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16/08/2015

16/08/2015 Museussemfim|piauí_105[revistapiauí]praquemtemumcliqueamais Edição 105 > _questões artísticas >

Museussemfim|piauí_105[revistapiauí]praquemtemumcliqueamais

105 > _questões artísticas > Junho de 2015 Museus sem fim Não param de surgir instituições

Museus sem fim

Não param de surgir instituições de arte mundo afora. Mas para quê?

por HAL FOSTER

ATateModernII,projetadapeloescritóriodearquiteturaHerzog&deMeuron,vaisurgindoàbeira

doTâmisa.NoHudson,dooutroladodoAtlântico,onovoWhitneyMuseum,concebidoporRenzo

Piano,abriusuasportasemmaio.SobaorientaçãodeDillerScofidio+Renfro,oMuseumof

ModernArtplanejanovaexpansão(aanterioraconteceuháapenasdezanos),eoMetropolitan

MuseumofArtterátransformadosuaaladedicadaàartemodernaecontemporâneaatéofinalda

década.ExtraioessesexemplosdeLondreseNovaYork,passandoporcimadoflorescimentodos

museushojeemcursonoOrienteMédio,naChinaeemoutraspartesdomundo.Mas,naverdade,

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todasasinstituiçõesquetêmporfimabrigaraartemodernaecontemporâneaenfrentamproblemas

semelhantes,nemtodoselesdenaturezapolíticaoueconômica.

Oprimeirodilemadizrespeitoàvariedadedeescalasqueessaarteapresentaeaosdiferentesespaços

necessáriosparasuaexibição.Ocenárioinicialparaaexposiçãodapinturaedaesculturamodernas

–produzidas,comoeram,tipicamenteparaomercado–foioespaçointeriordoséculoXIX,em

geralaresidênciaburguesa,eosprimeirosmuseusdedicadosaessaarteconstituíram­se,muitas

vezes,desalõesdecaracterísticassemelhantes,remodeladosparatalfim.Essemodelofoisendo

poucoapoucosubstituídoporoutro.Àmedidaqueaartemodernafoisetornandomaisabstratae

autônoma,elapassouademandarumespaçoqueespelhasseessasuacondiçãodestituídadeumlar,

umespaçoqueficouconhecidocomo“ocubobranco”.Essemodelo,porsuavez,viu­sepressionado

pelaobradeartemaisambiciosa,que,depoisdaSegundaGuerraMundial,começouaexpandirsuas

dimensões–dasvastastelasdeJacksonPollock,BarnettNewmaneoutros,passandopelosobjetos

seriadosdeminimalistascomoCarlAndre,DonaldJuddeDanFlavin,atéasinstalaçõesvinculadasa

espaçosespecíficos,deumagamadeartistasposterioresquevaideJamesTurrellaOlafurEliasson.

Conciliarosgrandessalõesnecessáriosparaabrigaraproduçãocontemporâneacomasgalerias

delimitadasqueapinturaeaesculturamodernasexigemnãoétarefafácil,comoqualquervisitaà

TateModernouaoMoMApodeatestar.Eoproblemasecomplicapelofatodepartedanovaarte

reivindicaraindaoutrotipodeespaço:umaáreafechadaeobscurecidaparaaprojeçãodeimagens,o

queveioaserconhecidocomo“caixapreta”.Paracompletar,emdecorrênciadointeresseatualem

tambémapresentarperformancesedançanosmuseus,grandesinstituiçõespreveemanecessidade

decriaraindaoutrosespaços–apropostainicialparaaexpansãodoMoMAoschamade“caixas

cinza”eartbay.(Imaginoqueacaixacinzasejaumcruzamentodocubobrancocomacaixapreta,e

queartbaysejaumhíbridodeáreaparaperformancescomumespaçoparaeventos,masissoésó

umpalpite.)Qualquermuseuquepretendaexporumconjuntorepresentativodaartemodernae

contemporâneaprecisa,dealgumaforma,oferecertodosessestiposdeespaço,etodoselesdeuma

sóvez.

Doisfatoresforamcentraisnaexpansãodosmuseusdeartemodernaecontemporânea.Nosanos

60,quandoaatividadeindustrialcomeçouaentraremdeclínioemNovaYorkeemoutrasgrandes

cidades,espaçosantesreservadosàmanufaturaforamtransformadosemateliêsdebaixocustopor

artistascomoosminimalistas,empartecomoobjetivodeproduzirobrasaptasapôràprovaas

limitaçõesdocubobranco.Velhasestruturasindustriais,comocentraiselétricas,foram

remodeladasetransformadasemnovasgaleriasemuseuscapazesdecomportarasnovasdimensões

dessaarte.EmergiudaíumacircularidadequepodeservistaeminstituiçõescomooDia:Beacon,por

exemplo,mecadaarteminimalistaepós­minimalistalocalizadanoestadodeNovaYork;ali,uma

velhafábricadaNabiscofoitransformadanumconjuntodeamplossalõesprontosaacolher

esculturasimensasdeartistascomoRichardSerra.

Asegundaviatomadaporessaexpansãofoimaisdiretaetraduziu­senaconstrução,apartirdonada,

demuseusprojetadoscomoamploscontêineresparaobrasdeartegigantescas.Umexemplodissoé

oGuggenheimdeBilbao,deFrankGehry.Emalgunsaspectos,essadimensãoavantajadaé

consequênciadeumacorridaporespaçosmaioresdisputadaentrearquitetoscomoGehryeartistas

comoSerra,resultandonumagrandiosidadequehojenosparecequasenatural.Porém,nãohánada

dedefinitivonela:artistasrenomadossurgidosnasduasúltimasdécadas,comoPierreHuyghe,

RirkritTiravanijaeTinoSehgal,entreoutros,nãorequeremtantoespaçoe,emmuitosaspectos,o

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recusam.(Agrandezadosespaçosproduziu,ademais,efeitoscolateraisruins,comoossaguões

imensos,que,emboraimportantescomoespaçosparaeventos,sãoletaiscomogaleriasdearte.)

OGuggenheimdeBilbaoéoexemplomaisclarodeumterceiroproblema:omuseucomoícone.

Líderesdecidadesdecadentesoudeumaregiãourbananegligenciada,desejososdereaparelhá­las

paraumanovaeconomiadoturismocultural,creemqueumsímboloarquitetônicoquesirva

tambémcomoemblemamidiáticopoderáajudá­losnesseseuintento.Paraqueaedificaçãoalcance

umcarátericônico,oarquitetoescolhidoéautorizado,emesmoincentivado,amodelarformas

singularesemescalaurbana,emgeralnasproximidadesdebairrospobres,quesofrem,assim,

considerávelperturbação,quandonãosãoremovidoscompletamente.Algunsmuseussãotão

esculturaisqueaartequeapresentamésecundária,figurandoapenasemsegundoplano.Esseé,com

frequência,ocasodoMAXXIdeRoma(oMuseuNacionaldasArtesdoSéculoXXI),umentrelaçado

neofuturistadevolumesbaixosdesenhadoporZahaHadid.Museusassimdemandamtantodonosso

interessevisualqueacabamporser,elespróprios,aobradominanteemexposição,ofuscandoaarte

queforamconcebidosparaexibir.Emborasejaaindamuitocedoparadizê­lo,épossívelqueessa

venhaaseraimpressãodeixadatambémpelaTateModernII.

Outrosmuseussetornamtãoteatraisqueosartistassentem­seobrigadosaresponder,antesdemais

nada,àarquitetura.Éclaroquearquitetostambémoperamnoâmbitovisual,enãosehádelevara

malqueofaçam,masporvezesaênfasenodesignpoderosonegligenciaquestõesfundamentais

ligadasàfunção.Emparte,foiissoqueocorreunoAmericanFolkArtMuseum,concebidoporTod

WilliamseBillieTsienesituadonaporçãocentraldeManhattan:capitalarquitetônicoemexcesso,

preocupaçãoinsuficientecomouso.Nofim,oprédiotevedeservendidoaoMoMA,eomuseu

retornouasuaantigasede,naLincolnSquare(ameaçaparecidapairasobreoMAXXI).

Aquestãodafunçãoapontaparaumquartoproblema,queéaincertezageneralizadasobreoqueéa

artecontemporânea,esobrecomofazerusodeumespaço.Comoéquesepodeprojetaruma

edificaçãoparaalgoquenãosesabeoqueéequetampoucosepodeprevercomoviráaser?O

resultadodessaincertezasemanifestanosurgimentode“galpõesculturais”quasedesprovidosdeum

propósitoaparente.Umaestruturadessetipo–oCultureSheddesenhadoporDillerScofidio+

Renfroedotadodeumacoberturamóvel,quepodesermantidaoulevantadadeacordocoma

modalidadedoeventoemcartaz–estáprevistaparaaáreadosHudsonYardsnoWestSidede

Manhattan.

Alógicapareceseradeconstruirumcontêineredeixaraosartistasatarefadelidarcomele,masé

provávelque,doladodaarte,oresultadosejaumaformapadrãodeinstalação.Enquantoisso,do

ladodaarquitetura,ainvençãodenovosespaçoscomocaixascinzaeartbayspodeviralimitaras

própriaspráticasqueessesespaçosvisamfomentar.Oquepareceflexibilidadepodeserevelaro

contráriodisso–vejam­seasgaleriasaltíssimasdeartecontemporâneanoNewMuseumdoLower

EastSide,oumesmonoMoMA,salõesquesobrepujamquasetodaartequeabrigam.Serra,por

certo,produzgrandestrabalhos,masissonãosignificaqueadimensãodesuasobrasdevaservirde

padrãoparatodoequalquerespaçoexpositivo.

Talvezessesmuseusnovoserenovadostenham,sim,umpropósito,afinaldecontas,eum

megapropósitotãoóbvioqueneméenunciado:odoentretenimento.Aindavivemosnuma

sociedadedoespetáculo,ou,paraempregaraquiumaexpressãoinofensiva,vivemosnuma

“economiadaexperiência”.Querelaçãoosmuseusdeartemodernaecontemporâneaguardamcom

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umaculturaqueprezatantoaexperiênciadoentretenimento?Jáem1996,NicholasSerotasituou“o

dilemadosmuseusdeartemoderna”numquadroexcludentede“experiênciaouinterpretação”,ou,

dizendo­odeoutraforma,numquadroqueseparaentretenimento,deumlado,econtemplação

estéticae/oucompreensãohistórica,deoutro.Quasevinteanosmaistarde,noentanto,nãotemos

porquenosdeterdiantedesseou/ou.Oespetáculochegouparaficar,nãovaiemboraenquanto

houvercapitalismo,eosmuseussãopartedele.Issoéumfatoe,porissomesmo,nãodeveriaserum

projeto.

Contudo,trata­se,sim,deumametaparamuitosmuseus,mesmoparaaquelesquenãodependemda vendadeingressos.Issoficaevidentenoespaçodedicadopelosmuseusasalõesdeeventos,grandes lojasebelosrestaurantes,eétambémoquesugeremcertastendênciasdeprogramação.Veja­sea guinadanadireçãodaperformanceedadança,earemontagemdeexemploshistóricosdeambas, nosmuseusdearteaolongodosúltimosanos.FoirepresentativadissoaretrospectivadeMarina

AbramovićnoMoMA,em2010(que,aolongodedezsemanas,incluiuumespetáculonoquala

artistaencaravafixamentequalquerumquesesentassedefrontedela).

Essaguinadapodeservista,dopontodevistanegativo,comoumainstitucionalizaçãodepráticas outroraalternativas,e,dopontodevistapositivo,comooresgatedeeventosque,docontrário,se perderiam(assimcomoofilmeindependente,aperformanceeadançaexperimentaisrecorreram aosmuseusemparteporquesuassalaspassampormomentosdifíceis).Masissonãoexplicaasúbita acolhidadeeventosaovivoporpartedeinstituiçõesque,emgeral,sededicamàarteinanimada.

Duranteaprimeiraondadecriaçãodemuseusna“novaEuropa”pós­1989,oarquitetoRem

Koolhaasobservouque,comonãohaviapassadosuficienteparatantasinstituições,osartefatosdo

passadosópodiamsevalorizar.Hoje,aoqueparece,nãohápresentequebaste:porrazõesmaisdo

queóbviasnumaerahipermidiática,ademandapelopresenteéigualmentegrande,assimcomopor

qualquercoisaquesepareçacomumapresençareal.

Outrarazãoparaaacolhidadeeventosperformáticosnosmuseuséacrençadequeelesfazemdo

visitanteumobservadorativo–umacrençaque,paracomeçodeconversa,supõeequivocadamente

serovisitantedeummuseuumobservadorpassivo.Hojeemdia,osmuseusparecemnãoquerernos

deixarempaz;elesnosmotivamenosincitamdamesmaformacomofazemoscomnossosfilhos.E,

muitasvezes,esseempenhopornostornarespectadoresativossetornanãoummeio,masumfim

emsimesmo.

Assimcomonaculturaemgeral,comunicaçãoeconectividadesãopromovidasporsipróprias,sem

grandeinteressenaqualidadedaexperiênciasubjetivaedasinteraçõesobtidas.Tudoissocontribui

paravalidaromuseu–tantoaosolhosdeseusgestorescomoaosdeseusfrequentadores–como

relevante,vitalousimplesmentemovimentado.Todavia,oqueomuseubuscatornarativoéantesa

simesmoqueaseufrequentador.Estranhamente,issosóvemconfirmaraimagemnegativaque

seusdetratorestêmdelehámuitotempo.Paraestes,acontemplaçãoestéticaétediosa,a

compreensãohistóricaéelitistae,maisdoqueisso,omuseuéumlugarmorto,ummausoléu.

EssaargumentaçãomeveioàmenteenquantoeuassistiaaNationalGallery,umexcelente

documentáriorecentedeautoriadeFrederickWiseman.Aolongodetrêshoras,ofilmemostraum

bomnúmerodepessoasnograndemuseulondrino,interagindocomaarteeumascomasoutrasde

maneirasasmaisdiversas.Aindaassim,Wisemansentiunecessidadedeencerrarseutributocom

umnúmerodebalénasgalerias,comoseasfigurasnosquadrosprecisassemdecorpos

performáticosaanimá­las.Nãoprecisavamnemprecisam.

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'Museuemausoléunãoestãoligadosapenaspelaassociaçãofonética”,escreveuAdornoem1953,

em“MuseuValéryProust”.“Osmuseussãocomosepulcrosdeobrasdearte,testemunhama neutralizaçãodacultura.”AdornoatribuiessepontodevistaaValéry:éavisãodoartistaemseu ateliê,quesópodeveromuseucomoumlugarde“reificação”e“caos”.Outropontodevistaé atribuídoaProust,quepartedeondeValéryparou,da“vidapóstumadasobras”,queProust contempladaperspectivadoespectadornomuseu.Paraoespectadoridealista,àlaProust,omuseu aperfeiçoaoateliê:éumreinoespiritualemqueaconfusãomaterialdaproduçãoartísticaé destilada,ou,emsuasprópriaspalavras,emqueo“salãodomuseu[ ],emsuanudezeabstinência sóbriadetodososdetalhes,[simboliza]osespaçosinterioresondeoartistaserecolheparacriar”.Em vezdeumlugardereificação,omuseué,paraProust,ummeiodereanimação.

Assimcomooobservadorprecisaserconcebidocomopassivoparaquepossasertransformadoem ativo,aobradearteprecisaserconsideradamorta,afimdequepossaserressuscitada.Essa ideologia,centralparaodiscursomodernosobreomuseudearte,éfundamentaltambémparaa

históriadaarte“comodisciplinahumanística”,cujamissão,comoescreveuErwinPanofskyhá75

anos,é“darvidaaoque,docontrário,permaneceriamorto”.Aqui,arespostaadequadadenossa

épocavemdahistoriadoradaarteAmyKnightPowell:“Nemumainstituiçãonemumindivíduo

podemdevolveràvidaumobjetoquenuncaviveu.”

Aconclusãoé,porumlado,queosespectadoresnãosãopassivosapontodeprecisaremser

transformadosemativos,e,poroutro,queasobrasdeartenãoestãomortasapontode

necessitaremquesejamreanimadas.Quandobemprojetadosedotadosdeprogramaçãointeligente,

osmuseusadmitemtantoentretenimentoquantocontemplação,enesseprocessopromovem

tambémalgumacompreensão.Ouseja,elespodemserespaçosnosquaisasobrasdearterevelam

sua“promiscuidade”comoutrosmomentosdesuaproduçãoerecepção.

Umpapelcentraldomuseué,dessaforma,operarcomoumamáquinadoespaço­tempo,

transportar­nosparadiferentesperíodoseculturas–paradiversosmodosdeperceber,pensar,

representareser–,afimdequepossamostestá­losemrelaçãoanossasprópriasépocaecultura,e

vice­versa,e,nesseprocesso,quemsabetransformarmo­nosumpouco.Esseacessoavários

passadoseaváriospresentesserevestedeparticularurgêncianumaeradeumpresentismo

consumista,deparoquialismopolíticoedecidadaniatruncada.Nofimdascontas,seosmuseusnão

sãolocaisemquesecristalizamdiversasconstelaçõesdepassadoepresente,paraqueprecisamos

deles?