Materiais Manipuláveis

Instituto Politécnico de Viana do Castelo
Escola Superior de Educação

Materiais Manipuláveis

Isabel Vale

Isabel Vale- ESEVC
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Departamento de Matemática, Ciências e Tecnologia

Materiais Manipuláveis

Outubro de 2002
1ª edição-2ª tiragem - 100 exemplares
Edição do Laboratório de Educação Matemática
(LEM)
Isabel Vale- ESEVC
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Materiais Manipuláveis

Materiais Manipuláveis

Desde os tempos mais remotos que o recurso a materiais concretos no
ensino-aprendizagem Matemática tem sido uma constante. O uso de materiais na
sala de aula, iniciado no séc. XIX com Pestalozzi, tem tido altos e baixos e nem
sempre foram bem aceites ou mesmo usados correctamente. Fizeram-se muitas
investigações, sobretudo durante os anos 60-70, sobre a sua utilização e os
resultados não têm sido muitas das vezes conclusivos. De qualquer modo existem
muitas situações didácticas onde os materiais se mostraram de grande utilidade,
apesar de ser necessário ter em atenção vários aspectos, entre eles a própria
organização da sala de aula.

Os Materiais Didácticos
Apesar de se ter atravessado uma época, a da chamada Matemática
Moderna, em que se valorizavam os aspectos mais formais da matemática,
recorrendo a um simbolismo e rigor excessivos, havendo consequentemente uma
desvalorização do uso de materiais sobretudo os que requeriam manipulação,
como se os conceitos tratados fossem matemática de ordem menor, hoje as coisas
são bastante diferentes. Basta ler o que Normas (NCTM,1989/1991) referem
relativamente aos materiais didácticos, para concluir que se deve valorizar e
encorajar os professores de matemática a utilizar diversos materiais mais do que
dar ênfase aos símbolos matemáticos convencionais.

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Numa sala de aula, quando se desenrola todo o processo de ensinoaprendizagem, há necessidade de recorrer a determinados suportes educativos.
Esses suportes a que o professor tem acesso são variados. Desde a “voz”, o
quadro preto e o giz, que podemos identificar como os recursos primários, até aos
livros de texto, fichas, feijões, paus de gelado, acetatos, gráficos, sólidos,
geoplanos, material multibase, barras cuisenaire, calculadoras simples e gráficas,
computadores, etc., e mais recentemente com o avanço da tecnologia o vídeo e a
Internet.
Vejamos algumas definições de material didáctico.
Para Gagné (1971), os materiais didácticos fazem parte do ambiente de
aprendizagem e são eles que estimulam a aprendizagem no aluno. Para Hole
(1977) são todos os meios de aprendizagem e ensino. Para Mansutti (1993) são
recursos a ser utilizados na acção combinada de aprendizagem e formação. Para
Ribeiro (1995) é qualquer recurso a ser utilizado na sala de aula com o objectivo
de promover a aprendizagem. Estas perspectivas são convergentes quando
afirmam que os materiais didácticos são todos os materiais a que recorremos
durante o processo de ensino-aprendizagem.
A literatura mostra que não se tem desenvolvido suficiente investigação
sobre as relações entre os materiais didácticos e o processo de ensinoaprendizagem. A que se conhece tem-se debruçado principalmente sobre o livro
de texto, calculadoras, computadores e os manipuláveis. A investigação tem dado
atenção especial ao livro de texto, como sendo o material mais usado pelos
professores do nível básico, e que indiscutivelmente tem uma grande influência
no que é ensinado (Lindquist,1996). Nos últimos 20 anos, com o aparecimento
das calculadoras e computadores, a investigação tem dado grandes contributos na
influência que estes materiais têm no ensino da matemática, e hoje é praticamente

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inegável o seu valor educativo (APM, 1988; Papert, 1989; Ponte, 1997;
NCTM,1980; Waits, 1997).
Como se pode constatar, os materiais didácticos são bastante diferentes uns
dos outros. Entre eles iremos dar atenção especial aos materiais do tipo:
geoplano, material multibase e barras cuisenaire que fazem parte de um conjunto
chamado materiais manipuláveis. Estes materiais são os mais referidos na
literatura da educação matemática sobretudo para os níveis mais elementares.
Comecemos por identificar o que é um material manipulável. As definições
revistas não diferem muito umas das outras. Vejamos algumas.
Serrazina (1991) refere que são objectos, instrumentos ou outros media que
podem ajudar os alunos a descobrir, entender ou consolidar conceitos
fundamentais nas diversas fases de aprendizagem. Para Jacobs (1998) são
objectos usados pelos alunos que lhes permitem aprender activamente
determinado conceito. Nas definições anteriores confunde-se o conceito de
material manipulável com o de material didáctico, nas que se seguem é
acrescentado a estas um aspecto que é o de “objectos que podem ser tocados”.
Para Reys (1982) materiais manipuláveis são objectos ou coisas que o aluno seja
capaz de sentir, tocar, manipular e movimentar. Podem ser objectos reais que têm
aplicação nos afazeres do dia-a-dia ou podem ser objectos que são usados para
representar uma ideia. Assim, nem todos os materiais didácticos são
manipuláveis. Para Fernandes et al. (1985) são objectos que o aluno é capaz de
sentir, tocar, mexer, moldar. Hynes (1986) refere que são modelos concretos que
envolvem conceitos matemáticos, apelam aos vários sentidos e podem ser tocados
e movimentados pelos alunos. Para Ribeiro (1995) os materiais manipuláveis são
objectos concretos que incorporam conceitos matemáticos, apelam a diferentes
sentidos e podem ser tocados, movidos, rearranjados e manipulados pelas
crianças.
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. A linguagem LOGO e o software dinâmico para o ensino da geometria como o Cabri-Géomètre e o Geometer's Sketchpad são disso exemplos.ESEVC 6 . de baixo. Não será pois de incluir neste grupo. manipuláveis passivos e não-manipuláveis. Contudo ela classifica os modelos de acordo com o seu uso em: manipuláveis activos. o que dizer por exemplo de um gráfico. de lado etc. Mas será que estes são modelos manipuláveis? Se inferirmos das definições anteriores que estes são qualquer coisa que está em movimento. Através da tecnologia pode-se ter acção na sala de aula. Quando os alunos observam o professor a manipular modelos para demonstrar determinado conceito ou procedimento então os modelos são Isabel Vale. ou de um desenho? Exemplos como estes há vários e são usados ao longo do percurso escolar em Matemática para comunicar. Contudo. Estes são alguns dos recursos que permitem dar significado à Matemática e descrever ideias matemáticas. dos manipuláveis. Por exemplo. o avanço da tecnologia fez com que nenhum destes instrumentos matemáticos necessitasse de ser estático. Os manipuláveis activos são modelos concretos que permitem uma manipulação directa. quer de um gráfico quer de um desenho. as barras cuisenaire ou o material multibase. as calculadoras gráficas e os computadores? Vejamos se a perspectiva de Schultz (1989) pode ajudar a clarificar. Segundo esta autora o termo manipulável implica que o aluno manipule o modelo. É muitas vezes mais fácil para os alunos falar de modelos físicos ou pictoriais do que de ideias abstractas. São os materiais que as definições anteriores referem e que são aquelas que englobam maior consenso. como por exemplo. pode-se pedir ao computador para dar uma vista de cima. então os gráficos ou os desenhos não o são pois são estáticos.Materiais Manipuláveis Se não há dúvida de que um geoplano é um material manipulável. Segundo Mason (1995) os objectos no ecrã proporcionam uma nova forma de instrumento ou material manipulável. Os alunos podem manipular objectos de maneiras que não eram possíveis até então.

1982. tentar-se-á elaborar uma categorização dos materiais didácticos—todos os materiais a que recorremos para promover o ensino-aprendizagem da Matemática. Para Sowell (1989) os materiais manipuláveis incluem quer as representações concretas quer as pictoriais Atendendo às várias interpretações que os materiais manipuláveis podem ter. 1989) podemos dividir os materiais didácticos em três tipos: concretos. 1962. Sowell. Segundo esta autora os computadores oferecem oportunidades de manipular modelos segundo estas três perspectivas. Materiais Didácticos Os materiais concretos permitem que os alunos trabalhem em contacto directo com eles.Materiais Manipuláveis manipuláveis passivos. permitem uma representação de uma ideia matemática através de objectos a três dimensões. 1989. pictoriais e abstractos/simbólicos. É o caso do material multibásico desenhado por exemplo em fichas de trabalho ou em livros de texto. Fennema. 1979.ESEVC 7 . Quando os modelos estão presentes mas não são manipulados dizem-se não-manipuláveis. Schultz. (Figura 1) Materiais didácticos Concreto Pictoriais Simbólicos Figura 1. Bruner. Os materiais pictoriais permitem que os alunos Isabel Vale. Estes nãomanipuláveis requerem destrezas de visualização espaciais onde os alunos possam imaginar efectuar algumas acções sobre eles. Com base nas propostas apresentadas por alguns investigadores (Lesh.

etc. Os materiais comuns são os materiais que usamos com diversas finalidades na vida de todos os dias p. geoplano. livros de texto. fichas.Materiais Manipuláveis observem apresentações audiovisuais.e. etc. Os materiais concretos podem ser divididos em dois tipos: materiais comuns e materiais educacionais. que aparece para ultrapassar o problema dos espelhos serem opacos. Além destes materiais concretos podemos introduzir como materiais didácticos as calculadoras e os computadores e também os jogos.ESEVC 8 . ábaco. como manipuláveis que põem em Isabel Vale. espelhos. Conforme refere Reys (1982) nem todos os materiais concretos são materiais manipuláveis. permitem uma representação de uma ideia matemática através de numerais e sinais aceites universalmente e que indicam uma operação ou relação matemática.e. permitindo ao aluno ver as duas partes simétricas. Os materiais educacionais são materiais especificamente construídos para serem usados na sala de aula com fins educativos p. Os materiais simbólicos permitem que os alunos ouçam. leiam e escrevam com papel e lápis. folhas de papel. Os materiais manipuláveis são materiais concretos. É o caso do Mira. Os materiais educacionais apareceram sobretudo para ultrapassar os limites dos materiais comuns. geoplano. observem demonstrações pelo professor ou usem desenhos ou imagens de materiais concretos. ábaco. dinheiro.e. mira. permitem uma representação de ideias matemáticas entre o concreto e o simbólico e são usadas normalmente em livros de texto. de uso comum ou educacional. Por exemplo. folhas de papel. Godiño (1998) considera as calculadoras e os computadores. paus de gelado. feijões. o livro de texto é um material concreto mas não é manipulável neste sentido. que permitem que durante uma situação de aprendizagem apelem para os vários sentidos dos alunos devendo ser manipulados e que se caracterizam pelo envolvimento activo dos alunos p.

usou a corda com nós. Este foi um dos primeiros materiais construídos especificamente para trabalhar conceitos de aritmética. Materiais Materiais Concretos Manipuláv eis Materiais Manipuláveis Materiais Comuns Jogos Materiais Educacionais Calculadoras e computadores Figura 2. com a introdução do sistema de numeração indo-árabe.Materiais Manipuláveis jogo não a percepção tácita. o homem primitivo começou por usar marcas num bastão para fazer a contagem das ovelhas. aparece o ábaco. mas a percepção visual e/ou auditiva. Por exemplo. Materiais concretos Na literatura revista é muitas vezes utilizada a designação de material manipulável como sinónimo de material concreto. e nesse sentido chama-lhes manipuláveis gráfico-textuales-verbais.ESEVC 9 . etc. Mais tarde. tendo sido o eclesiástico Gerbert (930-1003) que aprofundou as aplicações do Isabel Vale. usou pedras. A Necessidade do Concreto ao Longo dos Tempos No Passado O homem tem recorrido à ajuda de materiais concretos para o ajudar em actividades matemáticas desde os tempos mais longínquos.

XV. XVI existem gravuras onde se pode ver o uso destes instrumentos. Posteriormente aparecem na geometria a régua. Dienes. No séc. Comenius e Pestalozzi. Castelnuovo. Cuisenaire) que lhes fizeram referência e que introduziram novos materiais didácticos e novas metodologias de ensino. o ensino por ciclos e o ensino intuitivo-construtivo. Por volta do séc. A partir de então foram vários os pedagogos (e. bastava que o aluno mecanizasse determinadas “regras” de cálculo.Materiais Manipuláveis ábaco. Não era pois necessário usar os materiais concretos para encontrar um resultado. Não se tratava de mudar de temas mas sim de tratar os mesmos de maneiras diferentes à medida da compreensão e das possibilidades dos alunos. Esta abordagem em ciclos sugere uma forma de organizar o ensino da Matemática. Gattegno. Ensinar Matemática utilizando materiais manipuláveis foi reintroduzido e recomendado pelos fundadores da Escola Activa. um mesmo tema deveria ser abordado em vários níveis de ensino em fases sucessivas. isto é. teve grande influência da educação. Os métodos de ensino não eram mais do que instruções que os alunos deveriam seguir até atingir determinado fim. materiais como o ábaco desapareceram das escolas de então quando apareceram novos métodos de cálculo — os algoritmos. teólogo e pedagogo. Segundo Castelnuovo (1978). Defendia um ensino por ciclos. O trabalho de Comenius (1592-1670).g. onde “aquele que aprende hoje reforce aquilo que aprendeu ontem e abra caminhos para o que Isabel Vale. o compasso e o esquadro.ESEVC 10 . mais tarde por Decroly e Montessori. os princípios fundamentais da educação defendidos por Comenius e de Pestalozzi podem ser traduzidos em duas palavras: o método activo. seguindo um ponto de vista sempre mais amplo estendendo-se em espiral. que apesar de serem homens de épocas e com histórias diferentes defenderam os mesmos princípios e. Hoje temos à nossa disposição centenas de materiais disponíveis para usar na aula de Matemática.

Para Pestalozzi. significava contemplar a verdade em sentido platónico. três tabelas para o ensino da Aritmética aos alunos. Segundo Szendrei (1996) Pestalozzi é o pai do uso sistemático de experiências sensoriais nas escolas. Comenius tinha como princípio que os alunos deveriam aprender a usar todos os seus sentidos e não apenas palavras. No Nosso Século A partir dos trabalhos de Comenius e Pestalozzi. que foi bastante importante nas escolas da época e que foi feito propositadamente com esse fim. Sugeria o uso de objectos do dia-a-dia ou pelo menos as suas representações na sala de aula. Intuir significa olhar para dentro. Este significado foi evoluindo e de estático chegou a dinâmico. por exemplo. Este tipo de ensino ainda é contemplado nos nossos programas oficiais para alguns tópicos. na sua origem o significado era estático. Este método activo dá ênfase ao papel do aluno no processo de construção do seu próprio conhecimento. de energia activa e de intuição. O ensino só é verdadeiro e educativo quando provém da actividade das crianças. Construiu. onde esboçou um programa educativo que ia desde as escolas infantis até à graduação superior. Didáctica Magna.Materiais Manipuláveis aprenderá amanhã”. Para ele. os professores tinham ferramentas que podiam manipular. a intuição é uma construção. a observação e os sentidos são os primeiros passos a dar no processo de aprendizagem. Pestalozzi (1746-1827) insiste na constante actividade por parte do aluno. olhar com atenção. Também inventou centenas de exercícios para serem resolvidos pelos alunos. Fala-nos de actividade. Este método privilegia o trabalho com materiais concretos aproveitando toda a energia natural das crianças.ESEVC 11 . permitindo-lhes ilustrar conceitos e Isabel Vale. Deixou um livro famoso.

É assim que passado quase um século aparecem pedagogos como Decroly (18711932) e Montessori (1870-1952). paus.Materiais Manipuláveis procedimentos matemáticos e constituir um bom ambiente de aprendizagem. inspirando-se contudo de diferentes maneiras. onde o aluno tenta identificar um a um os elementos de um todo. Para ela eram importantes essas experiências no desenvolvimento cognitivo. Os seus métodos de ensino ficaram conhecidos pela designação de Método Montessori o qual dava grande importância ao treino sensorial num ambiente organizado. E é com base na psicologia que Decroly mostra que o global é um processo intelectual típico da criança. castanhas. ou seja apresentam variantes do método activo. psicóloga e médica e dedicou-se sobretudo à construção de materiais manipuláveis para ajudar crianças com problemas de aprendizagem em Aritmética. Montessori trabalhou sobretudo com crianças mentalmente deficientes e culturalmente desfavorecidas. Isabel Vale.ESEVC 12 . antes das unidades standard. Decroly foi médico e psicólogo e desenvolveu um método em que materiais comuns de todos os dias como feijões. Montessori foi educadora. Estes métodos têm como finalidade o passo do concreto para o abstracto. eram essenciais no ensino da Matemática na sala de aula. Decroly foi um grande defensor do papel que os jogos educativos tinham no ensino. O de Montessori é activo-sintético e o de Decroly é activo-analítico. O método activosintético de Montessori é um método construtivista. Passa em seguida à sua organização global num sistema mais complexo. Utilizava no ensino da medida. à analise. unidades ocasionais. Foram Decroly e Montessori que iniciaram o estudo da pedagogia científica estudando e ampliando as visões de Comenius e de Pestalozzi. conchas. O método activo-analítico de Decroly baseado na psicologia da forma ou da gestalt defendia que a observação global do fenómeno conduz à decomposição do fenómeno.

A máxima de Piaget afirma “saber de cor não é saber”. Isabel Vale. A oportunidade de trocar ideias. Tais leis consideram-se como pertença da criança desde a mais tenra idade. será ele quem promove e guia a aprendizagem da criança mais do que ensinar tudo directamente. Piaget dizia que as crianças não são pequenos adultos logo não podem ser tratados como tal em situações de aprendizagem. A criança é obrigada a seguir certos passos que são sugeridos pelo professor ou pelo próprio material com que trabalha. Pode-se concluir do trabalho de Piaget para a sala de aula que as crianças aprendem melhor a partir de actividades concretas.ESEVC 13 . linguagem e acções diferem quer em quantidade quer em qualidade das dos adultos. Isto é. Piaget defende que a aprendizagem será melhorada por experiências activas ou do tipo “mãos-àobra” combinadas com a reflexão consciente. ou seja do recurso ao objecto e à acção é distinta da dos pedagogos referidos anteriormente. Segundo Sprinthall & Sprinthall (1993). A implementação desta teoria nas escolas vai alterar substancialmente o papel do professor e a natureza do ambiente na sala de aula. Segundo ele a memorização passiva não significa necessariamente que o aluno tenha realmente aprendido ou compreendido determinado conceito. Para Piaget (1977) o material não deve ser.Materiais Manipuláveis Estes métodos foram criticados pela psicologia moderna. uma necessidade para o ensino do número mas servir no desenvolvimento de certas leis que depois serão necessárias para a aquisição do conceito de número. Piaget acreditava que os quatro níveis ou estádios desenvolvimento cognitivo da criança são úteis para o educador pois realçam o facto de que os modos de pensar das crianças. E é justamente esta liberdade da construção matemática que se pretende e que está contemplada na psicologia de Piaget. Piaget (1896-1980) é um defensor da escola activa mas a concepção que tem do material. por exemplo. O professor torna-se menos “fornecedor de informação” e mais um facilitador da aprendizagem da criança. pois é uma pedagogia que não é “livre”.

segundo Piaget. (b) o princípio de variabilidade perceptual—sugere que um conceito que é aprendido é maximizado quando é apresentado à criança através de uma variedade de contextos e envolvimentos físicos. já não é verdade que essa dependência seja eliminada. Recordemos os princípios de Dienes em relação ao ensino da matemática: (a) o princípio dinâmico—sugere que a verdadeira compreensão de um novo conceito é um processo evolutivo envolvendo a criança em três fases. Apesar de ser verdade. que na adolescência a necessidade de experiências concretas é de algum modo reduzida devido à evolução de novos e mais sofisticados sistemas de conceitos. Quer isto dizer que necessitam de se apoiar em objectos concretos que lhes facilitam a elaboração de raciocínios lógicomatemáticos. através do uso de material concreto. Assim os alunos que vêem e manipulam vários tipos de objectos têm imagens mentais mais claras e podem representar ideias abstractas mais completamente do que aqueles cujas experiências são mais pobres. As imagens mentais e as ideias abstractas dos alunos são baseadas nas suas experiências. defendendo o uso de materiais manipuláveis pela criança. a maioria das crianças do ensino básico está no estádio das operações concretas. De acordo com Piaget. Os materiais manipuláveis são ajudas significativas para a aprendizagem em qualquer dos estádios.ESEVC 14 .Materiais Manipuláveis discutir e avaliar as suas próprias ideias e as dos outros promove na criança uma visão mais crítica e realista de si mesmo e dos outros. Defende a apresentação de um Isabel Vale. Preconiza actividades informais e estruturadas. A sua maior preocupação—assim como a de Piaget— tinha a ver com o envolvimento dos alunos no processo de aprendizagem. Isto significa que os conceitos matemáticos devem ser aprendidos com apoio de modelos concretos e simbólicos. manipulação e experimentação. Dienes (1975) estudou e expandiu largamente as ideias de Piaget e contribuiu para o desenvolvimento das perspectivas cognitivistas da aprendizagem matemática.

icónico e simbólico. que permitem ajudar os alunos a compreender o conceito de base dos sistemas de numeração. vulgarmente chamados material multibásico. Dá ênfase a que todas a variáveis de um conceito devem ser exemplificadas. sobretudo a propriedade comutativa. Segundo ele podemos considerar uma ideia ou conceito em três níveis diferentes: motor. Isto é. Para Dienes há duas espécies de pensadores.Materiais Manipuláveis conceito em situações diversas. Dienes construiu os famosos blocos Dienes. O modo de aprendizagem neste nível é baseado no uso de meios visuais: filmes. Estas interpretações são importantes e são interactivas. A aprendizagem simbólica é o estádio onde se usam os símbolos abstractos para representar a realidade. No período icónico a criança pensa com imagens mentais sobre objectos concretos. (c) o princípio da variabilidade matemática— sugere que a generalização de um conceito matemático é realçada quando as variáveis irrelevantes são sistematicamente modificadas enquanto as variáveis relevantes continuam constantes. diagramas e outros.ESEVC 15 . Esta análise psicológica contudo mostra que Isabel Vale. (d) o princípio construtivista—defende que a construção deve sempre preceder a análise. o construtivista e o analítico. a criança deve ter oportunidades de desenvolver os seus conceitos de um modo global intuitivo começando com as suas próprias experiências. desenhos. Bruner (1962) foi influenciado pelo trabalho de Jean Piaget e trabalhou com Zoltan Dienes onde compartilharam muitas das suas perspectivas. Os manipuláveis ajudam a compreender ideias abstractas a partir de situações concretas e problemáticas. Tentando estabelecer um certo paralelismo com Piaget podemos dizer que o construtivista está no estádio das operações concretas e o analítico está no estádio das operações formais. Também introduziu actividades com diferentes balanças com feijões para ajudar os alunos a compreenderem propriedades das operações aritméticas. O período motor envolve manipulação de objectos ou experiências directas.

et al. A investigação poderá dizer qual o caminho. que é crucial no processo de ensino aprendizagem.Materiais Manipuláveis os manipuláveis são apenas uma parte do processo de desenvolvimento dos conceitos matemáticos.ESEVC 16 . que por sua vez representam situações da vida real. Lesh acrescentou os símbolos falados e as situações de vida real e salientou a interdependência entre os vários modos. verbal. A resolução de problemas move-se a partir de situações reais para o simbolismo matemático. Os materiais manipuláveis ajudam então na aprendizagem pois permitem que. Reflectindo sobre este modelo podemos ver que estas mudanças não podem ser feitas a não ser que a criança perceba o conceito que está subjacente em cada um dos modos. a partir da realidade a criança chegue ao nível simbólico. outros modos de representação. simbólica e situações da vida real também têm um papel a desempenhar. 1992). Lesh criou um modelo (Figura 3) que traduz as mudanças entre os vários modos de representação e que foi uma adaptação a partir do trabalho de Bruner (Behr. Lesh. Os materiais manipuláveis correspondem ao nível inactivo de Bruner. os desenhos ao nível icónico e os símbolos escritos ao nível simbólico. Segundo Post (1988) os manipuláveis ajudam na medida em que estão a meio entre o mundo real das situações problemáticas concretas e o mundo abstracto das ideias e do simbolismo (oral e escrito) da matemática. Isabel Vale. pictorial. Esta compreensão e reinterpretação são importantes no processo cognitivo e necessitam de ser encorajadas no processo de ensino-aprendizagem. A investigação pode também indicar em que é que os manipuláveis facilitam a aquisição de conceitos e a resolução de problemas. Eles são símbolos visto que são feitos de materiais concretos. Quando se aprende um conceito novo é importante que os alunos “vejam” o conceito a partir de várias perspectivas ou interpretações. Segundo Lesh (1979). através do modelo. por exemplo.

Modelo de Lesh Reys (1982) identifica alguns aspectos a partir da comparação de várias teorias de aprendizagem que fundamentam o uso de materiais manipuláveis no ensino/aprendizagem da Matemática. (1) a formação de conceitos é a essência da aprendizagem em Matemática. (3) a aprendizagem sensorial é a base de toda a experiência.Materiais Manipuláveis Materiais Manipuláveis Simboliza Concretiza Simbolos escritos Desenhos Situações da vida real Descreve Simbolos falados Age Figura 3.ESEVC 17 . (6) a aprendizagem constrói-se do concreto para o abstracto. (7) a aprendizagem requer Isabel Vale. (4) a aprendizagem caracteriza-se por estádios distintos de desenvolvimento. é o cerne da aprendizagem. (2) a aprendizagem baseia-se na experiência. (5) a aprendizagem melhorou com a motivação.

normalmente. Worth (1986). Esta finalidade é muito diferente das de alguns anos atrás baseadas apenas em cálculos básicos com papel e lápis.ESEVC 18 . um currículo que tenha como objectivo que os alunos valorizem a matemática. Algumas das razões apontadas pelos professores para não os utilizarem é que. flexíveis e reflexivos. sejam confiantes das suas capacidades. A lista apresentada não é exaustiva e os aspectos focados não são independentes mas estão bastante interligados. 1988.Materiais Manipuláveis participação/envolvimento activa(o) do aluno. 1986). Porquê e Para Quê Uma das principais finalidades do ensino da matemática de hoje é ensinar os alunos a tornarem-se resolvedores de problemas. refere que uma razão para não serem utilizados na prática é a atenção que se deu à resolução de problemas como sendo o foco do ensino da matemática em todos os níveis a partir dos anos 80 e por outro lado a ênfase sobre o ensino e aprendizagem da matemática recorrendo aos computadores. e (8) a formação de abstracções matemáticas é um processo longo. o seu uso nunca chegou a generalizar-se (APM. Worth. Por outro lado. Assim. Os Manipuláveis na Aula de Matemática Apesar de os materiais manipuláveis poderem ter um papel relevante no processo de ensino e de existirem numerosas propostas feitas nesse sentido. se tiverem de os construir necessitam de muito tempo e organizar as aulas é muito mais complicado e demorado. os materiais comercializados são muito caros. Neste ponto analisa-se a investigação sobre os manipuláveis na sala de aula e que consequentes sugestões didácticas. façam Isabel Vale. que possam aplicar as ideias matemáticas numa grande variedade de situações.

reflexão e a capacidade de ser capaz de comunicar ambas. Isabel Vale. se tornem resolvedores de problemas e aprendam a raciocinar e a comunicar matematicamente. a utilização de muitos materiais só por si não constitui uma garantia de haver aprendizagem significativa. No ensino da Matemática é necessária acção (real e virtual). um ambiente de aprendizagem onde se recorra a materiais manipuláveis é favorável a uma aprendizagem significativa (Bruner. Piaget. pede envolvimento activo dos alunos na aprendizagem que ocorre na sala de aula. 1975. Os materiais podem ser uma ferramenta bastante valiosa desde que o professor saiba como usá-los e quais são as suas limitações.ESEVC 19 . Por isso um papel central da actividade do professor é ajudar os alunos a tornarem-se mais capazes de fazer isso por eles próprios. Dienes. Mais importante que o material a utilizar é a experiência vivida pelos alunos visto que só ocorre aprendizagem se essa experiência for significativa. Quando se usa manipuláveis há o perigo de que os alunos fiquem apenas pela manipulação. Os alunos devem passar da exploração directa sobre o objecto para a exploração virtual das possibilidades. Os manipuláveis são boas fontes para isso. Por outro lado. É ao professor que compete decidir como e quando determinados materiais devem ser utilizados. 1982) Pimm (1996) refere que um dos possíveis modos de trabalhar matematicamente é trabalhar com manipuláveis. 1960 . saber usá-los e propor actividades específicas para chegar a determinado conceito. Reys. Por isso o professor deve conhecer os materiais de que necessita. A Matemática começa muitas das vezes com acções sobre os objectos mas não pode ficar por aí. 1977. Um conjunto de materiais não oferece de imediato experiências matemáticas: pode nem conter ou gerar matemática. somente as pessoas com a sua mente o podem fazer.Materiais Manipuláveis conexões matemáticas. Numa perspectiva construtivista do conhecimento.

g. (2) os materiais comuns foram seleccionados pela evolução cultural da espécie humana. Paolo Boero (1999) tem uma posição radical em relação ao uso de materiais na sala de aula.g. fazendo a ligação da histórica construção de conceitos e procedimentos matemáticos.) ou acontecimentos (e. deve-se então dar preferência (em muitos casos) à elaboração de material pelo professor e pelo aluno. Se deve dar-se ênfase ao uso dos manipuláveis no ensino da matemática. Além disso. termómetros. dinheiro. etc. a construção de materiais reflecte a personalidade e estilo de quem a faz e acrescenta um atractivo que os materiais comprados não possuem.ESEVC 20 . mapas. (3) é necessário Isabel Vale. o que normalmente não acontece com os materiais educacionais. Não defende os jogos na sala de aula pois para ele a matemática é diferente de um jogo. modelos do edifício da escola). sombras. calendários. Muito alunos vêem a matemática como uma colecção de regras arbitrárias para memorizar e por conseguinte são levados a não gostar do assunto. Não defende os materiais educacionais pelas seguintes razões: (1) os conceitos que são desenvolvidos através de materiais comuns permitem o contacto com experiências fora da escola e uma transferência imediata com situações da vida real. Os professores devem fazer todos os possíveis para mudar esta concepção errada e os manipuláveis poderão ser uma ajuda para ensinar activamente determinado conceito.) e ocasionalmente materiais construídos pelos alunos durante as aulas (e. em particular aos materiais educacionais e aos jogos. réguas .Materiais Manipuláveis Para que um aluno se torne um resolvedor de problemas deve compreender completamente os conceitos matemáticos. não apenas memorizar passos prescritos para chegar à resposta correcta.g. Privilegia o material de uso comum ou construído pelos alunos em detrimento dos materiais educacionais. etc. Defende apenas o uso de materiais comuns (e. A construção de materiais na sala por professores e alunos é uma experiência única de interacção em que professores e alunos aprendem.

aos vários sentidos da criança envolvendo-a fisicamente. Deste modo. onde os alunos usarão somente a simbologia. A abstracção matemática nas crianças inicia-se na sua interacção com o Isabel Vale. passar de seguida para o estádio semi-concreto. Cada novo conceito introduzido com manipuláveis permite que a matemática se torne viva e dê significado a ideias abstractas através de experiências com objectos reais. Numa situação de aprendizagem com materiais estes apelam. tornase um processo activo de construção do conhecimento com significado para a criança. Estes pressupostos fazem parte de uma perspectiva construtivista do conhecimento onde este é criado a partir do envolvimento activo do aluno que. (4) ao usar os materiais educacionais o professor está a cortar o possível feedback que os alunos lhe poderiam dar se usassem materiais comuns onde todos são peritos naturais. reflectindo sobre as suas acções físicas e mentais. onde os alunos usarão manipuláveis.Materiais Manipuláveis menos tempo para ensinar com materiais comuns. Como Actuam na Construção de Conceitos O ensino de um conceito novo de matemática (independentemente do nível) deve sempre começar com o nível concreto. São os objectos concretos que permitem a transferência para o nível abstracto. e é através desta interacção que se dá a aprendizagem. e finalmente progredir para o estádio abstracto. Este ensino torna os alunos participantes activos no processo de aprendizagem. onde os alunos observam as demonstrações do professor. aprender. Fennema (1982) refere que as crianças preferem o uso de materiais concretos por causa da novidade e porque dão significado às ideias matemáticas. através do contacto e da movimentação.ESEVC 21 . vai organizando o seu mundo físico.

Um grande objectivo do ensino da matemática é ajudar os alunos a aprender a operar eficientemente no nível simbólicoabstracto com uma compreensão dos conceitos ou destrezas em questão. No tema das Simetrias (axiais) podemos pedir aos alunos que construam com a ajuda de um espelho ou Mira as imagens de cada um dos triângulos (Figura 4) Isabel Vale. visto que a matemática trata com abstracções. como providenciam experiências nas quais as crianças podem transferir as suas compreensões de um conceito para outro. Contudo é necessário clarificar “a ponte” entre o uso do material concreto e o conceito e o professor tem que estar atento para ajudar o aluno a fazer essa passagem. ou seja não conseguem passar a “ponte”. entre os educadores matemáticos. Não é suficiente para os alunos observar a demonstração do uso dos materiais em determinado contexto. Analisemos um exemplo dado por Szendrei (1996).Materiais Manipuláveis meio. Muitos alunos têm dificuldade na compreensão de determinados conceitos porque são incapazes de fazer a ligação entre o mundo físico e abstracto. O propósito dos manipuláveis é ajudar os alunos a passar a ponte entre o concreto e o abstracto da matemática. Esta “ponte” mental é bastante complexa. depois com os materiais concretos até chegar aos conceitos matemáticos. A construção de conceitos matemáticos é um processo longo que requer envolvimento activo do aluno e vai progredindo do concreto para o abstracto. O acto de manipular permite ao aluno experienciar padrões e relações que são o foco da matemática. em relação à importância das experiências no nível concreto para a aprendizagem da matemática. Há muito pouca discordância.ESEVC 22 . Os materiais não só mostram o caminho para a compreensão conceptual.

Na situação A e B o espelho “matemático” comporta-se quase como um espelho “real”.ESEVC 23 . Mesmo usando um Mira só podemos obter uma parte da imagem do espelho “matemático” . Os alunos devem conseguir ver as diferenças existentes entre os dois. Partindo das propriedades do espelho real o professor deve levar o aluno às propriedades do espelho matemático. Figuras simétricas Pode-se constatar que as quatro situações não são o mesmo para todos os alunos. Como Usá-los Isabel Vale. Nas situações C e D já não acontece isso. terão alguma dificuldade em resolver a situação B e dificilmente resolverão a situação C. Na situação D o espelho “real” tem comprimento mas o espelho “matemático” não tem. pois é complicado de perceber quando o espelho ou a linha do Mira corta a figura. Muitos dos alunos que conseguem resolver a questão A. A questão D também suscita problemas aos alunos pois o espelho não está em frente ao triângulo.Materiais Manipuláveis A B C D Figura 4.

Contudo. Suydam & Higgins. A utilização dos manipuláveis não é um fim em si mesmo. mas um meio para a introdução de conceitos e não só. 1985. Joyner. Fennema. torna-se indispensável que os professores aprofundem o seu contacto com os vários tipos de material existente. pois acrescentam muito mais actividade e barulho e requerem espaço e organização. durante o processo ensinoaprendizagem. Há muito que os educadores subscrevem que o recurso a situações da vida real e a representações concretas e pictoriais. 1988. Mas podem ser implementados com sucesso com um pouco de planificação e reflexão. 1989. aquele professor que nunca aprendeu matemática de um modo activo e nunca trabalhou com materiais pode ter dificuldade ao tentar usar os manipuláveis na aula pela primeira vez. NCTM. o uso de manipuláveis para ajudar os alunos a atingir aqueles objectivos. 1977. Sowell. 1992. Fennema & Franke. 1991. Assim. Os professores terão de estabelecer ambientes que encorajem. A maior dificuldade é saber como gerir os materiais eficientemente. pois só tendo adquirido um completo à vontade no seu manuseamento poderão com eficácia escolhê-los e utilizá-los adequadamente com os seus alunos na sala de aula.Materiais Manipuláveis Depois de reconhecer que um ambiente de aprendizagem que recorra à utilização de materiais concretos permite experiências matemáticas mais eficazes (APM. entre outros aspectos. os professores devem saber como interpretar e representar os conceitos matemáticos que pretendem que os seus alunos aprendam. Os materiais podem ser um desafio para lidar. Suydam. Transformar em finalidade de hoje que os alunos sejam parte activa no ensino da matemática requer uma renovação no modo de organizar e ensinar na aula de matemática. Isabel Vale. para facilitar a aprendizagem. ajuda os alunos a compreender significativamente conceitos abstractos. 1994. os alunos interiorizam e visualizam melhor quando trabalham com vários modelos.ESEVC 24 . 1990. 1986) há necessidade de saber como utilizá-los. 1973.

Ou então o problema das Sete Pontes de Königsberg que consiste em determinar um percurso que cruze todas e cada uma das pontes uma e uma só vez. Por outro lado os alunos deverão ter tempo suficiente para trabalhar com os materiais manipuláveis. Já nos métodos de Decroly o jogo desempenhava um papel muito importante. 
O
Jogo
 Uma actividade que muitas vezes é associada com os materiais manipuláveis são os jogos. Podemos referir dois exemplos históricos de como a resolução de determinados desafios propostos a matemáticos deram origem a novos ramos da Matemática. vertente lúdica para o ensino da Matemática. e que foi proposto a Pascal. proposto por Euler (séc. em muitos casos. mais do que uma fonte de trabalho. descoberto novos campos e modos de pensar da matemática. XVII) que consiste em saber como devem ser as apostas de dois jogadores de dados. Desde sempre que os matemáticos deram uma atenção muito especial aos jogos participando activamente neles e a partir daí têm. pois ficam libertos da “ansiedade matemática”. Não só para a introdução de determinado conceito mas também na resolução de actividades investigativas. Um é o problema do Cavaleiro de Méré (séc. onde surgem novas ideias matemáticas. Os alunos devem usar os materiais activamente e com regularidade. Isabel Vale.ESEVC 25 . Caso contrário serão sempre uma curiosidade e uma fonte de confusão na sala de aula. XVIII) tendo a sua solução constituído o início de um novo ramo da Matemática: a Teoria dos Grafos e com ela a Topologia. Da correspondência tida entre este e Fermat surgiu a moderna Teoria de Probalidades.Materiais Manipuláveis Constata-se que quando os alunos usam materiais começam a gostar de matemática.

Assim como nem todos os jogos servem para desenvolver competências e destrezas matemáticas. 1991). Contudo a introdução dos jogos na sala de aula tem dividido educadores. O potencial dos jogos é quase inesgotável e podem ser utilizados com vários propósitos. Segundo Ponte (1986) a importância social adquirida nos últimos anos pelo divertimento e procura de prazer tem levado a que os jogos e outras actividades lúdicas comecem a ser vistas como potenciais contribuições para o processo de aprendizagem. estes podem ser uma boa combinação educacional para o ensino da matemática.Materiais Manipuláveis O aspecto lúdico da Matemática pode servir como um meio muito eficaz de motivação a todos os níveis de ensino e para todos os alunos. pp. 34. 39.ESEVC 26 . fazem referência ao recurso de jogos (e. o jogo pode tornar o trabalho mais motivante. agradável e. estimulante. para alguns. até apaixonante. aspecto tão importante em matemática. 18.g. Os que se opõem a essa introdução estão preocupados com o facto de os alunos poderem adquirir uma imagem negativa da Matemática como disciplina. Matos (1986) refere que as situações problemáticas colocadas por muitos jogos permitem explorações didácticas muito Isabel Vale. Os programas de Matemática. Os outros defendem que os jogos podem desenvolver no aluno o poder de comunicação. Seria desejável que os professores aprendessem a aproveitar os estímulos e motivações que este espírito do jogo pode ser capaz de difundir junto dos alunos (Guzmán. Apesar de existirem diferenças substanciais entre a prática do jogo e a matemática. em particular os do 2º ciclo do ensino básico. Quando se pretende iniciar os alunos na Matemática. 41) contemplando o aspecto lúdico da Matemática como componente metodológica a utilizar nas aulas de Matemática quando referem que se considera importante a descoberta da dimensão lúdica da Matemática integrando nesta perspectiva actividades desafiadoras para o aluno e por eles aceite com prazer. assim como familiarizá-lo com sistemas axiomáticos através das suas regras.

Quando Usá-los Em relação aos anos de escolaridade. Apesar de nem todos os jogos serem propícios a desenvolver conceitos e destrezas matemáticas. Uma revisão de literatura sobre a utilização dos materiais manipuláveis no ensino da matemática efectuada por Sowell (1989).1972. ou seja. Outros estudos dizem que os materiais manipuláveis são benéficos para as crianças mais novas mas que são Isabel Vale. Kieren. Mais do que o jogo em si é a atitude do professor e a sua capacidade de dinamizar actividades de “investigação” a partir dele que pode fazer da utilização dos jogos uma actividade com um valor educacional relevante. na escolaridade obrigatória. desempenham um papel bastante importante na aula de matemática. Brousseau. 1973.Materiais Manipuláveis ricas relacionando diferentes conteúdos matemáticos. Alguns estudos deixam as conclusões sobre a eficácia dos materiais para os leitores (Beougher. 1969). o entusiasmo com se envolvem criando um ambiente bastante activo quando em determinados momentos se lhes propõem jogos didácticos. Penso que todos nós já vivenciámos quer com alunos crianças quer com alunos adultos. Parece existir unanimidade quanto ao sucesso dos materiais manipuláveis com crianças durante os anos mais elementares. pode ser resumida no seguinte. A pratica dos jogos contribui favoravelmente para o desenvolvimento matemático associado a um desenvolvimento pessoal e social do aluno. o que já não acontece em relação a anos posteriores. além de induzir uma componente de motivação nos alunos.1967. Fitzgerald.ESEVC 27 . proporcionando momentos de aprendizagem interessantes e provocando discussões que podem levar quer a novas aprendizagens quer a novas atitudes e representações dos alunos face a uma matemática que de uma forma geral lhes parece desprovida de realidade.

As destrezas e conceitos introduzidos a alunos mais velhos aumentam de complexidade. pois aprender Matemática requer dos alunos de todas as idades uma participação activa. por exemplo multibase. Em relação aos conteúdos.ESEVC 28 . Podemos dizer que a regularidade do seu uso estará na razão inversa do nível em que se encontra. podem ter também bons resultados noutros ambientes de aprendizagem (Vance & Kieren. Segundo afirmam Hart et al.1978. para conseguir adicionar (este conceito está já adquirido ao nível abstracto) terão necessidade de modelos concretos para introduzir. Os materiais não são só necessários para os níveis mais elementares. Outros referem que os alunos que aprendem bem Matemática em ambientes laboratoriais onde os manipuláveis são usados. mas aumentarão com certeza a sua compreensão dos conceitos e Isabel Vale. Sowell. 1972. 1971). contudo este é um uso bastante limitado dos materiais. 1974). por exemplo. Wilkinson. muitos educadores acreditam que o uso de materiais concretos no ensino da Matemática é crucial indiferentemente da idade de quem aprende com eles. enquanto os alunos do 2º ciclo já não precisam de material manipulável. outros estudos referem que os manipuláveis têm mais sucesso do que se não fossem utilizados. Os manipuláveis são frequentemente usados para actividades numéricas nos primeiros anos de escolaridade. a multiplicação de números fraccionários ou para descobrir determinadas relações geométricas. Quer isto dizer que os alunos mais novos necessitarão de mais tempo e mais actividades com materiais concretos do que os outros. Por exemplo. 1989).Materiais Manipuláveis desnecessários para as mais velhas (Fennema. Friedman. em qualquer nível da escolaridade obrigatória (Suydam &Higgins. 1977. Eles são importantes na abordagem dos mais variados temas e desde o jardim de infância até ao ensino secundário. Alguns alunos poderão não necessitar sempre ou mesmo nunca dos materiais para ter sucesso. mas qualquer aluno de qualquer idade beneficiará da sua utilização no momento certo. (1981). Por fim.

Sabemos como o número inteiro foi para os pitagóricos uma configuração de pontos. idealizando uma imagem visual do número. necessitam de fazer parte integrante do dia-a-dia da aula de matemática. do conceito matemático ou das ideias a ser exploradas.ESEVC 29 . Foi baseando-se nestas configurações que os pitagóricos descobriram “harmonia” entre os números. tão próximo quanto possível. Reys (1982) sugere algumas qualidades que os materiais manipuláveis devem possuir para que possam ser utilizados com algum sucesso. outros irão ter de manipular mais vezes o material e efectuar mais actividades para lá chegar. Se os materiais forem utilizados correctamente e frequentemente os alunos poderão adquirir conceitos matemáticos sólidos. Os materiais devem (1) proporcionar uma representação. Outro uso dos materiais muito comum é em actividades de remediação com alunos que não percebam determinado conceito depois do professor ter explicado várias vezes. Eles podem ser importantes. (3) ser motivantes. (5) proporcionar uma base para a abstracção. (2) representar o conceito matemático sem ambiguidades. sobre os quais nos podemos apoiar visualmente. mas não como último recurso. não apenas como técnicas de remediação. Castelnuovo (1978) refere que uma das dificuldades existente no ensino da Aritmética em contraste com a Geometria deve-se à falta de figura.Materiais Manipuláveis das situações problemáticas se os utilizarem. Muitos deles passarão rapidamente para o nível abstracto apenas com a exemplificação do professor. do desenho. propriedade aritmética. Esta maior abstracção do estudo dos números em relação às figuras conduziu desde a Antiguidade a aproximar os dois campos. do “modelo”. Na verdade. (4) ser adequados aos conceitos que se estão a abordar e ao nível de escolaridade a que se destinam. e (6) proporcionar manipulação individual. ainda que Isabel Vale.

deve-se. É importante para os alunos nos anos iniciais cortar e colorir partes de um todo quando são solicitados a identificar ou adicionar números fraccionários. que resulta das propriedades das figuras. Esta dificuldade manifestada pelos alunos deste nível não deve ser surpresa atendendo à complexidade dos conceitos envolvidos. 1992). É igualmente importante para um aluno manipular números fraccionários quando se está a aprender a multiplicar ou a dividir números fraccionários. no estudo dos números fraccionários. em relação ao estudo dos números fraccionários. Bezuk e Cramer (1989). barras Cuisenaire. Depois tornar a dobrar o papel em metades e colorir uma metade numa cor diferente.ESEVC 30 . Post. por exemplo.. M. Harel. Esta actividade ajudará os alunos a compreender que o produto de duas números fraccionários é menor do que um ou ambos os factores]. [Antes de multiplicar 1/2 x 1/3. Bezuk (1988) refere que muitas das dificuldades que os alunos Isabel Vale. deixar o aluno dobrar papel em terços e colorir um terço. que irão permitir modelar um número fraccionário e operações com números fraccionários (Behr. G.Materiais Manipuláveis oculta. e Lesh. dobragens de papel. etc. pois ajuda os alunos a construir referências mentais que lhes permitirão desempenhar tarefas com números fraccionários com significado. T. É o caso. encorajam os professores a usar um ensino que envolva activamente os alunos recorrendo ao uso de manipuláveis antes do trabalho formal com símbolos e operações. R.. As cores sobrepostas corresponderão a 1/6.. Aprender números fraccionários é uma das tarefas mais difíceis para os alunos do ensino básico. O uso de manipuláveis é crucial no desenvolvimento do conceito de. Uma maneira de ultrapassar esta dificuldade é usar manipuláveis variados como por exemplo: círculos. por exemplo. blocos padrão. substituem-se demonstrações geométricas por procedimentos algébricos. Existem tópicos onde os manipuláveis se revestem de extrema importância.

apesar de conhecerem as regras e os procedimentos para dividir por 1/2. recorrendo a manipuláveis. com espírito de investigação. mas sim as transformações que se efectuam sobre ele. A ideia principal é que os conhecimentos geométricos se adquirem pelo contacto e manipulação das figuras. sugere um ensino em que qualquer opção de estratégia utilize material manipulável além dos correntes materiais de desenho assim como sugere abordagens através de uma grande variedade de situações problemáticas. este ensino parece não ter tido impacto no que os professores ensinam ou no que os alunos aprendem. desde os níveis mais elementares até ao secundário. Fennema e Franke (1992) ao analisarem um estudo efectuado com alunos da formação inicial sobre o estudo dos números fraccionários detectaram que estes futuros professores. sobre um modelo que permaneça estático.ESEVC 31 . Então não é o material em si o objecto de atenção. para um ensino da geometria intuitiva de carácter construtivista um desenho é insuficiente havendo por isso necessidade de recorrer a bases concretas. Isto porque a Geometria pelas suas possibilidades de concretização. Para que um modelo atraia a atenção é necessário que seja móvel.Materiais Manipuláveis manifestam quando trabalham com manipuláveis são devidas ao seu uso inadequado e ao serem postos de lado demasiado cedo. E é através de uma série contínua de tentativas . Conforme Castelnuovo (1978) refere. aparentemente foram incapazes de traduzir esse conhecimento numa forma que pudesse ajudar os alunos a compreender o conceito. A atenção de um aluno não se detém.o que não é possível com o desenho Isabel Vale. Apesar de estes alunos durante a formação terem tido um ensino onde se trabalhou várias representações de números fraccionários. As transformações que se vão operando no material é que levam o aluno a conhecer as propriedades de uma figura. Os materiais manipuláveis são usados com bastante sucesso no ensino da Geometria.

com as suas barras em 1952 e Gattegno com o geoplano em 1954.Dedução formal — a geometria é entendida como um sistema axiomático Isabel Vale. enquanto que os outros níveis. O estudo no ensino secundário das secções planas de alguns sólidos. abstracção) — as propriedades são ordenadas logicamente Nível 3 . permitindo conhecimentos mais sólidos e duradouros do que aprendê-la apenas por memorização. Os três primeiros níveis têm relevância para a geometria escolar.Dedução informal (ordenação. Deduzir a expressão da área do círculo. mesmo começando com o cubo. é muito mais interessante e significativa. Nível 0 (nível básico) . que descrevem as características do processo do pensamento (Quadro 1). Os van Hiele consideram que a aprendizagem da geometria se desenvolve numa sequência de cinco níveis de compreensão: Visualização. Em relação ao ensino da Geometria e das suas relações com os manipuláveis é de referir a teoria proposta pelos van Hiele (Dina e Pierre). facilitando o passo do concreto para o abstracto. são verificados em trabalhos de matemáticos. reveste-se de grandes dificuldades para os alunos sobretudo quando têm de determinar secções planas efectuadas sobre eles. Dedução formal e Rigor. Dedução informal. sobretudo o último.ESEVC 32 . Análise.Visualização — as figuras são entendidas de acordo com a sua aparência Nível 1 . Esta aparece quando materiais hoje bastante comuns tinham acabado de aparecer.Análise — as figuras são o conjunto das suas propriedades Nível 2 . No entanto os modelos físicos neste caso ajudam bastante. através da manipulação de círculos que se cortam em sectores.Materiais Manipuláveis que os alunos descobrem relações e propriedades. tema bastante importante porque põe em relação a geometria espacial com a geometria do plano. mas só por volta de 1984 é que se tornam acessíveis traduções para inglês de alguns dos seus trabalhos mais importantes. Cuisenaire.

Rigor — os sistemas axiomáticos são estudados Quadro 1. Segundo Crowley (1987) os van Hiele defendem que o progresso dos alunos é feito através de níveis mais dependentes do ensino que recebem do que da idade ou maturidade. sem serem vistas redundâncias. Contudo. Se um aluno está no nível 2 e o professor utiliza uma linguagem do nível 3 o aluno não percebe. dois lados são menores. o modelo assegura que o aluno se move sequencialmente a partir do nível inicial ou básico (visualização) onde o espaço é simplesmente observado . Níveis de Aprendizagem de Geometria De acordo com experiências apropriadas de ensino. que diz respeito aos aspectos formais da dedução. No nível 1 o aspecto visual começa a perder importância e reconhece a figura pelas sua propriedades as quais lista. Com vista ao que propõem. Utilizará expressões do tipo “é um paralelogramo com quatro ângulos rectos”. indicam cinco fases sequenciais de aprendizagem: (1) Informação. rigor. com quatro ângulos rectos. No nível 0 o aluno baseia a sua resposta num contexto visual e é capaz de o reconhecer entre outras figuras. pois a comunicação é impossível. por exemplo.ESEVC 33 . baseando-se nas relações entre teoremas. lados opostos paralelos. o método e organização do ensino assim como os conteúdos e materiais usados são áreas importantes a considerar durante esse processo. dois lados são compridos.Materiais Manipuláveis Nível 4 . é entendido diferentemente pelo aluno nos vários níveis.as propriedades das figuras não são explicitamente reconhecidas. é fechada.” No nível 2 o aluno tenta listar o menor número de propriedades. Utiliza expressões do tipo “é parecido com uma porta”. até ao mais alto nível. Eles pressupõem que há diversos níveis de aprendizagem e que a passagem de um nível para o seguinte deve ocorrer através de uma sequência de fases de ensino. Na perspectiva desta teoria um rectângulo. No nível 3 o aluno procura provar o facto dedutivamente. Isabel Vale. etc. Utiliza expressões do tipo “tem quatro lados.

os alunos obtiveram um nível novo de pensamento. olhando para inclusões e implicações. papel com malha (quadriculado.. etc.. No nível 2 (Dedução informal) as propriedades começam a ordenar-se.) ou construindo (usando geoplanos. dobrar e construir formas geométricas. os alunos expressam os seus conhecimentos sobre o que observaram. Devem providenciar-se aos alunos oportunidades de manipular. (3) Explicação. Os autores afirmam que a criança deve ser confrontada com uma grande variedade de experiências geométricas. construir figuras com paus. (2) Orientação dirigida. e indicar o que é Isabel Vale.. São feitas observações e perguntas e é introduzido vocabulário específico neste nível. paralelogramo para rectângulo. os alunos exploram os tópicos a estudar através de materiais que o professor sequencialmente introduz. que podem ser completadas de várias maneiras. desenhar figuras.ESEVC 34 . (4) Orientação livre.. os alunos revêem e resumem o que aprenderam. sobre os objectos a estudar. por exemplo. de modo a formarem uma rede de conhecimentos sobre os objectos e as suas relações. as formas geométricas são reconhecidas com base na sua aparência física como um todo. palhinhas ou com manipuláveis. blocos padrão. No fim desta fase. colorir.. Devem providenciar-se aos alunos oportunidades de estudar relações desenvolvidas no nível 1. geoplanos circulares ou recortes). colorir. Devem providenciar-se aos alunos oportunidades de medir. . cortar. trabalhar no geoplano. dando bastante importância à utilização de diversos materiais sobretudo nos primeiros níveis. (5) Integração. triangular. O papel do professor é mínimo. mudar um quadrilátero para trapézio. trapézio para paralelogramo. Criar formas copiando figuras em papel ponteado. modelar e pavimentar a fim de identificar propriedades das figuras e outras relações geométricas. No nível 1 (análise) as propriedades das figuras surgem a partir das formas.Materiais Manipuláveis fase de diálogo e actividade entre professor e aluno. os alunos exploram actividades mais complexas. No nível básico (visualização). baseando-se nas suas construções. dobrar.

Isabel Vale. é importante considerar quer as estruturas internas que os alunos já possuem quer as actividades na sala de aula que conduzem à construção de relações entre as representações internas. A razão apontada é que as crianças aprendem melhor quando as ideias são apresentadas com materiais concretos. Devem providenciar-se aos alunos oportunidades de identificar informação sugeridas por figuras. Na perspectiva destes autores. sobretudo recorrendo a materiais concretos. Consequentemente. acredita-se que quer situações reais quer representações concretas ou pictoriais ajudam os alunos a compreenderem determinados conceitos matemáticos abstractos (Fennema e Franke. dizer que uma criança compreende determinado ideia que lhe é apresentada com materiais concretos é dizer que a criança construiu relações que conduzem a uma estrutura de conexões contendo representações dos materiais e as suas interacções com eles. Isto pode acontecer por duas razões: ou representando os materiais de modo que estes os liguem com estruturas já existentes ou então construindo relações que conduzam à reorganização de estruturas. algumas investigações efectuadas parecem não ser muito conclusivas quanto à eficácia dos materiais concretos na sala de aula. 1992). Hiebert e Carpenter (1992) apresentam algumas razões que ajudam a compreender alguns dos efeitos ambíguos da interacção com os materiais concretos. identificar o que é dado e o que se pretende provar. usar várias técnicas de demonstração. Apesar do apelo intuitivo ao uso dos materiais. Contudo. Algumas reflexões Durante anos tem-se recomendado a utilização de várias formas de representação de conceitos matemáticos no processo de ensino-aprendizagem.Materiais Manipuláveis requerido em cada uma das transformações. No nível 3 (Dedução formal) a natureza da dedução é compreendida.ESEVC 35 .

Quando o professor Isabel Vale. não será fácil para eles relacionarem as suas interacções com os materiais com as estruturas já existentes. mais apoio contextual existe para os alunos construírem as conexões pretendidas. fazem com que se compartilhem variadas discussões. por um material ser mais distante do que outro das intenções pretendidas não significa necessariamente que tenha menos utilidade.Materiais Manipuláveis Sobre a ineficácia dos materiais em determinadas situações aqueles autores apontam duas razões para esse facto. muitas das vezes existente. o material concreto toma as características de um símbolo arbitrário em vez de uma concretização natural. ao proporcionarem objectivos diferentes. Os materiais. Quer isto dizer que a comunicação que se estabelece na sala de aula é fundamental pois vai permitir que os alunos se foquem nas relações que pretendemos. A interacção que se estabelece é um poderoso meio de captar a atenção dos alunos e que se centra na troca de experiências. Neste último caso. entre o material concreto e as relações matemáticas que pretendemos que eles representem. A correspondência entre as relações pretendidas na situação e os materiais concretos pode ir desde uma correspondência muito próxima contextualmente reforçada a uma distante com poucas pistas de apoio. quanto mais próxima a correspondência entre as características mais evidentes dos materiais e as relações matemáticas. Contudo. A primeira diz respeito à distância. resultados negativos com os materiais concretos podem aparecer devido a duas características das actividades desenvolvidas na sala de aula nas quais os alunos se envolvem.ESEVC 36 . Eles não interpretam os materiais do modo que o professor espera que o façam e o uso de materiais concretos dará possivelmente origem apenas a conexões inadequadas. Por um lado. Por outro lado. se os alunos não trazem com eles os conhecimentos que o professor espera. A segunda característica das actividades que podem ajudar a explicar a eficácia do uso de materiais concretos na compreensão dos alunos tem a ver com o contexto social em que os materiais são usados.

a sua eficácia (ou não) na ajuda à compreensão pelos alunos (pp. no Isabel Vale. do seu ponto de vista. contudo ele não tem garantia de que os alunos vejam as mesmas relações nos materiais que ele. Contudo não é aconselhável utilizar o mesmo modelo para a multiplicação uma vez que tentar concretizar a situação com o mesmo material é bastante artificial e complicada. É na interacção com os materiais e dos alunos com alunos sobre os materiais que estes serão capazes de construir. as relações pretendidas. além do quadro preto o material que se utilizava era o livro de texto. Por exemplo. que era único. através de discussões na aula.ESEVC 37 . Muitas vezes força-se a utilização de um modelo concreto para introduzir. as barras chinesas permitem justificar os resultados aos alunos. e mesmo com agrado. 7071). tornando-se a tarefa muito mais simples se recorremos a justificações com base noutras propriedades. clarificar ou justificar determinados conceitos ou propriedades. pelo menos em parte. A acrescentar a estas considerações diria o seguinte. Digo força-se pois o que sucede é que o modelo em vez de ajudar a clarificar muitas vezes só complica a situação. Mais tarde. Por este facto o contexto social no qual os materiais são usados podem influenciar. Só através das discussões que se geram na sala de aula é que professor e alunos podem falar sobre as possíveis relações e chegar aquelas que são de interesse para o fim em vista. não havia mais nada. A Investigação em Portugal Quem frequentou o ensino primário na década de 60 talvez recorde que nas aulas de Matemática desse tempo.Materiais Manipuláveis selecciona determinado tipo de materiais. é porque pensa que são importantes. no conjunto dos números inteiros relativos quando se introduz a adição de números com o mesmo sinal ou de sinais contrários.

Mais tarde. Na segunda metade da década de 80 são várias as sessões realizadas. Não há referência a investigações efectuadas especificamente sobre os materiais manipuláveis no processo ensino-aprendizagem da matemática. para divulgação das potencialidades educativas de alguns materiais sobretudo do geoplano. sobretudo de 1989 e 1991. Em Portugal. realizaram-se várias sessões sobre os materiais manipuláveis no ensino da matemática onde foram debatidas questões relacionadas com a sua utilização e referidas experiências realizadas com sucesso no ensino básico e também no secundário. sobretudo pelos professores que tinham obtido pós-graduações nos Estados Unidos na época áurea dos “manipulativos” na década de 80. formal ou informalmente. Contudo os materiais manipuláveis foram introduzidos de uma forma sistemática e generalizada nas então acabadas de instalar Escolas Superiores de Educação. com pelo menos um destes materiais didácticos: o material Dienes. houve uma equipa liderada por Vítor Pereira (do Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian) que trabalharam conceitos matemáticos a partir de materiais manipuláveis entre eles as barras Cuisenaire e o material Dienes assim como outros materiais não estruturados. o único material manipulável eram os sólidos geométricos. não tenham tido contacto. a calculadora e o computador. o geoplano. nos anos 70. e sobretudo nos Profmats (Encontros Nacionais de Professores de Matemática). além do livro de texto. um pouco por todo o país. e só nas aulas de Desenho e de Ciências. fins da década de 70. Há poucos alunos durante o seu percurso escolar obrigatório que.Materiais Manipuláveis Liceu. contudo Isabel Vale.ESEVC 38 . Hoje a realidade é diferente. Nos Profmats. vulgarmente chamado de material multibásico. A partir de então os manipuláveis são estudados com maior ou menor ênfase nas disciplinas de Didáctica da Matemática para o ensino básico. só tinha à sua disposição os sólidos geométricos e um círculo trigonométrico enorme pregado nas paredes que muito poucas pessoas usavam. quem começava a leccionar.

Loureiro e Serrazina. Costa (1985) fez uma investigação onde. Isabel Vale. A maioria dos professores inquiridos (cerca de 331) dizia utilizar as barras cuisenaire. 1995) Fernandes (1985b) fez um estudo sobre as necessidades de formação dos professores do 1º ciclo de Viana do Castelo. A autora conclui que as escolas destes professores não estavam equipadas com materiais educativos e os poucos que estavam disponíveis não eram muito usados. entre outros aspectos. na maior parte. necessidades de formação e/ou a importância atribuída aos materiais. estudou as necessidades de formação dos professores de matemática do 2º ciclo da Ilha da Madeira. Pires. 1993 e 1998) um no ensino secundário e 3º ciclo (Rodrigues. Estes estudos envolveram grande número de professores e onde foram diagnosticadas. Analisemos algumas dessas investigações. enquanto que outros materiais como o geoplano e o material multibásico raramente eram utilizados na sala de aula por todos os professores por desconhecimento. 1985b. 1993) e um que envolveu professores de todos os anos de escolaridade (APM.Materiais Manipuláveis existem algumas investigações que envolveram ou fizeram referência aos manipuláveis. Costa. 1994. 1985. 1990. Os materiais mais frequentemente usados eram o retroprojector.ESEVC 39 . por conseguinte os professores recorriam ao uso de materiais muito raramente. 1998). Esta última conclusão mostra a necessidade de formação a nível dos materiais que foi manifestada por aqueles professores. Apenas dois estudos trabalharam com alunos (do 2º ciclo) e os temas tratados foram os conceitos de área/perímetro e números fraccionários (Fernandes. menos de metade dos professores dizia utilizar os blocos lógicos. A maior parte dos estudos desenvolveu-se com professores do ensino básico (Fernandes. Serrazina. Em relação ao conhecimento e à utilização que fazem dos materiais manipuláveis na sala de aula constatou que geralmente são mal conhecidos pelos professores e que são pouco usados nas suas aulas.

As perguntas do questionário. sobretudo nos dois primeiros. (1990) fez um estudo com alunos do 5º ano de escolaridade. Isabel Vale. calculadoras e retroprojector eram muito pouco utilizados. Os materiais manipuláveis.Materiais Manipuláveis seguidos de formas e sólidos geométricos. no final da unidade didáctica. constatou que aqueles professores privilegiavam o uso do quadro e o giz. Num desses métodos usou materiais manipuláveis. o valor da matemática e o gosto pela matemática. Fernandes. cadernos de exercícios e fichas de trabalho.ESEVC 40 . não foram encontradas diferenças significativas entre os métodos utilizados. a matemática escolar. Destes estudos concluiu que. seguido do livro de texto. onde procurou avaliar a eficácia de três métodos de ensino na aprendizagem do conceito de número racional. embora a percentagem de acordo com a utilização das calculadoras seja menor do que com os outros materiais. Através deste questionário foi detectado que a maioria dos professores concorda com a utilização dos materiais (manipuláveis e calculadoras) no processo ensino-aprendizagem. a que os professores tiveram de responder. do 3º ciclo e secundário. H. educação matemática. que estavam relacionadas com materiais foram respondidas por uma percentagem muito baixa de professores o que leva a concluir que a omissão de respostas se deve ao facto de que os professores não estavam familiarizados com eles. Serrazina (1993) efectuou um estudo com professores do 1º ciclo baseado num questionário cujos vários itens estavam agrupados em cinco categorias: a natureza da matemática. sobre o ensino da matemática. Rodrigues (1993) num estudo que efectuou sobre as perspectivas dos professores. noutro materiais e computador e o terceiro era o método tradicional. talvez devido a uma falha na sua formação académica.

Neste sentido recomenda que para o estudo destes conceitos se deve diversificar as abordagens e proporcionar aos alunos situações de aprendizagem em que estes tenham oportunidade de experienciar e discutir. modelos em cartolina.ESEVC 41 . geoplano. saber como os alunos encaram a utilização de materiais na sua aprendizagem matemática. Contudo estes professores não conseguiram sensibilizar os seus colegas para uma nova forma de ensinar matemática. Este estudo teve como objectivo. materiais de uso corrente e calculadoras. Os materiais utilizados foram a régua e esquadro. Com base em dois estudos de caso as autoras concluem que dois dos professores de uma escola do 1º ciclo são entusiastas da utilização dos materiais manipuláveis no ensino aprendizagem da matemática e consideram inconcebível a aprendizagem da matemática sem o suporte de materiais. Pires (1994a. entre outros. puzzles.Materiais Manipuláveis Loureiro e Serrazina (1994) participaram num estudo de natureza qualitativa entre 1991 e 1995 no âmbito de um projecto intitulado Utilização de Materiais na Resolução de Problemas cujo objectivo foi produzir materiais que possam contribuir para o desenvolvimento da resolução de problemas e da utilização de materiais manipuláveis no ensino da Matemática para o 1º ciclo. Quando são utilizados modelos concretos os alunos apresentam melhores desempenhos. 1994b) investigou as concepções e processos de resolução de problemas relacionados com os conceitos de área e de perímetro em alunos do 6º ano de escolaridade. reflectindo-se essa complexidade quer nas concepções e processos de resolução mais diversificados quer em maiores dificuldades na comunicação dos seus pontos de vista. Em relação á utilização de materiais. para o qual os alunos responderam a um Isabel Vale. O estudo conclui que para a maioria dos alunos a área revelou-se um conceito mais complicado do que o perímetro (surgindo algumas confusões quando abordados em conjunto). Vão até mais longe ao afirmarem que a formação de professores deve contemplar a manipulação de materiais.

com os quais se pode aprender facilitando-lhes a aprendizagem e a realização de actividades com autoconfiança Preferem ambientes de aprendizagem onde se trabalha em grupo e se utilizem materiais. O quadro para aqueles professores tem-se mostrado adequado e suficiente para as suas necessidades lectivas. Consideram os materiais interessantes e divertidos. entre outros aspectos. o seu ensino e os materiais didácticos” sobre as concepções de professores do 1º ciclo. O estudo das atitudes dos alunos em relação ao uso dos vários materiais mostra que nunca ou quase nunca têm dificuldades em os utilizar. Para eles os materiais não estimulam o desenvolvimento de conceitos por parte dos alunos. Serrazina (1998) desenvolveu em profundidade um estudo com três professores do 1º ciclo do ensino básico em que o principal objectivo era compreender as complexas relações que existem entre concepções. Foi constatado que todos aqueles professores mudaram as suas visões sobre o ensino e aprendizagem da matemática e tentaram fazê-lo de modo a que os seus alunos se envolvessem em Isabel Vale. em particular a resolução de problemas e os materiais manipuláveis. pois não são vistos como importantes. Os materiais que os alunos preferiram foram o geoplano e os puzzles. Neste estudo. Nos dois professores que acompanhou detectou que a utilização dos materiais manipuláveis no processo de ensino-aprendizagem é quase nula. e as suas práticas lectivas. Neste estudo a autora acompanhou aqueles professores durante três anos e analisou a sua evolução. pode concluir-se o seguinte. consideram-nos sobretudo um meio de motivação. Ribeiro (1995) fez um estudo “A Matemática.ESEVC 42 . conhecimento e práticas lectivas. desenvolveu um programa de formação com o objectivo de promover a utilização de materiais manipuláveis pelos professores. como eles viam o novo currículo.Materiais Manipuláveis questionário. A evolução de cada professor foi estudada em relação a três aspectos principais: com a matemática e a educação matemática.

Em relação à utilização dos materiais didácticos utilizados pelos professores na sua prática lectiva concluiu que o manual adoptado é utilizado com muita frequência por cerca de 80% dos professores de todos os níveis de ensino. nomeadamente os materiais manipuláveis entre outros. apesar das fortes recomendações dos programas. Segundo estes autores esta reduzida utilização de materiais está na tradição de ensino que valoriza a exposição pelo Isabel Vale.cerca de 90% dos professores em cada ciclo raramente os utilizou. Ponte e al. ainda estão pouco integradas nas práticas pedagógicas. Pelo menos todos aumentaram a sua autoconfiança em ensinar matemática e a sua motivação para mudar as suas visões. Mais recentemente o projecto Matemática 2001 (APM. 1998) efectuou um estudo sobre o ensino e aprendizagem da Matemática nos diversos níveis de ensino básico e secundário. Uma das justificações dadas para este facto é de que as escolas estão mal apetrechadas com este tipo de material e aquelas que eventualmente o têm ou foi construído na própria escola ou trazido pelos professores ou alunos. As novas tecnologias.ESEVC 43 . com excepção dos tradicionais quadro e giz e eventualmente de manuais escolares. As mudanças parecem estar relacionadas com a resolução de problemas e o papel dos manipuláveis no ensino e aprendizagem da matemática. Em relação aos materiais manipuláveis e jogos didácticos a frequência de utilização é muito baixa em qualquer dos ciclos . Estes autores recomendam que a prática pedagógica deve utilizar situações de trabalho que envolvam contextos diversificados e a utilização de materiais que proporcionem um forte envolvimento dos alunos na aprendizagem. (1998) num estudo que efectuaram sobre a investigação efectuada em Portugal nos últimos dez anos concluíram em relação à utilização de materiais didácticos que se utilizam muito pouco.Materiais Manipuláveis actividades através do uso de manipuláveis.

baseando-se no conceito de ensino activo onde as crianças deviam “fazer matemática”. Pode-se constatar pelo documento Overview and Analysis of School Mathematics Grades K-12. que designaremos por relatório NACOME. que foi elaborado pela comissão NACOME (National Advisory Comittee on Mathematics Education) entre 1974 e 1975. e sendo assim aqueles devem constar dos currículos de Matemática. Segundo Sowell (1989) os materiais manipuláveis já eram contemplados nos currículos de matemática dos anos 30. As investigações que utilizaram os manipuláveis no processo de ensino-aprendizagem de determinados conceitos não é conclusiva em relação aos seus benefícios.Materiais Manipuláveis professor e a resolução de exercícios em detrimento de modos de trabalhar que favoreçam o protagonismo do aluno no processo de aprendizagem. o que está também de acordo com resultados internacionais. DavaIsabel Vale. que havia então uma grande dose de entusiasmo em relação a actividades de laboratório e uso de materiais manipuláveis para os níveis de escolaridade K-12. Os resultados indicam que o uso de materiais manipuláveis na sala de aula é reduzido e à semelhança do que acontece noutros países os professores optam pelo uso do quadro e giz.ESEVC 44 . Destas investigações pode-se inferir que se tem estudado muito pouco o uso de materiais manipuláveis no ensino da matemática escolar e aquela que existe privilegia o 1º ciclo. Para isso contribuía um tipo de ensino em que a aprendizagem necessitava de interacção com os materiais e dos alunos com alunos. Recomendações Programáticas e Curriculares A importância do uso dos manipuláveis há muito que tem sido reconhecida pelos educadores matemáticos.

continuou-se a dar importância a estes materiais reforçando a ideia de que devem ser dadas amplas oportunidades aos alunos para manipularem fisicamente objectos. cubos. transferidores. Mais recentemente as Normas continuam a defender os manipuláveis para os anos 90. computadores e materiais concretos. Um projecto mostrou que durante 23 anos alunos de todos os níveis gostaram mais e melhoraram as suas atitudes quando ensinados por professores que tinham formação específica no uso de materiais e actividades de laboratório. compassos. papel ponteado) (p. Por isso recomendam que as salas de aula devem estar equipadas com calculadoras. Este encorajamento continuou através dos anos 70. nos anos 60. Nos anos 80 a An Agenda for Action (NCTM. não são suficientes para ensinar e aprender matemática. Mais tarde. 1980) continuava a defender o uso dos manipuláveis. 80)”. réguas. escalas. dizendo que o NCTM publicava há 50 anos um livro sobre a importância dos manipuláveis na educação matemática. por muito bons que sejam. Numa revisão da investigação feita por Suydam e Higgins (1976) estes autores concluíram que a importância do uso dos manipuláveis era defendida numa grande variedade de tópicos e em qualquer nível de ensino. geoplanos. Uma vez que as Normas tiveram uma grande influência na elaboração dos Programas Nacionais vejamos mais de perto estes dois documentos. Worth (1986) dá uma panorâmica geral sobre o que se passa em relação aos manipuláveis nos Estados Unidos. Esta recomendação é baseada no facto de que “as crianças são indivíduos Isabel Vale. Havia propostas de que a instrução regular era enriquecida com o uso de alguns materiais manipuláveis para darem corpo a algumas ideias matemáticas mais abstractas.ESEVC 45 .Materiais Manipuláveis se ênfase a fazer matemática mais do que simplesmente aprender matemática. As Normas (1991) são claras quando referem que os livros de texto. “Todas as salas de aula estarão apetrechadas com conjuntos de materiais manipuláveis (por exemplo. placas.

As Normas 2000 (1998) continuam a defender os manipuláveis para todos os níveis a par da tecnologia e de outras ferramentas como um modo de os alunos se envolverem activamente na aprendizagem da matemática Sendo os professores responsáveis pela qualidade das actividades matemáticas em que os alunos se envolvem. Os professores têm de criar um ambiente que encoraje as crianças a explorar.21)”. 133 referem que “ Os alunos descobrem relações e desenvolvem o sentido espacial ao construírem. medirem. logo devem ser ensinados a usar estes materiais para ajudar as crianças a aprender matemática. desenvolver. transformarem e classificarem figuras geométricas”. materiais manipuláveis. faz várias referências à necessidade de se utilizarem materiais Isabel Vale. Têm de usar frequentemente materiais manipuláveis em actividades que impliquem o raciocínio de forma a fomentar a aprendizagem de ideias abstractas (p.). programas de computador. Devem começar por saber que existe uma grande de variedade de materiais para o ensino da Matemática: colectâneas de problemas. O que dizem os programas oficiais em relação aos materiais não é diferente do que dizem as Normas. as Normas Profissionais (1994) referem que os professores devem valorizar e encorajar a utilização de diversos instrumentos mais do que dar demasiada ênfase aos símbolos matemáticos convencionais. modificam e integram ideias interagindo com o mundo físico. testar. através das suas publicações sobre as orientações de implementação dos novos programas aquando da Reforma em 1991. Mais à frente na p. compararem. Assim sendo é evidente que a aprendizagem da matemática deve ser um processo activo (.ESEVC 46 . Têm de ouvir as crianças atentamente e guiar o desenvolvimento das suas ideias.. com os materiais e com outras crianças. desenharem. discutir e aplicar ideias. visualizarem. O Ministério da Educação. fichas com exercícios..Materiais Manipuláveis activos que constroem. calculadoras. puzzles. livros de texto e outros.

o programa (ME. No 3º ciclo. o programa refere na p. características estas eminentemente favoráveis à aprendizagem. o programa (ME. 1991a) de Matemática.. Na edição sobre a organização curricular e programas (ME.129 que “sendo os objectos de Matemática entes abstractos é importante que os conceitos e relações a construir possam ter um suporte físico. 1990) refere na Introdução que devem ser dadas oportunidades aos alunos de realizarem experiências de aprendizagem activa (. Vejamos em particular o que se pode ler no respeitante ao 2º ciclo do ensino básico. modelos de sólidos Isabel Vale.ESEVC 47 . Em particular ao longo do tema Geometria são feitas bastantes referências ao uso de materiais manipuláveis. Se por um lado a manipulação do material pode permitir a construção de certos conceitos. por outro lado pode servir também para a representação de modelos abstractos desses conceitos”.Materiais Manipuláveis manipuláveis dos mais variados tipos na implementação dos novos programas de Matemática para o ensino básico. Mais à frente também referem a importância que alguns jogos podem ter no desenvolvimento de competências necessárias à resolução de problemas a par do enorme prazer que proporcionam. Na disciplina de Matemática nos suportes de aprendizagem. de modo a permitir-lhes descobrir relações e propriedades entre os elementos estudados. 1991b) refere que um programa que se pretende ligado à experiência e à intuição pressupõe a possibilidade de largo uso de materiais diversificados entre eles os manipuláveis. na Introdução podemos ler “No 2º ciclo é indispensável a manipulação de materiais variados (objectos de uso corrente. No 1º ciclo.. Entendendo que as aprendizagens activas pressupõem que os alunos tenham oportunidade de viver situações estimulantes de trabalho escolar que vão da actividade física e da manipulação de objectos e meios didácticos à descoberta permanente de novos percursos e de outros saberes. podendo coexistir aspectos lúdicos e de interesse prático.) que garantam efectivamente o direito ao sucesso escolar de cada aluno.

1991d) na secção das observações e sugestões metodológicas também são diversas as referências à sua utilização ao longo dos vários conteúdos. utilizando o geoplano. etc. Sólidos Geométricos....). 17).. etapa fundamental da actividade matemática”(p.. podem facilitar a intuição. No 1º tema do 5º ano. 35).materiais simples do quotidiano(. Ao longo das sugestões metodológicas são feitas as seguintes referências no âmbito da Geometria. Construção de Quadriláteros. No 3º tema.36 “ O uso de materiais como o geoplano. tangram. Áreas.) como suporte de actividades de exploração que favoreçam a formulação de conjecturas.. estimular a realização e a validação de conjecturas. aprofundar e ampliar os seus conhecimentos sobre áreas. lê-se “(. palhinhas. Mais à frente na secção Recursos diz “Um programa que se pretende ligado à experiência e à intuição pressupõe a possibilidade de largo uso de materiais diversificados: . 166).) o retomar da aprendizagem já feita no 1º ciclo permitirá aos alunos duma maneira informal.”(p. faz referência também a materiais estruturados “(.148). . Mais à frente. Isabel Vale.. Mais à frente é referido que “os alunos devem manipular modelos de sólidos enquanto disso sentirem necessidade”. em papel ponteado. não só nos conteúdos do âmbito da Geometria mas também no âmbito do Número.ESEVC 48 ...” (p. o papel quadriculado. levar à descoberta da desigualdade triangular. o papel ponteado. é indispensável para a exploração deste tema [simetrias]”. . e na p. geoplanos. pequenas barras de cartolina e tachas. No Programa de Matemática para o 5º e 6º anos de escolaridade do ensino básico (ME. puzzles.Materiais Manipuláveis geométricos. (.materiais de desenho e medição.. pode-se ler “A utilização de material manipulável como por exemplo. 20). no 3º tema.)”(p. através de actividades de desenho em papel quadriculado. no 6º ano.) a manipulação de objectos de uso corrente e de modelos de sólidos geométricos deve ser o ponto de partida para o estudo a realizar [Identificar e descrever sólidos geométricos]”(p.

Isabel Vale. quando em particular referem que o desenvolvimento desta capacidade envolve “a construção material de objectos. Há conteúdos onde a sua abordagem deve ser feita exclusivamente pela via experimental recorrendo a materiais. 111.. É. 24). Números Racionais. As referências nos programas oficiais em relação à utilização e diversificação de materiais no ensino da matemática no ensino básico é bastante clara.. como no caso do cubo ou outros sólidos geométricos. o que vimos de uma maneira mais pormenorizada no caso do 2º ciclo..ESEVC 49 . geoplano. No 5º ano. calculadoras. 131. podemos ler “O estudo dos números fraccionários deve incluir diferentes tipos de representações gráficas. Noutros casos a sua utilização é indispensável por exemplo no caso das simetrias e noutros são referidos apenas como sugestões e a manipulação por parte do aluno é feita apenas enquanto tiver necessidade disso. Sugere-se ainda a utilização de materiais manipuláveis: sectores circulares em papel.Materiais Manipuláveis No âmbito do Número as referências aos materiais são mais modestas. Esta é uma visão ampla. . multibásicos.)” (p. material Cuisenaire. (1999) sobre a Matemática na Educação Básica defende a construção e manipulação de materiais... Mais recentemente Abrantes et al. Estas referências são apontadas como indispensáveis e indissociáveis da actividade matemática e fazem parte integrante do processo de construção do conhecimento por parte do aluno.). por exemplo. apesar de serem sugeridas por outros organismos: Por exemplo em Normas (1991) recomenda-se o uso de manipuláveis em diversas situações numéricas (pp. de desenhos geométricos com regra e esquadro e de construções no computador” (p. no 6º tema.85). o caso da descoberta da fórmula que relaciona o perímetro de um círculo com o seu diâmetro. 122. Muitos dos materiais referidos são do quotidiano mas outros são mais estruturados podendo ser adquiridos no mercado ou então elaborado pelo aluno como é o caso por exemplo do Geoplano e do Tangram.

Isto por um lado por outro há a concepção de que os materiais assim como o recurso à intuição devem estar presentes apenas no ensino da matemática nos anos mais elementares..). Penso que a introdução sobretudo dos materiais manipuláveis de forma explícita veio desafiar uma concepção dos professores e tentar quebrar uma certa relutância que grande parte dos professores deste nível de ensino tinham sobre o ensino da Matemática com recurso a materiais manipuláveis. É esta a concepção que parece prevalecer ainda hoje. material para o estudo da Geometria (sólidos geométricos construídos em diversos materiais: placas. e em Isabel Vale. 11º e 12º anos e aqui os recursos a serem utilizados também são bastante variados e para além das calculadoras gráficas que fazem parte integrante do processo ensino-aprendizagem..ESEVC 50 . Ainda sugere à semelhança do que existe em algumas Escolas Superiores de Educação e Universidades que deve tender-se para a constituição nas escolas Secundárias de Laboratórios de Matemática que integrem estes recursos e outros que se venham a revelar necessários. aparecem os computadores e os materiais manipuláveis. calculadoras gráficas. pois nos outros os assuntos devem ser tratados de um modo mais formal..)”. 10 “A Didáctica prevista para a Matemática no ensino secundário pressupõe a possibilidade de uso de materiais e equipamentos diversificados como por exemplo: material de desenho para o quadro e trabalho individual. palhinhas. no âmbito da Geometria a visualização espacial só pode ser "treinada" através de uma componente experimental e esta passa obrigatoriamente pelo recurso a materiais manipuláveis. computadores. mais dedutivo. arames. para estes professores os manipuláveis não são vantajosos para os alunos pois "infantilizam" o ensino e tratam os assuntos como fossem conceitos “menores”. acetatos. entre outros. plástico.Materiais Manipuláveis No ano lectivo de 97/98 foi introduzido o programa ajustado de Matemática para os 10º. etc. quanto mais formal for o ensino mais importante este é. É de referir que. por exemplo. Com efeito. Assim podemos ler na p.

tem também muito a ver com as concepções que o professor tem sobre a matemática e o seu ensino e aprendizagem.ESEVC 51 . Contudo apesar de também haver recomendações nesse sentido dos programas oficiais de matemática para todos os níveis de escolaridade até ao 12º ano. O reconhecimento da importância de actividades práticas recorrendo a materiais manipuláveis com vista à atribuição de significado a uma ideia passando gradualmente à exposição clara dessa ideia abstraindo do material. mas não só. de um modo mais eficaz quando recorrem a materiais manipuláveis e se lhes dá oportunidade de interagirem uns com os outros. sobretudo nos níveis iniciais de escolaridade. foi defendida ao longo dos tempos em educação matemática por vários autores (e. Isto poderá ser uma consequência da falta de conhecimento e de familiaridade com os manipuláveis.Materiais Manipuláveis qualquer nível de escolaridade. Síntese Os alunos parecem aprender Matemática. aspecto este que está ligado à visão que o professor tem da sua profissão. Bruner. Isabel Vale. Gattegno. Montessori. ainda não há uma prática eficaz nesse sentido nas nossas escolas.g. Piaget). e por este motivo estes podem ter sentido em qualquer nível de escolaridade. onde a maior parte dos professores não os utilizam com os seus alunos. segundo uma perspectiva construtivista. Pestalozzi. Como refere Alsina (1990) que o uso de materiais não é uma questão de idade mas sim de uma eficaz utilização docente. Os materiais permitem que os alunos reflictam sobre as suas experiências e comuniquem uns com os outros originando uma aprendizagem mais significativa e duradoura.

e não um fim em si mesmo”. por um lado. se o professor não tiver sólidos conhecimentos científicos e didácticos.15) “Usar materiais manipuláveis no ensino da matemática é sempre um meio para atingir um fim. Apesar destes resultados devemos continuar a utilizá-los mas com a convicção de que eles não são a panaceia para todos os problemas de aprendizagem em Matemática. p. que aquele que aprende a considere não como um trabalho. conhecimentos sobre a sua utilização e potencialidades e se não permitir que o aluno tenha um papel activo e reflexivo na construção do seu saber permitindo que discuta com ele e com os colegas sobre as tarefas propostas.ESEVC 52 .Materiais Manipuláveis O aspecto lúdico é importante no processo de aprendizagem. pois como refere Pimm (1995. Isabel Vale. Algumas das investigações efectuadas parecem não ser muito conclusivas quanto à eficácia dos materiais concretos na sala de aula. Contudo de nada valerão se. por isso os materiais quando associados ao jogo poderão proporcionar momentos agradáveis com um forte envolvimento dos alunos — a situação ideal de aprendizagem (embora possa ser questionável) é aquela em que a actividade é de tal modo agradável. assim os materiais poderão ser um suporte valioso na sala de aula sobretudo para actividades problemáticas e para a comunicação matemática entre os alunos. mas como um jogo. Não esquecer também que a organização e ambiente de trabalho na sala de aula será completamente diferente da aula tradicional. por outro. o aluno não os quiser utilizar e. Há temas que serão bastante mais complicados de introduzir se não tiverem um suporte físico para o fazer.

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Apartado 513 4901-908 Viana do Castelo Tel: 258.ESEVC 55 .ipvc.ese.Materiais Manipuláveis Escola Superior de Educação de Viana do Castelo Avenida Capitão Gaspar de Castro.pt email: geral@ese.806 200 Fax: 258 806 209 http:// www.pt Isabel Vale.ipvc.

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