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MINERAÇÃO DESTRÓI NOSSOS RIOS E AGORA MATA NOSSO POVO

Brigadas Populares Minas Gerais, 6 de novembro de 2015

O rompimento de uma barragem de rejeitos de minério de ferro da empresa Samarco

Mineradora S.A. inundou, na tarde de quinta-feira (5), Bento Rodrigues, o subdistrito de Santa Rita

Durão e distrito de Mariana – MG. De acordo com dados do Comitê Brasileiro de Barragens, o rompimento ocorrido hoje pode ser o mais grave já registrado no Brasil.

De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Extração de Ferro e Metais de Mariana (Metabase), são estimados 15 mortos e 45 desaparecidos no subdistrito de Bento Rodrigues. Ainda segundo dados do Corpo de Bombeiros de Ouro Preto, há gente soterrada e ilhada.

A água lamacenta e contaminada invadiu Bento Rodrigues, chegou também no distrito de

Santa Rita Durão e há indícios de que tenha atingido outros distritos na região. Para o coordenador das Promotorias de Defesa do Meio Ambiente de Minas Gerais, Carlos Eduardo Ferreira, ‘trata-se de uma tragédia sem precedentes na história de Minas”.

A falta de responsabilidade e preocupação socioambiental das empresas responsáveis pelas

atividades mineradoras, entretanto, é recorrente. Moradores de Mariana passam por problemas constantes de falta d’água, nuvem de poeira, especulação imobiliária e uma série de outros transtornos gerados pela mineração na região. Importante frisar também que essas mesmas empresas utilizam nossas águas de forma irresponsável em pleno momento de crise hídrica no país e violam, diariamente, uma série de direitos humanos em atividades que priorizam apenas o lucro.

Em nota ao G1, a empresa Samarco afirmou que não é possível confirmar a causa e extensão do ocorrido. De acordo com o coordenador do Núcleo de Combate aos Crimes Ambientais do Ministério Público, Carlos Eduardo Ferreira Pinto, barragem não se rompe por acaso. O Ministério Público pretende instaurar um inquérito civil para apurar as causas do rompimento e propor uma ação contra os responsáveis.

centro da cidade de Mariana e os

desabrigados estão sendo encaminhados para a Arena Mariana. Colchões, roupas, fraldas descartáveis, água mineral e produtos de higiene pessoal estão sendo recolhidos no local.

Os distritos que margeiam as áreas de mineração, como é o caso de Bento Rodrigues, são regiões duramente abandonados pelo poder público e pelas grandes empresas mineradoras. As assistências mais básicas não percorrem a distância que separa esses lugares do resto do mundo. Quando chegam, ficam pouco, vão logo embora para não mais voltar. Os moradores de Bento Rodrigues foram brutalmente atravessados pela lama do capital, da ignorância, da fúria sem nome que respiramos assiduamente nos dias de agora. É sintoma de um mundo desenfreado que não sabe para onde vai, assim como a água suja e tóxica que derrubou paredes tão frágeis e inocentes.

A barragem fica localizada a cerca de 25 km do

Dilma usa o FGTS para 'repartir os custos' da tragédia com a empresa Samarco

Bernardo Aratu, Belo Horizonte

Quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Oito dias depois da tragédia em Mariana a presidente Dilma do PT lançou um decreto que utiliza o FGTS da população para repartir os custos da tragédia de Mariana, de responsabilidade das empresas Samarco, Vale e BHP.

A notícia se espalhou após muitas denúncias nas redes sociais. A justificativa de que as

causas do rompimento seriam naturais serve para a utilização do FGTS e como forma de amparo às vítimas. No entanto o decreto gerou indignação contra o governo Dilma, uma vez que deveriam ser as empresas e seus ricos acionistas os que pagassem os brutais danos sociais e ambientais e não os trabalhadores com seu fundo de garantia.

A medida da presidência é o decreto número 8572, que altera outro decreto anterior, de

2004, incluindo o parágrafo único no artigo segundo. “Parágrafo único. Para fins do disposto no inciso XVI do caput do art. 20 da Lei nº 8.036, de 11 de maio de 1990, considera-se também como natural o desastre decorrente do rompimento ou colapso de barragens que ocasione movimento de massa, com danos a unidades residenciais”.

Esta alteração vai permitir que trabalhadores saquem seus fundos de garantia por se pressupor que estão em situação de emergência. O governo do PT teve como intenção fazer parecer que esta seria uma boa notícia, já que os trabalhadores teriam mais dinheiro para recomporem suas vidas. Mas, na verdade a medida foi contestada por muitas pessoas nas redes sociais por significar que serão os próprios trabalhadores, com dinheiro de seu trabalho, os que pagarão muitas das suas necessidades emergenciais, quando empresas bilionárias, como a Vale, privatizada no governo FHC, são as responsáveis pelos acontecimentos.

O acidente está gerando situações de caos pelo Estado de MG, com destruição brutal de

recursos ambientais e consequências sociais ainda inestimáveis. Em cidades como Governador Valadares o abastecimento de água está quase totalmente interrompido e há relatos de que [galões de água com vinte litros chegam a custar dez reais. A Vale disse que ajudaria com envio de água, mas ao fazê-lo chegou ao absurdo de enviar água contaminada por querosene. O decreto de Dilma pode garantir que estes preços absurdos, que podem ser ainda mais brutais no caso de agravamento da crise que levasse a deslocamentos massivos de moradores, sejam pagos pelos próprios trabalhadores, com seus fundos de garantia.

Mais esta medida mostra que após a tragédia as empresas responsáveis através dos governos vem ganhando diversos privilégios, ao invés de pagarem a altura pelo que causaram. Dentre os privilégios das mineiradoras estão:

Controlam a região da tragédia: Em conjunto com o Estado, a PM e o exército, as mesmas que são denunciadas pela tragédia controlam a cena da tragédia, o que é um contra-senso, já que as mesmas são acusadas de serem responsáveis, e portanto as possivelmente culpadas estariam controlando a cena do crime e podendo interferir nas próprias investigações.

São “julgadas” por seus próprios “políticos funcionários”: Nas últimas semanas foram criadas três comissões parlamentares para acompanhar e apurar o ocorrido. Em todas elas grande parte dos membros receberam importantes doações das mineiradoras.

No Câmara dos Deputados 13, em um total de 19 membros receberam doações em valores que chegam a 500 mil reais. Na Assembléia Legislativa de Minas Gerais são 5, dos 9 membros, com valores que chegam a 368 mil reais. Na Assembléia Legislativa do Espírito Santo são 7 dos 15 membros financiados por um valor total de 428 mil reais. As informações são do site UOL.

Segundo o site da revista Carta Capital todos os principais partidos receberam doações da Vale, sendo PMDB, PT e PSDB os que mais ganharam, com valores de 23,5 milhões, 8,2 milhões e 6,9 milhões respectivamente.

O governo do Estado de Minas Gerais foi dirigido pelo PSDB nos últimos 12 anos e desde

início de 2015 está sendo governado por Pimentel do PT, que após a crise foi ironizado nas redes sociais como funcionário do ano, por dar coletiva de imprensa na sede da Samarco. Em ambos governos vem sendo travada uma luta para ainda maior flexibilização das licenças ambientais para barragens, já consideradas extremamente débeis por especialistas, além de totalmente ignoradas em várias ocasiões. No governo Dilma o partido que mais recebe das mineradoras, o PMDB, está no controle do ministério das Minas e Energia e de importantes departamentos sobre o assunto.

Governos atuam a favor dos interesses das mineradoras

Com tanto poder e interesse econômico dos bilionários empresários estrangeiros na região, a vida da população é extremamente pobre. As cidades e o campo na região possuem elevados níveis de problemas de saúde pública, falta de infraestrutura urbana e rodoviária, exploração semi- escrava e terceirizada do trabalho, dependência ao álcool e drogas fruto do trabalho desumano na mineração, e uma série de outras mazelas sociais.

Todos estes problemas conservam um teor racista, uma vez que a atividade mineradora historicamente está ligada à escravidão na cidade e no campo de Minas Gerais e estes traços permanecem na estrutura social da região, com a população negra local sofrendo com as piores condições de trabalho e moradia.

O diferencial da situação atual pós tragédia é que estes problemas se revelam aos olhos de

todos. Esta realidade é tão evidente que a grande mídia dos ricos se esforçam para desviar do assunto as denúncias que escancaram que o conteúdo perverso desta tragédia está na natureza do

capitalismo. E que neste marco os governos Dilma, Pimentel, assim como os tucanos que os antecederam nas esferas federal e estadual (em MG), funcionam como verdadeiros representantes do s interesses destas empresas e sua ganância destrutiva pelo lucro.

Apenas a organização independente destes governos e empresários, de trabalhadores junto de todo o povo da região, através de sindicatos, organizações camponesas, de moradores, ambientais, direitos humanos, de estudantes, e com especialistas que coloquem seu conhecimento a serviço de um plano de emergência, financiado totalmente pelos lucros e confiscos dos bens dos empresários da mineiração pode trazer justiça e dignidade aos atingidos por essa tragédia.

Matéria redigida para o site Esquerda Diário,

Revista Tamoios— Julho / Dezembro 2005, Ano II, nº02

A Ideologia do Desenvolvimento Sustentável: notas para reflexão

Resumo

Leandro Dias de Oliveira *

O Desenvolvimento Sustentável desponta atualmente como novo parâmetro de organização econômico-social para todos os países (centrais e periféricos), com base na proposta de uso racional dos recursos naturais para a satisfação das necessidades das gerações presente e futura. Este potente discurso, que vem reunindo inúmeros defensores, é uma ideologia, porque mantém a dominação de classe e a alienação, enxergando a Natureza como mercadoria.

Palavras-chave: desenvolvimento sustentável, ideologia, alienação, natureza

Introdução

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Introdução

As controvérsias sobre desenvolvimento sustentável costumam impingir, a inúmeros estudiosos, conclusões simplistas e implacáveis, que rapidamente se propagam, mas dificilmente atacam o cerne do problema. Isto porque

a estratégia utilizada é discutir a “questão ambiental” como percalço do capitalismo, em que a criação de técnicas e

dispositivos seria declarada como solução para esta questão. Estes dispositivos são paliativos claudicantes, por não

atacarem com primazia as reais causas do exacerbado consumo da natureza.

Torna-se mister realizar considerações sobre o capitalismo, bem como elucidar sua apropriação da natureza como combustível, transformada em mercadoria e voltada para a obtenção de lucros. Objetivamos efetuar uma dis- cussão crítica sobre as asserções que os ideólogos burgueses buscam propagar.

Mas, para profanar um conceito como o Desenvolvimento Sustentável, necessitamos trabalhar criticamente todo seu aparato de manifestação ideológica, que muitas vezes é esvaziado e transfigurado por aqueles que objeti- vam justamente que todos sigam, de forma hipnótica, a cartilha do pensamento dominante.

Um Breve Histórico do Desenvolvimento Sustentável

A idéia embrionária do conceito de Desenvolvimento Sustentável advém do pensamento conservacionista de

Gifford Pinchot, nos Estados Unidos no século XIX (Diegues, 1996, p.29). O conservacionismo é uma concepção de uso adequado e criterioso dos recursos naturais, de forma racional, voltado para o benefício da “maioria dos cida- dãos”. Pinchot trabalhava com a idéia de transformação da natureza em mercadoria, questionando somente o ritmo

veloz da apropriação de seus recursos (Diegues, 1996).

O primeiro estudo que resgata estas idéias conservacionistas1 e coloca definitivamente a destruição sistemá-

tica dos “recursos naturais” na pauta de discussões geopolíticas é o livro Limites do Crescimento (Meadows, 1973), efetuado por um grupo de estudiosos, entre cientistas, educadores, economistas e industriais, reunidos em Roma

para estudar os “problemas da humanidade” e suas “conseqüências para o futuro” (Meadows, 1973).

O denominado Clube de Roma tinha como objetivo primordial trabalhar a problemática do aumento populacio-

nal e a pressão exercida por este crescimento na destruição dos ecossistemas e dos recursos não-renováveis (Lemos, 1991, p.4). Este estudo apontava como solução a busca do equilíbrio global – uma espécie de planejamen-

to mundial para a manutenção do capitalismo com menor aridez de seus resultados humanos e ecológicos. A gêne- se do conceito de Desenvolvimento Sustentável já estava embutida em toda esta discussão, na busca por um “equilíbrio que fosse sustentável em um futuro longínquo” (Meadows, 1973, p. 162).

Sob a influência deste tom sombrio de Limites do Crescimento, que indicava um possível colapso da “(re) produção natural” e destacava a fome, a poluição e o crescimento demográfico como vilões da humanidade, ocorre

a Primeira Conferência Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente (1972), em Estocolmo (Suécia). A maior pre-

ocupação desta conferência era criar uma coalizão internacional “para conter a poluição em suas várias for- mas” (Evaso et al., 1992, p. 94), e ainda estimular os governos nacionais para a criação de “políticas ambientais”

que evitassem o agravamento da degradação ambiental ou restaurassem os padrões de qualidade de água, ar e solo. Já os recursos não-renováveis deveriam “ser utilizados de forma a evitar que o perigo de seu esgotamento futuro e assegurar que toda a humanidade participe de tal uso” (Jungstedt, 1999, p. 7).

Esta discussão sobre o uso dos recursos naturais obedecia à lógica de manutenção da reprodução do capital, destacando-se o interesse de obstruir o crescimento dos países ditos subdesenvolvidos e estimulá-los a seguir a cartilha dos países mais poderosos.

Entretanto, mal acabara a conferência em que salientou-se a importância dos recursos naturais para a máqui- na capitalista, e ocorre um fato que era motivo de grandes preocupações para os países centrais um enfrentamento com países periféricos, através do que conhecemos como crise do petróleo.

O choque causado pelo aumento dos preços e pelo embargo árabe às exportações do petróleo ao Ocidente

gerou uma crise de proporções gigantescas, pois debilitou o consumo de energia e desestabilizou os mercados fi- nanceiros mundiais (Harvey, 1992, p. 136). O “choque do petróleo” foi o resultado da decisão da Opep de exigir va-

lores mais elevados pelos recursos naturais de seus membros (Carvalho, 1997, p. 112). Esta decisão adicionava à balança de poderes centro/periferia uma nova intempérie na reprodução constante da relação internacional então existente: países periféricos não obedecendo o pacto de sustentação e expondo a máquina econômica capitalista à

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perigosa falta da natureza-combustível. Destarte, a preocupação não poderia ser somente a obliteração da natureza como recurso; também ficava claro que uma gestão protocolar dos recursos naturais dos países periféricos era vital, para impedir choques decorrentes da falta de fornecimento dos recursos naturais pela periferia.

A crise do petróleo serviu para sufocar ainda mais o regime fordista (Harvey, 1992, p. 136), o que ocasionou,

nas décadas seguintes, um boom industrial e tecnológico, obtido sem maiores preocupações ambientais. A técnica e a ciência continuaram a subjugar a natureza em prol de grandes lucros. Com a deficiência na profilaxia idealizada nas discussões da Conferência de Estocolmo, assistimos uma aceleração contínua de efeitos que retratam um pro- cesso incontestável de destruição ecológica: desertificação, efeito estufa, destruição da camada de ozônio, inversão

térmica, desmatamento, poluição do ar, dos rios e mares, ameaças nucleares, lixo tóxico, enfim, a ascensão do dis- curso de Apocalipse Now, sob a denominação de Crise Ambiental.

O temor de que a destruição da reprodução capitalista fosse causada pelo esgotamento dos recursos naturais

tornou-se, definitivamente, assunto de repercussão em discussões econômicas mundiais. Objetivando uma “solução” urgente para a “problemática” ambiental, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprova, em 1983, a cria- ção de uma equipe para trabalhar esta questão, que recebe o nome de Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, com presidida primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland. Esta comissão publica o resultado de suas observações em 1987, sob o nome de Nosso Futuro Comum ou Relatório Brundtland.

O Relatório Brundtland é o documento que elege definitivamente o conceito de Desenvolvimento Sustentável,

como “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades” (Brundtland, 1988, p. 46 ). Este estudo ressalta, entre outros, a necessi- dade de administrar o crescimento populacional e de controlar o esgotamento dos recursos. É sob a influência deste relatório que acontece a Segunda Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – a CNUMAD-92 (ECO-92), no Rio de Janeiro. A escolha recaiu sobre o Brasil, um país de industrialização tardia, propí- cio pelo fato de ter um governo que seguia os pressupostos de uma economia liberal. Vale ressaltar o imenso patri- mônio natural brasileiro: a Amazônia, indubitável fonte de riquezas, de pesquisa, de royalties e patentes, principal- mente se imaginarmos a riqueza genética ainda não explorada.

A ECO-92 caracterizou-se pela celebração do Desenvolvimento Sustentável através, principalmente, de um

documento chamado Agenda 21. A Agenda 21 é um receituário para acertos de ordem ecológica. Em sua retórica verifica-se, independentemente das contradições centro/periferia mundial, um mesmo patamar de estratégias para os diversos países do mundo.

A Agenda 21 é um compromisso político de cooperação para alcançar o desenvolvimento sustentável em to-

dos os países do mundo. Entre suas estratégias principais, estão a promoção do desenvolvimento sustentável atra- vés do comércio e a oferta de recursos financeiros suficientes aos países em desenvolvimento (capítulo 2); a con- servação da diversidade biológica (capítulo 15); o fortalecimento da base científica para o manejo sustentável (capítulo 35); e a promoção do ensino, a conscientização e o treinamento para a melhor execução do Desenvolvi- mento Sustentável (capítulo 36).

A Agenda 21 é a grande bíblia para implantar o Desenvolvimento Sustentável. Oferece um verdadeiro plano

de metas gerais para serem cumpridas religiosamente por todos os “interessados” em alcançá-lo. Influindo em di- versas áreas e criando políticas diretivas bastante abrangentes, tudo passa a ser refletido segundo sua “sustentabilidade”: “agricultura sustentável”, “dinâmica demográfica sustentável”, “padrões de consumo sustentável”,

“sustentabilidade do produto”, entre outros. A impregnação da “sustentabilidade” em toda a política econômica e social mostra o claro interesse em contaminar a todos com este ideal e com a carga de convicções que contém.

Assim, entendemos que a ECO-92 foi uma tentativa de ajuste dos mais diversos problemas ambientais visan- do à manutenção da relação centro-periferia, e também à adaptação do capitalismo às possíveis dificuldades da regulação e extinção dos recursos naturais fundamentais à reprodução do capital.

Desenvolvimento Sustentável: a manutenção da alienação

Sabemos que a riqueza, no Modo de Produção Capitalista, baseia-se na produção de mercadorias, no seu valor-de-troca, devidamente enriquecido pelo tempo de trabalho socialmente necessário (Engels, 1977, p .61). A transformação do dinheiro (medida para troca) em capital ocorre mediante a fórmula geral D – M – D’, que acaba sendo a gênese da ocorrência do capital, pois o mecanismo torna-se (um processo permanente) de acumulação. A mais-valia é a riqueza retirada, de forma alienada, sobre o trabalho humano – que também se transforma em merca- doria – e passa a ser considerado trabalho abstrato (sem consciência do valor real).

A absorção da mais-valia sobre o trabalho humano reflete-se também sobre a natureza, com a expansão glo-

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bal de sua apropriação em prol do valor-de-troca. O capital busca recursos na superfície do solo, transformando a natureza num meio universal de produção (Smith, 1988, p. 88).

Isto ocorre porque o capitalismo se baseia na dicotomia Homem-Natureza, e na posição de destaque do Ho- mem (o capitalista) como detentor do direito de dominação da natureza (ver Gonçalves, 2000, p. 34). Porém, acredi- tamos que o Homem faz parte da Natureza, e assim devemos enxergá-lo. Homem e Natureza são indissociáveis; sua capacidade de produção material não o possibilita governabilidade sobre a Natureza. Não há como dominá-la porque, segundo Marx, “o homem é uma parte da natureza” (2001, p. 116).

E o trabalho é a inexpugnável forma de relação do Homem com a Natureza. O trabalho, como produção de

coisas úteis para preenchimento das necessidades humanas (Smith, 1988, p. 78), e também o aprofundamento dos laços entre os integrantes da sociedade através da cooperação (Engels, 1978, p. 175), é o “centro das relações en- tre os seres humanos e natureza” (Smith, 1988, p. 68). O trabalho é a coroação do Homem como Natureza, em uma relação que traz modificações na Natureza e no trabalhador. O trabalho nega a separação do Homem e da Nature-

za – ele prova que esta relação é orgânica, dinâmica e natural/social.

Assim, a Natureza é um processo de produção de novas formas materiais, e múltipla em formas e movimen- tos (mecânico, químico, biológico e social), em um mundo que ora é equilíbrio, ora desequilíbrio (Moreira, 1993, p. 37). E o trabalho é a força motivadora do que Marx denominou metabolismo ou interação metabólica (Smith, 1988, p.71). Este metabolismo entre os homens e a natureza é o processo “pelo qual os seres humanos apropriam os meios para preencher suas necessidades e devolver outros valores-de-uso para a natureza” (Smith: 1988, p. 72). Com um conceito orgânico como o metabolismo, definitivamente Marx abolia qualquer tentativa de separação entre Homem e Natureza. O Homem não domina a Natureza, mas produz através do trabalho como interação metabólica com ela.

O capitalismo representa a destruição desta interação. Sob seus auspícios, o homem não mais reconhece

seu trabalho, e este não mais serve para satisfação de suas necessidades. O trabalhador perde a consciência de seu trabalho; não reconhece sua importância e passa a enxergá-lo como um pesado fardo ao longo de sua existên-

cia.

No capitalismo, “o trabalho é uma mercadoria” (Marx, 2001, p. 77). Segundo este modelo econômico, tudo e todos são mercadorias. Aplica-se um valor de troca nos seres humanos, em seu trabalho e na natureza. O capitalis- mo aliena os trabalhadores, a natureza e o trabalho como interação entre ambos.

O trabalho deixa de ser interação e passa a ser alienação. Segundo Marx, no capitalismo, o trabalho é exteri-

or ao trabalhador, não é voluntário, mas imposto. Sendo trabalho forçado, não constitui a satisfação de uma neces- sidade, mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades; o trabalho não pertence ao trabalhador, mas ao capitalista (Marx, 2001, p. 114).

E a exploração pelo capitalista é uma progressão veloz, procurando sempre a apropriação de maiores lucros

com a alienação do trabalho. É uma necessidade intrínseca ao capital o constante crescimento, o aumento da ob- tenção de lucros e a exploração máxima do trabalho humano.

O sistema capitalista, de forma alguma, se preocupa com as necessidades humanas, relegando-as ao salário

obtido mediante a venda da força de trabalho. O salário, muitas vezes, não é suficiente sequer para as necessida-

des básicas e vitais como alimentação, vestuário ou moradia; e o trabalhador, alienado, não percebe que a riqueza do capitalista emana de seu esforço diário, e agradece por ter conseguido a possibilidade de estar empregado.

a verdadeira necessidade criada pelo

Marx é enfático, quando observa que “a necessidade do dinheiro constitui (

moderno sistema econômico e é a única necessidade que ele produz” (Marx, 2001, p. 149).

Desta forma, como realça Smith, a apropriação da natureza pelo capitalismo é voltada para o lucro e não para as necessidades em geral. Assim, “o capital corre o mundo inteiro. Ele coloca uma etiqueta de preço em qualquer coisa que ele vê, e a partir desta etiqueta de preço é que se determina o destino da natureza” (Smith, 1988, p. 88).

Podemos discutir o real consumo exacerbado da natureza e a problemática denominada Questão Ambiental. Costuma-se defini-la como a relação conflituosa entre sociedade e natureza, e particularmente, “a ênfase dada na mídia às questões relativas à destruição das espécies, à Camada de Ozônio, ao Efeito Estufa, em síntese, a proble- mas que põem em risco a sobrevivência do planeta” (Gonçalves, 1992, p. 61).

Os “ideólogos” capitalistas enxergam a Questão Ambiental como um problema de ordem técnica, que, a partir de novos inventos tecnológicos, será possível contornar. Vêem sua reversibilidade na constituição de aparatos não- poluentes ou filtrantes, na reprodução de espécies em cativeiro, e ainda, na “cientifização ecológica” das decisões econômicas. Acreditam na “capacidade redentora da técnica” (Gonçalves, 1992, p. 61) e, arrogantemente, imagi- nam um controle real da natureza.

Na verdade, o componente tecnológico representa um paliativo que de forma alguma irá sancionar uma nova forma de apropriação da natureza, pois, sob a ditadura do capital, torna-se impossível uma interação metabólica

)

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entre Homem e Natureza. O trabalho se torna um cativeiro (Moreira, 1985, p. 83), onde o objetivo fundamental será sempre a conquista e a reprodução de maiores lucros. Qualquer política será um ajuste, pequeno ou grande, mas que não atingirá o cerne do problema: a alienação da natureza.

O capitalista, na busca por maiores riquezas, se volta contra a natureza, enxergando-a como matéria-prima

de seu enriquecimento. O trabalho de seus “empregados” não promove a interação, pois é alienado. Não transforma

a natureza em busca da satisfação de suas necessidades, mas para conquistar maiores lucros na mão do emprega-

dor. As necessidades do trabalhador lhe são estranhas, pois ele só consegue enxergar a necessidade do dinheiro.

E a necessidade do dinheiro cria um corrente constante de apropriação da natureza. Quanto mais o capitalis-

ta puder explorar, mais dinheiro conseguirá. Não há como modificar esta asserção. Mesmo com maior reutilização ou reaproveitamento, ou com obsessivo zelo para evitar o desperdício, o equilíbrio da exploração representará a estagnação do lucro. É imponente o que o crescimento da arrecadação de lucros depende do aumento (mesmo controlado) da exploração dos “recursos” naturais.

E é enxergando a natureza como recurso para obtenção de lucros que o capitalista pretende reproduzi-la.

Tornou-se necessário, para a saúde do modo de produção capitalista, selecionar os recursos naturais essenciais para a reprodução do capital e então multiplicá-los, ou conservá-los – ou ainda protegê-los; fazer uma escolha crite- riosa do que é fundamental para a sustentabilidade do desenvolvimento capitalista, e fomentar todo um aparato pa-

ra que proficuamente se mantenha inesgotável. O que não for possível proteger e esgotar-se, que seja substituído por algo mais abundante, com as devidas correções tecnológicas.

Assim, a mudança de ordem técnica mantém a alienação da natureza e sua amarração ao capital. Não se vai mudar a relação da sociedade com a natureza, mantendo-se expropriadora; se vai buscar um paliativo para os efei- tos da produção capitalista, permanecendo a mesma relação em que os capitalistas são os responsáveis pela velo- cidade do consumo da natureza.

Ideologia: a “máscara” da realidade

A necessidade maior da ideologia é ocultar a realidade da luta de classes, fazendo com que as idéias domi-

nantes pareçam verdadeiras (Chauí, 1982, p. 87). Isto porque, a burguesia, como classe dominante, necessita não somente do controle das relações materiais, mas também da dominação da produção intelectual, instrumentalizado-

a com seus mecanismos de propagação.

A ideologia promove uma barreira à classe revolucionária, por ocultar a luta de classes e ainda colocar em

prática os ideais dominantes com a ajuda da classe dominada. Isto ocorre devido à alienação, em que muitas vezes são cooptados mesmo os que lutam por mudanças. Desconhecendo a história real, estes acabam assimilando os interesses dos dominantes.

Então, o Desenvolvimento Sustentável é o que podemos denominar Ideologia. Enxergamos ideologia como uma consciência falsa da realidade, que serve para mascarar as contradições da luta de classes, mantendo esta dominação, e fazendo com que a classe dominada não perceba que esta ideologia tem sua gênese na classe domi- nante.

Já percebemos que o Desenvolvimento Sustentável representa, principalmente, dois objetivos centrais: (1) a manutenção da reprodução do capitalismo e sua consolidação global no controle da natureza enquanto recurso e (2) a manutenção da pressão centro/periferia através da gestão dos recursos naturais dos “países dependentes”. Logo, não estamos diante de uma proposta alternativa, pois o desenvolvimento sustentável significa um ajuste da ordem vigente, sem que se ataquem os pilares da conjuntura hegemônica atual. O Desenvolvimento Sustentável atende aos anseios da classe dominante, pois mantém o sistema atual e as disposições em vigor.

Mas esta Ideologia do Desenvolvimento Sustentável fica disfarçada mediante um potente discurso de “Proteção à Natureza”, com a aparência de “bula para salvação do mundo”, que confere uma ilusão de um discurso menos agressor para com o domínio do homem sobre a natureza.

Ao absorver inclusive as classes dominadas, a Ideologia do Desenvolvimento Sustentável configura-se como um mecanismo de dominação. Descaracteriza a luta de classes e incute uma fantasia de que os dogmas propostos são universais. Com esta plataforma bem alicerçada, hoje, dificilmente se permanece imune aos seus reflexos. A Ideologia atinge o seu grande objetivo quando torna-se, indubitavelmente, senso comum.

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Considerações Finais

O Desenvolvimento Sustentável não está comprometido com a satisfação das necessidades humanas pre- sentes ou futuras, mas sim com as do capital. Lutar pela implementação do Desenvolvimento Sustentável é acatar da bula imposta pela classe dominante. É trabalhar pela sustentabilidade do status quo.

Notas

* Professor formado pelo curso de Licenciatura Plena em Geografia da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Vale ressaltar a importância do movimento ecológico em ajudar a colocar em pauta nas discussões geopolíticas a proteção ao “meio ambiente”. Porém, percebemos que as idéias conservacionistas estudadas são originariamente burguesas, tendo como objetivo primordial um “ajuste” ecológico da ordem dominante, com a manutenção dos esto- ques dos recursos naturais para reprodução do capital.

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