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Projeto

PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS

ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor

com autorizagáo de

Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb

(7n memoríam)

APRESENTAQÁO

DA EDIQÁO ON-LINE

Diz Sao Pedro que devemos estar

preparados para dar a razio da nossa

esperanga a todo aquele que no-la pedir

(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta

da nossa esperanga e da nossa fé hoje é

mais premente do que outrora, visto que

numerosas

por

somos bombardeados

correntes filosóficas e religiosas contrarias á

_ fé católica. Somos assim incitados a procurar

consolidar nossa crenca católica mediante

um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e

Responderemos propóe aos seus leitores:

--

aborda questóes da atualidade -" '-; controvertidas, elucidando-as do ponto de vista cristáo a fim
aborda
questóes
da
atualidade
-"
'-;
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleza no
Brasil e no mundo. Queira Deus abengoar
-
-
este trabalho assim como a equipe de

Veritatis Splendor que se encarrega do

respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003. Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e

passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual

conteúdo

da

revista teológico

-

filosófica "Pergunte

e

Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo. A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada

em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral

assim demonstrados.

Ano xlii Setembro 2001 472

" para que fui criado" (S. Anselmo)

Aquilo

Sacramentos: por qué?

Por que batizar chancas? E re-batizar?

"Europa sem Deus" (VEJA)

"A invencáo do Cristianismo" (Revista GALILEU)

As Obras Caritativas de Joáo Paulo II em 2000

Poligamia nos Estados Unidos

O caso Me Veigh

Irmáos ou Primos?

PERGUNTE E RESPONDEREMOS

Publicado Mensal

Oiretor Responsável Estéváo Bettencourt OSB Autor e Redator de toda a materia

publicada neste periódico

Diretor-Administrador:

D. Hildebrando P. Martins OSB

Administracáo e Distribuicáo:

Edicóes "Lumen Christi"

Rúa Dom Gerardo, 40 - 5o andar-sala501

Tel.: (0XX21) 291-7122

SETEMBRO2001

N°472

SUMARIO

" para que fui criado"

(S. Anselmo)

Prática religiosa:

Sacramentos: por qué?

Aquilo

385

386

Novas linhas pastorais?

Por que balizar criancas? E re-batizar?

Um balando que faz pensar:

"Europa sem Deus" (VEJA)

388

394

Sensacionalismo:

"A invencáo do Cristianismo" (Revista

GALILEU) 399 Fax (0XX21) 263-5679 Relatónos: Enderezo para Correspondencia: As Obras Caritativas de Joáo Paulo
GALILEU)
399
Fax (0XX21) 263-5679
Relatónos:
Enderezo para Correspondencia:
As Obras Caritativas de Joáo Paulo II
Ed. "Lumen Christi"
em 2000
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CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ

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Surpreendente:

Poligamia nos Estados Unidos

Pena de morte:

419

O caso Me Veigh 428 e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" na INTERNET: http://www.osb.org.br Sempre em questáo:
O caso Me Veigh
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e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
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AQUILO "

PARA QUE FUI CRIADO"

Santo Anselmo (t 1109) foi monge beneditino e arcebispo de Cantuária (Inglaterra). Deixou varios escritos preciosos, que Ihe mereceram o título de "Doutor da Igreja". Nesses escritos encontram-se oracoes, das quais urna vai

a seguir, especialmente destacada:

Que Jiá be íxzer.

O Scvxhor Aitissimo.

Qwc hÁ toe fAzer

Este tcw cxiUbo t*o hn$d

QwcMÁ&cfAzcr

Este tcw servo

AnsiosopdotenAmor

E 1aHCAÍ>0 1oM5C bC tWA ^ACC?

Amscía por te contempiAr

£ quÁo grAMbc é

A AWSCHCÍA bC tMA ÍACCÍ Este belo texto sugere reflexoes:

TwcsomcwDews

Tu es o mcw Sensor.

E cu mwhca te vi.

No cMtAMto

fwi cr¡Aí>o pArA te ver.

^ aímüa máo üz Aqwilo

T>«M*AqMC*">*<**<>•

Exilado é aquele que sabe estar longe da patria; é

".

1) "Exilado

caminheiro e viandante em demanda do regaco definitivo. Assim sentia-se

Anselmo, como alias também Sao Paulo, que escreveu: "Sabemos que, en-

quanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansáo, longe do Se- nhor, pois caminhamos pela fé e nao pela visáo" {2Cor 5, 6s). De modo seme-

Ihante todo cristáo tem consciéncia de estar á procura de algo maior e definitivo

que responda as suas aspirapóes mais profundas; anseia por ver a Beleza

Infinita.

" muita coisa na vida ou realizou tudo o que estava ao seu alcance; apesar disto a fé Ihe replica que ainda nao realizou o grande ato para o qual foi criado: ver

Deus face a face. As demais tarefas efetuadas neste mundo sao subsidios

para que atinja o supremo termo que é a razao da sua existencia. Esta afirma-

cáo pode causarsurpresa a quem a ouve pela primeira vez, mas é lógica de-

corréncia da mensagem do Evangelho. Bem dizia Santo Agostinho: "Senhor,

Tu nos fizeste para Ti e inquieto é o nosso coracao enquanto nao repousa em

Ti" (Confissóes 1,1). Todo cristáo pode dizer corñ Cristo: "Sai do Pai e vim ao

mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai" (Jo 16, 28).

3) Em conseqüéncia, a vida terrestre toma a feipáo de urna grande pre-

para?áo ou de um noviciado para um encontró face-a-face com a Beleza Infini

para que fui feito". Todo ser humano pode dizer que fez

2)

Aquilo

ta, única resposta cabal para os anseios mais profundos do ser humano. Esta afirmacáo nao significa alienacáo aos deveres de estado de cada um, mas, ao contrario, infunde nova energía e novo estímulo ao cristáo peregrino e lutador

neste mundo.

Possa a oracáo de Santo Anselmo tornar-se a prece continua de cada

amigo de Deus, que nao pode deixar de aspirar á plenitude da vida!

385

E.B.

ti PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Prática religiosa:

Ano XLII - N9 472 - Setembro de 2001

SACRAMENTOS: POR QUÉ?

Em síntese: Os sacramentos sao sinais que constam do designio, de Deus, de se daraos homens mediante sinais sensíveis portadores da

graga divina. Tais sao a SSma. Humanidade de Jesús, o Corpo Místico

de Cristo ou a Igreja e os Sete Sacramentos. O designio de Deus

corresponde bem a índole psicossomática do homem, segundo a qual

"nada há no intelecto que nao tenha passado pelos sentidos" (Aristóteles).

Daí compreende-se que o verdadeiro cristáo nao pode prescindir

da prática sacramental.

*

*

*

O Tratado dos Sacramentos1 se relaciona intimamente com outros

tratados teológicos, como a Cristologia e a Eclesiologia, a Liturgia

em todos estes um denominador comum, que é o conceito de SINAL (seméion, em grego) eficiente ou sinal que realiza o que ele assinala. Na

verdade, a santíssima humanidade de Cristo é sinal eficiente ou trans-

missor da gracá; a Igreja, como Corpo de Cristo prolongado (cf. Cl 1, 24), também é tal;a Liturgia, com seus ritossagrados, continua essa funcáo.

Em conseqüéncia, pode-se dizer que o Cristianismo é essencial-

mente a religiio dos sinais.

E por que isto? - Por duas razóes:

a) o ser humano é psicossomático: passa do visível ao invisível

(prefacio da Missa de Natal). "Nada há no intelecto que nao tenha passa

a.C);

do pelos sentidos", diz Aristóteles (t 322

1 Este artigo corresponde á Introducño no novo livro sobre os Sacramentos a ser

publicado pela Escola "Mater Ecclesiae".

386

SACRAMENTOS: POR QUÉ?

b) o ser humano é social, feito para se desabrochar e formar vendo

e ouvindo dos seus semelhantes as licóes de que necessita. É pelos

sentidos que ele aprende.

Eis, pois, o fluxo dos sinais que atingem cada cristao:

VIDA ETERNA—»- JESÚS CRISTO—» IGREJA —>- 7 SACRA MENTOS —»► GRACA SANTIFICANTE —♦» CRISTÁO

Muito a propósito escrevia Tertuliano (t 220 aproximadamente):

Lavase o corpo a fim de que a alma seja purificada; unge-se o corpo a fim de que a alma seja

"A carne (o corpo) é o eixo da saivagáo2

consagrada

O corpo é nutrido pelo Corpo e Sangue de Cristo, a fim de

que a alma se alimente de Deus

Nao podem, pois, ser separados na

saivagáo" (Sobre a Res-

recompensa, já que estáo unidos ñas obras da

surreicáo da Carne 8 PL 2, 852). Cf. Rm 12, 1.

A mesma verdade pode ser expressa de duas outras maneiras:

1) Deus se revela aos homens por palavras e por feitos

É o que se lé na Constituicáo Dei Verbum nQ 2:

"Este plano de revelagáo se concretiza através de acontecimentos

e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realiza das por Deus na Historia da Saivagáo manifestam e corroboram os

ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas, porsua

vez, proclamam as obras e elucidam o misterio netas contido. No entan- to, o conteúdo profundo da verdade seja a respeito de Deus, seja da

saivagáo do homem se nos manifesta pormeio dessa revelagáo em Cris

to, que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a revelagáo."

Em síntese, Deus se revela por palavras e por feitos. As palavras proclamam a mensagem divina, e os feitos corroboram as palavras; es

tas, por sua vez elucidam o significado dos dizeres, donde

2 Caro cardo salutis

Palavras Feitos Palavras
Palavras
Feitos
Palavras

ai

Feitos

387

(Continua na pág. 418)

Novas linhas pastorais?

POR QUE BATIZAR CRIANQAS? E RE-BATIZAR?

Em síntese: O Batismo de criangas é implícitamente afirmado pela

S. Escritura e explícitamente professado pela Tradigáo crista. Explicase

pelo fato de que o Batismo nao é mera matrícula numa sociedade cultu

ral, mas é um renascer ou a infusáo de nova vida (filiagáo Divina) na alma da crianga. Se esta, ao chegar á idade juvenil, recusar os deveres de cristáo, a graga do Batismo nao perderá seu valor. Aos pais compete dar

aos filhos o que há de melhor, inclusive a oportunidade de renascer da

agua e do Espirito Santo. - A Igreja reconhece o Batismo conferido fora

do Catolicismo quando ministrado com agua e as paiavras rítuais por quem tenha a intengáo de fazer o que Cristo faz como Sumo Sacerdote;

em caso de dúvida, a Igreja batiza sob condigno: "Se nao és batizado, eu

O presente artigo explana a posigáo da Igreja Católica frente

te batizo

".

as comunidades cristas nao católicas.

*

*

*

Muitos pastoralistase paisdesejariam adiaro Batismo para idade madura dos candidatos, visto que muitos batizados em idade infantil nao

assumem as conseqüéncias do sacramento quando o deveriam. Em vis

ta dos debates assim oriundos, a Congregagáo para a Doutrina da Fé

publicou aos 20/10/1980 urna ¡nstrucáo sobre o Batismo das Criangas, em que analisa a problemática. Vejamos o conteúdo deste documento.

1. A S. Escritura nao se refere explícitamente ao Batismo de crian- cas. Todavía narra que varios personagens pagaos professaram a fé crista

e se fizeram batizar "com toda a sua casa"; assim o centuriáo romano

Cornélio (At 10,1s. 24.44.47s), a negociante Lidia de Filipos (At 16,14s),

o carcereiro de Filipos (16, 31-33), Crispo de Corinto (At 18, 8), a familia

de Estéfanas (1 Cor 1,16). A expressáo "casa" (domus, em latim; oikos,

em grego) tinha sentido ampio e enfático na antiguidade: designava o

chefe de familia com todos os seus domésticos, inclusive as criangas

(que geralmente nao faltavam). Indiretamente, pois, as Escrituras suge-

rem o Batismo de criangas.

Esta impressáo se confirma desde que consideremos que os ju-

deus batizavam os filhos pequeninos dos pagaos que abragassem a fé de Israel. Ademáis Orígenes de Alexandria (t 250) e S. Agostinho (t

430) atestam que "o costume de batizar criangas é tradigáo recebida dos

Apostólos". No próprio Evangelho, alias, encontra-se a palavra incisiva

do Senhor: "Quem nao renascer da agua e do Espirito, nao poderá entrar

388

POR QUE BATIZAR CRIANQAS? E RE-BATIZAR?

no Reino dos céus" (Jo 3, 5). Estes dizeres sempre foram entendidos em

sentido estrito e aplicados tanto a criancas como a adultos. Quando no

século II aparecem os primeiros testemunhos diretos do Batismo de en

ancas, nenhum deles o apresenta como inovacáo. S. Irineu de Liáo (t

202) considera obvia, entre os batizados, a presenca "das criancas e dos

pequeninos" ao lado dos jovens e dos adultos (Contra as Heresias II24,

4). Sob S. Cipriano de Cartago (f 258), um Sínodo do Norte da África

dispós que se podiam batizar as criancas "já a partir do segundo ou ter-

ceiro dia após o nascimento" (epístola 64 de S. Cipriano).

2. Fazendo eco á S. Escritura e á Tradicáo, os Papas e Concilios

intervieram muitas vezes para recordar aos cristáos o dever de manda-

rem batizar os seus filhos.

O Concilio regional de Cartago, por exemplo, em 418:

"Também os mais pequeninos que nao tenham ainda podido come

terpessoalmente algum pecado, sao verdadeiramente batizados para a

remissáo dos pecados, a fim de que, mediante a regeneragáo, seja puri

ficado aquilo que eles tém de nascenga" (Denzinger-Schónmetzer,

Enquirídio, ns 223).

Esta doutrina foi reafirmada por toda a Idade Media. No século

XVI, o Concilio de Trento (1547) rejeitou a posicao dos anabatistas, se

gundo os quais "era melhor omitir o Batismo das enancas do que batizá- las só na fé da Igreja, urna vez que elas ainda nao créem com um ato de

fé pessoal" (DS 1626).

Ainda recentemente, diante de dúvidas levantadas nos últimos tem- pos, o Papa Paulo VI redigiu o Credo do Povo de Deus, no qual professa:

"O Batismo deve ser administrado também as criancinhas que nao tenham podido ainda tomarse culpadas de qualquer pecado pessoal, a

fim de que elas, tendo nascido privadas da graga sobrenatural, renasgam

pela agua e o Espirito Santo para a vida divina em Cristo Jesús" ('Credo

ne 18).

3. A razáo teológica pela qual a Igreja pratica o Batismo de crian-

fas, é a seguinte: o sacramento nao é mera matrícula numa associacáo,

mas é um renascer, um receber a vida nova dos filhos de Deus, que tem

pleno sentido mesmo que a crianca ignore o que Ihe acontece; esse re

nascer para a vida eterna é que dá pleno sentido ao primeiro nascimento

(a partir dos país), pois torna a crianca herdeira do Sumo Bem.

O fato de que as criancas ainda nao podem professar a fé pessoal mente, nao é obstáculo, pois a Igreja batiza os pequeninos na fé da pró- pria Igreja, isto é, professando fé em nome dos pequeninos. Esta doutri na acha-se expressa no Ritual do batismo, quando o celebrante pede

389

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

aos pais e padrinhos que professem "a fé da Igreja, na qual as enancas

sao batizadas" (nss 2.56).

S. Agostinho dilata o horizonte do cristao ao escrever:

"Ascriangassao apresentadaspara recebera graga espiritual, nao

tanto por aqueles que as levam nos bragos (embora também por elas, se

sao bons fiéis), mas sobretudo pela sociedade universal dos santos e

dos fiéis Éa Máe Igreja toda, que está presente nos seus santos, a agir,

pois é ela inteira que os gera a todos e a cada um" (epístola 98, 5).

4. A Igreja só nao batiza as enancas quando os pais nao o querem

ou quando nao há garantía de que a crianca batizada seja educada na fé

católica. Mesmo quando os genitores nao vivem como bons católicos, a

Igreja julga que a crianca tem o direito de ser batizada desde que os

próprios pais ou padrinhos ou a comunidade paroquial se encarreguem

de ministrar-lhe a instrucáo religiosa. Eis o que canon 868 do Código de

Direito Canónico:

§ 1. Para que urna changa seja licitamente batizada, é necessário

que

1S os pais, ou ao menos um deles ou quem legitimamente faz as

suas vezes, consintam;

23 baja fundada esperanga de que será educada na religiáo católi ca; se essa esperanga faltar de todo, o Batismo seja adiado segundo as

prescrigóes do Direito particular; avisem-se os pais sobre o motivo.

§ 2. Em perigo de morte, a crianga filha de pais católicos, e mesmo

de nao católicos, é licitamente batizada mesmo contra a vontade de seus

pais".

Caso nao Ihe seja possível batizar, a Igreja confia a crianca faleci-

da sem batismo ao amor de Deus, que é Pai e fonte de misericordia,

como se depreende do Rito das Exequias aplicado a tais pequeninos. A

partir de S. Anselmo (t 1109), os teólogos propuseram o limbo como

estado de felicidade natural reservado a tais criangas; elas veriam Deus

indiretamente, como urna criatura, deixada a si mesma, o pode ver. Esta

doutrina tomou-se comum, mas nao é de fé. Hoje em dia bons autores

afirmam que Deus concede as criangas mortas sem batismo a visáo face- á-face, levando em conta a oracáo universal da Igreja ou a oferta dos filhos feita pelos pais mas criaturas possam consumar-se na ordem meramente natural; ora

Deus nunca tratou o ser humano apenas como ser racional, mas sempre

E com razáo: a doutrina do limbo supoe que algu-

como filho elevado á ordem sobrenatural; o homem decaiu desta pelo pecado original e foi resgatado por Cristo para poder atingir o seu fim

390

POR QUE BAT1ZAR CRIANgAS? E RE-BATIZAR?

sobrenatural (a visáo de Deus face-á-face). Por isto a tese do limbo, que

admite urna felicidade meramente natural, destoa de sólida premissa da

teología católica; conseqüentemente, é cada vez menos professada em

nossos dias.

Passemos as objecóes.

1. Batismo e Ato de Fé

Nos escritos do Novo Testamento, o Batismo se segué á pregacáo

do Evangelho, supóe a conversáo e é acompanhado da profissáo de fé. Em conseqüéncia, a sucessáo "pregacáo-fé-sacramento" parece normal;

as enancas deveriam estar sujeitas a catecumenato obrigatório.

Respondemos:

1) O Novo Testamento menciona geralmente a conversáo e o Ba tismo de adultos, pois refere a primeira propagacáo do Evangelho, que

só podia ocorrer entre adultos. Todavía, como observamos, nao excluí o

batismo das enancas; ao contrario, supóe-no em maís de um caso

2) O Batismo nao é somente um sinal da fé, mas é também a causa

da mesma. Isto quer dizer: O Batismo nao é somente o testemunho da fé do catecúmeno, mas é também o renascímento do individuo {Jo 3, 5); o Batismo deposita na alma deste um principio (ou urna sementé, confor

me 1 Jo 3, 9) de vida nova ou de filiacáo divina, que tende a desabrochar

paulatinamente durante todo o decorrer desta vida. Em conseqüéncia,

independentemente do uso da razáo, o Batismo atua no íntimo da enan

ca, comunicando-lhe urna realidade nova, sobrenatural. Ao chegar á ida- de da razáo, o pequenino pode tomar consciéncia da sua dignidade e

dispor das gracas infundidas na sua alma pelo sacramento.

2. Batismo e liberdade da crianga

Alega-se que o Batismo das enancas constituí um atentado á liber dade das mesmas. Seria contra a dignidade da pessoa impor-lhe obríga-

cóes religiosas que, mais tarde, talvez nao queira aceitar. Daí a conveni encia de só se ministrar o Batismo a quem possa assumir Iivremente os

respectivos compromissos.

Respondemos:

1) É de notar que, no plano natural, os pais fazem, em lugar de

seus filhos, opcóes indispensáveis ao futuro destes: assim o regime de Os pais que se omitissem

alimentacáo, a higiene, a educacáo, a escola

a tal propósito sob o pretexto de salvaguardar a liberdade da crianga,

prejudicariam seriamente a prole. Ora a regeneracáo batismal vem a ser

o bem por excelencia que os pais católicos devem proporcionar aos fi-

391

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

Ihos juntamente com a alimentacáo e a educacao; para quem tem fé, a

filiacáo divina é o mais importante de todos os valores.

2) Mesmo que a enanca, chegando á adolescencia, rejeite os de veres decorrentes do seu Batismo, o mal é entáo menor do que a omis- sáo do sacramento. Com efeito; o fato de alguém rejeitar a boa educacáo

que recebeu, é daño menos grave do que a omissáo de educacáo por parte dos país. Observemos ainda que, nao obstante as aparéncias, os

gérmens da fé depositados na alma da crianca poderao um dia reviver;

os pais contribuiráo para isto mediante a sua oracáo e o seu auténtico

testemunho de fé.

3. Ministro e Reitera9§o do Batismo

1. O ministro ordinario do batismo é o Bispo, o presbítero ou o

diácono. Reza, porém, o canon 861 § 2:

"Na ausencia ou no impedimento do ministro ordinario, o catequista ou outra pessoa para isto designada pelo Ordinario local pode licitamen te batizar; em caso de necessidade, qualquer pessoa movida por reta

intengao. Os pastores de almas, principalmente o pároco, sejam solícitos

para que os fiéis aprendam o modo certo de batizar".

Isto quer dizer que, em caso de necessidade (por exemplo, em

perigo de vida de urna crianca numa clínica), qualquer pessoa pode bati zar mesmo que nao tenha sido ela mesma batizada; basta que aplique a materia (agua natural) e as palavras correspondente ("Eu te batizo em

nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo") e tenha a intencao. Os pasto

res de almas, principalmente o pároco, sejam solícitos para que os fiéis

aprendam o modo certo de batizar".

No Brasil, a Conferencia Nacional dos Bispos recebeu da Santa Sé

a faculdade de permitir que as dioceses do Brasil possam designar lei- gos como ministros extraordinarios do Batismo; deve haver imperiosas razóes para que isto aconteca. O ministro nao ordenado nao pratica o exorcismo, nem as uncóes nem o "Efeta" (Abre-te, com a saliva).

2. Diz ainda o Código de Direito Canónico:

"Canon 869 § 1. Havendo dúvida se alguém fot batizado ou se o

batismo foi conferido validamente e se a dúvida permanece após seria investigagáo, o Batismo (he seja conferido sob condigno.

§ 2. Aqueles que foram batizados em comunidade eclesial nao ca

tólica nao devem serbatizados sob condigáo a nao serque, examinadas

a materia e a forma das palavras no Batismo conferido, e levando-se em conta a intengao do batizado adulto e do ministro que o batizou, haja

seria razáo para duvidar da validade do Batismo".

392

POR QUE BATIZAR CRIANgAS? E RE-BATIZAR?

A Conferencia Nacional dos Bispos, depois de urna pesquisa feita

sobre o modo como as comunidades católicas batizam no Brasil, chegou

as seguintes conclusóes:

1) Batizam validamente de modo a excluir outro Batismo, mesmo

sob condicáo: as Comunidades Orientáis Ortodoxas, a Comunidade dos

Velhos-católicos, é a dos Anglicanos (Episcopais), as Luteranas, a

Metodista.

2) Outras comunidades professam conceitos de Batismo diferente do católico (o Batismo nao justificaría e, por isto, nao seria necessário).

Por isto alguns de seus pastores nao seguem exatamente o rito batismal

prescrito. Todavía, se há certeza de que a pessoa foi batizada de acordó com o rito adotado por essas comunidades, nao se deve re-batizar nem

sob condicáo. Tais sao: as comunidades presbiterianas, as Batistas, as

Congregacionalistas, as Adventistas, a maioria das Pentecostais (Assem-

bléia de Deus, Congregacáo Crista do Brasil, "Deus é Amor", "Evangelho

Quadrangular", "O Brasil para Cristo"), o Exército da Salvacao (este gru

po nao costuma batizar, mas, quando o faz, costuma fazé-lo validamente).

3) Deixam dúvidas e, por conseguinte, suscitam a necessidade de

): Igreja

novo batismo (sob a condicáo: "Se nao és batizado, eu te batizo

Pentecostal Unida do Brasil (batiza em nome de Jesús, e nao da SS.

Trindade), "Igrejas Brasileiras", Mórmons (negam o papel do redentor de

Cristo), a Igreja Universal do Reino de Deus.

4) Com certeza, batizam inválidamente: as Testemunhas de Jeová

(negam a SS. Trindade), a Ciencia Crista e os grupos religiosos nao cris-

táos, como Umbanda e a Maconaria (na recepcáo de Lawtons).

Ver "Guia Ecuménico", verbete "Batismo", na colecáo "Estudos da

CNBB"n921.

3. O Direito Canónico prescreve outrossim:

'Cañón 870. A críanga exposta ou achada seja batizada a nao ser

que, após cuidadosa investigacáo, conste do seu Batismo".

'Canon 871. Os fetos abortivos, se estiverem vivos, sejam batizados,

na medida do possfvel".

Para aprofundamento:

JESÚS MORTAL S.J., Os sacramentos da Igreja na sua Dimensáo

Canónico-pastoral. Ed. Loyola, Sao Paulo 1987.

393

Um bataneo que faz pensar:

"EUROPA SEM DEUS"

Em síntese: A revista VEJA, ed. de 16/5/01, p. 62 relata o esvazi-

amento das igrejas em geral na Europa Ocidental. O fenómeno deveria sermais exatamente averiguado. Como querque seja,podem-se indicar

tres principáis causas para o indiferentismo religioso de muitos: 1) o

consumismo, que embota a mente e fecha o olhar dentro do horizonte

terrestre; 2) a dificuldade de viver a Moral católica; 3) o contra-testemu-

nho de fiéis católicos que mais encobrem do que manifestam a face de

Deus. Aos que abandonam a Igreja, mas continuam a crerem Deus, sao

dirigidas palavras de S. Cipriano de Cartago (f 258): "Nao pode ter Deus

por Pal no céu quem nao tem a Igreja por Máe na térra".

*

*

*

A revista VEJA, edicáo de 16/5/01, p. 62 publicou urna noticia que

chamou a atencáo de muitos cristáos: "Europa sem Deus". - A seguir,

transcreveremos as linhas mais importantes do texto, ao qual seráo acres-

centados alguns comentarios.

1. O texto: Descristianizacáo

«Europa sem Deus

Debandada de fiéis esvazia as ¡grejas e expóe desencanto re

ligioso dos europeus

Na Franca, na Bélgica e na Alemanha, apenas 10% dos católicos

freqüentam a igreja. A cada ano, diminuí em 50.000 a quantidade de in gleses que assistem as missas de Domingo. Em varios países faltam

padres por causa da queda do número de ordenagóes.

Entre os protestantes, o cenário é igualmente desolador. Sonriente

3% da populagáo comparece aos cultos nos países escandinavos. A cú

pula da Igreja Reformada Holandesa está transformando parte de seus

complexos religiosos em hotel para pagar despesas de manutengáo. A Catedral de Canterbury, de importancia central na fé anglicana, fica vazia

na manhá de Domingo, o día mais movimentado em qualquer templo crístáo. O fenómeno é exclusivo da Europa Ocidental. A religiao católica

está em expansáo na América Latina e na África. Mesmo entre os euro

peus há variagoes nacionais. A freqüéncia á igreja continua alta em al

guns países tradicionalmente católicos, como a Irlanda e a Italia, onde

394

"EUROPA SEMDEUS"

11

quase 50% da populagáo adulta vai á missa pelo menos urna vez por

mes. Nao é o único dado surpreendente. Os europeus que deixam de ir

aos cultos cristáos nao mudam de religiáo nem viram ateus, o que explica

o fato de o número de pessoas que acreditam em Deus (50% da popula

gáo européia) ser muito maior que o das que freqüentam urna igreja. Só

4% se declaram completamente ateus. Da mesma forma, a ética crista

aínda orienta a moralidade pessoal da maioria das pessoas. Sessenta

por cento dos holandeses deram adeus á igreja, mas continuam reser vando urna enorme quantidade de dinheiro para a caridade».

2. Que dizer?

Toda estatística é sujeita a falhas. De resto, o mal e as sombras costumam chamar a atencao mais do que os valores positivos. Há certa- mente na Europa muita fé ainda viva e atuante; basta lembrar a Jornada Mundial de Jovens em Paris no ano de 1999, evento este de que partici- pou intensamente a juventude francesa para surpresa dos observado

res; as celebracóes do ano jubilar 2000 foram também testemunho de

que os europeus nao estáo "sem Deus", como diz a mánchete de VEJA.

Como quer que seja, é forcoso reconhecer que em certas regióes

da Europa existe o arrefecimento da fé. Donde a pergunta:

2.1. Quais as causas?

Sao muitas e complexas. Todavía tres parecem ser as principáis:

a) Consumismo. Grande parte da Europa vive urna fase de bem-

estar inédito; a tecnología avancada e os lucros daí derivados sao reali

dades que fecham o olhar para os valores transcendentais; Deus pode

parecer desnecessário a quem se senté afagado pela vida. Tal foí o caso

do ricaco da parábola de Le 16,19-31: tudo Ihe ¡a táo bem que ignorava

a presenca de Lázaro posto á sua porta; sofreu tremenda decepeáo quan-

do chamado por Deus para a vida definitiva. O caso pode-se repetir em

nossos dias quando a vida se torna fácil e farta, iludindo o homem acerca

do sentido da existencia humana ou fazendo que esqueca as perguntas

fundamentáis: "Por que vivo? Para que vivo?".

Note-se, alias, que a noticia de VEJA está formulada em termos

contraditórios. Com efeito, a mánchete afirma em letras grandes: "Euro

pa sem Deus", mas o corpo do artigo observa:

- o fenómeno é exclusivo da Europa Ocidental;

- mesmo na Europa Ocidental o artigo faz excecáo para a Italia e a Irlanda, onde a prática religiosa nao está obliterada;

- "os europeus que deixam de ir aos cultos cristáos

ateus";

395

nao viram

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

■12

- "a ética crista aínda orienta a moralidade pessoal da maioria das

pessoas".

Nao é a primeira vez que VEJA exagera e se contradiz em suas

manchetes, provocando um sensacionalismo que o corpo da noticia em

palidece.

b) Dificuldades no plano ético. A Moral católica guarda os princi

pios da lei natural que muitos hoje desconhecem ou, ao menos, nao que-

rem observar. Assim diz ela Nao ao aborto, á eutanasia, ao homosse-

Tal recusa suscita um problema de consciéncia em muitas pessoas, que o resolvem optando

pelo mais cómodo ou mais utilitario. Nao se vé por que fazer algum sacri

ficio para observar a lei de Deus quando a lei dos homens facilita uma

saída menos penosa. É certo que as exigencias da Moral católica tém

afastado do Catolicismo muitas pessoas, que váo procurar correntes re

ligiosas "mais abertas" ou preferem ser atéias. Todavía a Igreja nao pode

"comprar a simpatía ou a adesáo do mundo moderno" propondo um

facilitário que traína a lei de Deus. A Igreja deve guardar absoluta fidelida- de a Cristo; isto Ihe vale o escarnio de muitos, mas também suscita a admi- racáo e a estima de quem reconhece o valor da coeréncia e da fidelidade.

xualismo, ao divorcio, á manipulacáo genética

A Igreja perdeu o reino da Inglaterra em 1534 por causa de um

divorcio solicitado pelo rei Henrique VIII ao Papa, que nao Ihe pode satís-

fazer para ser fiel ao Evangelho. Ela está disposta a manter essa fidelida

de em nossos dias apesar da resistencia do mundo moderno; tal atitude

é um servico prestado á sociedade contemporánea, muito carente de

retidáo e firmeza de bons principios.

c) Contra-testemunho de fiéis católicos. Já o Concilio do Vatica

no II em 1965 observou a responsabilidade dos católicos na propagacáo do indiferentismo religioso, como se depreende do texto da Constituigáo

Gaudium et Spes ne 19:

«Na verdade os que voluntariamente tentam afastarDeus de seu co-

ragáo e evitar os problemas religiosos, nao seguindo o ditame da sua cons

ciéncia, nao sao isentos de culpa. No entanto os próprios fiéis arcam sobre

istomuitasvezescomalguma responsabilidade. Com efeito,oateísmo,con

siderado integralmente, nao é algo ¡nato mas antes originado de causas

diversas, entre as quais se enumera também a reagáo crítica contra as reli-

gióes e em algumas regióes sobretudo contra a religiáo crista. Por esta ra-

záo, na gánese do ateísmo, grande parte podem ter os crentes, enquanto,

negligenciando a educagáo da fé, ou por uma exposigao falaz da doutrina,

ou por faltas na sua vida religiosa, moral e social, se poderia dizer que mais

escondem que manifestam a face genuína de Deus e da religiáo».

396

"EUROPA SEM DEUS"

13

O Papa Joáo Paulo II voltou á temática na sua Carta Incarnationis

Mysterium referente ao ano jubilar:

«A historia da Igreja é urna historia de santidade. O Novo Testamento

sublinha esta característica dos batizados: sao 'santos1 na medida em que,

separados do mundo enquanto submetido ao Maligno, consagram-se a pres taro culto ao único e verdadeiro Deus. De fato, essa santidade manifestase

ñas vidas de tantos santos e beatos reconhecidos pela Igreja, mas também na vida de urna multidáo ¡mensa de mulheres e homens desconhecidos cujo número é impossfvel calcular (cf. Ap 7, 9). Sua vida atesta a verdade do

Evangelho, oferecendo ao mundo o sinal visfvel de que a perfeigáo é possi- vel. No entanto, é forgoso reconhecer que a historia registra também nume

rosos episodios que constituem um contratestemunho para o cristianismo.

Por causa do vínculo que nos une uns aos outros dentro do Corpo místico, todosnos, emboranaotendoresponsabilidadepessoalporissoesem nos

sobrepor ao juízo de Deus - o único que conhece os coragóes -, carrega-

mos o peso dos erros e culpas de quem nos precedeu. Mas também nos,

filhos da Igreja, pecamos, tendo impedido á Esposa de Cristo resplandecer

em toda a beleza de seu rosto. Nosso pecado estorvou a agáo do Espirito no

coragáo de muitas pessoas. Nossa pouca fé faz muitos caírem na indiferen-

ga e os afastou de um auténtico encontró com Cristo» (n911).

O texto de VEJA observa que muitos abandonam a Igreja, mas

guardam a fé. A tais pessoas convém lembrar urna página de S. Cipriano,

Bispo de Cartago martirizado em 258.

3. "Nao tem Deus por Pai quem nao tem a Igreja por Máe"

(S. Cipriano)

Sao Cipriano viveu numa época atribulada, em que certos cristáos

de Cartago (África) queriam quebrar a unidade da Igreja, promovendo

um cisma. Isto equivaleria a desprezar a Igreja fundada por Cristo e en tregue a Pedro e seus sucessores, com a garantía da infalível assisténcia

do Senhor até o fim dos tempos (cf. Mt 16, 16-19; 28, 18-20). Eis o que

escreve em seu livro "Sobre a Unidade da Igreja".

«A Igreja é urna só, embora abranja urna multidáo pelo continuo

aumento de sua fecundidade. Assim como há urna luz nos muitos raios

do sol, urna árvore em muitos ramos, um só tronco fundamentado em

raízes tenazes, muitos ríos de urna única fonte, assim também esta mul

tidáo guarda a unidade de origem, se bem queparega dividida por causa

da inumerável profusáo dos que nascem. A unidade da luz nao comporta

que se separe um raio do centro solar; um ramo quebrado da árvore nao cresce; coríado da fonte, o rio seca ¡mediatamente. Do mesmo modo a

Igreja do Senhor, como luz derramada, estende seus raios em todo o

397

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

mundo, e é urna única luzque a difunde sem perderaprópría unidade.

Ela desdobra os ramos por toda a térra, com grande fecundidade; esten-

de-se ao longo dos ríos, com toda liberalidade, e no entanto é urna na cabe-

ca, urna pela origem, urna só máe ¡mensamente fecunda. Nascemos todos

de'seuventre,somosnutridoscomseuleiteeanimadosporseuespirito.

A esposa de Cristo nao pode ser adulterada, ela é incorrupta e

pura, nao conhece mais que urna só casa, guarda com casto pudor a

santidade do único tálamo. Ela nos conserva para Deus, entrega o Reino

dos filhos que gerou. Quem se aparta da Igreja e se junta a urna adúltera,

separase das promessas da Igreja. Quem deixa a Igreja de Cristo nao

alcangará os premios de Cristo. É um estranho, um profano, um inimigo.

Nao pode ter Deus por Pai quem nao tem a Igreja por Máe. Se alguém se

pode salvar, dos que ficaram fora da arca de Noé, também se salvará o que estiverfora da Igreja. O Senhornos admoesta e diz: 'Quem nao está

comigo está contra mim, e quem nao ajunta comigo, dispersa'. Tornase

adversario de Cristo quem rompe a paz e a concordia de Cristo; aquele que noutra parte recolhe, fora da Igreja, dispersa a Igreja de Cristo. O

Senhor diz: 'Eu e o Pai somos um1; está ainda escrito do Pai, do Filho e do Espirito Santo: '£ estes tres sao um\ Quem eré nesta verdade funda

da na certeza divina e adere aos misterios celestiais nao abandona a

Igreja ou déla se afasta, por causa da diversidade das vontades que se

entrechocam. Quem naomantémestaunidadetambémnaomantémaleí

de Deus, a fé no Pai e no Filho, nao conserva a vida nem a salvagáo» (PL

4, 510).

Este texto sugere duas reflexóes:

1) o verdadeiro cristáo, que, enxertado em Cristo pelo Batismo (Rm

6, 5), tem Deus por Pai, pertence á Igreja, que é o Corpo de Cristo (Cl 1,

24). Cristo é inseparável da Igreja que Ele fundou, como a cabeca é

inseparável do corpo respectivo. Só há urna Igreja fundada por Cristo,

que goza do caráter de sacramento da salvagáo. Os homens podem fun

dar comunidades, mas nao podem fundar Igreja-sacramento.

2) Fora da Igreja nao há salvagáo

Há dois modos de pertencer

á Igreja:ovisívele o invisível.O visívelcompete aquelesque professam

a mesma fé e recebem os mesmos sacramentos debaixo da mesma hie-

rarquia. O invisível toca aqueles que nao professam a fé católica, mas,

de consciéncia candida e tranquila, seguem fielmente outro Credo, jul-

gando ser o verdadeiro caminho da salvagáo. Estes podem salvar-se,

mas só se salvaráo mediante Cristo e a Igreja; cf. Constituigáo Lumen

Gentium ne 16; Gaudium et Spes nB 22. Ver a propósito PR 464/2001,

pp. 2-9.

Sao estas algumas consideragóes que a noticia de VEJA nos sugere.

398

Sensacionalismo:

"A INVENQÁO DO CRISTIANISMO"

(Revista GALILEU)

Em síntese: A revista GALILEU, de abril 2001, publicou um artigo

mas sim o

segundo o qual Jesús nao seria o fundador do Cristianismo,

Apostólo Paulo; os Evangelhos temo sido escritos tardíamente, seguindo

as linhas doutrinárias helenísticas que Paulo haveria comunicado á men-

sagem primitiva de Jesús. - Em resposta podem-se apontar recentes

descobertas de papiros portadores de fragmentos dos Evangelhos de

Marcos e Mateus respectivamente e datados de meados do sáculo I. A moderna crítica dos Evangelhos chega a admitir continuidade entre Je

sús e a redagáo dos Evangelhos, afastando a hipótese de um hiato entre

o Senhor Jesús e os evangelistas.

*

*

*

A revista GALILEU, edicáo de abril 2001, traz em sua capa os dize-

res "A Invencáo do Cristianismo" e publica um artigo de Mauricio Tuffani,

cuja síntese vai abaixo reproduzida:

«Para criar uma religiáo mundial, o Jesús libertador do povo

judeu foi transformado no fllho de üeus e ganhou o nome de cristo

A religiáocristanao comegou com Jesús. Segundo estudos recen

tesfeitosporhistoriadores e teólogos cristáos, a imagem desse homem

como Filho de Deus surgiu alguns anos após sua morte em Jerusalém

por volta do ano 30 do que hoje chamamos Era Crista. Mais aínda: a

versáo de que Jesús teña sido condenado pelo povo judeu passou a ser

construida muito depois de sua morte, com a elaboragáo dos evange

lhos. Diante de um mundo dominado pelos romanos, o cristianismo evi-

tou complicagóes políticas e se distanciou de sua origem: uma seita ju

daica formadaporhomens contrariosádominagáo estrangeira. Liderada

por Tiago, irmao de Jesús, a seita praticamente desapareceu no massa-

cre de Jerusalém pelos romanos na revolta que terminou no ano 70. Para

seus integrantes, Jesús era o Messias, descendente do rei Davi que nas- cera para libertar o povo judeu da opressáo e fora moño sob acusagáo

de rebeliáo. Fora da Palestina o trabalho iniciado pelo apostólo Paulo

prosseguiu, com a mensagem de um Cristo divino e descomprometido

com a política» (p. 27).

Em suma, Jesús, diz o articulista, quis apenas fundar um movi- mento político visando á libertacáo do povo judeu oprimido pelos roma

nos. Todavía esse movimento foi sufocado pelos romanos. Entáo Paulo,

399

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

16

que era um fariseu, deu urna guiñada a tal iniciativa, helenizando-a ou

tornando-a simpática aos romanos. Os Evangelhos teráo sido escritos tardíamente, refletindo essa nova feicáo do Cristianismo e lancando a

culpa da morte de Jesús sobre os judeus e nao sobre os romanos.

Pergunta-se: que dizer?

1. A linguagem dos manuscritos

Até época recente registrava-se entre os críticos liberáis a tenden cia a-distanciar de Jesús a redacáo dos Evangelhos. Esse longo intervalo

ou hiato terá dado ocasiáo a "arranjos" da figura de Jesús, que assim haverá sido endeusado ou helenizado ou adaptado á mentalidade dos

povos do Imperio greco-romano. - Tais concepcóes forjadas

especulativamente ou em virtude de preconceitos cedem hoje a urna vi-

sáo mais empírica e científicados fatos. Com efeito; a papiroiogia (ou a

ciencia que estuda os papiros) tem progredido, descobrindo fragmentos que evidenciam ter sido a redacáo dos Evangelhos efetuada em anos

muito próximos da vida terrestre de Jesús. Eis os mais antigos fragmen

tos papiráceos que hoje possuímos:

1) no Magdalen College de Oxford, o pesquisador alemáo Carsten

PeterThiede encontroutresfragmentosque eleeabalizadoscríticosatri- buem a meados do século I referentes a Mt 26, como se depreende da

traducáo portuguesa abaixo:

Fragmento 1, verso (Mt 26, 7-8):

derramou-o sobre sua cabega, enquanto ele estava á mesa. Ao

verem isso, os discípulos disseram indignados

Fragmento 2, verso (Mt 26,10):

Jesús percebeu isso e disse: "Porque aborrecéis esta mulher? O

que ela fezpor mim

Fragmento 3, verso (Mt 26,14-15):

Entáo um dos doze, o homem chamado Judas Iscariotes, foi até os cheles dos sacerdotes e disse: "O que estáis dispostos a dar-me

Fragmento 3, anverso (Mt 26, 22-23):

Eles ficaram muito entristecidos e comegaram a perguntar-lhe, um

a um: "Nao eu, Senhor, por ceño?" Ele respondeu: "O que comigo

poe a máo no prato

Fragmento 1, anverso (Mt 26, 31):

Jesús Ihes disse entáo: "Todos vos me renegareis esta noite, pois

está ñas escrituras

Fragmento 2, anverso (Mt 26, 32-33):

eu vos precedereina Galiléia." Pedro, entáo, Ihe disse

400

17

"A INVENQÁO DO CRISTIANISMO"

A datacáo de tais fragmentos é feita de acordó com o tipo de letras

gregas utilizadas: trata-se do Zierstil (estilo ornamentado), que caiu em

desuso em meados do século I. O Prof. Thiede escreveu a historia de

sua pesquisa num livro cujo título portugués soa: TESTEMUNHA OCU

LAR DE JESÚS (ed. Imago, 0 XX 21 2293-1092, Rio de Janeiro, RJ). O

título é muito significativo, pois formula a tese do autor, segundo a qual o

Evangelho de Mateus é o relato de quem acompanhou Jesús em sua vida terrestre. Essa mesma obra também fornece informacóes sobre o

papiro que se segué:

2) Em Qumran, a NO do Mar Morto (Israel), foi encontrado o papiro

classificado como 7Q5 (quinto papiro da sétima gruta de Qumran). O seu descobridor, Pe. José O'Callaghan S.J., o tem como portador de frag

mentos dos versos de Me 6, 52s\ Pelo seu Zierstil

bém deve datar de meados do século I.

tal documento tam

3) O mais antigo papiro do Evangelho de Sao Joáo (Evangelho escrito por volta de 100) é o Psz, que data do inicio do século II: apresenta

o texto de Jo 18, 31-33.37s. Está guardado na John Ryland's Library de

Manchester sob o número 457.

A papirologia, portanto, atesta a antigüidade da data de redacao

dos Evangelhos, removendo hipóteses segundo as quais tais livros seriam o

eco de remodelacáo esdrúxula da figura de Jesús e de sua mensagem.

Dito isto, vejamos como se concebe a origem e a formacáo dos

Evangelhos segundo os estudos mais recentes.

2. A Origem dos Evangelhos

Os estudos modernos recorrem ao chamado Método da Historia

das Formas. Em que consiste?

2.1. O Método da Historia das Formas

Jesús nada deixou escritonem mandou que seus Apostólos escre-

vessem, visto que a escrita era difícil e rara na antigüidade. Por isto o

Evangelho foi sendo pregado de viva voz na Palestina e fora desta. Aos

poucos, porém, para facilitar o uso da memoria, os pregadores foram

redigindo secoes avulsas (urna serie de parábolas que ilustrassem o Reino

de Deus, a misericordia do Pai,

). tes) foram sendo colecionadas, de modo a dar urna síntese dos

ensinamentos e dos principáis feitos de Jesús. Quatro dessas sínteses foram reconhecidas pela Igreja como canónicas ou auténtica Paiavra de Deus; tais sao os Evangelhos segundo Mateus, Marcos, Lucas e Joao.

altercacóes com os fariseus

urna serie de milagres de Jesús, ou de

Essas pequeñas unidades (folhas volan

' <¿2Nada haviam entendido a respeito dos páes, pois tinham a mente obcecada. ^Terminada a travessia, alcangaram térra em Genesaré e atracaram».

401

"PER6UNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

18

A compilacáo e a redacáo fináis devem ter ocorrido entre os anos

de 50 e 100. Todavia é de notar que foram feitas em continuidade com a pregacáo anterior, que procedía do próprio Jesús; nao houve hiato entre

Jesús e os evangelistas ou entre o ano 30 (Ascensáo do Senhor) e as

últimas décadas do sáculo I: a palavra do Senhor foi sendo transmitida

ininterruptamente. Ora o Método da Historia das Formas estuda esse intervalo entre Jesús e os Evangelistas (ou estuda a pré-história do texto

escrito definitivo), procurando reconstituir o ambiente e os fatores que

podem ter influido na redacáo oral e escrita da pregacáo dos Apostólos.

A Igreja Católica reconheceu a validade desse estudo mediante a

Instrucáo Sancta Mater Ecclesia da Pontificia Comissáo Bíblica, de 21/

04/1964. Tal documento apresenta tres fases na confeccáo do texto es

crito do Evangelho.

1) A pregacáo de Jesús aos Apostólos

Jesús, portanto, está na origem do texto que hoje circula (e nao apenas a fé dos cristáos do fim do século I). A palavra do Senhor foi entendida com dificuldade pelos Apostólos antes de Páscoa (pois ainda

estavam impregnados de conceitos nacionalistas (cf. Me 4,13; 6,51 s; 8,

-Todavia depois de Páscoa e Pentecostés os Apostólos

16-20; 9,10

).

compree'nderam o sentido dos dizeres e feitos do Mestre; entenderam

que o Jesús, companheiro de viagens pelas estradas da Palestina, é o

Kyrios, o Senhor Ressuscitado, o Messias ou o Cristo (ver Jo 2, 22; 12,

16 alias, o próprio Senhor Ihes havia prometido que o Espirito Santo

);

Ihes recordaría tudo o que Ele Ihes dissera e os levaría á plenitude da

verdade (cf. Jo 14, 26; 16,12-14; 7, 37-39).

Assim a imagem de Jesús cresceu na mente dos Apostólos; foi aprofundada e meditada homogéneamente sob a guia do Espirito Santo.

O "Jesús da historia" tornou-se o "Jesús da fé"; é o mesmo Jesús, outrora

percebido com hesitacoes e mal-entendidos, mas finalmente penetrado

auténticamente pela fé e pela experiencia dos seus primeiros seguidores.

Ainda se tém nos Evangelhos vestigios ou ecos diretos da prega

cáo de Cristo ou ipsissima verba Christi (as mesmíssimas palavras de

Cristo); vejam-se, por exemplo,

- a secáo de Mt 16, 16-19, em que se encontram numerosos

aramaísmos, inclusive o trocadilho "Pedro-Pedra", que só podería ocor-

rer em aramaico com a palavra Kepha, e nao em grego (Petros-Petra);

- as disputas de Jesús com os fariseus a respeito de textos bíbli

cos utilizados segundo o método (pesher) dos rabinos antigos: Mt 22,

34-40.41-46; Le 11,29-32;

- as disputas com os saduceus, que também versavam sobre textos

bíblicos interpretados segundo as escolas dos mestres de Israel: Mt 22,23-33

402

19

"A INVENCÁO DO CRISTIANISMO"

2) Dos Apostólos as primeiras comunidades cristas

Tendo recebido a ordem de pregar ao mundo inteiro (cf. Mt 28,18-

20), os Apostólos disseminaram a Boa-Nova.

O primeiro tema da pregacáo dos Apostólos devia ser a Páscoa, ou seja, a Paixáo, a Morte e o triunfo final do Senhor Jesús. Quem acei-

tasse esse primeiro anuncio (querigma), era levado á catequese ou ao

estudo da doutrina e dos feitos de Jesús que durante a vida pública havi-

am provocado a condenacáo do Senhor. A pregacáo dos Apostólos po-

dia limitar-se a esses dois momentos; compreendia as ocorréncias entre 0 Batismo e a Ascensáo do Senhor, sem retroceder até a infancia e a vida de Jesús na casa de Nazaré; cf. At 1, 21.' Foi precisamente o que fez Sao

Marcos no seu Evangelho; Sao Mateus e Sao Lucas acrescentaram episo

dios avulsos da infancia de Jesús (cf. Mt 1-2; Le 1-2) sem ter a intencáo de fazer urna biografía ou urna narrativa completa da vida do Senhor.2

Ao transmitir a Boa-Nova, os Apostólos e discípulos tmham sem-

pre em vista as circunstancias e particularidades características dos seus ouvintes.3 Procuravam dar á Palavra de Deus o Sitz im Leben, o lugar, a

ressonáncia na vida dos ouvintes. Assim foram redigindo formas literari

as adaptadas á finalidade da pregacáo:

- a forma da catequese sistemática (Mt 5-7; Le 15

- a forma do sermáo litúrgico (cf. as narrativas da Paixáo e Res-

surreicáo em Mt 26-28; Me 14-16; Le 22-24; Jo 13-20);

- a forma de hinos (cf. Fl 2, 5-11; Cl 1,15-20; Ef 1, 3-14; 2Tm 2,11-

13), doxologias (Rm 16, 25s; Jd 24s);

1 Foi Sao Pedro mesmo quem fixou os termos da pregagáo dos Apostólos: ¡a desde o Batismo ministrado por Joáo até a Ascensáo do Senhor, sendo que a ressurreigáo

era o primeiro e mais importante. Tenhamos em vista as palavras de Pedro antes da

escolha de Matías: "É necessárío que, dentre os homens que nos acompanharam

todo o tempo em que o Senhor Jesús viveu em nosso meio, a comegardo Batismo de Joáo até o dia em que dentre nos foi arrebatado, um destes se torne conosco

testemunha da sua ressurreigáo" (At 1, 21 s).

2 Éisto que explica a lacuna existente, nos Evangeihos, entre os 12 e os 27/30 anos

de Jesús. - Há quem diga que ela se deve a urna hipotética viagem do Senhor pelo

Oriente remoto, de modo que os evangelistas nada sabiam a respeito de Jesús nes-

se período. Tal hipótese é falsa, pois os Evangelistas sabiam que Jesús fora carpin- teiro (cf. Me 6, 3; Mt 13, 55). Nada ou quase nada escreveram a respeito de tal período, porque este escapava ao ámbito da pregagáo que os Apostólos tinham em

vista. Cf. PR 206/1977, pp. 61-76.

3 Comparem-se entre siAt 13, 16-41 e At 17, 22-31. No primeiro caso, Sao Paulo em

Antioquia da Pisídia prega a judeus recorrendo aos textos e feitos do Antigo Testa

mento, familiar aos ouvintes. No segundo caso, o Apostólo em Atenas prega aos

filósofospagaos gregos utilizando nao o Livro Sagrado, mas argumentos filosóficos

e testemunhos da tradigáo do povo ateniense.

403

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

20

- a forma de apología: havia textos do Antigo Testamento devida-

mente selecionados para provar a messianidade de Jesús: Is 7, 14 (cf.

Mt1,23);Mq5, 1 (cf. Mt 2, 6); Os 11, 1 (cf. Mt 2,15); Jr 31,15 (cf. Mt 2,

18);

(cf. Me 1, 2s); Is 8, 23-9, 1 (cf. Mt 4,15s)

Is 40,

3

e

MI 3,1

;

- a forma de controversia destinada a responder as objecóes le

vantadas pelos ouvintes; os Apostólos tiravam do repertorio das respos-

tas de Jesús as palavras adequadas as necessidades dos seus

interlocutores: assim devia haver dúvidas a respeito do sábado (Me 2,

23-3, 6), de casamento e divorcio (Mt 5, 31 s; 19, 3-12), do jejum (Me 2,18-

22; Mt 6,16-18), da volta do Senhor (Mt 24, 36; 24, 42-25,13; Me 13, 32)

Assim se foi desenvolvendo homogéneamente a mensagem dei- xada por Jesús sob forma seminal. Todo este trabalho foi assistido pelo

Espirito Santo para que nao houvesse desvio nem perversáo, como o

próprio Senhor o predisse; cf. Jo 14,26; 16,12s. Esta afirmagáo é essen-

cial para o cristao; nao sementé a fé a sugere, mas também argumentos

de ordem racional, que adiante seráo apresentados. O cristao eré que o

textoescritodos Evangelhos, emboratenha passado pelasfasesprelimi

nares que urna mensagem possa atravessar, é o eco fiel da doutrina de

Jesús, desdobrada orgánicamente pelos Apostólos e discípulos a fim de

a encarnar ñas diversas comunidades por eles fundadas. 3) Das primeiras comunidades aos Evangelistas

Aos poucos foi tomando vulto ñas comunidades cristas o desejo de

possuir por escrito o ensinamento de Jesús. Devem ter sido redigidos

entáo pequeños blocos literarios avulsos portadores ou de parábolas ou

de milagres ou de altercacóes ou de traeos biográficos de Jesús.

Essas pegas independentes foram sendo aos poucos agrupadas a fim de se ter o ensinamento completo de Jesús. Dos muitos ensaios re

sultantes dessa tarefa (cf. Le 1,1), quatro foram reconhecidos pela Igreja

como auténtica Palavra de Deus ou como canónicos: os de Mateus, Mar

cos, Lucas e Joáo.

O agrupamento foi colocado dentro do quadro da vida terrestre de

Jesús. Os mensageiros da Boa-Nova conceberam um esquema simples

da vida pública do Senhor, composto de quatro partes:

1) preparagáo do ministerio de Jesús (Joáo Batista, Batismo do

Senhor, tentacoes );

2) a pregacáo na Galiléia, com centro em Cafamaum, á margem

do lago de Genesaré;

3) a subida a Jerusalém;

4) os acontecimentos da última semana na Cidade Santa e a glori-

ficacáo do Senhor Jesús.

404

21

"A INVENgÁO DO CRISTIANISMO"

Dentro deste esquema biográfico foram sendo enquadrados os blo-

cos que a pregacáo anterior transmitía independentemente uns dos ou-

tros.

Está claro que cada Evangelista, tendo recebido da Igreja a men-

sagem de Jesús formulada pelos Apostólos, Ihe deu o seu cunho próprio, enfatizando mais este ou aquele aspecto da Boa Nova e da figura do

Senhor (Mateus, por exemplo, é o Evangelista dos judeo-cristaos, Lucas

o dos pagaos convertidos ao Cristianismo).

A cronología da origem dos Evangelhos

Mt aramaico5o

^^

Mt gregogo

Me grego65/70

^—

pode ser assim concebida:

Tradicáo joanéia

Lcgrego75

Joáo gregoioo

As datas ácima sao aproximadas, mas muito prováveis. A primeira redacáo do Evangelho deu-se por obra de Mateus na térra de Israel e,

por isto, em aramaico. Esta redacio serviu de modelo para Marcos e Lucas, que utilizaram o esquema de Mateus, acrescentando-lhe caracte rísticas pessoais. O texto de Mateus foi traduzido para o grego, visto que

o aramaico entrou em desuso quando Jerusalém caiu em poder dos ro

manos no ano de 70; o tradutor, desconhecido a nos, retocou e ampliou o texto aramaico, servindo-se de Me. Isto quer dizer que o texto grego de

Mateus (único existente, porque o aramaico se perdeu) é, segundo al-

guns aspectos, o mais arcaico e, segundo outros aspectos, o mais recen

te dentre os sinóticos.

Pergunta-se agora:

2.2. Pode-se crer nos Evangelhos?

Há quem julgue que a mensagem de Jesús, tendo passado por

varias instancias intermediarias, foi sendo aos poucos desfigurada, de

405

22

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

modo que o texto escrito já nao refere a verdade histórica. - Em resposta

observaremos o seguinte:

2.2.1. Testemunhas

Os Apostólos eram muito ciosos da fidelidade a Jesús e á realida- de histórica. Tinham consciéncia de que a Revelacáo de Deus aos ho-

mens passou pela trama da historia do Antigo Testamento e da vida de

Jesús; os acontecimentos da historia da salvacáo sao portadores de men- sagem; ligam-se a verdades, como também as verdades da Revelacáo

se prendem a fatos históricos. Sao Paulo chega ao ponto de dizer: "Se

Cristo nao ressuscitou, vazia é a nossa pregacáo, vaziatambém é a nos- sa fé Se Cristo nao ressuscitou, ilusoria é a vossa fé" (1Cor 15,14.17).

Isto quer dizer que toda a sublimidade da sabedoria crista se retira de campo ou renuncia a se apresentar se nao está ligada ao fato concreto histórico da Ressurreicáo corporal de Jesús. Por conseguinte, em perspec tiva crista nao se pode, sem mais, negar a historia bíblica e, apesar disto,

afirmar a doutrina religiosa do Cristianismo. Isto se evidencia, entre outras

coisas, pelo fato de que os Apostólos nao queriam ser senáo testemunhas

Com efeito; os conceitos de "testemunho", "testemunha" e "testemunhar"

ocorrem mais de 150 vezes nos escritos do Novo Testamento. Ora "testemu

nha" é a pessoa que está habilitadaa fazerafirmacoes verídicas, pois tem o

conhecimento de causa mais seguro, que é a própria experiencia pessoal.

É interessante notar a insistencia com que os Apostólos se apre-

sentam como testemunhas de Jesús; afirmam nao transmitir senáo o

que viram e ouviram. Parece, de certo, que a regra de "testemunhar ape nas", sem nada acrescentar de falso, marcava profundamente a vida e a profissáo de fé das antigás comunidades cristas. Tenham-se em vista as

seguintes passagens:

Quando entre a Ascensáo e Pentecostés os Apostólos trataram de substituir Judas, o traidor, estipularam, como qualidade própria do novo

Apostólo, a de testemunha, e testemunha principalmente da ressurrei cáo do Senhor. Tais foram entáo as palavras de Sao Pedro:

"Convém que, dentre esses homens que tém estado em nossa com-

panhia todo o tempo em que o Senhor Jesús viveu entre nos, a comegar

do batismo de Joáo até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um deles seja incluido em nosso número, como testemunha da sua ressur-

reicáo" (At 1, 21s).

No dia de Pentecostés, afirmava Sao Pedro: "A esse Jesús, Deus

ressuscitou. Disto todos nos somos testemunhas" (At 2, 32).

No seu segundo sermáo, voltava a dizer Sao Pedro: "Matastes o príncipe de vida, mas Deus o ressuscitou dos morios. Disto nos somos

testemunhas" (At 3, 15).

406

23

"A INVENQÁO DO CRISTIANISMO"

Diante do sinedrio, Pedro e os Apostólos responderam:

"Foi Deus quem, com a sua destra, elevou (a Jesús) como Príncipe eSalvadorpara dará Israeloarrependimento ea remissáodospecados.

E nos somos testemunhas dessas coisas, nos e o EspiritoSanto, que

Deus deu a todos os que Ihe obedecem" (At 5, 31 s).

Em casa de Cornélio, dizia S. Pedro: "Enós somos testemunhas

de tudo que (Jesús) fez no país dosjudeus e em Jerusalém. Eles O ma-

taram, suspendendo-0 a um madeiro. Deus, porém, O ressuscitou ao

terceiro dia, e permitiu-Lhe aparecer de modo visfvel, nao a todo o povo,

mas as testemunhas antes escolhidas por Deus: a nos, que comemos e bebemos com Ele, depois que ressuscitou dos moños" (At 10, 39-41).

Palavras de Sao Paulo: " Mas Deus O (Jesús) ressuscitou dos morios. Pormuitos días apareceu aqueles que com Ele tinham subido da Galiléiapara Jerusalém e que sao agora suas testemunhas perante o

povo" (At 13,30s).

Sao Paulo, ao contar sua conversáo, refere a seguinte ordem de

Deus:

"Levanta-te e pde-te em pé, pois eu te aparecí para te constituir ministro e testemunha das coisas que viste, e de outras para as quais

hei de me manifestar a ti" (At 26, 16).

Sao Paulo fazia questáo de lembrar aos corintios as principáis tes

temunhas da ressurreicáo:

"Cristo morreu por nossos pecados, conforme as Escrituras; foi se

pultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as mesmas Escrituras; apareceu a Cefas e depois aos doze. Posteriormente, apareceu, de urna

vez, a mais de quinhentos irmáos, dos quais a maior parte vive até hoje, tendo alguns falecido. Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos

os apostólos. Porfim, depois de todos, apareceu também a mim, como a

um abortivo" (1Cor 15, 3-8).

Por fim, Sao Pedro escrevia aos fiéis da Asia Menor:

"Eu, presbítero etestemunha dossofrimentos de Cristo

"(1Pd5,1).

Alias, ao acentuar o seu papel de testemunhas, os Apostólos nao

faziam senáo cumprir os dizeres do Mestre: "Seréis minhas testemu

nhas" (At 1, 8; cf. Le 24, 48).

Intencionando, pois, passar por testemunhas, os Apostólos teráo

tomado o devido cuidado para ser fiéis á mensagem de Cristo.

2.2.2. Os mitos e o Evangelho

Nao há dúvida, na Igreja nascente houve tentativas de deteriorar a

mensagem evangélica. Sao Paulo se refere a fábulas, erros gnósticos,

407

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

24

, mitos, e cuidou zelosamente de que tais mitos nao se mesclassem com a auténtica doutrina do Cristianismo, chamada logos.

que ele compreendia sob a palavra grega mythoi,

dualistas, docetistas

Observemos como os Apostólos tinham consciéncia de que os mi

tos nao fazem parte da mensagem evangélica e, por isto, devem ser

banidos da pregacáo:

1Tm 1, 3s: "Ao partir para a Macedónia, pedi-te (ó Timoteo) que

permanecesses em Éfeso a fim de admoestares certas pessoas a nao

ensinarem doutrina diferente nem se apegarem a fábulas (mythois,) e

genealogías intermináveis".

Sao Paulo tinha em vista lendas inventadas no século I d.C. para

esclarecer fatos do Antigo Testamento; visava também a pesquisas que correspondiam ao gosto dos doutores judaicos e dos homens ecléticos

da época.

Mais adiante volta o Apostólo a exortar:

"Rejeita as fábulas (mythous; profanas, verdadeiros contos de ve-

Ihas. Exercita-te na piedade" (1Tm 4, 7).

Na segunda carta a Timoteo lé-se ainda:

"Os homens afastaráo os ouvidos da verdade e os aplicaráo as

fábulas (mythous/1 (2Tm 4, 4).

Mais:

Tt 1,13s: "Sede saos na fé nao deis ouvidos a fábulas (mythoisj

judaicas ou mandamentos de homens desviados da verdade".

2Pd 1,16: "Nao foiseguindo fábulas fmythoisj sutis, mas por ter

mos sido testemunhas oculares da sua majestade que vos demos a co-

nhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesús Cristo".

Do mythos se distingue o logos, a palavra, que Sao Paulo muito

recomenda:

Rm 10,8: "Ao teu alcance está a palavra da fé que nos pregamos".

1Ts 2,13: "Sem cessaragradecemos a Deuspor terdes acolhido a

sua Palavra, que vos pregamos nao como palavra humana, mas, como

na verdade é, a Palavra de Deus, que está produzindo efeito em vos".

Mas a Palavra

2Tm 2, 9: "Pelo Evangelho sofro até as cadeias

de Deus nao está algemada".

2Tm 2, 15: "Procura apresentar-te

que

como um trabalhador dispensa com retidáo a palavra da verdade".

Ver ainda Tt2, 5; Tg 1, 22s; Uo 1, 1;At 13, 26.

408

"A INVENQÁO DO CRISTIANISMO"

Donde se vé que nao se deve admitir tenha sido a mensagem cris

ta penetrada por mitos e confundida com estes, como se os primeiros pregadores da mesma fossem simplórios e destituidos de discemimento.

De resto, os mitos todos tém estilo vago, do ponto de vista da cro

nología e da topografía; nao podem propor quadro histórico e geográfico

preciso; é o que os isenta de controle. Ora dá-se o contrario nos Evange-

Ihos: a topografía da Palestina é por estes minuciosamente mencionada-

também acronologíarespectivaérelacionadacom acronologíaprofana'

como se depreende de Le 2, 1 (referencia a César Augusto) e Le 3 1s

(referenciaaTiberioCésar, Pondo Pilatos,Herodes, Filipe,Lisánias'

Mais ainda: nenhum criador de mitos teria inventado o "mito" do

Evangelho, cujos traeos sao desafiadores e exigentes para a mente hu

crucificado era es

mana: a mensagem de Deus feito homem e, mais,

cándalo para os judeus e loucura para os gregos (1Cor 1,23). A promes-

sa de ressurreicáo ou de re-uniáo da alma com o corpo era contraria ao

pensamento grego; a Moral crista, que valorizava a mulher, a crianca

mesmo indesejada,afamilia,otrabalhomanual, o escravo (cf.aepístola

a Filemon

),

a estrita monogamia sem divorcio

,

só podía encontrar

oposicio da parte da Filosofía greco-romana. Nada disto tinha condicoes

de partir da mente dos homens do século I da nossa era.

2.2.3. Os apócrifos

Era naturalque a fantasía humana elaborasse lendas e estórías a

respeito de Jesús, visando a completar, de algum modo, o logos ou a

Palavra da pregacáo dos Apostólos. Acontece, porém, que a Igreja, sabi

amente guiada pelo Espirito Santo, soube discernir da historia real essas

fiecóes, relegando-asparaa literaturaapócrifa. Estaé caracterizada por

estilo evidentemente imagínoso e ficticio, bem diferente do dos Evange- Ihos canónicos, como se pode perceber através de simples amostragem:

"O menino Jesús tinha cinco anos quando um dia se encontrava a

chuva. Recolhendo a

brincar sobre a passarela de um riacho depois da

agua em pequeñas vasilhas, tornava-a cristalina no mesmo instante e a

dominava apenas com a sua palavra.

Depois fez urna massa de barro e com ela plasmou doze passari-

nhos. Era entáosábado e havia outrosmeninosa brincarcom Jesús. Certojudeu, vendo o que Jesús acabara de fazer em dia de festa,

foitercorrendo com seupaiJosé e ¡hecontou tudo: 'Olha, teufilhoestá

no riacho e, tomando um pouco de barro, fez doze pássaros, profanando

assim o sábado'.

José foi ter com Jesús e, ao vé-lo, censurou-o dizendo: 'Por que

fazes no sábado o que nao é lícito fazer?' Jesús entáo bateu palmas e se

409

26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

dirígiu aos passarinhos de barro, dizendo-lhes: 'Ide-vosV E os passari-

nhos todos se puseram a voar e cantar.

Ao ver feto, osjudeus se encheram de admiragáo e foram contara

seus chefes o que tinham visto Jesús fazer" fEvangelho do Pseudo-

Tomé II).

"Aconteceu que umjovem, ao cortar lenha, deixou cair o machado,

que Ihe cortou a planta do pé. O infeliz ia morreado aos poucos por causa

da hemorragia. Houve entáo grande alvorogo e tumulto de muita gente.

Jesús também se fez presente; depois de abrir passagem, pela forga,

entre a multidáo, chegou perto do rapaz ferido, e com sua máo apertouo

pé danificado dojovem, e este ¡mediatamente ficou curado. Disse entáo

Jesús ao mogo: 'Levanta-te já; continua a cortar lenha e lembra-te de

mim'. A multidáo, ao vero ocorrido, adorou o menino, exclamando: 'Real

mente neste menino habita o Espirito de Deusi'" (ib. n9X).

"Quando Jesús tinha seis anos, sua máe deu-lhe um jarropara que

o fosse encher de agua e o levasse para casa. Mas Jesús tropegou no

caminho e o cántaro se quebrou. Entáo ele estendeu o manto que o co-

bria, encheu-o de agua e levou-o a sua máe. Este, ao ver tal maravilha,

pós'-se a beijar Jesús. E conservava em seu coragáo todos os misterios

que ela o via realizar"(ib. n9XI).

Ao contrario do que se dá nos apócrifos, quem lé os Evangelhos

canónicos, observa ai notável sobriedade de estilo, síntoma de que os

Evangelistas tinham consciéncia de que a sua mensagem narrada com

simplicidade tinha em seu favor o fascínio e o poder da verdade e, por

isto, nao precisava de ser "embelezada" artificialmente para encontrar a

aceitacáo do público.

Pode-se, pois, concluir que a mensagem do Evangelho é de ori-

gem transcendente e nao terá sido produto do ficcionismo de judeus ou

de pagaos da antigüidade. - É isto que mais urna vez nos compete afir

mar diante das noticias sensacionalistas de certa imprensa.

A propósito:

GUITTON JEAN, Jesús. Ed. Itatiaia, Belo Horizonte.

LAMBIASI, E, Autenticidade histórica dos Evangelhos. Ed.

Paulinas. MESSORI, VITTORIO, Hipóteses sobre Jesús. Ed. Paulinas.

TÉRRA, JOÁO EVANGELISTA MARTINS, Jesús. Ed. Loyola.

PR 219/1978, pp. 95-108 {panorama da moderna crítica dos Evan

gelhos).

410

Relatónos:

AS OBRAS CARITATIVAS DE

JOÁO PAULO II EM 2000

Em smtese: O S. Padre Joáo Paulo II exerce intensa atividade

caritativa mediante tres órgáos filiadosá Santa Sé: o Pontificio Con

selho Cor Unum, a Fundagáo Joáo Paulo II para o Sahel e a Funda- gao Populorum Progressio. Anualmente esses órgáosprestam con-

tas do dinheiro distribuido a populagóes flageladas ou de algum modo

carentes. As paginas que se seguem, propóem os relatónos referen

tes ao ano 2000.

*

*

#

O Santo Padre recebe doacoes da parte de dioceses, Fundacóes

Instituicoes e pessoas particulares, para que possa atender as necessi- dades dos homens em geral, sem distincáo de credo. Joáo Paulo II o faz

mediante tres órgáos filiadosá Santa Sé:

- o Pontificio Conselho Cor Unum, fundado em 1971 por Paulo VI

e destinado a socorrer populacoes flageladas e á promocáo humana em

geral;

- a Fundacáo Joáo Paulo II para o Sahel, fundada em 1984 por

Joao Paulo II e voltada para as regioes africanas do Sahel sujeitas á

seca e á desertificacáo;

- a Fundacáo Populorum Progressio, criada em 1992 para favo

recer a promocáo humana e crista de populacóes de agricultores indíge

nas, mesticos e afro-americanos pobres da América Latina.

O jornal L'OSSERVATORE ROMANO, ed. francesa de 24/04/01

publicou os relatórios das obras caritativas efetuadas pelo S. Padre atra-

vésdostresmencionadosorganismos.Reproduzimo-losñaspáginassub-

seqüentes.

1. Pontificio Conselho Cor Unum

O Pontificio Conselho Cor Unum atende tanto aos casos de cala

midades públicas emergenciais como aos de promocáo humana em cir

cunstancias ordinarias. Eis os dois relatórios daí decorrentes:

411

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

28

1.1. Em favor de vítimas de situacóes calamitosas

TIPO DE CATÁSTROFE

TAIWAN

RUANDA

PAÍS

Terremoto

Seca

AJUDA EM US$

55.000

15.000

10.000 Inundacóes PERÚ 15.000 Refugiados
10.000
Inundacóes
PERÚ
15.000
Refugiados

SÍRIA

MOCAMBIQUE

Inundacóes

140.000

20.000 Guerra civil INDONESIA (Molucas) INDONESIA (Timororiental) 21.000 Guerra civil 20.000 Seca QUÉNIA 25.000
20.000
Guerra civil
INDONESIA (Molucas)
INDONESIA (Timororiental)
21.000
Guerra civil
20.000
Seca
QUÉNIA
25.000
Conflitos étnicos
NIGERIA
24.500
TANZANIA
Refugiados
Inundacóes e desmorona-
VENEZUELA
30.000
mentos

MONGÓLIA

ETIOPIA

Catástrofe climática

Seca

30.000

100.000

20.000 Guerra AFEGANISTÁO Repatriamento de refugiados 15.000 REP. DEM. DO CONGO
20.000
Guerra
AFEGANISTÁO
Repatriamento de refugiados
15.000
REP. DEM. DO CONGO

FILIPINAS

Desordens étnicas

20.000

20.000 Ciclones MADAGASCAR 30.000 Inundacóes
20.000
Ciclones
MADAGASCAR
30.000
Inundacóes

ZIMBABWE

50.000 Inundacóes CORÉIA DO NORTE 2.000 Terremoto FILIPINAS 115.000 Refugiados
50.000
Inundacóes
CORÉIA DO NORTE
2.000
Terremoto
FILIPINAS
115.000
Refugiados

KOSOVO

Refugiados da Eritréia 15.000 SUDÁO 20.000 Inundacoes REPÚBLICA TCHECA
Refugiados da Eritréia
15.000
SUDÁO
20.000
Inundacoes
REPÚBLICA TCHECA
5.000 Inundacóes ROMÉNIA 2.000 Inundacóes ÍNDIA 15.000 Refugiados ZÁMBIA 20.000 Catástrofe nuclear
5.000
Inundacóes
ROMÉNIA
2.000
Inundacóes
ÍNDIA
15.000
Refugiados
ZÁMBIA
20.000
Catástrofe nuclear

UCRANIA

UCRANIA

Chancas vítimas de

Tchernobyl

60.000

20.000 Refugiados ERITRÉIA 53.300 Inundacoes ITALIA 10.000 Refugiados
20.000
Refugiados
ERITRÉIA
53.300
Inundacoes
ITALIA
10.000
Refugiados

UGANDA

30.000 Inundacóes VIETNAM 1.027.800
30.000
Inundacóes
VIETNAM
1.027.800

TOTAL

412

29

AS OBRAS CARITATIVAS DE JOÁO PAULO II EM 2000

Projetos de Promovió Humana e Crista

1.2. Em favor de

PAÍS SETOR CONTRIBUICÁO EM USS VIETNAM Criancas 15.000 RUANDA Cidade das Crianzas 5.000 CAMARÓES Saúde
PAÍS
SETOR
CONTRIBUICÁO
EM USS
VIETNAM
Criancas
15.000
RUANDA
Cidade das Crianzas
5.000
CAMARÓES
Saúde
20.000
EQUADOR Promocáo Social 20.000 REP. DEM. DO CONGO Promocáo Social 22.100
EQUADOR
Promocáo Social
20.000
REP. DEM. DO CONGO
Promocáo Social
22.100

Casas para as vítimas da

REP. DEM. DO CONGO

guerra 10.000 VIETNAM Educacáo 3.000 RUANDA Casas para os desabrigados 6.200 ANGOLA Promocáo Social 25.000
guerra
10.000
VIETNAM
Educacáo
3.000
RUANDA
Casas para os desabrigados
6.200
ANGOLA
Promocáo Social
25.000
BRASIL
Promocáo Social
20.000
QUÉNIA
Saúde
20.000

Promocáo feminina

LÍBANO 18.000 MADAGASCAR Centro Social 4.000 Alfabetizacáo 10.000
LÍBANO
18.000
MADAGASCAR
Centro Social
4.000
Alfabetizacáo
10.000
NIGERIA ROMÉNIA Criancas abandonas 10.000
NIGERIA
ROMÉNIA
Criancas abandonas
10.000
INDONESIA Saúde 5.000 ITALIA Reinsercáo social de criancas e jovens 103.440 BRASIL Assisténcia Social 10.000
INDONESIA
Saúde
5.000
ITALIA
Reinsercáo social de criancas
e jovens
103.440
BRASIL
Assisténcia Social
10.000
MÉXICO
Promocáo Social
25.000
MOQAMBIQUE
Saúde
40.000
JERUSALÉM
Educacáo de órfáos
20.000
TANZANIA
Maternidade
2.000
Órfáos
5.000

HAITÍ

REP. ÁRABE DO EGITO

Promocáo Social

12.000

REP. DEM. DO CONGO REP. DEM. DO CONGO Agricultura e Alimentacáo 20.000 Criancas 20.000
REP. DEM. DO CONGO
REP. DEM. DO CONGO
Agricultura e Alimentacáo
20.000
Criancas
20.000
CAMARÓES Agricultura e Alimentacáo 25.000 HAITÍ Energía Solar 13.000 IUGOSLÁVIA Socio-pastoral 20.000
CAMARÓES
Agricultura e Alimentacáo
25.000
HAITÍ
Energía Solar
13.000
IUGOSLÁVIA
Socio-pastoral
20.000

413

30

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

PAÍS SETOR CONTRIBUICÁO EM USS COSTA RICA Socio-pastoral 2.500 CROACIA Assisténcia a Mulheres em Dificuldades
PAÍS
SETOR
CONTRIBUICÁO
EM USS
COSTA RICA
Socio-pastoral
2.500
CROACIA
Assisténcia a Mulheres em
Dificuldades
10.000
ÍNDIA
Pobres
5.000
ÍNDIA
Promogáo Social
12.000
QUÉNIA Promogáo Social de Jovens 20.000 NIGERIA Promogáo Social 20.000
QUÉNIA
Promogáo Social de Jovens
20.000
NIGERIA
Promogáo Social
20.000

PERÚ

Promogáo Social de Jovens

Agricultores 25.000 SUÉCIA Promocáo Social de Imigrantes e Refugiados 10.000 MADAGASCAR Promogáo Social de
Agricultores
25.000
SUÉCIA
Promocáo Social de
Imigrantes e Refugiados
10.000
MADAGASCAR
Promogáo Social de Jovens
15.000
UCRANIA
Changas
10.000
ERITRÉIA
Agricultura e Alimentagáo
20.000
TURCMENISTÁO
Desabrigados
20.000
VIETNAM
20.000

ETIOPIA

GANA

TANZANIA

TANZANIA

CROACIA

Promogáo Social de Mogas

Criangas Deficientes

20.000 Sócio-pastoral 5.000 Sócio-pastoral 20.000 Cantina Escolar 25.000 PessoasIdosas 20.000
20.000
Sócio-pastoral
5.000
Sócio-pastoral
20.000
Cantina Escolar
25.000
PessoasIdosas
20.000
GEORGIA Criangas Abandonadas 25.000 ÍNDIA Casas para Desabrigados 10.000 LÍBANO Alimentagáo 15.000 TANZANIA
GEORGIA
Criangas Abandonadas
25.000
ÍNDIA
Casas para Desabrigados
10.000
LÍBANO
Alimentagáo
15.000
TANZANIA
Agricultura e alimentagáo
5.000
VIETNAM Criangas 15.000 VIETNAM Equipamentos 15.565
VIETNAM
Criangas
15.000
VIETNAM
Equipamentos
15.565

TOTAL

414

888.805

AS OBRAS CARITATIVAS DE JOÁO PAULO II EM 2000

31

Passemos ao relato de cada urna das duas outras organizacóes caritativas da Santa Sé.

2. Fundacáo Joáo Paulo II para o Sahel

Esta Fundacáo tem por capital o resultado da coleta efetuada pela Igreja na Alemanha em resposta ao apelo lancado pelo Santo Padre aos 10 de maio de 1980 em Ouagadougou. Além disto, é sustentada pela generosidade da Conferencia dos Bispos da Italia, pelo apoio da Papal

Foundation, de diversos Institutos religiosos como também de associa-

cóes e fiéis particulares. Realizou o financiamento de 312 pequeños pro

jetos na luta contra a seca e a desertificacáo das regioes saarianas (Áfri

ca), num total de US$ 2.992.097,26; a hidráulica, a agricultura e a saúde

foram assim beneficiadas, como se pode depreender da relacáo a se

guir:

Total

financiamentos

Total

PAÍS A B C D E F G H projetos ■ concedidos aprovados emUSS BURKINA
PAÍS
A
B
C
D
E
F
G
H
projetos
concedidos
aprovados
emUSS
BURKINA FASO
20
27
17
27
14
4
43
13
8
173
1.174.895,67
CABO VERDE
0
0
1
0
0
0
2
0
0
3
84.448,29
GÁMBIA
3
1
1
0
0
0
0
0
1
6
82.458,91
MALÍ
0
0
4
2
0
3
1
0
13
196.747,78
MAURITANIA
0
0
0
0
0
0
0
0
1
1
7.562,96
NIGERIA
11
4
2
3
1
1
1
7
0
30
204.313,59
SENEGAL
4
4
5
8
3
2
2
0
2
30
718.617,63
TCHAD
12
2
17
0
10
4
6
0
56
523.052,43
Total
50
44
28
59
20
17
55
27
12
312
2.992.097,26

A) Ambiente, B) Agricultura, C) Criacáo de gado, D) Animacáo, E) Automacáo, F) Gestáo de projetos, G) Hidráulica, H) Saúde, I) Formacáo técnica.

3. Fundacáo Populorum Progressio

Este organismo está voltado para as populacóes pobres da Améri

ca Latina. Tem por capital o fundo do mesmo nome, instituido pelo Papa Paulo VI aos 26 de marco de 1969 e é apoiado por instituicóes diversas

como por personalidades particulares.

Eis o quadro de projetos aprovados pela Fundacáo em 2000:

415

32

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

NÚMERO DE

CONTRIBUICÓES

PAÍS PROJETOS CONCEDIDAS APROVADOS EMUSS ARGENTINA 1 9.000 BOÜVIA 16 143.000 BRASIL 18 153.700 COLOMBIA
PAÍS
PROJETOS
CONCEDIDAS
APROVADOS
EMUSS
ARGENTINA
1
9.000
BOÜVIA
16
143.000
BRASIL
18
153.700
COLOMBIA
23
208.900
COSTA RICA
11
96.400
CUBA
6
62.600
CHILE
13
103.600
EQUADOR
14
124.000
SALVADOR
8
76.500
GUATEMALA
10
97.300
HAITÍ
3
30.000
HONDURAS
1
5.000
MÉXICO
11
100.400
NICARAGUA
9
77.500
PANAMÁ
8
80.000
PARAGUAI
11
90.400
PERÚ
30
276.800
REP. DOMINICANA 9 86.700 URUGUAI 2 20.900 VENEZUELA 4 30.800 ATIVIDADES DE PROMOCÁO 1 50.000
REP. DOMINICANA
9
86.700
URUGUAI
2
20.900
VENEZUELA
4
30.800
ATIVIDADES DE PROMOCÁO
1
50.000
TOTAL
209
1.923.500

Eis a reparticáo em % por setor beneficiado:

Formacáo de educadores 9,6% Comunicacáo 1,6% Construcóes Transportes e Equipamentos Reunióes 4,3% 3,9% 0,8%
Formacáo de educadores
9,6%
Comunicacáo
1,6%
Construcóes
Transportes e Equipamentos
Reunióes
4,3%
3,9%
0,8%

EDUCACÁO

416

AS OBRAS CARITATIVAS DE JOÁO PAULO II EM 2000

33

INFRA-ESTRUTURAS

PRODUCÁO

SAÚDE

ALOJAMENTOS

TOTAL

Agua potável

Eletrificacáo

Servicos de Higiene

Saldes Comunitarios

Criacáo de gado

Artesanato

Micro-empresas

Lojas comunitarias

Formacáo de agentes

Construcóes

Transportes e equipamentos

Construcóes

8,9%

0,4%

2,7%

1,2%

40,7%

1,9%

7,0%

1,2%

2,7%

0,8%

1,9%

3,1%

100%

Sejam enumeradas ainda outras iniciativas.

4. Outros tipos de ajuda

Em preparacáo do ano 2000, foi fundado na Italia o Movimento

Pañis Caritatis (Pao da Caridade), que exerceu suas atividades em 2000 com os seguintes resultados:

Projeto de fornos para a producáo de pao em Kinshasha (Repúbli ca Democrática do Congo): US$ 99.750.

Projeto de assisténcia médica a máes e enancas em Guiné-Bissau:

US$ 52.500.

Em favor dos refugiados do Sudáo em Uganda: US$ 57.750.

Ajuda ao desenvoivimento da criacáo de animáis em Kabgayi (Ruanda): US$66.150.

Escolarizacáo de enancas órfás e pobres de Kabgayi (Ruanda):

US$ 19.950.

Equipamento de oficinas de carpintaria em Kaemba (República Democrática do Congo): US$ 10.500.

Projeto de fornos para pao em Lodja (República Democrática do

Congo): US$ 32.260.

Total de financiamentos: US$ 335.850.

417

34

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

O Santo Padre reconhece que as contribuicoes outorgadas pela

Santa Sé sao pequeña parcela do que se faz necessário para a solucao

dos problemas enfrentados e explica a intencáo da Santa Sé, ao dar sua colaboracáo, nos seguintes termos:

"A Igreja nao intenciona ser mera agencia de ajuda humanitaria; ela, antes, deseja testemunhar, de todos os modos possíveis, o amor de

Cristo, que liberta de todo mal o ser humano" (Discurso aos Conselhos

de Administragáo das Fundagóes Joáo Paulo II para o Sahel e Populorum

Progressio, 11/07/2000).

Podem-se mencionar ainda outras formas de ajuda pelas quais se

exprime o zelo do S. Padre pelos ¡rmaos carentes: tais sao as contribui- góes concedidas através das Pontificias Obras Missionárias, a ajuda ou-

torgada aos pobres de Roma e o sustento concreto atribuido diretamente

aos Bispos em sua acáo pastoral.

"Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas

boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus" (Mt 5, 16).

(Continuagáo da pág. 387):

Assim o anuncio salvífico penetra a historia sagrada descrita nos

livros do Antigo Testamento, nela "se encarna", fazendo da historia um discurso. Os feitos do Antigo Testamento sao pontos que parecem ¡sola

dos e insignificantes, mas que o bom entendedor liga entre si, de modo a

perceber ai o nome de Deus.

2) Contato com Cristo

O

contato do cristáo com Cristo nao é meramente psicológico ou

afetivo. É, sim, um contato ontológico: a vida de Cristo toca a do cristáo

mediante os sacramentos. Estes sao os cañáis comunicadores da graca

divina.

Assim torna-se evidente que o cristáo nao pode prescindir da prá- tica sacramental. O Cristianismo nao é apenas urna escola de bons cos-

tumes, mas é comunháo de vida com o próprio Deus nos termos estabe-

lecidos pelo Senhor mesmo.

418

Surpreendente:

POLIGAMIA NOS ESTADOS UNIDOS

Em síntese: A imprensa noticiou que Tom Green nos Estados Uni

dos foi levado a júripor ser polígamo. Esta prática, nao rara no Estado de

Utah, é reconhecida e mesmo favorecida pela denominagáo religiosa

mórmon. Para ilustrá-lo, o artigoexpóe breve históricodas origens dessa

denominagáo e um quadro de suas crengas.

*

*

*

Em maio pp. o grande público foi surpreendido pela noticia de que

se pratica a poligamia nos Estados Unidos. Tal prática é apoiada pelo Credo mórmon, como se depreende do recorte seguinte extraído do JOR

NAL DO BRASIL de 15/5/01, p. 13:

«Americano com 5 esposas e 29 filhos é julgado

Utah, EUA - Comegou no estado americano de Utah um processo

que promete polémica. Ontem o tribunal da pequeña Provo assistiu ató

nito a entrada do réu, Tom Green, e suas cinco esposas: as irmás Shirley

e Lee Ann Beagley, suaprima Linda Kunz, além das irmás Carie Hannah Bjorkman. Green é o primeiro homem no país a ser acusado de bigamia

(na verdade, tres acusagóes de bigamia somadas) em 50 anos.

'Meu crime nao é tanto ser um polígamo em Utah - há dezenas de

milhares como eu. Meu crime é serpolígamo e nao tercalado a boca',

disse Green, 51 anos. 'Esta tem sido a lei nao escrita no estado há 50

anos: vocé fingeque nao existee elesfingem que vocé nao existe'. Ojuiz

determinou o prosseguimento do processo, cujo veridicto será decidido

por um júri popular.

Estimase que existam entre 30 mil e 100 mil bigamos ou polígamos

nos EUA. Em Utah a porcentagem é ainda maior - e nao por acaso. O

estado foi colonizado pelos fiéis da Igreja de Jesús Cristo dos Santos dos

Últimos Dias. Os mórmons, como sao chamados estes religiosos, defen- diam a poligamia citando os profetas do Antigo Testamento para afirmar

que a abundancia de mulheres e filhos contribuí para o bem-estar no

além. A prática só foi abolida em 1890, e hoje quem adota a poligamia é

expulso da Igreja. Oficialmente, pelo menos. Hoje 70% da populagáo de

Utah é composta por mórmons e poligamia - ás escondidas - é prática

comum.

419

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

36

Green tem 29 filhos e cinco ex-mulheres - duas das quais sao ir-

más e maes de tres de suas atuais esposas. O religioso é acusado ainda

de estupro, por ter mantido relacóes sexuais há 15 anos com Linda Kunz, entáo com 13. Hoje ela é a 'esposa principal'e tem seis filhos».

A noticia sugere a pergunta: quem sao os mórmons? Que profes-

sam eles? - Segue-se a resposta.

1. O Fundador: Joseph Smith

Aos 23 de dezembro de 1805 nascia em Sharon (U.S.A.) Joseph

Smith, filho de piedosa familia de colonos que professavam o protestan

tismo sob a forma de Metodismo.

Aos poucos o jovem revelou ter urna índole pessoal bem caracte

rística, que um de seus mais abalizados biógrafos, Lemonnier, assim

descreve:

"Melgo e amável, nao deixava de faiar quando estava com amigos,

e a sua eloqüéncia ardente se expandía em historias intermináveis que ele inventava a gosto; nao podía contar o mais simples incidente da sua Nao era muito amigo

vida sem o transformar em aventura maravilhosa

em casa chamavam-no, por vezes, de iletrado. Era, porém, o filho predileto de seu pai, que o considerava

de leitura, e mal conhecia a Biblia;

como o genio da familia. Com seu pai, José andava á busca de tesouros,

de tal modo que os arredores da fazenda estavam cheios de escava-

góes" (Histoire des Mormons pág. 13).

Antes que Smith Jr. fosse favorecido com "revelacóes" pelas quais

mais tarde se tornou famoso, ele desenvolveu o hábito da contemplacáo-

cristalina, usando urna pedra opaca para descobrir propriedades rouba-

das e tesouros escondidos em troca de grandes quantias de dinheiro.

Aos quinze anos de idade, Joseph fez a sua primeira grande expe

riencia religiosa. A populacáo local se vía entáo abalada por novo des

pertar religioso, que se manifestava em contradicóes entre as denomina-

cóes religiosas protestantes. A familia de Smith fez-se entáo, em parte,

presbiteriana; quanto a Joseph mesmo, hesitava Resolveu conseqüen- temente ir pedir luzes a Deus, orando em alta voz num bosque. Transcor-

ria urna manhá da primavera de 1820, quando Ihe apareceram dois anjos que Ihe deram a ordem de nao se filiar a crenca religiosa alguma, pois

ele um dia haveria de restaurar a "Igreja Crista Primitiva".

Dias depois, ele escreveu: "Vi dois personagens cujo brilho e gloria

é impossível descrever, pairando sobre mim no ar. Um deles falou comi-

go, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro: 'Este é meu Filho amado, escutai-o'. Em seguida, eu pedi aos personagens que

420

37

POLIGAMIA NOS ESTADOS UNIDOS

pairavam sobre mim em plena luz, que me indicassem, dentre as seitas, aquela que fosse verdadeira, a fim de que eu pudesse participar. A res-

posta que tive, foi que nao participasse de nenhuma délas, porque eram

todas falsas".

Tres anos mais tarde, aconteceu outra "revelacáo", considerada

fundamental. Enquanto se encontrava em oracáo na noite de 21 de Se-

tembro de 1823, um personagem vestido de branco apareceu a Smith, dizendo-lhe que tinha sido enviado por Deus; era chamado Moroni. O

mensageiro disse a Smith que seu nome "seria para o bem e para o mal entre as nacóes", explicando-lhe em seguida o que deveria ser feito para

o estabelecimento de uma nova religiáo. Eis como descreve Smith a

mensagem recebida:

"O mensageiro disse-me que havia um livro depositado nalgum lu

gar, escrito em placas de ouro, contendo informagóes de ex-habitantes

deste continente e raízes de suas origens. Ele, o mensageiro, disse tam-

bém que nestas placas de ouro o cumprímento do Evangelho eterno se

encontrava revelado tal qual havia sido proclamado pelo Salvador aos

habitantes da antigüidade; que também existiam duas pedras em forma

de arco prateado - pedras ligadas á placa de peito, as quais constitui'am o que se chama Urim e Thummim - enterradas; aínda segundo o mensa geiro, a posse e o uso destas pedras seriam a descoberta do que consti

tuía e identificava os 'profetas' da antigüidade, os quais Deus havia pre

parado para que traduzissem o livro sagrado, a Biblia".

Aos 22 de setembro de 1827, o mesmo anjo o levou a encontrar as famosas placas após haver cavado o cume da colina Cumorah.

O texto da mensagem respectiva era atribuido pelo anjo a um rei chamado Mórmon (daí o nome "mórmon" que a Joseph Smith e seus discípulos foi dado posteriormente). O documento estava redigido em idioma que Smith chamava "língua egipcia reformada" e que ele desco- nhecia. Para o entender, Moroni fomeceu ao vidente duas pedras mara-

vilhosas ("Urim" e "Thummin"), que comunicavam a necessária compre-

ensáo do texto.

Dizia o jovem Joseph que quem ousasse lanzar um olhar para as

placas de ouro, morrena ¡mediatamente. Por isto, Smith nos tempos sub-

seqüentes se colocava por detrás de uma cortina e ia ditando a traducáo da mensagem das placas a um secretario, modesto camponés chamado

Martín Harris. Em junho de 1829, sem demora o anjo arrebatou as pla cas, de sorte que jamáis foram vistas pelo público. Apenas (diz uma de-

claracáo colocada no inicio de cada exemplar do referido livro) tres discí pulos de Smith as puderam contemplar numa visáo posterior, e atesta-

ram esta visao com juramento.

421

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

38

A título de informacáo, consignamos também o seguinte: existe,

entre os historiadores, urna versáo que visa a explicar de maneira mais

plausível e verossímil a origem do "Livro de Mórmon":

Certo escritor presbiteriano, Salomáo Spaulding, no século passa- do, redigiu um romance em torno dos primordios das populacóes aborí

genes da América, apresentando-as como descendentes dos hebreus. Esse romance nao chegou a ser publicado, mas caiu ñas máos de um

pregador batista, depois campbellista, chamado Sidney Rigdon. Sidney foi associar-se a José Smith na fundacáo da nova Igreja; deu entáo á Daí terá re

obra romanceada de Spaulding aspectos e estilos bíblicos

sultado o Livro de Mórmon.

Juntamente com a mensagem de Mórmon, José recebia a missao de fundar urna Igreja, que seria a restauracáo da antiga Igreja de Cristo e

dos Apostólos. Com alguns poucos companheiros, portanto, o vidente fun-

dou a nova comunidade aos 6 de abril de 1830, no Estado de Nova lorque.

Esse núcleo de crentes comecou a propagar ardorosamente as

suas idéias por todas as regióes vizinhas. Apresentavam-se como os

arautos da religiáo de um povo santo, escolhido por Deus para converter

o mundo nos últimos días, ou seja, nos dias anteriores á definitiva vinda de Cristo; a sociedade, até mesmo os cristáos, estariam todos mergulha-

dos em erros de doutrina e moral; em conseqüéncia, quem nao seguisse a mensagem de Mórmon deveria ser tido como gentío ou pagáo.

Bem se compreende que tal pregacáo tenha suscitado represalias

por parte do público. Os companheiros de Smith tiveram entáo que pere

grinar por diversas localidades dos Estados de Ohio e Missouri desde

1831 a 1839. Finalmente em 1840 estabeleceram-se em Illinois, fundan do a cidade de Nauvoo, que seria a "Nova Siáo", verdadeiro Estado

teocrático (isto é, todo regido por leis religiosas ou por "revelacóes" divi nas); ai se aguardaría o Cristo, que estava para voltar em breve sobre a

térra. O territorio de Nauvoo foi oficialmente concedido aos crentes pelo

Governo do Estado de Illinois; os mórmons lá constituíram poder

legislativo, judiciário e executivo próprio, com direito de manter um exér- cito para sua defesa sob o comando de Joseph Smith. Este fundou tam

bém um grandioso templo e urna Universidade.

Desdobrando lógicamente as suas idéias, Joseph Smith chegou a

proclamar-se candidato á presidencia dos Estados Unidos em fins de

1843; disseminou apostólos e pregadores que divulgassem o seu pro

grama, no qual estava incluido, entre outras coisas, o resgate dos escravos.

Contudo a situacáo evoluiu desfavoravelmente aos novos crentes

Com efeito; Smith resolveu apregoar em público urna doutrina que Ihe

422

39

POLIGAMIA NOS ESTADOS UNIDOS

fora "revelada" particularmente e que já era posta em prática na sua co-

munidade: a doutrina do "matrimonio celeste" ou da poligamia. Esta ino-

vacáo provocou a animosidade das populacóes vizinhas de Nauvoo, po- pulacóes que haviam recebido com simpatía os "santos dos últimos días".

Os jomáis da regiáo ¡ncitaram entáo os cidadáos á guerra contra

os crentes. Estes responderam arregimentando as suas tropas. Isto bas-

tou para que o Governador do Estado acusasse Smith de alta traicáo. O

vidente assim apontado concebeu o plano de fugir. Nao o fez, porém, visto que seus companheiros o consideravam como covarde; resolveu

mesmo entregar-se aos juízes civis, que o colocaram no cárcere. Contu- do a multidáo nao se conteve: invadiu a prisáo aos 27 de junho de 1844 e pos termo violento á vida de Joseph e seu irmáo Hyrum Smith. O profe

ta tinha nessa ocasiáo 39 anos de idade.

A sua figura, que já gozava de grande autoridade entre os discípu

los, cresceu na mente destes: Joseph Smith veio a ser tido como mártir e símbolo sagrado.

Quem havia de Ihe suceder?

O mais antigo companheiro de Smith - Sidney Rigdon - nutria pre-

tensóes. Foi, porém, eliminado pelos discípulos. Em breve tornou-se Presi

dente e Profeta da "Igreja" um jovem enérgico e fanático (mais equilibra

do, porém, do que o fundador da seita) chamado Brigham Young. Este fora outrora metodista; tendo-se passado ao Mormonismo, em 1835 ha

via sido constituido um dos doze Apostólos da nova seita. Sua eleicáo encontrou oposicáo por parte de membros da comunidade, entre os quais um dos filhos de Smith, que resolveu entáo separar-se para fundar a

"Reorganizada Igreja de Jesús Cristo dos Santos dos Últimos Días".

A situacáo era táo tensa em Nauvoo que Young decidiu deixar o

territorio de Illinois, de mais a mais que em Janeiro de 1845 um decreto

do Governo abolía os privilegios concedidos á colonia dos Mórmons. Retirou-se, poís, com a sua comunidade de crentes para o deserto de

Utah, regiáo entáo pertencente ao México. Á custa de energía férrea,

conseguiram em 1847 ai fundar a Cidade de Salt Lake (ou do Lago Sal

gado). A legíslacáo da cidade permitía a poligamia (o próprio Young teve mais de vinte esposas celestes!); organizava meticulosamente o traba-

Iho e a economía, de modo que em breve o deserto se tornou térra fértil e

produtora. Em 1848, o México entregou o territorio de Utah aos Estados

Unidos; a poligamia tornou-se entáo grave ponto de discordia entre o

Governo norte-americano e os Mórmons. Somente em 25 de setembro

de 1890, o Presidente da seita, Woodruff, empreendeu a conciliacáo:

declarou que em visáo recebera ordem de abolir a poligamia; isto permi-

tíu que finalmente em 1896 Utah se tornasse Estado da Confederacáo

423

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

40

norte-americana. Contudo a poligamia ainda ai é praticada, embora em

termos discretos; a maioria da populacáo de Utah professa a crenga de

Mórmon.

Pergunta-se agora:

2. Qual a Mensagem dos Mórmons?

1. Os Mórmons relatam do seguinte modo o seu histórico: após a confusáo das línguas em Babel (cf. Gn 11), a tribo de Jared emigrou da

Asia para a América. Contudo, já que se constituía de homens maus,

Deus permitiu fosse punida por muitas guerras e calamidades públicas,

de modo que estava para se extinguir em 600 a.C.

Nesta época, porém, vivia na Palestina um profeta chamado Lehi, da tribo israelita de Manassés; foi avisado por Deus de que, em breve (586 a.C), Jerusalém cairia sob os golpes de Nabucodonosor; por isto

veio com outros israelitas para a América, onde encontrou os últimos

descendentes de Jared.

Urna vez morto Lehi, houve divergencias entre seus dois filhos Nefi

e Lama, os quais em conseqüéncia se separaram. A tribo de Nefi conser-

vou-se fiel a Javé, ao passo que os descendentes de Lama prevarica-

vam; em castigo Deus deixou que a cor de sua pele se tomasse verme- Iha; sao hoje em dia os indios ou aborígenes da América. Quando Cristo

esteve sobre a térra, visitou os Nefitas na América após a sua ressurrei-

cáo. Dois ou tres séculos depois de Cristo, também os Nefitas (de pele

branca) pecaram gravemente e foram exterminados pelos Lamanitas ou indios. Contudo o último rei e patriarca nefita, Mórmon, antes de morrer escreveu a historia do seu povo sobre placas de ouro, que ele entregou a seu filho Moroni; este escondeu táo precioso depósito no alto da colina

de Cumorah, onde finalmente Joseph Smith no século passado, sob a guia de um anjo (Moroni), o devia descobrir. Daí se origina o Livro de Mórmon, que é a terceira Revelacáo (enumerada após o Antigo e o Novo

Testamento), auténtica Palavra de Deus, á luz da qual a Biblia Sagrada

mesma deve ser interpretada.

Além do "Livro de Mórmon" e da Biblia, os discípulos de Smith ad-

mitem mais dois livros sagrados: "A Pérola de Grande Preco" e "Doutri-

nas e Pactos da Igreja de Jesús Cristo dos Santos dos Últimos Dias".

Estas obras contém urna coletánea de passagens, auténticas e nao au

ténticas, da Escritura Sagrada, assim como a autobiografía de Joseph

Smith e "revelacóes" que este recebeu de Deus.

2. É por tais escritos que se transmitem as doutrinas e as práticas

do Mormonismo, as quais se podem resumir nos seguintes itens:

424

41

POLIGAMIA NOS ESTADOS UNIDOS

a) Existe um Deus que é dito "Pai, Filho e Espirito Santo". O Pai,

porém, tem carne e ossos1; quanto ao Filho e ao Espirito Santo, sao

apenas emanacóes do Pai.

Julgam os historiadores que Smith admitía outrossim um certo

politeísmo; testemunho disto seria o fato de que no fim da vida traduzia o

nome hebraico Elohim por deuses.

b) O homem é eterno: viveu no Reino de Deus antes de aparecer

sobre a térra. Neste mundo os individuos nao tém recordacáo dessa sua existencia passada, a fim de poder aceitar ou recusar livremente o Evan-

gelho. Caso nao cheguem a conhecer o Evangelho na vida presente, os

homens o poderáo conhecer após a morte e se salvarao mediante um

batismo postumo.

c) O batismo postumo constituí urna das práticas mais estranhas

do Mormonismo. É administrado, por presumida procuracáo, aos des

cendentes dos defuntos. A descendencia é meticulosamente examinada

em tabelas genealógicas que os Mórmons consultam (se necessário) em

arquivos espalhados pelo mundo inteiro. Assim os descendentes podem obter a graca de Deus para seus antepassados que nao tenham conhe-

cido a Revelacáo.

d) Há mesmo urna certa identidade de natureza entre o homem e Deus. Tal como Deus é, tal pode o homem tornar-se'.

e) Nao existe pecado original. O homem se vai continuamente

aperfeicoando pelo arrependimento de suas faltas. O único castigo que o aguarda, é a dor de ter perdido oportunas ocasióes de melhorar.

f) No Mormonismo foi restaurada a primitiva Igreja, que os ho

mens dos séculos passados deturparam. Estabelecer-se-á urna nova Siao

na América; Cristo vira pessoalmente reinar sobre a térra, cuja face será

renovada, tonando-se o paraíso.

g) Na Igreja dos Santos dos Últimos Dias, o Espirito Santo se ma-

nifesta de maneira extraordinaria e permanente por meio dos dons de

línguas, profecías, revelacóes, curas, visóes, etc. O presidente da Igre

ja é sempre inspirado por Deus ao realizar atos mais importantes em seu

governo.

1 Textualmente, eis o que professam os Mórmons:

"Negar a materialidade da pessoa de Deus é o mesmo que negar Deus; pois urna coisa sem suas partes nao pode formar o seu todo e um corpo ¡material nao pode

existir. A Igreja de Jesús Cristo dos Santos dos Últimos Dias prega contra um Deus

incompreensivel, desprovido de corpo, membros ou sentimentos".

425

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

42

h) A ceia do Senhor é celebrada sob as duas especies: pao e

agua. Nao se usa vinho, embora a revelacáo n2 20 o prescreva. E por que nao? - Muitos crentes respondem:

ta anos os adversarios dos Mórmons tentaram envenená-los com o vinho

porque há cerca de cento e sessen-

da santa ceia; contudo agua e vinho nao fazem grande diferenca no caso,

porque se trata de meros símbolos destinados a lembrar apenas o Se

nhor Jesús.

i) No que se refere ao casamento, Joseph Smith em 1831 recebeu

a revelacáo de que seria lícita a poligamia; todavía só a conseguiu por

escrito em 18431. Ao ter noticia desta disposicáo, Brigham Young excla- mou: "Pela primeira vez na vida desejei estar no túmulo"; inclinou-se, porém, diante da determinacáo. - Os historiadores acham o fato particu larmente estranho, pois que o Livro dos Mórmons proíbe explícitamente

a poligamia; julga que Smith a deve ter admitido por razóes estritamente

pessoais; embora tal praxe fosse fadada a provocar reacáo e repulsa da

própria comunidade de crentes, ela se terá implantado por razóes pre-

ponderantemente económicas, pois a populacáo recém-estabelecida em Utah só poderia sobreviver caso se impusesse pela multidáo e pela forca

de seus cidadáos; ora tal condicáo exigía prole numerosa. O éxito que os Mórmons em seus primeiros decenios obtiveram no plano financeiro e

político, parece ter correspondido as expectativas. A vida civil e económi ca em Utah foi religiosamente organizada, isto é, organizada segundo o rigor e a precisáo que somente a religiáo poderia inspirar; um sistema de

dízimos e taxas fielmente observado pelos crentes assegurou á Igreja

nao só a subsistencia, mas até mesmo alta prosperidade material. Toda

vía, já que a poligamia contrariava as leis norte-americanas, foi, por intimacáo das autoridades civis da nacao, abolida (ao menos em teoría e de maneira oficial) pelo quarto Presidente da Igreja, Woodruff, em 1890 (Woodruff justifícava sua atitude apelando para especial revelacáo rece-

bida do céu).

1 Eis como Joseph Smith justifícava talprática:

"Se um homem se casa com urna virgem e deseja casarse com outra com o con-

sentimento da primeira e ambas sao virgens sem nenhum compromisso com outro homem, tal uniáo deste homem as duas mulheres é justificada. Ele nao pode estar cometendo adulterio de forma alguma, já que elas por livre e espontánea vontade se

entregaram a ele; elas pertencem a ele e a mais ninguém. Se o homem possui dez virgens que Ihe foram dadas em casamento pela lei, ele

nao comete adulterio, pois elas Ihe pertencem, urna vez que Ihe foram entregues pela lei. Logo a sua uniáo com estas dez mulheres é justificada. Se urna das duas ou duas das dez virgens, depois de casadas decidem viver com outro homem, elas, sim, cometem adulterio e devem ser apedrejadas, visto que Ihe foram dadas em casamento, a fim de que multiplicassem e povoassem a térra de

acordó com o mandamento divino".

426

43

POLIGAMIA NOS ESTADOS UNIDOS

A legislacáo mormónica prevé também o matrimonio 'pelos mor-

tos': urna mulher que faleca sem se ter casado nesta vida pode ser, pe los seus familiares sobreviventes na térra, ligada a um varáo no Além.

Em caso contrario, seria prejudicada em sua bem-aventuranaca postu ma; diz, com efeito, a revelagáo nB 132: "Aqueles que nao passam por esse sacramento (do matrimonio) só podem aspirar á dignidade de an-

jos, ao passo que os eleitos podem esperar elevar-se até a dignidade de

deuses".

j) A Igreja Mormónica dirige os fiéis nao somente no plano espiritu al, mas também no material, prescrevendo até o regime alimentar (es- táo proibidos o cha, o café, o fumo e as bebidas alcoólicas). Tal atitude é

justificada nos seguintes termos pelo sexto Presidente da Igreja, José Smith, sobrinho-neto do fundador: "Urna religiáo que nao pode salvar os homens no plano temporal, tornando-os prósperos e felizes neste mun do, também nao é capaz de os salvar no plano espiritual, levando-os á

vida futura".

Note-se, por fim, que cada mórmon fiel tem a obrigacao de contri

buir com urna porcentagem de suas rendas para a Igreja, além das horas

de trabalho que ele Ihe dedica todas as semanas.

AÍNDA A RESPEITO DO POLIGENISMO

Alguns leitores se surpreenderam ao ler em PR 469, página 261,

que a hipótese poligenista nao contraria a fé. Á guisa de esclarecimento,

devemos dizer:

1) Os argumentos em prol desta sentenca estáo expostos no pró-

prio texto citado.

2) Nossa revista professa incondicional fidelidade ao magisterio da Igreja, apenas deseja distinguir o que é de fé do que nao é de fé.

3) É de fé que o género humano é urna única familia descendente de um só principio; os primeiros pais pecaram e transmitiram a seus des

cendentes a culpa original, de modo que em qualquer parte do mundo

todo homem nasce com o pecado original.

4) É verdade que Pió XII em sua encíclica "Humani Generté' de 12/

08/1950 afirmou que "nao se vé como conciliar a hipótese poligenista

427

(Continua na pág. 431)

Pena de morte:

O CASO McVEIGH

Em síntese: A opiniáo pública foi abalada pelo caso do delinquen- te McVeigh condenado á morte nos Estados Unidos. O Papa intercedeu em favor do réu, visto que a sentenga poderia ser injusta. O artigo abaixo

expóe os fatos e explana a posigáo da Igreja frente á pena de morte:

posigáo restritiva, pois a pena capitalparece terse tornado inútil em nos-

sos días.

*

*

*

Ocaso McVeigh, réu condenado á morte nos Estados Unidos, muito

impressionou a opiniáo pública. A seguir, seráo recordados alguns tópi

cos referentes ao assunto e será explanada a posicao da Igreja frente á

pena de morte.

1. Os fatos

Exporemos, a seguir, dois aspectos do tema extraídos da impren

sa cotidiana.

1. A orquestra de Pré-requiem e revisáo de processos

Eis urna das noticias que calaram fundo na opiniáo pública:

«Orquestra tocará para McVeigh antes de execucáo

Condenado ouvirá 'pré-réquiem' pelo radio, em sua cela

• Nova York. Urna composigáo assinada por um músico de Los Angeles em parceria com Timothy McVeigh será executada por urna orquestra, numa igreja, durante os últimos minutos de vida de McVeigh, antes de ele entrar na sala onde será executado, quarta-feira que vem, em Indiana.

A apresentagáo da orquestra será transmitida por urna emissora

de radio, de modo que McVeigh poderá acompanhá-la em sua cela.

Segundo o autor David Woodward, a composigáo, de 12 minutos, é

um pré-réquiem que servirá 'para acompanhar a alma de McVeigh ao paraíso'. McVeigh foi condenado pela explosao de um predio federal que

matou 168 pessoas, em 1995, em Oklahoma City. Foi o maior atentado terrorista da historia dos EUA.

McVeigh trocou cartas com Woodward para participar do projeto. A orquestra, com 45 integrantes, vai se apresentar em Terre Haute, a cida-

428

O CASO McVEIGH

45

de onde ele será morto com urna injegáo letal, na primeira execugáo dos

EUA transmitida em circuito fechado de TV.

O pré-réquiem para McVeigh despertou a ira de parentes das víti-

mas do atentado. Woodward tentou sem sucesso obter autorizagáo para que a orquestra se apresentasse no presidio» (O GLOBO, 10/05/01, p.

42).

O caráter espetacular dado á execugáo (transmitida por cañáis de

televisáo) é algo de contundente para grande parte dos observadores.

A irregularidade dos processos é reconhecida pelas autoridades

norte-americanas, como atestam as noticias seguintes:

«Oklahoma City revé cerca de 3.000 condenacóes

Perita sob suspeita deu parecer em casos de 11 réus já executa- dos. Outros 12 estáo no corredor da morte

• Washington. Após a libertacáo de um homem condenado injustamente por estupro devido ao trabalho de má qualidade de urna perita química

da policía, as autoridades de Oklahoma City estáo aguardando o resulta

do da revisáo de cerca de tres mil outras condenacoes baseadas em provas analisadas pela mulher ou por seu departamento» (O GLOBO,

10/05/01, p. 42).

Pergunta-se agora:

2. Qual a posicáo da Igreja?

Os documentos oficiáis da Igreja tém-se manifestado em termos

contrarios a pena de morte, como se demonstrará adiante. Todavía a

Igreja aceita a discussáo do assunto.

1. Com efeito. Nao se pode dizer que, em toda e qualquer hipóte- se, a pena de morte é injusta, pois a própria Escritura a prevé, por exem-

plo, nos casos enumerados em Lv 20, 8-18

Atualmente o problema

versa sobre a questáo: a pena capital seria medicinal (isto é, benéfica

para a sociedade, coibitiva da criminalidade) ou meramente vingativa? Ora a tal pergunta se dáo as respostas mais contraditórias, pois há quem julgue que a introducáo da pena de morte seria um freio contra a delin-

qüéncia, ao passo que outros a tém como totalmente estéril e inoperante; apontam-se estatísticas em favor tanto de urna como de outra sentenca.

Por isto a Moral católica nao tem sentenca oficial sobre o assunto; ape

nas indica o principio: o bem comum prevalece sobre o bem particular;

por isto pode exigir o sacrificio do bem particular, se isto realmente salva guarda o bem comum. Todo individuo injustamente agredido (no caso, a

sociedade como tal) tem o direito de se defender com os meios eficazes

429

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 472/2001

46

para nao perder a sua vida ou o seu bem próprio injustamente ameaca- do. Acontece, porém, que ninguém pode garantir que a pena de morte é esse meio eficaz que realmente salvaguardará o bem comum injusta

mente ameacado pelos criminosos; por isto a questáo fica aberta, e é

lícito ao católico, devidamente fundamentado em argumentos, optar por

urna ou por outra das duas sentencas.

2. Há boas razoes para se dizer que, em nossa época e no Brasil, de morte, em vez de ser benéfica para a sociedade, seria fonte de

a pena

graves males. Com efeito,

a) a populacáo carcerária é geralmente a de baixa renda; seriam entáo atingidos pela pena capital os delinqüentes menos aquinhoados,

ao passo que os criminosos de classes mais elevadas ficariam impunes

ou conseguiriam escapar dos trámites da Justica;

b) sabemos que, apesar dos esforcos dos magistrados, a adminis-

tracáo da justica humana é falha; ocorrem falsas acusacóes tramadas por odio e espirito de vinganca, que levam até á condenacio de inocen

tes, com a conivéncia de autoridades públicas. É o que atestam as noti

cias da imprensa;

c) há meios de recuperar os delinqüentes ou evitar que continuem

a cometer o mal. Isto será obtido com mais facilidade se se reformar o

sistema carcerário; este deve oferecer subsidios para que os detidos se possam regenerar mediante trabalho e recursos educacionais. Desta

maneira o bem comum da sociedade - que se quer salvaguardar medi

ante a pena de morte - será preservado sem que se lance máo da solu-

cáo extrema e ambigua da pena de morte ou do sacrificio capital de

membros da sociedade. É preciso que se faca tudo para salvar o delin-

qüente sem causar detrimento á coletividade. Ora isto nao é impossível

em nossos dias, desde que haja boa vontade e interesse pela causa.

Por isto diz o Catecismo da Igreja Católica n9 2267:

"Dado que se possa reconhecer, sem hesitagáo, a identidade e a

culpabilidade do réu, o ensinamento tradicional da Igreja nao excluí o recurso á pena de morte, se esta aparece comprovadamente como a

única vía praticável para a defesa eficaz da vida dos seres humanos

ameagados por um injusto agressor. Se, ao contrario, os meios pacíficos

sao suficientes para que a sociedade se defenda do agressor e para

proteger a seguranga das pessoas, a autoridade se limitará ao uso dos

meios nao sangrentos, visto que sao os mais aptos para responder as condigóes concretas do bem comum e os mais conformes á dignidade da pessoa humana. Com efeito, hoje, dado que o Estado tem recursospara

reprimireficazmente o crime, tornando inofensivo aquele que cometeu o

430

O CASO McVEIGH

47

delito, sem Ihe tirar a possibilidade de se recuperar, os casos de necessi-

dade absoluta de supressáo do delinqüente tornam-se extremamente raros ou mesmo inexistentes".

Aqui se percebe que a pena de morte é descartada nao como algo

de mau ou iníquo em si, mas como um recurso praticamente desneces-

sário, pois nao há contexto que a exija; a preservacao do bem comum pode ser obtida sem a morte do criminoso, que, deixado em vida, pode

usufruir da ocasiáo de se recuperar.

Por sua vez, escreve o Papa Joáo Paulo II na sua encíclica sobre o

Evangelho da Vida n9 56:

«Claro está que, para bem conseguirtodos esses fins, a medida e

qualidade da pena háo de ser atentamente ponderadas e decididas, nao se devendo chegar á medida extrema da execugáo do réu senáo em

casos de absoluta necessidade, ou seja, quando a defesa da sociedade

nao fosse possfvel de outro modo. Mas, hoje, gragas á organizagáo cada

vez mais adequada da instituigáo penal, esses casos sáojá muito raros,

se nao mesmo praticamente inexistentes».

É clara, portanto, a atitude restritiva da Igreja.

(Contínuagao da pág. 427):

com as verdades reveladas". Ora, os comentadores deste texto observa- ",

mas disse "Nao

ram bem que o Papa nao disse "Nao se pode conciliar

se vé como conciliar"; portanto nao quis fechar a questáo, mas deixou-a

aberta para que eventualmente os teólogos formulassem urna sentenca

conciliatoria. Pois bem; após 1950 bons e ortodoxos teólogos propuse-

ram o que está escrito em PR de junho próximo passado, sem sofrer

censura da Santa Sé. Nossa revista acompanhou esses teólogos, sem querer professar o poligenismo, mas apenas mostrando que o monogenismo nao é de fé - o que é importante para evitar que surjam

desnecessários problemas de fé nos irmáos menos esclarecidos.

431

E. B.

Sempre em qúestáo:

IRMÁOS OU PRIMOS?

A Redacao de PR recebeu a seguinte mensagem:

"Diz-se que a palavra grega adelphói, nos Evangelhos, significa

primos, e nao irmáos. Todavía observe-se que

- Isabel, em Le 1, 36, é tida como prima de María Ssma;

- emCI4, 10 Marcos é dito primo de Barnabé.

Disto se concluí que a língua grega tem palavra própria para desig

nar o primo. Se o evangelista usou a palavra adelphós em Me 6, 3; Mt ,

ele o fez porque Jesús era realmente irmáo de Tiago, José

13, 55

Judas e Simáo".

Em resposta note-se:

- Isabel nao é prima de María SSma., mas é syggenís, parenta,

familiar. A traducáo que verte syggenís por prima, é falha. Ademáis a

diferenca de idade entre María e Isabel era muito grande (Isabel já era

estéril quando Maria aínda nao co-habitava com José); deviam ser de

duas geracoes diferentes e nao primas (da mesma geragáo);

- em Cl 4, 10 Sao Paulo usa a palavra anepsiós, que significa

propriamente primo. Em tal caso, o Apostólo está escrevendo para crís-

táos do Imperio greco-romano, de língua grega, distantes do fundo semita dos Evangelhos. Nao se pode esquecer que a língua grega dos Evange lhos supóe um fundo semita, pois o Evangelho é a redacáo escrita da

pregacáo oral dos Apostólos feita em aramaíco. Ora em aramaíco o vo-

cábulo 'ah significa párente ou familiar, e é com este sentido ampio que

eleé traduzidopara o grego pelotermoadelphós. Deve-se, pois, enten

der adelphós no sentido de 'ah aramaico.

A amplidáo de significado de 'ah se depreende, entre outros, do

fato de que a própria esposa no Cántico dos Cánticos é dita irmá- cf Ct

4,10.12:5,1.

Estéváo Bettencourt O.S.B.

432

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Viráao Rio deJaneiro, em Setembrodeste ano, Pe. Bernardo Bonowitz O.C.S.O., monge trapista, prior

do Mosteiro N. S. do Novo Mundo em Campo de Tenente, Paraná.

Sua agenda, em nossa ádade, seráa seguinte:

• entrevista no programa VoxPopuli, Radio Catedral 106,7FM, dia 19 as l&lOh;

• participacaono programa "Deus éDez" na mesma Radio dias 20,21,24 e 25as 8:30h;

• palestra aberta ao público no auditorio do Colegio Santo Antonio María Zacaria, á rúa do Catete 113

(metro Catete) no dia 20 as 18:30h com o tema: "Thomas Merton e aAscensaopara a Verdade."

Convidamosatodosinteressadosaparticiparecomparecer.

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(SOCIKIMDE DOS AMIGOS FRATERNOS DE THOMAS MERTON)