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MOREIRA, Walter; BARRETO, Angela Maria. Hipertexto e autonomia do leitor. In: BRITO, Eliana Vianna Brito; GURPILHARES, Marlene Silva Sardinha. (orgs.). Pesquisas em Lingüística
Aplicada: múltiplos enfoques. Taubaté: Cabral, 2007.

Hipertexto, leitura e autonomia do leitor

Walter Moreira
Angela Maria Barreto

Cultura, internet e cibercultura
Ainda no final dos anos 1960, quando a discussão passava ao largo do que hoje se convencionou
chamar simplesmente de internet, Eco (1970) provocou um amplo debate sobre as questões da cultura de massa e indústria cultural dividindo a comunidade em apocalípticos e integrados, conforme
seu posicionamento em relação a questão. A dicotomia foi utilizada posteriormente para classificar
as reações em face da internet. Tornou-se comum, por exemplo, inserir pensadores como Paul Virilio e Jean Baudrillard entre os apocalípticos, aqueles com visão negativa da tecnologia, e outros
como Pierre Levy e Manuel Castells entre os integrados, os que possuem visão utópica e acreditam
no poder universalizador e humanizador da técnica. A questão não é, como se poderia querer, simplista assim.
Embora a proposta seja tentadora, não se pretende discutir os autores mencionados ou confrontar
suas idéias, eles aparecem aqui simplesmente para formar o pano de fundo de uma discussão que
ainda se faz necessária e que, aliás, tem acompanhado a evolução da humanidade, conforme se pode
ver na síntese oferecida por Barreto (2006, p. 175)
Os estágios da comunicação humana propiciaram diferentes maneiras de cultura.
Assim, a oralidade cria os ritos e os mitos para a transferência oral da memória; a
escrita retira a memória do corpo e a transfere para um suporte material; o alfabeto
universaliza a digitação da escrita e a imprensa reproduz tecnicamente o alfabeto e
as imagens. Atualmente, o ciberespaço possibilita a construção da noosfera, um lo-

ou seja. o que diminui consideravelmente a possibilidade de ruído. e. carrega consigo uma série de questões cuja consideração é necessária para o estabelecimento da discussão. a leitura de sentenças continua a ser uma atividade linear mesmo que o o leitor se dê conta de que há não-linearidades possíveis. Sendo sua característica mais destacada a deslinearização. da percepção e da memória. Atualmente a internet é a marca da cibercultura. contudo. É conhecida de todos a brincadeira infantil do telefone sem fio. dar-se-á em torno da compreensão das seguintes questões formuladas como objetivos: discutir o conceito de hipertexto relacionado com a autonomia de seus leitores. aceitando-se. portanto. também como conjetura. pela virtualização e pelo hipertexto. é forçoso admitir que há quebra da linearidade apenas no que se refere ao significante com manutenção da linearidade do significado. Acredita-se que o hipertexto exige um leitor mais experiente. Pretende-se discutir neste trabalho o modo como se dá o comprometimento entre a apreensão de informações. como consequência podese discutir se há uma nova forma de produção de sentidos. compreender a interdependência entre a autonomia do leitor e sua compreensão plena do hipertexto. que a produção de sentidos é igualmente marcada pelos percursos traçados pelo autor (os hiperlinks). ou mais amplamente das relações humanas no ciberespaço por meio da leitura. pois a leitura sempre foi marcada pelos percursos tra- . leitura tradicional. tornou-se um não lugar marcado pela velocidade. É discutível afirmar que o hipertexto exige novas formas de leitura. Negar que há uma nova forma de leitura implica em admitir que o texto sempre foi virtual e que ainda se pratica. na condição de motor das interações fortuitas ou provocadas nesta cultura. mais consciente de sua autonomia.2 cus virtual de convergência de idéias. Com a escrita o compartilhamento de tempo e espaço entre emissor e receptor deixa de ser imperativo. por isso representa talvez o maior salto neste quadro. Admite-se. O hipertexto. por enquanto esta hipótese cabe questionar se há uma nova forma de leitura. e a qualidade das relações de leitura neste meio. Entende-se por ruído aqui os acréscimos e decréscimos inevitáveis adicionados à mensagem original após um determinado número de transmissões. O desenvolvimento deste capítulo. A comunicação não depende mais exclusivamente da memória auditiva das pessoas. como marca característica dos processos de leitura. portanto.

publicado em 1945. linearidade e deslinearização Dada a cultura comum de identificar-se os pais de cada grande avanço ou invenção. se a cibercultura exige da leitura o caráter da funcionalidade. que quer colocar a tecnologia a serviço da reorganização do mundo. já que praticamente o descreve em seu agora celebrado As we may think. conseqüentemente. Os hiperlinks. Bush (1945) acredita que a artificialidade dos sistemas de representação. a velocidade de associação não linear de idéias da mente humana. como todos. entretanto. quando encontrava algo precisava emergir do sistema e reiniciar sua busca por um novo item. Uma das alterações mais facilmente percebidas diz respeito às mudanças nos modelos de orientação du- . da estrutura de pensamento humano. marcados pelo autor . É preciso entendê-lo em seu contexto. pois se as práticas de leitura foram variadas no tempo. Hipertexto. preocupado com a organização e disseminação velozes do conhecimento acumulado durante o período da Segunda Guerra. De certa forma Bush (1945) propõe um sistema que tenta se aproximar. nos escritos de Ted Nelson. obrigava o usuário a percorrer linearmente a representação classe por classe. por semelhança de operações. mais problemático para a questão da significação. leitura.não é redundante lembrar que o hipertexto é construído utilizando-se linguagens de marcação. fosse por meio de métodos alfabéticos ou numéricos. os percursos traçados. Os estudos de Bush reforçam a melhor adequação do hipertexto à estrutura do pensamento humano em razão da não-linearidade em detrimento do texto convencional e sua chamada linearidade. O termo. como se disse.podem ser internos (conjuntivos) ou externos (disjuntivos). Inaugura-se com esta concepção uma nova postura.3 çados pelo autor. tais como. o HTML (Hypertext Markup Language) ou o XML (Extensible Markup Language) . Trata-se de um homem de seu tempo. da velocidade e da simultaneidade. O hiperlink externo orienta para outros caminhos. por exemplo. atribui-se o conceito de hipertexto a Vanevar Bush. são inevitáveis as mudanças nas relações entre espaço e leitura na contemporaneidade. abre portas para outros textos e revela assim aspecto mais pragmático e. A isto contrapôs. aparece apenas nos anos sessenta.

Por cautela é preciso isolar aqui os leitores proficientes. 2006) O que o hipertexto traz de novo em relação ao impresso? Em verdade.Queda na circulação de jornais (COUTINHO. a deslinearização causa dificuldades na compreensão. aliás.13. inteiro.8% Espanha . o (hiper)texto exige um leitor que “explore o conjunto de opções disponibilizadas pelos links e construa uma conexão coerente entre elas” (BRAGA. Até mesmo os aspectos de fisiologia da leitura precisam ser revistos. Não sendo mais apresentado como algo pronto. pois ainda que os apocalípticos neguem a possibilidade. ou seja.3. conforme indicam os dados da Associação Mundial de Jornais indicados na Tabela 1. PAÍS NÚMERO DE CÓPIAS POR MIL HABITANTES (2000/2004) Alemanha . O sucesso sempre presente dos best-sellers e dos livros de auto-ajuda confirmam a preferência desse tipo de leitor pela previsibilidade.21.15. com começo.7% Noruega .6% Japão .8% França .4 rante a produção de leitura. com amplo domínio das práticas de interação com diferentes tipos de texto.5. a ligação remissiva entre si de partes de um mesmo texto ou para outras fontes que desen- . Para o leitor médio. há uma legião de leitores que vêm abandonando o papel como suporte preferencial para a leitura. mas inegavelmente é mais fácil desorientar-se no ciberespaço por meio das tramas do hipertexto do que na leitura de um texto formatado de modo mais convencional.1% Estados Unidos . em qualquer tipo de narrativa. A quebra da seqüencialidade. meio e fim. dependente das marcas de coesão e coerência características de uma apresentação seqüencial de argumentos. compartilhada com o leitor.6% Brasil . no mínimo. a idéia básica de hipertexto.6% Reino Unido . teatro. Tal fato pode até mesmo ser creditado à incipiência da tecnologia e à ausência de uma forte fundamentação teórico-prática.16. notadamente de textos informativos ou referenciais. literatura ou outra.11. causa sempre dificuldades ao leitor comum. seja cinema.9% Tabela 1 . 2004). Num hipertexto a qualidade da conexão construída entre os links apresentados é.9.

um sistema de links muito próximo do atual.. Conforme aponta Levy (1996). têm sido utilizadas já há muito tempo. sumário. resumos. O que há de novidade é o fato de que não há mais o desconforto físico ou o gasto de tempo ocasionado pelo ato de deslocar-se em busca do documento ou do termo referenciado no texto original. p. fazer isso num texto impresso. compondo o que Levy (1996) chama de "aparelhagem de leitura artificial". Um texto jamais será um empreendimento isolado. burlando a ordem canônica estabelecida pelo autor ou pelo editor. a sociedade do conhecimento e o capitalismo na sua forma mais tradicional. títulos. pois tem à sua frente um texto que se dobra e se desdobra conforme determina a sua vontade. glossários e outros. não constitui novidade. bibliografias. São tecnologias que visam a oferecer ao leitor condições mais favoráveis para avaliar. 2003). mas há neste modelo um princípio ordenador mínimo que visa a organizar o texto em capítulos. ou seja. 26): “[. não há um percurso pré-determinado por um entidade autor. no século IX. citações.]”. outras frases: nó em uma rede [. referenciação de trabalhos e outros recursos auxiliares que possuem a mesma intenção final. O apelo à economia do tempo aplicado ao universo da informação. Tecnicamente é possível adentrar um hipertexto a partir de qualquer ponto conhecido. As citações.. foram criados com o objetivo de possibilitar interações maiores que as do limitado manuscrito. além de sua configuração interna e da forma que lhe dá autonomia. Lança-se aqui uma questão provocativa cuja ampliação será realizada posteriormente: Foucault antecipa de alguma forma a configuração do hipertexto ou refere-se apenas à intertextualidade? As mil e uma noites e seu encadeamento contínuo de histórias – uma história dentro da outra – usa já. ele está preso em um sistema de remissões a outros livros. palavras-chave. outros textos. A ausência de fronteiras nitidamente demarcadas ou mesmo de pureza já fora apontada por Foucault (1987. O hipertexto e seu conjunto de links conjuntivos e disjuntivos inaugura uma nova possibilidade fisiológica de leitura. Aspectos corriqueiros dos livros. fazendo-se as devidas concessões.. É possível também..] as margens de um livro jamais são nítidas nem rigorosamente determinadas: além do título. índices. notas de rodapé. de sua construção e de seus fluxos. como paginação. selecionar a acessar rapidamente partes do livro de modo não linear. transportando pesados volumes". Quando discorre sobre a morfologia do cor- . naturalmente. é certamente uma das características mais marcantes nesta sociedade que delira entre a sociedade da informação. capítulos.5 volvam de forma ampliada o tema enfocado em um dado texto. o leitor não percorre mais com seus passos a biblioteca "virando páginas. erratas. com introdução e final (FREIRE. das primeiras linhas e do ponto final.

Aqui é preciso distinguir os textos originalmente construídos como hipertextos dos textos que são transformados em hipertextos. pragmática) utilizada por uma dada sociedade. o qual. com começo. p. o hipertexto exige do leitor sua própria construção de percurso coerente entre os links. de um eixo único como princípio para sua construção. A impressão pode ser reveladora da diferença. Se o texto impresso já permitia ao leitor percorrer caminhos não lineares. argumenta. videoclipes) conectados uns aos outros por links. se não condiciona. como já foi dito. ou. rivaliza com os processos mais tradicionais: [. tais como a compreensão de títulos e subtítulos e seus encadeamentos (MACEDO-ROUET. Histórias escritas em hipertexto podem ser divididas em “páginas” que se desenrolam (como aparecem na world wide web) ou em “fichas” do tamanho da tela (como nas pilhas de hypercard). 127) sustenta que “não só a forma do corpo se altera durante a leitura. pois. mas elas são melhor descritas como segmentadas em blocos de informação genéricos chamados “lexias” (ou unidades de leitura) [. 64) que se trata de outro aparato de leitura. semântica. uma dificuldade extra para o leitor. pois a impressão não preserva a sua natureza essencialmente virtual. além de não lhe garantir outras qualidades inerentes como a ubiqüidade. p. trata-se de uma estrutura marcada pela ausência de eixo. pois exige-lhe conhecimentos metatextuais específicos. tabelas. Barreto (2006.] Hipertexto é um conjunto de documentos de qualquer tipo (imagens... 175) [. não se pode “subverter os níveis de organização das línguas naturais (sintaxe. com o auxílio da definição de hipertexto abaixo oferecida por Murray (2003.. mas o próprio leitor busca para cada tipo de leitura uma postura que lhe facilite a relação com o texto”. A estrutura do hipertexto representa. conforme indica Xavier (2004. acessibilidade ilimitada e a presença de outras mídias como o som e as imagens em movimentos em sua superfície virtual. É possível perceber então. meio e fim. pelo menos. gráficos.] .. 2003).] O fato de conseguirmos imprimir um hipertexto não significa que ele seja conversível a texto impresso. o hipertexto tem na deslinearização seu foco.. textos.6 po como elemento para a compreensão do espaço criado para a expressão do leitor em seu processo de produção de leitura. Xavier (2004) coloca como limite para a inteligibilidade do hipertexto a apresentação de alguma linearidade.” Não sendo mais apresentado como um todo cuja garantia de coesão se dá pela estrutura. sua essência. p.. isto é.

descrito como “um leitor que tem a sua disposição um tempo infinito. 138). de liberdade possível e não de liberdade ideal. pelas possibilidades de interdiscurso.]” O link hipertextual é limitado pelo discurso. pode-se percebê-lo “mais poderoso do que o autor”. é produzido com base em determinados interesses e suposições”. funciona da mesma forma que um texto. Isso é impossibilitado quando se trata de hiperliteratura. como ocorreu com a televisão nos trinta anos que se seguiram ao seu surgimento no Brasil e com diversas outras mídias em outros contextos. O que salvar do dilúvio? Pensar que poderíamos construir uma arca contendo 'o principal' seria justamente ceder à ilusão de totalidade. seu percurso. um romance. p. se “produz confusão na leitura”. p. A posição que o novo leitor ocupa neste cenário é relativamente desconfortável pelo que tem de paradoxal. por exemplo. contudo. sustenta Possenti (apud MELO. Num outro sentido. segundo seus próprios interesses. o hipertexto reduz o âmbito de possibilidades de leitura. por esta razão. Formações discursivas contrárias a do autor jamais serão acessadas através de links presentes no seu hipertexto..7 A liberdade do leitor/navegador Recusa-se a tentação fácil e ingênua de dicotomizar a análise do fenômeno hipertexto por meio de julgamento: bom ou mau.. provocam Albuquerque e Sá (2000. Gasta-se muita energia. mas antes que o Todo está definitivamente fora de alcance. quando abre uma miríade de possibilidades ao leitor o atordoa. produzir seu próprio texto como resultado de seu percurso autoral de navegação. que pode dis- . 142). com relação à construção de sentido. oferece-se de modo completo ao leitor. [. Isto ocorre. O texto impresso. pode. O ciberespaço. por exemplo. apresenta-se como um leitor sem história. Evidentemente algumas liberdades são acrescentadas e o leitor pode tornar-se mais ativo. pois pode decidir seu destino. “porque todo hipertexto. sem interesses. pois é sempre o autor quem toma decisões de inserir este ou aquele conjunto de links. o que lhe permite contornar os caminhos traçados pelo autor e tomar conhecimento do seu desfecho. p. 161): “a emergência do ciberespaço não significa de forma alguma que 'tudo' pode enfim ser acessado. 2004. aqui o leitor possui diversidade de escolhas. mas deve respeitar aquelas previstas pelo autor. é um leitor em férias permanentes. Trata-se. 84) para identificar o hipertexto como bom. explica Melo (2004. “se ele liberta o leitor do jugo do autor” ou mau. ou seja. Por um lado. p. que já foi mal comparado a uma enorme biblioteca sem paredes. Vale repetir a advertência de Levy (1999. por outro lado.

8 persar suas consultas ao bel-prazer dos impulsos imediatos”. O princípio da autonomia Exige-se do leitor de hipertextos mais autonomia do que a que se exige do leitor tradicional? A pergunta é retórica. a interação. pois o que importa aqui é que se exige autonomia do leitor como condição para o seu processo de produção de sentidos para o texto. generalizando-se a amostra. Em parte. Em busca da compreensão do conceito de interatividade e de sua relação com a autonomia do leitor é preciso antes compreender qual a sua relação com outro conceito. conforme definição de Albuquerque e Sá (2000. não hierárquico. conforme a classificação apontada por Moreira (2003) que organiza os hipertextos em transcrição (texto produzido digitalmente. a interatividade é definida como “a medida da capacidade potencial de um meio de comunicação de deixar que o usuário exerça influência sobre o controle ou forma da comunicação mediada”. uma leitura apenas superficial. em geral. “efeitos negativos do hipertexto para a compreensão de um texto multidocumental. medíocre”.. p. sem indicações de fonte)”. adapta-se a estrutura de um texto já existente ao formato hipertexto) e criação (o genuíno hipertexto). Critica duramente também a qualidade dos periódicos com base nos resultados obtidos: “[. A interação pressupõe a “relação entre duas ou mais pessoas que. De acordo com o autor (p. isso ocorre por conta da ainda forte presença na web de hipertextos transcritos de textos tradicionais em sua estrutura.] a legibilidade dos hipertextos de revistas de divulgação científica é. em uma dada situação. é uma relativa ausência de comprometimento dos produtores de hipertexto com um dos princípios sustentadores da autonomia do leitor: a garantia de condições de interatividade. afirma Macedo-Rouet (2003). o que provoca. adaptam seu comportamento e suas ações em referência aos outros”. De qualquer modo os resultados mostram. O que esta pesquisa aponta. tradução (considerados a língua natural e o código de marcação de hipertextos.. algumas recomendações ergonômicas são satisfeitas. estruturados em menu (neste caso. outras não. Em . muitas vezes. 90. O que se pode afirmar é que leitores inexperientes desorientam-se mais facilmente e apresentam maior dificuldade para lidar com a sobrecarga cognitiva provocada pelo hipertexto. desprovida de compreensão. mas pensado para o suporte papel). o qual investigou o uso que as revistas de divulgação científica fazem das tecnologias hipermídia. particularmente no que se refere aos documentos secundários. 110). um leitor desocupado como aquele a quem Cervantes ironicamente se dirige no início do prólogo de seu Dom Quixote.

Mesmo usando como tecnologia o próprio livro em seu aspecto mais convencional. ficaram limitados pelo aparato tecnológico. independentemente do suporte. exige trabalho. 26). preenchimentos de lacunas e interstícios deixados pelo autor. ou da web. é um ato de produção de sentidos. A interatividade ou a interação não representam. a diferença entre um e outro incide somente no suporte e na velocidade de localização e acesso. independentemente de sua estrutura. A diferença se dá pela transparência ou pela evidência dessa inter-relação no novo modelo. de outro meio ou de outra tecnologia textual que não a do próprio livro impresso”. pois. porque tentaram questioná-lo sem dispor. O ato de leitura. Quando a arte deixa de se configurar como mera representação da realidade e exige do receptor formação de repertório próprio para compreendê-la já há aí uma possibilidade interativa. pela possibilidade de integrar (linearizar) elementos já presentes anteriormente e de deslinearizar outros. mas a novidade se dá pela tecnologia. do ponto de vista de recepção. para tanto. todo texto se reveste de hipertextualidade. indicada acima: os limites de um livro jamais são rigorosamente demarcados. Com o hipertexto o intertexto continua a aparecer nas entrelinhas. p. retomando a rejeição à visão positivista com base em Foucault (1987). A leitura desses autores é sempre surpreendente. o texto. é preciso concordar com Bellei (2002. p. O hipertexto ou o hiperautor não determinam o modelo ideal de leitura da mesma forma como o livro ou o autor . apesar de serem atualmente extremamente utilizadas neste meio. Julio Cortazar e Italo Calvino. A interação é a ação recíproca entre sujeitos: escritorleitor.9 outras palavras. Segundo Koch (2006). por motivos óbvios de falta de espaço e obediência às regras do próprio jogo que constitui as linguagens (XAVIER. e tem como exigência um design amigável. até porque o texto. Na visão de Marcuschi (2000) o hipertexto é inovador. autores como James Joyce. pelo dito e pelo não dito. forma ou função é constituído pelo que é relevado e pelo que é oculto. interatividade é a ação recíproca entre dois agentes: material ou virtual – leitor. 172). pois leva sempre o leitor a lançar mão de seus conhecimentos enciclopédicos. “não chegaram a abalar a tradição de linearidade do livro. não pode dizer tudo. em qualquer superfície. mas. e tem como exigência a mediação. entre outros. buscaram alternativas para quebrar sua forma de narrativa linear. 2004. terminologia prerrogativa do universo da informática. cobra-lhe intenso esforço de atos inferenciais. A leitura não pode prescindir da atuação do leitor. Ler de modo proficiente é produzir.

Dom Quixote. o hipertexto permite novas práticas de leitura em relação àquelas autorizadas pelo texto impresso. indiferente a perguntas e destruidor das memória”. de maneira que chegou a perder o juízo”. que origina a comunicação no processo de leitura”. do pouco dormir do muito ler. de Cervantes (2002. inumano de processar o conhecimento. considerada “como um modo mecânico. e assim. p.]. Em diversos outros momentos da história das práticas de leitura o livro foi objeto de proibições ou de censura. de construção e de negociação de sentidos. Considerações finais Existe pensamento humano coerente fora dos livros? Parece ser essa a dúvida que dá origem a todas as visões pessimistas em relação à disseminação do hipertexto e da cultura digital. já foram feitas por Platão (1954. inequivocamente estabelecidas. Como é absolutamente comum em momentos de transição ou de crise. há os que sustentam a morte do livro como tecnologia ultrapassada (o que certamente não é real e nem mesmo se vislumbra a possibilidade de que isso aconte- . Na perspectiva de Iser (1979. se lhe secou o cérebro. 23) pelo que tem de lúcido e conciliador: “Não estou entre aqueles que anseiam pela morte do livro [. de recepção passiva de mensagens. De ato simples de decodificação mecânica de sinais. 32) é certamente um ícone dos males provocados pela leitura: “passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro.10 jamais o fizeram. a leitura passou a ser compreendida na contemporaneidade como ato complexo de produção. mas compreendidos em sua interação. não tem sido exatamente essa a preocupação dos pais em relação aos hábitos de navegação dos filhos pela internet? Da mesma forma que o códex promoveu novas formas de leitura em relação ao rolo e sua condicionadora seqüencialidade. é sempre preciso lembrar que praticamente as mesmas objeções que se faz em geral aos computadores. Transcreve-se o pensamento de Murray (2003. p. Guardadas as proporções. Se a história puder ensinar alguma coisa. o resultado de cinco séculos de investigações e invenções organizadas e coletivas que o texto impresso tornou possíveis”. Nem a temo como algo iminente. O computador não é o inimigo do livro. 88) sendo a leitura uma atividade de interação humana o autor fica impossibilitado de saber exatamente como o leitor recepciona seu texto e é precisamente essa “assimetria fundamental entre texto e leitor.. Ele é o filho da cultura impressa. é preciso rever os limites da interpretação. p. Fazendo coro à abordagem interacionista não se pode considerar o autor ou o leitor isoladamente.. p. 256-7) em relação à escrita.

Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido. Belo Horizonte. Sérgio Luiz Prado. Marcelo. Famecos. 1.ed. 3. FREIRE. XAVIER. Dom Quixote de La Mancha. Wolfgang. 144-162.br/internet/sociedade_digital/idgcoluna. Disponível em <http://idgnow. In: LIMA. 1945. COUTINHO. 2004. Hipertextos. Vannevar As we may think The Atlantic Monthly. Porto Alegre.11 ça) e os que acreditam que qualquer contribuição que as tecnologias da informação possam prestar ao livro e aos modelos de leitura atuais são efêmeras (o que representa uma visão equivocada da história da produção dos registros do conhecimento). Rio de Janeiro: Paz e Terra. São Paulo: Nova Cultural. 1979. O livro é certamente mais do que um mero objeto de informação. jul. Salvador: EDUFBA. 2007. v. 83-132. ISER. 2006. São Paulo: Educ. 2000. Dos pesados volumes manipulados pelos monges copistas na Idade Média aos aparelhos leitores de livros eletrônicos que comportam bibliotecas inteiras há avanços que jamais poderão ser desprezados. Rio de Janeiro: Lucerna. SÁ. BELLEI. p. Perspectivas em Ciência da Informação. Referências ALBUQUERQUE. Apocalípticos e integrados.0808356022/IDGColuna_view> Acesso em: 12 set. 176./dez. BRAGA. FOUCAULT.com. p.) A literatura e o leitor: textos de estética da recepção.theatlantic. 1970. A comunicação interativa em ambiente hipermídia: as vantagens da hipermodalidade para o aprendizado no meio digital. Acelerem os servidores. BARRETO.). Na condição de produto tecnológico. IDG Now. n. 127-133. CERVANTES. Denise B. entretanto. especial. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 04 fev.2006-0204. 13. In: ______. 2002. n. p. 1987. jogos de computador e comunicação. Disponível em: <http://www. Umberto. 101-108.com/doc/194507/bush> Acesso em: 13 set. a literatura e o computador. o livro vem evoluindo rapidamente em atenção à comodidade do leitor. dez. 2002. p. Michel. Arqueologia do saber. Memória e leitura: as categorias da produção de sentidos. Sendo a tecnologia um produto cultural e o leitor um ser social os processos de interação leitor-texto são naturalmente influenciados pelas contingências históricas. O hipertexto como instrumento de informação em redes de comunicação. Afonso de. Miguel de. Antonio Carlos (orgs. Angela Maria. 2006. n. 83-93. 2007. Gustavo Henrique A.uol. p. BUSH. . ECO. A interação do texto com o leitor. Luis Costa (org. O livro. Simone Pereira de. Sociedade Digital. São Paulo: Perspectiva. 2003.

Angela Maria Barreto . Informação & Sociedade. LEVY.barreto. 13. Produção e leitura de hiperdocumentos: novos modos de interação leitor-texto. In: ______.php/ies/article/view/118/113> Acesso em: 15 set. São Paulo: Unesp. 2000. Ingedore G. n. Antonio Carlos (orgs. Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido. A análise do discurso em contraponto à noção de acessibilidade ilimitada da Internet. 2006. Luiz Antonio. Cristina T. Legibilidade de revistas eletrônicas de divulgação científica. MURRAY.). XAVIER. set. Pierre. v. 1999.Lorena e professor titular na mesma Instituição. MARCUSCHI. Fedro. MACEDO-ROUET.UFBA. p. MELO. 103-112.angela@itelefonica. 3. Rio de Janeiro: 34. Atualmente é coordenador do Núcleo de Educação a Distância Faculdades Integradas Teresa D'Ávila . Porto Alegre: Globo. Ciência da Informação. XAVIER. produção científica e bibliotecas virtuais. In: ______. Brasília. v. Antonio Carlos.br possui graduação em Biblioteconomia pelas Faculdades Integradas Teresa D'Ávila (1983). Rio de Janeiro: Lucerna./dez. In AZEREDO. p. texto e hipertexto. 2003. Disponível em: <http://www.com. O hipertexto como um novo espaço de escrita em sala de aula. 2003.br/ojs2/index. LEVY. Atualmente é Docente Pesquisadora do Instituto de Ciência da Informação . MOREIRA. 2003. V. PLATÃO.ed. 2004. Antonio Carlos (orgs.moreira@gmail. 170-180.) Língua portuguesa em debate: conhecimento e ensino. 2007. Petrópolis: Vozes. 87-111. Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido. Diálogos. Desvendando os segredos do texto. terminologia. Cibercultura. 1.12 KOCH. participante do Instituto de Estudos Vale- . Walter. Mônica.ufpb. XAVIER. Pierre. 1954. 2004. 32. São Paulo: Cortez. p. Informações sobre os autores Walter Moreira – walter. Leitura. 1996. atuando principalmente nos seguintes temas: recuperação da informação. Hamlet no holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. 5. n. Rio de Janeiro: Lucerna. Doutorando em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. V. análise documentária.ies. Janet H. desenvolve pesquisa sobre Ontologia e Terminologia.). Tem experiência na área de Ciência da Informação. mestrado em Ciência da Informação pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1989) e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (2003) . 135-143. p.com possui graduação em Biblioteconomia pelas Faculdades Integradas Teresa D'Ávila (1990) e mestrado em Ciência da Informação pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1998). In: ______. José Carlos (org. O que é o virtual? Rio de Janeiro: 34.

informação e produção de sentidos. Atuando principalmente nos seguintes temas: leitura. Tem experiência na área de Ciência da Informação com ênfase em Biblioteconomia. . informação e modos de ler.13 paraibanos e da Fundação João Fernandes da Cunha. infoeducação.