FORMAÇÃO DO CRIMINOSO

Hipólito Matos - 2014
Uma das preocupações do mundo atual é com o aumento da
criminalidade. Observa-se que as pessoas cada vez mais se trancam
dentro de suas próprias casas, com medo da violência que se instalou na
sociedade.
Parte integrante dessas condições depende de políticas públicas
sobre o moderno direito penal:
Alguma questão de violência justifica que o legislador, em um Estado
de Direito, prescreva uma pena à realização de determinado
comportamento. Dessa forma, atribui-se a qualidade de crime à
conduta assim assinalada. Porém, a relação do ‘criminólogo’ com os
conflitos violentos não fica compreendida apenas dessa maneira: as
próprias prescrições realizadas pelo legislador contêm uma dose
elevada de violência. (ANITUA, 2008, P. 31-32).

De acordo com Anitua (2008), a questão da violência deve ser
vista não apenas sob o enfoque das penas. Um estudo criminológico do
indivíduo buscando os fatores que contribuem para a formação da pessoa
criminosa teria resultado mais efetivo na redução da criminalidade, visto
que, o modelo punitivo existente contêm medidas violentas sem soluções
concretas para o problema.
Além

da

identificação

dos fatores

que

levam

indivíduos

cometerem crimes, devem ser associadas políticas públicas como
instrumento de inserção, de forma justa e igualitária. Associado a isso se
faz necessário elaboração de legislações, doutrinas e jurisprudências que
deem conta da realização de um Direito sempre mais célere e justo.
Os fatores determinantes para a prática de crimes podem estar
relacionados tanto com fatores interno como com fatores externos.
Relacionados aos fatores internos estão os de cunho biológico,
psicológico e psiquiátrico.
A antropologia (biologia criminal) segue a escola positivista que
tem como seu precursor o médico César Lombroso classificando o
criminoso em seu aspecto biológico. Na concepção de Lombroso, existia
uma tipologia antropológica que definia o “criminoso nato”.

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realizou pesquisas em hospícios e presídios. saudável ou neurótico. o médico-legista. objetivando a forma originária do crime. Os precursores do estudo da criminologia foram os médicos. 2010).A psicologia reconhece a importância do cérebro humano na conduta do comportamento: “Este conjunto de conhecimentos. Fatores psicológicos que influenciam os indivíduos no comportamento criminoso estão relacionados à neurose. citado por Peter-Alexis. guardados na célula nervosa do cérebro humano. praticando benemerências ou crimes. a persecução penal segue o caminho a seguir: 2 . As crenças vão sendo substituídas por verdades científicas e as transformações aumentam a produtividade proporcionando mais conforto à vida das pessoas. a formação de cada indivíduo ocorre através das várias experiências ocorridas ao longo da vida. Conforme Peter-Alexis (2010). tendo como método a medição dos criminosos. Lombroso acreditava que havia diferenças físicas do criminoso ao comparar diferentes criminosos e doentes mentais através de pesquisas antropométricas. 1980. Conforme Lombroso (1894.” (PRATA. algumas vezes com fundamentos estranhos. com o surgimento dos primeiros criminólogos. orgulhoso ou frustrado. forma a personalidade intelectual e moral do homem. com defeitos e virtudes. que buscavam uma explicação para o crime na formação congênita ou hereditariedade dos indivíduos. 135). a psicose e a perversão. diferente de cada indivíduo. Época em que a ciência possibilitava avanços técnicos ao progresso e cada vez mais rápidos. A Justiça Criminal utiliza o sistema penal de forma seletiva procurando identificar os comportamentos antissociais apresentados pelos indivíduos. fazendo de cada um deles um ser peculiar. A prisão é o local de nascimento da criminologia. Cesare Lombroso. Conforme PRATA (1980). p. Conforme Webwe (1989) e Scheerer (1992) (citado Peter-Alexis 2010) a Criminologia como ciência empírica surgiu no final do século XIX. influenciando seu comportamento explicando de certa forma suas atitudes diante da sociedade.

formação escolar e profissional. rosto ou profissão. educação. Posteriormente Juan Vucetich descobriu um método de identificar as pessoas fisicamente consideradas. teórico francês. “Durkheim via o crime e o desvio como fatos sociais. da subcultura. (Peter-Alexis. posição sócio-estrutural. são variáveis centrais de determinação. 176). em caracteres morfológicos cromáticos e individuais. Assim a criminologia deixa de estudar as causas da criminalidade e passa a estudar os processos de criminalização. Foi o primeiro método cientifico de identificação civil e criminal. A psiquiatria considera três campos importantes para o estudo da formação social dos indivíduos: o cognitivo. Baseia-se em métodos antropométricos do esqueleto e do corpo. tendo em vista o seu crescimento e desenvolvimento. finalmente. Augusto Comte (1798-1857). afirma Giddens (2005. p. produzem o ‘homo juridicus criminalis’. um dos principais teóricos funcionalistas. Algumas teorias segundo (Giddens. especialmente quando ficam mais complexas. cria a corrente de pensamento denominada de positivismo quando percebeu a necessidade de um estudo científico da sociedade. acreditava que ambos fossem elementos inevitáveis e necessários nas sociedades modernas”. das técnicas de neutralização e do etiquetamento . 221). Para Michel Foucault (2012 – pag. A sociedade procura identificar através de seus trajes. Origem. o afetivo e o psicomotor. o crime é normal nas sociedades. explicam a causa da criminalidade como a atributiva. José Taborda. por meio dos desenhos formados pelas cristas papilares da derme nas extremidades dos dedos. que controlam a filtragem no Sistema de Justiça Criminal e. “os condenados são tomados como bodes expiatórios servindo como espetáculos para a população no sentido de dar exemplos punindo os que cometem delitos”. Controle social informal já é amplamente realizado na área procedente.O jurista penal precisa saber que a persecução penal se apresenta como um processo de seleção progressiva. A identificação utilizando a medicina como meio de controle foi idealizado por Aphonso Bertillon (Paris.1978). aduzem: 3 . 2010 – pag. 2005). Elias Abdalla e Miguel Chalub. Para Durkheim. 245).

bioquímica. o afetivo e o psicomotor. segregação e outros males usualmente associados à pobreza ou à discriminação de cor e gênero”. 28). anatomia. exclusão. Zaluar (2004. 2012. É por meio das ciências biológicas. psicológicas e sociais que o médico adquire o saber que lhe permitirá exercer a medicina nos moldes e parâmetros científicos. dominação. histologia. fisiopatologia. os processos mentais e a personalidade de cada indivíduo fazendo uma associação da relação com a família. p. (José Taborda. microbiologia. sociologia. biofísica. psicopatologia e psiquiatria para entender a formação da personalidade dos indivíduos. ou áreas indissociáveis entre si: o cognitivo. os desejos. 245). Ao considerar as atitudes individuais das pessoas é necessário ter em mente o cuidado de verificar não só os aspectos biológicos. exploração. Para identificar essas reações deve-se considerar o comportamento humano. os sentimentos. O medo da criminalidade violenta na opinião de Zaluar (2004. mas também as emoções. fundamentado na citologia. imunologia. ou seja. fisiologia. Conforme Egberto Zimmermann o ato criminal é decorrente de um processo de percepção e apreendido pelo indivíduo: 4 . mas porque também foram violentados pelo estado. 234) explica que “a violência é sinônima de desigualdade. p. p. O domínio cognitivo é a expressão do conhecimento intelectual e científico do médico. a sociedade e a influência das múltiplas culturas. motivações e inclinações. não é meramente porque eles querem ser violentos. genética. Elias Abdalla e Miguel Chalub. psicologia e sociologia.O exercício da medicina deve compreender três domínios. pela própria sociedade e principalmente por policiais despreparados. estaria vinculado às posições assumidas diante dos pobres pelos políticos e representantes encarregados da ordem pública e da lei As maneiras de ser do criminoso não são iguais. O que faz um criminoso ser diferente do outro? Porque aconteceu? Porque desenvolveu? O direito penal não dá conta de resolver e utiliza-se de outras disciplinas como a psicologia. Os jovens que se utilizam da violência nas suas ações criminosas.

os objetos são armazenados no cérebro sendo posteriormente usado no caso de uma rememoração. supervisão estressante. Ou seja.. agentes socializadores por excelência. (José Taborda.A passagem do ato criminal seria. (Egberto Zimmermann – p. as condições econômicas e políticas. Essa percepção tem como determinantes o propósito. 90). e não pela sua simples vontade. Quando percebemos alguma coisa. Elas agem de acordo com as situações externas vivenciados. são os responsáveis primordiais pela transmissão dos padrões culturais. que seria independente de qualquer condição material. a religião. Na perspectiva histórico-cultural. Elias Abdalla e Miguel Chalub. Se forem desordens de conduta (agressividade. a densidade da população. p. 99). entre outros. abuso físico e moral e correção influenciada pelo humor. sobretudo (mas não exclusivamente). o sistema psíquico. e. um processo de aprendizagem das comunicações e definições favoráveis ao crime. que contribuiriam para a escolha da prática criminal. O indivíduo é produto também do meio em que está submetido. ideológicos e morais. Os pais. selecionaria as ideias. Todas as crianças apresentam algum distúrbio de comportamento em alguma fase da vida. como pobreza. São as atitudes dos pais que criam um clima psicológico-emocional através do comportamento dos pais. portanto. Fatores como a pobreza. Elias Abdalla e Miguel Chalub: Assim a família passou a constituir uma unidade sociológica. Na concepção José Taborda. que se daria através de um ‘processo altamente seletivo e contingente que se faz pela associação do sistema psíquico às ideias disponíveis. Digneffe e Pires. disciplina relaxada. incumbida de transformar organismos biológicos em seres sociais. com a ajuda das interações face a face com pessoas próximas’ (Debuyst. a atenção. ‘todo indivíduo é formado nas e por meio das relações sociais. Esse estilo muitas vezes desenvolve práticas negativas que devem ser evitadas como: punição inconsistente (ausência de rigidez nas regras). O estilo parental constitui nas práticas educativas parentais utilizadas pelos responsáveis objetivando educar. a justiça. 2012. a consciência e o pensamento. a falta de emprego aliados a falta de educação. socializar e controlar o comportamento dos filhos. constituição biológica etc. as condições da família. disponíveis no ambiente. Os fatores sociais culturais existentes como os costumes. 2008:385). 5 . falta de formação moral levam os indivíduos a falsa representação da realidade. são responsáveis pela formação das pessoas.

A resiliência pode ser trabalhada para que alcance um desenvolvimento desejável em cada indivíduo. o sentimento de esperança. a confiança. ”a resiliência é a capacidade de sair vencedor de uma prova que poderia ter sido traumática. que permitam enfrentar problemas e resolvê-los. demonstram hostilidade e rejeição. a independência. as crianças não estruturam de forma saudável suas relações afetivas e autoestima. no qual os pais são desajustados ou inconsistentes à disciplina dos filhos. Lei 7. adquirindo a capacidade de prever as consequências. as relações sociais. 6 . O Código Penal Brasileiro. a sociabilidade. sem seus artigos 26. Conforme Marie Anaut (2005). a autonomia. violência e negligência desenvolve um comportamento distorcido e conforme sua formação por ter um comportamento vitimizado. antissocial ou resiliente.209/1984. 27 e 28. aprendem a ser agressivas e violentas com os outros. estabelece normas legais disciplinadores sobre inimputabilidade. (BEE. com uma força renovada”.delinquência) geralmente estão inseridas num meio familiar desequilibrado. 1984). Para isso é necessário estimular a autoestima. Todo indivíduo submetido durante seu desenvolvimento a pressões. Como consequência.

Porto Alegre: Artmed. ANAUT. Universidade Federal de São Carlos. V. 2008. – Curitiba: ICPC. Artmed. Ed. José G. Helen.Cérebro e Violência . . Integração Perversa: Pobreza e tráfico de drogas. Histórias dos Pensamentos Criminológicos. – Rio de Janeiro: Revan: Instituto Carioca de Criminologia. 2005. Anthony. Climepsi Editores.in. 2015. Alba. Ballone GJ. 1984. Marie. Crit. ANITUA. 7 .. 2002. São Paulo. A criança em desenvolvimento. São Paulo: Sugestões Literárias S/A. Gabriel Ignacio. Internet. BRANDENBURG. tradução de Juarez Cirino dos Santos. Elias Abdalla. Egberto. VADE MECUM. José Antonio Damásio. disponível em www. mesológica. sociológica. 2005. 3. Psiquiatria Forense. Saraiva. 6ª Ed.br. Identificação de Estilos Parentais: o ponto de vista dos pais e dos filhos. 1. A Resiliência – ultrapassar os traumatismos. ed. Vitorino Prata Castelo. ZIMMERMANN. 2011. Zaluar. Olivia Justen. Criminologia e Natureza Humana : possíveis contribuições da psicologia evolucionista para o estudo da criminologia – Porto Alegre – Núbia fabris. FILHO. 2010. BRANCO. 4ª Ed. São Paulo/SP. PsiqWeb. Rio de Janeiro: FGV. 2ª ed. Teoria da Percepção no Behaviorismo Radical. 2004.. 2012. . São Paulo: Editora Harper & Row do Brasil Ltda. Porto Alegre. Uma Fundamentação para o Direito Penal. Sociologia. Porto Alegre. Peter Alexis. – 1ª Edição.med. Psicol. 1980. Rio de Janeiro: Lumen Juris. BEE. Criminologia: biológica. Reflex. GIDDENS.ª ed. Helena Schiessl Cardoso.REFERÊNCIAS ABIB. Moura EC .psiqweb. Março de 2005. ALBRECHT.. Tradução Sérgio Lamarão. vol 17 no. Lisboa. Tradução Emanuel Pestana.acesso em: 20 de abril de 2014. TABORDA.

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