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Aula 15

Política – Calvinismo e Política (A Visão de Kuyper)

Introdução
Na aula anterior examinamos o pensamento de João Calvino sobre os governantes e
governados. Agora vamos abordar o que Abraham Kuyper, teólogo e estadista holandês, o
qual já descrevemos na introdução da aula passada1, transmitiu em uma série de palestras,
em 1898, nos Estados Unidos,2 sobre “Calvinismo e Política”. Vamos ver como Kuyper
interpreta o pensamento de Calvino.
O Calvinismo se Estende Além do Aspecto Religioso
Kuyper inicia esta palestra, mostrando a abrangência do calvinismo. Não é apenas uma
variação teológica, mas uma forma de ver o mundo e a criação sob o prisma da realidade de
um Deus soberano que rege todos os detalhes da vida. Ele inicia esta exposição exatamente
com o conceito do estado.
O Calvinismo Abrange o Conceito do Estado e produz liberdade
Kuyper diz que o calvinismo “não apenas podou os ramos e limpou o tronco, mas
alcançou a própria raiz de nossa vida humana”. Ou seja, ele não vai ficar hermeticamente
fechado na área da teologia ou da dogmática. Adentrando a área política, do estado, Kuyper
indica que sistemas poderosos têm ocorrido, na história da humanidade, quando se
desenvolvem a partir de conceitos religiosos, ou abertamente anti-religiosos. Ele vê o
calvinismo como a mola motivadora de conceitos muito progressistas, no campo político –
como fomentador da liberdade, e apresenta o exemplo de três países que o tem em suas
raízes. Chama, então, a atenção para as “mudanças políticas que produziu nas três terras
de liberdade política histórica, a Holanda, a Inglaterra e a América”. Aprofundando o
ponto, ele cita Groen van Prinsterer: “No Calvinismo encontra-se a origem e a garantia de
nossas liberdades constitucionais”.
As Implicações do Conceito da Soberania de Deus
Apesar do calvinismo ser mais conhecido por sua visão da soteriologia, Kuyper mantém
que o ponto principal, e aquele que pode explicar “a influência do Calvinismo em nosso
desenvolvimento político” é “a Soberania do Deus Triuno sobre todo o Cosmos, em todas
as suas esferas e reinos, visíveis e invisíveis. Uma soberania primordial que irradia-se na
humanidade numa tríplice supremacia derivada, a saber, (1) A Soberania no Estado; (2) A
Soberania na Sociedade; e (3) A Soberania na Igreja”. Kuyper procura demostrar que
Deus exerce a sua soberania através de suas criaturas e providência, nessas esferas.
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Abraham Kuyper (1837-1920), teólogo e estadista holandês, foi um dos maiores expositores de Calvino. À
semelhança de Calvino teve atuação marcante na vida eclesiástica, mas esteve igualmente envolvido com a
sociedade civil e o estado, chegando ao cargo de primeiro ministro de seu país.
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Essas palestras, pronunciadas no Seminário Teológico de Princeton, foram compiladas e impressas,
denominadas – Lectures in Calvinism. No ano de 2002 a Editora Cultura Cristã (Casa Editora Presbiteriana)
publicou a obra em português com o título “Calvinismo”. Todas as citações de Kuyper, que fazemos nesta
aula, são extraídas, seqüencialmente, do Capítulo III deste livro (pp. 85-115).

E por outro lado também que. Para Kuyper. estando lado a lado e sem conexão genealógica. Isso está em harmonia com o que temos afirmado desde o início deste curso e se constitui no pensamento da grande maioria dos teólogos reformados. conseqüentemente toda regra. ele vai até Aristóteles. a qual revelou-se o meio ordenado por Deus para refrear a autoridade onde quer que ela tenha se degenerado em despotismo”. para Kuyper. torna-se necessário. indispensável. liberdade. dos Augustos e dos Napoleões. e se toda a humanidade estivesse associada em um império.. subdividindo a terra. “Deus tem instituído os magistrados por causa do pecado”. Se o pecado não tivesse ocorrido. Se o pecado. “Nesta batalha estava a própria sede inata pela liberdade. Assim. Conseqüentemente. mas este não foi o caso”. nem marinha. Quem une onde nada está quebrado? Quem usa muletas quando as pernas estão sadias”? Esse conflito entre unidade e ordem está. Mas nenhum homem tem o direito inerente de governar sobre outro – este é um poder que pertence a Deus. Kuyper afirma: “sem pecado não teria havido magistrado. Para Kuyper. em virtude de nosso impulso natural. a força e poder do governo não vem de um mero “contrato social”. o povo não era a coisa principal. sem dúvida este mundo realmente teria sido assim. mas a conscientização de Deus e a busca de sua glória – mesmo na esfera política. restabelecendo ordem e lei. como uma força desintegradora. Assim como Adão foi criado separadamente. bem como todo controle e afirmação do poder do magistrado desapareceria. “através de sua profunda concepção do pecado. Nem tribunal de justiça. tem ensinado duas coisas: primeira – que devemos agradecidamente receber da mão de Deus a instituição do Estado com seus magistrados como meio de preservação agora.. Substanciando que o natural é a unidade orgânica e o “estado” é algo que vai contra esta unidade. vai contra essa unidade.. mas do . nem ordem do estado. chamando-o de “ser político”. Kuyper enfatiza o grande fator que não pode ser ignorado – “o pecado”. e o calvinismo. na raiz da “batalha dos séculos”: autoridade vs. Ele diz: “. Diz Kuyper: “Deus poderia ter criado os homens como indivíduos separados.. nem polícia. mas a vida política em sua inteireza teria se desenvolvido segundo um modelo patriarcal da vida de família. que não haviam originalmente firmado tal contrato. o erro dos Alexandres. normalmente e sem obstáculo de seu próprio impulso orgânico. de fato. entre todas as nações. nem exército.A Soberania no Estado Tratando da soberania no estado. mas sim que eles se esforçaram para concretizar esta idéia embora a força do pecado tivesse dissolvido nossa unidade”. e se fosse para a vida desenvolver a si mesma. não tivesse dividido a humanidade em diferentes seções. e as implicações dessa realidade – o “estado” é estrutura formada por Deus pós-queda. O ponto de Kuyper é que Deus criou o homem unindo organicamente a toda a raça. não foi que eles foram seduzidos com o pensamento do Império Mundial Único. o segundo e terceiro e assim por diante. cada homem poderia ter sido chamado a existência individualmente. nada teria estragado ou quebrado a unidade orgânica de nossa raça.. que não teria força sobre os descendentes. devemos sempre vigiar contra o perigo que está escondido no poder do Estado para nossa liberdade pessoal”. pegando o gancho da classificação que o filósofo faz do homem. é concebível num mundo sem pecado. ordenança e lei caducaria. a unidade orgânica de nossa raça somente seria realizada politicamente se um Estado pudesse abraçar todo o mundo. O pecado desintegra a humanidade e o estado.. os governos existem por delegação divina. mas o conceito do estado.

prossegue Kuyper. ele faz grande distinção entre a Revolução Francesa e as Holandesa (contra a Espanha) e a Americana. a qual Kuyper chama de “anti-teísta”. num tirano como Filipe da Espanha. num César. ambas contra tirania e dominação. Nesse conceito. A Soberania Popular e a Soberania do Estado Duas teorias se opõem à visão calvinista do estado: a da Soberania Popular. governam pela graça de Deus”. ele reafirma que a soberania de Deus vale para todo o mundo e está “forçosamente em toda autoridade que o homem exerce sobre o homem. é muito prezada na América do Norte (onde Kuyper proferia suas palestras) . aqui. Quanto à Alemanha. em 1789. todos os poderes que existem. quer em impérios ou em repúblicas. elegendo para a posição de mais alta honra. ao longo da história. “Deus ordena os poderes que existem. Kuyper aponta que a Revolução Francesa tem apenas como razão secundária “as defesas da liberdade de um povo”. num déspota asiático. Assim. Kuyper chama democracia de “uma graça de Deus” e faz referência a que ele disse que “o povo deveria agradecidamente reconhecer nisto um favor de Deus”. Portanto. a fim de que através de sua instrumentalidade possa manter sua justiça contra os esforços do pecado” e assim “. Calvino aponta uma forma de governo de “cooperação de muitas pessoas sob controle mútuo”. não trouxe impressão melhor: a soberania do estado. entretanto. cuidem-se de não se privarem deste favor. Kuyper diz que ela pode “revelar-se numa república. a quem Deus deu a liberdade de escolher seus próprios magistrados. e a da Soberania do Estado. Ó povos. Essa idéia do estado potente e soberano. Por isso falamos da soberania de Deus no estado.3 e que não nutria predileção pela monarquia. latinos. porque em Israel Deus intervia imediatamente”. “uma república”.próprio Deus. no comentário de Jeremias Calvino escreveu um alerta: “E vós. A primeira é a visão da Revolução Francesa. No entanto. mas a oposição a Deus e a rejeição à sua soberania. “Uma teocracia somente foi encontrada em Israel. numa monarquia. até mesmo na autoridade que os pais possuem sobre seus filhos”. “desenvolvida pela escola histórico-panteísta da Alemanha”. mas realizadas sob o temor de Deus – expressando que o poder do governo procede de Deus. tem assumido diversas formas. patifes e inimigos de Deus”. que Kuyper classifica como sendo: “um produto do panteísmo filosófico alemão”. O 3 Na aula passada vimos que Calvino chama a sua forma de governo predileta de “aristocracia”.. A segunda. tem dado ao magistrado o terrível direito da vida e da morte. o Estado é apresentado como sendo “a mais perfeita idéia da relação entre os homens”. ele aponta que ela se livrou da “fictícia soberania do povo” mas o que recomendaram. No entanto. interpreta a descrição que Calvino faz (mais adiante) como “república” distinguindo esta de uma “democracia”. uma concepção mística. um pouco obscura para nós. ou num ditador como Napoleão. Kuyper. Este alerta soa bem contemporâneo aos nossos ouvidos! Kuyper alerta que o pensamento reformado não defende uma teocracia. Todas estas eram apenas formas nas quais a idéia única do Estado incorporou-se”. mas a sua força propulsora não foi uma reação contra abusos. Formas de Governo Kuyper aponta que Calvino “preferia uma república. em cidades ou em estados. Essa distinção. No entanto. um ser misterioso com uma poderosa vontade própria. em substituição. “ambas estas teorias são idênticas na essência”.. Na visão de Kuyper. como se esta fosse a forma divina e ideal de governo”. e Kuyper identifica essa descrição como.

Certamente. Ele afirma que está “decididamente expresso que estes diferentes desenvolvimentos da vida social nada têm acima deles exceto Deus. era a idéia unânime e uniforme de Calvino e seus sucessores “que exigia a intervenção do governo em questões de religião”. era: “Uma Igreja livre num Estado livre”. 2. no estado? O moto de Kuyper – que aparecia diariamente em seu jornal.conceito calvinista restaura a visão de Deus como fonte de todo o poder e soberania. do mesmo modo como faz a soberania do Estado”. do mesmo modo como ele exerce domínio na esfera do próprio Estado através de seus magistrados escolhidos”. Expressa. A esfera social. a arte e assim por diante. e nada tem a ordenar em seu campo”. Sem essa característica básica. 3. a sociedade estará prejudicada no restante do seu desenvolvimento. o estado tem o dever de intervir quando há conflito. A grande dificuldade. somos testemunhas das negligências nessa área. nas artes. mas sob Deus. nas quais deve haver o exercício da soberania. Deus governa nessas esferas suprema e soberanamente através de seus eleitos. associações. E é a espada da ordem para frustrar em seu próprio país toda rebelião violenta”. Kuyper apresenta. No entanto. ou para proteger mainorias de maiorias. uma autoridade que governa pela graça de Deus. Para Kuyper. Kuyper diz que “a principal característica do governo é o direito sobre a vida e a morte. e que o Estado não pode intrometer-se aqui. o calvinismo foi o responsável pela modernização do estado e colocou vigorosa oposição à sua onipotência. em nosso país. A Soberania na Sociedade Este é o conceito que apresenta a família. para Kuyper. Segundo o testemunho apostólico o magistrado traz a espada. Este é o principal objetivo do governo. A Soberania na Igreja A igreja é esfera soberana. que a soberania de Deus nessas esferas será evidenciada como um cumprimento do mandato que temos de “dominar a natureza”. É a espada da justiça para distribuir a punição corpórea ao criminoso. Ele enumera quatro esferas. a história comprova que o calvinismo sempre enfatizou a liberdade de consciência e o . nessa área. Como ela exercita essa soberania. no reconhecimento da individualidade das pessoas. Kuyper passa a discorrer sobre a autoridade orgânica nas ciências. A da autonomia pública. igualmente. os negócios. na realidade. 4. sempre relacionando essa com o poder de Deus: 1. nessas esferas. a ciência. etc. os direitos e os interesses do Estado contra seus inimigos. Assim. mas obedecem uma alta autoridade dentro de seu próprio seio. porque a insegurança gera falta de estabilidade me todas as esferas. A esfera doméstica da família. e esta espada tem um triplo significado. “mais mártires do que executores” e nunca procurou ser a “igreja do estado”. Com isso ele limita o poder do estado e fundamenta a questão das liberdades civis. Sempre há o conceito divino da autoridade superior. para reforçar obrigações financeiras que visam a manutenção natural do estado. mas deve reverenciar a lei inata da vida. para defesa dos fracos. então essas esferas que são independentes. É a espada da guerra para defender a honra. e que não derivam a lei de sua vida da superioridade do Estado. A esfera corporativa de universidades. O Poder de Repressão do Governo Voltando ao estado. como esferas sociais que “não devem sua existência ao Estado. “Em todas estas quatro esferas o governo do Estado não pode impor suas leis. Mas ele aponta que os calvinistas quebraram a visão monolítica da igreja e foram. inclusive como esferas autônomas.

Teologicamente. o qualifica para postular muitas conclusões nesta área. procurando uma acomodação mais “politicamente correta” aos modismos contemporâneos. como sendo o pensamento básico da teologia reformada sobre o estado. um livro sobre Princípios de Teologia Sagrada. em toda a sua amplitude. Entretanto.próprio Calvino foi contra a perseguição por causa da fé. Kuyper acreditava completamente na doutrina da depravação total dos homens. alguns disponíveis em inglês (somente Calvinismo está disponível em português). o mais horrível dos pecados”. até os chamados “calvinistas” começarão a absorver idéias contrárias à compreensão da fé reformada sobre o estado e suas limitações. apresentada nas Escrituras. mas como alguém que conseguiu colocar em pratica os seus princípios e conclusões na esfera cognitiva. portanto deveres específicos “1. em todas essas áreas tratadas em seu livro “Calvinismo”. como o próprio mundo evangélico passou a adotar um conceito das verdades divinas que difere da visão de um Deus Soberano. nessas aulas. na qual ele se destaca não somente como líder eclesiástico e pensador filosófico-teológico. Para com a Igreja. possibilitava até aos descrentes. respeitar a multiforme representação. O grande valor de Kuyper subsiste não somente em seus escritos. mas cheio de doutrina pertinente aos nossos dias. ou pelo excelente histórico dos países calvinistas. 2. que rege o universo e os destinos dos homens. mas a maioria somente em holandês. 4 Entre os vários livros escritos por Kuyper. Os Três Deveres das Autoridades nas Coisas Espirituais Respeitadas as autonomias nas esferas. de líder de um partido que chega ao posto de primeiro-ministro. os governantes possuem. e 3. dois livros sobre a doutrina da Graça Comum. Para com os indivíduos”. em 1649. 4 mas principalmente na abrangência de sua vida prática. na pecaminosidade da raça humana. devem encorajar a auto-determinação. proteger o indivíduo e deixar que cada pessoa venha a reger sua consciência. Sua vida política. um assassinato da alma. São ministros de Deus. A história mostrou que o véu de obscuridade do pecado suplanta a lógica mais elementar – não somente os descrentes se tornaram ultra-críticos do calvinismo. escrito numa era onde as controvérsias contemporâneas inexistiam. temos: um tratado extenso sobre O Espírito Santo. de – “Um homicídio espiritual. Conclusão Podemos notar a harmonia do pensamento de Kuyper com o que temos procurado expor. até por simples razões práticas e empíricas. a qual ele classificou. em sua misericórdia. para Kuyper. o envolvimento em governos que chegavam bem próximos dos objetivos originais – projetados por Deus. ou seja. Nesse sentido. uma violência contra o próprio Deus. Se não tomarmos cuidado. . Para com Deus. como se pudesse convencer os descrentes da superioridade do sistema calvinista de pensamento. um livro sobre O Problema da Pobreza e outro sobre Cristianismo e a Questão Social. ele foi um dos maiores expositores da doutrina de Graça Comum. vemos nele até um certo otimismo. Ele acreditava que Deus.

Por exemplo. Essa re-leitura da história contraria até as próprias evidências registradas no trabalho desse autor. Calvino e a Resistência ao Estado (São Paulo. que obteve seu doutorado na Universidade Metodista. acima de tudo. que nos preservará de distorções perigosas. possamos prezar.5 escrito por um pastor presbiteriano. mas é representativa da necessidade desta era de apresentar os reformadores como contestadores políticos. em nossos estudos. o Sola Scriptura e a honestidade histórica. que apresenta Calvino como uma paladino da resistência civil e do confronto contra o estado. Mackenzie) . em vez de pesquisadores e expositores das Escrituras. Solano Portela 5 Armando Araújo Silvestre. temos até um livro recente. 2003: Ed. Que.