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Copyright © 2015 COELHO, Maurício.

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998.

Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da autora, poderá ser reproduzida
ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos,
gravação ou quaisquer outros. Esta é uma obra fictícia, qualquer semelhança com pessoas reais
vivas ou mortas é mera coincidência.

Arte da capa
Gustave Doré (1832 – 1883)
Diagramação e organização
Maurício Coelho

Tradução dos versos de Inferno
José Pedro Xavier Pinheiro (1822 – 1882)
Revisão
Autores

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SINOPSE
Em ―Fragmentos do Inferno‖, cinco autores se reúnem para explorar
acontecimentos fantásticos que se passam nos círculos infernais de Dante.

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SUMÁRIO

AMANDA BISTAFA – No lago do qual jamais sairá
FELIPE FONTELAS – Uma caminhada pelo Flegetonte
VICTOR LAGÔAS CATELAN – O fim, a passagem e a punição
JHON MARK – O hóspede fortuito
MAURÍCIO COELHO – Nono Círculo, Lago Cocite

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Terceiro Círculo, Lago de Lama
NO LAGO DO QUAL JAMAIS SAIRÁ
Do soçobro tornando a aflita mente,
Que da cópia infelice contristado
Havia tanto o padecer pungente,
Achei-me novamente circundado
De outros míseros, de outras amarguras,
Que via em toda parte, ao longe e ao lado.
Sou no terceiro círculo, onde escuras,
Eternas chuvas, gélidas caíam,
Pesadas, sempre as mesmas, sempre impuras.
Saraiva grossa, neve, água desciam
Desse ar pelas alturas tenebrosas:
No chão caindo infeto odor faziam.
Quando Lorena Dakota enfartou, toda a comida ficou para trás. Hambúrgueres,
milk-shakes, salgadinhos, lanches, sorvetes e mais uma infinidade de substâncias
repletas de açúcar, gordura saturada e sódio.
Ela era tão nova!
Trinta anos e um problema de saúde tão grave. Se ela ao menos soubesse que era
cardíaca, poderia ter se preparado. Não deu tempo de pedir perdão, nem de se confessar,
nem ao menos de realmente se arrepender.
Da maca da mesa cirúrgica diretamente para o Inferno em segundos. Quem diria
que um dia Lorena viajaria tão longe?
***
Lorena abriu os olhos, sem entender o que havia acontecido. Lembrava do
incidente, da dor aguda no peito, do socorro, da ambulância, até mesmo do hospital.
Depois, não se lembrava de mais nada. Como foi parar ali?
Seu corpo doía, como se tivesse levado uma surra, mas o coração parecia ter se
acalmado, aliás, sequer ouvia suas batidas. Já a cabeça rodava, ameaçando explodir a
qualquer momento como uma panela de pressão. Alcançando os lábios com a língua,

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percebeu o quanto estavam secos, sua garganta se tornava áspera todas as vezes que
engolia a saliva.
Passada a confusão inicial, finalmente a garota conseguiu observar ao seu redor.
O susto que levou, contudo, foi totalmente inesperado. Não conseguia acreditar que
aquilo que seus olhos fitavam poderia ser real. Estaria alucinando, ou até mesmo em
coma?
Lorena estava em um lago de lama. A substância pegajosa ao seu redor
ameaçava afundá-la ao menor movimento que fizesse. Pegando um punhado com as
mãos, percebeu o quão negra e fétida era, como esgoto.
Por um momento, imaginou estar em um pesadelo. Toda aquela podridão, aquele
cheiro... Como se seu corpo tivesse sido jogado no lodo para ocultar um crime. De
repente, pensou se poderia ter sido vítima de algum sequestro, por mais absurda que a
ideia parecesse.
Quando a chuva começou a cair do céu negro, a situação ficou ainda mais
estranha. Em poucos segundos a leve garoa transformou-se em tempestade, que, por sua
vez, virou uma forte chuva de granizo. Lorena não conseguia correr, mal podia se
levantar, atolada naquela lama imunda. A chuva se intensificava a medida que os
granizos viravam verdadeiras pedras rochosas.
Logo todo seu corpo recebia os golpes do céu, deixando hematomas vermelhos e
doloridos. A garota tentava proteger a cabeça e os olhos, desviando o olhar para o chão
enquanto passava os braços ao redor da cabeça. Encolhida quase em posição fetal,
Lorena se desvencilhava de algumas pedras, contudo, todo seu braço e costas eram
atingidos, espalhando pontadas agudas de dor por todo o corpo, principalmente os
golpes sofridos nas costas, que pareciam se irradiar pelos braços, pernas e tronco.

pouco, apenas ameaçavam se formar, agora escorriam desesperadas por sua face.
O granizo deu lugar à neve. Lorena olhava incrédula para os flocos que caíam do
céu. Foi desta vez que teve certeza de estar vivendo alguma situação alucinógena,
simplesmente porque no Brasil não nevava. Claro que ela não havia sido sequestrada e
levada para outro país...

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A dor lacerante foi substituída imediatamente por um frio de congelar os ossos.
Lorena tremia e batia os dentes, incapaz de sequer pensar em alguma alternativa para a
hipotermia que, em breve, a acometeria.
Suas lágrimas congelavam junto à espessa neve que descia do buraco negro
acima, pouco parecido, de fato, com o céu, cobrindo-a como uma manta. Num lampejo
de esperança, a garota afundou-se ainda mais na lama suja e pegajosa, tentando aquecer
a pele gelada.
A neve durou menos que o granizo, sumindo rapidamente e levando embora
também a chuva. A garota fitou o céu escuro e sombrio, confusa. Nada fazia sentido e
seu estômago já começava a contrair involuntariamente. Estava com fome.
A compreensão apenas alcançou Lorena quando Cérbero surgiu. Uma criatura
monstruosa, dona de um tronco enorme, garras gigantes e, o mais inacreditável, três
cabeças que a encaravam com olhares mortíferos e presas afiadas.
Cabeças de cães que graniam e abriam-se em enormes buracos, expondo o céu
negro da boca. A saliva escorria pelos molares e pingava no chão, fazendo os dentes
brancos brilharem. A face era enrugada e distorcida, como um cachorro com raiva. Ela
nunca vira animal algum assim.
Os olhos vermelhos e demoníacos a encaravam com escárnio. Quase parecia rir
da frágil garota apavorada. As patas deslizavam cada vez mais próximas do punhado de
lama onde Lorena estava presa. A criatura parecia faminta.
De súbito, Lorena se lembrou: Cérbero morava no Inferno.
A garota vomitou. A gosma saiu num jorro involuntário de sua garganta,
misturando-se à lama fétida. Contorcendo o rosto, sentiu ainda mais ânsia. O cheiro
azedo pareceu-lhe mais familiar do que gostaria, embora este fosse o menor dos seus
problemas.
A criatura alcançou a garota em um salto, parando o corpo ao seu lado enquanto
as longas garras afiadas traçavam extensos arranhões em seu corpo. As unhas
cravavam-se mais e mais forte, fazendo o sangue quente escorrer. A garota esperneava,
desferindo socos ao vento, incapaz de alcançar o monstruoso cão. Seus gritos soavam

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abafados e roucos, enquanto suas lágrimas rolavam e derramavam-se inutilmente na
lama.
Cérbero rasgava e puxava sua carne como se fosse massa de modelar. Tiras de
pele, sangue e muco voavam pelos arredores das afiadas garras, que atingiam o rosto, os
ombros, o flanco, as pernas e onde mais estivesse exposto. As três cabeças a encaravam
enquanto emitiam rosnados guturais, cercando-a por todos os lados.
Num piscar de olhos, a cabeça do meio afundou seus caninos afiados na lateral
do braço de Lorena, atingindo de raspão a pele da garota, que se desviou
desajeitadamente num sobressalto. O corte atingiu várias camadas da pele, fazendo o
sangue viscoso jorrar como uma cachoeira de mau gosto. Enquanto o grito histérico da
garota cortava o silêncio mórbido, a cabeça de cão à esquerda alcançou em cheio sua
costela, arrancando uma generosa fatia de carne.
Lorena berrou novamente, sentindo a dor insuportável a atingir em cheio.
Colocando, por impulso, a mão sobre a ferida, percebeu o estrago que havia feito em
suas costelas. A carne dependurava por um pequeno filete de tecido, enquanto o sangue
negro empapava suas roupas e escorria pelas mãos.
Apesar da intensa dor, a garota juntou os resquícios de força para se
desvencilhar da criatura e fugir, mas a lama a prendia com mais precisão do que
qualquer corrente ou amarra. A substância desagradável rodeava todos os seus
membros, fazendo-a se sentir como um rato no esgoto. Mas esgoto algum conseguiria
ser tão assustador.
A cada golpe, Lorena afundava mais na lama. Quando percebeu, a gosma já
entrava pela boca, sendo forçada involuntariamente goela abaixo. Não apenas pela boca,
aliás, também pelas narinas. A podridão alimentava suas entranhas enquanto a criatura
lacerava seus membros numa tortura sem fim.
A chuva tornou a despencar do céu, empapando ainda mais a lama imunda. O
odor era tão insuportável quanto carne em decomposição. A chuva gelada fazia a garota
se contrair da forma mais desconfortável possível.
Tudo o que ela um dia conheceu como conforto havia sido levado. Não só a
comida, mas a sensação de felicidade, bem estar e paz.

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Mais que isso. Tudo lhe havia sido roubado. Sua alma, suas crenças, quem era,
seu nome. Ali eram só as trevas, a podridão, a dor e o medo, mesclados ao sangue, às
lágrimas e ao desespero.
Lorena nunca havia imaginado que um dia poderia realmente ir para o Inferno.
Para ela, sua obsessão não era algo que poderia ser punido de forma tão cruel. Não era
ladra, tampouco assassina. Apenas havia se deixado levar pelos prazeres da vida: a
comida em primeiro lugar.
Agora, a garota jazia na lama imunda da alma, da gula, da obsessão. Dos
pecados expostos em carne viva na imundície do mal. Presa no Lago de Lama do qual
jamais sairá. Torturada pela eternidade, sentindo dor pior que a morte, agonia pior que a
vida e desesperança maior do que qualquer crença.
Lorena arriscou olhar para acima, além da criatura que se agigantava à sua
frente. Avistou uma enorme colina de rochas no horizonte, cercada por montanhas que
emitiam certo feixe de luz. Semicerrando os olhos, percebeu que o que refletia eram
enormes barras e moedas de ouro, tão grandes quanto os homens que as empurravam.
Antes que Cérbero investisse novamente contra ela, Lorena pode lamentar por
um pequeno instante pelas demais almas em chamas, também condenadas ao sofrimento
e apodrecimento perpétuo.
AMANDA BISTAFA

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Sexto Círculo, Cemitério de Fogo
O FIM, A PASSAGEM E A PUNIÇÃO
[...] Dali surgia um lamentar profundo,
De miséreo gemido permanente.
— ―Ó Mestre meu, quais foram lá no mundo‖ —
Eu disse — ―aqueles, que no duro encerro
Denunciam tormento sem segundo?‖ —
―Aqui stão os hereges por seu erro,
Com seus sequazes dos diversos cultos:
São mais do que tu crês em cada enterro.
―Iguais com seus iguais estão sepultos,
Uns túmulos mais que outros são candentes‖.
À destra então voltou: com tristes vultos
Passamos entre o muro e os padecentes.
Não há volta.
Eu abri os olhos, mas mesmo assim continuei sem enxergar nada. Tentei andar,
mas não senti a costumeira firmeza sobre os meus pés. Era estranho, pois eu não sentia
medo. Na verdade, eu sentia uma imensa paz percorrer cada célula de meu corpo. Tentei
virar meu corpo para os lados e me pareceu que não estava tendo nenhum sucesso, até
que depois de mais uma tentativa consegui enxergar algo. Bem lá ao fundo uma imagem
me chamou a atenção. Bati os braços como se estivesse nadando em uma piscina, e por
algum momento tive a mesma impressão de que não estava saindo do lugar, mas a
pequena imagem começou a tomar forma e consegui distinguir o que era. Aquela era a
rua em que eu morava. Aquele era o carro barulhento de meu novo vizinho, que por
sinal eu odiava. E aquele ali, estirado no chão, embaixo do maldito carro era eu. Eu
estava no chão, com o rosto contorcido em uma careta de dor. Tateei o meu corpo
buscando algum tipo de dor, mas a única sensação que eu sentia era de paz. A imagem
começou a desfocar, e tentei acreditar que era um sonho, até tudo escurecer novamente
e eu me vi tentando nadar mais uma vez naquela piscina escura e sem fim. Sempre ouvi
dizer que se você está sonhando e descobre que é um sonho você acorda, mas nada
disso me aconteceu, ainda estou aqui. Algumas braçadas depois uma nova luz me
apareceu, bem ao fundo. Mais uma vez dei algumas braçadas, mas a distância não
parecia mudar, a única coisa que eu sentia era um forte calor, e que ficava cada vez mais
forte. Quem diria. Toda aquela história de Jesus Cristo, filho de Deus ou o criador,

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Paraíso e Inferno era verdade. E falando em inferno, acho que é para lá que eu estou
indo. Isso se toda essa escuridão não for coisa da minha cabeça mesmo. Para confirmar
continuei indo naquela direção, e a luz ficou mais e mais forte, até que eu não pude
enxergar nada novamente, e ao invés de paz, o que eu sentia agora era um forte calor
consumir meu corpo, minha alma, ou seja lá o que eu fosse.
A escuridão se manteve por algum tempo, até que ela transitou para uma
claridade intensa. Não conseguia enxergar da mesma forma, mas aquele branco
estridente me incomodava profundamente. O sentimento de paz havia passado, e agora
não sentia nada. Nunca pensei que um ser humano poderia ficar livre de pensamentos
ou sensações. Também não pensava que existia um plano astral, ou até mesmo um
Deus, mas estava lá, então não poderia mais tirar conclusões, até entender oque
realmente estava acontecendo. A claridade começou a enfraquecer, até que uma imagem
começou a tomar forma. A escuridão e a claridade intensa se misturaram, dando forma
ao que parecida ser um grande muro de pedras em um tom roxo e avermelhado. Atrás
de mim a escuridão continuava combatendo a claridade e vise e versa, e a minha frente,
uma rua calçada com tijolos grande de pedra escura me indicavam um caminho a seguir.
Como havia as pedras tentei andar, e por incrível que pareça consegui. Senti mais uma
vez a pressão da gravidade, mas agora era diferente. Pode parecer estranho, mas a
pressão não era sentida no contato que tinha de meus pés com o chão, e sim em meus
ombros e cabeça. Era como se estivesse carregando o mundo nas costas, ou como
conclui mais tarde, os meus pecados. Pela primeira vez desde que tudo começou, pensei
em falar. Tentei emitir um som qualquer, mas ele não saiu. Olhei para minhas mãos e
pernas e tateei meu tronco e rosto e tudo parecia estar lá. Tentei mais uma vez e não
obtive sucesso. Empenhei-me então em continuar caminhando, até que consegui
enxergar ao fundo, o que pareciam labaredas. Por toda minha vida acreditei na Ciência
para agora ser julgado de acordo as regras de Deus. Eu sei que em vida sempre busquei
as respostas de maneira mais lógica, mas chegar a esse ponto? Continuei andando até
que cheguei ao portão e percebi que havia muitas pessoas ao seu redor.
Observei a multidão por alguns minutos. Todos vagavam sem nenhum rumo,
como se estivessem completamente perdidos. Em meio a todos, percebi que no portão
havia uma pessoa sentada, controlando os acessos. Quem diria que haveria um porteiro
controlando as portas de onde quer que fosse aquele lugar. Percebi que mandava
algumas pessoas embora, enquanto outras ele deixava passar. Parecia um processo

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aleatório, então arrisquei ir até ele. Precisei empurrar algumas pessoas pelo caminho, até
chegar bem próximo do portão. Assim que me vi a alguns passos do portão congelei.
Dentro daquela área reservada, pude ver uma torre alta que se sobressaia em meio à
escuridão devido às várias labaredas que emanavam de seu topo. Por mais que tentasse,
não conseguia desviar o olhar e nem sequer fecha-los. As chamas saiam do topo dessa
torre e dançavam, dando a impressão de que formavam enormes criaturas. Agora além
do calor que sentia me tocar, meu corpo foi tomado por um sentimento ruim, me
fazendo repensar tudo o que já havia passado. Ainda olhando a torre, percebi que sentia
remorso pelas escolhas que fiz, e pelas enganações que tomei como verdade durante
toda a minha vida. Percebi que errei, e que agora não havia mais volta.
Consegui me recompor, e então fui em direção da grande figura que guardava o
portão. Quando fiz menção em falar, aquela criatura enorme estirou a grande mão em
frente ao meu rosto e eu pude sentir um cheio forte de azedo, misturado com enxofre.
Ele fez um novo sinal para que eu passasse e o portão se abriu, me levando para um
lugar totalmente diferente. O portão se fechou atrás de mim com um grande baque
surdo. Um grande lamento choroso que nunca será ouvido por ninguém do outro lado.
Assim que as portas bateram senti medo pela primeira vez. Minha espinha gelou e
minhas pernas bambearam, e parece que como uma punição elas se mantiveram de pé, o
que fez com que essa experiência fosse uma das piores que já havia sentido. Atrás de
mim, o pesado portão, rodeado por imensos muros a perder de vista. A minha frente, um
campo que seguia até duas colinas que formava um estreito. A terra tinha um tom verde
arroxeado, e o cheiro de podridão tomava o ar, fazendo dele denso e extremamente
nauseante. Caminhei pela única direção que havia. O chão era macio e irregular, o que
dificultava cada passo e fazia cada vez mais pesar os ombros. A noção de tempo já não
me interessava mais, então apenas caminhei, até o estreito e através dele.
Quando me vi entre as rochas, senti o calor a minha frente aumentar. Sussurros
passavam

por mim

em

pequenas

lamentações,

aumentando meu medo e

arrependimento. Logo que dei por mim, estava em frente a uma grande planície, com a
mesma cor e cheio da anterior, mas essa tinha algo de diferente. Caminhei um pouco
mais e para minha surpresa por todo lugar se espalhavam túmulos e mais túmulos.
Todos tão fundos que não era possível ver seu fim. Todos tão fundos que o eco dos
lamentos que vinham de seu interior eram abafados e atormentadores. Todos tão fundos
que as chamas que queimavam em seu interior mais pareciam pequenas velas

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esquecidas. Respirei fundo por mais uma vez, e agora senti apenas cheio de enxofre e
sangue seco. Reuni todas as forças que tinha e tentei correr. Olhei para os lados e o
caminho que eu havia percorrido já não existia mais. Tentei lembrar de onde havia
vindo e corri. Enquanto corria, pela primeira vez em minha vida clamei a Deus e voltei
a sentir a mesma paz de quando estava em plena escuridão. Não sentia mais medo, nem
o peso sobre os ombros. Corria sem olhar para trás, tentando achar o vale que havia
atravessado, ou o portão por onde havia passado. Até mesmo a torre me ajudaria. Decidi
uma direção e corri por ela. O horizonte fazia uma pequena curva, então decidi ir até
ela. Corria o mais rápido que meus pulmões poderiam aguentar, enquanto desviava de
tampas de túmulos e pulava por covas abertas, sentindo o forte calor que elas
emanavam. Assim que me aproximei percebi que a curva era na verdade, a beirada de
um precipício. Pensei que poderia ser minha salvação, mas assim que olhei por ele
congelei. O precipício abria em um grande e fundo circulo, dividido em pequenas
camadas que afunilavam. Tentei olhar, mas tive medo, então me virei para correr.
Quando comecei a correr pude ouvir um lamento triste vindo atrás de mim, e tentei
olhar para trás. Mal havia voltado a cabeça para frente senti meu pé afundar em um
nada, meu corpo tombar para baixo e então instintivamente fechei os olhos. Senti o
calor se aproximar e me queimar cada vez mais. Tentei abrir os olhos, mas mesmo
assim continuei sem enxergar nada. Tentei andar, mas não sentia a costumeira firmeza
sobre os meus pés. Era estranho, pois agora além do medo, sentia remorso e um imenso
arrependimento.
VICTOR LAGÔAS CATELAN

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Sétimo Círculo, Vale do Flegetonte
UMA CAMINHADA PELO FLEGETONTE

À borda de alta riba assim chegamos,
Que em círc’lo rotas penhas conformavam:
De lá mais crus tormentos divisamos.
Do fundo abismo exalações brotavam,
Tão acres, que a fugir nos obrigaram
Para trás das muralhas elevadas
De um sepulcro, em que os olhos decifraram:
―Sou do papa Anastácio a sepultura,
Que de Fotino os erros transviaram‖.
―Lentamente desçamos desta altura:
Assim, o olfato ao mau odor afeito,
Não hemos de sentir-lhe a ação impura‖.
Um teto vermelho escuro pairava sobre a cabeça daqueles que se dirigiam até
aquilo que seria sua ruína. Pele cinza, finos fios de cabelo preto e corpos magros, tão
frágeis e desnutridos que seus ossos faziam certo relevo, esses eram os perdidos que
outrora haviam expressado sua violência em vida. Ninguém ofegava, tossia, espirrava,
se apressava ou contestava, estavam hipnotizados pelo grande buraco escuro que jazia a
frente, quase faziam parecer que cobiçavam aquele grande precipício.
Então caíram. Apesar de caírem aos milhares, a escuridão os privava à solidão,
olhavam para a esquerda e viam o negrume, olhavam para a direita e nada mudava.
Apenas aqueles que caíram próximo as paredes puderam ver uma luz fraca vermelha,
era como se a rocha sangrasse incessantemente. Dificilmente se compararia a uma
cachoeira, entretanto, o sangue parecia não ter fim. A queda poderia ter sido mortal para
um homem vivo, mas para as almas foi como se tropeçassem e caíssem (em uma
velocidade absurda). Uma delas sentiu a rocha cinza esfregar em sua mão, uma pedra
pontiaguda grande furava sua palma e ela sangrou. Os mortos sangram? Pensou,
surpresa por ter pensado alguma coisa.

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Uma onda de emoções tomou seu corpo. Tinha fome, tinha sede, desejava
coisas, detestava coisas e sentia dor. Um morto não sente, um morto não come, um
morto não faz nada. Por que sinto?
Da descida era o passo tão fragoso
E tal por quem lá estava à guarda e atento,
Que se fazia à vista pavoroso.
Como a ruína, que daquém de Trento,
O Ádige feriu, por terremoto
Ou por faltar de chofre o fundamento;
Do viso ao val do monte, que foi roto,
Tão derrocada vê-se a penedia,
Que a descê-la o caminho é quase imoto.
A ribanceira assim nos parecia.
E à borda do penedo fracassado
De Creta o monstro infame se estendia,
Algo interrompeu seus pensamentos, uma criatura do triplo de seu tamanho
estava parada à uns cem metros à frente. Chifres adornavam sua cabeça de touro, seu
corpo era ereto, musculoso e peludo, tinha mãos humanas e cascos no lugar dos pés.
Para cobrir o torso tinha uma cota de malha e por cima dela uma placa de peito de ferro.
Grevas protegiam seus antebraços e ambas as canelas. Na mão direita, um chicote
pendia balançando no ritmo de sua forte respiração. Não passou muito tempo até ele
estalar e abrir as costas de uma delas até o osso. Uma alma caiu no chão de pedra quente
agoniando. Não era apenas ela que sentia algo.
Sua visão se adaptou aquele lugar pouco tempo depois. A sua direita um rio de
sangue corria fervendo enquanto algumas almas boiavam e gritavam de dor e
lamentação. À esquerda havia ruínas do que parecia ser um antigo castelo, com uma
muralha com ameias e em cada ponta da mesma, uma torre. Tiranos terríveis, assassinos
cruéis, maridos violentos e impiedosos, esposas ingratas e ciumentas, estupradores
pervertidos e pais tomados pela ira, todos eles nadavam no sangue daqueles que feriram.
Os gritos chegavam a ser ensurdecedores e causavam um pouco de compaixão entre as
almas que passavam pela margem.
O Minotauro bufou e fumaça branca saiu pelas narinas, as palavras ecoaram
como um trovão.

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– Bem-vindos ao Flegetonte – o Minotauro disse. Atrás dele, Centauros
observavam com sorrisos psicóticos em seus rostos. Eram criaturas horríveis e grandes,
o dobro do tamanho dos perdidos, a pelagem da metade cavalo era amarelo-escura e a
metade homem variava de cor. Os caninos inferiores eram enormes e quase chegavam à
altura do nariz, nenhum ostentava cabelo. – Alguns de vocês irão ficar por aqui.
Outros... Bem, a Floresta os aguarda.
Um dos perdidos correu desesperadamente até o Minotauro, enquanto esbarrava
naqueles que já haviam aceitado seu destino, suas palavras corriam até os ouvidos das
criaturas.
– Precisam me perdoar – talvez aquele fosse o único que já sabia o que o
esperava. Nenhum dos perdidos sabia o que tinha feito para estar ali. – Eu não sei por
que estou aqui. – Os Centauros carregavam arco e uma aljava de flechas. Eram usadas
para torturar aqueles que já nadavam no sangue. Mas uma em especial estava apontada,
com o arco já tensionado, para o pobre perdido que se aproximava do Minotauro de
Creta.
A criatura o acolheu como um pai que consola um filho que chora. Sua mão
esquerda tocou levemente o ombro direito da alma, entretanto, a direita já preparava o
chicote.
A mão do Minotauro deu cinco voltas completas em torno da cabeça do perdido,
no mesmo ritmo, a corda do chicote enrolava-se em seu pescoço como uma cobra
traiçoeira. A alma ficou pendurada no ar, seus pés se moviam incessantemente enquanto
as mãos agarravam o couro da arma com toda força. A criatura ria junto dos Centauros,
formando uma terrível musica uníssona e diabólica. Ela não podia morrer, mas podia
sentir.
– Comecem – disse a criatura. O pescoço da alma estava livre. Por pouco tempo.
O Minotauro agarrou sua cabeça e o arremessou no rio. Sua pele criou bolhas
instantaneamente e seu corpo afundou, somente sua cabeça estava de fora e sem se
demorar, uma flecha acertou acima de sua sobrancelha. Os Centauros correram, e como
em um caos ordenado, empurraram alguns dos perdidos no rio. Assim que atingiam o
sangue, seu corpo virava um alvo. O Flegetonte ficou cheio e o resto continuou a andar
para frente. A alma perdida estava livre do rio.

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À sua direita, não pôde deixar de notar que três dos Centauros se destacavam.
Suas traseiras tinham uma longa cota de malha que descia pelo lombo, e terminava no
limite do corpo equino. Uma longa tira grossa de couro dava uma volta pelo tronco da
criatura, prendendo uma ombreira do lado direito e uma bainha com uma adaga, bem
abaixo das costelas. Desconsiderando a cor da metade homem, eram quase idênticos.
Não demorou muito para a alma saber o nome de um deles.
– Nesso, – gritou o Minotauro – um está tentando escapar.
Sangue quente escorria pela pele cinza quando a alma saiu do rio. Seus pés
tocaram a rocha dura novamente e ela saiu em disparada para lugar nenhum. Não
demorou para a flecha alcançá-la no coração. Ferida, se contorcia de dor no chão,
sangue e rocha criavam um líquido pastoso vermelho, e não muito tempo depois ela
voltou para o rio.
Não estava ainda Nesso do outro lado,
Quando nós por um bosque penetramos,
Dos vestígios de passos não marcado.

Não fronde verde, mas escura, ramos
Não lisos, mas travados e nodosos,
Não pomos, puas com veneno achamos.

Por silvados mais densos, mais umbrosos,
Do Cecina a Corneto, a besta brava,
Não foge, agros deixando deleitosos.

Das Hárpias o bando aqui pousava.
Que expeliram de Strófade os Troianos,
Vaticinando o mal, que os aguardava.

A alma não ficou muito mais para observar seu trajeto, uma floresta estava
diante de seus olhos. O Flegetonte fez uma curva e sumiu pelo lado direito da floresta,
deixando nada além de uma trilha para guiar os perdidos por dentro dela. Mais uma vez
eles seguiam sem ao menos questionar. Era a hipnose do precipício novamente.

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Galhos secos forravam o solo da Floresta dos Suicidas. Um lugar digno do
Inferno. Gritos de aflição e lamentação podiam ser ouvidos em todo lugar, a um
quilômetro de distância ou a trinta centímetros. Mas isso não importava, todos eles
deixavam as almas amedrontadas.
A alma continuava sua jornada, esperava que ela não terminasse ali. De onde
vêm esses gritos? pensou ela, se lembrando de que podia pensar. Eram as árvores.
Almas começaram a desaparecer e mais árvores começaram a surgir. Plantas
sombrias e fétidas, com espinhos venenosos, galhos retorcidos e cinzas como a pele que
antes possuíam.
Meu lugar é aqui? Outro pensamento lhe veio a mente e ela parou.
Um rosnado.
Olhos vermelhos se destacavam na escuridão, sumiam por alguns segundos e
retornavam. Cães infernais, cadelas para ser exato. Fitavam os pobres perdidos
desejando sua carne podre e seu sangue pecador. A alma parou, catatônica, tentando não
olhar para os lados ou sequer movimentar seu corpo, mas sua respiração ofegante fez
seu peito magro se mover e elas atacaram.
Para sua sorte, ela não era uma presa.
Aqueles que logo notaram que estavam em perigo começaram a correr.
Tropeçavam nos galhos caídos, arranhavam sua pele frágil nos espinhos, e
consequentemente cortavam pele e músculo, deixando ossos visíveis.
Cadelas infernais. Elas não queriam devorá-los depressa, queriam vê-los sofrer
antes.
Criaturas e almas começaram a sumir por entre as árvores, deixando o caminho
livre para partirem.
De repente, sentiu algo molhado cair em sua cabeça. Sangue e uma folha morta.
Uma harpia se alimentava das folhas das árvores. Não para satisfazer sua fome, mas
para fazer a alma sofrer. Assim era o Inferno.

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Por isso estou sentindo. Fora a primeira afirmação que fizera. Do que adianta a
alma ser torturada se ela não puder sentir?
A harpia se dissipou, batendo suas assas e agarrando outra árvore com suas
enormes garras. Estava na hora de sair dali.
Uma mistura de sentimentos fez a alma se questionar. Quando irei parar? Não
quero mais isso.
Por fora era um corpo sem vida, desanimado e inconsciente. Por dentro, gritava
de dor e ódio, enquanto desejava que sua jornada acabasse e que ele não visse nenhum
sofrimento além do dele.
Havia apenas mais alguns quilômetros de árvores à frente. Sabia disso, pois um
clarão podia ser visto por entre os troncos. Era um brilho amarelado, como um pôr do
sol, porém intenso e próximo. As cadelas e as harpias haviam ficado para trás, apenas
algumas almas ainda caminhavam na direção ao clarão. Um deserto os esperava.
De amor do pátrio ninho comovido,
Essas dispersas folhas reunindo,
À sarça as dei, que tinha a voz perdido.
Ao limite, dali, fomos seguindo,
Em que parte o recinto co’ terceiro,
Onde a justiça horrível stá punindo.
Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro,
Eu digo que à charneca então chegamos,
De plantas nua em seu espaço inteiro.
Da dor a selva a cerca dos seus ramos,
Como o fosso a torneia sanguinoso:
Ali, rente co’a borda, os pés firmamos.
Nada. Absolutamente nada além de areia e chamas. A alma começava sua
jornada pelo Deserto Abominável. Um lugar completamente diferente daquele que era
prometido no Paraíso. Sem plantas, sem água e sem vida. Do céu, chamas caíam como
chuva e queimavam mesmo aqueles que ainda não pertenciam ao Deserto. Então
tropeçou. Uma alma estava deitada no chão, incapacitada e imóvel, ainda assim, sentia
as chamas lamberem seu corpo cinza.

20

Ela não era a única. O Deserto estava cheio delas, todas deitadas, como se os
músculos não respondessem mais. Entretanto, não eram as únicas. Grupos enormes se
amontoavam como se estivessem colados uns aos outros, formando uma grande
montanha de almas que lamentavam e gritavam. Outras corriam como loucas, ofegantes,
como se algo as perseguisse. Não havia nada atrás delas. Estavam condenadas àquilo.
Se parassem, passariam séculos onde estivessem, até serem forçadas a correr
novamente. E havia um último caso. Almas que se sentavam sobre as chamas que
acabavam de cair daquele céu vermelho e tempestuoso.
Todos eles feriram Deus de alguma forma. Fosse sua Sabedoria, seu Espírito ou
sua própria Palavra.
A alma se levantou com dificuldade e continuou sua jornada. A sola de seus pés
encostava-se às chamas e tostavam levemente. De seus olhos completamente brancos
saíram as primeiras lagrimas que se lembrava. É isso que querem. Querem que eu sofra
sem morrer. Que doa sem um alívio sequer.
O número de perdidos diminuía. Quando me deitarei? O Deserto é o último
lugar do Vale do Flegetonte. Quando me sentarei? Ela parou e olhou para trás. Ao
longe, podia ver as ruínas na margem do rio, a floresta, a sombra das harpias voando de
árvore em árvore e as montanhas de almas. Era sublime, porém, amedrontador.
De repente parou. As pernas perderam as forças e a alma se desesperou. Não
posso me mover. Suas memórias eram revividas uma a uma. Sua família, suas
experiências, sua vida, tudo passava novamente em sua cabeça. Algo especial se repetia.
Deus. Mas não em orações, não em agradecimentos. Em frustrações, em momentos de
raiva e completo desolamento. Junto de insultos, pedidos egoístas e de zombarias. A
alma em vida era uma pessoa violenta, negava Deus por causa de sua descrença. Amava
o material e desfazia das coisas oferecidas por Ele. Desfazia da Natureza, do Amor, da
Sabedoria e tudo criado por Deus para o deleite humano. Objetos eram mais
importantes do que as pessoas, seu bem-estar era melhor do que o sorriso do próximo, o
mundo de concreto e fumaça o confortava mais do que a beleza, a paz e a comodidade
da natureza. Não sinto minhas pernas. Ela estava agredindo alguém, uma mulher, sua
esposa. Seus braços rodavam loucamente enquanto uma pessoa sofria cada golpe,
calada e submissa. Por que fiz isso? As lagrimas subiram aos olhos da alma. Não sinto
meus braços. As lembranças vinham sem interrupções, ela se via cobiçando, desejando,

21

invejando. Em seu mundo reinava o egoísmo e a ignorância. Ela desabou. Por favor, me
ajude. Pediu ela a Deus. Nada. Não adianta rezar quando se está no Inferno. O Deserto
se mostrou ser um lugar impiedoso, que arranca cada pedaço de sua alma e rói seus
ossos, até não sobrar nada. As chamas começavam a arrancar sua pele e o cheiro de
carne queimada subia ao seu nariz. Sentia fome, sentia sede. Nenhuma comida ou água
para matá-las. Sentiu falta do mundo, das cores, da esperança e da vida. Mas a única
coisa que via era sangue e fogo. A dor era descomunal, tentou não gritar, mas não
conseguiu. As lágrimas não paravam de cair na areia. Por último, viu-se deitado em uma
cama, com suas últimas forças se esvaindo. Arrependo-me. Ela disse para o tudo e para
o nada. As costas finalmente tocaram o solo e sua cabeça repousou na areia. Finalmente,
ela se deitou.
À frente havia outro precipício. Não se assemelhava ao do Flegetonte, mas era
tão fundo quanto. Se olhasse para baixo, poderia ver as rochas cor do ferro e a muralha
de pedra. O Malebolge não estava longe. O Inferno não parava. Almas caminhariam
para caírem no precipício, e se juntariam as outras nos dez fossos.
FELIPE FONTELAS

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Oitavo círculo, Malebolge
O HÓSPEDE FORTUITO

Tem o inferno, de rocha construído,
De férrea cor, de muro igual cercado
Um lugar: Malebolge o nome havido.
Lá no centro do plaino inficionado
Se escancara grão poço, amplo e profundo:
Direi a compostura em tempo asado.
Espaço em torno estende-se rotundo
Entre o poço e o penhasco pavoroso:
Reparte-se em dez cavas o seu fundo.
Qual de fossos dobrados, cauteloso,
Se apercebendo, o alcáçar se assegura
Dos assaltos de imigo poderoso:
– Saudações, meus caros – o poderoso Arcanjo Gabriel cumprimentou todos os
demônios presente com seu grave magistral. As paredes vibraram e os pequenos
endiabrados, que mais pareciam ratos humanoides, esconderam-se nas entrâncias de
rocha polida e em valas fétidas. O respeitado anjo acabara de chegar ao Oitavo Círculo
do Inferno, algo bastante incomum para uma divindade da luz.
– O que fazes aqui, mestre? – perguntou um dos guardiões do primeiro fosso:
uma criatura dotada de mais de oito pernas, um corpo esguio e uma pequena cabeça de
águia com penas amareladas. Por mais que fosse capaz de acabar com mais de um
milhão de ratos-demônios em segundos, sentia-se acuado pela presença de Gabriel.
– Não sou seu mestre. Aliás, tenho alguns assuntos para resolver com Ele –
sorriu com desdém, pouco inusitado para um anjo, e iniciou uma marcha adentro do
penoso local. – Malebolge! Vocês fazem questão de piorar este lugar a cada visita que
faço. E olha que não faz nem oitocentos anos que passei por aqui. Enfim, vamos ao que
interessa: mostre-me suas almas prisioneiras.
Teoricamente, de todos aqueles que vinham parar no inferno, somente os que
estavam no Primeiro Círculo, o Limbo, poderiam ser escolhidos para ir ao Céu. Porém,
o aclamado Arcanjo resolveu buscar almas arrependidas nas profundezas do Inferno,
especificamente no Oitavo Círculo, o Círculo dos fraudulentos, divididos em dez fossas,
no qual Gabriel estava disposto a percorrê-las.

23

– Milorde... – começou o segundo guardião – Por que estaria interessado em
almas fraudulentas? Estes vermes foram sedutores em vida e exploravam as paixões
alheias a fim de nutrir o próprio ego. Qual o valor que estes levariam para o seu virtuoso
Céuzinho?
O ser grotesco que falava era parecido com o outro, porém com penas negras
sobre a cabeça; era visivelmente mais ousado. Agia como uma divindade e não
mostrava medo algum contra o poderoso Arcanjo. Aliás, o que seria pior do que o
próprio inferno? Gabriel sorriu e olhou para a figura que tinha a metade do seu tamanho.
– Infelizmente algumas almas precisam sofrer para entender certas coisas.
Arrependimento meu caro, é uma bela qualidade a ser somada no meu Céuzinho.
A criatura grasnou em resposta e seguiu em frente junto ao outro guardião a fim
de direcionar o cavaleiro altruísta pelos caminhos tortuosos, apertados, fétidos e
penosos adiante. Pouco depois, os três chegaram a um imenso salão onde milhões de
humanos recebiam chicotadas incessantemente dos ratos-demônios. A gritaria era
ensurdecedora e o chão fora pintado com o sangue das costas dos açoitados. Os ossos
das costelas estavam expostos e com pouco de observação era possível enxergar os
músculos e os órgãos vibrando por dentro dos corpos maltratados.
– Vossa majestade preferirá que seja revelado o que cada um fez em vida ou...
– Pedro Augusto Faria – interrompeu-o Gabriel sem perder o sorriso malicioso.
– Os quinhentos anos de tortura lhe trouxe a sabedoria necessária.
– O grande sedutor sem precedentes! Poderia imaginar qualquer destino para
este verme, menos o brilhante e cheiroso: Céuzinho – o guardião de penas negras era a
pura ironia enquanto o outro estava quieto e olhava para Gabriel como um candidato em
uma entrevista. O arcanjo por um momento pensou que pediria uma vaga no céu ou
qualquer coisa do tipo.
Com o único humano escolhido, diante de todos os aprisionados, o grupo seguiu
para o segundo fosso. Ao passo que o som dos gritos diminuía, o cheiro de esterco e
fezes enchia o ar como uma névoa densa. Até mesmo os dois guardiões à frente
mostraram sinais de desconforto e apressaram os passos.
Diferente do primeiro salão, o segundo fosso era como uma gruta onde ao invés
de água, havia excremento denso e líquido encobrindo os humanos ali presentes. Lá
ficavam os aduladores que em vida tiravam proveito dos medos e desejos dos outros;
usaram de linguagem fraudulenta e raciocínio falso.

24

No meio da gruta, os guardiões pararam, porém Gabriel não. Eles logo
entenderam que não haveria nenhum recruta naquele fosso, talvez porque ninguém se
arrependera ou, quem sabe, o que fizeram em vida jamais merecesse perdão.
– Senhor, como sabes que uma alma está arrependida? – perguntou o guardião
de penas amarelas.
– Para de ser otário... – respondeu o outro guardião – Você deveria questionar a
petulância deste em vir buscar nossos prisioneiros.
Nenhuma palavra foi dita pelo Arcanjo. Não precisava ser uma divindade para
identificar o desespero nas palavras do primeiro. Era um demônio, mas sentia-se
comovido com a presença de Gabriel. Será que desejava realmente ir para o céu? Mas
como um demônio poderia avançar pelos portões de luz? Será que as palavras não
passavam de uma fraude do demônio-águia amarelado?
Enfim, chegaram ao terceiro fosso e um calor sufocante envolveu o grupo como
um casaco de pelos. Por um momento a alma que seguia Gabriel sorriu ao adentrar no
salão imaginando que chegara ao céu diante de tanta luz, mas se enganou
redondamente. Não passava de enormes labaredas que queimavam as pernas dos corpos
soterrados de cabeça para baixo. Era uma tortura de proporções homéricas voltadas aos
que em vida traficavam artefatos sagrados, assassinos de aluguel e a todos que
perverteram a igreja.
– Madalena Torres, Marcelo Franco Teodoro... – uma lista com doze nome foi
proclamada e aos poucos as almas se aproximaram do grande salvador. Sem demora, o
grupo continuou pelo árduo caminho.
– Bem vindos ao quarto fosso – começou o irônico guardião cansado do silêncio
dos viajantes – Aqui temos os melhores videntes da Terra. Previam o futuro e
auxiliavam outros humanos na penosa passagem da vida. É por isso que aqui eles
tiveram suas cabeças voltadas para trás. Quantos recrutas sairão daqui?
Ignorando a provação ácida do guardião, Gabriel convocou mais algumas almas.
A ida para o próximo fosso foi rápida, mas ao chegarem por lá, pequenos
demônios-morcegos se aproximaram das almas recrutadas por Gabriel com a intenção
de jogá-las ao piche fervente à dianteira.
– Pare! – interrompeu o guardião bondoso (ou seria arrependido?). O demônio
voador fez meia-volta e logo se concentrou em atingir os humanos que tentavam
escapar do líquido borbulhante. O guardião de asas negras olhou para o parceiro com
ódio e soltou um grasnado seco. A tensão parou quando o arcanjo proferiu dois nomes.

25

Logo, as duas almas, corruptas em vida, se aproximaram com o corpo tremendo por
completo. Bolhas de queimadura preenchiam todos os membros e os olhos eram dois
buracos vazios, onde vazava um líquido esverdeado.
– É isso, milorde! – sentenciou o irônico guardião, agora com um olhar sério,
dizendo que não havia mais aonde ir.
– São dez fossos, e não cinco! Passarei por cada um deles – Gabriel fora
conclusivo. A resposta chegou de imediato.
– Não há passagem para o sexto fosso. Ela foi destruída há milhares de anos.
Sinto muito.
Um pesado silêncio pousou sobre o corpo do descomedido guardião e na
sequência ouve um fervoroso olhar do Arcanjo. As palavras do demônio era uma
verdade absoluta, porém, o outro guardião se manifestou:
– Há uma passagem pela caverna...
Sem qualquer aviso, o demônio de asas pretas avançou sobre o alvo com fúria,
desferindo uma dolorosa bicada. No segundo posterior, o ataque foi cessado e era
possível ver um grande e profundo corte no peito do guardião atingido.
– Não podemos seguir por este caminho. Se você quiser, vai sozinho e sofra as
consequências.
Então o destemido guardião de asas negras voltou pelo caminho que percorreram
deixando apenas o machucado demônio de penas amarelas como guia. Orgulhoso,
Gabriel sorriu em sinal para continuarem com o percurso.
O arcanjo sabia que o sexto fosso trazia os hipócritas. Eles estavam vestidos com
roupas brilhantes, porém pesadas como o chumbo. Este é o peso que não sentiram na
consciência ao fazerem maldades. As almas convocadas neste fosso estavam, sem
exceção, presas ao chão; já haviam desistido de suportar o peso e sofriam estagnadas ao
solo. Os demônios tiveram de retirar as vestes e ao arrancá-las, a pele foi esfolada, pois
grudara com o passar das centenas de anos.
Com o grupo de almas reforçado, continuara o percurso, porém, o caminho
agora se tornou mais difícil: além de terem de escalar uma íngreme ruína, o ar tornavase cada vez mais rarefeito. Mesmo para um arcanjo, aquela trilha não era fácil de ser
vencida e seu corpo divino começou a vacilar. Parou alguns segundos para respirar
quando avistou uma serpente passar por entre suas pernas. Com os olhos, Gabriel seguiu
o ser rastejante se aproximar de uma alma que acabara de chegar ao Inferno: era um
ladrão de carros. Por ter roubado algo que não era seu, a serpente atravessou o corpo da

26

novata alma desfazendo-a em poeira, então, segundos depois, o réptil tomou as formas
do antigo gatuno. Era uma visão bizarra e estava mais do que claro que para estas almas
não havia salvação, pois perderam toda identidade.
A caminho do oitavo fosso, Gabriel decidiu quebrar o silêncio:
– Por aqui vocês têm nomes? Como posso lhe chamar?
Por algum motivo, o demônio com rosto de águia sentiu uma leve tensão. Iludiuse com a ideia de poder sair de vez daquele buraco de dor, de conhecer o céu.
– Po... Pode me chamar de Kro... Krokilus... – gaguejou o pobre demônio.
– Está certo! Quantas almas adentram o Oitavo Círculo por Era? – ―E ‖ é
medida de tempo peculiar aos anjos, não havia uma conversão exata para o tempo
humano.
– De quatro a cinco trilhões de almas. Este é o Círculo mais populoso, Milorde.
A conversa perdurou até chegarem à oitava fossa. O som ribombante dos trovões
atrapalhou o colóquio e sem demora, o arcanjo recrutou uma grande quantidade de
almas arrependidas de seus maus conselhos em vida. Elas tiveram de atravessar um mar
de lava e era possível ouvir o gemido de dor deles até a chegada ao penúltimo fosso.
– O que acha do Inferno, Krokilus?
O ser demoníaco volveu a cabeça para cima na esperança de encontrar os olhos
de Gabriel, mas o Arcanjo olhava para frente, concentrado.
– Tão ruim quanto os humanos o acham.
O nono fosso era o mais terrível, sangrento, porém silencioso. Os humanos eram
mutilados pelos ratos-demônios com espadas e suas tripas serviam como enfeites
pulsantes e malcheirosos. Era quase impossível não se arrepender por semear discórdia
na vida passada com tamanha tortura. Levou um grande tempo para chamar todos os
selecionados ao céu, principalmente pelo fato de que era necessário procurar os pedaços
do corpo espalhados pelo salão.
Por fim, eles seguiram para o último fosso, o décimo.
O cheiro de putrefação era ainda pior à podridão de excremento no segundo
fosso. Gabriel não entendia nem mesmo como um demônio conseguia permanecer ali
por mais de três segundos. As almas naquele último salão estavam enfestadas de todos
os tipos de doenças e pestilências. Os corpos apodreciam e as almas pareciam zumbis,
incapazes de chorar ou gemer de dor pelo tamanho sofrimento. Muitos agradeciam
quando perdiam um membro apodrecido, o que significava que teriam uma dor a menos
para se preocupar.

27

Gabriel convocou os últimos recrutas e depois disse:
– Krokilus, você provou o seu arrependimento. Gostaria de lhe tirar daqui, mas
não posso garantir que poderá viver sobre a luz do Céu. Em negativa, você
provavelmente será banido do seu cargo e viverá como as pobres almas. Você, mesmo
assim, gostaria de assumir o risco?
O pequeno demônio cacarejou em sorriso e executou um movimento de rotação

– Pois bem. Vamos todos! – sentenciou Gabriel e uma forte lufada de vapor
envolveu-os. As almas se alegraram, assim como Krokilus. A temperatura se estabilizou
e de repente tornou-se quente, muito quente. Quando a fumaça desapareceu, todos
contemplaram a criatura que surgiu no lugar de Gabriel, era o próprio Satanás. Ele
segurava o abdômen enquanto gargalhava.
– Idiotas. Perfeitos idiotas – ele debochou novamente, criando uma enorme
interrogação na cabeça de todos – Acharam mesmo que o Arcanjo Gabriel viria salválos? Vocês foram os melhores fraudulentos em vida, por que eu iria perder a
oportunidade de devolver o que fizeram?
As almas foram sumindo aos poucos, sendo transportadas de volta ao lugar de
onde eram torturadas. Além do tormento físico, foram açoitados com um poderoso
chicote psicológico.
– Voltem para o buraco que pertencem – sentenciou pela última vez e voltou seu
olhar perfurante para o pequeno Krokilus.
– E você, meu pequeno e burro demônio? Está cansado do inferno, não é? Quem
sabe você não se acostuma melhor ficando ao lado das almas sofredoras.
Então, o pequeno demônio adquiriu a silhueta de um humano. Segundos mais
tarde, um novo guardião lhe empurrou para dentro de um mar de lavas borbulhante.
Uma dor lancinante o fez dobrar como um graveto que é jogado em uma fogueira. O
único sentido que lhe restou era a audição, que servia para escutar uma risada
gorgolejante do Senhor do Inferno, este que havia lhe condenado a uma eternidade de
sofrimento...
Lúcifer executou uma longa golfada de ar e contemplou o belo cenário de dor e
podridão à volta, satisfeito. Lembrou que tinha um longo caminho à frente até chegar a
seu majestoso lar. Estava cansado e, consequentemente, duvidoso se faria uma

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JHON MARK

28

Nono Círculo, Lago Cocite
Depois de ter passado por toda essa jornada, encontro-me aqui: no último círculo
do Inferno. Os gigantes traidores de Zeus trovejante me deram passagem e consegui
passar por uma pequena entrada, junto de meu Mestre. Era um lago congelado, feito de
lágrimas e sangue das almas condenadas. Os traidores se encontravam presos, feito
estátuas, em enorme sofrimento. Aproximei-me de um deles, ele ainda estava com
vestimentas antigas, perguntei ao meu Mestre quem era e ele disse ser Calabar.
Caminhei mais um pouco e percebi que entrei na Esfera da Caína, pois havia inúmeros
danados com o busto fora do lago – e o resto do corpo submerso –, mas apenas um me
chamou a atenção. Essa eu conheço, pensei. Era Suzane von Richthofen! Meus lábios
ficaram com cor de gelo. Era ela. O rosto enxado e de maníaco, mesmo no Inferno não
perdeu o semblante de psicopata. Ela ainda apresentava a cabeleira loura.
– Não é possível, Mestre – eu disse. – Por que se encontra aqui? Ela ainda está
viva.
– A alma cai no último círculo logo quando a traição é consumida. É um diabo
que toma conta do corpo até chegar o tempo do seu fim no mundo – respondeu o Mestre
sapiente.
Enquanto ele me explicava, nós seguíamos e Richthofen foi deixada para trás.
Não senti pena dela, confesso, porém não senti ódio. Fez por merecer e ficará um bom
tempo lá, quem sabe por toda a eternidade. Descemos um pouco mais e vi algumas
cabeças se emergindo no lago, igual rã. Outras, eram só bocas com lábios rachados por
conta do frio. Encontrávamo-nos em Aentenora, onde aqueles que traíram a pátria e seu
partido estão. Observei aqueles condenados, porém não reconheci ninguém. Meu
Mestre apontou para um crânio específico e perguntei quem era.
– Aquele é Joaquim Silvério dos Reis.
– Veja! – eu gritei – Ao lado do crânio de Joaquim Silvério, aquela cabeça quer
falar. Seria José da Silva Xavier, o Tiradentes?
O céfalo era pálido, um pouco arredondado e com pouco cabelo, olhos pequenos
– alguém que usava óculos em vida. Ele abria a boca até conseguir pronunciar as
primeiras palavras:

29

– Ich bin Heinrich Himmler!
Que horror! pensei. Era o comandante da Schutzstaffel e um dos homens mais
poderosos do Terceiro Reich. Olhei para aquela cabeça com um misto de nojo e
desprezo.
– Wir werden mit dem Christentum in noch stärkerer Form als bisher fertig
werden müssen.
– Esse aqui ainda sofrerá mais. Além de ser um nazista traidor, cometeu
suicídio. Daqui, ele ainda passará pelo Vale dos Suicidas – explicou meu Mestre.
– Mit diesem Christentum, dieser größten Pest, die uns in der Geschichte
anfallen konnte, die uns für jede Auseinandersetzung…
– Vamos! Deixe-o falando só!
Passamos, então, para a seguinte esfera: Ptolomeia. Aqui, devagar foi o passo.
Mais uma vez apenas as cabeças das almas permaneciam fora do gelo com a diferença
de que essas choravam. As lágrimas permaneciam igual neve, pois congelavam no rosto
do danado. A quantidade de faces era impressionante. Nem Doré ou Botticelli poderiam
imaginar. Por mim, ficaria ali mais tempo, porém meu Mestre querido gritou:
– Ei! Vamos! Longa jornada e mau caminho temos; e a meia terça o sol já tem
corrido.
Descemos até a última esfera, Judeca. Já era noite lá. Aqui se encontram os
traidores-mor. A dor deles é maior, pois se encontram totalmente submersos e
conscientes no gelo de Cócito. À metade do caminho, parei. Olhei para meu Mestre,
este não disse nada, mas era evidente que também ouvia! Novamente meu corpo foi
tomado de pavor, pois tinha uma ideia, clara como água, de quem era aquele ser que
falava.
– Meine deutsche Jugend! Nach einem Jahr kann ich euch wieder hier
begrüßen!
Eu segurei no ombro de meu Mestre, pois achava que ia desmaiar. Por alguns
segundos minha respiração faltou.

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– Wir wollen ein Volk sein, und ihr, meine Jugend, sollt dieses Volk nun werden.
– A voz continuava, como se ele ainda estivesse fazendo um discurso para os camaradas
nazistas.
Naquele momento já estava com dor de cabeça.
– O que ele faz aqui, Mestre?
– Não se preocupe! Ele está sendo torturado. Lúcifer está com ele. Hitler fica
repetindo os mesmos versos de seu discurso, pois a névoa da ilusão ainda o envolve,
mas quando ela se dissipa, Adolf Hitler sente a angústia e o sofrimento de mais de dez
milhões de almas. Para sairmos daqui, temos que passar por Lúcifer. Você o verá.
– Alles was wir vom Deutschland der Zukunft fordern, das Jungens und
Mädchen, verlangen wir von euch!
O discurso aumentava cada vez mais. Era possível ver Lúcifer à uma pequena
distância. Subimos em um morro e lá do alto avistamos o anjo caído, que se encontrava
com metade do corpo submerso no gelo.
– Und ich weiß, das kann nicht anders sein: denn ihr seid Fleisch von unserem
Fleisch und Blut von unserem Blut…
Quando nos aproximamos, observei a pele do rei do Inferno: era escamosa, mas
também havia pelos. As asas eram membranosas, igual de morcego. Do nosso ponto de
vista, apenas uma das três cabeças nos encaravam. E era justamente a que Hitler se
encontrava. Lúcifer abocanhava-o diversas vezes, os membros despedaçados caíam no
lago, porém logo eram reconstituídos.
– Vor uns liegt Deutschland, in uns marschiert Deutschland und hinter uns
kommt Deutschland! – ele gritava em seu delírio.
– Vamos embora, Mestre. Já vi o que tinha para ver. Leve-me daqui.
– Sim, mas ainda temos que passar pelas outras divisões.
Concordei com a cabeça. Para sairmos daquele fosso e voltarmos ao mundo, o
Mestre Dante Alighieri e eu, descemos até o centro do mundo. No outro lado do
hemisfério, saindo a ver tornamos as estrelas.

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MAURÍCIO COELHO

AUTORES

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Amanda Bistafa nasceu em Jundiaí (SP), em 1992. É graduada em Nutrição.
Participou de antologias pelas editoras Andross, Illuminare, Nexus-6 Books e Wish.
Mantém o blog marcasindeleveis.blogspot.com.br e expõe suas obras no Wattpad sob o
nickname AmandaBistafa. Contato com a autora: amandabistafa@hotmail.com
Felipe Fontelas nasceu em Franca (SP), em 1997. Participa pela primeira vez de
uma Antologia. Mantém, junto de amigos, o blog expedicaoafricana.blogspot.com.br.
Contato com o autor: felipefontelas.123@gmail.com
Jhon Mark nasceu em 1989. Foi um dos selecionados do concurso Poetize 2013
e participou da Antologia Amores Impossíveis, organizada pela Lycia Barros e de Seres
Amazônicos (2015), organizada por Maurício Coelho. Atualmente, escreve o primeiro
livro da Saga O Vértice: O Olhar de Caronte; no qual, é publicado um capítulo
semanalmente no Wattpad. Contato com o autor: jhonatan.m.floriano@gmail.com
Maurício Coelho é o organizador desta antologia. Nasceu em Belém, PA, em
1992. Publicou a tradução de The Nursery Alice (A Cuidadosa Alice), de Lewis Carroll.
Publicou também um poema na antologia Concurso Novos Poetas 2014, além de um
conto na coletânea Horas Sombrias e Nanquim. Também publicou a antologia Fogo
fátuo, de sua própria autoria.
Victor Lagôas Catelan nasceu em São Bernardo do Campo (SP), em 1986.
Graduado em Turismo, publicou um conto na antologia Além das Cruzadas e outro em
Marcas

Eternas,

ambos

victor.catelan@hotmail.com

pela

Andross

Editora.

Contato

com

o

autor:

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