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- Boletim Bibliográfico 10 - O Escritor do mês - janeiro de 2016 - Vergílio
- Boletim Bibliográfico 10 - O Escritor do mês - janeiro de 2016 - Vergílio Ferreira -
O Escritor do mês - janeiro de 2016 - Vergílio Ferreira - “ O que é
O Escritor do mês - janeiro de 2016 - Vergílio Ferreira - “ O que é
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O que é certo e imediato, o que me vem à boca e tem nome, o que é exacto e mensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio, porque a voz obscura que me fala transcende o passa- do e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação. Nesta hora absoluta, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo…” Vergílio Ferreira. (2010). Carta ao futuro. Lisboa: Quetzal.

Os limites da nossa condição… Como é espantosa a sua descoberta! Ela é paralela da morte daquilo que descobrimos: só depois da falência das nossas invenções nos descobrimos nós, os inventores. Ja- mais o homem terá atingido os seus limites, porque jamais terá deixado de ser tudo aquilo em que

existia. O fascinante milagre que é o sabermo-nos vivos, o conhecermos esta incrível iluminação de nós próprios, de nós ao universo, só agora nos perturba, só agora é alucinante, porque só agora é gratuita. Vivemos em nós; a dimensão de infinitude que nos habita, este poder incrível de sabermo-nos, de ser- mos uma pessoa, é em nós que se limita e torna espessamente absurdo o desafio que nos lança a con- tingência e a morte. A experiência de nós próprios, do inverosímil milagre do que somos, é extraordi- nariamente difícil, meu amigo, e de si mesma miraculosa. Habita-nos um poder brutal de uma evidên- cia fechada, de uma irredutível necessidade que nos vem deste sentirmo-nos um indivíduo, uma intei- reza sem traço de união, um absoluto de presença que recusa a contingência, a ligação com tudo o que nos rodeia, a dependência da fatalidade. E todavia, sabemos que a fatalidade existe. Como é possível?

“ (Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro).

O século XX deu-nos um edifício complexo, amargo e isolado dos valores referenciais de períodos anteriores. Nietzsche tinha proclamado, na viragem do século, “a morte de Deus” - e desse abando- no nasceu uma desorientação que se manifestou numa crise cultural e de valores, uma crise da pró- pria civilização. Neste quadro, encontramos um movimento filosófico que influenciará as ideias e as opções de artistas e criadores, o Existencialismo. Esta corrente do pensamento procura compreen- der os principais problemas que se colocam ao homem durante a sua existência. Tenta definir como objeto da sua análise uma filosofia do Homem, aquele ser individual que em cada dia se confronta com uma sociedade e um mundo que muitas vezes não compreende e que ele experiencia como sensações de vazio, de absurdo e de inutilidade. O Existencialismo conduz-nos, pois, à indagação do significado da existência humana. As figuras mais importantes desta corrente filosófica foram So- ren Kierkegaard, ainda dentro de uma abordagem de um existencialismo místico (separação do Homem da sociedade); Martin Heidegger, que destaca a dimensão solitária do homem (o homem como ser-no-mundo), e Jean Paul-Sartre que, em O Existencialismo é um Humanismo, definiu o es- sencial desta corrente filosófica. Nesta obra, o Homem define-se pela sua existência e não pela sua essência. Só depois de existir é que o Homem se pode definir. É o que o Homem realiza que lhe dá a sua natureza própria. O projeto de vida de cada pessoa é uma experiência subjetiva que se formali- za numa existência e que se manifesta em condições originais e espontâneas que superam a sim- ples vontade. O existencialismo influenciou muitos criadores, suscitou muitas questões e acabou por aproximar pelo processo de afinidade filósofos e escritores. Vergílio Ferreira construiu uma obra literária e filosófica na qual as temáticas do existencialismo estão presentes. A efemeridade do Homem, o seu corpo como forma substantiva de existência, a cintilação de luz a que fica reduzida a sua vida, a angústia do pensamento que se extingue no nada, no tempo de eternidade em que cada voz se perdeu, são temas recorrentes da sua obra. Mudança, de 1949, inicia a sua fase literária, em que se desvincula das ideias do neorrealismo e se abre mais a uma temática existencialista. Manhã Submersa (1953), Aparição (1959), Alegria Breve (1965), Para Sempre (1983), Até ao Fim (1987), Em Nome da Terra (1990) são as suas principais obras no campo da ficção. No domínio dos ensaios, podemos destacar Carta ao Futuro (1953), Da Fenomenologia a Sartre (1963), Invocação do Meu Corpo (1963), Arte Tempo (1988). Vergílio Ferreira deixou-nos igualmente um registo em forma de diário, a que deu o nome de Conta - Corrente (1980-1994). Vergílio Ferreira foi muito influenciado pelo Existencialismo, mas teve outras referências que mar- caram a sua obra. A cultura clássica foi marcante nas referências literárias de um tempo que procu- rava interrogar-se sobre a inteligibilidade do universo. André Malraux foi um dos autores que mar- cou a sua obra de um modo muito significativo. André Malraux escreveu um livro marcante para a

História cultural do século XX, A Condição Humana. Vergílio Ferreira dedicou-lhe um livro, Interroga- ção ao Destino, Malraux, (1963) e reviu-se nele como uma trajetória de vida, onde são substantivos

e vivos os sonhos, a ambição como forma de exprimir a dignidade humana. A interrogação sobre a

condição humana é um ponto comum entre Vergílio Ferreira e André Malraux. Vergílio Ferreira via essa interrogação não como um percurso de existência caracterizado por uma ideia de vida ‘aventureira’ ou ‘sonhadora’ de utopias irrealizáveis, mas procurava antes, interrogar o destino do homem. A inquietação de Vergílio Ferreira foi semelhante à de Malraux - procurar compreender o que se encontra na existência como sendo injusto e absurdo. Em Malraux, Vergílio Ferreira viu uma ação que procura determinar um caminho de maior justiça, de mais sentido. Assim, a vida como existência aparece-nos como uma redenção que procura encontrar um sentido que se adeque à pura irrealidade. A vida como existência conduz-se para uma forma prometida da vivência do ho- mem, essa dimensão do não-ser que apenas será uma certeza do tempo-uma aparição.

“Mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção—ou não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez. Eu o reconheço de novo, a esse dom, nesta hora de chuva em que escrevo. Na rua deserta, ouça-a cair, expulsar da cida- de os robôs da ilusão, a grandes brados de um vento sideral. Dirás tu, meu amigo, ou alguém ao pé de ti, que são eles precisamente quem me constrói o mundo onde a “aparição” é possível, este mun- do de conforto de um fogão que me aquece, de um telhado que me abriga. Também tenho a minha parte de robô e não a nego. Mas sei que há outra coisa à minha espera e que só depois dessa é que não há mais nenhuma. Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse à

sua entrevista—essa entrevista combinada desde toda a eternidade Vergílio Ferreira. (2010). Carta ao futuro. Lisboa: Quetzal, páginas 15 - 16.

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O Escritor do mês - janeiro de 2016 - Vergílio Ferreira - Ficha Técnica Redação: Equipa
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Ficha Técnica

Redação: Equipa da Biblioteca Biblioteca: Escola Secundária Rainha Dona Amélia Periodicidade: Mensal (janeiro) Distribuição/Publicitação:

(Afixação na Biblioteca / Plataformas digitais)

"A Primavera, o fresco. Ou talvez a deusa Flora para ser mais corpó- rea contigo. Mas é um corpo transcendente até à sublimidade. Tu tinhas mais peso do que isso, querida. Mas eu preciso agora tanto de seres divina. Transcendente irreal. Dissolúvel e vã – deixa-me ser infantil. Mesmo o amor só começa a existir assim, é dos livros. Me- tafísico disparatado. Abaixo disso tem já outro nome que vem na fisiologia. Preciso ardentemente de irradiar o teu corpo a tudo quanto baste para ser divino. Vou construir uma religião que não há. Vou ser sublime e atrasado mental. Um corpo. Minha querida Mónica, o corpo ainda não existe e é preciso empenharmo-nos to-

dos com ardor para que exista. Porque o que existe é só a porcaria de um bocado de carne que deve vender-se nos talhos dos antropófagos. Ou então existe só o que nele não existe

e se transaciona nas sacristias da província. Meu amor, deixa-me dizer-te. Agora que estás

morta – e como tudo foi longo. Agora que arrumaste as coisas. É uma deusa linda num instante do seu movimento leve, mas não se lhe vê a face. Porque a beleza não é dela mas da leveza do seu passar. Vê-se de costas, a face um pouco voltada só até à visibilidade do seu contorno doce. Colhe à passagem uma flor sem se deter, no ondeado da aragem que a

leva. E na outra mão segura contra o peito um açafate de mais flores. Mas tudo nela é aé- reo e dócil. A túnica cor de argila, ondeante até à mobilidade subtil dos seus pés nus, uma alça descaída no ombro direito. Um manto branco tombado dos braços para as costas num suporte negligente. O cabelo apanhado na nuca, a zona mais delicada para a ternura de um homem. E uma fita com auréola a segurá-lo. E o imponderável de todo o seu ser de passagem. Mas era o que sobretudo eu gostaria de te dizer desta deusa grave e aérea. Não bem o seu corpo esbelto como um voo de ave, mas só esse voo. Não bem a sua juven- tude eterna mas a eternidade. Não o gracioso dela mas a graça. Olho-a infinitamente para tu lá estares e ouço-te rir porque não estarias nunca. Fito-o e filtro-o para ficar comigo o seu impassível até à morte. O jeito breve dos pés que não pisam. Os dois dedos subtis que colhem a flor sem a colherem e são nela há dois mil anos a flor que não colheram. A anca doce em movimento, o etéreo da sua divindade. A moldagem do seu corpo vaporoso pelo zéfiro que a leva. O deslizar do manto e da túnica que não deslizam, para a nudez não ser de mais. E a espádua nua para se começar a sabê-la e ela ir existir numa avidez assustada.

E o cabaz de flores com que leva a alegria consigo. E o espaço verde e vazio para que nada

mais aconteça além de si. Olho-a ainda, olho-a sempre. Passa aérea e de costas. E assim a

sua beleza é invisível, no anúncio do que jamais poderemos ver. Assim a sua beleza é a mais bela porque está perto e longe, na realidade tangível e intocável de sempre. Na face oblíqua do que jamais saberemos a face. No olhar que inunda todo o corpo como é pró- prio de todo o olhar mas de que jamais saberemos os olhos donde vem a torrente. No seu corpo de deusa e no enleio do seu movimento que jamais saberemos ter nas mãos porque

a sua realidade é o passar. Nas flores que leva e colhe e jamais colherei nas minhas mãos grossas e mortais. Tenho de deixar de olhar esta deusa efémera no breve instante de ser deusa, tenho de ir ter contigo ao fundo do corredor talvez,…” Vergílio Ferreira. (1990). Em nome da terra. Lisboa: Bertrand, páginas 127 -128. Ima- gem: ©: Deusa Flora – Representação de um fresco de Pompeia.

da terra . Lisboa: Bertrand, páginas 127 - 128. Ima- gem: ©: Deusa Flora – Representação

« O mais forte em nós é esta voz mineral, de fósseis, de pedras, de esquecimento. Ela ger- mina no homem e faz-lhe pedras de tudo. Assim, quando procuro em mim a face original da minha presença no mundo, o que descubro não é o alarme da evidência, o prodígio angustioso da minha condição: o que descubro quase sempre é a indiferença bruta de uma coisa entre coisas. Eis-me aqui escrevendo pela noite fora, devastado de Inverno. Eis-me procurando a verda- de primitiva em mim, verdade não contaminada ainda da indiferença. (…) Nesta cadeia de biliões e biliões de acasos, eis que um homem surge à face da Terra, elo perdido entre a infinidade de elos, de encruzilhadas - e esse homem sou eu… E, todavia, agora que me descubro vivo, agora que me penso, me sinto, me projeto nesta noite de vento, de estrelas, agora que me sei desde uma distância infinita, me reconheço não limitado por nada mas presente a mim próprio como se fosse o próprio mundo que sou eu, agora nada entendo da minha contingência. (…) A minha vida é eterna porque é só a presença dela a si própria, é a sua evidente necessida- de, é ser eu, Eu, esta brutal iluminação de mim e do mundo, puro acto de me ver em mim, este ser que irradia desde o seu mais longínquo jacto de aparição, este Ser - Ser que me fascina e às vezes me angustia de terror… E todavia eu sei que “isto” nasceu para o silên- cio sem fim…. Vergílio Ferreira. (1990). Aparição. Lisboa: Bertrand, páginas 49- 50.