Você está na página 1de 1

O que é o cão de Pavlov?

Por Alexandre Versignassi
É o protagonista de uma experiência revolucionária, que aconteceu há 100 anos e
mudou a forma como o ser humano enxerga a si mesmo. Na verdade, não havia apenas
um cão nessa história, mas vários. À primeira vista, a coisa parece banal. Um célebre
médico russo do início do século 20, chamado Ivan Pavlov, treinou cachorros para que
eles ficassem com água na boca sem que houvesse nenhuma comida por perto. A coisa
funcionava assim: toda vez que os bichos eram alimentados, o médico tocava uma
sineta. Com o tempo, os cães começaram a associar as badaladas à comida. E chegavam
a babar famintos só de ouvir o sino, mesmo que o prato deles estivesse vazio. Muitos
podem lembrar que já ensinaram truques parecidos para seus cãezinhos, mas a
experiência de Pavlov tinha um propósito bem mais nobre do que disciplinar o melhor
amigo do homem. A idéia do médico russo era propor uma novidade científica: os
reflexos condicionados.
Os seres vivos já nascem com certos reflexos - em outras palavras, são programados
para terem determinadas reações diante de situações específicas. Se um surfista no mar
tromba com um tubarão, por exemplo, seus músculos ficam tensos e sua atenção, pra lá
de redobrada. Afinal, o corpo dele concentra energia automaticamente para fugir
daquela ameaçadora boca cheia de dentes. Isso é uma amostra clássica de um reflexo
natural. O que Pavlov descobriu é que esses reflexos também podem ser criados do
nada, sem um motivo concreto para eles entrarem em ação, além de não funcionarem
apenas com animais. Lembra o filme Tubarão, dirigido por Steven Spielberg em 1975?
Sempre tocava a mesma trilha sonora de suspense antes de o tubarão-protagonista atacar
algum personagem. Chega uma hora no filme em que as notas musicais, sozinhas, já
metem medo nos espectadores, mesmo que nem haja um tubarão na cena.
"Os espectadores, nesse caso, reagem como os cães de Pavlov: ficam tensos ao ouvir a
música quando percebem, ao longo do filme, que ela indica morte", diz o psicólogo
Edward Kardas, da Universidade Southern Arkansas, nos Estados Unidos. Enfim,
Pavlov descobriu que esse tipo de condicionamento pode ser a base do comportamento
humano. E de vários problemas da nossa mente. Segundo ele, os psicóticos sofreriam
mais do que as pessoas comuns justamente por causa do condicionamento. Por algum
motivo, eles perceberiam qualquer estímulo externo, como um singelo "bom-dia!",
como uma forma de agressão. As pesquisas do médico russo também chegaram a
lugares bem distantes dos consultórios. A própria publicidade usa essas descobertas a
seu favor. Por exemplo: quando algum comercial tenta associar a idéia de liberdade com
a imagem de uma marca de cigarro ou a de felicidade com uma rede de fast-food, as
idéias do russo estão lá, bem no fundo.
Afinal, como os cães de Pavlov, nós também podemos ser treinados para babar à toa...