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UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA

CENTRO REGIONAL DAS BEIRAS


Pólo de Viseu

Curso de Especialização em Comunicação Educacional


e Gestão da Informação.

Políticas da Educação em Portugal.

Projecto Educativo,
um caminho rumo à autonomia.

Formador: Formando:
Prof. Doutor António Martinho Agostinho Neves da Silva

Viseu 2005
Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

Índice

1. INTRODUÇÃO. .......................................................................................................................................... 3
2. ENQUADRAMENTO................................................................................................................................. 4
2.1. PORQUÊ UM PROJECTO EDUCATIVO RUMO À AUTONOMIA? ............................................. 5
3. O QUE É A AUTONOMIA? ...................................................................................................................... 6
3.1 A AUTONOMIA CONSTRÓI-SE... ........................................................................................................ 7
3.2. PROJECTOS, A CAMINHO DA AUTONOMIA................................................................................. 8
3.2.1. PROJECTO EDUCATIVO DE ESCOLA .......................................................................................... 8
3.2.2. PROJECTO CURRICULAR DE ESCOLA ..................................................................................... 10
3.3.3. PROJECTO CURRICULAR DE TURMA....................................................................................... 11
4. EVOLUÇÃO NORMATIVA.................................................................................................................... 12
4.1. LEI N.º 46/86, DE 14 DE OUTUBRO – LEI DE BASES DO SISTEMA EDUCATIVO................. 13
4.2. DECRETO – LEI N.º 43/89, DE 3 DE FEVEREIRO.......................................................................... 14
4.3. DESPACHO NORMATIVO N.º 27/97 DE 2 DE JUNHO .................................................................. 14
4.4. O DECRETO-LEI N.º 115-A/98 DE 4 DE MAIO – GRANDES LINHAS........................................ 15
5. CONCLUSÃO ........................................................................................................................................... 17
6. BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................................................... 19
6.1 LIVROS DE CONSULTA............................................................................................................................... 19
6.2 ARTIGOS .................................................................................................................................................... 19
6.3 LEGISLAÇÃO ............................................................................................................................................. 20
6.4 INTERNET .............................................................................................................................................. 20

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

1. INTRODUÇÃO.

O Presente trabalho insere-se no curso de Especialização em Comunicação


Educacional e Gestão da Informação e tem como titulo “Projecto Educativo, um caminho
rumo à autonomia” e foi enquadrado ou problematizado da seguinte forma.
Passados anos sobre o Decreto - Lei nº 115-A/98 de 4 de Maio:
- O que se passa com a autonomia das escolas e a descentralização?
- Que competências foram atribuídas às escolas?
- Qual o real significado da concepção de uma organização da administração educativa
centrada na escola?
Segundo a opinião da maioria da opinião pública, dos actores educativos, dos
estudiosos da área e também segundo os jornais e revistas da especialidade, a autonomia
regulada no decreto-lei 115-A/98 de 4 de Maio, devia já estar consignada mas pelo que se
observa, não passa de mais uma medida só para constar no papel.
Foram reunidas as condições básicas e determinantes para a existência de
dispositivos que conduzam à melhoria das situações de ensino-aprendizagem e de
organização do currículo com enriquecimento local a caminho da autonomia e da
descentralização.
Parece-me que a partir daqui, e é minha convicção que, se for elaborado um
Projecto Educativo com todos os intervenientes educativos e de acordo com o que consta
no Decreto – Lei nº 115-A/98 de 4 de Maio, será dado um passo muito importante rumo à
autonomia.
De acordo com a lei poderão ser feitas parcerias com o Ministério da Educação na
atribuição de responsabilidades na gestão do currículo, na gestão dos recursos, na gestão
financeira e na gestão pedagógica.
Assim sendo, são definidos os conceitos de Autonomia e de Projecto Educativo
segundo alguns autores da especialidade, que poderão clarificar a forma e incentivar a
elaboração de Projectos Educativos para um dos possíveis caminhos rumo à autonomia.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

2. ENQUADRAMENTO
A Educação Básica – que se situa no início de um processo de educação e formação
ao longo da vida – integra hoje a Educação Pré-escolar e o Ensino Básico, o qual
corresponde a nove anos de escolaridade, organizada em três ciclos, sendo de frequência
obrigatória para todas as crianças e jovens entre os seis e quinze anos de idade.
O propósito essencial da Reorganização Curricular do Ensino Básico é de criar
melhores condições para se concretizar um objectivo há muito definido: uma formação
básica, de qualidade para todos.
É esta a grande finalidade de uma Escola de Massas – uma escola dinâmica, mais
humana e criativa, que visa a promoção de aprendizagens significativas (académicas e não
académicas) e a formação integral dos estudantes (crianças, adolescentes e jovens).
É esta perspectiva que norteia todos os actores educativos. Respeitando as
orientações do Currículo Nacional, cabe a cada Escola e ou Agrupamento no quadro da
Autonomia em construção e através dos seus órgãos e estruturas formais e não formais, a
responsabilidade de organizar e conduzir o processo de ensino/ aprendizagem de acordo
com a realidade concreta dos seus alunos, gerindo de forma adequada, os recursos
humanos e materiais de que dispõe.
Não se pode, no entanto, pensar que a mudança, de uma lógica meramente
instrumental da Escola para uma lógica orientada pelos princípios da comunicação, onde
todos possam ter vez e voz, se faz sem a existência de um forte desejo de o querer fazer e
de uma forte consciência ideológica do que isso implica sob o ponto de vista social. É
necessário que se reconheça o acto educativo como acto social e a Escola como uma
organização (ou sistema social) promotora de mudanças sociais ou, pelo menos, preparada
para responder aos desafios colocados pela sociedade. Estes papéis da Escola e estes
desafios implicam mudanças nomeadamente, a nível de gestão, da organização, das novas
atribuições e competências atribuídas à escola. É no quadro destas ideias que surge o Dec-
Lei nº 115-A/98 de 4 de Maio que vem atribuir novas competências às escolas,
transformando toda a organização ou o modo como se regiam em agrupamentos, incluindo
nestas o Pré - Escolar e o 1º Ciclo do Ensino Básico. É este documento que atribui novas
competências e novas responsabilidades às escolas/agrupamentos, que consigna a
descentralização e a autonomia e dá voz a um instrumento capaz de operacionalizar estas
mudanças que é o Projecto Educativo. Estão reunidas as condições básicas, e
determinantes para a existência de dispositivos que conduzam à melhoria das situações de
ensino-aprendizagem e de organização do currículo com enriquecimento local.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

Assim, pensar a Escola nestes moldes, é pensá-la como organização com uma
identidade própria e com uma autonomia e poder de decisão, onde todos se envolvem.

2.1. PORQUÊ UM PROJECTO EDUCATIVO RUMO À AUTONOMIA?

Segundo o Decreto Lei n.º 43/89 de 3 de Fevereiro a autonomia da escola


concretiza-se na elaboração de um Projecto Educativo próprio, constituído e executado de
forma participada, dentro de princípios de responsabilização dos vários intervenientes na
vida escolar e de adequação a características e recursos da escola e às solicitações e apoios
da comunidade em que se insere.

De outra forma, o Projecto Educativo pode constituir um instrumento de


concretização e de gestão da autonomia se concebido e desenvolvido no cruzamento dos
diversos agentes educativos que enriqueçam uma cultura local no âmbito do currículo
nacional.
Porque à Escola de hoje é pedido que desempenhe papéis que excedem em muito
a mera transmissão e aquisição de saberes. Não se pode, mais, esquecer a dimensão social
presente na educação. “Formar é muito mais do que puramente treinar o educando no
desempenho de destrezas”, conforme opinião de Paulo Freire1. A Escola é, portanto, uma
instituição que não se esgota na instrução e que tem de ampliar o seu papel a uma
formação geradora de uma real educação.
Mas estas novas responsabilidades da Escola implicam que ela institua uma forte
relação com os contextos e a comunidade em que está inserida, implicam reconhecer-lhe
autonomia e implicam conceber os (as) professores (as) como agentes activos na
configuração do currículo. Estes novos mandatos pressupõem uma Escola “que se constrói
na e com a comunidade” e que privilegia, simultaneamente, o “estabelecimento de relações
com o exterior (...) e uma rede de comunicações no seu interior”2.
Assim o projecto Educativo é um instrumento privilegiado para estabelecer esta
rede de comunicações e relações.

1
FREIRE, Paulo (1997) Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa; Brasil: Paz e
Terra; pp.15.
2
FERNANDES, P. et al. (2001) Uma Formação em Círculo: Um Sentido no Presente...Um Sentido no
Futuro; IIE: Ministério da Educação; pp.82.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

3. O QUE É A AUTONOMIA?

Ao longo de décadas muito foi sendo escrito e debatido acerca desta temática. No
contexto da escola actual em que a sua complexidade é indiscutível cabe agora aos
participantes fazerem uso dela de forma numa base de liberdade valorizando o suporte
democrático que nos rege. É nesta perspectiva que vamos poder constatar como as
definições que a seguir se apresentam se aproximam numa visão mais ou menos
concertada acerca da autonomia. De acordo com João Barroso (1996, in Barroso, 1998,
p.4) “Autonomia de Escola” significa do ponto de vista formal / legal, que as escolas
dispõem de uma capacidade de auto governo em determinados domínios (estratégicos,
pedagógicos, administrativos e financeiros), resultando da transferência de atribuições,
competências e recursos de outros níveis da administração, para os órgãos de gestão
próprios da escola. Llorente (1999, in Llavador, 2001) define autonomia de forma mais
abreviada quando afirma que esta é uma forma de auto governo para realizar um projecto
pedagógico participativo e consentâneo com o sistema abrangente no nível obrigatório.
Assim, e para Machado (1982, in Castro, 1996) autonomia, significa, globalmente, “o
poder de se auto determinar, de auto-regular os próprios interesses ou o poder de se dar a
própria norma, elaborando os seus próprios estatutos/regulamentos”.
Le Moigne, (1983, in Castro, 1996) diz que autonomia é a propriedade de um
sistema com capacidade para se identificar e ser identificado, mantendo-se diferente do
meio de que é solidário.
Morin (1982, in Castro, 1996) apresenta uma noção de autonomia em que esta não
pode ser dissociada de uma ideia de dependência. Acrescenta ainda que quanto mais
autónomo é um sistema mais dependente ele é de um grande número de condições
necessárias à emergência da própria autonomia.

Uma noção mais concreta e direccionada à realidade escolar que constituem os


agrupamentos é a definida por Sousa Fernandes (1994, in Castro, 1996) quando diz que
autonomia significa que a ordem do agrupamento não é instaurada por alguém de fora do
mesmo e exterior a ele, mas pelos próprios membros e em virtude da sua realidade.

Segundo o Decreto Lei n.º 115-A/98 de 4 de Maio, “Autonomia é o poder


reconhecido à escola pela administração educativa de tomar decisões nos domínios
estratégico, pedagógico, administrativo, financeiro e organizacional, no quadro do seu
Projecto Educativo e em função das competências e dos meios que lhe estão consignados”.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

Como verificamos todos os conceitos de autonomia o aproximam de uma


independência conceptual ao mesmo tempo que o responsabilizam pelo seu próprio
destino. Uma construção alicerçada numa autonomia é uma construção diferenciada de
acordo com as suas próprias formas de ver o mundo e de agir sobre ele.

3.1 A AUTONOMIA CONSTRÓI-SE...

Se adoptarmos uma visão histórica do ensino constatamos que até ao inicio da


década de 80 a escola tinha apenas o papel de transmissão de valores e saberes definidos de
forma homogénea para todo o território nacional, não podendo os professores desviar-se do
que lhes era pedido. Mais tarde, com o reconhecimento de que a qualidade do ensino deve
ser encarada numa visão mais adaptada ao contexto em que se insere numa perspectiva de
envolvimento dos seus agentes, orientadas para uma formação mais moldada a todos os
alunos.

O conceito de autonomia nem sempre foi visto da mesma perspectiva. Assim temos
a concepção de autonomia numa perspectiva mais redutora, em que esta era circunscrita ao
cumprimento normativos legais e ao qual João Barroso chamaria “autonomia decretada”,
tendo sido consubstanciada pelo Decreto Lei n.º 43/89 de 3 de Fevereiro (conhecido pelo
decreto da autonomia) e em que a autonomia se deveria desenvolver dentro dos limites
fixados pela lei.

Mais tarde surge o Decreto – Lei n.º 115-A/98 de 4 de Maio conferindo, uma maior
responsabilização materializada na transferência de poderes para a escola no âmbito de
uma descentralização e aumento de autonomia. Importa referir que falar-se de autonomia
das escolas não significa independência, mas antes uma relação com o meio em que estas
se inserem e que lhes vai conferir uma identidade própria. Temos assim, a escola como um
sistema em que os actores vão interagir entre si com a possibilidade de definir novas
regras, dessa forma contribuindo para a alteração do referido sistema, numa base de
construção da autonomia.

De facto se não se legislasse com vista a atribuição de autonomia às escolas não


seria possível iniciar-se este processo. Contudo não basta ter-se a posse de decreto, é
necessário ir muito mais além. É necessária uma mudança de postura que leve a uma
participação mais empenhada dos actores educativos em prol deste bem comum que é a
educação. Sabemos que é também em função do capital humano que os efeitos da
autonomia se farão sentir. Esta participação pode ser iniciada ou reforçada no

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

empenhamento em construir o Projecto Educativo de Escola verdadeiramente direccionada


para uma autonomia consciente e frutífera como pedra basilar da construção de uma
verdadeira comunidade escolar.

Como pedra basilar dessa construção, surgem os Projectos Educativos de


Escola, Projectos Curriculares de Escola e o Projecto Curricular de Turma.

O conceito de autonomia, como podemos constatar, para se aproximar o mais


possível dos seus objectivos e logo das concepções acima descritas, vai utilizar o
instrumento já referido e denominado por Projecto Educativo de Escola.

3.2. PROJECTOS, A CAMINHO DA AUTONOMIA.

Seguidamente, ainda que de forma breve, iremos traçar as linhas que orientam estes
três instrumentos que vão servir de alicerce à autonomia das escolas e desde logo às
perspectivas de mudança e inovação. Na base da construção da autonomia nas escolas
temos o reconhecimento de que a escola não tem funções meramente educadoras e de
instrução. Os professores já não são meros executores.

3.2.1. PROJECTO EDUCATIVO DE ESCOLA

Como já referimos, o Projecto Educativo de Escola é que, numa estratégia de


discussão e negociação, aglutinando todas as instancias da comunidade educativa e tendo
como horizonte a melhoria efectiva da actividade educativa, vai conferir a real autonomia
às escolas.

O P.E.E. deve ser construído, desenvolvido e avaliado com a participação do maior


número de elementos possível, de todos os departamentos e da restante comunidade
(professores, conselho escolar, associação de estudantes, pessoal não docente etc.), para
que se possa:

-Perceber como a escola é e como funciona.

-Identificar problemas.

-Definir uma orientação e metas a atingir, solucionar ou tentar solucionar problemas


prioritários contribuindo para a melhoria da escola e do seu funcionamento.

É nesta linha de ideias que nos aparecem três autores portugueses que definem
P.E.E. como:

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

-“Documento de carácter pedagógico que, elaborado com a participação da comunidade


educativa, estabelece a identidade própria de cada escola através da adequação do quadro legal em
vigor à sua situação concreta, apresenta o modelo geral de organização e os objectivos pretendidos
pela instituição e, enquanto instrumento de gestão, é ponto de referência orientador na coerência e
unidade da acção educativa” (Costa, 1991, p.10).

-“Entendemos Projecto Educativo de Escola como a referência que traduz os valores,


intenções, necessidades e as aspirações da comunidade educativa. O P.E.E. é a carta de definição
da política educativa da escola (...) e corresponde à opção por um modelo educativo, à opção por
uma lógica que dê coerência ao funcionamento da escola (...)” (Macedo, 1995, p.114).

-“Documento facilitador da organização de dinâmicas de mudança na escola e de


aprendizagens com sentido. É um instrumento de concretização e da gestão da autonomia da escola
quando é concebido e desenvolvido na base do cruzamento de perspectivas e posições diversas
(professores/as, Alunos/as, pais, agentes da comunidade, outros educadores...) que proporcionem a
existência de diálogo dentro da escola, e desta com a comunidade e que enriqueçam a cultura e os
saberes escolares com a dimensão social” (Leite et al., 2001).
Como se disse, o Projecto Educativo pode e deve constituir um instrumento de
concretização e de gestão da autonomia, se concebido e desenvolvido na base do
cruzamento de perspectivas e posições diversas (professores (as), aluno(as), pais, agentes
da comunidade, outros educadores...) que proporcionem a existência de diálogo dentro da
Escola, e desta com a comunidade, e que enriqueçam a cultura e os saberes escolares com a
dimensão social. Por isso se afirma que o Projecto Educativo constitui um processo de
desenvolvimento organizacional e de viabilização do reflexo na Escola, inexistente quando
dela se esperava, apenas, o cumprimento técnico daquilo que era prescrito.
Espera-se actualmente e acima de tudo, que incorpore saberes e recursos que
façam da Escola uma instituição de vivência e aprendizagem das culturas e da democracia
e, consequentemente, que a tornem um espaço propiciador do sucesso educativo para todas
as crianças e jovens. É nesta concepção de Escola que se situam os conceitos de “Projecto
Educativo de Escola”, “Projecto Curricular de Escola” e “Projecto Curricular de Turma”.
Nestes moldes, pode considerar-se que o Projecto Educativo representa, antes de
mais, uma ruptura com a normalização, sendo, por isso, uma referência e um dispositivo
para a construção contínua da mudança, para a organização da Escola/Agrupamento (no
presente e no futuro), para a clarificação das intencionalidades educativas e para a
articulação das participações dos diversos protagonistas.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

É que, deve reconhecer-se, o Projecto Educativo de Escola/ Agrupamento como


um meio para definir as políticas educativas escolhidas por cada escola, implicando o
apontar de perfis de mudança e processos negociais entre os diversos actores. Deste modo,
constitui uma imagem antecipada do caminho a trilhar. O projecto educativo consiste
essencialmente em planear o futuro do agrupamento de escolas ou da escola. Para fazer
esse planeamento é necessária uma definição de metas a alcançar a prazo, em colaboração
com outras entidades e que sejam susceptíveis de serem alcançadas ao longo dos três anos
de vigência deste documento.

3.2.2. PROJECTO CURRICULAR DE ESCOLA

A partir da noção de que uma escola de sucesso para todos e de que o


desenvolvimento de aprendizagens significativas, apenas se alcança com a adaptação do
currículo nacional às situações e contextos locais, surge o Projecto Curricular de Escola
(P.C.E.). Este P.C.E. só tem expressão a partir de uma ideia de efectiva autonomia que
atribui à escola poder decisional.

Segundo L. del Carmen e A. Zabala (1991, p.16), o P.C.E. é um “conjunto de


decisões, partilhadas pela equipa docente de uma escola, tendentes a dotar de maior
coerência a sua actuação, concretizando as orientações curriculares de âmbito nacional em
propostas globais de intervenção pedagógico – didácticas adequadas a um contexto
específico”. Já para Roldão (1999, 44) o P.C.E. a “forma particular como, em cada
contexto, se reconstrói e apropria currículo face a uma situação real, definindo opções e
intencionalidades próprias, e construindo modos específicos de organização e gestão
curricular, adequados à consecução das aprendizagens que integram o currículo para os
alunos concretos daquele contexto”. Na mesma linha de raciocínio Bonafé (1995, p.20)
concebe P.C.E. como “uma proposta de trabalho orientada por algum tipo de reflexão
prévia sobre os valores que defende, os fins que persegue, o conhecimento em que se
apoia, os problemas que prevê e os procedimentos que desenvolve. Sendo proposta de
trabalho, tal reflexão tem uma clara orientação para a actividade teórico-prática em
condições concretas de realização. Sendo uma hipótese reflexiva sobre procedimentos
práticos, tal orientação é motivo e objecto de investigação, avaliação e modificação. É
portanto, como toda a práxis docente, inacabada, aberta e sujeita a crítica”.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

3.3.3. PROJECTO CURRICULAR DE TURMA

O projecto curricular de turma (P.C.T.) à semelhança do P.C.E., visa uma


contextualização do currículo nacional, muito embora apresentem campos de actuação
próprios. Assim, enquanto o P.C.E. pretende adequar o currículo nacional à realidade da
escola, tendo assim este como “objecto de trabalho”, o PCT vai ter que se debruçar sobre o
P.C.E. (e a sua adaptação do currículo nacional) para o fazer corresponder às
especificidades da turma, numa atitude de respeito por todos os alunos e em articulação
com todos os professores da turma.

De facto, é ao nível do PCT que é possível respeitar os alunos reais e articular a


acção dos diversos professores dessa turma (Leite, C., 2000c:6).

À maneira de resumo, pode afirmar-se que estes três projectos possuem como
orientação o currículo nacional, competindo a cada um efectuar as adequações necessárias
ao mesmo e de acordo com o seu âmbito de actuação, sempre em respeito a uma filosofia
de incessante busca da melhoria da actuação educativa.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

4. EVOLUÇÃO NORMATIVA
No século passado assistiu-se a uma quase ausência no plano reformista, ao nível
do Ensino básico, salvo excepções executadas mais com o intuito de reproduzir ideologias
passíveis de perpetuar e suportar os regimes políticos vigorantes.

Segundo Sarmento (1998), a última grande reforma legal do Ensino foi em


1938 em que se previa uma Escola de massas, sustentada por um discurso da passividade e
pelo valor da educação nacional. Ainda segundo o mesmo autor, era exercido um forte
controlo inspectivo e administrativo com o objectivo de intervir ideologicamente, o que em
nada contribuiu para que se efectuassem verdadeiras reformas.

No pós 25 de Abril de 1974 e no prosseguimento de transformações ideológicas, o


conhecido período “pós-revolução” ensaiaram-se processos de verdadeira autogestão,
perante um estado temporariamente em dificuldades para controlar a situação (Stoer, 1986:
138 e ss, Afonso, 1993:141). O estado viria a reagir muito rapidamente e procurou
controlar a situação com diplomas legais sobre gestão escolar que vieram normalizar a vida
das escolas. Em 1976 foi aprovado e posto a funcionar um modelo de gestão escolar (Dec.
- Lei nº 769-A/76) que vigoraria até 1998, ficando conhecido como “gestão democrática
das escolas”, por ter permitido acrescidas responsabilidades de gestão aos actores internos
da escola e instituído o principio da eleição dos dirigentes escolares pelos seus pares. É em
1986 que na perseguição dos princípios orientadores da política educativa portuguesa
definidos na revisão constitucional de 1976, surge uma nova lei de bases do sistema
educativo (Lei n.º 46/86 de 14 de Outubro). Nesta lei começou a ser preparada legislação
que desse execução aos princípios da “integração comunitária dos estabelecimentos de
ensino” e da “participação de todos os implicados no processo educativo”. Foram-se
ensaiando tímidas participações dos pais encarregados de Educação e de outros
representantes da comunidade em certas actividades das escolas.

Recordemos que a administração das Escolas permanece instável desde 1976


até ao aparecimento do D. L. 172/91 de 10 de Maio, aparentemente, para dar cumprimento
às orientações da L.B.S.E. em matéria de administração e gestão escolar. A sua aplicação
iniciada em 1992/93 em cerca de duas dezenas de escolas não ultrapassou a fase
experimental. Até 1998 cerca de pouco mais de meia centena de escolas experimentaram
esse regime de gestão. Apesar de experimental foi a legislação que institucionalizou a
participação dos pais, do município e de representantes dos interesses sociais e económicos

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

e culturais (conselho de escola) onde se aprovava as grandes orientações da escola. Esta


participação acabou por ser “mais simbólica que real” (Barroso, 1991:76).

Em sequência de propostas e estratégias apresentadas num estudo de João


Barroso surge o D. L. n. º 27/97 de 2 de Junho, no qual se prevêem novas modalidades de
reordenamento da rede pré- Escolar e do Ensino Básico e Secundário experimentando
novas formas de associação ou de agrupamento de Escolas, ao mesmo tempo que
preconizava o desenvolvimento do Projecto Educativo de Escola. É na sequência deste
normativo e com base no estudo prévio de João Barroso sobre autonomia e gestão, que
surge o D. L. n.º 115-A/98 de 4 de Maio alterado pela lei 24/99 de 22 de Abril. Este
diploma será alvo de análise detalhada em capitulo posterior, ficando agora em jeito de
ideia de que a autonomia das Escolas e a descentralização, associados a uma nova
organização da educação na mira de uma Escola democrática e da igualdade de
oportunidades se constituem como base fulcral deste normativo.

4.1. LEI N.º 46/86, DE 14 DE OUTUBRO – LEI DE BASES DO SISTEMA EDUCATIVO

Após 10 anos de discussões, avanços e retrocessos com base na Constituição de


1976 surge a lei de Bases do Sistema Educativo (Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro). Esta Lei
confere em grande grau de importância à participação na educação e na gestão das Escolas,
adoptando como princípio organizativo do sistema educativo: “contribuir para desenvolver
o espírito e a prática democráticos, através da adopção de estruturas e processos
participativos na definição da política educativa, na administração e gestão do Sistema
Escolar e na experiência pedagógica quotidiana, em que se integram todos os
intervenientes no processo educativo, em especial os alunos, os docentes e as famílias”
(artigo 3º, b).

No capitulo VI (artigos 43º a 46º) são feitas referencias a princípios e orientações


políticas que derivam directamente da constituição ou se constituem como interpretações
do que ela consagra, das quais se destacam as seguintes:

- Democraticidade e participação envolvendo em graus variados a comunidade escolar, a


comunidade envolvente, a família, as autarquias e outros agentes de desenvolvimento local.

- Descentralização e desconcentração de estruturas com soluções de carácter regional, local e


institucional

- Prevalência de critérios pedagógicos e científicos sobre critérios administrativos.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

No que concerne de forma directa à Escola são apresentadas propostas de


alargamento da participação na direcção a elementos exteriores a esta, mas com
implicações na acção educativa.

Um acto inovador constitui o reconhecimento à Escola na elaboração e aplicação


de um Projecto Educativo de acordo coma sua identidade e tendo em conta o contexto
social em que se insere. É também conferida autonomia institucional em áreas de âmbito
administrativo, financeiro, organizacional, curricular, pedagógico e cultural, como
imperativo de concretização do projecto educativo

Neste âmbito é elaborado um ordenamento jurídico sobre direcção e gestão das


Escolas Básicas e Secundárias, incluindo a educação Pré - Escolar, o Primeiro Ciclo e o
Ensino Especial. Estava assim aberta uma porta por onde saíram outros normativos com
horizontes nos agrupamentos verticais.

A partir deste normativo vai ser abandonada a ideia do modelo de aplicação


experimental a um dado número de Escolas assim como o da legislação com aplicação
imediata para se passar a um modelo em que prevê a adesão progressiva aos novos
modelos de direcção e gestão.

4.2. DECRETO – LEI N.º 43/89, DE 3 DE FEVEREIRO

O Decreto-lei n.º 43/89, de 3 de Fevereiro surge no prosseguimento dos princípios


constantes na lei de bases do Sistema Educativo. Prevê a descentralização regional e local,
o diálogo com a comunidade envolvente e a desregulamentação da administração
educativa, criando assim as condições propícias ao florescimento do Projecto Educativo de
Escola elaborado com a participação dos vários intervenientes no processo educativo,
atendendo às características da Escola comunidade.
Sem dúvida se constituiu como um instrumento para a reorganização da administração
educacional.

4.3. DESPACHO NORMATIVO N.º 27/97 DE 2 DE JUNHO

Como referimos anteriormente o Despacho Normativo n.º 27/97 de 2 de Junho


aparece na sequência de um estudo feito por João Barroso com vista a um novo
ordenamento jurídico de autonomia e gestão das Escolas. Constata-se que face o Decreto-
Lei 172/91, de 10 de Maio, as Escolas possuem capacidade de organização interna numa

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

tendência para desenvolver a dinâmica Escolar, principalmente em torno de projectos


inovadores.

4.4. O DECRETO-LEI N.º 115-A/98 DE 4 DE MAIO – GRANDES LINHAS

Com base no Despacho Normativo n.º 27/97 de 2 de Junho que veio lançar em
regime experimental os agrupamentos de Escolas como nova forma de exercício da
autonomia, surge-nos este diploma.

Em suma: o Decreto-lei n.º 115-A/98 de 4 de Maio, que tem por base um estudo
prévio sobre autonomia da autoria de João Barroso, vem revogar o D. L. n.º 172/91 de 10
de Maio3 que nunca chegou a ser generalizado, assim como o D. L. 769-A/76 de 23 de
Outubro. De facto parece estar-se na presença de uma ruptura com o passado,
nomeadamente com o D. L. 43/89 de 3 de Fevereiro, em que a autonomia era vista como o
cumprimento de normativos legais e que João Barroso (1996) denomina por «autonomia
decretada» para uma evolução conceptual de «autonomia construída» pela própria Escola e
pela comunidade em que se encontra inserida.

Este Diploma, como é referido no seu preâmbulo, menciona como aspectos


fundamentais de uma nova organização da educação, a autonomia de Escola e a
descentralização com o objectivo de concretizar na vida da Escola a democratização, a
igualdade de oportunidades e a qualidade de serviço público de educação. Pode definir-se
como objectivo central, uma nova organização da administração da educação, baseada na
descentralização e no desenvolvimento da autonomia das Escolas, assim como na
valorização da identidade de cada instituição Escolar. Esta identidade de que se fala deve
estar consubstanciada num projecto educativo e na sua organização pedagógica flexível na
mira de melhores aprendizagens para todos os alunos. (Lemos, 2003).

Importa sublinhar a inovação que constitui a possibilidade de celebração de


contratos de autonomia com base em processos de negociação a nível local tendo como
parceiros a Escola, as Direcções Regionais de Educação, a Câmara Municipal, e com vista
o desenvolvimento e aprofundamento da autonomia (Lemos, 2003). O regime de
autonomia assenta no pressuposto de que será a comunidade educativa, através da
assembleia “órgão de participação e representação da comunidade educativa”, a principal
depositária das novas competências a serem transferidas pela administração e com funções

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Estabelece o novo regime de direcção, administração e gestão dos estabelecimentos de educação pré-
Escolar e dos Ensinos básico e Secundário.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

de definição das grandes orientações da escola. Serão criados pelos municípios embora de
forma desenquadrada os Conselhos Locais de Educação previstos na lei.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

5. CONCLUSÃO
Escolas/ Agrupamentos construíram o seu projecto educativo na base do
cruzamento de perspectivas e posições diversas (professores/as, alunos/as, pais, agentes da
comunidade) na base do diálogo dentro da escola e desta para a comunidade.

Passados alguns anos sobre o Decreto-Lei 115-A/98 de Maio, existe a opinião


generalizada dos professores, dos alunos, dos encarregados de educação, das autarquias, de
especialistas na educação e também de alguns estudos sobre o caso de que a autonomia não
funciona e só está no papel.

Se houve as condições necessárias para que a autonomia fosse realmente


implementada nas escolas, então o que falhou?

É reconhecido por todos que a máquina do Ministério da Educação é tenaz e


burocrática e não consegue desenvencilhar-se dos seus próprios tentáculos habituados ao
poder. Sendo assim, não quer deixar que as próprias escolas decidam por elas, e então
continuam a ser geridas pelos decretos-lei, despachos e circulares, ofícios e outros
diplomas que de uma forma mais ou menos directa vão condicionando o modo de actuação
das escolas / agrupamentos.

Também se reconhece que a falta de iniciativa e a falta de capacidade de tomar


decisões da actual gestão das escolas é um facto evidente, não sabendo ou não querendo
tomar outro rumo que não seja as orientações do Ministério da Educação, continuando-se
assim com um seguidismo ao centralismo do Ministério da Educação.

Os órgãos que o próprio e decreto – lei implementou como as Assembleias de


Escola e os Conselhos Locais de Educação, nada fizeram para que essa autonomia fosse
conquistada. É legitimo afirmar que as assembleias de escola ainda não sabem bem qual o
seu papel e não passam de mais um órgão decorativo das escolas. Também é reconhecida a
sua dificuldade para reunir com todos os elementos que a constituem, sendo por isso um
órgão com pouca ou nenhuma intervenção na escola.
Por tudo isto, outra questão que se levanta é a de que se realmente as autarquias
juntamente com as assembleias de escola e conselho municipal da educação querem
mesmo ter essa responsabilidade nas grandes orientações da escola e na condução da
autonomia da escola / agrupamento?

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

Não existe uma conclusão definitiva num processo de vários intervenientes em que
todos têm a sua cota de responsabilidade e que para se apurar melhor devia ser muito mais
aprofundado.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

6. BIBLIOGRAFIA

6.1 LIVROS DE CONSULTA.


BARROSO, J.(1996). Autonomia e Gestão das Escolas. Lisboa: Ministério da Educação

CARVALHO, R.(2001). História do Ensino em Portugal. Desde a Fundação da


Nacionalidade até ao regime de Salazar-Caetano. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian (3ª Ed.).

CASTRO, E. (1995).O director de Turma nas Escolas Portuguesas – O desafio de uma


multiplicidade de papeis. Porto: Porto Editora.

LIMA, L. (1992). A Escola como Organização e a Participação na Organização Braga:


Instituto de Educação da Universidade do Minho

LEMOS, J. & SILVEIRA T. (2003). Autonomia e Gestão das Escolas. Porto: Porto
Editora.

LEITE, C. e GOMES, L. e FERNANDES, P. (2001). Projectos Curriculares de Escola e


Turma. Conceber, gerir e avaliar. Porto: Edições ASA.

LIMA, L. (2000). Organização Escolar e Democracia Radical. Paulo Freire e a


Governação Democrática de Escola Pública. São Paulo: Instituto Paulo Freire

PEIXOTO, M. e OLIVEIRA, V. (2003). Manual do Director de Turma - Contextos,


Relações; Roteiros. Porto: Edições ASA

PACHECO, J. (2001) Currículo: Teoria e Praxis. Porto: Porto Editora

ROLDÃO, M. (1999), Gestão Curricular. Fundamentos e práticas. Lisboa: ME/DEB.

SARMENTO, M. (1999). Autonomia da escola – Políticas e práticas. Porto: Edições Asa

ZABALA, A. & CARMEN, L. (1991). Guia para la Elaboratión, Seguimento y


Valoración de Proyectos curriculares de centro. Madrid: C.I.D.E.

6.2 ARTIGOS
BARROSO, J. (…). Projecto REGULEDUCNETWORK . Organização e Regulação do
Sistema Educativo: Sentido de uma Evolução. Texto policopiado.

LEITE, C. (2000c) “Projecto educativo de escola, projecto curricular de escola, projecto


curricular de turma. O que têm em comum? O que os distingue? Fátima: Texto poli
copiado.

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Projecto Educativo, um caminho rumo à Autonomia.

6.3 LEGISLAÇÃO
Decreto-Lei n.º 769-A/76, de 23 de Outubro

Decreto-Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro (LBSE)

Decreto-Lei n.º 43/89, de 3 de Fevereiro

Decreto-Lei n.º 172/91, de 10 de Maio

Despacho Normativo nº 27/97, de 2 de Junho

Decreto-Lei n.º 115-A/98, de 4 de Maio

6.4 INTERNET
http://www.malhatlantica.pt/curriculo/

http://www.malhatlantica.pt/curriculo/indice_tex_legis.htm

http://educar.no.sapo.pt/PARADIGM.htm

http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=685

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