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Carolina Michaelis de Vasconcelos (Filologia) - Em 1910 a primeira mulher nomeada para um cargo na

Universidade,

1912 - Carolina Michaelis de Vasconcelos e Maria Amália Vaz de Carvalho são eleitas
por mérito para a Academia de Ciências de Lisboa.
in http://atoleiros.com/, [acedido em 06/03/10]

ESCRITORA, INVESTIGADORA, PROFESSORA E DEDICADA MÃE DE FAMÍLIA.

Carolina Wilhelme Michaëlis de Vasconcelos, uma mulher superior, cujo


legado à cultura portuguesa atinge uma dimensão invulgar entre nós, tem uma face
talvez ainda mais desconhecida do que o seu contributo intelectual: o lado íntimo e
familiar da sua extraordinária vida.

Carolina nasceu em Berlim, a 15 de Março de 1851.


O pai, Gustavo Michaëlis (1813-1895), era professor
de Matemática e dedicou-se ao estudo da história da
escrita, ortografia e estenografia - em 1851, era
professor na Universidade de Berlim, tendo sido
chefe dos Serviços Taquigráficos do Parlamento. A
mãe, Luise Lobeck (1809- 1863), era originária de
Stettin, onde casaram, em Setembro de 1838.

Carolina, a mais nova de cinco irmãos, perdeu a mãe


apenas com 11 anos. Dos sete aos dezasseis anos,
estudou na Escola Superior Municipal Feminina de
Berlim. Nesse tempo (meados do século XIX), não eram admitidas senhoras nas
universidades alemãs. Assim, Carolina Michaëlis teve professores em casa: estudou
literatura greco-romana, línguas eslavas, semitas e românicas, onde se integra o
português. Também estudou árabe, para poder ler manuscritos no original. Na
Universidade de Coimbra, há cadernos de apontamentos seus, escritos nessa língua
difícil.

A sua inteligência e as suas qualidades de trabalho eram notoriamente acima


do vulgar. Sabendo isso, o seu professor Carlos Goldbeck deu-lhe, aos catorze anos,
como trabalho de férias, a tradução do Nuevo Testamento. Carolina, que não
dominava o castelhano, perguntou admirada ao professor se não se teria enganado...
ao que ele respondeu: "Estude. Estude!" E Carolina estudou, traduziu, fez uma
pequena gramática de espanhol e um caderno de significados em francês e italiano.
Em 1867, com apenas 16 anos, Carolina começou a publicar, em revistas
alemãs da especialidade, trabalhos sobre língua e literatura espanhola e italiana. O
interesse pelo português chegou depois. Rapidamente Carolina se tornou conhecida
no meio dos estudos filológicos da Europa. O eminente professor Gaston Paris
escreveu-lhe uma carta em que lhe perguntava:

"Onde aprendeu aos dezanove anos aquilo que muitos de nós, depois de doze
ou quinze anos de trabalho, ainda não conseguiram saber?"

Em Portugal, Teófilo Braga, Alexandre Herculano e Oliveira Martins, entre


outros, repararam na erudição daquela jovem alemã tão interessada pela cultura e
literatura portuguesas - e trocaram cartas com ela.

A sua facilidade para as línguas dá-lhe o reconhecimento oficial para ser


tradutora, ainda muito jovem.

De Fausto ao casamento

Em 1872, foi publicada a tradução do Fausto, de Goëthe, feita por António


Feliciano de Castilho, que gozava de grande reputação como educador e
escritor. O jovem Joaquim de Vasconcellos insurgiu-se contra os erros e a
forma menos cuidada de tratar uma obra universal. Estalou a polémica. Uns
posicionaram-se a favor do velho escritor e outros, do lado do jovem
Vasconcellos. Certo é que saíram à liça escritores como Camilo Castelo
Branco, Pinheiro Chagas, Antero de Quental, Adolfo Coelho e muitos outros.
Foi tal a repercussão do caso, conhecido por" Questão do Fausto", que
Carolina Michaëlis, com pouco mais de vinte anos, tomou conhecimento dele
e resolveu escrever uma carta a Joaquim de Vasconcelos. Este respondeu. E
sucederam-se outras cartas. Joaquim foi diversas vezes a Berlim, onde
gostava de se passear com o seu capote alentejano. Depressa descobriram
haver, entre ambos, mais do que afinidades pelas coisas da cultura
portuguesa.

Em Março de 1876, casaram em Berlim. Depois de uma viagem de núpcias


pela Europa, foram viver para o Porto, para a Rua de Cedofeita. Viveram no
n° 150 e depois no n° 159, onde a Câmara Municipal mandou colocar uma
placa evocativa, recordando que ali viveu a insigne mestra.
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Desfazer um equívoco

Quando se fala de Carolina Michaëlis de


Vasconcellos, afirma-se que ela foi a primeira
catedrática portuguesa. É certo que foi realmente a
primeira mulher a leccionar numa universidade, a
Universidade de Coimbra.
Porém, convém desfazer
um equívoco. A sua
craveira intelectual e as
suas investigações
tinham-na tornado uma
das mais eruditas pessoas do seu tempo, mas
Carolina Michaëlis foi apenas convidada para
leccionar. A primeira catedrática portuguesa foi, e
é, a Professora Doutora Maria Helena da Rocha
Pereira, especialista em estudos clássicos, que
prestou provas de doutoramento em 1956, na
Universidade de Coimbra, e se reformou há
escassos anos. Como professora, Carolina era de
uma enorme dedicação aos alunos e fazia, várias
vezes por semana, a viagem do Porto para
Coimbra e regresso, que naquele tempo devia ser
bastante incómoda. Aproveitava para preparar as aulas, porque o tempo
continuava a ser de ouro!

Entre os títulos detinha os das letras, os


de doutora honoris causa pelas Universidades de
Friburgo (1893), Coimbra (1916) e Hamburgo
(1923). E o rei D. Carlos concedera-lhe, em
1901, a insígnia de oficial da Ordem de Santiago
da Espada. A Academia das Ciências de Lisboa,
com a oposição de alguns sócios menos abertos
à mudança, admitiu, em 1912, as primeiras duas
mulheres como sócias daquela instituição:
Carolina Michaëlis de Vasconcelos e Maria
Amália Vaz de Carvalho.

Correspondência

O trabalho de investigação de Carolina


Michaëlis levou-a a trocar cartas com inúmeros
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portugueses e estrangeiros, nas áreas da Literatura, Filologia e Folclore,
entre outras disciplinas que estudou. Daí haver, no seu espólio, sobretudo
na Biblioteca da Universidade de Coimbra, cartas de nomes grandes da
cultura, como os portugueses Eugénio de Castro, Antero de Quental, João
de Deus, Henrique Lopes de Mendonça, José Leite de Vasconcelos - um
dos mais entusiastas adeptos da entrada das duas senhoras para a
Academia -, o Conde de Sabugosa, Braamcamp Freire, Sousa Viterbo,
Alexandre Herculano, os médicos e escritores Egas Moniz e Ricardo Jorge,
os espanhóis Menéndez y Pelayo e Menéndez Pidal, sem falar das perso-
nalidades francesas, inglesas e alemãs.

Trocar a secretária pelo fogão


Há quem pense que a vida de uma investigadora como Carolina
Michaëlis era apenas dedicada aos estudos. Chegava a trabalhar 18 horas
por dia, quando ia ler e estudar manuscritos na Real Biblioteca da Ajuda,
onde o director foi, até à data da sua morte, o escritor Alexandre
Herculano. Mas sabe-se que Carolina conciliava bem a vida de família com
a de estudo. Trocava alegremente "o escritório pela cozinha e a secretária
pelo fogão". Um seu bisneto, Carlos Joaquim Michaëlis de Vasconcellos,
engenheiro como o avô, guardou cuidadosamente diversas receitas de
cozinha escritas pela bisavó Carolina,
que gostava muito de cozinhar. Na casa
de Cedofeita ou na de Águas Santas,
Carolina descia à cozinha, punha o
avental, ia buscar os ovos, a farinha, o
açúcar, as amêndoas e, durante horas,
esquecia os seus estudos,
preocupando-se apenas com a
consistência da massa e a temperatura
do forno.

Boléo, Maria Luísa V. de. Carolina Michaëlis de Vasconcelos: duas vezes mulher.escritora, investigadora, professora e dedicada mãe de família. Nos
111 anos do seu falecimento recordamos esta mulher invulgar (2006). O Leme. [Em Linha]. Disponível em http://www.leme.pt/biografias/carolina-
michaelis/. [Consultado em 06/03/10]

BE-ESOD
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