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Desde 1973. quando meu espetáculo foi traído
e abortado pela repressão cultural, Calabar, de
Chico Buarque e Ruy Guerra, me parece um dos
instantes mais maduros e mais responsáveis da
dramaturgia nacional. Há sensibilidade e
inteligência na utilização da matéria histórica
como instrumento capaz de instaurar uma
conseqüente reflexão que ultrapassa os limites
de determinadas circunstâncias políticoeconômicas e amplia o debate ideológico de
forma irônica, provocativa, apoiada em
extrema e contagiante teatralidade, usando a
postura critica e a desmedida coragem de
assumir o grotesco. Calabar desmistifica o
conceito de traidor e a noção vazia e abstrata
de traição. Questiona valores e revela
contradições com visceral humor. E um texto
"malcomportado". E por isso estimula a
elaboração de um espetáculo debochado,
capaz de assumir a quase anárquica mas
organizada colagem e a justaposição de
imagens e épocas. Meu espetáculo de agora
está bem distante da primeira versão: mudou
o país, mudei eu, mudou o teatro brasileiro,
mudou a forma de discutir uma temática que,
infelizmente, permanece atual e vigente:
traição e colonização. Antes eu havia optado
por um historicismo critico. Um painel didático
dentro do qual a rede de traições, o que o
texto propõe, aparecia como centro vital; hoje

escolhi a reflexão sobre a História a partir de
uma colagem mais aberta e mais provocante,
misturando tempo e espaço, mergulhando mais
fundo nas sempre claras contradições internas
dos personagens, Não para tornar o espetáculo
mais intimista, mas, ao contrário, para tornálo mais exteriorizado, mais teatral, no sentido
do circo popular, No fundamental, entretanto,
nossa obstinada crença na libertação nacional
e na unidade das forças democráticas contra o
arbítrio e a violência faz com que nossos
objetivos permaneçam a provocar o debate de
idéias, a revolta dos sentimentos,
a desconfiança pelo que nos é apresentado
cotidianamente como "normal", "certo",
"eterno", "rotulado" Sabemos que o interesse
dos dominadores é divulgar a mistificação.
E desistimos de buscar a verdade, certos de que
a sociedade precisa ser transformada.
Com Calabar queremos divertir o público,
espalhando pontos de interrogação, dúvidas e
perplexidades. Surpreendendo pelo atualizado
deboche critico, fundamentado num confronto
realista com temas essenciais de nossa
existência de nação social-econômica-políticaculturalmente ainda colonizada num tímido
mas

empenhado esforço de construção de uma

democrática cultura nacional-popular.
Fernando Peixoto, 1980

Rio de Janeiro 2006 L_tl-AUUISlÇAO PROGRAMA INÒ 111 ü lu DO MILÊNIO . Guerra.CNPq 8 . Ruy Calabar o elogio da traição Literatura SBD-FFLCH-USP 9 7 2 9 CIVILIZAÇÃO BRASILEÍw. Chico.Chico Buarque Ruy Guerra Calabar O elogio da traição LETRAS Chico Buarque e Ruy Guerra MÚSICA Chico Buarque 32* edição Buarque.

Sumário A roda viva de Calabar: Dialética da traição — Chico/Ruy 7 Duas vezes Calabar — Fernando Peixoto 13 Uma reflexão sobre a traição — Fernando Peixoto 17 Ficha técnica do primeiro espetáculo 25 Ficha técnica da nova versão 27 .

. também é um trabalho que exigiu pesquisas. É outro tipo de teatro: aquele tipo de teatro de agressão não é a intenção do Fernando. assim. Há uma diferença de seis anos de Roda viva para Calabar. É um trabalho totalmente diferente.. nós começamos a fazer em agosto/setembro do ano passado. e. se quiser. foi um ano de trabalho. o que já muda muita coisa.. Não é um tema de televisão como Roda viva um tema de experiência pessoal. A montagem do Fernando é uma coisa mais clássica. a interpretação é marcada num sentido assim bem quadrado.. Calabar é um trabalho bem mais elaborado. é um trabalho feito de parceria. Roda viva foi escrito. começar tudo de novo. aquele negócio de entrar no meio do público. y RUY. só tem é um boi que voa. de mudar no meio. mas vai desde o Teatro de Revista até Planchon. em um mês. apesar de o Fernando ter trabalhado muito com ele. Calabar. Não há um interesse em revolucionar o teatro.. por outro lado. Inclusive a montagem de Fernando Peixoto é bastante diferente da do José Celso. É um trabalho mais denso. Pelo contrário. nessa faixa de 20 a quase 30 anos a gente muda muito. e praticamente remontado e reestruturado.A roda viva de Calabar: Dialética da traição CHICO. Para mim. É um tema histórico. um mês e pouco. Não que a gente tenha entregado o texto fechadíssimo. E depois.

até: você não vai colocar a Jane Fonda na peça. Eu acho que a traição é um negócio que está patente no mundo moderno: o conceito de traição.CHICO. RUY. xingava os caras. Tinha horas. vai? Mas. E a traição é um negócio que a gente pode bater em muitos níveis. A gente começou a escrever. em que o personagem podia fazer o que queria. . Pode bater num nível ideológico. A única coisa que tem é que são duas peças de teatro. Inclusive me lembro de que nessa época eu estava escrevendo. Ele falava o que bem entendia. pode citar a fidelidade ao poder do Nixon (que não quer dar as fitas). era pichado sempre. por exemplo. E também naquela época alguma coisa era possível* uma liberdade de improvisação. não interessa discutir a traição de uma forma absoluta. o conceito de fidelidade. Tinha aquele episódio da Jane Fonda. Então. mais ou menos. Meu trabalho sempre foi muito ligado ao teatro. E é evidente que. quer dizer. Você pode citar Jane Fonda. desde a música para o poema de João Cabral. ao Vinicius. Eu quando assistia a peça. porque a traição é um tema filosófico. e quiseram processar a Jane Fonda por crime de alta traição. foi isso: um senador. que a gente comentou. Onde é que está a traição. o sujeito tem que seguir direitinho o texto. para nós. por exemplo. em Roj a viva. Mas eu também já trabalhei com o teatro. hoje não pode mais fazer isso. não sei que. ou não? CHICO. desde o começo. parece que Calabar veio com a preocupação da traição. no eleitorado dele. Pode bater num nível inteiramente circunstancial. Antes de Calabar. e fiz outras músicas para o Oficina. dedicava o espetáculo a quem queria. Pode bater num nível inteiramente metafísico. a gente se preocupou mais com a traição.

No comportamento dela em relação á guerra do Vietnã. Então. . é o conceito de Pátria. ou se o Calabar justamente nos proporcionou o debate. a partir daí. de ver a gênese da coisa: se a gente buscou Calabar para debater a traição. ou a fidelidade. uma idéia primeira a partir da qual você desenvolve. os holandeses. Rio de Janeiro.. É um conjunto de coisas.. você encontra um conceito de traição. Se você quiser debater num nível até pessoal. é um negócio que você encontra em todas as áreas de comportamento. O que se debate também em Calabar. Havia uma série de divisões internas. Porque é coisa fundamental da época. hoje. aquela confusão toda. Não é. os portugueses. portanto. É difícil. 1973. editada pelo DCE-PUC. não explicitamente. mas obrigatoriamente. colocamos a matéria. os espanhóis.RUY. Mathias representa toda uma. tínhamos os brasileiros. De "Cala Boca. não é? Então a traição. Quer dizer: naquela época. Bárbara". entrevista de Chico Buarque e Ruy Guerra. pois.

Faço uma reunião de urgência. Em setembro e outubro ensaiamos em Ipanema. enquanto eu fui para o bar Riviera ler o texto deles. com Chico e Ruy. no Museu de Arte Moderna. O acerto foi selado na Baiúca. Frank V de Dürrenmatt. Isso pode paralisar tudo. Nossa decisão é ir até o fim. mas partimos para uma verificação crítica mútua: Chico e Ruy foram para o Teatro São Pedro assistir um espetáculo meu. Dia 30 de outubro entramos no Teatro João Caetano. Os maquinistas estão terminando o tra- . Nas semanas seguintes. provavelmente com Nacha Guevara. Fernando Torres e Fernanda Montenegro. fui para o Rio: acertamos os produtores. Já havia muitos anos de amizade antes disso. Em agosto iniciamos a fase de preparação e escolha de elenco. A peça estava liberada pela censura federal desde abril. Trecho de uma anotação de trabalho desse dia: "Mais notícias da repressão: Fernando telefona de Brasília avisando que o texto está sendo revisado pelo SNI e o prazo para uma solução é indeterminado. Dia 25 de julho concluímos os últimos detalhes.Duas vezes Calabar (datas) P im de junho de 1973: Chico e Ruy me procuram em São Paulo. filmar o espetáculo. e todos juntos acertamos a equipe de produção. Trazem o texto de Calabar e a proposta de assumir a direção do espetáculo. Proponho tentar uma encenação em Buenos Aires. Telefonarei ao Boal para saber das possibilidades e para prevenir Nacha Volto para o teatro. marcamos a estréia para novembro. no Rio. Na pior das hipóteses.

E nós estamos definitivamente castrados." E minha última nota.): "Parar tudo. Agora resta encontrar o elenco para encerrar tudo. não há outra alternativa. tudo funcionava. Uma definição do governo frente à cultura: censura econômica. Acabou Calabar Ue . onde estive com Chico e Ruy. Aguardo a chegada de Fernando. A linguagem visual do espetácul finalmente se define. A estrutura se mantém sólida no novo espaço.balho. A censura foi desautorizada até mesmo de exercer uma de suas funções. Quem sabe? Antes estivemos na Philips e na Civilização Brasileira. para este encontro. Mandaram dizer que não há proibição: apenas o texto ficará quatro meses preso para revisão.. datada de 15 de novembro: "Ontem gravei com Mário uma conversa sobre o nosso trabalho. Mas o que me pesa na cabeça é a quase certeza de q este espetáculo nunca será visto por ninguém. que é proibir. Mas parece meio utópico. já que a peça está 'avocada por instância superior para reexame do texto*. chega. Agora. O ensaio para a censura não foi autorizado. por ordens superiores. ainda que o trabalho não estivesse efetivamente concluídodo último ensaio.. os últimos três ensaios foram feitos praticamente de portas abertas e muita gente assistiu. Uma última hipótese: filmar o espetáculo em Petrópolis. A censura foi censurada. onde apanhamos os primeiros 50 exemplares do livro. guardo uma imagem significativa: havia dois garotos vendendo balas e chocolates na platéia. Praticamente todos os atores encontram a equivalên» cia entre o que havia sido ensaiado na casa da Vieira Souto Há um material fascinante para trabalhar nestes próximos dias." A agonia termina definitivamente dia 13 de novembro depois de fracassarem todas as tentativas dos advogados em Brasília e depois de termos sido proibidos até mesmo de documentar o espetáculo (apesar disso. Ensaio cinco horas. mesmo sem luz e som instalados. Vim agora do Bar Luiz.

no Rio. esclarecendo trechos demasiado datados ou confusos. Uma questão de datas decide tudo: Fernanda e Fernando estudam a programação de sua companhia e não encontram forma de produzir Calabar nos primeiros meses de 1980. Nem mesmo partir do texto original. as exigências culturais. O avanço e a maturidade das lutas populares e democráticas forçam o governo a fazer concessões. uma possibilidade mais concreta de montagem: Renato Borghi. Martha Overbeck e Othon Bastos se interessam pela produção. Fernanda e Fernando. A retomada do trabalho estava praticamente acertada com os mesmos produtores de 73. em 1977. fala por fala. Acreditam na urgência da montagem e. diante da proposta concreta dos novos produtores. ainda que esta nos pareça vigente e essencial. Tudo se transformou: o país. certamente mais brandos. questionando personagens e estrutura. Dia 14 de setembro. É a ocasião de retomar um projeto que foi interrompido nos mais difíceis anos de repressão. a forma de encarar a temática. retomamos Calabar: com Chico e Ruy. Mas encenar Calabar agora não significa refazer o espetáculo anterior. começam os preparativos para a montagem. análise crítica e autocrítica do texto. nós mesmos. no Teatro João Caetano (mas de São Paulo). Cerca de dez horas de trabalho. para a censura. Tudo gravado. Dia 7 de janeiro de 1980.Entre 15 e 21 de agosto de 1979. Estamos vivendo o princípio da chamada "abertura" e parece possível conquistarmos novos critérios. em 73. e os ensaios são realizados no Teatro Ruth Escobar (onde. desenvolvendo conflitos e personagens. em sua versão original. aceitei a direção). num semi- . Chico e Ruy refazem a estrutura do texto. a linguagem teatral. e do espetáculo abortado realizado seis anos antes. que estreará no Teatro São Pedro (onde Frank V estava em cartaz quando. abrem mão do espetáculo. Fazem contato com Ruy e com Chico. Revemos o texto.

não populares nem democráticas. Mais uma vez. Hoje estou a mês da nova estréia. Mas ainda com irreprimível apreensão diante das impostas e imprevisíveis autoridades. Mais uma data: dia 24 de janeiro de 1980 o texto de Calabar é liberado (ou anistiado) para menores de 14 anos pelo Conselho Superior de Censura. com confiança no texto e no espetáculo. que impunemente determinam os limites do permissível. q havia sido o assistente de direção da versão abortada em 73). Calabar foi lid por um grupo de atores sob direção de Mário Masetti. 0 Ue FERNANDO PEIXOTO .nário de leituras públicas de textos proibidos.

está o objeto básico da pilhagem: o açúcar — o lucro da produção dos engenhos e canaviais. os senhores cm pé. os escravos prostrados com as mãos atadas atrás. por uma série de razões. freqüentemente disfarçadas como disputas religiosas. do ponto de vista social. econômico. lutavam de um lado ou de outro. para uma opção brasileira. É.Uma reflcxílo sobre a traição 1 Trecho de um sermão do Padre Vieira: "Os senhores • poucos. e o lucro da distribuição nos portos europeus. os senhores se banqueteando. Nativos. os escravos muitos. a luta de . Não existem ainda condições maduras. brancos ou mulatos. apontando para o açoite. Um país dilacerado pela batalha sangrenta entre portugueses e holandeses. Por trás das motivações da luta. estavam ao lado dos portugueses. como estátuas de soberba e tirania. no período que vai de 1630 a 1654. enquanto os tapuias aderiram ao exército holandês. vítima da invasão holandesa. nem político. os escravos carregados de ferros." É o Brasil do século XVII. A chamada "resistência brasileira". os escravos perecendo à fome. os escravos despidos e nus. para uma luta de libertação nacional. os senhores nadando em ouro e prata. reflexo das contradições fundamentais da política internacional da Europa. os senhores rompendo galés. vítima da colonização portuguesa. Os índios tupis. os escravos adorando-os e temendo-os como deuses. os senhores tratando-os como brutos. por exemplo. como imagens vilíssimas da servidão e espetáculos de extrema miséria. índios ou negros. mamelucos ou mestiços.

engenhos. Aos brasileiros restava a possibilidade de escolher um lado ou outro. restou um bode expiatório: Calabar. A revolta é a única saída para os senhores de engenho. pelo lucro. Descrevendo a queda do domínio holandês. e não um movimento nacional". os senhores de engenho não mais dominam a vida econômica e política da colônia. A batalha é travada em nome da libertação do país e da defesa do catolicismo. já que nossa história oficial defende o ponto de vista da colonização portuguesa. inegavelmente. pois. entretanto. escravos e instrumentos de trabalho não mais pertencem a seus antigos proprietários. Desde os bancos de escola primária nos ensinam que Calabar foi um traidor. Os holandeses foram expulsos por uma luta revolucionária (auxiliada inclusive pela Inglaterra. Nada mais lógico. Traição era uma atitude cotidiana. aliás implícita na própria colocação do problema: defender Portugal ou defender a Holanda significava uma traição ao Brasil. os historiadores José Honório Rodrigues e Joaquim Ribeiro afirmam categoricamente "que a luta é. os grandes senhores da vida colonial são os mercadores. Para os holandeses. interessada em destruir a hegemonia marítima da Holanda) estimulada pela situação econômica ruinosa dos senhores de engenho (a política administrativa e econômica dos holandeses no Brasil produziu a decadência do patriarcado rural e o aparecimento de uma burguesia mercantil nos centros urbanos. um conflito entre as classes rurais e as classes urbanas. aguçando a contradição entre a cidade e o campo): com os holandeses no poder. Citam Barbosa Lima Sobrinho qu afirma que no "Brasil do século XVII não se encontraria ainda nenhum indício de consciência nacional brasileira". Trocar de lado era um hábito constante.guerrilhas que impede a consolidação da invasão holandesa é sobretudo a resistência do colonialismo português. e . De toda esta confusão. Na verdade é travada pelo poder. Calabar é um herói. Os interesses econômicos determinavam as opções.

A História é utilizada como matéria para uma reflexão que ultrapassa os limites de determinadas circunstâncias político-econômicas já superadas. de tantas prostitutas importadas nos navios holandeses) e todos os fatos são históricos. afirma Brecht em Galileu Galilei. suas motivações. Mas na peça servem apenas de ponto de partida para uma criação livre. O texto não pretende ser uma peça histórica. contradições etc.Na verdade. o texto de Calabar parece afirmar: infeliz o país que tem necessidade de traidores. menos opressivo e escravizador que a colonização portuguesa. mais do que ninguém. Nem condená-lo. espontânea. é uma reflexão . no subtítulo da peça. Sua chamada "traição" só pode ser compreendida no seio desta opção. não é gratuita. Ruy Guerra e Chico Buarque de Holanda desmistificam. Acreditou que os holandeses pudessem trazer ao país um governo mais livre e mais humano. criativa e pessoal. desmistificou de forma irreversível o conceito de herói. 2. Em certo sentido. Na dramaturgia moderna. Em Calabar — O elogio da traição (a referência ao Elogio da loucura de Erasmo. Calabari neste sentido. Brecht. mas sim fruto de uma postura lúcida e irônica). vazio e abstrato. O passado é revisto com a lucidez de quem vive o presente: com a consciência de quem mergulha na História em busca de uma compreensão do mundo de hoje. de "traição". Infeliz o país que tem necessidade de heróis. reconstituição minuciosa de uma época. ao contrário de muitos delatores ou mercenários. Mas não interessou a Ruy Guerra e Chico Buarque reabilitar a figura "maldita" de Calabar. Em última análise. mas mesmo ela é uma síntese. com inteligência e sensibilidade. o conceito de traidor. Calabar fez uma opção. em certo sentido. ou seja. que ele manteve até suas últimas conseqüências: foi morto e esquartejado. todos os personagens são históricos (com exceção de Anna de Amsterdã. E o conceito.

As tropas holandesas desembarcam em 1630. domina o Brasil). existencial e materialista. que. Nassau estabelece o choque entre o importado do humanismo renascentista europeu e o primitivo missioneirismo medieval en- . o saque e a pirataria — no momento em que o capitalismo dá seus primeiros passos no continente europeu —. Calabar muda de lado. Henrique Dias. E por um guerrilheiro quase invencível. mas manter intato o sistema de produção. a produção dos engenhos e dos canaviais. 3. os conquistadores holandeses enviam Maurício de Nassau. A Companhia das índias Ocidentais. grotesca e crítica. sobre o significado. Para os comerciantes holandeses torna-se imprescindível a conquista de nova área de produção. E os holandeses começam a triunfar. o alvo é o açúcar. sociedade por ações. Calabar. procura invadir o Brasil em 1624. atacando a Bahia. auxiliado por um negro embranquecido. ganhar território. Em outras palavras. teatral e musical. mas não conseguem expandir seu domínio com muita facilidade: os portugueses resistem. Trazendo uma corte de artistas e cientistas. irônica e provocativa. sobretudo no Arraial de Bom Jesus. No dia 20 de abril de 1632. expulsar os portugueses. do problema e do significado da traição. interessa conquistar o território. chefiados por Mathias de Albuquerque. utiliza a pilhagem e o assassinato. uma das personalidades mais fascinantes e contraditórias da história do Brasil. O ano de 1621 marca o fim da trégua entre Holanda e Espanha (que domina Portugal.aberta. portanto passível de interpretação. quando a luta está numa espécie de empate. Para os invasores. organizada na Holanda em 1621. O alvo é Pernambuco. por sua vez. tornado relativo. Felipe Camarão. e por um índio cristianizado. visando multiplicar a acumulação de capital. justificada e apoiada pelo calvinismo. mas sofre violenta derrota. Para transformar o Brasil numa Nova Holanda. entretanto.

os senhores de engenho perdem seu domínio econômico e político. mas a figura de Nassau assegura um momento de festa. a ameaçar a estrutura do latifúndio. os católicos são os senhores de engenho — a produção. maior produção significa maior lucro. construção de pontes ou palácios. A resistência portuguesa não cessa. Em certo sentido. Nassau transforma a pai* sagem e concilia os choques de classes. Concede medidas de tratamento mais humano para os negros. José Fernandes Vieira.carnado pela Companhia de Jesus. Acaba. por suas próprias contradições. e os judeus representam o comércio. a liberdade de culto: é preciso não esquecer que os protestantes são os membros de seu governo e seus chefes. permite. o capital. timidamente. Assim mesmo. Mas Nassau não se descuida também de ações militares. Muitos são confiscados e colocados em leilão. ao menos 120 voltam a produzir. Internamente também as contradições se aguçam: Nassau ataca a monocultura do açúcar e chega mesmo. Um dos principais líderes da expulsão dos holandeses. Nassau faz as moendas funcionarem na produção do valioso pó branco: de 166 engenhos da região. que não estava interessada em suas obras de jardinagem ou urbanização. só assumirá esta postura política após o afastamento de Nassau: no período nassoviano não só admira como colabora com os holandeses. entretanto. mantendo viva a guerra de conquista. sejam quais forem os protegidos ou punidos. Estabelece a lei como igual para todos. Nassau assume o sonho de Calabar: o utópico sonho de um . destituído de seu posto. Em seu governo as cidades crescem. Sua administração não era vista com bons olhos pelos duros dirigentes da Companhia das índias Ocidentais. dentro de medidas. organiza uma câmara com igual número de representantes holandeses e brasileiros. Por trás de uma política de conciliação aparentemente liberal existe o planejamento estudado de um estadista hábil: paz significa maior produção.

os personagens traem. dei. Existe uma unidade que se manifesta justamente na descontinuidade quase cinematográfica do relato. desmistificadora. exposto com vigor e penetração. e se resolve cenicamente em termos de comédia e de teatro musical. impotente diante da força. em cada momento. A mesma Companhia que me trouxe. A estrutura de Calabar é profundamente teatral na medida em que escapa às regras habituais da dramaturgia bem-comportada." Na peça. lógica. alguém. Mas todos os recursos são válidos para desvendar esta rede de traições. A cada instante. Para o espetáculo.país mais livre. me leva. renuncia. objetiva. Mas a pacificação e a colonização liberal nâo poderiam ser um fim para os ávidos abutres da CIO. Nassau compreende suas contradições e. o primeiro problema a solucionar é encontrar a dosagem entre um realismo crítico distanciado e um psicologismo existencial. em termos de estrutura. No princípio. 44 . 4. independente das demais. E essa combinação é difícil em qualquer & culo. alguma idéia. Cada cena se exprime livremente. Em se testamento político. que tanto amou em 1644. Traem alguma coisa. na medida em que a história é revista segundo uma perspectiva transformadora. dizem agora que errei. inesperadamente. apesar dos momentos em que o texto deliberadamente mergulha na análise dos movimentos mais íntimos e escondidos da alma dos personagens. E porque conquistei mas não fui cego no exercício do po. Mas a que prestais aos charlatães." É quase uma declaração de princípios: o texto é popular. Nassau afirma: "Eu continuo um homem de armas* E um humanista. Mas o todo conserva uma linha dramática conseqüente. porque das armas e da repressão não fiz a minha última paixão. vigiado constantemente por um enigmático e fleumático agente da CIO. aos intrujões e aos bobos da rua. um personagem se dirige ao público e pede atenção: Não a atenção que costumais prestar aos oradores sacros. quando deixa o Brasil.

a mulher de Calabar.ou traem a si mesmos. No personagem Sebastião de Souto. e ao mesmo tempo de nenhum. é um homem em crise que confessa ao Frei (que é um homem que está sempre de todos os lados. num convite à reflexão sobre a transformação desta realidade. O que interessa ao texto é o comportamento dos homens entre si. Faz de Calabar uma reflexão sobre o hoje e o aqui. a traição inicialmente cotidiana e mesquinha se transforma. A parábola parte da realidade para chegar ao espectador de forma nítida. Mas não são motivados: vivem suas contradições de forma vital. Para Bárbara." No momento de se retirar do país (será preso em Portugal e responsabilizado pela entrega de Pernambuco aos holandeses). sobre a responsabilidade. num espasmo de lucidez. a traição é uma obsessão que ela procura desvendar em suas últimas conseqüências. num ato final de entrega. de uma última e derradeira forma de compreensão e ação. a ética. encarnação viva da . conscientizada quase através de um processo de enlouquecimento irracional e lúcido. em determinado momento o simples fato de continuar vivo é uma traição. a opção e os possíveis destinos do homem num mundo de guerra e paz. entregue de corpo e alma a uma tentativa desesperada de compreensão. Esta postura traz o texto até nossos dias. num suicídio anárquico e individual que ao mesmo tempo não está isento de uma conotação trágico-grotesca. Para um personagem. no fundo é um sentimental e chora: "E se a sentença se anuncia bruta / Mais que depressa a mão cega executa / Pois que senão o coração perdoa. profunda. observados numa determinada circunstância histórica." Mas ele mesmo afirma que quando tortura ou mata. esta terra ainda vai cumprir seu ideal / Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. Mathias de Albuquerque chefia a resistência portuguesa sonhando com um Brasil português: "Ah. humana. Todos os personagens vivem na lama da traição e estão perdidos numa selva de traidores.

ver o que fizeram. Mas. é livre. a e 0 a% FERNANDO PEIXOTO . é um primeiro passo para a compreensão do enunciado de um teorema complexo. diante dos caminhos oferecidos à sua sensibilidade e inteligência omitir-se ou escolher sua forma de pensar. no espetáculo. com lágrimas nos olhos. que Mathias e Nassau sejam interpretados por um mesmo ator: ambos significam a mesma coisa como vassalos do colonialismo. no final. está fora do tea tro. Ao contrário." Em Calabar compreender o peso e conteúdo da traição de cada um. e ambos sofrem quase que o mesmo processo interior. O que importa é o diálogo pai co-platéia. Cabe ao espectador. ainda que em circunstâncias diversas) chega ao país afirmando que Calabar não morreu em vão. O texto não encerra uma solução dogmática. contraditório. teme se deixar levar pela tentaçà de libertar um homem que fez sua opção e que teve a dignid de de agir por conta própria. nem o espetáculo pretende fechar as chaves de entendimento dos fatos. fascinante e provocante. Nassau (é proposital e fundamental. lírico e feroz. no momento d mandar executar Calabar. quer provocar dúvidas. ou das inúmeras traições de cada um. O palco não quer entregar ao público nenhuma verdade nenhuma certeza. a ser transformada.traição permanente) seu grande pecado: às vezes chegou pensar mais no Brasil do que em Portugal e. Cabe ao espectador observar homens agindo. des confiança e perplexidade. O espectador diante do espetáculo. pesar suas ações e alternativas. Sai cantando seu sonho colonialista: "Porque esta terra ainda vai cumprir seu ideal / Ainda vai tornar-se um imenso canavial. trai o sonho de Calabar e regressa à Holanda. escrito com paixão e sentido crítico por Ruy Guerra e Chico Buarque. onde foram omissos ou responsáveis. carregado nos braços dos índios. A realidade.

Belara Guidi.Ficha técnica do primeiro espetáculo PRODUÇÃO DIREÇÃO DIRETORES-ASSISTENTES DIREÇÃO DE PRODUÇÃO ASSISTENTE DE PRODUÇÃO DIREÇÃO MUSICAL ORQUESTRAÇÃO COREOGRAFIA CENÁRIOS FIGURINOS ILUMINAÇÃO SONOPLASTIA DIVULGAÇÃO ELENCO Fernando Torres Diversões Fernando Peixoto Mário Masetti e Zdenek Hampl Cacá Teixeira Renato Laforet e Leda Borges Dori Caymmi Edu Lobo Zdenek Hampl Hélio Eichbauer Rosa Magalhães e Hélio Eichbauer Antônio Pedro M. Perfeito Fortuna. Flávio São-Tiago. José Roberto Mendes. S. Antônio Pompeu. Márcio Augusto. 2001 Leda Borges Tetê Medina. Odilon Wagner e mais: Ana Maria Vianna. Maria Alves. Carlos Alberto Santana. Ivens Godinho. Deoclides Gouvêa. Hélio Ari. Ângelo de Mareus. Betty Faria. . Katia D'Ângelo. Maria do Carmo. Dirce Morais. Lutero Luís. Dulcilene Morais. Imara dos Reis Ferreira. Antônio Ganzarolli. Anselmo di Vasconcelos. Lincoln dos Santos.

0 í t a Músicos Danilo Caymmi. ^ O Palma.„ e RUY CHICO BUARQU* i GUERRA Milton Brandão. Paschoal Villabo^ Paulo Afonso Gregório. Viliam. Nina de Pád^ Octãvio César. Dori Caymmi. Thelmo ^ ques. Paulo Tarso. Wladimir Gonçalves. Maurício Mendon^ Tenório Jr. . Suzanne M /jcofr. Tato Costa. Terra.

Ficha técnica da nova versão PERSONAGENS E INTÉRPRETES: FREI MANOEL DO SALVADOR MATHIAS DE ALBUQUERQUE E MAURÍCIO DE NASSAU BÁRBARA ANNA DE AMSTERDÃ OFICIAL HOLANDÊS SEBASTIÃO DO SOUTO HENRIQUE DIAS E PAPAGAIO OBA FELIPE CAMARÃO E ESCRIVÃO AGENTE DA CIO E A PARTICIPAÇÃO EM DIVERSOS PERSONAGENS DOS ATORES: Ariel Moshe Dada Cyrino Édsel Britto Ina Rodrigues Luiz Braga Luiz Carlos Gomes Mercedes de Sousa Mônica Brant Samuel Santiago Sérgio Mamberti Othon Bastos Tânia Alves Martha Overbeck Osmar di Pieri Renato Borghi Gésio Amadeu Miguel Ramos Elias Andreato .

ARRANJOS E MUSICA DE CENA CENOGRAFIA E FIGURINOS COREOGRAFIA DIRETOR-ASSISTENTE MÚSICOS: BATERIA E PERCUSSÃO CONTRABAIXO E VIOLÃO VIOLÃO. GUITARRA E BANDOLIM FLAUTA. SAX-SOPRANO E SAX-TENOR FLAUTA E SAX-ALTO TROMPETE Magno Bissoli Siqueira João Carlos Mourão Fernando (Mu) Márcio Werneck Muniz Zeymar Dagmar .Wilson Rabelo Zdenek Hampl SÓCIA-GERENTE ASSESSORIA ADMINISTRATIVA DIVULGAÇÃO PRODUÇÃO EXECUTIVA SONOPLASTIA ILUMINAÇÃO FOTOGRAFIAS CARTAZ PROGRAMA Fernando Peixoto Marcus Vinícius Hélio Eichbauer Zdenek Hampl Wagner de Paula Regina de Souza Malheiros João Luiz Rossi Sérgio Ascoly Eliane Bandeira Cacá Mário Masetti José Rodrigues Elifas Andreato Alexandre Huzak DIRETOR DE CENA CAMAREIRA MAQUINISTA CENOTÉCNICO OPERADOR DE LUZ COSTUREIRA Paulo Carrera Helena Lima da Silva Paschoal Landi João Tereza Adolfo Santana Alice Corrêa DIREÇAO-GERAL DIREÇÃO MUSICAL.

Miserere nobis.Primeiro ato Abre o pano.. Agnus Dei qui tollit peccata mundi.. Sininho de sacristia. que se barbeia. FREI. rosto ensaboado.. Agnus Dei qui tollit peccata mundi. Era o Brasil. abundante. Um vassalo segura um espelho . e não sei se me adiantarei muito se disser a mais rica de quantas ultramarinhas o Reino de Portugal tem debaixo de sua coroa e cetro. FREI. a mais deliciosa.. Um vulto num instrumento de tortura. antes da chegada dos holandeses. FREI. navalha na mão e bandeira rubroverde servindo-lhe de babador.. Miserere nobis Miserere nobis Moradores cantam: Miserê 'renó Bis Miserê Renobis Misererenobis. Luz em crescendo sobre MATHIAS DE ALBUQUERQUE. Escuridão completa. sublinham o sermão do FREI. MATHIAS. próspera. Gemidos e coro de moradores.. FREI. Um ESCRIVÃO a seus pés. Miserere nobis. Agnus Dei qui tollit peccata mundi. no escuro. MORADORES. MORADORES.

senão que arrojavam as finas telas e ricos bordados. FREI. e eram tantas as jóias com que se adornavam que pareciam chovidas em suas cabeças. . FREI. .. ar (Apontando a navalha para o ESCRIVÃO^. Até porque não se me apagam da memória as provas da bravura e da lealdade que vós me dedicastes no passado. Enderece à Vila de Porto Calvo. FREI. Mestre-de-campo. e outras sedas.) Ponha major. Eu. FREI. Calabar.. Arraial do Bom Jesus. . POR. Governador de Pernambuco. Noutro canto. o o u r o e a prata era sem n ú m e r o e quase não se e timava. ESCRIVÃO (Anotando).. Soldado ^ adormecidos. especialmente na resistência ao invasor holandês. MATHIAS... o fausto e aparato das casas eram excessivos.. Não! Capitão Domingos Fernandes Calabar! (£5. Ano da Graça de 1635... na Vila de Porto Calvo. quando MATHIAS . MATHIAS. fuzis ensarilhados.. Mathias de Albuquerque.. neste mesmo Arraial do Bom Jesus onde me encontro. as mulheres andavam tão louçãs e tão custosas que não se contentavam com os tafetás.. qwe solta um grito lancinante.que o reflete de corpo inteiro... tanto que n ã o havia embarcações p * o carregar. o ESCRivAo de pato na mão. dois soldados garroteiarn ^ prisioneiro louro. veludos. . Tudo sugere um acampamento militar. tala a língua. muitos avisos vos tenho feito que não vos fieis nesses malditos luteranos e calvinistas. Mestre-de-Campo Domingos Fernandes Calabar. o açúcar. Major Calabar.. Mais adiante. chamalotes... certo de que aceitareis a mão que ora vos estendo.. MATHIAS. E repito: é a última vez que vos escrevo! Prefiro não considerar as respostas negativas que me destes noutras ocasiões.. que por mui pobre e miserável era tido o que não tinha seu serviço de prata.

pecados e dívidas vos serão perdoados. Capitão aqui.. esmeraldas. rubis. Com dois olhos claros de assustar. (Encara o torturado como se se dirigisse a Calabar. MATHIAS.. o rebelde. em língua de serpente. . E. lá fez-se major. P o r q u e é q u e ele foi p r a lá? Era um mulato alto. pêlo brabo. engenhos e patente Se quisesse voltar. P o r q u e é q u e ele foi p r a lá? FREI. quando voltardes aos serviços d'El Rey. Só sabidos dos bichos desta terra De nome esquisito de falar... . Eu lhe ofereci o meu perdão Em ouro. Onde punha o olho... Lia nas estrelas e no vento. e não parecia esta terra senão um retrato do terreal paraíso. coronel... Eu lhe dei minha confiança Em matéria de navios e de guerra E ainda me pergunto. Sabia dos caminhos escondidos.. punha a bala. afoito.. E.. diamantes..logramos encurralar o inimigo contra o litoral. pêlo ruivo.) Tendes a minha palavra. P o r q u e é q u e ele foi p r a lá? FREI. honras e bens vos serão devolvidos. Mandou-me recusar. MATHIAS. Sem resposta pra me dar: Por que é que ele foi pra lá? Era um mameluco louco. FREI. Guerreiro como ele não sei mais se haverá. Tudo eram delícias. pixaim. MATHIAS. Levou o seu saber para os flamengos E nem sei se cobrou o que era de cobrar. sarará. Pérolas.

Ele sabe dos caminhos Dessa minha terra. e andava com ela amancebado. Nesse tempo estava metido com os holandeses um mestiço mui atrevido e perigoso chamado Calabar. Bárbara. Olha a relva. — Cala a boca. calmamente. levou o inimigo por esta terra adentro. quantos ais. chamada Bárbara. cujos gestos simulam o ato do amor. Por que é que ele foi pra lá? Corte brusco na música religiosa. No meu corpo se escondeu. — Cala a boca. Primeiros acordes dolentes para uma nova canção. Minhas matas percorreu. Ele é o meu guerreiro Nos colchões de terra. Esse Calabar carregava consigo uma mameluca. Nas bandeiras. Bárbara. Nas trincheiras. Olha o fogo. Os meus braços.Como um bicho esquisito destas terras Que pensa dum jeito impossível de pensar. Conhecedor de caminhos singulares nesses matos. BÁRBARA canta Cala a boca. Luz isolando a silhueta de uma mulher. para desgraça e humilhação do comandante Mathias de Albuquerque. ai. mangues e várzeas. Plenamente iluminada. — Cala a boca. FREI. Bárbara. rompendo o cerco lusitano. Ele sabe dos segredos Que ninguém ensina: . BÁRBARA levanta-se e veste-se. Os meus rios. bons lençóis. — Cala a boca.

Cala a boca. Olha a noite.Onde eu guardo o meu prazer. Se os senhores quiserem saber por que me apresento assim. manjares de Holanda e ANNA DE AMSTERDÃ sobre a mesa. Um banquete com vinhos. que os afogaram as águas do universal dilúvio. Fico imensamente grato pela sua permanência em Porto Calvo. e como a Sodoma e Gomorra. Cala a boca. nos currais. BÁRBARA. de maneira tão extravagante. FREI. Com os flamengos. e sucedeu-lhes o mesmo que aos que viveram no tempo de Noé. Na cabeceira da mesa desponta a figura do chefe holandês. dando assis- HOLANDÊS. Terminada a cançao. no qual se sobressai uma estridente gargalhada de ANNA DE AMSTERDÃ. Nas campanhas. aos oradores. que foram abrasadas com fogo dos céus. entrou nesta terra de Pernambuco o pecado. se tiverem a gentileza de me prestar atenção. Os moradores dela foram-se esquecendo de Deus e deram entrada aos vícios. Em que pântanos beber As vazantes. Nos colchões de ferro Ele é o meu parceiro. vão ficar sabendo em seguida. Frei Manoel do Salvador. ai. Ave. quantos ais. Cala a boca. aos governantes Mas a que se presta aos charlatães. As correntes. O banquete é uma orgia muda durante a fala do FREI. . Olha o frio. Não a atenção que costumam prestar aos sábios. aos intrujões e aos bobos de rua. BÁRBARA encara o público. Cala a boca. Bárbara. Bárbara. Explode um barulho bacanalesco. Nas entranhas.

Alagoas. extraindo o retame. Mas o Arraial do Bom Jesus. porque a Companhia das índias não vai investir seus florins num país que vive pegando fogo. Muito pelo contrário. HOLANDÊS. cará. aipim. Maranhão. com jeito. Abricó e a própria bunda Se plantar. em nome da Holanda e da Co ^ nhia das índias Ocidentais. E sua presença nesta só me honra. ^ ANNA E CORO. o açúcar branco. o mascavado. Frei Manoel. não tome minhas palavras por sobe ba de holandês. Sem a qual não há razão para nenhum de nós estar aqui. Por favor. entramos com o transporte. está sob o nosso controle. HOLANDÊS. é chegada a hora de encararmos o futuro sem ressentimentos. dá. Mandioca. isso é mau para os negócios. Nessa guerra sem sentido Não há nacionalidade. acaba de cair Mathias de Albuquerque escapou com o rabo entre as pernas. A cana. da Companhia. Por isso.. Não são os holandeses que estão queimando os canaviais. todo esse litoral. juro. as refinarias e a nossa nobre clien0c . Nós. Só queremos garantido O direito à propriedade. Sem contar a meia dúzia de gatos pingados lá do Sergipe. ANNA E CORO. Esperando que o bom colóquio Seja um prenuncio de paz. HOLANDÊS. último f de resistência portuguesa em Pernambuco. Ora. por exemplo. que Vossa Mercê possivelmente conhece. Ninguém aqui quer expulsar ninguém. principalmente para os honestos plantadores portugueses. mas alguns desesperados compatriotas seus. Nessa terra tão fecunda.tência às almas de suas ovelhas. ANNA E CORO.. queremos que o português continue cultivando a cana como só ele sabe.

5 ANNA E CORO. E o padre até pode rezar a sua missa católica. que é nosso. 1 . Pois o mais importante culto ^ É o açúcar.. Tudo isso é de vulto. Precisamos uns dos outros. Basta essa só injúria para que os moradores não tenham por firme vossa amizade e promessas. Um soldado se aproxima do HOLANDÊS com um cálice. HOLANDÊS. com a condi.Q.. bons impostos. Brindemos ao Brasil e à Companhia das índias Ocidentais! Os moradores brindam com euforia. E só a Holanda pode conseguir tal milagre. HOLANDÊS. estamos em condições de garantir: liberdade a quem quiser produzir. (Levantando-se) Senhor Comandante! Maior agravo e injustiça não se pode fazer aos católicos romanos: o profanar os vasos sagrados nos quais se consagra o sangue de Cristo no sacrifício da missa. m Os moradores aplaudem o discurso com entusiasmo. mas eu firmo Q* embaixo e endosso. compradores certos. Portanto. E já não necessita de intermediários para negociar com os demais europeus radicados no Novo Mundo. enriqueceremos. Hoje a Holanda domina os mares. : cravo fujão. libertou-se da obediência ao Papa.o ção desse fogo ser só para fins de conter incendiário e es.tela da Europa. Porque unindo os seus Estados protestantes. meu caro Frei. direito de ir e vir e et? porte de armas aos senhores de plantação. ANNA E CORO. que por interesses menores dividiu o mundo colonial entre Portugal e Espanha. somos pulgas do mesmo cachorro. O < que eu fecho os olhos. E se a lição foi aprendida A vitória não será vã. Neste Brasil Holandês Tem lugar pro português E pro Banco de Amsterdã. Unidos.

crianças e bois. mas eu mesmo sou católico romano e.. Mantimentos de boca? SOUTO. ele está chegando! Mathias de Albuquerque está a poucas léguas! FREI. Você falou em bois? SOUTO. senhor. HOLANDÊS. Quase que só mulheres. se oculto a minha verdadeira religião é para não perder meu cargo E. Entenda. Evidente! Já está aí! HOLANDÊS. perdão.) Presa fácil. Mathias abandonou tudo e vem despencando pro sul. de gatinhas. peixeiras. sim. HOLANDÊS. se sirvo ao holandês na guerra. na surdina da noite. . Sua Excelência. Ex-governador. respeitosamente.O HOLANDÊS joga fora o vinho. Mas assim que me pagarem tudo hei de ir a Roma buscar o perdão do Santo Papa Urbano VIII pela culpa em que caí. HOLANDÊS. Ah. rumo à Bahia. Entra SOUTO. Ouro? SOUTO. se me faço de protestante. toma o cálice pelo pé e beija-o depositando-o em seguida na mesa. o Governador de Pernambuco! HOLANDÊS. Estão em frangalhos. Vão querer passar por fora. é porque ainda me devem muito do meu soldo. batata. senhor. E prata. índios. afobado. Pretende atacar? SOUTO. Então tem que passar por Porto Calvo. Comandante. (Para o HOLANDÊS. Acho difícil. SOUTO... bois gordos e suculentos! E carruagens. SOUTO. Eu comando a expedição. salame. cerveja. FREI. Apenas alguns soldados desgarrados. canhões. negros. carregadas de muita riqueza! (Para o FRElj E homens armados até os dentes. Que fique entre nós dois. manteiga e pão.. HOLANDÊS. Frei. Queijo. é apenas por conveniência. HOLANDÊS. SOUTO.

como se não bastasse.. SOUTO (Para o FREI. diga ao governador que o serviço está feito. Três ficam na cidade para o que der e vier.. vão mandar um espanhol! (Subitamente sério) E dizer que tudo começou com aquele desertor. honras. estou sendo enxotado para a Bahia. HOLANDÊS. peço permissão para o acompanhar. Mathias de Albuquerque vai gostar de saber disso. SOUTO (Para o FREI. E dizer que cansei de escrever àquele mulato. HOLANDÊS. Black-out. donde vou ser recambiado para a metrópole. que esfrega as mãos. Frei. vencimentos atrasados. não? SOUTO. mundos e fundos. Ofereci-lhe anistia. Mais que suficiente. HOLANDÊS. É um luxo! (Para o FREL^ Dois destacamentos. só me faltou implorar para que ele voltasse às nossas fileiras. SOUTO. meu Arraial do Bom Jesus. Um ano de fracassos consecutivos. É o suficiente. só me faltou lamber o saco daquele mulato.SOUTO (Para o FREI^. E dizer que um mulato pernóstico mudou o curso da História.). Perdi Igaraçu. E. que tem o olhar fixo nas próprias mãos. . Que carreira! E para me substituir. Vá dizer ao governador que Porto Calvo será dele novamente. chamei-o de patriota. Luz em MATHIAS. Itamaracá. não perca tempo.). Frei. Mas Deus não permitirá que eu morra sem antes encarar o Calabar! (Tira o pergaminho do peito) E fazê-lo engolir a última resposta que me mandou! Guitarra portuguesa sublinha a fala de MATHIAS. a Paraíba. com Porto Calvo. chamei-o de general. Levo dois destacamentos. Concedida. me chutaram a bunda em Nazaré. (Para o HOLANDÊS^ Senhor. Calabar fica guardando Porto Calvo. Magnífico! E Calabar? HOLANDÊS. MATHIAS (As gargalhadas). Calabar. onde me fazem uma devassa.

. Que a vingança acaba de acenar Com a promessa de vosso dia. Mãos à obra. No final da fala. Sebastião do Souto. Mãos vazias. . alegria. Mãos de seda e de garrote. Não. Mas vem cá. Mãos feitas pro necessário. Mãos-de-ferro. FREI. MATHIAS. Estende a mão e espeta um pedaço de bacalhau. sim. minhas mãos. DIAS e CAMARÃO. Mãos do vício solitário. o que nos mandou esse recado. FREI...Alegria. Calabar? MATHIAS. Ele é de plena confiança? FREI. fazei justiça Com as vossas próprias mãos! Saciai vossa cobiça Na garganta da traição. Predicado independente De um sujeito ambicanhestro. Já andou conosco. De afagos de segunda mão. mãos de bosta. cansadas De escrever cartas ao léu. Abri em flor. Quero dizer.. Mãos de vem-cá sem resposta. esse traidor. Mãos de pluma de pato. de repente Mãos de escravo e de maestro. É um jovem assaz flutuante. já andou com os flamengos. MATHIAS. mãos de bote! Minhas mãos.. Que é a noite de Calabar. Bem.. excelência. não. O nosso.. MATHIAS está sentado à mesa com o FREI... o outro. MATHIAS. mãos cerradas Em punhos de pedra contra o céu. O que está com eles. Ah. Mas esta tarde ele me pareceu especialmente sincero e prenhe de civismo.

é dia Que é noite de Calabar! Sublinhando a gargalhada e a fala de MATHIAS. O Holandês vem trazendo duas companhias na bandeja. Governador. Magro. agora. que morram cem. CAMARÃO (Servindo-se de vinho). Tantas raças. (Dá um gole e continua) Estamos aí para isso mesmo — ainda sobram cem para o cerco a Porto Calvo. Terra engraçada.. MATHIAS canta Fado Tropical: . tantos idiomas. Calabar! Calabar! Calabar! Esfregai-vos. se me permite. mas só se entendem claramente as palavras da traição. O quê? Eu? MATHIAS. seja de quem for. Duzentos índios na emboscada. Muito engraçada... FREI (Beliscando o prato de DlAS^. De minha parte é perfeito. oh. esta guerra. Tantos sorrisos e tantas trapaças. esta. Com apenas três companhias em Porto Calvo. minhas mãos de orgia! Ejaculai. minhas mãos.. FREI. Como é que ele se dá com o Calabar? FREI. me parece seguro. (Dá uma garfada e continua a falar de boca cheia) Esse plano. (Leva o bacalhau à boca) Magro! FREI. Senhor. MATHIAS (Garfo tio ar cofft bacalhau).. mãos de estrangular! Alegria. Seguia-o como um apóstolo. melosas guitarras portuguesas.. Governador. Mas. tenho duzentos índios.MATHIAS. insosso e mofado! (Afasta o prato) DIAS (Tomando o prato que MATHIAS rejeitou). Isso é fato. A gargalhada confunde-se com soluços. Calabar terá que se render às suas tropas. Em nenhuma outra parte verás tantos sorrisos. DIAS. Onde o Holandês pensa que há meia dúzia. Isso é fato. MATHIAS. acho que o odeia. O bacalhau.

Desencontrado. minha mãe gentil. Licores na moringa. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. musa do meu fado. Sabe. Com rendas de Alentejo. no fundo eu sou um sentimental. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. No primeiro abril. Te deixo. esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Recitando: Meu coração tem um sereno jeito E as minhas mãos o golpe duro e presto De tal maneira que. 1 . numa bravata. consternado. Não esquece quem te amou E em tua densa mata Se perdeu e se encontrou. Ai. De quem. meu coração fecha os olhos e. chora. E a linda mulata. depois de feito. guitarras ao fundo).CHICO I BUARQUE E RUY GUERRA Oh. Além da sífilis. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar. Cantando: Com avencas na caatinga. Ai. é claro. eu mesmo me contesto. MATHIAS (Falando com emoção. esganar. sinceramente. Arrebato um beijo. esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Mas não sê tão ingrata. Oh. Um vinho tropical. trucidar. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. Alecrins no canavial.

E. Mais que depressa a mão cega executa Pois que senão o coração perdoa. ele vai-se sentando na latrina ao lado do HOLANDÊS. Ai. Quando me encontro no calor da luta Ostento a aguda empunhadura à proa. que permanece no escuro. Ai. mandioca. para a última parte do fado. Me assombra a súbita impressão de incesto.Se trago as mãos distantes do meu peito. esta terra ainda vai cumprir seu ideal. 0 rio Amazonas Que corre trás-os-montes E. MATHIAS foi desabotoando as calças e arriando-as. Mas o meu peito se desabotoa. É que há distância entre intenção e gesto. . se a sentença se anuncia. coqueiros. E. Sardinhas. Cantando: Guitarras e sanfonas. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. fontes. Ainda vai tornar-se um Império Colonial. numa pororoca. se meu coração nas mãos estreito. Jasmins. esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Deságua no Tejo. Num suave azulejo. No decorrer do soneto. Agora. bruta.

MATHIAS (Contorcendo-se em eólicas). Já trouxe das índias Orientais. A brasileira geralmente investe quanto a outra está de recesso. É. N ã o . (Evocativo) Vossa Excelência já esteve na Holanda? HOLANDÊS. Também pegou? HOLANDÊS. Às vezes é a indiana que me ataca. Então não sabe o que é um campo de tulipas ao cair da tarde. HOLANDÊS. Que sorte. Mathias caga. Bem cedinho. HOLANDÊS. A bem da verdade. Onde há cor nem tudo está perdido. HOLANDÊS (Conferindo).. Suas ceroulas são listradas de azul e vermelho.. (Começa a se contorcer) Falou no bicho? (Caga) MATHIAS (Olhando no vaso do outro). Excelência.. MATHIAS (Solidário). Um momento. a HOLANDÊS.Luz sobre os dois.. HOLANDÊS. MATHIAS. Sente-se melhor? MATHIAS. Parece que são terríveis por lá. MATHIAS. MATHIAS.. A minha é um arco-íris.. MATHIAS. a minha já é um resultado meio híbrido. Tem vários matizes. Aliviado.. E Vossa Excelência já viu as amendoeiras em flor? (O HOLANDÊS faz que não com a cabeça) Parece um campo de neve! Essa é a imagem de Portugal que eu trago dentro de mim: as amendoeiras em flor! (Sente uma pontada na barriga) . MATHIAS. Sorte? HOLANDÊS.. solta um longo suspiro. Das boas. Melhor? Vossa Excelência seja. não faz idéia do Q ÜÇ Bondade sua. Costuma ser mais amarelada. O HOLANDÊS empunha uma bandeira branca espetada *** bambu. HOLANDÊS. Saiba que estou nesta campanha há tanto tempo quanto Vossa Excelência.. MATHIAS usa uma ceroula vermelha com f * verde. Governador..

e de cochicho com aquele padreco que vem a ser outro bom filho duma égua! Canalhas! Corja de traidores! MATHIAS. Ô. Dom Sebastião! HOLANDÊS. E eu imponho que Calabar me seja entregue.HOLANDÊS. mãos e pés atados. .. Em matéria de traição. bom. Aquele filho da puta. com aquela cara. Foi uma bela vitória das cores de Portugal. indignado). Sei lá da vida dele.. Quem diria. devagar. MATHIAS. Só sei que é Sebastião do Souto. com aquelas mesuras. Aceita sim. o cerco está apenas começando.. Seus homens venceram essa batalha. Nem de mau gosto. vocês não têm muito do que se queixar. talvez seja um tanto monótono. HOLANDÊS. Estou falando de Calabar. A serviço da Espanha. Ora. HOLANDÊS. MATHIAS. MATHIAS. Pensando bem. HOLANDÊS. já percebeu? C-a-l-a-b-a-r! HOLANDÊS. MATHIAS. mas a guerra continua. ô . Não aceito imposições. Entenda como quiser. Não monótono. (Senta-se) Esse! HOLANDÊS. Ô. HOLANDÊS.. E Porto Calvo ainda tem três companhias de soldados.) MATHIAS (Levantando-se. Não estou entendendo. Ah. mas acho que Vossa Excelência não está em condições de me contrariar. Porque não lhe convém. MATHIAS. o Desejado? O que não morreu em Alcácer Quibir? HOLANDÊS. Sebastião? MATHIAS.. A serviço de Dom Sebastião! HOLANDÊS (Levantando-se rapidamente). MATHIAS. Sóbrio. HOLANDÊS. Dom Sebastião. (Senta-se. Está se referindo às tulipas? MATHIAS. como despojo de guerra.. Não quero abusar da minha condição de vencedor. Essa é a cláusula um da rendição de Porto Calvo.

... Um momento. HOLANDÊS.. Vocês não têm um rei..Tudo esfomeado. gato». com dendê. Uma ratazana à brasileira. parar.. foi bom falar nisso. HOLANDÊS. Taí. . MATHIAS. Eu queria evitar mais derramamento de sangue. Eu tenho aqui comigo algumas ações da Companhia. PfffffffiiiiíiiL. Cada ação está cotada a 3 mil florins. mas como militar Vossa Excelência é uma compota de merda.*.. Que é na verdade quem manda na Holanda... Eu posso lhe confidenciar que a Companhia pretende investir 2 milhões e meio na conquista do Brasil. mentínha. Depende do jeito de prc. Como disse? HOLANDÊS. HOLANDÊS. Onde é que já se viu rato com coentro? MATHIAS. Se Vossa Excelência se interessar. Um raminho de coentro. (Apanha a bandeira) Em nome da Companhia das índias Orientais. MATHIAS (Enojado). Pois bem. Não é tão ruim assim.. confessa. sendo que a previsão MATHIAS. mathias.. Vossa Excelência pode ser muito bom de cozinha. (Levanta-se) Vou ordenar imediatamente o ataque a Porto Calvo. Ah. HOLANDÊS. pi. mas vejo que me enganei! (Joga longe a bandeira branca ) MATHIAS. HOLANDÊS* Estamos habituados a comer qualquer coita Porto Calvo tem cachorros. MATHIAS. não tem nada a ver. Governador! Pensei que tivesse vindo parlamentar com um gentil-homem. cada rato deste tamanho. coentro. HOLANDÊS (Levantando-se). mas Vossa Excelência me obriga a isso. mas uma quadrilha de quitandeiros à testa do Estado e um exército de caixeirosviajantes... farofa..

de retirada é da ordem dos 8 milhões de florins anuais. imberbe. fazendo os cálculos rapidamente. será um herói com déficit... Que o entregou a um homem de uma só palavra. Vossa Excelência tem noção do que esta me propondo? HOLANDÊS.. Saiba Vossa Excelência que eu sou um general a serviço da Coroa de Portugal e Castela! HOLANDÊS.. b o m . MATHIAS. Ora. Bem. Que é que os historiadores vão dizer de mim se eu entrego Calabar? MATHIAS. HOLANDÊS... Terminaram? Humm.. o Afonso. Sim. milionário. MATHIAS. carregando folhas de bananeiras. Vossa Excelência disse. .... logo acrescenta) Fica bonito! Um dos meus antepassados fez isso nas índias. Entra o FREI. É difícil estar sempre inventando frases novas. As minhas barbas como penhor. Em caso de derrota. MATHIAS. MATHIAS. ficará simplesmente milionário... insígnias e todas as honrarias. bandeiras. À mercê d'El Rey Dom Felipe de Espanha e Portugal. no vermelho e no preto ao mesmo tempo. FREI. MATHIAS. HOLANDÊS. Trata-se de um ultimatum. MATHIAS. Vossa Excelência estará jogando no par e no ímpar. Somos uma sociedade anônima e não alimentamos preconceito algum. A um fidalgo português. HOLANDÊS. Um momento.... não faz muito tempo a Companhia pagou 75% de dividendos a seus acionistas. Logo. ( O HOLANDÊS fita MATHIAS que. Me entrega o traidor e parte com seus oficiais. o passado deve servir pra alguma coisa. Perfeitamente... Vitorioso na guerra. No fim das contas.. milionário? HOLANDÊS. mas não importa. Ah. Que merda. E então? HOLANDÊS.

dois pontos. MATHIAS. HOLANDÊS. MATHIAS. HOLANDÊS. Sabe que isso pode criar um impasse nas nossa negociações? HOLANDÊS. HOLANDÊS. Entrego Calabar à mercê d'EI Rey. HOLANDÊS. MATHIAS. Hemorróidas. MATHIAS. Hemorróidas você já disse. Hemeralopia? Besteira.. Perdão. MATHIAS (Olha as próprias fezes). A História pode esperar. Lepra. Preciso.. (Começa a se contorcer em eólicas) cagar. Tifo. MATHIAS. Huumm.MATHIAS. HOLANDÊS. Turalamia. À mercê d*EL Rey. MATHIAS. Q u e que é isso? HOLANDÊS. Disenteria bacilar. MATHIAS. Nós temos tripanossomíase. Já ouviu falar em escorbuto? HOLANDÊS.. Esquistossomose. MATHIAS. Furunculose. Meus soldados têm uma cegueira noturna que chegam a tostar as pestanas à luz de velas. Não vale. Cancro mole.. Melhor? Duvido e faço pouco.. HOLANDÊS.. Disenteria sangüínea. Ah. Os senho enviam o caso do M a j o r Calabar à Espanha onde de ** beça fria e à distância dos acontecimentos.. MATHIAS (Resmungando). Priapismo ortogonal. Portanto a primazia é nossa. Hemiteria.. Sangüínea. . Até a palavra vem do flamengo. o rei Dom Fe lipe saberá ditar a sentença mais justa. MATHIAS. HOLANDÊS. grandes coisas. Sherbuik. Não volto atrás. a Rood loopl Temos coisa melhor. Leptospirose icteroemorrágica. HOLANDÊS. À mercê d'EI Rey. MATHIAS. HOLANDÊS...

Nem pondo nenhuma malícia. Você é que tá roubando. . MATHIAS. MATHIAS. Terminamos. MATHIAS bolina ANNA com os pés. arrastando ANNA pelos cabelos. cerimoniosamente. Pára de roubar. Viva Dom Felipe. MATHIAS. Entram em cena barricas de vinho e outros despojos de guerra. HOLANDÊS. de acordo.. FREL Terminaram? HOLANDÊS. MATHIAS.. Disse sim. os DOIS. rei de Portugal e Espanha! . Jogou o inimigo na desgraça E na desgraça ele mesmo mergulhou.HOLANDÊS. Disse nada. faz uma banana para o FREI e sai. atirada ao solo por SOUTO. HOLANDÊS.. apoiados um contra o outro. HOLANDÊS. Vivas e morras.. tomado de cólera. mas demasiado E que.. Entram DIAS. HOLANDÊS. FREI.. Bem. Malária. Nada acrescentando ou omitindo. MATHIAS. Agora eu não quero mais. Soldados holandeses depositam armas. e se limpam. Calabar fica entregue à mercê D'E1 Rey de Espanha. CAMARÃO e SOUTO. Quando contarem estes desafortunados fatos. Morram os flamengos! FREI. Morram as tiranias e viva a liberdade! Ao toque de caixa. Falem de mim como eu sou. Falem de alguém que sofreu Não sabiamente. MATHIAS dirige-se ao centro da movimentação. o HOLANDÊS levanta-se. HOLANDÊS. pô. CAMARÃO (Garrafa na mão)... Grito estridente de ANNA. Viva o Papa! DIAS. Os dois trocam as folhas secas. MATHIAS. Os dois suspiram exaustos.

. Excelência.. Sutilezas históricas. para eles. Não. sim. Sebastião do Souto. O Brasil.. Se alguém o ouve falar assim. Excelência. Pois que ouçam! Estão me ouvindo. que é que tá parado aí com essa cara? SOUTO. paredes? Esta vitória é minha e eu a dedico a quem bem entender. está certo. As paredes têm ouvidos. digo e repito que quem manda no Brasil ainda 0s é Portugal e não a Espanha.. (Fazendo o sinal-da-cruz) Que Deus o tenha. MATHIAS. Cadê os navios que me prometeram? Cadê as notícias? Os canhões? Os remédios? Nada. brasileiro. você é o traidor. Frei! FREI. CAMARÃO. Governador. (Impondo um súbito silêncio. E que esta vitória sirva de exemplo à nob I lusitana. Mas eu. hein? O Brasil nunca lhes interessou.f MATHIAS. é uma cortina de cana para esconder dos holandeses a prata do Peru. Ah. MATHIAS. de sangue nobre português. FREI. FREI. 0r | I I I I I I I I I I I I I I I I .. rapaz.) Viva El R ^ Sebastião de Portugal! 1 e y I I FREI. aqueles palhaços que aderiram ao j £ I rç Espanha. Mandam um. P que é que vou dedicá-la à Espanha. À saúde do nosso traidor! FREI. Traidor que trai traidor tem cem anos de louvor. O que é? FREI.. MATHIAS. Traidor é quem trai Portugal. MATHIAS. Traidor é quem trai a Espanha. um espanhol para me substituir! Merda! E você. ü g 0 MATHIAS. belo serviço. Portugal e Espanha estão unidos pela dinastia d Felipe. às suas ordens. já sei. MATHIAS. Parabéns. Você tem futuro! CAMARÃO (Brincando). FREI. Quem trai a Holanda protestante n ã o trai o Papa. Cuidado.

ou mesmo durante. a sua piedosa colaboração vai evitar os suplícios de uma dispensável tortura. Acerta o laço e tece o fio Que enforca Calabar.Só me resta esperar e até querer Que tudo fie fino. ao Estado as informações de guerra. Frei. Frei Ma. a Espanha e toda a intriga. que eu represento. ( s o u r o sai. MATHIAS (Para o FREIJ. É bom pensarem duas vezes. O segredo da confissão é inviolável. a . Além do mais. Eu sou aquele que. FREI. A Deus. custe o que custar. Antes ou depois da confissão.) Quero ficar sozinho para meditar. E como tal será respeitado. Porque neste Pernambuco eu r a. Uma vez que o tutano De tio podre não merece um outro osso. FREI. porque. E se vocês rirem de mim.| noel. Entendido. MATHIAS. Se eu for alvo de chacotas e chalaças. E vocês.. e o encaminhe para que não perca a alma. Governador! MATHIAS. SOUTO. Mandem preparar o cadafalso. Frei Manoel. as coisas da alma. E se mando matar Domingos Fernandes Calaba moço nc| É porque uso o tino. Mas antes vá confessá-lo. Se for ridículo na jaqueta de veludo Ou nas ceroulas de brim.. (Sai) MATHIAS. Ou porque falo tanto de caganeira e bacalhau. Com a Holanda. ainda mesmo assim Com lombrigas dançando dentro da barriga.. pois com tanta infâmia já perdeu a vida. Alferes Sebastião do Souto. (O FREI vai saindo) Um momento. procure assegurar-se de que ele não carrega para o túmulo alguma informação do interesse geral..

MATHIAS (Desanimando). De aquém e de além-mar em África. Fui beijada por Gaspar. obrigada. .. Sumatra. Até amanhã Sou Anna Da cama. do lixo. Anna do beco sem saída. Até amanhã Sou Anna Do cabo. do raso.. Malaca e Molucas! ANNA. das pernas. Anna da Rua Larga. das trocas.. Porto Calvo. Cabo Verde. dos bichos.. Ormuz e Macau. da Espanha. da venda. Mané. Da compra. ANNA. de Nápoles. ANNA. Guiné. Sou Anna de Amsterdã. Ocidente. Piauí. E eu sou Anna de Amsterdã. Pepe. do rabo. gelada. fulana. ANNA (Acordando). Goa. Giovanni. Açores. da Sicília e da Sardenha.. Henri. Timor. das fichas. Damão e Diu. Fiz mil bocas pra Solano. dos ratos. Sou Anna do Oriente. Angola e Moçambique. sacana.. Niterói.. Madeira.. Sou Anna. Porto Alegre. Sou Anna de Amsterdã. Maranhão. MATHIAS. Dos braços. Sou Anna das loucas. acidente. da cana. Sou Anna de toda patente das índias. Sou Anna de cabo a tenente. rei de Portugal e Algarves.sou Dom Felipe. ANNA canta Anna de Amsterdã: Sou Anna do dique e das docas. das bocas. Eu cruzei um oceano Na esperança de casar. MATHIAS. Paraíba.

E depois o deixei só por uma hora para que ele se aparelhasse como convinha. E me mandou que entregasse esses apontamentos a sua mãe. Hoje sou jogo de azar. Bem. fez certos apontamentos de dívidas e obrigações. das pratas. MATHIAS. segundo o que o juízo humano pode alcançar. FREI. e alfaias de seda que no Arrecife tem. À merda com o juízo humano.Arrisquei muita braçada Na esperança de outro mar. e de boa quantia que os holandeses lhe devem do seu soldo e de algumas peças de ouro e prata. Os nomes? FREI. o que eu pontualmente farei. Por três horas. para que dali se paguem algumas dívidas em que está obrigado. Até amanhã Sou Anna Das marcas. Hoje sou carta marcada. com muito e verdadeiro arre pendimento de seus pecados. . Sou Anna de Amsterdã MATHIAS. E então? Esteve com o homem? FREI. MATHIAS. E ele confessou? FREI. visto que hoje teria que dar contas a Deus. Sou Anna de vinte minutos. Vi-o pela manhã e lhe disse o que importava para sua salvação e que se preparasse para confessar. Com muitas lágrimas e compunção de espírito. Ângela Alvres. que durante a canção ensaiava com ANNA alguns passos obscenos. das maças. MATHIAS. Sou Anna da brasa dos brutos na coxa Que apaga charutos. Quero saber se Calabar apontou nomes. das vacas. sou Anna dos dentes rangendo E dos olhos enxutos. i surpreendido pela chegada do FREI. MATHIAS. No meu entender.

Os moradores entoam o refrão do Miserere nobis. Outros irão vender sua terra. O povo. Outros terão delatado amigos. E deu os nomes? MATHIAS. MATHIAS. na minha presença e na do escrivão. três horas da tarde se tornou a reconciliar com as mesmas lágrimas e mostras de arrependimento. Como não? FREI. Foi quando o ouvidor. FREI. os filhos. Outros terão se sujado as calças. Ao que ele respondeu que muito sabia e tinha visto nessa matéria. Isso veremos. a alma. a mãe. MATHIAS..Frei. MATHIAS. a cama. ÀS FREI. lhe perguntou se sabia que alguns portugueses haviam sido traidores e tratavam com o inimigo secretamente. você nunca foi burro. Excelência. o que eu quero saber. Disse que de presente não se atrevia a furtar o tempo que lhe restava de vida a ocupar-se a fazer autos e denunciações por mão de escrivão. BÁRBARA vai-se destacando dos moradores. O traidor se chama Calabar. A casa. FREI. Mas. O que ele me deu licença que lhe contasse são coisas pesadas que eu gostaria de tratar consigo em particular.. os rios. Calabar. Os dois se encaminham para um canto escuro. Mas esses sabem se portar. Outros terão levado propinas. Mas esses voltam pra jantar. os grandes culpados não estão na arraia-miúda. as árvores e os frutos. Segundo o que me disse Calabar. N ã o . cuidado. . levando-lhe ou mandando-lhe avisos do que entre nós se fazia. Outros terão levado segredos.

Luz em MATHIAS e no FREL Frei. porque muitos desgostos e trabalhos podem vir daí. Me perdoe. mas brasileiro por nascimento e afeição. Se encurrala. eu não seria digno de . E para sua redenção. MATHIAS. MATHIAS. | FREI. antes de partir quero me confessar. amanhã não estarei mais aqui.. O melhor traidor é o que se escala.. às vezes tenho pensado neste meu país. Excelência! Que Deus. MATHIAS. Governador. Certo. MATHIAS.. Claro. Frei Manoel. Se amarrota e não estala E cabe dentro da mala. Isto já são assuntos de Estado e não da Igreja. claro. se apunhala E se espeta numa vala. FREI. claro. de sangue e nome português. MATHIAS. Se despeja numa vala E não se fala na sala. É provável que nunca mais nos vejamos nestas terras. Que Deus o perdoe. claro. Corpo pronto para a bala. imagino-me colocando o amor à terra em que nasci acima dos interesses do rei que me governa. que não se toque mais nas indiscrições desse traidor para não levantar poeira. (Ajoelha-se) Eu.. A terra pulsa. E nesses devaneios minha terra não suporta mais as trevas e a opressão de Espanha e Portugal.O traidor se chama Calabar. Mathias. parece que qualquer caminho é legítimo. Caso contrário. Até mesmo uma aliança com os hereges holandeses. blasfema e se debate dentro do meu peito. Portanto. E em meus devaneios. Que Deus o perdoe. Oh. FREI. FREI.

nforcar um homem. Com baraço e pregão. etc. Podem dar início à execução. soldados trazem um homem para a execução. para que sua punição sirva de exemplo. nega Mas não lava. Deus certamente perdoa. OFICIAL.. vamos abandonar Porto Calvo dentro de poucas horas.. (Rufos) BÁRBARA.. Salta e se ilumina . MATHIAS (Vara o oficial).. E também pra me perpetuar Em tua escrava Que você peça. Em claro-escuro.e seu corpo esquartejado. Bem. Quero brincar no teu corpo feito bailarina Que logo te alucina... (Rufos) .. Quero ficar no teu corpo feito tatuagem Que é pra te dar coragem Pra seguir viagem Quando a noite vem.. para que palavras perniciosas não sejam escutadas.. (Sai) Subitamente iluminada.. OFICIAL (Entrando). esfrega. e ao som de tambores. BÁRBARA...por traidor e aleivoso à sua Pátria e ao seu Rei e Senhor... a sentença do OFICIAL e o rufar dos tambores. mas tão insensato quanto os meus devaneios. . FREI.. Sim. enquanto se ouvem. E a memória dos homens é curta. MATHIAS (Levantando-se). Q u e antes se queime tudo o que possa vir a servir ao inimigo e que Calabar seja executado em praça pública. Excelência. Que seja morto de morte natural para sempre na forca. BÁRBARA canta Tatuagem. brasileiro c o m o eu.. salgado e jogado aos quatro cantos. Hum. para que ninguém falte ao espetáculo. (Dá a absolvição em latim) Ego te absoluum.. entremeados na canção. (Rufos) .... £ que Deus e os homens nos perdoem por nossos caminhos se terem cruzado assim.

Toco fogo nos quilombos. E nos músculos exaustos Do teu braço Repousar frouxa.. A ferro e fogo Em carne viva. . ... Pra catar preto e mulato. Sereias e serpentes Que te rabiscam o corpo todo Mas não sentes.. " Quero pesar feito cruz nas tuas costas Que te retalha em postas. O meu nome é Henrique Dias E sou capitão-do-mato..Quando a noite vem. OFICIAL. (Rufos).. DIAS e CAMARÁO. Quando a noite vem. Último rufar de tambor misturado ao grito lancinante de BÁRBARA. Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva.. E seus bens confiscados e seus descendente! declarados infames até a quinta geração. OFICIAL. BÁRBARA. FREI (Fazendo o sinal-da-cruz). Marcada a frio. murcha. para que não perdurem na memória. (Rufos) ... (Rufos) BÁRBARA.. Coração de mãe... casa seja derrubada pedra por pedra e salgado o seu cbT para que nele não cresçam mais ervas daninha* e (Rufos). Mas no fundo gostas.. Morta de cansaço. Viremos a página e tratemos de nos mirar no exemplo dos grandes heróis da nossaj Pátria.. Acordes lentos e solenes do tema Vence na vida quem diz sim acompanham a entrada de SOUTO.. arpões.. farta. DIAS. . Para que sirva de exemplo.

Quando dei por mim. ANNA. Minha história é tão medonha E de tão repelente memória Que a História até tem vergonha De pôr meu nome na História. que são uns analfabetos e antropófagos e hereges e traidores. Trocou um olho por uma medalha e um braço por uma vitória. Me chamam Sebastião Souto E algumas coisas mais. Enquanto BÁRBARA olha fixamente os três heróis. E se eu morrer não me amolo. Vence na vida quem diz sim. Cavaleiro do Hábito de Cristo. espirro. patrimônio e patente. e é hoje o mais leal soldado que El Rey tem nesta guerra. FREI. prata. Negro na cor. porém branco nas obras e no esforço. Bebo. desse falaremos mais tarde. ANNA entra e canta a primeira estrofe de Vence na vida quem diz sim. Bem. SOUTO. Tenho até notado que ele está ficando um pouco mais claro. Pgg. Mas do novo Deus cristão Fiz minha rede e meu amo. CAMARAO. já era Tarde pra voltar atrás. Em tupi. FREI. Minha graça é Camarão. Que um índio bom nunca berra. Este índio nasceu entre os selvagens tapuias. Vence na vida quem diz sim. . Eu tenho uma alma tão branca Que já ficou transparente. Recebeu o título de Dom e o nome batismal de Antônio Felipe Camarão. mato e esfolo No ramerrão desta guerra. Este sim. Vejam bem.Ganhei foro de fidalgo. Poti me chamo. um gênio da raça.

Vence na vida quem diz sim. Do que é que você está falando? Eu também não ouvi nada. N ã o vi nada. Vem Bárbara. DIAS (Irônico). Mordem o decote. DIAS. eles não podem te ajudar. SOUTO.. Diz que sim. CAMARÃO. Vence na vida quem diz sim. de gripe. O major holandês. ANNA. Eu gostaria de poder dizer alguma coisa. CAMARÃO.. Eu acabei de chegar. mas não sei o quê. Se te deixam louco. Se te dão um soco.. Bárbara. Se te alisam com o chicote. O que é que você acha? No macho dela. Mas um homem morrer assim. Diz que sim. Eu gostaria de saber o que ela está pensando.Se te dói o corpo. O morto.. CAMARÃO. eles caem de repente. mas é sempre de repente. decapitados... Calabar. ANNA. O que é que você quer com ela? Deixa ela em paz. SOUTO. Meus olhos cansaram de ver. Se te babam no cangote. Diz que sim. com anúncio de . CAMARÃO. Diz que sim. SOUTO. ANNA.. é claro. Os índios. De bala.... de bebedeira. A guerra tem todos os direitos.. Como se Deus dissesse: páral SOUTO.. Torcem mais um pouco. É só o que há para dizer. Olha bem pra mim. DIAS.

Bobagens.tambor e hora marcada. Bárbara.. Se morreu assim foi porque merecia. Te deitam na cama. vamos embora. DIAS. mas o estômago não se acostuma.. Vence na vida quem diz sim. Mas que falta de imaginação! SOUTO. Se te largam moribunda. Os olhos cansam de ver. Crioulos e Mulatos de Pernambuco. Se te chamam vagabunda. Diz que sim. Se te jogam lama. Essa podridão é a definição da carne. Vence na vida quem diz sim. O que me assusta na morte é o cheiro que ela vai trazendo ao corpo.. Diz que sim.. E você não tem medo de morrer assim? DIAS. DIAS. DIAS. . Se te criam fama.. Governador dos Pretos. Vence na vida quem diz sim. Mas quando ela chega já não tem definição. BÁRBARA parece despertar do torpor em que se encontrava. ANNA canta a segunda estrofe de Vence na vida quem diz sim: ANNA. Eu conheço você. O que pode assustar na morte é a própria morte. Montam na cacunda. é sempre desconcertante.. CAMARÃO. Olha bem pra mim. ANNA. O que me assusta na morte é que é o único momento em que o homem está verdadeiramente sozinho. Diz que sim. Diz que sim. É essa solidão é a verdadeira definição do medo. Vence na vida quem diz sim.. Pra que tanto drama. ANNA. Meu nome é Henrique Dias. Eu não tenho medo de nada. BÁRBARA..

escreva à Sua Majestade. Nós somos soldados. E você. pela causa certa. só isso. Foi uma cilada. não pôde reagir. Governador e Capitão-mor de Todos os índios da Costa do Brasil BÁRBARA. DIAS. Nós? SOUTO. Vocês foram amigos.. CAMARÃO.. BÁRBARA. não teve defesa nem foi condenado. Se tem alguma reclamação. ANNA (Irônica). Tem aí um capitão-mor não sei de quê. CAMARÁO... Bárbara. Fomos. Não foi julgado nem nada. Quando ele lutava ao nosso lado. Ele morreu na forca... não sei. Todo mundo sabe que foi feito um acordo para a rendição da cidade. BÁRBARA. DIAS. BÁRBARA.. Antes. A culpa é do rei e do carrasco. E agora vocês o mataram. Não lhe deram nem a satisfação de morrer na guerra. Eu digo abrir CAMARÃO. Toda a cidade sabe disso! CAMARÁO.. BÁRBARA. Vocês todos lutaram ao lado dele. um governador das negas dele. o Rei. DIAS. Havia um acordo. Nós não temos nada com essa história. é Sebastião do Souto.Eu sou Dom Antônio Felipe Camarão. SOUTO. Vamos embora. BÁRBARA. mas não tem um homem pra abrir a boca numa hora dessas... Cilada também faz parte da guerra. . BÁRBARA. Nem digo abrir a boca pra salvar a vida de ninguém. dirija-se ao carrasco. SOUTO. Eles não têm nada com isso.. moça. O que houve foi um assassinato! Um prisioneiro de guerra morto a sangue-frio! Vocês são soldados e sabem disso muito bem. um desacordo. Vocês o traíram! Todos vocês.. Parece que houve uma contra-ordem.. A guerra tem todos os direitos. Foi executado e ponto final..

eu sou chefe. hoje eu sei o suficiente para poder comandar. moça. O que é que você sabe. engoli em seco e. A gente não pode saber as razões de tudo o que acontece... às vezes acontecem uns excessos. O suficiente para não se importar de ser negro? Ora.boca pra resguardar a própria dignidade. E a gente não pode controlar tudo. . Não tem um homem nesse exército! MARAO... É. soUTO. BÁRBARA. Eu sei qual é o meu lugar. A guerra me libertou e me engrandeceu. EU sei o suficiente. Meus pais foram escravos e eu sofri na carne a chibata e a humilhação.. Sei a quem devo as armas que manejo. O suficiente para quê? DIAS. Eu lutei. aí serei um homem respeitado. niAS. BÁRBARA.. E um lugar na forca para quem não pensa do mesmo jeito. Henrique Dias? DIAS. índio ou alemão. BÁRBARA. Nem deve. bem. E daqui eu saio pra seguir vencendo. por exemplo. Mas disse que ia vencer e venci. DIAS. essa. E o suficiente para não cuspir no prato em que comi. Então eu estou aqui para provar que há sempre um lugar ao sol para quem levanta cedo. quem não nasce senhor de engenho é malnascido. os coturnos que calço e tudo o que sou. BÁRBARA. BÁRBARA (Após uma pausa). perdi um olho. Escuta. até que não sobre um holandês nesta terra de Deus. de tanto ser comandado. Para não ser um desertor. Pois eu não sou.. Os outros negros são escravos. matei. E quando a guerra acabar. Senhor de muitos engenhos e com seus próprios escravos. Quem sabe mais do que pode só arranja problemas. DIAS. Nesta terra. DIAS. Por que iria me importar de ser negro? BÁRBARA.. seja preto.

Sabe. acho que não sou. A luta contra os brancos.Por que não? A minha dinastia começa comigo mesmo. Teu homem recebeu a cama feita e mijou em cima. Ha-ha-ha-ha-ha-ha. se posso arranjar uma alma e ficar de conversa com Jesus Cristo até o fim dos dias? BÁRBARA. tudo isso foi obra de jesuíta português. E quem é que me obriga a falar feito índio? Eu também posso pensar em português. a inteligência. CAMARÃO. Você também é um belo exemplo para o seu povo. pra que é que vou querer virar lua. E daqui eu saio com ele até o fim da guerra. e deste pro curumim do curumim DIAS. Mas foi o português quem me deu o uniforme. pedra. ANNA. CAMARÃO. BÃRBARA.. se posso arranjar um mosquete? E quando for pra morrer. Meus filhos vão ser quase iguais aos brancos. raio de luz.. CAMARÃO. o erro do teu homem foi desrespeitar a lei das coisas. É escusado perguntar por que é que você luta ao lado do branco. Ele está certo. Certo. Dom Camarão. De todos os lados é uma guerra de brancos. Minha raça começou a morrer no dia em que o primeiro civilizado botou o pé nas Américas. os números. CAMARÃO. Eu sei de índios que lutam a luta dos índios. sem mágoa. bicho. como cristão que sou. BÁRBARA.. cachoeira. o mantimento e o Evangelho. . nem parece saído da boca dum índio. Isso dito assim. As letras que ele aprendeu.. Não. BÃRBARA. E lhe garanto uma coisa: filho meu não vai conhecer chibata nem humilhação. dona. Por que é que eu vou pra guerra de azagaia. Meu nome não vai entrar nos contos que o índio pai conta pro índio filho e este pro seu curumim. A luta contra o tempo. CAMARÃO.

Se te cobrem de ouro. não está todo espeta- . BÁRBARA.. Olha bem pra mim. Podia Calabar ter suspeitado das minhas manobras. Eu o quê? Eu vou em frente. Escuta. SOUTO. Não. SOUTO. O que está feito. Vence na vida quem diz sim.. Sebastião do Souto. Você está arrependido do que fez.até que não vai ter mais curumim nenhum pra escutar esses contos. Se te xingam a raça. Se te incham a barriga De feto e lombriga. E você. eu preciso entender uma coisa. Vence na vida quem diz sim. Podia ter sido diferente. BÁRBARA. BÁRBARA. sem saber por que me arrependo a cada instante. Diz que sim. Nem por isso compra a briga. Diz que sim. Se te puxam o saco. está feito. BÁRBARA. Diz que sim. Agora vamos. Eu estou sempre arrependido. É. Vence na vida quem diz sim. Diz que sim.. Vence na vida quem diz sim. O meu nome vai ficar nos livros que o branco manda imprimir para sempre.. podia. Você não é comandante. Podia o Holandês ter evitado o confronto. Sebastião do Souto? SOUTO. Se te mandam embora. ANNA canta a terceira estrofe de Vence na vida quem diz sim: ANNA. Bárbara. Eu queria não ter dúvidas. E quem podia estar pendurado ali era eu.

. pelo domínio dos mares. eram hereges. que motivo o levou a trair Calabar* SOUTO. acreditei. Por que holandês? Não sei. alemães. e eu achei muito normal. imitou Calabar ° viu os sonhos dele. Achei normal me bandear. mas disseram que era a luta entre Deus e os diabos. Mais q uma recompensa. Saques. massacres. E sempre fiz o que vi ser feito. Motivo? Motivo. Não perguntei nada. por questão de mulher. Depois desconfiei que se matava e morria pelo comércio do açúcar. uma ambição. franceses. De repente eu era um sargento português. não senta à mesa das autoridades um subalterno. do sal. me explica. por dívida de jogos. Falaram em religião. sempre achei tudo normal na guerra. porque os portugueses estavam pagando em dia. como? BÁRBARA. com todo um batalhão de flamengos. italianos. pro lado dos portugueses. Tem que haver um motivo muito forte. batizados. Vai ver que gostei do colorido. pelo tráfico de escravos de Angola e da Guiné. E achei que seria normal executar 200 índios tapuias porque. compreendeu.do de medalhas. emboscadas. Motivo forte? Eu? Eu não tenho um motivo sequer para estar nesta guerra. Um ano depois. polacos. uma honra ao mérito. É pouco mais que um menino. por acaso.. por carne-de-sol. mesmo porque não conheço outra oficina. pelo ouro e pela prata. quando o mesmo batalhão desertou de volta pros holandeses. a troco de perdão e de um soldo dobrado. Depois executamos outros 120 índios. Então. 3 Ü Ue IÍÉIBBU^mIi i rifluiui A . que também achavam normal lutar pela bandeira que pagasse mais. achei normal voltar também. sem perguntar nada. Tornei a mudar outras vezes. já era um praça do exército holandês combatendo na Paraíba. Quando eu me dei por gente. Combati normalmente sob as ordens de chefes espanhóis. Você que march* com Calabar. sendo aliados dos flamengos. tem t ^ ^ vida pela frente. conviveu. SOUTO.

na forca. Ah. subalternos desleais. como eu. SOUTO vai por último depois de cantar Eu vou voltar. E continuo achando normal que. agora está explicado. e aceitei. Louco. dos grandes soberanos dessas nações. Ou porque não sabe a resposta. gente sem juízo e gente sem princípios. Se tem um louco nesta história. BÁRBARA. SOUTO.j CAlAB AR ansporte da pimenta. dos acionistas. Basta! Você está proibido de pronunciar esse nome! SOUTO. a minha loucura é a lucidez. que aliandessem e se desmanchassem. Nem podia entender. sim! Calabar era um louco! Porque de uma dúvida ele fez uma certeza! BÁRBARA. Então vou estar pronto pra voltar. da noz-mos°do pau-brasil. DIAS e CAMARÃO juntam-se à soldadesca. BÁRBARA. Louco é quem faz perguntas que não pode responder. da cochonilha. Você nunca entendeu a luta de Calabar. Não. e visionários como ele. porque você está louco. contanto que os fioescudos. as libras e as pesetas continuassem dando nos cofres da nobreza. Vou voltar Quando souber acreditar Que há porquê. qualquer que seja o resultado de todas as guerras. no lixo dessas guerras sobrem escravos e miseráveis. dos agiotas. no quê acreditar. Achei bem normal que as des nações disputassem o mundo entre si. ou porque o preço da resposta certa é o preço da própria vida. o seu nome é Domingos Fernandes Calabar. Vou provar a dor atroz Que faz um animal falar Ê vou calar. Cala essa boca! p a f a g e ç a S Q S n Passam em retirada as tropas de MATHIAS DE ALBUQUERQUE. .

que serve de fundo às palavras de ANNA.. mansamente. ANNA. eu vou te arregalar meus olhos Cegos de tanta quimera. Vou sangrar Quando tiver por quem e a quem sangrar. o pranto. se no céu. BÁRBARA. Eu vou voltar. Bárbara. estropiado. Foi todo mundo embora. o luto. ANNA.Orgulhoso. o horror Em cada alqueire E ver que flor inda é capaz de dar No banho bruto da tapera Eu vou voltar. como que gemendo. Vou. depois desvia o olhar para a bacia. quando perdi uBHlifll^HKall . Vou trazer a flor brejeira Do sertão em primavera E uma constelação inteira em meu olhar. covardes! Fora! Amparada por ANNA. Estão todos proibidos de pronunciar esse nome! Fora. eu vou voltar E espalhar O espanto. Você não pode ficar aqui sozinha! BÁRBARA. Traído. Bárbara! BÁRBARA olha a holandesa. Espera. ANNA. Me espera. sim Eu vou voltar. Alguma estrela duvidar Aquela estrela eu trato de apagar. E.. Se eu me lembrasse ainda do que senti. triunfal. entoa lentamente Cala a boca. BÁRBARA senta-se e remexe o sangue de Calabar numa bacia.

E. Ele morreu. E quando o nó fechou. Ele morreu de morte matada. Vamos para casa. ANNA. BÁRBARA. Senão a gente ia ter que lembrar junto umas coisas que agora você precisa esquecer. Eu. BÁRBARA.. Eu não tenho casa.. É triste dizer isso. .. Eu amo quem me paga... Calabar era mais esperto e mais forte que todos esses exércitos juntos. BÁRBARA. Puxa... É sempre assim.. mas nem tenho mais a certeza da cor dos seus olhos. Você é casada? ANNA (Ri). Mas foi há tanto tempo. eu estremecia de prazer cada vez que ele me olhava. isso eu já sei.. eu tenho tantos. ANNA. Eu sim. Eu amo Calabar. BÁRBARA. Você ama alguém? ANNA. como um animal qualquer. ANNA. Eles não eram capazes de matar Calabar. Mas talvez seja melhor assim. BÁRBARA. eu nem te conheço direito. Mas pra você eu sou Anna.. EU não vou esquecer.ela primeira vez o homem que eu amei. Só Anna. como se quisesse afastar para longe uma idéia que teimasse em dominá-la. as vísceras saindo pela boca. Como estremeço agora. ANNA... Qual é o seu nome? ANNA. Chega! ANNA.. Xi. N ã o fala a s s i m . Amo... Ora. BÁRBARA. estrebuchou e tudo. Calabar não se mata assim tão fácil. mas é só de safadeza. Depois encara a holandesa. no entanto. Vem comigo. talvez pudesse te dizer alguma coisa.. hein? De onde é que você tirou isso? BÁRBARA.... BÁRBARA. o pau ficou duro. BÁRBARA.. Eu não deixo! ANNA.. BÁRBARA sacode a cabeça.

BÁRBARA. vai acordar esses senhores no meio da noite. Mas Calabar não é um monte de sebo. porque ela é feito cobra-de-vidro.BÁRBARA (Como se pronunciasse uma palavra »<*nha) Anna.. o teu verão. mil pedaços. Eles vão dizer: que porra de idéia é essa? Eles então vão querer matar a idéia a pau. Sabe. O seu veneno incomodando A tua honra. Anna. Vão amarrar a idéia pelos pés e pelas mãos.. Aos quatro ventos os seus quartos. A idéia é dessa gente. eu vou contar uma cois pra você. banido. esses vão se coçar vão fazer pouco dela. que quando se corta em dois. bem guardada feito um mingau esquentando por dentro. E o povo sabe e jura que a cobra-de vidro é uma espécie de lagarto. é até bom eles pensarem que matar ° Calabar. Uma amiga. Seus cacos de vidro. nã Eu sei que Calabar deixou uma idéia derramada na terra A gente da terra sabe dessa idéia. vão achar que é um bicho-do-pé. Depois essa idéia maldita vai começar a aperrear e aperrear o pensamento desses senhores.. vão querer partir a espinha dessa idéia. Uma amiga. vão pendurar a idéia num poste. mesmo que ande com ela escondida. colhe essa idéia e gosta dela. três. Esquartejaram Calabar e espalharam por aí seus pedaços. Aos quatro cantos o seu corpo Partido.. BÁRBARA canta Cobra-de-Vidro: BÁRBARA. facilmente se refaz. Mas nem adianta esquartejar a idéia e espalhar seus pedaços por aí. Presta atenção! Presta atenção! Aos quatro cantos suas tripas. es S 0 . ANNA. Os que não gostam da idéia.

N ã o posso deixar nesse momento de manifestar um grande desprezo. a plantação. Intervalo.De graça. Seu grito medonho. não sei se pela ingratidão. O seu veneno temperando A tua veia. 0 seu veneno arruinando A tua filha. Aos quatro cantos os seus quartos. o teu feijão. Presta atenção! Presta atençãol Aos quatro cantos seus gemidos. Seus cacos de cobra. Presta atenção! Presta atençãol Presta atençãol Presta atenção! Ao som de Cobra-de-vidro. de sobra. pela covardia ou pelo fingimento dos mortais. Seus cacos de sonho. BÁRBARA dirige-se ao público: BÁRBARA. A os quatro ventos os seus quartos. .

NASSAU (Off). Eu. aqui deste meu porto como um gesto de conforto a algum estranho herói de contorno incerto no porto de um povo de imaginação. carregado de títulos. conde holandês da mui nobre casa dos Orange. . idéias e um compromisso tácito com o sangue derramado por desconhecidos. repito. que tantos reis e guerreiros têm dado ao meu país. Eu. talvez. A luz descobre NASSAU. Sobe o pano.Segundo ato Primeiros acordes do hino holandês. Tu não morreste em vão. NASSAU. em terras do Brasil. um estranho epitáfio dirigido a estranha gente de um estranho continente de contorno incerto num mapa de imaginação. Maurício de Nassau. Tu não morreste em vão. Eis. como Governador-geral plenipotenciário a serviço e mando da Companhia das índias Ocidentais. num tombadilho sombrio. Maurício de Nassau-Siegen. armas. a bordo de um sonho grandioso. embarco neste ano de 1637 a caminho de Pernambuco.

Ou será em vão que rasguei esses trópicos. va. será em vão que adivinhei a terra nova. entre medo e coragem. Eu. que algum dia algum homem n'algum lugar tenha conhecido morte que nao fosse Mas tu não morreste em vão. Embora seja mais difícil dizer isso quanto mais avisto o teu mundo no horizonte verde e vivo e a paisagem definida sem qualquer ressentimento da tua ferida. .cambaleando entre as ondas. duvido firmemente. Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu cobertor. e essas palavras serão vãs de um holandês sem palavra. não morreste em vão. será em vão que piso a terra nova. entre ansiedade e náuseas. que beijo a terra que beijavas. governante e mercenário. entre norte. Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Maurício simplesmente. ANNA puxa o frevo Não existe pecado ao sul do Equador. sem nenhuma testemunha e sem Bíblia na mão e sem porra nenhuma na cabeça. entre fidalgo e corsário. entre bêbado e sonâmbulo. em nome dos Santos Mártires. Não. sul e tempestades. NASSAU beija o solo.

Foi para retratar tanta beleza que eu trouxe comigo pintores. Vamos fazer um pecado. teu cacho. Un des plus beaux pays du monde! MORADORES. Que eu sou professor. Quando é lição de esculacho. Acompanha-o um séquito de pintores. médicos etc. E astrôno- .. olhai.. sai debaixo. A Veneza brasileira.. me abusa. vem comer. me bota na mesa. MORADORES. teu cacho. c'est. olhai. diacho. lambuza. NASSAU é fortemente aclamado. me jantar caruru. É poeta! Diz mais! MORADOR. Não exageremos. tucupi. E arquitetos para construir palácios. Suas impressões do Recife. MORADOR.. Vê se me usa.. safado. É o maior. A orquestra prossegue com o frevo rasgado. Não existe pecado do lado de baixo do Equador. E a mulher brasileira? E a nossa música? E as nossas praias? NASSAU. CONSULTOR.Me deixa ser teu escracho. Os moradores e senhores de engenho portugueses cercam NASSAU.. Um riacho de amor. astrônomos. Quando é missão de esculacho.. Diz mais alguma coisa! Mais! NASSAU. Que a tua holandesa não pode esperar. sai debaixo. Vê se me esgota. NASSAU.. debaixo do meu cobertor. me jantar Sarapatel. Um riacho de amor. Eu sou embaixador. O que é que o príncipe achou do Brasil? NASSAU. vem comer. Sarapatel. caruru. C'est. tacacá. tucupi. Me deixa ser teu escracho. Que a tua cafuza não pode esperar. tacacá. capacho. Deixa a tristeza pra lá.. Deixa a tristeza pra lá. sous le soleil! MORADORES. naturalistas. capacho. Pas de pareil..

agricultores. Em breve teremos aviários. e esta região.mos para contar as estrelas. que mais. Como Governador-geral de Pernambuco a minha maior preocupação é fazer felizes os seus moradores. essas guerras incessantes têm arrebentado com a produção.. E botânicos para cheirar a matas.. Obal NASSAU. O b a ! NASSAU. . quero provar que a colonização holandesa é a mais benéfica. alfaiates. Infelizmente. Minha intenção é fazê-los felizes. sejam portugueses. assim também já é demais. Mesmo porque eles são mais da metade da população do Brasil.. CONSULTOR... jardins botânicos e zoológicos. com a concentração dos seus quase 350 engenhos. PAPAGAIO........ exigindo investimentos cada vez PAPAGAIO.... o primeiro observatório astronômico e meteorológico do Novo Mundo. ricos ou pobres. mas sim representando os interesses de todos os pequenos investidores — sapateiros. e até mesmo judeus. Príncipe. orfanatos. NASSAU.. NASSAU. Qual é o seu nome? Obal NASSAU. ferreiros. Príncipe. embora a Companhia das índias me dê poderes para tanto. Portugal e Espanha. domina a produção mundial de açúcar. gente como muitos de vocês que compraram essas ações com o suor do seu rosto e que constituem a grande maioria dos acionários. nesta disputa entre a Holanda. holandeses ou da terra. PAPAGAIO. protestantes ou católicos romanos. não exageremos. E naturalistas para estudar as aves. Príncipe. O que importa é que fique bem claro que não estou aqui em nome do Governo holandês. uma universidade. CONSULTOR. Além do mais.. CONSULTOR. NASSAU.. hospitais.

maiores no aparato bélico, e a Companhia das índias
fecha o balanço dos últimos 15 anos com um saldo deve-

dor a seus acionistas da ordem de 18 milhões de florins,
o que ao câmbio atual do cruzado... vejamos, o cruzado
a 400 réis, quatro vezes oito trinta e dois, sobe três...
(Atrapalha-se com os dedos)

Príncipe, essa explicação me parece descabida.
E é notório que os portugueses não entendem de finanças...
NASSAU. É, que se danem os cálculos... O que importa é que,
apesar dessas dificuldades, não vim trazer uma política
de repressão. Apoiado na unidade das nossas forças
armadas, que estão com seu soldo em dia, vim disposto à
confraternização e à colaboração mútua. Reduzirei os
impostos. Garantirei a portugueses igualdade de direitos
com os holandeses. E os moradores e senhores de engenho que, por desgraça de guerra, tiverem perdido suas
casas e plantações, têm a minha autorização para reocupá-las.
MORADORES. Já ganhou! Viva!
NASSAU. Vamos ampliar a cidade do Recife e ladrilhar suas
ruas. E na Ilha de Antônio Vaz ergueremos uma nova
cidade, projetada conforme os mais modernos conceitos
de urbanismo, do loteamento ao traçado racional de suas
avenidas, desde o embelezamento de seus parques até o
escoamento de seus esgotos. E a essa nova e suntuosa
cidade permito-me dar o nome de Cidade Maurícia.
MORADORES. Viva ele! Viva! Muito justo!
NASSAU. E para que Recife e Maurícia se unam numa só
cidade, darei início à construção de uma ponte magistral
sobre o Capibaribe. Pilares de pedra sustentarão esse monumento que nos unirá a todos solidamente, numa nova
era que se inicia. Uma era de paz e desenvolvimento.
MORADORES. Viva! Viva! Queremos paz!
CONSULTOR.

CONSULTOR. Príncipe, tudo isso é muito bonito, mas os p

0 r

tugucses continuam entrincheirados na Bahia, quando
não estão nos surpreendendo com sua guerra de embos
cadas. É preciso derrotá-los de uma vez por todas!
NASSAU. Calma, calma, cada coisa a seu tempo. (Para os
moradores, retomando a retórica) Enfim, eu e os meus
conselheiros desejamos ardentemente demonstrar a nossa
boa vontade para com os moradores de Pernambuco.
Teremos os ouvidos atentos para remediar os males que
surgirem. Tragam até nós as vossas aflições, que tudo
faremos para abrandá-las. Que todos se pronunciem, sem
qualquer constrangimento.
SENHOR DE ENGENHO. Muitos de nós, senhores de engenho,
tivemos as nossas máquinas destruídas...
NASSAU. Reconstituiremos tudo.
SENHOR. Não temos dinheiro.
NASSAU. Financiaremos.
CONSULTOR. Com juros, é claro.
SENHOR DE ENGENHO D. Faltam-nos braços para o plantio,
para a safra...
NASSAU. Forneceremos quantos escravos forem necessários... (Para o CONSULTOR^ Mande uma expedição imediatamente à costa da África!
SENHOR li. Mas, Alteza, nós não temos condições...
NASSAU. Debitaremos o custo dos escravos nos livros da
Companhia.
CONSULTOR. Por um justo preço. Um bom negócio é aquele
em que todos ganham.
NASSAU. Mais alguma coisa?
MORADOR. Alteza, há um problema angustiante por aqui: a
falta de mulheres... (Risos) Sim, Alteza, e as poucas de
que dispomos já pegaram a doença do país... (Mais risos)
E já que Sua Alteza permite que me pronuncie... sem
constrangimento... já estão dizendo que o Recife tornouse a capital, me perdoe, Alteza, a capital... da pederastia!

Q moradores, às gargalhadas e desmunhecando, explodem no
frevo Não existe pecado ao sul do Equador.
ASSAU. Aqui.
NASSAU juntou-se, acompanhado do consultor, ao grupo de
arquitetos, pintores, astrônomos, e iw/íai imperativamente um
ponto no chão.
NASSAU. Aqui devemos plantar a cabeceira da ponte. De
pedra, tudo de pedra e da melhor qualidade. Vinte e cinco pilares no rio vão sustentar a ponte que faz assim
(Descreve arcos com a mão) Assim... assim... até a outra
cabeceira do lado de lá, de pedra, é claro.
ENGENHEIRO. Príncipe, não vai ser fácil. Há um grande espaço do no que é muito fundo e o resto, com a baixa-mar,
hca seco. O terreno é arenoso e...
NASSAU (Vendo entrar o FREij. Frei Manoel do Salvador, estava esperando mesmo pelo senhor. De muitas das suas
qualidades de homem de letras e de suas virtudes me
falam os moradores de Pernambuco.
FREI. Bondade, Príncipe, bondade...
NASSAU. Gostaria que o senhor viesse morar no meu palácio.
Junto a mim, melhor me poderá falar dos anseios da gente desta terra e melhor poderá se dedicar aos seus estudos
de latim.
FREI. Muito lhe agradeço, Alteza, mas não posso. Os moradores necessitam freqüentemente dos meus sacramentos e
dos meus conselhos, e não seria justo o andarem-lhe
todos atravessando a casa e rompendo a sua guarda.
CONSULTOR. Príncipe, seria interessante que pudéssemos contar com a intimidade de alguns portugueses, para que, a
troco de alguns favores, fiquemos em dia com as insídias
do inimigo.
NASSAU (Para o CONSULTOR;. E OS mais próprios seriam os
padres, pois são eles quem de tudo têm melhor conhecimento...
s

N

graças ao Príncipe Maurício de Nassau! FREI. Que pessoa maravilhosa! O sangue real de onde provém o inclina ao bem. Príncipe! NASSAU.. Escreva aí. NASSAU. PAPAGAIO. o ataque à Bahia. sem bater. Ora. e a Bahia? NASSAU. q aceite o meu convite.. Príncipe. Perdão.. FREI. É para a Companhia das índias Ocidentais. a Companhia precisa saber que atravessamos o Atlântico e não o Rubicão. Por quem sois. o que me seria mui penoso. Escrivão! ESCRIVÃO.. onde todos notem meu modo de proceder e sejam todos fiscais de minha vida e costumes.. Frei. Eu insisto. pois. Não. (Para o CONSULTOR^ Ou você pensa que eu já não .! Está restaurada a liberdade de culto no Brasil. Mas o Príncipe sabe que eu sou um homem enfermo de corpo.. Sim.... (Para o FREI. üe NASSAU. Pelo menos venha morar dentro das fortiíicações. (Para NASSAU. O h ! Convém que eu viva fora de sua casa. seus criados e familiares e me vejam descomposto no traje... Já chegaram os refor- ços da Europa? CONSULTOR. (Após beijar a mão de NASSAU. O b a ! CONSULTOR.. (Para o outro lado). Pois é. (Para o CONSULTOR.(Para o FREI) Ad ilustrae figurae fratem Emmanuelem Salvatore Religiosum ordinis Sancti Paoli de Província Portugaliae importancia non habet. Ah. porque ainda que eu ande a comer meninos. Vou mandar construir-lhe uma casa vizinha ao Palácio..... NASSAU. (Para o ENGENHEIRO. e algumas vezes me será necessário estar despido e outras gemer e chorar e não quero que me entrem por a porta. Uma casa com oratório aqui para o Frei Manoel! FREI. É o nosso homem. sim.

ria atacado a Bahia se eles tivessem mandado a armada
que me prometeram? Escrivão!
ESCRIVÃO- Sim, Alteza.
NASSAU. Enderece a carta à Companhia das índias Ocidentais.
ESCRIVÃO. Já está endereçada, Alteza...
NASSAU (Para o CONSULTOR,). Pois se eu mal cheguei e já
reconquistei Porto Calvo! E desci até Penedo, onde construímos aquele forte... o Forte... qual foi mesmo o nome ^
que você sugeriu, escrivão?
2
ESCRIVÃO. Forte Maurícia, Alteza.
jB
NASSAU. É, Forte Maurícia... Bastava cruzar o rio São Fran- £ CR
cisco, descer um pouco mais e dominar a Bahia, não é - z
simples?
£ ^
CONSULTOR. Sim, Alteza.
j| 6
NASSAU. Não! Não é simples coisa nenhuma. Esses danados
desses portugueses podem ser burros, mas não têm nada g; ^
de covardes... Os tempos mudaram. Já não se pode ape- O o
nas chegar, comprar, transportar e revender... Agora é ç>
preciso também controlar a produção... Colonizar! É 5
preciso colonizar... Escrivão! Onde diabo se meteu o Q
escrivão?
5
ESCRIVÃO. Aqui, Alteza, com a carta endereçada à Companhia das índias Ocidentais.
NASSAU. Não é nada disso. Quero escrever diretamente ao
Conselho de Estado... (Para o CONSULTOR^ Colonos... Entendeu bem. Precisamos de colonos!
ESCRIVÃO. Colonos...
NASSAU. Peço ao Conselho de Estado Holandês que me mande os refugiados de guerra alemães que, desterrados e bens
confiscados, se acolhem na Holanda... (Interrompe-se para
admirar a tela de um pintor) Que é isso, jovem?
PINTOR. É um quadro futurista, meu Príncipe. Retrata a futura Ponte Maurícia...

Ponte Maurícia? Quem foi que deu esse nome
ponte?
PINTOR. Fui eu, Alteza. Achei que soava bem...
NASSAU. Original...
ESCRIVAO. Original...
NASSAU. Solicito, pois, que se abram todas as prisões de
Amsterdã e se mandem para cá os galés, para que, revolvendo a terra com a enxada, lavem com suor honesto a
anterior infâmia e não se tornem molestos à Holanda
mas úteis.
ESCRIVÃO. ... úteis. Ponto.
NASSAU. Maurício de Nassau, abril de 1638, etcétera e tal...
(Dirigindo-se ao ASTRÔNOMO, compenetrado em sua
luneta) Vai chover?
NASSAU.

N

a

O ASTRÔNOMO, surpreso, larga a luneta, olha o céu à maneira dos

pescadores, estende a mão com a palma para cima.

ASTRÔNOMO. Acho que não, Príncipe...
NASSAU. Ótimo. Vamos conquistar a Bahia,

e assim todo o
norte do país será nosso. Cansei de pedir reforços, cansei
de esperar. Temos trinta navios, três mil e seiscentos europeus, dez mil ameríndios... e não vai chover. Atacaaaaaaar!

PAPAGAIO. Oba!

Sobe o hino holandês a todo volume, entrecortado por rojões. Aos
poucos o hino vai caindo de rotação, desafinando até parar, dando
lugar apenas aos rojões e, em seguida, ao silêncio. SOUTO e
BÁRBARA, frente a frente, à meia-luz.

BÁRBARA. Olá.
SOUTO (Com um sorriso malicioso). Olá.
BÁRBARA. O que... Souto? Sebastião do Souto?
SOUTO. Capitão Souto, por favor.
BÁRBARA. Você aqui no Recife? Ficou maluco?
SOUTO. Maluco da cabeça a prêmio por 1.800

florins à sua
disposição, se quiser me entregar aos amiguinhos da língua enrolada.

Você duvida?
O Duvido.
Se bem que... pelo visto, lhe seria bem-vin° da uma pensãozinha de 1.800 florins...
BÁRBARA. Pois olha que tenho feito de tudo na vida. Mas a
alcagüete ainda não cheguei não.
SOUTO. Olha, Bárbara, eu vim aqui... Eu não posso ficar
muito tempo...
BÁRBARA. Não pode mesmo. O que é que você está esperando?
SOUTO. Que você venha comigo
BÁRBARA. O quê? (Ri) Acho que não escutei bem.
SOUTO. Eu vim te buscar, Bárbara.
BÁRBARA. Adeus, Sebastião do Souto.
SOUTO. Bárbara, de três anos pra cá, tudo revirou. Você, a
sua raça, o seu coração, não tem mais nada a ver com
este mundo aqui. Esse Recife, esses palácios... Essas pontes, esses arcos, esse príncipe, isso tudo é um engano. Nós
estamos aí fora nas emboscadas, perdendo sangue, ganhando terreno dia a dia. Na Bahia, você precisava ver.
Os holandeses chegaram cheios de pompa, cheios dos
hinos e das trompas, e nós ali nos buracos. Quando o
tatu saiu da toca, eles fizeram meia-volta e estão correndo até hoje. Eu comandei um destacamento, você precisava estar lá pra ver...
BÁRBARA. Então você está de parabéns, Capitão Souto. Vai
ganhar tanto engenho quanto o Dias e tanta vida eterna
quanto o Camarão.
SOUTO. Sabe, Bárbara, eu lembro sempre daquela nossa conversa, do jeito que você falou tanto das idéias de Calabar... Perdão, eu já posso falar Calabar?
BÁRBARA. Na tua boca, é um nome feio...
SOUTO. Pois hoje eu sou uma outra pessoa.
BÁRBARA. Não diga. Em que fase você está agora?
SOUTO. Lógico, você não precisa me levar a sério. Eu contiOARBARA.

S

Afinal. o demônio sarará... Mas essa tal justiça. o sertão virava de cabeça pra baixo. a donzela e o usineiro português. com esse sol de Pernambuco na tampa da cabeça. Essa pessoa talvez desconfiasse dessa tua fala bonita. " I I t u . Os padres trancavam as igrejas. um nativo! Um brasileiro guiando o exército da Holanda. e onde — diziam — vigorava a justiça do homem. Só acho uma pena que agora há pouco estava aqui uma pessoa que poderia discordar de você.nuo sendo uma pessoa provisória. Souto. do rei. que era um país muito distante. jogada pelos cantos. SOUTO. Jesus". Trouxeram um príncipe que. adivinha quem está lá no banquete do príncipe? O padre. porra. rapaz. Muito interessante essa tua fase revolucionária. era Calabar. Mas essa pessoa. variou de vez. SOUTO. Ela arrebentada.. Quer dizer que você e seus comandantes vêm aí para libertar meu povo? Assim sendo. do Papa. coitado. Coitado mesmo. É. Eu lembro que quando ele entrava nesse sertão. fico calada. Um brasileiro. parecendo uma puta. O azar é que ele não adivinhou onde é que ia parar a merda do sonho dele. BÁRBARA.. Mas essa pessoa recentemente resolveu pensar um pouco. BÁRBARA. BÁRBARA. o demônio em pessoa. Segundo essa justiça — diziam — o homem valia pelo seu trabalho e não por capricho dos deuses. E agora eu vejo que o teu Calabar foi um homem e tanto. habitado só por pecadores. ele não podia adivinhar o que seria feito da sua gente. Coitado do Calabar. Já chega. você e seus comandantes enforcaram. Calabar morreu e o holandês se instalou aqui. E agora. infelizmente. Ele não imaginou que fim iria levar sua própria mulher.. Pois bem.. Pensar? Você? SOUTO. o holandês esqueceu numa prateleira lá em cima do Equador. as donzelas cobriam o rosto e os usineiros portugueses gritavam "ai.

SOUTO. Sai. Souto. me infernizar. Você vai me agredir.. BÁRBARA. Vai. lembra? E um mundo sujo.. Vamos. Você vai resistir.. O teu mundo é aquele lá. feio. Tem encontro com holandês.. é? Que luxo! E o que é que holandês te faz de bom. (Às gargalhadas). seu verme! Não sou capacho de galego. dá o fora. SOUTO (Tentando acariciá-la). Bárbara. Você vem me beijar. lembra? Deitada no mato.. BÁRBARA .. me deixa em paz! (Ajeita o cabelo) Eu estou de serviço e você tá me empatando. Você vem me pedir. Mas vai se acostumar. mas é o teu mundo. Você já deve estar sentindo falta. Você vai se abaixar. o suor no sovaco. triste. as picadas de muriçoca. Você vai me servir. E vem me seduzir Me possuir. não! Puta! Mas não te invejo não. Você vai se gastar. os canaviais crepitando. Verme! Capacho de galego! Puxa-saco de espanhol! Vaquinha de presépio! SOUTO canta Você vai me seguir: Você vai me seguir Aonde quer que eu vá. vai.. não tá. não? ÀRBARA. Você vai me adorar. Introdução musical para Você vai me seguir. não! Não sou escrava de ninguém! Larga o meu braço! Você está me machucando! SOUTO. Bárbara. é? BÁRBARA.Parecendo uma puta.. hein? Holandês te leva pra passear no Jardim Botânico. Você vai me trair.

. que coisa boa! Vem com a tua neguinha. Não vai sobrar um pé de cana pra contar a história.. tá benzinho? SOUTO. deita-se no chão.. vou te contar. São dois florins e o teu turno já está acabando. SOUTO dá-lhe o dinheiro e BÁRBARA. BÁRBARA. Terminada a canção. SOUTO (Sempre de pé). meu coronel! Mas vê se goza logo. tão musculoso. são dois florins. Oh. meu bem. acho que você é a paixão da minha vida! Ai. BÁRBARA. Ouviu? Eu tenho um motivo muito forte pra te levar comigo.. que bom. vai? Ah. Ai. que bom. que bom e que bom. Só que. Vai me tirar da vida. queridinho. Bárbara. (Perplexo. BÁRBARA (Gritando. por favor. Eu tenho quarenta soldados dispostos a tocar fogo nesse Pernambuco. Muito bem... me nina. amor.) Bárbara. o quê? BÁRBARA.. deita comigo e trabalha rapidinho. BÁRBARA (Esperneando).. Pela primeira vez na vida eu tenho um motivo muito forte. parado de pé.. É o seguinte. autoritária). Acontece . BÁRBARA. Dois florins. SOUTO agarra BÁRBARA para beijá-la. vem. que bom. SOUTO. (Começa a se despir mecanicamente) SOUTO. vai me cobrir E me ninar. não. Olha. Bárbara. assim você me faz dodói. Você vai me velar. abre as pernas e começa a gemer. o que é isso que você tá fazendo? Ai. Você vai conseguir Enfim me apunhalar.. Deixa de bobagem. É importante.Você vai me cegar E eu vou consentir. homem. Bárbara. porra! Dois florins na mão. menina. É já! É já! Dois florins! (Assustado. Bobagem? É o meu sustento. Chorar.) Ai. imediatamente. SOUTO. danadinho.. me nina. Bárbara. como você e ardente. SOUTO..

Eu queria que você viesse comigo. Eu tenho sonhado muito com você. E você... Você não pode ficar entrevada aqui desse jeito. Teu tempo acabou. uma mulher muito bonita.. BÀRBAM (Levantando-se e recompondo-se num salto). você conhece aquilo melhor do que eu.. Shhh. Por umas várzeas onde ele andou muito. Eu estava com raiva. se é isso o que você acha que Calabar queria.. Bárbara. E você com ele... SOUTO (Beijando-a). certo? Profissional. então pelo menos cobre o que você merece. Dois florins. Se é pra ficar com os holandeses... No fundo. SOUTO.. Bárbara. Eu estava brincando. Bárbara. SOUTO. pra pensar nele o dia inteiro. Mais dois florins. Tinha que estar morando num castelo todo seu. nada disso... Nessa eu estava distraído. mesmo. SOUTO. porque você é uma mulher forte. Toda arrebentada e jogada pelos cantos.. BÁRBARA. você não tem o direito de se estragar assim. você também precisa. muito bonita. Deve ser um remorso desgraçado.. Quer dizer. Profissional. Podre. melhor do que todos nós. você só está pensando nele. enfastiada).. nós estamos voltando... Leva o teu dinheiro.. Acabou.. BÁRBARA. SOUTO. BÁRBARA (Desabotoando-se.. nós precisamos de você. (Põe-lhe o dinheiro na mão e abraça-a) Tenho direito a outra. Olha. por onde Calabar foi.. Não perdia o meu tempo e talvez eu nem lhe cobrasse os dois florins. depois de tanto tempo. uma companheira." Você devia era ter dito logo pra que é que me queria.. Enfim. . Agora chega! Eu já fiz minha parte e o teu tempo esgotou.. SOUTO. você vai me seguir. BÁRBARA..que nós estamos avançando numa área que.. em Amsterdã ou no raio que a parta! BÁRBARA.. "Você vai me seguir. (Pausa) É claro que não era só por isso. Sebastião do Souto. Souto.

Mas eu não reconheço em você o cheiro de Calabar. Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se a febre dele BÁRBARA.. SOUTO.. Sebastião do Souto? Você pode rastejar no mangue que um dia ele pisou. Ele tinha uma luz que você nunca vai ter. BÁRBARA canta Tira as mãos de mim: Ele era mil Tu és nenhum Na guerra és vil Na cama és mocho. dormia com ele^ Depois deu aquela inveja.. Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se o fogo dele Guardado em mim Te incendeia um pouco. Se pudesse. Fica quieta. Calabar. A mulher segue o homem é pelo cheiro. Mulher não segue homem por causa de luz porra nenhuma. SOUTO.. p sempre teve paixão por ele. . Se quiser. pensa nele. Eu não te desejo. Éramos nós Estreitos nós Enquanto tu És laço frouxo. Bárbara. de tanto que pensa nele. Sabe duma coisa. pode gritar pelo nome dele.Nem deve dormir.. SOUTO. não sei. BÁRBARA. Você pode se esfregar com o estrume da terra que ele pisou. aquele ódio. Pensa nele Bárbara. Fecha os olhos. BÁRBARA. Souto. Bárbara.. e agora. Eu te desejo. Não adianta. Sebastião do Souto. Você pode até usar a farda que um dia ele lhe emprestou. BÁRBARA.

Real.. MORADORES. Ouvi. (Para os MORADORES^ Não consi- . Black-out. FREI (Sem jeito. Entram holandeses com garrafas de vinho que vão sendo distribuídas entre os MORADORES. aproximando do vaso sagrado uma taça de vinho. Brindemos juntos à Restauração. NAS- SAU interrompe a cerimônia.. MORADORES. mas santa. Dom João IV. após 60 anos de jugo espanhol. Viva! NASSAU. Viva Dom João IV. NASSAU (Eufórico). Viva. estávamos celebrando a Santa Missa. NASSAU.. FREI... MORADORES (Indecisos). FREI. Deo Gratias. Meus irmãos. Mais forte. Portugal é novamente um país soberano. rei de Portugal.. Agradeçamos mais uma vez à Divina Providência. FREI ergue o cálice e murmura uma oração incompreensível. Uma grande mesa serve para pousar os paramentos. com seu cálice sagrado). Finalmente. Bebamos todos! Este é um brinde comum a todos nós. Frei. Oh. perdão. o Evangelho e o cálice. rei de Portugal. Luz no FREI. Real.. portugueses e gente da terra. De ação de graças.. Oremus. NASSAU. Viva. Amém. FREI (Encabulado e assustado com a balbúrdia que se inicia). Real. vamos! Viva Dom João IV. rei de Portugal. Real viva Dom João IV. Alteza. rei de Portugal. Os MORADORES acompanham a cerimônia. por o Senhor Dom João IV. Real. Ouvi. holandeses. pois foi por sua intercessão que se restaurou o trono de Portugal. Amém. É que. Ouvi e estai atentos. rei de Portugal! MORADORES.Guardada em mim Te contagia um pouco.

aproximam-se e sentam-se à mesa com os holandeses. ainda não tinham aceitado a paz holandesa no Brasil — devastando plantações e engenhos. observam esse ritual com curiosidade e acham graça. numa inglória luta de emboscadas —. levantam-se e viram seus copos de vinho num só gole. A guerra entre Portugal e Holanda. rei de Portugal! MORADORES. Os MORADORES. com lugar para todos nós. perdem definitivamente o direito e a motivação para continuar esta guerra. que bebem vinho no gargalo. (Serve-se de vinho) Viva Dom João IV. Mas a recém-Independência de Portugal vem marcar o princípio de uma nova era. NASSAU. mas sim como"mana comunhão com todos os moradores do Brasil. Viva Dom João IV. que não contente em dominar Portugal e explorar em proveito próprio a imensa riqueza dos seus territórios ultramarinos. Viva! r 4 u r n . nunca existiu. ANNA ri. legítimo rei de Portugal! TODOS.derem minha presença nesta cerimônia católica mm como uma intromissão profana. mais à vontade. Viva! Os holandeses descobrem as cabeças. Os holandeses repetem seu ritual de virar os copos. Durante todos estes longos anos de desentendimento. tivemos um inimigo comum: a ávida Castela dos Felipes. sem outro sentido que o de prejudicar o objetivo comum: o de um Brasil rico e próspero. Assim. A trégua entre Portugal e a Holanda acaba de ser assinada na metrópole. bebe muito e obriga BÁRBARA a beber. no que são imitados por alguns moradores. NASSAU. Ao fundo. aqueles que por um falso conceito de patriotismo. Com essa finalidade. na verdade. Alguns. forjou entre nós esta absurda guerra colonial. confundindo os interesses portugueses com os de Espanha. pretendia usurpar o trono da Holanda para saciar os seus desígnios expansionistas.

NASSAU.. As colônias devem esperar pela ratificação. bebem. Mas a Companhia está se ressentindo de algumas atitudes de sua Alteza. Grande algazarra. O que há? (Contendo o riso). interrompendo NASSAU. Alteza. NASSAU afasta-se em direção à ponte e dá ordens ao ENGENHEIRO. Dizem que é mais fácil um boi voar. Ao povo. Que Deus. Eles não têm muita fé nessa ponte.. prometo nestes dias de festa inaugurar a tão ansiada ponte que unirá o Recife a Cidade Maurícia.. gargalhadas. NASSAU. NASSAU... seja louvado em sua imensa sabedoria. Ah. mas só entrou em vigor para a metrópole. Alguns meses. Todo-Poderoso. Finalmente. Fale.. Alteza. sim? Um boi voar? Ha. Pretendo festejar esta data com acontecimentos que ligarão a noite com o dia e jamais se perderão na memória do povo. Perdoe. Bem. NASSAU. a trégua entre Portugal e Holanda já foi assinada. todos os licores e manjares que o fígado permitir! E teatros. O que nos dá o tempo necessário para que certas medidas possam ser tomadas. cavalhadas. . entornam e sentam-se. NASSAU. Quanto tempo? CONSULTOR.HOLANDÊS. Com dinheiro do meu bolso! (Para o CONSULTOR^ Como é? CONSULTOR. Todos se levantam. ha. muitos visivelmente alcoolizados. rei de Portugal! FREI Todos levantam-se. í0D0S Viva o Príncipe Maurício de Nassau! A paz está oficialmente selada entre as nossas nações. é brincadeira do povo.. quadrilhas. ha! Pois terão as duas coisas: a Ponte e o Boi! Viva Dom João IV.. NASSAU. CONSULTOR. A orgia prossegue. Vão concluir esta maldita ponte e é pra já. Não quero ser indelicado.

Enquanto não ratificam o tratado. Alteza. Então... Sergipe e Chile. conquistador e humanista.. vasta como o universo. de onde podemos avançar incontinenti sobre as minas de prata da Bolívia. Gostou. Faça o que eu lhe disse. NASSAU.. Maravilhoso! Com sua permissão.. Não está lá essas coi- sas. Está pronta? ENGENHEIRO. Fifty... De posse do Chile. Será o início da conquista da América espanhola. Mas já dá para atravessar? ENGENHEIRO. Necessitamos de mais escravos. ainda sou eu quem manda. Essas pontes não são rentáveis para a Holanda. NASSAU. Oba? . NASSAU.Tanto no plano político como no administrativo. Sim.. NASSAU. enquanto é tempo.. Grava a divisa de Maurício de Nassau na pedra da cabeceira com as palavras "Qua patet orbis". Mande também uma armada para a Angola portuguesa. Provisoriamente. estamos oficialmente em estado de guerra aqui. CONSULTOR.. faltou pedra. conquistaremos mi Buenos Ayres querido. CONSULTOR. NASSAU.. Para as plantações. Você está sugerindo. é ponte.. Que as nossas autoridades veriam com bons olhos algumas conquistas aos portugueses. Muito bem.. NASSAU dirige-se para a ponte. NASSAU. fifty! O CONSULTOR sai.. S este o momento ideal para pescar em águas turvas e clâ* rear a sua posição. NASSAU. Envie imediatamente forças para dominar o Maranhão. Novas pontes.. E para ampliar a Cidade Maurícia. Espera. Espere. NASSAU. Emendamos umas "taubas". CONSULTOR. Por enquanto. Alteza. Estou pronto pra tudo.. CONSULTOR. mas quero gravar a meu modo o meu nome na história: Maurício de NassauSiegen. Príncipe. Vai para sair.

é fora. Moradores do Recife. Surge NASSAU. Qualé a do boi que revoa? Boi realmente não pode Voar à toa. dançam e cantam. pulam. NASSAU e coro (cantando): Quem foi que foi Que falou no boi voador? Manda prender esse boi. sem contar que. MORADORES.. Proibido voar. Devo insistir que lá na metrópole se comenta muito essa ponte. A obra já superou duas vezes o orçamento. A Companhia está melindrada. é fora. é fora. Imagem discutível. espantados e maravilhados. Seja esse boi o que for. Segura esse boi. um imenso boi sobrevoando o palco e a platéia. NASSAU. Viva o flamengo! Súbito a orquestra ataca a marchinha Boi voador não pode. bebem. entusiasmados ou simplesmente bêbados. Alteza. A ponte que os leva a Maurícia e o boi que voa. É fora. CONSULTOR. já morreram cinco vezes mais operários do que o previsto. é fora. correm. sobre- . em acidentes de trabalho. Alteza. Príncipe. Ouviste. o b a ! Os MORADORES se aproximam da ponte. (bis) O boi ainda dá bode. riem. preparai os olhos para dois espetáculos impossíveis.. Os MORADORES e os holandeses. Tá fora do ar. desconfiados. É fora da lei. ponte? Já representas a imagem do Brasil no exterior! CONSULTOR. É fora.PAPAGAIO.

CONSULTOR.. CONSULTOR. Estranho que um português deplore isso.. Ventosidade? CONSULTOR. (Para o FREI) Certas intimidades. Tantas outras coisas. Mas olhe bem e diga. FREI. FREI. FREI.tudo porque não foi sequer consultada para essa constr ção. ufanando-se de se declararem novamente judeus. Como disse? CONSULTOR.. NASSAU. NASSAU. Ah. n FREI. Pelo menos há na Holanda calvinistas bem mais ferrenhos que não vêem com bons olhos certas liberalidades que andam acontecendo por aqui. Dizem os espanhóis que o português nasceu da ventosidade de um judeu.. Souberam com escândalo que aqui se dá liberdade aos judeus como em nenhuma outra parte do mundo. Talvez não o suficiente. E que. Mas em Amsterdã há quem encare qualquer tolerância com o Papado como um conchavo com a Grande Meretriz da Babilônia. Senhor! NASSAU. CONSULTOR.. É ponte para calvinista nhum botar defeito. O povo desta terra é católico romano e mui sábio e o Príncipe Maurício em permitir que se lhes pregue o Evangelho. NASSAU. aqui se circuncidam em praça pública. FREI. . E que mais dizem? CONSULTOR. Um momento! Não se esqueça que o Frei Manoel é hóspede meu. os cristãos-novos que fugiram da Inquisição na Europa. Frei Manoel! Não se esqueça de que continuo calvinista convicto. Isso é realmente deplorável. aproveitando-se disso. Peido! NASSAU. isso eu n ã o sei..

Afinal de contas.. Escrivão! Diga à Companhia das índias Ocidentais que a monocultura é um atraso de vida! assAü. Meia dúzia de barcos metendo água. mercenários com o soldo atrasado e mosquetes enferrujados?. Queriam que eu conquistasse a Bahia com o quê?. por falta de víveres. mesmo sem auxílio de lá. Agora as fronteiras brasileiras estão traçadas e a paz é nossa aliada.. comodamente instalado numa poltrona. Mas espera um pouco... NASSAU.. Não... eu fiz o que devia ser feito. Não. até os ratos morrem de fome nos nossos armazéns. da mandioca e de outras plantas que não adianta citar porque eles não conhecem mesmo. É muito fácil criticar. Sabe? CONSULTOR. E não lhe interessa. pela primeira vez na História. você está aqui ou lá? CONSULTOR. Como também não lhe interessa saber que.. Diga que há algo mais do que cana para se colher. Um pé em cada continente... o Jardim Botânico. Comenta-se também o fracasso da expedição à N Bahia.. As novas ruas.. um transplante de coqueiro.. Bonito.. mas nosso observatório já se familiarizou com uma cruz de cinco estrelas que lá não tem. NASSAU. Diga ao Conselho de Estado que o céu aqui é diferente. Mas não importa. os arcos do Recife. uns índios bêbados... O que me deixa numa posição delicada.. .. Adiei a trégua tanto quanto nos foi útil. Escrivão! Não diga à Companhia das índias que ela se esqueceu da remessa e que estamos há três meses sem comer carne. Diga apenas que Maurício de Nassau introduziu a cultura do fumo.sUiTOR. com sucesso. A Companhia não sabe que efetuamos. vulnerável. senhor. Pois ponha de vez os pés neste chão e veja o que estamos realizando. arrotando a arenque e bebendo genebra. Não tem a estrela Polar. de barriga cheia.

Mas diga que a cada dia nasce uma nova obra de arte. senhor.. ESCRIVÃO. Alteza! Alteza! NASSAU. Que mais? Conte que o povo de Pernambuco tem em Santo Antônio o seu santo de maior devoção ^ estima tanto seu príncipe que Maurício de Nassau é co* nhecido vulgarmente como Príncipe Santo Antônio! Não é melhor não dizer isso. recusa. O MÉDICO oferece ao FREI que. NASSAU. Notável. põem na boca e começam a mastigar. Melhor não. Os dividendos da Companhia estão baixando a olhos vistos. Simples.. É por acaso culpa minha se o açúcar francês e inglês das Antilhas fez cair as cotações da Bolsa? CONSULTOR (Mastigando). Nunca se produziu tanto em Pernambuco como agora. meu Príncipe. MÉDICO (Entrando. Isso gera descontentamentos perigosos na Holanda. sem querer ser desmancha-prazeres. discreta e maliciosamente. NASSAU. descobre-se algo. Gostou.. sem nenhum outro medicamento.. Mastigando-se freqüentemente a cana e engolindo-se o suco... N ã o . isso é magnífico. .ESCRIVAO. NASSAU (Mastigando). Ah. NASSAU. devo lembrar-lhe que sua administração está altamente deficitária. Que seria de nós sem a cana-de-açúcar? CONSULTOR (Mastigando). decifra-se o mistério de uma ciência.. NASSAU toma outro. hein? Não lhe disse? (Para o MÉDICO) Qual é a fórmula? MÉDICO. NASSAU (Mastigando). Sim. Príncipe. CONSULTOR. CONSULTOR. O que foi que descobriste hoje. A cura da gonorréia. às pressas). CONSULTOR toma um maço de cana das mãos do MÉDICO. fica-se curado em oito dias. doutor? MÉDICO..

NASSAU. Você. digo. fica até ridículo. em tempos de crise.... inventaram a paz.. O que pode acontecer é os senhores de engenho. Bárbara. Q P investimentos e os empresrimos concedidos aos senhores de engenho. oNSULTOR. Sabe. Príncipe... BÁRBARA.. amanhã penso nisso. Assim você acorda todo mundo! BÁRBARA. Eu estava dormindo. não há como contentar colonizados e colonizadores.. BÁRBARA (Entreabrindo a porta).. Sebastião! A guerra acabou. Acabou.. portugueses. Chega de cena... Eu estou cansado. Não faz barulho.. (Ri) SOUTO. Portanto.E você sugere. Não sei. mulher. Quem não puder pagar suas dívidas será devidamente desapropriado pela Companhia das índias Ocidentais. Amanhã à noite eu sigo viagem.. nem nada.. ainda não sei. * M s eles estão pagando juros sobre juros. Black-out. EI. allea jacta est. Príncipe.. TOR. E só por um dia. SOUTO. que até hoje têm sido simpáticos à Holanda. ^ Isso é muito grave. deita aí. SOUTO. Sebastião! SOUTO. Não há alternativas.... é? Sei. Não é carnaval. Bárbara! Abre essa porta. Você não pode parar quieto um tantinho? Vai seguir viagem para onde? SOUTO.. Sebastião... CONSULTOR. Estão C A U H (Mastigando). e você aqui no Recife vestido de expedicionário. fii .. Bárbara. E. Entra. de repente. U E s e r e c u C0r e r e m o s a *** endividados até a alma. pegarem em armas contra nós. BÁRBARA. Vamos. SOUTO bate na porta de BÁRBARA. SOUTO. Amém.... as hipotecas devem ser executadas e os bens confiscados.. Tira as botas.. está sozinha? BÁRBARA.

O que é que Calabar faria no meu lugar. assim que a metrópole der o sinal. se Calabar estivesse vivo. Mas então me diga o que é que eu faço. Calabar servia ao holandês.. Formaria comigo o exército dos trouxas. por isso sou caçado pelo holandês. não senhora. pra devolver a nossa Pátria aos velhos proprietários dela. esses fidalgos estão endividados e voltaram a se alinhar com os portugueses. Por mais que se esforce. Sebastião. não sei pra onde. como é que nós ficamos. me diga o que é que eu faço. junto com o exército português.. . Calabar não marcharia contigo. E qual é a guerra que tem sentido? A de Calabar você vai dizer. hein? Eu estou sem comando. Calabar lutava pra vencer. Eu servi ao português. Então. Ordens superiores me negaram munição e me levaram meus quarenta soldados. entende? Você gosta de caminhar para a morte. Aí voltarão a cavalo os nossos heróis. Bárbara? Não é por causa da paz. recomeça tudo outra vez. E. os nossos patriotas. Com tanto canavial pedindo para pegar fogo. E gritaria comigo: a paz é falsa! BÁRBARA. a guerra deles. por isso foi enforcado pelo português. seremos sempre malditos. Agora que os exércitos holandês e português estão de mãos dadas e casamento marcado. você ainda não compreendeu o Calabar. Bárbara. que eu não agüento mais. Olha.. o exército dos cornos de guerra. hein? Ficamos mal com todos. E já começaram a conspirar. Bárbara. E sabe por que. o exército dos traídos.. SOUTO. marcharia comigo. porque ele dava um sentido à guerra. não diga não. É porque os senhores desses canaviais. Não. mas marcharia.Uma pombinha branca e virgem num céu de veludo E esgano essa pomba! Eu trucido ela! A minha guerra não acabou porra nenhuma! SOUTO. os fidalgos portugueses que estavam tão bem com a Holanda e a Companhia do Caralho.

. E. Deixa eu tirar isso aqui. Sebastião. arranjar um emprego. Eu ouvi barulho. BÁRBARA. Me dá a minha arma. . aquela pomba filha da puta. Você toma esse café bem doce que eu acabei de preparar. vem. recosta a cabeça.. Não podia haver proposta mais sórdida. Você fez de propósito. numa casa caiada de branco. Pensar em sair daqui. o que é que você tem? SOUTO. vem cá..ARA. BÁRBARA. cretino.. Sebastião? O que é isso? SOUTO.. SOUTO.. Eu sei que você tava me enredando. SOUTO. Imagina eu. Você não entendeu nada.. porra! (Apanha o fuzil com violência) BÁRBARA.. Mas quando a gente não vê saída pra uma situação. Eu vejo como as idéias possam ficar mais claras. Sebastião. não adianta bater com a cabeça na parede... Tem gente aqui. mulher! O que é que você quer. encontrar uma casa.. que vai te incomodar.... SOUTO (Saltando sobre ela). mudar de nome.. num pulo). Aquela conversa.. BÁRBARA. Não encosta. a gente pode pensar noutras coisas.. SOUTO.. Te enredando como. e aquela pombinha flutuando. sossega.. SOUTO. Eu? O que é que eu quero? Nada.. menino. Me dá isso aqui... relaxa.. enquanto espera. hein? BÁRBARA. É melhor esperar.. eu estupro aquela pomba! BÁRBARA. Quieto.... (Afasta o fuzil) SOUTO (Levantando-se.. não quero mais nada. um carneirinho pintado na porta. Você t a v a m e enredando. Você relaxa. Era amor o que eu estava te propondo. Aquela conversa estranha.. mulher. E talvez BÁRBARA. ouviu? SOUTO... EU também não. BÁRBARA (Tentando tocá-lo). passa aqui o meu fuzil! BÁRBARA.. SOUTO.. dorme e amanhã as idéias vão estar mais claras. Sebastião. Não tem ninguém.. Você fez muito barulho.

SOUTO. Um cliente. Estou te dizendo que a guerra acabou. Agora basta. é lógico que não. Sebastião. Bárbara. você está se valorizando além da conta. Besteira. Onde é que eles estão? Responde! Onde é que estão os teus amigos? Ei. Agora eu começo a te entender. Eu continuo atravessado na garganta deles. Eu não tenho nada.. Abrindo as pernas pra mim... desde o começo fazendo o jogo deles. pra ficar mais um pouco. Não seja idiota. flamengos de merda. quem sabe. Despe essa fantasia. Podem perdoar os comandantes os reis podem se dar o rabo. vende o teu fuzil e vai ficando por aí mesmo que ninguém vai te incomodar. Uma anistia.. Sebastião.. aquele com a cabeça a prêmio por 1. SOUTO.800 florins! BÁRBARA. o Capitão Sebastião do Souto! O que é que há.. você está é me atraindo para uma cilada. e q U C t e m ...até você tenha uma carta de algum comandante amig seu.800 florins. esse não. É pra vingar o falecido? Ou pelos 1. É claro. sua puta? BÁRBARA. BÁRBARA. o Capitão Souto! Ele mesmo. o incendiário! Ele mesmo. dizendo que me ama. Você está doente. SOUTO. Sebastião do Souto. Escuta. pedindo pra eu voltar sempre. claríssimo. BÁRBARA. Sou ele mesmo. SOUTO.. aqui estou eu. esse nome eles não vão engolir jamais. estão com medo? Eu sei que vocês estão aí! (Vao aparecendo alguns soldados holandeses) Sou ele mesmo aquele que matou Calabar! Sou aquele que tem C ala bÍT ° ° -ode S U b a f l S U a q U C .. mas Sebastião do Souto. Se você quer se matar. Sou ele mesmo. que se mate! Mas vá se matar lá fora! SOUTO. BÁRBARA. o terrorista ! BÁRBARA. homem. pelo amor de Deus! SOUTO.

É mais alegre. Olha que pano bonito.. ANNA. Ou este aqui.. ainda assim não me desmereço. (Morre) BÁRBARA canta Fortaleza: A minha tristeza não é feita de angústias. cães holandeses. Paraíba. ANNA aproxima-se de BÁRBARA. ficai sabendo que não nasci na ilha natante de Delos. s Cuidado? Eu? SOUTO leva um tiro mas não cai. c u i d a d o ! SS?o(Rindo). A minha tristeza não é feita de angústias. SOUTO. Mas se além disso fazeis questão de saber qual é a minha pátria. porque eu sou o Capitão Souto. A minha surpresa só é feita de fatos. De sangue nos olhos e lama nos sapatos. Leva outro tiro e cai atirando. retendo o derrame A minha represa. Tanto faz.. Não. Como. Minha fortaleza é de um silêncio infame.. Minha fortaleza. onde a natureza não tem necessidade alguma da arte. e morro me traindo. . Aqui eu fico.. como Vênus. E se morro sem poder trair no meu último instante. Ah. que tantas vezes vos tenho feito fugir em Pernambuco e Bahia. A minha surpresa. o que é que você acha? BÁRBARA.. fica com o vermelho. Bárbara. abre uma cesta e começa a paramentá-la.. Bastando a si mesma. Não.ÍOUARA Sebastião. Não sei.... nem na espuma do agitado oceano. Eu nasci mesmo foi na Baía da Traição. ANNA... oUTO. Este aqui vai melhor com a tua pele.. como Apoio. tanto faz? Olha.. porque morro dizendo que te amo. A todos vós hei de tirar as vidas.

Anna... tem tudo para ser feliz. Dois. mulher. viajar. BÁRBARA. ainda quente. P S ÍÁRBARA.. Puxa... para descanso de todos. mulher. Agora você está falando certo... Conhece mais alguém que tenha conhecido Calabar? Não. Mas estou aliviada.. Eu amo a mesma coisa neles dois. ganhar muito dinheiro. ganhar mais dinheiro ainda. ANNA. Deixa eu experimentar esse carmim.. Você não está dando atenção. Anna. Uma energia que ... . Alguém vai dizer que ouviu falar de alguém. Esses cabelos. Você é moça ainda. Você conheceu Calabar? ANNA... vira marquesa. é de lesar qualquer uma. Eu vou te levar pro outro lado da cidade.... Eu? Só de ouvir você falar.. arranjar um casamento. então. Não tem por que esconder um rostinho tão bem-feito. ANNA. é como se Calabar nunca tivesse existido.. Então fica provado que Calabar nunca existiu.. é a mesma coisa. vou te contar. o Mulher.. voe" tem que puxá-los para trás.. Você não dizia coisa com coisa. que um dia viu uma alucinada gritando um nome parecido. BÁRBARA. e não se fala mais no assunto.. naquelas luzes........ Eu me sinto muito só. você vai ficar linda mesmo.. que ouviu falar de alguém. cn então não precisa me emprestar nada.BÁRBARA. (Pausa) Depois você fica viúva. É claro que não. Me pinta mais. Pinta o meu rosto. ANNA. Você vai ficar linda. É ? ANNA. arranja um casamento melhor ainda. Porque há uns tempos. Me empresta algum. BÁRBARA. Está ali o defunto. Só mais um pouco desse pó. que carranca a tua! Tá bem. Sebastião do Souto. Pois se Calabar nunca existiu.. ao mesmo tempo. Agora que CO Sebastião morreu. Pode perguntar por aí.. BÁRBARA. Amar um homem já dá muito trabalho.. Uma energia furiosa que havia dentro desses homens..

eu já não sei se existem essas mortes. essas coisas em que a gente não pode nem se roçar. Com o tempo. E O coração continua dizendo que é bonito.^ continuar movendo outros homens à morte. A 0 s . E não é? O que valem os grandes gestos. Fica melhor acreditar que esses homens morreram porque eram desprezíveis. Você mesma disse isso. à morte. Vergonha de acreditar que vale a pena lutar por alguma coisa que preste. Ou eram uns desajustados. certa ou errada. Anna. Eu falo isso. Porra.. abrindo o peito. faz um barulho danado e ninguém toma conhecimento. BÁRBARA. Morte necessária. Juro que dá vontade de pensar desse seu jeito torto. é bonito ver um homem jogar toda a sua força e todo o seu amor numa luta dessas. não é bonito? ANNA.. p j eu não sei pra que uma morte há de ser necessária... dá até um pouco de vergonha. a gente vai sendo acostumada a ter vergonha de muita coisa.. E o meu caminho seria o mesmo caminho escuro que engoliu Calabar e Sebastião.. um homem morrer por isso. Algum veneno vai fazendo a gente acreditar que não. BÁRBARA. Luta pensada ou luta confusa. morte bonita. Mas tenho medo. Algum veneno vai fazendo a gente desacreditar que. não. Pois é. BÁRBARA. as belas intenções.. uns idiotas. às vezes dá vontade de pensar assim também. as grandes palavras. melhor esquecer que esses homens existiram. como é bonito uma pessoa ainda nova largando tudo.. Dá assim um ar de mistério. uns loucos. BÁRBARA. Me dá um gole dessa bebida aí. à morte. Vou fazer uma sombra aqui debaixo dos olhos. Essa gente vai morrendo aí aos montes.. me ouço falar e acho que soa bem. a quantas mortes forem necessárias. afinal de contas. E pensar de outro modo. ANNA. (Bebe) ANNA..

.. você não vai conseguir. Bárbara. (Começa a rir). •„ . Eu vou contigo. ANNA. Não há pintura que te faça igual a mim. você borrou tudo. eu continuo tão pálida.... Olha os meus olhos. A tua boca ainda arranja um jeito de dizer uma verdade. Teu rosto. Olha aí... Olha só o que você fez com o teu rosto. Quero ficar bonita igual a você.. (Sempre rindo) . Me passa aqui essas tintas que eu vou te mostrar (Começa a se pintar desordenadamente) Me passa a garrafa.. Nunca é tarde... Não precisa. teus olhos ainda são capazes de se assustar com alguma coisa. Bárbara...Mesmo assim você está linda. É isso o que eles querem. Estragou todo o meu trabalho. BÁRBARA. Não. > mas eu quero ANNA.. Não.. Teus olhos.. horrível dizer isso AmJ ° „ viver. Bárbara.Anna..Você não tem jeito.. você. Com cara de festa. Ach que agora você está pronta.. ANNA. Me dá outro gole. BÁRBARA.. Anna. ANNA.. a minha boca. deixa eu terminar.. Nunca é demais.. A verdade é que eu não sou mais nada m ram tudo. me pinta mais.. BÁRBARA.. Eu não vou deixar eles me verem assim arrasada... Cuidado com as tintas.. Vamos. Olha aqui no espelho como você está linda. 8 9 ia 0 . ANNA. Bárbara. mulher.. mulherl ANNA e BÁRBARA cantam Anna e Bárbara. deixa eu ver.. Bárbara. Bárbara. Já está bom. (Segura o rosto dela e fica séria) ... BÁRBARA. ANNA. eu não quero mais essas mortes tão perto * mim.. espera. Vai ficar exagerado.. mulher.... Levanta o rosto. E eu te quero muito. Claro. Não adianta. Ninguém vai me ver assim abatida...

BARBARA. Bárbara. AS DUAS. Nunca é demais. no fim da noite Serei tua. Nunca é tarde. ANNA. Eu vou viver agonizando Uma paixão vadia.Onde estou? Onde estás? Meu amor Vou te buscar. Bárbara. Vamos ceder à tentação Das nossas bocas cruas E mergulhar no poço escuro De nós duas. Maravilhosa e transbordante Feito uma hemorragia. Dos medos e da chuva. Onde estou? Onde estás? . Deixa eu te proteger do mal. Bárbara. Acumulando de prazeres Teu leito de viúva. ANNA. Bárbara. O meu destino é caminhar assim Desesperada e nua Sabendo que. Nunca é tarde. BÁRBARA. Onde estou? Onde estás? Meu amor Vem me buscar. AS DUAS. Nunca é demais.

Padre.Meu amor Vem me buscar. e com Deus. O que é que o senhor. BÁRBARA. BÁRBARA. BÁRBARA. Tá me reconhecendo ? FREI.. está igual? FREI.. BÁRBARA.. Me lembro de a ter visto.. A Bárbara. Essa mesma.. Sempre o mesmo. BÁRBARA. você passe amanhã. BÁRBARA. Não dá pra reconhecer. né? FREI tem um gesto evasivo. hein? Que diabo de molejo é esse que o . Padre.. Sabe o meu nome? FREI. BÁRBARA. BÁRBARA.. Por aí.... BÁRBARA (Irônica).. amanhã. E o Padre.. BÁRBARA.. FREI.. Ele mesmo. eu quero me confessar. É muito importante pra mim. Estou bonita? FREI. Padre. Como é que o Senhor faz para ser sempre o mesmo.. o FREI. Bem. Afasta-se alguns passos..... Padre. Diferente. O meu nome.. Acertou. Olha. o CONSULTOR e NASSAU são duas cenas simultâneas. BÁRBARA... Devia? BÁRBARA. está fazendo com os holandeses? FREI. Diferente. FREI olha-a atentamente. Padre Manoel do Salvador! FREI. Não. Padre.. Bárbara. Bárbara. uma se imobilizando para dar lugar à outra BÁRBARA. •• BÁRBARA.. moça. FREI. eu precisava duma informação. Padre! O meu nome é Bárbara.... Aqui. Não sei por que lhe havia de responder. Aqui. Espera.. FREI. é rápido.. Só quero que o senhor me responda uma coisa.. É .

. É. estou bêbada. EU sei.. Padre. Acabo de receber instruções. Porque merecia. NASSAU.. Entre ansiedade e náuseas. BÁRBARA.. BÁRBARA. não quero. BÁRBARA solta uma gargalhada. ao mesmo tempo que te dá uma intensa sensação de prazer? Alguma vez? E depois os teus gestos se repetem e no seu cotidiano você passa a acreditar nesse destino até o dia em que tudo fica amargamente claro e você descobre que nada .. E temo que não sejam agradáveis. Padre? fHEi. tão maior que o dos outros homens. com os portugueses.. Como? NASSAU.. O que eu tenho pra falar é aos homens. CONSULTOR. NASSAU. Você está bêbada. FREI.... FREI (Para BÁRBARA). O mundo é perfeito.. (Para NASSAU) Conde. Alguma vez você sentiu que o seu destino é tão grandioso. E agora o Padre aí com eles pra cima e pra baixo. estarei aqui amanhã. porque acreditava no holandês. Nada. E Deus proíbe falar com uma bêbada. Para se ver o traidor é preciso mostrar a coisa traída. depois com os holandeses. Se você quiser se confessar. Calabar traiu. Deus não proíbe. Entre medos e coragem. BARBARA. bArbara. FREI. sim. BARBARA.. e eu estou bêbada.. tão independente dos teus atos que chega a assustar. mais parece uma mala diplomática... outra vez com os holandeses. CONSULTOR.. Você. Não..Senhor arranjou? Com os portugueses.. fgEi. E Calabar morto. bem alimentado e em paz com a sua consciência.. mas o bom senso.. Entre fidalgo e corsário. Não. não a Deus. É isso.

UE . de corredores que dão para outras portas. Alguma vez? BÁRBARA... NASSAU. CONSULTOR. Sabe de uma coisa?. O orçamento. Foi um ataque de megalomania.. Estourou... Ou Vossa Senhoria renuncia.. mas a maneira como elas vão ser contadas ao povo. E quem disser o contrário atenta contra a segurança do Estado e contra as suas razões. Existem precedentes de sanções mais graves.. Foi um fracasso. Ainda agora nem sempre sei o seu nome. CONSULTOR. Como interventor da Companhia das índias e dos Estados Gerais.. Apenas um nome.... NASSAU. Eu até tinha um certo desprezo por você. CONSULTOR. Ou?. Sempre dentro do palácio.. AS ações. Mas acabo de descobrir que também sou um homem de corredores.estava escrito a não ser nas tuas próprias ilusões. Porque o que importa não é a verdade intrínseca das coisas. E Calabar? FREI (Para BÁRBARA.. CONSULTOR. Um verbete... CONSULTOR. Definitivas. CONSULTOR. CONSULTOR. E não vou negar.. De portas que se abrem para novos corredores. NASSAU. A expedição ao Chile e a conquista da América espanhola. Q caminho que parecia irreversível deu um nó com você U dentro. NASSAU. De botar a mão nos cofres para as minhas obras. NASSAU. Calabar é um assunto encerrado..). Por isso o Estado deve usar do seu poder para o calar.. queria anunciar-lhe oficialmente que a sua gestão. Acusam mesmo Vossa Senhoria.. NASSAU. Nunca estiveram tão baixas. NASSAU..

Anote nos autos. Sim.. ator atua etc. E em poucos anos eu fiz o princípio do futuro. o que me faz rir a bandeiras despregadas. neste Brasil.. sorri para todos os lados.. sério) Porque esta terra ainda vai cumprir seu ideal: ainda vai tornar-se um imenso canavial. Iluminação para a festa de adeus. porque dentro de mim eu tinha uma meta que nada me impediria de alcançar. É preferível ditar um texto formal. NASSAU no alto da ponte... Quando pisei estas terras. Eu sou Maurício de Nassau. amei e construí. E daqui em diante.. Alteza. . censor censura. De agora em diante. pisei fofo e pisei firme.. Escrivão! Onde diabo se meteu o escrivão? ESCRIVÃO.. negros com boinas e telas de pintor renascentista.. CONSULTOR. etc. papagaio... mesmo aquilo de que ainda me orgulho. Excelência! NASSAU. ESCRIVÃO. sem medo de julgamentos. indiferente ou cético. tudo.Sei que falhei.. Escrivão não sente. Mulheres vistosas. Mas orgulhoso. NASSAU.. Assim como estudante estuda. se me permite expressar o meu sentimento. o Brasileiro. pendurado num vice-versa a que me dava direito a condição de político e comandante. E parto levando uma fatia do Brasil dentro das minhas tripas. O mais engraçado. aue me equilibrei na corda bamba... disse sim e fiz não.. CONSULTOR. é que nada disso me importa. Faixas de saudações dos comerciantes locais. críticas. O resto foram apenas salamaleques. (Solene) Cheguei. escrivão escreve. mesmo assim eu sei do meu fracasso. eu falo para a História. E agora constato que. pode ser classificado de traição. NASSAU.. judeus etc... Silêncio. Tem razão. na escala do futuro. etc. Fiz tudo isso com orgulho.. vi. índios especulando em torno de uma luneta. imensas. Tudo por causas nobres. (Canta. Sei também que fui bem-sucedido.

dendê. mas não fui implacável no exercício do poder.. além da certeza de que só o homem faz a História do homem. estas palavras nativas. Mas pobre do orador que pretende falar para o futuro. E se mais não me foi dado criar. é porque atra um homem de visão há sempre uma batelada de generai banqueiros e burocratas. onde tanto cobicei. A mesma Companhia que me trouxe. dizem agora que errei. eu disser goiaba. nas narinas estes cheiros adocicados. sem ódios. E quando. jaboticaba. escondida em outras liturgias. disfarçada em outras promessas... mesmo quando esse futuro dista dele apenas os segundos que o separam do ouvinte atento. O meu castigo maior vai ser o de falar para as paredes da Europa. frases que ninguém pode entender. espanhol. quando. jacarandá. logo mais o inglês. Parto sem rancores. não fui o único. porque da repressão não fiz a minha última paixão. nesta cruzada maldita.. Porque conquistei. Adeus. eu terei mais vivo o sentimento da minha obra e mais cruel e exato o sentimento da minha singularidade. E essa combinação é difícil em qualquer século. E. Trouxe a esta terra o ferro de uma civilização que não buscava nada mais além de riquezas. remexi e / nada aprendi. na língua. Pouco importa! . no gelo dos invernos. porque não troquei todos esses horizontes em florins. tatu-bola. entre pás de moinhos de vento. flamengo. Português. terras brasileiras. a mesma goela escancarada sobre o mesmo estômago sem fundo.NASSAU. Eu sou um homem de armas P um humanista. xavante. que importa o resultado? Nos seus sorrisos. mas o passado não tem outra possibilidade de . nos meus olhos gravadas estas paisagens. Os meus adversários traziam a mesma ganância. enrolada. traduzida em outros idiomas. me leva. A palavra do homem de consciência só pode transformar o passado.

ó celebérrimos iniciados nos mistérios da traição. Que importa o que Mathias cantou. Adeus. Brasil.. Bom dia. votai. parido num dia de não sei qual horizonte.ansformação. o que Anna debochou. terras brasílicas. O que importa é o resto. fora da minha nobreza. fora de toda a lógica. Vai. fora do meu tempo. procurai arrancar desse espanto a resposta que meus lábios não sabem articular. aplaudi. bebei. Sou o que fui e fui grande na mesquinhez dos meus interesses. E assim será. que é tudo. em lugar de epílogo. Maurício. Nos livros. um dia. que não seja o de ser contado de modo diferente. Todo o elenco canta O elogio da traição: O que é bom pra Holanda é bom pro Brasil O que é bom pra Luanda é bom pro Brasil O que é bom pra Espanha é bom pro Brasil O que é bom pra Alemanha é bom pro Brasil O que é bom pro Japão é bom pro Brasil O que é bom pro Gabão é bom pro Brasil BÁRBARA. Por isso. Luz em BÁRBARA. Só peço que de mim não guardem uma imagem deformada. assim quero e serei lembrado. o que Souto pentelhou. E se vos causa espanto que seja eu. A história é uma colcha de retalhos. . vivei. e o último não serás a pisar com botas estas terras. e o resto somos nós. Por isso sede sãos. Maurício de Nassau. à guisa de charada: odeio o ouvinte de memória fiel demais. eu quero vos oferecer uma sentença. o que Bárbara esbravejou. que assim vos fala. Mas sois verdadeiramente tolos se imaginais que eu tenha podido reter de memória toda essa mistura de palavras que vos impingi. até que outro tipo de história seja vivido e escrito. Não foste o primeiro.. traí. o que Nassau improvisou. o que Dias arrotou. Esperais um epílogo do que vos foi dito até agora? Estou lendo em vossas fisionomias.

O que é bom pro galego é bom pro Brasil O que é bom pro grego é bom pro Brasil O que é bom pra troiano é bom pro Brasil O que é bom pra baiano é bom pro Brasil O que é bom pra inglês é bom pro Brasil O que é bom pra vocês é bom pro Brasil O que é bom pra mamãe é bom pro Brasil O que é bom pro neném é bom pro Brasil O que é bom pra fulano é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil O que é bom pra ( ) é bom pro Brasil Até baixar o pano. .