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O SEQUESTRO DA FILOSOFIA

ELEMENTOS PARA PENSAR AS RELAÇÕES ENTRE LITERATURA E FILOSOFIA NO

BRASIL
Caio Souto

[Introdução]
No Brasil, desde meados do século XIX, a literatura foi compreendida como
um das formas expressivas mais destacados de nossa formação social, cultural e
política. Estudá-la passaria a ser um modo cada vez mais privilegiado de identificar os
principais aspectos de nosso povo e de sua história singular. A primeira grande tentativa
de formulação sistemática da formação de nossa literatura se deve a Antonio Candido
em sua imponente Formação da literatura brasileira, cuja publicação, que data de mais
de meio século, ainda suscita variadas críticas. Trata-se de uma obra que possui um
método e sua aplicação. Esse método é apresentado no capítulo inicial da obra, aquele
que foi mais comentado: “Literatura como sistema”. Apresenta-se ali, mais do que
propriamente um método, um conceito específico de literatura. Os demais capítulos
passam a expor as etapas históricas de constituição desse sistema em solo brasileiro,
primeiramente de modo dependente de Portugal, em seguida conquistando relativa
autonomia, a qual seria paulatinamente lograda definitivamente. Tal modelo respeita a
uma concepção histórica continuísta:
Se desejarmos focalizar os momentos em que se discerne
a formação de um sistema, é preferível nos limitarmos
aos seus artífices imediatos, mais os que se vão
enquadrando como herdeiros nas suas diretrizes, ou
simplesmente no seu exemplo. Trata-se, então, (para dar
realce às linhas), de averiguar quando e como se definiu
uma continuidade ininterrupta de obras e autores, cientes
quase sempre de integrarem um processo de formação
literária. (CANDIDO, 1969, pp. 24-25).

Elegendo convencionalmente o ano de 1750 como início dessa formação,
Candido toma como primeiro movimento literário brasileiro importante o Arcadismo.
Uma delas é a de Haroldo de Campos

. a meu ver. antes. Seu correlato brasileiro se viu emergir entre 1808 e 1822 (período joanino). Esse Kant não existiu. um precursor do barroco por seu maneirismo). O povo (o público). a qual. Tivemos o romantismo. Opção formalista. Bem. antes dele.. e por que não logocêntrica. é a grande invenção alemã do período. Mas antes de comentá-lo. irmã da filologia e avó da pátria germânica. mas por uma questão estritamente histórica. Mas creio que a Formação de Candido levante suspeitas. justamente o que Candido não identifica no período barroco e vê formar-se embrionariamente no arcadismo para enfim se consolidar sistematicamente no romantismo. a João Cabral ao neoconcretismo e deixa de fora dessa linha Invenção de Orfeu e Canto geral do Neruda. Dissipando as diferenças entre as nações. mas não importa. diríamos que é a grande invenção do Ocidente após a Revolução Francesa.. já que esse período é eleito como precursor do seu neoconcretismo. criticado por sua falta de estrutura e de unidade (mas não é do barroco que se trata?!). é que a efetiva literatura brasileira tenha começado com nosso romantismo. uma vez aceita. a Sousândrade.. A acusação de sequestro de um período inteiro de nossa literatura lhe é interessada. o grande poeta concretista encontra uma linha que vai de Gregório (e Camões. Começar no arcadismo não é suficiente a sanar essa deficiência.o pensamento social brasileiro teve e seus principais objetos concentrou-se a respeito das condições de possibilidade da emergência da literatura Li "O sequestro do barroco" do Haroldo. tal como a "literatura" como conceito tenha sido inventada pelo romantismo alemão. para mim. para arriscar contra Haroldo o autor da Gramatologia. deve excluir o barroco (não pelos caracteres estruturais que Haroldo busca em Jakobson para criticar o modelo "croceano" de Candido). faces que são (barroco e arcadismo) de uma mesma expressão (como eram o "barroco "em Leibniz e o "classicismo" em Descartes). por pretender que a literatura brasileira tenha se desenvolvido à maneira de uma "formação". talvez fosse oportuno usar Haroldo contra ele mesmo aqui. . queria deixar registrado o espanto que me causa ouvi-lo falar sobre Jorge de Lima. Esse período seria aquele em que nosso Kant teria vivido. Ponto pacífico.

Que alguém desenvolva melhor isso. da unidade coesa. persiste que o lugar privilegiado do pensamento ainda se restrinja à literatura e à sua teoria. portanto.O que teria sido sequestrado? Não havendo literatura no mundo desde então. Na tese de Oswald sobre “Arcádia e Inconfidência”. 2 vols. muita formação. 1969. . muita estrutura. mas do nosso. 3ª edição. é o concretismo. Pois não é de seu século que o barroco foi limado pela Formação de Candido. Candido estaria certo. Mas o mal-estar de Haroldo não é sem razão. que na teoria literária brasileira há muita pesquisa. Quero apenas ressaltar. é possível vislumbrar como a literatura ali exerce o papel de dobra intermediária entre o período colonial e o período imperial. entre a poesia que falava a língua do infinito e a poesia que falará a língua do homem. é Oswald. Antonio. parodiando Wittgenstein. como cego para o que se passa além da forma. o que chamarei doravante "O sequestro da filosofia". Entre nós. Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). Talvez seja efeito de um sequestro mais grave em nosso pensamento. BIBLIOGRAFIA CANDIDO. Não estamos diante de uma tese histórica. que é ramo menor da europeia). mas de duas concepções de literatura: uma formalista. outra romântica. É a nós que se lhe deve assistir importância. já que Gregório é Sousândrade. da estrutura. Candido tem uma compreensão arbórea da literatura brasileira (ramo da portuguesa. e total confusão intelectual. do logos. São Paulo: Martins. O formalismo estrito de Haroldo me pareceu cego para o problema da literatura e sua emergência histórica.

2 – filosofia portuguesa no contexto dos séculos XVI e XVII (a segunda escolástica portuguesa) 5.3 – a ruptura do romantismo e a invenção de uma nação: literatura como produto humano com vistas à formação de um público e de um povo (o brasileiro) – no arcadismo.2 – reinterpretação do arcadismo e da inconfidência (a tese de Oswald) 6. c) do privilégio da literatura.4 – de como a filosofia brasileira do período herdou essas duas correntes (a escolástica e a literária) 5.4 – Schwarz e um possível desdobramento da tese de Antonio Candido para interpretar o desenvolvimento posterior da literatura brasileira como pensamento social: Machado de Assis e a dialética em “As ideias fora do lugar” (in Ao vencedor as batatas) 7 – Haroldo de Campos e a recolocação do problema do barroco (sequestro?) 7.1 – a tese histórica de Hansen e a função-autor Gregório de Matos (não havia literatura no barroco.7 – a questão da literatura e de como o pensamento brasileiro se serviu preferencialmente dessa forma de expressão 6 – concepções da literatura brasileira e a concepção romântica de Antonio Candido 6. de integrarem um sistema a se formar 6. b) o problema da literatura brasileira.2 – de como Gregório não podia integrar um sistema literário tal como concebido pelo romantismo 8 – colocar bem o problema da literatura. de suas condições e de se conceito é necessário à compreensão do problema da própria filosofia e de suas condições de impossibilidade no Brasil hoje .1 – de como o lugar em que se faz filosofia modifica a perspectiva.5 – o problema de Gregório de Matos (1636-1695) 5. de cunho literário) (1548-1617) 5. por parte dos autores.1 – a continuidade ininterrupta e a consciência. o que resulta numa filosofia diversa da que era feita na Metrópole 5. mas uma função discursiva satírica) 7. tinha-se em mente as formas e a linguagem enquanto representação 6.1 – perguntar quem são os ouvintes 2 – explicar meu mestrado e o problema de um conceito de literatura 3 – de como esse conceito de literatura é filosófico 4 – divisão da fala em duas partes: a) o problema da filosofia brasileira. 5 – explicar a tese de Paulo Margutti sobre a filosofia brasileira no período colonial 5.6 – das mudanças e transformações desse problema para além da Independência 5.3 – Pedro da Fonseca (tomista) (1528-1599) e Francisco Suárez (assistemático.