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0 JOVEM

JOSÉ
por
THOMAS MANN
2.» VOLUME
Com o romance intitulado
O Jovem José prossegue a publi­
cação da monumental trilogia
de Thomas Maimn José e Seus
Irmãos, de qiue já saiu o i.° vo­
lume.
Obra de concepção audaciosa,
nelai depositou Thomas Manin o
melhor do seu talento de escri­
tor, conferindo à história bí­
blica/ uma dimensão inteira­
mente nova. O Jovem José
vem acrescentar mais uma pe­
dra nesse edifício, em que a
largueza de concepção do arqui­
tecto se conjuga harmoniosa­
mente com a finura do artesão
que não descura um só por­
menor.
Depois de haver publicado
A Montanha Mágica, Os Buddenbrook e Cabeças Trocadas,
a Editorial Livros do Brasil
não poderia deixar de incluir
na suai Colecção «Dois Mundos»
uma obra-prima que a crítica
imiuindiall e 01 público têm sau­
dado em todos os quadrantes e
que beirn merece a qualificação
de çlássdca.

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VOLUMES PUBLICADOS
NESTA COLECCÃO:
*
1 O LIVRO DE SAN MICHELE, por AXEL UUNTHE
2 AS VINHAS DA IRA, por JOHN STEINBECK
3 GOG, por GIOVANNI PAPINI
4 MADAME CURIE, por EVA CURIE
5 HOMENS E BICHOS, por AXEL MUNTHE
6 ARCO DO TRIUNFO, por ERICH MARIA REMARQUE
7 HISTÓRIA DE CRISTO, por GIOVANNI PAPINI
8 SERVIDÃO HUMANA, por W. SOMERSET MAUGHAM
9 PALAVRAS E SANGUE, por GIOVANNI PAPINI
10 GERAÇÃO PERDIDA, por ALDOUS HUXLEY
11 O DOUTOR ARROWSMITH, por SINCLAIR LEWIS
12 O FIO DA NAVALHA, por W. SOMERSET MAUGHAM
13 OS BUDDENBROOK, por THOMAS MANN
14 MIGUEL-ANGELO NA VIDA DO SEU TEMPO, por GIOVANNI PAPINI
15 O LIVRO NEGRO - «NOVO DIÁRIO DE GOG», por GIOVANNI PAPINI
16 TERRA BENDITA, por PEARL S. BUCK
17 OS FILHOS DE WANG-LUNG, por PEARL S. BUCK
18 CASA DIVIDIDA, por PEARL S. BUCK
19 CONTRAPONTO, por ALDOUS HUXLEY
20 O DIABO, por GIOVANNI PAPINI
21 AS CHUVAS VIERAM, por LOUIS BROMFIELD
22 CHUVA E OUTRAS NOVELAS, por W. S. MAUGHAM
23 O PATRIOTA, por PEARL S. BUCK
24 POR QUEM OS SINOS DOBRAM, por E. HEMINGWAY
25 ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, por ALDOUS HUXLEY
26 VIGIA DO MUNDO, por GIOVANNI PAPINI
27 DEBAIXO DO CÉU, por PEARL S. BUCK
28 CONSCIÊNCIA DE MÉDICO, por MORTHON TOMPSON
29 SEM OLHOS EM GAZA, por ALDOUS HUXLEY
30 OS THIBAULT, por ROGER MARTIN DU GARD (3 v.)
31 LUCY CROWN, por IRWIN SHAW
32 A MONTANHA MÁGICA, por THOMAS MANN
33 DIÁRIO DE ANNE FRANK
34 O BREVE REINADO DE PEPINO IV, por JOHN STEINBECK
35 EXAME DE CONSCIÊNCIA, por W. SOMERSET MAUGHAM
36 REBECA, por DAPHNE DU MAUR1ER
37 OS JOVENS LEÕES, por IRWIN SHAW

por PEARL S. BUCK 95 A TRUTA. por ALBERTO MORAVIA 74 UMA AGULHA NO PALHEIRO. por CURZIO MALAPARTE 104 O DON TRANQUILO. PORTER 88 A SERPENTE VERMELHA. BUCK 89 CASA INDEFESA. por CARLO COCCIOLI 99 HÁ SEMPRE UM AMANHÂ.0 vol. O REI DA CHUVA. por ERSKINE CALDWELL 81 OS PATRIOTAS. por JOHN STEINBECK 77 GENTE DE DUBLIM. por JAMES HILTON 44 A ARVORE DA NOITE. por ALBERTO MORAVIA 101 AMERICA. 5° vol. ROBBE-GRILLET 53 SANGUE E PRISAO. por JAMES JOYCE 78 O TEMPO TEM DE PARAR.0 vol. por DYLAN THOMAS 72 RUA PRINCIPAL. por CURZIO MALAPARTE 54 AS VERDES COLINAS DE AFRICA. BUCK 49 OS POSSESSOS. MAUROIS 39 O OUTRO EU. por CURZIO MALAPARTE 76 O INVERNO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO. por JOHN GALSWORTHY — i. Obra em 4 vols. por ANDRÉ MALRAUX 80 UMA LUZ AO ESCURECER. por ALDOUS HUXLEY 84 OS CARNEIROS DE FOGO. 3. por ANDRE MALRAUX 41 O OBELISCO PRETO.: A Colher de Prata. por ROGER VAILLAND 96 CORRESPONDENTE DE GUERRA. ENTRE AS ÁRVORES. por ANATOLY KUZNETSOV 107 EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO.: A Pri­ sioneira 108 A FAMÍLIA FORSYTE. por JAMES BARLOW 82 A ESTRADA REAL. por /. por J. 3. por I. por PEARL S.: O Proprietário. por GRAHAM GREENE 43 AQUELE DIA INESQUECÍVEL. por ALDOUS HUXLEY 71 RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM CÃO. por SINCLAIR LEWIS 73 OS INDIFERENTES. por THOMAS MANN— 1° vol. 2. por IRVING STONE 66 CARTAS AOS HOMENS DO PAPA CELESTINO VI.0 vol. 2. por CURZIO MALAPARTE 106 BABI YAR. por TRUMAN CAPOTE 45 JUIZO UNIVERSAL. por CURZIO MALAPARTE 58 LUZ DE AGOSTO. por FRANZ KAFKA 86 COM AMOR E RAIVA.: O Caminho de Guermantes. por FRANZ KAFKA 102 FILHOS DA GUERRA.: 0 Canto do Cisne no AS TRÊS FILHAS DA SENHORA LIANG.: No Caminho de Swan. por ALDOUS HUXLEY 52 ENTRE DOIS TIROS. por PEARL S. por A. por PEARL S. por ROGER VAILLAND 69 HENDERSON. por JOHN STEINBECK 97 TAMBÉM O CISNE MORRE. por MIKHAIL CHÓLOKHOV.° vol. por GIOVANNI PAPINI 46 NO RASTO DE ANNE FRANK. por PIERRE GASCAR 8s O PROCESSO. por PEARL S. BUCK in JOSÉ E SEUS IRMÃOS.0 vol. por GIOVANNI PAPINI 61 DEBAIXO DO VULCAO. D. por JOHN STEINBECK 93 A SANGUE-FRIO. por ALDOUS HUXLEY 79 OS CONQUISTADORES. por ALBERT CAMUS 50 ESTA TERRA CRUEL. BUCK 100 O CONFORMISTA. por ALDOUS HUXLEY 98 A AGUIA AZTECA CAIU. por WILLIAM FAULKNER 59 A VIDA TRÁGICA DE VAN GOGH. 3° vol. 10s A PELE. por MALCOLM LOWRY 62 A FLOR OCULTA. por ANDRÊ MALRAUX 83 A ILHA.: No Tribunal. SALINGER 75 KAPUTT. por TRUMAN CAPOTE 94 MORTE NO CASTELO. por PEARL S. por A. por E. por DAPHNE DU MAUR1ER 40 A CONDIÇÃO HUMANA. por ERNEST HEMINGWAY 91 O CASTELO. 2° vol. HEMINGWAY 55 RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM.: A Nova Geração 109 OS NO VOS FORSYTE.: A Sombra das Raparigas em Flor. por VASCO PRATOUNI 87 A NAVE DOS LOUCOS. BUCK 63 ESTRANHOS FRUTOS. JOYCE 56 FÉRIAS EM CROME. por MARCEL PROUST—1° vol. por PEARL S. por ALDOUS HUXLEY 57 MALDITOS TOSCANOS. por JOHN GALSWORTHY — 1° vol. por KATHERINE A. 112 SOMBRAS NO PARAÍSO. 4.: 0 Macaco Branco. STONE 60 UM HOMEM LIQUIDADO. por ERICH MARIA REMARQUE 42 O PODER E A GLÓRIA. por GRAHAM GREENE 48 PRECONCEITO RACIAL. BUCK 103 O VOLGA NASCE NA EUROPA.° vol. por HEINRICH BOLL 90 PARIS É UMA FESTA. por ERNEST HEMINGWAY 65 A VIDA AVENTUROSA DE JACK LONDON. por GIOVANNI PAPINI 67 DUAS SEMANAS NOUTRA CIDADE. por FRANZ KAFKA 92 VIAGENS COM O CHARLEY. por ULL1AN SMITH 64 NA OUTRA MARGEM. por ERSKINE CALDWELL 51 REGRESSO AO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO. por IRWIN SHAW 68 FIM DE SEMANA. por ERNEST SCHNABEL 47 A INOCÊNCIA E O PECADO. por ERICH MARIA REMARQUE .: Sodoma e Gomorra. por SAUL BELLOW 70 O GRANDE PROBLEMA.38 A VIDA DE VICTOR HUGO.

JOSÉ E SEUS IRMÃOS .

22 .C O L E C Ç Ã O D O I S M U N D O S THOMAS MANN JOSÉ E SEUS IRMÃOS II VOLUME CAPA DE DORINDO DE CARVALHO O JOVEM JOSÉ TRADUÇÃO DE ELISA LOPES RIBEIRO s Reservados todos os direitos pela legislação em vigor Ê EDIÇAO «LIVROS DO BRASIL» LISBOA Rua dos Caetanos.

Francamente. Mas uma lei dirige-se ao entendimento e não às sensações. ou melhor. mulheres do pai. Nós não partilhamos desse ponto de vista. Na verdade assim era. As passagens que citámos são exactas. De um certo ponto de vista. para logo o abandonarmos. era pastor como os irmãos e vivia na companhia dos fiilhos de Baila e de Zelfa. Porque José era mais do que isso. As sensações escapam ao entendimento. podemos aceitá-lo um momento. e também sabemos o que diz mais o belo colóquio a seu respeito: que ele comunicava ao pai tudo quanto sabia de mau acerca dos irmãos. e os irmãos assim o conside­ ravam. A formosura não será um sofisma. mas necessitam de ser explicadas uma por uma. um sonho exemplar? Supõe-se que há leis reguladoras da beleza.Título da edição original: JOSEPH UND SEINE BRÜDER 1 O JOVEM JOSÉ TOTE DA BELEZA história continua. José tinha dezassete anos e era. aos dezasseis anos. Daí a insipidez da beleza perfeita que não deixa nada a desejar. na opinião de todos que o viam. não discreteamos com prazer sobre a formosura. para que a situação se torne clara e o que resumimos ao entrar no domín. poder-se-ia dizer que era um rapazelho insuportável.io do passado assuma as suas reais proporções. o mais belo dentre os filhos dos homens. Conta que José. As sensações precisam de ter algo que A íí . Tanto a palavra como a ideia são insípidas.

Porém no círculo de José. havendo portanto engano. para o lado feminino. Só através de uma vitória alcançada sobre si próprio é que um homem. Sem dúvida. isto é. Isto faz parte da sua essência. e até a si própria causa a mesma impressão que o sorriso evidencia inequivo­ camente. quanto engano andam envolvidos no assunto! O mundo está cheio de anedotas de rapazes vestidos de mulher que fazem andar à roda a cabeça dos homens e de raparigas vestidas à homem que des­ pertam paixões am pessoas do mesmo sexo. quadris estreitos. tanto interiormente como exteriormente. encantados. Foi o que se verificou com o filho de Raquel. Na verdade. pode apreciar a estrita perfeição a ponto de se entusiasmar por ela. Também não é belo no sentido de uma feminilidade des­ tituída de alcance prático. Muitas coisas nos autorizam a afirmar que o ódio dos irmãos a José não era efectivamente senão o encan­ tamento geral com reacções negativas. senão vir. A juventude. 13 . excepto quando os movia. Que ele era pastor. muitos que sabem estar de pé ou andar de maneira airosa e que encontraram o equilíbrio entre a delicadeza e a força.perdoar. Só o pe­ dante. Não é nada extraordinário que sobre um tal corpo assentasse. Raros são os casos. ser formoso pelo lado feminino e pelo masculino. porque a beleza perdeu o seu objectivo. tão gracioso que. O TASTOR Já falámos bastante acerca da beleza de José e dos seus dezas­ sete anos. Uma lei obriga e iimpõe exteriormente. busto elegante e pele dourada. e havia quem a atacasse. os homens e as muliheres fiquem boquiabertos. O encanto da juventude é a manifestação de beleza que por sua própria natureza paira entre o masculino e o feminino. mas uma cativante cabeça humana. pois sempre houve e há muitos seres humanos igual­ mente belos. quanta artimanha.am-se para outro lado com um bocejo. em vez de se dizer que um ente é formoso. não menos susceptíveis de serem admirados. quanta ilusão. de dezassete anos não é belo no sentido de masculinidade perfeita. Basta que se descubra o embuste para que as paixões arrefeçam. é um asserto que também precisa de explicação. essa graça tinha os seus opositores. poderá referir-se à beleza do seu semelhante. em que a beleza provoca sensações inteiramente destituídas de interesse prático. muitos jovens de dezassete primaveras exibiram pernas esbeltas. suscita no observador a impressão de beleza. A beleza é uma magia exercida nas nossas sen­ sações e. o que atrairia bem poucas pessoas. falar-se-á com mais pro­ priedade de um homem perfeito ou de uma muil'her absolutamente feminina. uma magia que as sensações têm tendência a tomar por beleza. que ama o consagrado. encaminhando de algum modo os seus passos para a imagem corpórea de Deus. Aos dezassete anos. Mas isso nada prova. o convencional. embora existam. É difícil atri­ buir grande valor a essa espécie de entusiasmo. não uma cabeça de burro. O que em geral entra em jogo é o elemento da juventude. das suaves relações Í2 da juventude com o mundo e do mundo com ela. Na opinião de todos que o con­ templavam. Este só continuará a ser belo se for visto no escuro. desprendia-se um sorriso quase divinal. como tal. De modo que. ou uma mulher. Têm havido muitos de boa altura. mas de sedução. sempre um tanto ilusória. os filhos de Zelfa e de Bala. nem altos nem baixos de mais. Um jovem. Talvez até que a beleza humana em seus efeitos sobre os sentidos não passe de magia do sexo. Coloque-se uma cabeça feia num corpo belo. muito vacilante e efémera em seus efeitos. na verdade. o Sempiterno dotara-o de uma graça que lhe ilumi­ nava o rosto. assim como os irmãos. pode ser-se mais formoso do que uma muilher ou um homem. e dos seus lábios decerto grossos. A compulsão interior não é obra de lei. expansão e restrição. era a pessoa dele e a presença dele que exerciam o encantamento da formosura. E por isso se diz que ele era o mais formoso dentre os filhos dos homens. como o seu sorriso traduz. Mas temos de convir que a beleza apoiada na graça juvenil se inclina sempre mais. Adulação exagerada. Desde os tempos em que o homem deixou de viver nos abismos e andar de rastos. e nem sequer se pode dizer que os opositores não par­ ticipassem da opinião geral. diante de tanta beleza e tanta graça. quando não é prejudicada por senões demasiado graves. ser tão belo.

Um. E a posse de tudo isso regulava as suas 14 . Sim. umas vezes lisa e plana. Nela traba­ lhavam os seus filhos e os escravos. Jacob abas­ tecia-se fartamente de trigo e de mosto. um hóspede tolerado e respeitado. Como toda a gente sabe. Poderia contudo ser considerado um árabe do deserto. A sua grande riqueza era constituída por bens móveis: os rebanhos. Além disso. Os seus sentimentos religiosos não se harmonizavam com os cultivadores da terra. mel e até de prata e ouro. como filho de pais que também tinham sido gerins. Não era daí que lhe provinha a dignidade. podia pôr-se novamente a caminho em demanda de outros poços e outras pastagens. outras vezes íngreme e rochosa. motivo de horror e de terror para os habitantes da cidade ou do campo? Não. um Caim dado ao nomadismo e à rapina. armando a sua gente para ajudar os cidadãos de Hébron e os camponeses cria­ dores de gado a rechaçar as hordas que irrompiam dos desertos do Sul. um ger. o seu Deus não fazia diferença dos outros Baal do país. belo dia.O abençoado Jacob era um estranho no país. pela atitude e não pelo seu sistema de vida instável. Mas o género de trabalho rural tinha pouca ou nenhuma significação na vida de Jacob. povos criadores de camelos que se entregavam à pilhagem e traziam o corpo tatuado com as marcas das tribos. José. a sua situação de ger e hóspede não lhe dava direito a possuir senão o local onde vivia. 9e assim se pode dizer. além de pastor. por vezes tamibém fazia de semeador e de ceifeiro. Na sua inimizade mortal a Amaleque. mas sim da sabedoria e da riqueza que possuía e também da impressão causada pela sua pessoa e atitude. apesar de legal. como se dizia. Exercia-o sem entusiasmo e apenas para justificar a permanência no país. bronzeados pelo sol. mas por natureza e posição. Arrendava ora aqui. Não por ter vivido tanto tempo fora da pátria. como outrora vivera diante das portas de Siquém. cam solo fértil entre o pedregulho onde o trigo e a cevada podiam germinar. de azeite. caraoterizado. romãs. por uma ambiguidade ordenada. Com os lucros dos rehanhos. Jacob vivia em tendas diante dos muros de Hébron. como Jacob já várias vezes o demonstrara. Não. ora ali uma pequena terra de lavradio. Não se tornara um cidadão estabelecido e membro da classe dominante na cidade. E todavia Jacob não era um camponês. figos. decididamente. de maneira nenhuma.

a ponto de já não haver campo de pastagem suficientes. concedendo4hes empréstimos. . a cinco dias de jornada. ocupa­ vam-se do pastoreio principalmente os filhos de Lia. Se queria levar uma vida assente e desejava que o não tomassem por um nómada invasor de terras alheias. desde Rúben a Zabulon. E assim como os filhos de Ichulano haviam submetido Labão. Jacob pôde dominar até sobre os camponeses livres. com as receitas da armazenagem. Decidiu mandar a maior parte para pasta­ gens que ficavam ao Norte. onde estivera antes. pelos quais se obrigava a só tocar os rebanhos para o restolho e a não os deixar vaguear nem pastar senão em terras de pousio. trans­ porte e acompanhamento das mercadorias que vinham da terra da Marduk. Para a manutenção dos rebanhos. rico em mananciais. Aí. tam­ bém agora a terra já não comportava Jacob. tinha de fazer acordos ilegais e amigáveis com o povo de Baal. Mandou-as cultivar pelos escravos e por servos rurais. pois tinha havido uma longa e aben­ çoada quadra de paz. na estrada a leste do Jordão. comparação a que José não se cansava de ailudir. Sucedia com eles o que sucede com as representações dos signos do Zodíaco: só seis eram visíveis ao mesmo tempo. E assim como outrora os prados de Sodartia não compontavam Lot e Abraão juntos. Jacob entretanto aumentou as suas terras. enriqueciam-no os produtos do solo.redações com a gente da cidade e a do campo em condições que eram cuidadosamente determinadas por numerosos contratos e lhe conferiam foros de cidadão. enquanto os quatro de Bala e de Zelfa e os dois de Raquel ficavam com o pai. Os habitantes da cidade especulavam com as terras e prosperavam extraordinariamente com o comércio das caravanas. Jacob precisava de manter boas relações comerciais com os negociantes da cidade e com os camponeses que trazia ao seu serviço. as terras de pousio não abun­ davam por aquelas colinas. a despeito do seu género de vida instável. Verdade é que. Viu-se assim obrigado a dividir os rebanhos. do despacho. O cul­ tivo e a colonização desenvolveram-se com rapidez. na ocasião. e atravessavam essa região até ao mar com destino à terra da lama. Além dos lucros que tirava dos negócios. naquele mesmo vale de Siquém. ou em direcção aposta. passavam por Damasco.

com a orla das vestes franjada. Nem sempre guardava os rebanhos. meio à moda da gente de Sinar. Eles davam-lhe ordens e até bastante ásperas. O resultado era que. isto é: que os traços de Eliezer ajudavam a evocar a imagem do primitivo pere­ grino e amigo de Deus. Na verdade. ocupado em cultivar a ciência. mas geralmente estavam afastados por quatro a cinco dias de viagem. como a figura e o porte. Mas.Note-se que os seis de Siquém vinham para Hébron no tempo das colheitas. como que uma divina serenidade. A afirmação da parecença só se compreende em sentido inverso. Efectivamente não se deve tomar muito a sério esse seu trabalho. procedendo como se não fosse da sua igualha. nem lhes chegara. destinado a vigiá-los. por outro. fácil de atri­ buir a um venerável desconhecido de outras eras. Só trabalhava quando lhe apetecia. tornada fofa pela água das chuvas. José não trabalhava todos os dias no campo ao lado dos irmãos. nem majestosos. os irmãos não gos­ tavam de o ter ao pé deles e. o grande terebinto que havia ao lado do poço. por um lado. porque não tinham conhecido o CaJdéu. ALIÇÃO Que fazia ele então? Ficava sentado com o velho Eliezer debaixo da árvore de Deus. quando havia mais trabalho. Jacob deixava-lhe muito tempo livre para ocupações mais elevadas. Eliezer era um pouco mais velho do que Jacob e trajava como ele. quando trabalhava ao lado dos irmãos. e isto convém também notar porque justifica dizer-se que José vivia com os filhos das escravas. à moda beduína. Diziam que Eliezer era parecido com Abraão. Não porque os traços do ancião fossem grandes. de que a seguir falaremos. não podiam saber se era parecido ou não. atraivés dos séculos. mas por haver neles uma suavidade. mas José pouco trabalhava. nem revolvia a terra arável para a semeadura do Inverno. mas antes como um representante e emissário do pai. fazia-o na qualidade de feitor ou na de ajudante? Foi o que os irmãos nunca chegaram a saber. irritavam-se quando José lhe dava na veneta ficar em casa. qualquer descrição a tal respeito. Na 16 .

Segundo. — Diz-me. A parte da fronte que o manto lhe deixava descoberta era cadma e sem rugas. ponto de encontro das faces com a barba. como se por baixo dela se ocul­ tasse o verdadeiro rosto. de aletas finas. mais parecendo lábios em que se movia o negro globo ocuilar. histórias a que mais tarde nos referiremos. 17 . As sobran­ celhas. depois dos animais e das plantas? Ao que José devia responder: — Deus criou o homem em último lugar para que se não pudesse dizer que ele O ajudara na obra da Criação. Aliás. 2-J.° v. quase sem pestanas. estendiam-se desde a raiz grossa e pouco profunda do nariz arté às têmporas. podendo dizer a si mesmo. ainda pretas e ligeiramente arqueadas. para que o homem se humilhasse. s.» Terceiro.-2. essa impressão. José lembrava-se de ter tido. quais são as três razões por que Deus criou o homem em último lugar. filho da esposa legítima — perguntava ele ao rapaz quando estavam ambos sentados à sombra da árvore da ciência —. como um hóspede para o qual todas as coisas tinham sido preparadas. Então Eliezer concordava. Por baixo do bigode aparecia bem nítida a linha vermelha do lábio inferior. Corriam as histórias mais variadas e absurdas a respeito das origens de Eliezer e dele próprio. os olhos escondiam-se nas pálpebras pesadas e empapuçadas. para que se pudesse sentar à mesa do banquete. sobressaíam acima da linha da barba. em criança. O nariz. era de uma tal regula­ ridade que a barba parecia estar amarrada por trás das orelhas e poder ser retirada. E José ria. trazia metidos os aipetrechos de escrita. cuja pele macilenta era vincada por uma infinidade de pequenas rugas. convicto: «A mosca varejeira precedeu-me. Esta linha. que a partir dos cantos da boca se confundia com a barba branca-amarelada. satisfeito: — É como dizes. De momento bastará dizer que ele era mordomo de Jacob e seu mais antigo criado. incli­ nava-se regularmente até ao bigode.faixa. a impressão predominante do rosto de Eliezer era a de uma máscara. que sabia ler e escrever e era o mestre de José. E abaixo das sobrancelhas. I. As faces.

a quem o observasse a mesma ideia de terra firme. enquanto falava. aliiás já pasmados só de contemplar-lhe a formosura. Eliezer. teve perto de Beth-el aquele sonho da escada que conduzia ao Céu. mercê dele. cujos terraços conduziam ao céu setentrional e à casa do Senhor. narrando como a donzela Ichara obtivera do lascivo men­ sageiro o nome de Deus e como. que circundavam o Zodíaco em sete círcuilos de várias dimensões. ó filho verdadeiro! Presta aten­ ção. por isso vais ter um lugar entre as estrelas. e eram doze os meses de trinta dias cada um. e o dia e a noite formavam a pequena. visível nos equinócios. terra celeste do zodíaco e. sendo este a hora dupla. Ao universo celeste corres­ pondia exactamente o universo terrestre. o mensa­ geiro. Eram doze as constelações do Zodíaco. constituíam os sete planetas transmissores de ordens. estava Deus. O círculo menor correspondia ao maior.mar celeste meridional. no pó. lá no firma­ mento. era como uma região montanhosa com dois picos. O Sol e a Lua eram dois. E precisa­ mente nesses dias o nascer do Sol durava desde o momento em que nascia no horizonte a sua orla superior até ao momento em que o astro se apresentava cheio e luminoso: a sexagésima parte de uma hora dupla. À beira do poço já ele procurara distrair o pai com a fábula dos nomes. dividido em três partes: atmosfera. Ela era o mês do dia. bem como dos inúmeros ditos e historietas dos tempos antigos em que o rapaz devia tornar-se versado. mal acabara de ouvir o verda­ deiro nome. e a terra celeste. de sete dias cada um. e sessenta minutos singelos para cada hora do dia e da noite. composto simbolicamente de céu superior. de sorte que este 18 assemelhava-se a uma torre redonda de sete degraus.» E era esta a origem da constelação da Virgem. enganando o importuno Senazaà. assim das doze horas duplas provinham doze horas singelas. Por essa escada é que Senazai pôde tornar a subir. Sete era também em especial o número da Lua. formando as estações do grande círculo. José aprendeu a misteriosa maravilha dos números sessenta. que também era dividido em doze períodos. viu-se condenado a permanecer cá em baixo. embora des­ tinada a discipliná-lo e a prepará-lo para receber verdades austeras e sagradas. Lá. O reino terrestre dava. lá no cirno. até ao dia em que Jaicob. Não passa de um exemplo dos muitos exercícios de treino de memória e sagacidade. Este — segundo José aprendeu—corria em volta do disco da Terra como uma faixa. misturando as suas águas com as do mar celeste que caíam do alto. profundamente humi­ lhado de só o conseguir graças ao sonho de um mortal. mas simples recreação do espírito. que harmonia. Apura bem os sentidos! Eram sete os astros errantes e transmissores de ordens. E assim como o Verão e o Inverno formavam a grande revolução terrestre. Que ordem. mostrando-se tamibém engenhosamente divisível. Í9 . quatro e três. visível de qualquer parte. Quanto a Senazai. ó Dumuzi. teria irrompido por todas as fendas. porém. o Sol e a Lua— Horeb e Sinai. José aprendeu assim com Eliezer o que era o mundo celeste. com outros cinco astros errantes. E a Sua montanha sagrada refulgia como ígneas pedrarias. que exactidão em tudo isto! Mas repara ainda. Porque não era a pura verdade. o número dos quartos de Lua. Acolhera-a o Senhor nas Alturas com grande benevolência. subira intacta na sua virgin­ dade. Havia assim um período sessenta vezes maior do que o disco solar. de modo que o aluno não distinguia o que era celeste do que era terrestre. O Sol e a Lua.Mas isto não é nada. sem poder subir. apontava para a montanha resplandecente do Senhor. e portanto também da árvore da ciência. tail como o Hermon cintilava com a neve sobre a região do norte. dizendo-lhe: «Escapaste ao laço do pecado. continha tantas vezes o diâmetro do disco solar quantos os dias do ano: trezentas e sessenta vezes. como tudo mais. e a cada um cabia um dia. que abria o caminho dos deuses. como tudo se combinava e correspondia entre si de maneira tão assombrosa que outra coisa se não podia fazer senão cair em adoração perante tão perfeita harmonia. A órbita solar. filho de Yitzchak. e havia muito que José aprendera a enfeitiçar os ouvintes. sete. mas encontrava-se também por baixo dela e. Eliezer começara a contar-lhos desde a mais tenra idade. doze. Poder-se-á dar a isto o nome de ciência? Não. reino terrestre e oceano terrestre. seus irmãos. ou por outras palavras. o divino carácter da miedida. Esse era portanto o minuto duplo. respectivamente para o dia e para a noite. o gritara e. no tempo do grande dilúvio.

Tornou-se sobre-humana a concepção que José fazia do tempo e do espaço. era sagrado. repetindo-se mil quatrocentos e sessenta vezes. essa diferença. de quando em quando. um quarto de dia. porém. teve de ajustá-los. per­ fazia um ano inteiro. maldições e noites invernais. disso. Por isso Benoni — Benjamim estivera em risco de morrer ao atravessar as portas do nascimento. dividindo os dias da Lua pelo das suas fases — por quatro—de novo se obtinha a semana de sete dias? Nisto se via a mão do Altíssimo. passando dos círculos menores a outros e outros incomparavelmente maiores que os rodeavam. O próprio dia era um ano pequeno. como quem atravessa a estreita passagem entre os cumes da «Montanha do Mundo». No decorrer do tempo. que resultado se obti­ nha. com a sua inteligência. e os dias eram contidos no grande giro de revolução. a sua claridade estival e a sua noite invernal. e por pouco não sucumbira na luta contra as forças do mundo inferior. Dias difíceis e maus. visto que cinco vezes doze faziam sessenta. Quatro era também o número da Lua e de Istar. dizendo: «Adonai!» E como sucedia que. Esse excedente dava ao treze o cunho de número aziago. jogo a um tempo divertido e proveitoso. do mesmo modo que o corvo era uma ave de mau agoiro. porque teve de ser acrescentado aos trezentos e cinquenta e quatro dias do ano lunar. a anos completos de espantosa extensão. dias de dragões. uns meses desagradáveis. Além. Se. e mil quatrocentos e sessenta dos tais dias formavam o ano de Sírio. a fim de que os tre­ zentos e sessenta dias coincidissem com o ano solar. E sessenta. Cinco era também o número pelo qua] se devia multiplicar setenta e dois para se chegar a trezentos e sessenta. failtava sempre. Mas era grande só comparativamente. como José podia calcular. Porque o número cinco tinha uma relação maravilhosa com o doze. Mas em seu lugar fora aceita Dina. se ia entretendo como se fosse com um jogo. Mas treze também era ruim. Por isso podiam-se agrupar os planetas em dois e cinco. cada uma delas governada por um planeta. a que corres­ pondiam as divisões do dia. multiplicando quatro por três? O resuiltado que se obtinha era: doze! José ria. apenas por ser o décimo terceiro filho de Jacob. não para a corrigir. O mundo. José percebia que Deus dotara o homem de inteligência para a causa sagrada. um quairto de dia. a fi. como José podia calcular. O número dos regentes do Zodíaco era de três: Sol. Este era o período de Sírio. Esse era igualmente o número de partes em que se dividia a órbita solar. era o número cósmico. soib a direcção do vdho. O número cinco aparecia aqui com um aspecto intolerável. pois ambas mostravam quatro fases. Com tal divisão e agrupamento obtinha-se uma semana planetária de cinco dias. surgia a 20 Primavera e predominava outra vez a quadra das bênçãos. de os fazer coincidir com os trezentos e sessenta e seis do ano lunar-solar. Simplesmente prodigioso! Mas também se podiam agrupar os planetas em três e quatro. E porquê? Porque os doze meses lunares tinham só trezentos e cinquenta e quatro dias e era preciso agregarem-se-Jihe. Con­ tudo os portentos operados com os números não eram perfeitos: o homem. mas para a tornar mais coerente. a que não escapou nem o sim­ pático número doze. era o número dos pontos cardeais. como se vira. tivera por fim de intercalar mais cinco dias. Só depois de eles passarem. e que o homem. por cinco e sete serem doze. E não se ficava por ali. finalmente. No decorrer do tempo. Bem estava em penetrar a natureza do espírito de Deus. entretanto.m. compunha-se do desenvolvimento dos anos maiores — ou tailvez ainda não defini­ tivamente os maiores — cada um com o seu Verão e o seu 21 . que perecera. que correspondiam à décima terceira constelação zodiacal — o Corvo. e no ano ocorriam setenta e duas dessas semanas. com as suas estações. e com muito mais razão do lado dos cinco. Porém. com igual direito para ambos os lados. Lua e Istar. Mais maravilhosa ainda era a relação com o sete. considerassem trezentos e sessenta e cinco como número dos dias. mas Bliezer erguia as mãos. Com todas estas coisas o jovem José.como o sim e o não. que se tornou agoirento. determinando em cima e em baixo a divisão do Universo. Quatro. E a rectificação foi seguida de desgraça e maldição. número glorioso — soma ao mesmo tempo dos dias do ano e resultado numérico daquela divisão da órbita solar pela linha mais comprida que era possível traçar sobre o disco.

Alguns povos tinham costumes e práticas religiosas extravagantes. Eliezer sabia e também ensinou a José que a vara dupla babilónica tinha o com­ primento do pêndulo.Inverno. José aprendeu ainda as medidas de comprimento e de distância. o uso régio e o comum. Mas o extremo oci­ dente. principal­ mente as bárbaros do extremo norte que habitavam o país de Magog. E isto — garan­ tiu-lho Eliezer — não era temerário. José familiarizou-se com 22 os pesos e com os valores monetárias do ouro. tendo voltado à mesma posição. as povas de Sidon e de Gebal. Apesar de tagarela. consoante a trindade cósmica. era também horroroso. com particular habilidade. dava o resultado mais sagrado de todos de trezentos e sessenta. um verdadeiro anjo de Arabote! José ficou também conhecendo as enfermidades humanas mais importantes e o tratamento delas. deduzindo-as do seu próprio passo e do curso do Sol. por estar à volta de um órgão ligado ao da geração. multiplicado pelo belo número seis. Tinham também o nome de Olam. afeitas ao comércio e às deslocações. quando se achavam na constelação do Leão ou do Caranguejo começava o Verão. sede das energias vitais. Havia setenta povos. Cada Inverno principiava com uma inundação e cada Verão com um incêndio. chamado Tarchich. Tornava-se o vácuo e com isto o peso. José entretinha-se com assuntos elevados. pois ele provava mais uma vez o carácter sagrado do número sessenta que. visto serem setenta e duas as semanas planetárias de cinco dias. a entender como a gordura dos riins sobrepujava as demais. em certo sentido. E assim os números sagrados do ciclo planetário desempenhavam o seu papel em toda a estrutura da medida no tempo. pois o homem constituía um resumido universo que correspondia ao vasto Universo. ou talvez setenta e dois. Em seguida. de instruções divididas por secções gra­ vadas nuim modelo de argila. depois de terem velejado diais sem conto pelos vastos mares verdes. vinho ou trigo correspondentes ao seu valor metálico. isto é: capacidade para pensar nos «aeons» e. dava por vezes um estalinho com a língua e exclamava: — És um anjo. aprendeu a trocar cobre par prata e a trocar um boi pelas medidas de azeite. «o aeon». muito além dos cumes do monte Hermon e ainda para lá da região de Hanigalbat. Exercitou-se em. Este começava quando todas as estrelas se achavam na constelação do Aquário ou dos Peixes. o discípulo não divuilgou tal conhecimento a ninguém. segundo o uso babilónico e o fenício. o que vive nos «aeons». ter domínio sobre eles. o corpo humano que por sua vez se compunha. e pusera no coração do homem «olam». ao ouvi-lo. Por es. ao norte do Touro. que seria a Sicília. a reconhecer no fígado o ponto de partida das comoções. porque os astros. líqui­ dos e gasosos. da prata e do cobre. Chai Olam. El Olam. que coisas não sabia aquele Eliezer! Mistérios que tornavam o estudo em prazer reall e ao mesmo tempo lisonjeiro. que se tomava espaço. vindos de Sidon. a reter na memória um sistema. Cada um destes movimentos compreendia quatrocentos e trinta e dois mil anos. pelo quail sie verificava serem as vís­ ceras uim espelho do futuro e uma fonte de prognósticos fide­ dignos. sendo a repetição exacta de todos os movimentos precedentes. por serem mistérios conhecidos apenas de alguns homens excepcionalmente inteligentes e discretos que viviam retirados em templos e cabanas. A eles devia Eliezer o conhe­ cimento dos pontos extremos da Terra. de sólidos. e aili tinham estabelecido colónias. deviam reproduzir no conjunto os mesmos efeitos. executando sessenta oscilações duplas num minuto duplo. Por isso essas revoluções se chamavam «renovações da vida» e também «repeti­ ções do passado» ou «volta perpétua». Era uma instrução de soberbas proporções. Aprendeu a associar as partes do corpo aos signas de Zodíaco e aos planetas. Mas Deus era o Senhor dos «aeons». que tiiniha sempre à mão.se caminho tinham penetrado em Kittiim. E em tudo era tão ágil de espírito que Jacob. os seus tecidos de púrpura 23 . começou a receber lições acerca dos diferentes povos. mas simplesmente por se sentirem impelidas a visitar paragens longínquas a fim de venderem. não propriamente por lhe terom querido proporcionar matéria de ensino. Assim. Para ali se tinham dirigido uns homens destemidos. cálculos comerciais. de modo que entre um ponto inicial e um ponto final davam-se todas as revoluções e todos os movimentos circulares. Efectivamente.

Tailvez se digne agora mungir as cabras. convertera à civilização. com o busto muito direito e os joelhos bem abertos. em caso idên­ tico. listas de tributos. José devia portanto. seriam segredos que lhe entrariam por um ouvido e sairiam pelo outro. Lembra-te de mim quaindo chegares ao teu reino!» José lá ia depois ter com os irmãos ao campo ou ao prado. Ofir. eles tinham descoberto as terras de olíbano no baixo mar Vermelho. Arrojando-se cora­ josamente ao mar. dos acontecimentos assombrosos suce­ didos a Adapa.conservar-se acocorado debaixo da árvore. coimo as dos Fenícios. Noutras oca­ siões. lhes reconduzia as embarcações até à pátria. empregava a escrita de Deus. correndo o indicador pelas tábuas. o reino da Fénix. Porém. Estas não encer­ ravam verdades. A leitura e a escrita eram naturalmente a base de tudo e acompanhavam tudo. atingindo tal altura que a Terra cá em baixo parecia uima torta e o irnar. a untar o corpo com óleo.! Fazes progressos maravilhosos. mais airosamente do que esse famoso herói. Jasé achava sobretudo encantador que Dirma. a usar roupa. lia-as para si até as saiber de cor.e bordados artísticos aios respectivos habitantes. Mas a história que ele mais apreciava era a de Engidu. ao fim de seis dias e seis noites de amor. o país do ouro. sem grandes perigas. com os homens que viviam nas cidades. ou historiador de um grande rei. tivesse ades­ trado o lobo dias estepes a ponto de torná-lo susceptível de aper­ feiçoamento. apossara-se dele um tal medo que se precipitara no aibismo juntamente com a águia — desfecho bem humilhante. paira o Sul. ensinando-o a comer e a beber de maneira decente. e neste caso servia^se do estilo e da tabuiinha. Mas eles arreganhavam os dentes. ou de cabra. a escrita oficial e sagrada de Babel. dizendo: «Aí vem o toleirão com os dedos sujos de tinta. da erva fecundante e dia água vital. que Ddmna. hiinos ao Sol e à Lua. mulher da cidade de Uruk. Em breve serás Mazkir de um príncipe. que era Rodes. em suma. Ventos favoráveis levavam os navegantes para Chipre. aipesar de ser de cairne divina. ou fragmentos das grandes fábulas em verso dos tempos primitivos. segundo a lenda. ou o pedaiço liso de pele de carneiro. Mas a pró­ pria gente do Egipto submetera e abrira à ciência de Kuch as terrais dos negros ao longo do Nilo. em que enfileirava as suas garatujas. propícia ao seu espírito mercantil. José esperava haver-se. O rapaiz ia-as escrevendo sob a1 direcção do velho e depois. da doutrina e das lendas. a língua de Babel saía-lhe dos lábias com tail brilho que Eliezer beijava a orla da túnica do discípulo e manifestava-se: «Salvé. para manter sobre as pernas os petrechos de escrita: a tabuiinha de barro. a da lei. donde uima corrente marítima. tábuas crono­ lógicas e meteorológicas. Tudo isto é apenas um resumo dais informações que Eliezer dava a José à sombra da árvore de Deus. erecto. do combaite de Marduk com o dragão. a parecer-se. havia em Elaim um rei a quem ainda ninguém conseguira pergun­ tar se podia lançar uma visita de olhos para allóm das seus domí­ nios. O medo que temos de Jacob é que o salva!» 25 . se dependesse só de nós. utili­ zando uma cana mascadiai ou cortada em ponta. mas eram vertidas em termos tão ousados e 24 impressionantes que se gravavam na memória do leitor como se fossem factos reais. José lia todas essas coisas. da elevação de Istar da escravidão à dignidade régia e da sua descida ao Inferno. cujo corpo. Punt. a Etana e àquele Gilgaimes. De con­ trário. a fim de lhes prestar uns serviços leves. ou Dodanim. e copia­ va-as com recatada compostura. quando Etana deixara de os avistar. No extremo sul acha­ va-se. o homem dos bosques. Aláchia. não conseguira alcançar a imortalidade. para se exercitar na língua do seu tempo e daquelas redondezas e também para aprender a escrever cartas e notas comerciais primorosas. Algumas vezes usava a escrita comum da região. não voltava com os ossos inteiros. abaixando apenas as pál­ pebras. e daí. Eliezer dispunha de rmuitos modelos excelen­ tes: escritos acerca dos astros. Ao recitar esses versos. Lia e copia1 vai a história da amizade de Etaina com a águia que o transportara até aio céu de Anu. Quanto ao Oriente. até à terra de Muzri e ao Egipto.. as falhas finíssimas tiradas do caule de papiro. filho da predilecta. na qual fazia com um estilo sinais cuneiformes. um cesto de pão. que ia embebendo na escudela de tinta preta ou vermelha. Tratavam da criação do mundo e do homem. com a cabeça metida entre os ombros. Provavelmente não podia. Ou virá ele só para ver se cortamos algum naco dos carneiros para a nossa painel a? Ah.

fizera decepar a própria cabeça a fim de que o sangue se mistu­ rasse com a terra. A deleitável aceitação que certas presen­ ças despertam imediatamente no coração humano. com o mesmo entusiaismo a opinião da época. o que é facto é que toda a gente José achava tão encantador que a sua graça se tornou proverbial. culpa vinha do rapaz ou do grupo. ao chegar. Alguns escravos e viajantes cal­ deus tinham-lhe contado que Bei. Já descrevemos umia cena edificante das relações tísicas e mentais que José cultivava com o prodigioso astro. aio passo que a outros só suscita despeito. mas também devemos confessar que raramente tem havido no mundo motivo tão forte para presunção e. cada vez rnaiis ameaçador. como aqui. porque as emoções mentais e físicas se misturavam nele de maneira arrebaitadora. na Lua. quer não. entre beleza e espírito. O nosso desejo die impar­ cialidade poderia levar-nos a considerar a presunção como fonite principal daquela infeliz situação. sabedoria. se corre o risco de ser desfigurada. mas expandiu-se no divino.substância. Essa graça. uma concepção. O mundo surgira pelo podeir da palavra livremente arti­ culada. cena passada decerto na ausência do pai e de que este. pois não pas­ sava de um ser humaino. por sinal com bastantes defeitos e 26 também unia compreensão bastante lúcida para os reconhecer. adejara sobre as águas do caos e criara o mundo com o poder da palavra. isto é. mas também literária. não nos sierá fácil decidir se a. regozijan­ do-se intimamente die ser formado com tal . mas por isso mesmo inebriante. mas quando queria tornar-se cônscio da sua própria existência e tirair daí um sentimento de prazer. Embora dessem uma impressão divinal. raro é que andem! juntas na Terra beleza e ciên­ cia. Assim. espírito. haibituámo-mos a considerar feda a sabedoria e insípida a graça e. tanto no país como fora dele. Se quisermos ser justos. deixava de haver contraste e quase não havia diferença. a que o povo de Sinar dava o nome de «Mummu». A Lua era. fora a magia combinada da beleza e do siaibeir que lhe havia posto a alma em alvoroço. meditava na cruenta mistura do terrestre com o divino.. Que maravilha! — pen­ sava ele.CORPO E ESPIRITO Passando em revista as provocações e as desinteligências diá­ rias en/tre José e os irmãos. a imagem celeste de Tote. que se agraivaiva com o decorrer do tempo. por conse­ quência. Quer partilhemos. que necessidade pode ter a graça de possuir letras. confuso e propenso a degenerar — forte motivo parai desassossegar o pai —. o beduíno branco e inventor dos sinais. da beleza e do saiber e a consciência reciprocamente fortalecedora dos dois elementos. a consi­ derá-la insípida sem qualquer outra preocupação. fonte de uma paixão secreta em que o sentimento da vida se alimenta e sustem. favo­ recida pelai intelectualidade e suias artes. pelo que nos diz respeito. e da massa de terra ensanguentada fora criada a vida. era vago. era apreendida com sereno fervor para se difundir de tal modo realçada que. entenda-se bem que José não ascendeu ao divino. era invariável no caso do primogénito de Raquel. e ainda hoje qualquer coisa que existisse só se tornava real e presente quando o homem lhe dava vida chamando-a pelo 27 . Quem seja imparcial con­ templa-os necessária monte com enlevo. como há pouco dissemos. para criar o género humano. Aliás a aifeição do rapaz à Lua não era só de ordem estética. Com razão ou sem ela. Com efeito. parai causar inveja. A sorrir. Era o que acontecia. uma ideia querida. padroeiro dos que escreviam. e à qual temos por haibiito dar objectivamente o nome de beleza. Acreditava: sim que o espírito de Deus. destruída com tais atributos? Entre espírito e beleza há um abismo tão grande que a fusão de ambos no mesmo ser aíigura-se-nos fora do natural e dá-nos ins­ tintivamente uma impressão de divinal. dando um significado especial ao seu culto solitário. verificaremos que as causas fundamen­ tais das más relações eram a inveja e a presunção. mais ou menos conscientemente. José não acreditava. Como culto. Sem dúvida. Para José essa ideia preciosa era a coabitação do corpo e do espírito. todo o ser humano tem e acalenta. Na verdade. lemhravarse de que a consciência do corpo e dia beleza devia ser aperfeiçoada e fortalecida peia consciência do espírito e vice-versa. logo o admoestara. orador e secretário dos deuses.

Mas não sabia falar a língua dos Egípcios. Cenas a que não gostaríamos de assistir e. que não precisava de se embaraçar com livros e escritas. da simplicidade natural que irradiava da sua pessoa e que a todos impressionava. teria feito descobertas no reino da Natu­ reza. ledor de pedras antediluvianas. não havia nenhum que se não gabasse da sua completa ignorância e do maior desprezo por seme­ lhantes talentos. quaindo não preferia apor-lhes o timbre. Mais. de que vale a sabedoria se não é isenta de orgulho? 2S E como procedia Jacob a despeito de tudo? Ele não era letrado. deixavao a cargo de Eliezer. A vida de servidão levada pelo povo a favor do Estado. não ia. Quanto ao dom da palavra e à sabedoria. o que se compreende. porque as habilidades dos nossos criados são habilidades nossas. Como não havia. De qual­ quer modo. José mimoseava-os dizendo-lhes na ciara que eles eram uns «cabeças de burro» e «gente que não sabia diferençar o bem do mal». ele. em suma. Seria despropositado comparar Jacob com Eliezer.nome. dia plenitude da sua história subtil e expressiva. não só Rúben coimo Siimeão. porque Neftali limitava-se a uma loquacidade ocia. embora fossem moços robus­ tos. sem base para temas elevados. que privava com Deus. espontânea. Corn efeito. conquanto se imaginasse tão caipaz como eles. melhor aité que o seu dialecto cananeu meridional. O resto. Repugna-nos dizer que os irmãos. em suma. reino dos mortos. filho de Baila. homem fundamentalmente bom. Eim primeiro lugar. dizia-se que desde muito pequeno tinha grande facilidade em falar. especialmente os filhos de Lia. por que razão favorecia Jacob a educação lite­ rária1 de José. porque seríamos injustos para dois. homem. significava impudicícia. Todos os irmãos. e ainda mais o dos mortos que o dos animais. eram afinal uns indi­ víduos vulgares. por mais bonitos que fossem os olhos de José. talvez porque desconfiava de tudo e conde­ nava tudo o que vinha daquele país. além da assinatura do nome nos contratos. pelo menos: o complicado e paciente Judá e Rúben. não se conciliava com o seu sentido ávido de independência e responsabilidade pessoal. uma abominação’. Falava. Teria Eliezer tido algum dia o sonho da escada ou. Exer­ ciam as duas fuinções com eficiência e molestava-os que o mais novo. mas de «Cheol». e a sua aversão. Neste ponto. o sapientíssimo. ali se atribuía às letras. temios de achar tão reprovável a resposta como a zom­ bará. cujos nomes todos sabemos de cor. afinal. como aquela da mágica simpatia na criação do gado miúdo de pêlo malhado? Não. Provinha antes da força do seu sentimento e da sua experiência. por ser essencialmente natural. inferno. Por seu lado. sem dúvida. Além de o colocarem à parte. segundo lhe constava. chamavam-lhe Noé-Utnapichtim.. como dos que aindavaim na casa dos vinte. como o grão que nela apodrece para se frutificar. pessoalmente. só serviam para desviar José cada vez miais dos filhos de Lia e dos das escravas. era extensiva ao valor excessivo que. os primeiros filhos de Jacob. fiado em que o medo que os irmãos tinham do pai os impedia de lhe darem uma surra memorável. Antes de lhe porem depreciativamente a alcunha de «o lunático». tainto a respeito dos mais novos e mais próximos da idade de José. Mas as reivindicações populares eram pouco exigentes. que Jacob encoraijava por razões que depois mencionaremos. uma bela e graciosa cabeça de se convencer também da sua sabedoria expressa em palavras? Semelhantes ensina mentos e tendências. Jacob não dava à terra da lama o nome de «Keme» nem o de «Mizraim». seu mais antigo servo. nunca. que se ufanavam da sua força e agilidade. permitindo que lhe fossem ensinadas doutrinas cujo perigo paira o rapaz e para as relações dele com os irmãos não 29 . O culto que prestavam aios animais e aos mortos não podia deixar de ser considerado por ele uma loucura. Levi e Judá. De Neftali. é impossível falar-se de beleza. que se sobrepunha' a tudo. com a ajuda de Deus. eraim — como devia ter sido José paira se poder adaptar à sociedade fraterna — pastores e ocasionalmente lavradores. não dependia delas a dignidade de Jacob. traziam em si os germes da presunção e da desconfiança.. tivesse licença do pai para só os ajudar nas horas que lhe ficavam livres da sua ocupação habitual de ler e escrever nas tábuas. e certamente que a este nunca teria ocorrido a ideia de semelhante confronto. baseada em causas éticas espirituais. da preponderante personalidade de uim homem dotado de sonhos audazes. Para ele o Egipto represen­ tava a terra da imoralidade e da tirania feudal. porque tudo o que havia debaixo da terra. pois. muito bem o babilónio.

por causa deles podia dormir descansado. A outra tinha raízes mais profundas no desvelado coração do pai e dizia respeito à salvação da alma do rapaz e à sua saúde espiritual. interrogara cau­ telosamente o filho acerca das próximas chuvas. ao tempo do nascimento de José. Só o grande anseio de uma informação sobre tão importante assunto o indu­ zira a valer-se da disposição de ânimo do filho que. do que o grosseiro e leviano Rúben. de quem recebiam dinheiro ou obtinham de comer pela tarefa de acharem objectos perdidos ou predizerem dias felizes. lhe fora concedido. Poder-se-ia interpretar tal facto como uma distinção que. melhor. traziam uma canga ao pescoço ou um par de chifres na cabeça. Não tinham a menor apa­ rência de videntes nem de pessoas visitadas por Deus. energúmenos. Havia por ali certa gente (Deus livrasse José de se tornar como eles). e algumas vezes andavam nus. a desprezada. por exemplo. tornava mais convincente a escolha. mas quando contou aio pad com pueril malícia o quie vira. Jacob não pensara senão em pô-lo à frente dos que haviam chegado primeiro. embora ele não deixasse de a apreciar. Jacob lançaria mão de todos os recursos para demonstrar em geral. mas por vezes genuinamente proféticos. teve receio da cólera dOs filhos que vinham logo depois de Rúben e não ousou tirar vantagem imediata da opor­ tunidade. o do saber. A criançada acossava-os aos gritos de «Aulasaulalakauia». ambas filhas do seu aimor: uma de natureza ambiciosa. comiam alimentos deterioradas. ao mesmo tempo que colocava as mãos sobre ele como que a protegê-lo. mais apto a recebê-lo. em fazer do primogénito de Raquel o primogénito de todos os outros. naquela cena à beira do poço. Porém. Apesar disso. Eram típicas desses indivíduos as duas usanças: os chifres e a nudez. tanto em carne como em espírito. Até então. o lugar da herança e da eleição. Feriam-se e mutila­ vam-se. sabia o que dizia quando. a fertilidade mágica e os sacri­ fícios orgíacos aos pés de Melech. reservando para o filho querido o lugar de honra. a prostituição ritual. José não saibia disto ou mal o pressentia. e quanto mais vantagens José tivesse sobre os irmãos. Gomo pai. conquanto todos procurassem não os melindrar. pelo menos útil e desejável que o abençoado fosse também uim letrado? Grande ou pequena. O próprio Jacob não lhe sentira a falta. babosos. É que se traitava da eleição hereditária da bênção de Abraão que Jacob trazia consigo e que recebera do pad cego em vez de Esaú. Mas quem podia dizer se no futuro não seria. tendên­ cias para arroubos não muito pronunciados e meio inventados. que ganha­ vam a vida espumando da boca e fazendo profecias. caberia a José. o mal não eram coisas de que entendessem. acrescentada às outras. Por motivos religiosos. Esta foi umia das razões do consentimento de Jacob. impressionado como andava com a equí­ voca mistura de mal e de santidade que há em semelhantes ten­ dências. o rebento filho da virgem. era uma vantagem. Nesse ponto. sem embargo. Desde o dia em que o filho da esposa verdadeira. Sabia-se a origem de tal procedimento: a imundície do culto de Baal. Duimuzi. o rei-touro. 3/ . entre eles. se não necessário. a sua ira contra Rúben pala falta cometida com Baila não deixava de ser também um pouco estudada e de envolver um oerto exa­ gero intencional. Os tempos haviam mudado. Oráculos humanos que saíam a palrar tolices ou eram visitados nas caver­ nas por uma freguesia curiosa. os herdeiros de Abraão não tinham tido necessidade desse predicado. arremedaindo-lhes a falia desconexa. inclusive aos irmãos. E de certo modo facilitava os planos de Jacob o facto de José ser diferente dos irmãos. Deixou assim o caso em suspenso.\ podia passar-lhe despercebido? Por duas razões. Jacob não deixou de se preocupar com o que vira. Dos irmãos não havia um sequer que revelasse o maiis leve indício de pertencer aos eleitos. declarava que dali por diante eles nada rnaiis repre­ sentariam aos olhos de Jacob. Êxtases para o bem ou para. santos parvajolais. Jacob não gastava deles. corno ninguém aliás gostava. que José possuía altos dons. e ele só queria conferi-la com uma regularidade que mais tarde não pudesse ser posta em dúvida Esse grande bem. falando consigo mesma e com os filhos das suais entranhas. Embora sincera e justificada. 30 Vimos como Jacob. Andavam imundos e tinham uns modos tontos e desordenados. Lia. Notara em José estados de alma próximos do êxtase. se fosse possível. outra die natureza pedagó­ gica. inquietava o coração paterno. a sua atitude nesse particular vacilava. Jacob pensou antes de maiis nada: «Agora posso amaldiçoar o meu filho mais velho e ficará livre o lugar pana o mais novo!» Acudiu-lhe essa iideia.

esse dom divino. quando lhe tomava o lugar uma fúria infrene. pela sensatez. Despir-se. tão forte que exprimia o último ponto da desaprovação. Jacob não fazia objecções a um oráculo razoável. Isso e mais a «Aulassaulalakaula» e profecias feitas por meio de convulsões epilépticas. palavra que na sua boca era uma palavra forte. era tudo quanto se relacionava com a sinistra história do avô na sua tenda-. Seria deplorável que dons tão excelsos e tais bênçãos paternas fossem desfazer-se nos filhos inconstantes em requintada corrup­ ção. Toda a gente conhecia taás ideias e respectivas associações. de se tornar mais firme e robusto. Mas ao olhar atilado de Jacob não escapava que a ten­ dência do pequeno para certa espécie de arroubo tinha pontos de 32 . era tudo uma «loucura» aos olhos de Jacob. Era fascinante rever o pai na figura do filho. e ao som das harpas recebera as mais confortadoras promessas. Em sonho vira Deus e Seus anjos. Era «Canaã». Tam­ bém Jacob era. pela integridade espiritual com que se operara. Com o tempo havia de perder a inconstância. venerar Cheol. A cabeça erguera-se-lhe da aflição e da humilhação exterior. pelo comedimento. como sabemos. mas não dei­ xava de ser assustador e estranho aquele débil rejuvenescimento! Havia ao menos para consolo a ideia de que José era ainda muito novo. aí começava o que ede cha­ mava «loucura». mais amigo da razão. não entrara uma ínfima parcela de magia malfazeja. andar can­ tando ao ar livre. mais cordaito. Mas quando soçobrava a razão. Torturava-o a ideia de que a pro­ pensão infantil de José para revirar os olhos e entregar-se a sonhos pudesse ter qualquer ligação com esse lado impuro da alma. as mulheres do templo. era tudo a mesma coisa. um sonhador. mas um sonhador respeitável. como. o dom divino. Mas quem convivia com Jacob tomava conhecimento daquilo com uma espécie de respeito inteiramente diferente da sensibilidade que nele era de tradição espiritual. e era aité possível que ele observasse como os pássaros voavam ou a direcção que levava o fumo durante um sacrifício. sem pejo. banquetear-se com intemperança. praticando actos abomináveis com os Baal da região.Não era nenhum mistério. Mas nessa exaltação. o da seta ou o do sorteio paira saber a ocasião favorável a uma transacção comercial. que tinha de amdar nu. por exemplo. entregair-se ofi­ cialmente à luxúria com.

Talvez que então descesse sobre ele uma bênção de modo a não apresentar a menor semelhamça com vagabundos epilépticos chifrados e nus. com a tnecromaincia. isto é. por consequência. Con­ vinha que José aprendesse alguma coisa e que sob uma orientação sapiente ele se exercitasse na palavra e na arte de escrever. com o desvario do que 9e passa detbaixo do terra. Parecia-lhe que certos ele­ mentos obscuros que haviam entrado na formação do filho care­ ciam de afrouxamento e de purificação intelectual. S.contacto com a nudez e. Daí o motivo por que Jacob apro­ vava a influência do homem letrado sobre o filho predilecto. I. Para si prescindira dessas coisas: os seus sonhos mais audazes tinham sido modestos e razoáveis. * 3-J. 33 . E assim vemos que o velho. Era isto que Jacob pensava consigo.° V. corn Baal e Cheol. chegou à mesma conclusão de José. à força de meditar. que o conhecimento do corpo deve ser corrigido e aperfeiçoado pelo do espírito. .2. o velho percebia que pre­ cisavam de ser disciplinados pelo entendimento. Mas os do filho. com a entrega do corpo.

preceptor de José. que aliás nunca se importara com ele. são narrativas (só nos ocuparemos das que Elie- A braão 33 . mas referia-se ao passado. «parecia-se» de cama com Abraão. se parecia com o emigrante da Lua não tinha certamente nada que ver com o eru­ dito chefe dos criados. Porque o mais provável é que ele fosse filho de Abraão. ou não ter. A afirma­ ção de que Eliezer. não tendo entrado nunca em contacto directo com o potentado.2 ABRAÃO O SERVO M A I S A N T I G O podia realmente ter-se parecido com Eliezer. afirmavam. Esta opinião poderia justificar-se. Mas isto é pouco provável. O patriarca talvez fosse magro. há quem pense que Eliezer era um servo oferecido por Nenrod de Babel a Abraão quaindo teve de o deixair pairtir. com tiques netrvosos e rugas denunciadoras de inquietação. O antepassado espiritual de Jacob foi expulso do país após um conflito mudo e interno. Eliezer. Aquela gente falava no presente. Na verdade. porque Abraão saiu de Siniar. do seu martírio. se não . do encarceramento. considerando o nasci­ mento e a origem do velho casamenteiro. emtão visível em pessoa. Transferiam para um aquilo que diziam do outro. baiixo.impossível. da submissão a uima prova de fogo dentro de um forno de cal. Tudo quanto se conta acerca do embate pessoal entre ele e o legislador.

O rei que. Dia virá em que se verificará o mesmo com respeito a Abraão. durante muito tempo deve tê-lo levado a procurar de vez em quando um filho algures. antes de cegar. etc. Mas Eliezer conservou um lugar de importância entre a 36 gente de Abraão. Camo mandava a regra. com os braços cingindo os joelhos. sempre que possível. por seu turno proveniente do humano. pois. limitemo-nos a Eliezer. Sinto-me impelido. ou foraim transmitidas desde o unais remoto passado e cris­ talizavam-se num passado maiis próximo. Mas. tradicional que um filho nascido nessas condições alcançasse a liberdade e recebesse o nome de Eliezer. ao lado do poço. melhor. como o egípcio Osíris. a vítima rejeitada. Nuima palavra. Quanto aos acontecimentos que se supõe terem ocorrido durante o seu reinado. tendo-lhe cabido a honra de ir a Naarina pedir a mão de Rebeca para Isaac. também era. o Vermelho: o pre­ sente através do qual brilha um passado cada vez mais distante. num passado que só contava sedsoentos anos. por exemplo. apesar da minha finme convicção de que não era o Eliezer de Abraão que falava com José. Eliezer relatou muitas vezes e gostosamente a José a história dessa viagem. fora homem de desejos veementes e a sua veemência não se dirigia só à filha de Baituel. a épocas anteriores a Osíris. a incomensurável natureza desse abismo.. O verdadeiro Nenrod era o pai daquele Bei ou Babel a quem se atribuía a construção da torre e da cidade e que se tornou um rei-deus depois de ter sido uim rei-homem. Esse filho chamava-se Eliezer e foi o que mais tarde obteve a alforria. em tempos ainda mais remotos e maás insondáveis. Era. o Caldeu considerou o pri­ meiro durante muito tempo como seu herdeiro.séquito da família espiritual de Abraão. A circunstância de ela ter sido estéril. Como sabemos. Ninguém pode sabor se o sorriso não implicava alguma crítica e se o menear de cabeça não denun­ ciava uma delicada indulgência. Mais tarde teria sido alforriado pelo seu genitor. ficando porém na família em situação um tamito inferior à de Ismael. são historietas a pôr de remissa. e o rapaz. Com efeito. pois afigura-se-me que a atitude de José em relação ao modo de falar de Eliezer era mais clara e perspicaz do que a do digno meio-irmão de Jacob. perdendo-se no que é divino. Dela teve dois filhos: Dama­ sek e Elinos. donde se podie conjecturar o abismo histórico que o separa do Nenrod de Abraão ou. Poder-se-ia desculpar o procedimento die Isaac com o fundamento de que tinha de haver utm Eliezer. Em resumo. isto é. como Sara. Quanto a mim. até nascer Ismael e depois Isaac. a escrever simplesmente a palavra «ele». filho de Agar. Eliezer era uma instituição. encarregado de trazer a noiva para o filho da mulher legítima. e até de muito boa vontade. e como um menino chamado Abraão escapou à matança. por agora. no tempo de Abraão. Chamava-se Amrafel ou Hamurabi.zer fazia a José) resultantes de uma arbitrária combinação de lendas. sendo criado numa caverna por um anjo a leite e mel que a criança lhe sugava da ponta dos dedos. curiosas ideias deviam aitravessar 37 . Sempre houvera uim no. o nascimento de um menino muito perigoso para o seu poderio que lhe foi predito pelos astrólogos e o levou a decretar uma matança geral de ino­ centes. o chefe da casa dera-lhe uma esposa. restaurou as torres e lhes deu ainda maior alturai não se chamava Nenrod. o filho legítimo. Dissemos que Eliezer era meio-irmão de Jacob e temos razão para o dizer. O que me embaraça é a sua naturalidade em empregar a primeira pessoa quando se referia à dita jornada e a muda aquiescência do discípulo a essa sintaxe lunar. A fi­ gura do Nenrod original pertence. Eliezer não foi portanto dado de presente a Abraão por «Nen­ rod». José sorria e também meneava a cabeça. pois não se lhes encontra rasto. como Nenrod de Babel. Anos aintes de nascerem Jacob e Esaú. nome que era apenas um título régio e dinástico. quando ele e o jovem José se sentavam à sombra acolhedora da árvore da sabedoria. de facto. como. na falta de her­ deiros legítimos. a figura do rei Nenrod é muito parecida com a de Edom. Quanto aos filhos de Eliezer. E. tivera ele um filho de uma formosa escrava. Há muito mais probabilidades de que fosse filho de Abraão e de uma escrava e de que tivesse nascido em Damasco durante a estada da gente de Abraão nessa florescente cidade. prefiro crer só no sorriso. Isaac. o filho verda­ deiro. Damasek e Elimos. desempenhando ais funções de mordomo e chefe dos criados e. fitava os olhos no sem­ blante do velho mestre que «se parecia com Abraão» e sabia dizer «eu» de maneira tão majestosai.

A melhor homenagem que se pode prestar à verdade é asseverar que a histó­ ria se passa ao mesmo tempo e concordieimente tainto cá como lá e só aos mossas olhos parece descer e de novo subir. Torna-se terrena e. o mínimo. mas o que está em baixo não poderia. Mas ire­ mos nós por isso denegar-lhe a forma terrena? Pelo contrário. E isto significa. Sucede. tal como o canto chegara ao conhecimento de José. mais por trás de Elie­ zer o ar embebido da luz solar palpitava ardentemente e a sucessão de identidades perdia-se não mas trevas mas na claridade. ou seja. Diz-se.aquele espírito juvenil. que muitas vezes estão atentando noutras coisas mais importantes do 39 V . por assim dizer. os comentadores guardam silêncio sobre c facto de a jornada ter sido feita. e que a terra «saltava ao seu encon­ tro». mas precisaria tam­ bém de levar asas no chapéu. tivessem combatido e vencido uim número de superiores gigantes ou de inferiores «Eloims». A esfera gira. mas. Só podemos entender isto em sentido figurado.. ocorre-nos urna das fanfarranaidas preferidas dos descendentes de Jacob — a chamada batalha dos reis—. acrescentaremos que eram estas as impressões mais reais e duradouras que lhe ficavam das suas conversas com o velho. se é no Céu ou na Terra. efecti­ vamente. o rapaz estava' familiarizado com as variantes. e isso o susteve. a sua própria história para se bastar e na qual o herói e narrador podia basear-se também enquanto contava o facto? O velho alterava às vezes essa história dando-lhe uma versão singular. E 'ninguém pode saber com certeza ande uma história tem a sua nascente. que normalmente levava vinte ou dezassete. que Eliezer. digamos 38 ' j assim. tomandb outro bem diverso. mas sozinho. As crianças são repreendidas por estarem desatentas. Já as sombras do crepúsculo envolviaim a grainde árvore quando eles ali se sentavam. permite-mos até concluir que a verdade e a realidade que a vestiam no Céu comprovam as mesmas qualidades na Terra. não lhe bastariam só os pés alados. que o acontecimento é reconduzido. Acon­ tece que. quando vitoriosamente pôs em debandada os salteadores da outra margem do Eufraites. pois. mo interesse da ver­ dade e da justiça. de modo a vencerem o inimigo. A história desce como um deus que se toma homem. os desbaratou e repe­ liu parai ailém de Damasco.. Não teria. a história perde o seu carác­ ter terrestre e por isso heróico que lhe dera a lenda. acontecer sem a sua própria imagem e cópia celeste. Publicistas e comentadores eruditos dos últimas tempos aven­ tam a opinião de que Abraão seguiu os reis. ele confun­ diu não só a linguagem mas também a história. e que as estrelas haviam pelejado por eles. a fim de libertar o seu «irmão» Lot. quaindo o olhar meditativo do jovem discípulo repausava sobre a actual manifestação carnal de Eliezer. Em Abraão fez-se carne o que antes fara celestial. Em suma. sem sombra de dúvida.. à sua forma celeste e nela restaurado.. com caravana. ao contar o seu caso a José. dizendo que a terra «lhe saltava ao encontro». E isto não so relativamente à identidade de Eliezer. Tanto assim que.. não com trezentos e dezoito homens. iam deter-se na infinita perspectiva das figuras de Eliezer que diziam todas «eu» pela boca da manifestação presente. O que está no ailto desce. Por outro lado. Como bom exemplo do que queremos dizer. não nas trevas mas na luz. Os esclarecimentos que nos dão a tal respeito são antes de molde a sugerir que o mensageiro e filho natural de Abraão venceu a distância sòziniho e com tal rapidez que. a nainraitiva da viagem empreendida por Eliezier para pedir a mão de Rebeca. Contudo. temos de concluir que a narrativa da viagem terrestre e carnal de Eliezer é uma tradição ceiest. Ouvindo-a assim (e foi esta a impressão mais ou menos manifestada por José). uma vez que a terra não salta nem corre ma direcção de ninguém. não aludindo sequer aos dez camelos. amimais e bagagem. tendo o próprio Eliezer contado a história a José também desta forma. como então era costume. burguesa. porém. por exemplo. mas também à de outras pessoas. senhor e servo. Con­ tudo. Antecipando um pouco a história de José. era como se dois deuses. acompanhado apenas pelo seu servo Eliezer. e fácil é adivinhar quais. Baseou-se ele no divino. mandado por Abraão à Mesopotamia pedir Rebeca em casamento paira Isaac. Os seus lindos olhos estaivam pregados na figura do narrador. a derrota infligida por Abraão ao exército do Oriente. fez em três dias a caminhada de Bersaibé a Harrain. Sim. a perspectiva' da sua personalidade perdia-se. vê-se que. assim pode parecer àquele que anda com grande ligeireza e leva como que asas mos pés. relatada desta forma. trespassando-a. a versão que ele preferia e que chegou até mós.

Por isso levantou os olhos para o firmamento. num impuilso para o Altíssimo. o súbito e o atroz. observava mais do que outras^ muitos observadores. para si e para as almas que ganhou com tal entusiasmo. e exclamara: «Até aqui nenhum homem me chamara Senhor e Altíssimo! Agora serei assim chamado!» A descoberta fora prece­ dida de muitos esforços. Provàvelmente a causa inicial do tormento e do desejo de pere­ grinar foi o facto de o seu amor à Lua. o bem e o mal. Eis o que ele disse: «Eu. 40 com poder para abençoar e amaldiçoar. Marduk. Abraão. Compreendeu imediatamente. em vez de servir Aquele que os governa. tomado a sério a questão de se saber a quem o homem devia servir e a sua resposta fora notável: só ao Altíssimo. conduzindo o que era múltiplo e angustiosamente incerto transform ando-o no Uno. não como num dia festivo em que se entoavam hinos de adulação e se acumulavam. viu o Sol em toda a magnificência. José. uma vez por todas e exclusivamente. era da maior importância: a quem ou a quê devia um homem obedecer. COMO A B R A Ã O DESCOBRIU DEUS Quando atrás dissemos «outras pessoas». em detrimento de Sin. O servo falava a respeito do amo ora de uma maneira. derajlhe forma e corpo. para estas com especial expectativa e esperança. a divindade de Ur e de Harran. porque revelava um sentimento de dignidade pessoal que se poderia quase chamar excessivo e arrogante.que aquelas para as quais o mestre rigidamente prático Jhes chama a alteração. Abraão descobrira Deus. deve servir exclusivamente o Altíssimo. jubiloso. Anu. Que sabia Eliezer a respeito dele? Muitas coisas e de vária espécie. assim como o regulador benéfico. com efeito. até mais. cedia ao seu próprio impulso.» E assim. para terem importância e significação. e em mim a humanidade. preparando a sua realização no espírito humano. Na verdade. o ser em que todos e em qualquer caso devem confiar. sem a menor dúvida. para ele. ser ofendido pelas exageradas honras oficiais prestadas por Nenrod de Babel ao princípio solar Chamack-Bel-Marduk. Olhou então para a Lua e para as estrelas. precisavam de ser diante de Deus e dos homens tomadas a sério. tão aflito. O primeiro pai não se afligira pouco.» E com a alma profundamente inquieta reflectiu: «Por mais altos que sejam. Para Deus. poderes e honras sobre a caibeça de um deus. se não tivessem acima deles um guia e senhor. Mas notou que ela precisava da chuva do Céu. Isto causou impressão a José. à exortação de apurar o que.» O ânimo de Abraão acercava-se da ver­ dade. Notável. um homem. do que lhe con­ vinha observar. veio o ocaso. Abraão reunira as for­ ças numa força única e chamara-as o Senhor. faizendo o mesmo com 4Í . talvez. muitos tormentos. servi-los. ora de outra. referíamo-nos a Abraão. porque as coisas. eles não são deuses dignos de mim. com grande proveito para todos aqueles a quem a descoberta dizia res­ peito: para Deus. por muito distraído que fosse.» Assim começou tudo (como aprouve a José ouvir). pois suscitou no amor que ele tinha à Lua a primeira contradição e um grande desassossego. À força de ensinar e meditar. O primeiro pai tinha. como poderia um pôr-se e o outro erguer-se? Seria impróprio de mim. e Abraão convenceu-se de que o astro não podia ser sublime. pro­ porcionando-lhe o misterioso ponto de partida da sua carreira. Algumas vezes o Calldeu era simplesmente o homem que descobrirai Deus. tão suplicante. Abraão podia ter dito a si mesmo: «Que sou eu e de que sirvo ou de que serve o ser humano em mim? Que importa que eu sirva um pequeno Deus ou ídolo ou uma divindade menor?» Ter-lhe-ia sido mais cómodo. Isto podia ter sido uma astúcia de Deus a fim de tornar o Seu nome conhecido e glorificado em Abiram por intermédio dele. definido e reconfortante de que provém tudo mais. e esteve prestes a decidir-se por ele. Mas não. porque ela produzia frutos e conservava a vida. ou Chamach. tanto o pastor como o rebanho desapareceram e Abraão concluiu: «Não. Mas o Sol desceu. Quando surgiu a estrela da manhã. de modo que ele lhe beijara os dedos. para si próprio e sobretudo para os prosélitos. pastor das estrelas. que o Senhor compadeceu-se e disse de si para consigo: «Ungir-te-ei com o óleo da alegria maiis do que a todos os teus companheiros. Assim começou Abraão a pensar que só à mãe-terra se devia serviço e culto. sobretudo a grande impor­ tância dada ao caso.

dissera Abraão. ou quiçás com a mesma justeza. ou baixo. desamparo igual ao meu. o Mundo está perdido. Foi esse poder a origem do pacto que o Senhor fez com Abraão. O certo é que tivera coragem. Reailmente. nenhum deus no Céu ou na Terra se pode opor a Ti.outro deus no dia seguinte ou no templo seguinte. mas que ao mesmo tempo existiam nele. porque será completo. que provàveimente não podia proceder de outro modo com as duas cidades depois do que havia 45 . não se tomam delibera­ ções. também coincidia com a grandeza da sua própria alma e era pro­ duto dela. E o pacto. que significa «meu Pai é sublime». nada me faltará e possuirei as portas dos meus inimigos! Ouvindo-o. porque a Ele era devido tudo. enquanto de outra vez jurara não mandar mais o extermínio pela água. foi também a origem do temor que Abraão tinha a Deus. considerando o temível poder e a grandeza de Deus.» Quantas vezes não fora isto dito e can­ tado num ímpeto de servil devoção no reinado de Nenrod! Mas Abraão descobrira e sustentara que só podia ser dito com verdade a respeito de um. por ocasião de alguma calamidade. Abraão soubera transmitir-lihe a exaltação de espírito. a grande coragem de concentrar os múltiplos direitas divinos. Os outros homens. o Altíssimo e Supremo. não andava. Em certo sentido Abraão era pai de Deus. magro e curvado. tinham o maior receio de que ele. posição que dependia única e inseparavelmente do Altíssimo. O próprio Loth. faziam penitência. porém. Era.inda-se nelas conscientemente. nem no Céu nem na Terra. de tomar uma. Mas quem se ofenderia. as tornou reais? As poderosas qualidades de Deus eram realmente coisas objectivas que existiam fora de Abraão. ó Senhor». ficas desamparado! A isto respondeu Abraão: — É verdade. E então não poderá haver..laimou: — Pois serei teu irmão! Sim. dissera a Abraão: — Se o teu Deus te abandona. José compreendia bem a audácia e a força de ânimo manifestadas nas primeiras ideias que o antepassado tivera de Deus e que tanto haviam horrorizado muitos daqueles a quem ele quisera transmiti-las. no meio dos quais Abraão se criara. entrelaçando-se e confund. mas não as duas ao mesmo tempo. ou o Mundo não pode existir». por exemplo. pana que não ficasse excluído aquele que lhes mandara a desgraça e que não sabiam qual era. se Deus não se ofendeu? «Ouve. tu o dizes. «Tu és o Único e o Altíssimo. se a grandeza de Deus era terrivelmente objectiva fora dele. Mas lembra-te de que. errasse essa origem. Mas de certo modo não o teria sido afinal quando as reconhe­ ceu. agora vinha com o extermínio pelo fogo. O modo familiar. essencialmente conhecido. familiaridade. Chegara a acusar o Senhor de astúcia e a lançar-lhe em rosto que. Recebeu o nome de Abiram. Apesar de jovem. nas orações e acções de graças. começavam as orações por uma série de invocações às divindades. Esticas a corda de ambos os lados. cons­ tituindo na verdade a confirmação exterior de um facto interior. pouco se distinguia delas. e se tomas a peito a justiça. Abraão. pálido de medo. que era sempre o mesmo. Não era simplesmente temor. Efectivamente o antepassado tratava ailgumas vezes Deus de uma maneira que deve ter causado assomibro no Céu e na Terra. todas as bênçãos e todos os flagelos no Deus único. O poder da sua própria alma. e assim tornara conhecidas todas as coisas conforme a sua origem. «pai do Subliime». Abraão podia ter sido alto e um ancião de feições agradáveis como EMezer. pregou e. ou outra. sabia e dizia-o ao povo. Se queres ter um Mundo. Deus. muito longe da insolência. meditando. sem Ti não se exerce justiça. As poderosas peculiaridades que Abraão Lhe atribuíra eram-Lhe decerto próprias originalmente e não fora Abraão o seu autor. enunciavam. Pois. os nomes de todos os deuses de que se lembravam. amizade.sempre Ele e só Ele. destruição de Sodoma e Gomorra. Dera-Lhe o ser percebendo-O e pensando-O. que podia ser o único Deus verdadeiro e que indefectível mente respondia aos rogos de protecção e aos cânticos de louvor. Ou moderas as tuas exigências. «ou uma coisa. em certos momentos. se não se levar em conta a involução de semelhantes relações. assim como o grande temor a Deus era um pouco mais do que temor no sentido comum da palavra. Se. não podes exigir que haja nele justiça. porque provinha a um tempo da existência de uma aliança. por ocasião da. com que se dirigiu ao Senhor. estás muito aicima de todos eles. Loth sentiu-se encorajado e exc. se eu O acalmar e Ele me proteger.

sucedido ou estivera prestes a suceder, em Sodoma, aos Seus men­
sageiros, se não levara a bem, também não levara a mal, porque se
envolvera num benévolo silêncio.
Este silêncio exprimia um facto tremendo relacionado com o
lado exterior de Deus e a grandeza interior de Abraão de que se
compunha talvez a verdadeira criação: a contradição da existência
de um Mundo que devia ser justo repousando na própria grandeza
de Deus, ao passo que Ele, como Deus vivo, não era bom, ou só o
era entre outros atributos, até o do mal, e a sua essência incluía
também o mail e era sacrossanta. E assim era a própria santidade,
promovendo a santidade.
Ó maravilha! Fora ele quem esfacelara Tiemaí e destruíra o
dragão do caos. O grito exultante com que na Criação os deuses
haviam saudado Marduk e que era repetido em cada dia de Ano-Bom pelo povo do país de Abraão, pertencia, de direito a Ele, o
Deus de Abraão. Ele inspirava ordem e alegre confiança. Se as
chuvas antecipadas ou tardias caíam no tempo marcado, era obra
Sua. Ele levantara barreiras ao mar imenso, relíquia do primitivo
dilúvio, pátria do leviatão, para que na sua mais desaforada turbu­
lência as não violasse. Fizera nascer o Sol na sua força cria­
dora até ao zenite e principiar à tarde a sua viagem para o
Inferno. Também fizera a Lua medir o tempo pela periódica
sucessão de fases. Fizera brilhar as estrelas e ordenara-lhes que
formassem imagens. Regulara a vida dos homens e dos animais,
alimentando-os de acordo com as estações do ano. De lugares, onde
nenhum homem jamais estivera, caiu neve e regou a Terra, cujo
disco Ele fixou na inundação a fim de que nunca ou raramente
oscilasse. Quanta bênção, quanto benefício, quanta bondade!
Mas, assim como um homem que vence o inimigo, depois da
vitória, se apossa das propriedades do vencido, Deus, segundo pare­
cia, ao destruir o monstro do caos absorvera-lhe a essência e talvez
só com isso tivesse atingido pleno desenvolvimento a Sua majes­
tade divina. A luta entre a luz e as trevas, o bem e o mal, o terror
e o benefício na Terra não era, como imaginava o povo de Nenrod,
a continuação daquela guerra desencadeada por Marduk contra
Tiemat. Também não partiam de Deus as trevas, o mal e o terror
desconhecido, o terramoto, o relâmpago crepitante, a praga de
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gafanhotos que escurece o Sol, os sete ventos maus, o pó de
Abubu, as serpentes e os vespões. Se lhe chamavam o Senhor da
pestilência era porque Ele a mandava e também a curava. Ele
não era o Bom, mas Tudo. E era santo! Santo não por causa da
bondade, mas por causa da vida e do excesso de vida, Santo na
majestade e no terror, sinistro, perigoso, mortífero, tanto que uma
omissão, um erro, a mais insignificante negligência na atitude de
um mortal para com Ele podia ter as mais horrorosas consequências.
Era santo, mas exigia também santidade. E o facto de a exigir
simplesmente pela Sua existência dava ao santo um sentido maior
do que o de mero terror. A discrição que Ele impunha tornava-se
piedade, e a majestade viva de Deus tornava-se a medida da vida,
a fonte do sentimento do crime, o temor a Deus e o caminhar
perante Ele em santidade e justiça.
Deus estava presente e Abraão caminhava perante Ele, santifi­
cado na alma pela Sua proximidade exterior. Eram dois, um eu
e um tu, e ambos diziam «eu» e para o outro «tu». É verdade que
Abraão constituiu as qualidades de Deus com o auxílio da sua
própria grandeza de alma, sem a qual ele não saberia constituí-las
nem nomeá-las e ficariam nas trevas. Deus continuava contudo a
ser um poderoso «tu», dizendo «eu», independente de Abraão e do
Mundo. Estava no fogo, mas não era o fogo, e por isso seria um
erro adorar o fogo. Deus criara o Mundo, no qual aconteciam
coisas tão importantes como a borrasca ou o leviatão. Devia-se
ponderar isto para se avaliar devidamente a Sua grandeza exterior
ou, pelo menos, para a conceber. Ele era necessàriamente muito
maior do que todas as suas obras. Chamavaim-lhe Makom, espaço,
porque ele era o espaço em que o Mundo existia, mas Mundo não
era o espaço em que ele existia. Estava também em Abraão, que
o reconheceu em virtude do seu próprio poder. E era isto justa­
mente que fortalecia e completava a noção que Abraão tinha do
seu próprio eu, que não se destinava a perder-se em Deus, a tor­
nar-se com Ele uma e a mesma coisa e a não ser mais Abraão,
mas antes se mantinha erecto perante Ele, naturalmente a grande
distância, porque Abraão não passava de um homem feito de
barro, embora ligado a Ele pelo conhecimento e santificado pela
alta essência e presença da divindade.
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Fora nessa base que Deus fizera o importante pacto com
Abraão, a aliança tão promissora para ambas as partes, base de
que Deus era tão cioso que queria, ser venerado inteiramente pelos
Seus adoradores, sem que eles pudessem volver sequer um olhar
furtivo para os outros deuses de que o Mundo regurgita. E o facto
digno de reparo era que, por intermédio de Abraão e do pacto, viera
ao Mundo uma coisa que até então nunca houvera e os povos não
conheciam — a maldita possibilidade de o pacto ser desfeito e
alguém renegar o seu Deus.
Muito mais sabia de Deus o primeiro patriarca, mas não sabia
nadai que pudesse narrar. Não existiam historiais acerca de Deus,
como dos outros deuses. E talvez fosse isso o mais notável: a cora­
gem com que desde início Abraão representou e exprimiu a essência
de Deus, dizendo simplesmente e sem rodeios «Deus». Deus não
precedera, não nascera de urna mulher. No trono, a Seu lado, não
havia nenhuma mulher, nem Istar, nem Baalat. Como poderia haver?
Bastava um pouco de senso comum para se concluir que, dada a
natureza divina, não era possível semelhante concepção. Plantara
Deus no Eden a árvore da ciência e da morte, e o homem comera
do seu fruto. A geração e a morte eram coisas do homem e não de
Deus. Não se via nenhuma mulher divina a Seu lado, porque Ele
não necessitava de conhecer muilher alguma, sendo ao mesmo
tempo Baal e Baalat. Também não tinha filhas. Nem Salvath nem as
anjos que O serviam eram Seus filhos, nem tão-pouco aqueles gigan­
tes que os anjos haviam gerado nas filhas dos homens, desencami­
nhados pela luxúria feminina. Ele estava só, e esta era a prova
da Sua grandeza. A condição divina de não ter mulher nem filhos
talvez possa explicar o seu grande ciúme em relação ao pacto.
Seja como for, explica certamente o facto de Ele não ter história
e não haver nada a dizer sobre Ele.
Tudo isto se deve entender em sentido limitado, por se referir
tudo ao passado e não ao futuro, se é possível falar-se aqui em
fuituro. Deus afinal teve uma história, mas esta referia-se ao futuro,
e futuro de tanta glória para Ele que o presente, por mais glorioso
que fosse, não se Lhe podia comparar. Essa diferença entre o pre­
sente e o futuro projectava sabre a sagrada majestade e grandeza
de Deus uma sombra de esforço e de suspensão, de sofrimento e de
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promessa não cumprida, que devemos francamente reconhecer
para entendermos a natureza ciosa do Seu pacto com o homem.
Viria um dia, o derradeiro, que havia de trazer o cumprimento
de Deus. Este dia era fim e princípio, destruição e renascimento.
O Mundo que era, ou talvez não fosse, o primeiro, dissolver-se-ia
na catástrofe final. Reinaria mais uma vez o caos, o primitivo
silêncio. Então Deus recomeçaria a Sua obra mais maravilhosamente
do que antes, sendo Senhor da destruição como era da criação.
Do caos e da confusão, da lama e das trevas, a Sua palavra susci­
taria um novo Cosmos. Ressoariam mais alto do que antes as excla­
mações jubilosas dos anjos, testemunhas de tudo, porque o mundo
renovado excederia o outro a todos os respeitos e nele haveria
Deus de triunfar sabre todos os Seus inimigos.
Assim seria. No fim dos dias Deus seria Rei, Rei dos Reis,
Rei dos homens e dos deuses. Mas não o era já? Sim. era, na sere­
nidade e no conhecimento de Abraão, mas não reconhecido, nem
admitido em toda a parte e por isso não inteiramente realizado.
A grande, a ilimitada realização de Deus estava reservada para
aquele primeiro e último dia, para o dia da destruição e da ressur­
reição, em que o Seu esplendor absoluto, soltandose dos laços que
ainda o retinham, surgiria ante os olhos de todos. Nenihum Nenrod
se levantaria contra Deus com atrevidas torres de terraços. Nenhum
joelho humano se dobraria mais, a não ser perante Ele. nenhuma
boca entoaria louvores a outrem. Deus, como na verdade o era
desde a Eternidade, seria agora realmente Senhor e Rei de todos os
demais deuses. Ao claingor de dez mil trombetas voltadias obliqua­
mente para o Céu, entre cânticos e crepitar de chamas através
de uma. tempestade de raios, Ele, revestido de majestade e de terro­
res, avançaria para o Seu trono, passando no meio de um mundo
que orava com o rosto no pó, a fim de tomar posse à vista de todos
e para sempre de uma realidade que era a Sua verdade.
Ó dia da apoteose divina, dia da promessa, da expectativa e do
cumprimento! Dia que trazia também — note-se — a apoteose de
Abraão, cujo nome daí por diante seria uma pailavra abençoada
com que saudariam entre si as outras raças humanas. Era esta a
promessa.. Contudo este dia memorável não estava no presente,
mas num futuro distante. Até lá o tempo seria de espera, deixando
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traços de sofrimento nas feições divinas do dia de hoje, indícios
do que vai ser e ainda não se realizou. Deus amarrado, Deus pade­
cendo, Deus na prisão. Isto moderava o entusiasmo. Todos os sofre­
dores O podiam adorar e Ele consolava, não os grandes, mas os
pequenos, incutindo-lhes um sentimento de desdém por tudo
quanto se assemelhava a Nenrod e a grandeza excessiva. Não,
Deus não tinha histórias como o egípcio Osiris, a vítima, o muti­
lado, que fora enterrado e ressurgira, ou como Adónis-Tamuz, por
quem as flautas desferiam endechas nos desfiladeiros, Tamuz,
senihor do aprisco, a quem o javali Ninibe dilacerara um lado e que
baixara à prisão para de novo se erguer.
Longe, bem longe de nós pensar que Deus estava ligado aos
mitos da Natureza, que esmaecia de aflição e gelava de angústia
para poder renovar-se de acordo com a promessa, no meio de risos
e turbilhões de flores; ao grão que apodrecia dentro da terra para
poder levantar-se e brotar; à morte e ao sexo; ao culto corrompido
de Melech-Baal e ao ritual de Tiro, onde havia homens que ofere­
ciam o sémen ao deus de abominações, revirando sinistramente os
olhos com loucura e impudor. Não permitisse Deus que ele esti­
vesse metido em torpezas tais! Mas estava atado e era um Deus
à espera do futuro, o que estabelecia uma certa semelhança entre
Ele e outras deidades sofredoras. Por isso Abraão conferenciou lon­
gamente em Siquém com Melquisedeque, única pessoa que podia
entrar no templo do Baal do pacto e de El-Elion, para discutir se
podia haver qualquer semelhança entre Adon e o Deus de Abraão
e até que ponto chegava essa semelhança.
Mas Deus beijara-lhe as pontas dos dedos e exclamara, com
secreto ressentimento dos anjos; «É incrível o que sabe de mim
este mortal! Não é que começo a tornar-me conhecido por seu
intermédio? Na verdade, vou ungi-lo!»

0 AMO DO MENSAGEIRO
Desta maneira e com esta simplicidade Eliezer descrevia a José
a figura de Abraão. Mas, sem que se apercebesse, quando se referia
ao amo falava outra linguagem. Era sempre o homem de Ur ou,
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O velho. através do narrador. velho e rapaz. Têm diversos nomes. como já se obscurecera e vacilara ante o chamado Eliezer. porque mais se ajustava a um anjo do que à mãe. possivelmente nome com que simpatizava a fantasia de Eliezer. visível. pais o name significa «mãe do Excelso» ou. 4-J. levando em conta essa fantasia.mais precisamente. Apareceram então todas as histórias respeitantes àquela me­ tade da esfera em que senhor e servo. Porém ambos. 49 . para dar à cena mais verosimilhança. Tornam-se afinal burguesas e terrenas sem por isso deixarem de suceder no alto e de ser narráveis na sua forma celeste. transparência de certo muito mais luminosa porque por ela se coava a claridade. Desta vez ela chamava-se Ama/da. por outras palavras. 1. Era uma ligeira inexactidão comparada com outras que tinham de deixar passar. mas sim uma figura diferente. a sua infância passada numa caverna. onde um anjo o alimentava enquanto a mãe o procurava por toda a parte. a matança dos inocentes por sua causa. S. mas sós. «mãe de Deus». dizendo-o bisavô de José. arregalando os olhos quando ouvia ddzer que a mãe dos Caldeus se chamava Emtelai. José achava tudo aquilo muito nebuloso.-2° v. Acaso devia o bom do Eliezer ser censurado por faiar assim? Não. pode bem ter tido a forma de uma caltara. As histórias vêm do alto como um deus que se toma homem. A história do nascimento de Abraão predita por urna profecia. Era verdade em qualquer lugar e de qualquer modo. mas andam pelos campos à procura do pobre filho que se extraviou no mundo inferior. ou Emtelai. haviam rechaçado o inimigo para lá de Damasco e em que o chão saltara ao encontro do mensageiro. sabiam perfeitamente que à luz do dia Abraão não podia ser aquele inquieto Amrafel de Sinar e que nenhum bisavô do homem vivera vinte gerações antes dele. Tudo aquilo era verosímil. e até. de modo que o olhar do moço vacilava e obscurecia-se nessa perspectiva. que foi morto ou mutilado. não com trezentos e dezoito homens. de Harran que entrava nas narrativas de Eliezer. abstraindo da ajuda. Há sempre mães vagueando e procurando. pois o Abraão de quem Eliezer agora falava com tanta volubilidade e incoerência também não era o mesmo que vivera então e sacudira dos pés o pó de Sinar.dos poderes sobrenaturais. se assim podemos dizer. anterior ao outro.

em piedosa mascarada. por ouitras pallaivras. o da Criação. Depois. faz coisas que hauriu de si mesmo ou sugou dos dedos de algum anjo e que realmente nunca aconteceram? O homem não fantasia as coisas. ora falava de uma maneira ora de outra. conforme rezava a lenda. não fora construída por mãos humanas mas pelo gigante Arba ou Arbaal. Muito sofrera antes de atingir tal posição! Fora feito cativo. Midioin e Jacsan. o que não estava em contradição com a opinião do vulgo. Esta última versão parecia a José a mais aceitável. a unidade do que é duplo. se aludia aos filhos daquela Ketura que Abraão. já em idade avainçadat. mas foi a mãe de uma série de progenitores e senhores árabes do deserto. acrescentando que ela usava* uma lança e que achava muito justo que ela tivesse tido originária mente o nome de Sarai (heroína) e que Deus lho tivesse diminuído para Sara (senhora). 50 fora metido nu. ou Zimran e lesbee e outros nomes parecidos. O que acontecia era que a esfera girava. Abraão fundara a cidade de Damasco e fora seu primeiro rei. física e espiritual. fun­ dador de cidades. de uma posteridade numerosa. já velho. O ouivinte tirnha de ser muito mais obtuso do que era para não perceber que a cidade de ferro significara o mundo inferior. O mesmo sucedera ao irmão-marido de Sara. mulher do antepassado.» 51 . oscilando entre Abrão e Abraão. Mas teria por isso deixado de ser Abraão? De modo nenhum. pois também ele passara de Abrão (o paii excelso ou pai do excelso) a Abraão. que eles brilhavam como o relâmpago. dizia que eles haviam «brilhado como o relâmpago». num tom inesperado. pode dizer-se. caso igual ao do bastardo Ismael. mas ele fora afastado para longe. a ser queimado vivo. Medain. Por outro lado. Eliezer persistia em asseverar que o fundador de Hébron fora também Abraão.m forno ou (variavam as versões de Eliezer) havia subido à pira. por saber que ainda no seu tempo se celebrava em muitas oidades a festa da pira. deu a honra de partilhar o seu leito. Nen rod. Um conceito inatacávell! Ketura não passava de uma simples mulher cananeia a quem Abraão. o povo. Ghaimava-lhe «filha do castrado» e «rainha do Céu». «o pai de muitas». os indícios da foice. isto é. por exemplo. Aliás. com a de Bell de Babel. haverá festas que não sejam baseadas numa ideia. festias sem qualquer fundamento? No Dia do Ano-Bom.por exemplo. de nome Kirjaith Airba. deve haver um pouco de verdade na história da pira. Condenaram-no a ser sacrificado a Tífon. Segundo Eliezer.liezer dizia. Mas que queria dizer «inverso» naquela ordem de ideias? Quem podia destrinçar o que fora Abraão no princípio e onde realmente começavam as histórias. como poderia ele descobrir uima coisa que não existe? Assim. onde nessa1 versão Ketura aparecia como rainha. considerado um deus depois de ter sido homem e enterrado na tumba de Baal? Com Abraão. e a língua subtil. construtor da torre e da cidade. não queria dizer outra coisa senão que viam com os dois olhos. em momentos de devaneio». isto é: como chefes beduínos sem pátria e como filhos e príncipes do mundo inferior. a estátua que tem a seguinte inscrição: «Ao mesmo tempo. e era confortador ouvir contar como empregara o tempo do encarceramento a ganhar prosélitos e converter ao Altíssimo os guardas do calabouço. tomou por concubina. Abraão construíra para eles e para a mãe uma cidade de ferro. em cujo território estar vam estabelecidos. o que também estava de acordo com a informação de Eliezer de que ele dava passos de uma légua. o pai do país. con­ fundisse na perspectiva remota a figura do seu antepassado. fora criado numa caverna e depois de crescido tratara o rei voraz e a sua idólatra majestade de tail sorte que o monarca sentira. E quando F. tão alta que o sol nunca lá entrava e que era iluminada a pedras preciosas. a respeito dos filhos. como a egípcia Agar tinha sido mãe de Ismael. em vez de verem com um só. A própria Hébron. apesar de todo o seu engenho. Mas. havia momentos em que o servo falava de Sara. Decerto é muito inteligente desde que comeu do fruto da árvore e não está longe de ser um deus. O antepassado devia até ter tido o porte de um gigante. o que se dera pairecia ter sido o inverso. o que não deixa de ser uima afirmação sedutora. tentara devora-lo. se cá em baixo ou lá em cima? As histórias são o presenite da esfera que gira. Que admira pois que José.

do quail se desita^ cava uma tosca figura humana.3 JOSÉ E BENJAMIM 0 BOSQUETE DE ADÓNIS meia hora de distância da instável colónia de Jacob. regaindo o grão e aparando os brotos. A 53 . irmão e marido Tamuz-Adoni. plantando aili trigo. Uma pedra cónica. deixaiva uma sensação agradável. de modo que a figura verde jazia alteada sobre o fundo. Não era um lugar impene­ trável. cam emblemas da geraição gravados. No soco tinham sido colocadas oferendas. apriscos e celeiros. Havia aí um pequeno templo. formando uma espécie de bosqueziniho que o povo de Hébron acreditava ser consar grado a Astarot-lstar e ainda mais a seu filho. pouco mais atlta do que um homem. de cor verde. revestidas de pano. estrebarias. com suias tendais. O ar que corria nesse recanto. a ele davam acesso várias aberturas tortuosas que se podiam considerar atalhos. possivelmente ela própria um símbolo da procriação. tais como taibuinhas. enfaixada. erguia-se no centro da clareira. vasos de barro cheios de erva com foljhazinhas brancas e verdes e também coisas artísticas. ia-se dar a uma clareira formada pela monda feita nas moitas. quadran­ gular. coladas em forma de quadrado. Escolhido um ao acaso e descendo por ele. umia vez que as ofertantes haviam coberto de terra frutífera o desenho de um morto sobre o paino. embora quente no Verão. pelo contrário. uima Massebe. havia uma' gruta coberta de mirto espesso e ailto.

A mão de Benjamim ficava quente e suada quando José a retinha na sua. esitá bem. — Sim—respondeu Benjamim—. apanhei o fruto e lanicei-o para um pano. — E agora. Mas eles portam-se comigo como se eu tivesse mentido e como se fosse possível obter-se azeite fino. meu Jossef. Assim. Todavia. 55 . Por outro lado. dois. desde o meio da testa até à nuca. José chamara Ben­ jamim e dissera-lhe: — Anda comigo. De mãos dadas. com braços abertos e de boca à banda ordenaram a José que se fosse dali. mas sim no irmão. Gosto que tenhas brigado com eles. O pequeno divertia-se tanto com isto que ria. mas denunciava uma penosa reserva na maneira como procurava desviar os olhos dos do filho. Quando chegavam ao murtal.. na gruta sagrada. que ali se encontrava recebendo de Eliezer uma prestação de contas. o fruto amadurecera de mais. empregavam uma força excessiva ao esmagarem as azei­ tonas na prensa. a de três troncos. três. Neftali. uma das quais dava ao irmão quando saíam juntos. Sabia da hora e do motivo por que a mãe morrera e. que costu­ mavam fitar o irmão com absoluta confiança. tinlham de se separar e de caminhar um atrás do outro nas veredas estreitas. também per­ cebia a razão por que o pequeno se ligava rroais a ele. Na verdade. Em virtude dessa informação. não encontrava no pai um acolhimento de natural intimidade. sentia-se isolado e tinha necessidade daquele fraternal afecto. — Tu sabes mais do que eles e tinhas obrigação de contar tudo ao pai. que já não andava sem roupa e usava uma espécie de casaco de manga curta. fez do irmãozito seu amigo e con­ fidente. De natureza afável. e. Haivia. sabes qual é. Trepei a uma delas. no seu todo um quê de melancolia e acanhamento. chaman­ do-lhe Benoni e segredando-lhe ao ouvido o nome de Raquel. de quando em quando. que conta<va então oito anos. Dan. como é natural quando se fala.. azul-escuro ou avermelhado. apertava ao peito com uim longo e estreito abraço o mais novo dos filhos. dies tinham dito a José que não voltasse a pôr os pés no olival depois de o rapaz ter ido ao curral procurar Jacob. Pelo caminho falou-lhe: — Eu disse «em quase todas as árvo­ res». mas agarra-me com força. sem se im­ portar com a diferença de idade. Por isso. vamos dar um pulo por cima deste murozinho. meu nobre Beni —disse José —. Um. muito velha.José vinha frequentemente a esse lugar com seu irmão Ben­ jamim. quaindo o rapazito cresceu a ponto de não precisar mais de andar agarrado à saia das mulheres. aquela que tem um muro à volta. porém. Aquele inteli­ gente e sedutor Jossef (assim Benoni lhe pronunciava o nome) dizia tanta coisa que ele não conseguia entender! A ânsia de querer interpretar o que ouvia ainda fazia mais espessa a sombra de melan­ colia que se estendia sobre o pequeno matricida. trazia consigo o sentimento de uma culpa tragica­ mente inocente que era avivado pélo procedimento do pai para com ele. pelo menos naquela árvore. É mais engraçado pularmos juntos e também mais seguro para -mim. embora todos. deixando livres as orelhas. Podia eu ver aquilo e ficar calado? — Não — respondeu Benjamim. a tal ponto que isso se tornou para Benjamim mais um fardo do que um motivo de orgulho ou satisfação. na sua opinião. Das outras. A atitude do pai não era falha de ternura. e caibelo luzidio e basto cobrindo-lhe a cabeça como um capacete de metal. Estas eram pequenas e firmes. José. herdara da mãe os modos brandas. ao vê-lo. saltavam e prosseguiam. conquanto lhe não coubesse nenhuma res­ ponsabilidade. lhe sorrissem erguendo as sobrancelhas. Tinha uns bonitos ollhos garços. desciam a colina ande estava o olival de Jacob 54 e onde os filhos das escravas se ocupavam em colher as azeitonas e espremê-las. bordado na fímbria e dando-lhe pelo joelho. Era um menino rechon­ chudo. a ponto de tropeçar e cair. Então este agarraiva-a pelo pulso e sacudia-a para que a aragem a secasse. como o nariz e as mãos de dedos curtos. não digo nada. enquanto os irmãos infelizmente atiravam paus e pedras. e o inteirara de que em quase todas as árvores os rapazes haviam deixado o fruto amadurecer de mais e ainda que. porque assim chamaste-me para junto de ti. Corriam. Vi cam os meus olhos que. ape­ drejando daquela maneira as preciosas azeitonas. Gad e Aser tinham sido repreendidos. Exagerei um pouco. Reconheço que o mais exacto seria dizer «em algumas». a quem se afeiçoava e admirava cada vez mais. vamos para o sítio do costume. Benjamim já crescera o sufi­ ciente para se desembaraçar da tutela das mulheres e gostava de acompanhar o irmão sempre que podia.

Entretinham-se imenso, metendo-se por aquele labirinto à cata de
uma abertura sinuosa que lhes permitisse continuar até certa dis­
tância e, aí, não podiam avançar mais ou, embrenhando-se naquele
dédalo, subindo ou descendo a encosta, achavam um caminho mais
longo paira «nitrarem afinal rauim beco sem saída. Procuravam outra
vereda, rindo, conversando, defendendo a cara de arranihões e golpes.
José ia quebrando pequenas hastes que durante a Primavera exibiam
florezitas brancas e ia-as juntando na mão para com elas formar
a coroa que gostava de usar na cabeça. Benjamim queria fazer o
mesmo. Reumira uins ramos e pedia agora aio irmão que também
lhe fizesse uma coroa. Mas depressa percebeu que José não gostava
que oimais novo se adornasse com murta verde. Não que lho dissesse
abertamente, mas a verdade é que queria guiardar o adorno só para
si. Benoni sabia que por trás dessa reserva se encobria qualquer
ideia particular do irmão. Mais de uma vez notara que José tinha
pensamentos secretos que não confiava a ninguém, e muito menos
ao mais novo. Mas Benoni suspeitava que o ciúme da grinalda de
mirto tinha qualquer relação com o direito de primogenitura e com
a bênção que o pai, como todos sabiam reservava para José e
pairava sobre a cabeça do rapaz.
— Está descansado, pequeno — dizia José, beijando os cabelos
do companheiro. — Lá em casa faço-te uma coroa de folhas de
carvalho ou de cardo variegado, ou então uma grinalda de sorveira
com ais suas pérolas cor de escarlate. Que dizes a isto? Não achas
que será muito mais bonito? Porque há-de ser o mirto? Não te fica
bem. Devemos escolher o enfeite que nos vai melhor.
A isto respondia Benjamim:
— Tens todia a razão, eu bem vejo, Josiefia, Iachup, mieu Jeosif.
És mais inteligente do que todos os ouitros e dizes coisas que eu não
seria capaz de dizer. Mas quando falas, concordo contigo e sigo
os teus pensamentos como se fossem meus. Compreendo que cada
um deve fazer a sua escolha e que o enfeite que serve a uma pessoa
pode não servir a outra. Bem vejo que ficas por aí e não queres
que eu saiba mais do que sei. Mas se explicasses ao teu inmão
as coisas como elas são, podes crer que eu te acompanhava e que
não te desiludia.
José guardava silêncio.
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— Eu ouvi falar o povo — continuava Benjamim —, ouvi dizer
que o mirto significa juventude e beleza. É o que dizem as pessoas
crescidas. Se eu o repito, até nos dará vontade de rir, a ambos, só
de pensar tal coisa a meu respeito. Jovem sou, na verdade, ou
melhor, pequeno. Quero dizer, não sou bem um jovem, sou um
pequerrucho. Tu és jovem e formoso. O mundo está cheio de fama
da tua formosura. Quanto a mim, sou mais digno de troça do que
de admiração. Quando olho para as minhas pernas, vejo que não
estão em proporção com o resto do corpo. Sou barrigudo como
um menino de mama e as minhas bochechas são redondas como
se estivessem cheias de vento. Do meu cabelo nem é bom falar:
parece um gorro de pele de lontra. Assim, se o mirto convém à
mocidade e à beleza, e é seu emblema, é a ti, sem dúvidia, que
ele fica bem, e seria um erro da minha parte usá-lo. Bem sei que
u,ma pessoa pode errar e até prejudicar-se com coisas dessas. Vês,
por mim mesmo e antes que fales, entendo muita coisa, mas natu­
ralmente não entendo tudo, e tens que me ajudar.
— Meu homenzinho— retorquiu-lhe José, passando-lhe o braço
à volta do pescoço —, gosto do teu gorro de lontra, da tua1 pamciinha
e das tuas bochechas gordas. És o meu irmão mais querido, o meu
único inmão verdadeiro e carne da minha carne, porque saímos
ambos do mesmo abismo que se chama absu, mas para nós é Mami,
a doce Mami por quem Jacob serviu. Vamos descer até à pedra e
descansar.
— Pois sim—concordou Benjamim.—Vamos ver aquelas arma­
ções e os vasos que lá puseram as mulheres. Parece um jardinzinho.
Hás-de explicar-me a significação da pedra, ipois gosto de ouvir
failair nisso. Afinal — prosseguiu enquanto ia descendo a vereda
íngreme — Mami morreu ao dar-me a vida, e metade do meu nome
quer dizer «filho da morte»... Pelo menos neste sentido poderia
convir-me o mirto, pois oiço o povo dizer que também é um
enfeite da morte.
— Sim, há pranto no mundo por causa da juventude e da
beleza — disse José —porque Achera faz chorar e deita a perder
aqueles a quem ama. Deve ser por isso que o mirto é também o
arbusto da morte. Ora cheira lá o ramo que tens na mão. Vês como
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é forte? É o adorno de todo o sacrifício, escolhido para os escolhi­
dos, destinado aos predestinados. Juventude consagrada, eis o nome
do holocausto. Mas o mirto usado no cabelo é a planta balsamina
silvestre.
— Agora já não me amparas com o braço — observou Benja­
mim — e deixas teu irmão caminhar sozinho.
— Aqui tens outra vez o meu braço — exclamou José. — És o
meu verdadeiro e querido irmão, e lá em casa hei-de fazer para ti
uma coroa de todas as flores do prado, com todas as cores do
arco-íris. E todos os que te virem hão-de rir de alegria. Agrada-te
esta nossa combinação?
— Como és bondoso!—disse Benjamim. — Deixa-me beijar-te
a orla da túnica.
Mais pensava para consigo: «Com certeza., o que ele tem na
mente é a herança e a bênção. E contudo causa-me impressão que se
refira ao sacrifício de mistura com a planta silvestre. É possível que
pense em Isaac quando fala do holocausto e da juventude consa­
grada. Em todo o caso, o que ele quer é que eu entenda que o
mirto é a grinalda sacrifical, e isso inquieta-me um pouco.»
Depois disse em voz alta: — Quando falas como agora, és dupla­
mente belo. Na minha loucura, não posso dizer se o perfume do
mirto provém das tuas palavras ou das árvores. Olha,, cá está o
santuário. Agora há mais dádivas do que da última vez que aqui
estivemos. Foram acrescentados na armação dois deuses de semente
e dois vasos com brotos. Aqui andaram muilheres. Fizeram uns
jardinzinhos em frente da gruta. Eu gostava de os ver. Mas a pedra
está intacta, não foi removida do túmuilo. Estará agora lá dentro
o Senhor, com a sua linda figura, ou para onde terá ido?
Benjamim referia-se a uma depressão rochosa, emoldurada de
arbustos, entalhada na encasita do outeiro. Não era alta, mas podia
conter um homem de estatura regular, e estava parcialmente
fechada por uma pedra. As mulheres de Hébron utilizavam-se dessa
cavidade para o ritual da festa.
Não — respondeu José à pergunta do irmão. — A figura não
está aqui, nem é visível na roda do ano. E guardada no templo de
Kirjath Arba e só aparece na festa do solstício, quando o Sol
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começa a declinar e a luz principia a baixar ao mundo inferior.
Vão-na buscar e as muilheres manejam-na conforme é costume.
— Depositam-na ali na cavidade? — perguntou Benjamim. Já
fizera a pergunta noutra ocasião e José dera-lhe explicações. Mas
fingira ter-se esquecido a fim de ouvir outra vez a história e fazer
José falar de Adonai, pastor e senhor, o assassinado, por quem
se erguiam lamentações no muindo inteiro. Nessas ocasiões, ele como
que ouvia os pensamentos de José entremeados com as palavras,
escutando o tom e o ritmo da fala. Parecia4he que assim poderia
surpreender os pensamentos secretos do irmão, que estavam dissol­
vidos nas palavras como o sal está dissolvido no mar.
— Não, sepultam-no mais tarde — esclareceu José. — Primeiro
procuram-no.—José estava sentado na base do santuário de Astarot, a pirâmide de pedra escura toscamente lavrada, cuja superfície
parecia coberta de pequenas pústulas. Já se ocupava em entrançar
a coroa de mirto, e nas costas das mãos, em activo movimento,
sobressaíam os finos tendões.
Benjamim olhaiva-o de lado. Um brilho fosco, que se lhe notava
nas faces e no queixo, eira a prova, de que já fazia a barba. Para isso
usava uma mistura de azeite e potassa e uima faca de pedra. Se dei­
xasse crescer a barba, como pareceria? Podia ser que mudasse
muito. Tallvez ainda não tivesse muita barba. Mesmo assim, que
seria da sua beleza, aquela notável beleza dos dezassete anos? Podia
trazer sobre os ombros uma cabeça de cão que a diferença não seria
muito grande. Temos de convir que a beleza é um bem muito frágil.
— Elas procuram-no — prosseguiu José — visto que é o excelso
perdido. Algumas esconderam a figura nas moitas, mas procuram
como as demais, sabem e não saibem onde ela está, mostram-se
desorientadas. E enquanto passam busca, lamentam em coro e cada
uma separadamente: «Onde estás, ó meu Deus adorado, meu esposo
e meu filho, meu variegado pássaro-pastor? Sinto saudades tuas.
Que te sucedeu no bosque, no mundo, na verde pradaria?»
— Mas sabem — interveio Benjamim — que o Senhor está
morto e mutilado?
— Ainda não — replicou José. — E a festa. Sabem-no porque foi
descoberto uma vez, e ainda não o sabem porque não soou a hora
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de O descobrir de novo. Na festa cada hora tem a sua ciência, e
cada uma das mulheres é a deusa buscadora antes de O ter encon­
trado.
— Mas depois acham o Senhor?
— Tu o dizes. Ele jaz no matagal, com um lado despedaçado.
Todos se aglomeram à Sua volta, erguem os braiços e soltam gritos
agudos.
— Já assististe?
— Sabes que já assisti duas vezes, mas fiz-te prometer que não
dirias nada ao pai. Não disseste?
— Claro que não — assegurou Beinonii. — Então eu seria capaz
de afligir o nosso pai? Já o afligi bastante ao viir ao imuindo.
— Hei-de tornar lá na ocasião oportuna —disse José. — Esta­
mos agora tão longe da vez passada como da próxima. Quando
espremem o azeite é a altura da volta. É uma festa esplêndida.
O Senhor jaz entre arbustos e ainda está aberta a ferida mortal.
— Que aspecto tem?
— Já to descrevi. Uma bela figura, de pau de oliveira, cera e
vidro, porque as pupilas são de vidro preto e têm pestanas.
— É jovem?
— Já to disse: é jovem e bonito. Os veios da madeira são
finos como as veias do corpo. Tem o cabelo preto, em caracóis, e o
pano que cinge as ancas é tecido em várias cores, com pérolas,
pasta de vidro e franjas de purpurai to bainha.
— Que tem na cabeça?
— Nada — respondeu José lacònicamente.— Os lábios, as
unhas e as marcas no conpo são de cera, e também é de cera ver­
melha a ferida horrível do dente de Ninib.
— Disseste que as lamentações das mulheres, quando o encon­
tram, são fortes?
— Muito fortes. Até então eram só a lamentação de o terem
perdido. Depois começa a lamentação porque o acharam., e são
lamentações muito mais retumbantes. É o treno das flautas por
causa de Tamuz, por causa do Senhor. Nesta altura, os músicos
estão sentados, tangendo com toda a força os flautins cujo som
dolente penetra nos ossos. Então as mu/lheres soltam os cabelos
e entregam-se a excessos em todos os seus gestos, proferindo quei60

xuimes em volta do cadáver: «Ó meu esposo, meu filho!» É que todas
querem ser como a deusa, e queixam-se: «Nenhuma te amou mads
do que eu!»
— Tenho vontade de chorar, José. A morte do Senhor é trágica
de mais para mim, que sou pequeno, e toca-me cá dentro. Mas
porque havia o jovem de ser dilacerado no bosque, entre as sarças,
provocando tanta lamúria?
— Não entendes — retorquiu José. — Ele é o mártir, a vítima.
Desce ao abismo para sair de lá e ser glorificado. Disto estava certo
Abraão ao erguer o cutelo sobre o Filho Verdadeiro. Mas quando
ia desfechar o golpe, havia um carneiro em substituição. É a razão
por que levaimos em holocaiusto um caimeimo ou um cordeirinho e
lhe apomos um selo com a figura de um homem, como sinal da
substituição. Mas o mistério da substituição é maior, foi decidido
na constelação do homem, Deus e animal. É o mistério da troca.
Assim como o homem oferece o fillho no animal, o filho oferece-se
a si mesmo por meio do animal. Ninib não foi amaldiçoado, por­
que está escrito: «Tem de ser morto um Deus.» E a significação
do animal é a do filho, que conhece a sua hora, como na festa, e
também, a hora em que se afundará na mansão da morte e em que
tomará a sair da caverna.
—Ah! Se já estivéssemos nesse ponto... —comentou o pequeno.
— Se começasse agora a festa do júbilo! Depositam o Senhor no
túmulo, ali, na caverna?
Continuando o seu trabalho, José balançava o corpo de um
lado para o outro e cantarolava com voz fanhosa:
«Nos dias de Tamuz tocai flautas de lazulite,
Tocai ao mesmo tempo o anel de cornalina!...»

— Soltando lamentações — disse depois — trazem o corpo
aqui, para a rocha, e os tangedores imprimem tanita força ao som
das flautas que é de cortar o coração. Eu vi as muilheres muito
ocupadas com o cadáver que tinham no regaço. Lavavam a figura
com água e ungiam-na com óleo de nardo, de modo que o rosto
do Senhor e o corpo, sulcado de veias, reluziam e gotejavam. Em
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» — Sabes ais lamentações. E agora o belo Deus fica quatro dias no esquife? — E como dizes — anuiu José. também te perturbam deveras. até parecia que ias irromper em lamentos. e é a vítima. está pronta a coroa que reservas para ti. com pífaros. Diz-se. começa a festa do acender das candeias. Mal ajeitam o corpo dentro dela. descem a tampa e calafetam-na com breu a toda a volta. meu filho! És um tamariz que não bebeu água no canteiro. A meia-noite faz-se silêncio. desfalecido. mais alta e rnaiis larga do que aitrás. na frente. «arca». para mostrares a tua habilidade. quando cai a noite. há quanto tempo aí estás!» E depois deste luto. empurram a pedra para a frente e voltam para casa. E este até o queixume mais amargo. Depois vêm ao sepulcro e mais uma vez soltam quei­ xumes. o Deus de Jacob e de Abraão. Mas no quarto dia vêm pô-lo na arca. mas és novo e belo — observou humildemente Benja­ mim. mas neste caso inconveniente. como tu. na caverna. filho dilecto — disse José—. meu esposo. pelo que vejo — acrescentou Benoni. forte. sempre a lamentar-se e a prantear: « I n f e l i z Tamuz! Choramos pelo íilho querido. ainda as mulheres trazem por muito tempo o peito todo arranhado. — Ele é filho.seguida enfaixavam o corpo em pano e lã. desde o tempo antigo. meu Deus. apesar de só as mulheres da cidade o saberem fazer e de o filho não ser Adonai. E de madeira pintada de vermelho e preto. — De repente — perguntou — cala-se tudo? — Ficam todos imóveis e emudecem. enquanto cantavas. nunca o som das flautas foi tão penetrante como quando se ergue o clamor: «Ó Duzi. Erva verde que não bebeu água no jardim! Ai. — Cessam então as lágrimas? — Isso é que não retiveste bem ma memória. minha luz! Ninguém mais do que eu teve amor por ti. Ele fica exposto ali até ao quarto dia. Mas no terceiro dia. No templo e nas casas continuam a lamentar-se durante dois dias e meio. — Sei — concordou José. — Uma ou duas vezes. Um sarmento a que arrancaram as raízes. A chorar. Eis senão quando vem de longe uma voz perdida. aqui. como um diadema. meu soberano. Alegra-me que a ponhas na cabeça. meu Damu. Caixa também seria uma palavra adequada. — Não. e diariamente os da cidade vêm ali. Vejo que a fizeste. minha Primavera. Mas que ideia é essa de eu estar perturbado? Não sou pequeno nem chorão. quanto tempo aqui jazes! Eu não comerei pão. A tua inte­ ligência desenvolve-se e dentro em breve já se poderá falar con­ 62 tigo sobre qualquer assunto. Benjamim agarrou o braço do irmão. não beberei água Porque morreu a juventude. quanto tempo aqui jazes! Ó Senhor do aprisco. levam-no em seguida à sepultura. mais do que a coroa de sorveira brava que queres fazer para mim. — Numa caixa? — Deve-se dizer «arca». ao pé da pedra. meu filho. — Não te esqueceste. Foi feita à medida. batem no peito e lamentam-se: «Ó Duzi. sem excepção. clara e jubilosa: «Tamuz vive! O Senhor ressurgiu! Deitou por terra a morada sombria da morte! O Senhor é grande!» 63 .— Daqui a pouco. morreu Tamuz! — Até no interior do templo e nas casas se queixam assim. envolviam-no em man­ tos de púrpura e estendiam-no num esquife. O silêncio é profundo. E a tua copa não deu rebentos no campo! És uma haste que não foi plantada no seu agueiro. minha luz! Adon! Adonai! Prostramo-nos chorando Porque estás morto. palavra por pailavra. — E a ti. O Senhor cabe muito bem nela.

. mas de novo caminham. preci­ pitam-se todos paira o sepulcro e encontram a anca vazia. A anunciadora vem com um alaúde na mão. Que me estás tu a contar? Não enganes. como. o Senhor.. Perdoa a este bochechudo. Grande é o Senhor! Adonai e grande!» — Mas. grande é o Senhor! Abriu os olhos que a morte cerrara. Erva e flores brotam sob os seus passos. assemediha-se a uma barquinha que balouça sobre o mar celeste.. José! Eu sabia que à hora da festa viria essa notícia.. toca e canta: «Tamuz vive.. a imagem é um meio para a presença de Tamuz na festa. mas causa-me arrepios como se nunca a tivesse ouvido. um filho da tua mãe! Já me tens dito que a bela figura fica de ano para ano guar­ dada no templo. porque é uma honra. porque o deus não é a imagem. — Oh!. que notícia. — Ainda failta muito para que a tua inteligência esteja desenvolvida e perfeita. de que te falei? Porven­ tura se enganam os que a celebram hora a hora. escolhida especialmente para esse fim. é o Senhor da festa. Não será a festa. A tumba só o reteve por três dias. Embora venha aumentando. na sua hora. Está-me a pare­ cer que leio o teu pensamento: que a imagem não é o deus. — E o dilacerado onde está? — Já lá não está. Seus pés estavam peados. José.— Ah.. Mas. Abriu a boca que a morte selara. Que significa isso de «ressuscitou»? — Tontinho— replicou José. Ressus­ citou. Adon ressuscitou! Ele é grande. enquanto a rapariga se aproxima cantando. Quem é que ohama? — É uma rapariga de feições delicadas. 64 . Acautela-te bem. fazes favor. mas santificando a presente? Todos sabem que Tamuz é guardado no templo. Os pais exultam com a escolha. conhecendo a hora próxima. e contudo Tamuz ressuscita. porque é! Com efeito. Mas Tamuz.

— Dizem — anuiu José — que era uma vez um rei. a cabeça do Senhor está agora erguida por um ano. visto que é o Senhor da festa. — «De novo». — É 9empre uma vez e a primeira.j. alegre.Dizendo isto.2. — Deus do Céu! — exclamou entusiasmado. e quando penso o aspecto que teria sobre o meu gorro de lontra. beijando-se duas vezes e dizendo: «Ele ressuscitou verda­ deiramente!» — Sim — disse Benjamim —. e 5 . Falo como um petiz. no sopé do monte Hérmon. — Bem. aqui. 65 . bebem. i. que tinha uma filha muito formosa. Benjamim pôs-se a contemplá-lo com olhos arregalados. Conta-me a história. é assim lá no alto. Eu não soube expri­ mir-me. não — corrigiu José. — Como te fica bem o diadema de verde mirto que te vi preparando com essas mãos habilidosas! Só em d fica bem. E na cidade. assim é. assim. vazia!» gritam todos. em Gebal. reina também a alegria. meu querido irmão. bem. à luz das candeias. é o acontecimento. recolhida? — Começa então o júbilo — emendou José. mas sabe a hora em que será de novo abatido no bosque por Ninib. e o ar está cheio dos gritos da anunciação. Diz-me ai verdade e conta-me cá: quando a gente da cidade encontra a arca vazia. silenciosa. «A arca está vazia. — Dizes bem. Que festa magnífica em todas as horas! Portanto. é.. pensando bem. Sempre uma vez e a primeira vez. alguma vez deve ter sido a primeira em que Tamuz morreu e o Belo foi despedaçado. No dia seguinte ainda se saudam. mas como é cá em baixo? Tu chamas-lhe acontecimento. volta paia casa. Mas.. Adon ressurgiu!» Beijam-se uns aos outros e bradam: «Tamuz está glorificado!» Depois executam uma dança vertiginosa em redor do monumento de Astaroth. .° v. — Irrompe então a festa da alegria. Ou não será assim? — Quando Istar desaparece do Céu e desce a despertar o filho. s. colocou na cabeça a coroa que naquele momento acabara de fazer. Bamqueteiam-se. toda iluminada. Só não me lembrava bem da volta para casa. para que a fesita se repetisse. «Vazia. e assim já ma descreveste da outra vez. vazia. reconheço que seria um grande erro se não o conservasses pana ti.

dei­ xando nas mãos do porteiro. como por lá chamam a Astaroth. Entende-se portanto. Istar pôde assim reconduzir à Terra o seu dilecto. mútuia inveja. a mantilha que levava na cabeça. nem que anéis usava a a..ndo-se uma à outra como se tivessem gtarras nos dedos. Então as duas deusas engalfinharam-se. Mas esta também não o quis entregar a ninguém e declarou: «Não o deixo sair daqui. — Da maneira como foste criado. em cada uma das portas. fê-lo enlouquecer de luxúria: prendeu-o pela carne e pelo sangue. e o rei reflectisse que era o pai do neto. Em vários sítios. enteiriçava-se na desolação. Pretenderão eles não fazer destrinça entre a deusa e o deus que . O veintre materno estava fechado. viu-o e não quis que ninguém ficasse com ele. sabendo que tudo aquilo fora preparado por Achratih. Astaroth aimaiva-o. nem o burro se inclinava para a burra. a terra pro­ duzia sal. Os deuses. de maneira que apareceu nua diante da deusa Erechkigal a exigir a restituição de Tamuz. uma peça do seu vestuário. nem para a mulher o homem. a 66 faixa. decidindo que Adónis passasse um terço do ano no reino inferior. rangeu os dentes e disse ao porteiro: «Procede com a deusa conforme é costume. Mas. ia indicando os sinais gravados na pedra monumental ao pé da qual estavam sentados. cada uma enfiou as dedos pelos cabelos da outra e arrepelaram-se. — Ah. — Passados dez meses—continuou José — a árvore aibriu-se e deitou cá para fora Adonai.Nana. Não me ralhes e acredita que não desejo outra coisa senão estar a ouvir-te. — E onde passou o rebenito da árvore o último terço? — É difícil dizê-lo. Se de uma coisa se pode con­ cluir outra. — Em que árvore? — Uma árvore ou uim arbusto — disse José. à medida que falava. a senhora Erechkigal. porém. mas não me venhas com perguntas inexperientes como quem atira pedras numa cerca. Eu não estava lá para te poder dizer como era o nariz do rei.. na última porta. foi tomado de fúria e arrependimento e por pouco a não matou. o menino. Não posso ouvir dizer que o burro já não se inclinava para a burra e que a terra se encoscorava de sal. ficou perturbado. — Esgadaniharam-se por causai da criança? — Sim. Adon era filho de uma rapariga bonita.» E. Acabo por chorar. porquê? — A ninguém e nem sequer uma à outra. que era a cuiLpada de tudo. O touro já não cobria a vaca. os braceletes e. junto à deusa Erechkigal. — Se me railhas. que disse: «Não conrvém que o florescimento fique detido. o caso não é tão simples. trans­ formaram a gestante numa árvore. enfadado—. passa depressa a outra hora da história e não insistas mais nessa. Achera. basta falar de uma para que a outra se tornie evidente.. porque este é o país donde se não volta. choro — lamuriou Benjamim —. ou um arbusto da grossura de uma árvore. e vais ver o trabalho que te dou para me acalmares. Josefia. mas soberana. escusado é dizer. — E como a rapariga ficasse grávida— prosseguiu —. e que na geração dele andara o dedo de Nana era coisa certa. Por isso guardou-o no reino ínfero. quando a senhora do ar apareceu no reino inferior para reclamar o menino.ma da filha do rei. — Uns deuses criados à semelhança do homem e assim como eu sou? — inquiriu Benjamim. escuta. esgadanha. apavorada. Achtarti teve de transpor as sete portas. A vida. tal era a. que ele fora criado para dar motivo a invejas. é natural e todos compreen­ dem. de modo que a terra ficou esperando a sua volta. Não medrava erva. tratando-se de deuses e semideuses. Não há nada que não perguntes e não queiras saber. Harvia em volta dele muita inveja e muitas intrigas. abandonada pelo prazer. Se queres escutar-me. e ele conheceu a filha. o brotar esteve peado e o florescer oprimido.» E interpôs-se entre as deusas Astaroth e Erechkigal. Depois a deusa Erechkigal encerrou a deusa Achtarti no reino inferior com sessenta fecha­ duras e feriu-a com sessenta enfermidades. um terço na Terra e o outro onde lhe apetecesse. Muitos não chaimam a Tamuz soberano. José. De noite as campos cornavam-se brancos. mais de um rei o levou consigo e não o deu a ninguém. Por isso. e depois terás de me consolar. assim.» — As deusas não queriam entregá-lo a ninguém. os colares. não crescia grão. porém. — Também o mensageiro de I)eus chorou ao ver tudo aiquilo — observou José — e em prainto foi dar a notícia ao Senhor dos deuses. Vou intervir. o pano que lhe cobria as partes pudendas.

68 t Eloim representa o meu pai. A de faces mimosas tinha de se dirigir para o Ocidente por aimor da minha vida. — Agora vamo-nos embora—disse José. e guaídes algumas coisas para ti. — Eu também. ligado pelos laços do sangue. pensa em Raquel. afinall. e assim o miúdo é órfão e desde o começo uirn malfeitor. Ah. li numa pedra as seguintes palavras: «De tarde é mulher. o nosso pai. Israel será esposa ou esposo? É uma questão que não está ao alcance de todos. A loquacidade de José a propósito do sonho da intempérie. como é natural. ou referir-se-ão só a ele uma vez que. chama-se Osíris. Istar é a estrela da manhã? — É. Istar é mulher? Já tenho visto imagens dela que a representam com bairba. nos países do Sul. se ela não tivesse sofrido pelo caminho tanitos males que lhe ocasionaram a morte! Se tivesse sido como a árvore que se aibriiu com tanta facilidade para dar passaigeim aio rebento! Que árvore disseste tu que foi? A minha memória é curta como as minhas pernas e os meu dedos. Seja como for. e Ele portanto é para nós um esposo. E terás o rosto limpo de bairba até seres um homem. mas não ati­ navam. E Israel é a esposa. com que dera gosto ao pai. que se ligou à nossa estirpe com o pacto de Abraão. Para ele. mas um petiz. — És tonto. pegas-me pela mão e trazes-me até ao bosque e aos prados. ao beijá-las. eu conservo-me puro — respondeu José. passando o braço em torno do pescoço de Josc. — Disseste-me que as faces da Mami eram muito macias e que. isso era apenas devido ao facto de serem rapazes destituídos de imaginação e talento inven­ tivo. o pastor. é um esposo. se trans­ formasse em rapaz. não quero. embora mão me dês tudo. para mim. No meu espírito. castrado. contas-me a festa de Deus em todas as suas horas. denominações benignas que eles todavia consideravam repelentes. apalpando as faces com as palmas das mãos. até então ele ocultara dos irmãos os sonhos 69 . sentiam o perfume das rosas. — É uma virtude da morte mudar a condição de um corpo? — O morto é Deus. Quando Jacob olha para mim. era mulher. meu querido Jeosif.—Sabes. Nós falamos como callha. — Só estou a informar-te do que pensa a genite do Sul acerca de coisas que a maioria das pessoas não percebem. miais até do que aos outros filhos. porque és ainda como um anjo dO Altíssimo. recuso-me. tu representas e substituis a mãe. e 'não se chega a saber a verdade. és uim jovem. Tu. — Então é ambas as coisas. Metade do peito era de mulher e a outra metade era de homem. É Tamuz. em vida. Por isso ficaraim satisfeitíssimos quando acharam a de (^sonhador de sonhos». és o que ela seria. com a morte. ao passo que ela está morta. — Porque ainda nem sequer sou um jovem. que me tem amor. um anjo de Deus. Talvez Taimuz fosse donzela e. de manhã é homem. mas faltava pouco tempo. ó Josefia. Eu e a mãe formamos um todo. — Mas tu tens as faces delicadas como as de Mami. Se entretanto lhe chamavam só «Utnapichtim» e «ledor de pedras». Não posso fazer ideia dela com barba Se exiges isso de mim. consagrado e poupado para ser esposa. A nossa estirpe está ligada pela cairne. e também a da tairde. Tu.está com ela. do Senhor. não bastara para lhes chamar a atenção sobre essa arrogante qualidade e. porque eu vivo. Lá. Mas eu sei que é a Mami que ele ama em mim. Porque não direi então que tenho visto imagens «dele»? Jacob.. como ela também faria. — Sim. sorrindo. Mas. fazes-me grinaldas. tem barba anelada e pairece que. assim como a gente do país pensa em Nana quando dá a Tamuz o -título de ((Senhora». de resto. eu não exijo isso de ti — replicou José.. não fazer ideia. e não se pode fazer uma ideia exacta. Bem queriam pôr-lhe ailcuinhas mais aigressivas. penso na Mami! — exclamou Benjamim. — A pele das minhas bochechas itambém é fina e macia — observou Benjamim. não faz a menor ideia» É miais prudente assim. que já era mais contundente.» Como havemos nós de entender isto e achar a verdade? Também já vi uma imaigem de E>eus representando a água do Egipto que rega os campos. O SONHO C E L E S T E Nessa ópoca os irmãos ainda não lhe chamavam «o sonha­ dor». quando te afago. ela con­ tinua viva noutro corpo. que se chama Adónis. A respeito dela. cheio de ardor. Mas ainda não tinha chegado o dia destinado a tal alcunha.

até provocava o irmão para que lhos narrasse. e dizia-me com o brônzeo bico: «Sleguro-te bem. colocada por trás de mim.—Sou pequeno. com as mãos cruzadas sobre o peito e entregue eviden­ temente a uma grainde comoção. Mal me invade o imedio ou me vêm calafrios. Em terceiro lugar. mas não' gritaste por socorro à gente que ficava cá em baixo? — Não. não chores. por maiis pretensiosos que fossiem. enquanto na ascensão as minhas pernas pendiam ao vento. — Que ideia! — replicava Benjamim sempre que ouvia tais recomendações. uma grande 70 bulha. transformado em águia para a presente missão. e contra ele são inúteis todos os argumentos ou sofismas. Eu sei o que faço.que tinha desde há muito. porque não havia na vastidão do campo ninguém que me pudesse ouvir. não rias. É este efectiva­ mente O' decreto do Sumo Amor. esqueço que é um sonho e posso divertir-me. lembro-me de que tudo quanto me estás dizendo não passa de um sonho. havia razão suficiente para se sentir oprimido. por três razões — respondeu José. com um grande bater de asas. despreocupado. nem aos irmãos nem ao pad. — Não te assustes — recomendavahlhe — nem soltes exclama­ ções. por cima do lugar onde eu estava. — Que maravilha! — interrompeu Benjamim. Precisamente a circunstância de ser o único a saber daquele sonho oprimia ainda mais o petiz. e ninguém poderá livrar-se de preocupação ante a grande imodéstia de um sonho como o seguinte. O decreto de Deus abate enèrgicamente quem quer que pergunte. Porque. Em redor de mim havia um rugir de vento forte. no entanto. Em segundo lugar. com uma palhinha na boca e os pés no ar. Eu estava deitado de bruços. como se estivesse à espera daquilo há muito tempo. e a águia lançou-se imediatamente sobre mim. — Não é que eu tenha medo. «Cala-te». sustendo-me diante dela com as garras e levando a cabeça por ciima da minha. Isto acalimamne e. segu­ rava-me pelos quadris. e ao mesmo tempo ouviu-se. Mas o meu coração transbordava de uma horrível alegria. rapazinho? E não estarei a apertar-te de mais com as minhas garras irresistíveis? Sabes que eu refreio-as para não te magoar a carne. assim. em virtude da obscuridade de certos mistérios de mirtos. É este o decreto. — Folgo que estejas aqui sentado ao pé de mim—disse Benjamdim. por desventura siua. Às vezes. porém.» «Porquê?». grande como jum touro e com uns chifres de touro na testa. agarrou-me pelos quadris e levou-me pelos ares. «e acautela a língua contra as pergumtas. Os mais importantes não os contava nunca. Contudo. como para demonstrar que tudo aquilo era um sonho. perguntei-lhe. meu filho. porque senão calo-me. — Mas não ficaste triste de ter de te afastar da Terra nas asas 71 . curioso como era. Quando levanto os olhos. e ninguém se atreva a discutir o Imenso!» Depois de ouvir isto. arrancando-me. sozinho entre as ovelhas que pastavam eirn volta do outeiro. Fora ela que me mergulhara na sombra. ao reba­ nho de meu paii. mas não sou pateta. eram sempre relativamente mais modestos. distraído. olhando-me com os olhos muito abertos. E a ave respondeu: «Sou o anjo Amfiel. e os que. calei-me. Gom Benjamim. não te interrompo. Enquanto mie mantenho impassível. que Benjamim teve de ouvir sozinho várias vezes. tens de ser transportado para outro lugar. Escusado será dizer que o pequeno. como uma nuvem que encobre o Sol. muito embora advertisse o ouvinte de que não se deixasse comover e se conservasse sossegado. já não poderás permanecer na Terra. não só os escutava com atenta complacência como. Quase sempre José contava o sonho com os olhos fechados e em voz baixa (que. como é forçoso em todos os céus. disse a águia num fraigoroso esvoaçar. Benjamim não podia furtar-se a uma angustiosa opressão que atribuía à sua própria inexperiência e procurava dominar. Nas horas de confidência desabafava com o miais novo. era diferente. A águia. ela inclinava a cabeça. vejo no alto uma águia com as enormes asas abertas. De repente estendeu-se sobre mim uma sombra. apesar de reconhecer a necessidade de o não divulgar e de ficar muito honrado com a confiança que o irmão depositava nele. não resistia a contar. — Antes de tudo. porque aii de mim se tal sucedesse!» «Quem és tu?». de quando em quando irrompia violenta). — Sonhei — começou José — que estava no campo com o re­ banho. Experimenta falar e perguntar. contando-lhe os seus sonhos. porque ia feliz. senti que não tinha fôlego para gritar. Mas já um tanto melancólico. perguntei.

corn os braços apoiados em espadas do feitio de cobras. — Não te quero mal por isso — assegurou-lhe Benjamim—. farejando o vento da nossa ascensão. assim seja. E pode ser que me parecesse pequeno aquilo de que me estás falando. por toda a parte emudeciam por um instante as hosanas à nossa pas­ sagem. As asas gotejavam-lhe com a humidade.” «Vi então uma fortaleza formidável. uma covinha de jardineiro. era como se já o espe­ rasse. uima vez que eu continuava a subir. «Através de Chejaquiim. quando Amfiel. continuou a levar-me para o alito durainte mais duas horas duplas e disse novamente: «Olha para baiixo. Aos meus ouvidos chegou a imensa harmonia de miríades de sons. que a ascensão me tirasse a memória. dentro em pouco. em cada nova ordem. No meio deles. sem poder opor-me. por assim dizer. Aza. para lhe ser permitido vir aité ao supremo céu e fazer serviço no meio de nós?” Consternado. este teu irmãozinho? — Eu não vos deixava — explicou José. «E nos céus. A águia infor­ mou-me: “São Aza e Azael. Depois desse espectáculo. nos enxaimes de servos ígneos. amigo. Mas. nas ordens cheias de legiões entoando loas. mas estou pasmado contigo. meu querido Ben! Pode sor também. Grande era essa alegria e grande era o que me estava acontecendo. brilhaindo como metal claro e polido. da paz e da bênção. e não sentiste pena de nos deixar. me disse: «Ollha paira baiixo. Depois. era uma caterva 73 . através das quais a águia me conduzia. onde se acham as câmaras do tesouro da vida. sobre pedes­ 72 tais de fogo. e eu vi-os erguer o focinho. Dize-me o que há no cheiro do filho de uma mulher e que importância terá um ser formado com sémen buimaino. mas eu não the medo. tinham um ar afoito e rugas de altivez entre as sobrancelhas. num sonho. uma cesta d'e pão. eu ia assustado e perguntei à águia: “Aonde me levas ainda e a que altuira?” Respondeu-me: “A uma altura incomensurável. meu filho. com armas de ouro. pois foi decre­ tado que eu te conduza sem delonga à suprema altura e amplidão de Araiboth. uniam-se a nós alguns filhos das alturas e assim. meu amigo. «Na nossa subida atravessámos Raquia. dois serafins. Em cada novo céu. Estes cobriam com as asas o corpo a!té aos pés. por exem­ plo. Dois deles. No cinzento e brainco que nos cercava havia como um brilho-de ouro. nem tudo se tem presente. a terra parecia um bolo e o mar. senhor das chaves com as quais deverás aibrir e fechar as portas de Araboth e fazer tudo mais que te for ordenado. Mas decorridas mais duas horas duplas.da águia. e vê como a terra e o mar mudaram!» A terra era como um monte e o mar como a água de um rio. sem parar. estavam anjos segurando tábuas cheias de números e indicando com o dedo o caminho aos que se afastavam com fragor. acrescentou: “Não. mas princi­ palmente urna coisa. E sobre almofadas estavam estendidos animais. A terra e o mar desapareceram!» E tinham desaparecido mesmo. entre as garras da águia1 que. paira imim. Não é inada que eu não esperasse. levando ais mãos aos olhos e procuraindonos corn o olhar. e esta era a terrível alegria que me enchia o coração. Ficarás diainte do Palácio. passadas duas horas duplas. à altura suprema. porque não lhes era permitido girar por ali. o céu estrelado.” Ouvi Aza dizer a Azael: “Farejei-lhes a vinda a sessenta' e cinco milhas. e vê como a terra e o rnair mudaram!» A terra era como um arbusto e o mar. mas os pés eram. o céu enevoado.” E ambos voaram atarás de nós. repara. a águia voltou a dizer-me: «Olha para baiixo. emudeciam e baixavam os olhos. porque sobre as ilhas húmidas estavam já alguns filhos do Céu e ainjos das legiões. a águia. porque sou o anjo dos raios e é-me concedida a palavra. meu aimigo. porque em volta de nós moviam-se os luzeiros e os planetas mara­ vilhosos na música dos seus números. de cristal transparente como gelo. Azael selou os lábios com o dedo. — Obrigado. não. redondos. As pernas eram direitas. imagina. porém. Lá está o carro e está o trono da Magnificência que doravante servirás todos os dias. Apesar da minha alegria. eu voo com eles até à presença do Ümico e ousarei falar. Gritavam uns paira os outros: “Louvada seja a magnificência de Deus no Seu lugar!” Mas quando nós passávamos diainte deles. de deixar. a águia ia subindo comigo.” Eu disse: “Se sou eleito e escolhido entre os mortais. uim aio lado do outro. com as ameias ocupadas por guerreiros das altas regiões. Depois de outras duas horas duplas. mos tornou a mostrar. — Era afastado de vós. ao zimbório supremo no centro do Grande Palá­ cio.

guiando-nos e seguindo-nos. sobre o qual estava consitruído um palácio com luz de safira. «Não sei o número das horas duplas. Sentado na luz de saifdra sobtre o seu trono — respondeu José —. porque assim convém. e eu ouvia-lhes o tumultuoso bater de asas como se fosse o possainte escaichoar das águas. — Era o Pai do Muindo— acudiu José — e caí com o rosto no chão. A barba e os cabelos que lhe pen­ diam das têmporas cintilavam aos lados.» Ouviu-se então. como que um rumor. fazendome chorar. no sonho. «Ao meio havia um monte. tanto nia altura como nas pinas. filho de homem. Dar-te-ei as chaves e o podeir de abrires e fechares o meu Araboth. Ouvi então um dizer-me: «Tu. que eu ouvira falar entre si. E tudo.agarrado e agora me levava pela mão era forte. «E. um capacete redondo. O que me havia. Nas salas. O ar ressoava com os gritos dos que estavam sob as colunas e das legiões que circundavam o trono: “Santo. Lá reinava o Príncipe Supremo que tem por nome “Quem é como Deus?” e. cobrindo o rosto com duas asas. E Aza disse: “Senhor de todos os mundos. põe-te de pé! Daqui por diante estarás diante do -meu trono como Metraton e fâmulo de Deus.de seres alados que nos acompanhavam. Olhos castanhos e não muito grandes. levantei os olhos: vi um rebrilhar de armas e asas aité ao infinito. refulgente de pedras ígneas. com pompa sacerdotal. ■ Logo dão um passo à frente Aza e Azael. and'ava nu até à cintura. guardas e regentes. encaminhan­ do-nos para o trono da glória.?! — Vi. Quaindo entrámos na sala das colunas do centro. mas brilhantes. quem é este.» — José — bradou Benjamim—. Fomos passando por entre eles. formado como um homem. porque o Senhor favorece-te com a Sua complacência. mas também espreitava por entre os dedos. quando pousámos o pé no solo. Benjamim! Eu vi os sete pórticos de Zebul cons­ truídos em fogo. e as palavras trovejaram quando respondeu: “Que 75 . e sobre o rosto corriam sulcos profundos e bons. para vir até às regiões superiores e servir como nós?” E Azael. Bra um solo luminoso e macio e proporcionou à planta dos meus pés um bem-estar tal que me penetrou até aos olhos. em familiar majestade. porque me fizeram avançar no sentido longitudinal. viste a Face Única.o meu lado. uma mul­ tidão de mensageiros. quaitro delas juntas sem poderem desviair-se. acrescentou: “Não inasceu ele de sémen humano e não pertence à raça dos que beibem a injustiça como a água?» Vi o rosto do Senhor turvar-se. Vi girar rodas imanes. Caminhavam à nossa frente e atrás de nós os filhos da luz.” Taipei então a cara com as mãos. ofe­ recia sacrifícios dte fogo. inem posso dizer o total das milhas ao atingirmos as allituras de Araboth e o sétimo céu. As pinas das quatro rodas estavam cheias de olhos. Sob os: olhos motava-se um quê de brandura e fadiga. estavam postados 74 querubins com seis asas e inteiramente cobertos de olhos. escandecentes como turquesas. entoando hosanas em voz altíssima e cantando lou­ vores à guerra. «Acredita. Na cabeça. a Terra está cheia da Sua glória!” A tuirba à roda do trono era uima. Sete altares de fogo estavam lá erigidos. Ali entrá­ mos precedidos e seguidos de grande cortejo. infinidade de serafins que cobriam os pés com duas asas e com outras duas o rosto. como para abafar as palavras. santo. não sei por quanto tempo. As ponitas das asas chegavam-lhe aos calca­ nhares. por airnor de Deus. por entre as miríades de anjos. O que me levara consigo dis­ se-me: “Esconde também o rosto. mas não virava a cabeça para. exércitos aos magotes acampados em redor das bandeiras. santo é o Deus Sabaoth. Tinha as pálpebras pesadas e o nariz carnudo. Serás comandante de todos os exércitos. — É — comentou Benjamim — como se eu estivesse vendo o nosso pai Jacob fixar os olhos em ti. e a boca vermelha abriat-se-lhe num sorriso quando eu erguia os olhos para ele. que me espiavam preocupados enquanto eu me aproximava.à minha volta flutuava como leite. fazendo subir colunas de fumo sobre o altar do holocausto. não se lihe podia avistar o fim nem o fundo. criado à semelhança do homem. à nossa frente ou atrás de nós. o sus­ surro retumbante de grandes exércitos. Uma roda engrenava-se na outra. irado. Havia lá sete exércitos die anjos. De um e outro lado das colunas e no meio de cada uma. ouro e rosas. usava braceletes e gargantilhas e uma espécie de saia dourada que lhe batia nos tornozelos. mas espreitavam através das penas.

que são maiores que todas as legiões e têm as suas funções diante do trono da Glória. E estás pálido. e faço-o grande e augusto. assim como os príncipes dos anjos. beleza e magnificência. trémulos. rodear de orgu­ lho os serafins. porque estai é infinita. percebo-o porque o escuro luzidio da tua cara. da Lua e dos planetas. quando muito. as minhas pupilas giravam como esferas ígneas. luas e anos tornei o maior de todos os seres. abençoaindoo com trezentas e ses­ senta e cinco mil bênçãos. que regem os destinos do mundo. levando as coisas ao extremo. deslumbrados. e depois os ainjos do fogo. no qual estavam bordados luzeiros de toda a espécie. Tu. porque ao lado dele estão os príncipes da sabedoria e da razão! É esta a voz que deve andar de céu em céu! Dai-me o mainito e a coroa!” «E o Senhor lançou sobre mim um manto magnífico. deveis guardá-la e segui-la. o príncipe interno. chaimando-me pelo meu título: Jahu. da procela. conservados nas alturas do Céu. quero elevá-lo a príncipe e soberano nas alturas celestes. Foi como se todos se curvassem ou se retirassem. também esses tremeram e. sobressai mais do que nunca. transplantei-o para um monte alto e sublime e fiz dele uma árvore debaixo da qual moram as árvores. ornar de gala as rodas. da noite. os pode­ rosos. do vento. Diainte dele corra uma voz. luz. Só sinto não poder fazer o lugar dde maior que o meu e a sua glória maior que a minha. Envolvi-o em roupagens esplêndidas. Colo­ quei-lhe na cabeça uma coroa pesada. da neve e da chuva. na minha incompreensibilidade. da raiva e da ira. o bater das minhas pálpebras emitia relâmpagos. do esplendor do meu trono. 76 «O Senhor levantou-se do trono e. que aqui está? 77 . Era ele quem me preparava todas as mainhãs o assento quando eu queria subir ao trono da glória e passar em revista todas as alturas do meu poder.sois vós para me virdes interromper? Concedo a. recuaram e inclinaram-se. por exemplo. e vestiu-mo. Mas o seu nome era: 0 Vequeno Deus!» «Depois desta proclamação ouviu-se o ribombar de um enorme trovão e todos os anjos caíram com a face em terra. de céu em céu: Atenção e coragem! Nomeei meu servo Henoch príncipe e potentado sobre todos os príncipes do meu Reino e sobre todos os filhos do Céu. dos outros poderosos e terríveis a quem cabe o título deus. diante de toda a corte celeste. a minha carne tornou-se uma labareda. ocultaram o rosto. consternados. neste pequeno. parece-me que também tremes um pouco. Depois pegou num aro com quarenta e nove pedras de indizível esplendor e colocou-mo na cabeça1. Ele exagerava. cobri-o com um manto cheio de soberba e fama. por amor da predilecção e da predestinação. e acordei. por onde costumas passar a navalha. de todos os tesouros da vida. Os querubins bateram as asas e todos os seres celestes gritaram: “Louvada seja ai magnificência de Deus!” «Mas o Rei levaintou ainda mais a voz e continuou: “Sobre este pouso a minha mão. — Dás-me vontade de rir — retorquiu José. o teu sonho é extraordinário. do dia. falou assim: “Havia no vale um teniro broto de oedro. o meu cabelo era uma chama ardente. Além disto. E ao que era o mais jovem em dias. os fortes. faz-me tremer o corpo todo. Terá uim assento semelhante ao meu e por cima um tapete todo esplen­ dor. do granizo. do raio. quem quero con­ ceder. — Querias que eu tremesse com o meu próprio sonho? — Com que então eras glorificado nas alturas eternas. Nomeei-o intendente de todas as preciosidades das salas do Araboth. da magnificência. o mesmo sussurro entre os exércitos. os meus membros tornaram-se asas de fogo. ficavas por lá e não pensavas mais nos teus. Coloco-o à entrada do sétimo céu e ele aí ficará porque quero que se destaque. vestir os querubins com trajos pomposos. à excepção. Na verdade. Qual­ quer palavra que ele vos disser em meu nome. com padeço-me de quem quero compadecer-me. as minhas veias e os meus ossos chisparam. segundo o nome do Rei.» — Ó José—-disse Benjamim—. «Todos os filhos do Céu. e ele compartilha da grandeza. Os anjos que tiverem alguma solicitação a fazer-me deverão primeiro apresentar-se diante dele e falar com ele. dar luz e brilho às flechas incendiárias. Mas enquanto o Senhor me elegia com tanto júbilo.” «De novo se ouviu o mesmo rumor. tamibém tinha o cargo de cingir com grinaildas a fronte dos animais sagrados. pref'erindoo a todos vós.

O Desejavam. E como de língua mostrara também ser desembaraçado. Que te não passe pela cabeça andares por aí a palrar do meu sonho com o pai. Mas. a ti. os irmãos e tu. A jornada levava cerca de quatro dias. com respeito a velocidade. pensa neste teu irmãozito. a escolha acabava por ser acertada porque ele.4 T Ú N I C A D E V Á R I A S C O R E S s filhos de Lia não vieram de Siquóm a Hébron paira os tra­ balhos da colheita. Tu. O papel de mensageiro pertenciarlhe logo por acordo geral. Por isso. No fundo. 78 4 O SONHADOR . meu José. a todos vós. mas com Neftali. pouco importava quem fosse. modi­ ficar as coisas. ficas prevenido. é que deves precaver-te mais ainda do que eu. peço-te em nome da nossa amizade! Para mim é fácil guardar segredo. Mas o pai havia de afli­ gir-se e ficar preocupado. O assunto interessava de perto os filhos das escravas. filho de Bala. se de cada lado da ailimária pendiam duas pernas mais ou menos compridas. Conto-te estas coisas por saber que és um rapazinho atinado e inteligente. Eu. estou certo. podes bem imaginar que eu estava um tanto confuso com todo aquele poder que me era conferido. ser-me-ia fácil. mas muito antes. Pois olha que a diferença nota-se bem. interrupções. a fim de ir contar aos outros o que exactamente se passava. acho justo o sonho e indigna-me que Aza e Azael tivessem vindo com. e não tinha muito tempo para pensar em quem ficara atrás. A escolha recaíra naturalmente sobre Neftali. — Esqueces fàcilmente a dife­ rença entre um petiz e um pateta. Mas pouco depois. e tão grave e assustador o consideravam que se tinham apressado a escolher uim dentre eles para fazer a viagem de Hébron em quatro dias. já se sabe. o que queriam era certificar-se no próprio local da veracidade de uma notícia alar­ mante que lhes chegara aos ouvidos e tentar. Benjamim. as mulheres. se fosse possível. Agora escuta. por mim. São uns vilões. diziam eles. por te fazer pagar caro. com uma palavra sequer. pelo menos no último momento. se te vier à ideia narrar com que júbiilo o Senhor te elegeu. ter-me-ia recordado de vós e mandar-vos-ia buscar para vos ver guin­ dados ao meu lado. nada te impede: foste tu que sonhaste e andas impressionado com a magnificência e o esplendor do teu sonho. o pai. pois Neftali ia de burro e. como é costume.. como estava previsto. em noite de Lua-cheia. 79 1 .— Apesar de toda a tua simplicidade. e os irmãos haviam de escarrar e cuspir em sinail de desaprovação e acabar. pois a minha gratidão pela tua confiança impede-me de ser linguareiro. com aquela predestinação. precipitadamente. Claro. com os plenos poderes que eu tinha. Ora essa! — exclamou Benjamim. o que viste e ouviste no teu sonho. o mais veiloz. parque eles poderiam interpretá-lo mal. roídos de inveja. Na realidade. Nem em sonho me passaria pela cabeça divuilgar. comer o cordeiro pascal e observar a Lua ma companhia do pai. o resultado era o mesmo. é que andava sempre associada a ideia de velocidade. e muito menos com os irmãos. na Primavera.

Fazia mau tempo. água potá­ vel e vinho de palmeira feito de tâmaras maceradas. Uma destas duas partes servia de depósito particular e de des­ pensa. O «cordeiro». Havia ali espalhados alforjes. a fim de se entregar às suas considerações e cogitações sobre o ser divino. A sua repulsa pelo sibaritismo dos habitantes da cidade não impedia que ele tivesse necessidade de algum conforto. quando se retirava do mundo para a tenda. o «filho da virgem» — ou qualquer outro título que o amoroso pai desse obstinadamente ao ledor de pedras—.havia de contar aos irmãos o que souibesse um pouco mais depressa do que qualquer outro. fazendo questão de dar às mulheres um alojamento próprio. desde a frente até ao fundo. esti­ cado sobre nove sólidos mourões e amarrado por fortes cordas a estacas fincadas no solo. Jacob. sobre o qual estavam estendidos tapetes de cores 90 \ ¥ . de pele de cabra. Isso não era novidade. Eis o que acontecera. A outra parte constituía a morada do aibençoado e. Tinham começado a cair as chuvas primaveris. cujo tecido de feltro preto. o viam usar e de que se sentiam privados. manteiga. selas de camelo. Mas à injustiça. o aposento era alcatifado a feltro. cordões de púrpura. com um significado decisivo que tinham razão para temer e que era para todos eles uma verdadeira bofetada. gulodices. Contudo. já eles se tinham entretanto habituado. Jacob tinha necessidade de conforto. Uma cortina pendente dos mourões centrais dividia a tenda em duas partes. em relação ao género de vida meio beduíno que ele levava. tapetes novos bem enrolados e dobrados e várias outras coisas. recebia sempre a ocultas dádivas especiais e delicadas atenções. Na parte da tarde Jacob retirara-se para a sua «casa de pêlo». pedras preciosas e propiciatórias. homem rico. lindas peças de louça de barro. com maus alhos. morava nela sozinho. lhe oferecia perfeito e seguro abrigo contra a humidade benéfica. Aberto na frente à altura de um homem. Era a maior tenda daquela colónia bastante dispersa. escaravelhos e objectos desses que os irmãos. Nas paredes e no tecto estavam pendurados odres com cereais. bastante cómoda. Mas que acontecera? Jacob tinha dado um presente a José. desta vez. era um presente doutra espécie. a uma injustiça de prin­ cípio e acentuada como que para lhes dar uma lição.

entalhada. preciosa e artística. por graça divina. ° v . às quais estavam amarradas as grossas cordas. a criadagem não dei­ xava faltar o azeite para que nem sequer se pudesse dizer que a lamparina de Jacob se tinha apagado. Ao fundo.j . A um canto estava o braseiro. de cujas aberturas à laia de janelas saíam. . Em cima da tampa lisa de uma arca de sicômoro. 81 . Jacob estava sentado com José em cima de almofadas perto da porta e diante de um tamborete com tampo de bronze lavrado sobre o qual estava aberto um tabuileiro de jogo. uma taça de ouro. Aqui e ali achavam-se uns banquinhos mais destinados a pousar objectos de uso do que a servirde assento. com agradável surpresa — pois estivera jogando com pouca atenção — acabou por batê-lo. Na partida. O vento brincava levemente com as argolas de madeira da tenda. adornada de textos escritos e descansando sobre pés altos. de proveniência fenícia. s . miesmo de dia. José deixava o pai ganhar. nuvens de fumo aromático de cinamomo. Em cima de um deles. estavam colocados uns jarros de pedra calcária com asa pintada. Este. Outro desses bancos sustentava um objecto que testemunhava a abastança do dono da casa. alguns dos quais serviam também de colgaiduras. mostrava uma figura de 'mulher que tangia e cantava. Aliás. A tampa de uma outra arca. em copiosas espirais. de modo que Jacob. resina de estoraque e de gálbano. apoiada num gracioso suporte. Lá fora caía ruidosamente sobre as oliveiras. pois seria mísero e indecoroso de um abençoado dormir na escuridão. Confessou a sua distrac6 . porque Jacob era friorento. Em cima de vários pratos decorados. cujas paredes eram revestidas de ornamentos de barro esmaltado a azul. havia lamparinas de barro — vasos baixos com bicos curtos para o pavio — que ardiam inin­ terruptamente. onde quer que se lhe tocasse com a mão. havia um pequeno defumador em forma de torre. era abaulada.2. via-se um leito de cedro com cobertas e almofadas e pés de metal. pondo-se assim em posição de inferioridade. Viera de propósito dar à casa do «mau olhado».alegres. Chamara o filho para esse entretenimento em que noutros tempos fora Raquel a sua adversária. devia comunicar ao trigo do vale a humidade precisa para suportar até à colheita o primeiro sol estivai. i . ardente. as moitas e as pedras a chuva que.

que assado é esse? E o cordeiro que imolamos expiará porventura só pelo rebanho? Que havíamos nós de imolar e comer. é a noite em que ele passa e perdoa em atenção ao holocausto. Só desgraças. Distraía-me com os meus pensamentos. e mais tarde muitas vezes. admitindo que o feliz desfecho da partida era devido mais à sorte do que à sua perícia. maldição. cometendo assim um erro grave. mesmo com os pensamentos a divagar. Por exemplo. tudo teria acaibado em tristeza e Labão não tor­ naria a ser fecundo com Adina. e em que nós. Se Labão tivesse entendido o Senhor e os tempos. porque o homem. se tivéssemos tão pouco tino como Labão? E que terá sido imolado e comido nos tempos imundos? Sabemos portanto o que fazemos festivamente quando comemos e. porque desde rapaz costu­ mava jogar com Yitzchak. Conitudo Laibão não teria empare­ dado o filho. quando convinha mantê-los de bom humor. não deveria tudo isto revolver-nos as vísceras. Se tu. mas não lhe ocorreu que José fizesse agora o mesmo. durante a noite. pai da minha amada. Ao Senhor repugna o que já teve a sua época e Ele quer superar connosco e já superou: rejeita-o e amaldiçoa-o. revejo-as no teu jogo e comovo-me. provo­ cando-nos vómitos? — Continuemos a proceder assim e a comer — disse despreocupadamente José com voz esganiçada e balançando. Labão procedeu segundo um uso que já tivera a sua época.ção. Esta ideia não me saía do pensamento. com o sangue do cabrito teria marcado o limiar da porta e as ombreiras. — É verdade — continuou — que hoje rnem sempre prestei aten­ ção. com Labão. dego­ lamos o cordeiro e ensopamos um molho de hissopo no sangue para com ele marcarmos as ombreiras das portas a fim de que o anjo da morte passe de largo. se esse sacrifício não tivesse trazido anteriormente a bênção a outros homens. Se soubesse. E esse também era um jogador de tenaz reflexão. em Naaraim. porque os meus pensamentos andavam longe daqui e com certeza cometi erros graves. com um braço arqueado para o lado e outro arqueado sobre o omibro. faz coisas sem saber o que faz. espreguiçando-se e inclinando a cabeça para trás. o meteu dentro de um cântaro e o enterrou nos caboucos da casa para a proteger. Nós apaziguamos-lhe os desejos e não só em relação aos rebanhos. ao passo que tu fizeste movimentos engenhosos e puseste tudo em campo para remediar a tua má sorte. depois do pôr do sol. que seria do teu filho se tivesse contra si toda a tua atenção? O assalto final viria num instante. meu filho — disse Jacob — eu tinha inevitavelmente de sucumbir. é bem possível que as entranhas se lhe revolvessem e o que está em baixo viria para cima. ganhaste. o sacrifício teria sido aceite e o fumo do holocausto subiria direito ao Céu. mas também tem sede de sangue humano. Com efeito. teu avô paterno. que tantas vezes me pôs em embaraços. Efectivamente. esquecendo a posição das peças. E se não tivesse eu levado um pouco de vida à casa e à admi­ nistração da casa. o anjo da morte não é ávido só de animais. A tua maneira de jogar lembra-me a da Mami. — Pelo que estás a contar — observou José que juntara as mãos na nuca— vejo bem como isso aconteceu. causando-lhe náuseas. se 82 reflectisse. paragem dos negó­ cios. consumindo tudo para que nada reste do assado na manlhã seguinte. Pensando bem. Mas supões que isto lhe trouxe a bênção? Não. o teu outro avô. — A minha experiência — disse Jacob sorrindo — é mais velha do que a tua e a minha escola foi melhor. como certas astúcias e armadilhas de que ela gostava. Tanto a sua tendência para morder o dedo mínimo enquanto reflec­ tia. antecipas o meu pensa­ mento e tiras-me a palavra da boca. com as mãos 83 . quando eu soube que Labão degolou um dia em Sinair sobre o Prath o filho primogénito para o oferecer em holocausto. -— O resultado foi-me desfa­ vorável. se reflec­ tíssemos. — Se não tivesses deposto as armas tão depressa. — De que serve tudo isso? — respondeu José. Tratava-se justamente da festa da noite do sacrifício que se está aproximando. O sangue nas ombreiras serve para o acalmar e indicar-lhe que o primogénito foi oferecido em sacrifício para substituir o homem e o animal que ele teria vontade de imolar. quando assinalamos as ombreiras das portas com o sangue do animal e realizamos o banquete do sacrifício a toda a pressa. — É como dizes — acudiu Jacob—. às vezes. Mais de uma vez Jacob deixara Yitzchak e Labão vencer. em vez do filho teria imolado um cahrito. paizinho. como já me tem sucedido.

Dei­ xemos passar o tempo. ou 85 . para que todos sintam as minhas preocupações e escutem os meus escrúpulos acerca da festa Pesach. quem é o anjo da morte e que significa a sua passagem? Na noite da festa. Deus se glorifique em nós com uma salvação e uima remissão. o assassino. nem evita os cuidados e a preocupa­ ção. o ponto culminante do seu caminho. e é caso para lhe rogar que se não deixe arrastar até à precipi­ tação. ou não esta­ remos a pecar contra eles. Vá aonde for. sobrevir outra que tu próprio depois contarias durante o banquete do assado: por exemplo. Porque são os astros que marcam a festa. que nessa noite fazem a troca. que seria muito apropriada. — Nós quase não pensamos nisso. através da passagem que é o ponto setentrional. que querem vencer connosco. a conservação de Isaac. Pergunto sèriamente a mim mesmo se o meu dever não será meter-me debaixo da árvore das instruções e convocar o povo. por amor das suas histórias. E faiaste a favor de uma ideia que existe e que persiste. E se a piedosa usança nos agrada. que já foram legado de Abraão e são o nosso. Dize-me lá. Por isso a manha alma te sorri. Desviam-se continua­ mente numa certa direcção. ó Josef-el. mas é assim. desagreguemo-nos também alegremente da imundície. — Evidentemente — conveio José. — A tua com­ paração tem graça e é bem imaginada! Isso porém não impede que continue a ser preciso meditar. — Foi essa preocupação — continuou Jacob — que me distraiu do jogo. a Lua e o Ver­ melho. filho meu? — Ah — retorquiu o jovem —. à sabedoria do meu senhor! Disseste que. apontando com a mão estendida para o interior da tenda como se visse aquilo de que estava falando — uma árvore com um tronco e uma copa esplêndidos. no escuro. os teus pensamentos andavam longe. Ela tirou-me o sossego. feliz de a sentir. ao passo que as raízes se prendem em baixo. plantada pelos pais para gozo dos vindouros. — Por onde vagueavam os teus pensamentos. Olha. e quando o ailcança não se volta ela na sua plenitude? Mas o ponto setentrionall é de Nergal. embala-se e não pensa nesta. Sin é Nergal. durante o jogo. é o «Vermelho». indo ele para o lugar dela. honra te seja feita. para nos desem­ baraçarmos daquilo que o Senhor quer sobrelevar connosco e talvez já tenha sobrelevado. e se são uma solução. Se o filho pudesse considerar-se na situação de uma pessoa a quem foi pedido o parecer. que passa e que nós queremos congraçar. fiquem as entranhas onde estão e não se revolvam. e então faremos delas a base da festa. o que eu resumo exactamente no termo «balsâmica». ao mesmo tempo que anediava a barba. deixajme beijar-te! — E do outro lado do tabuleiro. meu querido! — exclamou Jacob meneando a cabeça. Pois bem. e entoaremos hinos de alegria! Terá sido benéfica a palavra do estulto? — Balsâmica — replicou Jacob. rebento do mais delicado tronco. Durante a festa. — Muito discreta e reconfor­ tante. isto é. e o anjo da morte. mas aquela está com o Senhor para adém desta. Devemos nós atirar beijos aos astros e celebrar-lhes as histórias? Não deveremos antes afligir-nos pelo Senhor e pelos tempos e per­ guntar a nós próprios se realmente os compreendemos. a meu ver. à destruição. não segue a Lua. cheia e bela. A elas talvez pudesse. a não a alterar com demasiado zelo. pode ser que. Falaste da usança e ao mesmo tempo do futuro. agarrando-a toda junto às faces e passando-a pela concavidade da mão. ao lado do taibuleiro que mostrava a sua derrota —. no colóquio. — O meu paizinho— disse Joisé inclinaindo-se para a frente e pousando a mão na do velho. — Pudesse eu ao menos saber — disse José — donde me vem nesta hora a inteligência e o medíocre engenho para corresponder. os vamos retendo junto à imundície. Jacob tomou entre as mãos a formosa cabeça de José e beijou-a. — Querido. superou-a. para ser franco.juntas atrás do pescoço. — A usança e o assado têm bom sabor. fàcilmente o adivinhas! Faz-me comichão na orelha. uma palavra que o paizinho me disse à beira do poço. Saberá a rama viçosa o que se passa com a raiz lamacenta? Não. dia e noite. É o que. o meu paizinho tem uma alma excessivamente justa. aconselhava o pai a poupar a festa. um dia. e os Eloim sabem como foi que pude resistir tanto tempo. uma vez que. está a)li uma árvore — exclamou. se dá com a usança e a imundície. à pedra e ao pó do terreno. A noite é dele e para ele a governa Sin. com o tempo. compreendendo o Senhor e os tempos. aferrados como estamos 84 a este nosso costume apático. As ramadas agitam-se bri­ lhando ao vento. Não se sabe. a preocupação. os meus também não andavam perto.

que passeava os olhos por toda a tenda em busca da arca. Então. Dizem que noutros tempos pertenceu à filha de um rei e parece que foi o pano da virgindade da filha de um príncipe.. o diabo. Palavras lançadas ao vento.. Jacob corou e José viu. que guardavas para mim. que te havia de dar um adorno.esteja onde estiver. quebrando os pulvurentos ferroihos e enganando Labão. — Que coisa? Não era nada — disse ele. ou não. porque é precioso. sem importância. e não esta ou aquela. dando um salto e abraçando o pai. e os olhos turvaram-se-lhe em suave confusão. nada — atalhou José. que era? «Tenho a intenção». a curiosidade atormenta-me.. — Não me sacudas e não me puxes as orelhas. disseste. É uma túnica que todos podem vestir e que chega até aos tornozelos. — Que te disse eu e que promessa te fiz? — Oh. Mas quando ofereci a flor à esposa e soergui o véu para a ver com as minhas mãos videntes. do vestido dela queres. esplêndida. que era de uma magnificência única.» Isto disseste tu. — E o senhor quer da.. Não te pre­ senteio eu com um objeoto ou outro. Senta-te aí no chão! Ouviste falar na ketonet passim de Raquel? — Uma peça de vestuário da Mami? Talvez um vestido de festa? Ah. Comprei. perguntou: — Está aqui perto? — Não está muito longe. compreendo. A Mami? Sim. Jeosif! Não compreendes. «de te dar uma coisa com que se alegrará o teu coração e que te ficairá muito bem.. Deixa que te explique. E porque não? Digo-te. e não uma coisa qualquer. passo adiante. no momento azado. Escuta. — Este velho bom e prudente não lança vãs palavras ao vento. Foi um rubor leve que lhe assomou às faces. mas que tinhas em mira uma determinada coisa. Ela deve envolver a cabeça nesse véu e ser como uma das Enitu e como uma esposa celeste no leito nupcial da torre de Etemenanki». como ma destinaste e prometeste. E nisto não mentia. oh. Quem não perderia a cabeça e não se enganaria em tais circunstâncias? Por isso. finas na sua magreza de velho. é um esplendor. Dobrou-a e meteu-a devotadamente dentro da arca quando nos fomos embora. o que é de crer. Especial. de modo que eu só fui feliz segundo o meu con­ ceito e não na realidade. Não terei o direito de saber o que me está reservado? Parece-te possível que eu tenha sossego e que te deixe em paz enquanto o não souber? — Olha que me empurras e me apertais! —queixou-se o velho. palavra por palavra. — Nada. Ficou-me tudo gravado na memória. Cada qual pode usá-la conforme o seu gosto e a sua beleza. a um mercador ambulante. — O menino imagina inutilmente.» — A Mami também usou esse pano? — Não é um pano. bem sabes! Vejo nos teus olhos que o sabes. podes saber. ela usou-a e guardou-a. coloquei bem dobrado o santo em cima de uma cadeira que lá estava e disse à esposa o seguinte: «Vamos deixá-lo como herança de geração em geração. esquivando-se. Labão disse-me: «Quero presentear a noiva com um véu para que ela se cubra e se consagre a Nana e seja sagrada. — Escuta. e assim como Labão o teve cuidadosamente guardado na arca durante muito tempo. Isso seria novidade. Foi mais ou menos assim que me falou o diabo. um véu para os olhos e guardo-o na arca. Como se eu não tivesse visto muito bem que não falavas no ar. Tem mangas para se enfiar os braços. pois Raquel recebeu o véu.r-mo de presente? 87 . quando o coração mo dita? Era só o que eu queria dizer. para que o usem as predilectas. sabe-se lá o quê. Uma coisa particular. Tinhas a intenção. mesmo assim. no seu desespero. o mesmo fizemos nós. porque se trata de uma promessa. disseste-me. há muito tempo. Não só a guardaste para mim. quando nos sentámos para o banquete nupcial e beijei a imagem de Istar. A que coisa se referia o paizinho? A promessa não me sai do pensamento. sem uma intenção firme. José. era Lia que o diabo astutamente fizera entrar no tálamo da boda. pode alguém pensar que estás zombando comigo! Saber. pela arte com que está feito e por ser todo recamado de símbolos dos ídolos.. Depois de eu ter servido sete anos por causa de Raquel e chegar o dia em que ela devia ser minha diante do Senhor.. Mas na suposta felicidade. Esse véu acompanhou-nos sempre. confesso-te que eu tinha uma certa coisa na ideia..

— Mas que ainda não possuo. deuses. no bazar de Hébron. homens e animais. Assenta-te sobre as pernas. — Sê razoável. uma claridade demasiado viva sobre a calma cintilação das cores: cor de púrpura. em pilha. pois. que animais! São os amantes da deusa.' Então o mercador torna a guardá-lo. demónio. rosa e preto dos sinais e das imagens das estrelas. gritando. e revoltar-se. Olha. de escolha. Fica aí onde estás. Tem juízo! — Pois não hei-de ver o que é meu e me foi prometido? Vamos então fazer o seguinte: Eu encolho-me aqui. com as mãos atrás das costas. Eu fio-me nos meus ouvidos. o deve usar? — Deixa-me. Se eu te pusesse essa túnica. espera! Sabaoth. — Contra ti? — perguntou José cheio de espanto. o mercador exibe a mercadoria e desenrola o tecido ante os olhos 88 t . de perto como tudo é mais bonito 89 . correu o fecho e levantou a tampa. lobo e o pássaro de cores variegadas! Deixa-me ver! Oh.. Temos de aguairdar a/té ver um sinal que nos esclareça. porque tendo caído e sido amaldiçoado o primogé­ nito de Lia. os irmãos poderiam interpre­ tar mail o facto. Vai-te e não me adules. ainda o Senhor me não decidiu por ti no meu coração. Tudo isto é contestável e pouco claro. Espera. O teu irmão Rúben cometeu uma falta grave e fui obrigado a privá-lo do direito de primogenitura. camisas. na névoa azulada do fundo do tecido. as coisas estão ainda no ar: com referência a esse véu. mantilhas. com as mãos atrás das costas. Os pobres olhos do teu filho estão ardendo com o esforço que faz para ver da dis­ tância que nos separa. Verás aquilo que talvez. Pegas nele e vais estendê-lo diante de ti como. tomá-lo como significação de bênção. e estendeu-o diante de si. em nome do Senhor — concordou Jacob—. não me parece que seja. mercador. — Estou em crer que não posso fiar-me nos meus ouvidos. foi-o desdobrando. e por ora contenta-te com a promessa. Encontrou o véu onde já esperava encontrá-lo. que estás mostrando ao freguês no teu bazar? Aquele é Gilgames com o leão no braço. segue-se o primogénito de Raquel. Tu vais e mostras-me o trajo de gala. alguém luta com um grifo e agita a clava. mantas e cobertas. dadas certas circunstâncias. como é natural. Especialmente quando é o meu paizinho que fala. Oh. aventais. meu filho. Os bordados metálicos tremeluziam à luz da candeia. se bem que. Jacob dirigiu-se à arca abaulada. Dito isto. que são novos e apurados. não me mexo do meu lugar. a ketonet passim de sua mãe!» Mas não. — Aquilo que já é meu! — emendou José. levantar a voz e dizer-lhes: ((Concedo a quem quero conceder e compadeço-me de quem me quero compadecer!? Quem sois vós para vos opordes a mim? De preferência a todos vós. reconheço-o de longe! E ali. — Luzeiros celestes! — exclamou José. pomibas. na tua opinião. cavalo. deixa! Aquele. contra ti e contra mim. Mas o freguês é pobre e não pode comprá-lo. Não és o pai e o senhor? Não podes. árvores. Mas é querer possuir. Poder-se-ia responder: Sim. — Seja. — Que beleza! Paizinho mercador. entire os braços inquietos do velho. que estavam em cima e em baixo. dei­ xando cair tudo no chão. porque depois de Rúben nasceu Judá e vieram Levi e Simeão. — Ver? Ver não é possuir. virou-se. Lampejos de ouro e prata expediam aqui e ali. amarrado. vou aproximar-me deslizando sobre as pernas. pegou nele. O rapaz contemplava. pelo que vejo. para que a tua insensatez não passe de ti para mim! — Pai. Respirava forte com a boca aberta e risonha.— Destinei-o ao meu filho — Destinou-o e prometeu! — Só para mais tarde! Não para já! — disse Jacob. fumosos. branco. no caso de eles muranurarem. um dia será teu. Eloim. Espera. quero revestir este com o manto. conquanto aos outros possa parecer que fazes de mim o que queres. dobrado. embevecido. para que eu te dê a primogenitura e a ketonet? Poder-se-ia responder: Não. 1 ávidos do freguês. não o distingo. Uma vez disseste à esposa: «O véu será usado pelos primogénitos. assim. verde-oliva. Será o casal homem-escorpião com a caudazinha espinhosa? Não estou certo. Tirou de lá alguns panos pesados. morcego. não o reconheço. eu queria vê-lo. dobra a dobra. esfregou os olhos com os nós dos dedos e preparou-se para ver. os meus olhos lacrimejem um pouco. presto a máxima atenção. inquieto. Deverás tu tomar o lugar dele. anjos.» Ou não foi assim? Quem.

é por causa do meu vestido. o meu Ben. — Ah.. — Jacob deu-te como herança o véu de várias cores no qual recebeu pela primeira vez Lia.. e já com três ou quatro movimentos seguros a estava experi­ mentando de maneira desenvolta e airosa. não estava só. Mercador. Já Turturra deixara escapar vários gritos de admiração. filho da verdadeira! — exclamou Zelfa. minha ama? Procedeu com justiça e acerto. A longa ondulação fazia até com que ele parecesse mais alto que de costume. pois essa veste vai tão bem ao teu semblante que enternece e não se pode pensar que outra pessoa o use. José dava muitas vezes a Benjamim esse nome babilónico de carinho. Dá-mo! Tens tanta mercadoria. Encontrava-se no alojamento das concubinas. fizera passar a veste das mãos do velho para as suas. E erguendo a cabeça e as mãos. apesar de toda a tua severidade. para que eu o mostre a todos. a quem Jacob o soergueu pela primeira vez? 91 . A túnica cobria4he a cabeça. envolvia-lhe os ombros. nunca ressaltara tanto como agora. Um dos ausentes. E a Jacob. Na verdade.. Ele trazia a veste com simplicidade. daqui por diante passarei a usá-lo de vez em quando.. no dia da boda. Este.. o Sol. com uma subtileza e uma graça que convém reconhecer. que entrou na tenda e disse: — Eu vos saudo! Entrei por acaso. a deusa-mãe. Como fica ao filho? Naturalmente. a Lua. arregalando uns olhos do tamanho da roda de um canro. doce senhor. com a túnica de várias cores. porém. gostarias que eu o pusesse? Não. Estais cardando linho? E Turturra ajuda-vos no que lhe é possível? Algum de vós sabe onde está o velho Eliezer? «Turturra» queria dizer pequerrucho. com todo o cuidado. cujos 90 olhos se enchiam de lágrimas.. Bala e Zelfa secundavam-no.. Mais alto? Ainda se fosse só isso! Mas o fastoso véu ficavajlhe tão bem ao rosto que seria difícil achar ainda alguém na parte adversa que se atrevesse a criticar a fama de beleza que ele ganhara. E o pior era que a sua parecença com a mãe. não o posso comprar. que per­ guntava: — Vesti a minha túnica. na fronte. Só se podia logicamente esperar esse efeito. Diante dele estava sorridente. Israel fez-me presente dele. os lábios mo­ veram-se-lhe numa prece. Devo despi-la? — Não. com ele no corpo. 0V E L O Z A sensação foi enorme. descia-lhe ao longo do corpo em pregas esvoaçantes. não vejo a parte de cima: a tamareira da qual uma deusa estende os braços com comida e bebida. soerguê-lo com a mão. Sim. na forma da boca. foi Benjamim. Deixa-me ficar com o véu! Sê bom de verdade. no rapaz. Há muito que deves estar cansado. talvez um dos filhos de Lia. sim.. vacilas apenas por estares aí há tansto tempo a segurá-lo e a desdobrá-lo. fica com ela. nas sobrancelhas. E que está ali escrito? «Despi o meu vestido. empresta-mo. parecia um deus.. — Que estais para aí a gralhar? — perguntou. Dá-mo cá! Como é que a gente o usa e se envolve nele? Assim e assim? E talvez também assim? Que tal? Não sou mesmo um pássaro de pastores com plumagem multicor? O véu da Mami. já não se afigurava ver senão Raquel na sala de Labão. ei-lo. nas quads cintilavam as pombas de prata e fla­ mejavam os bordados de várias cores. mercador.. Mal José. Um legado que recebi há momentos.. com certeza? Ou vacilas? Vacilas um poucochinho porque. espero. Salve! Quero só ver como estais e o que fazeis. arregaçada e passada pelo cinto do seu trajo habitual. eu sou pobre. O primeiro a quem José apareceu ves­ tido com o véu. Aí foi procurá-lo o adornado.. — Josef-el. Não? Não. e o secreto desejo de o produzir não aumentara a resis­ tência de Jacob. enquanto se ia embora o deus.e como tudo sobressai mais! Que fazem ao pé da árvore aqueles espíritos barbudos? Fecundam-na.. devo tonnar a pô-lo?» Admirável! Semipre Nana com a pomba. Tenho que me pôr de pé! Preciso de me levantar. estará por aí o meu querido irmão? Ah.. fica!—respondeu o pai. Posso tocar? Não custará nada. Ó mulheres. tornava-o tão belo que quase não parecia um ser humano. o véu-ketonet dai Mami. engano-me. para glória do teu bazar. no olhar.. para ver como é pesado e leve ao mesmo tempo. para ver como é leve e pesado quaindo alguém o tacteia.

como também é um meio indispensável para a conservação de si próprio. A indiferença pela vida interior de cada um e a consequente ignorância criam a desproporção com a realidade. porque no véu estão a vida e a morte. convencido de que a ele só podiam tocar doçuras. foi certa vez retirar Rebeca do mundo ínfero de Charran para conduzir a esposa a casa do amo e como. velou-se de novo como sinal de vida. mas logo que voltou à luz. mas José não percebeu a exasperada amargura e a perfídia contidas nas palavras das mulheres. Destas normas. senão suficiente . E para quê? Para que Isaac a reconhecesse. quase irmã. a gente sente-se tentada a prostrar-se a teus pés. apressa-te. para que eu possa continuar a admirar-te e saciar-me de te contemplar! Nestas expansões podia José acreditar. para não ir procurá-los com o famoso traje no corpo. produzem cegueira. Afigura-se-me que o Senhor te envolveu numa veste magnífica. não vás por enquanto mostrar-te aos filhos de Zelfa! Fica aqui. pois esta 95 . na qual estão recamados luzeiros de toda a espécie. se estou sonhando. daria prova de grande fraqueza. — Josef! Já belíssimo! — exclamou Baía. tornavam-no surdo e insensível àquelas advertências. Foram estas as suas expansões: — Jeosif. ou quase. Eliezer. apesar de as palavras serem sinceras. gerei para ela Dam e Neftali. e não sabem ainda que o senhor te elegeu! Devias também ir por aí fora e mostrar-te aos de olhos vermelhos. a foice está perto da espiga. De facto. mas a morte está na vida e a vida está na morte — quem sabe isto.perspicácia. que cresce na Lua negra como vida nova. que pela força de Jacob. a irreflexão justificava-se. ao chegar ao mundo súpero e ao acercar-se do marido. teus irmãos mais velhos. Aliás. É quase inverosímil o que vamos dizer. O facto de ter satisfeito o seu desejo e a sua cega con­ fiança. mostra-te a eles. Não devemos andar longe da verdade dizendo que das palavras de Benjamim ressumava uma prudente angústia em relação ao encontro com os irmãos e o desejo de. pôs-se a desfiar todas as reminiscências que o véu lhe despertava. como poderia reconhecê-la e levantar#ie o véu se ela antes não se tivesse coberto com ele? «Grande dádiva. retardar um pouco esse encontro. não só é louvável por levar de vencida as fronteiras do eu. Deleitou-se com o tom melífiluo das falas. disse ele com o rosto tão imóvel como uma máscara. é iniciado. que eu sou. achasse perdoável seme­ lhante leviandade. pueril embora culpável. irmão celestial! Não sei se estou acordado. o que tanto podia significar aplauso como meditação sobre o destino. pelo menos. desde que um passou a ser dois. com o semblante mais divinamente inexpressivo. ao pé do teu verdadeiro irmão. persuadia-o. Quem. — Não há nada como contemplaste com esse adorno! Ao ver-te. Exceptuando umas pessoas mais humildes. está deslumbrado! Não vás tetr ainda com os filhos de Bala. podia tirar ddas uma advertência. 92 O caso de Benjamim era diferente. escrava predilecta. A força de imaginação e arte de adivinhar os sentimentos de outrem. porque eram sinceras. Mas. este pequeno. não houve homem que não quisesse meter-se na pele do próximo e conhecer a sua verdadeira posição. Mas precisa­ mente tudo isso era culpável.Ou o meu Gad ou o Aser. Aqui. e que lançou sobre o teu corpo um manto cheio de altivez e de glória! Ah. Recor­ dou como «ele». Eles também cairão com o rosto em terra. como eu o fui de tua mãe Raquel. excepcionalmente. de que todos o amavam ainda mais do que a eles mesmos e por isso não precisava de ter para com os outros a menor consi­ deração. porém. procurando vê-la mesmo com ollhos alheios. pelos seus bonitos olhos. Desde os dias de Adão e Eva. A cega confiança que tinha em si era como a de uma criança mimada. meu filho». sem ter o mínimo cuidado de olhar para o íntimo das louvaminheiras. para ouvires os gritos de regozijo e chegarem aos teus ouvidos o seu hosana. instinto bastante para não aparecer logo diante dos filhos das servas. que nem sequer pressentem o que se passa. gerados por mim no regaço de Lia? Só de imaginar isto acode aos lábios um sorriso sardónico de tristeza. A irmã-esposa-mãe teve de tirar o véu e despir-se na sétima porta do Inferno e na morte. quando virem o menino no trajo de festa de sua mãe. que parecia não querer pairar de sacudir a cabeçai. Depois disso. não pensam no mal nem no bem. José nada sabia. Evidentemente. apesar de o contrário ser evidente. Vai. aos seis filhos de Lia. grande dádiva te fez Israel. nesse dia só o viu Eliezer. ela pegou no véu e se cobriu. Vê a semente do trigo: quando cai na terra morre para ressurgir na colheita. especialmente quando se é apenas uma escrava. José teve.

eu lance sobre ele um insulto de desagravo: «Cãozinho»! la dizer «cão». abracemo-nos na nossa mortificação e permiti que. a idade de Simeão. Cosera à túnica uns pequenos escudos. Mas que se dirá do que está aqui deitado a dormir? É um monstro! Dá-se ares de rapaz amável. chamam-me serpente. Não se dão bofetões numa pessoa que dorme: não sei onde isto está escrito. que tinha apenas vinte e dois anos. Gad e Aseir. semente. porque passo por ser um tanto malicioso. Unamo-nos. — Os meus agradeci­ mentos. o mais novo. que ao iado de Abraão desbara­ taste os reis e a cujo encontro saltou a terra! Falas de modo impres­ sionante de todas estas coisas. Neftali. e logo após há em tudo isso o conhecimento e a morte. ele agora vai despir a veste. deitar-se no banco e cobrir-se com ela para dormitar. esse homem piedoso e crédulo. segurava uma candeia acima dele para que vissem o rosto do que dormia e a túnica de várias cores que o recobria. Ou melhor. que já contava vinte e sete anos. filho de Lia (usava uma camisa bordada e justa. faltou-lhe a coragem e adoçou a palavra para o diminutivo. E disse ainda: — Cortei então nacos de carne dos animais vivos. em nome de todos. é coisa certa. meu filho. esbofeiteio-o. porém. mas na realidade é um dragão. os filhos das servas. Grande dádiva te fez teu pai porque te envolveu no véu que tua mãe devia deixar na morte. quando che­ garam à tenda que José partilhava com eles. Dan. estão bordadas no véu da multipli­ cidade. cuspo em cima do dorminhoco para que. a respeito de nós todos. porque no conhecimento está de novo a procriação e a vida. pobre homem. e da foice-colheita roda a semente da morte e da vida. pouco afastados um do outro. o guloso Aser.. tinha cara de moço rudemente leal. um ano mais velho do que Aser. pretendia com o seu gesto de desprezo esforçar 94 também a opinião comum. E assim o acharam. víbora. pelo menos. Aser. Gadiel disse: — Aconselho-te. Isto estava em estreita relação com a gulodice. como estais vendo! — disse. e comi-os! Foi o que ele contou ao pai. as patranhas que lhe apeteceu. véu. e o véu sob o qual está deitado é o galardão da sua falsidade e da má fama que nos criou. a teres cuidado com a candeia. irmãos. com cara de santarrão. Estavam os qua/tro ao pé da cama. ficavam-lhe quase à raiz do nariz curvo). Este último. Na verdade. porque estas coisas estão estreitamente ligadas e são uma só em Deus. como prémio da mentira! É assim mesmo: nas nossas costas. Que escân­ dalo! É abominável! Estamos indignados e eu. de modo que. imediatamente inteirados pelas mães. Guarda-o portanto. no mesmo instante sente a minha mão no focinho e de tal maneira que as bochechas lhe 95 . E assim fez. deu-lha. e os olhos penetrantes. deixando encantado o nosso pai! Pudesse eu conhecer um esconjuro que o forçasse a mostrar a verdadeira carantonha! O robusto Gadiel. o bonifrate surripiou-lha com failinhas doces. — Na verdade. Eliezer — resipondeu José. mas no último momento. para que ninguém to leve e a morte não te conheça! — Obrigado. impin­ giu ao velho. com a minha rectidão. eu.. porque se deixas cair sobre ele uma gota de azeite fervente e o despertas. coitado. mas barba em bico. — Ei-lo aqui. e com razão. Esse Aser jactava-se de compartilhar os sentimentos e pensa­ mentos dos irmãos e de reforçar com a palavra o perfeito entendi­ mento existente entre os quatro. em nome de todos. Assim no véu está a vida depois da desnudação na morte. E Jacob presenteou-o com a ketonet. Não há dúvida. fazendo-se porta-voz da indignação geral.—É tal qual. por atenção a Jacob. não tinha bigode.já é a morte que castra o pai para um novo domínio do mundo. dos car­ neiros e das ovelhas. ó sábio primeiro servo. As mulheres não disseram nem uma palavra a mais quando nos anun­ ciaram que o pisa-flores lhes aparecera com a ketonet-passim da mãe! Agora estendeu-a por cima dele e dorme o sono do justo. —disse Dan. Maldito seja o impostor que põe toda a gente de boca aberta e a requebrar-se. e das mangas curtas saíam uns braços vermelhos e nervudos com mãos igualmente nervudas e sapudas. como a Terra debaixo do véu dos mundos astrais. e a curta túnica com um talabarte escamoso dava-lhe um ar mar­ cial. só sei que não se faz. foice. tenha maus sonhos. Mas se ele acorda. os seus olhos húmidos e os seus húmidos lábios. Diante de nós. O pai. dormindo debaixo do véu. No que diz respeito ao rapaz. Usiava uma carapuça de forma cónica.

põe-me fora de mim. «domínio do mundo». o fedelho. que já desde bastante tempo dava com os pés sinais de impaciência. e a solução seria esbofeteá-lo. provocando-lhe esticões violentos nas pantorrilhas que o faziam espernear. obcecava-o. o presumido. isto é. «servidão de irmãos» que. mas não sei o que me diz o coração. O honesto Gad dizia coisas muito mais profundas do que Aser se esforçara por dizer. que aviso me vem cá das entranhas. o salta-pocinhas. «troca». Somos aqui quatro irmãos e ali. Neftali considerava-o como o seu mais pertinaz inimigo e via na siua própria pessoa o meio mais adequado para o vencer. haviam criado precisamente a pala­ vra «curvar». para diminuir as diferenças de tempo com que os indivíduos eram informados.incharão durante nove dias. Eu não sou cobarde. de dorso um tanto curvado. «Curvar-se-ão diante de ti. deitado. «engano». especialmente o comprido Neftali. para preocupações. O espaço. como se um espí­ rito maldito mo tivesse teimosamente cochichado ao ouvido. agitava-o violentamente desde o começo. Quando sucedia qualquer 96 . pda sua natureza separadora. está o velhaco. procurando palavras-fantasmas para obscuras recordações.» Os outros sentiam-se forte e sinistramente arrastados pelas pala­ vras de Gad. para ameaças que suscitassem os conceitos de «primogenitura». a partir de amanhã. a sua necessidade de levar novidades e informações. vê-lo a dormir debaixo da túnica que teve a desfaçatez de subtrair ao pai. por trás da simplória indignação e da inveja. Sinto cócegas nas mãos. Queria ailudir ao que. o tal que entorta os oihos e que tem a veste. como se tivesse uma bola de farinha na boca. O seu instinto de mensageiro. no intuito de condensar os sentimentos gerais e de fortalecer os vínculos comuns. mais os afligia e atormentava. Gad era mais duro. Mas Aser visava apenas granjear amor e estabelecer uma sólida união com a fácil expressão do que era mais simples e mais acessível à consciência. lenda ou anunciação. desse «curvar-nos». porque só assim se acalma a minha ira. Neftali comoveu-se de modo especial porque as pala­ vras aguçaram nele o desejo de abalar e correr. Tão certo como eu chamar-me Gad. Põe-me furioso. fossem passado ou presente. Acaso deveremos curvar-nos perante ele? Não consigo livrar-me do termo.

que ele sentia logo a necessidade de remediar com a rapi­ dez das suas pernas e o seu desembaraço de língua. quando prontamente o deviam saber. irmãos. associava imediatamente o acontecimento a outro lugar distante no quail ainda se não sabia de nada. sendo possível. justamente no dia de lua-cheia estaivam todos em Hébron com o mensageiro — Rúben. mandai-me! Quero abalar e dar-lhes a notícia. os de olhos vermelhos estão em Siquém. eles ainda não sabiam de nada. ignoram. escutai. Talvez a eles o caso ainda interessasse mais do que aos quatro.-2. é da distância? Não. Neftali foi encarregado de fazer a viagem. Neftali quase não dormiu de impaciência e selou o burro antes do amanhe­ cer. para que lá seja como cá e eles não vivam como se nada houvesse. Neftali já estava a correr. — Escutai. Os de olhos vermelhos deviam ser infonmados. a fim de nivelar a informação dos indivíduos. além de. Nove dias depois. falando disto e daquilo. a culpa não é nossa. 97 .coisa no lugar em que ele se encontrava. Judá. em pensamento. 1. S. Em virtude do intolerável efeito do espaço.° V. para iluminar as trevas em que se acham e fazê-los gritar bem alto. Diriam ao pai que o veloz tivera de partir por causa de um assunto urgente. Issacar e Zabulon — dirigindo sombriamente em redor de si òlhares indagadores. Será justo que nos aproveitemos desta vantagem dizendo: Eles estão longe. já ele ia longe e a informação se aproximava dos ausentes. Na sua alma. Mas.J. É preciso informá-los. Quando José acordou sob a veste dos mundos. vierarlhe logo ao pensamento — e antes de a qualquer dos outros — o lugar onde estavam os irmãos ausentes. no vale. Simeão. meus amigos — balbuciou ele em voz baixa e apressada —. mós estamos aqui e sabemos o sucedido porque estamos no lugar onde sucedeu. Mandai-me. repre­ sentava continuamente um estado de insuportável e inconsciente vegetar. Deram-lhe razão. Levi. ma sua opinião. voltar ao lugar da partida com uma notícia que ainda aí não fosse conhecida. Depois virei ter convosco para vos contar como gritaram. nesta hora. e isto. Segundo 7 . à roda do lume. Neste caso. porque nem suspeitam do que se passou. Neftali. mas não do facto de Jacob ter exalçado José para vergonha deles e nossa.

Só Rúben. com as possantes pernas envolvidas em correias de couro. apesar de eles permanecerem hirtos como estacas e não o tocarem. Rúben levara para casa uma filha do país e com ela gerara para o Deus de Abraão vários filhos. quando sentiu no ombro os lábios de José. suas abominações e lou­ curas. E os grandes olhos de veado. havia probabilidade de a bênção e a promessa caiber a Judá. Por intermédio de um pastor chamado Hira. Eles. conquanto fosse grande a von­ tade de o fazer. no casamento. uma mulher jovem que Jaicob um tanto artificiosa­ mente fazia descender de Naor. por exemplo. ensinara o culto de Deus. um cinto de pele. beijando três ou quatro no ombro. consideradas amaildiçoados. Simeão e Levi. porém. levara-o a deixar o véu de lado por um tempo e a saudar os irmãos com o trajo habitual. E passou por entre eles. podia afligir-se miais do que o próprio Judá. chamados gémeos apesar de haver entre eles um ano de diferença. Aos filhos que ela lhe dera. estava sujeito a ela sem que a amasse. o que redundava numa dor de alma e na discórdia consigo mesmo. e o pequeno Palu. — Saúdo-vos. As suas relações com Astaroth eram tensas e desagradáveis. Judá travara conhecimento com um cananeu de nome Chua. ó jovens vigorosos — disse-lhes ele. cuja filha lhe agradara. Levi desposara uma rapariga que acreditava em Yahu e passava por ser neta de Eber. sofria com o flagelo de a mulher o perseguir. descendo achatado sobre eles. do lugarejo de Adulam. e ninguém. revelavam melancolia. tinham bramido como touiros ao ouvir a notícia. Quero oscular pelo menos dois de vós. como Rúben havia prevaricado e os chamados gémeos podiam ser. Aqueles lábios demonstravam sensualidade. após os acontecimentos de Siquém. Judá. estava com um manto debaixo do qual escondia as mãos. nem mesmo seu pai Jacob. caros irmãos por parte de Lia. com pálpebras pesadas. mas o nariz fino. fosse como fosse. pois. ergueu a pesada mão. já tinha mulher. grande e pesadão. o pequeno Hanoch. conquanto entre os irmãos nuinca se failasse nesse assunto e todos se manifestassem com antipatia apenas pelo filho de Raquel. que trouxera presa para casa. irmão do Caildeu. cara vermelha e rapada. saíam à mãe. dado que tivera desde a juventude uma vida sexuail desordenada e dolorosa. Trazia na caibeça um gorro estreito que deixava passar em grenha abundante o cabelo. mas com as costas um tanto arredondadas e com uns traços de sofrimento à volta das narinas e dos lábios. além de ser religioso e aspirar a uma pureza divinamente razoável. e com o consentimento de Jacob tomara-a por mulher. de nome Buna. Judá.Neftali referia. perfil rombo e uma expressão de embaraço cheia de digni­ dade. dois até enitão. testa baixa escurecida pelo cabelo negro que lhe caía em anéis —só ele. 98 reluzentes e salientes. não menos alto que ele. homem nesse tempo de uns vinte e nove anos. o pai podia dar-se por satisfeito com a circunstância de o rapaz ter assentado e acalmado. — Sede bem-vindos à tenda do nosso pai. o impudente. Simeão tornara sua uma cidadã de Siquém. a cabeça do irmão. Uma ligeira dúvida de que eles o amassem mais do que a si mesmos. muito perto também da esfera de Canaã. embora com ar impenetrável. E quanto a Judá. E Da®. vermelhos e húmidos. três anos mais novo que Rúben. quase às escondidas. como alguns dos seus irmãos e meio-irmãos. Efectivamente. 0 TERROR DE RÚBEN José teve suficiente bom-senso e inteligência para não apare­ cer logo diante deles com a túnica. A convivência com Kedechas e prostitutas de Istar colocavam-no muito perto da esfera de Baal. e afagou ao de leve. o quarto filho. que Jacob de vez em quando fazia pular sobre os joelhos. exprimia uma espiritualidade escrutadora. carnuda e mus­ culosa. detestando profundamente Cheol com todas as loucuras e mistérios em que o povo chafurdava. simples­ mente uma moaibita. Assim. Judá achava que tinha razão para se vigiar por se considerar em situação especial. o amaissem tainto que não experimentassem outro sentimento a não ser de pura alegria à vista da sua elevação. exactamente 99 . Não tinha sido possível realizar só matri­ mónios religiosamente irrepreensíveis. Neftali. castanho-ruivo como a barba cerrada que acabava em pontas e o bigodinho que de cada lado acompanhava os lábios.

com o rosto marcado de gil­ vazes. pelo menos com palavras de repreensão que lhe fiquem na memória! — Não estás dizendo a verdade. — Ele não lhe chamou isso. — Aprendeste isso com algum escravo sujo do pez das galés de Ascalon ou de Gaza? — Ele chamou ao meu irmão Zabulon escravo suijo! — gritou Issacar. não podia induzi-lo a afagar às escondidas o cabelo de José. as pros­ titutas do templo? — acrescentou o ouitro. para os portos. sentar-me-ei ao lado de Jacob vestido com a ketonet e vereis o filho do rnosso paii ma sua magnificência. Por isso havia melancolia nos olhos de Judá.como Ismael. de olhar ardente. digo-vas eu! Sabes que tenho ganias de te fazer engolir o que dizes até sufocares? — Vamos. que tim­ brava em se parecer com um fenício. res­ plandecentes. sujeito de vinte e um anos. malucos de Molech. à fé de quem sou. que tinha a alcunha de «burro ossudo». a saudar os irmãos mais velhos que regressam depois de tão longa ausência? Tens tão pouco empenho em nos agradar. desataram niuma curta risada. encontrando para si próprio uma expli­ cação e dizendo que eram maus. que foi como um bramido. sempre se faz mal. O seu pensamento estava sempre voltado para o miar.» Agora vejo que fiz uma tolice. apesar de talvez nem todo o mal vir da filha de Chua. Issaoair — replicou Rúhein com voz clara e branda. Entretanto ela já lhe pro­ metia ura terceiro descendente e Judá andava apreensivo com o caiminho por que enveredaria o pequeno. corn os olhos no chão e um sorriso contraído. se não com a mão. pelo menos. de sémola fina e mel virgem. — Desde quando vão passear sem véu os . arrimados a um cajado grosso como urna clava. Uma palavra como um pãozinho do sacrifício. sujo de tinta. — Palavra de lambaireiiro. pondo os braços em cruz. o mais novo. tu que não sabes fazer outra coisa senão ser agradável às pessoas. Judá via as coisas. Mas essa melan­ colia não o podia induzir à clemência. — Enitendi que ele me queria asfixiar corn um pãozinho do sacrifício — observou José—. Assdm. Mas se não o disse nem pretendeu dizê-lo. cheia de imagens? — pergun­ tou José. Devo aparecer-lhes sem pompai. e preferia não ser pastor. que gracejos tão grosseiros!—retorquiu José. não tive intenção de o provocar. — E desde quando andam por aí. passando por baixo do braço. procurando distinguir o que haivia nas suas palavras de ingenui­ dade e de atrevimento.sedutores? — bradou um deles. Por que motivo nos penalizas não os vestindo para nos receber? Siimeão e Levi. escriba? Com que enitão aparece-se assim. Rúben. mas era difícil. e deves calar-lhe a boca. que tinha seguido Agar e não o pad. para que te sorriam? Diz-se que tens na tua arca artigos de uso pessoal preciosos. eu também. furiosos. gaiatos de Cheol. porqiue. não se irritarão com o meu orgulho e gostarão de mim. — Como te apresentas a nós assim. metido numa túnica com figurais multi­ cores que lhe cobria apenas um ombro e. — Tu bem ouviste. Assim. deixava livre a camisa. o que. sem cobrir os olhos. Mas crede-me. referes-te à minha túnica. pouco se lhe dando que as suas palavras pusessem Judá em sobressalto. — A conversa chegou a tal ponito — concluiu Rúben — que ÍOl . Os outros fitavam. com a barba aparada e o cabelo em caracóis curtos. Sim. com o fato de todos os dias. sobre o outro.. na noite do banquete do assado. como fizera Rúben. Zaibulon. como eu desejaria. Per­ guntou se tinha aprendido com essa gente aquela maneira de falar. não seria nada cortês. — Uma palavra áurea! — disse Zabulon. própria de homem de compleição robusta. Quereis a minha palavra? Os gémeos selvagens soltaram de novo uma gargalhada que pairecou um miugido. o peito untado e tatuado. Devia ter-me posto bonito 100 para vir ao vosso enconitro. e virando a cara para outro lado. que eram filhos de Canaã. seja quail for o caminho que se tome. além de sacrílego. dignos de um filho de príncipe. — Ah. membrudo e pesadão. os olhos de José. percebo. — Já vos contou pelo caminho o nosso irmão Neftali como Jacob se compadeceu de mim? Que ia vossa bondade me per­ doe— disse e graciosamente se humilhou diainite deles.—É difícil achar o caminho certo entre o fazer e o deixar de fazer. Fui tão tonto que pensei: «Pavonear-me diante dos meus senhores? Não. garotos de Baail. quando também vos tiverdes purificado e envergado os trajos de festa.

no rosto do irmão.não degenere em discussões e mal-e/n tendidos. Tens sobre ele o poder de Raquel. de modo que a ino­ cência é perigosa e a perfídia é sagrada. «Como é agradável! Compreende-se que o povo sorria paria ele. a sós. — Diz o Senhor: «Eu concedo a quem concedo. que não compreendo. — Sim. como eu precisava de ser. carregando o sobrolho. O olhar de Rúben perdia-se. não é? — Não depende só de mim — respondeu o outro evasivamente. — Nem a mereces. porque lá está Deus. Israel deu-ma. — E como lha lembrei. hem? — Ele já ma prometera recentemente — explicou José. ter-Jhe passado as mãos pelo cabelo foi já uma idiotice. Têm de pôr a luz debaaxo do alqueire para que não brilhe em prejuízo deles. mostrando os dentes. Não lhe porei mais a mão em cima. rapaz? — perguntou à flor dos lábios. mas digno. 103 . olhos nos olhas. mas naida se quer. chefe dos doze. — Papou-te as pedras todas? — indagou Rúben.ser justo e razoável. perguimtou-lhe: — Empalmiaste-lhe a veste com a tua lábia. do alto da qual posso observar os rebanhos. tirou-a da arca e deu-ma. — Contente por me ter vencido ao jogo. Rúben. ao qual a consciência de força e falibilidade dava uma expressão de dignidade confundida. sem abrir a boca. — Quando tiu queres. Fico diante dele como urna torre. se não me engano. com veias cheias de força. . sem reparar se alguém me via. dizendo: «Fica com ela!» — Ah. assim como Bala a sentiu como mulher. E José olhava atenta e delicadamente o seu rosto musculoso'. Mas Rúben foi atrás do solitário e chamou-o pelo nome. tanta força qu me excedi com Bala como um touro. Sou Rúben. estava parado nele mias viirado ipara si mesmo. excessivamente grande e desajeitado.nos vamos embora. porque eu fico diante dele como uma torre. — Jogas com tino e rapidez porque te exercitas com Eliezer em toda a espécie de trabalhos memtaiis. enroladas em correias. com intuito inocentemente insi102 dioso. lembraste-lha* e pedincbaste-lha. ainda que se queira. e depois? Abel jazeria morto e eu seria o Caim que não quero ser. e eu fiquei reduzido a cinzas. tentado pela tua. «O filho de Raquel!». pensou Rúbein em silêncio. ao passo que os outros precisam de ver mads claro para se manterem de pé. embora tosco. disse Rúben para con­ sigo. o primeiro filho de Lia. firmado mas suas pernas sólidas como coliunas. Sabes que merece castigo de Deus todo aquiele que abusa do poder que tem sobre outrem para o levar a cometer uma injustiça e a fazer urna coisa de que depois se arrependa? — Que poder tenho eu sobre Jacob? — Perguinitaindo. E ele foi dizê-lo ao pai. com este ventre bojudo eim que as veias parecem querer rebentar com a força. Pérfido ma inocência e inocente na perfídia. dez de um lado e um do ouitro. mentes. não foi? Ele deu-ta contra sua vontade. como costuimava fazer com as pessoas a quem falava. Foi um erro. Não lhe faiei reque­ bros de namorado nem me humilharei diante da sua formosura. o que também te ajuda no jogo. filho mais velho de Jacob. com o olhar voltado para si mesmo e mais do que antes. «É este o engano dos aben­ çoados e seu modo de enganar. para que . imerso em reflexões.9epararaim-se. Tem a estatura precisa e ergue para mim os seus belos olhos com um airzinho zombeteiro. A força que dobrou Baila chegava também para isto e o ladrão do meu direito de primogenitura experimen­ tava-a como homem. senhor meu.» — Ah. teniho-a guardada — respondeu José.» Fitou o meio-irmão. Consola-me a aim®. Há pouco.» Com os músculos da face tensos. <(E tail quail». ou melhor. Sim. Estava agora diante dele. Não tran­ sijo. Eu podia estendê-lo por terra de um só golpe. — Tens a vesite guardada. ao mesmo tempo que pousava ao de leve a mão direita no ombro do companheiro. descarado! — exclamou Rúben. quero. E realmente astuto como uma serpente e manso como uma pomba. Ele venceste muitas vezes? — De vez em quando — disse José. — Então não a roubei. São estes os infalíveis simais da bênção e contra eles nada se pode. nem de um modo nem de outro. Como é possível proceder-se contra a pró­ pria convicção e com olhos videntes aibaiter aquele que é agradável só porque se é desagradável? Não procederei contra a minha con­ vicção.

Tam­ bém te estou grato por me susteres aio mesmo tempo que me sacodes tainto que quase me fazes cair. — Siim. Mas. — Não sabes que a veste da Mami é também do filho e que eles a usam 103 . pnometorajma e eu saibia portanto do propósito e do desejo que ele tinha de ma dar. sim. E isto acrescento-o eu mesmo. porém. quem és tu e que arrogância 104 é essa que te fat/ afastar-te de mós todos e comportar-te como se fosses um eleito? Não receias que essa tua prosápia atraia sobre a tua cabeça a nuvem da qual saii o raio? Será que sentes assim tão pouco reconhecimento por quem se incomoda contigo. se não de dez. Apoias-te em Deus e troças do coração que tens na mão. é que está longe de mim. no seu rnaiu humor. oinde o seu alimeinto é a lama. Lia estava apenas embiocada1 nele. e entre eles brilham os dentes. sem merecimento algum. esparra:lhando-se-Jhe as entranhas. pelo menos de nove? Dize-me. Eu não me apossei da veste a poder de lábia. Mas uima leviandade obstinada como a tua. vou explicar e estou certo de que. A dorna. com a tua tagarelice. mais na verdade foi Raquel. na sua mansidão. seu irmão gémeo. agora que estou firme e de pé. O pai. Mias o que de entre eles sai. pois leio nos teus olhos que serias capaz de mo recordar. na realidade. por causa da rapariga violada. essa. — Sim. parai que te possa falar! Assim. onde está? — Lá. na realidade. e depois por causa de Dina. agora. — Calaste! Como podes tu falar rnisso depois de eu ter sido o primeiro a referir-me ao caso? Inventas sempre novas maneiras de mentir e dizes «nem sequer me passava pela caibeça» para. e também por minha causa. como aquela mentira que lhe pregaste de eles cortarem nacos de carne dos ami­ mais vivos? Fiz tudo isso por ti e tu. Ele foi abençoado antes de Esaú.que fez nosso pai. ó forte Rúban. Não é pos­ sível a gente explicar-se neste airre-burrimho. que angústia? — Já sei que mentes quando perguntas. eira Raquel. Mas comio1 viia que ele. É isto que tu aprendes nas pedras? É nisto que te exercitas quando estudas com Eliezer a ciência do templo? Os teus lábios movenvse não sei como. provocando descairaidíameinite contra ti a raiiva. torn ando-o imediatamente um legado? — Foi Liia. — Não te salveii dezenas de vezjes das mãos dos iirmãos e da ira daqueles que. uma noite. Digo dair. — Eu e a minha mãe somos uma só coisa —disse José. justo como és. comparaste a uim hipopótamo. grande Rúben. me aprovarás. esma­ garam Siquém? Não te salvei tantas vezes quando queriam madihar em ti por amdares com mexericos junto do nosso pai. vaiis e tens o atrevi­ mento de apanhar a veste enquanto andámos longe a apascentar os rebanhos. ao mesmo tempo. e mão presentear. Toma cui­ dado. ilhe abichaste a veste? — Mas. foi-me fácil induzi-lo a dar-ma. Raquel vive noutra criatura? Rúben ficou enleado. entrares em pormenores. dependurando-se em galhos podres e fazendo troça dos que estão cá em baixo a chamá-lo. o. são só insolências. — Não-. rapaz. Qual foi a mulher a quem Jacob soergueu pela primeira vez o véu. como um que marinhasse por uma árvore acima. que o guardou até ao momento de morrer no caminho de Efron. Mas a verdade é outra. — Dizem que eu sou como a água: impetuosa e que o pecado não está longe de mim. porquê? — Perguntas? Vou responder. nem a roubei. rasgados pelo Criador desta e daquela mameiira. Não sabes que a morte tem a força de trocar a essência de umia criatura e que. Mas deixa-me assentar as solas dos pés no chão. à beira do poço. para Jacob. com medo que o galho se quebre e ele caia no solo. toma cuidado! — Avásamdo-o. — Escuta. Nem sequer me passou pela mente que tu um dia brincaste com Rala. porque já eira minha antes que ele ma entregasse. E agora que morreu. saioudiaK> tanto que José oambaileava para trás e para diante sobre os calcanhares e as pontas dos pés. Dá-te assim tanto prazer que ele possa fazer o que fez? Angustiado por causa de ti que és o seu predilecto. hesitava uim tanto. Rúben. não. mas segundo a vontade do seu coração que é terno e orgulhoso.agarrando-o pelos ombros e sacudindo-o de um lado para o outro. Saberás tu que incutiste medo e angús­ tia ao velho quaindo. mas afligiu-se muito mais quando lhe morreu Raquel na estrada de Efron. põe-me no chão! Crê que te estou grato por teres interferido a metu favor contra a maldade dos irmãos. — Tua.

Na sua indignação. não vá ela alumiar-te o caminho da ruína! — Depois deu três passos para trás. a importância de se conhecer um indivíduo. de quem é o véu? José tinha falado numa atitude de grande modéstia. como sempre vos digo. pareciam cepos e Jacob teve medo. mas as caiCaratas do céu já se fechavam.por seu turno. Vede quanto bem nos vem do miar. Mas depois. aquela desenvolta. quisera saber quem ele erai. O grande Rúben teve um arrepio. quando ofereciam pão de trigo levedado com farinha nova. Oferecia-se calmo e franco. Deveríamos morar perto do grande oceano confinando com Sidon. ASG A V E L A S Depois disto. não queriam ouvir falair do mar. as águas escoavam-se e a terra secawai. a que passado referia ele o seu pre­ sente para o apresentar como uma realidade. Não era homem que ignorasse. viajar sobre as ondas em vez de guardar cordeirinhos.sexos — não queremos ir tão longe. Neftaili concordou. acaibando die falar. siimples. sete semiainas após a lua cheia da Primavera. — Poupa a tua alma. Não que hou­ vesse agressivamente mergulhado mo olhar do outro. A torre vacilou. fez brilhar aos alhos de Rúben o caminho que o jovem irmão seguia. filho de Lia. acolhendo sem réplica na sua imperscrutaibilidade o perscrutar cintilante e consternado dos olhos inflamados de Lia. poupa a tua 106 luz! Põe-na debaixo do alqueire. dardejando lanças de ouro no azul. que disse: — Este vento afaiga-me agradàvelmente o nariz porque traz humidade de longe e uim orvalho benéfico.. Como se exprimia aquele moço. O Sol triunfante. Era o tempo em que se suava com allegria. ainda que o vento fosse húmido. Não seria mau trocar notícias com os tais homens cobertos de erva. As últimas chuvas tinham sido abundantes. — Criança! Criança! — disse ele com a delicada voz do seu possante corpo. Naquele momemito não via exactamente em José uirna velada divindade dupla de aimbos os . Mas a maigia da palavra que transtornava tudo. Nunca o tivesse feito! Agora a explicação estava dada. poupa o pai. aconteceu que no vale de Hébron se ceifava o trigo e chegara a época da colheita. à hora da ceia. um terno e delicado temor e assombro. embriagado com a sua vitória sobre o gotejante Leviatão. e só então virou as costas e se retirou. Depois pode-se também che­ gar aonde há homens com orelhas tão grandes que lhes cobrem todo o corpo e outros cujo corpo é todo coberto de erva. era um aibalo mais profundo e ao mesmo tempo admiração. com regozijo. que caminho levava. Sobre as vagas e nas barcas recurvas podemos ailcançar os homens que têm cauda e um chifre reluzente na testa.. e passados muitos dias. reinava resplandecente no céu. Mas. que é o que menos me sorri. fixando-os bem abertas no irmão. Contudo. levantou de repente os alhos. E este «ou» suscitava no cora­ ção de Rúben o mesmo horror de que já se queixara injuriosa­ mente o irmão Gaid junto à cama de José. Provàvelmente os indivíduos de caiuda e orelhas tão grandes não sabiam nadai do que se passava no muindo. com a cabeça baixa. Mas em Rúben era mais forte. aité ao dia das primícias. José trazia a veste: as irmãos. ou. mias tão aimibígua que sentia cala­ frios pelas costas abaixo. Com a sua resposta. se não tivesse começado a soprar um vento cuja simpática procedência foi fare­ jada por Zabulon. Marduk-Baal. Logo. quem era. Os outros discordaram. imóveis. com os olhos baixos. 107 . e tão ardente era já no fim do segundo e do 'terceiro mês a sua soberania que se devia recear pela semente. em qualquer caso. José apresentara referências tão prodigiosamente completas sobre a sua pessoa que a cabeça de Rúben andava à roda. É preciso compreender Rúben. a que queria ele chegair e como lhe saía tudo aquilo da boca? Rúben tinha-o interrogado sobre a sua arro­ gância e agora arrependia-se porque obtivera a resposta'. livre e sem dúvida sincera maleabilidade de linguagem com que ele conseguia encantadoramente mudar tudo. opondo que era uma região inferior. o seu amor não estava longe de acreditar em uai. Dize-me o que é seu e estás dizendo o que é meu. Foi o que me cantou um homem de Chazati. Seria par mero acaso que as palavras afluíam ao raipaz naquele sentido? Quereria ele aludir ao divino para justificar a sua perfídia. um em lugar do outro? Chama-me e é a ela que estás chaimanido.

tornava-o feliz e as contradições. que era a mesma todos os anos. Com essa modéstia esta­ vam no entanto. Tinham partido o pão e palravam. iniciados com ta colocação da cevada mos depósitos. a 109 . A época da colheita punha-o numa posição embaraçosa. Os trabalhos da colheita. Viam-se os burras. Do ouitro lado dos baixos muros de seixas que circundavam o campo a toda a volta. a aversão de pastor da Lua pelo trabalho de gleba do lavrador vermelho. culto de que a sua allma estava afastada. com a sua incrível tagarelice. para amarrar com palha as gavelas e as colocair -mos cairros ou em cima dos burros que estes levavam à eira para a debuilha. que também aju­ dava a ceifar e a atar. mas nem sequer pensava em tail. alguma coisa que ele infelizmente imaginava mão ser mu i-to. deitou tudo a perder. pouco partilhavai da alegria a prazo fixo da sua gente. -tanto que. É a pura verdade: a comunidade de trabalho cam eles. cortando com o ferro curvo as feixes -de espigas que a mão direita. de ser chamado por eles e de os ajudar. Sem dúvida ser-lhe-ia fácil obter de Jacob dispensa dos labores do campo. Especialmente Siimeão e Levi. Assim. já porque o.ajuintava. Deve-se reconhecer que ele fazia tudo isto de boa vonitade.cheia de monstros caóticos e que Zabuilon poderia do mesmo modo decantar o deserto. Dormia -também naquela hora do meio-dia em que todos os filhos de Jacob. onde a foice já abrira brechas de restolho mas bastas espigas douradas.um certo proveito do culto da fecundidade que.se -dava ao luxo. os camponeses prestavam aos B. Quis também -traibailhar no campo desde manhã até à tarde. encaminihar-se para lá e homens. não podem anular o facto de que José gastava dos irmãos e — por miaiis absurdo que paireça — confiava mo -airnor deles a ponto de pensar que podia exigir alguma coisa desse amor.as suas chamas sobre o campo já meio despido. durante essas semanas. não refutam. nem com a ceifa. o chão estava juncado de gavelas encostadas umas às outras. A certa distância erguia-se uma colina que servia de eira à gente de Jacob. como se alegra o homem naquelas semanas de remuneração'. já e acima de tudo porque o aproximava dos irmãos. Eliezer tivera de contratar jornaleiros de fora.trabalho lhe proporcio­ nava uirna alegria sã. pois era exactamente o oposto que determi­ nava a sua indiferença. Esta atitude. tinham começado a melhorar espontâ-neamente e o gelo ia-se derretendo. ofereciam uma aprazível variante.em flaigrain-te contraste certas revelações da sua vida íntima de que ele nesse tempo. estranho. exceptuando Benjamim. sustentavam essa opinião.. apesar de. fazendo um pouco de agricultura apenas por prudência e não por inclinação natural. sentadas nos calcanhares. Até as suas relações com José. n-a colina. atendendo aos rogos espe­ ciais de José. sem se achar dimi­ nuído nai sua dignidade e com modéstia.har-se e não abrir a boca perante as manifestações de regozijo de quem se ocupava na colheita. os corpos corados pela. O traibailiho do campo cansava-o bastante e José via-se forçado a interrompê-lo várias vezes para dormir. ou melhor. Como para esse serviço eram precisos todos os braças disponíveis. alegremente. aliviava-lhe o coração.. outros homens se entregavam à mesma íabuita. lhes não agradar a vida pastoril. Quamto a Jacob. levando as coisas ao máximo. embora ele não aparecesse no campo. Jacob não se preo­ cupava de -nieinhum modo com a semeadura. rudes mas reli­ giosos. José interrompeu os estudos com o Í08 velho. orgulh-aindtKse de poder trabalhar ao 1-ado deles.aa-1 do Sal e às mulheres dilectas dos templos. car­ regados de espigas. mesmo em seu próprio benefício. porque ele tirava. quie tinha boas razões para isso. no fundo.força de Baal que por entre as brancas nuvens esitivaiis enviava. Disto falaremos denitro em pouco. à qual continuavam ligados apenas por am-or à ordem de sucessão.aos descomedimentos dos lavradores ceifeiros em que seus filhos tomavam parte. quando de súbito ele próprio. depais da cevada. Por ali fora-. melhorando pràtioaimenite as mútuas rela­ ções. e justamente nesse ano foi lá uma vez. ma sua de-letéri-a insensatez. de contrário teriam preferido uma ocupação mais selvagem. Semelhante parti­ cipação nos rendimentos deles fazia-o envergon. mandou recolher o trigo para o seu uso pessoal. cobertos unicamente com um avental. refreava a alegria geira-l. se reuniam para repousar e comer à sombra da tenda parda que haviam armado sobre va-ras recurvadas. Os irmãos ale­ gravam-se com o suor. Só excepcionalmente ia ao campo durante a colheita. de Primavera em Primavera.

continuou a conversa aigrícola num tom que de certo modo encerrava a res­ posta conveniente a tal pergunta. o grão não sai bem da espiga. encolhido. o caso é diferente.espalhar os talos com forquilhas na frente de dois bois que iam passando sobre eles. Í/O — Não quereis ouvir o que sonhei? — perguntou José. escutavam de bom grado a realidade e a ficção. — Sem preâmbulos? Os gulosos são também curiosos. as pálpebras estremeciam e a boca aberta mexia-se como se quisesse falar. sobretudo o pessoal alugado. E uma inconve­ niência e não nos diz respeito. de avental de trabalho e a pele queimada. enquanto passava a mão pela testa. como depois se viu. empregado por alguns laivradores. Mais alguns afirmavam que a cirandíaigem depois dava maris que fazer do que se o grão tivesse sido completamente pisado pelos bois. mas ninguém dera por isso iporque ninguém se importava com ele. irmãos. ainda confuso e a sorrir de felicidade. nem o que te sobe da barriga à cabeça depois de teres comido. tão maravilhoso que não posso guardá-lo comigo e gostaria de todo o coração que ele estivesse diante dos vossos olhos como esteve diante dos meus. dormia à soimbra da tenda pairda. tão maravilhosas! — Isso é lá contigo — respondeu Dan. e Ele explica-mo. mas tão real. que continuava sobre uim assumito diferente do seu. a todos vós. Encontrou o encosto noutra parte. sim!—-aoudiu José com ardor. Também José. mas eu queria contar-vos o sonho que tive há pouco enquanto dormia. cortam e só esmagam. Não obteve resposta. Aliás. com a cabeça aipoiada no braço. ííl . muito feliz —. Pelo contrário. mas viraram^se logo para o outro lado c continuaram a conversar. — Tive um sonho — disse. porque todos vós entrais nele e eu também. — Já que tens de dormir. pelo menos por causa da interpretação. mas deixair que os outros o façaim. abanando a cabeça. lançando uim olhar em redor dos irmãos e sorrindo. É de ouvir. os sonhos e os contos dos tempos antigos. cala-te! — Mas diz-vos respeito. sem quase poderdes pensar noutra coisa! — Não será melhor que ele no<lo conte em poucas palavras? — propôs Aser. — Diz-vos respeito.. que lhe cedesse o joelho para conservar a cabeça um pouco mais alta. maravilhado. Entretanto os irmãos discutiam as vantagens ou desvantagens de uma máquina que desde algum tempo estava sendo muito usada para a debulha: a mesa debulhadora. a lenda. conto-vos a minha visão. É só pedir ao Senhor. todos eles eram curio­ sos e. no fundo. Eles voltaram a cabeça. Judá. e então a farinha. E haveis de andar três dias de cabeça. A fronte. Ao passo que as rodinhas bem afiadas cortam com facilidade o fruto. porque. E uim sonho para admirar e reflectir. Issacar per­ guntara-lhe se teria também de lhe coçar a cabeça e enxotar as moscas. Falava-se igualmente de um carro debulhador. para que vos rísseis a bom rir. chamado «o burro ossudo». Dizei-ime agora se pode­ mos contar que essa gente. José rira inigèreuaimente como se se tratasse de uma boa facé­ cia e pusera-se a dormir sem encosto para a cabeça. trilhandoos. Que essa máquina acelerava o trabalho era fora de dúvida. que andava sobre rolos com uns discos de ferro afiados. puxada por bois. um deles. aguce suficientemente os ferros. Quem sonha não deve interpretar os sonhos. com duas pedras pontiagudas. Se sonhardes. melhor seria que dor­ misses sem sonhar. Durante a discussão. José acordou e sentou-se. fixadas na parte inferior. — É indispensável — disse ele com voz forte e seca — conser­ var os discos de ferro bem amolados. José ouviu uns momentos a conversa. Só Rúben lhe dei­ tava um olhar die vez em quando. O rosto db que dormia estava voltado paira Rúben. Por fim interrompeu-a: — Perdoai. — Que ideia é essa de nos maçares com as tuas coisas? Não nos interessa saber o que se passa dentro de ti com a bebedeira do sono. que era quem estava miais peirto. Foi muito curto. eu interpreto o vosso sonho sem me oustar nada. com o olhar vago. e aconselhara-o a estender-se à vontade. se quereis. porque no sono com sonhos não se recuperam forças. senão. cravando nele os seus olhos penetrantes. — Sonhei — insistiu. Mas com os nossos próprios soiuhos. pedira candidamente a Issacar. — Bom — disse José. baixa..—Sonhei coisas tão verdadeiras. Portainito. que arrancavam as espigas. Ao deitar-se. — Ouve cá! — disse Judá. mas não a servir-se dele.

Rúben tentou ainda impedi-lo. porque naquele campo também estava o Benjamim. ah. —Ouvi. Cada um de nós amarrava urna gaveta do fruto do pão.— É a isso que tu chamas «sem preâmbulos»? — Então. — No trabalho. muito diferente. valha-nos Deus! — comentou Zabulon. Todlos tinham franzido o sobrolho e. — Esta é de primeira! — exclamou Neftali. não há dúvida. Mas. de sorte que no pescoço lhes sobressaía o pomo-de-adão. haviam deitado a cabeça para trás. amarrando a sua gavelazdmha. Nessa sacudidela e nesse franzir de sobrancelhas havia uma espécie de espanto escarninho. corn efeito. Ficaram à espera. corn uma ligeira sacudidela. a colher o trigo. primeiro amarramos e depois cortamos. era lá que estávamos — insistiu José. — Vi. Temos de comvir que o teu sonho é prodigioso! — Mas não era o nosso campo — prosseguiu José. Trabalhávamos em silêncio. — Urna visão inaudita! Com que então. no campo. o nosso itnmão mads novo. E eram doze gavelas. uma advertência. que somhozinho. — Como é que tu dizes «à vossa1 roda»? Queres dizer: «à nossa roda»! — Não. Calou-se e pôs^se a olhar para eles. no último momento. erguendo as mãos. — Sonhas coisas extraordinárias. que estávamos todos nós. filhos de Jacob. que andava à vossa roda. Vós. aproveitando a deixa. não. as coisas passavam-se de outra maneira. os onze. Gad. como acabou e como foi o meu sonho maravi­ 112 . escutai — começou José. formáveis um círculo e eu estava no centro. Não perdera de vista o dono do véu e não augurava dali nada de bom. — José — disse-lhe Rúben—.. mas acho melhor que cada um guarde os seus sonhos paira si e que vamos para o nosso trabalho. — O prodigioso vem agora. amarrando as gavelas depois de cortar o fruto. — Deixa-te de brincadeiras! — ordenou Gad. — Era outro. — Ah. exactamente. pois. encolhendo os ombros e fa­ zendo menção de se afastar. não conheço o teu sonho. És doido! Vamos ouvi-lo até ao fim? Alguins já se tinham levantado. uma apreensão. — Escutai-me até ao fim! — gritou José. E nós não achávamos estranho.

113 . poás podia significar «várias coisas» e «isto não é pouco». José envergonhava-se. Significava «caramba» e coisas assim. esperançoso. deixámo-las e retirámo-nos. as aletas do nariz estão muito tensas ou quando o lábio inferior está apertado entre os dentes.° v. como não respiravam na mesma cadên­ cia. inclinam-se e a minha mantém-se de pé. - 2. cada qual a sua. «Está tudo dito?» fora desolador. E agora. lhe parecera singular. % 8 . causava uma estranha impressão. Estavam pálidos e em todos havia rugas verticais entre as sobrancelhas. E que vemos nós? A minha gavela ao centro. depois acordei — concluiu José. expresso em palavras. sem qualquer comentário. nos rostos pálidos. Tínhamos dado juntos uns vinte ou trim ta passos quando. em voz badxa. Mas «é isto e mais aquilo» fora reconfor­ tante. — Depois àe termos amarrado as gave­ las. juntamente com a grande palidez. principalmente depois de Rúben ter mostrado. os irmãos não achavam o seu sonho muito disparatado. Inclinam-se.lhoso — acrescentou José. muito direita. Olhou para as caras deles. Longo silêncio. de modo que só as primeiras sílabas saíram num tom acentuado e as últimas morreram num sussurro. pelo menos. abatido. após novo silêncio. o que aqui também se podia observar em muitos deles. Isto. — Sim. como resultado da sua narrativa. Cobrou ânimo. no medo daquele silêncio. afinal. onde tínhamos amarrado as gavelas. podia pôr José um tanto perplexo. propício a causar uma feli­ cidade opressiva. Rúben olhou em redor e silenciosamente indicou com a mão o lugar atrás de nós. Tem-se uma impressão semelhante quando. e as vossas em círculo inclinando-se diante dela. Isto. Estava um tanto desanimado com o sonho que. A pergunta de Gad: «Está tudo dito?» reforçava-lhe essa sensaição. ouvia-se debaixo da tenda um arfar irregular e confuso de dez homens. como se nada mais tivéssemos de fazer e sem trocar palavra. junto com a palidez dominante. i. o autónomo incli­ nar das gavelas.j. José levantou a cabeça. Parecia que. Para mads. s. de súbito. apresentava-se-lhe relativamente insignificante e até insípido. — E isto e mais aquilo —disse Datn. com voz abafaria ou. — Esrtá tudo dito? — inquiriu lacònicamente Gad. respiravam todos com dificuldade e.

e a satisfação de ver que a sua narrativa não fora um insucesso. para. Silêncio. Novo silêncio. sobre o qual não dissera palavra. contrabalançava o desânimo. para que também ficassem maravilhados e felizes e dis­ cutissem com ele o significado do sonho? Não compreendia que o censurassem por ter fé numa firme umiião. cão sarnento. Depois os dez saíram da tenda e dirigiram-se para o campo. Na verdade. ainda por cima. Conquanto. com efeito. se inclinam e só fica de pé a tua! Nunca ninguém ouviu nada tão nojento! Fora daqui.. porque tu roubaste astutamente a ketonet nas costas dos teus irmãos mais velhos! Mas mós te ensinaremos o que significa estar de pé e incli114 rnar-se. à procura de Benjamim. em selvagem mugido. a nós homens honestos. de interpretar. Não puderam falar um depois do outro e alternar as invectivas como era seu costume. embaraçado e aflito. que o levara a reve­ lar-lhes os pensamentos de Deus. enquanto eles berravam: — Criatura repelente. embora não de todo feliz. a es­ cutar-te?! Todas as nossas gavelas. ter prorrompido com voz rouca: — Nuinca ouvi na minha vida um disparate tão asqueroso! — Era sem dúvida a expressão de um estado de espírito. E davam-lhe uima grande decepção. Sim. inclinasse». ele fosse elevado aciima dos outros. labrego. Cheol. fanfarrão desca­ rado! Que dizes tu que sonhaste? Que dizes ter visto por trás dessas pálpebras. sempre pálidos e mordendo os beiços. que naquele dia infelizmente já não se restabeleceria uma colaboração serena. confusamente.. porém. mais de maneira que tudo aquilo lhe pareceu a continuação do sonho. após um geral e demorado morder de lábios. muito mais forte do que José ousara esperar. chegando até os gémeos a ser muito vio­ lentos. o querido irmão carnal. a quem de certo modo sempre respeitara. como já acontecera. a impressão produzida nos irmãos não era absolutamente perfeita. comparada com o sonho da subida ao Céu. E perguntava a si próprio como havia de lhes provar que não tinha dito nem uma palavra de maiis e lhes contara lealmente o que vira em sonho no meio deles. justificando a fama que timham de até os pêlos do peito se lhes encresparem e picarem como espinhos quando se encolerizavam. Não lhes tinha dado uma prova de confiança fraterna. exactamente isto assim e assim. Assim era realmente e agora podia-se verificar que os pêlos se lhes eri­ çavam sobre os ossos do tórax e pareciam espinhos. meu rapaz. espinho ma carne. como chegara a recear. é o que tu sonhas. ao sair. — Fedelho! Cogumelo venenoso! Gabarola! Toleirão fedorento! — rugiram ao mesmo tempo Siimeão e Levi. Gritavam ao mesmo tempo. disse-lhe: — Aí tens. hipócrita caçador da herança. Sobretudo a 115 . maroto. escarro. Rúben. mas eira. tão grande como ele nunca imaginara. o que depreendera das suas palavras: que não acreditavam nele. em círculo. ao atacairem d es api ed ad am ente a cidade de Siquém. evidentemente. não pudessem suportar os pensamentos de Deus. por exemplo. José ficou ainda algum tempo. pensava. preferiu desistir de voltar com eles para o campo e dirigiu os seus passos para casa. que tenhamos de te explicar e. e eles não lhe tinham dado crédito. dissipar-se-ia o mau humor.lhe referir que contara aios outros um sonho bastante modesto. porque os irmãos não tinham querido acreditar no sonho dele. dióscuros. Concluindo. sonso desaforado. desanuviada. não havia razão para que os mais velhos. inteirando-os do que Deus lhe mostrara em sonho. Nós te mostraremos quem são aquii os senhores para que nos digas quem és e corn que desfaçatez mentiste! Assim desabafaram os.Assim sucedeu até certo ponto. Fora isto. gavela insuportável? «Inclinar-se. esterco! Agradava^te exercer o poder paterno e soberano sobre mós. a visão das gavelas fora uma coisa bem humilde Turturra regozijou-se de que não se tivesse dito palavra a res­ peito do extraordinário sonho celeste e pela sua parte agradou-lhe tanto o das gavelas que José se sentiu inteiramente compensado do êxito algo duvidoso obtido junto dos mais velhos. pois os gémeos tinham várias vezes gri­ tado qualquer coisa como jactância e mentira. Isso contristava-o. palidez e morder de lábios. com os rostos verme­ lhos como fogo e as veias da testa inchadas. meditabundo. pelo asipecto de lúgu­ bre alegria e de lugubridade alegre que a realidade conservava. Se acreditassem mele. e obrigas-nos. pedra de escândalo. Não veio alterar a situação o facto de Judá. No entanto. no sonho.

o melhor que tinham a faizer era encolher os ombros e deixar o sonhador entregue à sua loucura. de domínio do miuindo. eles eram impotentes. mas pelos dez.de direito da priirnogenitura. que pulava e ria. mais atenção às suas palavras. porque correspondia aos seus sentimentos. mesmo admitindo que Deus tivesse mandado o sonho. resultava numa tunda. se tratava só de um caso de vaidade. A DISCUSSÃO Nesse me. que até então calavam latente no coração. Se o sonho vinha realmente de Deus e constituía um sinal de eleição. Mas ao mesmo tempo voltou à possibilidade de o rapaz ter puerilmente inventado o sonho e por isso merecer umas paiuladas. pela sua venerável fraqueza. sobre a vontade e os planos de Deus.parte da narrativa em que entrava a sua gavelazinha inclinando-se como as demaiis alegrou o pequeno. a ele nem aos outros. Na realidade. mas quaisquer intervenções muito piores do que a sim­ ples coça.io-tempo. porém. aludira à possibilidade de o rapaz ter tido realmente o tail sonho. Ora. como acontecera com Jacob em conse­ quência da hipocrisia com que os havia suplantado junto do pai. o que foi considerado na genera­ lidade como uma circunstância essencialmente catastrófica: ou Deus nada tinha que ver com o dito sonho. mas devia ser no segundo. não só secretamente mas explicitamente. De facto achava-os pouco dispostos a separarem o pessoal do substancial e a fazerem depender a sua atitude para com José da diferença que havia entre ele sonhar só por estulta vaidade e o sonho lançar uma nova luz sobre o verdadeiro estado de coisas. a proposta do grande Rúben vinha a dar numa tareia destinada a puni-lo pela peta que pregara. Rúben sustentou que. cumprindo-lhes adorar. reunidos em círculo e arrimados às ferramentas. A princípio. e este era fruto da supána arrogância do insuportável rapazote. Neles. era porque Deus se deixara iludir por ele. Desde aií. a fim de que na deliberação nada fosse esquecido. com a dife­ rença de que nele se não manifestava. pelo menos. com o des­ prezo. Por isso não pro­ curava defender José. também alvitrara o encolher de ombros. em indi­ zível fúria contra o suscitador de tal angústia. todos os pensamentos conver­ giam para José Se Deus o elegera com prejuízo deles. Aquele terror derivado da lendária profecia de troca. Atar-se -iam de boa mente a essa suposição porque representava para eles uma defesa. Deus era grande. Como. incitado pela posse da ketonet. os irmãos mão determimaissom a humildade e a adoração. Atormentava-os sempre o terror a que o honesto Gad fora o primeiro a aludir e que era aigora sentido não só pelos quatro filhos de servas. se ali andava a mão de Deus.. como nos outros. contra Deus nada se podia dizer. parecia antes que ele queria desviar Í16 os irmãos de outras suposições e induzi-los a aiceitar a hipótese da mentira. examinaram a questão. Rúben temia semelhante curso de ideias. Vê-se (e Rúben taimbém via) que a ideia que faziam da relação de José com Deus coincidia perfeitamente com a que fazia o pró­ prio José: como a relação dele com o pai. segundo o seu próprio parecer. isto é. mas em não menos ÍÍ7 . Da conversa não sobressaía claramente cm qual destes casos José lhes aparecia mais abominável e venenoso. Se. não José. a alma de Rúben era talvez a que mais o sentia. que se estivera a rir à custa deles. sainto e irresponsável. pelo con­ trário. prevaleceu entre eles a opinião. ou acordo tácito. viera de Deus. de que o Odiado fantasiara o sonho e só dissera mentiras. se as gavelas se tinham curvado vergonhosamente diante dele. O receio de Rúben ara que. pois com a simples manifestação de desprezo se sova sem despender energia. nem. e queria persuadi-los die que se tratava de uma fainfarronada merecedora de ser castigada. Na discussão. mas o Senhor. Mas Judá. os dez discutiam no campo com apreensão e fúria. porém. aceitando que talvez Deus lhe tivesse man­ dado o sonho. e após um discurso cheio de insultos de Simeão e de Levi. sob o sol que descia. admitida a hipótese. não era necessário dar tamta importância às paiuladas.. era agora despertado e evocado. Prestando. sob dois aspectos: ou o sonho. de servidão dos irmãos. como nada se podia dizer contra Jacob. Todavia podia sur­ preender que Rúben achasse plausível a probabilidade que. É claro que um simples encolher de ombros não agradava muito. se existira. mas José era uma víbora.

em primeiro lugar. — Só faltava que tivesse dito «curvasse»! — irrompeu Gad. fosse ou não fosse propícia a ocasião. ou de vez em quando. em seguindo lugair. tainto tempo venerados pelos povos. da vitória final de Deus sobre todos os poderes. estava na eira. com conhecimento de causa. — Não. assim como pode «curvasse» e ser ao mesmo tempo demasiado orgulhosa para «incli­ nasse». Eliminá-los. no fundo. é um pouco menos. — Disse «inclinar-se» — obtemperou o ossudo Issacair que. a discussão foi interrompida no meio da berraria de Simeão e de Levi. Como havia de conseguii-lo? Fazia a si mesmo e com insistência esta pergunta. Forçosamente. lhe excitava os órgãos sonihaidores. Também se deve acrescentar que nesse mesmo dia ele tivera urna conversa instrutiva com Eliezer acerca dos últimos acontecimentos. como tinham feito em Siquém. de um modo ou de outro. pois diante de factos ofensivos não havia inclinar nem curvar. ao qual era fiel. sobre as forças astrais. onde por aquela época passava muitas vezes as noites com alguns dos irmãos e criados para tomar conta do grão que ainda não fora malhado nem depositado nas covas do campo. E essa lembrança provocou tail celeuma que. mas de ela ter de partir de outrem ou surgir-lhe de repente. mas de uma forma tão pomposa que a confirmação era muito mais expressiva do que se apenas se tivesse repetido a visão das gavelas. Ambos tinhaim ainda discorrido acerca do triunfo do Salvador sobre os reis pagãos. não se preocuparva senão com o facto de os irmãos não terem acreditado nele e só pensava na maneira de os levar a crer. diziam. o jovem Zabulon declarou que tinham feliz­ mente chegado ao que José desavergonhadamente propusera e a que não deveriam nunca rebaixasse: à interpretação do sonho. — Eu sei — conveio Gad. ficando sozinho no domínio glorioso do mundo.indizível comoção pela inocência tagarela do eleito e numa pasmosa veneração pelo destino. mas de maneira 119 . as gavelas vistas em sonho não eram tão orgulhosas para apenas «se incli­ narem» quaindo os amarradores recebiam ordem para «se curva­ rem». mas eliminar. ou não seja antes urn gesto exterior e vão. Pelo contrário. Rúben esclareceu que pode uma pessoa «inclinar-se» por prudência sem verdadeiramente «curvasse». Dain e outros defendiam a tese de que «inclinar-se» tinha uma significação mais branda do que «curvasse». uma pessoa «incli­ nasse» uma vez. Além disso. no mesmo instante e sem outro resultado que não fosse o de uma irreprimida exas­ 118 1 peração. dizendo que tudo aquilo não passava de uma vã lengalenga. sob o céu estrelado. não perdendo nuinca a oportunidade de se exercitar. note-se que ai contemplação dos exércitos celestes antes de ador­ mecer podia ter influído na formação do sonho e que a vizinhança e a comunidade de leito com all guns dos que ele desejava convencer. porque se tratava de um sonho e num sonho a expressão «inclinar-se» correspondia à atitude para a qual Rúben reservava a expressão «curvar-se». Na verdade teve o mesmo sonho. decididos a patentear a sua feroz estupidez. — «inclinasse» não é exactamente o mesmo que «curvar-se». Sem pre­ tender com isto dair uma explicação sobre a origem dos sonhos. durante a quail se falara do juízo final e do tempo das bênçãos. a indecência é a mesma. não é bem assim — contradisse Dain. precipitará e enclausurará nos infernos. Aconteceu simples­ mente que sonhou outra vez. não há a certeza de que tal suceda por convicção íntima. pelo amor a questiúnculas que fazia parte do seu programa. Sonhou que era noite e que. sustentava que naquele caso não valia a pena fazer distinções. que Ele suplaintairá. continuamente. LUA E ESTRELAS E José? Sem imaginar sequer como os dez estavam exaltados por causa do sanho. e crer a dois respeitos: na realidade do seu sonho e na sua veracidade. por seu lado. Seja dito entre inós. espaintando-se em seguida de não ser capaz de achar por si próprio uma resposta. Nesta altura. No inclinar-se. ceirrando os dentes. José sonhou tudo isto. — Como? — bradaram Simeão e Levi. gostava de paz e esperava que esta particularidade fosse de efeito atenuante. «curva-se» quando o faz do coração. SOL. sobre os deuses do zodíaco. pode tê-lo dito só por esperteza e. — Mas. Judá.

porque a experiência da curiosidade dos mais velhos parecia não ter redundado em satisfação pura. se lhe permitiriam que con­ tasse outro sonho. como niu-m colar de pérolas. é pena que o pessoal não te veja. Claro que devia estar adi. nem me descaio diante dos filhos das escravas. quer uma pessoa se esfalfe. e cavaqueamos. Nos últimos dias. que o olho do patrão não conheça o serviço de todos. Bu queria que o paizinho presenciasse. neim o trabailho. E de faeto. nós. Um dia une-se ao outro. contai uma ainedota ou uim sonho. Já da primeira vez pouco faltara para que não lhe prestassem atenção. O sonha­ dor. como era costume. tudo corre às mil maravilhas. quando despertou do sonho. Disse-lhe. o sonhador não partilhara com eles a hora do descanso. porque Jacob queria vê-lo cedo. Agrada-lhe sobretudo nesta época da colheita. por volta das doze horas daquele mesmo dia. — Não gosto do trabalho dos campos. O tra­ bailho está a findar. para o narrar. E já durante a inoite.. pois. príncipe de Deus! Eis um novo dia gerado pela noite. ou melhor. — Enitende-se. e à nossa volta lamenta-se amiúde a tua ausência. José via-se forçado a reduzi-lo às palavras mais simiples e breves. não há tempo a perder. ou lha reti­ rassem antes de tempo. Agora o . com a cabeça no regaço paterno. dá essa honra aos teus filhos. E quem sabe qual­ quer coisai. certiificair-se de que gozava saúde e abençoá-lo para todo o dia. para que se não recusassem a escutá-lo. já se via a si mesmo realmente como seinhor e dono de toda a revolução dos muindos feita aitravés do zodíaco. cheio de alegria por ter dessa vez um» prova convincente do sonho ainterior. Foi este o golpe de José. e ao teu filho agrada a vida. Ali estavam 121 . O campo é bonito. depois de ter lançado uma vista de olhos às covas dos cereais e de ter experimentado com o polegar o fio das rodinhas da debulhadora. Gontudo. entende-se. uma vez. porque nesse sonho não se podia dizer que houivesse visão e. Precisava portanto de tomar precauções. José: — Bom dia. a expor o seu caso íntimo com singeleza. está combi­ nado? Não digo nada aos de olhos vermelhos. Nunca lá estás. vra leal.. José atinara com um expediente para atingir o seu objectivo. fitá-lo nos olhos. Os rapazes ficaram estupefactos. o jovem José. quando o pai ia visitá-los. — A pairte umas questõezinhas insignificantes que a vida quotidiana traz consigo e a divisão do muindo ocasiona. estivesse também a cabeça paterna. Ainda há pouco o meu irmão Judá se me queixou de que eles quase iniutnca afiam bem as rodinhas da debulhadora: esmagam em vez de cortar. Mas uma pala120 i . o que não contribuía para o tornar admissível. nem a obra de Baial. Claro que não hás-de partilhar con­ nosco a canseira. enquanto o Sol está no apogeu. na eira. especi al mente dos estranhos. De manihã foi ter com o paii. filhos de um e de quatro. Nem eles imaginarão a quem ficam devendo tudo isso. Restava saber o motivo que levara o velho a aparecer de repente no campo. paizinho. Já algumas vezes nos temos acotovelado e feito siinais com a cabeça. embora às vezes mais áspera. Quem pode­ ria pretendê-lo? Mas deves partilhar a nossa hora de descanso. debaixo da tenda. na nossa roda. quer descanse.seu receio era ainda mais justifi­ cado. — Magnificamente — acudiu José. ao menos. — Então tu e os teus irmãos andais de acordo na eira e no campo e entendei-vos com a ajuda do Senhor. sem o desenvolver como um facto. sentia. e creio que vai ser muito quente. — Censura? Deus me guarde! E «ma súplica que o rebento ousa fazer em nome dios onr/e. esclarece o equívoco e reina de novo a concórdia. Agora lá estava ele de movo. e no trabalho os homens tornam-se amigas.tão confusa que lhe escaipou infantilmente a troca e a equiparação do escaltoíógico herói divino com a sua própria pessoa. Tudo isto ele via. E hoje. — Não te levo a mal a censura. Jacob estava sentado entre os filhos. — Gosto de ouvir isso—respondeu Jacob. — Que bom! Vai já hoje. Assim andam as coisas quando o patrão não aparece. em quem a gamte não se pode fiar. Que alegria vão ter! Mas o teu filho saberá e guairdará segredo. quando partimos o pão à sombra. A forma da narrativa já constituíra para ele durante a noite uma preocupação. opinando que seria bonito se. Afigurava-se-lhe duvidoso. — Hei-de lá ir uim dia. Essa preocupação girava principalmente à volta de saber se os irmãos lhe dariam ocasião para se reabilitar.

Tão infantil que quem é mais maduro do que tu não vai incomodar-se com ela. nesta hora de descanso e à sombra. e o sorriso parecia querer disfarçar e pedir desculpa de os olhos terem de repente ficado brancos. na eira. mas não pôde prosseguir. Mas o efeito a produzir nos espíritos podia falhar. diri­ gindo-se ao filho: — Jeosif! Que sonho é esse que tiveste. Na verdade. Tem vergonha! Para o juízo bumaino. Agora restava. filhos de Zelfa e de Bala! Ditas estas pailavras. que o efeito. timidamente. Que dor de ail-ma-. Ser conciso tinha a vantagem de dizer tudo depressa. — Sei um sonho que tive esta noite. — Sim. se por fim o próprio Jacob não se tivesse benèvolamente informado: — Mas como é isto? Disseram-me que. custara-lhe muito. Mas se Gad perguntasse «se estava tudo dito». apesar de estar com a cabeça no regaço do pai e com a presença dele sentir as costas quentes para dar à taramela. -—reatou.seria o mesmo. Mas este admirava-se de que não se manifestasse a sã familiaridade que.. Mas no meio do silêncio houve um rumor sinistro. e ficareis assombrados. acelerado. Todos estavam calados. Jacob olhou em redor. ver que tu. Que eles também reflectissem nisso. — Como de outras vezes nos saíam dos lábios com facilidade! Não saberá um de vós ailgo de inédito? — perguntou. Ninguém se mexeu. e quem tem mais senso do que tu não se deixará induzir a castigair-te com severidade pela tua mailuquice. — Sonhei — repetiu arque­ jante— e vi em sonho. O Sol. costumais contar anedotas e sonhos. o que tu disseste é uim disparate tal que poderias perfeitamente balbuciar «aulasaulaialcaula». Adeus. Talvez fosse o respeito que os impedia. fizessem agora o que quisessem. dada a pobreza da narrativa. — Eu sei uma coisa — disse.. Jacob. Viu o que esperava ver: dez pares de olhos cravados nele. pai e irmãos.. e . era só pelo facto de José não lhe ter confiado. desaforadamente.sonhas coisas tão desonestas. A maioria rangia-os com os lábios cerrados. misterioso. E com a maior rispidez possível disse. Abaixou a cabeça. excitado. se a tua tagarelice não fosse demasiado infantil. eu. Até José se con­ servava calado. levantando a cabeça do regaço paterno e pondo-se sério. Jacob ouviu o rangido. ele seria um rapaz vencido. Domi­ nou-se. fazendo papel de tonto diante do teu pai e dos teus irmãos. com a cabeça deitada sobre o ombro. de sonhares e nos contares coisas absurdas? Havemos de adorar-te. Os irmãos fitaram-no sem dizer palavra. Vi o Sol. pois o aborrecimento de todos era tail que corria o risco de voltarem ao trabalho antes de tempo. hirtos e taciturnos. José tinha medo. Podia contá-lo numa frase. segundo as palavras de José. Nos seus membros houve uma certa mudança. filhos de Lia! Eu vos saúdo após a refeição. que o olhar dos filhos lhe arrancara. correndo com os olhos à roda. perplexos. conservava severamente o Í22 olhar no chão. Eram os irmãos que rangiam os dentes. estava apreensivo comi o sonho e com o sucesso do sonho. a Lua e dez Kokaibim prestarem-me homenagem. É este o casitigo que te dou! E ainda te castigaria mais duramente e talvez te agarrasse pelos cabelos. Pescoço e braços estre­ meciam espasmòdicamente e os braços retorciam-se. e então? Todos se mantiveram calados. Vinham e inclinavam-se diainte de mim. com dezassete anos feitos e apesar da instrução que te mando da. tua mãe e teus irmãos? Tua mãe morreu —começa aí a insen­ satez. o pai. Mas talvez ruem mesmo essa contingên­ cia o decidisse ai falar. se não fosse possível desenvolvê-lo.. Sonhei. por intermédio de Eliezer. mas ainda falta muito para que acabe. era característica da hora. Não é certo que José o tenha perce­ bido. Dissera o que lhe cumpria. selvagens e insistentes. modesto e olhando com ar contemplativo na sua frente. levaintou-se por trás de José e retirou-se. a Lua e as estrelas tinhaim-lhe prestado homenagem. anedotas e sonhos! — gritou José. o sonho e ter caído na Í23 . criou coragem. decentemente vestidos em aten­ ção a Jacob. Por pouco não deixava passar a ocasião de dar o golpe.esperar que os rapazes ficassem satisfeitos com ela. ainda não fizeste progressos na compreensão de Deus. isto vi eu. porque sorria. A invectiva-. Se ma sua reprimenda havia verdadeira cólera. uma contorção inquietam-te. O seu coração batia. o -meu servo mais velho. e que quer isso dizer.r de coisas escritas e ati­ nadas.todos sentados. mas Simeão e Levi chegaram a arreganhá-los. Deveis ouvi-lo. antes que alguém o percebesse e o quisesse interromper. só a ele.

com inocência e sem aperceber do alcance. pois não o adorava ele? Se se perguntar que fizeram os irmãos.tolice de o quener contar cm frente dos irmãos. de adorar aquele atrevido. Custava-lhe ouvir isto. Num lugar onde se tinham tais sonhos e era possí­ 124 vel contá-los sem correr outro risco senão o de ser talvez. porque Jacob.traição. mas também os outros quatro. não os veria mais. Mas não receavam causar-lhe mágoa. vamo-nos—disse. O chefe era o grande Rúben. Quaimto ao campo de Hébron. E se o filho tivesse a intenção — pensava Jacob—de colocar o pai em situação emba­ raçosa. do paii. para o exílio voluntário. a única resposta possível a semelhante aibomínio. só a custo conseguia afugentar da barba um comovido e extático sorriso por aquela . Na mesma tarde procuraram Jacob para lhe comunicar que se iam embora. não queriam ficar. Paii fraco! Bem poderia afligir-se ante a perspectiva de ter. tanto a ira como a angústia. Deus não estava envolvido ma questão do sonho. comparadas com a satisfação terna e semiorente que lhe enchia a alma pelo arrogante sonho de José. fidelidade. como era notório.. manifestados em sonho. na pior hipótese. Como os prados de Siquém eram bons e ricos. De modo absolutamente despropositado. não passavam de emoções débeis.. E o velho quase chorava de comoção quando reflec­ tia que talvez ima visão que o seu querido filho. embora não reconhecida!. dava dez por uim. em respeitosa despedida. fosse levada a mal no sítio onde estava o modelo? 125 . ele e os demais. não só os seis. Começaria ele a temer que a exce­ lência de sentimentos. rogava a Deus que aquele sonho fosse mandado por Ele. agarrado pelos cabelos. não poderia começar melhor do que tiinha começado. estavam contidos verdadeiros pressentimentos de futura grandeza. disseram. como era provável. Bem percebia que o finório se servira dos irmãos como anteparo contra eüe e dele contra os irmãos. que transpirava da sua descompostura. Dirigiam agora os seus passos para Siquém. acres­ centaram. terminara graças ao seu rigoroso auxílio. o senhor. Ele indicou o que haviam de fazer. nem sequer descontentamento com a sua ida. diremos que se levantaram como uim só homem e procuraram imediatamente o ar livre. Após umas violentas passadas pelo camipo. «para que não suceda uma desgraça.» Pensou. que se comprazia em imitar. Todos: os dez. «Afastemo-nos de José». À volta para casia.. E sendo sincera a preocupação. revelara pouco antes. pensava. ambas. já que não lho pudera dizer na própria ocasião. Jacob baixou a cabeça.. e com isso não se perdia nada. mas não o disse. num lugar destes. sobretudo porque ali se tinham sonhos que ofendiam a honra. pela sailvação da alma do filho e a aflição pela tendência deste para o sonho e a disposição para o espasmo. aí apascentariam os rebanhos paternos com inalterável. Inclinavam-se e curvavam-se. detiveram-se para urna breve e agitada discussão. e apresentou a sua proposta como um protesto altivo e mortificante. Se. A colheita. logo que Jacob se reti­ rou. Isso mesmo lhe havia de dizer quando estivessem sós.—Vamo-nos todos embora da casa paterna. disseram (e fizeram-no realmente) diainte dele. Esta será — acrescentou — uma manifestação digna e impressionante da nossa parte. — Vamo-nos. a sua súplica era urna incongruência.

como um tronco desfolhado. do pior abrasamento solar sobre a Terra. o afastamento deles. No seu coração ele dava realmente «dez por uim». Mas era diferente fazê-lo na realidade e ter agora de contar com o facto.5 JOSÉ PROCURA OS IRMÃOS A EXIGÊNCIA de ver que Jacob baixara a cabeça quando os filhos. contribuir para o seu abatimento e ajudá-lo a dar a si próprio a explicação desse abatimento. o verdadeiro motivo de tal desalento era a manifestação unânime dos filhos. Depois disso rara­ mente a ergueu. Embora fosse a altura do ano em que a mulher legítima o presenteara certo dia com José. não causara. Isto contundia principalmente com a sua dignidade. o espírito de Jacob costumava sofrer muito na abrasadora desolação desse quarto da revolução plane­ tária. A decla­ ração formal da desunião por parte dos irmãos demonstrava irniludivel mente que ele. Porém. exasperados. em vez de ficar com dez filhos. poÍ9 chegava o momento em que o Sol começava a desaparecer. caso de que seria dizer muito aifirmaindo que causara grande mágoa a Jacob. Aproximava-se a estação da secante ardên­ cia. A estação podia. portanto. no mês de Tamuz. Não. abandonaram o lar paterno. e só de pensar em tal se sentia num inquie- A cabámos 12 7 . ficava com dois.

mesmo os filhos das não amadas. o maluco. pelas suas conse­ quências. a discórdia fora pro­ vocada pela loucura de José. Censuraivasse enquanto censurava José.—Tenho andado a . por meio de um ser amimado com a sua fraqueza. de olho6 fechados e cofiando a barba. e isto significava que aquele que pretendesse ocultar fosse o que fosse só se enganava a si mesmo. Efectivamente. como miandaiva Abraão. Alegrava-se de ser chamado porque. Perguinitava a si próprio se não assu­ mira uma grande responsabilidade oam relação aos desígnios da promessa divina. e para que ele expiasse um pouco e também expiasse o seu próprio coração. para constituir uma petulância cul­ pável. como ele do coração dese­ java? Contra o desejo do seu oaraição. mas embora Jacob andasse por caiusa disso zangado com o filho. De que servia não se acusar? Deus sabia tudo e de Deus nada se podia esconder. O seu cora­ ção.. dera origem a um grande mal. cedia a uma incli­ nação sentimental obstinada e que essa eleição. precisava de o tratar com uma certa dureza. saibia: muito bem que só a ele próprio e a ninguém mais essa loucura se podia imputar diante de Deus e dos homens. o rapaz não passara de um intermediário. depois da partida dos irmãos. A fim de se impor ao filho.tante embaraço perante Deus. Para honra da verdade. aquela última reunião dei­ xara uma sensação de mafl-estar. — Escuta — disse Jacob. Assim parecia suceder. parque o verdadeiro culpado era o afectuoso coração de Jacob. acorrendo. Par isso. e não eram todos. Não tinha o Senhor sabiamente impedido que Jacob só fosse fecundo com Raquel. bastava que estivesse em conflito com os vastos e inde­ terminadas planos de Deus. Tail foi o exame de consciência que Jacob fez depois da colheita do trigo e que determinou as suias resoluções. fruto da bênção e portadores do infinito? Jacob via perfeitamente que. tendo visto o rapaz de longe. Se tinha sido uma desgraça. o pai quase não falaira com ele. e mesmo nele. não o tomara Ele numeroso por meio da astúcia de Laibão. Devia vencê-lo e remediar o mal peio mesmo meio. cheia de pressentimentos. elegendo José. mostrando-se propositadamente dis­ traído. chamou em torn bastante seco: — José! — Aqui estou! — respondeu José.

E se a memória me não falha.pensar. eu ter resolvido confiar-<te esta missão. A miim também me parece que assim é. uma vez. Não sei como vão as coisas por aquelas bandas.. nem tenho a menor notícia dos filhos das escravas.-2. Os teus irmãos mais velhos não estão guardando todos juntos os rebanhos no vale de Siquém? — Decerto. e é chegado o momento de te tratar com certa dureza. Não ser nada a respeito dos filhos de Lia. bateu no chão com os calcanhares. bastam eles. pronto para partir. como que a pular. ignoro se estão exercendo em paz o direito de pastagem naquele distrito feudatário. entras agora no décimo oitavo ano da tua vida. Isto preocupa-me. nada sei. com a ajuda de Deus. s. voltes para junto de mim. — Assim é — confirmou Jacob — e par isso te chamei. — Aqui estou! — gritou de novo José. vou ter com os meus iirmãos. Daí. Sorrindo e mostrando os dentes alvos. sem terem neces­ sidade de um criançola. — Calculando aproximadamente — continuou Jacob—. era isso mesmo que eu pedia! — Não vads ver se tudo corre bem onde estão os teus irmãos — advertiu Jacob. e me conites tudo. se a bênção de Yitzchak desceu sobre as crias das ovelhas. Para mim. teus irmãos.. Da saúde dos meus filhos. Depois. para que te atfastes de mim por algum tempo e fiques com os teus irmãos a fim de te informares de tantas coásas que não sei e paira que. até vai ser um divertimento! Se eu pudesse pedir alguma coisa à vontade. ou se a ronha e a inchação estarão dizimando o gado. — Pranto! — disse José cam entusiasmo. de pôr à prova a tua virilidade. % 129 . olhou o pad e. — Para ver isso. nada oiço. i. E decidi mandar-te lá para os sau­ dares em meu nome.° v. acontecimentos graves. O que deves é inclinar-te diante deles com graça e boas maneiras e dizer-lhes: '«Fiz esta jomada de alguns dias para vir 9-j. vejo se corre tudo como deve ser no vale de Siquém. não é com essa intenção que te mando lá. onde estou lembrado que se deram. passados uns nove ou dez dias. quiseram ir todos para Siquém apascentar os rebanhos naquelas terras gordas porque o vale daqui não chega paira alimentar toda a tua malhada. — As ideias do meu paázinho são preciosas! Faço a viagem por aí fora.

e via perfeitafnente que se aqui se tratava de exigir de alguém urna coisa difícil. Pelo contrário. da cega petu­ lância de José e da tristeza mortal dos irmãos. um animai manso e cauteloso. a humilhação exterior. ordeno-te que faças a viagem sòzimho. O papel que ele desempenhava não podia comparar-se com o de Rebeca. Ele não imaginava. fazendo conjecturas e tomando precauções. para a partida de José a primeira hora matinal. Devemos convir que a comparação era um tanto ousada. Nem o Eliezer te acompanhará. montado nela. de sorte que a Lua passe de foice a crescente sem que eu tc veja. É branca e bela. São uma espécie de exorcismo. Tudo quanto nos acontece é diferente do que se tinha imaginado. ao pretender que faças esta. montado oum burro branco. é tenaz. Disto ninguém duvida. José tinha de abandonar a casa. Jacob tinha em mira a cena junto ao vale de Jaboc e queria apressar a repetição. receoso. Os pequenos preparativos necessários à jornada de José desper­ tavam em Jacob a significativa recordação de dias fatais já pas­ sados.» Farás depois a viagem com outro qualquer. O seu papel era mais Í3Í . excepto com ele. continuaria o velho jogo que se compunha da fraqueza de Jacob. o ai-jesus estava pronto para a viagem causada pela discórdia fraterna. por assim dizer.saudar-vos. Ficas muito mais bem servido com a Hulda. Jacob cuidava de outras semelhanças. convicta de que não tomaria a vê-lo. O tema sofria várias modifi­ cações. tal como acontecera no seu tempo. e dirás a teus irmãos: «Venho'sòzinho ter convosco. Mas dirás a teus irmãos: «O pai assim o quis. Finda a leviana tagarelice. a pobre recon­ ciliação aparente e cheia de reservas. por exem­ plo. tem ossos fortes. Mas esse burro mão to dou. é mais ardente que prudente. que conserva intacta a força primordial e retumbante. por iniciativa minha e também porque mo diisse o pai. porque o pai assim o quis. Seja como for. José pôs-se a dançar com o pai. — Essa alegria pela missão que te confio — replicou Jacob. digna de se ver quando passares. conduzindo fatal­ mente ao mesmo resultado. passado um 'momento — depõe a favor da tua virilidade e prova que não consideras uma estranha exigência minha que te afaste daqui durante ailguins dias. fixando. é o que eu desejo. esse alguém era ele e que só ele era aqui tratado com dureza. na verdade. Irás só. Parece-se com o meu irmão Issacar. Esse homem brando e digno estava muito longe de ter a decisão de Rebeca. Depois foi de corrida procurar Benjamim e Eliezer para lhes dar a novidade. Fosse como fosse. Quase se pode dizer que Jacob não esteve presente à despedida. no fundo.em mim. a reconciliação do que era irreconciliável. o atirava para os braços de Esaú. — Encarrega-me de tos trazer e confia. Não volto sem eles.» — Dá-me o Paroch para montar? Tem as pernas altas. que agia e não vacilava perante as con­ sequências. Admitia a possibilidade do malogro da missão de José. Além de ser teimoso. não fazia a mínima ideia do que lá no alto se entendia por «tratar com 130 dureza». Mas nem sequer lhe passava pela cabeça o terrível caso oposto. Recordava-se da sua partida de casa depois da troca da bênção que Rebeca organizara e tinha a sensação de que o facto se repetia. se algum dos teus irmãos te acompanhar. por causa da fúria dos irmãos prete­ ridos. Mas para que reconheças que pretendo algo de ti. Essa é que deves cavalgar. balançando a cabeça. assedia o destino. uma vez que a responsabilidade era sua? Passar alguns dias sem ver o filho parecia-lhe já suficiente expiação. já ficara pro­ vado à saciedade ser insustentável. por tua conta e risco. para saiber como estais. mãe heróica. Até este ponto traitava-se de uma repetição. pensando que ele poderia voltar sem os irmãos. impondo o embuste ao seu predilecto e mandando-o depois para terras distantes. Após a volta dos dez. e também teus irmãos o reconheçam. Também. Por isso o destino tolhe a força providente da imaginação e esta. que já tens idade para isso. todo satisfeito de poder viajar só e de ir ver mundo. entre o povo. daqui aos campos de Siquém. dirigindo a Jah palavras de júbilo. que conscientemente se sacrificara. Mas não deveria ser assim. O homem. assim. no entanto. Não te dou nenhum criado.» — Dás-me o Taroch? — Vontade tenho ou de te traitar com dureza. antes do nascer do Sol. — Eu cá me arranjarei — prometeu José. pois ambos tínhamos o mesmo desejo. O que ele pretendia obter com a missão de José não era senão restabelecer uma situação que.viagem. ou todos. I/icob seguia-o com os olhos. Mas ele não fugia à fúria. conta com tudo. era Jacob que.

o de Rebeca, o de mãe. Apertou demoradamente ao peito o filho
que partia, segredou-lhe ao ouvido palavras de bênção, tirou um
amuleto que costumava trazer consigo para lho pendurar ao pes­
coço, apertou-o de novo mais a si, fazendo tudo como se José
partisse para uma longa viagem ou para sempre, de dezassete dias
ou mais até Naarim, em regiões selváticas, ao passo que o rapaz,
munido exageradamente de provisões de boca, se dispunha, exul­
tante, a dar por estradas seguras um pulo até Siquém. Por aqui se
vê como um homem pode agir desproporcionadamente em relação
à sua consciência, enquanto o seu procedimento, no que respeita
ao destino, do qual ele não tem consciência, é mais do que justo.
Que isto nos sirva de conforto quaindo viermos a saber coimo as
coisas estavam destinadas. Nunca nos deveríamos despedir de ânimo
leve pnra, ao menos, em tais circunstâncias podermos dizer a nós
próprios: apertei-o tanto ao meu peito!
Ocioso é acrescentar que essa despedida na manhã da viagem,
ao lado de Hulda, carregada de bagagem e enfeitada com flores de
lã e missangas multicores, era só uma última, despedida, já precedida
de muiitos conselhos, recomendações e advertências. Jacob ensinara
ao rapaz o caminho e suas paradas com a exactidão que podia;
aconselhara-o com desvelo maternal a não se agasalhar de mais,
nem se pôr demasiado à fresca; dissera-lhe os nomes de homens e
de correligionários das diversas localidades em que o viajante acaso
pernoitasse; proibira-o terminantemente de entabular conversa com
alguma das iniciadas afectas a Achera, quando chegasse a Ursulim
e lhes avistasse as casas perto do templo de Baal; e sobretudo insis­
tira em que se portasse com a maior cortesia com os irmãos, ajun­
tando que não seria mau se se prostrasse sete vezes diante deles
e os tratasse muitas vezes por meus .^nhores. Talvez que assim
condescendessem em comer com ele no mesmo prato e em não se
apartarem dele por toda a vida.
Repetiu várias dessas instruções Jacob-Rebeca ao dizer o
último adeus, antes de permitir que o rapaz montasse na mula e
partisse para o Setentrião, dando estalinhos com a língua. Sempre
a falar, Jacob percorreu ainda um trecho do caminho ao lado de
Hulda, desperta com o ar matinal, mas não pôde por muito tempo
acompanhar-lhe o trote e teve de desistir, parando, com o coração
132

mais pesado do que era conveniente. Lobrigou um último lampejo
nos dentes do filho, que se virara sorrindo-lhe, e ergueu a mão na
direcção dele. Depois a curva privou-o da figura do seu José caval­
gando um animal.

JOSÉ V I A J A V A R A SIQUÉM
Já não visível aos olhos paternos, mas sentindo-se deliciosa­
mente à vontade e a sós, José trotava bem sentado na garupa da
montada, esticando para a frente as ágeis pernas morenas e ati­
rando o busto afoitamente para trás, à luz suave do Sol matutino,
pela estrada que ia dar a Beth-Lachem através da região monta­
nhosa. Seguia numa disposição que se ajustava perfeitamente às
circunstâncias evidentes, e se o pai dera exagerada importância à
despedida, ele levava tudo com alegre indulgência e carinho, não
sentindo nenhum peso no coração por ter, nessa primeira separação,
pregado uima partida aos cuidados paternos.
Jacob fora muito minucioso nas instruções aicerca do compor­
tamento do viajante, não tendo havido regra nem advertência que
ficasse esquecida. Só uma coisa omitira: por estranha e não de todo
inocente interrupção de pensamento, esquecera-se de uma exortação
indispensável e quando deu pelo lapso ficou apavorado. Não lhe
tinha dado ordem para deixar em casa o véu ketonet e José apro
veitara-se astutamente dessa inadvertência. Levava-o consigo. Tão
vivo era o seu desejo de se mostrar vestido com aquele traijo ao
mundo distante, que tremera literalmente só de pensar que a proi­
bição ocorresse ao espírito do pai no último momento. É até possí­
vel que, neste caso, mentisse e declarasse ao velho que o sagrado
bordado estava na arca, quando na realidade o tinha escondido no
meio da bagagem. Do lombo da muar, a Hulda, branca como leite,
airosa criatura de três anos, inteligente e complacente, embora
propensa a alguma inócua brincadeira, com aquele humor como­
vente que às vezes transparece da sua natureza fechada, com elo­
quentes orelhas aveludadas e a crina que lhe cai lanosa e cómica
sobre a testa e daí para os enormes olhos alegremente mansos,
cujos cantos se enchem de marcas com grande rapidez —, do lombo
Í33

dessa Hulda pendia de um lado e de outro toda a matalotagem:
o odre de cabra- com o leite leve e ácido parai tirar a sede; cestiinhos
tapados e potes de barro com bolos de sémola e frutas, pepinos,
azeitonas salgadas, cebolas e espigas assadas, queijos frescos. Tudo
isto e mais ainda se destinava a restaurar o viajeiro e a presentear
os irmãos, tendo o pai verificado tudo meticulosamente. Só num
recipiente que noutros tempos constituía o artigo de viagem mais
vulgar, ele não pusera os olhos: uma pele redonda, que servia de
toalha ou melhor de mesa, com argolas de metal cosidas à bainha.
Até os beduínos do deserto se serviam desse artigo nas suas jornadas,
sendo precisamente eles que o haviam introduzido no uso comum.
Através das argolas passava uma cordinha e essa mesa de refeições
era pendurada à laia de alforje na sela do animal. Assim fizera
também José. E na mesa-alforje escondera com malicioso prazer
o famoso véu.
Para que lhe pertencia ele, se durante a viaigem o não pudesse
vestir? Nos arredores toda a gente o conhecia, quer nos campos,
quer nas estradas, e o chamava alegremente pelo nome. Mas hoje,
a aílguimas horas de distância, onde já não o conheciam, convinha
não mostrar, só com a abundância de mantimentos, que quem
passava era uma pessoa fina. Por isso, tanito mais que o Sol estava
agora rompendo, José tirou do alforje o trajo pomposo e ataviou-se
com gosto, cobrindo também a cabeça, de modo que a coroa de
mirto, que traziia. como de costume, já não repousava sobre o cabelo,
mas sobre o véu que lhe emoldurava o rosto.
Nesse dia não alcançou a localidade para a qual se adornara
e onde, consoante as comovidas injumções de Jacob e seguindo
o seu próprio impulso, tencionava deter-se x>ara fazer sacrifícios
e adorar. Contudo, de Beth-Lachem, onde encontrara agasalho em
casa de um amigo de Jacob, um carpinteiro crente em Deus, faltava
só uma vereda para lá chegar. Mas na segunda manhã, depois de
se despedir do dono da casa, da mulher e dos operários, José chegou
depressa àquela locailidade, deixando Hulda à espera debaixo da
amoreira escorada, enquanto, trajando a veste de esposa, rezava as
suas orações e fazia libações junto à pedra que um dia ali fora
erigida para lembrar a Deus o que Ele uma vez fizera naquele
mesmo lugar.
134

Nos vinhedos e nas parcelas de terra cultivada entre penhascos
reinava um silêncio matinal, e na estrada de Ursulim não havia
ainda o habitual vaivém. Uma leve brisa brincava descuidadamente
na folhagem da árvore. A paisagem estava calma e o lugar onde
Jacob sepultara outrora a filha de Labão acolhia sereno as ofertas
e as homenagens devotas do filho. Este levou água para junto da
pedra, depôs ali pão de passas, beijou o chão onde se extinguira
uma vida cheia de boa vontade e levantou-se de novo para, de mãos
erguidas, dirigir ao Céu fórmulas de adoração com os olhos e os
lábios que herdara da extinta. Das profundezas não obteve resposta.
O passado calava-se, confinado na indiferença, incapaz de preo­
cupações. O que a.li existia do passado era ele próprio, que trazia
a veste nupcial dela e volvia ao Céu os olhos dela. Não deveria
adverti-lo e admoestá-lo o ente materno, da mesma carne e do
mesmo sangue em que ele vivia? Não, ela estava ali confinada por
uma cega e amimada loucura juvenil e não podia falar.
José continuou pois de bom humor o seu caminho por estradas
e veredas íngremes. Era a viagem mais bela do mundo, nenhum
contratempo, nenhum incidente imprevisto lhe toldava a ailegria.
Não que a terra tivesse saltado ao seu encontro, mas estendia-se
agradável na sua frente e onde quer que ele chegasse enviava-lhe
cumprimentos festivos através dos olhos e das bocas das pessoas.
Depois do longo caminho percorrido já não havia ninguém que o
conhecesse pessoalmente, mas o seu tipo era extraordinàriamente
popular naquelas zonas e a sua- aparência, realçada pelo véu, cau­
sava uma impressão favorável em todos que o viam, sobretudo
nas mulheres. Estavam sentadas, sob um sol ofuscante, amamen­
tando a ninhada junto dos muros esburacados das aldeias, feitos de
argila e estrume, e o prazer que elas sentiam com o sugar dos peque­
nitos tornava-se mais intenso com a vista do formoso mancebo que
passava cavalgando.
— Saúde, menina dos meus olhos! — gritavam-lhe. — Bendita
seja a que te gerou, ó predilecto!
— Felicidades! — respondia José, mostrando os dentes alvos. —
Possa o teu filho comandar muitos!
— Obrigada! Obrigada! — iam-no acompanhando as vozes. —
Í35

Astaroth te proteja! Pareces uma gazela!—Todas, com efeito, jura­
vam por Ac hera e não tinhaim em mente senão o seu culto.
Graças ao véu, e graças também ao riquíssimo farnel, havia
quem chegasse a reputá-lo um deus e se mostrasse inclinado a
adorá-lo. Isto, porém, sucedia em campo aberto e não nas cidades
muradas, como Beth-Chemech, Kirjath-Ajin, Kerem-Baalat e outras.
José parava nas fontes e nas praças em frente das cidades a con­
versar com as pessoas, e logo se juntava muita gente à volta dele.
Deixava-as embasbacadas com o seu saber, muito ao gosto dos
habitantes de uma cidade. Falava-lhes dos inumeráveis milagres
de Deus, dos Eons, dos mistérios do pêndulo, dos povos da orbe
terrestre. Contava-lhes também, para os lisonjear, o caso daquela
rapariga de Uruk que convertera à civilização o homem da floresta.
E em tudo exibia tanta graça de palavras e maneiras tão agradáveis
que entre si diziam que ele podia muito bem ser Mazkir de um
príncipe da cidade ou historiador de um grande rei.
Ostentava conhecimentos linguísticos adquiridos com Eliezer,
falando heteu à porta da cidade com um homem de Chati, mitano
com um do norte ou trocando algumas palavras de egípcio com
um negociante de gado do Delta. O que ele sabia não era muito,
mas um homem inteligente diz mais coisas com dez palavras que
um estúpido com cem, e dava a impressão de um maravilhoso
diletantismo poliglota, se não ao interlocutor, pelo menos a quem
o escutava. Uma vez interpretou a uma mulher, junto do poço, o
sonho horrível que ela tivera: parecera-lhe que o filhinho, rapazito
de três anos, se tornara de repente mais alto do que ela e já lhe
crescia a barba. «Isso significa», disse José pondo os olhos em alvo,
«que o teu filho te deixará em breve e que o tornarás a ver, mas
só passados muitos anos, quando já for homem e tiver barba...»
Como a mulher era muito pobre e se veria provavelmente forçada
a vender o filho como escraivo, a interpretação não era inverosímil.
E aquela gente admirava a união da beleza com a sabedoria' que
o jovem viajante personificava.
Era sempre convidado por várias pessoas, em cada lugar onde
parava, para ser seu hóspede durante uns dias, mas ele não perdia
mais tempo do que lho exigia a delicadeza e, tanto quanto lhe era
possível, seguia o itinerário traçado pelo pai. Das três noites que
Í56

dividiam os quatro dias de viagem, passou uma em casa de um
homem que trabalhava em prata, chamado Abisai, que fora certa
vez procurar Jacob. O artífice, embora não seguisse exclusivamente
e incondicionalmente o Deus de Abraão, sentia uma forte inclinação
por Ele, e como fabricava ídolos com o metal da Lua, desculpava-se
dizendo que, enfim, era preciso viver. José concordou, como um
homem habituado a ver mundo, e dormiu debaixo do seu tecto.
A terceira das curtas escuridões, passou-a ao ar livre, num bosquezito de figueiras, onde se deitou, porque durante o dia o excessivo
calor obrigara-o a parar e já ali chegara demasiado tarde para pedir
pousada. Mas a última coisa aconteceu-lhe no fim, quando já estava
próximo da meta. Derreado pelo sol, passara as horas quentes do
quarto dia a repousar e como adormecera debaixo das árvores e só
ao cair da noite se pusera de novo em movimento, sucedeu ser já
a segunda vigília quando chegou ao pequeno vale de Siquém. Mas
assim como a viagem decorrera favorável até àquele ponto, assim
se tornava agora uma coisa louca, diabólica. Daí por diante, desde
que entrou no vale e avistou à luz da Lua, que ainda navegava
como uma barca côncava, a cidade com o castelo e o templo nas
abas do Garizim; desde esse momento nada lhe corria bem, só tudo
mal, tudo ao invés, a tal ponto que José se sentiu tentado a rela­
cionar a reviravolta do destino com o homem que encontrara de
noite em frente de Siquém e que se lhe oferecera para o acom­
panhar na última etapa que precedeu a súbita mudança.

0 HOMEM NO CAMPO
Lê-se que andou vagueando pelo campo. Que significa aqui
«andar vagueando»? Teria o pai exigido dele de mais e teria o
jovem José feito tão mal que errasse o caminho e se perdesse?
Não. Andar vagueando não quer dizer perder-se, e se uma pessoa
procura o que não há, não é forçoso que erre o caminho para
não achar. José passara vários anos da sua infância no vale de
Siquém, não sendo novas para ele aquelas bandas, conquanto
as revisse como em sonho e embora só de vez em quando rompesse
a noite um pálido luar. Não se perdeu. Procurava. E como não
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— Como é possível? Ao saírem de casa. — Tens assim tanto desejo de os ver? — Decerto. a busca resumia-se a um labirinto no vazio. como meu pai me mandou. só porque era um ser humano. a pergunta teria partido de José. ouvi dizer aos teus irmãos: «Ora vamos até Dotan com uma parte do rebanho. inclinou-a com certa afec­ tação sobre o ombro e olhou para José com desgraciosa cortesia. e muito insignificante o espaço entre o nariz Í38 e a pequena boca vermelha. — Que estás dizendo? És então um mensageiro. e o outro achava-se agora ao seu lado. O nariz era grande. e pensava: «Onde estarão os meus irmãos?» Ele bem topava com currais onde as ovelhas dormiam de pé. sobre o pescoço um tanto grosso. É a minha ocupação. José andava de cá para lá e de lá para cá na ondulante planície sobre a qual se debru­ çavam os montes ao incerto bruxuleio das estrelas. Quando passei por cá. em ondas oblíquas. que me digas onde eles param. E também sou guia. — Guia? — Sim. meu caro. assim. cobria-lhe uma parte da testa até às sobrancelhas. O «caro» homem não se espantou com a candura do pedido. um manto. Na noite silenciosa. ver meus irmãos. deixando os joelhos livres para caminhar. Não. ouviu uma voz de homem a interrogá-lo. Não era ainda pròpriamente um homem no verdadeiro sentido da palavra. Não se apercebera dos passos atrás de si que o haviam alcançado. muito íntimo deles não sou. como resulta quando se pestaneja sem querer. E o cabelo castanho. Voltou a cabeça. Acrescente-se que o rapaz estava também com a cabeça muito cansada e a sua alegria por ter encontrado uma pessoa nessa noite endiabrada de inútil vaguear foi tão grande que logo tornou o homem objecto de uma confiança ilógica e candidamente deferente. — Está bem. Usava uma túnica de pano. — Então dize-mo. Quero chegar ao meu destino. Sabes onde eles se encontram? — Penso que sim. conduzindo o animal pelo cabresto. direito. sem mangas. A cabeça. solida­ mente conformado. nem nas proximidades. Peço-te. atirado para trás. Se tivesse vindo ao seu encontro. para variar um pouco. — Por aqui não? — repetiu o rapaz. e uma expressão vaga e sonolenta. perplexo.encontrava. com dois olhos não feios mas pouco abertos. No vale de Dotan Í59 . Calçava sandálias e trazia na mão um cacete que manifestamente cortara para usar na viagem. mas apenas uns anos mais velho do que José. E disse: — Procuro os meus irmãos. Apoiado no meu bordão faço muitas viagens como correio. Porque os procuras? — Porque meu pai me mandou ter com eles e ver se as coisas correm bem. Os braços eram arredondados.» — Até Dotan? — E porque não? Apeteceu-lhes e foram-se. Eu também sou. Guio os viajantes e abro-lhes os caminhos. embora mais alto. Nem 9equer tentou demonstrar a insuficiência de dados e respondeu: — Por aqui não. — Pareces saber que os meus irmãos não estão aqui. José. mais esguio. em proporção parecia pequena. Mas. Não exagero.1 que caía em dobras amplas por baixo do cinto. mas descorados e bastante franzinos. De súbito. declararam com tanta segurança que vinham todos juntos para Siquém! Conhece-los então? — Vagamente — respondeu o companheiro. foi o outro que inter­ rogou: — Quem procuras? Não perguntou: «Que procuras aqui?» mas simplesmente: «Quem procuras?» e pode ser que a maneira incisiva de indagar tenha provocado a resposta um tanto pueril e irreflectida de José. Via-o muito bem. Por isso te falei e te interroguei quando vi que andavas perdido. — Apenas o bas­ tante. mas a cavidade abaixo da boca era tão branda e tão fortemente acentuada que o queixo destacava-se como um fruto esférico. mas não tinha a certeza de serem as de Jacob e não havia ninguém para o informar. observava-o de lado. e sobre o ombro. Parecia estar em situação de não curar daquilo. há alguns dias.

o melhor amimai das cava­ lariças de Israel. e José caminhava ao lado. e na verdade por motivos imprevisíveis. se quiseres. Serás o filho predi­ lecto da mamã? — Não tenho mãe —replicou José. Vai a Dotan. E já que falamos de nomes. Já que dormiste de dia à sombra das árvores. pelo contrário. fazendo mais uma vez girar as pupilas dos olhos — agora me lembro de que estou montado na tua mula. mas o arrependimento não dava a impressão de ser completo e espontâneo. porque sou mais velho. — Então és o benjamim do pai. Se quiseres. arrimado ao meu bordão. levo-te. aproveita a noite para alcançar o teu fim. Não dava esta impressão. Bonita vitória. disse-lhe: — Mas se é o seu nome honorífico. conquistado em dura vitória perto de Jaboc! — Acho ridículo — retorquiu o outro — falares em vitória. Parecia ter-se arrependido da descor­ tesia. — Como sabes tu que eu dormi à sombra das árvores? — Desculpa. ao lado de Varoch. Agora encontro-te aqui. — Nem eu — disse o outro. — Ou uma noite. parecia susceptível de se transformar de um momento para o outro em irritado mau humor. caso para isso. mas vi-te. com um trejeito de olhos que não só abriu desmedidamente. Se digo que o animal tem os jarretes defeituosos é porque os tem. E chama ao teu pai Israel. É um belo animal — comentou. e fica com um nome. Com como­ didade. — Mas é noite e estamos cansados. A propósito — acrescentou. E impróprio e irrita-me. e a minha observação escapou-me. — Deixemos essa conversa. isso é lá contigo. Ofendido com a proibição de tratar o pai por Israel. principalmente de noite. a Hulda e eu. sem pensar. de modo nenhum. O pai não mo descreveu. Que homem estranho. — Seria melhor — declarou — que não me contradissesses. Mostro-te a estrada para Dotan. da qual um homem sai com o quadril partido. Dá-lhe o seu nome natural e põe de parte as denomi­ nações altissonantes! Não era afável o homem. Admiras-te? — Não me admiro.ma fatalidade. Compram tendões. — A Hulda é. É absurdo. se te agrada. Para chegar a Dotan. porque também tenho de lá ir levar o meu recado e. Parece-me que estas duas razões chegam para perceberes. como fez girar ràpidamente mirando de esguelha e em redor — de resto. porque não é nenhuma maravilha. leite.o pasto é apreciável e os habitantes por lá são bons comerciantes. Em segundo lugar. como não a dera o seu pronto auxílio. Só os jarretes é que são fracos de mais. Antes de tudo. O desconhecido fez uma careta. fora ele o primeiro a saltar para cima da mula. De resto — disse de repente. — É muito simples. É justo. peço-te. José. É u. aproveito para te pedir que não dês na minha presença o nome de Israel ao bom do Jacob. Ninguém achou nunca que tivesse os jarretes fracos de mais. — Pareces não gostar — acudiu o desconhecido — de que uma coisa não aconteça logo segundo o teu desejo. e não é caso para te pores a defendê-lo como se tivesses feito a mula. por muitas razões. Aconselha-me antes o que devo fazer agora. Ou não seria apenas intuito do peão ter uma montada que o levasse a Dotan? Realmente. apeio-me e tu sobes. se bem me lembro. Estava tão certo de encontrar aqui os meus irmãos. mas não com o nome daquele com quem lutou. era amável por natureza e 140 Í4Í . porque dependes de mim para ires ter ao sítio onde estão os teus irmãos. observando Hulda com os olhos insuficientemente abertos e uma expressão tão des­ denhosa que estava em contradição com as suas palavras. — Não conheço o caminho de Dotan. a coxear para o resto da vida. conduzo-te pelo caminho mais curto. há ainda muito que andar. Passei. — Belo como o dono. dando a impressão de não corresponder a um impulso próprio. é ainda um dia> de viagem. de graça. quando não é. Podemos alter­ nar-nos na sela. irritado. por onde tu estavas e deixei-te atrás de mim. visto que não podes fazer outra coisa senão chegares-te ao pé dela e chamá-la. logo que se tinham posto em movimento. de falar por cima do ombro. — Alegra-te pois — replicou o homem — por me teres encon­ trado. A sua insossa cortesia. A tendência para o mau humor estava em contradição com a rapidez com que se oferecera para mostrar o caminho a quem o procurava e de ceirto modo até a anulava. Sou guia e. lã.

mas fugaz. mas sem a arca da salvação. nem uma nem outra existiriam. Mas basta airranhá-la um pouco para ver como a salgada caldivama esguicha rubra. porque todo o modo de falar languidamente irritado do seu guia era o de uma pessoa arrogantemente descontente com os homens e atormentada pela necessidade de ter de se incomodar com os negócios existentes entre eles. aliás. — De guarda? — Sim. porque ninguém me garante que eu não tenha. bem sabem. para se poderem distinguir. José respondeu: — Quase sempre nos sorrimos. 143 . metida no cinto. Í42 — Por isso sorriem para ti e tu correspondes. concordo. de toda a abominação da carne. Esta geração é repe­ lente. cá para nós. e se ao pé de uma coisa não existisse a con­ trária. guia. acabarão por cair. há aqui em jogo muito interesse incompreensível. para finalmente o sepultarem na caverna. faz-se o que calha. Criaturas como tu são um engano resplandecente. sabes que muitos mensageiros são mandados em diversas direcções pelos grandes senhores do Oriente e do Meio-Dia. havia de ser também no interior. para poderem chorar-lhe a vida. tens direito à minha montada. no fim. Segue. por toda esta terra — replicou o homem. arrebitando o queixo que lembrava um fruto redondo e olhando por cima do ombro aquele que caminhava a seu lado. feito de madeira de oliveira. sol­ tando lamentações. Agora preciso de levar a Dotan uma carta que trago aqui. E respondeu: — Visto que me guias e por bondade me abres o caminho que me leva ao pé dos meus irmãos. assim como os dentes que são agora brancos. e não cheio de visco e imundície. ou outro sítio qualquer. pintam-lhe cha­ gas vermelhas. — Quanto à injustiça. E quanto mais se profunda. maciço. Aí está: ou é ilusão a vida. enganando-se a si mesmas. não é sangrento nem exalante. Sem riqueza não haveria pobreza. não fazes mais do que o teu dever. Mensageiro. guarda. Caminhaste todo o dia. por exemplo.. Estes olhos não passam de uma gelatina de sangue e água que. mas. de vigiar um poço. se isso nos dá gosto e se a gente se sente talhado para tal serviço. esse invólucro não seja apetitoso. Amas os homens? Fez esta pergunta inopinadamente. porque és notoriamente gracioso e belo — disse o outro. — Agrada-te andar em viagem como mensageiro? — Fiquei muito contente — respondeu José — quando meu pai me chamou. infeliz­ mente. os homens e eu. Mas a fim de parecer que não é maciço e que ainda sangra da mordedura do javali. e revezar-nos-emos daqui a bocado. é outra questão que prefiro deixar indecisa. bebe a injustiça como água e há muito que merece o diílúvio. — Diz o que quiseres. Farias melhor se lhes mostrasses uma cara triste e lhes dissesses: «Que quereis com o vosso sorriso? Estes cabelos. — Nem sequer se sabe ao certo quem nos manda. à vontade. de ser maciço. E a ti. portanto. O belo.. Na verdade. O recado passa por muitas bocas e pouco nos adianta querermos saber donde vem. Mas dei­ xam-se iludir por um instante de sorriso lisonjeiro. não as encontras ambas reunidas. Esse é belo também no interior. quem te manda? — Ah. de acoido com a vontade de quem manda. — Não—acrescentou depois de uma pausa. agradeço-te muito — ajuntou com -um leve encolher de ombros. porém José não se sur­ preendeu. Agora. como o belo deus. Não digo que essa pele. E se a estupidez desaparecesse. Como já disse. lembrando-lhes estas coisas que eles. ou a beleza. ao passo que eu pude cavalgar. mas. mais execrável é: reduz-se a fressura e mau cheiro. — Para falar com franqueza. de material nobre. com seus poros exail antes e pêlos a ressumar. assim como o conceito que se faz das maquinações iniciais que depois originam as incumbências. porque de quailquer modo temos de nos pôr a caminho.» Seria melhor se tu os desenganasses. — Sim. faz favor. para lhes confirmar a loucura. — Muito obrigado — respondeu o mocetão. se dissolverá e toda esta formosura da carne há-de encarquilhar-se e consumir-se. — Então — disse José — tens de te contentar com as imagens fundidas ou de talha. Há sempre dois objectos opostos. que as mulheres costumam esconder no bosque e depois procuram. mesmo assim. o gracioso. Mas vejo que tenho também de fazer o ofício de guarda. por exemplo. — Apre! — exclamou o guia. Sem vida não haveria monte. Mas repara que neste mundo tudo existe aos pares. sempre montado.seguia a nonma de que a melhor resposta para um despautério é redobrar de amabilidade. quero deixar sem resposta essas perguntas.

ele agora já podia descer. o seu objectivo é apro­ veitar a minha Hulda. porque sem mim. até aos filhos de Deus. admitindo que seja verdadeira. porque procuraram as filhas de Caim. o homem não pareceu de tão má matéria. vou dizer-te a razão por que os filhos da Luz assim procederam. como se constituíssem uma excepção. visto que lhe entregaram as filhas e das nasceram gigantes e poderosos. por um grande desprezo. Na minha opinião. — Que de historietas conheces! — comentou com ar zombe­ teiro. como esta agora de eu ter que te mostrar o caminho para que chegues ao teu fim. não há dúvida. ligado a um mínimo de futuro. O guia. Fala como homem»—pensava José sorrindo para consigo do costume que os homens têm de dizer mal da espécie humana e julgar o seu semelhante. sim. não sendo possível ver-se aquilo sem ficar escanda144 . Decididamente. Por isso objectou: — Achas mal a espécie humana. é claro.de que serviria falar de inteligência? Dá-se o mesmo com a pureza e a impureza. como saberias que és puro e quem te chamaria assim?» E o perverso diz ao bondoso: «Cai aos meus pés. é enfadonho de mais! José reflectia: «Mas porque me guia ele. armar em pessoa amável e depois amuar. Bem. continuamente. Sabes até que ponto chegara a corrupção das filhas de Caim? Andavam com as partes pudendas à mostra. desde já te digo. e sabe-se lá que mais se nos depara. se não fosse eu. — Para a tua idade. — Por isso é que eu desaprovo este mundo de dualidade e não compreendo a vantagem de conservar uma estirpe à qual só se pode atribuir pureza relativamente e por comparação.. essa história não tem pés nem cabeça. onde estaria a tua superioridade? — É assim mesmo. volveu a cabeça por cima do ombro oposto a José. Diz o animal impuro ao puro: «Agradece-me. Mas. tal qual — conveio o desconhecido. com a sua maneira afectada. este espirra-canivetes. numa coisa e noutra. Tínhamos combinado revezar-nos. estás em dia com os acon­ tecimentos. se lhe custa tanto? Não deixa de ser estúpido. porque. e homem e mulher eram como animais. mas tempo houve em que. Mas tem que se pensar e tornar a pensar. Foi por desprezo. Não. A libertinagem tinha ultrapassado todòs os limites.

Não sei se estás a compreender.. aquele género humano que eles deviam estimar em atenção a um empenho supe­ rior. quem guarda ou quem é guardado? Embora me custe. ao teu lado. de contrário talvez nunca tivesse vindo. guarda. não tendo.lizado. pelos caminhos. Mas quad é mais impor­ tante. e não o contrário. corre-se mundo e aprende-se muito. — Se assim não fosse. Posso assegurar-te que o dilúvio veio apenas porque o desprezo dos filhos do Céu pelo homem já se tornara lascivo. em suma. — Tens razão! — retorquiu o desconhecido. A sua lascívia consistia preci­ samente em calcar aos pés o pudor. IO-J. Quando se é mensageiro. Chegavam a ir nuas ao mercado. Se não entendes estas coisas. onde foi que as aprendeste? — Será que perguntas a Eliezer onde aprendeu as que te ensina? Sei desses casos tão bem como ele. Portanto.2. — Alegremo-nos com isso — disse José.— A conversar esqueço tudo. Foi o motivo decisivo. com a mãe. Por causa dele é que está aqui o guarda. veio depois a arca da salvação. não iríamos aqui palrando a caminho de Dotan e não nos serviría­ mos da mula ora um. para que chegues aonde estão teus irmãos. — Ora. e de outros mais. Se não soubessem o que é o pudor. 145 . com a mulher do irmão. Não era de perder a paciên­ cia? O homem fomicava publicamente. outra coisa em mente senão o gozo abominável do pudor ofendido. No entanto devo guiar-te e velar por ti. e Deus até as fizera muito pudicas. ora outro. guia. agora apeio-me e tu montas na mula. Mas posso acrescentar que-da parte dos filhos da Luz já havia a intenção de exigir o dilúvio. fazendo mais uma vez girar as pupilas dos olhos em redor e mirando de esguelha.° v. com certas reservas. Não devia tudo isto causar horror aos filhos de Deus? Procederam assim por desprezo. i. percebes? Tinham perdido todo o respeito por aquele género humano que lhes era posto diante do nariz. conforme combinámos. e o desprezo tomou neles um carácter fornicador. enfim. . Mas sabiam.. Acharam que o homem fora. Infelizmente. ficando eu a caminhar no pó. compreendê-las — replicou José. e o homem meteu-se lá dentro. criado apenas para a lascívia. não passas de um vitelo. — Posso. Faziam coisas incríveis. com a filha. não dariam tanto nas vistas aos filhos da Luz. s. devo dizer: quem é guardado.

mergulhada nos raios mati­ nais. nem sequer devias pensar em tal. o ofício de guarda? Olha. enfim. com a aldeia lá no topo. Tens os teus lados bons. atravessando vales ora estreitos ora largos. E recriminas-me por isso? Aí está a verdadeira índole do homem. o homenzinho era um guia. O homem furtava! Foi uma trÍ9te descoberta e ao mesmo tempo a prova de que o companheiro tinha pouca razão em se apresentar como excepção ao maldizer a espécie humana. cur­ vara-se e não podia erguer-se. — Crês que as tuas lamúrias lhe curarão o jarrete? — Não — respondeu José —. ele tivesse apenas cometido um pio acto simbólico. — Obrigado — disse José—. cobertas de florestas de cedros e de acácias. vamos fazer assim. Dá-te por muito feliz que eu te acuse apenas de falta de atenção. José não disse uma palavra a respeito do roubo. Além disso. O mal estava feito. Notou então que faltava na carga um cestinho com fruta espremida e um outro com cebolas assadas. é questão que não se discute agora. Apresso-me o mais possível e volto com alguns criados. trepando por montanhas íngremes. pouco tempo depois. se pode curar-se ou se é preciso maitá-la. segue o teu caminho! Eu sento-me aqui e ficarei a guardar a mula e os comestíveis. é um puro acaso que tu possas cavalgar também. — Está quebrado!—disse o guia após um curto exame feito 146 pelos dois. em direcção ao Norte. — Quem vai ouitra vez remediar tudo sou eu — replicou o desconhecido.— Boa ideia! — exolamou José saltaindo para cima da Hulda. sem socorro. Mas agora encontro-me outra vez numa situação embaraçosa. — E também verdadeira índole do homem desejar absoluta­ mente prever a desgraça e depois procurar nela um triunfo inútil. A Hulda há-de morrer aqui. Se eu me sinto talhado para semelhantes mistérios. de vez em quando. aconteceu algo pior do que o furto. que sempre quer atribuir a culpa a alguém quando qualquer coisa corre mal. protegendo-os dos pássaros e dos ladrões. Não teríamos fatigado tanto a Hulda. Assim. na poeira. olhava para Dotan. José também dormiu algum tempo em cima da mula e já despon­ tava o dia quando acordou. e o inteligente animal já não teria posto o pé em falso. um solavanco e uma queda.rda ao animail até que chegues aonde estão teus irmãos e voltes com eles ou com algum criado buscar os tesouros e ver como está a alimária. um servo do deus dos ladrões. como se podia prever. consagrado portanto. Partira-se-lhe um jarrete. Dada o sítio para onde ia e a maneira como era conduzido. 147 . de Siquém para Dotan. que estava sentado na mula enquanto o gatuno segurava o cabresto. aquele furto constituía um indício desagradável para José. Assim continuaram sob as estrelas. Mas. roubando o seu protegido. não creio. O Sol despontara por trás dos campos e florestas e já se avistava à direita a verdejante colina de Dotan. Poderia acusar-te de muito mais. e não tenhas de palmilhar todo o caminho. Pronto. enquanto os animais do campo me devoram os tesou­ ros? Estou tão contrariado que me apetece chorar. Vejo que és justo como um homem. Por esta razão não fez referência ao caso e até sentiu uma certa estima pela desonestidade do guia que podia ser resul­ tante da sua religiosidade. Ainda resta muito. Que hei-de fazer? Não posso deixar aqui o pobre animal com toda a carga de mantimentos que eu queria levar de presente aos meus irmãos. apesar de eu ter comido uma parte e de ter depois desaparecido outra pairte. fico aqui de gua. Hulda introduzira uma das patas anteriores num buraco do terreno. e dos outros não se fala agora. que sentia o coração oprimido. senhor do Oeste na rotação que leva à parte ínfera da Terra. — Eu não te disse que faço também. passando por lugarejos adormecidos. — Olha que belo presente! Eu não te dizia que há jarretes fracos de mais? — Diante desta fatalidade. quando é neces­ sário. Não devias ter-me aconselhado a viajar durante a noite. Contudo preocupava-o que o outro o tivesse roubado descaradamente. e que entretanto as pregas abaixo da cintura do guia tinham aumen­ tado de volume. tanto mais que na conversa tinha defendido o injusto por amor ao justo. De súbito. admitia a hipótese de que. Quem a conduzia eras tu e não reparaste que ela se metia desas­ tradamente no buraco. José. — De resto. a Nabu. — Não reparei. em nome de Jacob. Neste momento. com um pálido luar. não devias alegrar-te de teres aparen­ temente razão.

mulheres de Lamech. Pensa bem. se não precisas de tirar alguma coisa da carga da mula. depois voltas ao vale por trás dela.. e assim! Que tail? Não sou um variegado pássaro de pastores com a minha túnica? Como fica ao filho o véu da Mami? LAMECH E A SUA CONTUSÃO Entretanto os filhos de Lia e das escravas estavam sentados atrás da colina. cravado na carne. consumia. Tinham os ventres fartos. para vingar Dina. veriam que já não eram os mesmos homens: a dor. mas todos bem cedo. Vor causa da minha ferida matei um jovem. apático. atormentava. já que não me é dado entrar montado na minha Hulda. que ulcerava. Caim foi vingado sete vezes..— Conto com isso. esgaravatava com o cajado as últimas cinzas. Exa­ lava-se no air um perfume de ervas aquecidas. por fim. qui­ sessem repetir aigora a carnificina. o herói. que já está subindo? — Tens razão— gritou José —. inactivos. o meu canto. tolhendo-ilhes as energias másculas. e olhando para as cinzas. não muito longe de um poço que não tem água. tiinham-se dirigido ao poço que existia lá em baixo. a adversidade fazjme perder o tino! Isto não deixo eu aqui — disse tirando a ketonet da bolsa de couro presa às argolas — nem à tua guarda. um espinho que não era possível arrancar. de funcho. Ponhoo já aqui diante dos teus olhos. coberto apenas de moitas e árvores isoladas. A resmungar. perto das ovelhas. Tinham bebido. ao passo que a cisterna das proximidades. Que vergonha. em horas diferentes. Dali a vista alcançava todo o campo raso. Ada e Zilda. o distante formigueiro do gado miúdo e. O Sol já ia muito alto. por trás de tudo. Isto levo eu comigo para Dotan. debilitava^os. alguns antes mesmo do nascer do Sol. tomilho e outros aromas campestres de que as ovelhas gostavam. tinham rezado. mas traziam o espírito roído por uma fome. Talvez alguma coisa que proteja contra o sol. dás quinhentos passos por entre moitas e trevos e lá encontras os teuis irmãos. entoava a meia voz uma cantilena que alguns acompanhavam sussurrando. Vós. Andavam exaustos e muitos sofriam de dores de cabeça. naquela época do ano. a fim de experimentar se ainda teriam forças para praticar semelhante proeza. tinham-se lavado. Era uma canção antiga. Raramente algum deles tinha bom sono desde a saída de Hébron. Sentiam. como queria Jacob. Tinham saído todos cedo das tendas lis­ tradas. não o conseguiam. Mas Lamech sê-lo-á setenta e sete! 149 . no fundo do vale. porque o sono não fora muito bom.. para lá chegar com grande pompa. inexplicável. dado uma vista de olhos aos cordeirinhos e. Debaixo das cinzas fumegavam ainda os ramos de car­ queja. assiim. fragmento de balada ou epo­ peia de tempos remotos. no qual haviam preparado a sopa matinal. Se tenitavam cerrar o punho. assim.. principalmente para os ferozes gémeos Simeão e Levi. cujos rebanhos cobriam o campo. tinha duas mulheres Chamadas Ada e Zida. a suave montanha. Ouvi. apesar das tuas boas qualidades. que lá estavam ao longe no matagal.. estava seca. o espinho. achairem-se naquele estado! Um deles. um tanto dispersa e transmitida incom­ pleta: Lamech. tinham tornado Siquém um mar de sangue. Se aqueles que um dia. e o desejo de variar que os induzira a trocar os pastos de Siquém pela planície de Dotan viera-lhes só da falaz ilusão de poderem algures dormir melhor. que lhes estragava o sono e quebrava as forças. Simeão. a fome que os consumia intimamente. balançando o corpo. escutai a sentença! Matei um homem porque me ofendeu.. sentindo os membros endurecidos e tropeçando de vez em quando nas raízes nodosas que se rojavam pelo solo. Havia muito que tinham acabado de comer e estavam ali sentados. com a panela ao meio. com os olhos vermelhos. Não te enganes: contornas a colina. reunido no sítio onde costumavam comer: à sombra de um grupo de pinheiros bravos de troncos 148 vermelhos e copa larga e densa. e que tinha boa água. reunidos os dez em torno de um lume apagado. Os filhos de Jacob estavam sentados em círculo sobre os calca­ nhares. O outro. a colina coroada pela aldeia de Dotan. uma sede ardente.

ou de Nenrod. E assim como é verdade eu estar aqui sentado e chamar-me Gadiel. — Que tal vos parece? Faço esta pergunta porque. que Zelfa deu à luz no regaço de Lia. por me ter ofendido!» — Que ofensa teria sido? — perguntou Issacar. para que só produza caviladores e beatos. — Chamava-se Lamech—disse Levi. Homens assim já não existem senão nas canções. O homem não pode vingar-se porque então ai vingainça seriai cada vez mais bárbara. com a sua rectidão. até que da semente de Lamech e da semente do pri­ 150 meiro assassinado não ficou mais nenhum com vida e a terra fechou a goela. aquele que o herói abatera. imaginavam a volta de Lamech. quero ser vingado setenta vezes. e tivesse tirado ele próprio a desforra? — Ninguém sabe — respondeu-lhe o seu meio-irmão NeftaJi. E Deus disse: «Quem matar Caim será castigado sete vezes. anunciando às mulheres. uma em seguida à outra. a vítima expiatória da feroz susceptibilidade de Lamech. por já estar saturada. atirando com o cajado uns galhos carbonizados pelos ares. Tu és gémeo dela. e nos descendentes de Lamech houve um que. à tua moabita. Nem Deus. 151 . Rúben — interveio Gad. «Qual! Eu sou Lamech. por meu lado — declarou Judá —. nem antes nem depois. Aquele. por homicídio. não é menos verdade que sou por Caim. para que a terra bebesse também o seu sangue. como já não há. um pauil de luxúria. aquele que me ofendeu e a terra?» Caim disse a Abel: «Deus me consolará. «Sete vezes?» disse. filho de Lia. filho de Bala. diz-se. Engolem-nas. não quereria que vol­ tassem a chamar-me o jovem leão. Viam também. que disse: «Esta questão há-de resolver-se entre nós três: entre mim. filho de Zelfa. assassinou o assassino de Lamech. A gente canta-os e distrai-se a pensar em tempos idos. o burro ossudo. Mas o jovem que ele matou tinha um irmão ou um filho que matou Lamech. e aqui jaz o tonto. há homens que engolem ofensas muito maiores do que a que foi feita a Lamech. sim. Onde está o orgulho do teu corpo-. a nossa doce irmã. aiceitar os teus dotes e sorrir para ti. para assim falares com voz débil e quereres transferir a vingança para Deus ou para o tribunal? Não te envergonhas diante de Lamech. e o mundo encher-se-ia de sangue. um coração de leão. agrada-me imenso. porque a canção não o diz. elas sabiam quem recebiam e tremiam de gozo.» E Babel instituiu um tribunal para que o homem se dobre. Se eu tivesse a tua robustez. para mostrar que ele Lhe pertencia. suave. Ó Judá. Vamos pois ao campo e deci­ damos nós!» E decidiu a questão com ele. Seria talvez o caso das mulheres Ada e Zila. nos nossos dias. a mim. decidem isto. como me chama o povo. Mas tenho ouvido dizer que. curvadas diante detle. — Ignora-se o que foi a ofensa do moço. e quando as ia procurar. com todo o seu vigor. a palavra forte «homem» mudava para «jovem». não falaria como tu. mais branda. Ambas nos dizem: A vingança pertence-me. não defenderia o curso dos planetas com mutações que desvirilizam o herói e tiram ao mundo o coração de leão. ou o tribunal deci­ dirá a quem vai ela pertencer? Eu sou o primogénito e portanto ela é minha. Esse era cioso da sua honra e não dava pouco valor ao seu orgulho. quando ele matou Abel.Não sabiam que acontecera mais. — Que erro teria cometido o jovem infeliz. o herói. — Falas sempre assim. mas podia também servir apenas de estímulo à adoração que elas votassem à virilidade incorruptivelmente homicida de Lamech e à exigente sede de vingança. à sentença do direito e não chafurde na vingança. se Naema. de cabeça levantada. e não homens? Respondeu-lhe Rúben: — Eu explico-te porque é que a vingança já não está na mão do homem e porque nos tornámos diferentes de Lamech. Por duas razões: os preceitos de Babel e o zelo de Deus. para que o gigante não esperasse pelo castigo de Deus. que dominava no canto. era um valente. portanto ela é tua. e assim por diante. se não fosse por Caim e mais ainda por Lamech. nem o tribunal de Nenrod. armado e orgulhoso. Que sucedeu a Lamech? Não sabes. Por isso é que Deus marcou Caim. por vingança. um homem da estofa dos antigos. apresentas-te assim à filha de Chua? E tu. Dan? Dizei-me pois o que aconteceu à raça humana desde então. Era um homem que podia aparecer diante das mulhe­ res. a façanha que lavara a sua honra. brônzea e vetusta. que na cena cruenta provocaria mais fàcilmente sentimen­ tos de compaixão. jazendo mia relva ensanguentada. — Eu. Nos versos. e por isso calaram-se. Mas entregues à toada desconexa. — Falias com voz subtil. inesperada num corpo robusto como o teu.

que estava bem segura. — De modo que — acudiu Aser — os sonhos fiquem sem dono e já não possam tomar-se realidade! — Isso significava — observou Rúben — pôr-se contra Deus. Há quem chame a Dain serpente e víbora. A culpa é de Ada. as mulheres de Lamech. começadas com tanta subtileza. não volta.. esprei­ tava por cima dos joelhos e passeava os olhos pelo campo. provocando para si f 52 própria a vingança dos injustos.. Eis a bela prenda que nos deixou: já não somos homens. E indispensável criar factos consumados. Os gémeos tremiam. enfureça-se a encolerize-se quanto quiser. curioso até na aflição. podia tirar-lha. dizendo: — Escutai. baixaram todos a cabeça. A ela devemos a ruína. veio ao mundo a religiosidade da tenda. Há que suportar lágrimas e vinganças. que estava sentado ao seu lado. quando é Ele que os manda. vai-lhe bem o papel de juiz. na opi­ nião de Dan. vê a distância fulgir na luz como um relâmpago pra­ teado. E isso debilitou-nos tanto que receamos causar desgosto ao venerando pai. como dez feixes de dor. mas «significava». que desaparece e logo brilha de novo. Levi. É um facto consumado. roídos de ver­ gonha. filho de Zelfa. com voz rouca e atormentada. as meditações de Abraão sobre Deus. que Deus se amerceie de nós! As coisas não se passariam assim. antepassado dos que moram em tendas e são criadores de gado. ora fulgurando separadamente. ora ao mesmo tempo. Rúben. os sonhos procurarão debalde o sonhador. como se achasse que a questão estava definida.e depois vão sentar-se em qualquer sítio. filho de Ada. e nenhum deus. o nosso manso paii. e com o dedo indicou-lhe o fogo-fátuo. temos de concordar. porque o que está seguro e bem defendido. É verdade e Rúbem tem razão: se se paga ao sonhador na mesma moeda. se fôssemos caçadores ou navegantes. Seja como for. Depois destes discursos. de maneira que os sonhos deixem de ter dono e esmoreçam. metendoa quase entre os joelhos que estavam levantados. sendo estranho ver tão pálido aquele homem robustíssimo: — Já falaste. Aser acotovelou Gad. porque se tinham sentado sobre os ca-lcanhares.» Mas a gente pode lá fiar-se em Deus ou na Sua justiça. Foi Dan quem falou depois dele. a oinco dias de lá. em diversos pontos. quando Ele próprio é parte na demanda e por meio de sonhos abomináveis inculca a desfaçatez àquele rapa­ zinho infaime? Não podemos fazer nada contra os sonhos — gritou tão angustiado que a voz lhe morreu na garganta — quando eles vêm de Deus e está decidido que nos curvemos! — Mas contra o sonhador podemos bem fazer qualquer coisa! — bradou Gad. para que o 153 . a bênção. nem tão horroroso como o cumprimento desses sonhos. como tu dizes. notou que eram vários lampejos. retorquiu. em redor das cinzas. o livre-arbítrio fica peado porque. a tal ponto que não podem comer nem dormir. O que nos indignava está longe e seguro. coitados. — Rúben falava no passado. com malícia e semblante desfigurado. Disse tudo isto com desembaraço. suportou. porque não se pode ima­ ginar nada mais horroroso. Aqui embaralharam-se-lhe as palavras. expõe-se uma pessoa à cólera de quem exerce o arbítrio. mesmo assim. Nós também estamos seguros aqui em Dotan. fosse qual fosse. mas todos perto uns dos outros. procurando cerrar os punhos sem o conseguir. profunda­ mente. o pas­ toreio. Zabulon manifestou-se: — Eram Ada e Zila. afastámo-nos do lar paterno. não dizendo «significa» ou «significará». o avô de Abraão. Mas. ]OSÉ É LANÇADO NA CISTERNA Sucedeu que Aser. bem defendida. e o grande Rúben diz: «A vingança é de Deus. Jacob não sofreu tanto por causa do seu embuste? Porventura terá rido ao serviço de Lahão por causa das lágrimas amargas de Esaú? Pois. e por uima certa tendência que tem para a cavilação. De súbito. e prestai atenção às minhas palavras. Nós saímos de casa. Observando melhor. Dan. seu irmão germano. e ali ficaram acocorados. porque é exactamente o mesmo. por ter dado à luz Jabal. E que ele ficara com a vantagem principal. Mas com Jabal. eis a lição que se tira do que aconteceu. Isaac e Jacob. curvados. digo-vos eu. revoltar-se contra Deus ou contra os sonhos. é preciso correr-se o risco. mas sim caviladores e beatos. e agora podes calar-te. irmãos. porém.

precipitaram-se sobre ele. ultrapassando-os a todos em altura e gritando também: «Fora. do qual escorria . batesse onde baitesse. sim. Ribombou nesse instante um estrondoso urro. — Podeis acreditar nos vossos olhos. vinha pela vasta planície na direcção deles. com o. Era necessário despojá-lo do trajo colorido. o mugido dos gémeos que revolveu as entranhas. com a coroa sobre o capuz do véu. sobre eles recaindo reciprocamente as pancadas destinadas ao rapaz. a sua imagem do mundo. meus caros! Vim por incumbência do pai. — Que fazeis?. e cada um acompanhando o olhar dos primeiros. do véu. Não queriam crer nos próprios olbos. — Vem ali um homem a cintilar— disse Judá. na sua túnica variegada. catorze pedaços. Realmente.linha. e os olhos pareciam querer esguichar sangue. na mu. sem dizer palavra. com isto!» berravam. a acreditar na realidade. montado na Hulda. Dan respondeu: • —Mais parece um rapaz. despedaçar. Mas Rúben. — Sim. valeu-se da confusão. um rumor abafado. José começou logo a sangrar do nariz. José. para ver se tudo corre bem por cá e para. Os que estavam sentados de costas para aquele lado voltaram-se. Para a infrene sede de sangue não havia consideração nem reflexão. por causa do cajado.. lugubremente encantados. E no mesmo momento todos aqueles rostos trigueiros se tor­ naram tão pálidos como já desde antes estava o de Rúben. Mas enquanto continuavam naquela aititude. fóra.. num pulo puseram-se todos de pé e os dez. com a cabeça encolhida e os cotovelos estendidos. Estavam sentados. arquejantes. «Fora. Cambaleava desnorteado. — Irmãos! — balbuciava. Pareciam querer rasgá-lo em. com terror e esperança.saingue paira o queixo juntamente com o do nariz. fora com isto!» Uivava como os lobos.. e um dos olhos não tardou a fechar-se-lhe com um inchaço violáceo. esfrangalhando a sua fé. para terem influên­ cia nos acontecimentos participam do mal. Caíram sobre o irmão como alcateia de lobos esfaimados sobre a presa. Í55 . chocando entre si. com um oh! desesperadamente exultante de raiva. porque estava bem enrodilhado. longe de José que faaiam saltar e cair no meio deles. Mas daí a pouco. preso. pelo menos. procurando assim protegê-lo. os dedos na frente da boca. encarnados como a estrela do firmamento. Dava-se ares de ser também impelido pelos outros. a fim de evitarem mal maior. o desassossego deles chamou a atenção de outros. que no entanto sempre ia apanhando algumas. ainda que fosse difícil no meio de tal balbúrdia. a olhar fixamente para o fantasma que se acercava. Recuou. Eu vos saúdo! — disse José. Serviam de obstáculo uns aos outros.. de ódio e de libertação.lábio fendido. e eles eram muitas. que estava no meio deles. Apesar de todas as mano­ bras de Rúben. o rapaz via-se reduzido a um estado com que nunca poderia sequer ter sonhado. pensando todos na ketonet. a sua firme convicção de que cada um devia amá-lo mais do que a si mesmo. colocando a mão sobre os olhos e se entreolhavam com ar admi­ rado. sendo na realidade ele que. debaixo daquela tempestade de brutalidade selvagem que caía sobre ele de maneira horripilante. e os seus corações principiaram a bater como timbales num ritmo louca­ mente apressado. conquanto não houvesse nem nascer nem pôr do Sol que se lhes reflectisse nos rostos. empurrava os que inves­ tiam com José para lhe arrancarem a veste. Parecia4he. com uma simultâneidade selvagem. — Deteve-se. A sua atenção dirigia-se sobretudo para Levi e tropeçava constantemente nele. querendo apenas guiar uma turba desenfreada. perplexo. vermelhos como o deserto. Alguns recusavam-se. tanto quanto possível. na cabeça e nos ombros. do fundo da alma só desejavam rasgar. os polegares fincados nas faces. com os cotovelos apoiados nos joelhos.. quando a figura já lhes sorria de perto e já não era possível qual­ quer dúvida. todos acabaram por estar de cabeça levantada afirmando a vista para uma figura que se aproximava cada vez mais e da qual partia a cintilação. Os irmãos fitavam-no imóveis.ajudasse a compreender o que seria. postando-se diante deles.s um sonho e receavam-no. E como os dois examinavam. de mais para um só.. Fazia como sempre fazem os que. dila­ cerar. enquanto olhavam aguardando que a figura estivesse mais próxima. 15 4 e com um grito demorado que parecia vir de uma só garganta atormentada. de sorte que naquele lugar e naquele silêncio anelante havia uma espécie de concerto surdo. aqueles rostos ficaram vermelhos como os troncos retorcidos das árvores que estavam atrás deles.

inclinar-se. continuando a fingir que era empurrado. Era-lhe mais doloroso. Mas depois gritou outra coisa que no momento lhe lem­ brou e gritou alto e muitas vezes paira que o ouvissem e se dis­ traíssem da insensatez: «Amarrá-lo! Amairrá-lo!» «De pés e mãos!» Era o novo santo-e-senha dado por ele e. enquanto estivessem ocupados a amarrar José não lhe bateriam.. durante os quais evitaria um mal extremo e ganharia tempo. iam soltando e repe­ tindo frases soltas: «Inclinar-se. procurava salivar a veste e guardar os restos.— Um sopapo ma cabeça. feitos em trapos. qiue Rúben não -pudera evitar. Chegaram à desumanidade. Gadiei. espinho na carne!» «Mal latente». enxugando o suor com as costas da mão. Atrás do véu espalharam-se também pelo musgo a camisa e o cinto. com um suspiro de alívio. pcxr exemplo. arquejantes. pelo contrário. Agarrar am no rapaz e aimarraraim-lhe com a corda os braiços e as pernas. foi absolutamente vergonhoso. «Curvar-se. bradava também. E entretanto não estavam calados. por muita razão que tivessem. fê-lo dobrar-se e sumir-se entre a matilha:. quando era ele que afas­ tava os outros de José. deve-se acen­ tuar que o procedimento dos filhos de Jacob. «Aí tens ino que deram os teus sonhos!». fàcilmemte aceita­ ram a ordem de Rúbein. quando se lhe fere a superfície. como por reflexo de defesa contra novas violências. eles. Não se pede negar. com grande precipitação. enxugando o suor. eintre as costelas. Foi este o precipitado cálculo de Rúben. havia. trazia uma corda à volta da cintura e tirou-a. uma vez amarrado. aipertandoo bem apertado. quando já se encon­ trava nu. Com esse saintoe-sertba suspenderia pro­ visoriamente a> acção. tanto que ele soltava gemidos. à selvajaria de se lembrarem dos dentes para arran­ carem a veste materna do corpo ensanguentado e quaise desfale­ cido do pobre moço. Rúben tomou parte activa no serviço e quando tudo ficou terminado alfastou-se. Com o olho que lhe restava' intacto pro­ curava cheio de terror os seus algozes. Efectivamente o desapossar do véu foi violento dte mais paira ficar só por aili. Estava deitado sobre os braços ligados. amarrá-lo!» «Estúpidos!» «Em vez de me empurraram. Com efeito. o que tinhaim feito à ketonet era o mais horroroso. fechandOo de quando em quando espasimòdicamente. infelizmente. os joelhos erguidos e as costelas arfando penosamente. à mistura com os da coroa. Sim. como se quisessem dizer: «Suceda o que suceder. como se durante aquele tempo só tivesse a intenção de lhes mostrar como deviam proceder. os teus sonhos!» Por vezes Rúbein desviava as pancadas ou aparava-as em parte. amarraio!» «Não há por aí uma corda?». cur­ var-se!» «Aí tens. que pegam num peso e o levaintam. porque as mãos tinham ainda. Os celerados lá estavam. E aio mesmo tempo o grupo saltava desapiedadamente sobre o rapaz mu. quem nos poderá censurar por isto?» 157 . escorria em sulcos serpeaintes o rubro líquido que saii da beleza. exasperados. Um murro de extrema violência. dado por acaso na região do estômago. mal lhes voltara a ponderação. iincliinar-se!» «Ver se tudo corre bem!» «Espinho na carne!» «Mal latente!» «Aí tens. com a nuca um tainto levantada do miaito. com fúria. Gritava com ansiedade. execrável. e daquele corpo coberto da rai­ vosa baba fraterna. de alento. como se o impedissem de esmurrar a vítima à siua vontade. e exageravam a fadiga para ocultar o embaraço que se apossara deles. «Amarrá-lo. poderiam retirarjse para decidir o que haviam de fazer depois. para atiçarem a cólera e afugentarem a reflexão. de resultado imprevisível. Í56 inventado para bom fim. que cobria a cara com os braços. em cuja pele se amontoava musgo e pó. cortou-lhe a palavra. nem diziam só «Fora. fora com isto!» Assim como os trabalhadores.. o resultado dbs sonhos!» E o infeliz? Para ele. contribuiria para uns instantes. redu­ zido a um estado lastimoso. os farrapos. gritando sem cessar: «A miinha veste!» E supli­ cava com virginal angústia: «Não a rasgueis». esbaforidos. mais abomi­ nável do que toda a injustiça contundente que acompanhava o rasgar do véu. Desesperado. muito que fazer. Como tinhaim a caibeça oca. «Tu. o mais inconcebível de tudo. postos provisòriamente fora de combate. bradava. Os outros acompainhairam-no. Imitavam Rúben. e. como se fosse a única medida acertada e fosse tolo quem não concordasse com ele. perguntou com voz imperiosa. sopravam e faziam esgares exprimindo exaigeradaimente a indignação que se segue a uma justa desforra. Diainte deles jatzia o filho de Raquel. se vão atordoando e exortando com gritos monótonos para o esforço em conjunto.

O seu entendimento dizia-lhe que já acontecera demasiado paira que acontecesse ainda mais. Já há muito q-ue não devia existir.» Calaram-se. Ele não podia deixar de reconhecer esse estado de coisas. tanta. O que é -preciso é que desapareça — res­ pondeu a voz. fomos nós!» «Há-de lembrasse!» Porém. de definitivo. Jacob viria a saber de tudo. sem a -menor dúvida. -mas agora não pode existir de modo nenhum. Passado algum tempo. E eis q-ue a palavra se fez ouvir e ele teve de ouvi-la. O cumprimento dos vergonhosos sonihos. como para se justificarem perante si mesmos e perante outro qualquer juízo superior: «Esse criançola!» «Um espinho!» «Demos-lhe uma lição!» «Que vá gabar-se.. Simeão e Levi pensavam em Siquém e n-a cólera d-e Jacob. víbora e não se me pode negar uma certa agu­ deza. — Daqui. porquê?» Respondeslhe-emos: «Matámo-lo. quaindo o visse ou viesse a sabê-lo? Como poderiaim apresentasse diante dele? E que lhes aconteceria.» — Daqui — retorquiu Rúben. (resfolegando. por amor de Deus. — Inteiramente de acordo — acudiu Rúben com amargo des­ dém. pelo menos logo que José regressasse a casa. posto a bom 159 . Mas todos reconheciam que o poder do espaço não poderia manter-se para sempre. para a qual não tiiniha resposta. bem fundo. que não tem água. ia precisamente realizasse com aquele faoto consumado. Ali está seguro.Diziam-mo até com palavras soltas. todos eles se sentiam transidos de horror e era exactamen-te para se aturdirem que se expandiam em semelhantes invectivas. a todos? Rúben pensava em Bala. Visito bem. — Não —disse Dan —. O rosto musculoso do grande Rúben nunca tivera uima expressão d-e tainta raiva. Das coisas deixadas -em meio eram culpados. Que esse «mais» pudesse acontecer e que por nenhum preço. incluindo Rúben. 15 8 a falar a verdade suficientemente castigado e amarrado. — E depois apresentamo-nos a Jacob. «Onde está o rapaz?». na igno­ rância die tudo. para não existir maiis. E então nenhum seria capaz de arrostar o furacão do sentimento paterno. Mas não dizes -para onde. não devia acontecer. naquela cisterna meio desmoronada. no íntimo. e então o hipócrita seria formal e definitivaimente o -herdeiro escolhido. De u-m acto realizado definitivamente. esse especialmente. era o que lhe perturbava o espírito. A astúcia com que fizera parar esse acto viera-lhe do coração. de um momento para o outro. Neftailii. enquanto ali estavam imóveis. enquanto desabafavam.. e -pela. «Já não existe». aquele secreto horror cres­ cia ao pensarem em Jacob. reflectiam no mesmo. dizes. baixando raivosamente a cabeça. não deviam sê-lo. Então o desespero seria ainda m-aiior. incal­ culável. Começaram a reparar que o grande Rúben os tinha induzido a cometer u-m erro com o seu sanito-e-semha. Apesar de serem homens feitos. — Deve ser atirado ao fosso. Deus do Céu! Que tinham feito ao anho do pai — sem falar no estado em que tinham posto o virginal legado de Raquel?! Como se comportaria o Expressivo. por terem levantado a mão contrai o cordeirinho. Mas — e era preciso regular isto —não cairia sobre eles.primeira vez -na vida coincluiu que era um gra-nde bem o espaço que separa os homens e os faz ignorar os acontecimentos. sem ele. Todos tiimham a mesma ideia inde­ fectível: «E necessário levá-lo daqui. tinham um profundo -temor filial. Alguém a disse. agora!» «Quem podia esperar -uma destas?!» «Vir de tão longe aité aq-ui!» «Plantasse diante de nós!» «Com a túnica!» «Ver se as coisas corriam tom!» «Mas quem viu. como ele os increpara ao voltarem das suas heróicas proezas. Receaiva ouvir. Ali estavam eles agora e ali jazia o ladrão da bênção. Lança-mcHlo a um fosso. mas podia-se falar de factos consumados? Seria diferente se José não voltasse a aparecer diante dos olhos do velho e se este só viesse a saber de qualquer coisa de consu­ mado. acabaria por se-r obra das suas próprias mãos! E o que Deus queria. teirutava ani­ masse dizendo que Jacob estava a cinco dias de distância. a palavra ine­ vitável. — Isso é indiferente. irmãos.perplexidade. Mas se ele quiser saber: «Não existe. seu pai. Escutai-me. Seriam todos amaldiçoados. que se desencadearia sobre eles inevitavelmente com im­ precações confrangedoras e palavras tonitruantes. -assim não. fosse quem fosse. tinham medo da maldição como gesto e medo do sentido e das consequências da maldição. Todos. perguntará acidentalmente. Rúben não notou por acaso quem foi. Cha­ mam-me serpente. respon­ demos-lhe.

— Mas ele ainda chora — julgou um dos irmãos ser sua obri­ gação lembrar. sobre o qual pairavam temas e rubras as estrelas maternas. também não queríamos que ele se fosse. — Tendes razão — disse Rúben. espezinthandono6 diante do pai com a mais infame hipocrisia? Mesmo que nos condoêssemos dele. assim como o honesto Gad. para verosi­ milhança' dia mentira: «Que desgraça!» — Caluda!—ordenou Neftaii. mostrariam os irmãos. nem sabemos se aánda existe ou não. José tornou a chorar aflitivamente. se ofereceram para. Que quereis mais? Aqui foram proferidas algumas palavras que não reproduzi­ remos por ofenderem a sensibilidade dos novos tempos e que. será isso razão plausível para que ele se vá embora daqui e conte tudo? Logo. Rúben? — interveio Judá. Mas a Jacob mentirem06 e dir4he-emos com voz firme: «Não o vimos. — Não o contará a nin­ guém. Se ouve. num ápice. dar 160 . — Parque nos vens falar de dó. quer não? Não nos ouviu ele dizer que menti­ remos diante de Jacob? Tê-lo ouvido já transpõe os limites da sua vida. mais uma razão para não o deixarmos sair daqui. Antes. E. refe­ ridas em forma directa. vinda do seu peito forte­ mente amarrado. ao contrário do que é preciso. o resuitado é o mesmo. foi porque alguma fera o devorou. E certo que Simeão e Levi. — Estais a ouvi-lo e não tendes dó dele? — perguntou Rúben. com dó ou sem ele. Partiu de José uma voz lamentosa'.—Ele está aqui perto e ouve-nos. — Vamos lançá-lo ao fosso. ou alguns deles. Portanto. — Que quer isso dizer. — Atirai-o ao fosso.resguardo e poderá ver o que são os seus sonhos. Podemos tranquilamente falar diante dele. sob um aspecto excessivamente mau. José chorava. que adianta falar de piedade. — Então nem sequer se lhe permite que chore? — gritou Rúben. Que desgraça!» Devemos acrescentar. ainda que algum de nós o possa sentir como tu? As lágrimas de agora apagam porventura o que esse sapo desafo­ rado fez fcoda a vida. porque já está como morto. foi Dain quem disse uma grande ver­ dade: já está como morto. Se já não existe. — Que importa?—redarguiu Dam. quer a tenhamos.

se bem que por obra deles. Só chorava ainda um pouco e mais nada. pelo contrário. E se não a sabiam distinguir era parque ainda não estavam em seu juízo. lhe dava o direito de interferir. Que olhassem para ele um momento e vissem se parecia Jo6é. para falar a ver­ dade. «Contra isso protesto e oponihome eu». Os primeiros queriam pegar no cajado com ambas ias mãos e pregar-lhe uma paulada. com o seu mito: os ferozes gémeos e o enér­ gico Gad. Rúben. Dissemo-lo porque tínhamos de o dizer e.j.° v. Alegou que o rapaz já estava quase morto. porém. ao passo que até então apenas correra sangue. como eles próprios tinham decla­ rado. Perguntou-lhes se se tinham arvorado em tribunal para julgarem a sua pró­ pria causa. 161 . de modo que acabasse depressa. Verdade era que acontecera por obra deles. era a consequência lógica das coisas. como entre acontecer e fazer. Acontecera com eles. e evo­ cou a sua qualidade de primogénito die Lia que. Bastava portanto que o deitassem ao fosso. . temos de convir. O outro encarregatva-se de lhe cortar o pescoço com uma faca-. Tomara-se irreconhecível com o que acontecera.2. queriam cometer uma acção com o espírito desanuviado e após deliberação expressa. cuja pele lhe servira para ganhar a bênção. E melhor teria participado se não fosse empurrado de todos os lado6. não consentiu. não obstante a queda e ai maldição. É sabido que ele opunha resis­ tência. de acordo com o papel que desempenhavam na Terra. Queriam levantar a mão contra o rapaz e derramar o sangue do pai. Mas o acontecimento não passava de um acon­ tecimento. i. E era também lógico que taiis propostas fossem feitas por aqueles que estavam mais aptos a executá-las. mas não é nosso desejo que o leitor rompa definitivamente com os filhos de Jacob e lhes retire para sempre o seu perdão. Entre correr e derramar havia uma diferença. mas eles não o tinham feiito. como Caim. pronunciarem a sentença de morte e também exe11 . e do acontecimento participara Rúben como qualquer outro. Agora. não se lhe podendo dar o nome de acção. dos irmãos. isto é. disse. não querendo que sucedesse a José o mesmo que a Abel e ao cabrito.cabo do rapaz amarrado. como Jacob fizera certo dia ao cabrito. Estas propostas foram feitas. Por isso não narramos o facto com as próprias pala­ vras. o sonhador. simplesmente. s.

fazendoo perder o equilíbrio e cair saibe Deus em que profun­ didade. Judá pôs em dúvida a vantagem de deixar o irmão morrer e esconder-lhe o sangue. com uma pequena mata de carvalhos e figueiras à volta das paredes em ruínas. um tronco. nem queremos desvir­ tuar os motivos do seu procedimento. não ficaria miais do que reparada aquela antiga falta? Não lhe seria retirada a maldição e dado o direito de primogemituira? Não temos a pretensão de saber exactamente o que pensava e fazia Rúbon. Mas. que se mostrava tão enérgico. bem atada. levá-lo ao pai. uma raiz retorcida ou uma moita mais dura. Quando. E. apavorado. pegava no fardo e soerguia-o. para a cisterna. se encontrava a cisterna vazia. pois os irmãos tinhaim sido invadidos no trajecto por uma espécie de alegria — a inflexível ousadia de muitos quando fazem obra em comum —. que havia de inclinar-se paira o buraico. Assim falou o grande Rúb-ein. nem tão-pouco Gadiel. a água impetuosa. Mas -ninguém acreditou iniunca que ele se estivesse enganando a si mesmo. que ides fazer de mim? De nada lhe servia a lamúria. até um declive musgoso. outros ajudavam dos lados e dois trotavam atrás. Assim como tinham aceitado amarrar. que ele achasse que havia uima diferença fundamental entre fazer e acontecer. descido o declive. Davam-se por felizes de lhes ser recusado o encargo de matar à paulada ou cortar o pescoço e de mais uma vez prevalecer a autoridade de Rúben e o seu sainto-e-senha. ah. no fundo. não ensinou nada de inovo ao primogénito de Lia. Assim se aproximaram do fosso com José.campo fora. anuíaim agora ao lançamento na cisterna. Era o medo die Jacob e o amor timidamente oculto por José que o induzia a arquitectar uima traição contra o grupo dos irmãos.eutá-la. folgavam e gritavam uns aos outros tolices como esta: «levavam de rastos uma gavela. Mas tudo aquilo era apenais por se sentirem aliviados de não. e pen­ sasse que deixar o rapaz morrer no fosso não significava erguer a mão cointra ele. com medo da cis­ terna ali construída. e tam­ bém para não ouvirem as súplicas e as lamentações de José. uma Í65 . havia lá em baixo um terreno húmido.debater-se desesperadamente. esperasse salvar e ao mesmo tempo vencer o filho de Raquel? De resto. revirando. depois do que acontecera. O que havia a fazer. mas dava lairgas passadas ao longo do percurso e se havia uima pedra. era lançar o rapaz ao fosso e deixar acontecer o que tivesse de acontecer. numa berma da estrada que levava ao pasto. prolongando a esperança de salvar José das mãos dos ouitros e. A corrida continuou n-um estirão pelo. possibilidade de que ele. sobre a laje. en-tre ervas e moitas. E se lhe restituísse José. apesar de tão ferozes. sem que soubesse dizer para quê. sobrevinda a pausa de reflexão. murado. a suia exigência de que se abstivessem de fazer e deixassem acontecer o que tivesse de acontecer quase não eincomtrou resistência da parte dos irmãos. Rúben.terem die seguir -o exemplo de Caim ou dos cabritos. Queria simples­ mente ganhar tempo. Não se lhe pode dar senão -o. pre­ cisava de produzir boa impressão em Jacob por causa do seu desatino com Bala. mias será desvirtuá-los admi­ tir a. o olho ainda aberto para a treva circundante. no seu íntimo. começava a. de miodo que riam. nem sequer os gémeos. do buraco da cisterna e mais ainda da pedra da cisterna que estava próxima.. Não. Uns tiinhanvse adiantado para puxar. Rúbon -não trotava-. bradaram. Há muito que a humanidade leu no coração de Rúben e viu que ele só quenia ganhar tampo. para que não sofresse ainda mais sem necessidade. tinham vontade de derramar saingue deliberadamente. ergueram-no sobre o bocal no meio de novos gritos de «olé» e «olá» e empurraram-no. pouico depois. Í62 «Ao fosso!». já nenhum deles. Mas como José chorava e se crispava-. que gem i a inmterruptamen te: — Irmãos! Piedade! Que fazeis? Parai! Ah. para a cova». destinada a tapar o bocal. no meio de jocosos «olé» e «olá».nome de traição. a que davam acesso alguns degraus íngremes e escalavrados. Por esses degraus arrastaram José que. ele não o tolerava. agarrando em vários sítios a corda com que José estava atado e arrastando o desgraçado pelo campo em direcção1 ao lugar onde. fosse como fosse. Era bastante fundo. Todos desejavam que os «acontecimentos» prosseguissem e atingissem o fim que tinham em visita. e um pavimento de tijolos partidos. embora não fosse u-m sorvedouro. apesar de amarrado e nos braços deles. derramamento de sangue.

Já não foi pouco se José caiu numa profundidade de cinco ou seis toesas.ior segurainça que infun­ disse. por rna. até para os ferozes gémeos. Por isso todos lhe pegaram. Repetiam com insistência a afirmação de que poderiam dormir sossegados. e bem se sabe a que vicissitudes o ciúme conduz. onde estais? Ah! Não vos ides embora! Não me deixeis sozinho na cova! Isto aqui é tão podre. Cogitavam. dizia respeito por ora a uma coisa absolutamente secundária. a volta de José. e rolá-la para cima do fosso não demandava a força de um só homem. nu e despojado de tudo. — Acabou—diziam. fez notar que não se devia comer ao pé do sangue. pela brandura. Enquiamto ele. pelo poder do seu espírito. podiam dormir: fora eliminado c nada mais diria ao pad. enquanto jazia lá em baixo. E mais graves ainda se lhes tornavam com o choro e a pediinchice do soterrado que lhes chegavam.o trabalho. Então Levi também comeu. que entretanto os impressionava mais do que tudo.olho que ainda via. porque o caso se lhes afigurava duvidoso. Os braços e as mãos que acabavam de se ocupar do enterramento traziam a recordação do contacto com a pele nua de José e. repartindo. Há casos em que só as meias palavras servem. os irmãos. Para aquela claridade olhou José com o. era um pensamento terrível. abrandando a velocidade da escorregadela. criando um sentimento de ternura que eles não conse­ guiam compreender. a recordação era deli­ cadíssima. eternamente em vão. Para os dez. atentado de que não se podiam lembrar sem estremecer de horror. ele reflectira que tinha necessi­ dade de chorar. pensava em como tudo aquilo acontecera. Brairn graves essas cogitações. efectivamente. querendo descansar. e lá do fundo implorava: — Irmãos. os irmãos. Responderam-lhe que não havia sangue e que essa era justamente a vantagem: daquela maneira não correra nem fora derramado sangue. E este pensamento. aqui mads larga. e do que diziam . talvez em consequência de velhas contendas por aquelas paragens. Tais cisternas chegam a ter muitas vezes trinta e tantos metros de profundidade. sentaram-se nos degraus que davam acesso à cisterna. estava rachada no meio. dado o profundo temor filial por Jacob. E eles tinham posto José na iimpossibilidade de falar à custa de um atentado cometido àquela alma patética que tanto respeitavam. ali mais estreita. penetrava um pouco de luz na cisterna. esta nossa alusão pode parecer imprópria. e justamente por isso empregamos meias palavras. E aitravés da fenda. IOSÉ G R I T A DO FOSSO Executada a obra. toda verde de -musgo e com cinco pés de diâmetro. lá em cirna. porém. sem excepção. — Finalmente! Agora podemos dormir sossegados. pensavam em pôr termo à obra cobriindo-lhe a casa com a pedra. Levi. embora o contacto tivesse sido tão pouco delicado. tranquili­ zando-se assim mutuamente. Ainda. porque a pedra era pesada. Incitavam-se ao trabalho. assarapantando toda a espécie die insectos. da cova e os perturbavam. que não esperavam semelhante visita. Quanto ao sonhador. e atingiu o fundo de entulho com umas diesarticu 1 atções insignificantes. bronco mas devoto. A velha tampa. tanto mais que se tratava de uma obra feita em conjunto. mesmo ajustadas uma à ouitira sobre o bocal do poço. o suficiente para não poder sair.sobressaía que já estavam livres de José c dos sonhos. Afinail. surdos. que havia de esperar em vão. Com os pés e os cotovelos encontrou um pouco de apoio num ou noutro ponto da parede redonda. Esta. todavia.voragem abismal. naquela orbicular profundidade. As duas meta­ des. tendo as mãos e as pernas amarradas.caiu com muita cautela e concentrando toda a sua atenção. Mas não falavam disso. escaravelhos. Comiam com ar pensativo e os olhos semicerrados. A medi­ tação. tão horrendo! Tende 16 5 164 . Alguns tiraram pão e queijo dos bolsos do cinto para uma refeição ligeira. não convidava de modo nenhum ao sono. centopeias e outros bicharocos semelhan­ tes. Mas a esta ideia tranquilizadora estava ligada precisamente a lem­ brança do pai. o que os revoltara contra José fora o ciúme. sentindo nas mãos e nos braços a doçura da pele de José. Quando se considera a untuosa rudeza de Simeão e de Levi. lá no fundo onde fora precipitado. Depo-is da queda. não coincidiam perfeitamente. estava fora de uso e desde muito tempo atulhada em grainde parte de pedras e terra. mastigando e pestanejando.

a pergunta poderia facilmente dar a si mesma a resposta e converter-se em maldição. continuariam a ver dirigido para eles um olhar insistente e desconfiado. espigas assadas e doces de fruta. Por isso.. nunca. as minihais pernas. e anunciá-lo de maneira que não pudesse recair sobre os suspeitos a meinor sombra de culipa. cabeça das nossas mães. amanihã — mur­ murou Judá entre dentes. Mas deste modo. Entendestes mail. se tinham a intenção de viver em permanente discórdia com o lar paterno.. cá de baiixo. Por acaso estavam encar­ regados de guardar o irmão? Não. sem demora. Fiz cinco dias de viagem. pondo a mão em concha' diante da boca. para me informar da vossa saúde.se. a culpa é daquele homem que me guiava. os meus ossos. porque me fazeis injustiça. Irmãos. Uma vez que.. Mais razão tinha ainda para ocultar os seus pensamentos. que era necessário anunciar logo. Era realmente deste ponto de vista que eles examinavam agora a questão. Mas dava-se precisamente o caso contrário. gritou: — Se não te cailas. contando-vos os sonhos? Podeis crer: relativamente aos sonhos fui modestíssimo. para nós. Todos eles iam ruminando esses pensamentos. pela cabeça de Raquel. por quem nutriam um grande afecto. o terrível direito de perguntar: «Onde ficou?» Naturalmente podiam responder com um encolher de ombros. tinham demonstrado não o tolerar. alcunhado de serpente e víbora. não contarei nada. mandado pelo nosso pai. O sepultamento de José só podia ter um objectivo: o de removerem o obstáculo que se levantava entre eles e o pai. E a com­ plicação consistia em que. ai. ajudai-me pois.. iria lentamente culminar em desespero. se me salvardes uma vez desta cova. Ah. Irmãos. E não havia um só que pudesse duvidar. se me salvarem. deste fosso! Eles entenderam mail. portanto. Rúben. Estais ainda aí? Já estarei de todo aibaindoinado? Rúben. Para isso não tendes pre­ cisão desta criainça! Vim para me inclinar diante de vós com ami­ zade e boas maneiras. nem sequer Rúben. a volta deles sem o enviado pareceria um tanto suspeita. eu invoco O' teu nome. Sentiam que não lhes importava castigar o descarado nem vingair-. os sonhos. Eu poderia. como tudo correu mal! Mas se correu mal. os meus braços! Tenho sede! Irmãos. não queria dizer isto! Ai. já não existes. bem o sei. eu inão contarei nada. para conquistarem aquele coração terno e poderoso. salvai-me desta vez da escuridão da sepultura em que apodreço! Eu sou o vosso irmão José. dada a natureza das coisas. estais pensando que deveis deixar-me no fosso. compreendei-me. trazendo-vos presentes. onde estás? Rúben. .. Ah. Irmãos em Jacó. embora esta certeza estivesse em contradição com as esperanças e os projectos que acalentava. Fui impertinente. só desta vez. os meus tendões. a nossa mula branca. Irmãos. este que aqui está tem sede porque perdeu muito sangue por causa de um equívoco. meus irmãos. José. de Isaac e de Jacob. escutai-me. não tapeis os ouvidos aos meus gritos e suspiros. Tu.que devíeis voltar para junto de nosso pai. Ora o carminho estava livre e eles volta­ riam.. se tinham visto forçadas a causar-lhe a maior pena. da esquerda. não viim aqui para ver se as coisas iam bem. juiro-vos. Ressaltava. toma. sailvad-me a vida! Vim ter convosco. ficou apa­ vorado e emudeceu. atiramos-te pedras e aicabamos-te com a vida. porque senão contarei tudo. cuja imanidade eles conheciam de sobra. que o rapaz não voltaria mais. deixa-me ouvir a tua voz! Dize-lhes que.raim forma de proposta. Assim. Teriam então de se manter afastados até que se extinguisse a esperança e a espera se resignasse a reconhecer que José não voltaria mais? Isso havia de durar muito tempo porque a espera é persistente e. ao ouvir isto e reconhecendo a voz de Rúben. Os olhos inquiridores revelariam uma tor­ mentosa esperançai.piedade. entretanto. a minha mãezinha. sem José. disse: 167 . mas abrir caminho para o coraçãc do pai. nem tão-pouco destruir-lhe os sonhos. à partida. para vos dizei. não respon­ dendo à pergunta. que em Dain. Fie recebera ordem para os visitar. E essa esperança. Haveria o direito. eles puderam continuar em paz a pes­ tanejar e a temer o pai. da direita. se não hoje. O que lhes restava era aguardar que a 166 lembrança do pai se desvanecesse sem atentarem na calamitosa paixão que se estava preparando em Hébron. com toda a clareza. nunca! — Com certeza iria contar tudo. montado na Hulda. Dain tornou à sua primitiva ideia de comunicar ao pai que José fora abatido por uima^ fera e. associando estes pensamentos com certos incitamentos de Gad e a evocação do cabrito que um dia Jacob sacrificara para efectuar a troca da bênção. pela. Pelo Deus de Abraão.

— Não posso mais. Não se pode reflectir. Mas quase não sabia o que gritava.— Ouvi-me. mas que heide fazer. Se quiserdes. — Cala-te — miurmurou Judá. a fim de os levar para as tendas onde se discutiria a sugestão de Dain. Até me apetece aitirair-lhe um beijo para a cova. para que a palidez do seu rosto musculoso parecesse de raiva. quando me deixava só! E aigora eu havia de ser devorado? Se tivésseis visto com que receio e cuidado ele me preparava para a viagem. Mas poupai o nosso pai. O pastor não tem nenhuma responsabilidade. Rúben comovera>-se especialimente por verificar que José. tinhano obtido com o lançamento ao fosso: José despertava e rogava pelo coração do pai.—Terei de cochichar por causa dele? A sua vida acaibou. Mas agora há a vantagem de termos afimail o nosso irmão con­ nosco. O que ele não conseguira com as sacudidelas. Todos o acompanharam. que não fizessem aquilo. Juntos. longe daqui. Esta descoberta dava uma força extraordinária aos vaci­ lantes propósitos de Rúben.— Ele. não façais assim com o animal e com o véu! Não façais isso ao pai. O rapaz colocar-se-ia em segundo lugar para se proteger. Não lhe leveis a túnica manchada de sangue. porque a alma dele é terna e não resistiria. para que escorra sangue. Lá no fundo. convidando os outros a abandonarem o lugar onde José estava em segurança. debaixo da pedra. de lá de baixo. — Irmãos — bradava —. — E que mal há nisso? — replicou Dain. de podermos fatter confidências e de ele poder escutar tudo. levawtando-se. como hei-de portar-me para não vos irritar? Porque estará a minha vida 168 tão ligada à sua que não posso conjurar-vos a que poupeis a dele sem vos rogar pela minha? Ah. mas ao mesmo tempo fazia-lhe sentir duplamente a confusa e atroz indcterminação dos seus propósitos. Está liquidado. Será como quando um pastor mostra ao dono as restos da ovelha que um leão atacou. irmãos. agora não era o mesmo caso. caros irmãos. José ficou portanto só. cairia literalmente 110 chão para nunca mais se levantar. ao ver a túnica. 16 9 . Não é possível falar. afastaram-se dali e foram apanhar os far­ rapos do véu ao local da pancadaria. enquainto a mim pouco me importava o que ele fazia! Pobre de mim! Será imprudente da minha parte falar-vos do seu amor por este filho. Que pensais da minha sugestão? Iam discuti-la quaindo José começou de novo a lamentar-se e a implorair-lhes. porque sabíamos que ele iai contar tudo ao pai e nós ficávamos queimados. Esqueces-te de que é como morto. rasgado e sujo de sangue. se sou­ bésseis as recomendações que o pai me fazia à noite. Também ele pensava que Jacob. e não só não zombava mais desse coração como estava apreensivo e arre­ pendido. debaixo da pedra. o trajo de galla. com os gritos que saem de lá de baixo. porque ele não o suporta. é insuportável. eu presto para juiz e sei como havemos de fazer. com medo do leão. Quando andava no meio de nós. não. ouvindo estas lamentações. o segredo morre com ele. porque tenho a alma e o corpo despe­ daçados e eu estou na tumba. Levamo-lo a Jacob e dizemos-lhe: «Encon­ trámos isto no campo. Além disso. Se o entendeu e entende também o que digo agora com a minha voz natural. Ele morreria! Ah. implorando-Ihes que o não abandonassem. nunca podíamos failar à vontade. Não será a túnica de teu filho?» Ele que tire da roupa as suas conclusões. Pegamos num animal do nosso rebanho e damos-lhe um corte na goela. gritava um José diferente daquele a quem tantas vezes sacudira pelos ombros para o despeirtair dos seus devaneios. e ainda gemeu por muito tempo enquanto os irmãos se afastavam. conforme seu costume? Não. NO F O S S O Para José era terrível ficar sozinho no buraco. Ah! Não é por mim que vos peço. dolorosamente impressionado. está a ouvir o que dizes e entende o que vamos fazer. pensava cm primeiro lugar mo pai. Ele cairia morto 110 chão! — Apre! — exclamou Rúben. Embebemos no sangue o objecto do escândalo. atendei as minhas súplicas e não aiumenteis a sua aflição com o pavor da veste man­ chada de sangue. o véu nuípcial de Raquel que íicou em frangalhos. Mas a palidez provinha de Rúben reconhecer que o rapaz tiiniha muita razão em se apoquentar com o pai. na sua desgraça1. queridos irmãos. vamos para outro sítio. nem pre­ cisa que o absolvam da culpa. Daí a sua palidez quando se ergueu. Vinde para as caba­ nas! — Disse tudo isto com voz irada.

Tinha-os tido muito perto. porque Ele o quisera. um medo incomensurável e ao receber as pan­ cadas chorara de dor. E ai compaixão por um sentimento de que devemos reconhecer-nos autores equivale ao arrependimento. José sabia muito bem. Entendia que assim fosse. composta em sentido vertical. Mas José não o podia orer e. como a. lhes atormentara o espírito todo o temipo até chegarem a um des­ fecho. Porquê? Sentira uma tentação irresistível.si próprio confessava estremecendo. em vez de erro. com o olho que os murros não tinham logo fechado. banhadas de suor. E por baiixo desses pensamentos havia ainda outros mais verdadeiros. excedendo toda a força humana. Sabia miuito bem que niunca devia ter contado os sonhos aos irmãos. Tinha tido esses rostos bem perto do seu. mesmo no próprio instante em que assim procedia. José fora atirado para o fosso. admitia que semipre estivera certo disso. voando até ao passado.nem o que chorando pedia. ou não orera completamente. de sorte que o conjunto se assemelhava a uma músiica agitada. Sentira. Numa palavra. mas entre o medo e a dor punha-se de per­ meio a compaixão pelo tormento daquele ódio lido nas máscaras. em que não pudera acreditar sèriamente. Os seus pensamentos não se limitavam ao horror da hora presente. É contudo a pura verdade. e depois durante o doloroso transporte para a cisterna1. no meio e em baixo. enquainto amarrado jazia no solo. Enquainto gingava ao sabor dos punhos dos furiosos agressores e perdia a túnica. Uma suposição em que crera. horrível para' ele e decerto também para eles. lera claramente que tal pretensão. Saibia-o perfeitamente e agora. mas segundo a qual vivera e que (agora reconhecia sem ai menor dúvida) O' arrastara para aquele fosso. sem falar na sua que. lhes surpreendera a angústia e o ódio estam­ pados no rosto. terrivelmente perto. como o de dizer aos irmãos que os sonhos por ele narrados eram muito modestos em compararão com outros sonhos que tivera. não sabia. soubesse calar-se e não contar nada do que se passara não era coisa em que os irmãos pudessem acreditar. e a si pró­ prio o dizia aberta e leailmente. e o tormento do ódio que José pudera ler neles fora a causa prin­ cipal do horror que o invadia enquanto o maltratavam. como sombras e vozes afluindo em corrente profunda. porem as mãos no cordeirinho do pai e o arremessarem para o fosso! Em que situação se tinham metido. para apodrecer ali. oculto à 170 sua cega confiança. porque Ele determinara que as coisas se deviam passar assim. não pairara de pensar. enquanto os furibundos atacantes lhe arrancavam a veste do corpo com unhas e dentes. porque Deus o criara propositada­ mente para que o fizesse. Isto explica tamibém que José deixasse escapar nas suas súplicas vários erros. mas recuavam a toda a pressa. Muitas coisas lhe passavam pela mente desde o imprevisto e horrível iinstainte em que os irmãos se haviam arremessado como feiras sobre a> su>a pessoa e ele. de uma falta de tacto indesculpável. Segundo todas as aparênciais. não estavam nesses rogos e queixumes mecânicos e super­ ficiais. corno é . Nas máscaras dos irmãos. era já sem remédio! A promessa de que ele. sem falar de outras atitudes que tomara.natural. Para quê? Isso. Portanto só lhes restava a solução de o deixarem apodrecer ma cova escura. apesar de atordoado pelo medo. Deus do Céu! Aqueles irmãos! A que ponto ele os arrastara! Compreendia que fora ele quem os levara àquele extremo com tantos e tão grandes erros que cometera na suposição de que todos o amavam mais do que a si mesmos. nem aliás ele próprio. parecer-lhe por um momento circunstância atenuante. mias por baixo deles. E aquilo até podia. no seu íntimo. em que tudo aquilo se fora preparando. que a desaforada «suposição» e:m que vivera não passara de um jogo em que não acreditara. uma vez que não concentrava todos os seus pensamentos no que estava dizendo. Rúben tinha toda a razão em concluir que dessa vez José fora tão sacudido que despertara finalmente dos seus devaneios. restituído ao pai. que se aproximavam dele e alternadamente o afrontavam. e por isso mais surpreendente deve ainda parecer que o horror da sua situação lhe deixasse lugar na alma para se com­ padecer dos assassinos. Os seus verdadeiros pensamentos. com efeito. tivera de o fazer. não sem que em parte estivesse cônscio do que im pudcmtemente provocava. que o seu espí­ rito estava aibsorto em seguir simultâneamente em cima. desfiguradas e banhadas de suor. no seu deses­ pero. no 171 . Pobres irmãos! Como deviam ter sofrido antes de. porém conti­ nuava a proceder de igual modo.

cumpre-nos -tamibém acalmar os ânimos e. violentamente indignada. passar horas e horas naquela situação aflitiva até se apagar na fenda da pedra a escassa réstia de luz diurna e ser substituída pelo raio de diamante que uima estrela compassiva lhe envuava na cova. não estava desde muito em plena e clara posse dos seus sentidos. Espe­ rança vã. Somos levados com facilidade a considerar uma situação insu­ portável. os irmãos se tinham convertido em feras. Os infelizes mandariam a túnica ao pad ensopada no sangue do cabrito como se fosse o seu. como José. se tem de ser suportável e nada mais resta a fazer senão suportar enquanto o homem se acha mia plena posse dos seus sentidos? José. Põe-se na situação do outro. Eles eram as vítimas do futuro e faziam-lhe pena. ditado por boas intenções e benéfico para quem sofre. tinha intentos de miaior alcance. A realidade é desapaixonada precisamente por ser realidade. Abrigado no seio da terra. tratar de que a força de imaginação não exagere e se não perca no vácuo sentimental. A tunda deixara-o eston­ teado. pouco tempo depois se tomava mais insuportável que a precedente. O que caíra sobre ele atur­ dira-o poderosamente. Quem narra não deve esquecer-se de que quem escuta há-de imaginar. como a luz do ailto duas vezes despertava e aJi persistia mrseramemte para de novo se extinguir. começando novamente a chorair. no pó daquele ambiente empestado. o que significa «insupor­ tável». Depois de tudo isto encontrava-se reduzido a um estado de doloroso desespero. força rapidamente o homem a adaptar-se ao que lhe falta. marinhando até ao bocal do poço com o auxílio das fendas da. justa­ mente por aimor à vida e à realidade. desesperando da vida. apesar do mail que no presente lhe tocava. com que devemos contentaremos e entender-nos. Aliás. arre­ pendimento. causando-lhe as deficiências de que o «insu­ portável» precisa para ser suportado. despojado de tudo. cada um desses factores de per si e. a seus olhos. mas a morte é sempre certa para um dado momento e no entanto sentimo-nos 172 173 . como picado por mordeduras de insectos. como ele. porque a pedra que tapava o poço e as ligaduras que o amarravam. mas entretanto os assombrosos acontecimentos haviam pelo menos atingido um ponto de trégua e a> sua situação — diga-se o que se disser contra ela — apresentava uma ténue vantagem de segurança. igual à ovelha. espirrando e sentindo oalaifrios que lhe faziam bater os dentes. porque estava ligado. o que é uma fantasia. E. mo fundo da cisterna. amarrado lá em baixo. como ele. Imagina-se como ele se virava entre as cordas para achar uma posição menos penosa e uma maneira de assentar que.parede e do maito saído das frinchas. se sujava nas próprias imundícies. José deu um salto paira a frente. desequilibrou-se e foi bater com as cost ais na parede da cisterna. O con­ ceito do real e do inegável. porém. contudo. e o mesmo se pode dizer dia maneira inconcebível como fora lançado para a cisterna. Naturalmente o único resultado foi que ficou dorido.fundo. como para evitar ao pai a vista de semelhante espectáculo. certa. A este pensamento. arrepiado. Por outro lado. já mão tinha que temer outras violências e podia entre­ gar-se àquele trabalho de pensamentos que por vezes lhe afastava da consciência os seus padecimentos. desde aquele momento em que. com maior razão. sem con­ solo nem uma esperança lógica de tornar a ver a claridade exte­ rior. os dois combinados depressa o dissuadiam. Mas o pro testo toma-se também com facilidade um tanto risível para o paciente da ((insuportável» realidade. estava até convencido de que Deus via mais longe do que o fosso. dada a sua verdadeira situação. inspeccionava ansiosamente o muro redondo da triste morada com a esperança de se evadir. ou melhor. para sentir angústia. na penumbra. tal como o vê. embora conseguida com mil difi­ culdades. e Jacob cairia siderado. crer todavia intima­ mente que os projectos de Deus o sal variam. o sono era favorecido pela segurança (se é que se pode falar de segurança na presença de uma morte provável. piedade e. O indignado simpatizante está perante essa realidade — que é de outrem e não sua— numa posi­ ção sentimental inadequada. visando no longínquo futuro um objectivo em que José sorvia para impelir os iirmãos àquele extremo. entre insectos e centopeias. deixou de ser como ele. porque o outro. Porque — é horrível dizê-lo—três dias e três noites havia de permanecer nu. Tinha tempo de sobra para chorar. É o protesto da humanidade. o que significa para um filho mimado. como a sede e a fome o atormentavam e o vazio do estômago lhe provocava uma dor de queimadura nas costas.

mas que tinham afrouxado. servindo-se até dos dentes — acto horroroso! —. Não há dureza. misturava-se ao horror pela persistência da suia desventura que não lhe saíra com­ pletamente da ideia. os seus pensamentos continuavam a trabalhar activamente e de tal maneira que. quanto mais durava a sua posição. Pensamos na corda. a voz emudecera de todo para o exterior e José já não soltava ao acaso. Mas se acrescen­ tarmos que José. para acen­ tuar que a crescente fraqueza e abandono de forças constituía também a mitigação prática dos seus sofrimentos. Que ele deixasse a túnica em casa devia ser para o amor e a inquietação do pai tão importante como paira a ambição de José a levar consigo clandestinamente. O cansaço de José era tão grande que suplantava a hor­ renda incomodidade de todas as posições e mergulhava-o no sono. não há aperto que não ceda um pouco com o andar do tempo e não faça concessões à liberdade de movimentos. sem o auxílio da comida e da bebida (porque a alimentação e o sono podem substituir-se um ao outro durante uni bom espaço de tempo). Tinha a mesma opinião e contudo levara-a. mas cuja dureza começara contudo a dimi­ nuir um pouco. porque mo fim quase já não dava fé da sua desdita. o seu espanto pelo alívio que o sono só por si proporciona. e pensemos que os laços. indiscerníveis e talvez sagradas. apesar disso. isto é. Tudo isto era explicável? Mas já que o rapaz se não esquecera de cuidiair da sua própria ruína. porque envolve muitas coisas incalculáveis. ia sempre enfraquecendo mais. apro­ veitara-se da sua fraca memória. Se José lograra na tenda. naturalmente. melhor ele estava. acamodando-se um poucochinho às ‘necessidades dos pobres membros —seja dito para chamar a compaixão à fria realidade. apesar de ter a mesma opinião que ele quanto ao efeito que a vista do véu produziria nos irmãos. por um lado. para manter ainda desperta a pie­ dade e não deixar desaparecer a apreensão..seguros). no caso de os irmãos virem a entregá-lo. Cogitava no enigma da sua fatal arrogância. durante a proximidade dos irmãos. surripiar ao velho o traje de gala. haviatm completamente abafado as vozes superiores. depois de os dez se afastarem. A veste que os irmãos lhe tinham arrancado do corpo. que não devia ter-lhes aparecido ali vestido com ela. não se coibia de assim proceder. Decifrar um tal enigma era coisa que excedia o seu entendi­ mento. os nós já não conservavam no segundo e no terceiro dia a mesma rigidez da primeira hora. Quando acordava. como José o fazia agora dentro do buraco. De novo confessou a si mesmo que os seus jura­ mentos de não contar nada ao pai. provinham apenas do medo superficial que sentia por 17 5 . Mas ao passo que havia quase esquecido a vida do corpo. com a sua astúcia. aquelas «sombras» e aqueles «tons baixos» que estavam em lugar inferior iam-se adiantando e. Mas enquanto o fazia em espírito. Tinham os dois levado o cordeirinho para o fosso e agora Jacob cairia para trás. porque Jacob dese­ java tanto dar a veste ao filho como ele a cobiçava para si. pois não havia dúvida de que ele sempre o soubera e. com o desenvolver dos pensa­ mentos a que já nos referimos e que diziam respeito à sua queda brusca e inesperada. Deste modo. introduzindo sorrateiramente a herança na bagagem. Ao alto conduzia as vozes o medo dia morte que. Que não devia ter-se pavoneado com ela diante deles. tudo isso lhe parecia tão evidente que. fora apenas porque estavaim ambos fazendo o mesmo jogo. Por­ que seria que. por fim. aos erros do passado. teria dado murros na cabeça. mercê da sua fraqueza sonhadora. a veste constituía a parte principal dos seus pensamentos. conio todo o entendimento. Como tremera só de pensar que Jacob descobrisse a k e t o n e t dentro do alforje! E como tremera de a salvar! Realmente ele enganara o pai. mas nem por isso menos grandes nem menos graves. de modo que durante longos intervalos ele não sabia mais nada ou poiuco sabia de si mesmo. talvez Í74 queridos por Deus. na estrutura por eles representada:. procurando decifrá-lo. que não devia impor-lhes aquela sua posse. ao passado. confes­ sava a si próprio a insensatez e a estranha hipocrisia de semelhante gesto. se desentranhara nas mais insistentes lamentações e implorações. se as ligaduras não lho impedissem. por outro. por assim dizer. porque se teria Jacob esquecido de a evitar? Aí estava outro enigma. Isso podia bem levá-lo a reflectir depois nos grandes erros do passado que haviam cometido juntos. gritos de dor e de socorro? A explicação é esta: porque se tinha esquecido completamente. de lá do fundo. fazemo-lo apenas.

se saísse dali e se restabelecesse o antigo estado de coisas — o que José. o seu ouvido prestara-lhes aten­ ção. juntamente com as outras. de modo que os irmãos ficariam queimados. desejava de todo o coração — ele havia infalível e inevitavelmente de contar tudo. como a alma de um finado de quem se tivesse medo—essa declaração causara uma profunda impressão em José. porque ia além da sua vida e era um segredo que descia corn ele à sepultura. Erro seria supor que. pelo contrário. pois era a primeira vez que existia entre eles a franqueza que deve existir entre irmãos. Por essa razão. A declaração que Dan tinha feito de que se podia falar diante de José como se quisesse. Neste ponto concordava com os irmãos. José tivesse cessado de jogar e de sonhar. portanto. Ele era o filho verdadeiro de 176 . até a conversa sobre o sangue do cabrito que havia de figu­ rar como seu. Mostrava-lhe o avesso do que fora a suposição da sua vida. que lhe arrancavam do corpo com unhas e dentes a túnica bordada. Agora chegara-se ao ponto em que já não havia necessi­ dade de ter consideração por ele. que aliás estava excluído. ficando ele assim mais solidamente ligado ao mundo sublunar. Desde o princípio. Tinham começado logo que se tornara realidade a «im­ pensada provocação». ailvo dos sopapos e encontrões. chegava ao mesmo tempo a não desejar esse restabelecimento. e ele podia escutar tudo. no meio da tempestuosa pancadaria.ambos e que. parque cada palavra reforçava a impossi­ bilidade da sua volta e por isso não havia mal nenhum em dizer do irmão coisas que iam além da sua vida. em circunstâncias tão graves. era atirado de um lado para o outro entre os irmão6. Esta verificação determinava o curso daquelas sombras e daqueles tons baixas dos seus pensamen­ tos que corriam debaixo das vozes altas e médias e que. tanto assim que tinha vontade de retribuir o beijo que Dan quisera enviar-lhe para o fosso. se é que em tais circunstâncias se lhes pode dar ainda esses nomes. aquelas vozes tinham-se manifestado e. Mas já tinham começado antes o seu curso. como era natural. isto é: que imaginara não necessitar de ter conside­ ração pelos outros porque todos o amavam mais do que a si mesmos. quando ele. quanto' mais fraco ele ia ficando. mais sonora' vantagem adquiriam sobre as vozes superiores.

o presente rotatório. A unidade do duplo. deus e deusa. a veste da mãe que era também do filho. associando-a à divina. ele abrira espiritualmente os olhos para ver o que «verdadeiramente» acontecia. era diferente. esta fundamental profissão de fé tomarase também nele came da sua carne. O que já não estava tão bem era que a importante dignidade degenerasse com a tendência de José para tirar partido da sua influência pessoal e deslumbrar o povo. Acreditava portanto sèria mente que o terrestre não poderia acontecer sem o seu protótipo e a cópia astral. sangue do seu sangue. gritara ele. Ele era o digno discípulo do velho Eliezer. Os furiosos irmãos tinham sem piedade arrebatado 12.J . bem.2. E por virtude do véu tomavam-se uma só coisa. do homem de meditações e sanhos. Não que o medo e a angústia tivessem diminuído. que não se moldassem em coisas conhecidas e sagradas. não era viver nem acontecer. e toda a dignidade e importância espiritual lhe parecia ligada ao sentimento de igual valor pessoal. de modo que um se transforma no outro e os deuses se tomam homens e os homens podem tornar-se deuses. tinham-lha rasgado e arran­ cado. a permutação do celeste e do terrestre. Até ali tudo estava. por consequência. 177 . I . Admitamos que o modo como José orientava a sua vida. Acredite-se ou não. constituía também a principal certeza da sua vida. no pior tormento do medo e da angústia mortal. Ele prestara atenção desde o primeiro momento. menos sentimental. no desordenado tumulto da surpresa.Jacob. . mais engenhosamente calculista que o de Jacob. mas estava tam­ bém firmemente convencido de que vida1 e acontecimento que não se baseassem e. Ambos a usavam alternadamente. que sabia dizer «eu» de maneira tão franca e tão afoita que o olhar do ouvinte se perdia a cõsmar na sua aparência. que em todos os acon­ tecimentos terrenos dirigia o olhar para as estrelas e associava a sua vida à divina. que sabia sempre o que lhe sucecüa. mas a eles viera juntar-se uma espécie de alegria. A transparência do ser. não se apoiassem numa reali­ dade genuinamente superior. de riso até. ° V . S . e uma certa serenidade iluminara-lhe o horror que lhe ia na alma. «A minha túnica!». E com significativo terror pedinchara: «Não a rasgueis!» Sim. do homem de natureza mítica. o seu carácter como repetição e volta do primordial.

empregando um monos­ sílabo de várias acepções. «Bor». na sua sonhadora altivez diante da morte. E quando o horror se tornou realidade. sobretudo da morte dos deuses da luz que caem por algum tempo nos infernos. por sua vez. ele que é com 178 a mãe uma só coisa e com ela usa a veste alternadamente. e agora iaim ensopá-la no sangue de um cabrito. ao terno pai que. e esta encontrava-se na troca. e mais uma vez se via que Deus não levava em consideração aquilo de que os homens se imaginavam capazes. capaz de comover as pedras. os seus irmãos. E lícito pensar que se tratava de uma providência da Natureza para o aijudar a suportar o insuportável. transparente e primordial. Era o aprisco subterrâneo. com a tampa de pedra redonda que lhe cobria a boca maintendo-a na sombra. que uma ou outra das expressões sugeriam a mesma ideia. Que ele estava morto. da Lua morta que não é vista durante três dias até docemente ressurgir. como um facto astral. Com efeito. tinham dito os irmãos. e se precipita no poço do abismo como estrela vespertina. os conjurados. porque naquelas alusões se tratava do ser e da personalidade. o presente em movimento de rotação. no qual o filho se torna senhor. Além disso.o véu a José. na sua linguagem. E cárcere estava. Chorou em virtude da fraqueza e do at urdi mento que as exailações da cisterna lhe cau­ savam. de reino dos mortos. O fosso era profundo e não se podia pensar em salvação. pois prati­ camente considerava-se morto. diziam-lho a confiança dos irmãos e a túnica ensanguentada que Jacob rece­ beria. com grande perplexidade sua. em tão íntima relação com o conceito de inferno. Chorou pelo pobre Jacob. Aqui José chorou com a angústia que a razão vigiava. mártir. Como não havia ele de conservar ansiosa­ mente bem agarrados a si os farrapos da veste. mais fortes ressaíam as vozes inferiores dos seus pensamentos e mais ilusório lhe aparecia o presente reflectido no protótipo celeste. em voltar à vida anterior. e daí lhe viera uirna vergonha mortal que lhe causara arrepios. Mas quanto mais lamentável se tornava o seu estado nas setenta e duas horas que passou no fosso. Lacerado? Apenas lhe tinham rasgado um lábio e arrancado a pele aqui e ali. a ideia do obscurecimento e 179 . vítima. como as sombras encobriam a Lua morta. Deus pedira o sacrifício do filho ao pai. com uma queda a semelhante profundi­ dade. Era tão absurdo como pensar que a estrela da tarde pudesse voltar do abismo em que caía e afastar a sombra da Lua negra de modo a ficar cheia. timhaim-lha arrancado do corpo e rasgado com unhas e dentes. a esperança de José em não perecer definitivamente e ser de qualquer modo salvo do fosso. deus lacerado. Ao seu espírito acudiam juntos os pensamentos die «des­ nudarão» e «morte». revelara um pouco a Rúben e que no decurso dos aconteci­ mentos se fora esclarecendo. rogando: «Não a rasgueis!»? E como não havia de invadi-lo ao mesmo tempo uma certa ailegria pela verificação daquela união de pensamentos em que o acontecimento ocorria? Nenhuma dor do corpo ou da alma lhe impedia o espírito de notar o conjunto de alusões com qiue o facto se dava a reconhecer como realidade superior. confessara «não ter cora­ gem». que seria obrigado a ter coragem. horripilado. pois tanto sie lhe podia atribuir o sen­ tido de cisterna como de cárcere. Etura. como o aimor arranca o véu da esposa na alcova nupcial. e pela con­ fiança que os irmãos tinham na sua morte. mas ao mesmo tempo a sua raizão rira como de um gracejo pelo emprego de uma palavra cheia de alusões. não via senão a unidade do duplo. Mas. de sorte que por fim já não distinguia o que estava em cima do que estava em baixo e. a cisterna equivalia já à entrada no mundo inferior. quando o grande Rúben decidira que o ati­ rassem ao fosso. no entender de José. a natural esperança a que se agarra a vida até ao extremo necessita de uma justificação razoável. A falar a ver­ dade. era o modielo primordial da morte do astro. Pobre pai! la agora ser forçado a tê-la. ia além da sua vida. E era muito natural que o notasse. quando os irmãos o ergueram sobre o bocal da cisterna e ele teve de precipitar-se na escuridão com uma habi­ lidade espantosa. da com­ preensão do seu eu que recentemente. Era o abismo ao qual desce o filho verdadeiro. a veste. numa palavra. O que bri­ lhara. Debulhara-se em lágrimas. como se fosse o seu. aitravés do sucedido. pastor. para a apresentarem ao pai. Mas a ideia da morte do astro. o reino dos mortos. acudiu-lhe claramente ao espírito vigilante a com­ paração com a estrela que de noite é mulher e de manhã homem. os encarniçados assassinos.

conduzia o seu animal pelas compridas rédeas. em lugar do sangue do filho. um sobrinho. era ele o chefe do grupo. como da outra vez. de cara e mãos muito trigueiras. e mais uns dois ou três bagageiros. com o qual ele se despenhara no fosso e que cairia para trás. de barbicha branca e idade venerável. E nisto se justificava a natural esperança de José aité se tomar fé. Como todos podiam ver. Eram mercadores ambu­ lantes que não moravam ali nem na terra de onde vinham. isto é. a cabeça inclinada para um lado em atitude meditativa. branca e amarrotada. e «Mizraim». José não ailimentava essa esperamça só para si e por sua causai. a que se chama Egipto e D Í80 e Í8Í . nova luz e ressurreição. ia sentado no alto da sela. ia à frente de todos. com argolas de feltro em volta dos panos que lhes cobriam a cabeça. Um rapaz de lábios grossos metido numa túnica de algo­ dão. na orla do deserto árabe fronteiro ao Egipto. vinham uns homens. Mas ainda que o pai cresse que ia além da morte. Uma esperainça que não dizia respeito à saída do fosso paira voltar ao pas­ sado. Quem eram? Pode-se dizer exactamente e de modo geral que eram oriundos do Meio-Dia. e olhos atentos girando em redor. que dois rapazes seguravam pelas rédeas. mas de que todavia o fosso setria vencido. o sangue do animal — pensava José na cova — seria aceite. a testa encoberta pelo capuz.da queda do filho que terá por morada o mundo ínfero. com dois camelos carregados apenas de mercadorias. uns quatro ou cinco homens. Um deles. do país de Edom-Seir. embalados pelos passos dos animais. do Oriente e do outro Lado do rio. Jacob uma coisa que ia além da vida. genro e filhos. estran­ geiros. o mais velho. enquanto o patrão com as mãos em descanso. Receber a túnica manchada de sangue era também para. Os outros. embiocado. 6 A PEDRA SOBRE O FOSSO OS ISM AELITAS Gilead. envolvidos em albor­ nozes de listas diagonais. mas também em atenção ao velho que estava em casa. continha em si ai ideia de reaparição. segundo a remota pretensão.

sendo homens de Muzri. desamarraram os recipientes e desceram até ao poço. para verem se em Dotan haveria mercado e teriam possibilidade de fazer alguma transacção. O rapaz não se demorou muito no local. em pequena escala. Metade da 183 . Fizeram deitar os animais. tio. sudoríferos aromáticos. Estavam na dúvida de tomarem a estrada Nonte-Sul. — Esta cisterna — disse ele — está coberta e escondida. Não vejo por aqui nin­ guém que no^lo possa impedir. Para eles não tinha grande importância saber como lhes chamavam nem quem eram e o prin­ cipal consistia em estarem no mundo e poderem andar a traficar de um lado para o outro. ficavam indiferentes. para que nos chamam Ismaelitas se. além de guiar caravanas do rei e do estado de região em região. tinham vendido à gente da pla­ nície. pano egípcio de várias qualidades e belos objectos de vidro em pasta. receber por preços razoáveis alguns produtos da região. Ainda que se lhes desse simples e vagamente o nome de Ismaelitas. Foi e voltou num pulo e moveu os lábios túmidos para anunciar que lá em baixo havia um poço coberto. ou de se 18 2 conservarem um tempo pelo Norte e Oriente. Convinha-lhes agora. que descendiam. o jovem ardente e belo de quem se podia considerar. Meteram os animais por um terreno baixo que ia dar a uma encosta coberta de musgo. Obedeceram. Enfim. não longe da terra do olíbano. uma carga de pistácias e amêndoas. filhos inferiores de Abraão e filhos do deserto de Ketura eram mais ou menos o mesmo e um respondia pelo outro. com uma oerta liberdade. sob o nome de Midianitas. Seria prematuro. recebendo em troca. Fariam descer o odre e ele encher-se-ia da preciosa água tão ciosamente guardada. do lado de cá do rio. como o fora Ismael. compunha um pouco as vestes e com a mão tri­ gueira ia dando instruções para que removessem a tampa do poço. fê-los parar e mandou na frente o rapaz do capuz explorar o sítio. indicou-o aos outros. Além disso. para lá do Jordão.. porque todos seguiam as ordens do velho. mas outra mulher do deserto. Por ocasião das festas do sacrifício. A pedra estava partida em duas metades. Foi o velho quem primeiro o viu. Com isto não quero dizer que a água não preste. sobrinho. tornando-se então como sua primeira mãe não Ketura. mas num estado de grande desleixo. indo o velho na frente e os outros atrás dele. Se assim fosse.que era já também chamado território seu. láudano resinoso. que fazia negócio das suas mercadorias e possuía empórios nos quais exercia. não fazemos a nossa gatunice. Havia até uma certa razão para chamar ao velho e aos companheiros Ismaelitas. O facto de vir do Oriente não significava que a caravana fosse do rei ou do estado. Eram pois os viajantes chamados Ma’oniitas de Ma'in ou Mineus ou Midianitas. A gente destes sítios parece muito zelosa e ao mesmo tempo descuidada. ao mar. do nome do filho de Abraão e de Ketura. Já passava do meio-dia quando entraram no vale. com suficiente vantagem. Mas como Medan e Midian. que não o levavam a mal. Abaixando a cabeça. eles viajavam por comta própria. chamava-se também «Musni» e noutro dialecto «Mosar». pois os viajantes são por natureza exploradores e curiosos. Lançaram um olhar em redor e viram que não havia por ali nem balde nem nora. em vez de Midianitas podia-se taimbém dizer «Medanim». avistaram ao fundo entre o matagal um muro de alvenaria com uns degraus em ruínas. formava uma passagem através do país da laima. goma. quando se apresenta o ocasião. para falar a verdade. durante as quais havia mercado. um pouco de mel e de mos­ tarda. — Coberto ou ocuilto — disse o velho — vale a pena destapá-lo. sentado numa pedra caída junto do muro. eram meio egípcios. visto que. filhos e uns dois escravos. Pelo contrário. ou ainda «Midian». que seguia pela crista do monte atra­ vessando Ursulim e Hébron e os levava a Gaza. alcatira. as suas acti­ vidades com outros povos. a egípcia Agar. Hão-de sempre fariscar tudo. O velho. Muito bem. Não importava. que abrangia todos os habitantes do deserto e da estepe. em fila. uma colónia do povo de Ma’in no baixo Meio-Dia. Como olhavam atentamente para todos os lados. não sabemos frustrar a avareza? Pegad num odre. numa porção de vasilhas e desçamos. E depois. genro. a fim de alcançarem depressa a planície de Megido e daí a costa ao longo da qual des­ ceriam até à sua pátria de passagem. e pode muito bem ser que o poço tenha água fresca e de bom gosto. renovávamos os depósitos. Parece que esta gente procede com avareza ou desconfiança.

Mibsam.— Quem é ou o que é que está aí a gemer dentro do poço? É esse o teu lugar ou preferias evitá-lo? Puseram-se à escuta. meu genro. pode­ riam hesitar e pôr-se em fuga. — Vês alguma coisa. Outros. — A cisterna está seca — disse o genro. tirou o guarda-pó e ergueu os braços para se deixar atar com a corda. Onde está a corda? Ah. — Vejo — pôde agora este responder — vejo.tampa já foi afastada. — E espantoso! — exclamou o velho. Do fundo saía um gemido. 185 . medrosos. para ver como estão as coisas e libertar aquele ente. se é esse o teu desejo. gritas «puxai!» e com as forças conjugadas içamos-te. ficaram aguardando uma palavra sua. e ponhamo-nos ai escutar se o som se repete. — E agora sou obrigado a acreditar nos meus ouvidos — decla­ rou o velho. dirigiu-se para o degrau da beira do poço. sem virar a cabeça para o velho e continuando a olhar para baixo. ou algum espírito do abismo. é evidente. voltando-se para os seus — o que pode acontecer numa viagem. Mas é preciso tomar as coisas pelo lado prático. E nos vossos semblantes. mais urgente é. — Não pode ser — disse o velho — que dessa cisterna saia um gemido. Depois ouvi­ ram um fio de voz longínqua: — Mãe! Salva o teu filho! Apoderou-se de todos grande nervosismo. turva não distinguia nada. Também eu não nego que é lúgubre ouvir que nos dirigem a palavra das profundezas. Onde está a corda? Serás capaz. afasitando com os braços quem lhe servia de estorvo e foi também ele olhar para o fosso. — Confio nos vossos olhos de gente nova. meu genro? — perguntou. Vamos ficar perfeitamente imóveis para que se faça absoluto silêncio. não nasceu ali. és tu que escolho para descer. mais do que perplexos. ei-la. confirmaram a observação. Passou um pouco de tempo. para que sejas como um membro nosso que estendemos até ao fundo e que trazemos outra vez para cima com a presa. com voz cansada de velho. os filhos. uma coisa branca a mexer e parece um ser articulado. a ver se alguém responde. A tua mãe não está aqui — gritou de novo para o fundo — mas em cima estão pessoas piedosas que te 184 querem livrar. todos apuraraim os ouvidos. no fundo. — Amarrado! Quanto mais árdua se toma a nossa intervenção. Cuidarei de que te amarrem. porque o gemido soou com uma expressão de extrema necessidade de socorro. Era um mocetão de rosto curto. Tirou o pano que lhe cobria os cabelos crespos. por cortesia. Mibsam declarou-se disposto a descer. Haveis de concordar que fizemos bem em explorar esta cisterna coberta e escondida. mas como ele já tinha a vista. leio claramente que nem vós estais livres de tais tentações. Mibsam. É das coisas mais estranhas que me sucedem entre os rios. a ti. Não esqueçais que fui eu quem deu a ideia. amaciado de maneira maravilhosa. Vou chamar. E mal o disse. Conquanto tivesse posto uma das mãos em concha atrás da orelha. e enquanto ela nos pede a nossa enérgica intervenção fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. Assim que te vires senhor dela. sabendo que podia fiar-se na qualidade dela. Os outros. — Ide buscar uma corda para a deitarmos ao poço e trazermos à luz do dia aquela criatura que. o velho pediu que lho repetissem. — Acabais de ouvir — disse então. Olá! — gritou para dentro da cisterna. Não creio nos meus ouvidos. cujo branco se destacava fortemente na tez morena. Kedar e Kedmas. Depois ouviu-se dizer baixinho: — Estou amarrado. Temos de fazer descer um de vós lá ao fundo. — Depressa! — gritou o velho. Levantou-se. nosso membro. mas de papiro egípcio. ó criatura — perguntou para o fosso — de agarrar uma corda e enlaçar-te de modo que te possamos puxar para cima? Decorreu de novo algum tempo antes de vir a resposta. Tirai também a outra com a vossa força juvenil e colocai-a em cima dos tijolos ao lado da irmã verdoenga. Não era uma corda de cânhamo. com nariz muito comprido mas achatado e olhos salientes. E então? Sorri para vós. e não há dúvida que falou connosco a pessoa do poço. Quisesse ou não quisesse. o círculo de água cristalina e é puro o espelho? Estavam em volta da cisterna sobre o o primeiro degrau e cur­ vavam-se para o fundo. juntamente com a presa. Novo gemido. Vede — dizia.

porque de vez em quando ele descerra as pálpebras e vê. as palavras dirigidas àquele ser humano por Mibsan. para o velho e sorriu-lhe descoroçoadamemte. Quando o velho. Formara-se crosta sobre as feridas. de acordo com a ordem. 186 porque do ponto de vista terreno parece-me um rapaz de gente fina. doridamente mas com curiosidade. Em seguida. apesar de imundos e fedorentos por causa da profundidade! Kedar e Kedma. é pouco amável estardes de nariz tapado. por outras palavras. a fim de examinar a presa que haviam depo­ sitado sobre o degrau circular. Bebeu-o por uma caneca1 que um escravo segurava. — Sem dúvida. mal acabou. lhe perguntou quanto tempo permanecera dentro da cisterna. anda aqui um mistério. devolveu uma parte como um lactante. o genro pôs os pés na beira do muro. Como os mercadores ficaram encantados ao ver o moço enlaçado! Levantavam olhos e mãos para o Céu. — Nosso servo — repetiu o velho. tendo nos braços o habitante da cisterna. por lhe faltar a água e estar no seco! Mas passemos à parte prática e façamos o que esta criatura precisa. com as mãos apoiadas nos joelhos. enquanto o velho comandava a operação com mãos solícitas. Meu filho. desatai-o. cheirando a mofo. Era um antigo que não quebrava. Bebeu com tanta sofreguidão que. que arquejava para o erguer e lhe atar a corda.» Os ouitros meteram mãos à obra e no meio de gritos monótonos foram içando a dupla carga. até Efer. Porque 187 . se não da mais fina. pondo aquilo em relação com os três dias do mundo ínfero da Lua nova. os filhos e os escravos. os seus libertadores. Assim está bem. uma sensação de contentamento. sobrinho do velho. nem construir cabanas até que recobre as forças. de modo que os outros ficaram sabendo tanto como antes. à vista do fenómeno. Às vezes abria-o.baitido. fazendo com a mão livre diante dos lábios um sinal negativo. abafadas. como vários que há no mundo e dos quais se encontram em viagem vestígios que nos causam admiração. a língua obedece-te para nos dizeres quem és? Apesar da extrema fraqueza. extenuado. deixou-se escorregar. Por isso olhou apenas. a que os Mineus não atribuíram grande importância. Balouçando. O que agora nos resta fazer é isto: temos de levar connosco esta criatura. José tailvez pudesse falar. não sei porquê. de cabeça baixa. deixando-os na dúvida de ter sido lan­ çado por mão humana ou de estar em jogo qualquer poder celeste. murmurou: «Vosso servo!» caindo de novo para trás. cortai as cordas. Deram-lhe leite. dando-me. Noto — acrescentou—que o rapaz me toca o coração. Pouco tempo depois a corda afrouxou porque Mibsan tocara no fundo. E como também preten­ dessem saber como caíra lá dentro. E ide buscar leite para o restaurar. — Misericordiosa mãe dos deuses! — exclamou o velho. e a inchação do Olho diminuíra tanto que podia abri-lo. não sei como. Aí estava ele agora sentado. quem o atirara para lá. porém. maleável e resistente. Até sorriu do espanto deles. mergulhando no seco. sem nós. enquanto os que o seguravam se fincavam nos pés e com ligeiras sacudidelas faziam deslizar a corda pelas mãos. Os outros puderam então mudar a posição das pernas e ir espreitar. em deplorável estado e quase morto de inanição. encostada à parede da cisterna. Todos parti­ ciparam no serviço. Os homens negociavam naquela especialidade de cordas e traziam consigo vários rolos. porque as cordas tinhamjlhe entorpecido os braços. pélo que vejo. Não sei o que estais pensando. Mibsam sentou-se na beira da cisterna. mas de preferência conservava os olthos fechados. Depois acocoraram-se. — Que pescámos nós do fundo da terra! Vede se ele não é como o espírito da cisterna abandonada. e no dedo uma pedra preciosa propicia­ tória. ligado com as cordas. porque é uim achado nosso e porque. Daí a pouco estava o genro atado e pendurado. caído em desgraça. porque não podemos deixá-la aqui. limitou a sua resposta a um gesto vago acompa­ nhado de um alçar de testa. Trazia um amuleto ao pescoço. em vias de sarar. lhe voltaram a perguntar quem era. Antes de mais nada. mas. José estendeu três dedos para indicar que tinham sido três dias. De quando em quando soerguia as pestanas e por baixo delas espiava de revés. gritou: «Puxai. Mas não queria e nem sequer pensava em revelar àqueles Ismaelitas as discórdias de família que não eram de conta deles. meneavam a cabeça e davam estalos com a língua. Reparai nestes cílios e na forma delicada dos membros. não lhe chegava o ar ao nariz. Aos ouvidos chegavam-lhes. E era tudo quanto trazia consigo. Quando. pendurado numa correntezinha de bronze.

Mas. Observando com atenção este achado. invalidava todas as questões. nem do mistério que o rodeia. já que ele saiu nu e sujo do fundo da terra como do ventre da mãe e é como se tivesse nascido duas vezes. Í88 O S VLANOS DÊ RÚBEN Naqueles dias os filhos de Jacob não andavam de bom humor. Mentiriam se afirmassem que. de sorte que olhava tudo de alto com as pálpebras semicerradas. mas ao mesmo tempo gostariam que fosse lento. pois. Mas no caso de ailguém se apresentar a reclamá-lo. E assim prosseguiram os mercadores o seu caminho. ainda que parcial. Assim tinha decidido. tudo isso lhes parecia sem importância. — Ouviste-lo? — perguntou o velho. cobri-o com este manto. De resto. Mas de nada lhe valeu a resmunguice. Quisera ver quem se atre­ veria a chamar-nos ladrões. claro ou escuro. não podem passar por definiti­ vamente assentes. Evitavam cruzar os olhares. E por ordem dele também. todos desejavam que fosse rápido. Quem tem um fraco. — Eu sei ler pedras e escrever em caracteres cumeifonmes — disse José. já vos disse. que vêem mas não sabem olhar. envol­ vido no manto. a um resgate res­ peitável. depois de o ter feito repetir o que dissera. Tinham chegado àquele ponto quase sem se Í89 .. mas. Fosse como fosse. Agora o espi­ nho fora extraído. Tudo corria segundo a opinião do velho. aquilo tinha de acabar um dia e de qualquer maneira. moço de traços serenamente regulares e de cabeça nobre­ mente erguida. o seu halo parece-me extraordinàriamente claro e tenho a impressão de que descobrimos uma coisa que não se deita fora. onde talvez houvesse mercado. Eia. emana da sua matéria. como se o espinho estivesse envenenado. estavam sempre taciturnos. e quando conversavam sobre as coisas mais necessárias. pô-lo diante de si. Entretanto. o sono se lhes tornara mais agradável. e quando um tinha que falar com o outro olhava para o lado e não para a cara do interlocutor. assentes ou não. um dos filhos. conquanto não pudessem imaginar qual seria. contrariados com a vergonha que não findara. endireitando-se uim pouco e caindo novamente sobre o laido. depois dos últimos acontecimentos. graças à minha inspiração de explorar a cisterna. e não também com os olhos. por José (fraco que conta milénios e do qual esta narração objectiva procura manter-se isenta) deve acautelar-se. por mais demorado. porque. com um anel preto em volta do pano branco da cabeça. porque usamos do nosso direito de descobridores e não nos pomos a inquirir quem foi que deitou fora ou perdeu o que encontrámos. O dono resmungou ao ouvir que ia ficair de posse dele o jovem da cisterna e sujá-lo todo. fomos nós que o achámos. Parece-me portanto que. lastimoso e asqueroso que fosse o pro­ cesso— esse definhar e perecer lá no abismo — embora ninguém pudesse adivinhar quanto tempo ainda duraria. faziam-no sucintamente e entredentes. não se sentiam melhor do que antes. pois amiúde deixavam escapar palavras como «tudo bem» e «por ora seria justo» ou «isto é o menos» — veladas alusões à realidade que estava por detrás do que pròpraamente haviam combinado e que enquanto não ficasse bem esclarecida.não se trata só de compaixão. Em volta de todos os homens há um halo que não é matéria sua. Aqui convém insistir mais uma vez em que não se consideram os filhos de Jacob como homens de coração empedernido. quando tinham ainda o espinho cravado na carne e tropeçavam no tojo. na expectativa de um fim menos desairoso. e os escravos pegaram no rapaz. que não é para desprezar. Por um lado. para não tomar em relação a eles uma atitude tão unilateral. Foi um achado. em cima do camelo. Kedma. porque o próprio José era de opinião diferente. há aqui alguma coisa a ganhar. em direcção a Dotan. Levemo-lo connosco. mas em torno da chaga a dor era igual e a chaga supurava. de qualquer modo. A esse respeito calavam-se. e depuseram-no sobre os animais que estavam à espera. — Ele conhece os escritos e tem uma boa educação. Os olhos velhos e espertos podem apercebê-lo melhor do que os moços e inexperientes. porque os assuntos sobre os quais a gente se entende só com a boca. de modo que em seguida nenhum sabia se aquilo de que tinham tratado seria válido entre eles. O manto a que o velho aludia era o que Mibsan despira. temos direito a uma recompensa. depois da desforra.

os homens estavam sentadas à sombra das árvores vermelhas. era preciso um gancho forte que se pren­ desse nas ligaduras à laia de anzol. Não era simples: o rapaz estava atado e fraco. falar por monossílabos. Naquela tarde. para o pai. e acredite-se que prefeririam não ter chegado. Não só o haviam aitirado para lá. Está expiado o pecado. Suportara três dias a ideia — ele que cami­ nhava sobre vestígios luminosos — de que o cordeiro de Jacob estava a apodrecer na cisterna. Depois. inertes. Não era só o grande Rúben que desejava sailvar do fosso o filho de Raquel. sem comida e sem água antes de serem encontradas. Especialmente por causa desse vinho. Mas era possí­ vel? Infelizmente não. 191 . Para aqueles homens. Pensava na roupa que tinha de tirar da sua arca para vestir o nu. Segundo dealarara. ia a Dotan para o negócio da troca de produtos agrícolas por lrutos da árvore do pão e também um pouco de vinho aromático. sentindo vergonha perante ele. Na ver­ dade. impedindo peremptoriamente a ressur­ reição. Levá-lo-ia ao pai. Pode dizer-se que todos os irmãos se sentiam de quando em quando espicaçados pelo mesmo desejo. Eles não sabiam dos três dias. que dava uma volta pelos arredares no intuito de colher alguma novidade que pudesse transmitir por onde passasse. Mas agora era de mais. o grande Rúben virara-se mil vezes na cama sem poder dormir e decidira enganar todos e salvar José. que morresse realmente. ali onde recentemente haviam falado de Lamech. Tinha de ficar lá dentro. Como haviam então de portar-se com o sonhador. dizendo-lhe: «Sou a água impetuosa e o pecado não está longe de mim. Raramente houve uma situação tão intrincada. para o pescar e retirar. e não podia agarrar a coida que Rúben lhe lançasse.aperceber. como passara a ser costume entre eles. Estavam só oito. Volto a ser o teu pri­ mogénito? Então Rúben cessou de se virar na cama e ficou todo o resto da noite imóvel. O cora­ ção do grande Rúben transbordava de alegria com a decisão que tomara e o seu júbilo era atenuado apenas pela apreensão de que José não resistisse até ao cair da tarde. porque a esperança era absurda. de «três dias». e quem agora pensasse apenas nos sofrimentos de José seria parcial. colocando o rapaz na sua frente. Não bastava uma corda. Talvez fosse melhor um tecido de corda. uma rede. Ao despedir-se dos irmãos foi-lhe difícil. Mas a verdade é que Rúben se separara deles para um negócio muito diferente e só lhes acenara com o vinho aromático para tornar a sua ida mais aceitável. protegido pela escuridão. E mdhor seria que a não tivessem sentido. como ele lhe chamava. dignos de lástima. Ele estava lògicamente morto e outra coisa não tinham a fazer senão esperar. uma daquelas situações embaraçosas de que nin­ guém consegue livrar-se. e até o dobro. Era bom saber-se isto. estudando em todos os porme­ nores a maneira de salivar e de fugir. não se tratava. e Rúben que se ausentara de manhã cedo.decisão morria sob a inexo­ rável Objecção do entendimento. sabiam de pes­ soas que se tinham perdido no deserto e tinham passado sete dias. o herói de tempos remotos. a fim de que o amarrado pudesse resvalar sobre ela e ser içado até à beira do poço. Naquela noite. pois era forte. como as que a vida engendra e o tabuleiro de xadrez nos põe diante dos olhos com flagrante analogia. com efeito. Naqueles dias. possibilitando a pescai. Mas também sou impetuoso para o bem e aqui te trago o teu cordeiro que que­ riam despedaçar. em torn áspero e resmungão. E era doloroso sabê-lo. Faltavam dois: Neftali. os irmãos tinham 190 aprovado a viagem de negócios de Rúben. Pelo contrário. para que nada faltasse. porque dava lugar a uma esperança. de olhos abertos. naquela manhã. se não podiam tirá-lo do fosso pouco antes de ele morrer? Havia um muro e nenhuma maneira de escapar. fixava a atenção no burro forte que fingiria tocar para Dotan com um carrego de lã e queijo enquanto montaria. Reme­ morava todos os apetrechos necessários. como de todos os modos ligado à sepultura. Mas essa tenebrosa mágoa provinha apenas da situação complicada em que se tinham metido: uma daquelas prisões. fugiria com ele a cinco dias de distância levando-o paira Hébron. ou talvez ainda uma tábua entre as cordas. contra os seus hábitos. E só restava pedir a Deus que já não fosse demasiado tarde! Esquivar-se-ia dos irmãos e libertaria o submerso. atordoava e dis­ traía as ideias. E a precipitada. o veloz. mais de uma vez naqueles dias penosos lamentaram não ter dado ao caso uma solução imediata e estavam irritados contra Rúben que frustrara tudo. todos eles prestavam àvidamente homenagem ao vinho de miirra que se fabricava em Dotan.

aos saltos. tenho uma coisa para vos perguntar e o que vos pergunto é isto: que lucramos matando o nosso irmão e escondendo o sangue? Respondo por vós todos: nada. Neftali. Balançavam o corpo de um lado para o outro. passado pouco tempo. — E Judá falou: — Filhos de Jacob. que vinha da direita. precipitá-lo no fosso e per­ suadir-nos de que lhe poupávamos o sangue e que poderíamos comer ao lado da cisterna. com ar aborrecido. amigos — gritava ele. filho de Bala. com bagagem de mercadorias. suspirando. assaltou-os uma espécie de desas­ sossego. Judá. atraindo-os para aquela maldita e complicada situa­ ção. Quando o ouviram. nos escondamos por detrás delas e conti192 . Fitavam de olhos turvos e semicerrados o ponto distante donde surgira o esplendor. e que sob pretexto de que há no mundo distinções. — Uma grande notí­ cia: daü. mirando em redor. Depois todos se calaram. como «fazer» e «acontecer». a nós próprios. — Sim. que te ouviremos. E quando Judá — pois foi ele—levantou a voz e os chamou. tomados de melancoJia. — Irmãos. De repente avistaram Neftali. à distância de três pedradas do sítio onde estais sentados. Porém. e já de longe perceberam que ele tinha alguma novidade para contar. que até mete nojo. estremeceram e todos se viraram para ele: — Fala. do lado de Gilead. que os desconcertara. — Está bem. porque todos éramos demasiado tímidos para derramar aquele sangue. Não tinham vontade de fazer negócios. Parecem ser pagãos pacíficos. os irmãos. — Isso é o menos — comentou outro. Se os chamásse­ mos. Estarei porventura censurando a nossa timidez? Não. oito dos irmãos sentados debaixo dos pinheiros bravos e frondosos. obrigado pela novidade. rapazes. sim — disse um deles. Dentro em pouco estarão por estas bandas. mas lamento que estejamos a enganar-nos. pelo matagal. pois. o fogo-fátuo bailador. talvez se pudesse entabular algum negócio. vem uma cáfila de Ismaelitas com o nariz voltado para cá.A VENDA Estavam. voltaram a cabeça para o outro lado. Da nossa parte foi uma parvoíce.

enquanto outros. Ali estaiva. por nos ter espoliado. Por isso começaram todos. como a estrela cadente se apaga no nada sem deixar o menor ves­ tígio. sim. a dar o seu assentimento. animais dè carga e guardas..nuemos.. Sim. a saída para aquela situação intrin­ cada. confusa e precipitadamente. sim. de acordo com os nossos tempos. ao mesmo tempo. mas agora.. Trazei José aqui. não tinham podido tirar de lá o rapaz. para lugar desconhecido. Ora vejam o que sucede quando se quer fazer como na canção dos tempos antigos. Não era uma caravana extraordinàriamente imponente. Vender. porque isto é um desprezível produto híbrido da canção e dos tempos! Por isso vos digo: uma vez que não sou­ bemos imitar Lamech e tivemos de fazer concessões. São puras fanfarronices! Queríamos imitar o Lameoh da canção e matar o rapazinho. vender é o mais prático. apesar disso. dizendo: — Sim.0 v. indicada pelos ism aditas de Neftali: era o caminho deles. que não tardariam a chegar e a levá-lo com eles até os irmãos o perderem de vista. Saída clara e simples. Vão já alguns à cisterna. sim. sejamos leais agora e. Ainda deve estar com vida. deixamo-lo simplesmente morrer.-2. Até Simeão e Levi acharam aquilo relativamente bem. podiaim. dizes muito bem! Aos Ismaelitas.. com as mãos debaixo do manto. montado num animal que era conduzido por um rapaz. um velho. assim livramo-nos de um beco sem saída. passando por ali. nus e desamparados. e atrás dele. Mas eis que já lá estavam os Ismaelitas. os outros: homens a cavalo. Resiste-se dez e doze dias. porque eJe ia ser entregue aos viandantes. imitando os heróis: tivemos de ceder um pouco aos tempos que já não são como os antigos e. bem o sabemos. assim o afastamos definitivamente. 1. 193 . restitui-se à luz do dia. Envergonhemo-nos. vendamos o rapaz! Foi como se um peso lhes tivesse caído do coração. 13 -j. em direcção ao infinito. de onde a volta era tão impossível como do fosso! Embora lhes não faltasse a von­ tade. que já haviam piscado para a luz ao meditarem na notícia dada por Neftali. em vez de matar o pequeno. Judá. vindos sabe Deus de onde. é como dizes. parque Judá falara segundo o pensamento de todos e abrira-lhes os olhos. uma vez que o heroísmo estaiva fora de moda. À distância de três pedradas apareceu o primeiro. s.. afinal. para que eles o vejam.. em fila. de repenite.

O caso já existira e repetia-se. num fosso do campo.Não pareciam lá muito ricos aqueles mercadores. Estes tinham-se levantado e saudado os viajantes. Apearam-se e. de tapar assim a cachimónia como para se proteger de um «aibubu» de pó? Durante a troca de saudações. Não deixava de ser um tanto incómodo que o objecto da venda não estivesse no local. Estavam até um tanto distraídas. José devia ser mandado para o deserto com os filhos de Ismael. ainda assim. Com efeito. Porque não iam? Provàvelmente porque não fora decidido quem devia ir. Repare-se antes na vida. porque assim. Mas tra­ tava-se de trazer para ali o objecto à venda e seria conveniente que alguns deles. como acréscimo ao original. O mudo afastamento daquela figura atraía involuntàriamente o olhar. filho da mulher verdadeira? Agora também. que efle puxara para a cabeça e para a cara. boa gente! De onde vindes? Para onde ides? Descansai um pouco. com uma servidão de catorze anos. o genro e os sobrinhos. e entregar o rapaz aos Isimaelitas. se sentiam forçados a olhar para a figuira embiocada na segunda linha? A pergunta é supérflua. os irmãos não estavam tranquilos. na poderosa influência de uma desabrida usança que tira àquela ideia quase toda a maldade nela contida originalmente. Porque seria então que Dain. por assiim dizer. ficavam pregados no seu lugar a olhar distraidamente para a figura que se conservava imó­ vel na segunda fila entre o negociante e o filho? 195 . só abaixo da fronte se abria um buraco nas dobras. Os servos. nas costas dos estrangeiros. no espaço entre os dois. Era Carde de mais para ir buscar José. pois iam dois montados no mesmo camelo. mas podia ser qualquer deles. conforme tinham com­ binado à boca baixa ao aproximarem-se dos Ismaelitas. Entre o séquito e os senhores. e antes de tudo o que importava era travar conhe­ cimento com os forasteiros e sondá-los a respeito da aquisição. queriam atravessar a planície. só havia a ideia da venda. Mas. A qualquer pessoa sucederia o mesmo que aos irmãos. logo atrás do veilho e de um filho. mas a agarrá-la pelos cabelos. O pai vendia as filhas em casamento. de forma que. e havemos de convir que a palavra «necessidade» se ajus­ tava à enredada situação em que se achavam os irmãos. se levantassem para ir buscá^lo ao depósito e refrescá-lo em lugar adequado. o acréscimo fora durante milénios levado com pesados encar­ gos a débito dos irmãos na sua conta corrente. por ter brincado. Premido pela mecessiidade. Porque seria que os irmãos. sem se virar. o homeirn vendia os filhos. durante a troca de cumprimentos com as visitas. Tendes aqui a sombra das árvores e pessoas com quem podeis conversar. E porque havia alguém. a fim de os fazer aijoelhair. O chefe 19 4 meneou a cabeça anuindo. sentaram-se uns em frente dos outros. O facto não era novo. com Isaac. O antepassado daqueles mercadores não fora enviado por Abraão para o deserto. Todavia seria possível no momento oportuno trazê-lo para ali. correndo de um lado para o outro entre os animais mon­ tados. desviaram os olhos fitos na colina de Dotan e voltaram a cabeça na direcção de quem os chamava. à maineira dos ímferos.ssacar. estavam na melhor disposição para um cordial acolhimento. por exemplo. naquele embuço. O sé­ quito conservava-se a distância. Os oito levaram portanto as mãos à boca e gritaram: — Olá. direitos à colina de Dotan. como as coisas estavam. com um tempo tão cailmo. fez um sinal aos seus homens e virou para ir visitar os filhos daquela região. As vozes chegaram aos ouvidos dos viajantes e eles prestaram atenção. dois ou três. De novo. Venda de um homem! Venda de um irmão! Ninguém se exceda em aversão sen­ timental. a fim de que o levassem para bem longe e os irmãos ficassem livres dele. trocados os cumpri­ mentos usuais. pondo os dedos abaixo dos olhos para signi­ ficar que veriam de bom grado os hóspedes e levando as mãos à testa e ao peito para indicar que. Zabulon e I. os irmãos nos seus lugares e diante deles os forasteiros. que devia saber muito bem e podia guardar para si o motivo por que temia a luz. Ou talvez por terem receio de parecer descorteses? Mas era fácil achar um pretexto. Porém Judá estava deci­ dido a não deixar escapar a ocasião. Jacob não tivesse comprado a mãe deles a Laibão. estava também sentado um com um manto. vendo bem. com o velho ao meio tendo à direita e à esquerda o filho. mais guardado. já não aguentariam muito tempo. juntamente com Agar. Tranquilamente. tanto em pensamentos como em acções. agitavam o chicote e soltavam gritos que lembravam caca­ rejos. Não por causa daquela estranha figura. e estes oito não estariam respirando nem estariam ali sentados se.

um verdadeiro rei de rebanhos e príncipe de Deus. todas as fontes. pedia licença para observar que tam­ bém tinham experiência da paciente união do tempo com o espaço. — A uma distância de dezassete dias? — perguntou Judá. e se bem que não pudesse compa­ rar-se com um percurso de sete vezes dezassete dias. Seu pai. e portanto também no tempo — confirmou o valiho. para dizer a verdade uns vermezinhos em comparação com os senhores sentados na frente deles. Judá retorquiu que. rei de rebanhos. como já fora dito. de modo que nas viagens já não se admiravam de nada. sabe Deus onde. não queria mais saber de outro. é cento. acrescentando depois: — E ainda foi sorte não terem impli­ cado com o poço construído pelo pai e não o terem entulhado. onde o pai cavara e murara um poço com a profundidade de catorze braças e de grande largura. replicaram os nove.e que se davai? Organizavam caravanas.Dirigindo uma à outra palavras de adulação. Agora traziam nos camelos aícatira em folhas brancas como o leite. em nome de Deus. habitantes do país de Mosar ou Midian e portanto Midianitas. ou simplesmente Ismaelitas. inada se via. estavam agora naquela terra vindos de longe. — Então — acudiu Judá — pode-se dizer que essas regiões. Com quem tinham portanto tão humildes pessoas a honra de tratar? Quando — respondeu o velho — de todo aquele esplendor se desviava a vista para a fixar nele e no seu séquito. todas as árvores que encontravam. Judá e os seus declararam ser simplesmente pastores. — O país de Mosar — quis ainda saber Judá —fica muiito longe. em segundo lugar porque não havia quase nada: eram filhos do poderoso reino de Ma’on. lá para o Oriente. verdadeiramente a uma distância nebulosa? — Muito distante no espaço. eirn primeiro lugar porque se ficava deslumbrado. Oh. Madanim. os irmãos saberiam amargurar-lhes a vida. pensa-se neiai com mais serenidade. em con­ traste com os trabalhadores dos campos. que atraía irresistivelmente o olfacto dos deuses. aludindo à união do solo terrestre com as estrelas. embora ele e os irmãos fossem pastores e não mercadores marítimos. e tinham habitado no vale de Siquém. da região dos rios. tinham feito tantas vezes o trajecto. para o Meio-Dia. — E este é apenas um cálculo aproximado. Vencer o espaço? Peregrinar? Não pretendia iguailar-se aos mercadores que vinham de distâncias nebulosas. porque os homens da cidade eram muito ciosos dos mananciais que possuíam. — Que sejam castigados até à quarta geração! — praguejou o velho. onde o pai lançara a base da sua riqueza. Quando se está familiarizado com a dis­ tância. se bem que ainda rapazes. imitando o Senhor do caminho. Aos reis faziam preços de rei e aos amigos preços mais baixos. no continente de Arabaja. Era tudo quanto podia dizer a respeito das suas humildes pessoas. Bm seguida acrescentaram que eram filhos de um homem riquíssimo do Meio-Dia. 197 . de uma beleza que aquele vale nunca vira. Saberiam dar-lhes uma boa lição. para que este vença o espaço. os estáveis filhos de Baal. pois os animais eram tantos que toda a terra da sua região já não chegavai para os susitentar. Mas que importava o nom. Os irmãos beijaram as pontas dos dedos. essas metas estão todas situadas a perder de vi9ta. e negociavam entre um reino e outro em tesouros que já a mais de um rei tinham apresentado: ouro de Ofir e bálsamos de Punt. ora depreciando-se. Quantas vezes o pastor era também forçado a mudar de pasto e de poços e a emigrar. e também olíbano. as duas pautes falaram da sua vida ora jactando-se. Tanto na viagem como na paragem (por­ que a paragem também faz parte da viagem) deve-se confiar no 196 tempo sem impaciência. podendo-se-lhes também chamar. no incomensurável? — Assim se poderá dizer — aprovou o velho — quando ainda se não andou por lá e se não adquiriu o hábito de conciliar o tempo com o espaço. — Sete vezes dezassete — afirmou o velho. ida e volta. Quem sentisse aquele per­ fume. que conheciam como os seus dedos os marcos miliários. Por fim e em certo momento. e que andavam naquele vale apascentando uma ínfima parte do que ele possuía. aproveitando o tempo em relação ao que se não aproveita do espaço. que mais de uma vez já tinham ido até ao fim do mundo. mas. cheios de inveja por causa da água. morava a cinco dias de distância dali. antes que se pense nisso chega-se à meta.

especialmente a de um pastor e as suas viagens. um facto tão estranho que o incluo nas minhas recor­ dações mais assombrosas e para o qual espero conselho e esclareci­ mento da vossa bondade. não inventamos as histórias do po. mostrara-se um andarilho (tão ágil que a terra lhe saltava ao encontro. ou estejam secos e desmoronados! Podeis crer: ao meu ouvido. Conheceis como os vossos dedos todos os poços destas terras. 199 .r sedento de sangue? É já de três dias o seu desaparecimento. é o que zumbe aos meus ouvidos ai respeito dos poços que mencionastes. A expressão Lembrava um pouco a do instante em que no caimpo. — Não — responderam os irmãos. já um antepassado deles fora um emigrante de raça. dizia-se com uma pontinha de exa­ gero.. Nós.. a Sinear. sendo preciso. Mudais de pastagem e de poço.. Tanto como isso se viajara e vencera o espaço na família deles. e a pala­ vra «poço» fercHine o ouvido a cada instante. a esses poços. que aprendem a arte de narrar para ganhar dinheiro.. de modo que a família ignora o seu paradeiro. Sinto muito. Na verdade. filho do rei dos rebanhos. Viera para aqueles vales e per­ correra-os a torto e a direito.. não teriam feito tanta impressão as referências ao poço na vossa narrativa se há pouco e justamente nesta viagem não me tivesse sucedido. Vosso pai construiu um poço muito fundo e largo. vosso velho servidor. Falamos e narramos sem artifícios nem astúcias. para não falar no pai e senhor que. contenham eles água viva ou recolhida. gostava de saber como se pode contar a vida de um homem. empertigando-se. Tão hirtos estavam que as costas se tornaram côncavas e as pálpebras nem se moviam. e a enfrentar fosse quem fosse na disputa por um prado e um poço. que já está um pouco cansado e meio surdo com a idade. aifeitos. natural­ mente.. o pri­ meiro servo de vosso avô pediu a mão da esposa à beira de um 198 poço e o mesmo fez. a vencer ma luta o leão ou o ladrão. Quando te oiço falar da tua família e suas histórias. De resto. envolvido nas dobras roçagantes. — O senhor negociante — respondeu Judá com os ombros hirtos — quer dizer com isso que estou contando as coisas de maneira monótona.. perdoa a este teu servo mais velho uma observação às tuas palavras. sentado entre os homens. como um zumbido. — Perdoai — disse o velho. meu amigo e caro pastor. Encontrara ele a esposa à beira de um poço e reconhe­ cera-a pela circunstância de ela o d esse dentar chegando-lhe o cân­ taro aos lábios com as suas próprias mãos e abeberar também os dez camelos. e não mencionar um poço sem o qual se não pode dar um passo. — O meu amigo. o vosso pai. Os irmãos retesaram-se ainda mais. de olhes humildemente cravados no chão. tem toda a razão. — Sim — prosseguiu o velho—. quanto ao espaço — continuou Judá depois de o velho lhe fazer uma vénia pela máscula energia— e quanto ao ânimo para viajar. parece-me que o poço representa nela um papel tão importante. oriundo de Ur.ldeia. — E este quem é? — perguntou o velho. Todos os inmãos dele fizeram o mesmo. Agora. imandara em viagem o seu servo mais velho até Naaraim. não. — É a pura verdade — interrompeu o velho. se afastara da casa paterna com destino também a terras da Ca. porque vais falando. fazendo uma viagem de dezassete dias ou imads. e talvez tenha sido raptado ou imaginem que foi devorado por um leão ou então vítima de algum outro se. não somos char­ latães do mercado. na Ca Ideia. não se conformando com a estabili­ dade. O servo. tirando a mão para fora do mamto e atalhando a fa'la de Judá. fortes e inexoráveis nas suas resoluções? Eram pastores — foi a resposta — e portanto capazes de se defender. Que grande papel não representa um poço na vida de um homem e quantas peripécias memoráveis me ligam também.Eram então — perguntou o velho — uns heróis tão cruéis. ainda muito movo e com grande decisão. estendendo a mão para trás de si e puxando para baixo o manto que escondia a cabeça de José. a mim.— Perdoa. por estas bandas onde apascentais. a propósito de um poço. ao que parece.. — Que nós saibamos. irmãos e pastores. A fim de procurar a esposa para o filho que lhe nas­ cera na idade provecta. — Como assim? — perguntou Judá. não se terá sumido um rapaz. Todas as suas peregrinações somadas dariam bem sete vezes setenta dias. Lá estava ele atrás. tão notável como a vossa experiência de viajar e correr mundo.. — Por aqui. O pai chegara a um poço.

Era difícil tomar ao mesmo tempo na devida consideração os dois pontos de vista. ao ver que chegara a altura de se mos­ trar serpente e víbora. teimosia. erguendo os ombros. provocação. O próprio rigor mostra o apreço em que temos o rapaz e o nosso cuidado em mantê-lo. Enfim. lembraram-se desse momento. embora se pudesse ainda confiar no silêncio de José. De facto. E Dan não se envergonhava pouco da sua malograda subtileza. dando-lhe uma terrível coto­ velada nas costelas. como Judá lho fez logo sentir. ao que dizeis. ah! — fez o midianita. blasfémia. porque o pratzo do caistigo expirava exactamente nesta hora e estávamo-nos preparando para o restituir à vida.sob a protecção do pai. Concordamos que às vezes somos um pouco fartes e inexoráveis nas nossas decisões. abaixando os olhos com mansidão e comportando-se em tudo e por tudo como um cordeiro que emudece diante do tosquiador. devemos reconhecer que o castigo foi um pouco além da patifaria. saíam de uma situação difícil para se meterem noutra. prostituição e repetidas ofensas aos bons costumes. porque efectivamente José não disse nada e deixou-se ficar sentado. na presença das próprios a quem tencio­ navam entregá-lo! Nunca acontecera semelhante coisa aos filhos de Jacob e envergonhavam-se daquela tolice. que aliás (e disso não pode haver dúvida) deve ser insignificante. Alguns deles haviam-se posto de pé nuirn pu'lo. um filho de cães. sim. determinando o rigor do castigo. não cessando de abanar a cabeça. pelo menos. Sou de opinião que não deveríeds esperar muito tempo para o libertar. a esse biltre. ora os irmãos. é uma cloaca de vícios. aí onde o vedes. e de bom grado teria interrogado o enjeitado acerca da verdade de tudo aquilo. ele é de uima inteligência e de uima esperteza notáveis. reconhecendo o embuçado. olhaindo o malfeitor e seus severos juizes. que tivemos de castigar por furto com reincidência. se acaso ainda vos interessava 200 o valor do objecto. porém. é sem dúvida uim elemento útil. — É então. uma vez que José estava presente e que. Contrariamente ao bom senso comercial. Decididamente. mas tornaram imediatamente a sentar-se. — A esse vos referíeis quando faláveis do poço e de pessoas desaparecidas? Não vos referíeis a nenhum outro? Pois aludíeis a uma boa peça. O propósito de Dan era apenas justificar aos Ismaelitas o cruel tratamento infligido ao rapaz. Judá. É um escravo. contara o seu atrevido sonho das estrelas. tirando-o do buraco justamente no último momento? Porque. dizendo: — Sim. se não lho impedisse a cortesia. foi deixando de balançar a cabeça e passou a sacudi-la. Pouco a pouico. se quisesse. Judá tomou a si a incumbência de salvar de tais apuros a honra mercantil. a ver se a lição lhe aproveitara. pois a dureza do castigo demonstra uim grau extraordinário de patifaria. enquanto balançava a cabeça. E a confiança não foi vã. oh! Ah. Quando o encontrámos estava tão fraco que cuspi­ nhou o leite que lhe oferecemos. tomadas uma por uma. Apesar de jovem. que ouço? Com que então é um patife de que tivemos dó. As maroteiras deste filho de cão. Com que então achaste-lo e deste-vos ao trabalho de o tirar do fosso onde o tínhamos posto. um maroto inteligente. Dan mordeu o beiço por ver que tinha falado de mais e que. podendo realmente induzir em erro quanto à apre­ ciação do objecto. por perceber que havia aili qualquer coisa irregular. pelo con­ trário. a res­ peito de José. pensava na venda. um pequeno servo da pior espécie. não eram excessivamente graves. hem? Como se chama o filho de cão? 20/ . somos severos e quiçá alguma vez excessivamente severos no punir as ofensas aos bons costumes. não posso esconder-vos: vós levais a penitência um pouco longe de mais. Limitou-se por isso a dizer: — Que ouço. Assim falou o filho de Bala com a sua subtileza. — Oh. tinham sido obrigados a pintar com cores carregadas o objecto à venda. Mas parecia perdurar nos irmãos a confiança que nele depositavam por causa da cova. A explicação era temerária. Só o número delas é que nos dava que pensar. filhos do rei dos rebanhos. a bem da verdade — concluiu Judá. por menitiras. — Esse? — disse Dan. Tudo isto eu quis esclarecer. e graças à nossa austeridade. para ílhe dar uma lição? Antecipaste-vos. fora impru­ dente. O velho ia soltando uns «hum. um filho de ninguém. Os irmãos. hum» e fitava ora José. folgando ao mesmo tempo que o filiho de Lia tivesse tão discreta­ mente desembaraçado a meada. podia desmentir. Curado da depravação. somos senhores um tanto fogosos e impetuosos. nós.

não é filho de ninguém. — É estranho. pdo que vejo. Por isso me atrevi. ninguém consegue passar-me o insigni­ ficante por precioso. por brincadeira. o filho das ervas disse-nos que sabia ler e também escrever. sierdes vós quem recolhe os frutos da boa educação que lhe demos. Assiim. simplesmente. porém. Devia-se porventura pagair a peso do metal da Lua por um pobre Olá. decidiu fazer a proposta paira lhe ver o efeito. coisa que conheço bem. chego a admitir.. — E assim é. dizemos «olá» e «tu» ou assobia­ mos. se o tecido é grosseiro.— Não tem nome — respondeu Dan. que. por mais arrasado que esteja com o duro castigo que recebeu. E como o mádiaoita declarasse que lhe agradava ao coração e ao espírito aquela bagatela. e Tote é grande. hum. que ele possa uma vez ser o aimo e vós os servos. frain/indo novamente os* olhos—. por graça. — Reputamos isso coisa de escravos — retorquiu Judá lacôni­ ca mente. Que Ibis me perdoe este gracejo! Certo é. Não falo da esperteza nem da inteligência. Vede — continuou —. O velho valia-se dessa fraqueza para reduzir o preço. Pode ser que ele mesmo tenha apontado os juncos a este filho do pântano e o tenha instruído. ainda que nos pareça estranha. Judá continuou: — A falar verdade. A mim. até quase ao pôr do Sol. Mentira? — Não mentiu inteiramente—respondeu Judá. franzindo os olhos. e hábil.. — Hum. Se não disse mais do que isso. um filho de cães. que todias as clasises de homens são gover­ nadas. Mas fazei a vossa oferta. porque envelheci apreciando ou desprezando objectos de acordo com o seu valor ou inferioridade. fino ou de qualidade média. — Mas tam­ bém os deuses escrevem nas árvores os nomes dos reis. É assim que o chamamos. — Dizei antes o vosso preço! — respondeu o velho. podeis crer. — Ora — disse em seguida. — Possa ela ser evitada sempre — replicou o velho — porque a verdade é Deus e rei. — Não trato de outra maneira. nem da arte de escrever. Mas ele também se comprometera seriamente por não se ter abstido de gabar o tacto sensível dos seus dedos. uma erva daninha. Agora vede: o rapaz. se podia falar em tal preço e que assim não era possível encarar-se o negócio. — Como havia de ter? Até agora não tem nenhum. e no entanto surpreende-nos. e a 202 minha cabeça pende um pouco para o lado por causa desse velho hábito de examinar. e só o escrevente da sua casa' de livros se governa a si próprio e não tem necessidade de mourejar. não é fácil enganar-me. Quando o tirámos da prisão. Pensai: sou capaz de o imaginar. paira justificar a penitência da cisterna. nascido na lama. Havia ali qualquer coisa que o intri­ gava. Devemos incli­ narmos diante dela. é um filho de pântano. é de fino estofo — diz-mo a mánha cabeça e o meu hábito de apalpar. é um bastardo. rebaixara tanto o valor do objecto à venda. — Decerto! — replicaram os irmãos. O mineu objectou que só por brincadeira. que até fazia rir. Sinto. como se provara e confessara. Judá pediu trinta siclos de prata. O velho calou-se. O regaiteio durou cinco horas seguidas. e Neb-ma-ré é o seu nome. Como já dissemos. é injusto termos tido tantas contrariedades por causa deste rapaz e. vendoi-me o rapaiz. Países há em que este filho do junco seria colocado acima de vós e do vosso suor. endireitando as costas. de modo a apreciar a mercadoria pelo 203 . do tecido. crescida ao deus-dará. uma vez que é escravo. não tem família. como às vezes a verdade nos surpreende! É contra a razão e contra a delicadeza. Com velada astúcia. mas da fazenda. eu sou negociante. Em nome dos irmãos. evitou a mentira. Começou então em torno de José a discussão do negócio. É capaz de estabelecer uma lista e manter uma escrita de bilhas de azeite e fardos de lã. Os meus senho­ res e senhores do filho do pântano também sabem ler e escrever? — perguntou. Queria pô-los à prova. — Fica com ele de presente — murmurou Judá maquinal­ mente. a dizer que não me surpreenderia se ouvisse dizer que Olá era o senhor e vós os servos. no caso presente — conveio o velho. e a minha força de imaginação não me falta inteira­ mente. agora que ele se corrigiu. muito estranho. em mercadorias. apresentava grandes falhas de carácter? Estava agora a' ser castigado o zelo de Dan que. um broto silvestre — tornou o velho. Para o chamar. — Já se disse que tem uma inteligência e uma esperteza fora do vulgar. entre o polegar e o indicador. quando é justamente o contrário.

universalmente difundida e retida. para não dizer. Quem leva consigo em viagem tanto metal e não prefere paigar em objectos? Gam efeito. Diante dos seus olhos e com todo o desplante. fez um último esforço e foi beijair a face de José. os ismaelitas tornaram a enfardelar as mercado­ rias e despediram-se. Mas q-ue havia ele de ver? Vira que os irmãos.justo valor. exclamando que nem por cinquenta podia pensar em separar-se de semelhante tesouro de inteligência e graça! O velho não.que os camelos iam car­ regados. Cedia contudo a pagar viinite siclos segundo o peso fenício. o que representava uma vantagem para os vendedores. sendo afinal José vendido por pouca prata e -muitas facais. filhos das ervas. Mas. Mostrava-se enamorado da mer­ cadoria e. Eram navalhas. a.da erva: os incensas e as óptimas resinas de alóm-rio e todia a espécie de belos objectos que são necessários. Na ânsia de negociar. e não fosse a inveja que os havia levado a lançá-lo ao fosso. Depois d-isto. do que facilmente podia certificar-se com uma interrupção e aparente renúncia ao negócio. O mineu pagou aos pastores um siclo e meio de praita em moedas. nem pelo beijo. celebrando e confirmando a transacção. met eu-o em brios aludindo à sua perícia de conhecedor e discorreu com grainde charlatanaria sobre os exce­ lentes -altribu-tos do rapaz.se deixou engodar. Assim. depois de venderem José. deixaram correr o sangue e assaram a carne sobre as brasas. lanternas.que o comprador melhore o seu negócio. pesando-as na graciosa balança que -trazia à cinta. fiadas no seu silêncio. Estava apenas enta­ bulado nas suas linhas gerais depois de terem acordado no preço. tanto mais que via bem como os outras que­ riam de qualquer modo e por qualquer preço desembaraçar-se do moço. até ao limite de dezoito siclos e meio de prata-. regateava-se o preço de cada objecto. um bocado de bálsaimo. Aq-u-i é indispensável rectificar a opinião-.na memória por uima piedosa descrição. o velho detevejse. e manteve-se em posição superior. não tolerando que brincassem mais com ele. quando já havia descido a vinte e cinco siclos de prata. em «moeda».parte que se paga em mercado-rias dá ocasião a. paira poderem erguer as mãos e comer todos juntas. O repasto e o reforço eram oportunos. Oferecera quinze siclos de prata segundo o peso babilónico. siclos uim jovem tão fino que podia ser o senhor de todos eles e eles seus escravos. seu amo. fizeram subir o preço a vinte siclos. sendo já da sua parte uma prova de condescendência não deduzir a respectiva importância no preço da compra. fixando a venda em vinte siclos de prata ao peso usual. podiam escolher e levar o que quisessem. Tinham efectuado a transacção com todo o vagar. Em honra dos hóspedes. valendo-se da circunstância de ele se ter comprometido. O velho não pensava fazer todo o pagamento em praita. toda uma loja de venda a retalho foram expostas pel-as negociantes diante dos olhas ávidos dos compradores. Efectivamente podia alegar que achara o rapaz e reivindicar para si a retribuição do resgate. Judá perdeu toda a ver­ gonha. ele dava o dito por não dito e não queria ouvir falar mais em criadotes. tudo quanto -tinham consigo foi descarregado e espalhado em cirna. Se não sabiam agora levar tudo isso em conta. sorrateiramente e sem que os ismaelitas se apercebessem. de modo que caiu a tarde antes de se chegar a uma conclusão. pedras de vidro azul. como se ele e os irmãos nunca tivessem sentido a mínima inveja. que era o mais leve. mesmo assim. E comeu do anho. por certas razões. lanternas e bordões. bengalinhais lavradas e com incrustações. Todo um bazar. ai ponto de perguintair em altos berros se era decente entre­ gar-se por trinta. de que os irmãos. Para o resto recorreu-se às diferentes mercadorias de. os irmãos degolaram debaixo das árvores um cordeiro do -rebanho. Acabaram por entrar em aicordo. e decidiram percorrer ainda um trecho do caminho pela tardinha antes de armar o acampamento nocturno. E estes. que silenciosa­ mente o olhava de revés. como se ele já estivesse morto. tomando automàticamente o lugar de vendedor. Judá pegou-lhe na palavra. colheres paira unguentos. faicas de cobre e de pederneira. cujo sangue havia de passar par ser seu. Os iirmãos não as detiveram de 205 . Quando os irmãos. óleo de rícino e sandálias. tinham atirado para o sangue os farrapos da túnica e que estes haviam 204 ficado manchados de vermelho. Agora começavam os pormenores da transacção e a realização em mercadorias do valor estabelecido. Tratava-se agora de gainhar -tempo no espaço. porque ainda faltava muito para que o negócio estivesse concluído. embolsaram dos ismaelitas o preço total em metal sonante. J-osé teve taim-bém o seu quinhão que lhe deu o miineu.

Em excelente posição perante o pai. prometendo seguir as indicações. o seu rosto cheio e musculoso estava pálido. repartindo a culpa por todos e até pelo pai. Também os irmãos se quedaram de olhos. Depois. o vendido. Rúben. Rúben desejava converter o mal em bem e julgava-se capaz de o con­ seguir. Aliás. De cabeça baixa o confessava' a si próprio. do que resultaria um perfeito entendimento. aguilhoava com a porata do cajado as partes posteriores da alimária indiferente. se para tanto chegassem as forças. limitando-se a dar umas indicações sobre a conti­ nuação dai viagem e as estradas que deviam -tomar. Rúben ia olhando para a frente a fim de não tropeçar e já 207 . tocava o burro. de Dotan para a tumba de José. como fizera durante todo aquele tempo. estais seguros e continuais descendo até à agradável areia do mar. enquanto de noite e por caminhos escusos se dirigia paira o fosso. pelo menos sentar entre os degraus e deixar-se içar pelos robustos braços de Rúben. ou.modo algum. para não irdes ter a Hébron ou mais abaixo. Dec id irasse afinal por urna dessas escadas. estragados e tapados pelos ramos de uma figueira. que já reinasse a morte na cisterna quando ele lá chegasse e chamasse baixinho. com todos os petrechos necessários. Os negociantes despediraim-se. vai dar aos pomares e daí à orla da região. e as pernas cingidas nas correias. aspiraram o ar e sopraram dizendo: — Agora já não existe mais! RÚBEN VAI À CISTERNA Mas no crepúsculo que caía e aia noite sussurrante que se aproximava com grandes estrelas. sentado juinto de Kedma. e a justiça reinaria paira sempre. mesmo quando comia o cordeiro. A sua palavra teria então muito valor e ser­ vir-se-ia dela para desculpar os irmãos. filho do velho. Levava no burro uma túnica para o nu e comida para cinco dias. Porque Rúben temia. Os camelos levantaram-se já com os donos em cima. urn perdão recíproco. estava ele absolutamente certo. Temia que José inão tivesse podido suster a alma tanto tempo e assim se frustrassem todos os prepa­ rativos. fazendo o bem? De que fosse uma acção boa e necessária salvar José. não servindo já paira nada a escada de corda que mandara fazer. no chão. se não chegassem. os animais tropeçam e há salteadores emboscados por toda a parte. ficando José. depois de várias voltas e cautelosos rodeios. Por isso. e se ao bem vinha juntar-se o mal e o egoísmo. Destairte Rúben procurava calar o coração que batia forte e consolar-se dos emaranhados motivos da sua agitação. o filho de Lia. urna vez que tornaria a ser o primogénito. Servia para diversos casos: era possível marinhar por ela desde o fundo do poço. acima de tudo. Dos lábios cerrados não lhe saía um grito 206 de incitamento ao burro. com irritação. mas de vez em quando. à sua vista. Procedia tão mail o grande Rúben. se quiserdes. Quando chegou ao cimo do declive próximo do muro. viajando durante sete vezes dezassete dias ou mais. os dias durante os quais Rúben fugiria dos irmãos que queria atraiçoar e que dei­ taria a peirdcr. havia de salvar também os irmãos e tirá-los daquele tormento. parecendo colunas. Era a vida que assim misturava as coisas. As estrelas brilhavam sobre as lajes quebradiças. a fim de pôr em prática o que na noite anterior resolvera com amor e ansiedade. Não é recomendável. na escuridão. o coração batia aceilerado. foi descendo os degraus da casa do poço. pegou na escada de corda e na túnica e. para que andasse miais depressa. através das coliinais. porque Rúbein era forte mas meigo e excitável. que era também o acto da sua purificação e reexaltação. — Evitai de ir pelo interior — disseram — e não caminheis na direcção do espigão da serra que divide as águas. As estradas são más. Avançai pela planície e virai depois à estrada que. Conser­ vava as pálpebras abaixadas. Prevenimos sempre os amigos. largo e potente. na ponta dos pés. tinha de se contentar com isso. Fazendo assim. No seu peito. mas não a Lua. olhou em volta para ver se havia por ali alguém. enquamito a cáfila desaparecia no crepúsculo que rapidamente baixava. e receava que os irmãos o surpreendessem em flagramte e impedissem o acto de salvamento. pisa­ vam suavemente o chão. como instrumento de salvação. ao cordoeiro de Dotan. que certamente estavam ainda aptos a tiirar das profundezas o cordeiro de Jaicob.

Ficou tão con­ fundido que imaginou. olhava Rúben com olhos sonolenttos. quando de súbito parou. queres saber? Não faço a menor ideda. um homem envolvido num pequeno manto e que. Se achas que me pode dar um grande prazer e que estou aqui para me divertir. mas estas palavras abrandaram a cólera que a presença do desconhecido provocara em Rúben. e abstém-se de perguntas azedas.— Não sou nada de especial e não precisas de te espantarQuem procuras? — Quem procuro? — repetiu Rúben. por um momento. cuja aâva figura sobressaía à luz das estrelas. Com os membros ressentidos dos frequentes tropeções. Não era desejável nem agradável que estivesse ali adguóm sentado. ver diante de si José que morrera e eim espírito se sentara junto da sepultura. — Que procuras tu aqui. Ainda que fosse o espírito do morto. não devia. Ele não estava ali sozinho! Estava ali sentado um outro. o sangue gelou-se-lhe nas veias e o grito afectuoso se trans­ formou num som rouco de terror. E debaixo da sua boca graciosa ergueu-se um queixo proemi­ nente. é o que eu quero saber antes de mais nada! — Ah. ser tão esguio nem ter um pescoço tão grosso com uma cabeça tão pequena.o seu peito oprimido sorvia o ar para perguiratar baixinho e rapi­ damente. o desagradável intruso não tinha nenhuma parecença com o filho de Raquel. que se achava destapada. com apaixonada alegria: «José. arrimando-se ao caijado. as duas partes estavaim colocadas uma em cirna da outra e nelas estava sentado. A pedra fora retirada. mas dava4he uma 208 . o grande Rúben estacou. segundo o juízo humano. Gomo era possível? Havia alguém sentado ao pé da cisterna. de acordo com as ordens que recebe. Cada um faz o seu dever. No entainto. esperando com aflitivo desassossego (resposta do irmão. Puseram-me aqui de guarda à cisterna e por isso cá estou a tomar conta. irritado com a inopinada pergunta. silencioso. Mas porque fora então remo­ vida a pedra do poço? Rúben não compreendia nada e balbuciou:: — Quem és tu? — Um dos muitos — respondeu com frieza' o indivídfto sen­ tado. esitás vivo?». de olhos fitos na aparição. sentado no pó. enganas-te. É estranho.

Nem afastá-la nem repô-la. não. sorridente. sim. Se era vida. por exemplo. s. indicava com o dedo trémulo o buraco da cis­ terna. — Uma cisterna destapada? — acrescentou Rúben. Passa sempre por muitas bocas e não se adiamta nada em recuar até à origem. a ti. — Não removi a pedra — disse o desconhecido. não mo perguntes. mão há dúvida — retorquiu o guarda. — Vaizia. Donde vem a incumbência... de aito a baixo o seu braço que emergia. O grão de trigo. é insuportável estares paira aí a falar 14-j. Mas quem te diz.. — Quem foi que removeu a pedra da boca do poço? Foste tu. — Não a pus nem a tirei.— Estás para aí a pairar e roubas-me um tempo precioso com essa brincadeira. tomado de viva agitação. 209 .-2. Sabes uma coisa e estás vendo a outra. por acaso? O homem olhou. Mas não será preciso remover a tampa quando deve vir algum alívio do poço? — Que dizes tu?! — exclamou Rúben. o que produzia entre eles uma certa afinidade. com os lábios es­ tendidos. um pouco menos irritado. roliço mas fraco. — Um posto junto de uma cisterna vazia! — exclamou Rúben com voz abafada. não seriam os seus braços que conseguiriam afastar aquela tampa. e eu não estaria aqui de guarda se a pedra estivesse no seu lugar. sorrindo e sacudindo a caibeçai.certa satisfação que aquele homem não gostasse de ali estar. está em cima do buraco. daí virá vida ao cêntuplo. da túnica sem manga. enquanto do braço lhe pendia a túnica trazida para José —. — Mas quem foi que te pôs aqui?—perguntou Rúben. Como pode dar alívio um poço seco. 1. que o verdadeiro lugar da pedra é este? Às vezes. E. depende do que estarva incorporado no pó e do que mergulhou no poço. — Ora vamos — interrompeu Rúben com voz trémula e agi­ tando nas mãos a escada de corda.0 v. — És destes sítios? — Sou. Alguém se ocupou da penosa tarefa. roído de impaciência-. cada um tem de ficar no seu posto. Assim como assim. a cabeça inclinada para o lado e continuando sentado —. Não. onde não há senão pó e mofo? — Isso depende — replicou o desconhecido.

— José — gritou ele. — Repara que sou de cá e. só a título de experiência. necessária a todos os seres. sentado nessa pedra que uns ladrões removeram. Então Rúben não se conteve. segue o teu caminho! Quero ficar sozinho com este poço. em todo o redor. a esperar.. Chegou a macaquear Rúben. sim. aqui ou seja onde for. como para sustar o impulso do enfurecido Rúben. donde não obtinha resposta. É a base dos princípios rudi­ mentares. senão agarro-te pelo cachaço! — Não me toques! — disse o desconhecido. — Estás muito impaciente — observou o desconhecido — e. tu. és igualzinho à água impetuosa. sobre a pedra. se o rapaz não volta? E aonde devo ir? Dize-me. vazia. Fazes bem e talvez seja por tua causa que eu fui posto aqui. compadecido. se já te não achas aqui. Rúben continuava debruçado na boca do poço. ajuda-me. a angústia irromperam-lhe do peito. o meu irmão José. morto?. se me pões a mão em cirna. — Não fiques aí apático. — Morreu ou levaram-no. tenta-se uma vez.de principias rudimentares que se ensinam às crianças no regaço materno e que toda a gente está farta de saiber. para. Quem se furta a esperar. como a pedra do «poço. que me interessa mais do que a ti. Chegas. ao pé do fosso. uma promessa. em pre­ juízo do meu dever. Estava aqui um rapaz. Como posso aparecer diante do pai. mudou de poiso. — Vazia como cisterna! — explicou Rúben desabridamente. — Vem e põe-se a falar com um buraco vazio! — comentou depois. correu à cisterna. É apenas como que uma tentativa. com a corda e a túnica. seguindo a tua própria declaração. que manda outras pessoas rolarem e só sabe ficar aqui sentado de boca aberta. Rúben? E a dor. por assim dizer. comprido e roliço. ponho4e de pé à força! Não vês. podia. estendendo o braço. e não vês como te tornas ridí­ culo aparecendo assim diante de uma cisterna vazia. filho de Raquel. É que o cumprimento só se realiza lentamente. Peço-te. Não te disse que estou aqui porque fui mandado? Eu podia desaparecer. Os irmãos e eu depusemo-lo ali em baixo. penosamente. que és destes sítios! — gritou na sua irreprimível pena. terás de avir-te com toda esta gente. já é presente. se me permites a comparação. que é ficar aqui e vigiar. se pesa muito. e se lhe dizem que um leão dilacerou o seu cordeiro.. ó braço impotente... — Que loucura! Aqui não há nenhum rapaz. inclinou-se e com voz abafada gritou para o fundo: — Rapaz! Psiu! Estás vivo? Ainda tens forças? O outro.o castigar da arrogância. nada tem que procurar. desesperado —.. com a tua túnica. e aconselha-me. Mas essa gente tem aiirnda que rodar por muito tempo até que a pedra esteja bem removida do buraco. não se pode imaginar como o espera. dizendo também «rapaz. — O fosso está vazio. Mas o pai espera-o. Ó homem. E agora pedes-me conselho e conforto. e fàcilmente. não vês que Deus me fez forte como um touro e que. — Vazia de água. imas ainda não é o verdadeiro cumprimento. porque ele precisa de o reaver. Devias aprender a ter paciência. meu caro. trago comigo uma corda que serve para> vários fiins? Levantaste e some-te da minha vista. com a tua escada de corda. 2/0 — Vazia de tudo — emendou o guarda. Não armes em tonto com esses objectos e a conversa com o vácuo. O cumprimento roda para a frenite. psiu!» e dando outra vez estalos com a língua. para lançar ao teu entendimento umas semen­ 211 . esteve aqui gente que suou a bom suar para remover a pedra. tirar o rapaz da cisterna para o levar ao pai.— Aiinda não percebeste? Vai-te embora. que­ ria ajudar-te a sair do fosso! Aqui está a escada e a túnica! Onde te encontras? A tua porta está aberta! Estás perdido! Estou perdido! Aonde devo ir. — Tu não podes ficar 'aqui mais tempo! — gritou Rúben. eu queria salvar-te. mas não faltava mais nada senão fazê-lo por ordem tua. ria abanando a cabeça e dava estalos com a língua. há três dias. provisòriamente. Por isso vim. ajuda-me. mais outra. E se não te levantas imediatamente. provisório. Ao que parece. além disso. ele cai para trás.. Que vou fazer? Que farás agora. E eu também estou aqui sentado.. Ele começa. no Céu e na Terra. Sou o filho mais velho. Se havia. porque eu estava sentado em cima da pedra. a desilusão. Raptado. ficaste irritado e enraivecido com a minha presença. — E horrível! — suspirou. quem afastou a pedra e que foi feito de José? — Vês? — disse o desconhecido. — Quando chegaste ao pé do poço.

A sua casa está aberta. e penam com sole­ nidade. — O pai! O pai! — gritou Rúben. — O que me dizes não passa de palavras! José morreu ou vive? É o que preciso saber. esse alguém deves ser tu. oculta e todavia aparente. meu amigo. entre desesperado e meditabundo. distribui-os com o pai. A vida de um homem decorre várias vezes. Acolhe tudo isto. e quem não tem de ficar sentado montando a guainda. e melhor do que tu. foi subindo os degraus e a encosta até ao lugar onde deixara o animal. raptado e morto! — Não sei o que entendes por «morte» e «vida». por ordem tua. — Que hei-de esperar. É possível que esta cisterna não fosse mais do que uma tumba trazida por pequena rotação cósmica e que o vosso irmão estivesse só em estado de transição. para ressurgir de mainhã. abrindo camiinho aos seus irmãos! No Céu e na Terra há continua­ mente alusões. piscando o olho e rindo. uma tentativa do cumprimento. mas permite que te recorde o grão que está no seio da terra e te pergunte o que pensas em relação a ele: se está «morto» ou «vive». Quem tem bom entendimento e as sabe ler. nave­ gara entretanto para o alto. a coroa e o traje de gala — lastimou Rúben. peço-Ce. só palavras! — gritou Rúben. mas como uma brincadeira. espera. E como foste tu que vieste para salvar o irmão. se José se foi. e depois alguém o roubou ou alguma fera o despedaçou. Acordou os nove. Sobre ele foi degolado um animal do rebanho. e a barca da Lua. dali aité às cabanas dos irmãos. as coisas com o vosso 212 rapaz não terão chegado ao extremo. tornando-se novamente tumba e berço: tem de recomeçar várias vezes até se tomar definitiva. produz muitas frutos. se me dás licença. e disse-lhes com os beiços a tremer: — O rapaz foi-se embora. de modo que aité nos podemos acotovelar. como vês. como a do rapazinho regado com o sangue. não o reteve. um caso do presente que não se deve tomar muito a sério. — Não mo lembres! Como hei-de comparecer diante do pai sem o filho? — Olha para cima! — disse o guarda. Vai. Mas ficai sendo sempre uma coiisa ambígua. faz bem em reclinar-se. Vi um rapazinho descer à sepultura com uma coroa na cabeça e trajando roupa de galai. Persa que não passa de uim começo. daqui não me aifasto. não parou de sacudir a caibeça. a clari­ dade batia agora na casa do poço. Pelo menos por algum tempo. meter na tua cabeça a semente da ideia de que toda esta história é apenas divertimento e festa. manifestamente — acudiu o guarda. E eu aonde devo ir? 2/3 . Deus também pode fazer o mesmo. Mas deve haver alguém que alimente o germe da espera. Então. — Olha como ela avança hrilhante. em pedaços. Dou-te um conselho: vai paira casa e leva a túnica! Deus pode até lançar um manto sobre quem não está despido. — Palavras. e o rapaz des­ ceu nu à sepultura! — E por isiso — comentou o guarda — vens com a tua túnica. segundo ouço dizer. que não foi feita para nos habituarmos a ela e que esconde em si o germe da espera. Durante todo o caminho. para seu alívio. uma alusão. cuja metade se desenhava no fundo do Céu. E se der frutos. Eu queria. com evidente hesitação. vós não o vereis mais. pais teve de baixar de novo à sepultura. e eu. — Vós o sepul­ tastes. torcendo as mãos. que aqui não tens absolutamente nada que procurar. O JURAMENTO Assim chegou às cabanas. Mas a noite também continua o seu caminho.tes de que guardes silenciosamente o germe. E. — Morreu. O rapaz já não se acha aí. Quando o grão cai na terra e morre. Taimbém pode vestir quem foi despido. No fim de contas. Tu não queres ouvir falar de pueris princípios elementares. o rapazinho foi divino. no seio do teu entendimento deixando-o tranquilamente morrer e medrar. ao subir. escon­ dendo o rosto nas mãos — estavam aí. para o vestir. cujo sangue o banhou completamente. Nada mais tendes a fazer senão dar a notícia ao pai e convencê-lo de que é necessário habituar-se à ideia. Muito fazem os homens para penetrarem o mistério. são apenas palavras. Efectivamente. assim como esta história está no estado de se converter e ainda se não converteu. — Ah. Então Rúben voltou-se sacudindo a cabeça e. enfim. arrancando-os ao primeiro sono. com os joelhos comodamente levantados.

quando cometi aquela falta e ele me amaldiçoou. E indiferente. nessa altura. traído ou vendido. Corríamos o risco de que a primogenitura coubesse ao sonhador. a distância e falta às vossas cabeças a força de o aproximar de vós e viver o rápido instante em que o futuro se torna real. o efeito lancinante que a dor produzirá. Levamos estes trapos ao pai e deixamo-lo supor que José foi morto no campo por um leão. que quer dizer «foi-se embora»? — «Foi-se embora» quer dizer raptado. e vejo perfeitamente. para mostrar que José já não existe. vaii supor! Mas pon­ de-vos lá. confuso. Com que então o grande Rúben tencionara esmagá-los raptando José! Imaginara levantar cabeça e reduzi-los a cinzas. — Desgraçados de nós! Estais aí a tagarelar do futuro sem o verdes nem o conhecerdes. pen­ sando no primeiro instante que eles se lhe tivessem antecipado em ir ao fosso e tivessem dado cabo de José. Combinámos aparecer diante dele com este indí­ cio. — O seu sangue?! — gritou Rúben com voz estridente. Sorriram uns para os outras. — Creio que o pri­ mogénito tem esse direito. tinham reparado no burro com a corda e a túnica. despedaçado. que o seu menino bonito se sumiu. Pode-se ter paz depois do que fizemos e não andar atormentado? Sim. — Foste lá? Para quê? — Para me inteirar — respondeu. morto — bradava Rúben —. e experimentai suportá-lo quando der expansão à sua alma. encolher os ombros e não ligar grande importância à notícia. Deve-se-lhe dizer tudo bem claro e tor­ nar-lhe palpável que o Durnuzi já não existe.—Tanto faz que «ir-se em­ bora» signifique roubado como desaparecido. Mas eu que já me rojei por terra na presença dele.— Fez-se segundo o nosso acordo: o sangue é de um animal do reba­ nho. — É precisa uma certa coragem para te considerares o primo­ génito. Não. Palradores! Sim. Mas Rúben. endurecidos pelo sangue já meio seco. como se já fosse realidade. admirado de que eles recebessem a monstruosa notícia com tanta frieza. despeda­ çado. sondou-os nos olhos e abanou a cabeça. — Falas como se ele fosse só teu irmão.. quis ver o que aconteceu ao rapaz e digo-lhes que já lá não está e que devemos perguintar-nos aonde havemos de ir. desaparecido. ou afundados com uma mó ao pescoço na água maiis profunda. e foi-lhes fácil reconstituir tudo. que o amigo era capa'z de correr atrás deles! Preferiam guardar silêncio. foi — disseram. havia de ignorar que os ismae­ litas levavam José para outros horizontes. — Que disparate! Que estás tu a fantasiar? — perguntaram. que Rúben nem sequer pensara em esconder. Aqui está o que preparámos enquanto foste à tua vida. Não era nosso anseio e uma justa pre­ tensão que etle deixasse de existir? Realizou-se o nosso desejo: o fosso está vazio. Por isso estais a palrar confiadamente do que se vai passar e desco- 215 . teríeis horror e antes quiséreis estar esten­ didos no solo assombrados por um raio.. Muito bonito! Trocaram olhares de entendimento.— Tu?—perguntaram-lhe.. Aonde havemos nós de ir? Eis a pergunta. O fosso está vazio. furioso. E Dan também pode estar nessa expectativa. Rúben não havia de saber o que se passara com os ismaelitas. Ele não pode aguar­ dar nem ficar na dúvida. — Desgraçados! — gemia. 214 — E o pad? — gritou com incontida emoção. Não vedes e não sois capa­ zes de imaginar com clareza nada que não tenha acontecido. Aliás. Bastará pronunciar o nome de Bala para te refrescar a memória. não se sentiam na obrigação de lhe contar o que tinham feito entretanto.. De contrário. tendo os possantes joelhos diante dos olhos que esfregava com os punhos. Deus criou-a terna e grande e ensinou-a a exteriorizar-se. dominando. Pois se assim era (e também sobre isso houve um mudo entendimento). Apresenta-se-vos. E trouxeram os farrapos do véu. levantando os braços. do que verdes o caldo que cozinhastes. conheço o fervor da sua alma em cólera. — Isso já o Dan resolveu com initeligência. porque nasceu no mesmo ano de Levi. na presença dele. Agora é a vez dos gémeos. Rúben estava sentado. «Levamos isso ao pai e deixamo-lo supor». perdido para o pai. Enquanto falavam. mas também era nosso. Deslealdade por deslealdade. — Se se foi embora.

Estou formando um pro­ jecto. Que nenhum de nós. di-lo esta veste manchada de sangue. filho de Lia-. Assim. — A sorte! — bradou apressadamente Neftali. levando-lhe a túnica.— Aonde irei depois de ele supor!? Os move estavam sentados. embora desse uma gargalhada mordaz quando Dan failou dos dez que Jacob ia ganhar em vez de um. mesmo depois disto. porque nenhum queria. devemos fazê-lo — aprovou Aser. proponho Neftali. ficando tão juntos que os narizes se tocavam e os hálitos se misturavam. Aproximaram-se todos. Aceitaram todos a proposta. Então. assim terminam muitas coisas que se passaram. Temiam-no.. Ensinar-lhe-emos o quie tem de dizer a Jacob: «Achámos isto no campo. como a terra do oleiro. Os nove olhavam para Rúben que. Galar-nos-emos como um só homem. e assim esta his­ tória estará terminada. nem à hora da morte. passa-lhe o pé! Quanto a nós.rá a menor alusão a essa história. coniíorane seu costume —. — Ele o diz. por acaso. puseram as mãos em pilha 217 . nem todos. quisera salvar o sepultado. preferindo partilhar de uma poderosa inviolabilidade comum do segredo que os escudasse conitra a própria fraqueza. que não -tinham reagido à notícia de que o fosso se encontrava vazio. perplexos. no deserto. — Mas devemos — perguntou Aser. E se julgais que sentimos o coração leve e que não temos medo de Jacob. Rúben. — Está bem — replicou Judá em voz baixa. — Temos de fazer um juramento -tremendo — disse Levi. Pode-se abafar e matar um acontecimento com o silêncio q-ue se faz à sua volta. Mas de que serve maldizer o que aconteceu e recuar ante o inevitável? José já não é deste munido. Por isso Levi. a alguém que pagaremos. deitando-os a perder. Vê se não será a túnica do teu filho.. já se pode considerar uma boa coisa. ser o único a calar. — Quero pôr as coisas nos seus devidos termas. por não estarem seguros da sua união e desconfiarem uns dos outros. evidentemente. como se se lhe pusesse uma pedra em cima. que sinto na minha mão como o bairro molhado. sensível a boas palavras e a um pouco de lã e coalhada.. — E ficaremos ligados a esse juramento e aliviados. num caso como este. enganas-te. o veloz. já que se fala em Levar. já que nada pode existir sem o sopro da palavra. de tal maneira que seremos como um só corpo e um só silêncio. homem do lugar e da região. jamais e em tempo algum. Ou diga a sorte quem a deverá levar. Credejme. filho de Zelfa. como um só homem que não abre a boca. de olhos no chão. que morre corn a boca fechada guardando o seu segredo. pendte o fôlego e deixa de existir. devemos. Tudo 216 que represente um plano prático. contará a Jacob. Entregá-la-emos a uma pessoa estranha. os dez. passando a língua pelos beiços. inclusive Rúben. perto de Dotan. livrando-vos a todos. — Não há aqui ninguém que vá cuspir em ti pelo teu medo. com conhe­ cimento de causa. e os outras apareçam depois. esperaremos por cá alguns dias antes de nos apresentarmos. Que nos ajude o terrível juramento de Levi. e vou expôlo. Ele deve unir-nos! Estavam de acordo. Ele olhava para os nove. — Temos de fazer o tre­ mendo juramento de que -nenhum de nós. Para portador e mensageiro. contanto que a respeito delas se guarde silêncio sepulcral.» E logo que disser isto. ou seja a quem for. Parece-me mais suave. que tiveste a mesma mãe que eu. pomos diante de Jacob o sinal que nos dis­ pensa de falar. inem por gestos. cerimónias sagradas. erguendo-se diante deles como uma torre e esten­ dendo os braços. sob as estrelas. sem poderem encerrar a sessão. estava. já que não sei falar do futuro e tenho a coragem de con­ fessar o meu medo! — Esoutai. até que ele tenha interpretado completamente o sinal e saiba que perdeu um e ganhou dez. continuaram sen­ tados em frenite das cabanas. Mas eu tenho medo! — bradou o homem forte como um touro. o que aqui se passou e o que fizemos ao sonhador. bronco mas religioso e que de boa vontade organizava.aheceis o medo. e não sabia o que pensar deles. Mas. nem por -um simples olhar. faltando-lhe o ar e a luz. porque também é preciso ter coragem para con­ fessar o medo. levarmos todos juntos o sinal à presença de Jacob e presenciar a siua interpretação? Que uim de nós vá na frente. Estais satisfeitos? — Está bem — concordaram. irmãos — disse Dan. Não precisamos de levar a túnica a Jacob.pensando em horríveis fórmulas de jura­ mento. O sinal é mais suave que a pailavra. nem um só.—É pelo menos plausível. — Voto pela sorte. fa.

o pequerrucho do Benjamim. ainda que por um simples gesto ou um ligeiro piscar de olho.umas sobre as outras e. lhe tirasse logo o arco. Era o germe da espera que Rúben alimentava secre­ tamente. és livre de descarregar sobre o mensageiro a confusão que ele quer produzir no teu coração e no teu cérebro. «Sentes-te mal? Vem. mandá-la. Depois de o proferirem. com risonha convicção. Foi esse o juramento. impossível de reconstituir. ao passo que a mãe não ignora ai dele.. de maneira que faça sentido o que dizes!» Tudo isto não deve ser mortificante para o outro. do homem daqueles sítios que estava sentado em cima da pedra do poço. porém. de Sin. a dormir ou acordado. que fizesse qualquer alusão àquela história. se tornasse imediatamente um prostituído. Este preferirá com certeza o sinal. por serem vagas e veladas. Já não toleras esse olhar. na mente de Rúben ficara um germe que ignorava a sua própria existência. até à velhice. mão só invocaram o Ente Su­ premo. ou fosse o que fosse. que te porei bom. porque o dispensará de falar. a virili­ dade. Mas pouco a pouco o seu olhar circunspecto e compas­ sivo põe-te vacilante. 218 7 O DESPEDAÇADO JACOB CHORA A MORTE DE JOSÉ sinal será mais suaive que a palavra? E ponto contestável. o diabo. Rúben. Quem a ouve. para o seu juramento. para prolongar o teu desconhecimento. com a força que nos dá o desconhecimento do facto. E. que a filha de Sin. do Elil de Nipur e de Bei Gharran. por seu lado. como uma meretriz que sai para a rua a ganhar a vida. nuima canti­ lena a uma só voz. Não repro­ duz logo a realidade. como o germe da vida ignora a sua no ventre materno. a vida e a morte o cuspissem com asco de uma para outra. paira melhor dizer. que não pudesse viver nem monrer. juraram que aquele que não guardasse segredo «daquilo». Com dó da tua situação. procurava lembrar-se das palavras do importuno moço. mostra-se indulgente contigo. quaindo se afastaram para reatar o sono. daindo-te cordial a beber. Fora mais uim palavrório do que uima conversa.que de um país ele fosse expulso para outro. para o inferno dos absurdos. e ele fosse como um mulo ou. — Também eu—respondeu Zabulon. Judá julgava do ponto de vista de quem traz maiis novas. parque se sentiam muito ma>is seguros. de modo que não soubesse mais onde descansar a caibeça de prostituto. Des­ feito. houve um (Issacar) que disse a outro (Zabulon): — Tenho inveja de alguém. pode ser desdenhosamente posta de lado. Não se lhe apanha o sentido. «Que dizes?». compreendes que não consegues a inversão de papéis que pretendias impor para con­ servação de ti próprio e que. senhora das mulheres.. que está em caisa e não sabe nada destas histórias nem desta aliança. 0 2/9 . isto é. Depois. unânimes. nosso irmão mais novo. podes perguntar-lhe. mas que. El-Elion. Mas quem o recebe? A palavra. é a ti que terão agora de dar a beber um cordial. contudo. já poderás falar novamente. e podes tomá-lo por louco. como também conjuraram o testemunho de vários Baal do país que conheciam e o do Anu de Uruk. Começa por ser incompreensível. A palavra só actua lentamente. Durante algum tempo. E quase boca a boca. pelo contrário. até se fazer luz no seu espírito. aquele ajuntamento. de que ele é senhor. pode repudiá-la como mentirosa. por todos os «eons». Não era fácil rememorá-las. Isaac e Jacob.. e esse alguém é Turturra. sentiram-se mais leves e reconfortados. tantos anos quantos Jacob servira em casa de Labão. o Deus de Abraão. da Lua-.

tenha caído por terra. o termo «pudor» é justo e apropriado. Este caso raro verifica-se às vezes como reacção a golpes extraordinários do destino. deitaste por terra. umas mulheres que por ali passaram: as mulheres dos filhos. esgueiraram-se sem esperar pelo efeito. como já esperavam. pareceu tão mons­ truoso e desonroso que toda aquela gente se virou no meio de lamentosos protestos. dispensa a fala para ser «compreendido)'. Deixamos indeciso a qual deles toca o imediato mais brutal. O que ele guardava na mão esclareceu-as sobre a causa da queda. um endurecimento desesperado e obstinado contra o inaceitável. os circunstantes foram obrigados a ver que ele. em virtude de uma contrariedade grave: é o lenitivo burguês do costume primitivo ou pré-costume de arrancar do corpo as vestes. desde que se interprete seguindo o seu último significado. Mas já não é possível. deitado de costas. a ti mesmo. Assustadas. por um pouco de lã e coalhada. mas uma espécie de rigidez que lhe apanhara músculos e nervos. Mas embora ele empregasse nesse acto toda a força da sua aflição. o homem de Deus.Tão dilatória luta com a verdade só te é permitida pela pala­ vra. universalmente esquecido: como definição parafrástica daquele horror que o primitivo provoca quando rompe as camadas da civilização. Como estavam em pleno Estio. Aterrorizados e pro­ curando em vão impedir qualquer excesso. o mediato e o imediato encadeiaim-se de maneira diferente. um após outro. porque essa pobre gente de Dotam. O sinal é pal­ pável e desdenha a branda qualidade de ser incompreensível. um entorpeci­ mento que lhe petrificava o corpo todo. e como se quisesse fazer uma confissão. Deve-se considerar da mesma natureza o rasgar da roupa exterior. 220 endurecimento que lentamente e ao fim de umas horas. mal recitaram a frasezinha mentirosa. de maneira que não podiam dobrar-lhe uma articulação sem a partir. Este surge com uma. a contemplar o pouco que gradual­ mente deve ter compreendido lhe restava. Calado. um animal cruel o despedaçou!» E como se a palavra «despedaçou» lhe suge­ risse o que dewiai fazer. primeiro com um ou outro passo mais vagaroso. Semelhante procedimento de um homem pudico. observava. até ficar nu. com os ensanguentados famrapos do véu na mão. Força-te portanto a tomares-te por louco. a que acorrera e a que fora chamada de toda a parte. do seu José. quis rasgá-la até ao fim. demorou ainda algum tempo porque. pondo evidentemente em prática uma feroz reso­ lução. de se desprender de qualquer cobertura e ornamento como sinal de dignidade humana 221 . fez verdadeiramente em pedaços tudo o que trazia sobre o corpo. é como que uma barreira. ao ver a túnica. Ninguém sabe quanto tempo terá Jacob ficado ali de pé. se a substitui o sinal. esposa de Simcão e a de Levi. O sinal é mudo. Mas ninguém pode contar como isso se passou. os dois homens que aceitaram estupi­ damente. atirandoos para longe de si. no seu sinistro silêncio. Seme­ lhante a uma contracção espasmódica. quando muito. é a túnica de meu filho!» Depois. a roupa era leve e não opôs grande resistência. ergueram Jacob e levaram-mo para a tenda. acaba por ceder. ainda que prelim mares. à superfície da qual continua a operar com medíocres alusões e semelhanças. começou a rasgar a roupa. a siquemita Buina. De repente. homens e mullberes. o afrou­ xamento de um homem que se fizera duro como uma rocha e 9e tornava agora uma mísera criatura acessível à dor. chamada neta de Eber. Não se presta a subterfúgios. Que Jacob. sem que outro som lhe tivesse entretanto saído da garganta. como a capitular perante a dolorosa ver­ dade que inexoràvelmemte se aproxima e se tem de admitir. Não pode haver equívoco e não há necessidade de se realizar porque já é real. neste mundo. diante da tenda de peles. respondeu aos portadores do sinal que desde muito se tinham ausentado: «Sim. Deixaram ficar Jacob. depois desaparecendo a toda a pressa. gritou com voz terrível que o desespero tornava ensurdecedora: «Uma fera malvada o devorou. Toda a gente da colónia. crueldade que não admite delongas. Para o sentimento que os induzia a afastarem-se. pois assim o acharam. cobrindo a cabeça. Força-te a conce­ beres o que repelirias com loucura se te fosse anunciado por pala­ vras. e pela forte razão de ser a própria coisa. alarmada. ou a aceitar a verdade. Depois caiiu por terra. Na palavra e no sinal. no mesmo lugar onde o encontraram. Não era um desmaio vulgar. a incumbência de fingir que tinhaim achado a veste. cuja aversão pela nudez todos estavam habituados a respeitar. não parou na roupa de cima e que. o de Jacob. e retiraram-se. não há que duvidar.

contra quem a dirigia. principal men te Eliezer. realçada pelo sinal. Também ele fora ferido no seu coração pela notícia. ras­ 222 pando de vez em quamdo o corpo com um caco. Além disso. coberto de pêlos braincos e. ele mão estava só e a mani­ festação mão precisava de testemunhas humanas para atingir o seu objectivo. Não o impedia portanto de estar sentado no monte de imundícies. Estas coisas eram de aprovar. Aquele peito avermelhado pelo calor. e Eliezer limitara-se a armar no local da penitência um pobre toldo. Foi o que fez Jacob. à excepção do grande servo. a não ser o velho Eliezer que levava tudo com calma e sem fazer objecções. 223 . parecido na forma com o peito feminil. embora seim a impureza simbolicamente imaginada. esse velho que era uma instituição. como se estivesse coberto de chagas e lepra — gesto simbólico. ocasionamdo-lhe as deformações repulsivas da velhice que tornavam lamen­ tável e comprometedora a desnudez. Abaindonaramjno. teria con­ seguido todo o seu intento. aité à origem do costume. a deplorável cara de Jacob. a barba. e ali ficava sentado sobre um monte de cacos e cinza. e poder-se-ia ficar na dúvida de que o abandono não agradasse ao pobre velho. e pouco a pouco perceberam-no taimbém os seus. Ele não era pessoa para se intrometer nas medidas tomadas pelo amo e aiimda menos paira estorvar as que não excediam as usuais em casos de luto pesado. com os pedaços do véu na mão. Era Eliezer que levava os alimentos ao amo. o lugar de tamanha renúncia. con­ quanto este. Já não era sequer o corpo do que. Contudo. pudibundos. de quie José. as costas e os cabelos sujos de cinza.que uma dor extrema destruiu e aniquilou. não o largando mais. o espectáculo do pobre corpo penitente. gerara José com a mulher verdadeira. deixado só na sua elementar manifestação. para que a meiio do dia o Sol-Tamuz mão apertasse de mais. o que ele próprio reconhecia à maneira brandamente consciente dos homens que se preocupam com as condições em que se encontram epensariam em atenuá-las se as não exprimissem com pailavras. Na sua grande aflição voltou atrás. o consequente rebaixa­ mento à simples condição de uima criatura despojada de tudo.a. portando-se de maneira selvagem como qualquer habitante do deserto — tudo isto sabia muitobem o pai desesperado. mu. anos depois. E se a Jacob tivesse acudido a ideia de balar como uma ovelha. Bratão o que está por baixo passapara cim. A velhice embuçarse em nobre pudor. E>e dia. Mas a sua constituição de uma rara impersonalidade e o seu sentimento do extenso valor pessoal permitiram-lhe receber o golpe com uma certa fleuma. «o servo mais antigo de Abraão». com maiis exactidão. Cerca de setenta anos. como acontece na idade provecta. a maxila inferior pendente sobre a barba e os olhos em alvo. pensando bem. o seu belo e inteligente discípulo. lhos rejeitasse. poder-se-ia duvidar de que não fosse seu desejo despertar semelhante horror e se. eram decorridos. e todos evitavam. Apesar disso. a fonte die todo o horror. a natural preocupação com o estado lamentável de Jacob distraía-o da sua aflição. o filho da mulher verdadeira^ tivera em viagem o infortúnio mortal de ser atacado por um animal feroz. e do símbolo voltou ao próprio acto brutal e à terrível realidade. dias e dias a fio. renovando constantemente a suji­ dade com a cinza que se misturava com suor e lágrimas. Ninguém deveria ver semelhante corpo mu. era bastante comovedor. Fez aquilo «que já ninguém faz» e é essa. que dele cuidou. 0 corpo de Jacob já não era o daquele moço que em Jaboc lutara invencivel­ mente com o desconhecido de olho de boi e que mais tarde pas­ sara com a falsa esposa aquela noite de dolorosa recordação. A juventude. que era precisamente despertar horror. não contados por simples cálculo mas essencialmente activos. os flácidos refegos do ventre. Ela bem sabe porquê. como expressivo retorno ao estado primitivo da Natureza.. porque não era caso paira se falar de chagas e o raspar-se com cacos devesse ser incluído entre as manifestações que tinham outra mira. Jacob retirava-se para um canto escuro do pátio. cônscia da sua beleza. mostra-se nua gostosa e livremente. cheios de temor e veneração. esse homem que sabia dizer «eu» de modo tão especial e ao encontro do qual a terra saltara. com a boca aberta. ficava vermelha e inchada. A dizer a verdade. para mão perturbar a manifestação do amo. aquelas coxas e aqueles braços debilitados. nin­ guém os devia ver. aquela gente não levaria dali uma imipresisão pior. totailmente desprovido de sombra. A quem ou. Fugiram.. Foi ele que conseguiu convencê-lo a recolher-se de noite ma tenda e a deitar-se na cama.

se é que simples palavras a podem satisfazer. Agora também o cordeiro se tresmalhou e perdeu! Não. pela minha esperança que foi extirpada como uma vergôntea! O meu Damu. nas suas lamentações.— Rubro. abrasado e intumescido — disse ele com voz trémula — está o meu rosto de tanto chorar. Jacob não podia prestar maior honra à sua afeição do que compará-la ao Dilúvio e empregar as palavras motivadas pelo cataclismo. já Noé as proferira.. — Primeiro a mãe. quando do Dilúvio. Despedüçado. e que pos­ samos servir-nos delas para unir a nossa mágoa à antiga mágoa que ainda perdura. iguais ou parecidas. tinha um cunho carac­ terístico. tomava parte nas lamentações enquanto estas se limitavam a fórmulas feitas ou nelas se apoiavam. Pelo rebento cujas raazes foram arrancadas. embora se não deva crer que isto possa diminuir o que há de impressionante em taás prantos. balouçando de um lado para o outro e cho­ rando amargamente. não beberei mais água. Em todo o caso. Na verdade. não. despedaçado está José. Eliezer. despedaçado foi José!». satisfazendo a vida dolorosa. o meu filho! A sua morada é o mundo inferior! Nãc comerei maás pão. que de vez em quando lhe passava pelo rosto um pano embebido em água. Profundamente aflito aqui estou chorando e as lágrimas rolanwne sobre a face sem cessar. o grito que sempre voltava de «lamentação!» ou «despedaçado!». vindas de tempos remotos. depois o cordeiro! A ovelha-mãe desamparou o cordeiro quando só faltava mais um pouco de caminho até ao abrigo. murmurando ou cantarolando. percebda-se logo. Jacob fê-las suas. Estas palavras não eram suas. EspeciaJmente a que tantas vezes repetia suspirando: «Uma fera cruel devorou José! Despedaçado. ai de mim! Pelo filho dilecto se ergue o meu lamento. é de mans! Ai de mim. Ah! Nadia faltava para os tomar impressionantes. embora tivessem o cunho de outras eras.. De resto. Tam­ bém ele acompanhava. Já é bom e aomsoladaramente cómodo que tenham chegado à humanidade sofredora. não! É de maás. A acreditar em antigos cânticos. já empregava antes muitas frases feitas ou meias feitas. expressões plangentes que se adaptam também ao tempo actual e parecem feitas de propósito paira ele. todo 224 . — O cordeiro e a ovelha-mãe foram trucidados! — repetia Jacob em ladainha. no seu desespero.

por direito. por ter sido extirpada a vergôntea e com o vento do deserto ter secado a erva verde. Mas que aconteça o que se tinha previsto e se desdenhe deixando que aconteça. pobre cordeiro!» As lamentações chegavam em coro aos ouvidos de Jacob e de Eliezer que também ouviam — ainda que não fosse entendida à letra — a recusa de toda a comida e bebida. metendo de vez em quando a sua palavrinha de tranquilizador assentimento ou de correcção e advertência. achi. enquanto Eliezer continuava a enxiugar-lhe o rosto. Hoi Adon! Meu pobre irmão. Compreen­ des isto. para tirar a tempo ao destino os maus pensamentos e os pensar ele pró­ prio? O destino então inquieta-se. é um horror com que eu não concordo! — Nas provações que Deus manda aos homens não há acordos prévios — retorquiu Eliezer. também se envergonha e diz de si para si: «São estes ainda os meus pensamentos? Se são pensamentos 15-j.-2. É bom costumie e benéfico regular o júbilo e a mágoa por fórmulas prescritas a fim de que não degenerem ao expamdir-se e encontrem preparado um sólido ledto que os dirija. eu acredi­ taria e diria ao meu coração: foste irreflectido. Também Jacob senitia a utilidade e o benefício do arraigado costume. Failava e lastimava^se também livremente e com expressões novas. Mas pelo sentimento humano que tem também a sua razão e a sua revolta! Para que foi dado ao homem o medo e a precaução. «Hoí. Se eu não o tivesse temido e isto tivesse inopinadamente caído em cima de mim. não se pode conceber que suceda exactamente o que se temia. — O que eu receava — irrompeu Jacob com uma voz que a dor diminuíra.o pessoal se lamentava durante horas e horas e não deixaria de o fazer. 1. não. 225 . aconteceu o que eu temia. Eliezer? Podes concebê-lo? Não. Mas o neto de Abraão era um espírito demasiado primitivo. tornando-a mais aguda e meio abafada — o que eu receava desabou sobre mim. mesmo que o luto pelo desaparecimento do amável filho da casa fosse menos sincero. na surpresa pode-se acreditar. não. não evitaste o mal porque não o viste a tempo de o evitar.° v. Sabes. senão para conjurar o mal. — Não. s. e nele o senti­ mento geral estava ligado ao pensamento pessoa) de modo exces­ sivamente vivo para que se pudesse contentar com a uniformidade.

o meu tudo. se ele teme em vão e teme com razão? Ou como pode um homem viver..a -minha causa e não a de Deus.. Jaakob bein Yitzchak. «Pega. Poderei regozijar-me.» Mas que será do homem. Que Ele se esquive ao meu cora­ ção para não se enxovalhar e fique com o que dizem os meus lábios. porque são palha vã! Abraça. Será concebível tudo isto? Será aceitável o que exigem de mim? Não. para que eles voltem para casa e Israel mão fique aqui como u-m tronco sem ramagem. compreendeste bem que José já mão existe e não vol-ta mais para mim. e sobre as minhas faces correm lágrimas com cinza1. deixando que se rissem de mim e dissessem: «Olhai a velha ama!» Achavam irri­ sório que um homem com aspecto sadio amdasse sempre a quei­ xar-se: «Estou doente. — Não estejas a debulhar as palavras. escondendo-me o Seu conhecimento dos ferozes 227 . a bênção e o amargo prainto de Esaú. Eliezer. Apanhou o caco que deixara cair e pas­ sou-o pelas úlceras simbólicas. varrida com a vassoura e com o Seu assento de honra preparado. vou morrer!» E como não morria. se a precaução já mão lihe serve paira inada. porque eu mão posso suportar outra coisa. Dumuzi. porque já está morto. não. Sabes. a sua tenda de recreio. devido à astúcia de Labão.. paira que pudesse miuirmurar contra o inacei­ tável e pensar a seu modo ma justiça. O coração do homem seria o seu refúgio. e faz-mo pagar caro. Agora não passa de cimza misturada com lágri­ mas e uma imundície miserável. Não me fales de fora. o enlevo dos meus olhos. Estou morto porque José está morto. — Não é culpa minha. Aqui estou sentado mo lixo. nunca m-ads? Só se pensares nisto é que podes entender o que diz o meu coração e não malhar em palha seca. Foi da minha boca que ele ouviu a ordem: «Vai a Siquém e inclina-te di-amte de teus irmãos. Mas Deus ocul­ tou-me o que Ele sabia. Acaso posso discutir com Ele de igual para igual? Não. que isto tenha sucedido? Não.» Poderá esse homem alegrar-se ainda com a vergo­ nha alheia? Não. Porque eu reconhecia que a loucura dele era minha e não ocultava a mim mesmo o que Deus sabia. Jacob cerrou os lábios. ó velho servo. Teria feito melhor se deixasse ao homem um refúgio diainte do poder supremo. — Não querias pecar. Toma para Ele o que eu. Foi Ele que assim o determinou. O que o meu coração sente. a esposa verdadeira. não me deixou tirar aquilo que para imdm é excessivo. afinal mão eira louco. como era seu costume ao ouvir o nome de Deus.me deu o meu rapaz. Quisera que a minha alma fosse enforcada e a morte se apoderasse dos meus ossos!» — Não peques. do preço. Eliezer. é comigo. não quero mais saber deles. fala-me com o coração. Quaindo fosse visitá-la. vê: a túnica e os farrapos do véu! Levantei-o da esposa aimada e verdadeira. Mais valia que fosse um louco pana os outros e para si mesmo do que justificar-se desta maneira. emsina-me a temer a Deus e a adorar-Lhe o poder supremo! Ele faz-me pagar o nome. Mas a mulher fora substituída. encontram-mo morto. não desejo viver maiiis. De repente. despedaçado.sério. Marca o preço segundo o 226 Seu arbítrio e cobrado sem mercê.» Que isto Lhe baste. Israel! — Ah.. Fui eu que exigi isto dele. sem criadas. — Mas Ele lê também no coração. antiregaindoJihe a flor da minha alma. não.. parque sucedeu.humanos. se já mão pode esperar que as coisas -aconteçam diferentemente do que pensa? — Deus é livre — disse Bliiezer. estaria bem enfeitada. Que quer Ele mais? Os meus lábios dizem: «O que o Senhor faz é bem feito. até que. Não tratou comigo e. no medo de dores cruciantes. e de mim. ao passo que eu não sou mads do que u-m montão de miséria. com a cara afogueada e inchada de chorar. Sento-me aiq-u-i nas cinzas e raspo as minhas feridas. por causa dessa gemte. e a minha alma ficou ofendida e durante muito tempo dilacerada de maneira indizível. e mão eu. Está morto. uma vez que me induziu a dizer ao menino «vai lá». ninguém tomava aquilo a. mo Seu entender. como eu temia que uma fera do bosque pudessie uim dia prostrar o meiniiino e fazer-lhe mal. Ele é extraordiinàriamente grande e ri da tua solicitude. posso pagair e quer saber melhor do que eu quanto aguenta a minha alma. E agora também mo despedaçou. nem ele próprio.. despedaçado. Continuou: — Como eu receava. arrependem-se da troça que fizeraim e dizem: «Vede. que decidi ser forte por ambos e o mandei sòzi-nho.

não queria saber mais nada. Admi­ tindo que fosse ele o javali que. relegou-a para ais trevas. Não me fales de fora. confessei-Lhe que não tinha coragem. desesperados. o Senhor o tirou. urna espécie dc lendária suspeita começava a levantar-se na consciência de Jacob. Sim. A sua coragem. lançou sabre ele a graça. cho­ rando aos pés de Eli faz. construiu-lhe bem os membros.» Aí está o que é Deus! «Olha para a túnica. para onde se há-de a gente volver e revolver nesta pena? Sle eu não existisse. E à mesma suspeita se deve atribuir o desejo das elementares manifestações de dor perante Deus.. não posso suportar! O meu filho. transportando-o quase às estrelas. Leão ou porco do 229 . Extraviou-se no campo. É esta a lealdade do Deus poderoso. desprezou-me e disse: «Aconteça o que não podes fazer. Ah. No entanto. Só de pensar nisto. Mas já que existo. entregue à reflexão. não saberia de nadai e não seria nada. mais tal como sou. gela-. Quando o chamei para a jornada e lhe anunciei o que pretendia dele. vestiu-o de pele e cairme. mesmo quandò se diz «não». o que exigi era de mais para aquela criança.. que não mo deixasse sair do ventre materno. não lhe bastava o amor à verdade para reconhecer a sua cumplicidade ma perdição do filho. declairei-me compungido e lealmente. Parece estranho que ele não quisesse saiber e se furtasse a uma ideia que lhe traria o reconhecimento do mundo superior no mundo inferior. o meu Daimu! O Senhor o deu. Crês que Ele tenha aceitado coim cle­ mência a minha. Mas não lhe bastava a cora­ gem. emudeceu.. estava ali. — Poupa ao menos os teus lábios. gritou: «Aqui estou» e pôs-se at pular. louvado seja o Seu nome! Moldouo com as Suas mãos e fê-lo encantador. era o Vermelho. Que horror! Ó pecado de Deus! Crime selvagem. que lhe rasgava o coração. Deus estava por detrás de tudo. ao girante sempre presente. Horripilado. podia apa­ recer cá em baixo. não a deixou surdir. É o sangue das suas veias que o monstro lacerou juntamente com a carne. Ó Eliezer. sempre é melhor que José tenha existido e esteja morto. na sua grainde aflição. mesmo feito em dez pedaços. caiída nas trevas desde que ele recebera os restos da túnica.propósitos. num louco e soberbo senti­ mento de amor. Ordenhou-o como leite. talvez temhai chamado pela mãe que morreu quando ele era pequeno. e para Ele se voltavam os seus olhos melancólicos. afinal. cego. ao protótipo. ou uirn porco do maito?. porque eu não era de bronze nem de pedra. Nesse instante um pressentimento. fala-me de dentro! Que pensa Deus impondojme coisas que me fazem revirar os olhos e perder os sen­ tidos. que tenha tido misericórdia da minha confissão? Não. derrubara' José. por não as poder suportar? Serei duro como uma pedra e será de bronze a minha carne? Com a Sua sabedoria podia fazer-me de bronze. Jacob. era Seth. chorosos. responsabilidade por José. tomo-o. e por isso impusera a si pró­ prio mandá-lo fazer aquela viagem. a insuportável aflição provinha principalmente da suspeita que ele rejeitara. pegar-lhe na mão e levar eu próprio o fogo e o cutelo. o feroz e enorme porco.se-me o sangue nas veias! Foi o mesmo que pôr-lhe a lenha ao ombro para o holo­ causto. Eliezer. erguia-se agora até às esferas elevadas. indiferente ao seu pavor.. O javali. era Esiaú. Mas para Jacob tratava-se aigora de Deus. Deus provera. e então o monstro precipitou-se sobre ele e prostrou-o para o devorar. mas origin alimente e justamente o irmão fora feito em pedaços e. cumplicidade que haiviiia de resultar forçosamente da suspeita do irmão e dos irmãos.humilhação. Talvez tenha gritado por mim. Jacob reprimiu a suposição. A palavra «porco» devia inevitavelmente despertar associação de ideias. Impus-lhe uma tarefa demasiado grave. em toda a pairte. a Deus. para os farrapos duros de sangue. Conjectura sinistra à volta de uim maldito javali. conseguira excepcionalmente abrandar Esaú. dizia no seu íntimo que aquilo era exigir de mais e. assim paga verdade com verdade. mas. o seu amor à verdade tinham-no levado a assumir a. parque assim ainda me resta chorar. se tivesse admitido a suspeita. Eliezer. dá-mo!» E dei-Lho. Achas que foi uim leão que o abateu. filho da mulher verdadeira! — Os meus lábios foram feitos paira cuspir o que não aguento. Se não mo podes dar. Eliezer. Melhor teria sido que não mo desse. que não me desse absolutamente nada! Que haveimos nós de pensar. e o terrível acontecimento. Ele deu-mo na minha velhice. aio originário. o assassino de Deus. Ele. irra­ cional!. per­ 228 deu-se no deserto. Deus dispôs as coisas de maneirai que se não possa ficair contra Ele e se tenha de dizer «sim». Ninguém o ouviu. recairia sobre ele a culpabili­ dade. de modo que me puxou pela orelha e riu: «Paizinho.

Mas se o. ao encontro de quem a terra saltou. para me pôr à prova: «Traze-me cá o filho que maiis aimas!» Talvez eu fosse mais forte do que humildemente esperava e levasse o pequeno a Morija. con­ venho. Israel! — Não. na visão d-a escada? Tudo isto te agradava e não tinhas niad-a a objectar do 231 . e se Deus. pois não é coisa para mim. Zombará do espírito humano -porque. eu perdi os sentidos. bem conhecida dos seres humanos. mesmo sem ter razão. talvez eu pudesse erguer o cutelo sobre Isaac. As tuas palavras são absurdas e. fiado no carneiro.de ser -rectos um com o outro e san-tos u-m no outro. Blasfemas contra Deus além de todo o limite. o meu delito? Que mo mostre! Terei eu queimado 230 incenso aos Baa-l da região. a ponto de Ele beijar os dedos e excla­ mar: «Fiimal-mente chamam-me Senhor Todo-Poderoso? Pergunto: terá ele esquecido a aliança. Ele não se dignou submeter-me primeiro a uima. bem sei. os vespões. Isto digo-te eu q-ue ajudei Abraão a expulsar os deuses do Oriente. perpetrara aquele horror. Seria uma prova! Mas não foi assim que se passou. mas em compensação não tinha papas na língua. mas também o Orion e as Plêiades.homem se tornou terno e delicado e de alma discipli­ nada. faz morrer os maus e os bons? Mas onde estairia Ele sem o espírito humano? Eliezer. o leão derruba-o e u-m javali crava-lhe as garras na carne. tomando liberdades inqua­ lificáveis. cujo-s dentes se dispõem em redor do corpo de u-m-a m-aineira terrível e cujas esca<mas são como escudos metálicos. entendes-me? Deus e o homem elegeram-se reciprocamente e fize­ ram a aliança. Eliezer. mas ficou atrás e ainda é um bárbaro. Estás chamando a Deus um bárbaro selvagem e gabas-te de ser terno e delicado cm com­ paração com F. Todavia. Agora Deus faça disso o que quiser. na Sua prepotência.-me pergu-n-tes porquê. Por que motivo sofro violência. E devorou-o. à Sua vontade. apesar da sua pergunta acerca do animal que ia ser imolaido. que De-us não acompanhou o paisso na santificação. Quem concebe semelhante coisa? Pode-se lá aceitar? Não. e censurouo resolutamente: — Estás a dizer disparates — observou-lhe — que uma pessoa nem pode ouvir. que era u-m pouco rn-aiis velho. Levou ainda para o covil u-m pouco do meu José. a aurora. não foi. Eliezer. graças ao auxílio divino. Mungiu-me como leite e fez-me coa-lhar como queijo. Deus o quisera. atrai o pequ-cno para longe de mim. Teria de te dar urna triste resposta. estava horrorizado com semelhantes palavras. com o qual estava em contradição a humilhação exterior em que se mantinha. Não desejo viver onde impera a violência. remexe-lhe as vísceras. as serpentes e o a h u b u de pó? Não te deu Ele a bênção de Isaac a-n-tes de Esaú. zombais dia piedade porque a desmentes. Tailvez eu pudesse ouvir tudo sem cair desfalecido. não ordenou. Deus não acompanhou o passo. Aí está. então. Foi Deus que mos tirou. e não te confirmou a promessa. pelo contrário. sem meus pais e sem mim? Terá a memória fraoa? Esqueceu o tor­ mento e a fadiga do homem por Sua causa? Esqueceu como Abraão o descobriu e excogitou. em Bethel. como os pássaros cospem a penugem. Será possível que queiras julgair o que é justo e o que é injusto. rogaindo a Deus que fosse indulgente com seu airno que perdera a tramontana. na -tua. — Aí está o que é Deus! — repetiu com um calafrio visível. como se imagina. numa palavra. Deuis o permitira. lhe impõe um acto de abominável selvajaria que ele não pode traigar e tem de cuspir fora dizendo: «Isso não é coisa para mim». cuja caiu-da se estende como -uim cedro. quando fuii buscar a esposa para teu paii. é intragável! Cuspo fora. é claro. meu mordomo. que pretendas julgair Aquele que fez não só o b e h e m o t h .aflição. já que range os dentes contra mim e Se comporta como se eu fosse um inimigo? Onde está a minha transgressão. e a minha oração era pura. para a-s crias. — O Senhor não me perguntou. — Volta a. em vez de receber justiça? Que me esmague já. Jacob raspava a miséria com o caco.le. em poder questionar com Deus num estado de espírito elevado.mato. a aliança foi violada! Não.leviaitã. fá-lo per­ der-se no caminho. Eliezer. não. Baseado no meu leal reconhecimento de que eu não estava isento de culpa na dis­ córdia entre irmãos.-ti.prova. o que para Ele é fácil. Mas que Lhe sucederia e onde estaria Ele sem nós. esta humilhação era neces­ sária para a contenda. E Jacob sentia uma certa satisfação. o-u atirado beijos às estrelas? Em mim não havia sacrilégio. Eliezer. e me atire para a cova. e o. eu. e agora escute o que Lhe digo! É o meu Criador. Ora deves saber que essa fera devora tudo.

Jacob. e és delicado e fino de mais para semelhante luto. nem a nudez. a maiis grave desgraça. por ser Deus! Mas o que eu pretendo dizer é isto: Ele te fechará a boca. 233 . a mim? Entendes o que eu pretendo dizer? Não entendes nada e queres falar por Deus. em vez de me consolar. que Ele é eterno para lá da eterni­ dade. se bem que o mais forte de todos. nem os cacos. que já basta de luto levado a tail ponto. uma vez que queres falar por Ele e O queres enganar como se engana um homem e ter secretamente em consideração a pessoa e não o facto.» Estarás isento de pecado. Comeste a sabedoria com uma colher e trainspira-la por todos os poros. porque só lhe tinham servido para contender com Deus à saciedade. — Cada um deve lidar com Deus o melhor que sabe e até onde chegar. por tua causa. quando o que Ele me fez. Eliezer — respondeu Jacob com ironia compassiva. visto que O proteges e astutamente Lhe glorificas os feitos. dizendo: «Não é coisa para mãm. entregando-o aos porcos e leitões? Deus ou eu? Porque o consolas então. tu. e que deves tomar o Seu partido contra mim. não fazes mais do que soprar palavras. Já não lhe interessava imundície. Crês que Ele é um homem. Sou sensível à dor e não a aguento! Quem teve de dar o seu filho. porque não percebem nada de pios disfarces e só dão pela verdade nua e crua. defensor de Deus! Ele te pagará. Assim. visto que não quero dizer claramente à cabeça de quem os atiras. Serás tu o primeiro a quem sucede uma desgraça? Será que a ti não deve suceder nada? Ou enches o ventre de blasfémias e esperneias. mas Deus encheu-me de lama. até brada aos céus. ó filho da esposa verdadeira! — Sim. É que se deve defender a Deus contra os Seus defensores e até O proteger dos que O desculpam. se não sabes que Deus está ainda acima de Deus. não fales de tal modo contra mim. Viste tanto Abraão como eu. apreciará muito as tuias palavras. O que tu dizes. no monte Gilead? Mas agora que te sucede uma desgraça. quererás pers­ crutar a vida nos seus enigmais. nascido em Damasco e filho de uma escrava. meu amo. E pessoas como tu achaim isto razoável. pois chamas ímpio a Deus e achas injusto o Sublime. obstiinas-te. vermezinho? Chamando-Lhe eternamente grande. já sabes a conta em que tenho a tua edificação na miniha miséria! Eu era puiro. e será assim tão certo que em toda a tua vida sempre praticaste a justiça? Quererás por acaso compreender o que é sublime de mais para ti.— Tu és mesmo a pessoa indicada e podes cansiderar-te como tal. 232 — Cala-te. na arrogância da tua aflição. lançando José aos porcos. Mas agora vem. É realmente edificante como ime repreendes e não deixas de dizer em conversa que ajudaste Abraão a expulsar os reis. — De chorar é que o meu rosto está vermelho e inchado. que fazes? Destróis o mundo. Fazes o mundo em pedaços e atira-los à oabeça do exortador. já que junto a Ele ninguém chega. E deixar-me djzer-te que duvido de que a terra tenha sailtado ao teu encontro. eu não deviia ouviir estas palavras de ti. de . e te pões do Seu lado. a Ele. e eu sou mais sainto do que Deus?» Na verdade. e entra em casa. Mas eu falo de maneira diferente e estou mais junto a Ele do que tu. e de lá te castigará. Temos ambos de admitir que falamos de maneira repreen­ sível.ponto de vista mimoso e fino do espírito humano. Eliezer! Peço-te. meu amo. És uirn hipócrita! «Fica-te mal pores-te do Seu lado desse modo e defcnderes-Lhe servilmente a causa. — Jacob. se te pões entre mim e Ele! — Todos somos carne e estamos à mercê do pecado — retor­ quiu tranquilamente Eliezer. também eu podaria dizer. Tens o rosto inchado do calor. Reflecte nisto antes de te pores a palrar. arremetendo de cabeça baixa contra Deus? Pensas que. as montanhas se vão arredar dos seus lugares e a água correr para cima? Creio que queres rebentar aqui de maldade. porque não sou mais estúpido do que tu. De chorar pelo meu filho dilecto! Mas foi com Eliezer e deixou-se conduzir para a tenda'. ninguém o contesta.lá onde Ele é a minha salvação e o meu refúgio e onde tu não estarás. o que é simplesmente impossível porque és meu irmão consanguíneo. — De chorar — emendou Jacob. porque se con­ ciliava' com os teus desejos! Não te fez rico e opulento na casa de Labão e não te abriu os polvorosos ferrolhos para que pudesses fugir com armas e bagagens e Labão se pusesse diante de ti como um cordeirinbo. atiras tudo pelos ares desordenadaimmte e dizes: «Deus ficou para trás na civilização. como uim burro teimoso.. Esitá tudo acabado. sendo de carne como és. Ah. uma vez que te sobrepões a tudo isso com a tua palavra humana.

acariciando o pai. e certa vez enxugara com beijos as lágrimas de impaciência de um e de outro. talvez se dissesse apenas que ia longe de mais. ao pigmeu. Nestas condições. aper­ tava-o a si fervorosamente. Pelo que diz respeito a Benjamim. fundiam-se num único par de olhos. filha de Chua). Até as figuras se fun­ diam num quadro nostálgico de duplo sexo. Lembrava-se dos seus passeios com José no pequeno bosque de Adonai. ele fora para José pai e mãe. a mãe-esposa e não o pai. Tudo isso lhe pairecia impossível. Assim. A dizer a ver­ dade. que já não vivia. porque neste mundo uma pessoa não podia fiar-se eni nada e em ninguém. ao reino dos mortos.. no fundo.ia-se de modo que só se lhe podia dar esta imterpretaição. que estava morto. e quem o acompanhava no pranto e nas lamentações eram as mulheres deles que aid viviam (estava ausente a de Judá. por seu lado. A naiturail incapacidade para acreditar na morte é a negativa de uma negativa e constitui uma aifirmaitivai. porém. isto é. Nos tempos dele. não agitaria mais a . a ele. aca­ rinhado e bem guardado. A insensatez da ideia era ainda maior por ele pensar que seria a mãe-esposa quem libertaria o filho da prisão ínfera para o res­ tituir à Terra desolada. Diz a tradição que a cada conselho respondia sempre: «Des­ cerei com a minha dor à cova onde está meu filho. Por mais louco que pareça. animavarO na sua invencívell fé a ideia de uirn rapto. chamando-lhe Benoni por amor da mãe c jurando que nunca e em circunstância nenhuma o mandaria viajar. chorava a bom chorar. 235 .AS TENTAÇÕES DE JACOB Passados os três primeiros dias. sentia o peso de uma vida carregada de muitas histórias e experimentara amargamente de mais a impiedosa realidade da morte para não res23 4 ponder com um sorriso melancólico às consolações do filho. como o próprio Deus. Estava longe de ter ao filho maiis novo o mesmo amor que a José e. apesar dos temerosos indícios que via com os seus olhos e de que o pai se não separava nunca. Mas na pobre cabeça de Jacob havia as mais ousadas equiparações. Mas. não sendo de ontem a sua tendência para não esmiuçar muito a questão do sexo e tratá-la nos seus pensamentos com liberdade. com a realidade e com a sua im. mas Eliezer é que se via em palpos de aranha com as especulações e os projectos desesperados que Jacob andava ruminando. e por isso também a sua ansiedade era mais do que genérica. e ao pensar que o irmão querido não saltaria mais com ele. É a fé desamparada. Jacob matutava na possibilidade de baiixar à cova. pela confiança na sua inteligência. para ir buscar José. também Jacob era de igual natureza — conclusão que desde há muito concordava com o seu sentimento. assim como Zelfa e Bala e também o pequeno Benjamim. «Ele volita» dizia. Agora-.» Então e mesmo mais tarde entendia-se por estas palavras que ele não desejava viver muito tempo. embora tivessem paira ele algo de opressivo. meteu pelo menos o corpo num saco de pano e retomou uma vida um pouco menos desleixada. e toda a fé a que falta amparo é forte. quando o adormecia sobre os joelhos. «ou manda-nos chamar. também os seus queixumes eram tomados no sentido de ser demasiado triste e demasiado duro que uma caibeça encanecida tivesse de sujeitar-se à morte com semelhante dor. o conservaria ali sob os olhos paternos.» Jacob. o seu olhar não conseguiai esconder uma certa tristeza porque ele lhe fizera perder Raquel. Nunca soubera fazer uma distinção nítida entre os olhos de José e os de Raquel. que o enchiam de orgulho. exprim. mas sempre. que Jacob abraçava muitas ve/es soluçando. isto é. não era uma criança. quando chegaram os filhos. mas morrer e ir juntar-se ao filho na morte.sua mãozinha suada. No fundo. Depois da morte de Raquel.possibilidade. já não o encontraram em tão miserável estado. como tudo o que é Supremo. também se sentia incapaz de afirmar a negação da vida e as suas tentativas de a rejeitar e ao mesmo tempo atender à necessidade de se conciliar com ambas. Assim. Mas estes aiinda demoraram a apresentar-se. nem só nem acompanhado. não estava: capacitado do que lhe contavam acerca de José: que não voltaria. porém. Benjamim aceitava estas promessas. na morte. as tentativas para se adaptar a esta condição inumana eraim tão extravagantes que nos nossos tempos seríamos obrigados a falar de alienação menta]. Mas Eliezer entendia diferente e mais circunstanciadamente. E como a ansiedade era de Jacob e de se absorvia nela. Agora. não lhe contaria mais os grandiosos sonhos celestes. Para ele eram realmente os mesmos olhos. ao pensar em tudo isso. ainda que fosse já homem feito e casado.

por te revoltares contra o que tu chamas uma contradição. 236 e desse maneira trazê-lo até nós. Eliezer! É impossível. Porque estás com esse ar de dúvida? Achais que é impossível? Basta seguir sempre na direcção do Ocidente. que é tu estares vivo e o teu filho não estar. para que ele possa voltar. Gerar não é criar. Mas. Quero encontrá-lo e descer com ele à maior profundidade. — Mas então ele não pode morrer. envolvendo portanto uma ternura que pertenceu antes ao amor da mãe pelo filho. não pôde reprimir um sorriso de satisfação. e não é trazido outra vez por uma revolução cósmica. que nenhum olhar ainda viu. Ah. pelo menos segundo o costume de lá de baixo. ver-se-ia logo que não és a mãe. para gerar e despertar um José como ele era! E nisso que penso e o que tenho em mira quando digo que vou descer. não o gerámos a ele. e ela ainda terá de se curvar diante de mim! Eliezer. a hora e a posição das estrelas não seriam as mesmas em que José despertou. Olha para mim. — Decerto — concordou Jacob e. meu senhor. nem perto de si nem depois de si.. Quero despertá-lo novamente e. Eu bem o sabia. Oh. Na minha idade. — Mas já não existe Ratquel. Daí -a evocação do masculino enquanto é feminino e do feminino enquanto é masculino. eu acompanho-te nas aspirações até onde posso e creio que ao princípio tudo pode correr como desejas. E ainda que ela existisse e vós gerásseis outra vez. Nas mulheres aparece a barba.tomara também o papel dela ou. E verdade o que dizes: que para gerar José era preciso haver Raquel e. Um sen­ timento paterno que vê no objecto do seu amor ao mesmo tempo o filho e a amada. nem a ele nem a Benjamim. quando vós dois tivestes de vos tornar um só para que daí resultasse esse rapaz. Só sabes tagarelar e dizer « é muito -triste». Sabes o que é um coração aflito? Não. a fantasiar coisas impossíveis. Só com um duplo amor se pode amar inteiramente o que é duplo. O que só existe uma vez e não tem igual. Não o fiz já uma vez? De embuste e fuga percebo eu! Saberei avir-me com aquela senhora de lá de baixo. não posso dájlo como perdido. é masculino enquanto se dirige à mulher amada através do filho e materno quando é amor ao filho.. duvidando? Bem sei que não é possível. segundo o modelo mítico. Não seria a ele que de novo chamaríeis. atravessar o rio Chubur. Essas duas circunstâncias são a causa do luto que 237 . assaltado por novos pensamentos que se tinham desviado do materno-feminino para o fálico — quero tornar a gerá-lo. à sétima porta. ser à mesma hora. Eliezer. nada existe duas vezes e tudo é igual só a si mesmo para sempre. a natureza nivela-se. trazer a sua imagem para a Terra. instrumento cego que não sabe o que faz.. mas só no gozo cego a vida mergulha na vida.. Aqui em baixo. Pois o meu coraição está literalmente dilacerado.na de si próprio à extinta. nos homens cresce o peito. gerando. mas uma coisa. Quero ser como a mãe. retirando-o do mundo inferior? Ainda cá estou eu. esse papel prevalecia na sua maneira de amar o filho. exactamente igual a José. Deus quis que eu exista e não José — flagrante contradição que me dilacera a alma. Eliezer —disse depois. mas o gerei. Esta oscilação facilitava os loucos projectos que Jacob segre­ dava ao ouvido de Eliezer a respeito da volta de José à vida. que veio ao teu encontro para a tua obra. Hei-de achar o caminho da terra. peço-te! Ninguém o amou mais do que eu. porque estás tu a sacudir a cabeça? — Ah. melhor. e a equiparação de José a Raquel pro­ longara-se . se eu pudesse tornar a gerar na hora que foi a de José! Porque abanas a cabeça:. meu senhor. pudesse a minha vida mergulhar nia morte e reconhecê-la. e vejo-me obrigado a pensar em coisas dis­ paratadas. O gerador é apenas um instrumento da criação. — Isso é inevitável. Não admito. — Desço lá abaixo — afirmava ele — e vou ter com o meu filho. Parto aimainhã. Ver-se-á que não o amamentei. Não duvides. mas a um terceiro. a Deus se deve. donde se não volta mais. a esposa verdadeira e eu. ainda por cima. Quando gerámos José. mas provoquei de propósito a tua resposta. como soube avir-me com Labão. — Eu sacudo a cabeça. e se ela se tonnou José. e chega-se às sete portas. e vê se na forma do meu peito não há qualquer coisa de feminil. nem ficar perdido. Quero aspergi-lo e abrir-lhe os empoeirados ferrolhos. não pode ser destruído e atirado à boca dos porcos. apesar do seu desgasto. Não será possível gerá-lo outra vez tal como era. mias não abanes a cabeça por eu o desejar. onde brota a água da vida. e ele havia de ficar per­ dido? Enquanto eu existir. de quem ele proveio.

do fundo do coração. queima-me. Mas se nós nos puséssemos a andar em redor dessa figura uma vez. e nós ficaríamos a seus pés contemplando esse rosto de argila. não o conhecias. mas eu não o largo.. — Olha. seria melhor para ti que começasses a conformar-te com a vontade de Deus. se formássemos uma coisa de terra. de entre os mortos! — O que tu dizes — retorquiu Eliezer. arde. a terra. Deve haver por aí alguma assim.. eu à direita e tu à esquerda. e se conhecesse já seria criar.» — Tudo isso é muito lúguibre. Naturalmente — acrescentou baixinho. o ar. com vantagem para mim. e diz: «Abba. E o boneco estaria diante de nós. E o fogo. Aí está!—gritou. — Não te enganes a meu respeito. tendo os olhos pregados firme e conscien­ temente no retrato de José. que conheço bem.. Com efeito. graças à água: nascem-Ihe cabelos na cabeça. para te proteger contra grandes sacrilégios. uma espécie de boneco com três côvados de altura. Emitão eu beijo-o pela terceira vez. estes três elementos fazem com que o quarto. querido pai. passado esse luto. É um despropósito. o único. se é preciso. mas ainda de mais longe. muito—disse Eliezer com um ligeiro calafrio —. e quero despertá-lo com mai. e talvez esta dor me deixasse gerar. esqueces-te de que eu. Tens de cobrar ânimo e não dizer coisas sem nexo.durante três dias guardaste com tanto rigor sobre o monte de cacos. Sei isto melhor do que tu. o corpo intumesce. baixando também a voz — repugna-me tanto que preferia não ouvir. porque não havia mulher. desperte para a vida. E ele abre os olhos com espanto para mim. como demonstrei a Laibão quando fiz as ovelhas brancas conceberem sobre varas descascadas e darem crias malhadas. Pretenderia então ser Deus. porque é o Criador. E a água que aflui ao corpo de barro. como queria. O homem só gera o que não conhece. aproximando-se cada vez mais do ouvido do servo —. Eu vejo José.s ardor que o que me animava quando o criei sem o conhecer. Eliezer? O homem seria ainda homem. Está-me a parecer que isso não vem só do fundo da tua dor.. Eliezer. e eu me ajoe­ lhasse e tomasse a argila nos meus braços e a beijasse o melhor que pudesse.. aperto-o com força nos meus braços e beijo-o outra vez. Eliezer. o que pode fàcilmente suce­ der por ser ao mesmo tempo impedimento e vontade. e poderei dizê-lo? Convence-te e ajuda-me a fazer o que aiinda não sei bem o que será. meu velho servo. do barro. Arranja-me tu uma mulher que se pareça com Raquel nos olhos e nos membros. e muito menos em gerar com a pretensão de criar. Escuta-me. a água. — E porque não há-de pretender. Que achas tu que aconteceria. e só de pensar em semelhante coisa é uma vergonha. um momento depois — os meus espíritos vitais ficaram abatidos com a dor da perda de José. e convence-Ee! Se nós fizéssemos uma figura de argila. como Deus o pensou e o viu quando em espírito concebeu o homem e o fez à Sua imagem? Deus viu e fez o homem. entendo mais dos mistérios da geração que muitos outros e tenho artes de suprir. Acaso gerou Deus o homem no regaço da mulher? Não. Estender-se-ia ao comprido e do tamanho de um homem. sete vezes. deve ser possível fazer um homem sem criar. porque é como se tu me tivesses cativado para 239 . como «quero tornar a gerar José». que o despertei. Eliezer! O seu corpo tinge-se de vermelho. unhas nos pés e mais mãos. vermelho como fogo. o meu hálito é o hálito de Deus. Mas Ele formou-o com as Suas mãos. Eliezer! Eu sou um velho com vida e não sou nenhum anjo.. És velho e já devias dignamente não pensar em gerar. e lhe introduzíssemos na boca uma folhazinha. sempre ao ouvido do servo — é preciso enga­ nar o guarda e pregar-lhe uma partida. uma folhazinha com o nome de Deus. quando afinal é por causa dela que o desejo. meu amo? Que estás cogitando de novo e de estranho? — Sei lá. Ora vê tu como Deus me ins­ pira contradições aflitivas! — O que vejo é que a tua dor te foi imposta como guarda. — Então — disse. sinto o coração saltar-me no peiito. E ela mo trará nova­ mente à luz. sopro-lhe o meu hálito no nariz. Eliezer. se não aspirasse a ser como Deus? Esqueces-te — continuou. com o rosto virado para o Céu. quando o 238 sofrimento e a dor nos impede de o criar. Gerarei com ela. meu grande servo. Como seria isso possível? Quando o geraste. a diferença entre gerar e criar. fez Adão.. e insuflou-lhe o hálito vital para que caminhasse. Agora apaga-se. de maneira nenhuma. Ah. Mas. se o fizéssemos? — Se fizéssemos qualquer coisa. cá no meu canto. como o conheço.

como eles bem sabiam. quer eu queira ou não. não vinham satisfeitos. chegas à magia e. à boca baixa e nas meias palavras que trocavam. e a isso se opunha o juramento severo a que estavam ligados e que já começavam a achar tão tonto como o resto. OHÁBITO Os irmãos chegaram sete dias depois de Jacob ter recebido o sinal. viam claramente que não iam passar lá uns dias 240 . a segurar-te fielmente a cabeça. como se diante dos meus olbos vivesse o golem. ao passo que tu chegas ao ponto de fabricar imagens. a respeito do amor de Jacob por eles. que me agradeces por eu estar aqui. Em resumo. passava-se pre­ cisamente o contrário: eram culpados. e admirados estavam de ela Lhes ter algum dia passado pela cabeça. e também traziam sacos à volta das coxas e o cabelo sujo de cinza. Mas na realidade. mas não assassinos. Na opinião do pai. Não se sentiam à vontade e não podiam compreender como se tinham persuadido de que passariam a ter paz e con­ quistariam o coração do pai quando deixasse de existir o menino mimado. Eles. em atenção à tua dor. devia no seu íntimo considerá-los responsáveis pelo acto sangrento e dizer para consigo que o desfecho lhes dava satisfação. Para se lavarem da suspeita de assassínio. Já pelo caminho. a eliminação de José fora sim­ plesmente inútil. a resistir. embora ele os não pudesse acusar clara­ mente de assassinos do filho querido. porém. deviam ser assassinos inocentes. confessavam entre si que. Não podiam todavia confessá-Jo ao pai. amargurando-me a vida. Já algum tempo antes de regressarem à casa paterna se tinham dissuadido dessa ideia. Bem sabiam ou podiam imaginar a disposição em que encon­ trariam Jacob e viam a desagradável situação em que se tinham metido. E é assim. tanto mais odiosos por isso mesmo. inatacáveis.uma coisa morta e ambígua. De certo modo. teriam de confessar a sua cuilpa. tornas-me teu colaborador para que eu assista a tudo! E Eliezer ficou satisfeito quando chegaram os irmãos.

até que vedo a pergunta irrespondível e à qual. cuja brutalidade a sua mágoa podia justificar. os homens lêem no íntimo uns dos outros. perceberam-no logo que apareceram diante de Jacob. Jacob suspeitava deles e eles sabiam o que isto significava: a suspeita. a fazer triste figura. não os poupar a nada. mas deixou-se ficar deitado. já se havia res­ pondido de mais — uma pergunta patèticamente vazia. podia ter-se disposto a acolhê-los de pé. Eles compreende­ ram muito bem. Tão bem noutros tempos como hoje. Iam portanto os dez passar toda a vida diante de Jacob. Jacob servia-se da sua mágoa. porque se cria na alma uma sombria confusão. num silêncio atormentado. Como lhe fora anunciada a chegada dos filhos. s e m viverem em paz. erguendo-se um pouco do braço a que se encostava.° v. e se faz triste figura. para que a pergunta de desconfiança pudesse também passar por pergunta de aflição. 241 16 . a depreciar.bons.2. . a um tempo pene­ trante e sombrio. demorado. dolorosa­ mente insensata: — Onde está José? Ali estavam eles. i. pecadores torturados. Viram que era inten­ ção do pai agravar-lhes o mais possível a situação. a debicar. E só passados uns momentos levantou a cabeça para lhes dirigir aquele olhar e aquela pergunta. * . E eles perceberam. e daí estar continuamente a rezingar. mas fixo. Que assim era e assim havia de ser sempre. um homem a des­ confiar do outro. s. Um olhar embaciado pelo choro. ouvindo de cabeça baixa a tenebrosa pergunta. Uma consciência carregada é mau. não permitindo ao outro a paz que ele próprio não tem. a incurável des­ confiança. e a moer-se a si mesmo enquanto parece que está só a apoquentar o outro — pois assim é a suspeita. apesar de já ter decorrido uma semana depois de receber o sinal. naquela posição. inquieto e rancoroso. em transes dolorosos. para poder perguntar. provavelmente nem um. É de todos os tempos a argúcia com que. com a cabeça em cima do braço. a espreitar. Estava estendido diante deles. a um tempo tola e angustiada.j. para os sondar e sabendo que não o conseguia. mas tê-la mortificada quase que é pior. a desconfiança recíproca-. Perceberam-no ao primeiro olhar que eles lhes lançou.

desgraçamente. tanto que vos tornastes ferozmente hostis. e até parece que se aprova. não queremos falar. Afinal. Assim fez? — Infelizmente. o que sonhava. sentiam arrepios. — Mas. Não o tomámos a ver desde o dia em que ele nos contou no campo. porque lhe ralhaste. Vimos que os sonhos dele te contrariavam. — Os sonhos que teve — acentuou — eram para vós uma grande e grave contrariedade. a grande dor que sofreste. não ahegou â fazê-lo. naturalmente! — Naturalmente. ameaçando-o até de o agarrar pelos cabelos. — Infelizmente. — José já não existe — disse Jacob. também nós — responderam. de nós. foi atacado por uma fera. Eles também. se o despedaçou e devorou? Só se pode dizer «agairrou-o». Nós já não andá­ vamos apascentando no vale de Siquém. Mas era uma hostilidade comedida. e muito além da tua ameaça. — Eu incumbi-o de fazer essa viagem e ele rejubilou. o luto. por desdém. a ti e a nós. — Como podeis vós dizer «agarrou-o pelos cabelos». Antes que o pudesse fazer.De boca torcida. O rapaz perdeu-se por lá e foi morto. Estávamos em Dotan. a fim de vos abrandar o coração e virdes para casa. em vez de «despedaçou-o» por troça. — Só eu? — retorquiu. — Um pouco hostis. foi uma fera que o agarrou pelos cabelos. — Não? Porquê? — Por veneração. defendendo-se — foi agarrado. chorando. Mandei-o a Siquém inclinar-se diante de vós. sim. desgraçadamente. por dó e até por consi­ deração. Daí termos-lhe sido até certo ponto hostis. Quando eles pensavam que havia de ser assim eternamente. querido senhor. Jacob fizera-a num tom ardilosamente pesaroso. em vez de foi despedaçado. — Também se pode dizer — explicaram. — Despedaçou-o — disse Jacob. — E vós não? Esta pergunta também se justificava. Uma conversa aflitiva. responderam (foi Judá que respondeu por eles): — Sajbemos. 242 .

Mas. até que Jacob declarou: — Não sei porquê. porque viestes? — Para te acompanharmos nas lamentações. mas não me agrada que Simeão e Levi me prestem este serviço. Jacob interrompeu as lamentações e disse: — Não quero que tu. silenciosos. Por isso os mortificava tanto que ele os considerasse em parte assassinos e se tomaram insen­ síveis. Assim foi indo até Aser. me sustenhas a cabeça nem enxu­ gues as lágrimas. Muito ofendidos. Mas depois Jacob tomou a dizer: — Não me agrada que Rúben me segure e enxugue as lágrimas. e sempre Jacob dizia alguma coisa. Deve fazê-lo Dan. com o lábio inferior descaído. Qs olhos de Jacob. fatigados. Deve fazê-lo outro. Então Jacob disse: — Quero cessar as lamentações.— É verdade — concordou. e calo-me. Depois disto ficaram sentados. Sentaram-se à volta dele e entoaram um lamento: «Desde quando aa jazes. — Então lamentemo-nos! — disse Jacob. os gémeos cederam a cabeça a Rúben. — A vossa resposta é acertada. Judá. Mas se José vos não decidiu a vir. Até que todos foram ofendidos e recusados. e só por casualidade o não eram inteiramente. pouco depois a Gad. Zabulon. que se encarregou dela durante algum tempo. porém. melindrado. não obteve mais êxito que os outros e teve de passar a cabeça a Neftali e este. Eram-no realmente em parte. os olhos castanhos. Tinham pois — pensavam eles — de viver dali por diante debaixo de uma suspeita não esclarecida e que jamais se esclare­ ceria. Deve ser Rúben a fazê-lo. Compreendiam que os considerava em parte assassinos de José. Issacar. aqueles olhos inflamados. Judá cedeu a cabeça aos gémeos. Era só o que tinham ganho eliimõmamdo José. mas sempre imersos em meditações . Dan. decorrido pouco tempo.» Judá sustinha a cabeça do pai sobre os joelhos e enxugava-lhe as lágrimas. Ofendido. em volta dele. Devem fazê-lo os gémeos. como: — Sinto uma vaga repugnância se este ou aquele me segura a cabeça. os olhos avermelhados do paá. e estes seguraram-na um pouco durante as lamentações.

porque se verificava que a sua presença ali sem José era tão pouco suportável como quando ele existia. se estes eram culpados. porque estes sabiam o que tinham feito e. Conversa vil. À refeição.. semicerrados. sem possibilidade de voltar. Acontecera que José tinha desaparecido. dando-lhes uma certa tranquilidade. Haviam de continuar sempre assim? Então seria preferível que os irmãos se afastassem de novo para Siquém.. Estavam unidos em Deus e em José. se a ovelha era do juiz e tinha valor para ele. em cujo coração já não havia ridente primavera. Com olhos ferozes. não será razão suficiente para que deva jurar? — Nunca foi razão para obrigar ao juramento. Os filhos já não se lembravam bem do que tinham feito e. — Mas também está escrito: «Quando um pastor apascenta as ovelhas do dono e um leão entra no redil e mata. para fora do seu mundo. sombrios e abatidos. embora o não tivesse para o pastor. como a que costuma deixar o leão ou outra fera. com os rostos suando frio. A consciência do mal precisava da des­ confiança de Jacob e vice-versa. Não cessava de chorar o seu cordeiro. — Será bem assim? — Assim está escrito. e quando ele chorava os filhos também choravam porque já não sentiam ódio e. — Mas. temos tanta pena como ele. a fim de não ser molestado. Mas o tempo passava e ia criando o hábito. Portanto. se uma ovelha desaparece. cismando. Se o leão entra no redil. — Jurar? — perguntaram. tendo emigrado para longe. Os dez sabiam que ele não fora morto.» Que se conclui daqui? Não deverá o pastor jurar. porque também para eles José era uma sombra. esbatia-se a diferença entre fazer e acontecer. ou um deus fere o animal que vem a morrer. E nesse penoso momento sentiam-se aliviados: ele porque podia passear os olhos por todos. Esmoreceu nos olhos de Jacob aquele espiar de desconfiança. e viravam-se para outro lado. em desconsolada descon­ fiança. espiando. — É coisa que não acontece e que não vem em nenhuma lei. continuava no fundo tão «hirto» como quando caíra com a contracção espasmódica. esse homem deve jurar e purificar-se da culpa. como Jacob acreditava. se há a marca da pata. Com essa ideia estavam todos de acordo. pai e filhos. e se uma vez ou outra algum deles ia à suai vdda. Mas afastaram-se? Não. com o decorrer 245 . quem irá molestar esse homem? Isso é lá com o dono. de modo que nem sequer se pode citar. não é obrigado a jurar.. mesmo quando parece claro e certo que foi o leão que matou? — Sim e não — responderam e agora também os pés lhes esfria­ vam. à medida que o tempo passava. tanto eles como o pai. Mas a diferença entre saber e acreditar já não tinha grande importância. ociosa. o olhar desconfiado. mal encontravam os seus olhares. E se o pastor odiasse a ovelha? — insistiu. 244 — Pode-se odiar uma ovelha? — perguntaram. tão bem conheceis a lei. — Deve jurar quando ninguém viu como morreu o animal.\ ) sobre Deus. olhando-os com olhos ferozes e esquivos. passando então o prejuízo a ser do dono. A não existência do rapaz era um desfecho em que a consciência de todos assentara. —. a quem Deus tirara o seu mais caro sentimento. A pergunta «como?» passava lentamente para segundo plano do facto a que. E nós não somos pastores mercenários. mas o ardor do estio e a desolação do inverno. arrasta a ovelha para fora e ninguém vê. — Com tua licença. para Dotan ou para qualquer outro sítio. voltava logo. deve-se jurar. porque percebiam a alusão.Poderíeis ser juizes. mais não do que sim. No entanto. um após outro e nenhum por muito tempo. mas sim filhos do rei dos rebanhos. já estavam agora acostumados. aquele também sabia que o era. e se não há sangue nem ferida.. Mas se o pastor pode mostrar o animal morto. As mãos deles esfriavam. ou trazer um ou outro pedaço do animal despedaçado. aflitiva. o pastor deve prestar juramento para se purificar. esquivos e turvos eles encontravam o seu olhar. repousavam sobre eles—bem o sabiam — todas as vezes que o não olhavam. Jacob e os filhos aceitaram-na como penitência. E se chegaram a sentir perna de viverem juntos. Porém se há sangue. começou por dizer: — Quando um homem aluga um boi ou um burro e este recebe qualquer maltrato. e não é caso para se falar de juramento perante um juiz. eles porque tinham de suportar. O pobre velho.

há agora sossego. achando agora que Ele não ficara atrasado na civilização. tal era José para Jacob! E quem poderia agora negar que a morte tem também as suas vantagens. ou mais ainda. piedoso ancião! Se soubesses que enredadora vontade se esconde por trás do silêncio do teu Deus extremamente sublime. Finalmente já não atormentava ninguém com os baralhados planos de tornar a gerá-lo ou criá-lo de argila. Reflectia. ou outras palavras que o homem encontra para a últiima aiusência. ao bdo. Fora de perigo e imutável. depois de ele ser feito em pedaços? A morte já se encarregara disso e da mdhor maneira. fazendo o papel de Deus.do tempo. na sua contenda com Deus nas primeiras horas de desespero. sem precisar de cuidados e contando sempre dezassete primaveras. fora de perigo. pelo contrário. e 2 46 como. embora de natureza um tanto vazia e desolada? Jacob habituara-se a estas vantagens. fora muito delicado e sainito em não o ter simples­ mente pulverizado e ter deixado passar com silenciosa tolerância o seu arrogante desabafo. Onde antes havia opressão e medo. O pai desistira de ser mãe e «baixar à cova» para ir buscar José. A vida e o amor são coisas belas. te será alanceada a alma de maneira incompreensivelmente feliz! Eras novo quando a manhã te mostrou que a tua mais íntima felicidade não passava de ilusão falaz. embora um tanto vazio e desolado. mas. Restaurara-o. Reconstituíra-lhe inteiramente a figura corn catorze bocados. junto a Deus que o «chamara a Si». em sorridente formosura e conservava-o assim mdhor e mais gracioso do que a gente da celerada terra egípcia com liga­ duras e drogas. todas das imagi­ nadas para significar o mais profundo e suave abrigo. Ah. na sombra de um mundo distante e inacessível. inteligente. frívolo e insinuante rapaz de dezassete anos que partira montado na égua branca. de acordo com a Sua lei. FIM DO SEGUNDO VOLUME . envergo­ nhado. porque põe a salvo o ente amado. O mesmo pensava Jacob. por mais que se multiplicassem os giros dos planetas e aumentassem os anos dos viventes. por estarem centos de que ele se encontrava seguro. mas a morte também tem as suas vantagens. só se lembravam vagamente de quanto esse pateta os tinha irritado. Terás de viver muitos anos para aprenderes que também a tua dor mais lancinante não passava de ilusão falaz. inviolável. A morte conserva. Para que aspirava Jacob a renovar José. Podiam dar-se ao luxo de chorar. depois de ter restituído ao antigo estado. imutável. Onde estava José? No seio de Abraão.

! ÍNDICE .

............O JOVEM JOSÉ ........................................................................................................................ II 35 JOSÊ E BENJAMIM ........................................................................................................................................... 79 JOSÊ PROCURA OS IRMÀOS ................ 53 O SONHADOR......................................................................................... ABRAÃO.. 127 ............................................................................

H* m OFICINA» GRÁFICAS DE LIVROS DO BRASIL L I S B O A .

r .

meira parte recebendo e com esperando entusiasmo com a pri­ ansiedade este segundo volume. Os a edição de  e Buddenbrook Montanha Mágica. o leitor português tem cor­ respondido. O génio de Thomas Mann evidencia-se. bíblica Mann o sentido criando. no qual Thomas Mann soube conciliar a suprema concepção do arquitecto com as minúcias de um artesão literário que não des­ cura um só pormenor. Cabeças Trocadas. como uma impunha-se. obrigação por indecliná­ vel. uma obra de beleza e significação imperecíveis. Conferindo pessoal. bem como o terceiro e último que sairá em breve. uma procura. Com o pedra jovem nesse começou deposita-se José edifício com a a segunda monumental publicação de que José já e seus Irmãos. com uma força e ori­ ginalidade sem paralelo.Após. desvendar dição humana. dimensão mais uma da con­ profundo assim. à história Thomas vez. neste romance. no­ vamente. A inclusão deste livro na Colecção «Dois Mundos» isso mesmo. . a Editorial «Livros do Brasil» não poderia dei­ xar de uma incluir na Colecção obra-prima de Thomas «Dois Mundos» Mann que bem merece o qualificativo de clássica. à qual. aliás.