
a mestria e sabedoria de quem trata do Sal na altura de
o apanhar das salinas no Verão.
175
Uma das profissões mais antigas e em vias de extinção. Esta foto é uma homenagem a estes homens com
mãos de ouro.
176
Uma das características da praia da Nazaré é a arte de
secagem do peixe pelas senhoras da Nazaré.
177
Com 88 anos de idade é um prazer ver trabalhar este
senhor humilde e ouvir as suas histórias de vida. Infelizmente não tem ninguém para passar a sua arte.
179
Saciando a sede com um cucharro.
A força de um povo está na memória, nos costumes
e tradições.
E esta é uma arte que se está perder.
180
A construção das esteiras é o trabalho mais moroso e
repetitivo. É necessário efetua-lo sentado no chão e de
preferência à sombra.
A palha devem ser humedecidos para que a palha possa ser trabalhada. Depois constroe-se por pequenos
molhos alinhados sempre lado do corte. Na imagem

*legendas

o Sr. Manuel, bate um pequeno molho pelo corte no
chão para endireitar, antes de o colocar na esteira.

194
Tecendo...

181
Os molhos são entrelaçados uns aos outros através
de um processo em que se torçe em duas direções
distintas parte da extremidade da palha de um molho ligando ao seguinte, replicando uma “costura”
ao longo da esteira. O ideal será não construir esteiras muito extensas, mas sim várias que possam de
certa forma ser “quadrantes”, imaginando arcos de
circunferências.

195
Linhares em dia de nevoeiro.

182
A separação/crivagem do grânulo mais fino.
182
O torcer dos cuscos...
184
Preparação para a crivagem.
185
O milho cai por gravidade no interior da mó.

196
Mais uma procissão da padroeira chega a 15 de Agosto resta pedir por todos Paz no mundo e a bênção de
Deus.
197
Semear o cebolo!
199
A semeia da batata!
200
A grandeza deste silêncio acorda-nos de um conto de
fadas para a realidade do abandono.
201
As ovelhas quando a ribeira cresce passam pelas poldras para evitarem a água.

186
O Touro investe a toda a força sobre o forcão.
O forcão pesa à volta de 300 quilos e são necessários
30 homens para lhe pegar. Trata-se de um engenho de
forma triangular, feito de troncos de carvalho, entrelaçados entre si a fim de conseguir uma forma triangular e terminar na frente do triangulo em forma de
forquilha.
Os homens mais experientes situam-se atrás do forcão,
são os rabejadores e dão instruções ao grupo.

202
Tempo de recuperar energias para o dia de amanhã e
rever o resultado da labuta do dia corrente. Regoufe,
Arouca. Outono de 2014

187
Os homens correm os bois. Um braço de ferro entre
a força viril e o intelecto. Um jogo com um desfecho
imprevisível.

205 - 208
El 16 de enero de cada año en San Bartolomé de Pinares (Ávila, España) se celebra la fiesta de las Luminarias
donde cientos de caballos conducidos por sus jinetes
saltan unas hogueras. Esta fiesta tradicional del fuego
es en honor de San Antón y recuerda cuando antaño a
los caballos se les curaba de la peste haciéndoles pasar
por unas hogueras encendidas.

188
Os “Ça va” fundem-se com os “como estás” ao calor
do Verão. O cheiro a Terra e suor é perfume de lembrança e para a festa lubrifica-se a bravura com cerveja
e vinho. Reúnem-se familias a conversa é fiada e a voz
alta.
189
Ronaldo aqui são quase todos, emigrantes que representam Portugal no mundo encontram-se com os
que nunca foram embora. Em forma de espetáculo,
ouvem-se “Olés” e gritos quando foi mesmo resvés.
A banda acompanha a poeira que se levanta agora.
190
A matança é um processo familiar e de transmissão de
saberes inter-geracional. O fim de um ciclo enquanto
ser-vivo e o início de um ciclo de sustento familiar.
191
Finalizando todo o processo, pendura-se os enchidos
num local onde o fogo permita que o ambiente esteja
impregnado de fumo. Desta forma os micro-organismos são eliminados e os enchidos secam os necessários para serem guardados e ingeridos durante o ano,
até à próxima matança.
192
A matança do porco de forma tradicional é um acontecimento na aldeia e motivo de festa, já que é sinal
de prosperidade.
193
Fiando...

203
Mesmo estando os residentes ausentes, a natureza dálhes cor.
204
Helena Gonçalves, Portugal

209
Some of the shepherds take a rest on the long day of
walk. During the whole month that nomadic migrations take part, they walk 20 km per day, half by foot
half by horse. Horses and dogs are valuable tools to
drive the herd through the ways and villages. Spain is
the only country that maintains a network of historic
paths that exceed 125,000 km. The origin of many of
these ways, some of them with more than 8,000 years
of history, is on the migrations that have historically
made nomadic shepherds. Until the early nineteenth
century, 5 million of head of cattle roamed these corridors of biodiversity. Today transhumance in Spain is
threatened due to the scarcity of public aid and generational relief difficult. Just represented by about
50 families who handle about 200,000 head of cattle through 50,000 miles of streams and cattle trails.
Transhumance, threatened by the new agricultural policy of the European Union and the legal obstacles, for
many naturalists and conservationists represents the
possibility of generating 5,000 direct jobs and contribute to important conservation of biodiversity, natural
and cultural heritage manner. 1000 sheep or 100 cows
generate daily 3 tons of manure and over 5 million of
seeds of which 30% end germinating. One option for
sustainable development which is also a heritage from
oblivion for many towns and rural areas of Spain.
The Belenchón family travels for many years 500 km

200

between Guadalaviar (Teruel) La Carolina (Jaén) on a
walking trip that lasts 28 days. With more than 3,000
sheep, 300 cows, 23 dogs and 16 horses, most are
grandchildren, children and parents of trashumants.
Down south in winter pasture looking abundance and
benevolence of the weather. In La Carolina they will
live between December and May before starting the
migration again return to Teruel in June, when the heat
in Andalusia depleted pastures and dry terrain.
210
A big group of sheeps walk on the migrations during
the trashumance trip. Spain is the only country that
maintains a network of historic paths that exceed
125,000 km. The origin of many of these ways, some
of them with more than 8,000 years of history, is on
the migrations that have historically made nomadic
shepherds. Until the early nineteenth century, 5 million
of head of cattle roamed these corridors of biodiversity. Today transhumance in Spain is threatened due to
the scarcity of public aid and generational relief difficult. Just represented by about 50 families who handle
about 200,000 head of cattle through 50,000 miles of
streams and cattle trails. Transhumance, threatened by
the new agricultural policy of the European Union and
the legal obstacles, for many naturalists and conservationists represents the possibility of generating 5,000
direct jobs and contribute to important conservation
of biodiversity, natural and cultural heritage manner.
1000 sheep or 100 cows generate daily 3 tons of manure and over 5 million of seeds of which 30% end
germinating. One option for sustainable development
which is also a heritage from oblivion for many towns
and rural areas of Spain.
The Belenchón family travels for many years 500 km
between Guadalaviar (Teruel) La Carolina (Jaén) on a
walking trip that lasts 28 days. With more than 3,000
sheep, 300 cows, 23 dogs and 16 horses, most are
grandchildren, children and parents of trashumants.
Down south in winter pasture looking abundance and
benevolence of the weather. In La Carolina they will
live between December and May before starting the
migration again return to Teruel in June, when the heat
in Andalusia depleted pastures and dry terrain.
211
During the trashumance migrations, nights are the
right time to cook something on the fire and talk together about the day incidences. A trip by foot under
hard living condition. Spain is the only country that
maintains a network of historic paths that exceed
125,000 km. The origin of many of these ways, some
of them with more than 8,000 years of history, is on
the migrations that have historically made nomadic
shepherds. Until the early nineteenth century, 5 million
of head of cattle roamed these corridors of biodiversity. Today transhumance in Spain is threatened due to
the scarcity of public aid and generational relief difficult. Just represented by about 50 families who handle
about 200,000 head of cattle through 50,000 miles of
streams and cattle trails. Transhumance, threatened by
the new agricultural policy of the European Union and
the legal obstacles, for many naturalists and conservationists represents the possibility of generating 5,000
direct jobs and contribute to important conservation
of biodiversity, natural and cultural heritage manner.
1000 sheep or 100 cows generate daily 3 tons of manure and over 5 million of seeds of which 30% end
germinating. One option for sustainable development
which is also a heritage from oblivion for many towns
and rural areas of Spain.

transversalidades

The Belenchón family travels for many years 500 km
between Guadalaviar (Teruel) La Carolina (Jaén) on a
walking trip that lasts 28 days. With more than 3,000
sheep, 300 cows, 23 dogs and 16 horses, most are
grandchildren, children and parents of trashumants.
Down south in winter pasture looking abundance and
benevolence of the weather. In La Carolina they will
live between December and May before starting the
migration again return to Teruel in June, when the heat
in Andalusia depleted pastures and dry terrain.
212
Shepherds start to walk every day at 8.30 a.m. During
the 28 days migrations, the walk close to 20 km per
day. They will arrive to the next place to camp close
to 6 p.m. Spain is the only country that maintains a
network of historic paths that exceed 125,000 km.
The origin of many of these ways, some of them with
more than 8,000 years of history, is on the migrations
that have historically made nomadic shepherds. Until
the early nineteenth century, 5 million of head of cattle
roamed these corridors of biodiversity. Today transhumance in Spain is threatened due to the scarcity of public aid and generational relief difficult. Just represented by about 50 families who handle about 200,000
head of cattle through 50,000 miles of streams and
cattle trails. Transhumance, threatened by the new
agricultural policy of the European Union and the legal
obstacles, for many naturalists and conservationists represents the possibility of generating 5,000 direct jobs
and contribute to important conservation of biodiversity, natural and cultural heritage manner. 1000 sheep
or 100 cows generate daily 3 tons of manure and over
5 million of seeds of which 30% end germinating. One
option for sustainable development which is also a heritage from oblivion for many towns and rural areas
of Spain.
The Belenchón family travels for many years 500 km
between Guadalaviar (Teruel) La Carolina (Jaén) on a
walking trip that lasts 28 days. With more than 3,000
sheep, 300 cows, 23 dogs and 16 horses, most are
grandchildren, children and parents of trashumants.
Down south in winter pasture looking abundance and
benevolence of the weather. In La Carolina they will
live between December and May before starting the
migration again return to Teruel in June, when the heat
in Andalusia depleted pastures and dry terrain.
213 - 216
Dicen que cuando en California comenzó a escasear el
oro, muchos decidieron buscarlo en otros lugares. En la
Región de Atacama (Chile), bajo la inclemencia del sol
abrasador y rodeado de un paraje inhóspito, carente
de vegetación y lluvia, existe una localidad en el llano
de Varas conocida como Inca de Oro.
Allí, a principios del siglo XX, se produjo el primer asentamiento minero aurífero de la zona y, años más tarde,
se convirtió en un importante y próspero centro: se
construyeron infraestructuras para el abastecimiento
de água, estación de ferrocarril, escuela, teatro, comercios... Hasta allí llegaron yugoslavos, chinos y árabes. La población llegó a ser de diez mil habitantes. Los
viejos del lugar dicen que en los cabarets se pagaban
las bebidas con oro en lugar de monedas o billetes;
también que el declive comenzó cuando un cura bendijo una de las principales minas.
Nada queda ya del esplendor de antaño: el éxodo y
algún incendio borraron las huellas de aquel pasado.
Sin embargo aun siguen los últimos de aquellos pirquineros (mineros autónomos que extraen el mineral
de manera artesanal y bajo escasas medidas de seguridad), sufriendo la temida silicosis y con la esperanza

de encontrar la veta soñada. Hoy apenas quedan 300
personas en Inca de Oro.
217
Depois de muitas expectativas frustradas, foi durante um forte aguaceiro, que nos obrigou a um abrigo
rápido. Certo é que já não precisámos de visitar mais
nada. Pequeno monge a descansar das brincadeiras ao
ar-livre.
218
Depois de muitas expectativas frustradas, foi durante
um forte aguaceiro, que nos obrigou a um abrigo rápido. Certo é que já não precisámos de visitar mais nada.
Pequeno monge aproveita para acender um cigarro,
mas perante a minha presença, procura ser discreto.
219
Depois de muitas expectativas frustradas, foi durante
um forte aguaceiro, que nos obrigou a um abrigo rápido. Certo é que já não precisámos de visitar mais nada.
Único monge que me abordou, Bo, queria saber mais
sobre a minha família e de onde vinha. Mostrou-me a
sua tatuagem e deixou-se fotografar.
220
Depois de muitas expectativas frustradas, foi durante
um forte aguaceiro, que nos obrigou a um abrigo rápido. Certo é que já não precisámos de visitar mais nada.
Bo está indeciso, entre saber mais sobre nós, ou ir nadar com os restantes monges.
221
Crianças, a tomar conta dos irmãos, enquanto as suas
mães estão a trabalhar no campo.
222
As crianças brincam nos campos, as costas levam cana
de açucar, possivelmente a melhor coisa que iriam comer nesse dia.
223
Para quem anda no campo, é normal encontrar com
frequencia as mulheres com os seus filhos as costas, e
claro, a levar alguma coisa de util para casa.
224
O pastor caminhava nos campos com as suas vacas, e
na mão mostrava a sua catana, instrumento indispensavel para quem anda nos campos de Angola.
225
Erdenet, Mongólia.
226
Ovoo, túmulos chamânicos utilizados nas cerimónias
de culto às montanhas e ao céu.
227
Erdenet, Mongólia.
229
La desolación es un dolor profundo, algo ha sucedido
que ha arrasado con todo, como un incendio que ha
convertido una tierra fértil en un paraje yermo; es un
gran dolor, casi insondable, una pérdida, y de ella deriva la nostalgia.
230
El paisaje, enmarcado con una vieja ventana sin cristales ni protecciones, luce como un lugar lejano al que
no se puede regresar, al que ya no se pertenece, ya
todo es recuerdo.

201

I fotografia sem fronteiras

231
Las señales son inequívocas, la desaparición del lugar
se anuncia en las viejas paredes recorridas por las grietas del tiempo.
232
Serie fotográfica sobre el abandono de las zonas rurales en Marchena (Sevilla).
Las ramas de la higuera, como largos dedos, se ciernen amenazadoras contra la vieja y desgastada piel del
cortijo. La antigua rueda de carruaje vuelve a perder su
uso, ya nadie mira temeroso a través de ella como la
naturaleza y el tiempo reclaman lo que durante largo
tiempo fue suyo.
233
Una indígena busca en el mercado de Pisac los productos necesarios para su familia. Un perro blanco y uno
negro la acompañan.
Cientos de indígenas bajan a Pisac desde las montañas
y aldeas del Valle Sagrado los días de mercado a hacer
sus compras o intercambios. Un perro blanco y uno
negro la acompañan.
234
Una preciosa toma de água con cabeza de serpiente
nos lleva hasta una niña jugando con una bici-carro.
Las serpientes, en la cultura Inca, están marcadas con
simbolismos y representan el mundo de los muertos.
235
Un indígena carga con una saca de choclo en el mercado de Cusco.
236
Una anciana hace la compra en un puesto del Mercado
de San Pedro, Cusco.
237
Una mujer cierra la cerca tras recoger a sus vacas de
regreso a casa.
238
Dos sepultureros descansan, tras su trabajo, en el cementerio.
239
Una anciana dedicada al pastoreo, nos recibe y muestra su casa.
240
Un hobre regresa a casa tras trabajar en el campo.
241 - 244
São Tomé e Príncipe é um dos países que tem uma das
piores classificações no índice de desenvolvimento humano em todo o mundo. É nas crianças deste país africano que é mais expressiva essa falha e o investimento
no futuro do país tem de começar pelos mais jovens.
245
A maior fortuna desta criança. Jani de seu nome e a
sua roda. Parece que a felicidade do momento os coloca em suspensão, levitando em sintonia no mesmo
momento.
246
Ao contrário do que à primeira vista o título possa sugerir face à condição de pobreza em que vivem muitas
crianças cabo-verdianas...pernas para o ar é sinónimo
de uma infância feliz,.. traduzida nesta imagem por
uma criança a rolar numa duna de areia, um brinquedo
que todas as crianças de S. Pedro adoram.

*legendas

247
Paralelo que retrata por um lado as imensas adversidades que nos são impostas por uma natureza “ madrasta “ e por outro, a coragem e garra com que os
cabo-verdianos, a mulher cabo-verdiana em particular
e em igual dimensão de coragem... as enfrentam.
248
Ventos de leste, bruma seca e a aridez traduzem-se
nesta imagem pelo vazio que envolve a presença humana solitária, como que protegendo as suas vestes...
da nudez do seu deserto.
249 - 252
Da série: dilálogos líquidos - Isaura.
253
Foto realizada en el interior del mercado de Dire Dawa
a unas mujeres vendedoras de chat.
254
La tribu Dorze también son conocidos por sus casas
“elefante” porque su forma recuerda a los paquidermos. Casas hechas con altísimos tejados revestidos de
paja, de interiores más que umbríos y escasos.

266
En la ermita de San sebastian de Rascafría encontramos este antiguo cementerio. Es casi inevitable asomarse a la historia de este singular recinto.
267
La localidad de Rascafría en Madrid baso históricamente su economía en la ganadería, principalmente lanar.
A finales de 1800 debido al crecimiento industrial
rascafría añadío la industria maderera y del papel a su
crecimiento económico. aún quedan restos arquitectónicos ahora en desuso.
268
Vieja y deteriorada ventana de una vivienda deshabitada desde la que se puede ver el camino que llega hasta
el pueblo abandonado.
269
Lviv, Ucrânia.

255
Belezas do meu Brasil.

270
Mais um dia de inverno rigoroso, passado ao canto
da chaminé somente as nostalgia preenche o pensamento, somente se lembra daquilo que quer esquecer.
A palavra solidão não consta mais no seu dicionário
desde o momento em que apadrinhou um cão como
melhor companhia.

256
Cartão postal da minha região.

271
Mulher da Etnia Pa’O.

257
Combarro (Galiza) a escassos kms. de Pontevedra.
A preservação das tradições. O prazer de encontrar um
magnifico local para descansar a alma e o corpo.
Quando o homem quer...

272
Olshanka, Ucrânia.

258
La siembra directa y la separación de parcelo ofrece
este bello y pintorezco paisaje.
259
Ovejas y castillo.
260
Olhares de esperanças...olhares que nos dão esperanças...Os troncos emaranhados, formam uma teia,
entrelaçada. Assim também é a vida, com laços de
amizade, laços de familiaridade, laços de copresença,
os laços dos lugares geográficos...Laços de meninas
de uma comunidade remanescente quilombola no
norte da Bahia, Brasil, chamada Lage dos Negros. Laços amarrados pelos sorrisos abertos que recebem o
momento da fotografia e revelam a intersubjetividade
entre fotógrafo e fotografadas.
261
Noche calurosa.
262
Homenagem à arte de trazer a terra o que vem do
mar!
263
Curva muito apertada em direção ao cume.
264
Marco espanhol do Caminho de Santiago, à saída da
ponte de Quintanilha. Do nosso lado, um marco com
o mesmo texto, mas em português. A fraternidade
ibérica.
265
Noche estrellada bajo Venus.

277
A Estação e a cidade.
A Estação está repleta de pessoas, todas elas com um
destino que só elas conhecem, todas elas caminham
com um propósito, uns como se o sentissem com o respirar que os faz movimentar, outras com o espírito da
descoberta do destino, da cidade. Não há nada mais
urbano do que uma estação de caminhos de ferro, não
há nada mais pertencente à cidade do que a sua estação. O centro da cidade, outrora isolado, viu crescer a
sua estação, passo a passo, ano após ano, desde os
tempos em que a vida estava ritmada pelo ponteiro das
horas, até aos dias de hoje onde o passo estugado tem
que acompanhar o ponteiro dos segundos. Aqui podemos encontrar tudo o que está relacionado com a vida
na cidade e com as vivências daqueles que nela habitam. Quer seja num dia solarengo ou num dia chuvoso,
haverá sempre lugar a idas e regressos, a encontros e
desencontros, ora acompanhadas de beijos e sorrisos,
ora deixando o lastro das lágrimas da distância.
Se a origem de uma cidade está normalmente associada com a sua estação, também a sua evolução está
na origem do crescimento desta. Tal como no início, o
ambiente que se vive na estação é determinado pelo
ritmo da cidade, pelo ritmo da sua urbanização.
Na estação, em qualquer uma, haverá sempre lugar à
espera que o tempo diga que chegou a hora de embarcar, ou desembarcar, no destino que cada indivíduo
guardou para si.
278
Imagem que pretende dar uma sensação de interacção
entre dois cidadãos e um outdoor publicitário.

273
Quando lhes havia perguntado se os podia fotografar,
a intenção era a de fotografar as suas brincadeiras mas
a minha presença parecia estar a destruir o seu próprio
propósito. Depois de lhes ter tirado a primeira fotografia voltaram ao rio para brincar mas assim que me posiciono para tirar uma segunda fotografia assumiram
que deveriam parar as suas atividades e posicionar-se
novamente para a camara.
274
Assim continuaram sem nunca ignorar a minha presença e eu que havia assumido ser fácil fotografá-los
enquanto brincavam sentia-me agora bastante desconfortável por ter interrompido uma dinâmica que
não precisava da minha presença. Apesar de lhes dizer
constantemente para continuarem a brincar como se
eu não estivesse ali, eles olhavam-me como que não
entende o que digo, porque não faz sentido. Como
poderiam eles comportar-se como se eu não estivesse
ali se na verdade eu estava ali?
275
La música y la religión son algunas de las principales
manifestaciones de la vida humana que mejor refleja
la cultura mixteca, La imagen de este trío de jóvenes
mujeres músicos, fue captada durante un encuentro
musical de las culturas mixtecas, en la explanada del ex
convento de San Pedro y San Pablo Teposcolula, en el
estado de Oaxaca.
La construcción de este imponente conjunto religioso,
que data de 1538, cuenta con una a capilla abierta que
es una de las obras más relevantes del siglo XVI en la
Nueva España.
Este templo forma parte de la llamada Ruta Dominica.
276
Mãe e filho.

202

279
The vision of Iceland is a landscape where humans live
in frontal confrontation with the elements, evidence of
their existence appearing as a pop of color against a
backdrop of pure, glaring white or gloomy black.
One of the main things to understand about Iceland
is how tiny the population is and what it can be like
to live here because of that. There’s the feeling that
everybody on this isolated subarctic island knows just
about everybody else, or at least can be associated
(through family, friends, neighborhood, profession,
political party, or school) by no more than one degree
of separation.
280
O que está por trás.
281 - 284
Com esta série de 6 fotos, pretendo dar a conhecer
algumas obras de arquitetura recente que existe no
Grande Porto. Arquitetura essa no seguimento do
novo ícone da arquitetura do Porto a Casa da Música.
285
Isto não é uma janela.
286
Isto não é uma saída.
287, 288
Isto não é uma escada.
289 - 292
Série ”O acordar do Bairro”.
O Bairro da Bouça, localizado no Porto, é um complexo
habitacional com casas construídas a custos controlados, cujo projeto foi da responsabilidade do arquiteto
Siza Vieira.
Procuro nesta série mostrar algumas das muitas parti-

transversalidades

cularidades arquitetónicas deste bairro, integrando as
pessoas que o habitam.

309
O tempo espera.

293
Após um dia de trabalho, vizinhos sentam-se na soleira da porta, aproveitando a descida da temperatura e
conversam placidamente, em momentos onde o tempo parece parar.
A Mouraria de Moura, composta por 3 ruas e um largo, foi alvo, por parte da Câmara Municipal de Moura,
de um projecto de requalificação urbana entre 2011 e
2013. Em 2014 esta intervenção ganhou o prémio de
reabilitação de espaço públicos, atribuído pelo IHRU Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana.

310
Fantasmas que chegam a casa, a ruína dos corações.

294
Aqui é o Largo da Mouraria. Aqui está uma janela de
outros tempos, com vasos de agora que, à janela, testemunham silenciosamente osritmos de quem por ali
passa.
A Mouraria de Moura, composta por 3 ruas e um largo, foi alvo, por parte da Câmara Municipal de Moura,
de um projecto de requalificação urbana entre 2011 e
2013. Em 2014 esta intervenção ganhou o prémio de
reabilitação de espaço públicos, atribuído pelo IHRU Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana.
295
Ao fim de um dia de calor, as plantas e flores que embelezam as ruas da Mouraria precisam de água e dos
mimos destas senhoras que delas cuidam com muito
amor e carinho, contribuindo para a beleza e encanto
deste espaço.
A Mouraria de Moura, composta por 3 ruas e um largo, foi alvo, por parte da Câmara Municipal de Moura,
de um projecto de requalificação urbana entre 2011 e
2013. Em 2014 esta intervenção ganhou o prémio de
reabilitação de espaço públicos, atribuído pelo IHRU Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana.
296
14 e 16, dois números seguidos, diferentes, para (quase) a mesma porta. Diferentes cortinas, diferentes chaves, uma caixa de correio para cada, a (quase) mesma
porta. Que vidas viverão no 14 e no 16?
A Mouraria de Moura, composta por 3 ruas e um largo, foi alvo, por parte da Câmara Municipal de Moura,
de um projecto de requalificação urbana entre 2011 e
2013. Em 2014 esta intervenção ganhou o prémio de
reabilitação de espaço públicos, atribuído pelo IHRU Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana.
297
Hora de ponta, hora dourada.

311
Atrás de uma janela sem vidros vive uma alma quebrada.
312
Escondido de um mundo que não é seu.
313
A relação “homem onda” pretende simbolizar que independentemente do tamanho do desafio, temos de o
encarar de frente.
314
A ideia por detrás desta imagem esteve em aproveitar a projecção da sombra, uma espécie de dentição
afiada que acabará por engolir a personagem. Por se
tratar de uma senhora de idade de idade, poderemos
interpretar a foto como o percurso que todos vamos
percorrer.
315
Estação de metro dos Aliados.
316
O exterior da Casa da Música, pelas suas características, é muito apreciado por skaters, que ali têm um dos
seus recintos favoritos na cidade. Imagem captada no
seu interior aproveitando um desses momentos.
317
Vista da Ponte Pedro e Inês, a partir do Parque Verde
do Mondego.
318
Vista sobre a cidade de Coimbra, reflectida no rio Mondego, a partir do lado de Santa Clara.
319
A co-existência, no mesmo espaço, de edifícios e construções de diferentes gerações, estilos e tendências,
criando uma identidade urbana própria em muitas
cidades, é o resultado frequente da sua evolução e
crescimento. Na presente série apresentam-se apenas
alguns exemplos da “convivência” entre uma construção contemporânea e construções antigas no Norte de
Portugal, nomeadamente em Viana do Castelo, Porto
e Ponte de Lima. Av. Boavista, Porto.

301, 303, 304
Arte em espaços degradados.

320
A co-existência, no mesmo espaço, de edifícios e construções de diferentes gerações, estilos e tendências,
criando uma identidade urbana própria em muitas
cidades, é o resultado frequente da sua evolução e
crescimento. Na presente série apresentam-se apenas
alguns exemplos da “convivência” entre uma construção contemporânea e construções antigas no Norte de
Portugal, nomeadamente em Viana do Castelo, Porto
e Ponte de Lima. Clérigos, Porto.

302
Reciclagem transformada em arte urbana.

321
Uma cena da cidade...

305 - 308
Esta série de imagens sintetiza uma reflexão sobre o
espaço urbano que o autor habita há cerca de 40 anos,
confrontando a memória que tem do local com aquilo
que ele é agora, procurando assim perceber aquilo que
fica com a passagem do tempo, numa tentativa de fixação da identidade deste espaço.

322
Emoção na paisagem urbana.

299
Outra foto tirada durante a Latada, na semana de recepção ao caloiro da Universidade do Porto, desta vez
ao marcável instante em que os caloiros começam a
descer a Rua dos Clérigos.

323
Um momento de descanso de dois jovens numa calçada típica de Lisboa.

203

I fotografia sem fronteiras

324
Aproveitei o grafismo das escadas de serviço para compor esta imagem.
327
Pormenor da zona de check-in do aeroporto Sá Carneiro na cidade do Porto.
328
Edificio no parque das Nações em Lisboa.Exemplo da
Nova arquitetura portuguesa.
329
Vista nocturna do Porto para a Ponte Luíz I junto à
margem do rio Douro.
330
O encanto do Porto visto da Serra do Pilar numa noite
de Verão.
331
Fazer um cruzeiro pelo Rio Douro é constatar o maravilhoso da natureza e da mão do homem. As casas,
as pontes, as cascatas, as ruelas, e as margens deste
rio magnifico carregado de simbolismo para os seus
habitantes e para o mundo. É um sentimento quase
indescritível porque envolve um estado emocional de
paixão pela natureza e a confirmação de que Portugal
tem maravilhosas paisagens.
332
O encanto do Porto visto da Serra do Pilar numa noite
de Verão.
333
No âmbito da urbanização, apresenta-se um portefólio relacionado com os materiais construtivos principais, usados nas habitações em Portugal. Inicia-se a
apresentação com um conjunto de edifícios da Baixa
Pombalina (Rua Augusta), construídos após o sismo de
1755, em madeira (tabique, vigas e ripas ) e alvenaria de pedra, num sistema de estrutura designado de
Gaiola Pombalina.
334
Motivos do pavimento na base do Padrão dos Descobrimentos.
335
Olha a castanha quentinha!
337, 338
... por “não lugar” designamos duas realidades complementaremos distintas: espaços constituídos em relação com certos fins (transportes, trânsito, comércio,
tempos livres), e a relação que os indivíduos mantêm
com esses espaços.
Augé (Marc) - Não Lugares Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade - 90 graus editora novembro 2005
339
Pavilhão Dom António de Lencastre, um exemplo de
grande qualidade arquitectónica do ferro.
340
Já foi passagem fácil, hoje, humildemente iluminada
pela luz solar, faz-nos repensar o percurso.
341, 342
Reflexão acerca da transformação urbana da zona da
Asprela, no Porto.
Este ensaio visual pretende, através da manipulação da
percepção, a construção de “paisagens fictícias”, apresentando os novos elementos urbanos, como elemen-

*legendas

tos alienígenas e descontextualizados na paisagem
rural e agrícola que remanesce.
343
O presente sustém o passado.
344
Fotografia tirada em Lisboa, 2015.
345
Um discurso dissemelhante no espaço religioso.
346
Migrar e transportar entre cidade e países, territórios.
347
”Agora, a caminho do carro eléctrico do término de
onde se volta à cidade,
Passo, bandido, metafísico, sob a luz dos candeeiros
afastados
E na sombra entre os dois candeeiros afastados tenho
vontade de não seguir.
Mas apanharei o eléctrico.
Soará duas vezes a campainha lá do fim invisível da
correia puxada
Pelas mãos de dedos grossos do condutor por barbear.
Apanharei o eléctrico.
Ai de mim; apesar de tudo sempre apanhei o eléctrico

Sempre, sempre, sempre...”
Álvaro de Campos - Fernando Pessoa
348
Vista para o céu…
349
Um dos vários belos caminhos que existem no Gerês.
350
Jogo de cores no céu ao pôr do sol como pano de fundo para a iluminação do Restaurante Bar no Monte do
Pilar na Póvoa de Lanhoso.
351
O Bar X estava completamente inundado em chamas e
a sua destruição era total.
352 - 355
The vision of Iceland is a landscape where humans live
in frontal confrontation with the elements, evidence of
their existence appearing as a pop of color against a
backdrop of pure, glaring white or gloomy black.
One of the main things to understand about Iceland
is how tiny the population is and what it can be like
to live here because of that. There’s the feeling that
everybody on this isolated subarctic island knows just
about everybody else, or at least can be associated
(through family, friends, neighborhood, profession,
political party, or school) by no more than one degree
of separation.
356
Novos edifícios em Shanghai.
357
Homem entre a natureza do lago e asfalto.
358
Uma mulher chinesa olha para o desenvolvimento da
cidade. Vista desde el Bund de Pudong.
359
As velhas tradições são mantidas entre edifícios modernos.

360
Escutar o silêncio é essencial para sentir um outro lado
da cidade. Os cemitérios são uma peça-chave desse
equilíbrio, em que precisamos de estar connosco e
compreender um pouco melhor o que nos rodeia e
onde estamos. O cemitério Poblenou é propício a isso,
especialmente quando temos por companhia apenas
as flores, os caminhos ladeados por túmulos, as estátuas, os panteões ou os gatos que fazem deste o seu
território.
361
A noite solicita a que nos tornemos personagens de
um filme sem nome. A atmosfera é envolvente e lembra uma obra perdida de tempos idos, intemporal,
uma dança de luz e de sombras.
362
Ouvir o respirar das noites, as sombras sem rosto divididas por linhas escuras e água jubilante. É como se um
teatro ganhasse sentido nos instantes que procuramos
de maneira obsessiva.
363
Barcelona ganha uma outra vida quando a luz do dia é
substituída pela dos néons coloridos. Aqui os convites
para o deslumbramento podem surgir de poemas nas
janelas, de figuras femininas a imitar o cinema.
364
A fotografia foi tirada no centro económico de Frankfurt, onde está centrada a economia Europeia. Quero que os olhos do espectador sejam encaminhados
para o céu. Este permanece negro sobre a economia
europeia, demonstrados pelos seus imponentes arranha-céus.
365
Tirei várias fotografias nesta posição e algumas delas
sem pessoas, mas achei esta a melhor, pois os olhos
derivam para o infinito devido à simetria da estrutura, mas são interrompidos por uma pessoa a andar de
bicicleta.
366
Quando tirei esta fotografia queria editá-la a preto e
branco e torná-la um pouco misteriosa e com um tema
medieval.
367
Esta fotografia foi tirada no meu último dia de férias
em Paris, portanto tem um tom mais melancólico e
com um sentimento de tristeza por ter de ir embora.
368 - 371
Fotos realizadas en el metro de Londres.
372
Paisagem urbana, contraste, prazer... Paraisópolis!
373
Mar de casas invadindo o território da Zona Sul de São
Paulo.
374
Enquadramento da perspectiva habitacional e suas
geometrias naturais.
375
Simplicidade, felicidade e despreocupação de duas
crianças que brincavam ao som dos tratores nas poças de água que se formaram após um dia de chuva,
frente a realidade habitacional de casas que seriam
removidas.

204

376 - 378
Describo diferentes momentos de la vida en la India.
379
Pintura sobre la pared de una calle de Zamora que nos
hace dudar: ¿ficción o realidad?
380
En la esquina curva de un edificio, pintura de una mujer soltando de entre sus manos una paloma, el símbolo de la paz. Una farola sobresale en la zona superior
derecha. Abajo, a la izquierda, una señal de dirección
prohibida. Día soleado.
381
Fotografía realizada en la misma calle , en instantes
diferentes sobre un mismo grafiti.
382
Foto captada num bairro social em Madrid. A mensagem subliminar nesta composição, enche de esperança
e de sentimento de luta, num meio visivelmente debilitado.
“O degrau da escada não foi inventado para repousar,
mas apenas para sustentar o pé o tempo necessário
para que o homem coloque o outro pé um pouco mais
alto”. Aldous Huxley.
383
Foto captada num Bairro Social em Madrid. A Arquitectura ao serviço do social, do sensorial e da mensagem visual. “O homem tem de ser modesto; tem de
olhar para o céu”. Oscar Niemeyer.
384, 385
“Y porque cada instante ya no es,
la felicidad es un lugar
hacia donde no se puede volver.
Oda a la nostalgia. Cicatrices...
Gloria frágil...
La felicidad la devora el tiempo.”
386
França 3.
387
La fotografía muestra el tranquilo barrio de Brooklyn
Heights, una tarde de octubre, a punto de anochecer.
388
Vidro e fumo...
389
A existência se dá na relação do ser com seu espaço,
configurando múltiplos modos de habitá-lo. Este habitar é uma espécie extensão do ser, porque é nele onde
se materializa sua subjetividade.
390
Los “palafitos” son viviendas lacustres apoyadas en
pilares o estacas sobre cuerpos de aguas tranquilas,
como lagos, lagunas, cursos lentos de ríos, o a orillas
del mar como es el caso de algunas zonas de Chile.
391
Cidadão descansando e apreciando a vista da Laguna
dos Patos na cidade do Rio Grande, Brasil, cidade irmã
da cidade de Águeda, Portugal.
392
Mulher pratica antigos rituais maia no cemitério de
Chichicastenango, na Guatemala. Na pequena cidade de Chichicastenango são praticados diariamente
rituais maias em locais de culto cristão, numa prática
designada de sincretismo religioso.

transversalidades

393
Una mujer de avanzada edad, muestra en sus facciones la dureza de la vida en este entorno.
394
Difícil situación en Kiev, Enero 2014. Miles de personas
partidarias de una Ucrania Europea toman la plaza del
Ayuntamiento (Euromaidan) y se revelan contra el presunto presidente corrupto con ideología pro-rusa. En
las calles la tensión aumenta y comienzan a producirse
los primeros combates entre la policía gubernamental
y las milicias.
395
Esta fotografia representa bem o estado de espírito de
Francisco perante a escuridão. O anoitecer é das piores
coisas de suportar para Francisco.
Houve uma altura que Francisco fazia pequenas fogueiras mas devido ao fumo a vizinhança, por vezes,
chamava os bombeiros e para evitar mais problemas
ele simplesmente tenta dormir.
396
Francisco mostra cicatriz da operação ao baço devido
a espancamento de um grupo de pessoas que o surpreenderam durante a madrugada. A Segurança Social
não conseguiu um quarto para o pós operatório. Mas
ele diz ser de boa cicatrização e que recuperou bem.
397
Francisco segura uma fotografia que eu havia feito
uma semana antes. Ficou muito contente mas também
envergonhado ao reparar que usava a mesma roupa
há mais de uma semana. Este momento representa
também um dos primeiros momentos de puro contentamento de Francisco perante um fundo vazio e
abandonado.
398
Francisco na sombra aponta para o local onde está a
pensar construir um ”abrigo”. Não só para se proteger
do vento e da chuva mas também, e principalmente,
das pessoas. Pessoas que o surpreendem durante a
madrugada para roubar metais diversos do que resta
ainda da estrutura da fabrica. Principalmente da fachada que é quase inexistente.
399 - 402
Fotos realizadas durante a manifestação do dia 25 de
Abril de 2015 em Lisboa.
403 - 406
Partindo das “Heróicas” de Fernando Lopes Graça,
constrói-se uma narrativa que nos dá conta de que
numa sociedade profundamente desigual, geradora
de pobres e de medos, apesar do silêncio de muitos,
há pessoas dispostas a protestar, dando sinais de um
descontentamento latente. “vozes ao alto” mostranos gente “que vai à luta”, que não se cala, que inventa novas formas de intervir, novas linguagens que
habitam o quotidiano das nossas cidades.
407
Cumprindo uma secular tradição, milhares de romeiros
e curiosos, rumaram a Santo António de Mixões da
Serra. Além da estrada, qualquer trilho ou caminho
serviu para lá chegar. E foram muitos os cavaleiros,
com destaque para os mais jovens, que trotaram serra
acima, fugindo à estrada alcatroada, fortemente congestionada.
Este acolhedor lugar da freguesia de Valdreu, edificado
nas alturas da serra, vestiu-se a preceito e ganhou alma
nova, para receber um mundo de gente, que encheu
por completo o recinto da festa.

Evento religioso do mais puro que a cultura popular
portuguesa tem para oferecer e vai conservando, é
o exemplo da perfeita harmonia entre o profano e o
religioso. Na origem desta antiga tradição, está a protecção que os pastores destas extensas encostas solicitaram a Santo António, na sequência de um período
de grande dificuldade em que a peste e os lobos dizimavam os rebanhos, com grandes danos para a sua
débil economia. O célebre imposto da “décima” cujo
pagamento, obrigava-os à venda da uma ou mais cabeças de gado, para alimentar o fisco, e tornava a vida
ainda mais dura e difícil.
O Santo, ouviu as súplicas que lhe foram dirigidas. O
povo retribuiu, edificando uma pequena capela, mais
tarde substituída pelo atual santuário de rústica beleza,
afeiçoado às encostas da serra. Foi um dia de romaria
e por isso de alegria, não faltando animação antes e
depois da cerimónia. Um dia bem passado no alto das
encostas, a que não faltou muita música, concertinas e
o farnel bem regado com o verde da região, as tasquinhas dos comes e bebes, as barracas para a venda das
bugigangas, dos doces e das recordações desta típica e
genuína romaria minhota.
in, ”TrepaMontanhas”, 06.06.2011.
408
Sergei Loznitsa ri-se quando perguntamos como é
que um bielorrusso da Ucrânia conseguiu apanhar a
essência do Portugal profundo em O Milagre de Santo António, notável contribuição para o Curtas (última exibição hoje). ”É muito simples: uma natureza
fantástica, paisagens fantásticas, comida fantástica,
vinho fantástico, um bife como nunca comi em lado
nenhum... E quando se começa o dia com um pastel
de nata ficamos logo bem-dispostos!”
O humor do cineasta contrasta com a impressão sisuda
de formalismo imponente dos seus anteriores documentários e da ficção A Minha Alegria. Mas Loznitsa
é o primeiro a admitir que, no documentário de 40
minutos que filmou em Mixões da Serra, no Gerês,
durante as festas de Santo António, se deixou tocar
pela vitalidade e energia destas celebrações populares.
“Não posso controlar estas coisas”, diz via assistente
(improvisada tradutora do russo para o inglês). ”Nem
as posso mudar, porque essa emoção, esse calor, estão
presentes no material. Foi algo que me impressionou
quando estava a rodar. Assisti a muitas festas populares na Rússia mas nunca experimentei esta sensação
de unidade. De certo modo, tive um pouco de tristeza,
desejei também sentir essa unidade.”
O Milagre de Santo António filma os preparativos e
o decorrer da celebração, sem diálogo nem narração,
criando um mosaico impressionista e colectivo que
captura o ambiente destas romarias rurais. A opção
pelo colectivo cala fundo, como nos explica o realizador. ”Ao olhar para os meus filmes, compreendi que
em nenhum há um protagonista; há um grupo de pessoas que funcionam como personagem principal. Não
sei porquê; possivelmente porque é relevante neste
momento da história.” Loznitsa sente-se atraído pelo
”fenómeno do grupo”. ”É extremamente interessante: as leis segundo as quais esses grupos funcionam, a
energia que eles geram, que não pertence a uma única
pessoa mas sim ao grupo. Interessa-me observar os
lugares onde reconheço essa presença, essa energia.”
O desconhecimento da língua e da cultura portuguesas acabou por ser uma mais-valia. ”Quando começo a
trabalhar em qualquer filme, assumo a posição da menina que vemos no primeiro plano do filme - procuro
ver através dos olhos de uma criança. Apenas consigo
descobrir coisas enquanto as observo, enquanto procuro esquecer tudo o que sou, tudo o que aprendi,

205

I fotografia sem fronteiras

toda a minha cultura.” Loznitsa ri-se. ”E ajuda não
conhecer a língua nem perceber nada do fenómeno.
Limitei-me a seguir as energias...”.
J.M. - in, Público (14. 07. 2012)
409
Anualmente, sempre no Domingo anterior a 13 de
Junho - dia de Santo António - acontece em Mixões
da Serra a Bênção do Gado, ritual que teve início no
século XVII e que se tem mantido com regularidade
até aos nossos dias.
É a desejada protecção divina que faz mover centenas de camponeses e proprietários de que aí levam os
seus animais - principalmente bovinos e equídeos mas
também animais domésticos - para serem abençoados
durante a cerimónia religiosa. Com eles, vêm os comerciantes, as gentes das redondezas, os curiosos e os
turistas, estes cada vez em maior número.
As autoridades locais fazem-se representar e o evento
é coberto pelos meios de comunicação social, tendo
sido já objecto de um filme do cineasta ucraniano Sergei Loznitsa.
Neste dia, em Mixões da Serra, é festa maior onde milhares de almas saem reconfortadas e as amizades são
revigoradas. Até ao próximo ano...
(Adelino Silva, 2014).
410
O santuário, que começou em finais do século XIX por
ser uma ermida em honra de Santo António – por ser
“protector dos animais” os preservou da peste e dos
lobos – é hoje local de romaria das gentes das terras
altas dos concelhos de Vila Verde, Amares, Terras de
Bouro e Ponte da Barca. O ponto alto desta peculiar
romaria, que se assinala sempre no domingo anterior
ao dia de Santo António, é a Eucaristia da Bênção dos
Animais, em que, depois de assistirem com os donos à
missa campal, vacas, cavalos, porcos, ovelhas, cabras,
cães, gatos, galinhas e outras aves são benzidos pelo
celebrante. Antes da bênção final, num ritual com uma
centena de anos, o sacerdote desce da varanda onde é,
naquele dia, instalado o altar, e percorre todo o recinto, de caldeira na mão, a aspergir água benta a todos
os que assistem à cerimónia. Em tempos, nada mais
havia do que esta missa e uma procissão, mas hoje a
festa tem outros atractivos, como bandas de música
e ranchos folclóricos, e arrasta gente de todo o Minho. No entanto, o motivo fundamental é mesmo esta
missa de assistência ovina, bovina, caprina e cavalar.
Apesar de, devido à desertificação do Interior, estar a
diminuir o número de animais que pastam nas serras,
a verdade é que continuam a ser muitas centenas os
pastores que ali vão pedir a Santo António que guarde
os seus gados.
in, Correio da Manhã, 04.06.2009.
411 - 414
“Todo o efémero não é senão símbolo”. Goethe
Sabemo-nos efémeros. Quase não instantes, sintomas
da levidade. Fazemos causa comum como organismos
assexuados, e fundamos colónias para nos darmos calor
e consolo. Para pedirmos por nós. Que culpa pode assumir algo fugaz? Nenhuma; e, contudo, necessitamos
das velas. Dão-nos calor e são efémeras. Como nós.
As quatro imagens da série que apresentamos, foram
tomadas no Santuário de Nossa Senhora da Peneda
(Arcos de Valdevez), mas poderiam ter sido tomadas
em qualquer outra igreja da vizinha Galiza. Prova sabida da artificialidade da estruturação dos territórios.
415, 416
Depois da morte a memória, depois da memória a pós
memória.

*legendas

417, 418
Procissão da Rainha Santa Isabel. A força da fé a da
tradição.
419
O forcão é um instrumento de lide de touros utilizado
na capeia arraiana. Pesa cerca de trezentos quilos e são
necessários cerca de 30 homens para o erguer.
O forcão é um engenho de forma triangular, feito de
pesados troncos de carvalho, cortados para o efeito,
que terminam em forquilha onde se encaixa uma barra frontal, normalmente de madeira de pinho para ser
mais leve, que se prolonga para lá dos ângulos cerca
de dois metros.
As barras laterais são firmemente apoiadas numa trave
central, que também termina em forquilha, sendo a
outra extremidade prolongada, ultrapassando o vértice
em cerca de 60 ou 70 cm, prolongamento a que se
pode chamar zona de comando porque é nesse ponto
que actuam os dois rabejadores, que são os responsáveis pelo seu manejo. A sua função é conduzir, manobrar, o forcão de forma a manter o touro sob domínio,
cansá-lo e prepará-lo para ser agarrado no momento
próprio, objectivo que nem sempre é conseguido.
As medidas do forcão não são uniformes, elas podem
variar um pouco de aldeia para aldeia, e de ano para
ano, mas o triângulo não se afasta muito do padrão
4,7 x 4,5 x 4,7, o adequado para comportar cerca de
15 ou 16 homens em cada uma das barras laterais.
São o comprimento das galhas e a área da praça que
determinam o tamanho do forcão.
420
A festa começa de manhã quando os habitantes, se
apresentam no lameiro de onde serão escoltados os
touros até à praça.
Começa um verdadeiro êxodo de motos, 4x4, tractores,
camionetas, cavalos, bicicletas, ou qualquer outro meio
de locomoção capaz de avançar nos campos próximos
da fronteira espanhola. Objectivo: ir buscar os touros,
que são alugados para o evento. Os cavaleiros experientes demonstram as suas habilidades, coragem e discernimento na arte da cavalaria e na escolta dos touros até
à praça da aldeia (encerro). O tempo da escolta, varia
com a habilidade dos cavaleiros e a reacção dos touros.
Empoleirados nas «cancelas» os espectadores esperam, impacientes, para ver passar o tropel, com medo
e na expectativa que nenhum touro se escape.
421
Mercados no Algarve #5.
As aves ornamentais de gaiola têm muitos apreciadores no Algarve, e são uma das novas ‘gamas’ de
produtos que apareceram recentemente nos mercados algarvios. São sempre espécies exóticas, até por
limitações legais.
A comunidade estrangeira que vive no Algarve pouco
pára a observar estes passarinhos. Entre os algarvios,
há apaixonados de todas as idades, que miram e remiram atentamente as gaiolas, e que com frequência
ficam a conversar e contar episódios e aventuras de
coleccionadores e criadores...
422
Mercados no Algarve #.
A proibição de venda de gado das feiras, em Portugal,
marcou um momento de viragem e talvez de alguma
decandência nas feiras e mercados algarvios. Pereiro
(Alcoutim) é um dos muito poucos locais onde ainda
se compram, vendem e trocam cavalos e muares, ao
abrigo da tradição e de alguma condescendência das
autoridades.

Os vendedores são ciganos, na sua quase maioria originários do litoral (Olhão e Faro, p. ex.). Os compradores
são principalmente agricultores da região. Mas as transacções parecem ser sempre muito difíceis, até porque
“a desconfiança é a alma do negócio...”
423
Regresso à origem, a rua é o espaço privilegiado para
todos estarem juntos, quiçá a pensarem na próxima
brincadeira.
424
Os jovens já vão ao mar, entre um cigarro e as redes,
até à hora do almoço.
425
Não é invulgar que os mais pequenos da família se
juntem aos pais ou aos avós no pagamento de promessas... Muitas vezes não só os acompanham como
também os apoiam, espiritual e fisicamente.
426
Mendiga na cidade de Lisboa (na baixa lisboeta), as
pessoas passam e fingem não ver.
427
Em labor sereno.
428
Após a azafama o descanso.
429
Festa de Santo Antão.
430
Preparativos para a procissão.
431
Desde dentro de su humilde choza, la niña mira tímida,
mientras termina de preparar los adornos que lucirá.
432
La imagen está tomada en una aldea Mursi, en el Río
Omo, al sur de Etiopía.
Se ve la mirada orgullosa de esta chica mostrando sus
adornos.
433
El plato que las mujeres llevan en su labio inferior, es
posiblemente el adorno mas típico de los mursi.
434
La mujer de la etnia mursi, mira desafiante una vez
terminó de colocarse los adornos junto a su cabaña.
435
A Família prepara-se para jantar, menos a filha adolescente, o que não lhe era permitido. Não nos foi
possível entender o porquê. Nas montanhas do norte
do VietNam a nossa moto avariou. Enquanto caminhavamos arrastando-a, a Família Li ofereceu-nos sua casa
e o mais que podiam. Aqui entendemos que o ser humano comunica sem precisar de usar o mesmo idioma
e que partilhar Amor independentemente do grupo
social de que provém.
436
Depois do jantar realizam-se várias actividades em família como, por exemplo, cantar lendo a Bíblia (escrita
numa lingua a nós desconhecida, no entanto, podia-se
detectar palavras de origem latina e de carácter católico-cristão). Nas montanhas do norte do VietNam a
nossa moto avariou. Enquanto caminhavamos arrastando-a, a Família Li ofereceu-nos sua casa e o mais
que podiam. Aqui entendemos que o ser humano co-

206

munica sem precisar de usar o mesmo idioma e que
partilhar Amor independentemente do grupo social de
que provém.
437
Depois dos pais da Família Li se recolherem para dormir, os vizinhos e amigos das crianças reunem-se à volta da fogueira enquanto o ilho Mais Novo lava os pés
antes de ir dormir. Nas montanhas do norte do VietNam a nossa moto avariou. Enquanto caminhavamos
arrastando-a, a Família Li ofereceu-nos sua casa e o
mais que podiam. Aqui entendemos que o ser humano
comunica sem precisar de usar o mesmo idioma e que
partilhar Amor independentemente do grupo social de
que provém.
438
O Filho Mais Novo da Família Li brinca com um ornamento da sua Irmã adolescente. Nas montanhas do
norte do VietNam a nossa moto avariou. Enquanto
caminhavamos arrastando-a, a Família Li ofereceu-nos
sua casa e o mais que podiam. Aqui entendemos que
o ser humano comunica sem precisar de usar o mesmo
idioma e que partilhar Amor independentemente do
grupo social de que provém.
439
Na tradição indígena não há hierarquia entre a natureza e os humanos. Representada aqui pela menina
com sua naturalidade e dignidade ao estar em sintonia
com a chuva. No Rio Grande do Sul (Brasil) Guria é
um termo popular utilizado como sinônimo de menina
ou criança.
440
Kunhã Karaí Talcira é a pagé da tribo. Fuma o cachimbo Petyngua que é um importante elemento da cultura
Guarani. Através dele, há força espiritual. Quando se
expira a fumaça do cachimbo consegue-se a cura de
males. Eles também utilizam o objeto como fonte de
inspiração na educação dos filhos, estudos, decisões
e previsões futuras. É um elemento fundamental para
manter a tradição do grupo.
441
Junto a Opy (casa de reza) os jovens cantam músicas
tradicionais Guaranis, enquanto as meninas fazem a
Dança da Guerra (Tangará), que estimula a habilidade
de se deslocar na mata.
442
Os rituais dentro da casa de reza acontecem à portas
fechadas. O aprendizado e a doutrina começam desde
o “berço”. As crianças acompanham sempre todas as
atividades.
443 - 444
Mulher pratica antigos rituais maia no cemitério de
Chichicastenango, na Guatemala. Na pequena cidade de Chichicastenango são praticados diariamente
rituais maias em locais de culto cristão, numa prática
designada de sincretismo religioso.
445
D. Luzia é descendente de escravos do Brasil. Todos os
anos se comemora o 13 de Maio, data que marca a
abolição da escravatura no Brasil. Esta Senhora, considerada a Matriarca do Bairro do Quilombo, mantem
viva a tradição e a união das suas gentes.
446
Sr. Miguel e sua filha – Comemorações do 13 de Maio
no Bairro do Quilombo. Gente simples e generosa que
preserva as tradições e cultiva o apego às origens. Não

transversalidades

esquecem que são descendentes de Escravos sem que
no entanto cultivem revolta ou amargura.
447 - 449
La ciudad de Melilla, perteneciente a España, fronteriza con Marruecos y dentro del continente Africano, es
uno de los lugares de tránsito hacia Europa. En estos
últimos años. El CETI ( Centro de estancia temporal de
inmigrantes) está totalmente lleno y al doscientos por
cien de su capacidad. La guerra en Siria (llegada de
refugiados sirios) y la llegada continua de emigrantes
en patera, o saltando la valla, hace que la vida cotidiana sea en el exterior y sea en una continua espera....
Caminantes de distintas nacionalidades que se cruzan
en un espacio fronterizo a la espera de una salida...
450
Alrededor de 200 familias malviven en este poblado
que se encuentra a tan solo 14 kilómetros de Madrid.
En la foto,la policía se retira después de realizar una
inspección rutinaria.
451
El índice de natalidad entre mujeres jóvenes y adolescentes es muy elevado. Una mujer de 20 años ya se
puede encontrar con tres hijos a su cargo. En la foto,
una niña cuida de su pequeña hermana.
452
Una vista panorámica de El Gallinero. Las viviendas
están construidas con material ligero como chatarra,
cartones, carteles publicitarios...En la foto una mujer se
dirige a buscar agua a una fuente próxima al poblado.
453 - 456
Difícil situación en Kiev, Enero 2014. Miles de personas
partidarias de una Ucrania Europea toman la plaza del
Ayuntamiento (Euromaidan) y se revelan contra el presunto presidente corrupto con ideología pro-rusa. En
las calles la tensión aumenta y comienzan a producirse
los primeros combates entre la policía gubernamental
y las milicias.
457
Os grandes sorrisos na horta de Dulombi.
458
As brincadeiras na altura do trabalho.
459, 460
Fotografías realizadas en Amboseli, en un poblado
Masai.
461
Un domingo por la tarde para pasar el rato en un garaje una buena partida de cartas.
462
Todos sus juguetes en una bolsa.
463
Vivemos ainda numa sociedade que é capaz de sonhar.
464
3 Crianças Palestinas fazem questão e exibir os seus
brinquedos...So que em Gaza os brinquedos destas
crianças são Armas..ou melhor Replicas de Armas!
465
No decurso da apresentação das irmandades à virgem,
é usual se verificar a força que as tradições têm e a forma como elas são passadas de geração em geração. Os
pais introduzem desde cedo nas suas crianças na arte
equestre e a adoração à virgem, garantindo que elas
sejam uma forma de transmissão desses ensinamentos

para os seus filhos, netos e restantes familiares. Este
processo garante que o espírito “Rocieiro” não se perca no tempo, qual folha levada pelo vento.
466
Visitar a capela das oferendas, onde diariamente durante as festas ardem milhares de velas, é poder verificar que as pessoas estão ali com o coração cheio
de emoções. Neste local, aquando da colocação das
velas as pessoas libertam-se das suas emoções. Por vezes, em momentos como o da fotografia verifica-se a
humanidade das pessoas, onde uma dor profunda se
liberta através da fé e o apoio de um ombro amigo é
uma das maiores demonstrações de amor.
467
Não é sempre que vemos uma cena como essa, não
em Caxias do Sul.
Uma cidade de colonização Italiana; pessoas que normalmente não se importam com as necessidades e
bem-estar do próximo.
Aqui podemos ver alguém que não tem muito, mas
que sabe dividir.
468
Senhora penteando piaçava para vassoura.
469
Mulher que vende o produto. com uma instalação original do arte de rua por trás de seu banquete.
470
Uma mulher comprometida a fazer tortillas, na “cozinha” da casa.
471, 472
Um olhar sobre o cotidiano dos índios da Aldeia Munduruku Waro Apompu, situada no Sul do Estado do
Pará em torno do Rio Tapajós, Região Norte do Brasil.
Trabalho realizado durante a Convenção 169, capacitação e conscientização em prol da luta pela moradia,
defesa cultural e demarcação de território com o propósito de evitar um dos maiores crimes ambientais já
anunciados no país, a construção do Complexo das Hidrelétricas do Tapajós, onde, afetaria diretamente mais
de 120 aldeias Munduruku e comunidades ribeirinhas.
473
Ao fundo, à esquerda, está a cidade de Salvador-BA-Brasil, no continente. Os prédios, ao longe, parecem
pequenos, mas na percepção de distância, revelam sua
magnitude. Parecem um detalhe insignificante da imagem, mas não é, porque se trata de uma paisagem
de contrastes. Esse mar da Baía de Todos os Santos
também é Salvador. Paisagem composta pela apropriação dos pescadores locais com seu labor artesanal. Os
pescadores empurram o barco com a força do corpo,
constroem caminhos curvos em busca de peixes. Uma
paisagem de contrastes técnicos, em que outras formas de caminhos são construídas: o pier, em linha reta,
atravessa o horizonte; um navio que já muito caminhou está ancorado e seus objetos técnicos de carregamento parecem apontar para o céu. Os remos artesanais também apontam para cima, mas parecem céus
diferentes diante das diferenças técnicas. Entretanto,
as diferentes temporalidades se encontra no conjunto
dessa paisagem.
474
Menino enfeitado para atrair turistas a dar gorjetas.
475
Unos días antes de la llegada del nuevo año según el
calendario “Saka” hinduista, se celebra en Bali “Melas-

207

I fotografia sem fronteiras

ti”, ceremonia para limpiar el micro cosmos (“Bhuana
Alit”) y el macrocosmos (“Bhuana Agung”) de las malas influencias. Se hace honrando a Sanghyang Widhi
Wasa, señor de la tierra y del mar, y se celebra en los
templos cercanos a la playa. A esta ceremonia acuden
en procesión masivos grupos de gente vestida de un
blanco impoluto que representa la pureza. Avanzan a
paso ligero, entonando estremecedores cánticos y portando ofrendas y objetos sagrados de sus templos para
ser purificados.
476
El desfile de los “Ogoh Ogoh”, esculturas de demonios
gigantes, contrasta con la belleza y la delicadeza de las
ceremonias de los días anteriores. Cada comunidad se
prepara para la exhibición de su “Ogoh” y del trabajo
que durante meses han preparado minuciosamente. El
espectáculo es estremecedor, el “Ogoh” se hace hueco a empujones entre la masiva multitud apelotonada,
acompañado de música y danzas tradicionales. Entra
dando vueltas como si estuviera realmente endemoniado. Los portadores corren de un lado a otro empujando a las masas en un espectáculo que entre asusta y
divierte a los espectadores.
477, 478
India das cores e muito amor.
479
Todos los días muy temprano los monjes de todos los
monasterios de Luang Prabang salen a la calle para que
los fieles les ofrezcan arroz.
480
Monjes orando en uno de los templos de Chiang Mai.
481
O orfanato L’Esperance foi criado em 1994 para acolher os órfãos do genocídio no Ruanda. Desde então,
muitas crianças cresceram na instituição e puderam
refazer as suas vidas. No início de 2015, o governo do
Ruanda fechou os orfanatos por decreto, na convicção
de que estas instituições não são dignas de um país
desenvolvido. Nos olhos de Esther pude ler o futuro
incerto.
482
Trabalhador de litoral exercendo os pontos fortes do
ofício: simpatia e estilo.
483
Um senhor do Uzebequistão pediu-me para o fotografar junto aos vendedores que estão nas paragens dos
comboio para se comprar produtos que sejam precisos
durante a viagem.
484
Crianças brincam e sorriam genuinamente junto ao
Mosteiro budista de Labrang.
485
A fotografia tenta representar a capacidade que temos
que ter para dimensionar desafios, tentando torná-los
atingíveis, tangíveis e exequíveis.
486
No deja de sorprenderme como cada día aumentan las
personas que viven en la calle en pleno centro de Madrid, aunque muchos digan que la crisis ya ha pasado.
Es irónico como el ser humano ha pasado a ocupar el
espacio utilizado por animales de compañía, porque no
tiene otro sitio donde dormir.