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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESErsTTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanga a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos conta
da nossa esperanga e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenca católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


— Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
"' 7 controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca no
— Brasil e no mundo. Queira Deus abengoar
—' este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada


em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
Ano xliii Abril 2002 478
Estreladalva'(Ap22,16)
"A Fé que move o Brasil" revista VEJA

"Jesús quería fundar urna nova Igreja" (revista


GALILEU

Ainda o Terceiro Segredo de Fátima

"A expressáo popular do Sagrado" (por Paulo


Bonfatti)

Globalizacáo e Economía Política

Bem-aventurado casal

Respostas a um ateu

"A Igreja sabe coisas que nao diz aos fiéis" (revista
GALILEU)

"Católicos recasados", por D. Valfredo Tepe


PERGUNTE E RESPONDEREMOS ABRIL 2002
Publicacáo Mensal N°478

Diretor Responsável
SUMARIO
Estéváo Bettencourt OSB Estrela dalva (Ap 32, 16) 97
Autor e Redator de toda a materia
Surpresa:
publicada neste periódico "A Fé que move o
Brasil" (revista VEJA) 98
Diretor-Administrador:
Conjeturas sem fundamento:
D. Hildebrando P. Martins OSB
"Jesús queria fundar urna nova
Igreja?" (revista GALILEU) 103
Administracáo e Distribuicáo:
Profecias sinistras
Edicóes "Lumen Chrísti"
Ainda o Terceiro Segredo de Fátima ... 108
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5° andar-sala 501
Análise psico-antropológica:
Tel.: (0XX21) 2291-7122
"A expressáo popular do Sagrado" por
Fax (0XX21) 2263-5679
Paulo Bonfatti 112

Endereco para Correspondencia: Novos conceitos de Governo:


Globalizacáo e Economía Política 120
Ed. "Lumen Christi"
Caixa Postal 2666 Fato inédito e significativo:
Bem-aventurado casal 129
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
Objecóes á fé:
Visiteo MOSTEIRO DE SAO BENTO Respostas a um ateu 135
e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" "A Igreja sabe coisas que nao diz aos
na INTERNET: http://www.osb.org.br fiéis" (revista GALILEU) 142
e-mail: lumen@alfalink.com.br "Católicos recasados", por D. Valfredo
IMPRESSAO Tepe 144

GRÁFICA MASQUES SAUUVA COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

O Encontró de Assis (24/01/02). - Satanismo hoje. - Biblia Sagrada (CNBB). - Os dons


do Espirito Santo. - Os Cataros: quem eram? - Dr. Jérome Lejeune: em defesa da vida.
- "O Senhor das Luzes e o Pai do Encostó". - Mt 12,30 e Me 9,40: contradicáo? - 2Sm
24, 1 e 16 21,1: contradicáo?

PARA RENOVACAO OU NOVA ASSINATURA (ANO 2002,


DEFEVEREIROADEZEMBRO): R$ 35,00.
NÚMERO AVULSO R$ 3,50.
O pagamento poderá será sua escolha:

1. Enviar, em Carta, cheque nominal ao MOSTEIRO DE SAO BENTO/RJ.

2. Depósito em qualquer agencia do BANCO DO BRASIL, agencia 0435-9 na C/C 31.304-1


do Mosteiro de S. Bento/RJ ou BANCO BRADESCO, agencia 2579-6 na C/C 4453-9
das Edjcóes Lumen Christi, enviando em seguida por carta ou fax comprovante do
depósito, para nosso controle.
3. Em qualquer agencia dos Correios, VALE POSTAL, enderecado ás EDICÓES "LUMEN
CHRISTI" Caixa Postal 2666 / 20001-970 Rio de Janeiro-RJ

Obs.: Correspondencia para: Edicóes "Lumen Christi"


Caixa Postal 2666
20001-970 Rio de Janeiro - RJ
A ESTRELA DALVA
(Ap22,16)

Diz o Senhor Jesús no Apocalipse: "Eu sou a Estrela dalva" (22,16). Eis
uma das muitas imagens com que o Senhor se autodesigna no Novo Testa
mento; é, sem dúvida, uma das mais significativas.
A estrela dalva é aquela que brilha entre a noite e o dia, anunciando o fim
daquela e a chegada paulatina deste. Aplicando esta imagem a Si mesmo,
Jesús quer dizer que Ele é portador de uma luz nova num mundo obscurecido
pelo pecado; Ele vem despertar a esperanca dos que se sentem acabrunhados
pelos males do mundo presente. Contudo Ele desperta as esperanzas em meio
ao claro-escuro e á penumbra, no regime dos sacramentos e da Igreja.
Essa dupla face da realidade - clara e escura, santa e pecadora - em vez
de alentar, escandaliza muita gente; é mais fácil sentir e apregoar o mal do que
o bem; o mal pesa mais e tende a fecharos horizontes de quem o padece. A tais
pessoas Páscoa acode, lembrando mais uma vez que a palavra final da historia
será a da Vida e do Bem, e nao a da morte.
Para aceitar esta mensagem, requer-se fé. Alias, Sao Paulo diz tres ve-
zes: "O justo vive da fé" (Rm 1,17; Gl 3,11; Hb 10,38). E que é afé?-Afé nao
é uma atitude meramente intelectual, académica, mas é a enlrega do homem
todo a Deus que Ihe fala,... entrega cheia de confianga, pois Deus é fiel (2Tm 2,
13; 1Cor 10,13); Ele nao pode mentir nem se retratar, como fazem os homens
(cf. Nm 23,19). Assim entendida, a fé pode ser, a principio, uma atitude tímida;
sustentada, porém, corajosamente, ela se desenvolve numa experiencia de
Deus, que vai propiciando o antegozo do encontró face-a-face da eternidade.
Esta verdade pode ser ilustrada por uma passagem do Evangelho (Mt 14, 22-
33): os Apostólos estáo sos sobre o lago de Genesaré; na quarta vigilia da noite
(entre as tres e as seis da manhá), um claráo aparece...; espanta os discípulos;
Pedro, porém, reconhece o Mestre e Ihe diz: "Senhor, se és tu, manda que eu vá
ao teu encontró sobre as aguas"; Jesús responde "Vem!" e Pedro póe-se a
caminhar sobre as aguas. De repente, porém, cai em si; verifica estar correndo
perigo de morte, agravado pelo vento que sopra, e exclama "Senhor, sálva
me!". Ao que Jesús responde: "Por que duvidaste, homem de pouca fé?".
O episodio é muito expressivo: no claro-escuro da madrugada Pedro
intuí a presenca do Senhor, e vai-Lhe ao encontró enfrentando todos os riscos;
é a fé que o move e nao a prudencia meramente humana: Quando, porém, o
Apostólo passa do plano sobrenatural ao do "bom senso" humano, julga estar
cometendo uma loucura e pede socorro. Jesús entáo toca no ponto nevrálgico:
"Homem de pouca fé..." Isto nao quer dizer que a fé leva o cristáo a tentar a
Deus, cometendo imprudencias para que Deus as conserte, mas significa que a
fé é uma atitude heroica, magnánima e generosa, que leva o fiel a intuir Deus
na penumbra da Estrela dalva e ir-lhe ao encontró destemidamente, numa ex
periencia que só pode ser entendida por quem passa por ela.
Em conseqüéncia, é para desejar que o tempo de Páscoa (abril) reavive
nos cristáos a fé na Estrela dalva, que é a Luz e a Verdade reveladoras da
historia. "A noite já está adiantada e o Dia se aproxima"(Rm 13,12).
E.B.

97
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XLIII - N9 478 - Abril de 2002

Surpresa:

"A FÉ QUE MOVE O BRASIL"


Revista VEJA

Em síntese: A revista VEJA, edigáo de 19/12/01, publicou o resul


tado de urna pesquisa sobre a religiosidade dopovo brasileiro: 99% acre
ditara em Deus; 83% acreditam na vida eterna. Quanto mais rico e
escolarizado, tanto mais o brasileiro acredita na vida após a morte. Essa
religiosidade, porém, é muito emotiva ou sentimental; pouco iluminada
pelos principios da razáo e da lógica, cede freqüentemente ao sincretismo
e ao subjetivismo. Os dentistas verificam que as pessoas religiosas sao
mais disciplinadas do que outras - o que redunda em beneficio para a
saúde dos fiéis.

A revista VEJA, edicáo de 19/12/01, pp. 124-129, publicou urna


reportagem surpreendente, que já na capa de frente afirma: "99% dos
brasileiros acreditam em Deus; 83% acreditam na vida eterna no paraí
so. Quanto mais rico e escolarizado, tanto mais o brasileiro acredita na
vida após a morte". Embora toda pesquisa feita entre o grande público
admita certa margem de oscilacáo, os resultados assim divulgados me-
recem atencáo e comentarios.

1. A Religiosidade do Brasileiro

A pesquisa foi solicitada á Vox Populi, que entrevistou 1017 pesso


as entre a populacáo adulta de 184 municipios em todas as regioes do
país. Além da diversidade original, a pesquisa reflete a variedade de ren-
dimentos, escolaridade e filiacáo religiosa dos brasileiros. Eis os seus
resultados:

Os brasileiros acreditam em Deus: 99%; na vida eterna no paraíso:


83%; na punicáo e recompensa após a morte: 69%; no inferno ou na
punicáo eterna: 55%; no diabo: 51 %. Comenta o articulista Jaime Klirtowitz.

98
"A FÉ QUE MOVE O BRASIL"

"Tratase de urna maloria acachapante, de desarmar qualquer


ceticismo em relagáo a religiosidade dos brasileiros" (p. 126).

Todavía logo a seguir observa:

"Boa parte dos fiéis estáo olhando para a religiáo como se estives-
se diante de urna prateleira de supermercado" (p. 126).

Na verdade, trata-se de urna religiosidade pouco orientada pelos


criterios da lógica ou do raciocinio, de modo que degenera em ecleticismo
confuso e subjetivismo; há quem crie sua religiáo, tentando associar en
tre si artigos incompatíveis, como Jesús e a reencarnacáo, Jesús Deus e
Homem e o Espiritismo, judaismo e peregrinacáo a Santiago de
Compostela, Umbanda e os santos do Catolicismo... A emocáo religiosa
se manifesta especialmente nos grupos neopentecostais do protestan
tismo e na Renovacáo Carismática Católica; estas sao as correntes reli
giosas que mais crescem numéricamente.

Outra observacáo ainda merece registro:

"No tocante á vida eterna, as proporgoes sao elevadas para um


mundo que parece viver só para os valores mundanos. Mais surpreen-
dente, no entanto, é que também acreditam na vida eterna, ao lado de
Deus, sete de cada dez dos entrevistados pelo Vox Populi que se decía-
ram sem religiáo - aqueles que créem em torgas transcendentes, mas
nao praticam nenhum dos credos formalmente estabelecidos" (p. 126).

"Seria natural que os mais pobres e menos letrados depositassem


maior esperanga na outra vida, na qualas diferengas sociais e económicas
perdessem importancia. Pois ocorre o inverso. Para 79% dos brasileiros
de classe media e escolaridade superior, existe, sim, vida após a morte.
Entre aqueles com renda até cinco salarios mínimos e pouca instrugáo, o
número cai abaixo de 60%" (p. 127).

Quanto á origem da religiáo, o articulista julga que se deve ao medo


da morte: terá induzido a "criar deuses" e a procurar agradar-lhes para
obter o respectivo premio após a morte. Esta teoría está em aberta con-
tradicáo com os dizeres do artigo seguinte de VEJA; sim, á p. 132 está
dito que grandes cientistas, como Charles Darwín, Albert Einstein e
Stephen Hawkíng guardaram a fé em Deus... Deus realidade objetiva e
nao apenas projecáo subjetiva ou pára-raío contra a morte.

Nesse mesmo artigo, intitulado "A Ciencia da Fé", o autor observa


que, conforme pesquisadores contemporáneos, a fé religiosa beneficia
nao só o psíquico, mas também o físico do crente:

"O cardiologista americano Herbert Benson, da reputada Universi-


dade Harvard, estudou durante cinco anos pacientes que aprenderam

99
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

técnicas de meditagáo para tentar controlar suas doengas coronarias


crónicas. Ao cabo de cinco anos, Benson notou que os pacientes que
meditavam disciplinadamente todos os dias, tiveram taxas de recupera-
gao superiores as do grupo de doentes que nao levaram a serio a medi
tagáo... Benson nao descarta a hipótese de que alguma mudanga quími
ca no cerebro dos pacientes que adotaram a meditagáo, possa ter ajuda-
do a apressar a recuperagáo.

O médico americano ouviu repetidamente dos pacientes que medi-


taram em profundidade, a afirmagáo de que eles se sentiram na presen-
ga de um 'ser superior'. Benson sugeriu até mesmo a existencia do que
alguns de seus colegas chamaram 'hormónio da fé'. No caso tratase de
um supressorde outros hormónios cuja concentragao no organismo cresce
quando a pessoa passa por muitas e prolongadas experiencias
estressantes" (p. 130s).

Estas noticias suscitam a pergunta:

2. Que dizer?

Seráo propostas quatro ponderales.

2.1.99%

Os resultados da pesquisa Vox Populi confirmam urna verdade já


reconhecida mediante outros estudos: o ser humano, assim como é homo
sapiens, é também homo religiosus. Á religiáo nao é produto do medo
nem da ignorancia, mas é expressáo muito lúcida da inteligencia huma
na. É o que atestam os documentos da pré-história; os paleontólogos
reconhecem a passagem do homem nos resquicios da pré-história medi
ante tres indicios: 1) a confeccáo de instrumentos burilados para cafar
ou defender-se; 2) o uso do fogo (coisa que nenhum infra-humano reali
za); 3) o sepultamento dos morios (rito que nenhum animal irracional
pratica e que supoe a sobrevivencia após a morte em consorcio com a
Divindade). Afinal todo homem foi feito para o Absoluto e pelo Absoluto,
do qual a pessoa humana tem urna vaga 110930 em seu íntimo. - É, pois,
valiosa a conclusáo de que 99% dos brasileiros créem em Deus, apesar
do materialismo característico de muitos empreendimentos modernos.

2.2. Confusáo religiosa

Bem notou o repórter de VEJA que o brasileiro olha para a religiáo


como para urna prateleira de supermercado, onde cada qual escolhe o
que Ihe agrada e faz a sua síntese pessoal subjetiva. A religiáo é tida por
muitos como um sentimento cegó, desligado da razáo. Ora isto é falso. A
religiáo é o mais nobre ato da inteligencia humana; por isto o ato de fé
requer credenciais; devo justificar a mim mesmo por que creio...; por que

100
"A FE QUE MOVE O BRASIL"

creio nisto ou naquilo e nao em outros tópicos; a fé adulta supSe o estudo


das razoes para crer. Assim evitam-se o sincretismo e o ecleticismo irra-
cionais, evita-se a desfiguracao da religiáo que ocorre ñas supersticoes,
ñas revelacóes fantasiosas, no antropocentrismo religioso (religiáo como
"Pronto Socorro Espiritual")...

2.3. A frustracáo postuma

Ás pp. 126s do citado n9 de VEJA lé-se o seguinte:


"Desde o Concilio Vaticano II, a Igreja Católica retirou discretamente
de seus ensinamentos as terríveis historias de punigáo após a morte. Há
dois anos, o papa Joáo Paulo II decidiu que o inferno nao é um lugar
físico, onde as pessoas seriam cozidas em fogo eterno, como se apre-
goou durante séculos, mas 'um estado de alma', em que o sofrimento do
pecador seria causado nao mais pelas chamas, e sim pela ausencia de
Deus. A edigáo em portugués do Catecismo da Igreja Católica, que é o
código de conduta e de principios da Santa Sé, tem 734 páginas. De
seus 2865 parágrafos, só seis sao dedicados ao inferno, tres ao purgato
rio e onze ao paraíso".

Estas consideracóes nao significam que a Igreja tenha alterado o


artigo de fé baseado no Evangelho (cf. Mt 25, 31-46), segundo o qual
existem duas sortes postumas: a dos justos (a visao de Deus face-a-
face) e a dos ímpios. Esta última é apresentada no Evangelho com as
imagens do fogo, do ranger de dentes, de trevas - o que ocasionou con-
cepcóes populares dantescas, exploradas pela poesía e a pintura; a Te
ología, porém, sempre ensinou que nem o céu nem o inferno sao locáis;
na verdade sao estados de alma, em que cada ser humano colhe o que
semeou durante a sua passagem neste mundo, ou seja, o gozo da visao
díreta da Beleza Infinita ou a frustracáo por haver perdido esse único
valor que ninguém pode perder.

A propósito vé-se que nao convém falar de "punigáo" ou de um


Deus que castiga como se fosse um policial. Quem castiga o homem é o
próprio homem, quando consciente e voluntariamente diz Nao ao Bem
Infinito; cada um lavra sua sentenca final enquanto peregrina neste mun
do, optando por Deus ou contra Deus; cada qual deixa este mundo já
definido; Deus apenas reconhece e respeita a sentenca lavrada pela cri
atura. - Ninguém está habilitado a dizer se sao muitos ou poucos os que
na última hora se fecham na recusa da graca de Deus; mesmo que nao
transparecam, pode haver conversoes para Deus no momento final da
caminhada terrestre. A Igreja quer que se evite um linguajar fantasioso
na catequese relativa ás sortes postumas; daí o pronunciamento do papa
Joáo Paulo II, que nada de novo disse sobre o inferno, mas repetiu o que
a Teología católica afirma a propósito. Deus quer a saivacáo de todos os

101
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

homens (cf. 1Tm 2,4); se alguém se perde, perde-se por rejeitar a graca
do Senhor, que nao Ihe falta até o último momento.

2.4. Fé e Psicoterapia

Sao muito interessantes as conclusóes do Dr. Benson e dos den


tistas que véem na fé religiosa um fator terapéutico. A teologia só pode
confirmar esta verificacáo. Tranquillus Deus tranquillat omnia (o Deus
tranquilo tranquiliza tudo), dizem os Santos. Todavia nao se pode reduzir
a fé a um elemento terapéutico. Ela é, antes do mais, a adesáo a Deus
que fala; é um ato de entrega a Deus, que tem seu aspecto intelectual, pois
é um sim dito á Verdade,... aspecto intelectual que redunda em confianca
absoluta no Amor Infinito. Isto nao pode deixar de fazer bem ao psiquismo
do crente, mas este beneficio é decorrente de outro bem ainda maior.

De resto, como psicólogo, Cari Gustav Jung (t 1961) verificava


que a ausencia de Deus na vida de alguém provoca o desmantelamento
da personalidade e, conseqüentemente, a desorientacáo do comporta-
mentó humano. Eis o seu testemunho:

"Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, isto é,


tendo mais de trinta e cinco anos, nao houve um só cujo problema mais
profundo nao fosse constituido pela questáo de sua atitude religiosa.
Todos, em última instancia, estavam doentes por ter perdido aquilo que
urna religiao viva sempre den em todos os tempos aos seus adeptos, e
nenhum se curou realmente sem recuperar a atitude religiosa que Ihe
fosse própria".

Em suma, a reportagem de VEJA mostra mais urna vez que a fé


nao é atitude infantil ou senil, mas é postura do homem e da mulher
adultos do Brasil (para nao dizer:... do mundo inteiro). A revista cita no-
mes de cientistas que professaram ou professam a fé em Deus; entre
estes está o inglés Stephen Hawking. Eis o que se lé no final do segundo
artigo de VEJA mencionado atrás:

"O pai da cosmología moderna, o inglés Stephen Hawking, acha


fascinante a chamada 'hipótese teológica', a idéia de que entender Deus
seria o alvo supremo da Física, mas alerta que o caminho para chegar lá
é a ciencia, e nao a metafísica ou o misticismo. Quando Ihe perguntam se
Deus teve um papel no universo antes do big bang, a explosáo inicial
que teña criado o cosmos, Hawking admite que sim. 'Acho que só Ele
pode responderpor que o universo existe', diz o famoso astrofísico" (p. 133).
Possa o povo brasileiro conservar sua fé religiosa e aprimorá-la
mediante o estudo mais apurado dos ensinamentos da religiao! Esta nao
é sentimento cegó ou imaginoso, mas é a mais elevada atividade da inte
ligencia humana.

102
Conjeturas sem fundamento:

JESÚS QUERÍA FUNDAR UMA NOVA IGREJA?


revista GALILEU

Em sintese: Mauricio Tuffani, na revista GALILEU, levanta dúvi-


das sobre a fundagáo da Igreja por parte de Jesús. A razáo das dúvidas
é o pretenso fato de Jesús ter sido um fiel seguidor da religiáo judaica;
ademáis o texto de Mt 16, 16-19 nao tem paralelo em Me e Le. - Em
resposta observamos que Jesús nao foi táo fiel observante da religiáo
judaica, pois mais de urna vez violou o sábado; dispensou seus discípu
los de jejuar como jejuavam os fariseus e os discípulos de Joáo; retocou
a Leí de Moisés no sermáo da montanha. Quanto ao texto de Mt 16, 16-
19, é um tecido de aramaísmos, que revelam a sua índole arcaica e au
téntica.

A revista GALILEU, nQ 125, dezembro 2001, pp. 28-35, traz um


artigo de Mauricio Tuffani intitulado "Jesús quería fundar urna nova Igre
ja?". Insinúa resposta negativa, valendo-se dos escritos de autores mo
dernos. A seguir, examinaremos o conteúdo do artigo e Ihe teceremos
comentarios.

1. A tese negativa

M. Tuffani cita o escritor espanhol Juan Arias, que publicou o livro


Jesús - esse grande desconhecido, em que se lé: "Esta Igreja, que se
diz fundada por Jesús, nao será antes a herdeira de urna fé que foi sendo
construida ao longo dos séculos sobre os frágeis pilares de sua verdade
histórica, sobre seu mito e sobre os dogmas por ela criados?".

Esta concepeáo cética ou mesmo negativa é professada pelo Prof.


Pedro Lima Vasconcelos, do Departamento de Teología e Ciencias da
Religiáo da PUC-SP nos seguintes termos:

"O judaismo pós-70 d.C. foi reconstituido pela seita dos fariseus.
Para eles, mesmo antes desse período, Jesús nao era o messias previs
to pelos profetas do Antigo Testamento. Por isso e por outras razóes,
como o fato de os cristáos nao cumprirem o ritual da circuncisáo nem as
restrigóes de alimentos dosjudeus, os fariseus e os novos seguidores de
Jesús foram se tornando duas seitas que acreditavam no mesmo Deus,
mas eram antagónicas" (pp. 32s).

103
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

A principal razáo por que tais escritores negam tenha Jesús funda
do a Igreja, é o pretenso fato de que Jesús era fiel seguidor da religiáo
judaica. Em Mt 16, 18, Jesús terá feito de Pedro o fundamento de urna
nova comunidade, nao de urna nova religiáo.

Ademáis, dizem, é de autenticidade duvidosa o texto de Mt 16,17-


19, em que Jesús confere o primado a Pedro, visto que nao tem paralelo
nem em Me nem em Le.

- Que crédito merecem tais alegacóes?

2. Que dizer?

Proporemos tres observares.

2.1. Jesús, fiel seguidor do judaismo

Nao há dúvida, Jesús submeteu-se á circuncisáo e foi tido como


um rabino respeitável. Mas foi também freqüentemente um aberto
transgressor da Lei de Moisés. Tenham-se em vista:

-as repetidas violacóes do sábado: Me 2, 23-28; 3,1-6; Le 13,10-


17; 14,1-6; Jo 9,16; 5, 9;

- no sermao da montanha {Mt 5-7) Jesús propóe seis antíteses


entre a Lei de Moisés e a sua própria lei: "Ouvistes o que foi dito aos
antigos... Eu, porém, vos digo..."; cf. Mt 5, 21.27.31. 33. 38. 43;

-Jesús se julga dispensado de pagar o tributo do Templo; Mt 7,24-27;

- o "daí a César o que é de César..." nao era condizente com o


modo de pensar dos judeus; cf. Mt 22,16-22;

- o mesmo se diga da benignidade de Jesús para com os publícanos


e os pecadores; cf. Me 2,15-17; Le 19,1-10;

- as freqüentes altercacoes de Jesús com os fariseus, saduceus,


escribas e doutores da Lei revelam um Jesús nao identificado com os
mestres religiosos do seu tempo.

Em suma, nao se pode negar que Jesús tenha vivido segundo as


grandes linhas da religiáo judaica (tenham-se em vista, entre outras coi
sas, as peregrinacóes a Jerusalém). Ele mesmo disse: "Nao penséis que
vim ab-rogar a Lei e os Profetas. Nao vim revogá-los, mas dar-lhes pleno
cumprimento". Todavía ele veio levar a Lei de Moisés á consumacáo;
veio realizar plenamente aquilo a que a Lei se encaminhava; Ele é o
cumprimento de todas as profecías e expectativas do Antigo Testamento.
Por isto um judeu que se converta ao Cristianismo, nao deixa de ser
judeu, como afirma o Cardeal Jean-Marie Lustiger, de Paris; é judeu que

104
JESÚS QUERÍA FUNDAR UMA NOVA IGREJA?

passou da fase da Promessa para a fase da plena realizacáo da Promes-


sa; o judaismo é essencialmente expectativa do Messias prometido; por
isto quem adere ao Messias {comprovado pelo cumprimento das profecí
as), nao perde sua identidade judaica.

Jesús entendeu que a consumacao da antiga Lei se faria pela fun-


dacao da sua Igreja. Vejamo-lo mais detidamente.

2. Jesús fundou "a sua Igreja"

Em Mt 16,18s diz Jesús a Pedro em resposta á sua profissio de fé:

"Tu és Pedro (Kepha) e sobre este Kepha edificarei a minha Igre


ja; e as portas do inferno nunca prevaleceráo contra ela. Eu te darei as
chaves do Reino dos céus, e o que ligares na térra, será ligado nos céus,
e o que desligares na térra será desligado nos céus".

Como se vé, Jesús quer edificar ou fundar "a sua Igreja". A palavra
grega ekklesia, que corresponde a igreja, traduz o hebraico qahai, que
designa nao urna comunidade qualquer, mas o povo santo, segregado
para o servico do Senhor (cf. Ex 19, 5s; Dt 4, 10; 9, 10; 18,16; 23, 2; 31,
30). Em vez de falar da Igreja ou qahai de Deus, Jesús falou da sua
Igreja - o que atesta a sua Divindade e enfatiza a funcáo central de Jesús
na obra da salvacao.

O fato de que esta passagem só se encontra em Mt, e nao nos


paralelos de Me e Le, tem suscitado a suspeita de críticos quanto á sua
autenticidade; seria interpolacáo tardía devida a cristaos desejosos de
impíngir o primado de Pedro. - Verifica-se, porém, que esse trecho está
impregnado de aramaísmos, de modo que parece fazer eco á própria
linguagem de Cristo. Com efeíto, observem-se os termos semitas: Simáo
bar-Jona (Simáo, filho de Joáo), carne e sangue (cf. Hb 2, 14), meu Pai
que está nos céus (cf. Mt 18, 14-19; 5, 45; 7, 21), Kepha (Pedro; Jesús
faz um trocadiiho que só é possível em aramaico, e nao em grego, língua
que diz Petros-Petra), portas do inferno (a regiáo dos mortos é concebida
como urna cidade cujas portas sao guarnecidas por municoes hostis á
Igreja), entregar as chaves (o que significa entrega de poderes; cf. Is 22,
20-22), ligar-desligar (impor-absolver).

Ademáis Mt 16, 18s encontra-se em todos os antigos manuscritos


e ñas antigás traducóes de Mt - o que significa que pertence á íntegra do
texto; nao há vestigio de ¡nterpolacáo tardía.

Mais: deve-se observar que Jesús lancou as linhas estruturais e


definitivas da sua Igreja. Chamou os doze apostólos: Me 3,13-19; Mt 10,
1-4; Le 6,12-16; Jo 6,70. O número 12 é importante, pois mostra a con-
tinuidade com o antigo Israel, que era o povo das doze tribos. Segundo

105
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

os judeus, a vinda do Messias provocaría a reuniáo das doze tribos dis


persas pelo exilio. A escolha dos doze significa que chegara o tempo de
constituir um Israel renovado. A importancia do número 12 se depreende
ainda do fato de que os apostólos o quiseram restaurar após a defeccáo
de Judas (cf. At 1,15s). aos doze Jesús quis conferir o poder de ligar e
desligar (cf. Mt 18, 18): Isto é, de proibir e permitir, impor e dispensar,
exercendo funcóes de jurisdicáo; as mesmas faculdades foram entre
gues a Pedro, de modo que este possui pessoalmente a mesma jurisdi
cáo que os doze exercem colegialmente.

3. A data de origem dos Evangelhos

Segundo o Prof. Pedro Lima Vasconcelos, os Evangelhos foram


escritos após 70 d. C, ou seja, após a queda de Jerusalém. É comum
aos críticos racionalistas distanciar de Jesús a época de redacáo dos
Evangelhos, pois as lendas requerem tempo para surgir e se propagar;
ora os Evangelhos apresentariam mitos e lendas.

Ocorre, porém, que a paleografía recente contribuí para rejeitar a


datacáo tardía dos Evangelhos. Com efeíto, duas descobertas dos últi
mos decenios revolveram o mundo dos estudiosos da Biblia. Ei-las:

1) Em 1972 na gruta 7 de Qumran, a Nordoeste do Mar Morto,


foram encontrados pelo Pe. José O' Callaghan S. J. papiros do Novo
Testamento, entre os quais o dito 7Q5; o pesquisador procurou com to
dos os recursos da ciencia moderna o contexto ao qual poderiam perten-
cer as sílabas e as letras de tal fragmento, e chegou á conclusáo de que
7Q5 apresenta Me 6, 52-53; terá sido escrito no ano 50, visto que o tipo
de letra do referido papiro ou o Ziersti caiu em desuso em meados do
século I. A tese de O'Callaghan era revolucionaria e, por isto, ao lado de
aplausos, encontrou forte contestacáo.

O caso parecía encerrado pela crítica contestataria quando em 1984


o Professor Carsten PeterThíede, de Berlim, retomou os estudos, debru-
gando-se sobre os papiros origináis em Jerusalém; em conclusáo, confir-
mou a sentenca de O'Callaghan; os resultados de suas pesquisas estáo
expostos no livro Die álteste Evangelien-Handschrift? Das Markus-
Fragment von Qumran und die Anfange der schriftlichen
Ueberlieferung des Neuen Testaments (O mais antigo manuscrito dos
Evangelhos? O fragmento de Marcos em Qumran e os inicios da tradicáo
escrita do Novo Testamento) Wuppertal 1986. Na traducao italiana dessa
obra lé-se:

"Assim resumindo, foram aduzidas todas as provas positivas em


favor da exatidáo da datagáo; além disto, foram eliminadas todas as pos-
sfveis objegóes. Na base das regras do trabalho paleográfico e da crítica
do texto, é ceño que 7Q5 é Me 6, 52-53, o mais antigo fragmento conser-

106
JESÚS QUERÍA FUNDAR UMA NOVA IGREJA? 11

vado de um texto do Novo Testamento, escrito por volta de 50, e certa-


mente antes de 68" (p. 42).

Como se vé, as pesquisas mais recentes antecipam a redacao de


Me para meados do século I.

2) Estáo em foco tres pequeños fragmentos, do tamanho de selos


do correio cada qual; apresentam dez linhas fragmentadas do capítulo
26 do Evangelho segundo S. Mateus. Foram descobertos pela primeira
vez em Luxor (Egito) no ano de 1901 pelo capeláo inglés que lá vivia, o
Rev. Charles Huleatt. Foram doados á biblioteca do Magdalen College
de Oxford (Inglaterra). O Rev. Huleatt morreu por ocasiáo do grande
terremoto da Sicilia em 1908, sem ter deixado informacóes sobre o paño
de fundo de sua descoberta, que ele também nao parece ter divulgado.
O fato é que até 1953 nem sequer haviam sido publicadas fotografías
desses fragmentos. Na Espanha existem dois outros fragmentos do mesmo
documento, que, como se eré, contém seccoes de Mateus cap. 3 e cap. 5.

Os fragmentos da biblioteca do Magdalen College foram inicial-


mente tidos como oriundos no ano 200 aproximadamente, como, alias,
37 outros papiros do Novo Testamento, existentes no comeco deste sé-
cuio, eram datados dos séculos II e III. Esta hipótese foi posta em xeque
quando em 1994 o Prof. Carsten Peter Thiede, Diretor do Instituto de
Pesquisas Básicas Epistemológicas, de Paderbom (Alemanha), visitou
Oxford e examinou minuciosamente os tres manuscritos da biblioteca do
Magdalen College.

As conclusoes do Prof. Thiede datavam esses fragmentos do sé-


culo I ou, mais precisamente, do ano 70 ou até mesmo de anos anterio
res a 70. O seu argumento principal era deduzido do tipo de letra utiliza
da pelo escritor: trata-se de caracteres verticais, comuns aos manuscri
tos gregos da primeira metade do século I; após os tempos de Cristo (27-
30) tal tipo de letra comecou a cair em desuso. Verdade é que o Prof.
Thiede reconhece que a datacáo de manuscritos é coisa assaz difícil; o
método do Carbono 14 nao pode ser aplicado no caso, porque destruiría
os pequeños fragmentos em vez de os identificar. Thiede valeu-se entáo
da paleografía comparativa, segundo a qual um manuscrito sem data
pode ser datado pelo confronto com outros manuscritos de data segura
(ou relativamente segura); no caso, o Prof. Thiede tomou como referenciais
alguns manuscritos gregos descobertos em Qumran junto ao Mar Morto,
em Pompei e Herculano (Italia) e que foram reconhecidos recentemente
como textos do século I.

É evidente a intencáo, da revista GALILEU, de fazer sensacionalis-


mo, envolvendo-se em assuntos complexos, que requerem mais
aprofundamento do que aquele efetuado por Mauricio Tuffani.

107
'Profecías sinistras":

AÍNDA O TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA

Em síntese: Os sinistros acontecimentos de 11/09/01 suscitaran) a


suspeita de que haviam sido preditos dentro da mensagem do terceiro
segredo de Fátima; varios artigos na imprensa internacional deram ex-
pressáo a essa desconfianga. Em conseqüéncia Mons. Tarcisio Bertone,
Secretario da Congregagáo para a Doutriná da Fé, foi enviado ao Carmelo
de Coimbra, onde se encontrou com a Ir. Lucia, que Ihe assegurou ter
sido revelado ao grande público todo o conteúdo do segredo.
* * *

O atentado terrorista de11 de setembro 2001 sugeriu a muitos fiéis


católicos a impressáo de que nao fora revelado todo o teor do terceiro
segredo de Fátima. Jomáis de diversos países publicaram artigos a res-
peito. Ao Papa foram enviadas cartas até de governantes civis interro
gando sobre o conteúdo do segredo. Além disto, certos movimentos
"fatimitas" levantaram a acusacáo de que o Santo Padre nao havia aten
dido a Nossa Senhora, nao consagrando a Rússia ao seu Imaculado
Coracáo.

A situacáo confusa fez que a Santa Sé enviasse a Coimbra o arce-


bispo Mons. Tarcisio Bertone, Secretario da Congregacáo para a Doutri-
na da Fé, a fim de propor á Ir. Lucia as dúvidas levantadas e pedir-lhe
urna palavra decisiva.

O encontró de Mons. Bertone com a Ir. Lucia teve lugar no Carmelo


de Coimbra na presenca do Pe. Luís Kondor SVD, Vice-postulador da
causa dos Bem-aventurados Francisco e Jacinta, assim como da Prioresa
do Carmelo local (com o consentimento do Cardeal Joseph Ratzinger) e
dos Bispos de Leiria-Fátima e Coimbra.
O relatório desse encontró foi assinado por Mons. Bertone e pela
Ir. Lucia. Foi divulgado via internet pelo Vaticano em língua italiana, da
qual se segué a traducáo portuguesa.

O Relatório do Encontró

O coloquio durou mais de duas horas erealizou-se no sábado 17


de novembro a tarde. A Irma Lucia, que completará 95 anos aos 22/03/
02, apareceu em plena forma, lúcida e vivaz. Antes do mais, professou o
seu amor e a sua dedicacáo ao Santo Padre; muito reza por ele e pela
Igreja inteira.

108
aínda o terceiro segredo de fátima 13

Está contente com a difusáo do seu livro "Os apelos da mensagem


de Fátima" traduzido para seis línguas (italiano, espanhol, alemáo, hún
garo, polonés, inglés). Tem recebido muitas cartas de agradecimento.
Passando á questáo da terceira parte do segredo de Fátima, afir-
mou ter lido atentamente e meditado o fascículo publicado pela Congre-
gacáo para a Doutrina da Fé1 e confirmou tudo o que foi escrito.
A quem suspeita que algo do terceiro segredo tenha ficado oculto,
respondeu: "Tudo foi publicado; nada mais há de secreto".

A quem fala e escreve sobre novas revelacoes, disse: "Nada disso


é verdade. Se eu tivesse recebido novas revelacoes, nao as teria conta
do a ninguém, mas teria ido diretamente ao Santo Padre".
• A seguir, com prazer recordou a sua juventude com as dificuldades
por que passou antes de se tornar Religiosa, mas também com as de-
monstracoes de benevolencia que recebeu; por exemplo, lembrou as "fe
rias" em Braga nos anos de 1921-24 em casa da sra. Filomena Miranda
sua madrinha de Crisma.

Foi-lhe posta a pergunta: "Que efeito teve a visáo de 13 de julho


sobre a sua vida, antes que fosse redigida por escrito e entregue á Iqre-
ja?". Respondeu:

"Eu me sentia segura sob a protecáo de Nossa Senhora, que have-


ria vigiado solícitamente sobre a Igreja e o Papa". E acrescentou um par
ticular inédito ao relato da famosa visáo profética; "Durante a visáo Nos
sa Senhora, que irradiava um certo esplendor, tinha na máo direita um
coracao e na esquerda o rosario".

"Que significado tem o coragáo na máo de Nossa Senhora?"


-Éum sinal de amor que protege e salva. É a Máe que vé os filhos
sofrer e sofre com eles, mesmo com aqueles que nao a amam. Porque
ela quer salvar a todos e nao perder nenhum daqueles que o Senhorlhe
confiou. O seu coragáo é um refugio seguro. A devogáo ao Coragáo
Imaculado de María é um meio de salvagáo para os tempos difíceis da
Igreja e do mundo. É muito apropriada a reflexao do Cardeal Ratzinger
no fim do seu comentario á terceira parte do segredo:

'O meu Coragáo Imaculado triunfará. Que significa isto? O coragáo


aberto para Deus, purificado pela contempiagáo de Deus é mais forte do
que os fuzis e as armas de todo tipo. O fíat de María, a palavra do seu
coragáo mudou a historia do mundo, pois introduziu neste mundo o Sal-

1 Ver PR 461/2000, pg. 434ss.

109
!4 "PER6UNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

vador; gragas a este Sim, Deus pode tornarse homem no nosso espago
e tal hora permanece para sempre. O Maligno goza de poder neste mun
do, como vemos e experimentamos continuamente; ele tem poder por
que a nossa liberdade se deixa constantemente afastar de Deus. Mas,
desde quando Deus tem um coragáo humano e inclinou a vontade do
homem para o bem, para Deus, a liberdade para o maljá nao tem a última
palavra. Desse momento em diante valem os dizeres: 'Tereis tribulagóes
no mundo, mas tende confianga; eu vencí o mundo' (Jo 17, 33). A mensa-
gem de Fátima nos convida a entregar-nos confiantes a essa promessa'".

Foram feitas aínda tres perguntas:

"É verdade que, talando com Dom Luigi Bianchi e com Dom José
dos Santos Valinho, a sra. pos em dúvida a interpretagáo da terceira par
te do segredo?"

Irma Lucia respondeu: "Nao é verdade. Confirmo plenamente a in


terpretagáo dada durante o ano jubilar".

"Que diz a respeito das obstinadas afirmagoes do Padre Gruner,


que recolhe assinaturas a fim de que o Papa realize finalmente a consa
gragáo da Rússia ao Coragáo Imaculado de Maria, consagragáo que ja
máis terá sido efetuada?"

Irma Lucia respondeu: "A comunidade do nosso Carmelo rejeitou


as listas de abaixo-assinados. Eu disse que a consagragáo desejada por
Nossa Senhora foi feita em 1984, e foi aceita no céu".
"É verdade que a Irma Luda está muito preocupada com os últimos
acontecimentos e nao dorme mais, mas reza de dia e de noite?"

Respondeu a Ir. Lucia: "Nao é verdade. Como poderla eu rezar


durante o dia se nao repousasse durante a noite? Quantas coisas me
sao atribuidas! Quantas coisas fago eu, segundo dizem por ai! Leiam o
meu livro; ali estáo os conselhos que correspondem aos desejos de Nos
sa Senhora; oragáo e penitencia, com urna fé muito viva no poder de
Deus, salvaráo o mundo".

(a) Mons. Tarcisio Bertone, SDB


Ir. Maria Lucia de Jesús e do Coragáo Imaculado

Refletindo...

Eis, em poucas palavras, a mensagem de Fátima: "Fazeí oragáo e


penitencia". Esta exortagáo é muito mais significativa do que os quadros
de tragedias concebidos pela fantasía humana. É somente através da
oragáo e da penitencia que o mundo conhecerá melhores dias.

110
aínda o terceiro segredo de fátima 15

Apesar de já ter sido revelado por completo o terceiro segredo de


Fátima, ainda circulam panfletos que em nome de Fátima predizem ca
tástrofes horrendas para a humanidade. Torna-se interessante analisar
um dos mais freqüentes impressos a respeito desses males.

1) Comega dizendo falsamente: "A Igreja deu permissáo de revelar


urna parte do terceiro segredo de Fátima". Ora tal permissáo nunca ocor-
reu. O segredo foi revelado oficialmente pela Santa Sé aos 13/05/00 em
Fátima.

2) Logo no seu inicio diz o texto:

"Metade da humanidade será horrorosamente destruida. A guerra


comegará... Deus permitirá que todos os fenómenos naturais como a fu-
maga, o granizo, o frío, a agua, o fogo, as inundagóes, os terremotos, o
tempo inclemente, desastres terríveis e os invernos extremamente fríos
acabem pouco a pouco com a térra. Estas coisas de qualquer maneira
aconteceráo antes do ano 2002".

Ora já estamos em 2002 e podemos dizer que a metade da huma


nidade nao pereceu nos últimos tempos, nem "a Térra está acabando
pouco a pouco" por efeito de flagelos climatéricos. A própria historia se
encarrega de desmentir as profecías. Vé-se quanto sao falsas.

3) Mais adiante diz o texto:

"Nos estamos a cerca de um minuto do último dia e a catástrofe se


aproxima. Devido a isso, muitos que estáo afastados se voltaráo aos bra
cos da Igreja Católica, Inglaterra, Rússia, China, os protestantes e os
judeus. Todos regressaráo, adoraráo e creráo em Deus, em seu Filho
Jesús Cristo e em sua máe, a Santíssima Virgem María".

Observe-se que "o minuto anterior ao último dia" já se protrai por


meses. Nem é de prever a conversáo, ao Catolicismo, da China, dos
protestantes e dos judeus.

4) É á luz destes desacertos "proféticos" que háo de ser lidas as


demais predicoes do panfleto: urna armada poderosa caminhará através
da Europa, a escuridáo caira sobre nos durante 72 horas, grande
terremoto, "velas santificadas" para vencer as trevas... - Estas previsoes
nao tém valor algum. De resto, é característico das falsas profecías pre-
dizer minuciosamente o futuro, pois isto atende á curiosidade do público,
sempre desejoso de saber exatamente o que está para acontecer. As
profecías bíblicas, ao contrario, sao geralmente de interpretacao difícil,
requerendo minucioso trabalho exegético.

m
Análise psico-antropológica:

"A EXPRESSÁO POPULAR DO SAGRADO"


por Paulo Bonfatti

Em sin tese: O autor do livro considera o fenómeno neopentecostal


protestante, especialmente a Igreja Universal do Reino de Deus. Esta
subsiste sobre quatro pilastras: o simbolismo do dinheiro, a guerra santa,
a realidade do mal e as doengas divinas. Todos os males teriam sua
causa no demonio, que, poristo, há de ser exorcizado; o rito que afasta o
Maligno só pode ter eficacia no caso de que a pessoa atetada pague o
dizimo e faga sua oferta. Este modo de encarara realidade tem sido fator
de rápido enriquecimento da Igreja Universal, que se expande sempre
mais apesar de queixas e denuncias que contra ela se tém levantado.
* * *

É muito vasta a bibliografía que se tem publicado sobre o


neopentecostalismo, especialmente sobre a Igreja Universal do Reino
de Deus (IURD). Muitos dos respectivos autores procuram ser imparci-
ais, analisando os fatos com objetividade. Tal é o caso de Paulo Bonfatti,
formado em Psicología na escola de Cari Gustav Jung e, desde 1998,
especializado em Psicología da Religiao. Escreveu um livro assaz inte-
ressante intitulado "A Expressáo Popular do Sagrado. Urna análise psico-
antropológica da Igreja Universal do Reino de Deus"1. Por sugestáo de
leitores, será, a seguir, considerada a terceíra parte do livro, que trata do
"Universo universal" ou das idéias mestras da IURD. .

1. O Universo Universal

Conforme Bonfatti, sao quatro os pilares da IURD, que auxiliam a


compreender a mesma: 1) o simbolismo do dinheiro, 2) a guerra santa, 3)
a realidade do mal, 4) as doencas divinas.

1.1. O Simbolismo do Dinheiro

Escreve Paulo Bonfatti:

"A qualquer observador destacase, de maneira evidenciada, a im


portancia que o dinheiro tem na IURD, sempre presente nos seus rituais.
Esta maneira enfática de lidar com o dinheiro tem sido justamente urna
das grandes críticas e motivos de acusagoes que se tém feito á IURD.

1 Ed. Paulinas, Sao Paulo 2000, 140 x 200 mm, 188 pp.

112
"A EXPRESSÁO POPULAR DO SAGRADO" 17

Segundo Cecilia Maríz, a crítica mais freqüente e a mais contun


dente as Igrejas pentecostais autónomas, especialmente á Universal do
Reino de Deus, é que elas exploram financeiramente os pobres e que os
pastores se enriquecem pedindo uma grande quantidade de dinheiro. De
tato, é chocante ver tanta gente pobre, iraca, desdentada, mal vestida,
dar tanto dinheiro para pastores jovens, bem vestidos, com saúde, de
carro novo e com aparéncia de uma classe mais alta (Maríz, 1995, p. 28).

Por estar quase sempre presente e articulada no cotidiano da IURD,


essa questao do dinheiro é apresentada por ex-membros como uma das
causas que justificariam sua saída dessa Igreja. Como relatado certa vez
por um ex-membro: 'na Universal, eles só falam em dinheiro [...] a gente
tem que dar dinheiro o tempo todo [...] nao dava para continuar assim
[...]'. O interessante é que mesmo que alguns saiam por este motivo, um
outro número muito maior chega e permanece nessa Igreja, fazendo-a
crescer. O que nos leva a inferir que esta questao do dinheiro é, no mínimo,
relativamente aceita por todos estes que tém feito a IURD crescer..." (p. 67).

"Para alguns autores (Oro, 1993, p. 308; Valle, 1998a; Campos,


1997), a IURD simplesmente repete e assimila uma lógica capitalista
neoliberal da sociedade ou do mercado em que está inserida. Dessa for
ma, a IURD seria estruturada dentro de um modelo empresarial de cres-
cimento, expansáo, levantamento de recursos, organizagáo, aquisigáo
de propriedades, disputa de mercado e marketing. Nesse aspecto, a títu
lo de ilustragáo, é interessante notar que o ideal de vencer na vida, sem
pre passado pela IURD, nao está ligado a ter um bom emprego ou um
bom salario apenas. Muito mais que isso, é ser um empreendedor prós
pero que esteja sempre crescendo, é ser dono de seu próprio negocio,
onde nao se é empregado de ninguém, mas sim patráo" (p. 68).

Nota Bonfatti que, segundo o pesquisador Ari Pedro Oro, os pasto


res da IURD utilizam oito táticas para obter dinheiro dos seus fiéis:

1) pedidos para enfrentar as despesas da Igreja, como agua, luz,


programas radiofónicos e televisivos...;

2) apelo ao cumprimento do sagrado dever do dízimo, respaldado


em passagens bíblicas. Afirmam que o dízimo nao é pago á IURD, mas á
obra de Deus;

3) as campanhas, que sao períodos de sete días associados a


objetivos diversos como saúde, prosperidade, libertacao, familia... O fiel
que deseja participar de uma dessas correntes deve estar em dia com o
dízimo e, além disto, fazer sua oferta, expressáo de sua fé, que Ihe dá o
direito de ser atendido por Deus. Cada corrente tem seus objetos simbóli
cos: sal, óleo, arruda, agua benta..., que os fiéis sao chamados a adquirir;

113
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS11478/2002

4) distribuicáo de objetos simbólicos, em troca dos quais os pasto


res pedem doacoes espontáneas; sao a Biblia, livros e discos religiosos,
chaves, sabonetes, lencos, xampu... que os pastores abencoam para que
garantam protecáo e seguranga;

5) enfatizagáo da eficacia dos rituais da IURD, que sao capazes de


resolver problemas aparentemente insolúveis; pelo radio e pela televisao
sao descritos os "milagres" pelas pessoas que se dizem beneficiadas;

6) a IURD tem livros nos quais sao anotados os nomes das pesso
as pelas quais os pastores váo rezar. Cada pessoa assim registrada cos-
tuma fazer sua doagáo espontánea;

7) durante os rituais da IURD os pastores solicitam doacóes volun


tarias. Instaura-se um clima de cobranga que chega a ser constrangi-
mento..., constrangimento táo forte que nao há como recusar fazer urna
doagáo, por pequeña que seja. É comum o pastor pedir urna quantia
elevada, que ninguém ou quase ninguém pode doar. Aos poucos vai abai-
xando a soma solicitada até chegar a urna quantia módica que qualquer
pessoa da assembléia pode dar. Se acontece que alguém nao consiga
ofertar nem mesmo o valor mínimo, o pastor Ihe sugere que pega ao vizinho
ao lado urna quantia qualquer para que nao deixe de fazer sua oferta;

Certa vez um pastor pediu cem reais como primeiro pedido; ¡medi
atamente urna senhora levantou-se sozinha. Houve olhares e um Ó de
espanto e admiracáo geral da assisténcia. Enquanto ela caminhava pelo
centro do templo, o pastor falou alto e firme pelo microfone, com urna das
máos levantadas em diregáo a ela: "Deus te abencoe, mulher de fé!"

Observa-se que, para urna grande maioria da populagáo que pou-


co tem, é enorme satisfacáo e motivo de orgulho poder dar alguma coisa
á Igreja ou por ter "o dever cumprido" diante de Deus;

8) "É dando que se recebe"... Esta máxima é muito repetida pelos


pastores, inculcando a reciprocidade do dar a Deus e do receber de Deus.
A conviccáo de que assim é, faz que na IURD os fiéis nao pecam propri-
amente, mas exijam; tém direitos porque, mediante o dízimo e a oferta,
pagaram de antemáo o beneficio que desejam receber.

Nao pagar o dízimo é ceder as ínstigacóes do demonio; equivale a


fazer pacto com ele em lugar da alianca com Deus; é roubar de Deus.

"De modo geral o dinheiro na IURD adquire um simbolismo de ca


nal de comunicacáo com Deus, num universo em que nada é dado ou
recebido gratuitamente, nem mesmo de Deus... O dinheiro assume papel
de barganha e intermediagao com o sagrado, em que a IURD se torna o
lugar escolhido para se realizar tal evento" (p. 75).

114
"A EXPRESSÁO POPULAR DO SAGRADO" 19

Assim a IURD adota a Teología da Prosperidade em lugar da Teo


logía da Cruz, que apregoa configuracáo do cristáo a Cristo padecente e
triunfante, como se lé em 2Tm 2,11-13; Gl 5, 23; 6,14... - Escreve Paulo
Bonfantl á p. 79:

«A concepgáo das ofertas está ligada a urna concepgáo maior e


presente na IURD em que Deus deu o seu filho Jesús Cristo para o sacri
ficio. Jesús sofreupelo homem e porisso nao se precisa sofrermais. Nao
se está no mundo para sofrer, Deus nao colocou o homem aquipara isso.
'Pare de sofrer!' Esta é a urna das frases mais divulgadas ñas propagan
das da IURD.

Deus, ao contrario, quer e planejou que o homem seja próspero,


saudável e feliz e, se nao se viver dessa forma, está-se indo contra os
planos Dele, e isso é estar á mercé dos planos do Diabo. Assim, a
soteriologia da lURDjá está ai, é imánente e pragmática, é a tomada de
posse e o gozo dos bens deste mundo e a esfera escatológica parece ser
algo nao previsto ou algo sem muita importancia para ela.

O que chama a atengáo é o rompimento radical com urna visáo


teológica crista, que coloca o sofrimento e a pobreza aquí na térra como
algo fundamental para se atingir o paraíso, a redengáo ou a ressurreigáo
no final dos tempos. O Bispo Macedo diz que 'Deus nao é sádico'. Ele
nao quer que se sofra enquanto se espera a vida melhorar, ficando-se
praticamente condenado a penar na situagáo de pobreza.

Tem-se que tomar posse (Gomes, 1994, p. 230) do que Deus re-
servou, dentro de seus planos, para seus filhos e a náo-posse é única e
exclusivamente obra do Demonio, pois é contraria a este plano de Deus.
Tem-se o direito divino de se tomar posse daquilo que ao homem foi re
servado e planejado por Deus, entrando em harmonía com Ele. Dessa
forma, tem-se que exigir os direitos (idem, p. 232)! Para se conseguir
isso, pode-se interferir no próprio destino por intermedio da oferta.

Com a oferta, tem-se a oportunidade de se fazer um desafio ou um


contrato com Deus, do qual Ele nao poderá escapar. Nesse pacto coerci
tivo, Deus se torna o credor, pois arríscase a vida dando aquilo que é
essencial e que faz com que se sobreviva no mundo: o dinheiro. Como
muito bem cita Ricardo Mariano: 'Basta usar o nome de Jesús com a
mesma liberdade com que usamos nosso taláo de cheques' (Mariano,
1995, p. 145)».

1.2. A Guerra Santa

Os dirigentes da IURD tém a conviccao subjetiva de que estáo com


a verdade, de modo que Ihes compete travar urna guerra santa ou espiri-

115
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

tual contra qualquer corrente de pensamento ou instituicáo que vá contra


as suas idéias. Daí a luta particularmente ferrenha contra a Igreja Católi
ca, sustentada por acusacoes falsas ou preconceituosas. Mais: por tras
dos erros de pensamento e conduta os mentores da IURD véem o demo
nio; estaríamos na era do demonismo, que tenta tomar posse do mundo.
Em conseqüéncia a IURD tem que invadir este mundo, tomando conta
dele antes que o diabo o faca.

De modo particular as religioes afro-brasileiras interessam á IURD,


pois Edir Macedo passou pela Umbanda em determinada fase de sua
vida. As entidades da Umbanda sao os próprios demonios. A IURD se
apresenta aos seus fiéis como a única forca capaz de enfrentá-las. Toda
vía a faccáo dos demonios é incontável; quando sao destruidos (ou, na
linguagem da IURD, queimados) uns, muitos outros surgem, o que justi
fica a necessidade constante da IURD para protecáo e combate. Dessa
forma nos rituais da IURD aparece sempre o conceito de guerra, que
envolve cada drama humano e que redunda em derrota para os inimigos
demoníacos. Quanto mais poderosos sao os inimigos diabólicos, maior é
a vitória e a necessidade da existencia da IURD.

Nos rituais da IURD sao utilizados elementos dos cultos afro-brasi-


leiros, como sal grosso, o galho de arruda, a bala ungida para as crian-
cas... Assim, ao mesmo tempo em que combate a "idolatría", a Universal
usa urna variedade de objetos de modo semelhante ao que ocorre na
Umbanda. Além do qué, rompe com a pobreza de símbolos do protestan
tismo.

A título de ilustracáo, eis ainda alguns outros elementos da cultura


popular assumidos pela IURD: o Pao da Fartura, a Maca do Amor, a
Rosa Consagrada, o Nardo Ungido, a Sarca dos Milagres, o Sabáo em
Pó Ungido... Contudo, para nao ser tida como idólatra ou cultora da ma
gia, a IURD se justifica alegando que "as pessoas precisam desses sím
bolos como incentivo á fé, mas o que resolve é a fé" (p. 90).

1.3. A Realidade do Mal

O problema do mal no mundo sempre preocupou os pensadores.


Após muito refletir, a Filosofía chegou á conclusáo de que o mal nao é um
ser ou algo de ontológico (como díziam os dualistas e, especialmente, os
maniqueus), mas é a carencia de um bem devido; assim, por exemplo, a
cegueira no homem é um mal, porque é a carencia da visáo que Ihe é
devida.

A IURD nao é dada ao aprofundamento filosófico; ela tem o estudo


da Teología e da Filosofía em pouca conta, pois Ihe parece fonte de here-
sias. Por conseguinte, ela identifica o mal com o demonio e sua atividade

116
"A EXPRESSÁO POPULAR DO SAGRADO" 21

neste mundo; todas as desgragas sao causadas por ele. E, para dissipá-
las, a IURD só vé um procedimento: o exorcismo ou a libertacáo, rito este
que o fiel deve enfrentar com muita fé, expressa por urna oferta; quanto
mais vultosa esta for, tanto mais habilitado estará o crente a ser libertada.
Eis o que observa P. Bonfatti á p. 95,. nota 4:

«Segundo Airton Luiz Jungblut, o conhecimento é visto na IURD


como inibidorda fé, porisso negativo. Diz também que, 'quando pergun-
tamos (na IURD) sobre questoes doutrinárias que envolvam um maior
conhecimento teológico, somos, quase sempre, advertidos de que o que
é mais importante nao é procurar conhecer a Deus, mas sim crer na sua
existencia e poder, e isso com a maior fé que se puder demonstrar'
(Jungblut, 1992, p. 50). Um membro nos disse certa vez que o 'conheci
mento é coisa do Diabo, pois ele póe dúvida na cabega da gente e perde
a forga da fé'. Fato contundente que demarca claramente a negagáo de
qualquertipo de conhecimento, questionamentos intelectuais, foi quando
um casal nos relatou que queimou toda a sua biblioteca com mais de mil
livros porsugestáo do pastor, pois ali estava alojado o demonio que cría-
va a dúvida. Disseram que 'agora o único livro que lemos é a Biblia'».
1.4. As Doencas Divinas

De quanto foi dito até agora, vé-se que o título presente nada de
novo diz; apenas enfatiza de modo especial que as doencas, desde a dor
de cabega até as fraturas ósseas, sao devidas ao demonio; trazem o
predicado de "divinas" porque provém do adversario de Deus ou de um
mundo espiritual.

Para curar qualquer doenca, a IURD afirma ter seus expedientes


ou procedimentos adequados.

Bonfatti narra o seguinte episodio (muito típico, alias):

"Essa concepgáo de doenga de origem espiritual é táo contunden


te... que certa vez em urna reuniao de libertacáo os obreiros, por ordem
do pastor, passaram um óleo exorcfstico ñas partes do corpo por onde o
Demonio entra: nos olhos, quando se véem coisas do Demonio e ele
causa problemas de vista; nos ouvidos, por onde se escuta o Demonio e
este causa problemas de audigáo e dor de ouvido; na sola dos pés, quan
do se pisa em Macumba e se fica com problemas para andar, quebram-
se as pernas, destroncase o pé; finalmente na boca, quando o Demonio
entra por ela por intermedio de comida enfeitigada, que causa problemas
estomacais e intestínais. Depois de ceño tempo, no ritual exorcístico,
muitos na assisténcia comegaram numa cena muito forte a vomitar literal
mente os demonios que haviam entrado em cada um por meto da comida
enfeitigada.

117
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

Essa forte reagáo da assisténcia, muito mais do que urna simples


sugestáo coletiva, mostra claramente como esta concepgáo de que as
doengas sao de origem divina, é fácilmente reconhecida e assimilada
dentro da membresia da IURD" (pp. 109s).

Sao palavras de Bonfatti:

«Se o demonio nao está só alojado ñas pessoas, mas também em


objetos, tentando atrapalhar suas vidas o tempo todo, a Igreja tem de
oferecer alguma tecnología para se relacionar com ele sem ser pelo ca-
minho do exorcismo com incorporagao.

Para esta incapacidade de incorporagao de muitos e ao mesmo


tempo pela onipresenga do Demonio, a IURD possui um enorme arsenal
simbólico exorcístico para efetuaro exorcismo sem incorporagao de seus
membros.

Pode-se lavar no sabonete ou xampu abengoados, andar com um


retalho do manto sagrado no bolso, que ele livra do demonio, pode-se
levar urna lámpada elétrica para ser ungida pelo óleo sagrado e colocá-la
acesa no quarto, que ela vai 'iluminara vida', pode-se levar urna foto, um
tenis ou sapato de alguém 'problemático' de casa, para ser abengoado,
que estapessoa será colocada no 'caminho correto'. O contato com qual-
quer tipo de objeto abengoado toma o objeto ou corpo endemoninhado
vulnerável e passível de agáo exorcística, o que resolve o problema de o
membro nao incorporar entidades demoníacas e se sentir fazendo parte
da lógica da IURD. Sao objetos exorcisticos num universo em que tudo e
todos sao passíveis de serem exorcizados.

Além disso, também se pode percebero demonio e entrar em contato


com ele por intermedio da dorde cabega, da dificuldade de arrumar em-
prego, da dor na perna, da dificuldade de conversar com o filho ou filha,
com o marido alcoólatra... ele está em toda parte e nao só ñas incorpora-
góes manifestadas. Para tal, há de se ter tecnología para ser exorcizado,
e a IURD a possui. Urna fiel disse certa vez que o demonio a estava
'fazendo ter muita dor de cabega e só de ir na Igreja e louvar ele foi
expulso e ela passou'. Nao há grandes exorcismos, mas sim urna coe-
renda simbólica da IURD que abarca todas as nuances pessoais de seus
fiéis.

O exorcismo de incorporagao está sempre ligado as manifestagóes


de gritos, pulos, movimentos estereotipados e quedas, chegando sempre
á necessidade de contensáo por parte dos obreiros e, se for o caso, do
pastor ou pastores. Ocorrem, em geral, quando os pastores os invocam,
em nome de Jesús, para que se manifestem dentro das reunióes. Em
geral, como foi dito ácima, as entidades do panteáo afro-brasileiro estáo

118
"A EXPRESSÁO POPULAR DO SAGRADO" 23

presentes nestes momentos, tanto que, além de serem nominalmente


identificadas, a postura física em que os possuídos se colocam é muito
semelhante ao fenómeno das incorporagóes de entidades deste mesmo
panteao. Observase que a grande facilidade e o número das ocorrénci-
as deste fenómeno estejam ligados também ao fato da IURD ter, entre
seus membros, muitos ex-adeptos de Umbanda e Candomblé» (pp. 98s).
Os dados até aqui expostos resumem claramente o "universo" ou a
cosmovisao da IURD. Sugerem algumas reflexoes.

2. Pensando um pouco...

Ocorrem duas ponderacóes:

2.1. Antropocentrismo

■ A IURD propóe urna atitude religiosa cujo centro é o homem. Deus


é colocado a servico do homem até por meios coercitivos ou, de certo
modo, mágicos. É interessante notar que esses meios sao, em última
análise, o dinheiro canalizado para a Igreja por diversas vias assaz sutis.
O dinheiro dado á IURD tudo consegue. Para temperar o que há de gros-
seiro nesta tese, acrescentam os pregadores que esse monetario tem
que ser oferecido com fé. Esta cláusula serve para explicar os fracassos
ou o náo-atendimento quando ocorre; terá faltado fé!
2.2. Sentimento cegó

A fé nao pode ser um sentimento cegó, desligado da razáo huma


na. Esta deve exercer sua atividade crítica, procurando examinar as cre-
denciais de cada proposicáo religiosa; deve poder responder as pergun-
tas: "Por que creio? Por que creio nisto e naquilo?". Caso isto nao acon-
teca, a religiosidade cega, poderosa como é, pode levar o crente a gra
ves desastres na vida. É o que ocorre na IURD, que professa desdém
pelo aprofundamento teológico; pastores e fiéis sao levados a dizer e
praticar coisas absurdas, entre as quais a identificacao de entidades da
Umbanda com os anjos maus ou demonios da Biblia. Afinal todo cristáo
deve saber que nao existem exus, orixás, pomba-gira e que é tempo
perdido querer espantá-los mediante rituais solenes. O demonio existe,
sim, mas nao é a causa das desgracas que acometem o homem no pla
no físico; o demonio quer o pecado; pode-se crer que raramente efetue a
possessáo diabólica; a Psicología e a Para-psicologia explicam muitos
fenómenos outrora atribuidos ao Maligno.

Em suma, sao evidentes os desvíos da IURD frente ao próprio Evan-


gelho; pelo que nao é necessário nos detenhamos ulteriormente em nos-
sas reflexoes sobre o assunto.

119
Os Novos Conceitos de Governo:

GLOBALIZAQÁO E ECONOMÍA POLÍTICA

Em síntese: O conceito atual de globalizagao implica um Governo


único para todos os povos, visto que os Governos nacionais sao tidos
como incapazes de atenderá complexa problemática de nossos tempos.
Esse Governo central teria seu poder coercitivo ejudiciário. Haveria tam-
bém urna religiáo única para todas as nacóes. - Tais concepgóes ferem
os principios do Cristianismo.
* * #

Mons. Michel Schooyans é professor emérito da Universidade de


Louvain (Bélgica) e consultor do Pontificio Conselho para a Familia. Tem-
se dedicado ao estudo da globalizagáo, tema sobre o qual já publicou um
artigo em PR. A seguir, vai apresentado outro artigo do mesmo autor, que
acrescenta novos dados ao anterior, dados que mais ainda ilustram táo
ponderoso assunto.

O texto de Mons. Schooyans é traduzido do francés como publica


do pela revista FAMILIA ET VITA, ano 2001, nB 1-2, pp. 148-155. - Eis o
seu teor:

Intercambio e Interdependencia

Os vocábulos mundializacáo e globalizacáo atualmente fazem


parte do linguajar comum. Em nivel muito geral, os dois termos sao equi
valentes entre si, por assim dizer. Significam que, na escala mundial, os
intercambios se multiplicaram e essa multiplicagáo ocorreu rápidamente.
Tal é certamente o caso no plano da ciencia, da tecnología e da cultura. A
multiplicagáo dos intercambios tornou-se possível gracas a sistemas de
comunicagáo sempre mais aperfeigoados ou, na maioria dos casos, ins
tantáneos.

Sempre no sentido obvio, os termos mundializacáo e globalizacáo


evocam a interpedendéncia das sociedades humanas. Urna crise
económica nos Estados Unidos, as decisóes da OPEP relativas ao prego
do petróleo, as tensóes entre palestinos e israelenses - para citar ape
nas estes exemplos - tém repercussóes de alcance mundial. Somos
envolvidos, interpelados e mesmo atetados por catástrofes que ocorrem
longe de nos; sentimos nossa responsabilidade frente á fome e as doen-
gas em qualquer parte do mundo.

120
GLOBALIZAQÁO E ECONOMÍA POLÍTICA 25

As próprias religióes dialogam mais entre si. No seio mesmo da


Igreja Católica as comunicacóes se intensificaram.

Adquirimos assim a consciéncia muito perspicaz de nossa perten-


5a á sociedade humana. Neste primeiro plano, familiar, talamos de
integracáo. Em linguagem comum dir-se-á que as distancias já nao exis-
tem; as viagens aproximam os homens, o mundo se tornou urna aldeia.

O mundo tende a mais unidade; em principio só nos podemos re-


gozijar com isto. É também normal que, para chegar a essa meta, seja
necessário procurar novas estruturas políticas e económicas capazes de
responder as novas necessidades. Nao, porém, a qualquer preco nem
segundo quaisquer condicóes.

Unificacáo política, integracáo económica

De alguns anos para cá, o sentido das palavras mundializacáo e


globalizacáo tomou-se um pouco mais preciso. - Por mundializacáo
entende-se a tendencia a formar um governo mundial único. O acento é
colocado sobre a dimensáo política da unificacáo do mundo. Em sua
forma atual, tal tendencia desenvolveu-se em varias correntes que os
internacionalistas estudam. Baste-nos citar dois exemplos: o primeiro
modelo data do fim da década de 1960, e é da autoría de Zbigniev
Brzezinski. Segundo este modelo, os Estados Unidos devem assumir a
lideranca mundial, reformular seu messianismo tradicional; devem orga
nizar as sociedades políticas particulares, levando em conta urna tipología
que classifíca essas sociedades em tres categorías, segundo o seu grau
de desenvolvimento. Em conseqüéncia a mundializacáo se define a par
tir de um projeto hegemónico, cujo objetivo é impor a Pax americana ou
afundar no caos.

No fim da década de 80, apareceu outro projeto mundialista, do


qual Willy Brandt é um dos principáis artesáos. O Norte (desenvolvido) e
o Sul (em desenvolvimento) precisam um do outro; seus ¡nteresses sao
recíprocos. É urgente tomar iniciativas internacionais novas para preen-
cher o fosso que os separa. Essas iniciativas háo de ser tomadas no
plano político e devem versar prioritariamente sobre o sistema moneta
rio, o desarmamento, a fome. Segundo "o programa de sobrevivencia" do
Relatório Brandt, é preciso constituir "um organismo de controle de alto
nivel", que teria por objetivo principal tornar a ONU mais eficaz e conso
lidar o consenso que a caracteriza. O conceito de mundializacáo assim
concebido nao está, de modo algum, ligado a um projeto hegemónico.
Situa-se, antes, na tradicáo do internacionalismo socialista. É certo que
nao chega a recomendar a supressáo dos Estados, mas apregoa que a
soberanía destes seja limitada e posta sob o controle de um poder

121
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

político mundial desde que queiramos garantir a sobrevivencia da


humanidade.

Enquanto o termo mundializacáo adquire urna conotacáo mais


política, a palavra globalizacáo assume urna conotacáo mais economis
ta. A multiplicacáo dos intercambios, a melhora das comunicacóes inter-
nacionais levam a falar de urna ¡ntegracáo dos agentes economistas
mundiais. As atividades económicas seriam repartidas entre os diversos
Estados ou regioes; o trabalho seria dividido. A uns tocariam, por exem-
plo, as tarefas de extracáo; a outros, as de transformacáo; a outros, en-
fim, as de producáo tecnológica, de coordenacáo mundial, de decisáo.
Esta visáo da globalizacáo é de inspiracáo abertamente liberal, feita, po-
rém, urna ressalva: se, de um lado, favorece a livre circulacáo dos bens e
dos capitais, de outro lado é menos propensa a aceitar a livre circulacáo
das pessoas.

Globalizacáo e Holismo

Nos recentes documentos da ONU o tema da globalizacáo apare


ce mais freqüentemente do que o da mundializacáo, todavía sem que
estes dois temas entrem em concorréncia.

A ONU incorpora as concepcóes correntes dos dois temas que


acabamos de expor. Todavía ela aproveita a onda proveniente da con-
cepcáo corrente de globalizacáo para submeter este vocábulo a urna al-
teracáo semántica. A globalizacáo é reinterpretada á luz de urna nova
visáo do mundo e do lugar do homem dentro do mundo. Esta nova visáo
traz o nome de holismo. Esta palavra significa que o mundo constituí um
todo que tem mais realidade e mais valor do que as partes que o com-
póem. Neste todo, o aparecimento do homem é apenas um avatar da
evolucáo da materia. O homem só tem realidade por efeito da sua ade-
réncia á materia e deve retornar definitivamente á materia. O destino do
homem é o de ser devotado á morte ou é desaparecer inevitavelmente
na Terra-Máe, da qual ele saiu.

O grande todo ou, para simplificar, a Terra-Máe transcende o ho


mem. Este deve dobrar-se aos imperativos da ecología ou as convenien
cias da Natureza. O homem deve aceitar nao mais emergir ácima do
mundo ambiente, deve também aceitar nao ser mais o centro do mundo.
Segundo esta filosofía, a lei natural já nao é aquela que está inscrita na
inteligencia e nocoracáodo homem, mas a lei implacável que a Nature
za impóe ao homem. A mente ecológica apresenta o homem como um
depredador e, como todas as populacóes depredadoras, a populacáo
humana deve ser contida dentro dos limites do desenvolvimento dura-
douro. Por conseguinte o homem deve nao somente aceitar sacrifícar-se

122
GLOBALIZAgÁO E ECONOMÍA POLÍTICA 27

hoje aos imperativos da máe Gaia (Térra), mas há de aceitar sacrificar-se


aos imperativos do tempo futuro.

A ONU está preparando um documento muito importante, que sis


tematiza a interpretacáo holística da globalizacao. Trata-se da Carta da
Térra, da qual já foram publicados diversos rascunhos, e cuja redacao
está em fase final. Esse documento será destinado nao apenas a com
plementar a Declaracáo Universal dos Direitos do Homem, mas, segun
do alguns pensadores, deverá suplantar o próprio Decálogo.

Eis, a título de exemplo, alguns extratos dessa Carta:

"Estamos vivendo um momento crítico da historia da Térra, o mo


mento de escolher o seu porvir... Devemos todos unir-nos para formar
urna sociedade global duradoura, fundamentada sobre o respeito a natu-
reza, os direitos humanos universais, a justiga económica e a cultura da
paz...

O género humano é pane de um vasto universo evolutivo... O meio


ambiente global, com seus recursos finitos, constituí motivo de preocupa-
gao comum para todos os povos. A protegáo da vitalidade, da diversida-
de da beleza da Térra é um dever sagrado... O crescimento surpreen-
dente da populagáo humana sobrecarregou os sistemas económicos so-
ciais...

Eis nossa escolha: formar urna sociedade global'para cuidar da


Térra e cuidar uns dos outros ou expormo-nos ao risco de nos destruir-
mos a nos mesmos e destruir a diversidade da vida...

Necessitamos urgentemente de urna visáo compartilhada referen


te aos valores básicos que oferecem um fundamento ético á comunidade
mundial emergente".

As religióes e o globalismo

Para consolidar essa visáo holística do globalismo, devem ser aplai-


nados alguns obstáculos e nao de ser preparados alguns instrumentos.

As religióes em geral e, antes do mais, a religiao católica, apare-


cem entre os obstáculos que é preciso neutralizar. Com esta finalidade
foi organizada, no quadro das celebracóes do Milenio, a Cúpula dos Lí
deres Espirituais e Religiosos; foi lancada entáo a "Iniciativa Unida das
Religióes", que conta, entre os seus objetivos, vigiar pela saúde da Térra
e pela de todos os seres vivos. Altamente influenciado pela Nova Era,
este projeto visa á criacáo de urna religiao mundial, que implicaría, para
qualquer outra religiao, a proibicáo de fazer proselitismo. Segundo a ONU,
a globalizacao nao deve afetar apenas as esferas da política, da econo
mía e do direito; ela deve compreender a alma global. Representando a

123
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

Santa Sé, o Cardeal Arinze nao pode assinar o documento final que igua-
lava todas as religióes entre si.

O Pacto Económico Mundial

Entre os instrumentos preparados pela ONU em vista da


globalizacáo, merece referencia o Pacto Mundial. Por ocasiáo do seu
discurso de abertura do Forum do Milenio, o sr. Kofi Annan repetiu o
convite que em 1999 ele dirigirá ao Forum Económico de Davos: propu-
nha "a adesáo a certos valores essenciais nos setores das normas de
trabalho, dos direitos do homem e do meio ambiente". O Secretario Geral
da ONU garantía que assim se reduziriam os efeitos negativos da
globalizacáo. Mais precisamente, segundo o sr. Annan, para preencher o
fosso entre o Norte e o Sul, a ONU deveria fazer um grande apelo ao
setor privado. Seria preciso obter a adesáo, a tal pacto, de elevado nú
mero de agentes económicos e sociais: Companhias, empresarios, sin
dicatos, ONG. Esse Global Compact ou Pacto Mundial seria necessário
para regrar os mercados mundiais, para alargar o acesso as tecnologías
vitáis, para distribuir a informacáo, para divulgar os cuidados de base em
materia de saúde etc. Esse Pacto já recebeu numerosos votos de apoio;
entre outros, o da Shell, o de Ted Turner, presidente da CNN, o de Bill
Gates e mesmo de diversos sindicatos internacionais.

Como se compreende, o Pacto Mundial suscita serias interroga-


coes. Pode-se contar com as grandes empresas mundiais para resolver
problemas que, há muito, elas podiam ter contribuido para resolver, se o
quísessem? A multiplicacáo dos intercambios económicos internacionais
justifica a instauracáo progressiva de urna autoridade centralizada desti
nada a reger a atividade económica mundial? De que liberdade gozaráo
ainda as organizares sindicáis se as legislacoes trabalhistas, incorpo
radas ao direito internacional, teráo que se submeter aos imperativos
económicos globais? De que poder de intervencáo gozaráo os governos
dos Estados soberanos para intervir em nome da justica ñas questóes
económicas e sociais? Mais grave ainda: visto que a ONU corre sempre
o risco da falencia, ela pode tornar-se vítima de urna OPA da parte de um
consorcio de grandes empresas mundiais.

Um Projeto Político apoiado pelo Direito

Contudo é no plano político e jurídico que o projeto da ONU de


globalizacáo se torna mais inquietante. Na medida em que, como vimos,
a ONU, influenciada pela Nova Era, professa urna visáo materialista, es-
tritamente evolucionista do homem, ela desativa necessariamente a con-
cepgáo realista do homem que está subjacente á Declaracáo de 1948.
Segundo essa visáo materialista, o homem, pura materia, é incapaz de
dizer o que quer que seja de verdadeiro sobre si mesmo e sobre o senti-

124
GLOBALIZACÁO E ECONOMÍA POLÍTICA 29

do da vida. É reduzido ao agnosticismo de principios e ao ceticismo. Os


por qués? nao tém sentido; só ¡mportam os como.

A Declaracáo de 1948 apresentava a originalidade de fundamentar


as novas relacóes internacionais sobre a extensáo universal dos direitos
do homem. Tal devia ser o fundamento da paz e do desenvolvimento. Tal
devia ser a base que legitimaria a existencia da ONU e justificaría a sua
missáo. A ordem mundial devia ser edificada sobre verdades fundamen
táis reconhecidas por todos, protegidas e promovidas progressivamente
por todos os Estados.

A ONU de nossos dias desativou essas referencias fundamentáis.


Hoje os direitos do homem já nao sao baseados sobre urna verdade que
se imponha a todos e seja livremente reconhecida por todos, a saber: a
igual dignidade de todos os homens. Doravante os direitos do homem
sao o resultado de procedimentos consensuáis. Visto que nao somos
capazes - dizem - de ter acesso a urna verdade sólida a respeito do
homem e qué urna tal verdade nao é acessível ou nao existe, é preciso
que nos ponhamos de acordó e decidamos, por um ato da vontade ape
nas, o que é um comportamento correto, pois a necessidade de agir nos
pressiona. Todavía nao decidiremos referindo-nos todos as exigencias
de valores que se nos imponham táo somente pela forca de sua verdade.
Vamos iniciar um procedimento de discussáo e, após ter ouvido a opiniáo
de cada um, vamos resolver, vamos tomar urna decisao. Tal decisáo será
considerada correta, porque será o resultado do procedimento consensual.

Os "novos direitos do homem", segundo a ONU de nossos dias sao


derivados de procedímentos consensuáis que podem ser revistos indefi
nidamente; já nao sao a expressáo de urna verdade referente ao homem,
mas sao a expressáo da vontade daqueles que decidem. Doravante, ao
cabo de um procedimento consensual, qualquer tipo de comportamento
poderá ser apresentado como "novo direito" do homem; direito as diver
sas modalidades de uniáo sexual, direito de repudiar, direito ao lar
monoparental, á eutanasia-ficando a expectativa do direito ao infanticidio,
á eliminacáo dos deficientes físicos e mentáis, aos programas de
eugenia... Eis a razáo pela qual, ñas assembléias internacionais organi
zadas pela ONU, os funcionarios desta se aplicam com todo o seu talen
to a chegar a um consentimento. Com efeito; urna vez atingido, o con-
sentimento é aproveitado para fazer adotar convencóes internacionais
que adquirem forca de leí nos Estados que as ratificaram.

Sistema de Direito Internacional Positivo

Tal é o nó dos problemas colocados pela globalizacáo segundo a


ONU. Por suas convencóes ou por seus tratados normativos, a ONU está

125
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 47B/2002

erguendo um sistema de direito internacional meramente positivo1, que


leva a marca de Hans Kelsen. Observa-se mais e mais urna tendencia
fundamental: as normas dos direitos estatais sao válidas táo somente se
convalidadas pelo direito supra-estatal. Como Kelsen havia antecipado
na sua célebre obra Théorie Puré, os poderes da ONU se concentram
de forma piramidal. O direito internacional meramente positivo, despoja
do de qualquer referencia á Declaracáo de 1948, é o instrumento utiliza
do pela ONU para se constituir num Super-Estado.

Um Tribunal Penal Internacional

Controlando o direito, colocando-se mesmo de modo definitivo como


a fonte do direito e podendo verificar a qualquer momento se esse direito
é respeitado pelas instancias executivas, a ONU entroniza um sistema
de Pensamento Único. Ela institui para si um tribunal á medida do seu
apetite de poder. Em conseqüéncia, crimes contra "os novos direitos" do
homem poderiam ser julgados pela Corte Penal Internacional fundada
em Roma no ano de 1998. Por exemplo, na medida em que o aborto nao
for legalizado em tal ou tal Estado, esse Estado poderá ser excluido da
"sociedade global"; na medida em que um grupo religioso se opuser ao
homossexualismo, poderá ser condenado pela Corte Penal Internacional
por atentar contra "os novos direitos do homem".

O Governo Global

Por conseguinte estamos diante de um projeto gigantesco, que tem


a ambicao de realizar a utopia de Kelsen, visando a "legitimar" e fundar
um Governo Mundial único, do qual as agencias da ONU poderiam tor-
nar-se os Ministerios. É urgente - dizem - criar urna nova ordem mundi
al, política e legal, e faz-se necessário apressar a procura de fundos para
realizar esse projeto.

A idéia de um Governo global já fora objeto de um inciso no Rela-


tório do PNUD em 1994. Esse texto, redigido a pedido do PNUD por Jan
Tinberge Premio Nobel de Economía (1969), tem todas as característi
cas de um Manifestó encomendado pela ONU e para a ONU. Eis um
extrato desse documento:

"Os problemas da humanidade nao podem ser resolvidos pelos


Governos nacionais. Precisamos de um Governo mundial.

A melhor maneta de chegar a tanto é reforgar o sistema das Na-


góes Unidas. Em alguns casos, isto significa que é preciso mudar o papel

1 Direito positivo é o que depende únicamente da vontade do legislador,


ao passo que o Direito natural está impregnado na consciéncia de todo
homem (N.d.R.).

126
GLOBALIZAQÁO E ECONOMÍA POLÍTICA 32

das Agencias das Nagóes Unidas, para que de consultivas se tornem


executivas. Assim a FAO se tornaría o Ministerio Mundial da Agricultura,
a UNIDO se tornaría o Ministerio Mundial da Industria, e o ILO sería o
Ministerio Mundial das Questóes Sociais.

Em outros casos far-se-iam necessárias instituigóes totalmente


novas. Seríam, por exemplo, urna Policía Mundial permanente, que po-
dería citar qualquer nagáo para comparecer diante da Corte Internacio
nal de Justiga ou diante de outras instancias especialmente criadas. Se
as nagóes nao respeitassem as decisóes da Corte, sería válido aplicar-
Ihes sangóes, tanto militares como nao militares".

Sem dúvida, enquanto existem e cumprem bem o seu papel, as


nacoes particulares protegem os cidadáos e promovem o respeito aos
direitos do hómem e para tanto utilizam os meios apropriados. Atualmente,
nos ambientes da ONU a destruicáo das nacóes aparece como um obje
tivo a ser considerado e procura-se sufocar definitivamente a concepcáo
antropocéntrica dos direitos do homem. Extinguindo esse corpo interme
diario que é o Estado nacional, extinguir-se-ia a subsidiariedade, pois se
ergueria um Estado mundial centralizado. O caminho estaría entáo aber-
to para a vinda de tecnocratas globalizantes e outros aspirantes ao Go-
verno mundial.

Reafirmar o Principio de Subsidiariedade

Como se vé, o direito internacional positivo é o instrumento utiliza


do pela ONU para organizar a sociedade mundial global. Sob a cobertura
de globalizacao, ela organiza, para seu proveito, o "Governo" mundial.
Sob a cobertura de "responsabilidade partilhada", ela convida os Esta
dos a limitar sua justa soberania. A ONU globaliza erguendo-se cada vez
mais como Super-Estado mundial. Ela tende a erguer todas as dimen-
sóes da vida e da atividade humanas, realizando um controle cada vez
mais centralizado da informacao, da ciencia e das técnicas, da alimenta
do, da vida humana, da saúde e das populacoes, dos recursos do solo e
do subsolo, do comercio mundial e das organizacoes sindicáis, como
também da política do direito. Exaltando o culto neo-pagáo da Terra-Máe,
ela priva o homem do lugar central que Ihe é reconhecido pelas .grandes
tradicóes filosóficas, jurídicas, políticas e religiosas.

Frente a esse globalismo baseado na areia, é preciso reafirmar a


necessidade e a urgencia de fundar a sociedade internacional sobre o
reconhecimento da igual dignidade de todos os homens. O sistema jurí
dico que predomina na ONU, faz que essa reconstrucao universal seja
estritamente impossível, já que o direito e os direitos do homem sao ai
tidos como procedentes da vontade exclusiva dos legisladores. É preci
so, pois, reafirmar a primazia do principio de subsidiariedade em seu teor

127
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

correto. Isto significa que as organizacóes internacionais nao devem des


pojar os Estados e os corpos intermediarios das suas competencias na-
turais e dos seus direitos, mas, ao contrario, hio de ajudá-los a exercé-
los.

Quanto á Igreja, ela só pode insurgir-se contra essa globalizacáo


que implica urna concentracáo de poderes de índole totalitaria. Frente a
impossível "coesáo, globalizacáo" que a ONU procura impor como con-
seqüéncia de um consenso sempre precario, a Igreja tem de aparecer, á
semelhanca do Cristo, como um sinal de divisáo; cf. Le 2, 33s; 12, 51 -53;
21, 12-19; Mt 1, 34-36, 23, 31 s; Jo 3, 22-4, 5. Ela nao pode apoiar nem
urna "unidade" nem urna "universalidade" dependentes da vontade
subjetiva dos individuos ou impostas por alguma instancia pública ou
privada. Diante da emergencia de um novo Leviatá, nao podemos per
manecer nem mudos nem ¡nativos nem indiferentes.

Violencia e Religiáo, organizagáo de María Clara Lucchetti


Bingemer, Ed. PUC-Rio e Loyola, 2001, 140 x 205 mm, 296 pp.

O livro, devido a diversos autores sob a supervisáo da Profe María


Clara Bingemer, estuda o Cristianismo, o Islamismo e o Judaismo e suas
relagóes com o emprego da violencia. A maior parte da obra é dedicada
á análise das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, assim como a
historia da Igreja. Os respectivos autores revelam equilibrio no seu modo
de considerar a conduta dos antepassados; há de ser vista no seu con
texto histórico próprio; o regime de Crístandade, vigente desde o sáculo
IV, dava a conceber toda lesao da verdadeira fé como um atentado á boa
ordem pública, cujo guardiao era o Estado. Daio empenho da Igreja e do
poder civil no combate as heresias mediante a Inquisigáo. As Cruzadas
sao explicadas de modo semelhante: nao se podía entender na Idade
Media que a Térra Santa estivesse sob o dominio de nao cristáos. Hou-
ve, pois, entre os cristáos a "guerra santa"motivada pelas premissas dos
antepassados, embora o Novo Testamento apregoe a paz. O islamismo
pratica o jihad baseado em outros principios, ou seja, nos dizeres e no
comportamento do próprio Maomé. Quanto ao judaismo, também conhe-
ceu seus momentos de guerra santa, como se deu no caso dos Macabeus
(séc. II a. C.) e, posteriormente (séc. I d.C), entre os zelotes e os sicarios,
que lutavam por suas tradigóes religiosas contra a invasao dos pagaos.

O livro é interessante, bem documentado e de estilo claro.

128
Fato inédito e significativo:

BEM-AVENTURADO CASAL

Em síntese: Aos 21/10/01 o Papa Joáo Paulo II beatificou o casal


Luigi e María Beltrame Quattrocchi, esposos e país que souberam levar
"urna vida ordinaria de maneira extraordinaria". Este éoprimeiro caso em
que um casal, como casal, é beatificado. O Santo Padre aproveitou a
ocasiáo para enfatizar que também na vida conjugal é possível chegar á
santidade e exortou os casáis católicos a preservar os valores da familia,
ajudando assim a Igreja a cumprir sua missáo.

Aos 20/10/01 deu-se em Roma um fato inédito: o Santo Padre pro-


clamou bem-aventurados {etapa ¡mediatamente anterior á canonizacáo)
Luigi e Maria Beltrame Quattrocchi, casal que soube "viver a vida ordina
ria de maneira extraordinaria". O Papa proferiu entao urna homilía em
que enfatizava a possibilidade de chegar á santidade também na vida
matrimonial; exortou outrossim os casáis católicos a assumir sua voca-
gao conjugal com fortaleza de ánimo, nao hesitando diante das dificulda-
des do dia-a-dia... - Alias, é de notar que também os pais de Santa
Teresinha de Lisieux estao em processo de Beatificacáo.

Eis, na íntegra, o texto da homilía de Joáo Paulo II:

1. "Mas quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a


térra?" (Le 18, 8).

A pergunta, com a qual Jesús concluí a parábola sobre a necessi-


dade de rezar "sempre, sem desfalecer" (Le 18, 1), desperta a nossa
alma. É urna pergunta que nao é seguida de urna resposta: de fato, ela
pretende interpelar todas as pessoas, comunidades eclesiais e geracoes
humanas. Somos nos que devemos responder. Cristo deseja recordar
nos que a existencia do homem está orientada para o encontró com Deus;
mas, precisamente nesta perspectiva, ele pergunta se quando voltar en
contrará almas preparadas para o receber, a fím de entrarem com Ele na
casa do Pai. Por isto, diz a todos: "Vigiai, pois, porque nao sabéis o dia
nem a hora" (Mt 25, 13).

Queridos Irmáos e Irmas! Caríssimas familias! Encontramo-nos aqui


hoje para a beatificacio de dois esposos: Luís e Maria Beltrame
Quattrocchi. Gom este solene ato eclesial desejamos realfar um exem-

129
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

pío de resposta afirmativa á pergunta de Cristo. A resposta é dada por


dois esposos, que viveram em Roma na primeira metade do século vinte,
um século no qual a fé em Cristo foi posta a dura prova. Também naque-
les anos difíceis o casal Luís e María mantiveram acesa a chama da fé -
lumen Christi - e transmitiram-na aos seus quatro filhos, dos quais tres
estáo aqui hoje nesta Basílica. Caríssimos, a vossa máe escrevia o se-
guinte acerca de vos: "Educamo-los na fé, para que conhecessem Deus
e o amassem" (L'ordito e la trama, pág. 9). Mas os vossos pais transmití-
ram aquela chama viva também aos amigos, aos conhecidos, aos cole
gas... E agora do Céu, oferecem-na a toda a Igreja.

Juntamente com os parentes e amigos dos novos Beatos, saúdo


as Autoridades religiosas que participam nesta celebracáo, comecando
pelo Cardeal Camilo Ruiní e pelos outros Senhores Cardeais, Arcebis-
pos e Bíspos presentes. Saúdo também as Autoridades civis, entre as quais
sobressaem o Presidente da República italiana e a Rainha da Bélgica.

2. Nao podía haver urna ocasiáo mais feliz e significativa do que a


de hoje para celebrar os vinte anos da Exortacáo Apostólica "Familiarís
consortio". Este documento, que ainda hoje é de grande atualidade, além
de ilustrar o valor do matrimonio e as tarefas da familia, convida a um
particular empenho no caminho de santidade ao qual os esposos sao
chamados devido á graca sacramental, que "nao se esgota na celebra-
cáo do matrimonio, mas acompanha os cónjuges ao longo de toda a
existencia" (Familiarís consortio, 56). A beleza deste caminho resplande
ce no testemunho dos beatos Luís e María, expressao exemplar do povo
italiano, que muíto deve ao matrimonio e á familia sobre ele fundada.

Estes cónjuges víveram, á luz do Evangelho e com grande intensí-


dade humana, o amor conjugal e o servico á vida. Assumiram com res-
ponsabilidade total a tarefa de colaborar com Deus na procriacao, dedi-
cando-se generosamente aos filhos a fim de os educar, guiar e orientar
na descoberta do seu designio de amor. Deste terreno espiritual táo fértil
surgiram vocacóes para o sacerdocio e para a vida consagrada, que de-
monstram como o matrimonio e a vírgindade, a partir do comum
enraizamento no amor esponsal do Senhor, estáo intimamente relacio
nados e se ¡lumínam reciprocamente.

Inspirando-se na palavra de Deus e no testemunho dos Santos, os


beatos Esposos viveram urna vida ordinaria de maneira extraordinaria.
Entre as alegrías e preocupacóes de urna familia normal, souberam rea
lizar urna existencia extraordinariamente rica de espiritualidade. No cen
tro, a Eucaristía quotidiana á qual se acrescentava a devocáo filial á Vír-
gem María, invocada no Rosario recitado todas as noites, e a referencia
aos sabios conselheiros espirituaís. Desta forma, souberam acompanhar

130
BEM-AVENTURADO CASAL 35

os filhos no discemimento vocacional, treinando-os a avahar tudo come-


cando "do teto para cima", como gostavam de dizer muitas vezes com
simpatía.

3. A riqueza de fé e de amor dos cónjuges Luís e Maria Beltrame


Quattrocchi é urna demonstracáo viva de quanto o Concilio Vaticano II
afirmou sobre a vocagáo de todos os fiéis á santidade, especificando que
os cónjuges procuram este objetivo "propriam viam sequentes, seguindo
o próprio caminho" (Lumen gentium, 41). Esta clara indicacáo do Conci
lio tem hoje a sua realizacáo prática com a primeira beatificacáo de um
casal: para eles a fidelidade ao Evangelho e a heroicidade das virtudes
foram relevadas a partir da sua existencia como cónjuges e como pais.

Na sua vida, como na de tantos outros casáis que todos os dias


desempenham zelosamente as suas tarefas de pais, podemos contem
plar a revelacao sacramental do amor pela Igreja. De fato, os esposos
"cumprindo a sua missáo conjugal e familiar, com a forca deste sacra
mento, penetrados do espirito de Cristo, que impregna toda a sua vida de
fé, de esperanca e de caridade, chegam gradualmente á sua perfeicáo
pessoal e á sua mutua santificacáo e, assim, em comum, contribuem
para a gloria de Deus" (Gaudium etspes, 48).

Queridas familias, temos hoje urna particular confirmacáo de que o


caminho de santidade percorrido em conjunto, como casal, é possível, é
belo, é extraordinariamente fecundo e fundamental para o bem da fami
lia, da Igreja e da sociedade.

Isto convida-nos a invocar o Senhor, para que sejam cada vez mais
numerosos os casáis capazes de fazer transparecer, na santidade da
sua vida, o "grande misterio" do amor conjugal, que tem origem na cria-
cáo e se realiza na uniáo de Cristo com a Igreja (cf. Ef 5, 22-33).

4. Como qualquer caminho de santificacáo, também o vosso, que


ridos esposos, nao é fácil. Enfrentáis todos os dias dificuldades e provas
para serdes fiéis á vossa vocacáo, cultivar a harmonía conjugal e famili
ar, cumprir a missáo de pais e participar da vida social.

Sabei procurar na palavra de Deus a resposta as numerosas inter-


rogacóes que vos sao apresentadas pela vida quotidiana. Sao Paulo, na
segunda Leitura, recordou-nos que "toda a Escritura é divinamente inspi
rada e útil para ensinar, para convencer, para corrigir e instruir na justica"
(2 Tm 3,16). Amparados pela forca desta palavra, podereis insistir juntos
com os filhos "oportuna e inoportunamente" (2 Tm 4, 2).

A vida conjugal e familiar pode conhecer também momentos de


desorientacáo. Sabemos quantas familias sao tentadas neste caso pelo

131
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

desencorajamento. Pensó, sobretudo, em todos os que vivem o drama


da separacáo; pensó nos que devem enfrentar a doenca e em quem
sofre o desaparecimento prematuro do cónjuge ou de um filho. Também
nestas situacóes se pode dar um grande testemunho de fidelidade no
amor, tornado ainda mais significativo pela purificacáo através da passa-
gem pelo crisol do sofrimento.

5. Confio todas as familias provadas a máo providencial de Deus e


á amorosa solicitude de Maria, sublime modelo de esposa e máe, que
experimentou bem o sofrimento e a canseira no seguimento de Cristo até
aos pés da cruz. Caríssimos esposos, nunca vos deixeis vencer pelo
desalentó: a grapa do Sacramento ampara-vos e ajuda-vos a elevar con
tinuamente os bracos para o céu como Moisés, do que nos falou a pri-
meira Leitura {cf. Ex 17, 11-12). A Igreja acompanha-vos e ajuda-vos
com a sua oracáo, sobretudo nos momentos difíceis.

Ao mesmo tempo, peco a todas as familias que, por sua vez, am-
parem os bracos da Igreja, para que nunca deixe de realizar a sua mis-
sao de interceder, confortar, orientar e encorajar. Agradeco-vos, queridas
familias, o apoio que me dais também a mim no meu servico á Igreja e á
humanidade. Rezo ao Senhor todos os dias para que ajude as numero
sas familias feridas pela miseria e pela injusticia e faca crescer a civiliza-
cao do amor.

6. Caríssimos, a Igreja confia em vos, para enfrentar os desafios


que a esperam neste novo milenio. Entre os caminhos da sua missáo, "a
familia é a primeira e a mais importante" (Carta as Familias, 2); a Igreja
conta com ela, chamando-a a ser "um verdadeiro sujeito de evangelizacáo
e de apostolado" (Ibid., 16).

Tenho certeza de que estaréis á altura da tarefa que vos espera,


em todos os lugares e circunstancias. Encorajo-vos, queridos cónjuges,
a assumir plenamente o vosso papel e as vossas responsabilidades.
Renovai em vos mesmos o impulso missionário, fazendo das vossas ca
sas lugares privilegiados para o anuncio e o acolhimento do Evangelho,
num clima de oracáo e praticando concretamente a solidariedade crista.

O Espirito Santo, que encheu o coracáo de Maria para que, na


plenitude dos tempos, concebesse o Verbo da vida e o recebesse junta
mente com o seu esposo José, vos ampare e vos fortaleca. Ele encha os
vossos corac5es de alegría e de paz, para que saibais louvar todos os
dias o Pai celeste, do qual provém todas as gracas e béncáos.

Amém!

132
Objecoes á fé:

RESPOSTAS A UM ATEU

Em sintese: Vía internet PR recebeu 36 perguntas de um ateu.


Seguem-se, neste artigo, as respostas baseadas na razao natural e na
historia, pois a própria razao leva a Deus e a historia bem entendida nao
constituí argumento decisivo contra a fé religiosa.
* * *

A Sociedade da Térra Redonda tem divulgado pela internet urna


serie de 36 perguntas de um ateu dirigidas a quem tem fé. Propoe assim
um desafio, ao qual varios internautastém respondido. Proporemos abaixo
nossas respostas em termos sucintos e táo claros quanto possível. Visto
que algumas perguntas se repetem de algum modo, agrupá-las-emos
numa única questáo.

1. A existencia de Deus

1) Como vocé definiría Deus ou deuses, e por que vocé está


táo convencido de que existem um ou mais?

2) Se tudo necessita de um Criador, entáo quem ou o que criou


Deus ou os deuses?

3) Como pode algo que nao pode ser descrito, ser dito que
existe?

Resposta: Nao se diga que Deus nao pode ser descrito. Ele é
atingido pela razáo, anteriormente a qualquer ato de fé. Com efeito; Deus
é o Ser Absoluto, Independente, do qual todos os demais seres depen-
dem. Esta verdade pode ser ¡lustrada pela imagem de um trem: cada
vagáo é puxado por outro, do qual recebe seu movimento; esses vagóes
sao movidos e, por sua vez, moventes; esse conjunto, porém, só funcio
na se há locomotiva ou um movente nao movido, independente, que tem
em si mesmo a razáo do seu movimento. - Assim é Deus: Movente nao
movido, necessária explicacao de todo o movimento ou de todo ser que
há no mundo.

Também se prova a existencia de Deus a partir da considerado do


planeta Térra e do universo. Todo este conjunto - makrokosmos e
mikrokosmos - supoe urna Inteligencia que o tenha concebido e o tenha
tirado do nada. Os cientistas hoje, com o progresso da ciencia, tém mais
fé do que outrora. Alias, já dizia Pasteur: "A pouca ciencia afasta de Deus;

133
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

a muita ciencia leva a Deus". O acaso nada explica, este universo táo
complexo e ordenado nao pode ser produto do acaso cegó.

Destas premissas segue-se que so pode e deve haver um Deus; o


Absoluto, o Infinitamente Perfeito nao se pode multiplicar; multiplicado,
deixará de ser infinito. Mais: também nao pode ser criado; por definicáo
racional, Deus é o Criador nao criado: o Criador de Deus é que seria
Deus.

A existencia do mal no mundo nao depóe contra a existencia de


Deus, como será dito adiante. O mal físico e o mal moral sao carencias
de ser, que nao se devem ao Criador (por definicao, Deus nao pode ser
Criador imperfeito), mas as criaturas, que podem agir de maneira falha
ou lacunosa.

2. Militas religióes

1) Já que existem incontáveis religióes no mundo afirmando


ser a única religiáo verdadeira, por que vocé pensa que a sua é mais
verdadeira do que a deles?

2) Por que Deus permite que todas essas religióes falsas exis-
tam?

Resposta: A fé nao é um ato cegó e irracional: ao contrario, ela


tem que se basear em: credenciais, que a razao, com seu espirito crítico,
examina para averiguar a autenticidade ou nao de urna determinada cor-
rente religiosa. - Ora o Cristianismo tem suas credenciais muito signifi
cativas, como passamos a considerar:

a) a ressurreicáo de Cristo, que, conforme Sao Paulo (1Cor 15,


14.17), é a pedra de quina da fé crista. Na época dos Apostólos, ninguém
pode provar que o anuncio da ressurreicao era falso, embora os judeus
muito o desejassem; conforme Mt 28,11-15, as autoridades judaicas ofe-
receram dinheiro aos guardas do sepulcro para que estes dissessem ter
sido roubado o cadáver de Jesús enquanto dormiam; queriam assim va-
ler-se do testemunho de guardas adormecidos! Os Apostólos apregoa-
vam a ressurreicáo de Jesús sem que pudessem ser tidos como mentiro
sos, a tal ponto que Gamaliel disse ao Sinedrio (Conselho) dos judeus:

"Agora, digo-vos, deixai de ocupar-vos com esses homens. Soltai-


os, pois, se o seu intento ou a sua obra provém dos homens, destruir-se-
á por si mesma; se vem de Deus, porém, nao podereis destrui-los. E nao
aconteca que os encontréis movendo guerra a Deus" (At 5, 38s).

Ora nenhum fundador de religiáo ressuscitou, como, de fato, Jesús


ressuscitou. A ressurreicáo de Cristo é o sinete que Deus colocou sobre

134
RESPOSTAS A UM ATEU 39

a sua pregado para confirmá-la e autenticá-la. Conscientes do significa


do de tal sinete, muitos cristáos morreram mártires em vinte séculos de
Cristianismo; ora ninguém morre por fidelidade a urna mentira ou por
urna alucinacáo, já que cedo ou tarde esta é desmascarada.

b) A mensagem crista é altamente valiosa; corresponde aos anseios


mais espontáneos do ser humano a ponto que o apologeta Tertuliano (f
220 aproximadamente) podia dizer: "Ó alma humana naturalmente cris
ta!". Daí a rápida propagacao do Evangelho no Imperio Romano perse
guidor; o sangue dos mártires era sementé de novos cristáos (Tertuliano).
- Alias, a mensagem crista aparece como algo que a razáo humana nao
ousaria "inventar", por si mesma; com efeito, a filosofia grega conheceu a
Divindade, mas urna Divindade que nao responde aos anseios do ho-
mem, porque o homem em sua finitude nao Ihe interessa (Platao) ou
nem sequer conhece os anseios do homem por ser perfeita (Aristóteles).
Ao contrario, em Sao Joáo se lé nao somente que Deus é amor {1Jo 4,
16), mas é o Amor que primeiro amou o homem, amou gratuitamente o
homem rebelde e pecador:

Uo 4,19: "Ele nos amou primeiro".

Rm 5, 6-8: "Foi quando aínda éramos fráeos que Cristo, no tempo


marcado, morreu pelos impíos. Difícilmente alguém dá a vida por um jus
to; por um homem de bem talvez haja alguém que se disponha a morrer.
Mas Deus demonstrou seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter
morrido por nos quando éramos aínda pecadores".

Realmente os filósofos jamáis conceberam tal conceito de Deus; a


tendencia do espirito humano é imaginar Deus como um grande ban-
queiro, ao qual o homem dá para poder receber.

Ora nao se encontram credenciais táo eloqüentes em algum Credo


nao cristáo; na verdade, o budismo é panteísta (Deus, o mundo e o ho
mem seriam urna única realidade) e o isla fere a lei natural, que é a lei de
Deus, admitindo a poligamia. Quanto ao judaismo, é a expectativa do
Messias, que comprovadamente já veio.

Deus permite que haja tantas religióes, porque há um senso religi


oso inato em todo homem, ficando a cada qual a liberdade de o desen
volver subjetivamente, segundo Ihe pareca melhor. Daí diversos Credos,
que nao podem ser equivalentes entre si, pois há urna só verdade e urna
só Ética natural, ditada pela lei natural impregnada em todo homem.
3. O mal no mundo

1) Se tudo é produto do grande projeto de um arquiteto


onisciente e benevolente, por que a historia da vida é um registro de

135
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

horrível sofrimento, desperdicio crasso e falhas miseráveis? Por que


esse Deus passa bilhóes de anos de tal carnificina sem ainda ter
alcancado seu objetivo?

2) Por que Deus interveio tantas vezes nos assuntos durante a


antiguidade (de acordó com a Biblia) e nada durante o Holocausto
da segunda guerra mundial?

Resposta: Notemos algo que geralmente escapa á percepcáo dos


homens: o sofrimento é ¡nerente á perfeicao das criaturas. Sim; percor-
rendo a escala dos seres, verificamos que os minerais nao sofrem (a
pedra pode ser talhada e retalhada sem sofrer). Os vegetáis já reagem a
agressóes, restaurando-se quando lesados. Os animáis ¡nfra-humanos
sofrem, chorando e lamentando-se. O ser humano sofre muito mais ain
da ou sofre duplamente (no plano físico e no plano moral); quanto mais
urna pessoa é nobre, tanto mais ela sofre; um individuo tarado sofre muito
menos do que urna pessoa fina e educada, pois esta vé e lamenta a
distancia entre o bem que deveria existir e a desordem que de fato ocorre. -
Além deste fator natural, deve-se dizer que o próprio homem promove o
sofrimento mediante seus vicios e crimes. Em suma, toda criatura é neces-
sariamente limitada e falível, incorrendo assim em desordem física e moral.

E qual é o papel de Deus diante do mal?

- Ele nao quer fazer um mundo de marionetes ou artificial, em que


toda a atividade das criaturas seja policialmente controlada. Ao contrario,
Deus deixa que cada qual proceda de acordó com sua índole natural,
provocando secas, endientes, incendios, crimes, guerras...: mas, como
diz S. Agostinho, Ele nunca permitiría o mal se nao tivesse recursos para
tirar do mal bens ainda maiores. Este designio da Providencia já foi reco-
nhecido pelos gregos antes de Cristo, que o formularam dizendo pathos
mathos {sofrimento é escola ou aprendizagem).

O próprio Cristo no Evangelho prevé a existencia do mal permitido


por Deus até o fim dos tempos na parábola do joio e do trigo (Mt 13, 24-
30): o senhor do campo nao quer que se arranque o joio antes da consu-
macáo da historia, apesar da impaciencia dos servidores, que deseja-
vam um campo limpo, somente com trigo.

Deus nao interveio na segunda guerra mundial como interveío na


historia do Antigo Testamento, porque o povo israelita era um povo rude,
portador da esperanca messiánica para o mundo inteiro; precisava de
protecáo especial, que nao se repete porque o contexto histórico atual é
outro; a humanidade é adulta. Acontece, porém, que Deus nunca permi
te sejamos tentados ácima das nossas torcas, mas dá a graca para su
perar a provacáo a quem é tentado ou provado; cf. 1Cor 10, 13.

136
RESPOSTAS A UM ATEU 41

Em Is 45, 7 está dito: "Eu formo a luz e crio as trevas, asseguro o


bem-estar e crio a desgraca; sim, eu, o Senhor, faco tudo isto". - Ora
pelo contexto vé-se que o Senhor se apresenta como autor de tudo e,
para tanto, enumera casos extremos como trevas e desgracas, que nao
podem ser criadas, mas sao deficiencias de luz e de bem, cuja causa só
podem ser as criaturas.

Deus jamáis abandona seus filhos, mesmo quando parece ausen


te. A propósito vém as palavras da epístola aos Hebreus:

"É para a vossa educagáo que sofreís. Deus vos trata como filhos.
Qual é, com efeito, o filho cujo pai nao o educa? Se estáis privados da
educagáo da qual todos participam, entao sois bastardos e nao filhos...
Toda educagáo, no momento, nao parece motivo de alegría, mas de tris
teza. Depois produz naqueles que assim foram exercitados um fruto de
paz e de justiga" (12, 7. 11).

Estas ponderacoes já insinuam a resposta á seguinte pergunta:

3) Por que tantas pessoas religiosas agradecem a Deus quan


do elas sobrevivem a desastres, mas nao ficam com raiva dele por
ter, em primeiro lugar, causado o desastre?

Em resposta dizemos:

a) Deus nao causa desastres. Por definicáo filosófica, Deus é a


auma perfeicáo; um Deus que comete o mal, já nao é Deus. Os males
provém da limitacáo das criaturas.

b) Quem conhece a Deus, sabe que as desgracas tém urna finali-


dade providencial e, por isto, nao concebe raiva de Deus.

4. O Deus do Antigo Testamento

1) O Deus brutal, vingativo e sedento de sangue, como mos


trado no Velho Testamento, aínda é um Deus que ama?

2) Como pode o mesmo Deus que, de acordó com o Velho Tes


tamento, matou todos na Térra, exceto quatro pessoas, ser conside
rado qualquer coisa que nao seja mau?

Resposta: O Deus do Antigo Testamento é o pedagogo de um


povo rude, de dura cerviz. Israel, em sua rudez, só entendería as inter-
vencoes drásticas do Senhor Deus; daí as punicóes educativas, nao vin-
gativas. Nao se diga que Deus era sedento de sangue; o ritual do Templo
previa a imolacao de vítimas irracionais (nao humanas), pois estas fazi-
am as vezes do devoto que, mediante tais vítimas, exprimía sua consa-
gracáo a Deus. Estes costumes primitivos deviam ceder ás disposicoes
do Novo Testamento, destinadas a povos mais maduros e adultos.

137
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

Em parte alguma da Biblia lé-se que "Deus matou a todos, com


excecáo de quatro pessoas". O autor da pergunta deve ter pensado no
diluvio (Gn 6-9), quando morreu a populacáo de urna regiáo com excecáo
de oito pessoas: Noé e sua esposa, seus tres filhos e as respectivas
esposas. - Hoje em dia sabe-se que o diluvio bíblico nao foi universal ou
nao recobriu a Térra inteira; para recobrir o monte Everest, com seus
8.848m de altura, deveria haver urna carnada de agua sobre a Térra que
produziria urna catástrofe cósmica. A morte das vítimas do diluvio nao
significa a condenacáo postuma das mesmas; Sao Pedro, em 1 Pd 3, 20;
supóe que muitos se tenham arrependido antes de morrer e assim hajam
logrado a salvacáo.

É interessante observar que as intervencóes drásticas de Deus na


historia do povo de Israel nao provocavam a ira dos fiéis, mas o reconhe-
cimento do pecado. Existem mesmo no Antigo Testamento passagens
em que o autor sagrado exprime ardoso amor a Deus; principalmente o
salterio as contém; cf. SI 42, 2; 63, 2; 17, 2; 73, 25s... A pedagogía divina
era reconhecida como expressáo do amor paterno do Senhor; cf. Esd 10,
10-15; Ne 9, 5-37; Dn 3, 24-50...

5. A salvacáo dos ateus

Se um ateu ou urna atéia vive decente e moral, por que um


Deus amoroso e compassivo se preocupa com acreditarmos ou nao
acreditarmos nele/nela/nisso?

Resposta: Ninguém vive decente e moralmente bem se nao por


graca de Deus. É Ele quem se entrega mesmo a quem nele nao eré.
Deus nos fez para si, e nao pode deixar de querer bem as suas criaturas,
dando-lhes o necessário para chegarem ao seu Fim Supremo. - Alias, é
de crer que, se algum ateu vive corretamente, cedo ou tarde vira a desco-
brir a Deus e ter fé. As virtudes humanas (sinceridade, fidelidade, lealda-
de, senso de responsabilidade...) sao o ponto de partida para que al-
guém reconheca Deus. Um ateu sincero e amigo da verdade está no
caminho que leva a Deus.

6. Fé e Razáo

1) Se algo nao é racional, deve-se de qualquer jeito acreditar


nesse algo?

2) Devemos confiar em alguma religiáo que exige que eleve


mos nossa fé ácima da razáo?

Resposta: O que nao é racional, pode ser ou absurdo, irracional


ou trans-racional, isto é, transcendente em relacao á razáo. No primeiro
caso, é claro, nao se pode aceitar o absurdo (círculo quadrado, por exem-

138
RESPOSTAS A UM ATEU 43

pío). No segundo caso, a razáo esclarecida pode dizer Sim, pois ela tem
consciéncia de que a verdade nao se limita áquilo que a razáo alcanca.
Os artigos da fé nao sao irracionais, mas transracionais; estáo além do
alcance da razáo, embora tenham credenciais racionáis; nao se deve
crer as cegas; a pessoa de fé exige razóes para aceitar as proposicóes
da religiáo.

3) Por que o número de ateus e atéias ñas prisóes é


desproporcionalmente menor do que os seus números na popula-
gao geral?

Resposta: A pessoa encarcerada geralmente se despoja de so-


nhos e iiusóes; é obrigada a pensar mais seriamente no sentido da vida;
ela se aprofunda e verifica que a vida presente sem urna resposta cabal
no além é um absurdo. A verdade assim aflora mais fácilmente.

7. A Biblia

1) Se a Biblia é a palavra de Deus livre de erros, por que ela


contém erros tatuáis, como os dois relatos contraditórios da cria-
gao no Génesis?

Resposta: A finalidade da Biblia é ensinar como se vai ao céu, e


nao como vai o céu; é, pois, urna finalidade religiosa atingida mediante
relatos que obedecem as regras dos géneros literarios dos semitas. Tam-
bém nos temos nossos géneros literarios destinados a comunicar a ver
dade segundo seu modo próprio; assim a crónica, a poesía, as leis, a
carta social, a carta comercial, o boletim de meteorología... É preciso que
o leitor saiba qual o género literario que ele tem ante os olhos para nao
errar na interpretacáo do texto. Ora o mesmo ocorre com a Biblia.

Os dois relatos da criacáo pertencem a géneros literarios diferen


tes. O primeiro é um hiño litúrgico; cf. Gn 1, 1-2, 4a. Tem em vista nao a
narracáo das origens do mundo e do homem, mas a recomendacáo do
sétimo dia como dia consagrado ao Senhor pelo repouso e o culto divino;
incute também o monoteísmo e a bondade natural de tudo o que existe.
O segundo relato tem caráter sociológico; cf. Gn 2, 4b-3,24. Quer dizer
que a mulher nao é inferior ao homem, pois ela é tirada simbólicamente
da costela do homem; ele e ela estáo num plano singular, ácima de todos
os animáis e vegetáis; além disto, o segundo relato explica a origem do
mal no mundo; nao se deve ao Criador, mas ao homem, que desobede-
ceu, violando o plano de Deus.

Estes dois relatos nao contém explanacáo científica alguma; fica


ao pesquisador a tarefa de procurar descrever as origens, contanto que
afirme ter Deus criado a materia inicial.

139
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

2) Por que a Biblia nao foi escrita de forma direta, que nao
deixe dúvida sobre o que ela significa?

Respondemos: Deus quis servir-se de instrumentos humanos para


comunicar a sua mensagem; utilizou os recursos da linguagem semita,
como pela Encarnacáo assumiu um corpo de estirpe semita. Essa lin
guagem devia ser clara aos primeiros leitores e nos obriga a estudar os
idiomas antigos; só por milagre teria Deus entregue aos antigos um livro
de linguagem moderna, clara para nos, mas talvez nao clara para os
primeiros destinatarios.

3) Se a Biblia é o padráo para a moralidade, por que ela nao


proibiu a escravidáo e a guerra?

Em resposta: A Biblia narra casos de escravidáo e de guerra, mas


nem por isto as aprova. Escravidáo e guerra de conquista (nao a de defe-
sa) sao proibidas pela lei natural, impregnada no íntimo de todo homem.
Os autores sagrados referem o comportamento imperfeito de persona-
gens bíblicos, porque querem mostrar ató que ponto chegara a miseria
humana á qual Deus aplicou a sua mi seri-có relia. Deus nao quer, mas
permite as falhas humanas, porque respeita a liberdade da sua criatura,
cíente de que tem recursos para tirar do mal bens maiores, como afirma
S. Agostinho.

8. Odiar pai e máe

Nao devenios odiar nossas familias e a nos mesmos para ser-


mos bons cristios? Cf. Le 14, 26.

Resposta: A língua aramaica, que Jesús falava, nao tinha as par


tículas de comparacáo mais e menos. Conseqüentemente, para dizer
"amar mais" e "amar menos", empregava os verbos "amar1' e "odiar". Daí
as palavras de Jesús em Le 14, 26:

"Se alguém vem a mim e nao odeia seu próprio pai e sua máe, mulher,
filhos, irmáos, irmás e até a própria vida, nao pode ser meu discípulo".
Este texto quer dizer: se alguém nao ama a Jesús mais do que os
familiares e o velho homem que está em cada ser humano, nao pode ser
discípulo do Senhor. Por conseguinte nao se trata de odiar a quem quer
que seja, mas de observar a escala de valores.

9. Salvacáo

Já que a maioria das religióes prometem o paraíso a seus se


guidores e os ameacam com o inferno, pergunto: qual religiio tem o
melhor paraíso: a católica ou a evangélica? Os evangélicos afirmam
que Jesús vira para nos salvar... De que ou de quem? (Por favor,
tentem responder sem apelar para o Diabo).

140
RESPOSTAS A UM ATEU 45

Resposta: O Cristianismo promete aos fiéis a visáo de Deus face-a-


face (cf. 1Cor 13,12; 1 Jo 3, 2). Esta é, conforme Sao Paulo, "o que o olho
nao viu, o ouvido nao ouviu, o coracáo do homem jamáis percebeu" (1 Cor 2,9).
Será a plena saciedade de todas as legítimas aspiracdes de todo homem.

Jesús veio salvar-nos da morte acarretada pelo pecado dos primei-


ros pais (cf. Gn 3,17-19). A morte assumida por Jesús tornou-se Páscoa
ou passagem para urna vida nova mediante a ressurreicao dos corpos.

10. Misticismo

A aceitacáo do misticismo religioso, da magia e dos milagres é


consistente com nossa compreensáo de boa saúde mental?

Resposta: Procederemos por partes:

- a magia é a pretensáo de possuir poderes divinos ou de forcar a


Divindade a atender ao homem. Pode ser algo de doentio, mesmo se
praticada com inocencia e consciéncia tranquila;

- os milagres sao fatos inexplicáveis pela ciencia. Devem ser exa


minados meticulosamente para nao ser confundidos com fenómenos
parapsicológicos. A razáo humana sadia e lúcida se aplica á análise dos
fatos ditos "milagrosos", de modo que o laudo final desse exame é o
resultado da investigáoslo inteligente dos pesquisadores;

- a mística é a experiencia de Deus, que habita no íntimo dos jus


tos. Nada tem a ver com a doenca mental.

Eis, em poucas páginas, a resposta ao irmáo ateu. Cultive as virtu


des humanas (o amor á verdade, a honestidade, a veracidade, a fidelida-
de aos compromissos...) e chegará a reconhecer a Deus, que nao falta a
quem atende á sua palavra expressa pelos ditames da consciéncia sin
cera e honesta.

A Igreja através dos Tempos. Do Fundador a Joáo Paulo II, por


Dom Amaury Castanho, - Edigáo própría, 2001, Jundiaí, 140 x 210 mm,
294 pp.

O autor é Bispo diocesano de Jundiaí (SP). Oferece urna visáo sinté


tica da historia da Igreja, sem descera pormenores. Este procedimento tem
suas vantagens, pois em poucas páginas pode dizer muita coisa; todavía
pode ser insuficiente para muitas pessoas que nao conhecem bem o assun-
to e desejariam mais esclarecimentos; é o que ocorre especialmente quando
o autor trata da Inquisigáo em duas páginas (131's). Particular atengáo mere
ce a p. 71, que apresenta o texto (pouco conhecido) do Edito de Miláo, pelo
qual em 313 Constantino dava a paz aos cristáos. Em suma, a obra de D.
Amaury vale como primeira iniciagáo á Historia da Igreja.
Enderego do autor Avenida Dom Pedro 1575, Jundiaí (SP), 13208-230.

141
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

"A IGREJA SABE COISAS QUE NAO DIZ AOS FIÉIS"


Revista GALILEU

A revista GALILEU, n° 125, dezembro 2001 traz a mánchete ácima


encabezando uma entrevista concedida pelo historiador espanhol Juan
Arias a tal periódico. Na verdade, o cabecalho nao corresponde nem á
realidade nem aos dizeres do entrevistado.

Nao corresponde á realidade... Nada mais estranho á Igreja do


que o esoterismo ou a reserva de certas doutrinas a iniciados. Sao pala-
vras de Jesús:

"Nada há de encoberto que nao venha a ser descoberto, nem de


oculto que nao venha a ser revelado. O que vos digo as escuras, dizei-o
á luz do dia; o que vos é dito aos ouvidos, proclamai-o sobre os telhados"
(Mt 10,26s;cf. Le 8, 17).

O gnosticismo dos séculos ll/lll afirmava ter Jesús deixado verda


des secretas para o conhecimento dos apostólos e de certos privilegia
dos. Em resposta, o escritor Tertuliano (t 220 aproximadamente), um
dos mais representativos apologetas do Cristianismo, dizia: "Nihil veritas
erubescit nisi solummodo abscondi", ou seja: "A verdade nao tem
vergonha de coisa alguma a nao ser de ficar escondida" (Adversus
Valentinum 3). O Cristianismo deve ser apregoado na totalidade de sua
mensagem.

Nao corresponde aos dizeres do entrevistado... Eis as palavras


de Juan Arias:

"Há um descompasso entre aquilo que a Igreja conhece por meto


das pesquisas e a versáo que se cristalizou ao longo de quase dois mil
anos sobre o surgimento do Cristianismo. A razao disto está no fato de
que Jesús durante muitos séculos foi muito pouco conhecido histórica
mente, mas foi um personagem apaixonante, cuja imagem serviu como
alicerce da Igreja".

O que se pode dizer a respeito (e talvez seja esta a mente de Arias)


é que nos últimos decenios se tem estudado com grande interesse o
ambiente histórico e geográfico em que Jesús viveu; daí resultaram l¡-
vros de grande erudicáo, que afirmam coisas certas, mas também discu-
tem teorias e hipóteses sobre Jesús; tais livros só podem ser lidos por

142
"A IGREJA SABE COISAS QUE NAO DIZ AOS FIÉIS" 47

quem tenha certa cultura a fim de acompanhar os arrazoados dos res


pectivos autores; as pessoas mais simples nao tém interesse por essa
literatura. A Igreja nao a esconde, nem tem como a esconder; sao obras
publicadas por editoras varias, nao ligadas á Igreja.

O fato é que, por vezes, os pesquisadores racionalistas levantam


hipóteses que eles nao conseguem provar e que, por isto, nao abalam as
tradicionais concepcoes relativas ao surgimento do Cristianismo.

A revista GALILEU recomenda obras de autores críticos, que já


foram comentadas em PR. Assim

John Dominio Crossan, O Jesús Histórico; ver PR 406/1996, pp.


104ss.
Quem matou Jesús?; ver PR 399/1995,
pp. 347ss.
Rochus Zuurmond, Procuráis o Jesús histórico?; ver PR 458/
2000, pp. 205ss.
Geza Vermes, A Religiio de Jesús, o Judeu; ver PR 402/1995,
pp. 495ss.

Muito recomendado é o livro de Giovanni Magnani, Jesús Cons-


trutor e Mestre. Perspectivas sobre seu ambiente e vida; ver PR 433/
1999, pp. 183SS.

(Continuagáo da p. 144)

Se a nos, homens, é algumas vezes impossível resolver certos pro


blemas de ordem moral, nao faltam á Providencia Divina recursos para
os resolver. D. Tepe muito enfatiza essa conduta pastoral amistosa, mas
nao chega a apregoar a concessáo da Eucaristía aos divorciados
recasados.

Apenas é de lamentar que o autor do livro nao estimule os católi


cos cujo matrimonio fracassou, a viver a vida una, como preconiza o Evan-
gelho. Julga que as segundas nupcias sao quase inevitáveis, embora
tenha a vida una dos divorciados como um ideal; cf. p. 33.0 autor conhe-
ce associacoes de divorciados nao recasados que na Franca vivem a
vida una, apoiando-se mutuamente na fidelidade ao Evangelho; ver co
mentarios a respeito em PR 422/1997, pp 297ss.

Estéváo Bettencourt O.S.B.

143
48 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 478/2002

"MISERICORDIA EU QUERO.
CATÓLICOS RECASADOS"1
por Dom Valfredo Tepe OFM

O título do livro pode sugerir a idéia de que a insistencia da Igreja


na indissolubilidade do matrimonio validamente contraído e consumado
é urna questáo disciplinar, reformável com o tempo. A Igreja, dizem, de-
ve ria ser mais misericordiosa para com quem falhou na sua primeira uniáo
conjugal.

Tal, porém, nao é a tese do livro. D. Valfredo Tepe, Bispo emérito


de llhéus (BA), reconhece que a indissolubilidade, no caso, decorre do
Evangelho a tal ponto que nenhuma instancia humana, nem o Papa, tem
o direito de a reformular. E cita o Papa Joáo Paulo II que, numa recente
alocucao diante do tribunal da Rota Romana, falou sobre "o limite do
poder do Sumo Pontífice em relacáo ao matrimonio ratificado e consu
mado, que nao pode ser dissolvido por nenhum poder humano, nem por
nenhuma causa, exceto a morte. Esta formulacao do direito canónico
nao é de natureza exclusivamente disciplinar, ou prudencial, mas
corresponde a urna verdade doutrinal que a Igreja defende desde sem-
pre"{p.34).

A misericordia que D. Valfredo reivindica, é o trato amigo e solícito


dos divorciados recasados a fim de que nao se sintam excluidos ou con
denados. É isto, alias, que o próprio Papa propóe na sua Exortacáo Apos
tólica Familiaris Consortio:

"A Igreja nao pode abandonar aqueles que, ligados pelo vínculo
matrimonial sacramental, passam a novas nupcias. Por isto Ela se esfor-
gara incansavelmente por colocar a sua disposigáo os meios de salva-
gao... A Igreja reze por eles, estimule-os, mostre-se Máe misericordiosa e
assim os sustente na fé e na esperanga... Exorto vivamente os pastores
e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados promovendo com
caridade solícita que eles nao se considerem separados da Igreja, po-
dendo e, melhor, devendo, enquanto balizados, participar da sua vida"
(n°84).

(Continua na p. 143)

1 Ed. Vozes, Petrópolis 2001, 155x210mm, 47 pp.

144
Edicócs Lumen Christi
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