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A Subjetividade Rebelde de Boaventura de Souza Santos

Reflexões acerca da contemporaneidade a partir do livro Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social.

André Camarinha Lima Gabriel dos Santos Rocha Anália Belisa Ribeiro Pinto

Há um dilema enfrentado na contemporaneidade pelos diversos atores sociais que está relacionado com o modo hegemônico de nos relacionarmos com o tempo. No mundo contemporâneo a expansão do mercado e da ideologia do consumo operou uma reificação do tempo e do espaço. Se impôs uma relação com o espaço que é meramente fragmentária, onde indivíduos isolados, sem sentido de pertencimento a grupos, se relacionam quase que exclusivamente através das lógicas de mercado e consumo. Assim, toma lugar uma relação com o tempo que é a de reificação do presente – relação que é dialeticamente produzida por esse isolamento e produtora desse isolamento dos indivíduos no social. Esta relação com o tempo, que se tornou hegemônica com o fim da guerra fria, está ancorada na ideia de um fim da história onde, supostamente, o capitalismo teria sido o derradeiro vencedor.

No contexto brasileiro esta situação pode ser evidenciada nas recentes manifestações desencadeadas a partir de junho de 2013. Nestas manifestações pululavam diversas demandas, muitas vezes inconciliáveis e, em muitos casos, havia uma ausência de sugestão de meios para satisfazê-las. Estas duas características das manifestações de junho evidenciam a falta de um sentido de pertencimento histórico, isto é, a falta de filiação a um passado, uma tradição – fundamento de uma identidade de grupo. Evidenciam também a falta de um projeto coletivo de futuro, pois as demandas, geralmente, se resumiam à busca por satisfações pessoais. Saindo do terreno estritamente político, podemos dizer que a produção cultural está toda permeada por esta relação fragmentária com o espaço e reificada com o tempo, a apologia do consumo e do individualismo permeia tanto a cultura de massa, como elementos culturais outrora contestadores em sua estética e conteúdo, como rap e o funk.

Assim, o presente é compreendido como um tempo único e homogêneo onde estão localizadas todas as possibilidades de atuação histórica e resolução de problemas – possibilidades limitadas pelo capital e sua forma de organização do mercado. Boaventura de Sousa Santos, sociólogo do direito e epistemólogo, em seu livro Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social, denuncia o

conservadorismo desta ideologia do “presentismo” que é a hegemônica:

Vivemos em um mundo dominado por utopias conservadoras. [] A utopia do neoliberalismo é conservadora porque o que se deve fazer para resolver todos os problemas é radicalizar o presente. (SANTOS, 2007. p.54)

Em oposição a este conservadorismo e à reificação do presente é preciso resgatar, não apenas a descontinuidade do tempo histórico mas, a simultaneidade de diversos tempos históricos que se cruzam em um dado momento, assim como suas rupturas e permanências em uma perspectiva da longa duração. É preciso que possamos pensar transformações históricas a partir de uma perspectiva que supere a reificação do presente, resgatando uma articulação destas diversas temporalidades, sem abandonar um projeto de futuro. É disso que fala a subjetividade rebelde de Boaventura de Sousa Santos, ela nos coloca o desafio de, em nossas formulações teóricas e científicas e em nossa atuação política, não cairmos em uma “celebração do que existe porque não há nada além”, uma razão cínica (SANTOS, 2007. p.58). Há a necessidade de uma subjetividade fria o bastante para reconhecer com clareza os desafios e quente o suficiente para nutrir sempre o desejo de ultrapassá-los.

Seguindo a corrente fria de sua razão, Boaventura de Sousa Santos nos dá um diagnóstico da realidade presente que busca evidenciar e rearticular as diversas temporalidades históricas. Reconhece não só os limites da pretensão de universalização da modernidade ocidental mas, no seio desta, uma dinâmica de disputa entre um conhecimento regulação e um conhecimento emancipação. Essas duas formas de conhecimento, segundo o autor, entraram em descompasso no contexto histórico da justaposição entre os ideais da modernidade e o sistema capitalista. Neste contexto, a ambição reguladora e ordenadora da modrnidade transformou o colonialismo em uma ordem, o que sufocou o potencial emancipador da modernidade.

O estabelecimento de uma ordem colonial, neste sentido, impediu a modernidade de dialogar com equidade com outras formas de compreensão do mundo, reduzindo drasticamente o potencial criativo da humanidade para superar os problemas e estabelecendo, mais uma vez, a ordem de mercado como a única possível. Esta ordem colonial estabeleceu um silenciamento dos grupos subjugados pela modernidade, este silenciamento se deu – indo além do que nos propõe Boaventura de Sousa Santos – não apenas porque os grupos subjugados não conseguem expressar suas formas de ordenação da realidade mas porque a modernidade, durante muito tempo, simplesmente as ignorou.

Partindo deste diagnóstico e seguindo sua corrente quente, isto é, reabilitando uma dimensão emocional do conhecimento que nos impele a formular propostas de superação do quadro atual, Boaventura de Sousa Santos rompe com o presentismo imposto pela ideologia neoliberal. O autor realiza uma reconciliação com um ideal de futuro – projetado a partir da articulação das diversas temporalidades, expressas pela relação entre conhecimento regulação e conhecimento emancipação na modernidade ocidental e entre esta e outras formas de se compreender a realidade.

Uma ecologia de saberes é, assim, um ideal de futuro. Recoloca na ordem do dia a dimensão emancipatória da modernidade pela proposta de um novo contrato social, mais inclusivo e igualitário porque aceita a diversidade com equidade, inclusive, das formas de organização e atuação política. Neste sentido, a ecologia de saberes busca superar uma ordem hierárquica que a modernidade estabeleceu para as questões da emancipação: a primazia do antagonismo de classe, a primazia da democracia representativa, da legalidade, da ação institucional, etc. A ecologia de saberes traz também a necessidade de uma atuação transescalar, capaz de rearticular as dimensões espaciais local, nacional e global, superando a primazia do Estado e de uma globalização de mercado.

Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social fazem parte de um mesmo projeto:

construir uma democracia de alta intensidade. Superar a teoria monocultural, legitimadora da

hegemonia do pensamento ocidental, e substituí-la por uma ecologia dos saberes é um caminho que

o autor propõe para a superação do “colonialismo cultural” do norte sobre o sul. Uma teoria crítica à serviço de uma democracia de alta intensidade deve conhecer muito bem o centro hegemônico e construir uma alternativa a ele, buscando sementes novas nas formas políticas e culturas marginalizadas e oprimidas pela modernidade ocidental. O desafio das correntes progressistas do século XXI é a luta pela inclusão de todos aqueles que estiveram historicamente excluídos do

contrato social. Para isso é preciso superarmos o projeto, até então vencedor, da democracia liberal,

e olharmos para outras possibilidades de democracia:

“dentre todos os modelos de democracia que havia apenas um permaneceu: a democracia liberal, representativa. As outras formas de democracia desapareceram, não se fala mais delas” (SANTOS, 2007. P. 87)

É necessário que resgatemos a diversidade das formas democráticas, a demodiversidade da qual fala o autor, e recoloquemos a tensão entre capitalismo e democracia, ou seja façamos com que a democracia seja um regime de redistribuição social, ao contrário do atual modelo vigente. Reinventar a emancipação social é reinventar a democracia.

Referências

SANTOS, Boaventura de Sousa. Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo:

Boitempo, 2007.