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Rússia: Ascensão e Queda de um Império 1

2 João Fábio Bertonha


Rússia: Ascensão e Queda de um Império 3

RÚSSIA
ASCENSÃO E QUEDA DE UM IMPÉRIO

UMA HISTÓRIA GEOPOLÍTICA E MILITAR DA

RÚSSIA, DOS CZARES AO SÉCULO XXI


4 João Fábio Bertonha

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Bertonha, João Fábio.


B??? Rússia: ascensão e queda de um império./ João Fábio
Bertonha./ Curitiba: Juruá, 2009.
180 p.

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Rússia: Ascensão e Queda de um Império 5

João Fábio Bertonha

RÚSSIA
ASCENSÃO E QUEDA DE UM IMPÉRIO

UMA HISTÓRIA GEOPOLÍTICA E MILITAR DA

RÚSSIA, DOS CZARES AO SÉCULO XXI

Curitiba
Juruá Editora
2009
6 João Fábio Bertonha
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 7

Para meus filhos: Isabela e Bruno.


8 João Fábio Bertonha
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 9

AGRADECIMENTOS
Apesar da decisão de escrever o presente livro ser relati-
vamente recente, meu interesse pela história russa e, especialmen-
te, pelos seus aspectos geopolíticos e militares, tem, pelo menos,
uns dez anos. Nesse longo período, aproveitei todas as oportunida-
des que tive para, mesmo no meio de outras pesquisas, aprofundar
meus conhecimentos a respeito desse tópico.
Nesse esforço, inúmeras instituições, no Brasil e no exte-
rior, me forneceram a infraestrutura necessária para tanto e seria
cansativo mencionar a todas aqui. Do mesmo modo, um levanta-
mento de todos os amigos e colegas com quem debati e discuti os
temas presentes neste livro seria quase impossível. Desta forma,
me limito a agradecer as pessoas diretamente envolvidas na reda-
ção e na formatação do presente trabalho.
Em primeiro lugar, agradeço aos meus alunos dos cursos
de História Contemporânea I e II da Universidade Estadual de
Maringá (UEM) entre 1999 e 2007, os quais serviram de “cobaia”
para algumas das teorias e ideias desenvolvidas aqui. Também
meus orientandos de graduação e mestrado se dispuseram a ler,
mesmo quando trabalhando com temas totalmente diversos, a pri-
meira versão, assim como os alunos e colegas do “Laboratório de
Estudos do Tempo Presente” da UEM, trazendo colaborações para
o aprimoramento do texto.
Um agradecimento especial, também, aos Embaixadores
Jerônimo Moscardo (Presidente da Funag) e Carlos Henrique
Cardim (Diretor do Instituto de Pesquisa em Relações Internacio-
nais), pelo convite para participar da II CNPEI (Seminários prepa-
ratórios: Rússia), em 28.06.2007. Neste evento, no Palácio Itama-
raty, no Rio de Janeiro, pude aprofundar várias das reflexões men-
cionadas neste texto, além de conhecer vários dos autores citados.
Foi uma oportunidade única, que só posso agradecer.
10 João Fábio Bertonha

Sidnei Munhoz, meu contínuo interlocutor no campo da


história contemporânea e das relações internacionais e meu amigo,
foi um leitor especialmente atento, colaborando imensamente para
a melhoria do texto, pelo que muito lhe agradeço.
Sidnei também me colocou em contato com os ex-diplo-
matas e especialistas em relações internacionais russos Alexander
e Elena Zhebit, atualmente no Rio de Janeiro. Estes, com os seus
amplos conhecimentos da história e da inserção internacional da
Rússia, fizeram uma leitura incrivelmente minuciosa do primeiro
manuscrito, me ajudando a localizar erros, corrigindo imprecisões
e me impedindo de cometer erros interpretativos que seriam quase
inevitáveis para um não russo.
Eles também me indicaram bibliografia e me chamaram a
atenção para a necessidade de compreender os diferentes momen-
tos da inserção internacional da Rússia, ressaltando as continui-
dades, mas sem esquecer as mudanças. Do mesmo modo, me aler-
taram como é possível e necessário utilizar o pensamento geopolí-
tico e estratégico para compreender a história russa, mas ressal-
tando o fato que ele não pode ser superestimado e nem colocado
como fator explicativo único para essa história. Enfim, apesar de
estar claro que não absorvi todas as críticas deles e que a respon-
sabilidade por esta versão final é minha, ela ficou muito melhor
que as iniciais graças ao seu empenho, pelo que lhes sou imensa-
mente grato Alexander também aceitou escrever uma apresentação
para este livro, o que muito me honra.
Por fim, a meus filhos Isabela e Bruno e, como sempre, à
Luciane, sem os quais não saberia mais viver e que têm toda a pa-
ciência com minhas contínuas viagens e com minhas horas no es-
critório. Este livro, como todos os outros, é para vocês.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 11

PREFÁCIO
O tema de impérios é um dos tópicos mais fascinantes e
também recorrentes na literatura especial histórica, política e cul-
tural. Autores de diferentes matizes, correntes e escolas científicas
vêm analisando com curiosidade e perplexidade o enigma de impé-
rios. Desde os clássicos, como Tucídides e Ibn Khaldun, até os
autores contemporâneos, como Raymond Aron e Paul Kennedy, o
nascer e o ocaso dos impérios provocam um inelutável ímpeto de
olhar por detrás dos bastidores da intrigante e mística vida de um
império, como quem que quisesse saber algo íntimo e picante sobre
a vida de uma personalidade importante, de uma figura pública
cuja vida privada está escondida de um olhar particular.
Desde o Império Romano até o chamado império ameri-
cano, o veredicto dos estudiosos para com os impérios não é muito
diferente. Tout empire périra! (Todo império perecerá!) Assim se
denomina a obra de Jean-Baptiste Duroselle, que se dedica ao es-
tudo da política internacional em que impérios ocupam um lugar
de destaque. Eles não são eternos, eles nascem e morrem e suas
ascensões, declínios e sucessões se entrelaçam intimamente com
destinos heróicos ou humilhantes, triunfantes ou tristes dos seus
feitores – povos e comunidades, governos e governantes, famílias e
indivíduos, homens e mulheres. O tema fascina Raymond Aron em
seu République Impériale. Les États-Unis dans le monde (1945-
1972). É ele quem sabiamente distingue o imperialismo clássico de
um comportamento imperial, a diplomacia imperialista da diplo-
macia imperial. O mesmo assunto cativou Immanuel Wallerstein
(O declínio do império americano) e Emmanuel Todd (Depois do
Império): para os dois os Estados Unidos da América, um império
universal, segue o caminho de todo e qualquer império conhecido
na história.
Todavia, o interesse do público ao tema dos impérios nun-
ca se extingue. Todo mundo sabe que, mesmo que os impérios so-
12 João Fábio Bertonha

mem, os ímpetos, as saudades, os costumes e as práticas imperiais,


vestidas em trajes pós-imperiais ou neo-imperiais persistem du-
rante anos, décadas ou mesmo séculos. Nesta ordem de livros se
encaixa o ensaio de João Fábio Bertonha, que persegue o objetivo
de submeter a história russa a este exame imperial, perpassando o
contexto do Império Russo, da União Soviética e mesmo da Rússia
pós-soviética, como diz o título “Rússia: Ascensão e Queda de um
Império. Uma história geopolítica e militar da Rússia, dos czares
ao século XXI”.
O nome “império” cabe à história russa como luva, não
apenas porque a Rússia já era um grande império, uma potência
mundial, mas também em virtude de sua imensidão territorial
atual, sua infinidade eurasiática e não menos pela razão de sua
história de superpotência comunista no decorrer da Guerra Fria.
Porém, a História da Rússia deixará de ser compreendida se o im-
pério russo for dissociado da “ideia russa” ou se ela for relegada
ao segundo plano. Os acontecimentos como a defesa das terras
russas contra a invasão das ordens livônicas, o apaziguamento dos
invasores tártaro-mongóis, numa combinação genial do militar e
diplomata Alexandre Nevskyi, a reunificação das terras russas na
época do Ivã Kalitá, a batalha de Kulikovo em 1380 moldam a
matriz da política do Estado de Moscou e posteriormente do Impé-
rio Russo. “O estado de Moscou iniciou a sua ascensão no século
XVI sob a pressão do jugo externo e se estruturou e se expandiu
durante todo esse período na luta pela sobrevivência no oeste, no
sul e no sudeste”, escreve Vassilyi Klutchevsky. A “sobrevivência”
significa a consolidação da unidade nacional frente à expansão da
Livônia e da Polônia no oeste, a disseminação da fé ortodoxa no
sudeste, a luta contra a invasão otomana no sul.
A “ideia russa” perpassa a história russa mediante a per-
cepção de um caráter singular da Rússia, herdeira do legado do
Império Romano oriental. Diz a carta do Czar Ivã III, o Grande:
“.... as duas Romas caíram, a Terceira está em pé e a Quarta não
haverá...”. Passados os anos dolorosos da época de Smuta, o rei-
nado do Czar Alexei Mikhailovich marca uma evolução da Rússia
em direção a um maior poder, através da reserva de uma seguran-
ça maior, sobretudo territorial, o que não exclui a diplomacia, o
comércio ou simples expansão natural, como aconteceu no caso da
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 13

Sibéria Ocidental e Oriental, criando um caminho que será traça-


do pelo Pedro I, pela Catarina II, pelo novo imperialismo do sé-
culo XIX, que provocou a guerra russo-japonesa de 1904-1905 e
parcialmente a Grande Guerra.
Respeitando as noções da geopolítica tão fortemente rela-
cionadas pelo autor à história russa e aceitando a relevância da
geopolítica para esta história, vimos sustentar a ideia de que a sua
função não pode ser superestimada nem mesmo em relação à his-
tória russa. O espaço da Rússia, como diz o próprio autor, criou-se
devido à expansão natural e aos descobrimentos territoriais e ma-
rítimos, incluindo o Alaska e o sudoeste da Califórnia. A posterior
“corrida imperialista” da segunda metade o século XIX se encaixa
no perfil imperial de maneira parcial, movida pelo fortalecimento
de segurança em relação ao Império Otomano, pelos interesses
econômicos na Ásia Central e no Tibet e pela consolidação territo-
rial e pela política de desenvolvimento do espaço russo através do
“imperialismo ferroviário”. Portanto, as razões, levantadas por
Serguei Iulievich Witte, para justificar a construção da Transsibe-
riana, são de natureza econômica e desenvolvimentista. Ele, o pri-
meiro ministro do governo de Nicolau II, chama a obtenção das
concessões de produção madeireira na Coreia, de “aventura de
Bezobrazov e Cia.”, provocando a reação dos japoneses, incenti-
vados pelos britânicos.
As nuances que distinguem o “imperialismo soviético” do
imperialismo russo não são tão distintos, pelo contrário, têm muito
em comum. Pode-se interpretar o imperialismo soviético como o
caso clássico de expansionismo. Do ponto de vista realista, a ocupa-
ção da Europa Oriental em 1944-1945 deveria ser uma ação impe-
rialista da imposição de domínio direto sobre a parte da Europa
pela União Soviética. No entanto, se olharmos a presença militar
soviética como garantia de segurança, a manutenção das forças
armadas na Polônia, RDA, Tchecoslováquia, Hungria, no âmbito
do Tratado de Varsóvia, tem uma razão e surge como uma reação,
durante a Guerra Fria, ao desafio estratégico ocidental. As inter-
venções na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968) se encai-
xam no confronto bipolar na Europa. A intervenção no Afeganistão
(1979) visa à estabilidade política de um país sacudido pelo con-
flito intestina nos anos 70, um fator de preocupação para a lide-
14 João Fábio Bertonha

rança do partido comunista soviético que tomou a decisão de con-


sequências sérias, senão fatais, para os destinos da União Soviéti-
ca, provocando um substancial declínio do poder.
Havia uma diferença entre o império russo e o regime da
época comunista? O messianismo comunista mesclou-se fortemente
com a ideia russa durante o stalinismo, só olhar como foram
amarguradas as relações entre a União Soviética e a China, quan-
do a última declarou a pretensão de liderar o movimento comunista
internacional nos anos 50. Na Rússia de hoje vem se travando um
debate em torno das similitudes e das diferenças entre um império e
uma federação, nos moldes de uma diferenciação entre a União
Soviética e a Rússia pós-comunista. Pode-se depreender desse de-
bate que a Rússia pós-comunista tem traços de semelhança com o
império russo como a União Soviética também teve. Porém, o fede-
ralismo, que não deve ser confundido com imperialismo e que pos-
sui estruturas semelhantes e usa mecanismos parecidos, é um ins-
trumento político cuja sintonização com os interesses dos sujeitos
jurídicos da federação passa por dificuldades nos domínios jurídi-
co, político, econômico, cultural e de segurança da nova Rússia. A
sensação de que a dissolução da União Soviética foi uma “tragé-
dia” tornou-se um chavão, usado tanto por políticos quanto por
leigos. Um saudosismo pelos velhos bons tempos está presente nos
programas de alguns partidos. As expressões de nacionalismo
étnico são banidas e rotuladas ilegítimas não apenas porque a
secessão é proibida pela constituição russa, mas também porque o
fantasma da implosão soviética continua assombrando a opinião
pública nacional. As guerras da Chechênia são tidas como a ma-
nutenção da integridade territorial e a defesa da soberania russa,
ou seja, o fantasma que paira é sempre o mesmo: segurança nacio-
nal. Quer a expansão da OTAN nos anos 90 e 2000, quer o enfra-
quecimento do regime de não proliferação e de controle aos ar-
mamentos nucleares, quer a agressão da Geórgia contra a Os-
siêtia do Sul, tudo encontra a sua explicação dentro do contexto
da segurança. Enfim, é a essência da história russa, que perdeu
durante as Guerras Mundiais e em consequência das perseguições
dezenas de milhões de pessoas.
Em todas as perguntas onde aparece a comparação, a po-
lítica da Rússia, interna ou externa, é vista sob a suspeita de impe-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 15

rialismo. Será que é uma maldição da política do Império ou uma


visão de qualquer potência regional ou mundial que é avaliada
com suspeita, tremor e apreensão pelos atores internacionais inse-
guros ou agressivos. Em que a União Soviética e os Estados Uni-
dos eram diferentes, na época da Guerra Fria, se olharmos para
eles através do prisma da análise imperial?
O livro de João Fábio Bertonha abrange um grande lapso
de tempo, ou seja, vários séculos. Se a história do Império Russo
dos séculos XVI-XIX oferece fundamentos e opiniões assentadas e
consolidadas, escrever sobre a história soviética, sobretudo militar,
não é fácil, até é uma tarefa ingrata, porque a história da União
Soviética ainda está em formação, os documentos vêm sendo
“abertos” e descobertos, disputas entre as escolas historiográficas
velhas e novas de historiografia ficam pegando fogo. Portanto, as
referências às fontes ocidentais, sobre os quais o presente livro
está majoritariamente baseado, com a ênfase sobre a obra, aliás,
seminal de Paul Kennedy “Ascensão e queda das grandes potên-
cias”, ajudam a construir uma versão da história soviética que, no
entanto, estará paulatinamente corrigida. A história da Revolução
de 1917 e da Guerra Civil já teve várias contribuições que reuni-
ram a documentação do movimento “branco” e novos arquivos da
Rússia. A história militar da Guerra Pátria (1941-1945) está em
processo de reconstrução, com muitas “manchas brancas” apare-
cendo. A Época da Estagnação continua desafiando historiadores,
a Perestroika ainda não se livrou de nexos ideológicos, enquanto a
avaliação do governo de Yeltsin fica sendo pintada em cores cinza
e preta. O livro nos aproxima às colocações de várias perguntas
que precisam ser respondidas.
As referências ao papel das forças armadas do Império da
Rússia na Primeira Guerra, da URSS na Segunda Guerra e da
Rússia Soviética e da Rússia nos conflitos pós-Segunda Guerra
Mundial permitem focar sobre as razões que não evidenciam o
imperialismo, mas testemunham as manifestações de patriotismo,
dedicação e abnegação da população russa, soviética e novamente
russa em confrontos com agressores, nos quais foram decididos os
destinos da Rússia, como a Guerra Patriótica de 1812, a humi-
lhante paz de Brest-Litovsk, a invasão nazista de 22.06.1941 e a
vitória sobre o nazismo em 09.05.1945.
16 João Fábio Bertonha

Os últimos capítulos do livro situam a Rússia dentro dos


contextos políticos, econômicos, militares transformacionistas que
acompanham a transição da Rússia no mundo de hoje em função
da globalização, da interdependência, da regionalização, da pro-
liferação das novas ameaças, da exacerbação dos problemas glo-
bais que a humanidade enfrenta, das novas crises que se vislum-
bram nos horizontes futuras.
Entendo que situar a Rússia, mesmo em casos aparente-
mente simples, é complicado. Lembremos as palavras de Bis-
marck: “A Rússia nunca é tão forte ou tão fraca quanto parece”.
Não importa qual é o grau de ruptura que a Rússia já enfrentou
ou poderá enfrentar no decorrer de sua história, o que une o povo
russo e os povos da Rússia é sua cultura, sua crença milenar, sua
experiência histórica trágica e educadora, que se resume em tais
palavras como “resistência a tribulações”, “paciência” e “fé”.
O livro de João Fábio Bertonha é maduro, sólido, basea-
do em fontes sérias e fidedignas e apresentará aos leitores do pú-
blico geral e especializado um relato consequente, estruturado
sobre a história contemporânea e militar, sobre a trajetória da
Rússia nesta história.

Prof. Dr. Alexander Zhebit


CFCH/UFRJ
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 17

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .................................................................................................19
Capítulo 1 – A formação territorial e a expansão imperialista russa até a
Primeira Guerra Mundial..........................................................23
As origens da Rússia.........................................................................................23
Da Moscóvia à Rússia Imperial........................................................................25
Pedro, o Grande, e a busca da modernidade .....................................................28
As guerras napoleônicas ...................................................................................30
O expansionismo russo na Europa e na Ásia no século XIX............................31
A guerra da Crimeia (1854-1856) ....................................................................35
O conflito com o Japão (1904-1905) ................................................................37
Capítulo 2 – Economia e Política no Século XIX Russo.................................39
A Rússia em 1815.............................................................................................39
Uma grande potência? ......................................................................................40
A revolução militar do século XIX...................................................................41
A Rússia e as mudanças econômicas e militares do século XIX ......................42
A Rússia em 1914: o colosso com pés de barro ...............................................47
Capítulo 3 – A Rússia na Primeira Guerra Mundial .....................................53
A Rússia e a política de poder européia entre os séculos XIX e XX ................53
A Rússia na guerra: mobilização e operações de guerra – 1914-1915 .............55
A ofensiva Brusilov e o colapso do Exército russo – 1916-1917 .....................57
A Rússia na Primeira Guerra Mundial: uma avaliação.....................................62
Capítulo 4 – A União Soviética.........................................................................69
Perdas territoriais e guerra civil – 1917-1920...................................................69
Reconstrução do poder industrial e militar – 1921-1941..................................72
A URSS na Segunda Guerra Mundial ..............................................................78
A vitória soviética na Segunda Guerra Mundial...............................................84
Capítulo 5 – A União Soviética na Guerra Fria..............................................91
A nova paisagem geopolítica: EUA e URSS entre 1945 e 1950 ......................91
A URSS na Guerra Fria: Cerco geopolítico e expansionismo ..........................94
18 João Fábio Bertonha

A corrida armamentista e o complexo industrial militar soviético ...................97


A decadência econômica e as reformas de Gorbachev ...................................107
Capítulo 6 – O colapso de um Império: a Rússia nos anos 90 .....................111
O fracasso da política de reformas e o fim da URSS......................................111
Perdas territoriais e decadência imperial ........................................................117
Declínio econômico ........................................................................................120
Colapso militar ...............................................................................................123
Capítulo 7 – A Rússia de Putin e além...........................................................127
Política: a volta do autoritarismo ....................................................................127
Recuperação e (ir)relevância econômica ........................................................131
Problemas sociais e crise demográfica ...........................................................134
O poder militar russo no início do século XXI ...............................................136
A desintegração da Federação Russa? ............................................................142
Capítulo 8 – A Rússia e o mundo no século XXI...........................................147
A política externa russa: o “exterior próximo” ...............................................147
A Rússia e o mundo........................................................................................158
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................163
REFERÊNCIAS ................................................................................................171
SOBRE O AUTOR ...........................................................................................177
ÍNDICE ALFABÉTICO....................................................................................179

Mapas
Mapa 1 – Expansão russa no século XVI ........................................................26
Mapa 2 – Expansão do Império russo no Cáucaso (1763-1914) .....................32
Mapa 3 – Expansão do Império russo na Sibéria e Ásia Central (1689-
1914)................................................................................................33
Mapa 4 – Regiões industriais e rede ferroviária na Rússia europeia no
início do século XX .........................................................................45
Mapa 5 – A Rússia na Primeira Guerra Mundial.............................................61
Mapa 6 – Ofensivas do Exército Vermelho em 1942-1945.............................82
Mapa 7 – Os blocos soviético e ocidental nos anos 40 e 50 e a crise
cubana de 1962 ................................................................................95
Mapa 8 – Etnias na URSS na década de 1980 ...............................................113
Mapa 9 – Os Estados sucessores da URSS ....................................................117
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 19

INTRODUÇÃO

Primeira cena, 1999: Cem mil soldados russos, apoiados


por aviões, helicópteros de ataque, blindados e artilharia pesada,
reduzem a cinzas a pequena república separatista da Chechênia.
Aparentemente, os russos demonstraram o enorme poder de fogo de
suas Forças Armadas.
Segunda cena, 2005: Começam manobras militares entre
a China e a Rússia na região do Pacífico. Aparentemente, Moscou
e Pequim se unem para desafiar a grande superpotência norte-
-americana.
Terceira cena, 2007: Irritado pela instalação de mísseis
antibalísticos norte-americanos na República Tcheca e Polônia, o
governo russo ameaça denunciar os tratados de desarmamento na
Europa assinados nos anos 90. Aparentemente, o fantasma da Guer-
ra Fria está de volta.
Esses três “aparentemente” nos parágrafos de cima não são
ocasionais. De fato, longe de demonstrar a força e o poder da Rús-
sia, a campanha da Chechênia e as bravatas russas sobre a sua ca-
pacidade de enfrentar os Estados Unidos são, na verdade, menos
prova de força e mais da fraqueza da Rússia atual.
Realmente, para qualquer um que estude a história mun-
dial nos últimos séculos e, mais especialmente, tenha acompanha-
do o noticiário internacional nas décadas posteriores à Segunda
Guerra Mundial, a referência à Rússia ou à União Soviética seria
quase obrigatória. Todas as outras potências – seja ela a França do
século XVIII, a Inglaterra do século XIX ou os Estados Unidos no
século XX – não podiam ignorar a opinião de Moscou e, na época
da Guerra Fria, todos sabiam, ao acompanhar o noticiário na TV
ou através dos jornais, que o ponto de vista do Kremlin seria sem-
pre mencionado, logo depois, ou mesmo antes, do da Casa Branca.
20 João Fábio Bertonha

Hoje, contudo, a situação mudou radicalmente. A Rússia


continua a ser uma grande potência e os sinais de sua recuperação
são evidentes, mas não é mais nem sombra do que foi. A voz do
governo russo está crescendo, mas ainda não tem o eco de décadas
atrás. Como é possível tal situação quando, meros quinze anos
atrás, o poder russo ainda atemorizava o mundo?
Na verdade, o processo de ascensão e queda das grandes
potências não é nada novo na História. Antigos países que domina-
ram a política mundial e eram grandes potências militares (como a
Inglaterra, a Espanha e a França) hoje foram reduzidos a potências
de segunda categoria, enquanto outros, como os Estados Unidos,
ascenderam. Mesmo em termos econômicos, a situação nunca é está-
vel e países antes ricos, como a Argentina e o Uruguai, são atual-
mente pobres, enquanto a China cresce em ritmo acelerado. Enfim,
a oscilação das nações no ranking de riqueza, poder e influência
não é nenhuma novidade.
No caso russo, o que impressiona e causa interesse é a ve-
locidade com que o processo aconteceu. Além disso, o colapso do
Império russo nos interessa especialmente por estar ocorrendo em
nosso tempo, gerando efeitos e problemas com que teremos que
conviver durante os próximos anos, senão décadas. Sendo assim,
compreender o processo de ascensão e queda do Império russo pa-
rece uma necessidade.
Nesse sentido, esse livro tem o objetivo de ser uma introdu-
ção a esta temática, utilizando a história russa para compreender os
dilemas da Rússia contemporânea. Ele não se pretende, contudo, uma
história completa da sociedade ou do povo russos. Se quiséssemos
escrever tal história, várias questões abordadas apenas lateralmente
nesse livro, como a questão agrária na Rússia, a história do Partido
bolchevique e da ideologia comunista, as lutas sociais no período
czarista e outras deveriam ser aprofundadas, o que não é o caso.
Realmente, é importante deixar claro que não pretendo
abordar em detalhes certos tópicos da história russa (especialmente
no período soviético), como o regime stalinista, a ideologia leni-
nista e as diversas revoluções de 1917, entre outros, sobre os quais
já existe uma bibliografia considerável em português. Qualquer
leitor pode encontrar, sem dificuldades, nesta bibliografia, material
para aprofundamento a respeito desses assuntos, o que me exime de
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 21

abordá-los além do mínimo necessário para o desenvolvimento do


meu argumento.
Do mesmo modo, outros tópicos mais gerais, como as ori-
gens das duas guerras mundiais ou os dilemas do mundo globaliza-
do, também serão vistos apenas para dar o contexto preciso da atua-
ção russa no mundo, sem o exame de todos os desdobramentos e
debates que deles fazem parte.
Em resumo, este é um livro com um foco bastante preciso,
ou seja, a inserção internacional da Rússia nos últimos séculos, com
ênfase na sua história militar e geopolítica, partindo da época dos
czares e chegando ao momento atual, no início do século XXI. A
questão da formação territorial da Rússia e a ida e vinda das suas
fronteiras será especialmente trabalhada, assim como o relaciona-
mento do Estado russo com o resto do mundo e as guerras em que o
país se envolveu nos últimos séculos.
Nesse sentido, o primeiro capítulo apresentará um panorama
geral da formação da Moscóvia imperial e do Estado imperial russo e
da sua expansão em direção à Ásia e à Europa, desde a época moder-
na até o início da Primeira Guerra Mundial. Os principais conflitos
em que o Estado russo se envolveu nesse processo, como as guerras
napoleônicas e as da Crimeia e do Japão, também serão apresentados.
Teremos, assim, o pano de fundo factual a partir do qual poderemos
compreender os dilemas estratégicos e militares com que a Rússia se
defrontava entre fins do século XIX e inícios do século XX. No ca-
pítulo segundo, tais dilemas serão explorados em profundidade, en-
quanto o terceiro estudará o momento em que a Rússia imperial foi
realmente colocada à prova, ou seja, a Primeira Guerra Mundial.
Os capítulos seguintes abordarão a formação da União So-
viética, a sua participação na Segunda Guerra Mundial e o conflito
com os Estados Unidos durante a Guerra Fria, focalizando especial-
mente os problemas geopolíticos e militares enfrentados pelos sovié-
ticos. Por fim, analisar-se-á o colapso do sistema soviético, com o
consequente retorno do Estado russo ao cenário internacional.
Os dois últimos capítulos se concentram justamente nessa
nova Rússia e procuram fazer um diagnóstico dos seus atuais ele-
mentos de poder e das suas condições econômicas, militares e es-
tratégicas neste século XXI. As perspectivas de atuação geopolítica
22 João Fábio Bertonha

da Rússia e sua inserção dentro do sistema de grandes potências


atual serão especialmente enfocadas.
Percebe-se, assim, que a densidade do texto aumenta à
medida que nos aproximamos do momento atual, com mais espaço
sendo dedicado, por exemplo, aos últimos dez anos da história rus-
sa do que às centenas do período czarista. Tal opção nos parece
conveniente para um trabalho que não se pretende um grande trata-
do geral sobre a História russa, mas que procura utilizar elementos
desta História para explicar os dilemas e problemas da Rússia hoje.
Cumpre ressaltar, ainda, uma vez que este é um livro vol-
tado centralmente a um público sem muita familiaridade com a
história russa, ou seja, o brasileiro. Assim, certas referências ou
informações históricas que seriam absolutamente desnecessárias
para um público russo ou mesmo europeu terão que ser, aqui,
acrescentadas. Do mesmo modo, este é um livro que se pretende
voltado ao público não especializado ou que se inicia no estudo da
História das Relações Internacionais.
O próprio formato do texto, corrido, sem notas e remeten-
do à bibliografia final para a fonte das informações utilizadas no
mesmo, indica esse seu caráter mais geral e o esforço para atingir
um público mais amplo. Realmente, não faria realmente sentido em
sobrecarregar um livro como este com uma imensa massa de refe-
rências ou notas que dificultariam a sua leitura.
Além disso, como este é um trabalho que utiliza larga-
mente fontes estatísticas e factuais de domínio público e/ou vincu-
ladas pela mídia – escrita, televisiva e no espaço virtual – nos anos
recentes, nem sempre foi possível ou necessário citar a origem das
informações. Apenas quando foi completamente inevitável, para
evitar o plágio, citar o autor de alguma opinião ou dado, isso foi
feito. E, mesmo assim, preferiu-se, nesses casos, utilizar o sistema
autor-data, que permite uma maior fluidez do texto.
Enfim, o objetivo deste livro é entender como e porque a
Rússia cresceu a ponto de se tornar um grande Império, as razões
da sua decadência e o impacto tanto dessa ascensão quanto dessa
queda dentro da história das relações internacionais, nos últimos
séculos, o que é uma tarefa essencial para quem quer compreender
não apenas a Rússia, como o próprio mundo em que vivemos.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 23

Capítulo 1

A FORMAÇÃO TERRITORIAL E A
EXPANSÃO IMPERIALISTA RUSSA
ATÉ A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

AS ORIGENS DA RÚSSIA

Não existe um consenso sobre as origens das várias tribos


e grupos que compartilhavam a língua e a cultura eslava. O que é
conhecido é que, por volta de 800 anos antes de Cristo, tribos esla-
vas habitavam a região que agora é a Rússia central (que eles co-
nheciam como Rus), disputando território, por séculos, com outras
tribos que também haviam se instalado na região, assim como com
invasores vindos das profundezas da Ásia.
Por volta de 200 d.C., tribos germânicas, como os godos, e
de origem asiática, como os hunos, controlaram o território eslavo.
A partir do momento em que as primeiras adentraram o Império
Romano e as segundas foram derrotadas por este, os eslavos se ex-
pandiram pela região que hoje é a Europa Oriental. Conflitos dos
eslavos, divididos em vários reinos e grupos, com tribos asiáticas,
como os avaros, e com o Império bizantino marcaram os séculos
seguintes.
Por volta do século 9 d.C., guerreiros e mercadores escan-
dinavos, os vikings, atingiram o território dos eslavos e consegui-
ram criar um Estado, conhecido como o da Rússia de Kiev, com
24 João Fábio Bertonha

sede justamente nesta cidade. Sob a liderança de vários reis, esse


reino tornou-se, por volta de 1030, o maior Estado em área territo-
rial da Europa, submetendo a maioria dos povos eslavos e mesmo
algumas tribos de outras origens.
Em 988, um importante acontecimento marcou a história
do povo russo: a conversão ao Cristianismo. Antes pagãos, os esla-
vos foram progressivamente se convertendo e, nesse ano, o Cristia-
nismo foi oficialmente adotado como religião oficial pelo Príncipe
Vladimir, do Reino da Rússia de Kiev.
No entanto, enquanto poloneses, croatas e outros eslavos
se tornaram católicos romanos, sérvios, búlgaros e russos se torna-
ram, depois do cisma de 1054, católicos ortodoxos, mais próximo
da herança bizantina. Os bizantinos, aliás, foram especialmente
importantes na formação cultural, linguística e religiosa dos eslavos
do oriente, entre os quais os russos. Cristalizou-se, nesses anos,
assim, uma divisão cultural e religiosa dentro do mundo eslavo (e
sobretudo dentro do mundo cristão) que marcaria a história desses
povos nos séculos futuros.
Nos dois séculos seguintes, o que ficou conhecido como o
“primeiro Império russo” dividiu-se novamente em vários principa-
dos, o que enfraqueceu o poder do reino frente aos muitos inimigos
nas fronteiras. Em 1223, começaram as invasões dos tártaro-
-mongóis, que subjugaram o território russo. Algumas décadas de-
pois, eles se retiraram e retornaram às estepes. Mas mantiveram
expedições punitivas e exigências de tributos por outros duzentos e
cinquenta anos, marcando profundamente a cultura e a maneira de
ver o mundo dos russos.
Os tártaro-mongóis foram realmente brutais na sua domi-
nação da Rússia, assim como de outros povos. Cidades inteiras,
como Moscou e Kiev, foram destruídas e saques e pilhagens eram
comuns. Ao norte, protegido pela geografia, um dos principados
russos, o de Novgorod, conseguiu escapar das invasões mongóis,
mas teve que repelir também ataques dos suecos e dos cavaleiros
teutônicos.
Por volta do século XIV, à medida que o poder mongol en-
fraquecia, começava a ascensão do Estado que seria a verdadeira
origem do Império russo, a Moscóvia.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 25

DA MOSCÓVIA À RÚSSIA IMPERIAL

O Grão-Ducado de Moscou, ou Moscóvia (denominação


dada ao Estado russo em documentos estrangeiros dos séculos
XVI-XVII), como o próprio nome indica, tinha a sua origem e o
seu centro na cidade de Moscou. Entre os séculos XIII e XVI, o
prestígio e a influência desse novo Estado não cessaram de crescer,
assim como o seu território, à medida que ele ia anexando os vizi-
nhos. Apenas entre 1359 e 1425, o território da Moscóvia foi mul-
tiplicado por oito.
Nos anos seguintes, no reinado de Ivan III, o Grande
(1462-1505), esse processo de engrandecimento continuou. Durante
mais de quarenta anos, o Estado moscovita foi capaz não apenas de
reunir força militar suficiente para se livrar da suserania dos tárta-
ros, como multiplicou a área sob o seu domínio em mais quatro
vezes. Por intimidação, submissão voluntária ou conquista, o domí-
nio moscovita continuou a crescer.
Foi no reinado de Ivã IV, o Terrível (1547-1584), contu-
do, que a expansão territorial foi mais marcante. As conquistas no
oeste, onde os russos enfrentaram povos militarmente mais fortes,
como os suecos e poloneses, foram menos importantes, mas fo-
ram largamente compensadas pelos substanciais ganhos no leste.
Ali, aproveitando-se da fraqueza dos Estados tártaros remanes-
centes (a maioria convertida, nos séculos anteriores, ao islamis-
mo), houve substancial expansão, com a conquista da bacia do
Volga e penetração na Sibéria. Os russos agora comandavam po-
vos que não eram etnicamente russos e nem sequer eslavos, for-
mando um verdadeiro Império, com cerca de doze milhões de
habitantes.
26 João Fábio Bertonha

Mapa 1 – Expansão russa no século XVI

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 39.


Rússia: Ascensão e Queda de um Império 27

No reinado de Ivã IV, os russos viveram um regime de


opressão e violência. Na verdade, o poder dentro do Estado mosco-
vita sempre foi concentrado nas mãos do rei, mas Ivã IV levou isso
ao limite. Como reflexo disso, quando de sua coroação, em 1547,
ele assumiu o título de czar (uma derivação de “César”), como sinal
de sua determinação em exercer o poder autocraticamente. O título
foi, a partir daí, utilizado pelos soberanos moscovitas.
Na primeira metade do século XVII, os ganhos e perdas
territoriais russas seguiram um padrão mais ou menos igual. Quan-
do enfrentavam exércitos mais poderosos e bem armados, como os
poloneses e suecos, os russos cediam e tiveram perdas substanciais
no Báltico e em outros locais. Por todo esse século, a fronteira oci-
dental russa ia e voltava conforme a sorte das armas, mas sem ga-
nhos realmente marcantes.
Já na Sibéria, os exércitos do czar e as expedições organi-
zadas pelos ricos mercadores em busca de peles e outros artigos
agiam numa área escassamente povoada e controlada por tribos e
reinos militarmente fracos, muitos dos quais desconheciam as ar-
mas de fogo. Vários rios, além disso, forneciam canais seguros de
comunicação militar e comércio. Dessa forma, o território russo foi
sendo continuamente ampliado para leste.
Assim, o poder russo foi lentamente absorvendo o territó-
rio a leste dos montes Urais. Já em 1581-82 a cidadela de Isker, na
Sibéria Ocidental, foi ocupada. Em 1632, o posto avançado de
Yakutsk foi fundado, seguido por Okhotsk em 1649 e Irkutsk em
1652 e com exploradores russos atingindo os Oceanos Pacífico e
Ártico. Na mesma época, assim, em que espanhóis, portugueses,
ingleses e franceses criavam e ampliavam seus Impérios na Améri-
ca, os russos construíam o seu na Ásia.
É verdade que boa parte desse território era controlado ape-
nas informalmente pelo czar. As pequenas guarnições de soldados
russos e de cossacos não conseguiam, efetivamente, manter total do-
mínio das populações conquistadas, especialmente num território tão
vasto. Mas tal expansão territorial representou, com certeza, um ele-
mento chave para a potência russa de então e também para o futuro.
Na segunda metade do século XVII, a nova dinastia reinan-
te, os Romanov (que ficaria no poder de 1613 até 1917), procurou
28 João Fábio Bertonha

recuperar as perdas nas fronteiras ocidentais, continuar a expansão


para o leste e para o sul e modernizar o Estado e as Forças Armadas.
O auge desse processo, contudo, ocorreu no reinado de Pedro, o
Grande, entre 1682 e 1725.

PEDRO, O GRANDE, E A BUSCA DA MODERNIDADE


O reinado de Pedro, o Grande, foi marcado por guerras in-
cessantes. No leste, os cossacos, os comerciantes e os soldados rus-
sos continuaram a expansão e, em 1716, foi fundada a cidade de
Omsk, no coração da Sibéria. Os russos também se apossaram da
península de Kamtchatka e das ilhas Curilas, já no Oceano Pacífico.
No sul, as tropas do czar travaram uma série de guerras com o Im-
pério turco-otomano, procurando um acesso para o mar Negro. No
final, os turcos conseguiram impedir momentaneamente a expansão
russa, mas o Império turco-otomano estava claramente na defensiva
frente aos russos nesse período.
Foi no Ocidente, contudo, que as vitórias de Pedro foram
mais relevantes. Depois de uma longa guerra, de mais de vinte
anos (1700-1721), chamada a Grande Guerra do Norte, com a
Suécia (na qual os russos tiveram grandes vitórias, como na Ba-
talha de Poltava, em 1709, e na da Península de Hango, esta na-
val, em 1714), a Rússia conquistou uma saída para o mar Báltico.
Mais importante do que isso, contudo, foi a fundação de uma
nova capital nas terras conquistadas, São Petersburgo, em 1703, e
o reconhecimento, dada essa vitória, da Rússia como grande po-
tência pelos demais países europeus. A adoção do título “Impera-
dor” (que acabou por se confundir com o de “czar”, apesar disto
ser, tecnicamente, incorreto) por parte de Pedro, em 1721, e a
adoção do termo “Império russo” (no lugar de Moscóvia) para
designar o Estado, a partir de então, também refletem o novo
status internacional que se pretendia para a Rússia.
Esse período também foi de intensa modernização e oci-
dentalização. Pedro procurou aproximar o Estado e a cultura russa
dos padrões ocidentais, modernizando a estrutura política e esti-
mulando a indústria e o comércio. As Forças Armadas também
receberam melhorias, incluindo o recrutamento em bases perma-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 29

nentes, o que permitiu, aliás, as suas vitórias militares. No entanto,


a sua ênfase no poder absoluto do soberano e do Estado e as próprias
resistências das elites russas tornaram esse processo de moderniza-
ção e liberalização bastante limitado.
Os sucessores de Pedro, entre 1725 e 1789, conseguiram
amplos ganhos territoriais em todas as direções. No leste, na penín-
sula de Kamtchatka, a base naval de Petropavlovsky foi fundada
em 1740 e o domínio russo cresceu na direção do mar de Aral e da
Ásia Central. O processo de expansão atingiu, por fim, a América,
ou seja, o Alasca, que começou a ser explorado por caçadores de
peles nesses anos.
No reinado de Catarina II, a Grande, entre 1762 e 1796, ao
mesmo tempo em que a expansão prosseguia no sul, em detrimento
dos turcos, e no leste, houve avanços substanciais também no oeste.
O Estado polonês sofreu três partilhas entre a Rússia, a Áustria e a
Prússia, em 1772, 1793 e 1795, e cessou de existir. O Império russo
avançou suas fronteiras para o Ocidente, absorvendo o que hoje é a
Bielo-Rússia, a parte ocidental da Ucrânia e áreas no Báltico. Pela
primeira vez na história, se excluirmos a Suécia, o Estado russo
tinha fronteiras com as potências ocidentais.
Para explicar essa tendência expansionista russa na épo-
ca czarista, temos que levar em conta não apenas os aspectos geo-
políticos e a ideologia imperialista russa, inegável e que conside-
rava direito e dever da Rússia se expandir pelo mundo. Também
eram relevantes as ambições dos mais diversos monarcas, que
ambicionavam os ganhos políticos e econômicos de uma expan-
são contínua, e a busca de outras vantagens econômicas. A busca
de segurança frente a outros Estados e a própria prática da mo-
narquia de distribuir terras e servos aos nobres como forma de
garantir a sua lealdade também davam impulso a essa expansão.
Em resumo, a busca do Estado russo pelo controle de
mais território na época moderna não era nada excepcional, como
se a Rússia fosse o único país que buscasse expandir sua base
territorial. Essa expansão das fronteiras era um processo quase
natural, muitas vezes impulsionado pelo Estado e, frequente-
mente, posto em movimento pela iniciativa de comerciantes, ca-
çadores e outros. Havia interesses econômicos, de segurança,
políticos e vários outros atuando, junto com as ambições geopo-
30 João Fábio Bertonha

líticas e estratégicas, para fazer da Rússia uma nação expansio-


nista.
Claro que o expansionismo russo na época moderna tinha
especificidades, como o fato de ele se concentrar em áreas contí-
guas ao território já conquistado (com os russos ausentes, assim, da
corrida colonial na América, com exceção do Alasca e da Califór-
nia, e das lutas pelo comércio dos produtos tropicais na Ásia e
África) e do papel menor (ainda que importante, especialmente no
caso da Sibéria) de uma burguesia comercial na sua consecução.
Ainda assim, estava, de uma forma ou outra, inserido num mo-
mento maior da história europeia.

AS GUERRAS NAPOLEÔNICAS

Os exércitos russos, como visto, já estavam atuando nas


guerras europeias desde o século XVIII. Neste século, os russos
derrotaram suecos, turcos e poloneses em várias guerras e, em
1760, na Guerra dos Sete anos, chegaram a ocupar temporaria-
mente Berlim, surpreendendo os europeus pela persistência e com-
batividade das suas tropas. Foi no ciclo de guerras gerado pela Re-
volução Francesa e por Napoleão Bonaparte entre 1789 e 1815,
contudo, que a Rússia ascendeu definitivamente ao papel de grande
potência europeia.
Já em 1798-1799, um corpo de dezoito mil soldados rus-
sos, liderados pelo general Aleksandr Suvorov, apoiou os austríacos
contra os franceses no norte da Itália. Nos anos seguintes, exércitos
russos participaram das batalhas de Austerlitz e Friedland contra os
soldados de Napoleão, tendo perdas tão grandes que levaram o czar
a fazer a paz de Tilsit com a França, em 1807.
Cinco anos depois, contudo, as tensões entre os dois paí-
ses levaram à invasão da Rússia pelo “Grande Exército” de Na-
poleão, com 550.000 homens. Mesmo derrotados em Borodino,
os russos não se renderam e resistiram até que a fome, o frio e a
falta de suprimentos dizimaram os franceses e seus aliados. Em
1813-1814, fazendo parte da VI Coalizão Antinapoleônica, os
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 31

soldados do exército russo chegaram até Paris, que foi ocupada


por eles, em 1814.
Vários elementos colaboraram para salvar a Rússia da con-
quista francesa, permitindo a sua recuperação militar. Em primeiro
lugar, a invasão conseguiu criar um clima patriótico e mobilizar ao
menos parte da população russa para uma guerra de guerrilhas contra
os franceses, repetindo o cenário desastroso que eles enfrentaram na
Espanha entre 1808 e 1813. Depois, os franceses tiveram que lidar
com o clima inclemente, a imensidão do país, a distância que separa-
va a Europa do núcleo do poder russo em Moscou (o que lhe dava
uma certa invulnerabilidade) e, especialmente, as dificuldades para
abastecer as tropas francesas no imenso espaço do Império.
A firmeza e a paciência da liderança russa, especialmente
o general Kutuzov e o czar Alexandre I, que souberam explorar as
fraquezas francesas no campo de batalha, recuando para o interior
do espaço russo quando necessário e recusando as ofertas de paz
feitas por Napoleão, também foram fundamentais para a vitória.
De qualquer modo, a entrada de um exército russo em Pa-
ris foi, com certeza, um símbolo da ascensão russa ao status de po-
tência mundial, potência esta que continuou a se expandir nas dé-
cadas seguintes.

O EXPANSIONISMO RUSSO NA EUROPA E


NA ÁSIA NO SÉCULO XIX

Ainda que as fronteiras do Império russo estivessem se


aproximando da região desde o século XVI, foi apenas no final dos
séculos XVIII e XIX que a área entre os mares Negro e Cáspio foi
incorporada. Tanto através da submissão voluntária, como pela
conquista dos pequenos Estados das montanhas, a fronteira foi sen-
do levada para o sul. Uma longa série de guerras com a Pérsia e
com o Império turco, especialmente entre 1783 e 1878, também
trouxe novos territórios. Na segunda metade do século XIX, a Rús-
sia controlava quase toda a região do Cáucaso e seus povos, que
incluíam cristãos, como os armênios e os georgianos, e muçulma-
nos, como os chechenos e os azeris.
32 João Fábio Bertonha

Mapa 2 – Expansão do Império russo no Cáucaso (1763-1914)

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 73.

No decorrer do século XIX, o Império russo também com-


pletou a conquista da Ásia Central. Os antigos povos de origem
tártara, persa ou turca da região (como os cazaques, os uzbeques, os
turcomenos e outros) tiveram que aceitar a soberania russa e, de
forma gradual, mas persistente, a fronteira foi sendo levada para o
sul. Ao fazê-lo, os russos compensavam suas dificuldades, desde a
guerra da Crimeia, em se expandir na direção da Europa e amplia-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 33

vam seu cacife, ao se mostrarem um Império em crescimento,


frente aos outros poderes europeus, especialmente a Inglaterra.

Mapa 3 – Expansão do Império russo na


Sibéria e Ásia Central (1689-1914)

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 55.

No final do século, realmente, os russos estavam se apro-


ximando da Índia, que era, então, a colônia mais importante do Im-
pério britânico. Tal situação era extremamente preocupante para
34 João Fábio Bertonha

Londres, o que levou a uma crescente tensão com os russos na região.


A situação poderia ter degenerado em guerra entre as duas potências,
mas tanto o Império russo como a Inglaterra, no final do século XIX
e início do século XX, não desejavam, especialmente para poderem
unir forças frente à Alemanha no cenário europeu, entrar em conflito
no coração da Ásia, o que levou à assinatura de acordos disciplinan-
do a conquista da região em 1907 e ao estabelecimento do Afega-
nistão como “estado tampão” entre os dois Impérios.
Para explicar essa tendência expansionista russa no século
XIX, temos que recordar que vários dos elementos atuantes nos
séculos anteriores, já mencionados, e que instigavam o expansio-
nismo, ainda estavam atuando, como os interesses econômicos, a
busca de segurança frente às outras potências etc. A ideologia impe-
rialista russa, que justificava e defendia o direito da Rússia de ab-
sorver cada vez mais territórios, também era um elemento de conti-
nuidade frente ao período anterior.
Na “corrida imperialista” do século XIX, contudo, entra-
vam em jogo outros elementos. Nesse momento, as colônias adqui-
riram, para as potências europeias, uma importância ainda maior,
servindo não só para o comércio e para o abastecimento da Europa
de produtos tropicais (como havia sido nos séculos anteriores),
como também para fornecer matérias-primas e consumir os pro-
dutos produzidos nas crescentemente industrializadas metrópoles
europeias. Os interesses econômicos, apesar de não exclusivos,
deram um novo formato ao imperialismo do século XIX.
Além disso, houve uma mudança substancial na mentali-
dade das elites europeias nesse período. Dispor de colônias não era
mais simplesmente uma questão de escolha, mas algo fundamental
para demonstrar vitalidade e força. Em um momento em que o na-
cionalismo exacerbado se tornava, por diversas razões, uma das
bases da política europeia, não dispor de colônias e de forças mili-
tares poderosas era um sinal de fracasso nacional. Adquirir um Im-
pério e conseguir desfrutá-lo e protegê-lo não era nenhuma desonra.
Pelo contrário, era uma prova de vitalidade e força nacional e a
maioria das nações europeias se lançou neste desafio.
Assim, apesar das especificidades russas, a serem vistas a
seguir, não se pode dizer que o Império russo fosse muito diferente
das outras nações europeias, quando o assunto era a expansão impe-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 35

rial. Interesses econômicos, busca de segurança e desenvolvimento


e ideologia imperial (ou pensamento geopolítico) se articulavam
para fortalecer ambições de expansão externa que já vinham, na
realidade, desde a época das Grandes Navegações.
De qualquer forma, as conquistas territoriais russas, no de-
correr do século XIX, mesmo não tendo chegado à Índia, foram
substanciais, ampliando ainda mais o já imenso território do Impé-
rio e compensando a desistência em prosseguir a colonização da
América do Norte, corporificada na venda do Alasca aos Estados
Unidos em 1867.
Cumpre ressaltar, por fim, uma especificidade do imperia-
lismo russo dentro do panorama imperial europeu do século XIX.
Enquanto os países da Europa Ocidental criavam colônias de além-
-mar, mantidas em contato com a metrópole através da força naval, os
russos optaram por uma política de crescimento em território contí-
guo ao que eles já possuíam, na Ásia e na Europa. Os novos territó-
rios e povos incorporados à Rússia tinham, na maior parte dos casos,
menos direitos do que os russos étnicos e eram tratados quase como
colônias, mas a própria proximidade territorial implicava numa mistu-
ra entre russos e não russos muito superior a que teria acontecido se
suas colônias estivessem em outro continente. Centro e periferia ao
invés de metrópoles e colônias como na Europa ocidental.
Portanto, a própria incorporação de territórios contíguos im-
plicava na criação de um tipo de relacionamento entre dominantes e
dominados diferente daquele criado pelos europeus ocidentais nas
suas colônias além-mar. Um sistema imperial bastante parecido, nesse
ponto, com o dos norte-americanos, que se expandiram pela América
do Norte por todo o século XIX, com a diferença que os novos Esta-
dos dos Estados Unidos recebiam direitos iguais aos dos 13 originais.
De qualquer modo, a formação particular do Império russo teve impli-
cações futuras quando da descolonização dos Impérios europeus.

A GUERRA DA CRIMEIA (1854-1856)


As origens da Guerra da Crimeia estão justamente nessa
política expansionista russa na direção da Ásia e da Europa. Como
visto, os russos estavam pressionando fortemente o enfraquecido
36 João Fábio Bertonha

Império turco-otomano e anexando territórios tanto na Europa como


na Ásia. Há certa controvérsia se a Rússia czarista queria destruir o
Império turco e se apossar diretamente dos estreitos que ligam o mar
Mediterrâneo ao Negro ou se ela ambicionava unicamente o seu
controle indireto. De qualquer forma, essa posse daria à Rússia uma
saída para o mar aberto e uma imensa influência na bacia do Medi-
terrâneo. O problema é que tal ambição era inaceitável para as po-
tências ocidentais, especialmente a França e a Inglaterra.
Em 1853, após uma série de motivações casuais, russos e
turcos entraram em guerra novamente e a marinha turca foi destruí-
da pela russa. Franceses e ingleses intervieram então, enviando uma
expedição para Sebastopol, base da frota russa do mar Negro, na
península da Crimeia.
Ainda que a expedição franco-britânica à Crimeia tenha
tido imensos problemas na sua organização e sistema logístico,
sofrendo imensas perdas, ela foi capaz de derrotar as igualmente
incompetentes forças do czar, revelando as suas muitas debilidades.
Os exércitos e frotas russas estavam espalhados dentro do território
do Império ou vigiando as muitas fronteiras e povos conquistados,
sendo impossível reuni-los para um ataque conjunto aos invasores.
Havia imensos problemas para abastecer as tropas em luta e muitos
dos soldados recrutados para a guerra não tinham treinamento ade-
quado (KENNEDY, 1989, p. 170-175).
Além disso, alguns líderes militares russos eram pouco
competentes e o armamento das tropas, como veremos a seguir,
estava claramente ultrapassado. Estas eram características antigas
das Forças Armadas russas, mas sempre compensadas pela massa
numérica. Agora, pela primeira vez, a superioridade numérica russa
não compensou a sua inferioridade em armamentos e o Estado rus-
so revelou-se incapaz de sustentar uma luta prolongada. Não sur-
preende, assim, que, em 1856, com o Império claramente na defen-
siva, o governo do czar Alexandre II tenha sido obrigado a ceder.
A Guerra da Crimeia trouxe, assim, perdas territoriais e
problemas econômicos à Rússia, além de quase meio milhão de
mortes. Mais importante do que tudo, entretanto, foi a demonstra-
ção da crescente fraqueza econômica e militar russa frente ao Oci-
dente, o que levou, como veremos no capítulo seguinte, a tentativas
de mudanças econômicas e sociais dentro do país.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 37

Também a guerra russo-japonesa de 1904-1905 seguiu pa-


drões semelhantes, tendo suas origens na permanente política de
expansão do Império russo e deixando claras as debilidades e pro-
blemas deste Império na virada dos séculos XIX e XX.

O CONFLITO COM O JAPÃO (1904-1905)


A Rússia, no início do século XX, continuava a sua política
expansionista no Oriente, voltada agora à China, à Manchúria e à
Coreia. De um lado, acreditava-se que não haveria rival para o poder
russo nessa região, longe das preocupações dos europeus, e que seria
possível ampliar o poder do Império sem grandes dificuldades. De
outro, havia ali interesses econômicos russos muito precisos, voltados
aos recursos naturais dessas regiões. O problema é que as ambições
da Rússia se chocaram com as de outra potência, o Japão, o qual tam-
bém desejava controlar a região oriental da China e a Coreia.
Em 1904, o Japão, preocupado com o crescimento do poder
naval russo na região e com a finalização da ferrovia trans-siberiana
(que visava, de um lado, a integração e o desenvolvimento econômico
siberiano, mas que também tinha um interesse estratégico em ampliar
a capacidade logística das tropas russas na fronteira com a China)
atacou as instalações navais de Port Arthur. As forças terrestres e
navais russas, pegas de surpresa e com uma oficialidade incompetente
no comando, foram, apesar de numerosas, derrotadas rapidamente.
Vários cruzadores e encouraçados russos foram afundados e Port
Arthur foi cercado, rendendo-se em janeiro de 1905.
Em um supremo esforço, a frota russa do mar Báltico deu
a volta ao mundo para enfrentar os japoneses. Partindo da Europa
em outubro de 1904, seus cerca de cinquenta navios, dos quais oito
encouraçados modernos, deram a volta pela África do Sul e pelo
Índico, atingindo a região do conflito em maio de 1905. Apesar do
esforço, tudo o que a esquadra russa – mal comandada e com tri-
pulação grandemente inexperiente – conseguiu foi ser completa-
mente destruída na batalha de Tsushima, em 27.05.1905. A Rússia
perdeu sua condição de grande potência marítima e o Império teve
que aceitar a derrota e ceder territórios e áreas de influência ao Ja-
pão, numa outra indicação das suas dificuldades nessa virada dos
séculos XIX para o XX, as quais exploraremos melhor a seguir.
38 João Fábio Bertonha
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 39

Capítulo 2

ECONOMIA E POLÍTICA NO
SÉCULO XIX RUSSO

A RÚSSIA EM 1815

Ao final das guerras napoleônicas, em 1815, a Rússia era


indubitavelmente um ator de importância nas relações internacio-
nais europeias. Seu território era imenso e superava largamente o
de qualquer país do Ocidente. Sua agricultura havia conhecido pro-
gressos e, sob estímulo estatal e atendendo as demandas militares, a
indústria tinha se desenvolvido para fornecer armas, munição, uni-
formes e outros artigos.
Sua população também era expressiva e, tanto por anexa-
ções como por crescimento natural, estava em rápido desenvolvi-
mento. Em 1815, o Império contava com cinquenta e um milhões
de habitantes, tendo superado a França como país mais populoso da
Europa. Esse crescimento continuou nos anos seguintes. Isso signi-
ficava ampla disponibilidade de recrutas para as Forças Armadas e
de mão de obra para a economia.
Dada essa disponibilidade de homens e a ênfase das despe-
sas estatais nas forças militares (cerca de quatro quintos do orça-
mento nacional), o Exército russo era imenso. Realmente, com
quase oitocentos mil homens em 1815, era simplesmente tão
grande que era considerado tão imbatível em terra quanto a mari-
nha britânica o era no mar. Além disso, o soldado russo era reco-
40 João Fábio Bertonha

nhecidamente pouco exigente e capaz de suportar as maiores pri-


vações, o que dava aos seus generais uma grande força militar. O
Império era visto como um colosso a ser temido (KENNEDY,
1989, p. 168-176).

UMA GRANDE POTÊNCIA?

No entanto, a Rússia estava longe de ser uma potência real-


mente dominante e, mesmo que as pessoas que viviam naquele
momento não pudessem saber, estava em lenta decadência. Seu
território era amplo, mas grandemente desabitado e sem boas vias
de comunicação, o que, muitas vezes, era mais um problema do
que uma vantagem. Sua população era numerosa, mas menos ins-
truída e mais pobre do que no resto da Europa e, muitas vezes,
hostil ao domínio do Império, o que obrigava os militares russos a
desviarem parte substancial dos seus soldados para missões de
polícia interna.
Em termos econômicos, progressos estavam a ocorrer,
com crescimento na produção de ferro, tecidos e agrícola, mas em
ritmo inferior ao do Ocidente. Basta recordar, a propósito, que se a
produção de ferro duplicou na Rússia nas primeiras décadas do
século XIX, ela aumentou trinta vezes na Grã-Bretanha, o que indi-
ca como os russos ainda viviam num país arcaico, com a produção
agrícola limitada pela servidão dos camponeses, uma indústria pe-
quena, um sistema financeiro e de administração pública atrasados,
com relação à Europa ocidental, e pouco eficientes e um regime
político autocrático.
Em termos militares, o mesmo poderia ser dito. Havia
enormes problemas de abastecimento, a maioria dos oficiais era
incompetente e a capacidade russa em desenvolver armas tecnolo-
gicamente avançadas era pequena. Os russos, além disso, eram uma
potência terrestre, com presença nula nos grandes oceanos e com
uma marinha de guerra pequena (cerca de 1/5 da britânica em
1815) e isolada nos mares gelados e no Negro. Além disso, as mu-
danças no panorama tecnológico mundial iam na direção contrária
às condições russas.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 41

A REVOLUÇÃO MILITAR DO SÉCULO XIX

No período da Idade Moderna, quando a tecnologia militar


se desenvolvia lentamente, ainda era possível copiar a experiência
estrangeira e superar países com Forças Armadas melhores através
do peso dos números. No século XIX, tal possibilidade diminuiu
bastante, o que deixou evidente todas as vantagens e desvantagens
da Rússia como grande potência.
Na primeira metade do século XIX, contudo, tal situação
ainda não era tão clara e a pressão para reformas e mudanças era
pequena. Assim, o sistema político e a sociedade russa oscila-
ram, nas primeiras décadas desse século, entre tímidas tentativas
de reformas e liberalização e ondas reacionárias. Camponeses
empobrecidos e nacionalistas poloneses fizeram vários levantes,
reprimidos com rigor, e a maior parte do poder efetivo continua-
va nas mãos do czar e da nobreza. A economia também continua-
va a ser gerida e pensada com os padrões dos séculos anteriores,
sem muita preocupação com as intensas mudanças que já varriam
a Europa Ocidental e os Estados Unidos. O grande problema,
para os russos, era que uma revolução econômica e militar estava
em curso nesse período, que eles podiam tentar ignorar, mas não
sem consequências.
Realmente, no período da Idade Moderna, entre os sé-
culos XVI e XVIII, as Forças Armadas europeias, que haviam
absorvido e desenvolvido a tecnologia das armas de fogo, esta-
vam ligeiramente à frente, em termos tecnológicos, dos seus ri-
vais de fora da Europa. Entre os Estados europeus, contudo, não
havia um diferencial tecnológico expressivo e as armas que equi-
pavam espanhóis ou franceses, nas guerras do século XVII, não
eram muito diferentes.
Nessa época, o que levava à vitória ou à derrota, no con-
fronto entre os Estados europeus, era o fator financeiro. A produção
de armas e a manutenção dos Exércitos consumiam enormes somas
de dinheiro e o vencedor normalmente era aquele que conseguia
levantar mais recursos para manter suas forças em campo e/ou tinha
mais homens e recursos para gastar. A Rússia estava bem nestes
quesitos e era, portanto, uma grande potência.
42 João Fábio Bertonha

Com a Revolução Industrial, a partir do final do século


XVIII, os recursos financeiros continuaram importantes, mas as
Forças Armadas foram lentamente ficando dependentes das novas
fábricas que se espalhavam por boa parte do mundo. Estas novas
indústrias produziam armamento cada vez mais desenvolvido tec-
nologicamente, como navios movidos a vapor, canhões mais rápi-
dos e precisos, a metralhadora (a partir do final do século XIX) e
outros, e em larga escala, o que permitia criar Exércitos e Marinhas
cada vez maiores e mais poderosos e recuperar as perdas em ritmo
acelerado.

A RÚSSIA E AS MUDANÇAS ECONÔMICAS E


MILITARES DO SÉCULO XIX
No caso russo, apesar de uma experiência de ocidentaliza-
ção já ter se iniciado com Pedro, o Grande, o primeiro sinal de alerta,
como visto no capítulo anterior, foi a Guerra da Crimeia. Nesta,
quando os numerosos navios de madeira e vela russos tentaram en-
frentar os navios de ferro e movidos a vapor dos franceses e ingleses
(muitos deles com novidades bélicas, como granadas de fragmenta-
ção para seus canhões e foguetes), foi um fracasso. Do mesmo
modo, massas de soldados russos armados com fuzis de pederneira
(com alcance de 200 metros) foram dizimadas pelos soldados alia-
dos, que tinham fuzis modernos capazes de atirar a mil metros. Além
disso, à medida que a guerra prosseguia e os estoques de armas e
suprimentos russos se esgotavam, franceses e ingleses não apenas
conseguiam produzir os seus em massa, repondo as perdas, como
tinham navios a vapor para levá-los a Crimeia com rapidez.
Assim, os russos foram derrotados pela sua dificuldade em
se adaptar ao mundo moderno nos mais diferentes aspectos, mas,
especialmente, pela nova tecnologia ocidental. Ficou mais do que
claro, que, se a Rússia quisesse continuar a ser uma potência euro-
peia, reformas teriam que ser implementadas. Esse foi o grande
desafio do Estado russo, a partir de então.
Esse novo contexto gerou um grande desafio aos Estados
e às Forças Armadas de boa parte do mundo, nessa época, e não
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 43

apenas à Rússia. Realmente, se agora o que representava a dife-


rença entre um Exército poderoso e um fraco, entre conquistar e
ser conquistado, era uma capacidade industrial desenvolvida,
conseguir essa capacidade tornou-se algo vital para todos os Es-
tados. Não é à toa, assim, que muitos países, como a Áustria, a
Itália e outros, e não só a Rússia, tenham se lançado, entre fins do
século XIX e inícios do século XX, em um frenético esforço para
converter suas economias e suas forças militares para o novo pa-
drão que ia se impondo.
Os resultados obtidos pelos vários países nesse esforço va-
riaram muito. O Reino Unido, berço da Revolução Industrial e
grande potência dominante na primeira metade do século XIX, en-
fraqueceu em termos relativos, mas continuou importante. Já os
Estados Unidos e a Alemanha cresceram em ritmo acelerado e se
destacaram no cenário econômico e industrial mundial, com a Ale-
manha também se preocupando em criar um Exército e uma Mari-
nha de peso.
No caso russo, a tentativa de adaptação ao novo con-
texto também ocorreu. A servidão foi abolida em toda a Rússia
em 1861 (ainda que a maioria dos camponeses continuasse em
extrema pobreza e sofrendo a exploração dos senhores de terras)
e o Estado iniciou um programa de estímulo ao desenvolvimento
industrial.
Tal programa foi conduzido de uma forma totalmente
autoritária, coerente com o caráter do Estado russo de então. O
campo foi penalizado, com os recursos dos impostos sendo canali-
zados para a indústria e as cidades. Os trabalhadores, rurais e urba-
nos foram submetidos à intensa exploração e verdadeiramente san-
grados por impostos e salários baixos, com todo descontentamento
sendo imediatamente reprimido.
Além disso, o caráter instrumental do programa de moder-
nização russo fica claro quando se verificam os setores beneficia-
dos, ou seja, a indústria pesada (aço, carvão) e as ferrovias, enfim,
aqueles necessários ao poder militar. Em resumo, as reformas rus-
sas visavam claramente à recuperação do poder do Estado e não a
melhora do nível de vida da população ou a transformação do Esta-
do para um padrão mais democrático. A ambição dos czares era
44 João Fábio Bertonha

uma Rússia poderosa e temida e não democrática, equitativa e com


alto nível de vida para a população. Tanto que, em 1913, apenas
154 milhões de rublos foram destinados pelo Estado à saúde e edu-
cação, enquanto 970 milhões foram absorvidos pelas Forças Arma-
das (KENNEDY, 1989, p. 230).
Os resultados desse esforço foram bastante positivos, se
pensarmos apenas no crescimento econômico e industrial. A popu-
lação urbana passou de 3,6% para 7% da população, entre 1890 e
1913, e a rede ferroviária (essencial para os movimentos militares)
cresceu de mil e quinhentos quilômetros, em 1860, para trinta mil
em 1890 e setenta e cinco mil em 1914, incluindo a Trans-
-siberiana, que permitia a ligação com a Sibéria. Também foram
lançadas medidas para tentar modernizar a agricultura.
No campo industrial, o crescimento atingiu uma média de
5% ao ano, entre 1860 e 1914. A produção de carvão cresceu de
seis milhões de toneladas, em 1890, para trinta e seis, em 1914.
Nesse ano, a Rússia, com seus grandes campos na região de Baku,
era o segundo maior produtor de petróleo do mundo. Em 1914, o
Império russo tinha se tornado a quarta potência industrial do mun-
do, com destaque para a indústria do aço, a petrolífera e do carvão.
Um grande complexo metalúrgico havia surgido na Ucrânia, a in-
dústria têxtil era forte em Moscou e São Petersburgo e a Polônia
havia se tornado um polo industrial. A economia russa ainda era
muito dependente de capitais e maquinaria avançada da Europa
(sendo que parte substancial da indústria russa estava sob controle
de investidores estrangeiros) e o povo russo era pouco beneficiado
pelo crescimento econômico, mas a Rússia se tornou autossuficiente
em vários dos principais produtos industriais, especialmente aque-
les necessários para o abastecimento militar (KENNEDY, 1989,
p. 226-235).
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 45

Mapa 4 – Regiões industriais e rede ferroviária na Rússia


europeia no início do século XX

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 85.


46 João Fábio Bertonha

Também as Forças Armadas sofreram reformulações, ao


menos em alguns pontos. O Exército passou a selecionar os seus
soldados a partir do recrutamento universal. A Marinha russa, por
sua vez, que havia crescido bastante nos reinados de Pedro, o
Grande, e Catarina II, mas decaído depois, foi reconstruída.
Os russos, além disso, ao mesmo tempo em que procura-
vam melhorar a qualidade das suas Forças Armadas, continuavam
a investir e a confiar nos números. Em 1880, os russos tinham
quase 800 mil homens no Exército, número este ampliado para
1,4 milhão em 1914, com cinco milhões nas reservas imediatas
(KENNEDY, 1989, p. 200). Em todos esses anos, o Império ja-
mais deixou de ter a maior Força Armada da Europa, ao menos
numericamente.
Os números brutos também continuavam a beneficiar os
russos em outros aspectos. A sua base territorial era imensa, supe-
rando mais de vinte milhões de quilômetros quadrados e represen-
tando dezenas de vezes a área de seus oponentes, como a Alemanha
ou a Áustria. Sua população também continuava a crescer em ritmo
acelerado, atingindo 116 milhões em 1890, 135 milhões em 1900 e
175 milhões em 1914, sendo, neste último ano, quase três vezes a
alemã, quatro vezes e meia a francesa e cinco vezes a italiana. Pa-
recia um reservatório sem fim de homens e recursos (KENNEDY,
1989, p. 195).
Em resumo, a Rússia, até 1914, havia feito esforços imen-
sos para modernizar a sua economia e as suas Forças Armadas e a
impressão geral dos que viviam naquela época é que tais esforços
haviam sido bem-sucedidos, havendo razões para temer o “colosso
russo”, que parecia estar voltando ao seu período de glória pós-der-
rota de Napoleão, em 1815.
Essa avaliação do renovado poder russo era realmente
forte nesses anos iniciais do século XX. Neste contexto, poucos
duvidavam que Estados Unidos e Rússia seriam duas superpotên-
cias do futuro. Os primeiros devido ao seu amplo território, popula-
ção e, especialmente, poder econômico e a segunda a partir da sua
massa de terra e gente e suas imensas forças militares. Um indicati-
vo de como as pessoas viam os acontecimentos, e que explica a
ansiedade francesa, por exemplo, para conseguir a aliança de Mos-
cou contra Berlim.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 47

A RÚSSIA EM 1914: O COLOSSO COM PÉS DE BARRO

Apesar desses imensos progressos, a Rússia ainda tinha


problemas se ela queria realmente competir com os Estados avan-
çados da Europa Ocidental. Ainda em 1914, ela era uma sociedade
essencialmente agrícola e com uma agricultura atrasada e pouco
produtiva. O povo russo tinha níveis de alfabetização, expectativa
de vida e bem-estar social bem abaixo dos da Europa Ocidental, o
que estimulava um crescente descontentamento social, corporifica-
do na Revolução de 1905.
Essa situação era um claro reflexo, cumpre ressaltar no-
vamente, da opção russa por uma modernização apenas parcial. As
elites russas (e também as de outras sociedades em busca de mo-
dernização na mesma época, como a Turquia e o Egito) imagina-
vam que, absorvendo a tecnologia e os sistemas de produção oci-
dentais, poderiam manter a força política e militar da sua nação sem
alterar os princípios autoritários e arcaicos que a geriam. O proble-
ma é que a modernização ao estilo ocidental implicava, também,
uma burocracia eficiente, um governo competente, uma população
minimamente educada, a participação das massas na política e a
liberdade de pensamento e atividade empresarial.
O grande dilema é que, para o governo dos czares, tais li-
berdades seriam impensáveis, enquanto a educação primária era até
mesmo desestimulada, de modo a não colocar “ideias” na grande
massa de camponeses. Assim, algumas das alterações ambicionadas
pelo governo do Império na sua estrutura econômica e militar não
deram certo simplesmente por falta de mudanças mais amplas na
sociedade.
Nesse ponto, o contraste com o Japão da era Meiji é signifi-
cativo. O governo de Tóquio também empreendeu, mais ou menos à
mesma época, um programa de modernização industrial e militar
bancado em boa medida pelo Estado. Contudo, houve uma abertura
maior para a educação de massas, o sistema político ocidental e o
desenvolvimento científico. O Japão, com certeza, não se tornou um
país ocidental, mas seu processo de modernização, mais completo,
permitiu que ele adquirisse o poder econômico e militar com o qual
derrotou a Rússia em 1905 e se tornou uma potência imperialista.
48 João Fábio Bertonha

Além disso, apesar dos imensos avanços em termos abso-


lutos, em termos relativos os competidores da Rússia, estavam
crescendo com mais vigor e em ritmo mais acelerado formando
uma base econômica e industrial mais sólida e desenvolvida. Basta
recordar aqui, como, se foi uma imensa conquista russa ampliar o
seu Produto Interno Bruto de dez bilhões de dólares, em 1830, para
vinte e um bilhões, em 1890, essa conquista perde vigor quando
recordamos que, no mesmo período, a Alemanha fez seu PIB cres-
cer de 7,2 para 26,4 bilhões e a Grã-Bretanha de 8,2 para 29,4 bi-
lhões (KENNEDY, 1989, p. 169).
Em todos os outros setores, a mesma situação se repete.
No caso da rede ferroviária, o aumento da malha foi imenso, mas a
grandeza do país a deixava muito aquém das necessidades e bem
longe da densidade ferroviária da Inglaterra ou da Alemanha. Na
indústria do aço, a produção russa cresceu de 950 mil para 4,8 mi-
lhões de toneladas/ano entre 1890 e 1913, mas só a norte-americana
cresceu de 9,3 para 31,8 milhões, e a alemã de 4,1 para 17,6 mi-
lhões no mesmo período (KENNEDY, 1989, p. 197).
Além disso, os números relativos à evolução do PIB per
capita (ou seja, a riqueza dividida pelo número de habitantes) indi-
cam outro problema do crescimento russo. No período entre 1830 a
1890, a renda per capita russa praticamente estagnou, oscilando
entre 170 e 182 dólares, enquanto a inglesa subiu de 346 para 785,
a alemã de 245 para 537 e a francesa de 264 para 515 dólares
(KENNEDY, 1989, p. 169).
Os russos sempre haviam sido os mais pobres, em ter-
mos relativos, da Europa, mas agora a distância estava aumentan-
do em ritmo acelerado, o que indica como, em geral, o cresci-
mento da economia russa no século XIX ocorria essencialmente
pelo aumento da população e não por inovações tecnológicas ou
crescimento da produtividade, como era na Europa Ocidental e nos
Estados Unidos, em plena era industrial. Assim, a base de riqueza
da potência russa estava perdendo importância, apesar de ainda ser
enorme.
As Forças Armadas também continuavam com problemas
imensos. A Marinha estava dividida em várias frotas, incapazes de
se concentrarem, e não dispunha de bons portos fora dos mares
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 49

gelados, além de ser claramente inferior, em números e qualidade,


às ocidentais. Já no Exército, a oficialidade, apesar de não ser, pro-
vavelmente, tão corrupta e incompetente como a historiografia
marxista afirmou posteriormente, era claramente menos eficiente
do que a alemã ou a francesa, enquanto seus soldados, apesar de
disciplinados e valentes, sofriam com a falta de recursos, uma dis-
ciplina brutal, métodos arcaicos de instrução e, especialmente, com
o analfabetismo.
O analfabetismo, que atingia parte substancial dos campo-
neses recrutados, realmente prejudicava muito o treinamento militar
de homens que não conseguiam sequer ler suas ordens ou os manuais
de manutenção do pouco equipamento mecanizado disponível. As
instruções, as ordens, os procedimentos de limpeza e conservação
das armas e outros tinham que ser aprendidos de cor, com perda de
eficiência (KENNEDY, 1989, p. 232-234).
Além disso, como acontecia com toda a sociedade e a eco-
nomia russas, as Forças Armadas tentavam resolver os problemas
oriundos da baixa qualidade do potencial humano, da sua pouca
criatividade e flexibilidade, da escassa mecanização dos serviços e
do próprio gigantismo do país usando mais homens para fazer o
mesmo serviço. Assim, enquanto nos Exércitos alemão e francês,
havia um homem nos serviços de retaguarda para cada dois na linha
de frente, a proporção russa era de dois ou três na retaguarda para
um combatente, o que indica desperdício de potencial humano
(JUKES, 1979, p. 79).
O próprio tamanho das Forças Armadas e do país, aliás,
era um peso para sua eficiência, pois pulverizava seus recursos e
impunha problemas imensos no campo do abastecimento e organi-
zação. Realmente, enquanto todos os outros países se esforçavam
para fazer o máximo com os recrutas de que dispunham, o proble-
ma russo era o excesso de contingente disponível. Nem a sua buro-
cracia nem o seu sistema ferroviário podiam suportar o esforço de
recrutar todos os seus súditos em idade militar, tanto que, na práti-
ca, só eram convocados, anualmente, um em cada três. Essa peque-
na porcentagem permitia aos russos manter o seu imenso exército
de tempo de paz, mas, em comparação, suas reservas treinadas (os
homens que deixavam todo ano as fileiras e iam para a reserva)
50 João Fábio Bertonha

eram bem menores do que, por exemplo, na Alemanha, o que seria


fonte de dificuldades, por exemplo, durante a Primeira Guerra
Mundial (KENNEDY, 1989, p. 232-234).
Havia também outros problemas, como a questão étnica.
Dentro da imensa população que estava submetida ao czar, parte
substancial era de não russos e mesmo de não eslavos, que não se
identificavam completamente com o Estado. No ocidente, havia
bálticos, finlandeses, romenos, bielo-russos e ucranianos, estes dois
últimos de etnia eslava e próximos culturalmente dos russos. No
Cáucaso, georgianos, armênios e um sem número de povos muçul-
manos. Na bacia do Volga, muçulmanos tártaros e, na Sibéria, vários
povos asiáticos.
Na Ásia Central, por sua vez, havia muçulmanos de língua
turca e cultura persa, administrados por Moscou num esquema pra-
ticamente colonial. Um problema de falta de homogeneidade relati-
vamente comum a todos os Estados do mundo nessa época, mas
muito potencializado no caso russo pelos números envolvidos. Cin-
quenta por cento da população do Império, efetivamente, não era de
etnia russa.
A maneira encontrada pelo Estado czarista para lidar com
o problema, tipicamente russa, foi a cooptação e a repressão, apli-
cadas em graus variáveis conforme o período e o governante no
poder. A certos povos, como os habitantes da Sibéria, da Ásia Cen-
tral ou os finlandeses, foi concedida isenção do serviço militar, o
que diminuía o potencial militar do Império, mas aliviava as ten-
sões. Também se permitia algum grau de liberdade cultural para os
povos conquistados, abria-se certo espaço de atuação para as elites
locais dentro do sistema político imperial e se exigia lealdade à
coroa e ao czar e não ao Estado russo.
Ao mesmo tempo, colonos de etnia russa foram estimula-
dos a povoar as terras virgens da Sibéria (para onde um milhão de
pessoas se transferiu, apenas entre 1896 e 1905) e também as per-
tencentes a povos conquistados, como o Turquestão. O Império,
além disso, lançou uma política de russificação, de forma a ampliar
o controle do Estado sobre as populações conquistadas. Tal política
teve certo grau de sucesso, mas também trouxe tensões que, no
momento certo, podiam explodir, como explodiram.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 51

O sistema de recrutamento russo também prejudicava o


esforço do país para formar uma grande reserva. Não apenas
muitas etnias e grupos eram isentos do serviço militar, como o
sistema não recrutava os melhores e mais aptos, mas especial-
mente os incapazes de se livrar dele. Os mais ricos, os arrimos de
família e outras categorias eram isentos e essas isenções eram
tantas que muitos homens fisicamente inaptos eram incorporados,
o que prejudicava a eficiência do Exército. Também inexistia um
cadastro geral dos possíveis recrutas, com a exceção dos que ha-
viam passado pelas fileiras, o que facilitava ainda mais as evasões
e dificultava a formação de reservas para tempo de guerra (JUKES,
1979, p. 79-80).
Realmente, o princípio moderno da “nação em armas”,
com a responsabilidade da defesa nacional repartida por todos os
seus cidadãos, era visto com enorme desconfiança pelas suas eli-
tes, que suspeitavam da ideia de armar o povo e que tendiam a ver
nos soldados mera carne para ser consumida, e não cidadãos a
serem instruídos e armados da melhor forma possível.
Enfim, a Rússia na virada do século XIX para o século
XX talvez parecesse mais forte do que efetivamente era. Com sua
ênfase nas Forças Armadas, o progresso econômico e o simples
peso populacional e territorial, a Rússia era poderosa e temê-la
seria algo lógico. Mas sua modernização econômica e militar
tinha sido precária, instrumental e elementos fundamentais para o
progresso em longo prazo – como o nível de instrução e riqueza
de sua população ou um sistema político menos corrupto, buro-
crático e desigual – não tinham sido tocados, o que seria trágico
no futuro.
Nesse ponto, uma comparação com os Estados Unidos é
significativa. Durante o século XIX, num crescimento essencial-
mente conduzido pelas forças do mercado capitalista, com apenas o
apoio do Estado, a economia americana cresceu em níveis impres-
sionantes, tanto na agricultura como na indústria. Em 1914, a eco-
nomia norte-americana já era a maior do mundo, sendo equivalente
à soma das economias britânica, francesa, alemã e russa e sendo
mais de cinco vezes esta última. Os Estados Unidos eram, de longe,
a maior potência econômica e industrial do mundo e todos perce-
biam isso.
52 João Fábio Bertonha

No entanto, ninguém temia, naqueles anos, os Estados


Unidos. Isolados no continente americano, com pouco interesse na
política europeia e Forças Armadas extremamente reduzidas (com a
exceção da Marinha), os norte-americanos eram muito menos as-
sustadores do que a Rússia, que tinha um Exército dez vezes maior.
Os norte-americanos eram muito mais ricos, consumiam mais aço e
energia e tinham uma sociedade muito mais dinâmica e moderna, o
que seria relevante em longo prazo, mas parecia pouco importante
no curto, o que explica porque a Europa olhava e temia Moscou,
mas não Washington, nessa época. Em alguns momentos, a imagem
importava mais do que a realidade.
Em resumo, os esforços russos, apesar de imensos, foram
insuficientes frente ao obtido pelos rivais. É um fato que o simples
peso dos números de um Estado tão populoso e vasto assustava,
mas a guerra da Crimeia já indicava que a situação russa não era
exatamente positiva e o conflito com o Japão apenas confirmou que
a corrida estava sendo perdida. Foi na Primeira Guerra Mundial,
contudo, que os dilemas russos se tornaram mais evidentes.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 53

Capítulo 3

A RÚSSIA NA PRIMEIRA
GUERRA MUNDIAL

A RÚSSIA E A POLÍTICA DE PODER EUROPÉIA


ENTRE OS SÉCULOS XIX E XX

Na primeira metade do século XIX, as relações internacio-


nais no continente europeu eram relativamente estáveis, com os prin-
cipais atores se preocupando mais com a ordem interna e com o res-
surgimento da França do que com outra coisa. Nesse contexto, a Rús-
sia era claramente uma das principais forças da política europeia e sua
preocupação central era manter a ordem conservadora no conti-
nente. O czar se aliou aos soberanos da Prússia e da Áustria na
“Santa Aliança”, cujo objetivo central era impedir quaisquer movi-
mentos revolucionários de atingir o poder no continente e vigiar a
França. Assim, exércitos russos colaboraram para sufocar revoluções,
por exemplo, na Áustria, em 1848, e a Rússia era vista, com razão,
como uma força totalmente reacionária e imensamente poderosa.
Na segunda metade do século XIX, contudo, a situação
mudou radicalmente e, de uma forma lenta, mas contínua, as ten-
sões entre os países europeus cresceram, com o afirmar-se das dis-
putas nacionalistas e por colônias fora da Europa e um crescente
militarismo. Esse coquetel de nacionalismo exacerbado, disputas
coloniais e militarismo formava a base do relacionamento entre os
países europeus na virada dos séculos XIX e XX, gerando grande
54 João Fábio Bertonha

tensão entre as grandes potências, que temiam ficar sozinhas numa


grande guerra, o que significaria derrota certa. Uma das maneiras
encontradas para tentar resolver esse temor foi a construção de alian-
ças, que acabaram formando dois grandes blocos.
Alianças não eram, na verdade, novidade no cenário euro-
peu. Essas alianças do início do século XX, contudo, tinham uma
particularidade: eram fixas. Antes, os europeus faziam e desfaziam
suas alianças conforme os acontecimentos, sempre tentando impe-
dir que o país mais forte dominasse os outros. Um método talvez
pouco leal, mas que impedia que blocos rivais se formassem e que
o ódio entre eles crescesse, pois os inimigos de hoje podiam ser os
amigos de amanhã. No início do século XX, essa flexibilidade se
foi e até a Inglaterra, uma das maiores defensoras dessa política de
todos contra todos para impedir o mais forte de triunfar, acabou por
se unir definitivamente à França contra a Alemanha depois que esta
começou a construir uma grande Marinha de guerra, a qual poderia
ameaçar o Império britânico.
Nesse contexto, a Rússia oscilou entre os dois blocos. Por
um lado, ela tinha rivalidades ideológicas com a França (preferindo o
conservadorismo de alemães e austríacos) e geopolíticas com a In-
glaterra na Ásia e no Mediterrâneo. Suas relações com a Alemanha
também eram reforçadas pelos laços de parentesco entre suas famílias
reais. Por outro lado, austríacos e russos disputavam áreas de influên-
cia nos Bálcãs e os franceses eram grandes investidores na economia
russa. Assim, havia potencial para a Rússia se aliar a qualquer um dos
lados, mas problemas circunstanciais e o crescente poderio alemão
acabaram por levar o Império à aliança com Inglaterra e França.
A Rússia, evidentemente, não foi simplesmente uma víti-
ma inocente nesse jogo entre as grandes potências. Ela também
tinha ambições imperialistas e elas não eram pequenas. O Império
dos czares ambicionava, como já indicado no capítulo anterior, a
sua transformação numa potência global. Para tanto, seria necessá-
rio que a Rússia dispusesse de uma imensa força naval e controlas-
se as “saídas” para os mares quentes no Mediterrâneo, no Pacífico e
no Atlântico. Depois, era imperativo evitar que os países inimigos
conseguissem cercar o Império, pelo que os Bálcãs, áreas da China
e do Oriente Médio deviam ser ou incorporados ao Império ou co-
locados sob hegemonia russa.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 55

Esses objetivos implicavam a conquista (direta ou indireta)


da Pérsia e a recuperação do perdido para os japoneses no Oriente,
expulsando-os da China e da Coreia. O objetivo prioritário, con-
tudo, era a conquista dos estreitos que ligavam o mar Negro ao
Mediterrâneo e a eliminação da Turquia como potência regional.
No limite, Istambul deveria ser conquistada e transformada em
“Czargrad”, marcando a transformação da Rússia numa verdadeira
potência mundial. Simbolicamente, essa conquista também signifi-
caria a retomada de Constantinopla pelos cristãos ortodoxos, vin-
gando a derrota de 1453.
É discutível se todos esses objetivos estavam claramente
na agenda russa e se eles poderiam ser realmente atingidos, ainda
mais porque a Inglaterra e a França, mesmo sendo suas aliadas,
dificilmente permitiriam tal crescimento do poder russo. Mas não
resta dúvida que os principais empecilhos aos sonhos russos eram a
Áustria-Hungria e a Alemanha, o que a aproximou do bloco rival.
De qualquer forma, o resultado dessa política de alianças
foi um continente dividido em dois blocos rivais em contínua ten-
são um contra o outro. Uma simples fagulha poderia incendiar todo
o edifício. E esta fagulha ocorreu em 1914, quando o Arquiduque
austríaco Francisco Ferdinando foi assassinado por um sérvio. A
Áustria ameaçou a Sérvia, que recebeu o apoio da Rússia. Em pou-
co tempo, a Alemanha apoiava a Áustria e a França ameaçava a
Alemanha. Todas as antigas tensões, todos os planos de guerra vie-
ram à tona e a máquina da morte se colocou em movimento, sendo
impossível pará-la. A simples morte de um Arquiduque austríaco
não deveria abalar o mundo, mas acabou levando, no contexto
mencionado acima, à Primeira Guerra Mundial, na qual os destinos
da Rússia foram lançados.

A RÚSSIA NA GUERRA: MOBILIZAÇÃO E


OPERAÇÕES DE GUERRA – 1914-1915

Logo após a declaração de guerra russa ao Império austro-


-húngaro (e a alemã à Rússia), em agosto de 1914, o Império come-
çou, como todos os seus aliados e inimigos, a mobilizar os seus
recursos para o conflito. A falta de infraestrutura ferroviária e as
56 João Fábio Bertonha

distâncias faziam a mobilização russa inevitavelmente mais lenta


do que nos outros países. Os reservistas franceses e alemães, por
exemplo, tinham que viajar, no máximo, oitenta quilômetros até
seus pontos de reunião, enquanto os russos tinham que viajar, em
média, 1.100 quilômetros para se reunir às suas unidades. O analfa-
betismo também atrapalhava os planos russos, como indicado no
capítulo anterior, pois a maioria dos recrutas era incapaz até mesmo
de ler suas ordens de movimento ou bilhetes ferroviários (KEEGAN,
1978, p. 42).
Tal a situação russa que, enquanto franceses e alemães
calculavam necessitar de quinze dias para completar a mobilização
de suas tropas, os russos estimavam em quarenta dias o tempo mí-
nimo necessário para tanto e, mesmo então, não mais do que uma
fração dos três milhões de homens a serem inicialmente convoca-
dos estaria em suas posições.
Os alemães contavam, aliás, com essa lentidão russa para
vencer a guerra. A ideia alemã, dentro do famoso Plano Schlieffen,
era mobilizar rapidamente suas tropas e desferir um violento golpe
na França, enquanto forças secundárias conteriam os russos, ainda
se mobilizando, na fronteira oriental. Com o colapso francês, todos
os recursos alemães seriam transferidos para o leste antes mesmo
de a Rússia completar a sua mobilização, garantindo a sua derrota e
a hegemonia alemã na Europa.
Os russos contavam com a resistência francesa para ter
tempo de reunir os seus imensos recursos e então avançar pelo ter-
ritório alemão, vencendo toda a resistência pelo simples peso dos
números. O coração do dispositivo militar russo era o saliente po-
lonês, onde, já antes da guerra, dois quintos do Exército estavam
estacionados, A partir dali, os russos, continuamente reforçados por
suas reservas e aproveitando-se da concentração alemã no Ociden-
te, poderiam ameaçar tanto a Prússia Oriental como a Galícia aus-
tríaca.
Com os franceses profundamente engajados contra os
alemães e suplicando por ajuda, os russos optaram por atacar mes-
mo antes que sua mobilização fosse completada. Já em agosto de
1914, os russos pressionaram, com imensa superioridade numérica,
em direção de Konigsberg. Os alemães recuaram, mas, melhor
equipados e comandados e aproveitando-se das falhas de planeja-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 57

mento dos generais russos e do terreno, conseguiram deter a ofen-


siva russa e, nas batalhas de Tannenberg e dos Lagos Masurianos,
em, respectivamente, agosto e setembro de 1914, forçaram-lhes a
recuar, com imensas perdas.
Ao sul do saliente polonês, a ofensiva russa foi muito mais
bem-sucedida. Desfrutando novamente de superioridade numérica
sobre um inimigo militarmente inferior, os austro-húngaros, os rus-
sos tinham, por volta de setembro, matado, ferido ou capturado
mais de 400 mil soldados inimigos e ameaçavam avançar pela pla-
nície húngara. Apenas o auxílio alemão salvou os austro-húngaros
do colapso.
Por todo o ano de 1915, o choque dos Exércitos alemães,
russos e austríacos continuou na frente oriental, sangrando a todos.
Nesse ano, o Alto Comando alemão decidiu-se a dar um golpe de-
cisivo na Rússia, incapacitando suas tropas o suficiente para que a
Alemanha pudesse concentrar suas forças contra a França e para
mostrar a força alemã aos países neutros. Frente ao poderio alemão,
os russos foram colocados na defensiva e sofreram algumas derro-
tas de peso. De fato, em 1915, o Exército russo sofreu a grande
derrota de Gorlice-Tarnow e teve suas tropas expulsas do saliente
polonês. Dezenas de divisões russas foram destruídas e soldados
alemães entraram em Varsóvia, Vilna, Brest e Kovno.
As perdas russas, além disso, continuavam a aumentar.
Duzentos e cinquenta mil homens mortos em Tannenberg, um
milhão nas batalhas nos Cárpatos em 1914-1915 e mais 400 mil
quando os alemães atacaram o bolsão polonês. Mesmo assim, os
russos, convocando as suas imensas reservas, conseguiram se
fortalecer o suficiente para partir novamente para a ofensiva em
1916 (KENNEDY, 1989, p. 256).

A OFENSIVA BRUSILOV E O COLAPSO DO


EXÉRCITO RUSSO – 1916-1917

Neste ano, com os alemães engajados no Ocidente, os


russos tiveram tempo para absorver novos recrutas e armas e pre-
parar uma nova ofensiva geral. Em maio, os planos ainda esta-
58 João Fábio Bertonha

vam sendo elaborados quando os italianos, na guerra desde o ano


anterior e não conseguindo conter o ataque geral desfechado por
austro-húngaros e alemães no Trentino, pediram ajuda aos russos.
Estes lançaram, então, o único dos grupos de Exército que tinha
os preparativos de ataque adiantados, o do general Brusilov, ao
ataque, no que ficou conhecido como “Ofensiva Brusilov”.
As tropas russas atacaram, assim, em 04.06.1916, conse-
guindo um grande avanço e ameaçando destruir as Forças Armadas
da Áustria-Hungria. Mais de 1,5 milhão de alemães e, especial-
mente, austro-húngaros foram mortos, feridos ou capturados entre
junho e agosto de 1916 e vinte mil quilômetros quadrados de terri-
tório conquistados, naquele que foi um imenso sucesso das tropas
czaristas.
Tropas alemãs foram rapidamente transferidas, contudo,
da frente ocidental e soldados austríacos voltaram da Itália, permi-
tindo aos germânicos restaurar o equilíbrio. Em setembro de 1916,
finalmente, com a entrada da Romênia na guerra, os russos tiveram
que transferir recursos para apoiar o novo, e fraco, aliado e a frente
de combate novamente se estabilizou.
A “Ofensiva Brusilov” praticamente destruiu o que restava
do moral dos soldados austro-húngaros e permitiu à França e Itália
respirarem, pois obrigou a Alemanha e a Áustria-Hungria a suspen-
derem suas ofensivas em Verdun e na Itália. Mas o fracasso da
ofensiva em destruir ao menos o inimigo mais fraco, a Áustria-
-Hungria, e as perdas imensas de homens, na faixa de 1,5 milhão de
soldados, e material levaram o moral do Exército russo ao nível
mais baixo até então.
Com o fim do ano de 1916 e o início de 1917, o Exército
russo estava realmente começando a entrar em colapso. Nesse mo-
mento, os russos já contabilizavam cerca de 1,8 milhão de mortos,
2,7 milhões de feridos e 3,6 milhões de prisioneiros de guerra ou
desaparecidos (KENNEDY, 1989, p. 256-257). Nesse ano, o czar
convocou recrutas de segunda categoria e arrimos de família, o que
permitiu preencher os claros nas fileiras, mas gerou mais descon-
tentamento.
O moral dos soldados estava abatido pela disciplina brutal,
escassez de comida, roupas e equipamentos, perdas imensas de
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 59

vidas e um crescente sentimento de que as batalhas sem fim, e a


própria guerra, não tinham sentido. Também dentro da Rússia, as
condições de vida deterioravam-se rapidamente, com desabasteci-
mento generalizado de alimentos, remédios e combustíveis, e o
descontentamento crescia. Em fevereiro de 1917, depois da Revo-
lução de Fevereiro, o Czar abdicou do trono e um governo provisó-
rio assumiu o poder, mantendo a Rússia na guerra.
Assim, uma nova ofensiva foi lançada, em junho de 1917,
com resultados desastrosos. Mesmo com algum sucesso inicial, os
Exércitos russos se mostraram tão pouco dispostos à luta que for-
mações militares inteiras simplesmente se dissolveram. Isso ajudou
a eliminar o apoio popular ao governo provisório. Em outubro de
1917, finalmente, os bolcheviques, sob a chefia de Lênin, assumi-
ram o poder.
A Revolução de outubro de 1917 foi um marco funda-
mental na história do século XX e, para alguns historiadores, o
verdadeiro início deste século. Não obstante, não é este o espaço
para uma apresentação em detalhes do acontecido então, tanto
pela disponibilidade dessa informação em um sem número de
livros e artigos, como pelo próprio enfoque deste livro. Cumpre
ressaltar, contudo, que dificilmente os bolcheviques teriam tido
condições de se apossar do poder sem que os traumas da guerra
tivessem abalado definitivamente os pilares do Estado e da socie-
dade czaristas.
Tal afirmação não significa compartilhar certas análises,
como as de Richard Pipes (1997), que afirmam que os bolcheviques
não tinham nenhuma representatividade dentro da sociedade russa
em 1917 e que a Revolução de Outubro de 1917 não passou de um
golpe de Estado. No entanto, sem a guerra, a hipótese de Lênin e
dos bolcheviques chegarem ao poder seria no mínimo remota. O
verdadeiro mérito destes talvez tenha sido, como indicam Hobs-
bawm (1997, p. 61-89) e Ferro (1974), entre outros, o de reconhe-
cer e atender as demandas sociais (paz, pão e terra) libertadas pela
guerra e pelo colapso do Estado czarista e se apresentarem como o
grande instrumento, aos olhos da população, para que elas fossem
atendidas.
De qualquer modo, o importante a ressaltar, dentro dos
objetivos deste livro, é que Lênin foi o primeiro a reconhecer
60 João Fábio Bertonha

que a paz era necessária tanto para que os bolcheviques se man-


tivessem no poder, como para tentar salvar o que restava da so-
ciedade e do Estado russos. Impedir um colapso total da Rússia
era um pré-requisito para que os sonhos revolucionários bolche-
viques pudessem ser postos em prática. Natural, pois, que, logo
após chegarem ao Kremlin, eles tenham pedido um armistício
aos alemães.
Esse armistício praticamente encerrou a participação russa
na Primeira Guerra Mundial. Os Exércitos russos entraram quase
que em total colapso e a maior parte dos soldados ou voltou para
casa ou se incorporou aos Exércitos das várias facções que lutavam
pelo poder dentro da Rússia. Tanto que, quando os alemães resolve-
ram, finalmente, romper o armistício e avançar pelo território russo,
não encontraram quase nenhuma resistência e, em uma semana,
avançaram mais de 250 quilômetros.
Os bolcheviques não apenas temiam esse avanço alemão
como podiam perder a sua base popular de sustentação caso não
acabassem de uma vez com a guerra. Os alemães, conscientes
dessa situação, exigiram o máximo para assinar a paz e o governo
de Lênin foi obrigado a aceitar. Em 3 de março de 1918, foi fir-
mado o Tratado de Brest-Litovsky. A Polônia, boa parte da Bie-
lo-Rússia, os países bálticos e alguns distritos do Cáucaso passa-
ram ao controle alemão e turco, e Moscou teve que reconhecer as
independências da Ucrânia e da Finlândia, além de pagar repara-
ções de guerra aos alemães. Mais de 780 mil quilômetros quadra-
dos do antigo território imperial foram cedidos à Alemanha e
seus aliados, incluindo um terço da sua população e recursos in-
dustriais. A guerra terminava, assim, de forma desastrosa para a
Rússia.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 61

Mapa 5 – A Rússia na Primeira Guerra Mundial

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 91.


62 João Fábio Bertonha

A RÚSSIA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL:


UMA AVALIAÇÃO

Uma avaliação da participação russa na primeira guerra


mundial requer que separemos os anos iniciais dos finais. Nos dois
primeiros anos da guerra, efetivamente, o desempenho russo no
campo de batalha foi bastante razoável, apesar de não corresponder
à imagem do “rolo compressor” russo de antes da guerra. Quando
da mobilização geral, em 1914, um ardor patriótico tomou conta do
país (como, de resto, de todos os beligerantes) e a maior parte dos
camponeses se apresentou, obedientemente, às suas unidades. Hou-
ve vários distúrbios durante a mobilização, mas, em geral, foram
causados por homens em marcha para se unir às fileiras do Exérci-
to, e não por uma recusa à guerra. Simpatia pela causa sérvia, des-
confiança da Alemanha e fatalismo provavelmente explicam isto.
Os soldados russos lutaram, em 1914 e 1915, com a bravu-
ra e mesmo resignação de sempre e conseguiram vitórias sobre os
turcos e os austro-húngaros na maior parte do tempo. Contra os
alemães, mais bem equipados e treinados, os fracassos superaram
grandemente os êxitos. Mas os russos, mesmo derrotados continua-
mente, lutaram com bravura e vontade.
Já nos dois anos finais, a degradação do Exército, especial-
mente em termos morais, foi intensa, quase inacreditável. Efetiva-
mente, com o passar do tempo, as derrotas contínuas e as imensas
perdas e sofrimentos na frente de batalha, o moral dos soldados e
seu desejo de lutar caiu, como visto, em ritmo acelerado. Logo,
soldados das guarnições do interior e da linha de frente começaram
a recusar ordens de seus oficiais e a aderir a grupos revolucionários.
Também houve deserções em massa, reduzindo unidades
militares inteiras a meras marcas no mapa. O quadro só piorou nos
meses a seguir, e o Exército russo se reduziu a uma multidão can-
sada, maltrapilha e faminta, que não obedecia a ninguém e que só
pensava em voltar para casa. Restava apenas um espectro do “rolo
compressor” que havia assustado a Europa.
Na verdade, como ressaltam historiadores como John
Keegan (2000) e Paul Kennedy (1989, p. 249-266), todos os Exér-
citos envolvidos no conflito foram, em menor ou maior grau, afeta-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 63

dos pela indisciplina, pela desmoralização e por um crescente de-


sejo de paz, especialmente nos anos finais da guerra. Houve, por
exemplo, grandes motins no Exército francês em 1917 e, no mes-
mo ano, o Exército italiano quase se dissolveu após a derrota em
Caporetto. Mas apenas o russo teve a sua coesão e disciplina aba-
ladas a ponto de chegar ao colapso e à desagregação.
Para explicar isso, devemos recordar como as tropas russas
foram especialmente afetadas pela guerra, pelas derrotas constantes
e pelos problemas de abastecimento e, também, as próprias caracte-
rísticas da sociedade russa de então. O Alto-Comando russo, por
exemplo, não dedicou grande esforço a explicar aos soldados as
razões por que eles lutavam, como fizeram ingleses ou alemães.
Afinal, considerava-se que os soldados-camponeses ti-
nham a obrigação de lutar e morrer pelo czar e pela pátria e que não
faria sentido explicar para eles porque eles deviam fazer isto. O
simples ato de convencer os soldados da razão da luta pareceria,
provavelmente, um total absurdo para a alta oficialidade, quase
toda ela originária da nobreza. Confiava-se na repressão pura para
manter a moral do Exército e controlar a propaganda antibélica e
revolucionária que circulava pelas fileiras, o que se revelou insufi-
ciente.
Já em 1915 e 1916, os comandantes russos se inquietaram
com a crescente agitação e descontentamento das tropas, mas o
problema estava sob controle, com o soldado russo ainda lutando
com suas tradicionais docilidade e abnegação. Mas em 1917, quan-
do o Estado czarista começou a perder o controle dos aconteci-
mentos e a economia e a sociedade russas começavam a se esface-
lar sob o impacto da guerra e de tudo o que ela trouxe (inflação,
carência de alimentos e outros produtos básicos etc.), o sentimento
antiguerra cresceu não apenas no interior do país, mas também en-
tre as tropas, tanto as da linha de frente como as estacionadas no
interior do país, ajudando a levar ao colapso o Exército e o Estado
russos. Nesse contexto, nada mais natural que os soldados da guar-
nição de Petrogrado, que somavam centenas de milhares de ho-
mens, tenham sido protagonistas ativos dos movimentos revolucio-
nários de 1917.
Na verdade, o Estado e os militares russos, assim como to-
dos os outros países, entraram na Primeira Guerra Mundial confian-
64 João Fábio Bertonha

tes de que seria uma guerra rápida e na qual os enormes recursos


militares russos dariam a vitória a Moscou em pouco tempo. Quan-
do, contudo, a guerra rápida que todos imaginavam se converteu
numa guerra de posições e de atrito entre dois grandes blocos, a
situação se modificou. A vitória iria pertencer aquele lado que fosse
capaz de mobilizar mais homens e equipamento militar para supe-
rar o adversário.
Nos dois primeiros anos da guerra, franceses e russos arca-
ram com o peso principal de conter a máquina de guerra alemã.
Lutaram bem, mas, por volta de 1917, os recursos de ambos estavam
quase no limite. A Batalha de Verdun e as ofensivas de Nivelle na-
quele ano tinham levado o Exército francês a beira do esgotamento,
enquanto a ofensiva Brusilov, apesar de ter praticamente destruído
o Exército austro-húngaro, tinha desgastado ainda mais as reservas
de armas, homens e recursos da Rússia. Também a Itália estava em
situação de quase colapso, como já mencionado, após a batalha de
Caporetto, também em 1917, enquanto a Inglaterra estava em me-
lhor situação, mas próxima do esgotamento.
Quando, porém, os Estados Unidos entraram na guerra e a
mobilização dos imensos recursos econômicos e industriais dos
Aliados se fez sentir, a balança se alterou. Recursos financeiros e
econômicos britânicos e, especialmente, norte-americanos, susten-
taram a França e a Itália, enquanto um número crescente de solda-
dos oriundos dos Estados Unidos começou a chegar ao continente
europeu. Mais que tudo, a adesão norte-americana representou uma
imensa esperança e reforçou a moral dos Aliados, enquanto ajudava
a solapar a alemã. Isso desequilibrou a balança a tal ponto que,
mesmo com a rendição russa em 1917 e a transferência de tropas
alemãs para o teatro ocidental, a Alemanha não pôde suportar a
pressão, rendendo-se em 1918.
É perceptível, assim, como, em 1917, Itália, Áustria-
-Hungria, França e Rússia estavam numa corrida em direção ao
colapso. Graças a sua maior coesão nacional e à ajuda dos seus
aliados mais ricos e poderosos (Alemanha de um lado e Reino Uni-
do/Estados Unidos de outro), os três primeiros países conseguiram
ao menos manter a luta até o final. Já a Rússia, além de exposta aos
ataques do poderoso Exército alemão na imensa fronteira comum,
estava praticamente isolada de seus aliados pelo território turco e
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 65

alemão e sem poder, assim, receber suprimentos, alimentos e ar-


mas, o que acelerou o seu colapso.
Isso não significa dizer que o Exército russo não foi capaz
de se aperfeiçoar no decorrer da guerra. Houve, com o passar do
tempo, melhoras no sistema de abastecimento militar e no treina-
mento dos recrutas. As tropas começaram a receber armas e supri-
mentos com maior regularidade e os jovens conscritos passavam
mais tempo treinando na retaguarda, ou em setores calmos da fren-
te, antes de entrar em ação. Foram, porém, melhoras pontuais num
sistema grande e pouco ágil e incapaz de gerar a força militar ne-
cessária para vencer os alemães.
Do mesmo modo, o desempenho russo na “guerra de pro-
dução” e na mobilização de sua sociedade para a guerra não foi
completamente ineficaz. Através de um esforço imenso da sua in-
dústria e da requisição da mão de obra dos camponeses, a produção
de armas e munições cresceu exponencialmente, assim como a de
aço, carvão e de todos os outros produtos necessários para subsidiar
a indústria de guerra.
Esses avanços não conseguiam, contudo, atender às neces-
sidades crescentes. A produção de metralhadoras, por exemplo,
cresceu de trezentas e cinquenta mensais, em 1915, para mil por
mês em 1916, mas, mesmo assim, calcula-se que os Exércitos rus-
sos recebiam apenas uma de cada seis metralhadoras de que neces-
sitavam desesperadamente para contrabalançar o poder de fogo
alemão (JUKES, 1979, p. 85).
A produção de munição para fuzis e metralhadoras, apesar
de também crescer muito, também nunca conseguiu atender as ne-
cessidades da frente de combate. As dificuldades de distribuição e
transporte apenas pioravam o quadro, pois, muitas vezes, as armas
e a munição produzidas não chegavam à linha de frente, ou chega-
vam apenas quando não eram mais necessárias.
Mas a escassez mais séria era de armas individuais. A pro-
dução de fuzis, por exemplo, oscilou entre setenta e cento e dez mil
mensais, contra uma necessidade de duzentos mil ao mês apenas
para compensar os desperdícios e perdas, sem contar a necessidade
de equipar os novos homens que eram chamados às fileiras. As
armas compradas no exterior e as capturadas, especialmente dos
66 João Fábio Bertonha

austríacos, apenas aliviavam a situação. Assim, muitos dos reforços


russos que chegavam à linha de frente vinham desarmados e, mui-
tas vezes, recebiam ordens de se equiparem com as armas dos com-
panheiros mortos. Até machados foram distribuídos em algumas
unidades, dada a falta de fuzis (JUKES, 1979, p. 85-86).
Assim, a distância, em termos de poder de fogo, mobilida-
de e treinamento, entre os soldados alemães e os russos, já grande
no início da guerra, só cresceu no decorrer do tempo, levando a
derrotas contínuas. Os alemães, na verdade, só não destruíram antes
o Estado e as Forças Armadas russas devido à sua concentração de
forças no Ocidente, enfrentando franceses, belgas, britânicos e,
posteriormente, os norte-americanos.
De fato, raramente os russos desfrutaram, a não ser local-
mente, de superioridade técnica ou qualitativa. A artilharia alemã,
por exemplo, era geralmente superior à russa e seus canhões, com
maior alcance e mais numerosos, despejavam continuamente chu-
vas de projéteis sobre a infantaria russa que avançava. Os alemães
também tinham superioridade aérea, o que permitia que seus aviões
de observação dominassem o campo, dando aos comandantes ale-
mães uma boa visão dos movimentos russos. Cabia aos soldados
russos usar o seu número e o seu sangue para vencer a disciplina e
os explosivos dos alemães.
Outro problema russo é que o seu estoque de recrutas dis-
poníveis para fazer essa guerra de homens contra material foi dimi-
nuindo com o tempo, o que é inacreditável quando se recorda da
população do país. Para explicar isso, devemos recordar como o
sistema de recrutamento militar russo pré-guerra, como já indicado,
não recrutava e treinava todos os homens em idade militar e que,
portanto, depois que as poucas reservas treinadas já haviam sido
chamadas, tudo o que restava eram recrutas que nunca haviam visto
um fuzil e que eram jogados na luta mesmo antes de poderem ad-
quirir alguma experiência.
O fato dos russos isentarem do serviço militar em tempo
de paz (ou permitirem menor tempo nas fileiras) os poucos jovens
com instrução superior e de pouco se preocuparem com o treina-
mento de cabos e sargentos também foi desastroso durante a guerra,
pois impediu a formação de uma reserva de oficiais e de suboficiais
necessária para sustentar a expansão maciça dos efetivos. Assim,
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 67

uma companhia do Exército russo tinha, durante o conflito, uma


média de dois sargentos e cabos, frente a doze no Exército alemão
(JUKES, 1979, p. 82), o que prejudicava a coesão e o comando das
unidades. Novamente, as características aristocráticas da sociedade
russa foram desastrosas para suas Forças Armadas.
Dessa forma, em 1916-1917, o Exército russo já estava
chegando ao limite do seu potencial humano e, em outubro de
1916, para perdas mensais de 300 mil homens, havia apenas 1,4
milhão de recrutas disponíveis para convocar e, mesmo assim,
chamando reservistas de segunda classe e homens que só deveriam
ser chamados em 1919. Em outros termos, haveria apenas cinco
meses de reservas disponíveis em 1916 e, a partir de então, os efe-
tivos tenderiam a declinar. Se recordarmos que, nesse final de
1916, quase quinze milhões de homens (20% de toda população
masculina) já haviam sido chamados pelo Exército, não fica difícil
notar como o Império russo desperdiçou seu potencial humano,
que, mesmo sendo imenso, começou a escassear (JUKES, 1979,
p. 147-149).
Em resumo, as grandes melhoras na estrutura militar russa
e o imenso esforço do Império no decorrer da guerra produziram
resultados, mas não o suficiente para conseguir compensar as suas
falhas e virar a sorte da guerra. Além disso, as estruturas sociais,
políticas e econômicas russas revelaram-se ainda mais incapazes de
enfrentar as transformações da guerra do que a dos italianos ou
austro-húngaros, o que se revelou fatal. Com o seu colapso, e a
Revolução, abriu-se uma nova fase na história russa, e o seu papel
no mundo modificou-se profundamente.
68 João Fábio Bertonha
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 69

Capítulo 4

A UNIÃO SOVIÉTICA

PERDAS TERRITORIAIS E GUERRA CIVIL – 1917-1920


Entre 1917 e 1922, a Rússia esteve mergulhada em uma
sangrenta guerra civil entre os bolcheviques e vários Exércitos
antibolcheviques, chamados de “brancos”. O território russo pre-
senciou também um colapso do poder central, com várias regiões
proclamando a independência. A Ucrânia, a Sibéria e várias outras
áreas se tornaram campo de batalha, com consequente colapso da
agricultura e fome generalizada.
Ainda em 1918, começaram várias intervenções estrangei-
ras na Guerra Civil. Tropas japonesas e estadunidenses desembar-
caram em Vladivostok e inglesas em Murmansk, enquanto contin-
gentes anglo-canadenses ocuparam partes do Cáucaso e soldados
franceses entraram em Archangelsky e Odessa. Os alemães forne-
ceram armas para algumas das facções envolvidas na luta e forças
de outros países também atuaram, além de mercenários de vários
tipos. Esses soldados foram retirados com o fim da Guerra Civil,
mas, enquanto puderam, forneceram ajuda técnica e política às for-
ças que se opunham à Revolução.
Em 1922, por fim, os bolcheviques venceram definitiva-
mente o conflito e consolidaram-se no poder. Sua vitória pode ser
explicada, em primeiro lugar, pela sua excelente organização e te-
nacidade, a qual permitiu a construção de um organismo militar, o
Exército Vermelho, capaz de triunfar sobre os Exércitos brancos.
Criado em abril de 1918, sob a liderança de Leon Trotsky, esse
70 João Fábio Bertonha

exército, formado a partir do recrutamento de camponeses e traba-


lhadores, absorveu dezenas de milhares de oficiais do antigo Exér-
cito czarista. Para garantir a sua lealdade, oficiais políticos, do Par-
tido Comunista, foram colocados dentro da estrutura militar, uma
prática que atravessou, com diferentes gradações, a era soviética.
Também contou, para a vitória bolchevique, a sua capaci-
dade em mobilizar a sociedade para a guerra, reprimindo implaca-
velmente toda a oposição interna. Foi o chamado “comunismo de
guerra”, através do qual todos os recursos humanos e materiais das
regiões sob controle bolchevique foram canalizados, sem levar em
consideração os custos, para a vitória na guerra. Também de suma
importância foi a habilidade da sua liderança em reconhecer exata-
mente o que os camponeses russos queriam naqueles anos – a terra
– permitindo a reforma agrária. Esta, em princípio, era contrária aos
ideais comunistas pregados pelo bolchevismo, mas foi efetivada
por puro cálculo estratégico. Isso permitiu a Lênin se manter no
poder (HOBSBAWM, 1997, p. 61-89).
Essa vitória, contudo, não mudava fatos objetivos. A nova
Rússia, pós-czarismo, era uma mera sombra do que havia sido e seu
potencial para exercer uma efetiva influência na geopolítica mundial
tinha sido grandemente reduzido. Ela exercia, agora, uma enorme
atração para os revolucionários do mundo por ter se tornado o pri-
meiro Estado comunista da História, mas esse fato também atraia
para a Rússia o ódio dos anticomunistas e, de qualquer forma, os
elementos de poder que Moscou dispunha, nesses anos, para exer-
cer influência na política internacional, haviam diminuído muito.
Em termos geopolíticos, a nova Rússia bolchevique ten-
tou recuperar um pouco do que a velha Rússia havia perdido. O
tratado de Brest-Litovsky, que cedia à Alemanha, como visto,
alguns dos territórios mais ricos do antigo Império, perdeu valida-
de com a derrota alemã, em novembro de 1918. Mas várias anti-
gas províncias haviam proclamado, no decorrer da Guerra Civil, a
sua independência e recuperá-las se tornou prioridade do governo
bolchevique.
Durante boa parte da Guerra Civil, efetivamente, os adep-
tos de Lênin não controlavam mais do que uma parcela do antigo
território imperial, mais ou menos aquela que formava o antigo
principado de Moscóvia. Com as vitórias militares sobre os Exér-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 71

citos brancos, o poder de Moscou se ampliou para incluir a Sibéria


e outras regiões de língua russa.
Para reincorporar outras províncias desgarradas, os bol-
cheviques aceitaram, ao menos em teoria, o princípio da autonomia
das nacionalidades e se proclamaram como os defensores não ape-
nas dos russos, mas de todas as nacionalidades oprimidas do antigo
Império, o que lhes trouxe, sem dúvida, o seu apoio. Também utili-
zaram, quando possível e necessário, a força militar. Com isso, a
Ucrânia, a Bielo-Rússia e os antigos territórios imperiais da Ásia
Central e do Cáucaso foram reincorporados ao Estado como unida-
des federadas (as repúblicas socialistas soviéticas), mas que, na
prática, eram controladas pelo governo central.
A Polônia, a Finlândia e os países bálticos se mantiveram
fora da nova união e outros territórios (como a Bessarábia e a Ucrânia
ocidental) foram perdidos, mas o grosso do antigo território imperial
voltou à órbita de Moscou, o que foi notável. De fato, enquanto anti-
gos Impérios multinacionais como o austro-húngaro e o turco-
-otomano entraram em colapso, em 1918, sob o impacto da derrota e
das reivindicações nacionalistas, os bolcheviques foram capazes,
combinando a força e alguma cooptação, de reverter o quadro.
É verdade que boa parte das tensões nacionais ficaram
apenas adormecidas, indo explodir décadas depois. Também é ver-
dade que a reconstrução do antigo espaço russo foi facilitada por
elementos outros além dos méritos e ações dos bolcheviques, como
a ainda pouco desenvolvida consciência nacional de cazaques, aze-
ris e outros povos. Não obstante, o trabalho realizado por esses para
recuperar a antiga base territorial do Império foi notável. Em 1922,
finalmente, refletindo essa nova realidade, a Rússia bolchevique
mudou de nome, passando a se chamar União das Repúblicas So-
cialistas Soviéticas (URSS).
Continuando a análise da situação da Rússia imediata-
mente após a tomada do poder pelos bolcheviques, devemos recor-
dar as perdas demográficas. Durante a guerra, estas não haviam
sido muito maiores, proporcionalmente, à média dos beligerantes
europeus. A Rússia, contudo, vivenciou, como visto, uma grande
guerra civil entre 1917 e 1920 e a fome e a guerra continuaram a
ceifar vidas na Rússia bem depois do fim dos combates no resto da
Europa. A população russa, ou soviética, declinou de 171 milhões,
72 João Fábio Bertonha

em 1914, para 132 milhões, em 1921, e o dreno demográfico na


Rússia europeia foi ainda maior. Uma parte dessa diminuição é
explicável pela perda, já mencionada, de territórios do antigo Impé-
rio, mas isso não diminui a magnitude das perdas demográficas
russas entre 1914 e 1920 (KENNEDY, 1989, p. 309).
No que se refere ao poder econômico, a situação era de
caos. Muitas fábricas, fazendas e ferrovias foram destruídas nos
anos de hostilidades, com o quase colapso da economia. Em 1920,
a indústria fabricava apenas 13% do que havia produzido em 1913.
O comércio exterior estava reduzido a zero, a agricultura estava em
ruínas e havia fome generalizada. (KENNEDY, 1989, p. 309). O
“comunismo de guerra” implantado por Lênin, entre 1918 e 1921,
havia sido capaz, ao mobilizar e militarizar a sociedade, de garantir
a vitória na guerra civil, mas não mais do que isso. Assim, apesar
do sucesso em recuperar quase todo o seu antigo território e re-
construir o Estado, a Rússia, agora União Soviética, estava numa
situação no mínimo delicada. Se ela queria garantir a sua segurança
e significar algo para o mundo, sua economia e sua sociedade teriam
que ser reconstruídas, e com urgência.

RECONSTRUÇÃO DO PODER INDUSTRIAL E


MILITAR – 1921-1941
Em 1921, o governo de Lênin, com o poder consolidado e
tendo que lidar com uma situação de fome e carência alimentar
generalizada, abandonou o “comunismo de guerra”. No seu lugar,
foi implantada a NEP (Nova Política Econômica), que representou
uma tentativa do governo soviético em estabelecer um compromis-
so entre a doutrina comunista e a realidade do país. Dentro da NEP,
estabeleceu-se, na União Soviética, um sistema econômico misto,
em que a grande indústria ficava sob controle do Estado, enquanto
às pequenas empresas urbanas e às propriedades rurais era dado o
direito de produzir e comerciar livremente seus produtos.
O resultado da NEP foi a recuperação econômica da
URSS. Em 1928, a produção de cereais e o rebanho bovino esta-
vam praticamente nos níveis de 1913 e a superfície plantada havia
passado de setenta e sete milhões de hectares em 1922 para cento e
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 73

treze nesse ano, superando os cento e cinco milhões de antes da


guerra. A produção industrial também se recuperou e, pela simples
reconstrução das fábricas, ferrovias e usinas herdadas do czarismo e
da época da guerra, ela também voltou aos níveis de 1913, já em
1928 (KENNEDY, 1989, p. 310).
Apesar desses bons resultados, a NEP tinha, aos olhos dos
comunistas, dois grandes problemas. O primeiro era que mantinha a
propriedade privada dentro de um projeto de sociedade que preten-
dia aboli-la. E, em segundo, ela não permitiria uma industrialização
maciça do país, o que, de forma coerente com a história russa desde
o século XIX e com a própria ideologia marxista, era visto como
fundamental para preservar a segurança e garantir a prosperidade
do novo Estado. Essa situação levou a intensas discussões dentro
do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), sucessor do bol-
chevismo, sobre o que fazer.
Em 1924, além disso, com a morte de Lênin, abriu-se uma
dura luta pelo poder dentro da União Soviética, a qual terminou
com a vitória da ala de Stalin, defensora de uma industrialização
maciça, a qualquer custo, do país. Esta consolidou seu domínio
especialmente a partir de 1929 e, a partir de então, a URSS entrou
num programa maciço de coletivização da terra, industrialização e
reforço ainda maior do poder do Estado.
A coletivização da terra foi imposta a ferro e fogo sobre os
camponeses. As pequenas propriedades oriundas da reforma agrária
foram confiscadas e grandes propriedades coletivas foram forma-
das. Num período curto, de apenas alguns anos, quase todos os
camponeses se tornaram empregados do Estado. Houve resistência
nesse processo, o que levou a brutal repressão e à queda da produ-
ção agrícola. Em 1941, a produção de alimentos, apesar dos pro-
gressos na mecanização, ainda era menor do que a de 1928 e houve
novos surtos de fome no país, em 1932 e 1933. A prioridade abso-
luta ao desenvolvimento industrial, tanto para investimentos do
Estado como para alocação de mão de obra, também é um fator
explicativo importante para compreendermos os problemas agríco-
las soviéticos nesses anos.
O desenvolvimento da indústria se tornou realmente a base
da política econômica do Estado, com todos os recursos sendo ca-
nalizados para ela. Milhões de camponeses foram expulsos de suas
74 João Fábio Bertonha

terras e encaminhados para as fábricas. O consumo privado foi re-


duzido a níveis baixíssimos, quase de subsistência, e, com isso, a
URSS foi capaz de destinar quase 25% do PIB ao investimento
industrial e ainda transferir recursos consideráveis às Forças Arma-
das, à educação e ao complexo científico-tecnológico.
Mesmo tendo sido obtidos a um custo humano imenso e
com graves danos ao sistema agrícola, os resultados desse esforço
foram impressionantes. As antigas áreas industriais de Leningrado,
Moscou e outras foram ampliadas, enquanto novas plantas industriais
foram fundadas nos Urais, no Volga e em outras áreas. Apenas entre
1928 e 1940, recorrendo novamente aos números levantados pelo
historiador Paul Kennedy, o número de pessoas empregadas na agri-
cultura caiu de 71% para 51% do total. No mesmo período, o número
de engenheiros formados por ano passou de quarenta e sete mil para
duzentos e oitenta e nove mil, a produção de carvão e de aço aumen-
tou quatro vezes, a de eletricidade sete, a de máquinas-operatrizes
vinte e a de tratores, quarenta vezes (KENNEDY, 1989, p. 311-312).
Claro que, por trás desse crescimento, havia ainda muitas
deficiências. A produção agrícola e de bens de consumo era inferior
às necessidades e mesmo as imensas melhoras no sistema de trans-
portes ainda eram insuficientes para as necessidades do país. O
gigantismo das fábricas e o planejamento centralizado levavam a
imenso desperdício de matérias-primas e mão de obra e a pouca
flexibilidade. Mesmo assim, a população soviética chegou aos 180
milhões em 1938 e, entre 1929 e 1938, a parcela soviética na pro-
dução manufatureira mundial passou de cinco para dezoito por
cento, a segunda do mundo, atrás apenas da americana. Os comu-
nistas haviam sido bem-sucedidos onde os czares haviam falhado
(KENNEDY, 1989, p. 311-312 e 197-198).
Essa corrida soviética à industrialização é um processo
interessante na medida em que indica a adaptação da doutrina co-
munista às condições do país. Nas obras de Marx, Engels e outros
clássicos comunistas, imaginava-se que a Revolução se daria em
países industrialmente avançados, como a Alemanha e a Inglaterra,
e não num país ainda atrasado como a Rússia. Os próprios bolche-
viques reconheciam essa situação e é compreensível que, por vários
anos após 1917, Lênin tenha contado com uma revolta proletária na
Alemanha para sustentar e manter a Revolução na URSS.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 75

Quando essa revolta não se deu e os comunistas russos se


viram isolados e hostilizados pelo resto do mundo, voltou-se ao
velho dilema do século XIX: a industrialização pesada era necessá-
ria para o poder nacional e o crescimento da sua economia, mas
como fazê-la numa nação de agricultores?. A resposta soviética não
foi muito diferente da dos czares, utilizando sem reservas o que o
país tinha (ou seja, amplos recursos naturais e reservas imensas de
mão de obra) para atingir seus objetivos. De modo análogo aos go-
vernos czaristas, além disso, o projeto industrial soviético privilegi-
ava a indústria pesada (aço, carvão, eletricidade) e militar, e não os
bens de consumo para a sua população.
As diferenças entre os dois momentos, contudo, também
são grandes. O programa industrial do governo soviético não se
esqueceu de aspectos como a alfabetização maciça do povo, o in-
vestimento em ciência e tecnologia e alguns benefícios, mesmo que
mínimos, aos operários das cidades, como alimentação e moradia
subsidiadas. Isto, mais as novas perspectivas e carreiras abertas aos
miseráveis camponeses russos (agora convertidos em operários nas
cidades), deu alguma legitimidade e popularidade ao projeto. Além
disso, o grau de controle que o Estado soviético tinha sobre a socie-
dade, através de um uso irrestrito da repressão, permitia uma liber-
dade na exploração dos recursos e das vidas dos habitantes do país
que nem mesmo os czares podiam ter imaginado.
Nunca será demais, de qualquer forma, ressaltar a magni-
tude da repressão do período de Stalin. Qualquer oposição aos pla-
nos do governo, tentativas de discutir alternativas ou de questionar
o poder supremo de Stalin eram imediatamente silenciadas. Prati-
camente toda a “velha guarda” bolchevique que havia feito a Re-
volução (incluindo Trotski, Bukharin, Kamenev, Zinoviev e outros)
foi executada, assim como parte substancial do partido e da cúpula
das Forças Armadas.
As estatísticas a respeito são vagas e confusas, mas os nú-
meros mais aceitos atualmente indicam que cerca de dez milhões de
homens e mulheres foram presos (muitos das quais enviados para
campos de trabalho forçado) e alguns milhões mortos entre 1930 e
1941. Outros quatorze milhões de camponeses, mais ou menos, mor-
reram no processo de coletivização do campo e industrialização. A
violência e a repressão tinham sido armas do governo de Moscou
76 João Fábio Bertonha

desde a época dos czares e também no período de Lênin, mas nunca


foram usadas com tamanha ferocidade como na época de Stalin.
Esse sistema repressivo também permitiu a eliminação de
todas as potenciais ameaças à lealdade dos soviéticos ao Estado. O
pensamento independente, as artes e a literatura foram rigidamente
controladas e a religião (em especial, a Igreja Ortodoxa russa) foi
colocada na ilegalidade, sobrevivendo na clandestinidade.
No que se refere às nacionalidades, conforme indicam
Dawischa e Parrott (1994, p. 8-13), houve alterações substanciais
na política do Kremlin, entre os anos 1920 e 30, com oscilação en-
tre cooptação e repressão. Na década de 20, apesar da mão forte
contra quaisquer separatismos, os comunistas procuraram ser mais
tolerantes com os grupos minoritários, permitindo a sua autonomia
e a participação de pessoal local na administração do partido e do
Estado. Procurou-se até mesmo criar uma expressão formal dessa
autonomia, através da criação de várias “repúblicas independentes”
dentro da URSS, o que teria implicações decisivas décadas depois
ao criar as bases formais para futuros movimentos nacionalistas.
Ainda assim, foi um arranjo funcional, que manteve o problema das
nacionalidades relativamente sob controle nessa década.
Já no período de Stalin, o pêndulo oscilou para a repressão.
O nacionalismo russo se tornou um elemento chave para a política de
fortalecimento do Estado na era stalinista e, sendo assim, a política da
“russificação” aplicada pelo regime czarista especialmente a partir da
segunda metade do século XIX, retornou com força ainda maior. As
nacionalidades minoritárias da URSS perderam a pouca autonomia
que ainda tinham e a mão pesada de Moscou foi utilizada para banir
as manifestações culturais independentes dos povos minoritários e
garantir a sua russificação e total submissão ao poder central.
Apesar de, nesse processo, a cultura russa ser promovida
como superior, o que estava em jogo, na verdade, era o desejo do
regime de garantir a total submissão dos povos e partes da sociedade
soviética ao poder central e não, obrigatoriamente, uma crença na
superioridade da cultura russa sobre as outras. Tanto que o próprio
Stalin era georgiano e muitos dos que puseram em prática a persegui-
ção aos grupos minoritários eram ucranianos, armênios ou azeris.
De qualquer modo, o impacto militar e geopolítico desse
processo de fortalecimento da economia e do Estado soviéticos foi
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 77

grande. A criação de uma estrutura estatal tão monolítica e, especial-


mente, de uma base industrial tão poderosa serviu para criar um
poder militar de primeira magnitude. Por todo o período entre guer-
ras, a URSS dedicou parte substancial do seu orçamento à defesa e
este só cresceu à medida que a tensão internacional aumentava,
especialmente depois da ascensão de Hitler ao poder em 1933. Real-
mente, os soviéticos estavam gastando cerca de 16% do orçamento
nacional com a defesa em 1937 e esse número cresceu para 32%
em 1940 (KENNEDY, 1989, p. 315).
O estabelecimento, já nos anos 20, de várias escolas mili-
tares, permitiu o surgimento de uma nova geração de oficiais, mais
ligados à ideologia comunista e profissionalizados. Graças aos en-
sinamentos alemães, fruto de uma colaboração entre os dois países
que abordarei a seguir, os soviéticos se tornaram, nos anos 1930,
entusiastas da guerra moderna, incluindo o uso de formações blin-
dadas e aviação.
Com o aumento da produção industrial, além disso, a URSS
foi capaz de produzir quantidades imensas de tanques e aviões para
equipar as unidades formadas no novo modelo. No final da década
de 1930, quase vinte e cinco mil tanques estavam em operação no
Exército da União Soviética, cuja indústria produzia dez mil aviões
por ano para a sua Força Aérea. Fuzis, peças de artilharia e munição
agora existiam em abundância e, em fins da década de 30, vários
milhões de homens vestiam o uniforme do Exército Vermelho.
A estrutura militar soviética continuava, contudo, com vá-
rios problemas. Muitos desses tanques e aviões eram obsoletos e,
apesar do enorme esforço na educação, continuavam a faltar ho-
mens preparados para tripular adequadamente todos esses veículos
e comandar as tropas. Os expurgos de Stalin no corpo de oficiais a
partir de 1937, movidos por sua desconfiança de tudo e todos que
pudesse ameaçar seu poder e que atingiu 90% dos generais e 80%
dos coronéis, acentuaram ainda mais essa falta de pessoal habilita-
do nas Forças Armadas (KENNEDY, 1989, p. 332-315).
Pior ainda: eles atingiram especialmente os oficiais mais
brilhantes, como Tukachevski, entusiastas da guerra moderna, o
que deixou o Exército nas mãos de homens de competência, na sua
maioria, duvidosa. Um resultado disso foi o desmantelamento dos
corpos blindados que estavam sendo criados, nos moldes alemães, e
78 João Fábio Bertonha

a distribuição dos tanques pelas divisões de infantaria, com resulta-


dos desastrosos quando da guerra.
Em resumo, os soviéticos continuavam enfatizando a
quantidade e produzindo volumes inacreditáveis (o que era viável
numa economia dirigida) de armamentos. Mas a sofisticação tec-
nológica destes armamentos era, em comparação com os exércitos
ocidentais e sempre pensando em linhas gerais, menor e isso afeta-
va a eficiência das Forças Armadas como um todo. Mesmo assim,
era uma força considerável e apenas uma nova guerra iria dizer se
os esforços soviéticos para diminuir a distância econômica e militar
que os separava do Ocidente tinham sido realmente bem-sucedidos.
Como aconteceu com os czares, em 1914, a hora da verdade sovié-
tica também veio, em 1941, quando as tropas nazistas invadiram a
URSS.

A URSS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

O Estado soviético passou por um período de relativo iso-


lamento durante as primeiras décadas de sua existência. A naciona-
lização das indústrias estrangeiras, a recusa em pagar a dívida ex-
terna contraída pelo Império czarista, a lembrança da intervenção
estrangeira antibolchevique durante a Guerra Civil e, acima de
tudo, a desconfiança das potências capitalistas frente ao primeiro
Estado comunista do mundo contribuíram para que as relações de
Moscou com a França, a Inglaterra e os Estados Unidos permane-
cessem frias. Nesses anos, a obsessão de Moscou era por sua segu-
rança frente ao que parecia ser uma aliança mundial contra a URSS.
Curiosamente, o país com que a União Soviética manteve
melhores relações na década de 1920 foi a Alemanha, devido à des-
confiança recíproca frente à Polônia e, especialmente, ao isola-
mento compartilhado por ambos os países no cenário internacional
pós-Primeira Guerra Mundial. Sendo assim, consolidou-se um flu-
xo comercial entre os dois países, além de renúncia mútua às inde-
nizações de guerra. Também se criaram laços militares, com os
alemães treinando os soviéticos na guerra moderna e desenvolven-
do armas em território russo, o que lhes permitia escapar das limi-
tações do Tratado de Versalhes.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 79

Na década seguinte, com a ascensão do nazismo ao poder na


Alemanha, em 1933, a situação se alterou e as relações entre Moscou
e Berlim se tornaram mais frias. Para fazer frente à ameaça nazista,
Stalin procurou romper o isolamento soviético e assinou tratados de
cooperação e assistência com vários países europeus, além de acelerar
a preparação militar. Em 1939, contudo, dada a resistência dos gover-
nos de Paris e Londres em assinar um acordo de cooperação com
Moscou e os interesses comuns, especialmente no tocante à Polônia,
soviéticos e nazistas assinaram um tratado. Este deu carta branca para
Hitler atacar a Polônia e a Europa Ocidental sem se preocupar com
sua fronteira oriental e, como recompensa, a União Soviética pôde
anexar os países bálticos e partes da Polônia.
Esse tratado, contudo, dificilmente poderia ter durado eter-
namente. Para Stalin, ele tinha o objetivo de recuperar os territórios
perdidos do antigo Império russo e obter mais tempo para reforçar as
forças militares nacionais e barganhar com os alemães e os aliados
ocidentais a melhor oferta para entrar na guerra. Para Hitler, ele foi
um mero expediente para conquistar a Europa Ocidental sem maiores
problemas. Assim que se tornou claro, com a queda da França em
1940, que a Europa Ocidental estava sob controle, ele imediatamente
ordenou o início os preparativos para invadir a URSS.
Para o antigo Império alemão de antes da Primeira Guerra
Mundial, a Europa Oriental e a Rússia eram territórios que deveriam
fazer parte de um futuro espaço, dominado pela Alemanha. Os
nazistas, contudo, valorizavam ainda mais o domínio desse territó-
rio, pois, segundo as suas crenças, seria ali que o povo alemão
encontraria o “Lebensraum” (espaço vital) para sobreviver.
Para completar, os nazistas consideravam os comunistas, ao
lado dos judeus, como seus inimigos mais perigosos e era justamente
naquela região que se localizava o único Estado comunista do mun-
do, a União Soviética. Destruir a União Soviética era, pois, algo fun-
damental não só para dominar o local onde deveria surgir o Império
nazista, como para esmagar a grande ideologia inimiga. Não é um
acaso, portanto, que a Alemanha nazista tenha sido sempre tão obce-
cada com a União Soviética e invadido o país assim que teve oportu-
nidade. Alegações de que o ataque alemão foi uma operação preven-
tiva contra um possível ataque soviético à Alemanha têm sido rejei-
tada, com razão, pela maioria dos historiadores, como indicam, por
exemplo, John Keegan (1974) e David Glantz (2001).
80 João Fábio Bertonha

A invasão foi precedida da conquista da península Balcâ-


nica pelas tropas alemãs, garantindo o controle quase que completo
do continente europeu e a segurança do flanco sul. Ao mesmo tem-
po, ao norte, os soviéticos, interessados em territórios que melhora-
riam seu perímetro defensivo, invadiram a pequena Finlândia em
fins de 1939. Favorecidos pelo terreno, pelo moral elevado e pelo
inverno, os finlandeses foram capazes de repelir ondas e ondas de
invasores. Apenas com uma concentração imensa de homens e
equipamentos (incluindo 1,2 milhão de soldados, dos quais uns 200
mil foram mortos) o Exército Vermelho foi capaz de fazer os fin-
landeses capitularem, em março de 1940, sendo estes obrigados a
ceder os territórios ambicionados pela URSS.
Essa invasão reforçou, nas mentes da liderança nazista, a
má impressão que eles tinham dos soldados soviéticos e a ideia de
que eles eram apenas números, que uma força mais bem treinada e
equipada seria capaz de derrotar rapidamente, repetindo Tan-
nenberg e outras batalhas da Primeira Guerra (CONDON, 1975).
Se os alemães tivessem prestado atenção, contudo, à cam-
panha vitoriosa do general Zhukov contra o Japão em 1939 (quando
os japoneses tiveram que abandonar a Mongólia Exterior, após per-
derem dezenas de milhares de homens), eles teriam percebido que o
Exército Vermelho não era tão fraco assim e que havia núcleos de
imensa perícia e capacidade no seu interior. No entanto, as dificul-
dades soviéticas para submeter a Finlândia foram reais e não apenas
incentivaram os planos agressivos dos nazistas, como forçaram a
própria cúpula soviética a reconhecer seus problemas e buscar so-
luções (KENNEDY, 1989, p. 315).
Assim, o Exército soviético foi reorganizado. A praxe co-
munista de colocar um comissário político ao lado de cada oficial
para vigiar suas ações, que já vinha sendo suavizada nos anos 30,
foi, na prática, eliminada, o que permitiu maior autonomia dos co-
mandantes das Forças Armadas no tocante às decisões militares.
Muitos oficiais ainda aprisionados ou banidos durante os expurgos
foram reintegrados e se emitiram novos regulamentos para o trei-
namento das tropas. As formações blindadas foram reconstruídas e
procurou-se sanar as deficiências de equipamento e organização
identificadas na Finlândia. Nem tudo pôde ser aprimorado, contu-
do, nos poucos meses que separam o fim da guerra no Ártico da
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 81

invasão nazista, mas as sementes do novo já estavam sendo planta-


das (KEEGAN, 1974, p. 23).
Em 22.06.1941, finalmente, os Exércitos do Eixo cruzaram
a fronteira russa do mar Báltico ao mar Negro. Eram cerca de 160
divisões alemãs, com outras 40 fornecidas por seus aliados finlande-
ses, romenos, húngaros e outros. No total, contando as forças de
apoio mais as aéreas, entre três e quatro milhões de homens, os quais
representavam o grosso dos efetivos militares totais do Eixo. A estes
se opunham cerca de 170 divisões soviéticas aquarteladas nas cir-
cunscrições ocidentais, totalizando cerca de 2,7 milhões de homens.
Em todo o território da URSS, as forças militares soviéticas conta-
vam, então, com cerca de cinco milhões de soldados, número este
que dobrou até o dia primeiro de julho, com a mobilização geral.
Os eixos do ataque alemão eram Leningrado no norte,
Smolensk e Moscou no centro e a Ucrânia no sul. O objetivo era
destruir todas as Forças Armadas e o próprio Estado soviético, com
a criação de um imenso Império alemão na Rússia europeia e a ex-
pulsão dos remanescentes para a Sibéria.
Stalin tinha sido advertido da invasão, mas, não acreditan-
do, ou não querendo acreditar na mesma, impediu medidas preven-
tivas. Pegos de surpresa e ainda com sérios problemas de liderança
e treinamento, os exércitos soviéticos sofreram pesadamente nas
primeiras semanas da invasão, enquanto sua força aérea, após per-
der 1.200 aparelhos apenas nas primeiras nove horas, foi pratica-
mente destruída. Os países bálticos, a Ucrânia e a Bielo-Rússia caí-
ram nas mãos dos nazistas e, por volta de outubro, eles se aproxi-
mavam do coração da Rússia, ou seja, Moscou.
O desempenho do Exército Vermelho foi realmente la-
mentável nas primeiras semanas da invasão e de três a quatro mi-
lhões de soldados foram mortos, feridos ou capturados apenas em
1941. Oito mil aviões e dezessete mil tanques foram perdidos e as
áreas industriais e agrícolas mais ricas do país caíram nas mãos do
invasor. A produção de alimentos caiu pela metade e a de aço, ferro
e carvão em três quartos, enquanto a de alumínio, cobre e manga-
nês (todos suprimentos vitais para a indústria bélica) se reduziu em
dois terços (OVERY, 1995, p. 182-183). No final de 1941, parecia
que 1917 iria se repetir e que as Forças Armadas soviéticas, e a
própria URSS, iriam se desfazer.
82 João Fábio Bertonha

Mapa 6 – Ofensivas do Exército Vermelho em 1942-1945

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 123.


Rússia: Ascensão e Queda de um Império 83

Não foi, contudo, o que ocorreu. O inverno e o excessivo


alongamento das linhas de suprimento alemãs deram aos soviéticos o
tempo necessário para eles se recuperarem e eles então conseguiram
não apenas contra-atacar na região de Moscou, já em 1941, como
resistir às ofensivas alemãs na direção do Cáucaso, em 1942 e 1943.
Datam dessa época batalhas famosas, como Stalingrado ou Kursk,
nas quais as forças soviéticas demonstraram grande criatividade e
habilidade táticas, envolvendo os exércitos nazistas e os obrigando a
recuar com grandes perdas. A partir desse ano, finalmente, e sem
querer entrar em detalhes sobre acontecimentos conhecidos, os exér-
citos soviéticos expulsaram os alemães do antigo território russo e
avançaram pela Europa Oriental, chegando a Berlim em 1945.
Essa guerra entre alemães e soviéticos foi muito diferente
daquela ocorrida no ocidente europeu. Em primeiro lugar, porque,
como visto, os alemães não conseguiram derrotar a URSS da ma-
neira como haviam feito com todos os outros países europeus. A
tática da Blitzkrieg e a capacidade militar alemã causaram grandes
perdas aos soviéticos e, como visto, territórios imensos caíram sob
controle nazista. No entanto, o enorme território da URSS, o clima
inóspito, os seus imensos recursos econômicos e militares e a con-
tínua resistência impediram os militares alemães de ocupar rapida-
mente o país, prolongando uma guerra que deveria, no pensamento
dos planejadores nazistas, ser curta.
O próprio caráter da guerra foi diferente na assim chamada
“frente oriental”. No ocidente europeu, a disputa era basicamente por
poder e áreas de influência. O mesmo ocorria na frente oriental, mas
existia também o conflito entre duas maneiras de ver o mundo (na-
zismo e comunismo) que, apesar de terem pontos em comum, se
odiavam mutuamente. Além disso, enquanto os povos da Europa
Ocidental eram vistos pelos nazistas como “raças aceitáveis”, os
povos eslavos do Oriente eram considerados, dentro do mundo das
ideias nazistas, subumanos a serem tratados com selvageria e despre-
zo. Tanto que milhões de prisioneiros de guerra soviéticos aprisiona-
dos pelos nazistas morreram no cativeiro, de maus-tratos, fome e
doenças, enquanto o tratamento destinado aos prisioneiros norte-
-americanos ou ingleses foi muito mais correto. Não é à toa, assim,
que a guerra na Europa oriental tenha sido muito mais violenta, bru-
tal e sanguinária e que cerca de vinte e sete milhões de soviéticos,
civis e militares, tenham perdido a vida na luta contra o nazismo.
84 João Fábio Bertonha

A VITÓRIA SOVIÉTICA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

De qualquer modo, o mais importante a destacar é que,


apesar das perdas imensas, a União Soviética venceu onde o Impé-
rio dos czares havia falhado, para admiração dos alemães e, prova-
velmente, de muitos russos. Muitas pessoas tendem a explicar isto
pelo clima russo e pelo seu território imenso, que tornariam a Rús-
sia inconquistável. Ora, não resta dúvida que o clima inclemente e
as distâncias enormes ajudaram a desgastar os alemães, permitindo
aos soviéticos sobreviverem ao ataque nazista em 1941. Mas espa-
ço e clima deram à URSS apenas tempo e, se os soviéticos não ti-
vessem tido vontade e capacidade de resistir aos alemães, um pou-
co mais de tempo poderia ter sido inútil.
Para explicar a determinação soviética em resistir, temos
que recordar que o sistema repressivo soviético permitia um grau de
controle sobre a população e sobre as Forças Armadas muito maior
do que na época dos czares. Especialmente nos momentos de deses-
pero de 1941, quando os alemães pareciam invencíveis, os oficiais da
polícia política, a NKVD, agiram para conter o derrotismo, fuzilando
desertores e reprimindo os dissidentes. Nos anos seguintes, a mão
pesada também foi largamente utilizada para manter a disciplina nas
Forças Armadas e em toda a sociedade soviética.
A repressão, contudo, não é o único elemento a ser levado
em conta para explicar a determinação soviética. O desejo de de-
fender o Estado socialista e suas conquistas (que, apesar do preço
alto que estava sendo pago, eram evidentes), com certeza, motivou
muitos soviéticos. Também o racismo nazista ajudou a aumentar a
resistência contra os ocupantes e a sabotar o esforço de guerra ale-
mão. Afinal, dentro dos projetos de Hitler, os únicos destinos pos-
síveis para os povos eslavos eram a escravidão e o extermínio. Se,
para muitos ucranianos ou georgianos, teria sido aceitável ser sú-
dito do Kaiser alemão ao invés do Czar russo, essa opção, no con-
texto da Segunda Guerra Mundial, não existia mais.
Assim, depois de um primeiro momento em que muitos
ucranianos ou caucasianos viram nos alemães aqueles que os liberta-
riam da tirania de Stalin, os povos da URSS aprenderam que escra-
vidão e morte eram as únicas alternativas à resistência, o que a esti-
mulou e ajudou a manter a moral do povo e das Forças Armadas.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 85

Na verdade, talvez seja possível dizer, até mesmo, que ti-


vemos, no início, uma guerra do regime soviético contra os nazistas,
a qual se transformou em uma guerra patriótica e popular, do povo
russo contra seus ocupantes. A produção crescente da indústria béli-
ca, as vitórias do exército e a crença numa vitória final sobre os na-
zistas e seus satélites teriam sido efetivamente impossíveis apenas
com repressão e controle e, na verdade, essas foram, com exceção de
alguns momentos críticos em 1941, relaxados durante a guerra. O
povo soviético percebeu o destino que o aguardava nas mãos dos
nazistas e lutou para defender a sua independência e as suas vidas.
Assim, movidos por uma ideia fixa de resistir a qualquer
preço e com uma disciplina brutal dentro das fileiras, os soldados
soviéticos lutavam com muito mais vontade do que seus pais e
avós haviam feito nas divisões do Czar. Depois das rendições em
massa no início do conflito, as Forças Armadas soviéticas não
esmoreceram nunca, mesmo com as baixas imensas, na sua de-
terminação em derrotar Hitler, o que espantou os generais alemães
que haviam visto os desmoralizados soldados russos fugirem para
casa em 1917.
Também contou, para a derrota alemã na frente oriental,
evidentemente, a colaboração dos norte-americanos e ingleses que,
além de fornecerem suprimentos em momentos cruciais, combate-
ram os alemães na Europa Ocidental e lançaram ondas de bombar-
deiros sobre a Alemanha, ajudando a drenar os recursos do Reich.
Também os militares alemães, proibidos por Hitler de recuar e com
pouca autonomia operacional, tiveram responsabilidade na sua pró-
pria derrota ao cometer erros táticos e subestimar o inimigo. Por
fim, a decisão japonesa de não atacar a URSS a partir do Oriente
deu, obviamente, um maior fôlego aos soviéticos, permitindo con-
centrar todos os seus recursos na luta contra a Alemanha.
Tudo isso, contudo, seria inútil sem que a antiga Rússia ti-
vesse passado pela maciça industrialização mencionada antes. Afi-
nal, de que adiantaria o espaço infinito e as imensas reservas de
homens dispostos a resistir se estes homens não tivessem o material
adequado para lutar? A Rússia podia ser mesmo inconquistável,
mas, como o czar tinha aprendido em 1914-1917, isso não signifi-
cava que ela não podia ser derrotada. Talvez os nazistas não pudes-
sem chegar até Vladivostok, na costa do Pacífico, mas poderiam,
talvez, conquistar a Rússia Europeia, o que significaria, de qualquer
86 João Fábio Bertonha

forma, a derrota da URSS e a possível dissolução do espaço rus-


so/soviético.
Outro fator que aumentou a importância da força indus-
trial para a sobrevivência do Estado soviético foi a própria evolu-
ção da tecnologia militar nos anos 20 e 30 do século XX, os quais
tornaram as Forças Armadas das grandes potências ainda mais
dependentes da capacidade produtiva dos seus países. A ciência e
a tecnologia estavam transformando os sistemas de armamentos
de forma cada vez mais acelerada, realmente, nesses anos entre as
duas grandes guerras. Os aviões de caça se tornavam maiores,
mais rápidos e mais bem armados do que nunca, assim como os
bombardeiros. Os grandes encouraçados eram mais rápidos, ti-
nham mais blindagem e melhor defesa antiaérea do que aqueles de
uma geração antes.
O mesmo ocorria com os tanques, os canhões, os subma-
rinos e vários outros armamentos, que também eram afetados pe-
las modificações nos equipamentos elétricos, de comunicações e
outros. Todo esse processo tornava a tecnologia um fator chave
para a eficiência de qualquer força militar. Os louros da vitória de-
pendiam cada vez mais da tecnologia, da ciência e da produção em
massa e são estes os fatores chave para entender a vitória aliada na
Segunda Grande Guerra, assim como a capacidade soviética de
derrotar a máquina militar nazista.
De fato, o poder industrial soviético era, agora, substancial
e, aplicado completamente no esforço de guerra, permitiu ao Exér-
cito Vermelho recompor suas perdas e se reforçar continuamente.
Apesar das imensas baixas provocadas pela invasão alemã, os sovié-
ticos traziam sempre mais e mais homens do interior da Eurásia, e
estes homens desfrutavam de uma crescente superioridade em tan-
ques, artilharia e aviões.
Foi fundamental para a vitória, de fato, a transferência,
para as profundezas da Ásia, a salvo das incursões alemãs, de mi-
lhares de grandes fábricas e a construção de outras tantas, as quais
produziram aço, produtos químicos, carvão, munição, petróleo e
armas. Apenas entre julho e dezembro de 1941, mais de mil e qui-
nhentas fábricas foram removidas, junto com dezesseis milhões de
operários, engenheiros e suas famílias, em 1,5 milhão de vagões
ferroviários, para além dos montes Urais (OVERY, 1995, p. 181-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 87

-183). Demorou algum tempo para que essas fábricas voltassem a


produzir, mas, quando o fizeram, permitiram que o Exército Ver-
melho recebesse armas e suprimentos em quantidade crescente.
Os soldados alemães eram, em geral, mais bem treinados e
contavam com um material militar superior, produzido segundo
uma longa tradição industrial que enfatizava a qualidade. Já o mate-
rial soviético era de qualidade inferior (ainda que contando com
algum equipamento realmente excepcional, como os tanques T-34,
os lançadores múltiplos de foguetes Katyushka e outros) e produzi-
do sem maiores requintes.
Mas era justamente essa simplicidade que permitia que ele
fosse produzido de uma forma padronizada e rápida. Em 1943, por
exemplo, seguindo os cálculos de Richard Overy (1995, p. 182), a
economia alemã produziu trinta milhões de toneladas de aço e, tra-
balhando-o, entregou dezessete mil tanques e vinte e sete mil ca-
nhões aos seus militares. Já a URSS, mesmo tendo produzido ape-
nas oito milhões de toneladas de aço, produziu vinte e quatro mil
tanques e quarenta e oito mil canhões, o que indica a capacidade
soviética em fazer mais com menos.
O sistema de produção militar soviético, assim, enfatizava a
rapidez, a simplicidade e a velocidade de produção. Isso permitia a
fabricação, em enormes números, de tanques, aviões, peças de artilha-
ria e outros armamentos relativamente pouco sofisticados, mas ro-
bustos e eficientes. Os norte-americanos também foram mestres nesse
tipo de produção em série e padronizada de armamentos.
Seria um erro dizer que, durante a guerra, os soviéticos
não aprenderam nada em termos de técnica militar. Pelo contrário.
As forças de terra e ar fizeram, das derrotas de 1941, quando quase
toda a força blindada e a aviação do país foram destruídas, a opor-
tunidade para reconstruí-las da base. As unidades blindadas foram
reorganizadas e melhores equipamentos (como os tanques T34 e
KV1, sistemas de rádiocomunicação e motores diesel) introduzidos.
Sua doutrina operacional também foi atualizada para seguir o mol-
de da Blitzkrieg e os serviços de apoio e manutenção dos blindados
aperfeiçoados.
Já a força aérea refinou e melhorou as técnicas da
Luftwaffe, aprendendo a concentrar seus aparelhos em exércitos
aéreos e a usar o radar. Novos aviões, de produção simples, mas
88 João Fábio Bertonha

muito eficientes, como os aviões de ataque IL-2 e os caças Yak-9,


Lagg-3 e La-5, foram produzidos em massa e incorporados às
fileiras. A partir de 1943, as forças blindadas e aéreas soviéticas
operavam de forma eficiente e nem se pareciam com suas prede-
cessoras de 1941.
É verdade que os exércitos soviéticos não superaram al-
guns defeitos antigos, como a pouca flexibilidade de comando e
motorização, o que os fazia ainda grandemente dependentes da fer-
rovia e das carroças. Os soldados soviéticos também dispunham de
menos alimentos e comodidades (sendo famosa, no fim da guerra, a
ansiedade dos soldados do Exército Vermelho para conseguir reló-
gios, roupas íntimas e outros itens de consumo) do que seus equi-
valentes alemães, para não falar dos norte-americanos. Mas, mesmo
com todas essas carências, as melhoras foram substanciais, tanto
que, enquanto, em 1941-1942, seis ou sete tanques soviéticos eram
perdidos para cada alemão, a proporção havia caído para um em
1944 (OVERY, 1995, p. 211-214).
Não obstante essa melhora qualitativa, contudo, o que real-
mente deu a vitória à URSS foi a massa numérica. No início de
1945, por exemplo, a Primeira Frente (termo utilizado pelos russos
para designar um grupo de Exércitos) Russo-Branca e a Primeira
Frente Ucraniana reuniram 2,2 milhões de homens, 6.400 tanques e
46.000 canhões e morteiros para a conquista da Polônia.
Tal tropa tinha recebido 120 mil vagões de suprimentos e
tinha estoques de quatro milhões de projéteis de artilharia, além de
ampla disponibilidade de combustível. Os alemães, do grupo de
Exércitos “A”, contavam com apenas 400 mil homens, 1.150 tan-
ques e 4.100 peças de artilharia, com poucos suprimentos. Segundo
observadores, o dilúvio de fogo projetado pelos Exércitos soviéti-
cos sobre os alemães na batalha que se seguiu seria inigualável sem
o uso de armas nucleares (ZIEMKE, 1975, p. 22-23).
Na conquista de Berlim, em 1945, por sua vez, os soviéti-
cos reuniram 2,5 milhões de homens, 7.500 aviões, mais de 40 mil
peças de artilharia e morteiros e 6.200 tanques, frente a uns 300 mil
soldados alemães. Em alguns momentos, assim, as tropas nazistas
simplesmente se dissolveram frente a ataques sem fim de tanques
e mais tanques, precedidos de um dilúvio de obuses de artilharia
(ZIEMKE, 1975, p. 71).
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 89

Tal superioridade material foi menos expressiva, mas já


presente, entre 1941-1943, quando a economia soviética se recupe-
rava da invasão e das imensas perdas econômicas e militares, mas,
entre 1944 e 1945, foi esmagadora. Não surpreende, assim, que,
dos 13,6 milhões de alemães mortos, feridos ou aprisionados du-
rante a guerra, 10 milhões o tenham sido na frente oriental. Se, al-
guma vez, a imagem do “rolo compressor” russo esteve perto da
realidade, foi na frente oriental, nesses dois anos.
Assim, saíram das fábricas russas, durante a guerra, uns
200 mil canhões e morteiros médios e pesados, 160 mil aviões e
100 mil tanques (MANDEL, 1989, p. 72; KENNEDY, 1989, p.
339-341). Como eles praticamente não lutaram nos oceanos, sua
produção de navios e submarinos foi pequena, mas ninguém, entre
todos os beligerantes, conseguiu produzir mais artilharia e blinda-
dos. Se examinarmos o conjunto da produção militar, apenas os
Estados Unidos foram capazes de fabricar mais material militar do
que a União Soviética durante a guerra.
Deve ser ressaltada, contudo, a imensa diferença entre o
sistema de produção estadunidense e soviético. Os norte-america-
nos, utilizando uma capacidade industrial imensa, conseguiram não
apenas produzir material militar em escala inacreditável e abastecer
seus soldados com todos os recursos e amenidades possíveis, como
o nível de vida médio dos civis norte-americanos melhorou subs-
tancialmente durante o conflito. Já os soviéticos, com recursos infi-
nitamente menores, sujeitaram seus soldados e operários a um pa-
drão de vida quase de subsistência. Em locais como Magnitogorsk,
Sverdlovsk ou Chelyabinsk, centros da produção de aço e militar
nos montes Urais, milhões de jovens, idosos e mulheres trabalha-
vam horas sem fim com alimentos racionados e vigilância contínua.
O que era inimaginável para os padrões ocidentais era realidade na
URSS (OVERY, 1995, p. 184-190).
Também o simples número de mortos no conflito – seis a
oito milhões de civis mortos pelos alemães, uns dez milhões de civis
vitimados pela fome, excesso de trabalho e doenças e mais sete mi-
lhões de soldados, totalizando 25 a 27 milhões, apesar das estatísti-
cas variarem – seria inaceitável em uma democracia ocidental. Tal
enormidade de baixas reflete não apenas a brutalidade nazista na
URSS, mas também o tipo de economia de guerra ali construído e o
90 João Fábio Bertonha

próprio estilo de guerra conduzido pelos soviéticos, usando a quanti-


dade para superar a qualidade e trocando vidas pela vitória.
Poderíamos dizer que essa foi uma maneira de fazer a guer-
ra de um Estado ditatorial e, apesar de tudo, ainda subdesenvolvido,
que usou, e pôde usar, vidas sem problemas para atingir seus objeti-
vos. Mas foi também uma maneira tipicamente russa de agir, pois,
afinal de contas, a própria Alemanha nazista foi incapaz de exigir
sacrifícios semelhantes de sua população e de seus militares. Isso
para não mencionar os Estados Unidos ou as outras democracias
ocidentais envolvidas, que tinham que fornecer, aos seus soldados,
confortos inimagináveis para os soviéticos e preocupar-se sempre
com o número de baixas, sob pena de perder sustentação interna.
Estas eram preocupações praticamente inexistentes na cúpula sovié-
tica, o que revela o que ainda havia de tipicamente “russo” nelas.
Também o resgate, até certo nível, do antigo nacionalismo
russo, é um indicativo da força das velhas tradições russas no novo
Estado soviético. Realmente, Stalin, para mobilizar a população e
evitar atritos com as potências capitalistas aliadas, esqueceu os ve-
lhos slogans da união do proletariado mundial contra o capitalismo
e proclamou a guerra como mais um capítulo da luta dos povos
eslavos contra os germânicos. Em boa medida, mera propaganda
para consumo imediato, mas também um sinal da força do nacio-
nalismo russo dentro da União Soviética. O mesmo pode ser dito
do esforço soviético, nesse período, em recuperar áreas do antigo
Império do czar que haviam ficado independentes, como os países
bálticos, o leste da Polônia e áreas da Finlândia.
Enfim, o que fica evidente é que a União Soviética de Sta-
lin não havia rompido totalmente com algumas das tradições do
antigo Império e que continuava a seguir alguns dos padrões de
comportamento e padrões mentais de antes da Revolução. Isso não
significa, contudo, que nada havia mudado. A sociedade soviética
era, em todos os aspectos, diferente da que a havia precedido. Tanto
que, em 1945, ela havia vencido uma das maiores máquinas milita-
res da História e atingido o sonho czarista de elevar a Rússia à po-
sição de superpotência global. O preço havia sido inacreditável,
mas Moscou, finalmente, era a capital de uma superpotência.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 91

Capítulo 5

A UNIÃO SOVIÉTICA NA GUERRA FRIA

A NOVA PAISAGEM GEOPOLÍTICA: EUA E URSS


ENTRE 1945 E 1950

O final da Segunda Guerra Mundial foi um momento de


total redefinição da paisagem estratégica global. A Alemanha, a
Itália e o Japão haviam sido derrotados, com destruição quase com-
pleta dos seus aparatos econômicos e militares e ocupação por parte
dos vencedores. A França e a China estavam do lado vitorioso, mas
estavam profundamente feridas pelos anos de conflito e luta contra
o inimigo. Mesmo a Grã-Bretanha, apesar do seu desempenho ex-
cepcional na derrota de Hitler, estava completamente exaurida em
termos econômicos e dependente da ajuda norte-americana. A era
da Europa como senhora do planeta havia chegado ao fim e um
mundo bipolar se formou, com duas potências participantes da
cultura europeia, mas fora do continente, se tornando as únicas a
serem levadas em conta nos assuntos globais: os Estados Unidos e
a União Soviética. A era das “superpotências” havia chegado.
Os Estados Unidos eram, com certeza, a verdadeira super-
potência. Durante a guerra, a economia estadunidense se desenvol-
veu enormemente, sendo capaz não apenas de abastecer e armar
suas próprias Forças Armadas e a dos Aliados, como a população
civil. Suas perdas em vidas haviam sido pequenas, na faixa de tre-
zentos mil homens e, de todas as populações envolvidas no confli-
to, a norte-americana foi a única que testemunhou uma melhoria no
seu nível de vida durante a guerra e a sua sociedade era bem mais
92 João Fábio Bertonha

rica em 1945 do que havia sido em 1941. Em um mundo devastado


e empobrecido pela guerra, os Estados Unidos eram a grande exce-
ção, produzindo, em 1945, 50% do PIB mundial e controlando 2/3
das reservas de ouro e metade do transporte marítimo do mundo.
Esse vigor econômico se refletiu no poderio militar. Em
1945, cerca de doze milhões de homens pertenciam às Forças Arma-
das dos EUA, dos quais 7,5 milhões estavam no exterior. Apesar
desse número, como seria de se esperar, diminuir rapidamente
nos anos imediatamente posteriores ao fim da guerra, os norte-
-americanos ainda tinham 1,4 milhão de soldados por volta de 1950
(KENNEDY, 1989, p. 343).
Além disso, a Marinha dos Estados Unidos dominava to-
dos os oceanos, sua Força Aérea exercia um controle quase total
dos céus e sua rede de bases aéreas e navais se espalhava por todo o
mundo. Para completar, ao menos por alguns anos, Washington
dispunha do monopólio da bomba atômica. O mundo todo sentia o
poder e a riqueza da América e a única área fora da influência ame-
ricana era a dominada pela outra grande vencedora da Segunda
Guerra Mundial, ou seja, a União Soviética.
A URSS saiu da guerra desfrutando de aparatos de poder
muito maiores do que ela dispunha em 1941. A destruição da Ale-
manha permitiu à União Soviética não apenas recuperar quase todo
o território perdido pelo antigo Império czarista na Primeira Guerra
Mundial (como os Estados bálticos e partes da Romênia, Polônia e
Finlândia), como anexar outros, como o extremo leste da Alemanha
e a Rutênia. Mais importante que isso, foi instalada, ao redor do
território soviético, uma série de Estados aliados (Polônia, Alema-
nha oriental, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, Coreia do Norte
etc.), os quais não apenas protegiam o próprio território soviético
como romperam com o isolamento de Moscou de antes de 1941. A
URSS agora controlava um grande Império na Europa e no Oriente.
As Forças Armadas também continuavam substanciais.
Boa parte dos quase 12 milhões de homens e mulheres que compu-
nham o Exército Vermelho (rebatizado de Exército soviético em
1946) ao fim da guerra foi mandada para casa, mas, mesmo assim,
os soviéticos ainda dispunham, no final da década de 1940, de qua-
tro milhões de homens em armas, vinte e cinco mil tanques e deze-
nove mil aviões. Novos sistemas de armas – como o formidável
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 93

caça a jato Mig 15 – foram desenvolvidos e uma força aérea estraté-


gica, nos moldes da norte-americana, foi criada. Por fim, os soviéti-
cos logo conseguiram, como veremos em detalhes a seguir, fabricar
a bomba atômica (KENNEDY, 1989, p. 346-348).
Em outros aspectos, a situação soviética era bem menos
impressionante, formando um contraste notável com a prosperidade
dos Estados Unidos. Os prejuízos humanos da guerra haviam sido,
como visto, imensos e, como a maioria dos mortos eram homens,
houve desequilíbrio entre os sexos, com queda da natalidade e maio-
res problemas ainda para repor o dreno demográfico. O prejuízo
material nas áreas ocupadas pelos nazistas e os causados pela guer-
ra em geral eram quase além da imaginação, com perdas acentua-
das na agricultura, pecuária, moradias, meios de transporte etc. A
URSS era um gigante militar, mas economicamente pobre.
Na verdade, a situação da União Soviética, no final da dé-
cada de 40 e início da década de 50, era tão desastrosa que a levou
a uma política externa relativamente comedida, com a recusa a
apoiar ações comunistas mais ostensivas em países já definidos
como do campo ocidental (como a Grécia e a Itália) e ao envolvi-
mento direto na guerra civil chinesa. Até a insistência em manter
ligados a ela os países do Leste europeu se devia mais a uma busca
de segurança e de recursos para financiar a reconstrução nacional
do que sintoma de uma nação imperialista em busca de expansão.
Nesse contexto, a resposta do regime de Stalin foi a volta
aos programas pré-guerra de industrialização maciça e de cresci-
mento econômico forçado baseado nos próprios recursos nacionais.
Novamente, privilegiaram-se os bens de produção – carvão, indús-
tria pesada, eletricidade, cimento, aço – em detrimento dos bens de
consumo e da agricultura. O padrão de vida dos soviéticos mante-
ve-se achatado, mas, em poucos anos, a indústria pesada russa vol-
tava aos níveis de produção de 1940, reconstruía-se o sistema de
transportes etc. Em 1950, a URSS era a segunda economia do
mundo, atrás apenas da estadunidense.
É notável, na realidade, que a URSS tenha conseguido
manter e aperfeiçoar seu aparato militar e recuperar a sua base in-
dustrial nas condições catastróficas em que estava a sua economia.
Para tanto, contou a ainda maior ênfase do regime na disciplina
interna e no conformismo, que se corporificavam na repressão ime-
94 João Fábio Bertonha

diata e plena a qualquer dissidência. Também foi importante o fato


que o sistema soviético era extremamente eficiente quando se trata-
va da ampliação quantitativa da produção industrial, especialmente
a relacionada à indústria pesada.
Por volta de 1950, assim, a União Soviética já tinha restau-
rado, se não o nível de vida de seu povo, ao menos os elementos
básicos do poder nacional. Os Estados Unidos eram muito mais
ricos e sua população, na média, vivia melhor do que no espaço
soviético. Mas Moscou tinha se recuperado em termos estratégicos
e militares e estava em condições, agora, de desafiar o poder dos
Estados Unidos. Primeiro, nas suas fronteiras e, depois, no mundo.

A URSS NA GUERRA FRIA: CERCO GEOPOLÍTICO E


EXPANSIONISMO
Durante o século XIX, havia várias pessoas que imagina-
vam que o mundo seria dividido em duas ou três superpotências e a
única certeza era que os Estados Unidos e a Rússia seriam duas
delas. Como, após a Segunda Guerra Mundial, o poder militar e
estratégico de soviéticos e norte-americanos estava há anos luz dos
seus rivais, parecia que as previsões haviam se confirmado.
Nesse cenário, imaginar que os dois superpoderes iam
competir entre si pela hegemonia mundial era algo perfeitamente
razoável. O que nenhum profeta do passado poderia imaginar,
contudo, era a maneira como essa competição se deu. Em primeiro
lugar, não foi possível, devido à ameaça de aniquilação mútua no
holocausto nuclear, aos dois superestados resolverem suas disputas
da maneira clássica, ou seja, pela guerra. Com isso, eles combatiam
um ao outro através do apoio aos aliados no Terceiro Mundo e se
ameaçavam mutuamente, mas não puderam se enfrentar numa ba-
talha definitiva, a qual teria destruído a ambos, e ao mundo.
Outro elemento diferente, como bem ressaltou Eric Hobs-
bawm (1997, p. 223-252), foi a presença da ideologia. É verdade
que, em muitos momentos, soviéticos e norte-americanos usavam
instrumentalmente a defesa da democracia ou do socialismo como
simples arma retórica para uma disputa pelo domínio do planeta.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 95

Mas o fato de cada lado ter um padrão ideológico universal (capi-


talismo e comunismo) que se excluíam deu uma força inédita à
ideologia como motor das relações internacionais. O mundo era
retratado como uma arena onde o bem e o mal combatiam e essa
retórica ideológica, entre altos e baixos, deu um caráter inédito à
Guerra Fria.
Dentro desse contexto maior, é possível reconhecer vários
momentos e particularidades. Nos anos 1950, os focos de tensão
entre Washington e Moscou eram a Europa e o Extremo Oriente.
Foram os anos da Guerra da Coreia (1950-1953), da Revolução
comunista na China e das manobras para redefinir geopoliticamente
o continente europeu, as quais incluíram momentos particularmente
tensos, como a primeira crise de Berlim de 1948-1949.

Mapa 7 – Os blocos soviético e ocidental nos


anos 40 e 50 e a crise cubana de 1962

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 126-127.

Com a pacificação da península coreana e a divisão da Euro-


pa em duas áreas claras de influência, essas duas regiões entraram
num momento de relativa estabilidade, apesar da tensão entre os
dois lados se manter. Realmente, ambos os blocos acumularam
quantidades enormes de armamentos nas fronteiras entre as duas
Alemanhas e as duas Coreias e a possibilidade de conflito estava
sempre presente, mas a estabilidade acabou por se consolidar, entre
idas e vindas, até o colapso do bloco do Leste, já nos anos 1990.
96 João Fábio Bertonha

Assim, no decorrer dos anos 1960 e 70, a tensão entre


Washington e Moscou acabou por se transferir ao Terceiro Mundo.
À medida que os antigos impérios coloniais europeus se desagrega-
vam, abria-se espaço para as superpotências, que procuravam con-
seguir amigos e aliados entre os novos Estados. Além disso, dada a
presença do fator ideológico e até emocional na disputa entre os
dois lados, qualquer conflito ou questão, mesmo nas regiões mais
remotas do globo, se tornava de vital importância, o que levou ao
envolvimento dos dois blocos em áreas e regiões de pouco ou ne-
nhum interesse estratégico ou geopolítico.
Foi assim que os norte-americanos financiaram e apoiaram
inúmeras ditaduras na África, Ásia e América Latina, intervieram
militarmente no Vietnã etc. Também os soviéticos conseguiram,
através do fornecimento de armas e recursos financeiros, aliados e
amigos em vários países da África, América Latina e Ásia. Nos
anos 1970, os soviéticos apoiavam ou subsidiavam a economia e as
Forças Armadas de Cuba, Etiópia, Angola, Egito, Vietnã e outros
países.
Em alguns poucos casos, os soviéticos intervieram direta-
mente, com suas próprias tropas, para manter ou aumentar a área
sob o seu controle ou, ainda, para resolver problemas localizados
que poderiam desestabilizar a região inteira. Foi o que aconteceu na
Alemanha oriental, em 1953, na Hungria, em 1956, na Tchecoslo-
váquia em 1968, na Polônia, de forma indireta, em 1981 e, especial-
mente, no Afeganistão, em 1979, iniciando uma longa e custosa
guerra que só terminaria em 1988.
Essa expansão das superpotências pelo mundo não signifi-
cou que, por exemplo, a Síria ou Moçambique (países alinhados
com Moscou na maior parte da Guerra Fria) tenham sido incorpo-
radas pelo Império soviético. As novas nações do Terceiro Mundo
normalmente mantinham laços com uma ou outra superpotência
sem sujeição completa a esta, já que sempre podiam, se fosse de
seu interesse, mudar de lado. Foi o que ocorreu, por exemplo, com
o Egito e a Somália nos anos 70. Na prática, os EUA podiam contar
apenas com meia dúzia de aliados realmente fiéis (a Europa ociden-
tal, o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, a Coreia do Sul e Israel),
enquanto a URSS tinha sob controle absoluto apenas a Europa orien-
tal, com a exceção da Iugoslávia e da Albânia.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 97

É importante notar também que, com o tempo, a divisão


do mundo em dois grandes blocos foi se tornando menos evidente.
A Europa ocidental e o Japão recuperaram as suas economias e
começaram a contar mais no cenário internacional, enquanto a Chi-
na, apesar de comunista, rompeu seus laços com Moscou, o que
criou uma nova realidade estratégica na Ásia.
Ainda assim, podemos sem dúvida afirmar que, em linhas
gerais, o período de quase cinquenta anos entre o fim da Segunda
Guerra Mundial e o fim da URSS foi caracterizado pela divisão do
mundo em dois grandes blocos e a intensa competição entre ambos.
Também podemos afirmar que a URSS, num primeiro momento,
viu-se reduzida ao território sob sua influência ao fim da Segunda
Guerra Mundial e que os Estados Unidos tentaram, através da sua
política de contenção, mantê-la nesses limites. Fica claro também
como, grosso modo, a partir dos anos 60, a URSS foi capaz de
romper esse cerco e ampliar a sua esfera de influência no mundo.
Se isso trouxe algum benefício econômico ou social para a União
Soviética, é discutível, mas, para os antigos defensores da ideia de
que cabia a Moscou gerir os destinos do mundo, parecia que o ca-
minho estava correto.

A CORRIDA ARMAMENTISTA E O COMPLEXO


INDUSTRIAL MILITAR SOVIÉTICO

Nesse contexto de intensa competição entre as duas super-


potências, um elemento chave foi a corrida armamentista que, entre
altos e baixos, atravessou todo o período que se estende do final da
década de 1940 até o colapso da URSS em 1991. Essa corrida foi,
antes de tudo, uma corrida nuclear, de acúmulo de ogivas nucleares
e vetores de lançamento.
Foi a corrida nuclear que marcou, realmente, a Guerra
Fria no campo dos armamentos. Os norte-americanos tiveram o
monopólio da bomba atômica até 1949. Nesse ano, a União Sovié-
tica explodiu seu primeiro engenho nuclear e, em 1953, sua pri-
meira bomba de hidrogênio. Já em fins dos anos 40, os soviéticos
começaram a construir bombardeiros de longo alcance e, na dé-
98 João Fábio Bertonha

cada seguinte, mísseis balísticos de alcance médio e, depois, os


intercontinentais. Mais tarde, desenvolveram também, sempre em
paralelo com os norte-americanos, submarinos lançadores de mís-
seis balísticos e armas nucleares táticas. A URSS estava, assim,
plenamente integrada à lógica da Guerra Fria, acreditando que a
única proteção contra um inimigo possuidor de armas nucleares
era dispor de um potencial nuclear equivalente, e, se possível,
superior.
Não deixa de ser impressionante como um país empo-
brecido e destruído pela guerra tenha conseguido, em apenas
quatro anos, romper o monopólio nuclear estadunidense e come-
çar a construção do seu próprio arsenal. O papel da espionagem e
da cópia pura e simples não podem ser ignorados e a mídia, até
hoje, revela esquemas e escândalos envolvendo físicos, militares
e outras personalidades que colaboraram, seja por motivos ideo-
lógicos seja por outras razões, com Moscou e mantiveram os so-
viéticos muito bem informados sobre o projeto Manhattan e os
progressos técnicos ocidentais no campo nuclear. Mas, sem uma
estrutura técnica e científica adequada para analisar, reproduzir e
processar estas informações, elas teriam sido de muito pouca uti-
lidade.
Na verdade, como ressaltado por David Holloway (1997),
o projeto da bomba atômica era um que o sistema stalinista era ca-
paz de dar conta, pois envolvia a alocação maciça de recursos na
direção de um objetivo delimitado, sem medir gastos ou sacrifícios.
Assim, boa parte do trabalho de mineração e construção necessário
para as primeiras fábricas e usinas foi feita por trabalho forçado, ao
mesmo tempo em que as demandas da economia civil foram sacri-
ficadas para fornecer a eletricidade ou as matérias-primas necessá-
rias à produção nuclear. Recursos financeiros também não foram
poupados e os cientistas soviéticos, apesar de vigiados pelo sistema
repressivo, trabalhavam com entusiasmo e convictos de que seu
país precisava de um arsenal nuclear para se manter o equilíbrio
com os Estados Unidos.
De qualquer modo, o resultado de décadas de acúmulo de
armamento nuclear é que, em meados dos anos 1980, as duas su-
perpotências dispunham da capacidade de destruírem todo o planeta
dezenas de vezes. Apenas a URSS dispunha de cerca de 1.400 mís-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 99

seis balísticos intercontinentais, alguns capazes de levar dez ogivas,


uns mil mísseis com base em submarinos e algumas centenas de
bombardeiros capazes de carregar armas nucleares. Isso sem contar
dezenas de milhares de armas nucleares táticas (desde mísseis de
curto alcance até projéteis de artilharia nucleares), para uso no
campo de batalha (CASTORIADIS, 1982, p. 81-90).
Calcula-se que, nos anos 1980, os soviéticos tinham mais
de vinte mil ogivas nucleares, sendo superados apenas pelos norte-
-americanos, com suas vinte e seis mil. Em poder bruto de destrui-
ção medido em megatons, o arsenal de Moscou era superior ao de
Washington, sendo capaz de destruir qualquer nação do mundo 35
vezes, frente a “apenas” 28 dos Estados Unidos. Estes dados são
questionáveis, pois interessava tanto a Moscou como ao Pentágono
exagerar, por interesses próprios, o poder nuclear soviético. De
qualquer modo, fica claro como a URSS havia se tornado uma po-
tência nuclear de primeira grandeza.
Nesse contexto, o cenário estratégico se modificou pro-
fundamente. Nem norte-americanos nem soviéticos podiam recuar,
em caso de guerra, para seus núcleos na América do Norte ou no
centro da Eurásia e, como haviam feito antes, desfrutar da proteção
estratégica oferecida pelo Oceano Pacífico e Atlântico ou pelas
grandes massas de terra da Rússia para se mobilizarem. Uma guerra
nuclear seria a destruição de ambos, o que tornou a corrida nuclear
um claro contrassenso.
A corrida nuclear não significou, contudo, que as forças
convencionais fossem eclipsadas. Tanto os Estados Unidos como a
União Soviética entraram realmente numa corrida para acúmulo de
armas convencionais nesses anos. Apenas entre 1948 e 1970, as
despesas militares dos EUA foram multiplicadas por oito vezes,
enquanto as soviéticas cresceram quase seis. Os norte-americanos
se preocuparam em manter seu domínio aéreo e naval no mundo, ao
mesmo tempo em que procuravam maneiras de anular a imensa
superioridade numérica dos soviéticos em terra (KENNEDY, 1989,
p. 367).
Moscou, num primeiro momento, teve como prioridade
garantir que suas forças de terra na Europa fossem esmagadora-
mente superiores às do Ocidente. Isso foi obtido não apenas através
da massa numérica, como também pela reorganização e reforma
100 João Fábio Bertonha

das Forças Armadas, especialmente depois da morte de Stalin em


1953. O poder aéreo também recebeu maciços investimentos, aumen-
tando a capacidade ofensiva dos soviéticos.
A partir dos anos 1960 e 70, a URSS procurou desenvol-
ver também uma poderosa esquadra. Durante as guerras mundiais,
e mesmo antes, a marinha russa havia realizado pouco e a maioria
do seu pessoal havia lutado em terra. Nos anos 1950, ela não foi
prioridade nos planos do Kremlin, o que só se alterou à medida que
foi ficando claro como a URSS ficaria em séria desvantagem no
tabuleiro de poder mundial se não tivesse uma marinha forte, capaz
de desafiar os Estados Unidos e o Ocidente. O resultado foi uma
expansão maciça da Marinha vermelha, com cruzadores, destroie-
res, submarinos e mesmo porta-aviões (ainda que inferiores em
capacidade aos norte-americanos) sendo construídos em massa.
Também foram estabelecidas bases navais fora da URSS, na Áfri-
ca, Ásia e América Latina.
Por volta dos anos 1980, estava claro como ainda levaria
muito tempo para o Kremlin poder desafiar o domínio ocidental nos
oceanos, especialmente frente às forças tarefa de porta-aviões dos
Estados Unidos. Suas bases navais ainda eram poucas e com limi-
tações, sua capacidade de projetar poder além oceano era imensa-
mente reduzida dada a falta de fuzileiros navais, navios de reabas-
tecimento e porta-aviões nucleares. Mas sua imensa força de sub-
marinos e seus bombardeiros de ataque, como os Tu-22 (Backfire),
eram uma ameaça, em caso de guerra, às ligações marítimas da
Europa com a América e forças navais soviéticas eram agora vistas
no Mediterrâneo, no Caribe e no Pacífico, assustando os norte-
-americanos e levando o poder de Moscou a locais onde os czares
nunca teriam sonhado.
De qualquer forma, por qualquer critério concebível, os
números sobre a força militar soviética eram impressionantes. Em
1984, segundo dados do Pentágono, a URSS tinha cinco milhões de
soldados (somando os da ativa e os imediatamente mobilizáveis),
cinquenta mil tanques, setenta mil blindados, cinquenta e quatro
mil peças de artilharia, duzentos e quarenta navios, trezentos sub-
marinos de ataque, quatro mil helicópteros e, espalhados por diver-
sas forças, cerca de oito mil aviões, além da mais densa rede de
defesa aérea do mundo.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 101

Novamente, tais dados são questionáveis, dado o interesse


do complexo industrial militar norte-americano em exagerar a força
soviética para exigir maiores orçamentos. No entanto, exageros à
parte, fica claro como era uma força militar imensa, com ramifica-
ções em todos os continentes, superior, ao menos em números, à
americana e que dava à URSS o status de superpotência.
Inútil ressaltar como o poder militar soviético também ti-
nha fraquezas (como a crescente proporção de recrutas muçulma-
nos oriundos da Ásia Central, menos educados e confiáveis do que
os eslavos, ou uma doutrina militar rígida e pouco flexível) e que
seu poder era sempre exagerado pelo Pentágono com vistas à ob-
tenção de mais verbas. Era, porém, por qualquer critério de avalia-
ção, uma força impressionante, cuja manutenção e ampliação suga-
va uma quantidade tão grande de recursos do Estado (Cerca de 15-
-20% do PIB – ainda que as fontes e os cálculos variem enorme-
mente, segundo os critérios utilizados – contra 5% do dos EUA)
que não é difícil atribuir a esse dreno parte considerável de respon-
sabilidade no processo de esclerose política e econômica que fez a
URSS desaparecer em 1991.
Na verdade, seria um erro dizer que o armamentismo exa-
gerado foi a única causa do colapso soviético. Durante os anos
1950, por exemplo, os gastos militares foram superiores, em termos
proporcionais, aos da década de 1980, mas isso não era problema,
já que o poder militar ainda era pouco dependente da tecnologia e a
economia crescia em ritmo acelerado, sendo capaz de manter a má-
quina militar (SEGRILO, 2000).
Não obstante, se analisarmos o problema em linhas gerais,
não resta dúvida que o esforço de manutenção militar foi prejudicial
para a União Soviética. Centenas de bilhões de dólares anuais, mi-
lhares de fábricas e parte substancial da mão de obra especializada
do país eram bombeados continuamente para o sistema militar e
isso drenou a economia soviética, especialmente a partir do momento
em que ela perdeu dinamismo e eficiência, a um ponto tal que ela
começou a implodir.
A potência rival da URSS, os Estados Unidos, também
teve problemas para manter gastos militares crescentes e criou um
complexo industrial militar que, ainda hoje, custa muito à socie-
dade norte-americana. Os EUA sobreviveram, porém, ao embate e
102 João Fábio Bertonha

se tornaram a única superpotência do mundo. A URSS, contudo,


desapareceu. Por que essa diferença de destinos? Um fator chave
a considerar é a geopolítica, que ajuda a explicar a necessidade
soviética de ter forças militares sempre maiores e, com isso, o seu
declínio.
A situação geopolítica de URSS e EUA era, de fato, muito
diferente. Os EUA estavam isolados na América do Norte, com
livre acesso aos oceanos e dois países amigos e fracos nas frontei-
ras (Canadá e México). Já a URSS herdou os problemas geopolíti-
cos da antiga Rússia e estava isolada e bloqueada por seus inimi-
gos. Suas quatro frotas navais (Ártico, Pacífico, Negro e Báltico)
estavam impedidas de atingir o oceano aberto por países da OTAN
ou por aliados dos EUA e, portanto, isoladas; suas fronteiras eram
longas e inseguras e, por todos os lados, os soviéticos viam pro-
blemas e inimigos. Associando-se essa situação de cerco à memória
histórica de invasões sem fim ao seu território (mongóis, franceses,
alemães) e a ideia de que uma força militar poderosa era essencial
para deter os inimigos da revolução comunista, não surpreende a
verdadeira fobia russa/soviética por segurança e a maneira com a
qual eles investiam sempre mais recursos do país na defesa.
A falta de aliados de peso também enfraqueceu a posição
geopolítica soviética. Desde o rompimento de Moscou com a China
nos anos 1950, e a aproximação desta com os Estados Unidos, nos
anos 70, os soviéticos tinham que enfrentar um poderoso rival com
o qual compartilhavam longas fronteiras. O Japão e a Europa Oci-
dental também estavam do lado dos EUA, dividindo os custos não
apenas econômicos, como também militares da corrida com o bloco
comunista.
Realmente, em 1985, os países europeus da aliança militar
ocidental, a OTAN, respondiam pela maior parte dos soldados, tan-
ques e peças de artilharia destinados a enfrentar uma possível inva-
são do Exército soviético, além de contribuírem substancialmente
em termos de aviões, navios e submarinos. Aos norte-americanos,
cabia complementar o poder europeu, especialmente em termos
aéreos e navais e, em caso de guerra, suplementá-lo.
Já os aliados de Moscou na Europa Oriental, que forma-
vam o Pacto de Varsóvia, não apenas eram dependentes, em boa
medida, dos recursos econômicos e naturais da URSS, como eram
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 103

vistos com desconfiança pela liderança soviética. Tchecos, polone-


ses ou romenos eram apenas um complemento aos Exércitos sovié-
ticos estacionados na Europa e cabia às Forças Armadas soviéticas
garantir a superioridade do Pacto de Varsóvia frente à OTAN, o
que exigia ainda mais delas. Apenas os alemães-orientais, prova-
velmente, eram vistos como aliados confiáveis e eficientes.
Além disso, é impossível esquecer que, no final da Segun-
da Guerra, os EUA montaram toda uma rede de organismos de
gestão global (ONU, FMI, Banco Mundial etc.) que espelhavam o
modelo norte-americano. A URSS teve que agir politicamente,
portanto, em um mundo onde as regras eram estadunidenses, o que
inevitavelmente afetava a sua capacidade de atuação enquanto po-
tência.
A URSS teve que enfrentar, assim, uma situação geopolí-
tica desfavorável e uma corrida armamentista com um rival muito
mais desenvolvido, o Ocidente. Enfrentar esses problemas exigia
mais recursos para os militares e uma economia forte e avançada o
suficiente para sustentar essa escalada. Infelizmente para Moscou,
não era este o caso da União Soviética nas últimas décadas de sua
existência.
É notável, realmente, que uma estrutura econômica tão
cheia de problemas, a serem vistos em detalhes a seguir, tenha
sido capaz de sustentar um poder militar tão substancial como o
mencionado acima. Em boa medida, isso acontecia pelo fato dos
soviéticos, como visto, privilegiarem a defesa nacional em detri-
mento dos outros setores da sua sociedade. Mas também contou,
com certeza, o fato de o sistema militar soviético ter aquilo que
faltava para que o resto do aparato produtivo da URSS pudesse
funcionar com eficiência, ou seja, um competidor.
Realmente, as fábricas de aviões ou tanques, dirigidas
pelos militares, tinham que se preocupar continuamente com o
que o “outro lado” estava fazendo e isso era um estímulo contí-
nuo para que elas aperfeiçoassem continuamente seus produtos e
exigissem o mesmo das indústrias e usinas que os abasteciam.
Natural, pois, que os únicos setores realmente eficientes da socie-
dade soviética tenham sido justamente os submetidos à competi-
ção externa, como as forças militares, o sistema aeroespacial e as
equipes olímpicas.
104 João Fábio Bertonha

Assim, a sociedade soviética viu-se dividida entre uma


metade “civil” cheia de problemas e uma metade “militar” mais
eficiente e capaz. Dizer que essas duas metades eram quase in-
comunicáveis, como sugeria Castoriadis (1982, p. 108-110), seria
um erro, já que ambas estavam associadas e que alguns proble-
mas (desperdício de matérias-primas e mão de obra, excesso de
burocracia etc.) eram comuns a ambas. Mas o sistema militar, até
por questão de sobrevivência do Estado, recebia o melhor que o
país podia oferecer e funcionava com mais eficiência do que o
resto.
A estrutura militar soviética nos anos pós-Segunda Guerra
Mundial continuou, de qualquer forma, a refletir a mentalidade
militar dos soviéticos e, na verdade, dos russos. Em primeiro lugar,
a preocupação central dos militares era a proteção da Pátria-mãe, o
que se refletia na manutenção de uma imensa massa de divisões ao
longo das fronteiras com o Ocidente, China e países muçulmanos e
numa rede de defesa aérea extremamente densa. Também tipica-
mente soviético e/ou russo era a presença de uma imensa força pa-
ramilitar para, junto com a polícia política, vigiar os próprios cida-
dãos do país, além do pouco cuidado dedicado, com a exceção do
período mais recente, ao poder naval.
Abrindo um parêntese, é interessante observar como se
pode aprender muito sobre a estrutura social e as pretensões inter-
nacionais de um país através do estudo de suas Forças Armadas.
Nos países do Terceiro Mundo, por exemplo, as Forças Armadas
são prioritariamente destinadas a garantir a ordem social e o poder
do Estado, pelo que são basicamente forças de terra equipadas com
material obsoleto, suficiente apenas para realizar atividades de po-
lícia interna e, em alguns poucos casos, intervenções externas em
nível regional. As forças aéreas e navais são pequenas e o controle
civil sobre os militares é geralmente baixo. Isso reflete o baixo ní-
vel das pretensões internacionais e a ordem social injusta desses
países, que necessitam de repressão contínua para manter suas socie-
dades funcionando.
Também o caso das superpotências na época da Guerra
Fria é bastante exemplar desse inter-relacionamento das caracte-
rísticas de cada sociedade e de suas pretensões internacionais com
a estrutura de suas Forças Armadas. Os Estados Unidos, por
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 105

exemplo, confiavam a defesa do seu território a uma “Guarda Na-


cional” grandemente centrada nos Estados e mantinham suas For-
ças Armadas concentradas na tarefa de projeção de poder interna-
cional. A superioridade da Marinha e da Força Aérea em relação
ao Exército na distribuição de homens e recursos e a própria ma-
nutenção de um Corpo de Fuzileiros Navais com centenas de mi-
lhares de homens, forças aéreas e navais próprias e independência
operacional refletem essa centralidade da capacidade de projeção
de poder nas Forças Armadas estadunidenses no período da Guer-
ra Fria e mesmo hoje.
Já a União Soviética dividia as suas Forças Armadas em
cinco forças independentes: o Exército, a Marinha, a Força Aérea,
a Força de Foguetes Estratégicos (tropa especial para cuidar dos
mísseis balísticos nucleares), a Força de Defesa Aérea – encarre-
gada do controle de milhares de aviões, radares e baterias de mís-
seis antiaéreos com o objetivo exclusivo de proteger o território
nacional – e a Força de Guarda-Fronteiras. Havia também forças de
paraquedistas e tropas especiais (os spetsnaz) numerosas, eficien-
tes e consideradas politicamente confiáveis, mas relativamente
poucos fuzileiros navais. Por fim, havia uma imensa força de vi-
gilância interna altamente militarizada, o que refletia as priorida-
des estratégicas soviéticas e sua necessidade de controle de sua
própria sociedade.
Também a própria doutrina militar soviética, especial-
mente as das forças terrestres, refletia essa relação do pensamento
estratégico com a história e a cultura locais. Ela enfatizava a pri-
mazia da ofensiva como forma de conduzir a guerra, o que impli-
cava em leveza e simplicidade da retaguarda e da logística, poder
de fogo, velocidade, surpresa e tomada de iniciativa. Vítima de
várias agressões de surpresa ao longo da história e com um terri-
tório vasto e sem grandes obstáculos naturais, o que tornava im-
possível a criação de defesas estáticas, não surpreende que a
URSS tenha desenvolvido tal doutrina como forma de prevenir
outras invasões e/ou derrotar os inimigos do país no seu próprio
território.
Outro elemento claramente russo/soviético em termos mi-
litares era a sua ênfase na quantidade como forma de superar a
qualidade. Seria um erro dizer que o armamento produzido na
106 João Fábio Bertonha

URSS era, em termos tecnológicos, totalmente inferior ao do Oci-


dente. Aviões como os das séries Mig e Sukhoi, por exemplo, riva-
lizavam de perto com os mais modernos caças norte-americanos e
certos tanques e submarinos eram de primeira qualidade. O que se
pode afirmar é que, em linhas gerais e excluindo-se as exceções de
praxe, o armamento ocidental era mais sofisticado (incorporando
avanços da microeletrônica e da informática) e capaz de superar o
soviético.
Para as Forças Armadas, contudo, essa discrepância não
era realmente um problema. Sacrificando-se os refinamentos tec-
nológicos, mas produzindo material funcional e eficiente, era pos-
sível dar, aos seus soldados, instrumentos adequados de combate
sem despender recursos excessivos. E essa economia de recursos e
simplicidade de produção permitia a fabricação de material bélico
em ritmo muito mais acelerado, de forma a gerar o surplus quan-
titativo que deveria eliminar quaisquer vantagens qualitativas dos
ocidentais. Assim, o que adiantaria se um tanque norte-americano
era superior a um soviético se o primeiro iria enfrentar, em bata-
lha, não um, mas três ou quatro dos segundos? A massa numérica
faria a balança virar.
Nunca saberemos, na verdade, quem venceria esta bata-
lha entre qualidade e quantidade, especialmente depois dos anos
1980, quando os norte-americanos se lançaram numa verdadeira
batalha para eclipsar tecnologicamente os soviéticos. Para boa
parte dos analistas militares, contudo, as probabilidades maiores
eram de vitória soviética numa possível invasão da Europa, com
os tanques com a estrela vermelha chegando a Bonn, Paris e tal-
vez além.
Tal poder, contudo, só podia ser mantido enquanto hou-
vesse homens disponíveis para atender às imensas necessidades dos
militares e, especialmente, enquanto a economia soviética fosse
capaz de sustentar a máquina militar e suas demandas sem fim.
Com o tempo, isso se tornou impossível e a economia soviética
revelou-se sem condições, a partir dos anos 70, de manter a escala-
da e superar o desafio tecnológico estadunidense, além de se reve-
lar claramente inferior ao Ocidente em quase todos os aspectos.
Essa situação levou ao esforço de reformas e, indiretamente, ao fim
da URSS.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 107

A DECADÊNCIA ECONÔMICA E AS
REFORMAS DE GORBACHEV

No período 1960-1985, a agricultura continuou a ser,


como sempre havia sido desde a fundação da URSS, a área mais
débil da economia soviética. Mesmo com grandes investimentos
em capital e força de trabalho, a URSS sempre teve grandes difi-
culdades para alimentar sua população, sendo obrigada a importar
trigo, milho e outros gêneros. As razões para esse fracasso eram,
essencialmente, a burocracia, o centralismo, a falta de responsabili-
dade e iniciativa dos camponeses e outros fatores que geravam ine-
ficiência e desperdício, além da contínua transferência dos recursos
do campo para outras áreas.
Com relação à indústria, a situação era de estagnação. De-
pois de um período de expansão notável, dos anos 1940 aos 60 (na
casa dos 400%), a taxa de crescimento da produção industrial, e da
economia como um todo, declinou continuamente. Além disso,
apesar da economia soviética superar a norte-americana, por exem-
plo, em aço, ferro, cimento e outros produtos, ela era incapaz de
produzir chips, computadores, robôs e outros produtos da era pós-
-industrial.
Assim, vista em seu conjunto, a economia soviética viven-
ciou uma queda constante da sua taxa de crescimento, que se tornou
insuficiente para acompanhar o da Europa, Japão e Estados Unidos,
o que provocou um declínio da parcela soviética na economia mun-
dial. Essa, já nos anos 1970, dependia da exportação de petróleo e
gás para comprar, no mercado internacional, os artigos de consumo
e maquinário de que necessitava. Lentamente, a URSS ia se tornan-
do um produtor de energia para economias mais desenvolvidas e
também para seus aliados do Leste Europeu.
Assim, o mesmo sistema que havia conseguido industriali-
zar o país nos anos 1930, vencer a guerra contra Hitler nos 1940 e
restaurar a infraestrutura básica da nação nos 50, se revelou inca-
paz, no período posterior, de se adaptar às demandas da economia
moderna e acabou por estagnar. A revolução tecnológica e gerencial
da terceira Revolução Industrial, com seus princípios de especiali-
zação flexível da cadeia produtiva e uso intensivo de tecnologia, se
108 João Fábio Bertonha

revelou incompatível com a estrutura vertical e autoritária da URSS


(HOBSBAWM, 1997, p. 447-482; GORENDER, 1992).
Como indicam os trabalhos de Alec Nove (1963 e 1989),
depois aprofundados por outros historiadores e economistas, como
Ângelo Segrillo (2000), Eric Hobsbawm (1997, p. 447-482), Jacob
Gorender (1992), entre tantos outros, ela funcionava muito bem,
realmente, quando se tratava de produzir bens de caráter e qualida-
de prédeterminados pelo planejamento central, mas dispunha de
poucos mecanismos para se adaptar a quaisquer preferências dos
consumidores e/ou absorver inovações e métodos novos de produ-
ção. E, mesmo quando se conseguia produzir o necessário, o siste-
ma de distribuição e os serviços, apesar de melhorarem muito entre
1940 e 1970, continuavam ruins.
O sistema produtivo soviético sempre se baseou, de fato,
no uso intensivo de energia (petróleo, eletricidade), matérias-pri-
mas (carvão, ferro, cobre etc.) e mão de obra para produzir bens de
capital. O planejamento era totalmente centralizado e conduzido
por uma imensa burocracia, enquanto o uso de tecnologia avançada
não só era considerado um desperdício como perigoso, na medida
em que o livre acesso à informação, base do desenvolvimento cien-
tífico, podia diminuir o controle do Estado sobre a sociedade. Se
havia necessidade de aumentar a produção, utilizava-se mais ener-
gia, mais matéria-prima e mais trabalhadores.
Ao menos no tocante à indústria pesada, esse método se
revelou um grande sucesso, enquanto havia energia, matérias-
-primas e força de trabalho disponível. Quando esses elementos
passaram a se tornar menos abundantes e a população soviética
começou a demandar produtos de consumo melhores e em quanti-
dade maior, o sistema se revelou ineficiente e as taxas de expansão
da economia como um todo inevitavelmente caíram.
Podemos, assim, resumir sem dificuldades os dilemas da
URSS na década de 1980. Na época de Stalin e no imediato pós-
-guerra, eles utilizaram os imensos recursos do país para cons-
truir uma imensa indústria pesada e toda uma infraestrutura eco-
nômica. Utilizando tal infraestrutura, o regime soviético foi capaz
de levar a Rússia ao mundo industrial e moderno, além de permi-
tir a manutenção de um poder militar de primeira grandeza e de
um Império.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 109

Com o tempo, contudo, a disponibilidade de mão de obra,


energia e matérias-primas declinou e a estrutura econômica e a bu-
rocracia foram incapazes de assimilar tecnologia e técnicas de ge-
renciamento modernas tanto para compensar essa queda como para
introduzir a URSS no novo mundo da robótica, da biotecnologia e
da informática. Para se ter uma ideia do atraso soviético, basta re-
cordar como a produção de um automóvel na URSS consumia, de-
vido à falta de tecnologia moderna, um volume de horas de traba-
lho, matérias-primas e energia muito maior do que no Ocidente, e
com o produto final muito inferior em conforto e eficiência energé-
tica. O número de computadores pessoais também era muito redu-
zido em comparação ao mundo ocidental, o que indica o grau de
dificuldade do sistema soviético para se adaptar ao mundo da Ter-
ceira Revolução Industrial.
Além disso, com o afrouxamento da ditadura depois da
morte de Stalin em 1953 e do XX Congresso do PCUS, em 1956, e
uma população mais educada e mais exigente, a concentração ab-
soluta de recursos nos investimentos e nas Forças Armadas não era
mais possível. Isso diminuía ainda mais as possibilidades de que o
crescimento extensivo da economia e do poder militar, pela simples
adição de mais fábricas, usinas, tanques e navios, continuasse no
ritmo anterior. Para completar o quadro, os soviéticos estavam sen-
do eclipsados, em termos de tecnologia militar, pelos norte-
-americanos, o que abalava, potencialmente, a sua posição de su-
perpotência.
As respostas possíveis dos dirigentes soviéticos eram
aceitar a situação e a lenta decadência (como havia acontecido no
governo Brejnev), restaurar o controle do Estado sobre a população
que havia na época de Stalin e reprimir as suas demandas por qua-
lidade de vida (o que liberaria novos recursos para manter a corrida
com o Ocidente) ou procurar reformar o sistema por dentro. Esse
foi um debate que marcou vários anos da história soviética, desde
os anos 1970, no mínimo, e que acabou com a vitória da terceira
alternativa a partir da ascensão ao poder de Mikhail Gorbachev, em
1985.
Gorbachev não pretendia, com certeza, eliminar o comu-
nismo da URSS. Sua pretensão inicial era introduzir certos meca-
nismos na esclerosada sociedade russa que permitissem a ela conti-
110 João Fábio Bertonha

nuar na posição de superpotência e, ao mesmo tempo, dessem um


novo dinamismo a sua estrutura econômica e ao sistema político.
Assim, em termos políticos, lançou-se uma política (glas-
nost – transparência) que pretendia aproximar o povo do Estado e
dar uma nova legitimidade ao Partido Comunista. A censura foi
abrandada, estimulou-se a livre expressão das ideias e a um grau
mínimo de autonomia local. Ao mesmo tempo, na economia, dentro
da perestroika (reestruturação) procurou-se descentralizar o plane-
jamento, dar alguma margem para a flutuação dos preços e salários
e incentivar a iniciativa individual de camponeses e dirigentes de
fábricas. A ideia, com esses mecanismos, era manter o predomínio
do Partido Comunista na sociedade e Estado soviéticos e do Estado
na economia, mas flexibilizá-los, de forma a permitir que a econo-
mia crescesse, que tecnologia de ponta fosse incorporada ao siste-
ma produtivo e que a população soviética se sentisse reconhecida
no Estado.
O sistema militar também teria que se adaptar a nova era e
se basear na qualidade e na tecnologia. Cortes foram feitos na má-
quina militar e a ideia era que a URSS deveria ter Forças Armadas
ainda imensas, mas mais baseadas na tecnologia e menos na massa
bruta, e altamente custosa, de soldados e equipamentos.
Para tanto, era fundamental que os imensos recursos desti-
nados aos militares fossem direcionados para a produção civil. Do
mesmo modo, uma diminuição das tensões com o Ocidente seria
necessária, tanto para permitir o corte no orçamento da defesa
como para indicar ao mundo que uma nova era havia se iniciado no
bloco oriental. Tudo isso foi feito, trazendo imensa popularidade
para Gorbachev no mundo nos anos 1980. Infelizmente para ele e
para a URSS, a tentativa de reformar o sistema falhou, com o con-
sequente colapso do Império.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 111

Capítulo 6

O COLAPSO DE UM IMPÉRIO: A
RÚSSIA NOS ANOS 90

O FRACASSO DA POLÍTICA DE REFORMAS E


O FIM DA URSS
Apesar de todas as esperanças que Gorbachev levantou em
todo o mundo e, especialmente, na antiga URSS, suas reformas se
revelaram um fracasso. Não é verdade que tal fracasso estivesse pre-
visto desde o início, mas é possível admitir que as reformas enfrenta-
ram entraves imensos e que a sua incapacidade de reformar o sistema
sem destruí-lo pode ter sido lamentável, mas não inesperada para
qualquer um que conhecesse os meandros da sociedade soviética.
O primeiro elemento que explica o colapso das reformas
foi a pura e simples inércia da população. Depois de décadas acos-
tumados com o sistema (que, apesar de tudo, fornecia um mínimo a
todos e não exigia muito em termos de dedicação e empenho),
muitos soviéticos não queriam realmente mudá-lo e viam com des-
confiança qualquer movimento nesse sentido.
O segundo problema era que havia ideias muito divergen-
tes sobre o que fazer exatamente ou como reformar a economia
soviética. No caso da reforma política, a agenda, apesar de não ter
sido aplicada na sua totalidade, era mais clara e simples, incluindo
abolição da censura, criação de um Estado de direito etc. Mas re-
formar uma economia dirigida sem transformá-la em capitalismo
era algo nunca antes tentado e ninguém sabia muito bem como pro-
112 João Fábio Bertonha

ceder além do básico. Remendos iam sendo colocados na velha


estrutura e uns sobre os outros, mais prejudicando o funcionamento
da economia do que a revigorando.
Além disso, numa sociedade com a tradição autoritária da
Rússia/União Soviética, toda e qualquer tentativa de reformar a
sociedade só podia vir de cima, através do partido e do Estado, lide-
rados pelo Kremlin. Mas, para boa parte da máquina do Estado e do
partido, quaisquer mudanças significariam perda de poder e privi-
légios, pelo que eles tenderam a sabotar as tentativas de mudança.
Para reunir forças contra isto, Gorbachev confiava na mo-
bilização do povo e do partido através da glasnost. O problema é
que essa mobilização enfraquecia a única coisa que fazia a socieda-
de e a economia soviéticas funcionarem, ou seja, justamente o po-
der central. E, à medida que o poder começou a enfraquecer, toda a
máquina da sociedade soviética foi parando, sem que nenhuma alter-
nativa estivesse pronta para funcionar no seu lugar (HOBSBAWM,
1997, p. 447-482).
Assim, a medida que a política da glasnost fazia as pessoas
mais livres, mas, ao mesmo tempo, menos dispostas a obedecer a
ordens, as chances da reestruturação econômica, a perestroika, fun-
cionar diminuíam, pois as ordens do comando central nesse sentido
passaram a ser ignoradas. Junto com o autoritarismo, a autoridade
também ia desaparecendo e, sem ela, o velho sistema parou de fun-
cionar sem que um novo estivesse em vias de nascimento.
Logo, a falta de legitimidade da autoridade central aca-
bou por se espalhar por outras áreas da sociedade e administrado-
res de fábricas e fazendas e dirigentes partidários locais começa-
ram a aumentar cada vez mais a sua autonomia, enquanto os re-
formistas em Moscou tentavam decidir o que fazer. Por fim, o
desmonte da autoridade central trouxe de volta a tona o problema
das nacionalidades, que deixou o ambiente político ainda mais
tenso e diminuiu ainda mais as chances das reformas econômicas
funcionarem. Caos político, inércia e, depois, decadência econô-
mica e reivindicações nacionalistas, assim, se autoalimentavam,
levando a sociedade soviética ao esgotamento e à descrença de
que o comunismo pudesse ser reformado.
A questão das nacionalidades se tornou, nesse contexto,
um problema chave. Como visto, a URSS havia herdado os domí-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 113

nios do antigo Império czarista e sufocado as nacionalidades mino-


ritárias no período de Stalin, mas, pós-1956, alguma autonomia
cultural e possibilidades de autogoverno foram concedidas aos gru-
pos minoritários, ao mesmo tempo em que se ampliou a política de
cooptação das elites locais para atuação na administração e no par-
tido em nível local. Poucos não russos e, especialmente, não esla-
vos, podiam ambicionar ascender para os altos escalões do governo
central e este desencorajava excessos nacionalistas, mas tal arranjo,
associado à pronta repressão em caso de deslealdade, manteve o
problema nacional razoavelmente sob controle nas três décadas
entre a morte de Stalin e a ascensão de Gorbachev (DEWISCHA,
1994, especialmente p. 13-17).
No entanto, isso não significa que o problema nacional
fosse inexistente. Ao menos em termos jurídicos, havia autonomia
territorial para as quinze repúblicas e as muitas regiões e áreas autô-
nomas dentro delas e queixas pelo tratamento diferenciado para os
não russos eram frequentes na sociedade soviética. O potencial para
problemas nacionalistas, assim, estava embutido no sistema e, para
alguns observadores do período, as chances do Império soviético
cair sob o peso da revolta dos povos dominados eram altas, assim
como a revolta dos africanos ou asiáticos havia destruído o Império
britânico ou o francês.

Mapa 8 – Etnias na URSS na década de 1980

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 130-131.


114 João Fábio Bertonha

Isso é até possível. No entanto, com a exceção dos países


bálticos, ninguém pensava seriamente em separatismo antes de
1988 ou 1989. Os movimentos nacionalistas nas mais variadas re-
giões queriam mais autonomia de Moscou, mas apoiavam Gorba-
chev contra a burocracia do partido e estariam satisfeitos com isso,
sem pensar em deixar a URSS. A partir do momento em que a crise
econômica alimentou o descontentamento social e o caos político e
vice-versa, contudo, configurou-se uma situação de “salve-se quem
puder” que alimentou a ideia de independência nas mais diversas
repúblicas. Mas esta ainda era minoritária no final da década de
1980.
Ainda em 1989, o poder comunista deixou de existir na
Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária e Alemanha
Oriental, sem que sequer um tiro fosse disparado, com exceção do
caso romeno. No ano seguinte, os dois Estados comunistas inde-
pendentes da Europa oriental – Iugoslávia e Albânia – também dei-
xaram de ser comunistas. O Império soviético no leste europeu, tão
duramente conquistado durante a Segunda Guerra Mundial, havia
desabado.
Em última instância, a única coisa que mantinha esses Es-
tados associados a Moscou era simplesmente o medo de uma inter-
venção militar nos moldes das que haviam ocorrido na Alemanha
Oriental, Hungria, Tchecoslováquia e outros lugares. Quando Gor-
bachev deixou claro que não moveria tropas para reprimir revoltas
na Europa Oriental e as manifestações de rua explodiram, os regi-
mes comunistas, que já há muito haviam perdido a sua legitimidade
frente à população, simplesmente aceitaram o inevitável e se dis-
solveram.
No mesmo ano, a onda de reivindicações democráticas e
liberais atingiu outros países comunistas, como a China. Observan-
do o exemplo soviético, contudo, os chineses reprimiram dura-
mente uma manifestação de estudantes na Praça Tiennamen. O
custo em vidas foi enorme e a opinião pública mundial ficou horro-
rizada, mas manteve-se a estabilidade e a autoridade do partido e do
Estado sobre a população, permitindo à China continuar a sua polí-
tica de liberalização econômica.
O caso da China realmente é notável, pois representa
uma quase inversão do acontecido na URSS. Aqui, como visto, a
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 115

combinação de abertura política e econômica esvaziou o poder do


Estado e a sua capacidade para gerir as reformas, o que levou à
aceleração da crise. Na China, desde 1979, a abertura econômica
ao capitalismo ocorre concomitantemente à concentração do po-
der político nas mãos do Partido Comunista. Isso permite o apro-
fundamento das reformas e a geração de riqueza e prosperidade
suficientes para reforçar ainda mais a legitimidade do Estado e do
partido como condutores da sociedade. Já em 1979-1990, era essa
a política seguida pelo Partido Comunista chinês, que os aconte-
cimentos da Praça da Paz Celestial apenas reforçaram. A lição da
URSS foi aprendida pelos outros Estados comunistas (ou comu-
nistas ao menos no nome) que ainda existem no mundo.
De qualquer forma, por volta de 1990, já era evidente
que as reformas de Gorbachev estavam definitivamente falidas. A
economia, que ele havia tentado reformar, estava praticamente
em colapso e a instabilidade política era crescente. Por fim, a
capacidade soviética para agir como superpotência estava reduzi-
da a quase zero, com Moscou tendo que aceitar a perda da sua
área de controle exclusivo no leste europeu, a unificação alemã e
a intervenção norte-americana no Oriente Médio sem poder se
manifestar.
O problema das nacionalidades também continuava a se
agravar à medida que o sistema político e a estrutura econômica se
desagregavam. Desde os princípios da URSS, e, especialmente,
depois do fim do stalinismo, as grandes forças – o Partido, a polícia
secreta (KGB), os Ministérios unificados e as Forças Armadas –
que mantinham o país unido eram contrabalançadas por líderes
partidários e dirigentes de empresas locais. Nos últimos tempos do
governo Gorbachev, contudo, essas forças que garantiam a união
praticamente se dissolveram, restando apenas os poderes locais
para garantir a sobrevivência e a ordem.
A situação chegou a tal ponto que praticamente todas as
regiões e repúblicas do país tiveram que começar a cuidar de si
mesmas para tentar sobreviver ao caos. Repúblicas onde os senti-
mentos nacionalistas sempre haviam sido fortes – como nos países
bálticos e a Geórgia – encabeçavam a lista dos candidatos à inde-
pendência, mas logo até Ucrânia, Uzbequistão e outras repúblicas
onde a tradição secessionista era relativamente pequena começaram
116 João Fábio Bertonha

a proclamar seus desejos de independência. Ao mesmo tempo, Bó-


ris Yeltsin, Presidente da República Socialista Federativa Soviética
Russa (RSFSR), começou a investir no nacionalismo russo como
forma de ampliar seu poder, o que enfraqueceu ainda mais o gover-
no central e foi desastroso para a URSS.
Ainda havia, contudo, alguma chance de manter a unidade.
Os três países bálticos provavelmente se destacariam da URSS,
mas, ainda em março de 1991, 76% dos eleitores soviéticos vota-
ram pela manutenção da União e Gorbachev conseguia articular um
acordo nesse sentido com a maioria das repúblicas, que previa a
criação de uma verdadeira federação das repúblicas soviéticas, mas
preservaria a unidade.
Para os conservadores, contudo, não só esse acordo era
inaceitável como parecia que a única coisa que poderia impedir o
colapso do país era o retorno à situação pré-1985. Eles tentaram
tomar o poder em agosto de 1991, mas a resistência de parte da
população e dos partidários de Bóris Yeltsin os forçaram a recuar.
Na confusão que se seguiu, Yeltsin aproveitou para apropriar-se,
em nome da Rússia, dos bens e direitos da URSS, além dos poderes
de Gorbachev.
A Rússia agora surgia, ou ressurgia, dentro do antigo espa-
ço soviético e a mobilização do nacionalismo russo por Yeltsin
começou a assustar as outras repúblicas. Afinal, antes, a Rússia
apesar de ser, de longe, a maior das repúblicas soviéticas estava
subordinada ao poder central como todas as outras. Agora, a nova
Rússia de Yeltsin insinuava a necessidade de rever as fronteiras
entre as antigas partes da URSS, assim como as relações econômi-
cas e militares entre elas. Isso deu ainda mais força às pressões por
independência que, agora, circulavam por toda a URSS. Entre
agosto e setembro de 1991, quase todas as ex-repúblicas, inclusive
as eslavas, como a Ucrânia e a Bielo-Rússia, proclamaram a inde-
pendência.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 117

Mapa 9 – Os Estados sucessores da URSS

Fonte: Channon e Hudson (1996), p. 132-133.

Tentou-se manter uma aparência de união através da cria-


ção da “Comunidade dos Estados Independentes” (CEI), mas era
algo apenas teórico e sem valor. Como um símbolo disto, os Jogos
Olímpicos de 1992 foram os últimos em que participou uma equi-
pe unida da ex-URSS. Para todos os efeitos práticos, a Federação
Russa se tornava a sucessora da União Soviética. Simbolizando
isto, Gorbachev renunciou formalmente ao cargo de presidente da
URSS, em 25.12.1991 e, na mesma noite, a bandeira da Rússia
substituiu a vermelha com a foice e o martelo no Kremlin. Uma
era havia terminado.

PERDAS TERRITORIAIS E DECADÊNCIA IMPERIAL


A magnitude das perdas geopolíticas russas com o fim da
União Soviética é simplesmente inacreditável. A Rússia teve uma
queda de prestígio, poder e território tão acentuada que só poderia
ser explicada por uma derrota total em uma grande guerra, com o
detalhe que esta não ocorreu.
Primeiramente, Moscou perdeu, mesmo tendo herdado
boa parte dos símbolos de poder da antiga URSS (como a cadeira
118 João Fábio Bertonha

no Conselho de Segurança da ONU, a rede de Embaixadas etc.),


parte substancial do seu prestígio e status internacionais. Na
guerra do Golfo, em 1990-1991, e na invasão do Iraque, em 2003,
a Rússia foi praticamente uma expectadora. Ela também foi obri-
gada a aceitar o rompimento norte-americano do tratado antimís-
seis balísticos em 2001 e testemunhar o ataque da OTAN a uma
velha aliada, a Sérvia, em 1999. Enfim, humilhações sem fim
para um povo e um Estado que, poucos anos antes, eram temidos
e respeitados.
Depois, as antigas áreas de influência soviéticas na Améri-
ca Latina, África ou Oriente Médio foram simplesmente perdidas.
Afinal, o que mantinha países como Cuba, Vietnã ou Síria associa-
dos a URSS era a imensa ajuda financeira e militar, além do apoio
diplomático e estratégico, que Moscou transferia a eles. Como a
nova Rússia não tinha condições de continuar essa política, essas
áreas de influência foram perdidas.
Também os antigos países da Europa Oriental que eram
aliados da URSS e formavam uma rede de proteção ao próprio ter-
ritório soviético deixaram de obedecer às ordens de Moscou e se
tornaram Estados soberanos. Para complicar ainda mais a situação,
não apenas a Alemanha se reunificou, como todos esses ex-aliados
soviéticos caíram na esfera de influência do Ocidente, incorpo-
rando-se, ou procurando incorporar-se, à OTAN e à União Euro-
peia. O antigo Império na Europa oriental foi, assim, definitiva-
mente perdido.
Depois, como visto, o próprio território soviético foi reta-
lhado. Não apenas as velhas conquistas do Império czarista no sé-
culo XIX (como o Cáucaso e a Ásia Central) foram perdidas, como
até mesmo a Ucrânia e a Bielo-Rússia, nações eslavas associadas a
Moscou havia centenas de anos, adquiriram independência. Essa
desintegração territorial (e a posterior migração, muitas vezes for-
çada, de muitos russos de outras repúblicas para a Federação da
Rússia) humilhou profundamente os russos.
Essas últimas perdas, e, especialmente, a da Ucrânia foram
as mais graves. Não apenas áreas industriais e agrícolas imensa-
mente ricas foram perdidas, como, sem os mais de cinquenta mi-
lhões de ucranianos a seu lado, a Rússia era privada de uma parte
substancial da sua força demográfica.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 119

Em 1992, as fronteiras russas haviam regredido de forma


realmente substancial. No Cáucaso, elas estão hoje mais ou menos
onde estavam no início do século XIX, enquanto, na Ásia Central,
voltou-se a meados daquele século. Na fronteira europeia, a perda
foi ainda mais dramática, com a Rússia retornando às fronteiras da
época de Ivã, o Terrível, no século XVI. Quatrocentos anos de ex-
pansionismo russo foram suprimidos da História.
Efetivamente, com a independência das repúblicas soviéti-
cas, o território sob controle direto de Moscou caiu de 22,4 para 17
milhões de km², ou seja, quase um quarto. As perdas populacionais
foram ainda maiores, na faixa de cinquenta por cento, ou seja, de
290 milhões para meros 150 milhões. A Rússia perdeu 24% do seu
território, metade da sua população e parte substancial dos seus
recursos econômicos e militares.
Uma comparação com o antigo Império czarista deixa ain-
da mais a mostra a situação desastrosa da nova Rússia, em termos
geopolíticos. Conforme os dados levantados por André Gerrits
(2006, p. 175), o Império czarista controlava, em 17% da área,
9,8% da população e 9,4% do PIB do planeta, enquanto a Rússia,
em 1999, estava reduzida a apenas 13% da área, 2,5% da população
e 1,6% do PIB mundial.
Para piorar, com a independência das antigas repúblicas,
boa parte da rede de proteção que protegia o núcleo russo do Im-
pério se dissolveu. A Rússia se viu, e vê, assim, com suas frontei-
ras expostas, enfrentando uma OTAN em processo de expansão
no Ocidente, um ressurgir do mundo muçulmano no front sul e
uma China em crescimento no Oriente. A sensação de “cerco” e o
sentimento de perigo que isso traz, como indica Spitzcovsky
(2005), é inevitável.
Realmente, a destruição da URSS provocou, em termos
geopolíticos, a reversão de séculos de crescimento territorial russo e,
como demonstra o caso da Chechênia e de outras regiões autônomas
da Federação Russa, a serem vistos em detalhes no capítulo seguinte,
esse processo de contração talvez ainda não tenha chegado ao seu
final. O mundo, que havia se acostumado a ver uma única entidade
política dominar o imenso espaço entre a Polônia e o Japão e entre o
oceano Ártico e as fronteiras da Índia, testemunhou o surgimento de
uma vasta zona de instabilidade, conflitos e problemas.
120 João Fábio Bertonha

DECLÍNIO ECONÔMICO

Em termos econômicos, o colapso vivenciado pela Rússia


após o final da URSS é de uma escala sem precedentes nos tem-
pos modernos. Com o fim do planejamento centralizado e a inca-
pacidade, como visto, da perestroika em estruturar um sistema
econômico alternativo, o PIB coletivo das repúblicas soviéticas
encolheu, segundo os dados dos organismos internacionais, 2%
em 1990 e 17% em 1991. Já o PIB russo diminuiu 20% em 1992 e
outro tanto em 1993. Outras ex-repúblicas soviéticas tiveram re-
duções ainda maiores.
Com o passar do tempo, houve alguma melhora da situa-
ção econômica, mas não expressiva. Em 1994, 1995 e 1996, o PIB
russo diminuiu “apenas”, respectivamente, 12, 4 e 3% e houve até
um pequeno crescimento, de 0,3% do PIB, em 1997. Surgiram gru-
pos de pequenos empreendedores e uma classe média. Mas, já em
1998, com a crise do rublo motivada, em essência, pelos problemas
fiscais russos, a crise retornou.
Com esses índices, a economia russa reduziu-se pela
metade no decorrer dos anos 90. Em 1999, ela tinha se reduzido a
1/10 da economia estadunidense e 1/5 da chinesa. No mesmo ano,
sua renda per capita era cerca de cinco vezes menor do que a mé-
dia dos sete países mais industrializados do mundo. Se, nos anos
1980, a economia soviética ainda era, apesar de decadente, a se-
gunda do mundo, em 1994 ela já estava praticamente no patamar
da brasileira.
Para explicar essa situação, temos que recordar como todo
o sistema soviético era baseado não apenas, como visto, no plane-
jamento centralizado, como numa divisão geográfica da produção.
Assim, a Alemanha Oriental fornecia equipamentos óticos e de
precisão, a Rússia abastecia a todos de petróleo e gás etc. Quando
as partes desse sistema perderam a capacidade de se comunicar,
devido ao fim do comando centralizado e as independências dos
vários países, o colapso era inevitável.
Além disso, contou, especialmente no caso da Rússia, a
ilusão da transição rápida e indolor ao capitalismo. Realmente, o
fim do comunismo fez com que as lideranças dos países herdeiros
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 121

da URSS e, especialmente, a Rússia de Bóris Yeltsin, esquecessem


quaisquer pretensões a reformar o antigo sistema e/ou buscar novas
alternativas. O capitalismo (ou a “economia de mercado”) parecia a
única saída e vendeu-se a ideia de que uma economia moderna e
justa estava ao alcance, bastando adotar algumas políticas “corre-
tas”, como privatização acelerada das propriedades do Estado, des-
regulamentação dos mercados e dos preços etc. Feito isso, as difi-
culdades desapareceriam e os ex-soviéticos poderiam fazer parte do
mundo desenvolvido.
No caso russo, isso se corporificou na “terapia de choque”,
implantada entre 1992 e 1993. Foi um modelo ultraliberal que dei-
xou os preços flutuarem livremente, iniciou um processo radical de
privatizações, abriu o mercado de trabalho e soltou todas as amar-
ras para que as “forças de mercado” pudessem agir, na esperança
que elas, sozinhas, pudessem destruir o antigo sistema e formar
outro.
O problema é que a Rússia nunca foi realmente capitalista
em sua história. Na época dos czares, como visto, ela era um Esta-
do quase feudal com ilhas de industrialização estimuladas pelo Es-
tado. Na época soviética, industrializou-se o país, mas pela mão
autoritária do Estado. Assim, não havia, ali, uma tradição cultural
capitalista e as “forças do mercado” existentes na Rússia eram pe-
quenas, para dizer o mínimo.
Depois, sem a presença do Estado para regulamentar e
organizar a privatização, ela logo se converteu em selvageria.
Rapidamente, a maior parte das empresas estatais privatizadas
foram fechadas e aquelas realmente rentáveis, ou seja, as ligadas
à produção e exportação de petróleo e minérios, foram apropria-
das por aqueles que tinham os contatos necessários para tanto na
cúpula do governo, como os membros da velha burocracia, ou
pelas máfias. Formou-se uma pequena elite, conhecida como os
“oligarcas”, incrivelmente ricos e que adoravam, e adoram, es-
banjar dinheiro em Paris ou Nova York enquanto muitos russos
morriam de fome.
Na realidade, já na época da URSS havia redes informais,
muitas vezes ligadas ao mercado negro, de abastecimento e servi-
ços. Quando a perestroika abriu mais o sistema, esses arranjos in-
formais para agilizar o sistema (e a corrupção) se espalharam, ca-
122 João Fábio Bertonha

minhando para a formação de máfias, no sentido criminoso do ter-


mo, propriamente ditas. Na Rússia dos anos 1990, tráfico de dro-
gas, armas e mulheres, pagamento de propinas e proteção e outras
atividades ilegais se tornaram comuns, enquanto parte substancial
do sistema financeiro estava sob controle das máfias.
Num outro resultado prático dessa política econômica, as
filas, típicas da realidade soviética, desapareceram e melhorou
substancialmente a oferta de produtos aos consumidores russos.
Mas os preços cresceram muito mais do que os salários, gerando
uma queda acentuada do padrão de vida da população. Em 1992,
um pão podia custar 2% do salário mínimo.
Também o desemprego, desconhecido na ex-URSS, ex-
plodiu. Ainda em 1992, pela primeira vez desde 1945, o número de
mortos superou o de nascimentos na Rússia, o que indica a gravi-
dade da crise social. Entre 1994 e 2000, houve alguma pequena
melhora nas condições sociais, mas a população russa, com a exce-
ção de uma minoria que se beneficiou com a transição, formando
uma nova classe alta e média, ainda convivia com níveis de pobreza
e desigualdade social inéditos há muitas décadas.
Nesse contexto, o Estado perdeu o controle dos aconteci-
mentos. Ministérios, agências, governos regionais e prefeituras co-
meçaram a agir por conta própria, se articulando com empresas
privadas, oligarcas ou máfias locais. O próprio governo Yeltsin se
revelou, apesar do autoritarismo frente à oposição, débil, corrupto e
fortemente dependente, especialmente depois da reeleição em 1996,
do apoio dos oligarcas. Uma verdadeira privatização do próprio
Estado, que acentuou o caráter de “salve-se quem puder” do novo
capitalismo russo.
Além disso, como seria de se esperar nessa situação de
colapso econômico, a capacidade financeira do Estado desabou.
Para piorar, com o Estado, e Bóris Yeltsin, sob influência dos
oligarcas, cobrar impostos se tornou impossível. Em 1998, os
impostos representavam apenas 8% do PIB russo, o que fez com
que a infraestrutura de produção, ciência e tecnologia, cultural e
educacional do país se desintegrasse. Também as verbas para os
militares foram cortadas na carne, o que abalou ainda mais, ao
lado da decadência econômica pura e simples, a posição interna-
cional da Rússia.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 123

COLAPSO MILITAR

Com o fim da União Soviética, as Forças Armadas – que já


vinham sendo contidas em sua voracidade de recursos desde a ascen-
são de Mikhail Gorbachev no Kremlin em 1985 – se desagregaram.
Uma parte razoável dos seus estoques de armas acabou por ser des-
truída e/ou desviada. Assim, conflitos e tensões dentro do antigo
Império foram alimentados por armas e equipamentos desviados dos
quartéis do antigo Exército comunista, enquanto Rússia, Ucrânia e
outros Estados sucessores da URSS invadiram o mercado mundial de
armamentos em busca de divisas. Nunca foi tão fácil adquirir fuzis
Kalashnikov, tanques T72 ou caças Mig quanto nos anos 1990.
De qualquer modo, após várias disputas entre os Estados
sucessores da URSS pelo espólio militar soviético, como a que divi-
diu a Ucrânia e a Rússia pela posse dos navios da frota do mar Ne-
gro, a maior parte dos ex-Estados soviéticos se desfez de quase todas
as armas que haviam herdado, vendendo-as no mercado internacio-
nal ou transferindo-as para a Rússia, que ficou com quase toda a Ma-
rinha de guerra e a maior parte das forças aérea e terrestres.
Hoje, os Exércitos cazaque ou uzbeque são forças emi-
nentemente policiais, sem grande poder ofensivo. Sob pressão in-
ternacional, Cazaquistão, Bielo-Rússia e Ucrânia também abriram
mão das armas nucleares instaladas em seus territórios, as quais
foram removidas para a Rússia. O grosso da herança militar sovié-
tica, assim, foi herdada pela Rússia. Mesmo assim, a situação mili-
tar russa estava muito longe de ser satisfatória.
Antes de qualquer coisa, a simples dissolução do espaço so-
viético representou um imenso problema para os militares russos.
Muitas unidades industriais, bases aéreas e navais, depósitos e linhas
de suprimento, sem contar minas de urânio, centrais nucleares e redes
de radares e defesa aérea estavam agora no exterior, enquanto a perda
de uma centena de milhões de habitantes significava que o número de
conscritos em potencial diminuiu fortemente. Os jovens ucranianos
ou uzbeques iriam agora servir nos seus novos Exércitos e não mais
nas forças unificadas da Rússia, como havia sido há séculos.
O fim da URSS também apresentou outros problemas para
os militares. As fronteiras do sul, do oeste e do leste estão agora ex-
124 João Fábio Bertonha

postas à influência geopolítica e a possíveis, ainda que pouco prová-


veis, invasões por parte do Ocidente, da China e do mundo islâmico.
O acesso da Marinha russa aos mares, já complicado na era czarista
ou na época da URSS, foi ainda mais restringido pela perda de boa
parte da costa dos mares Báltico, Negro e Cáspio, com portos chave
como Tallinn, Riga ou Odessa sendo agora estrangeiros.
Depois, com o colapso das finanças do Estado russo e da
própria economia russa, as Forças Armadas passaram a enfrentar
restrições nunca antes vistas. Em meados dos anos 1990, o orça-
mento militar russo era de aproximadamente US$ 20 bilhões e
equivalia a cerca de 3-4% do PIB. Se lembrarmos que o orçamento
militar oficial da URSS em 1988 equivalia a cerca de 33 bilhões de
dólares, poderíamos imaginar que a disponibilidade de recursos não
tinha declinado tanto.
No entanto, isso não corresponde à realidade. Na antiga
URSS, os valores gastos na estrutura militar estavam embutidos
num sem número de rubricas do orçamento e muitas despesas nem
sequer eram contabilizadas. Alguns cálculos (CASTORIADIS, 1982,
p. 160-178) indicam que os gastos reais podiam atingir até dez ve-
zes aquele número em 1988. Assim, a diminuição do orçamento
militar real foi imensa.
Em termos comparativos, a situação fica ainda mais dra-
mática. Nos anos 90, o orçamento militar russo equivalia a apenas
1/12 do norte-americano. Estavam longe os dias em que a URSS
gastava 15-20% do PIB (e um PIB substancialmente maior) no seu
sistema militar, os orçamentos militares de Washington e Moscou
se equivaliam e quase 10% da força de trabalho do país estava en-
volvida na produção militar.
Esses recursos eram, de qualquer forma, completamente
insuficientes para manter em funcionamento mesmo uma pequena
parte da herança militar recebida pela Rússia. A prioridade na dis-
tribuição dos escassos recursos passou a ser o pagamento de pessoal,
enquanto as somas destinadas a treinamento, equipamento e pes-
quisa caíram significativamente. Também se decidiu priorizar a
Força de Foguetes Estratégicos, o coração do poder nuclear russo,
e, em menor escala, o sistema de defesa aérea. Escolhas lógicas,
pois preservavam a base do poder internacional da nova Rússia e
seu espaço aéreo.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 125

Ainda seguindo este raciocínio de preservar os elementos


centrais do poder internacional da Rússia, a força de bombardeiros
estratégica russa foi menos afetada pelos cortes dos anos 90, enquanto
as unidades de transporte aéreo ou de caça sofreram mais cortes. Já a
Marinha e, especialmente, o Exército ficaram quase a míngua.
Assim, para conseguir fazer frente a esta nova situação, os
cortes dentro das Forças Armadas foram impressionantes. Segundo os
cálculos de Stephen Meyer (1995, p. 324), o efetivo das Forças Arma-
das caiu de 5 milhões em 1985 para cerca de 2,5 milhões em 1994,
enquanto, no mesmo período, o número de tanques caiu de cinquenta
para dezenove mil e o de peças de artilharia de cinquenta e quatro
para dezoito mil. Os quase setecentos mil homens instalados na
Europa Oriental, nos países bálticos e na Ucrânia foram trazidos de
volta à Rússia e a produção de novos tanques e aviões caiu pratica-
mente a zero. Sem receber do Estado, boa parte da indústria bélica
faliu ou teve que recorrer ao mercado externo para sobreviver.
Na Marinha, praticamente não houve novas construções
navais entre 1991 e 1995 e o número de navios e submarinos dis-
poníveis para uso caiu, segundo a imprensa internacional, de cerca
de seiscentos em 1985 para noventa e cinco em 2000, dos quais boa
parte não tinha condições de deixar os portos. Bases navais, subma-
rinos e navios enferrujando formavam o cenário mais comum nas
cidades portuárias russas na década de 90. A Marinha russa voltou
a ser uma força essencialmente defensiva, sem pretender mais dis-
putar com a Marinha norte-americana o domínio dos mares.
Também o arsenal nuclear russo, mesmo sendo prioritário
na estrutura de defesa nacional e, ainda, o segundo mais poderoso do
mundo, sofreu imensos cortes. O arsenal norte-americano também
foi extremamente reduzido, mas proporcionalmente menos do que o
russo. Washington, além disso, continuou a investir no seu sistema
de comando e controle e na atualização tecnológica das suas armas
nucleares, o que não foi o caso dos russos. Muitas pessoas temiam,
inclusive, que o sistema nuclear russo se desagregasse, com a conse-
quente venda ou desvio de ogivas nucleares para países do Terceiro
Mundo ou para terroristas, o que, até agora, não aconteceu.
Mesmo com esses cortes, as Forças Armadas russas não
tinham os recursos para funcionar efetivamente. Alimentar, equi-
par, treinar e abrigar tantos soldados se revelou tarefa impossível
126 João Fábio Bertonha

para o novo Estado. Para piorar, a conscrição obrigatória parou de


fornecer os soldados necessários para o funcionamento das várias
Armas. Não apenas porque, graças à queda da natalidade na Rússia,
os homens jovens estavam se tornando raros, como porque a maio-
ria dos disponíveis passou a usar de todos os meios para fugir do
alistamento. Novamente, essa situação afetou mais a Marinha e o
Exército e um pouco menos a Força Aérea e as forças estratégicas.
A diminuição quantitativa das Forças Armadas não seria
um problema se tivesse sido acompanhada por melhoria no equi-
pamento e nos padrões de treinamento e manutenção. Mas a quali-
dade desabou juntamente com a quantidade e, em meados dos anos
1990, inúmeros tanques, veículos blindados e canhões simples-
mente enferrujavam em velhos quartéis, sem poderem ser utilizados
por falta de manutenção e peças de reposição.
O treinamento geral das tropas também teve seus padrões
radicalmente diminuídos. Os pilotos da Força Aérea soviética trei-
navam cerca de 150 horas por ano, frente a 200 dos pilotos ociden-
tais. Em 1995, os pilotos russos treinavam apenas vinte horas por
ano, e o seu número ainda caía. Manobras e exercícios em nível de
regimento ou divisão quase desapareceram. Os acidentes com os
submarinos Kursk, no mar de Barents em 2000 (TRUSCOTT, 2003)
e AS-28, no Pacífico em 2005, são indícios indicativos da queda
dos padrões de manutenção e treinamento dos marinheiros russos.
A prova final da decadência militar do antigo Império
russo/soviético foi a Chechênia. Em 1994, soldados jovens, com
pouco treinamento ou preparo, foram lançados contra os guerrilhei-
ros chechenos. Unidades se recusavam a combater e só a massa de
artilharia e tanques permitiu aos russos conquistar a província, in-
cluindo sua capital, Grozny.
Em 1999, apesar de atuarem com mais eficiência, os mili-
tares russos novamente tiveram que recorrer à política da terra arra-
sada e à extrema brutalidade para subjugar os rebeldes. Uma re-
volta que, nos tempos da URSS e da KGB, os militares soviéticos
teriam conseguido eliminar com muito mais eficiência se revelou
uma tarefa quase sobre-humana para seus sucessores. Dizer isso
não significa superestimar a força e as capacidades do antigo siste-
ma de segurança soviético, mas indica o grau de decadência do
sistema militar russo na década de 90.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 127

Capítulo 7

A RÚSSIA DE PUTIN E ALÉM

POLÍTICA: A VOLTA DO AUTORITARISMO


Em fins de 1999, Bóris Yeltsin renunciou à presidência da
Rússia, assumida interinamente por Vladimir Putin, um ex-coronel
da KGB e então primeiro-ministro, depois confirmado no cargo por
eleições em 2000 e 2004. A renúncia de Yeltsin representou o último
ato de alguém que, tendo surgido no cenário político russo como um
aparente paladino das reformas democráticas, se revelou, como visto
no capítulo anterior, bem pouco democrata. Ele governou com
enormes poderes (ainda que legais, já que concedidos pela Constitui-
ção russa de 1993), tolerou muito mal a oposição, fez, no mínimo,
vistas grossas à corrupção generalizada e às máfias e se aliou com os
“oligarcas” que dominaram a economia e a sociedade russas desde o
fim do comunismo para se manter no poder a qualquer custo.
Seu substituto, Putin, foi, no início do seu mandato, uma
grande incógnita. Inicialmente, ele foi apresentado como duro, in-
flexível, mas democrata, pronto a dar um golpe de morte na corrup-
ção e na desordem que imperavam na Rússia. Alguns analistas o
consideravam uma simples continuidade da era Yeltsin. Já outros o
viam como um líder autoritário, pronto a restaurar um regime de
força (ainda que não certamente comunista) na Rússia, nos moldes
da União Soviética que ele havia servido.
Essa incógnita, num certo sentido, ainda continua. Putin
quer fortalecer o Estado e consolidar o sistema democrático russo
ou suas ações objetivam apenas o primeiro objetivo, com o segundo
128 João Fábio Bertonha

sendo simplesmente uma cobertura? Ao passar por cima das leis e


invadir jornais da oposição ligados aos “oligarcas”, por exemplo,
ele está apenas combatendo os inimigos da democracia ou agindo
de forma autoritária, na melhor das tradições russas?
As informações disponíveis indicam que a segunda opção
parece a mais correta. O governo de Putin tem trabalhado com afin-
co para controlar a mídia e a oposição e submeter o Judiciário russo
ao seu controle. As eleições de 2007, quando seu partido conseguiu
64% dos votos, mas sob uma torrente de denúncias de fraude, tam-
bém indicam seu pequeno apreço pela democracia, a não ser no
aspecto formal. O mesmo pode ser dito da fácil eleição de Dmitri
Medvedev, apoiado por Putin, em 2008. A eleição de Medvedev, e
de Putin para primeiro-ministro, aliás, também nos permite afirmar
que a “era Putin”, com mais ou menos mudanças, continua na Rús-
sia e vai prosseguir ainda por alguns anos.
Em resumo, sua defesa da “lei e da ordem” parece signifi-
car essencialmente ordem, com ou sem lei. Além disso, os rumores
de que ele está combatendo os “oligarcas” apenas para criar uma
nova geração deles, sob seu controle, reforça a impressão de que
muita coisa não mudou na Rússia dos anos 1990 para cá.
Além disso, essa busca pela ordem parece não implicar no
combate à grande praga que, desde o fim da URSS, está corroendo
o Estado russo por dentro, ou seja, a corrupção. Esta não era desco-
nhecida nas décadas finais da União Soviética, mas se desenvolveu
a tal ponto que começa a fazer a própria legitimidade do Estado ser
questionada, além de abalar profundamente a sua eficiência. Dados
de ONGs internacionais de 2005 diziam que o total gasto com cor-
rupção e suborno na Rússia equivalia a duas vezes e meia a arreca-
dação do Estado. Segundo estas mesmas fontes, os cidadãos russos
pagavam três bilhões de dólares por ano em suborno, enquanto as
empresas russas pagavam cerca de cem vezes esse valor. Elas tam-
bém afirmavam que a situação estava piorando ainda mais no go-
verno de Putin.
Tal situação viria não de um estímulo de Putin à corrup-
ção, mas do simples fato que a sua visão de fortalecimento do Esta-
do não implica combate à corrupção. Pior, ao colocar restrições
para a atuação da mídia independente, do Judiciário e da oposição
política, seu governo elimina os elementos chave de qualquer com-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 129

bate à corrupção, cuja eliminação da vida dos russos levará, se é


que é possível, anos de trabalho determinado.
De qualquer modo, a única coisa que está perfeitamente
clara é que Putin busca a centralização do poder. Uma reforma po-
lítica, promulgada já em 2000, permitiu um controle muito maior
do Kremlin sobre as repúblicas e regiões da Rússia. Ele também
procurou cercear o poder dos “oligarcas” via cooptação e repressão
e reforçar o poder do Estado dentro da sociedade, inclusive pelo
reforço dos antigos órgãos de segurança e inteligência.
Essa política, junto com a “mão firme” frente aos chechenos
e a melhoria das condições econômicas, é fundamental para explicar
a popularidade de Putin e suas vitórias eleitorais. Dada a desordem e
a anarquia que tomaram o país nos anos Yeltsin, é natural que muitos
russos tenham visto com bons olhos uma política de “Estado Forte”.
Contou também, provavelmente, o tradicional respeito russo pela
ordem e pela autoridade, adquirido e fortalecido por séculos de auto-
ritarismo czarista e por décadas de regime soviético.
A pergunta que fica é se a Rússia, com ou sem Putin, está
caminhando na direção da democracia ocidental, com instituições
eficazes e dotadas de legitimidade. Evidentemente, não se pode
saber a evolução política do país nas próximas décadas, mas, mes-
mo no curto prazo, ela é uma incógnita.
Há uma grande corrente de opinião na Rússia que identifi-
ca a democracia com a anarquia da era Yeltsin e que acredita que
diminuir o espaço público e as liberdades democráticas é algo per-
feitamente aceitável em nome da ordem. Para essa corrente, o “Es-
tado forte” faz parte da alma russa e é a única solução para o país
tanto em curto quanto em longo prazo.
Para outra parte da população, contudo, a noção de Estado
de direito, a defesa dos direitos humanos e do Império da lei se tor-
naram fundamentais. Seria um erro imaginar que os russos, por
nunca terem vivido numa democracia, teriam nos seus genes uma
rejeição natural a ela. A experiência democrática pós-1991, apesar
dos seus limites óbvios, indica claramente como ao menos alguns
dos princípios do Estado de direito estão se fixando na Rússia e que
quaisquer tentativas de criar uma ditadura seriam rejeitadas por boa
parte da população (COLIN, 2007, p. 78-94).
130 João Fábio Bertonha

Uma comparação com outros Estados oriundos da ex-


-URSS é, nesse sentido, significativa. Na “Revolução das Rosas”
georgiana de 2003 e na “Revolução Laranja” ucraniana de 2004 se
identificam os sintomas de regimes autoritários debilitados e, tal-
vez, os sinais de amadurecimento de democracias incipientes. Já na
Bielo-Rússia e em várias repúblicas da Ásia Central, o autoritaris-
mo continua a ser a tônica, com a existência, inclusive, de verdadei-
ras ditaduras personalistas. A Rússia parece estar num meio termo,
o que indica tanto a força como a fraqueza da democracia no país.
Assim, se é possível arriscarmos alguma previsão para o
futuro político da Rússia, creio que ela ficará num meio-termo entre
as várias possibilidades acima mencionadas. Apesar da existência,
no país, de setores desejosos da volta do comunismo ao estilo stali-
nista, de nostálgicos do czarismo e mesmo neonazistas (numa in-
versão curiosa da história, já que o nazismo foi sempre o maior
inimigo não apenas do comunismo, mas também da nação russa),
uma restauração da União Soviética ou da monarquia czarista ou a
formação de um Estado ultranacionalista ou quase fascista é quase
impensável.
Também as chances de uma ditadura militar na Rússia nos
próximos anos, apesar de não inexistentes, são relativamente pe-
quenas, apesar da imensa humilhação e sofrimentos impostos aos
militares. Antes de qualquer coisa, porque os próprios militares,
apesar de sua relação muita vezes tensa com o poder civil, não es-
tão dispostos a assumir diretamente as rédeas do poder. Além disso,
a Rússia ainda preserva parte da estrutura de poder oriunda da ex-
-URSS, o que ajuda a inibir aventuras por parte dos militares.
Na estrutura de poder soviética, efetivamente, o poder
militar e político estava dividido entre os militares, o Partido
Comunista e a KGB, sendo que estas últimas organizações tam-
bém dispunham de Forças Armadas próprias, o que permitia que
os três polos se vigiassem e disputassem continuamente o poder.
Na Rússia de hoje, ao lado dos militares, há várias outras organi-
zações armadas, como as forças do Ministério do Interior, da FSB
(agência de inteligência sucessora da KGB) e outras, as quais
dispõem de centenas de milhares de homens em armas, às vezes
com unidades blindadas e aéreas próprias, e todas competindo
por recursos, poder e prestígio. Em tal cenário, que não mudará,
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 131

provavelmente, nos próximos anos, qualquer golpe de Estado de


uma das forças enfrentaria oposição das outras, o que mantém
alguma estabilidade.
Apesar disso, a formação de uma democracia cem por
cento ao estilo ocidental também é pouco provável. A história re-
cente da Rússia e suas tradições de séculos indicam que o cenário
mais realista é a manutenção do sistema democrático, mas limitado
por uma forte ingerência do poder estatal tanto na economia como
na sociedade civil russas. Essa recuperação do poder do Estado
poderia significar uma recuperação também da capacidade russa em
influenciar a política internacional, mas ela esbarra, contudo, na
questão central que é a economia.

RECUPERAÇÃO E (IR)RELEVÂNCIA ECONÔMICA

Depois do cataclismo econômico dos anos 1990, que cul-


minou na crise de 1998, a economia russa voltou a crescer nos úl-
timos anos. Em primeiro lugar, porque a perda do valor do rublo
provocou uma queda das importações, o que fez ressurgir uma in-
dústria de bens de consumo. O aumento dos preços do gás natural e
do petróleo, principais produtos de exportação da Rússia, no mer-
cado internacional também ajudou a balança comercial russa, que
começou a registrar crescentes superávits.
Dados de instituições internacionais indicam, por exemplo,
que, em 2007, US$ 220 bilhões foram arrecadados com a venda do
petróleo, gás e derivados (60% das exportações) e que, nos oito
anos de governo Putin, quase US$ 1 trilhão em produtos petrolífe-
ros foram exportados. É verdade que o governo russo utilizou-se de
um truque inteligente – um fundo que retém, desde 2004, 80% de
todos os petrodólares obtidos acima de US$ 27 em cada barril –
para evitar que esta avalanche de dinheiro gerasse inflação, o que é
um mérito dele. Mas a abundância petrolífera, dificilmente, poderia
ser considerada uma conquista do governo Putin.
De qualquer modo, entre 2000 e 2005, a economia russa
cresceu cerca de 6% ao ano, levando a aumentos nos investimentos
e no consumo interno. Reformas no sistema de impostos e raciona-
132 João Fábio Bertonha

lização dos gastos públicos também permitiram superávit fiscal e


melhoria nas condições financeiras do Estado.
Mesmo assim, a Rússia hoje dificilmente poderia ser cha-
mada de potência econômica. Neste início de milênio, ela responde
por apenas 1% do PIB mundial e é a 16ª economia do globo. Mes-
mo que ela continue crescendo esses 6% ao ano por vinte anos, ela
terá apenas recuperado o perdido na década de 1990. Décadas de
crescimento contínuo seriam necessárias para recolocar a Rússia
entre as grandes economias mundiais e saber se esse crescimento
contínuo factível é a grande questão.
Realmente, para os anos a seguir, otimistas e pessimistas
têm vários argumentos para se sentirem animados ou deprimidos
com as perspectivas russas, sendo todos eles claramente do tipo
“copo meio cheio, como meio vazio”, dependendo do lado em que
se está, como veremos nos parágrafos a seguir.
A Rússia ainda é, por exemplo, um verdadeiro reservatório
de recursos naturais, incluindo petróleo em abundância, metais e
madeira. Contudo, não apenas boa parte das minas e campos petro-
líferos russos está obsoleta e/ou se esgotando devido aos escassos
investimentos, como poucas grandes economias modernas conse-
guem se sustentar apenas com a exportação de recursos naturais.
Exportar petróleo pode ter ampliado substancialmente a influência
de Moscou na economia mundial nos últimos anos, mas dificil-
mente poderá ser a solução efetiva para todos os problemas nacio-
nais. Um pequeno país do Golfo Pérsico pode se manter apenas
vendendo petróleo, mas não um gigante como a Rússia. O choque
econômico sentido pela Rússia em fins de 2008 e início de 2009
com a queda dos preços internacionais do petróleo é outro indicati-
vo neste sentido.
Apesar do colapso dos anos 1990, e da baixa produtivida-
de, a Rússia ainda é uma grande produtora de carvão, aço, cimento
e outros produtos industriais pesados, o que poderia ser um ele-
mento a seu favor. No entanto, esses ramos industriais são dos me-
nos dinâmicos no comércio internacional, enquanto a capacidade da
indústria russa para competir no mercado mundial de informática,
biotecnologia, robótica e outros produtos da era da informação é
virtualmente nula, o que dá prognósticos pouco róseos para o futuro
do país (COLIN, 2007, p. 100-101).
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 133

O mesmo pode ser dito da sua infraestrutura. Toda a he-


rança soviética em termos de ferrovias, rodovias, oleodutos etc. está
se deteriorando rápido pela falta de investimentos, enquanto a
mesma carência de recursos impede a construção de um sistema
telefônico, de redes de informática e outros sistemas necessários
para uma moderna economia. A situação tende a melhorar, prova-
velmente, com o passar dos anos, mas ainda é crítica e serão neces-
sárias décadas para a Rússia atingir, se atingir, os níveis de sofisti-
cação tecnológica do Ocidente ou da Ásia.
A população russa ainda é relativamente grande, instruída
e bem formada, ao mesmo tempo em que a proporção de engenhei-
ros, médicos e outros profissionais qualificados no conjunto da po-
pulação está bem acima da média mundial. Mas sua produtividade
ainda é muito baixa e levará tempo para atingir os padrões do Oci-
dente. Além disso, com a redução drástica nos investimentos do
Estado nas Universidades e no sistema público de ensino, a tendên-
cia a curto e médio prazo é que a disponibilidade de cientistas e
técnicos e a média educacional da população declinem.
A cultura do mercado capitalista também está lentamente
se difundindo dentro da sociedade russa, enquanto o poder do Esta-
do está sendo, ao menos parcialmente, restaurado. No entanto, boa
parte do sistema capitalista russo ainda é permeado pelo crime e a
eficiência e imparcialidade do Estado ainda são questionáveis.
Na verdade, conforme textos recentes de Lenina Pomeranz
(2007, item III), o governo russo estaria consciente dos riscos de
depender excessivamente do petróleo e reservando recursos orça-
mentários para, aproveitando a mão de obra qualificada do país,
criar centros de alta tecnologia que serviriam como base para a
transição russa para uma economia do conhecimento. Um projeto
razoável, sendo duvidoso, contudo, se ele será bem-sucedido.
Em resumo, as perspectivas em curto prazo para a econo-
mia russa parecem razoáveis, especialmente quando confrontadas
com a catástrofe dos anos 1990. A médio e longo prazos, a situação
parece bem menos confortável, especialmente depois que as heran-
ças positivas da era soviética (especialmente o complexo científico,
o sistema educacional e a infraestrutura) se degradarem e se os pre-
ços do petróleo continuarem a cair. Na melhor das hipóteses, o
crescimento econômico russo continuará nos níveis atuais, o que
134 João Fábio Bertonha

será muito positivo, mas insuficiente para que a Rússia recupere a


posição de segunda economia do mundo que ela já teve. Se tal re-
cuperação se der, salvo imprevistos, será seguramente na segunda
metade do século XXI e não no futuro previsível.

PROBLEMAS SOCIAIS E CRISE DEMOGRÁFICA


O mesmo pode ser dito das condições sociais. Depois da
queda acentuada dos anos 1990, parece estar havendo alguma recu-
peração, ainda que leve, nos anos recentes, mas insuficiente para
transformar a Rússia num país realmente rico.
Algumas estatísticas divulgadas pela mídia internacional
indicam claramente essa situação. A renda média dos russos cres-
ceu dez vezes desde 1999, mas isso significa apenas US$ 500. O
país já conta com 130 mil milionários e cinquenta e três russos tem
uma fortuna pessoal acima de US$ 1 bilhão, mas muitos milhões
ainda vivem com alguns dólares ao dia. A classe média se expandiu
de 10% da população nos anos 90 para 25% em 2007, mas muito
longe ainda dos 60% da Europa Ocidental. A pobreza extrema foi
erradicada, mas a diferença entre os dez por cento mais ricos e os
dez por cento mais pobres da população já está em 25 vezes. A re-
gião de Moscou é riquíssima, mas o interior não está tão bem. En-
fim, o copo está meio cheio ou meio vazio, dependendo do lado que
se olha.
É razoável acreditar que, se o crescimento econômico
prosseguir e o Estado recuperar capacidade de investimento e tiver
vontade política de atuar socialmente, haverá melhorias nos índices
sociais. Mas a desigualdade entre ricos e pobres, a pobreza, o alcoo-
lismo, a criminalidade e outros problemas sociais graves parecem
ter chegado para ficar e, na hipótese da Rússia conseguir atingir
padrões de desenvolvimento humano similares aos do Ocidente,
recuperando o perdido depois da queda da URSS e indo além, será
tarefa para décadas.
Como efeito óbvio dessa contínua degradação das condi-
ções sociais, a Rússia enfrenta hoje um grande problema demográ-
fico. A expectativa de vida caiu na Rússia desde 1991, especial-
mente entre os homens, devido ao colapso do sistema de saúde pú-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 135

blica, pobreza, alcoolismo e violência. Em 1991, um homem sovié-


tico poderia esperar viver 63 anos, o que se reduziu hoje para cerca
de 58 anos. Entre as mulheres, a redução foi menos acentuada – de
74 para 72 anos – mas é uma expectativa de vida mais baixa do que
a de 1965. Alguns analistas dizem que, dada a carência de preven-
ção e poucas possibilidades de tratamento, uma epidemia de AIDS
será altamente provável na Rússia nas próximas décadas, o que
deverá aumentar ainda mais a mortalidade no país.
Para piorar, os russos não se sentem confortáveis ou em
condições para terem filhos. Nesse contexto, a natalidade, já em
queda nas décadas finais do regime soviético, despencou ainda
mais. A mortalidade infantil, em crescimento, também ajuda a di-
minuir a população infantil russa. Em 2001, segundo algumas esta-
tísticas divulgadas pela mídia, havia 171 mortes para cada 100 nas-
cimentos e, na década de 1990, a população russa diminuiu em 2
milhões de pessoas, mesmo com muitos refugiados de etnia russa
se transferindo para o país de outras repúblicas ex-soviéticas.
As tendências demográficas, evidentemente, não podem
ser previstas em longo prazo, mas as estimativas, hoje, são de que a
população russa está diminuindo em cerca de 650 mil pessoas por
ano e que, em 2015, os russos seriam apenas 136,9 milhões, frente
a 143 milhões hoje. Em 2025, poderiam ser apenas 119 milhões,
entre os quais muitos idosos.
Redução demográfica e envelhecimento populacional não
são exclusividade russa. Vários países da Europa Ocidental, do ex-
-bloco do Leste e o Japão compartilham a mesma situação. O pro-
blema russo é que essa redução está se dando num ritmo muito
acelerado, diminuindo radicalmente a disponibilidade de mão de
obra para a economia e as Forças Armadas.
Além disso, ela se dá ao mesmo tempo em que os rivais da
Rússia aumentam sua população. Realmente, seja pelo crescimento
natural (caso da China ou dos países muçulmanos) ou pela imigra-
ção (como os Estados Unidos), os vizinhos e rivais da Rússia estão
crescendo. Mesmo a União Europeia, apesar de demograficamente
declinante, pode compensar isso, ao menos um pouco, incorporan-
do novos países a seu bloco.
Em resumo, apesar de ser difícil prever o futuro, nota-se
que os vizinhos da Rússia estão numa melhor condição demográfi-
136 João Fábio Bertonha

ca do que ela. Uma novidade para um país que sempre venceu seus
rivais pela quantidade, inclusive de homens, e que assusta os estra-
tegistas russos, que se perguntam quando os prolíficos muçulmanos
ou os numerosos chineses irão demandar territórios da agora pouco
populosa Rússia. A contínua decadência militar apenas acentua
esse temor.

O PODER MILITAR RUSSO NO INÍCIO DO SÉCULO XXI


Apesar de toda a decadência sofrida na década de 90,
como visto no capítulo anterior, a Rússia ainda tem elementos de
poder em suas mãos que, com certeza, a qualificam como uma po-
tência militar em termos globais. Mais questionável é se essa força
militar se manterá nos próximos anos e décadas.
O poder nuclear russo ainda é realmente substancial, com
milhares de ogivas nucleares e veículos de lançamento. Mísseis
novos têm sido instalados e novas tecnologias vêm sendo desen-
volvidas, enquanto o sistema de comando e controle russo ainda
funciona. Em qualquer futuro previsível, é difícil imaginar que a
Rússia perca a sua posição de segunda potência nuclear do mundo.
Além disso, apenas aproveitando as sobras do antigo Im-
pério soviético, a Rússia é, sem dúvidas, uma potência militar de
primeira classe em termos convencionais. Ela não tem mais as
centenas de submarinos e navios da era soviética, mas as poucas
dezenas remanescentes tornam a Marinha a segunda do mundo.
Milhares de aviões e helicópteros ainda estão disponíveis e apenas
os bombardeiros Blackjack e Backfire, os caças Mig e os tanques
T80 remanescentes já deixam a Rússia numa posição confortável se
a questão fosse simplesmente contar equipamentos e homens. Afi-
nal, mesmo hoje, a Rússia tem mais homens em armas, tanques ou
aviões do que a Alemanha ou a França.
Ela também conserva, ainda, um grande complexo indus-
trial militar, que, através de exportações para todo o mundo, tem
conseguido manter-se ao menos parcialmente.
O grande problema é que esses homens e materiais estão
dentro de uma estrutura militar extremamente falha e com proble-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 137

mas de comando, treinamento e manutenção. Afinal, mil tanques


ativos e operacionais são uma coisa, enquanto os mesmos mil tan-
ques enferrujando em bases militares perdidas não significam nada
além de números no papel. Além disso, o que é talvez ainda pior,
nada garante que a Rússia vai ter condições de manter esses ele-
mentos de poder remanescentes nos próximos anos.
Realmente, o sistema militar continua envelhecendo e os
russos têm sido incapazes de reformá-lo e/ou mantê-lo. No campo
nuclear, por exemplo, a quantidade de mísseis, submarinos e ogivas
que se tornam obsoletos ou não operacionais aumenta numa pro-
porção maior do que a capacidade que o país tem de substituí-los.
Alguns analistas calculavam, em meados do ano 2000, que apenas
800 ogivas nucleares russas eram realmente operacionais, frente a
mais de 6.000 no papel.
Isso parece ser verdade, tanto que Moscou tem aceitado
sem problemas assinar vários acordos de redução de armas nuclea-
res com Washington, pois eles permitem que a Rússia reduza seu
arsenal a níveis realistas sem perder prestígio internacional, já que
o mesmo será feito pelos norte-americanos. Assim, a princípio,
pelos acordos mais recentes, EUA e Rússia deverão reduzir, cada
um, as suas armas estratégicas nucleares ao patamar de 1.700 a
2.200 ogivas estratégicas, além do arsenal de armas nucleares táti-
cas. Fica o questionamento, contudo, se mesmo esse número redu-
zido de ogivas pode ser mantido pelos limitados recursos do Estado
russo de hoje.
Um estudo feito pelos cientistas políticos norte-americanos
Keir Lieber e Daryl Press (2006) chegou a afirmar que os Estados
Unidos teriam condições, se quisessem, de destruir a Rússia num
primeiro ataque nuclear. Para eles, a Rússia só voltaria a ter capaci-
dade nuclear efetiva (ou seja, capaz de garantir a destruição mútua
de qualquer atacante), em 15 ou 20 anos, quando sua força deveria
se estabilizar em torno de 150 mísseis de longo alcance e cinco a
oito submarinos. Conclusão questionável, mas que indica a que
ponto as coisas chegaram.
Os russos também não têm conseguido acompanhar os re-
centes avanços norte-americanos na área (que tornaram o seu arse-
nal menor, mas mais letal) e faltam recursos mesmo para descon-
taminar e eliminar os equipamentos nucleares obsoletos, o que dei-
138 João Fábio Bertonha

xa submarinos desativados, mas com carga nuclear intacta, enfer-


rujando nos portos árticos e vagões carregados de lixo nuclear va-
gando sem destino pelo território russo. Isso sem mencionar, claro,
os riscos de venda de equipamentos e ogivas nucleares a terroristas
ou outros países interessados neste tipo de armamento.
Também no campo convencional, os problemas dos milita-
res russos são grandes. Enquanto na época soviética, praticamente
todos os jovens aptos em idade militar eram incorporados às Forças
Armadas, a porcentagem, agora, caiu para cerca de um entre dez.
Não há recursos para manter e treinar todos os jovens disponíveis e,
numa sociedade permeada pela corrupção, é rotineiro, segundo a
mídia russa, conseguir a isenção via pagamento, que variava de
1.500 dólares no interior a 5.000 dólares em Moscou em 2005.
Tudo isso prejudica o preparo dos militares para o combate e a
formação de reservas treinadas.
Há também uma relação de desconfiança e incompreensão
mútua entre militares e civis e, apesar de alguns esforços para reor-
ganizar o sistema militar russo, fundindo algumas estruturas (como
foi feito com a Defesa Aérea e a Força Aérea em 1998), cortando
onde possível e lançado um programa amplo de reforma militar em
2003, os resultados, até agora, são pequenos. Também se procurou
profissionalizar ao menos parte da tropa, mas, como indicam Zolo-
ratev (2007) e Betz e Volkov (2003), a falta de recursos tem difi-
cultado quaisquer esforços para sanar os problemas dos militares.
O dinheiro é, realmente, o problema central. Neste início
de milênio, o orçamento militar de Moscou, apesar de estar em
forte crescimento frente aos anos 90, está em apenas 40-50 bilhões
de dólares por ano, uns 3% do PIB e o equivalente a 5% do norte-
-americano. Apenas esse dado já indica a situação de completa falta
de recursos entre os militares russos, recursos estes ainda mais san-
grados, atualmente, pela guerra da Chechênia.
O Presidente Putin, decidido restaurar ao menos uma parte
do orgulho nacional russo, aumentou as verbas destinadas aos mi-
litares e planejou-se a criação de ao menos alguns núcleos de ex-
celência na Força Aérea, em algumas unidades de submarinos etc.
A situação melhorou substancialmente, sem dúvida, frente aos anos
90 e a recuperação do poder militar tem trazido um novo orgulho e
dinamismo à Rússia. Mas a falta de recursos tão amplos como na
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 139

era soviética e a necessidade de concentrar investimentos nas forças


nucleares têm dificultado esses planos. Efetivamente, uma parte
substancial dos recursos nacionais empregados na defesa estão sen-
do utilizados para manter a Força de Foguetes Estratégicos e tudo
parece indicar que isso vai prosseguir nos próximos anos, com in-
vestimentos planejados em novos mísseis Topol M e reforço na
aviação estratégica.
O poder nuclear é realmente o último grande trunfo nas
mãos da Rússia para reclamar o status de grande potência militar.
Natural, pois, que a possibilidade dos norte-americanos construírem
um escudo espacial incomode Moscou. Tal escudo, a princípio,
parece ser inviável tecnicamente, mas, se funcionasse, consolidaria
ainda mais a supremacia militar norte-americana e teria o potencial
de reduzir a Rússia (assim como outros países, como a China) à
categoria de potência militar irrelevante. No entanto, nem China
nem Rússia têm condições de impedir os desejos de Washington e
nem de criar algo para se contrapor ao projeto estadunidense. A
proposta feita por Putin, anos atrás, convidando os europeus oci-
dentais a financiarem um escudo russo-europeu, demonstra (se não
foi apenas uma jogada de marketing) ou a ingenuidade ou o deses-
pero dos russos. O mesmo pode ser dito da reação irritada de Mos-
cou em 2007-08 com a decisão americana de instalar mísseis anti-
balísticos na República Tcheca e Polônia.
Em 2000, o governo Putin também modificou a doutrina
de segurança nacional russa. Ao contrário dos documentos anterio-
res, que asseguravam que Moscou só recorreria ao seu arsenal nu-
clear quando a existência do Estado estivesse ameaçada, a nova
versão indicava que armas nucleares poderiam ser usadas em caso
de agressão armada. Um endurecimento, mas também uma prova
de fraqueza, pois o arsenal atômico se tornou o principal elemento
de poder russo, o que indica como a sua conservação será a priori-
dade número um dos militares e políticos russos nos anos a seguir.
O quadro militar mundial, assim, é bem diferente do da
época da Guerra Fria. Ao invés de dois gigantes militares mais ou
menos equivalentes, temos uma superpotência que atingiu um está-
gio de quase onipotência militar, os Estados Unidos. Estes, sozi-
nhos, gastam mais com defesa do que todos os outros países do
mundo juntos, dominam todos os oceanos, têm bases espalhadas
140 João Fábio Bertonha

em cada um dos continentes e são os únicos a terem capacidade de


intervenção global, além de serem a maior potência nuclear rema-
nescente e estarem na liderança nas novas tecnologias militares.
Além dos norte-americanos, todas as outras nações do
mundo procuram manter estruturas militares, mas a esmagadora
maioria delas nem sequer cogita a hipótese de utilizá-las em com-
bate. Certos países, como a Índia e a China, aproveitam o cresci-
mento econômico para reforçarem seu poderio. Outros, como a
França e a Inglaterra, tentam manter ao menos alguma capacidade
de ação internacional, mas com dificuldades. Já a Rússia não está
nem numa situação de acomodação e fortalecimento como as pri-
meiras nem em uma de alguma relevância militar, mas com poucas
possibilidades de crescimento, como as segundas. A realidade russa
é de fraqueza relativa e decadência continuada.
A Rússia enfrenta, assim, um dilema. Moscou ainda man-
tém cerca de 1,2-1,5 milhão de homens em armas (sem contar cen-
tenas de milhares em outras forças de defesa interna) e seu imenso
arsenal nuclear. O problema é que não há recursos financeiros para
manter todas essas forças de forma eficiente e, como se insiste na
manutenção de mais homens em uniforme do que seria possível
financeiramente, o treinamento e até a sobrevivência material des-
ses homens fica comprometida.
Uma solução para esse problema seria reconhecer a situa-
ção russa, concentrar o Exército na repressão às ameaças internas,
reduzir a Marinha a uma mera força de defesa costeira e/ou de in-
tervenção nas regiões próximas à Federação russa, a Força Aérea às
unidades de proteção do território nacional e o poder nuclear a al-
gumas dúzias de mísseis, apenas para manter o status de potência
nuclear, a espera de dias melhores.
Nesse cenário, o país ficaria com forças militares menores,
mas mais eficientes e condizentes com a sua situação atual. Se ler-
mos os documentos do Ministério da Defesa russa, essa é, em teo-
ria, a opção de Moscou para os anos a seguir, a qual reconhece a
contração da Rússia de superpotência a poder militar regional. Na
prática, contudo, essa alternativa tem se revelado problemática,
tanto, como já indicado, pela ausência de recursos financeiros para
profissionalizar as tropas e dotá-las de tecnologia de ponta, como
pelo fato que seguir essa linha seria abandonar a velha tradição
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 141

russa de confiar nos números e admitir realmente a decadência do


poder nacional e, portanto, pouco aceitável politicamente.
Outra opção é deixar as coisas como estão, o que significa
manter uma imensa força militar no papel, para fins de prestígio
internacional, mas que, na prática, é menos efetiva do que parece.
Alguns analistas consideram, inclusive, que das dezenas de divisões
existentes hoje no papel, não mais que uma ou duas seriam plena-
mente utilizáveis em caso de crise séria.
Dessa forma, a Rússia tem pouca ou nenhuma capacidade
de projeção de poder além oceano e, mesmo nas suas fronteiras, tal
capacidade é limitada. Ela tem, dessa forma, que assistir calada, por
exemplo, às ingerências ocidentais na antiga Europa do leste ou na
Ucrânia. O que ela poderia fazer, caso fosse decidida uma resposta
militar, além de disparar seu arsenal nuclear, frente à imensa supe-
rioridade convencional dos Aliados ocidentais, agora reforçados
pelos antigos aliados de Moscou no Pacto de Varsóvia?
Evidentemente, não se pode saber o que ocorrerá nos pró-
ximos anos. Se a economia russa continuar a crescer e o Estado
contar com mais recursos financeiros, é provável que a estrutura
militar se recupere, mas é simplesmente impossível que a Rússia
consiga, no futuro previsível, recuperar a posição de superpotência
militar que ela tinha durante a Guerra Fria. Num futuro próximo, a
tendência é que a Rússia continue a ser a segunda potência militar e
nuclear do mundo, mas num patamar distante do norte-americano.
Além disso, é provável que a situação, ao menos em alguns ramos
militares menos prioritários (como o Exército) deve ainda piorar
por mais algum tempo antes de melhorar.
Realmente, às Forças Armadas russas falta, como já indica-
do, a condição financeira não apenas para adquirir toda a parafernália
tecnológica da guerra contemporânea (computadores, munições de
precisão, sistemas modernos de reconhecimento e comunicações),
como até para manter o que foi herdado. Afinal de contas, os aviões,
navios, mísseis e tanques herdados da URSS irão inevitavelmente se
desgastar com o decorrer do tempo e não estão sendo substituídos na
totalidade e muito menos com material mais moderno.
Basta recordar, a propósito, como, nos anos 80, as forças
blindadas soviéticas, por exemplo, incorporavam cerca de dois mil
142 João Fábio Bertonha

tanques por ano às suas unidades, complementando ou substituindo


os mais velhos, enquanto apenas algumas dezenas foram adquiridos
em 1994 e quase nada hoje. O mesmo se repete frente a aviões,
mísseis antiaéreos e outros sistemas de armas, que são vendidos ao
exterior, mas não às forças nacionais.
Como já indicado, nos últimos anos, dada a melhoria da
economia, o orçamento militar russo tem crescido bastante e mais
aquisições são previsíveis nos próximos anos, mas num patamar
ainda relativamente pequeno. Ou seja, a situação está bem melhor
do que na década de 90, mas longe de ser tranquila.
Em resumo, a recuperação da força militar russa ainda é
incerta. Ninguém pode, com certeza, invadir ou conquistar a Rússia
e ela tende a continuar a segunda potência militar do mundo ainda
por muito tempo. Seu complexo industrial-militar ainda é o impres-
sionante e alguns armamentos russos, como o caça Sukhoi-35 e o
projetado PAK FA, estão entre os primeiros do mundo. Ainda as-
sim, perto do imenso poder militar desfrutado na época da União
Soviética, não há como não perceber a decadência relativa. Tal de-
cadência militar ajuda a solapar, claro, a sua relevância no cenário
internacional do século XXI.

A DESINTEGRAÇÃO DA FEDERAÇÃO RUSSA?


Outro grande problema enfrentado pela Rússia de hoje é
que as mesmas forças que levaram à formação de uma série de Es-
tados independentes no território da ex-URSS podem muito bem
ainda estar ativas, o que poderia levar a uma desagregação da pró-
pria Federação russa.
Na década de 1990, essas forças pareciam extremamente
poderosas. Várias das regiões e repúblicas que formavam a Federa-
ção russa, inclusive algumas habitadas pela etnia russa, começaram
a exigir autonomia ou independência e vários dos povos que a
compunham começaram a entrar em conflito tanto com o governo
central como com etnias rivais. Em 1990, o Tatarstão (região no
centro do país habitada por muçulmanos sunitas de origem turca) e
a região de população mongol de Tuva, na Sibéria meridional, pro-
clamaram a independência. Na mesma época, a Chechênia também
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 143

o fez, mas, ao contrário das primeiras, não recuou, o que levou a


ação russa em 1994 e novamente em 1999, com a destruição quase
que completa da província rebelde e o ataque indiscriminado, pelas
forças de segurança russas, aos civis.
É complicado, na verdade, comparar os dois lados em con-
flito. Ao menos uma parte dos abusos (estupros, execuções sumá-
rias etc.) dos soldados e oficiais russos contra a população civil
chechena tem sido investigada e alguns culpados têm sido punidos,
mas, segundo as agências de direitos humanos internacionais, eles
ainda são generalizados e, claro, condenáveis. Já os rebeldes che-
chenos partiram realmente para atos terroristas, como provam, entre
outros acontecimentos, as explosões no metrô em Moscou em 2002
e o sequestro de crianças e pais na escola de Beslan em 2004. De
qualquer forma, o que fica claro é que se formou uma “cultura de
ódio” entre os dois povos que leva a tristes acontecimentos, como
os mencionados acima, e deixa pouca margem para negociações.
Há uma longa história de conflitos entre o governo de
Moscou e a Chechênia desde que os soldados czaristas conquista-
ram o país em 1859. Na época de Stalin, por exemplo, centenas de
milhares de chechenos e outros povos caucasianos foram deporta-
dos para o Cazaquistão, sob a acusação de terem colaborado com os
alemães. Há, assim, uma resistência de longo prazo dos chechenos
contra a dominação russa e é compreensível que, assim que a URSS
se dissolveu, eles tenham proclamado a independência.
Os interesses russos na Chechênia são vários e não é este,
certamente, o espaço para uma discussão ampla sobre o conflito.
Há um interesse econômico claro, por parte da Rússia, em manter o
controle sobre os vários oleodutos que cruzam o território cheche-
no. Geopoliticamente, a região também é estratégica. Também
conta o interesse dos políticos russos em obter prestígio, como
aconteceu com Putin em 1999, atendendo a expectativa de boa
parte dos russos de se sentirem parte de uma nação ainda poderosa.
Também é relevante recordar, se queremos realmente
compreender as razões da determinação russa em manter o controle
da região, como o combate aos chechenos serve para dar um exem-
plo para todas as outras repúblicas que queiram deixar a Federação.
É questionável se as ações russas na região estão realmente refor-
çando o edifício da Federação russa, pois ódios intensos estão sen-
144 João Fábio Bertonha

do gerados nesse conflito sem fim e isso pode ter reflexos no longo
prazo. Por agora, contudo, a lição parece ter sido aprendida e pou-
cas regiões russas falam hoje em independência plena, o que não
significa dizer que tal pretensão não possa voltar a ser colocada na
mesa, ao menos para alguns dos povos que compõem a Rússia de
hoje, no futuro.
Efetivamente, uma combinação de recuperação do poder
central, ameaças de repressão (e o exemplo da Chechênia com cer-
teza ajudou, como já indicado acima, a reforçar isto), concessão de
autonomia e cooptação tem ajudado a conter as forças desagregado-
ras. Além disso, o bom momento econômico ajuda a aliviar pres-
sões e canalizar apoios e subvenções aos descontentes. Resta saber
se tal situação poderá prosseguir nos anos a seguir.
O problema russo, na realidade, é que as forças internas
(e externas) que desejam que o país continue a se fragmentar
continuam muito fortes. Elas não devem ser superestimadas, pois,
afinal, muitas das minorias têm pouco interesse em independên-
cia e estão felizes em viver sob a soberania russa e, por agora,
elas estão dormentes. O grave é que elas podem ressurgir e/ou
serem potencializadas no caso do poder central enfraquecer (ou,
no outro extremo, se fortalecer em excesso) novamente ou do
cenário social e econômico indicar ser melhor a separação do que
continuar na União.
Isso realmente é um dado interessante. Dado o grau de
consciência nacional desfrutado por, por exemplo, os norte-ameri-
canos hoje, é difícil imaginar um cenário em que o Delaware ou o
Nebraska quisessem deixar os Estados Unidos. Impossível, não é,
mas seria necessária uma verdadeira catástrofe social, política ou
econômica para esse cenário se concretizar. No caso russo, com
tantas divisões étnicas, territoriais e outras já presentes, muito me-
nos seria necessário para desencadear o processo.
A Rússia, hoje, compreende, de fato, numa área de dezes-
sete milhões de quilômetros quadrados, vinte e uma repúblicas e
dezenas de regiões autônomas, além de outros tipos de organização
territorial. É um sistema complexo e que pode tanto diminuir, por
conceder alguma autonomia, como ampliar (ao fornecer os contor-
nos territoriais para movimentos separatistas) as forças de implosão
do espaço russo.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 145

Nesse espaço, a etnia russa (ou seja, os eslavos de fala rus-


sa e religião cristã ortodoxa) é totalmente majoritária (120 milhões
em 143 milhões de habitantes, ou seja, 82%). Na verdade, ao per-
mitir a independência do antigo Império, os russos passaram a des-
frutar de um índice de superioridade demográfica (4/1) sobre as
etnias minoritárias que eles não tinham há séculos.
O problema é que essas etnias não apenas são numerosas,
atingindo mais de uma centena, como algumas delas têm popula-
ções razoáveis, como os tártaros (5 milhões), os udmurti (1,3 mi-
lhão), os ossétios, os buriatis, os cossacos e outras. Para piorar, vá-
rias dessas etnias minoritárias ocupam áreas próprias, o que permite
uma maior visibilidade e coesão a elas. Há também, especialmente
no Cáucaso e em algumas regiões do Volga, uma forte minoria mu-
çulmana (segundo diversas estatísticas, de doze a vinte milhões de
pessoas, de vários grupos e etnias), a qual mantém relações tensas
com a maioria russa. Num certo sentido, portanto, o problema das
relações entre o grupo étnico e cultural dominante da nova Rússia,
ou seja, o russo, e as minorias continua muito semelhante ao que
era na época do czarismo e na era soviética.
Em resumo, o fato é que o processo de desagregação do anti-
go Império russo pode não ter terminado com o fim da União Soviéti-
ca. No Cáucaso, em várias regiões da Ásia e no Ártico, os russos
ainda são vistos como conquistadores, ali instalados para saquearem
os recursos locais em prol de Moscou. Muitos caucasianos ou tárta-
ros, apesar de viverem na Rússia e falarem russo, não se consideram
russos e não são vistos como tal por estes. Por agora, eles podem
muito considerar adequado ou razoável continuarem sob o controle
de Moscou, mas é impossível dizer se isso será eterno.
Na hipótese de total desagregação e da redução do territó-
rio russo às áreas habitadas pelos russos propriamente ditos, o con-
trole de Moscou se reduziria à Rússia europeia e a uma faixa na
Sibéria, mais ou menos na altura da ferrovia Transiberiana. O recuo
geopolítico da Rússia pós-1990, que a levou 300 ou 400 anos no
passado, pode muito bem continuar. Talvez isso fosse até positivo
para a Rússia ao eliminar atritos e problemas, mas suas ações no
“exterior próximo” indicam que a ideia de perder ainda mais terri-
tório e influência é inaceitável para seus líderes e para a esmagado-
ra maioria do seu povo.
146 João Fábio Bertonha
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 147

Capítulo 8

A RÚSSIA E O MUNDO
NO SÉCULO XXI

A POLÍTICA EXTERNA RUSSA: O “EXTERIOR PRÓXIMO”


Já no governo de Bóris Yeltsin, ficou claro como o gover-
no russo considerava as antigas repúblicas soviéticas como sua área
especial e exclusiva de influência e tal percepção não parece ter se
modificado. Moscou não tem mais pretensões de disputar o domínio
do mundo com os Estados Unidos e parece ter aceitado, ainda que
não com satisfação, que os antigos membros do Pacto de Varsóvia se
incorporem à OTAN e à União Europeia. Já o antigo espaço soviéti-
co – ou seja, o Cáucaso, a Ásia Central e as repúblicas ocidentais
da ex-URSS – é visto, tanto por razões de segurança como pelas de
prestígio, como uma “reserva de caça” russa, destinada a girar em
torno de Moscou, que tem trabalhado para garantir esse controle
nos últimos anos.
Exatamente até onde vão – ou até onde irão, nas décadas a
seguir – as pretensões de Moscou, é difícil dizer, especialmente
porque essa política de priorizar o “exterior próximo” serve de
guarda-chuva para as mais diversas correntes geopolíticas e políti-
cas russas, que as concebem de forma diversa. Para algumas forças
políticas e intelectuais russas, o ideal seria a reconstrução do antigo
espaço soviético, incluindo todas as antigas quinze repúblicas. Nacio-
nalistas radicais próximos do fascismo, como Vladimir Jirinovsky,
sonhavam, ou sonham, até mesmo com a reincorporação de provín-
148 João Fábio Bertonha

cias imperiais há muito perdidas, como a Finlândia, a Polônia e o


Alasca, o que seria guerra certa com a União Europeia e os Estados
Unidos.
Para outras correntes, a separação das repúblicas muçul-
manas foi uma benção, aliviando as pressões econômicas e demo-
gráficas dos muçulmanos contra a Rússia. Para essa corrente, o
máximo com que a Rússia devia sonhar seria com a incorporação
da Ucrânia, da Bielo-Rússia e do norte do Cazaquistão ao seu ter-
ritório, que reuniria a parte mais rica e etnicamente eslava do antigo
Império soviético. Eventualmente, outros Estados cristãos ortodo-
xos, como a Geórgia e a Armênia, poderiam aderir, mas o funda-
mental seria a reconstrução do “núcleo eslavo” original da Rússia.
É difícil imaginar se esses sonhos são factíveis e/ou se eles
seriam aceitos pela comunidade internacional. Tudo dependerá,
provavelmente, da evolução política dentro da Rússia, assim como
dos desejos de ucranianos, bielo-russos e de outros povos de se
unirem à Rússia. Os bielo-russos parecem mais simpáticos à ideia,
como comprova o acordo de união Rússia–Bielo-Rússia de 1997,
enquanto os ucranianos, como demonstraram as eleições de 2004,
estão claramente divididos entre a adesão à União Europeia e o
reforço dos vínculos com a Rússia, que poderia levar a uma unifi-
cação.
Se a Rússia voltar a se tornar forte e rica, talvez o apelo
para a união (seja formal, seja em termos de maior integração) se
torne irresistível para Minsk e Kiev e estas voltarão a se ver como
partes de uma cultura russa maior. Em caso contrário, talvez a ideia
de adesão à União Europeia domine e, nesse caso, a ideia de que
ucranianos e bielo-russos são aparentados cultural e linguistica-
mente aos russos, mas não mais do que isso, será inevitavelmente
resgatada. Enfim, apenas hipóteses para uma história ainda a ser
escrita.
O que é certo é que, com a Ucrânia e a Bielo-Rússia no-
vamente a seu lado, Moscou teria fortalecida a sua pretensão de
voltar a ser uma potência euro-asiática, já que elas forneceriam um
reforço econômico, militar e, especialmente, demográfico funda-
mental para contrabalançar a ascensão chinesa e muçulmana. Sem
elas, as pretensões de reconstrução da potência russa cairiam dra-
maticamente. Natural, pois, como, para os russos, uma adesão
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 149

ucraniana à OTAN e a União Europeia seria extremamente mal


vista, para dizer o mínimo.
Mesmo sem esse reforço dos “irmãos eslavos”, contudo, é
evidente como, no momento presente, a Rússia se esforça para
manter influência no que era o antigo espaço soviético. E isso não
exclusivamente por considerações geopolíticas ou imperialistas
(apesar de elas, como visto, existirem), mas também por razões de
segurança, pelo desejo de manter vínculos econômicos vitais etc.
A única possível exceção são os países bálticos, cujos
vínculos com o Ocidente cresceram a tal ponto que já os excluiu,
praticamente, da esfera de influência russa. Também podem ser
consideradas praticamente perdidas as antigas nações do Pacto de
Varsóvia, cada vez mais integradas à União Europeia e à OTAN.
Mas, no resto do antigo espaço soviético, e, especialmente, no
Cáucaso e na Ásia Central, o esforço russo para manter sua influência
é intenso.
A Ásia central e o Cáucaso formam hoje uma das áreas
mais geopoliticamente disputadas do mundo. A leste, está a potên-
cia ascendente chinesa, a qual procura ampliar seus laços com o
Cazaquistão, a Quirquízia e outras ex-repúblicas soviéticas que
são agora suas vizinhas. Ao norte, está a ex-potência dominante, a
Rússia, enquanto ao sul está o Irã, que tenta utilizar seus vínculos
culturais e religiosos com ao menos alguns dos povos da Ásia Cen-
tral (como os tadjiques, que falam persa) para ampliar sua influência.
O mesmo instrumento está sendo usado pela Turquia, a tra-
dicional inimiga da Rússia, cujos vínculos culturais e linguísticos,
especialmente com azeris, cazaques, turcomenos e uzbeques são
muito fortes, levando alguns turcos a sonharem com um novo “Impé-
rio turco” surgindo na região. Por fim, ao lado desses vizinhos pode-
rosos, está o poder econômico e militar dos Estados Unidos, também
procurando influência, se não dominação, sobre a região.
Em boa medida, essa parte do globo, que reúne povos das
mais variadas origens e religiões, tem tanta importância estratégica
simplesmente pela sua localização, nas fronteiras entre a Europa e a
Ásia, entre o cristianismo, o Islã e o mundo oriental. Foi essa loca-
lização que levou ao “Grande Jogo” (termo cunhado pelo escritor
britânico Rudyard Kipling) entre russos e britânicos no final do
150 João Fábio Bertonha

século XIX, quando as duas potências disputaram, como visto, o


controle do então Turquestão e dos caminhos para a Índia.
A comparação, contudo, não é perfeita. No século XIX,
apenas duas potências disputavam a região e o grande prêmio, di-
reta ou indiretamente, era o controle da Índia. Além disso, a com-
petição aconteceu, então, a partir do expansionismo dos Impérios
britânico e russo na região. Hoje, ela ocorre essencialmente pelo
colapso desse Império e a disputa é, principalmente, pelos recursos
naturais desses países, como metais ferrosos, ouro e, acima de tudo,
petróleo e gás natural (ASIA CENTRALE, 1996)
Realmente, a maioria das oito ex-repúblicas soviéticas do
Cáucaso e da Ásia central dispõe de imensas reservas de petróleo e
gás natural ou, no mínimo, controlam os territórios por onde os oleo-
dutos e gasodutos devem passar para levar esses produtos ao mercado
global. Controlar tais fontes de energia e seu transporte é controlar a
região e suas riquezas, pelo que não surpreende o quanto as grandes
potências e as multinacionais do petróleo estejam divergindo em tor-
no de questões que deveriam ser, essencialmente, técnicas, como o
traçado dos novos gasodutos e oleodutos a serem construídos.
Há muitos projetos para a construção de caminhos alterna-
tivos aos atuais, que levariam óleo e gás para portos na Turquia, Irã
ou mesmo à China, os quais enfrentam forte oposição de Moscou.
Isso não é inesperado, já que, até o presente momento, a maior
parte das vias de comunicação passa, como herança da era soviéti-
ca, pelo território russo, o que dá à Rússia o virtual controle da
economia e da riqueza da região. É um elemento de poder chave
que os dirigentes russos não querem, claro, perder.
No entanto, não apenas as ex-repúblicas soviéticas da re-
gião têm interesse em fugir da dependência russa, como os países
próximos a elas (como o Irã, a Turquia e o Paquistão), as grandes
multinacionais do petróleo e seus países de origem as apóiam nessa
pretensão. Isso indica como, a médio e longo prazo, os oleodutos e
gasodutos que passam pela Rússia continuarão a ser importantes,
mas que os dias de hegemonia russa sobre esses recursos estão
contados.
Além desse controle econômico dos recursos naturais, a
Federação russa recorre, no seu esforço para influenciar suas anti-
gas repúblicas irmãs, a outras armas, como as populações russófo-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 151

nas, a influência militar e os vínculos culturais e econômicos rema-


nescentes da era soviética.
O primeiro elemento são as populações russas instaladas em
outros países. Na época do Império e no período soviético, era praxe,
como visto, a transferência populacional dentro do imenso espaço
russo/soviético, normalmente sob estímulo e controle do Estado.
Ucranianos ou bielo-russos eram enviados para trabalhar nas fábricas
ou administrar províncias na Ásia Central. Povos inteiros foram de-
portados, especialmente na época de Stalin, por serem considerados
rebeldes, o que levou muitos bálticos ou chechenos para a Sibéria. O
Kremlin também promovia a migração de eslavos e, especialmente,
de russos, para regiões rebeldes, de forma a reforçar a sua lealdade
pela diluição dos autóctones num mar de russos emigrados.
Esse processo secular de transferência de russos étnicos da
Rússia para a sua periferia não russa terminou por volta dos anos
1960 do século XX, quando a corrente se inverteu. Mesmo assim,
como resultado de tal processo, vinte e cinco milhões de russos
vivem hoje fora da Rússia, apesar de muitos estarem se transferindo
de volta ao território da Federação.
A maioria está na Ucrânia oriental, na península da Cri-
meia, no norte do Cazaquistão e nos países bálticos, mas eles for-
mam parcela representativa da população em quase todas as ex-
-repúblicas soviéticas. Antes membros de uma minoria privilegia-
da, agora são vistos e tratados, muitas vezes, como cidadãos de
segunda classe. Especialmente nos países bálticos, há toda uma
hostilidade contra eles, com governos e grupos procurando negar-
lhes direitos de cidadania e instando-os a emigrarem. Os conflitos
de 2007 em torno do monumento ao soldado desconhecido soviéti-
co em Tallin indicam claramente como estas tensões estão latentes.
Esses russos muitas vezes já estão fora do hoje território
russo há gerações, sendo descendentes de colonos enviados pelo
antigo Império ou pela União Soviética. Especialmente nos países
do ocidente, como os bálticos, houve casamentos mistos, o que
torna ainda mais difícil definir quem é quem. No caso dos russos
transferidos para as regiões muçulmanas, a mistura populacional foi
menos forte, mas também ocorreu.
A Federação russa, enquanto Estado, tem o direito e, pro-
vavelmente, o dever de proteger as populações russas que vivem no
152 João Fábio Bertonha

exterior, ainda mais quando muitos dos novos Estados estão negan-
do a elas os direitos civis e políticos mais básicos, senão claramente
discriminatórios. Mas não há dúvida que essa defesa também é um
argumento que Moscou pode utilizar para interferir nos assuntos
internos de seus vizinhos.
Do mesmo modo, muitos desses russos do exterior, incomo-
dados com a sua nova situação, gostariam de ver suas regiões de volta
ao controle russo ou, ao menos, com fortes vínculos com Moscou. O
leste da Ucrânia, por exemplo, habitado centralmente por russos étni-
cos e com laços econômicos ainda fortes com a Rússia, apoiou o can-
didato Viktor Yanukovich (defensor de laços maiores com a Rússia)
nas eleições de 2004. Claro que a minoria russa está defendendo,
acima de tudo, seus próprios interesses e direitos (não sendo, portan-
to, mera executantes de ordens de Moscou). Ainda assim, esses
acontecimentos na Ucrânia em 2004 indicam como a população de
russos étnicos vivendo fora da Rússia, apesar de tudo, é um elemento
de poder nas mãos do Kremlin para influenciar os vizinhos.
O poder militar também é instrumento de primeira grande-
za. Quando do fim da URSS, a maioria das unidades remanescentes
soviéticas acabou por se colocar sob o comando de Moscou. Hou-
ve, contudo, um grande debate entre alguns dos Estados sucessores
sobre como fazer a partilha da herança soviética. Na Ucrânia, por
exemplo, como mencionado anteriormente, houve um áspero de-
bate entre Moscou e Kiev, no início dos anos 90, a respeito de
quem herdaria a poderosa frota do mar Negro e o arsenal nuclear
em solo ucraniano, com vitória de Moscou, que conseguiu manter o
controle da frota e das bases na península da Crimeia.
A maior parte dos Estados sucessores absorveu homens e
equipamentos da antiga URSS nos seus novos Exércitos, mas eles
herdaram apenas pedaços de uma máquina que era muito maior e
cujos principais centros de produção e desenvolvimento militar,
além das principais bases, estavam em território hoje russo. A maior
parte da oficialidade e do pessoal treinado para operar as bases e a
cadeia de comando e controle também era russa e voltou para casa.
Assim, os novos Estados se viram sem condições de manter uma
força militar capaz de cumprir funções mínimas, como guarda das
fronteiras e manutenção da ordem interna. Os russos se ofereceram
para, com suas unidades, preencher o vácuo, o que foi aceito pela
maioria das repúblicas.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 153

Assim, ainda hoje, há soldados russos, em números variá-


veis, na Moldávia, no Turcomenistão, no Uzbequistão, na Quirquí-
zia e em outros locais, além de algumas unidades na Ucrânia e na
Bielo-Rússia. Eles guardam as fronteiras com a China ou com o
Afeganistão, protegem os governos de guerrilheiros e, às vezes, se
envolvem nas disputas locais. Dessa forma, os russos contam com
um elemento de importância para manter sua influência em vários
das antigas repúblicas soviéticas.
Os russos também contam com o fato de que vários desses
Estados que surgiram em 1990/1991 surgiram, como visto, numa
“onda” de proclamações de independência sem que, muitas vezes,
as próprias elites e povos locais as quisessem. Assim, enquanto os
bálticos queriam há muito a independência e se prepararam para ela
e os armênios e georgianos têm ao menos algum tipo de consciên-
cia nacional há séculos, muitas das ex-repúblicas soviéticas estão
longe de ser Estados-nação consolidados, ficando numa dependên-
cia até psicológica de Moscou, que conta com essa dependência
para influir nas mesmas.
A mesma dependência existe em termos econômicos. A
maior parte das ex-repúblicas soviéticas, especialmente as ociden-
tais, precisa ainda hoje do petróleo e do gás russos para se mante-
rem. A arma energética é, assim, de suma importância para manter
alguns dos ex-membros da União Soviética na dependência de
Moscou, como exemplos recentes na Ucrânia, na Bielo-Rússia e na
Geórgia podem demonstrar.
Além disso, devido ao isolamento geográfico de várias de-
las e da herança de superespecialização da era soviética, o mercado
russo ainda é importante para ao menos algumas delas. O Uzbequis-
tão, por exemplo, é um dos maiores produtores mundiais de algodão,
pois era esse o seu papel dentro da divisão de trabalho soviética. Po-
deria ser um grande participante no comércio mundial, mas ainda
depende do maquinário agrícola, do mercado e das vias de comuni-
cação russas, o que ajuda a aumentar a influência do Kremlin.
Os laços culturais também são fundamentais. Realmente,
depois de séculos sob controle russo, muitas das ex-repúblicas
mantém vínculos estreitos com o universo russo. Boa parte das pes-
soas que vivem em algumas das repúblicas do Cáucaso ou na Ásia
Central, por exemplo, apesar da língua e da origem turca, falam
154 João Fábio Bertonha

russo como segunda língua e foram educadas no sistema escolar


soviético. Ainda há laços de parentesco e outros que atravessam
fronteiras e facilitam o papel de “irmão maior” da Rússia.
Curiosamente, nem sempre as linhas de ação russa seguem
linhas étnicas ou religiosas claras. Na Armênia, há um intenso con-
flito, encerrado oficialmente em 1994, mas ainda latente, com o
Azerbaijão pelo controle da região de Nagorno-Karabakh. Os rus-
sos apoiaram, na maior parte do tempo, os armênios cristãos contra
os muçulmanos azeris, mas, quando do envolvimento russo, por
exemplo, na guerra entre o governo da Geórgia e os rebeldes da
Abcásia e da Ossétia do sul, foram estes últimos que manifestaram
interesse em se colocar sob a proteção de Moscou e mesmo em
aderir à Federação russa, abandonando a Geórgia.
O curioso é que os abcásios são muçulmanos sunitas, en-
quanto a Geórgia compartilha a fé cristã ortodoxa dos russos, sendo
a Geórgia, inclusive, o único país que aderiu voluntariamente ao
Império russo, ainda no início do século XIX, como forma de se
proteger dos muçulmanos do Império turco-otomano. Mesmo as-
sim, em alguns momentos, os russos se opuseram aos georgianos,
pois outras questões, estratégicas e políticas, também estavam em
jogo e rápida guerra entre os dois países, em 2008, vencida pela
Rússia, é apenas mais uma confirmação desta hostilidade.
Os casos da Geórgia e da Armênia indicam, de qualquer
forma, como o potencial de novas mudanças de fronteiras e confli-
tos étnicos é imenso no ex-espaço soviético, e não apenas na Fede-
ração russa. Todas as ex-repúblicas soviéticas do Cáucaso, por
exemplo, têm, em seu território, minorias étnicas que recusam o
controle do governo central. Algo natural devido à arbitrariedade
com que as fronteiras entre as repúblicas soviéticas foram traçadas
e as migrações no seu interior, mas que, agora, com o interesse em
vários dos novos Estados em se tornarem Estados-nação homogê-
neos, é fonte de conflito e instabilidade.
Enfim, o que parece evidente é que, nesse cenário de ins-
tabilidade em que vive hoje o território ex-soviético, os russos con-
tinuam uma força importante e ativa, mas é questionável se eles
serão capazes de reconstruir o antigo espaço soviético ao seu redor.
Vale ressaltar que essa reconstrução não precisaria se dar,
obrigatoriamente, pela anexação territorial. Para alguns geopolíti-
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 155

cos russos, como visto, apenas isso seria aceitável. Para muitos
outros analistas e políticos russos, contudo, uma integração nos
moldes da União Europeia, por exemplo, seria algo perfeitamente
adequado para os interesses econômicos e de segurança da Federa-
ção russa num mundo globalizado e interdependente como este do
século XXI.
É uma hipótese perfeitamente válida e vem sendo perse-
guida em iniciativas como a formação da “Comunidade Econômica
da Eurásia” (visando aumentar os vínculos econômicos e comerciais
entre os países da Ásia Central e a Rússia) em 2000 e da “Comuni-
dade de Estados Independentes”, que surgiu logo após, como já
mencionado, o colapso da URSS, mas a própria forma como o espa-
ço pós-soviético se construiu oferece dificuldades para esse tipo de
projeto.
Realmente, esse espaço se constituiu, não esqueçamos, so-
bre as ruínas da URSS, a qual se formou, por sua vez, sob o territó-
rio do antigo Império russo. Dessa forma, alguns dos dilemas e
problemas que se apresentam para Moscou hoje são, portanto, pa-
recidos com os que afetaram o Kremlin na era soviética e na época
dos czares.
O primeiro problema é que esse espaço só fez algum sen-
tido, no decorrer de séculos de história, a partir de um centro de
poder, a Rússia. Realmente, a única coisa que reunia as populações
asiática da Sibéria com os países bálticos cristãos e com a Quirquí-
zia muçulmana é o fato de estes povos e países terem sido parte do
Império russo.
A Rússia, com seu amplo território e ampla população,
servia, assim, de centro para áreas periféricas que, sem ele, mante-
riam, provavelmente, laços tênues ou inexistentes entre si. Sem
Moscou, Riga e Tashkent estariam tão distantes como Paris e La
Paz. Assim, o espaço pós-soviético, como foi no passado, não pode
existir sem um núcleo russo forte. O problema é que não apenas
esse núcleo se enfraqueceu, como que seus séculos de dominação
geraram temor na antiga periferia, o que dificulta a sua reconstru-
ção, informal ou não.
Quando a Rússia criou, já em 1991, a CEI, alguns analistas
fizeram a suposição de que poderia se constituir, ali, mais um bloco
156 João Fábio Bertonha

econômico e político mundial, nos moldes da União Europeia ou do


Mercosul. Dadas as reservas das partes componentes frente ao “ir-
mão maior” russo, é evidente, contudo, que esse bloco ou seria algo
no papel, como é hoje, ou só poderia se constituir a partir da sub-
missão da periferia ao núcleo russo. Uma relação equitativa entre,
digamos, a gigantesca Rússia, a Armênia e o Tadjiquistão só podia
ser mera ficção.
A União Europeia, por exemplo, se sustenta no equilíbrio
entre alguns polos maiores (Alemanha, França, Grã-Bretanha), no
respeito aos países menores e numa certa uniformidade cultural,
política e econômica. Já o antigo Império russo ou a URSS, na sua
imensa heterogeneidade, só se mantinha pelo predomínio de um gi-
gante. Assim, qualquer ideia de comparar a CEI ou qualquer outro
bloco organizado por Moscou à União Europeia seria ilógica. Todo
e qualquer espaço que se formar ao redor da Rússia será, provavel-
mente, dominado por ela, o que ajuda a manter longe alguns poten-
ciais candidatos a uma maior integração.
Outro problema enfrentado pelos russos para manter seu
antigo espaço é que a desintegração territorial e o enfraquecimento
do centro russo levam inevitavelmente a uma “fuga” das repúblicas
em relação a outros espaços e blocos. Como já indicado anterior-
mente, os países bálticos já gravitam na órbita ocidental, enquanto
vários dos novos Estados caucasianos reforçam seus laços com a
Turquia e alguns dos da Ásia central olham para a China com inte-
resse. A Rússia ainda disputa estes espaços, mas o simples fato de
fazê-lo, quando, poucos anos atrás, eles eram território sob controle
direto de Moscou, indica as dificuldades russas para conservar esse
seu “exterior próximo” como sua área de influência exclusiva.
Além disso, com o tempo, a maior parte dos elementos de
poder que a Rússia utiliza para manter sua influência no antigo impé-
rio tende a enfraquecer. Vínculos econômicos e comerciais outros
serão estabelecidos, seja com o mundo islâmico, seja com a Europa,
até como forma de contrabalançar a atração russa, como demonstra o
já citado caso dos oleodutos e gasodutos que estão sendo construídos
e a crescente presença de produtos turcos e iranianos nos mercados
desses países.
O mesmo ocorrerá, inevitavelmente, no tocante aos vín-
culos culturais, como demonstra a decisão, por vários dos Estados
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 157

da Ásia Central e do Cáucaso, em meados da década de 1990, de


abandonar o alfabeto cirílico em favor do latino como forma de
afirmar a sua independência cultural frente a Moscou. As identida-
des nacionais também tenderão a crescer se e quando a construção
dos novos Estados se completar.
As populações russas no antigo território soviético tam-
bém tendem a perder expressão nos próximos anos. Em primeiro
lugar, porque sua natalidade é bastante inferior a dos cazaques,
uzbeques ou turcomenos. E, em segundo, porque muitos russos
étnicos estão optando por voltar ao território da Federação Russa,
onde se sentem mais seguros. Apenas entre 1993 e 1994, dois
milhões o fizeram. Dificilmente as antigas repúblicas soviéticas
vão se tornar etnicamente homogêneas, mas a diversidade, ou, ao
menos, a presença russa, tende a diminuir com o tempo, o que
retira de Moscou um dos seus principais argumentos para atuar
nelas.
A influência militar russa no seu “exterior próximo” tam-
bém deverá diminuir no futuro, quando as forças militares dos no-
vos Estados da Ásia central e do Cáucaso estiverem plenamente
operacionais. Essa influência nunca cairá a zero mesmo que todas
as tropas russas voltem para casa, já que, pela própria geografia, o
deslocamento de tropas entre a Rússia e seus vizinhos é muito sim-
ples. A força militar russa, além disso, pode ser incapaz de enfren-
tar os norte-americanos ou europeus, mas é avassaladora para os
padrões dos seus vizinhos, como demonstra a facilidade com que
ela derrotou a Geórgia em 2008. Mas ela pode cair bastante se a
maioria das unidades russas saírem de onde estão hoje e/ou países
como Geórgia ou Casaquistão reforçarem seus laços militares com
o Ocidente ou a China.
Enfim, parece razoável acreditar, a luz dos acontecimentos,
que a Rússia será, sempre, uma força de primeira grandeza, e prova-
velmente a dominante, dentro do antigo espaço soviético. Também
não é impossível que ela consiga, em médio ou longo prazo, absor-
ver a Bielo-Rússia, a Ucrânia e parte do Cazaquistão no seu território
e manter sua influência sobre boa parte das outras repúblicas. Uma
reconstrução do Império soviético ou russo ou mesmo a formação de
um grande bloco de nações ao redor da Rússia, nos moldes da União
Europeia, contudo, parece bem pouco provável.
158 João Fábio Bertonha

A RÚSSIA E O MUNDO
Em longo prazo, já excluída a hipótese de Moscou voltar a
liderar um Império próprio e autônomo ao seu redor, se isolando,
duas parecem ser as possibilidades da Rússia dentro da geopolítica
internacional. A primeira seria a formação de uma aliança com a
China e a Índia para contrabalançar o poder ocidental, e, especial-
mente, norte-americano no mundo. A segunda seria uma firme alian-
ça da Rússia com o mundo ocidental, de forma a reunir forças contra
a ascensão chinesa e o Islã.
Uma relação íntima com a Índia não é impossível. Ainda
na época da União Soviética, Moscou estabeleceu um eixo estraté-
gico com Nova Déli. Os indianos precisavam do apoio soviético
para contrabalançar a aliança entre o Paquistão e a China e a URSS
dependia da Índia para conter a presença chinesa e norte-americana
na Ásia do sul. Hoje, a Rússia não pode mais vender armas a preços
subsidiados para os indianos, como na época da União Soviética,
mas Moscou continua a ser o principal fornecedor de armas e equi-
pamentos para Nova Déli, incluindo caças Mig-29 e Su-30, subma-
rinos da classe Kilo e tecnologia militar avançada.
Assim, apesar das relações da Índia com os Estados Uni-
dos e a China terem melhorado nos últimos anos, inclusive no
campo nuclear, o eixo Moscou-Nova Déli continua ativo, com os
dois parceiros desconfiados do crescente poder chinês, incomoda-
dos com a influência dos Estados Unidos no mundo e assustados
com um possível crescimento do islamismo na região. A Índia, as-
sim, é um aliado da Rússia, mas apenas enquanto seus interesses
forem comuns e apenas no tocante a estes interesses.
Com relação à China, há um histórico de rivalidade entre
os dois povos e muitos russos acreditam que suas províncias orien-
tais são vulneráveis ou a um ataque militar ou a simples infiltração
de milhões de chineses pelas fronteiras. Mesmo assim, por várias
vezes, nos últimos anos, Moscou e Pequim têm feito declarações
conjuntas sobre como os grandes gigantes asiáticos deveriam se
unir para formar um bloco capaz de fazer frente ao poder norte-
americano. Em 2005, aconteceram mesmo grandes manobras mili-
tares, as maiores já realizadas por chineses e soviéticos desde o fim
da URSS, entre os dois países, na região do Oceano Pacífico.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 159

Retórica à parte, tal situação seria muito improvável. Difi-


cilmente poderíamos imaginar uma aliança da China com a Rússia
frente aos Estados Unidos. Em primeiro lugar, porque tanto Pequim
quanto Moscou necessitam dos capitais, do mercado e da tecnologia de
Washington para manter seu crescimento econômico. Sendo assim, as
ligações de cada um deles com Washington é muito mais fundamen-
tal do que uma aliança com o vizinho. Do mesmo modo, uma avalia-
ção realista indica como mesmo a soma das economias e das forças
militares dos dois países não reuniria uma força capaz de desafiar o
poder global dos Estados Unidos, o que dificilmente pode estimular
os defensores de tal aliança em Pequim e em Moscou.
Por fim, apesar dos russos não apreciarem (para dizer o
mínimo) a expansão da influência norte-americana no seu ex-
-Império e dos chineses se irritarem com a presença do poder de
Washington no Oriente, as rivalidades potenciais russo-chinesas (na
Ásia Central, nas fronteiras siberianas e no Pacífico) estão longe de
ser irrelevantes e dificilmente indicam que um acordo de coopera-
ção íntima seria possível. Pode haver cooperação em assuntos co-
merciais, econômicos, ecológicos e outros, mas uma parceria es-
tratégica efetiva, em oposição ao Ocidente, parece improvável. Para
alguns russos, a oposição – ao menos, verbal – do governo Putin ao
Ocidente é um erro, já que o verdadeiro perigo à segurança nacio-
nal russa seria mesmo a China.
Na verdade, no único momento neste século em que chine-
ses e os então soviéticos estiveram unidos em oposição aos EUA
(os anos 50), o fizeram apenas em nome da solidariedade ideológi-
ca. Quando tal solidariedade se rompeu com a decadência do stali-
nismo na União Soviética e a China hesitou em continuar como o
“primo pobre” de um bloco que os soviéticos dominavam em todos
os sentidos, a aliança se desagregou e chineses e soviéticos tiveram
sérios conflitos até recentemente.
Se esse bloco tentasse se rearticular hoje, não só não have-
ria nenhuma grande solidariedade ideológica a reuni-los, como os
seus interesses econômicos e estratégicos continuariam, como vis-
to, a separá-los. Se tal aliança, além disso, se repetisse hoje, o
“primo pobre” dessa vez seria a Rússia e é difícil acreditar que ela
aceitasse, como a China não aceitou nos anos 50, tal papel. Um
prognóstico difícil, pois, para uma aliança que, se implementada,
160 João Fábio Bertonha

poderia efetivamente atrapalhar um pouco o domínio global dos


Estados Unidos e reforçar o poder russo, mas que não é provável
em curto prazo, a não ser em nível de discurso.
A segunda possibilidade seria uma aliança firme e total com
o mundo ocidental. A Rússia imaginava, no início da década de
1990, que, com o fim da Guerra Fria, o Ocidente (e, especialmente,
os Estados Unidos), a trataria como uma parceira na gerência dos
assuntos mundiais, apoiando-a no seu esforço de reconstrução eco-
nômica e permitindo que ela exercesse a sua hegemonia no seu “ex-
terior próximo”. O Ocidente procurou efetivamente ser compreensi-
vo com a Rússia e aplacar seus medos e inseguranças. Foi estabele-
cida uma parceria entre a OTAN e a Rússia; empréstimos e recursos
do FMI foram aprovados quando da crise russa de 1998 etc.
No entanto, o Ocidente não tratou a Rússia tão bem como
ela esperava. Os maciços investimentos e ajuda econômica não
vieram e o Ocidente não hesitou em avançar na antiga esfera de
influência russa. Efetivamente, como já observado, Estados Unidos
e União Europeia consolidaram a sua influência na Europa Oriental
e no Báltico, enquanto os Estados Unidos ampliaram enormemente
a sua força na Ásia Central e no Cáucaso, especialmente depois de
2001, incluindo o estabelecimento de bases militares. Em 2005,
uma viagem do Presidente Bush à Europa incluiu escalas na Letô-
nia e na Geórgia, num sinal de aumento da influência norte-
americana na região.
A expansão da União Europeia pelo Leste europeu não
entusiasma Moscou, mas incomoda menos, tanto porque abre novas
oportunidades econômicas, como porque, ao menos atualmente, a
União Europeia tem ambições de hegemonia política muito limita-
das. Já a expansão da OTAN e do poder norte-americano pela sua
antiga área de influência irritou e irrita bastante os russos, o que
levou, por exemplo, à irada reação de Moscou frente ao desejo dos
Estados Unidos em instalar mísseis e radares na República Tcheca
e na Polônia em 2007 e 2008.
No lugar dessa expansão, a Rússia propunha o aumento
das funções da CSCE (Conferência de Segurança e Cooperação
Europeia) ou em seu direito de veto numa OTAN ampliada, o que
os aliados ocidentais obviamente negaram. Tal situação tem deixa-
do os russos incomodados com o Ocidente, mas a possibilidade de
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 161

um rompimento completo de Moscou com Bruxelas e Washington


parece remota, e isso por vários motivos.
Em primeiro lugar, a Rússia ainda depende da tecnologia,
investimentos e comércio com os ocidentais. Em segundo, ela não
dispõe dos recursos econômicos e militares para formar efetiva-
mente um polo rival de poder. Finalmente, mesmo tendo de reagir à
pressão geopolítica ocidental, Moscou ainda mantém preocupações
mais imediatas, como o fundamentalismo islâmico e o terrorismo
nas fronteiras do sul e a ascensão chinesa no Oriente, as quais le-
vam a uma aproximação com o Ocidente. Enfim, não há sinais vi-
síveis de um rompimento de Moscou com Washington e com a
União Europeia (ainda que as tensões tenham crescido nos últimos
anos), mas a ideia da Rússia se tornar um país plenamente ocidental
ainda está no terreno das hipóteses.
Na análise dessa hipótese, um exercício de futurologia po-
deria ser interessante. Um cenário possível para o futuro da Federa-
ção russa no mundo seria a sua incorporação completa ao Ocidente,
o que poderia implicar na sua adesão à União Europeia. Mas seria
ela uma candidata a tal? A questão divide os russos e não se cogi-
tou ainda numa candidatura russa à UE, mas ela não é impossível
nas décadas seguintes. Mesmo supondo que essa candidatura se
manifeste, contudo, creio ser difícil a aceitação da Rússia na União
Europeia. E isso pelo próprio gigantismo desta.
Realmente, um gigante territorial do porte da Rússia, com
150 milhões de habitantes, grandes forças militares e economia recu-
perada seria tão poderoso que sua presença no seio da União Euro-
peia destruiria todos os equilíbrios internos e a deixaria sob virtual
controle de Moscou. Além disso, as fronteiras europeias se estende-
riam até o Pacífico e, provavelmente, caso a Rússia absorvesse as
áreas de população russa do Cazaquistão, até a Ásia Central.
Assim, é improvável que a Rússia se una à União Euro-
peia, mas elas, provavelmente, formarão algum tipo de associação
mais estreita, ampliando os laços políticos (que vem se solidifican-
do desde os tratados de cooperação assinados nos anos 90) e eco-
nômicos, também crescentes.
Cumpre ressaltar, a propósito, como, nos últimos anos, a
coesão entre os dois polos centrais do mundo ocidental (a Europa e
162 João Fábio Bertonha

os Estados Unidos) tem enfraquecido, com críticas sem fim sendo


dirigidas a um lado pelo outro. Dada essa contínua fratura, surge o
pensamento de que surgirão dois “Ocidentes”, com perspectivas e
ideias diferentes e, potencialmente, em conflito. Se essa hipótese se
revelar real, surgiria a pergunta sobre qual dos dois “Ocidentes”
seria o aliado preferencial da Rússia.
Dada a proximidade geográfica, os vínculos econômicos e
a relativa falta de contradições insuperáveis (ao menos, no mo-
mento atual) entre Bruxelas e Moscou, seria mais razoável acreditar
que Moscou se inclinaria mais para a Europa do que para os Esta-
dos Unidos. Acredito, contudo, que esta é uma falsa questão e que
há mais unindo do que separando os dois lados do Atlântico. À
medida que o poder chinês e o indiano crescerem, além disso, a
tendência de reaproximação dos dois polos crescerá, pela simples
necessidade de compensação. Portanto, ao menos no futuro previsí-
vel, esse tipo de opção “entre Ocidentes” não estará na lista de op-
ções de Moscou e de nenhum outro país.
A partir do exposto, os cenários possíveis sobre as futuras
alianças estratégicas de Moscou são óbvios. Os menos prováveis, a
meu ver, seriam uma grande aliança entre chineses, indianos e rus-
sos para combater o Ocidente ou uma intensa rivalidade entre a
Europa, os Estados Unidos e a Rússia, com os Estados do Leste
Europeu servindo como peões de batalha. Mais prováveis parecem
ser a criação de um polo de cooperação entre Moscou e Bruxelas
servindo de ponte entre a Europa e o dinâmico Leste Asiático ou
uma aliança entre a Europa, os Estados Unidos e a Rússia para en-
frentar os gigantes asiáticos emergentes (China e Índia) ou o Islã.
As possibilidades, enfim, são muitas, sendo apenas razoá-
vel acreditar que a Rússia, se não voltará mais a se tornar uma su-
perpotência no futuro previsível, dificilmente poderá ser completa-
mente ignorada nos jogos de poder do século XXI. Como sempre
tem sido há séculos, a Rússia é e continua a ser, em que pesem seus
imensos problemas atuais, uma grande potência, por todos os crité-
rios tradicionalmente utilizados para classificar um país como tal.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 163

CONSIDERAÇÕES FINAIS
No imaginário de alguns povos ao redor do mundo, é
comum a sensação que alguns de seus vizinhos, especialmente os
muito extensos territorialmente, são expansionistas, prontos a
avançar sobre suas fronteiras, numa fome de terras e poder que
nunca teria fim. Muitos sul-americanos pensam isso a respeito do
Brasil e alguns círculos bolivianos ou peruanos se assustam, até
hoje, com a ideia de que Brasília, inevitavelmente, tentará conse-
guir um litoral no Pacífico. Alguns mexicanos e canadenses pen-
sam o mesmo com relação aos norte-americanos, que estariam a
espreita do momento de anexar o México ou o Canadá ao seu
território.
Mitologias à parte, é verdade que alguns Estados foram
mais bem-sucedidos do que outros, no decorrer da História, em
sua expansão territorial. Com uma simples calculadora e alguns
dados estatísticos à mão, é possível calcular que os Estados Unidos
cresceram 100 km2 por dia entre 1790 e 1890, enquanto o Brasil
se expandiu à razão de 34,7 km2 por dia entre 1500 e 1904. Ex-
plicar isto requer que recordemos como a expansão territorial
sempre fez parte da psiquê dos norte-americanos e também dos
luso-brasileiros e, especialmente, que eles tiveram melhores con-
dições geográficas para crescerem territorialmente do que outros
povos.
Na verdade, a maior parte dos Estados que hoje controlam
extensas áreas territoriais só o fizeram, normalmente, por consegui-
rem anexar áreas grandemente despovoadas e/ou habitadas por po-
vos militarmente inferiores. Assim, os Estados Unidos, o Canadá, a
Argentina, o Brasil e a Austrália só são territorialmente extensos
devido aos desertos, quentes ou frios, e à floresta que ocupam parte
substancial dos seus territórios. Assim, por exemplo, o fato da jo-
vem nação norte-americana não encontrar rivais de peso ao se ex-
pandir pelo continente colaborou para seu crescimento territorial, o
164 João Fábio Bertonha

que teria sido bem diferente se, por exemplo, as colônias espanho-
las na Califórnia tivessem dado origem a um polo de poder indus-
trial e político antes da anexação desta pelos EUA.
A Rússia também cresceu, em essência, através da absor-
ção dos grandes desertos gelados e quentes da Ásia, na Sibéria, no
círculo polar ártico e no Turquestão. A Rússia, contudo, não se li-
mitou a absorver áreas desérticas e pouco povoadas, mas também
anexou vizinhos de culturas e raças diferente, colocando-os em
posição subalterna, mas não os eliminando fisicamente na sua qua-
se totalidade como fizeram os argentinos na Patagônia ou os norte-
-americanos nas grandes planícies da América do Norte.
Esse Império, de qualquer forma, cresceu sem cessar por
séculos, como uma mancha de óleo se espalhando pela Ásia e
Europa (só entre 1761 e 1865, o território russo cresceu 48 km2 ao
dia), e, nesse crescimento, ele provocou, nos seus vizinhos, uma
sensação de ameaça, de um desejo de expansão eterno e quase in-
controlável, gerando toda uma mitologia a respeito.
Faz parte da mesma, por exemplo, o fictício testamento
do czar Pedro, o Grande, no qual ele instava seus sucessores a
buscarem os mares quentes ou a existência de um relatório (o
Memorando Kotchubey de 1829), o qual, apresentado ao czar Ni-
colau I, no mesmo ano, teria definido a política russa para a Ásia
por todo o século XIX e além (PIACENTINI, 1996). Também o
esforço russo em direção aos estreitos turcos e ao Oceano Índico,
supostamente eterno, seria um sinal do coerente e contínuo desejo
expansionista russo.
Na verdade, é sempre complicado propor que certos países
seguem tendências “inatas” ou “naturais”, como se os países fos-
sem seres vivos, autônomos. Realmente, foi o positivismo do sé-
culo XIX que criou a ideia de que a política externa estaria separa-
da da interna e que os países teriam, se não fossem mal influencia-
dos, objetivos permanentes e comportamentos naturais determina-
dos pela geografia e pela natureza. Na realidade, os interesses per-
manentes de um país são historicamente datados – o objetivo nacio-
nal só existe a partir da concepção momentânea que uma nação,
suas elites e seu povo, tem de si e de seu papel no mundo – e seus
objetivos internacionais, assim, podem variar substancialmente
segundo cada período histórico.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 165

Ao analisarmos a história da Rússia, esse tipo de cuidado


deve estar presente. Devemos, antes de tudo, abandonar a ideia de
que o imperialismo e o expansionismo sejam traços permanentes da
psiquê e da história russa e que, portanto, tanto fazia que o país
estivesse sob o comando dos czares, dos líderes do PCUS ou dos
atuais governantes russos, já que tudo o que movia, move e moverá
eternamente os russos seria a ambição imperialista, que nunca se
alteraria ao longo dos séculos.
Esse tipo de visão tem algum tipo de apelo para o leitor
comum, mas não se sustenta na realidade. A história russa é cheia
de rupturas (sendo 1917 e 1991 das mais significativas) e a inser-
ção internacional do país variou muito conforme o grupo que es-
tava no poder, com suas perspectivas e concepções de mundo pró-
prias. Suas decisões de política externa com certeza refletiam es-
sas perspectivas e a realidade do mundo no momento em que eles
viviam, e não eram mero reflexo de um impulso imperialista eter-
no e imutável.
Além disso, apesar da relevância do pensamento geopolíti-
co na história da formação do espaço russo, o seu papel não pode
ser superestimado. Como demonstrado ao longo desse livro, as ra-
zões que levaram os russos a se expandir pela Eurásia variaram
muito no decorrer do tempo, numa combinação de elementos ideo-
lógicos, de interesses econômicos e de busca de segurança frente
aos vizinhos. Tal combinação não é a mesma nos séculos XVIII, no
XX ou no XXI. Assim, como ressaltou, com razão, Alexander Zhe-
bit (1995, 2004 e 2006, entre outros), a expansão russa não derivou
de um “gene imperialista” eterno impresso no coração do Estado
russo, mas de uma combinação de fatores que não são apenas geo-
políticos e que não está ausente em outros Estados.
Do mesmo modo, está correto Roberto Colin (2007, p. 10)
quando este menciona que, desde a Guerra Fria, a Rússia foi demo-
nizada e transformada em uma rival do Ocidente – e eterna expan-
sionista –, não importando se ela estivesse sob o domínio dos cza-
res, dos comunistas ou da atual liderança, formando um mito de
agressividade eterna que não corresponde à realidade.
Ainda assim, a geografia, os traços culturais presentes nas
elites dominantes e outros elementos permitem que identifiquemos
tendências dentro da ação internacional de determinados Estados.
166 João Fábio Bertonha

Não no sentido de leis imutáveis que nunca podem ser quebradas,


mas no de padrões que, dentro de determinados limites e de balizas
temporais precisas, permitem que compreendamos o “estilo” de um
determinado Estado e povo na sua relação com os outros.
No caso russo, isso é visível. Desde a formação do Estado
russo há séculos, certos fundamentos fundadores da cultura russa –
como a herança bizantina – permanecem e alguns problemas e tópi-
cos se repetem, ao mesmo tempo em que tradições e padrões foram
sendo criados. Claro que há sempre especificidades em cada época
e os contornos em que eles se aplicam no mundo real se alteram
continuamente, mas, em geral, eles estão presentes na história do
país desde o tempo dos czares. A questão da geopolítica e da inser-
ção internacional da Rússia, com certeza, é um desses tópicos.
Dessa forma, apesar de não ser correto, como visto, super-
estimar a geopolítica e ver a Rússia como o país imperialista por
excelência, não resta dúvida que a geopolítica (e o impulso imperial)
tem um papel na definição da política externa russa e analisar as
tradições geopolíticas russas, portanto, é compreender um pouco
mais a Rússia atual.
Assim, o debate geopolítico na Rússia é influenciado por
fatores geográficos e históricos que podem ser abordados de formas
diferentes conforme a época, mas que sempre acabam por reapare-
cer. A imensidão do território russo, a ausência de fronteiras natu-
rais que o definam, a experiência histórica de invasões que destruí-
ram o país (como a mongol, a francesa, a alemã e outras) e as ten-
dências imperiais de parte das elites russas são apenas alguns deles.
Também certos dilemas e questões sempre acabam por reaparecer,
seja na Rússia de Pedro, o Grande, na de Stalin ou na de Putin.
O primeiro dilema russo é a sua identidade. O que, afinal
de contas, é um russo e o que a Rússia? Até onde vão as suas fron-
teiras e quem deve ser considerado como membro da nação russa?
Desde os inícios do Estado imperial russo essa questão se colocou e
apresenta-se ainda com mais força agora, com o colapso da União
Soviética. Afinal, não é por acaso que, na língua russa, existam
duas palavras para designar “russo”, ou seja, Russkyi (russo étnico)
e Rossyanin (nascido na Rússia e que ali vive, mas que é, ou não,
russo étnico), o que indica a confusão que se estabelece quando se
tenta definir o que é um “russo”.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 167

Em boa medida, tal situação tem a sua origem na própria


formação do Estado russo. Enquanto ingleses ou franceses primeiro
formaram seus Estados-nação para depois formarem seus Impérios, a
Rússia sempre se definiu como um, reunindo os mais diversos povos
e nações dentro de uma estrutura imperial. Os seus súditos deviam a
sua lealdade não a um Estado-nação, mas a instituições outras, como
a Monarquia e o czar. Nunca houve uma Rússia fora do Império russo
e isso afeta a sua autoidentidade até hoje (COLIN, 2007, p. 16-28;
DEWISCHA, 1994, p. 23-34 e 57-69; ZUBELZÚ, 2007).
Até como subproduto lógico desse debate, aparece outro,
já presente séculos atrás e ainda atual, sobre o papel da Rússia no
mundo. Por séculos, três grandes escolas geopolíticas (repletas de
nuances e subdivisões internas – ZHEBIT, 2003 e 2006) têm domi-
nado o debate dentro da Rússia e, mesmo hoje, com gradações, elas
continuam presentes.
A primeira é a “europeísta” ou “ocidentalista”. Para esta,
dominante, por exemplo, nas épocas de Pedro, o Grande e de Gor-
bachev, a Rússia é, acima de tudo, uma nação europeia e ocidental,
ainda que atrasada. Seu objetivo de longo prazo deveria ser o de
recuperar o terreno perdido e se modernizar em todos os aspectos (e
sempre com a Europa e os EUA como modelo), para poder, no fu-
turo, assumir seu lugar de direito como uma grande potência oci-
dental, ao lado de Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e outras.
A segunda é a “pan-eslava” ou “eurasiana nacionalista”.
Para esta, a Rússia não é europeia nem asiática, mas algo particular,
resultado da fusão do mundo europeu com a cultura dos estepes da
Ásia e a tradição bizantina. Assim, a Rússia deveria se orgulhar de
ser um país europeu, branco e cristão, mas não deveria se sentir
ocidental e nem procurar se integrar ao Ocidente, sob pena de per-
der a sua própria identidade. Proteger esse mundo particular, que
incluiria os irmãos eslavos da Ucrânia e da Bielo-Rússia, das amea-
ças do Ocidente, do Islã e da China seria a função da Rússia.
A terceira é a “euro-asiática” ou “eurasiana internaciona-
lista”. Esta corrente concorda com a anterior sobre que a Rússia
forma uma civilização à parte, mas acredita que a saída para prote-
ger o mundo eurasiano das potências oceânicas (leia-se Ocidente e,
hoje, Estados Unidos), seria uma aliança com outras potências da
Eurásia, como a Índia, a China e, talvez, a Alemanha. O seu objeti-
168 João Fábio Bertonha

vo seria manter os norte-americanos longe da Ásia e, ao mesmo


tempo, combater o mundo muçulmano.
Todas essas teorias e os debates que as acompanham têm
origens longínquas. As duas últimas, por exemplo, estão ligadas à
antiga convicção ortodoxa de que Moscou seria a Terceira – depois
de Roma e Bizâncio – Roma, encarregada de unificar e salvar o
mundo. Elas aparecem e reaparecem segundo os interesses e jogos
de poder de cada momento e, em muitos casos, não passam de co-
bertura para objetivos políticos e econômicos mais imediatos. No
entanto, talvez seja um erro acreditar que elas são apenas mistifica-
ções. Mesmo que seus mitos e justificativas estejam no campo da
mitologia, e não da História, não resta dúvida que elas identificam
muito bem os dilemas da Rússia no decorrer da sua longa história e
também nos dias de hoje.
Realmente, a encruzilhada russa hoje ainda reflete muito
essas questões. Numa primeira hipótese, ela redefinirá a sua identi-
dade como um Estado-nação “normal”, ainda que imenso. Nesse
cenário, ela talvez aceite que outros povos abandonem a Federação
russa e passará a se considerar um país ocidental, ainda que dotado
de uma cultura própria. Numa segunda, ela continuará a se ver
como um Estado que só faz sentido dentro de um destino imperial e
procurará recuperar o seu antigo território perdido e firmar alianças
que a permitam manter sua independência e capacidade de controle
dos seus vizinhos.
Evidentemente, a resolução de todos esses dilemas não é
algo meramente intelectual ou teórico. Como já indicado no decor-
rer do texto, a decisão dos russos em se definirem como ocidentais
ou asiáticos vai depender de fatores objetivos, como a sua recupe-
ração econômica e militar, o jogo político interno russo, a formação
de vínculos econômicos com a Ásia, com o Ocidente etc. Também
estarão em jogo elementos além do seu controle, como a redistri-
buição do poder mundial com a ascensão da China, as ambições
desta na Ásia, o posicionamento dos europeus e dos norte-ame-
ricanos frente a Moscou e outros.
Como esclarecido nos capítulos anteriores, ainda há muita
dúvida na Rússia sobre os caminhos a seguir. Também o próprio
cenário internacional nos próximos anos e décadas é incerto (neo-
-hegemonia norte-americana? Um mundo multipolar? Um novo
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 169

cenário mundial sem grandes potências?) e previsões são, assim,


difíceis. Mas, ainda que os sinais atuais que emanam de Moscou
sejam contraditórios e que o futuro (da Rússia e do mundo) seja um
livro aberto, acredito que o futuro mais provável para a Rússia será
a sua redefinição como um Estado-nação moderno e a sua integra-
ção no Ocidente, ainda que como um parceiro à parte, sem incorpo-
ração à União Europeia ou à OTAN.
A Rússia tentará, com certeza, manter seu poder e influên-
cia frente a seus vizinhos e suas fronteiras ainda poderão sofrer
alterações, para trás ou para frente, conforme os acontecimentos.
Ela tentará também, sempre, ressaltar a sua independência e as suas
especificidades. Mas a possibilidade eurasiana parece pequena
dentro do atual cenário internacional. Afinal, uma Rússia isolada
seria muito fraca para ser um polo geopolítico autônomo e uma
aliada com a China e a Índia seria apenas um “primo pobre” frente
aos gigantes asiáticos.
De qualquer forma, se a transformação da Rússia num país
ocidental, pacífico e próspero ainda está no terreno das especula-
ções, nada nos impede de desejar que este seja o seu futuro real.
Afinal, um país que viveu sob o domínio dos czares e depois dos
comissários soviéticos; que passou por várias guerras, incluindo
duas mundiais e uma civil; que construiu e reconstruiu a sua socie-
dade e a sua economia várias vezes e que perdeu dezenas e dezenas
de milhões de homens em morte violenta talvez precise, e mereça,
um pouco de paz.
170 João Fábio Bertonha
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 171

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autônomo num mundo multipolar? Revista Brasileira de Política Internacio-
nal, 46, 1: 153-181, 2003.
_____. Desafios estratégicos para a Rússia. Revista da Escola Superior de
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hegemonia americana ou multipolaridade? Pólos de poder e sistema inter-
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culdades y desafios de una reflexión recurrente. Revista Brasileira de Política
Internacional, 50,1:102-120, 2007.

Nota
Incluem-se nesta listagem os textos utilizados, direta ou
indiretamente, na redação do presente livro, com a exceção das
fontes jornalísticas e de Internet. Evidentemente, a bibliografia dis-
ponível sobre alguns dos temas correlatos (como a Revolução de
1917 e a Segunda Guerra Mundial) é muito mais numerosa e não se
esgota nessa lista.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 177

SOBRE O AUTOR
João Fábio Bertonha é Doutor em História pela Universida-
de Estadual de Campinas e Professor de História na Universidade
Estadual de Maringá/PR, onde também atua no Mestrado em Histó-
ria. É pesquisador do CNPq, com bolsa produtividade, desde 2006.
Foi bolsista de doutorado sanduíche do Ministério das relações ex-
teriores italiano e da CAPES na Itália em 1995/1996 e, nos anos
posteriores, pesquisador visitante na Inglaterra, França, Bélgica,
Argentina e Uruguai. Em 2000 e, novamente, em 2008, foi pesqui-
sador em universidades canadenses, como bolsista do International
Council for Canadian Studies.
Em 2008, recebeu também uma Grant da Universidade de
Minnesota, para pesquisa de curta duração no seu centro de estudos
de imigração. Também foi selecionado para cursos na área de polí-
tica internacional e defesa pela Embaixada dos Estados Unidos em
2007 e 2008, além de ter sido convidado, nestes mesmos anos, pelo
Ministério das Relações Exteriores do Brasil para vários eventos na
área de política internacional.
Em janeiro e fevereiro de 2009, foi bolsista da Fundación
Carolina, do governo espanhol, para pesquisa sobre o fascismo
internacional durante a Guerra Civil Espanhola em Madrid e, em
fevereiro e março deste mesmo ano, frequentou, em Washington, o
curso “Estrategia y politica de Defensa” do Center for Hemisferic
Defense Studies, como bolsista do Departamento de Defesa dos
Estados Unidos.
Fez pesquisas e visitas curtas e participou de Congressos no
Brasil, Inglaterra, Itália, Estados Unidos, Argentina, Holanda, Ale-
manha, Chile e Paraguai e outros países e publicou dezenas de arti-
gos sobre fascismo, antifascismo, relações internacionais e imigra-
ção italiana em revistas universitárias do Brasil, Estados Unidos,
178 João Fábio Bertonha

Canadá, Argentina e Itália. Também é palestrante e colunista habi-


tual em revistas, jornais e sites da Internet, escrevendo sobre temas
da atualidade e relações internacionais. Assessor da Fapesp, da
Fundação Araucária e de outras revistas e instituições acadêmicas,
foi também editor da revista “Diálogos”, do Departamento de His-
tória da UEM e orientou vários trabalhos de iniciação científica e
Mestrado.
Seus principais focos de interesse são: movimentos fascis-
tas, antifascismo, integralismo, imigração italiana, geopolítica con-
temporânea, estratégia, história militar, relações internacionais,
história da Itália e história dos Estados Unidos e do Canadá.
Publicou Sob a sombra de Mussolini: os italianos de São
Paulo e a luta contra o fascismo, 1919-1945. São Paulo: Anna-
Blume, 1999; Fascismo, Nazismo e Integralismo. São Paulo: Áti-
ca, 2000; A Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Saraiva, 2001;
O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil. Porto Alegre:
Edipucrs, 2001; A Imigração Italiana no Brasil. São Paulo: Sa-
raiva, 2004; A Emigração italiana no Brasil (1925), de Umberto
Sala, Maringá: Eduem, 2005 (tradutor e apresentador do texto);
Os italianos. São Paulo: Contexto, 2005; Geopolítica e relações
internacionais na virada do século XXI: uma história do tempo
presente. Maringá: Eduem, 2006; e Sobre a direita – estudos so-
bre o fascismo, o nazismo e o integralismo. Maringá: Eduem,
2008.
Rússia: Ascensão e Queda de um Império 179

ÍNDICE ALFABÉTICO
180 João Fábio Bertonha

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