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O circo de

horrores
da Cargill Leonardo Wexell Severo
Agência de Notícias CUT

Ritmo intenso de trabalho nos sia de garantir os seus empregos,


frigoríficos agrícolas da os trabalhadores do setor come-
multinacional causa a çaram a adoecer para cumprir a
multiplicação de lesões por meta e o Brasil transformou-se no
esforço repetitivo. maior exportador mundial de fran-
Sindicalistas defendem go - mas também subiu alto no
aprovação da MP 316 para pódio das lesões por esforço re-
combater a subnotificação dos petitivo (LER).
acidentes de trabalho e “Filhas bastardas da re-
garantir direitos. lação promíscua entre a intensi-
dade desumana e a falta de ri-
De repente, a corrente gor na fiscalização nos locais de
que transportava os frangos até trabalho, as enfermidades vão
a linha de produção, a nórea, co- brotando como aleijões neste
meçou a girar mais rápido, di- gordo e lucrativo mercado, mul-
tando a intensidade do ritmo de tiplicando lesões, invalidez e mu-
trabalho no frigorífico avícola. tilações”, denuncia Siderlei de
Sem tacógrafo para disciplinar Oliveira, presidente da Confede-
sua velocidade, tornou-se incon- ração Nacional dos Trabalhado-
trolável. Como se a nórea tives- res nas Indústrias da Alimenta-
Arte sobre foto de Tarcísio Mattos/Tempo Editorial

se vida própria, implacável, trans- ção (Contac/CUT). Entre tan-


formando os funcionários em ser- tos abusos, ressalta, “a Cargill
vos da produtividade, obrigados a deveria entrar para o guiness da
acelerar o movimento dos cortes, bandidagem, por seu histórico de
cada vez mais complexos, para ilegalidades e agressões contra
atender aos crescentes pedidos os trabalhadores e à própria re-
dos exportadores. Assim, na ân- presentação sindical”.

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Fotos: Eduardo Guedes de Oliveira

O caso dos lesionados da Cargill


é debatido em audiência pública
na Assembléia Legislativa de SC

Truculência fugirem da sua alçada, seriam res-


pondidas oportunamente pela direção
carnes, “houve um aumento brutal da
carga de trabalho, um flagelo que se
Para quem acha que o termo de Recursos Humanos. Os dias se manifesta pelo crescente número de
soa forte, Siderlei lembra que já ocor- passaram sem resposta e voltamos à trabalhadores precocemente inutiliza-
reram dois encontros internacionais carga, solicitando um pronunciamento dos ou que passam longos meses em
de trabalhadores da Cargill – o últi- oficial. Negativo. "O RH definiu que tratamento médico”.
mo realizado em São Paulo, no mês em primeiro lugar vão resolver os O PL 300/2006 propõe a im-
de agosto – no qual as denúncias vêm problemas para, depois disso, se ma- plementação de uma rotina de inter-
crescendo, sendo fartamente compro- nifestar. Acredito que estão conver- valos a cada período trabalhado para
vadas por testemunhos em vídeos e sando com as entidades [CUT e a realização de alongamentos; a ins-
publicações. Um dos mais obscuros Contac]. A resposta que eu obtive é talação de delimitadores da velocida-
expedientes utilizados pela multinaci- essa", reiterou a assessora de im- de, em limites suportáveis, em todos
onal – prontamente rechaçado pela prensa três semanas após nosso pri- os mecanismos como esteiras e cor-
Justiça – ocorreu em Jaraguá do Sul- meiro contato. Até o fechamento reias que compõem as linhas de pro-
SC, onde, para conseguir manter o desta edição, a Cargill não havia res- dução e a colocação de mecanismos
abate de 120 mil frangos por dia, abu- pondido nem uma única denúncia físicos (tacógrafos) para a fiscaliza-
sou da truculência. apresentada por dirigentes da Con- ção da velocidade de funcionamento
“Colocou lonas pretas em vol- tac ao coordenador de RH, Haroldo imposta aos trabalhadores.
ta da empresa, um som potente para Vieira, durante reunião em Florianó- Conforme o engenheiro e pe-
impedir os informes do Sindicato du- polis no dia 28 de junho, quando foi rito em segurança do Trabalho, José
rante a greve, policiais dentro dos dado prazo de 10 dias para que os Duarte de Araújo, “é urgente a colo-
ônibus e seguranças para impedir o problemas fossem resolvidos. Um cação desses limitadores, pois o gran-
livre trânsito dos trabalhadores, numa novo encontro com os sindicalistas de número de funcionários incapaci-
prática terrorista”, lembra Sérgio Ec- ocorreu no dia 7 de julho, na sede da tados por doença profissional nas aví-
cel, presidente do Sindicato da cida- empresa em Itajaí. Novo silêncio. colas demonstra que a categoria é
de. Vários trabalhadores registraram vista como insumo descartável”. En-
Boletim de Ocorrência denunciando
terem sido vítimas de cárcere privado. Projeto de Lei tre outras medidas, frisa o perito, é
necessário que as plantas dos frigorí-
Com o apoio da União Inter- Além de audiências públicas ficos nas áreas frias, onde haja pos-
nacional dos Trabalhadores na Ali- no Senado e na Câmara Federal, a tos de trabalho, sejam dotadas de
mentação (UITA), o último evento, Contac realizou recentemente encon- áreas de equalização para atender o
que reuniu delegações da Argentina tro na Assembléia Legislativa de San- disposto no artigo 253 da CLT, objeti-
e do Uruguai, definiu ações para se- ta Catarina (Alesc), com a presença vando o conforto térmico e a preven-
rem encaminhadas “junto aos gover- da direção regional do INSS, do Mi- ção das doenças provocadas pelo frio.
nos, à direção da empresa, nos EUA, nistério Público do Trabalho, da DRT
Leonardo Wexell Severo

à Organização dos Países Industria- e parlamentares, em que a multina-


lizados (OPI) e aos países consumi- cional norte-americana foi a princi-
dores, que devem tomar ciência dos pal acusada pelo agravamento das
abusos e absurdos que são parte do condições de trabalho no setor. Nas Perito José
Duarte de
dia-a-dia da Cargill – e agir”. palavras do deputado Dionei Walter Araújo quer
Questionada pela primeira vez da Silva (PT), autor do Projeto de Lei limitadores
no final de setembro, a assessoria de de velocidade
que dispõe sobre normas de prote- na linha de
imprensa da empresa comunicou que ção à saúde do trabalhador em em- produção
"estranhava" as denúncias e que, por presas de abate e industrialização de

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Agência Brasil

Trabalhadores em audiência
pública no Congresso Nacional

Desnacionalização Globalização perversa balhadores. De acordo com a legis-


lação, a LER é acidente de trabalho,
Segundo a Contac, os estran- Para o secretário da UITA, o que teoricamente obriga as empre-
geiros entraram em campo imanta- Gerardo Iglesias, é preciso estreitar sas a emitirem o Comunicação por
dos pelo lucro fácil no setor, “des- a relação entre as entidades que têm Acidente de Trabalho (CAT). Mas o
nacionalizando a galinha dos ovos a Cargill na base, para potencializar fato, facilmente constatado, é que
de ouro”. Só para citar a evolução a ação sindical. “Complexo agroindus- para não pagar a mais o FGTS, a
do capital transnacional na indústria trial, alimentar e financeiro, com 142 multa pela grande incidência de lesões
de frango, lembra a entidade, em mil funcionários em 1.100 fábricas e ter de garantir a estabilidade do tra-
apenas um ano a norte-americana espalhadas por 61 países, as vendas balhador no emprego, se mascara a
Cargill pulou no ranking da 14ª para da Cargill já ultrapassam a casa dos emissão da CAT, potencializando o lu-
a 11ª colocação entre as maiores U$ 70 bilhões. Tamanha produção cro.
empresas em atuação no Brasil. socializada é apropriada por duas úni-
Com 353.269 toneladas, e 12,41%
de participação no mercado, a Sea-
cas famílias: a própria Cargill e a Mac
Millan, exemplificando o que é a glo- Absurdo
ra/Cargill é a terceira maior expor- balização capitalista”, denuncia. “Se em vez do auxílio-doença,
tadora de produtos de frango do país, Informações divulgadas pelo a empresa tiver de pagar pelo auxí-
seguida pela Doux Frangosul, com site da Seara – encampada pela Car- lio-acidente que causou, terá de de-
286.805 toneladas e 10,08% do gill – e que atua na área de carnes de positar o FGTS todo mês e ainda ga-
mercado. aves e suínos, apontam que a empre- rantir um ano de estabilidade após a
Uma olhada nos números ex- sa conta com 15.675 trabalhadores no volta do trabalhador. Além disso, pela
plica a atenção também dispensada setor, distribuídos em nove unidades: nossa Convenção Coletiva, terá de
pela Doux francesa e a norte-ameri- Mato Grosso do Sul (Sidrolândia e pagar todo tratamento médico, inclu-
cana Osi Group. As exportações do Dourados), São Paulo (Nuporanga), indo consultas, medicamentos e até
setor avícola cresceram vertiginosa- Paraná (Jacarezinho) e Santa Cata- cirurgia”, explicou Célio Elias, secre-
mente: saltaram de US$ 870 milhões rina (Itapiranga, Seara, Jaraguá do tário-geral do Sindicato dos Trabalha-
de dólares, em 2000, para mais de Sul e Forquilha). Ao todo, os funcio- dores na Alimentação de Criciúma e
US$ 3,5 bilhões em 2005, um recor- nários da Seara/Cargill abateram 277 Região.
de histórico que consolida a posição milhões, 320 mil e 934 aves no ano Presente à audiência pública na
de segundo lugar no ranking do agro- passado. “Sem novas contratações e Assembléia Legislativa de Santa Ca-
negócio, superado apenas pelo com- o crescimento no abate de mais de tarina, a dirigente regional do INSS,
plexo soja. 14 milhões de cabeças em relação a Eliane Luiz Schmidt, condenou o cir-
Conforme a Associação Bra- 2004, o que temos é uma sobrecarga co de horrores que é a subnotifica-
sileira dos Produtores e Exportado- de trabalho, com mais lesões e muti- ção dos acidentes de trabalho e des-
res de Frango (ABEF), no ano pas- lações pelo esforço repetitivo”, escla- tacou a importância da Medida Pro-
sado, os embarques somaram 2.845 rece a Contac. visória 316, publicada pelo presidente
milhões de toneladas, com crescimen- Embalados pela lógica banal de Lula no dia 11 de agosto, que estabe-
to de 15% em relação a 2004, en- um ritmo selvagem, com a produção lece o Nexo Técnico Epidemiológico
quanto a receita cambial aumentou aumentando sem qualquer correspon- (NTE) e o Fator Acidentário Previ-
35%. “Ao final de 2005 o Brasil che- dência com a geração de empregos, denciário (FAP) para a saúde e se-
gou a um total de 142 mercados com- os bônus tilintam nos cofres da em- gurança dos trabalhadores.
pradores e uma participação de 41% presa, enquanto os ônus, como pesa- “Com o NTE há uma inversão
no comércio internacional de frango”, do fardo, se acumulam sobre as cos- do ônus da prova no caso das doen-
comemora a entidade. tas, braços, mãos e colunas dos tra- ças ocupacionais. A partir de agora,

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As vítimas
caberá à empresa comprovar que no
caso de determinadas lesões não foi a
responsável. No setor da alimentação,
é grande o número de trabalhadores que
tem adoecido barbaramente”, acrescen-
tou. Conforme Eliane, casos como o das Valdirene João Gonçalves da Silva, funcioná-
doenças osteomusculares de membros ria da Seara Cargill em Forquilhinha-SC, foi recom-

Fotos: Leonardo Wexell Severo


superiores vão se enquadrar automati- pensada após 11 anos de serviços com a invalidez
camente como seguro acidente e não aos 35 anos de idade. Ela conta das inúmeras ve-
zes que trabalhou deixando os filhos doentes, sobre
mais como auxílio-doença.
como se esmerava para não deixar passar uma úni-
ca coxa ou peito. “Eram sete coxas desossadas
Alíquotas por minuto, 420 por hora e sabe-se lá quantas mil
por dia, dependendo dos pedidos de exportação”.
A dirigente do INSS frisou que Foram anos seguidos de presença constan-
também é muito importante o FAP, para Valdirene da te, sempre disposta a cumprir a meta e ir além. Até
que haja uma modificação nas alíquo- Silva: invalidez mesmo quando os colegas prepararam a greve, que
tas: “Assim as empresas que adoecem aos 35 anos
soava como palavrão em seus ouvidos, ela traba-
mais trabalhadores não ficarão apenas lhou para a empresa. Em meio às lágrimas, descul-
pagando alíquotas variáveis de 1% a 3%. pa-se, frisando que havia adquirido a consciência da
Temos de penalizar aqueles que mais luta em meio à adversidade, à tentativa da Cargill de
oneram a sociedade, pois este é um custo suborná-la com um cargo quando queria apenas vol-
não apenas econômico, mas social: os tar a ter condições de trabalho.
trabalhadores acabam ficando sem con- Nas palavras do médico, que expôs o trágico
dições de continuar no mercado”. diagnóstico de Valdirene munido do exame de ul-
Uma das explicações para os al- trassom, “o braço está podre”. Agora, a dor é cons-
tos índices de LER/DORT no setor de tante, aplacada apenas com morfina...
cortes de frango é a complexidade dos
movimentos das mãos que, associados
a um ritmo intenso, causa graves seqüe-
“Inferno”
las aos trabalhadores. Diante disso, mui- Ivani Alves de Meira, 41 anos, cinco de em-
tos países trocam a produção local por presa, foi sumariamente demitida da Cargill em Ja-
importações. Assim, no Brasil, os em- raguá do Sul-SC no dia anterior à cirurgia de retirada
barques de cortes de frango somaram do útero, após ter comunicado a empresa sobre a
complexidade da operação. Na mesma cidade, V.B.
1,7 milhão de toneladas no ano passado,
de 24 anos, três de empresa, foi posta na rua com
18,5% acima de 2004, enquanto a recei-
Aids: “Quando souberam da doença, começou o in-
ta foi 32% maior, alcançando US$ 2,236
ferno”.
bilhões. Em São Miguel do Oeste, o dirigente sindical
Manifesto conjunto em defesa da Neomar Capelesso foi demitido por justa causa por
MP 316, assinado pela CUT, CGTB, defender os direitos dos companheiros e reintegra-
CGT, Força e SDS, ressalta que “ao cri- do por decisão da Justiça. Sebastiana Alves de Je-
ar medidas que trarão melhorias signifi- sus, com 36 anos, um ano e dois meses de empre-
cativas no quadro caótico que se apre- sa, foi demitida por justa causa em Sidrolândia-MS,
Juliane Silveira
senta na grande maioria dos ambientes foi demitida ao ao trazer o exame de ultrassom comprovando a exis-
de trabalho”, o governo contribui para adoecer tência de nódulos nos seios.
pôr fim “à perda de direitos e à trajetória Na mesma cidade, Juliane dos Santos Silvei-
de humilhações que os trabalhadores so- ra, de 22 anos, quatro de empresa, foi dispensada
frem para obter o reconhecimento dos no ato quando mostrou a ressonância magnética
acidentes e principalmente doenças do apontando a necessidade de intervenção cirúrgica
trabalho”. Ao mesmo tempo, as inova- para fazer frente à lesão obtida na desossa do fran-
ções “permitirão identificar de modo mais go. Em Ilhéus-BA, a multinacional ingressou na Jus-
preciso o quanto cada empresa é res- tiça querendo cassar a estabilidade dos dirigentes
ponsável pelos altos índices de aciden- sindicais que reivindicavam Participação nos Lucros
tes e doenças do trabalho existentes no e/ou Resultados para a categoria. E a lista de abu-
Brasil, e cobrar delas uma alíquota mais sos se estende.
justa”.

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Um
cenário Velhos problemas não
resolvidos e novos

sombrio
desafios da
transformação
tecnológica são
obstáculos para a
construção de uma
política eficaz de
saúde e segurança
no trabalho
As reuniões de profissionais da
área de saúde e segurança no Brasil,
em geral, começam com as mesmas
reflexões: não temos uma cultura de
segurança, não temos políticas públi-
cas organizadas para o tema, não te-
mos dados confiáveis para baseá-las,
mas sabemos que o número de aci-
dentes de trabalho, de agravos à saú-
de relacionados ao trabalho, de tra-
gédias individuais e sociais causados
pelo e no trabalho são inaceitáveis.
Tudo isso é verdade e as ra-
zões deste panorama não são difíceis
de perceber. Em primeiro lugar a
passagem do modo de produção pre-
dominantemente agrícola e familiar
para o modelo industrial, baseado na
divisão e controle do trabalho, se deu
muito rapidamente. Hoje, esse modo
de produção é amplamente predomi-

Consuelo Generoso
Coelho de Lima
- Médica do trabalho e
auditora fiscal do trabalho.

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Subnotificação e
informalidade
Nesse contexto, torna-se difí-
cil delimitar o que são os principais
problemas de segurança e saúde do
trabalhador brasileiro. Quase sempre,
só são registrados os acidentes gra-
ves que levam a afastamento do tra-
balho por mais de 15 dias. No caso
das doenças profissionais e do traba-
lho a subnotificação é a regra, já que
na maioria das vezes, sequer são di-
agnosticadas. Os dados dão conta
apenas de uma parte dos trabalhado-
res, aqueles que se encontram no
mercado formal de trabalho, consti-
tuindo o universo de segurados do Ins-
tituto Nacional da Seguridade Social.

nante, inclusive no campo. As con- cam diminuição de sua performance “As organizações e
seqüências dessa mudança rápida, no trabalho. instituições do
em termos históricos, se refletem tan- Em segundo lugar, em países Estado envolvidas
no tema debatem-se
to nos ambientes de trabalho quanto de capitalismo periférico, como é o
entre um discurso e
nos próprios trabalhadores. nosso caso, a valorização do trabalho uma prática
Ambientes de trabalho escu- só é comparável ao desvalor atribuí- desvinculados e
ros, com máquinas e equipamentos do ao trabalhador, principalmente du- uma eterna disputa
perigosos, sem um mínimo de organi- rante os sucessivos períodos de cri- de competências”.
zação ou sistema de proteção mes- ses econômicas que aumentam o já
mo que visando a preservação do pró- enorme exército de reserva, consti-
prio maquinário, ainda são comuns e tuído por milhares de desempregados
não chocam ninguém. Por sua vez, e subempregados, dispostos a acei-
trabalhadores que não têm uma tra- tar quaisquer condições para manter Contudo, parte expressiva dos
dição de reivindicação e de auto-or- um trabalho remunerado regular. trabalhadores está no mundo do tra-
ganização para defesa de seus inte- Mais recentemente, o grau de degra- balho informal. À margem dos be-
resses coletivos e, por outro lado, com dação e violência nas periferias das nefícios previdenciários e, portanto,
ampla experiência de relações soci- cidades (não só as grandes) contribui sem análise de seu perfil de morbi-
ais e de trabalho extremamente au- de maneira significativa para a cons- mortalidade a partir do trabalho. Nes-
toritárias, acabam por criar estraté- trução de uma percepção de banali- se mundo, muitas vezes, trabalho in-
gias defensivas baseadas na negação dade da vida, cujo reflexo no mundo formal é também trabalho ilegal e vai
do risco, aumentando a resistência do trabalho é a consideração de que empregar uma mão-de-obra não acei-
em aceitar proteções individuais ou sistemas de proteção são caros e um ta na formalidade, como jovens e cri-
coletivas, ainda mais se essas impli- exagero de zelo. anças que acabam por ter o pior tipo

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de iniciação, consolidando uma visão proteção individual (EPI), elaboração
distorcida do trabalho, na qual ganhar e manutenção de programas obriga- “São raras as
a vida implica aceitar o risco de per- tórios pela legislação, como PCMSO exceções de
dê-la. - Programa de Controle Médico de construção de uma
Na minha opinião, portanto, o Saúde Ocupacional e PPRA - Pro- política de segurança
principal problema de segurança e grama de Prevenção aos Riscos Am- capaz de envolver o
saúde no trabalho (SST) no Brasil é trabalhador ao invés
bientais.
de simplesmente
a absoluta falta de consciência quan- Mas são raras as exceções de obrigá-lo a seguir
to ao que venha ser trabalho seguro construção de uma política de segu- regras sem reflexão”.
e saudável e o conseqüente descaso rança própria, pró-ativa e capaz de
com a questão. De qualquer ângulo envolver o trabalhador ao invés de
que se aborde o tema, seja do ponto simplesmente obrigá-lo a seguir regras
de vista do trabalhador, do emprega- sem muita reflexão sobre o assunto. Em
dor ou do próprio Estado, o investi- geral, trata-se de cumprir a lei.
mento em SST é considerado secun- Nas pequenas e médias em-
dário. presas o conflito é bem maior. Nes-
Com o fenômeno da globaliza- sas, segurança e saúde do trabalha- Já as organizações e institui-
ção econômica, instituindo concorrên- dor costuma se resumir à compra de ções do Estado envolvidas no tema
cia entre trabalhadores dos diversos equipamentos de proteção individual debatem-se entre um discurso e uma
cantos do mundo e enfraquecimento de péssima qualidade e, muitas vezes, prática desvinculados e uma eterna
do movimento sindical (que anda inadequados e realização de exames disputa de competências. No Minis-
meio perdido diante da ameaça de médicos malfeitos e descontextuali- tério do Trabalho e Emprego, respon-
transferência de empresas para regi- zados. Longe de aumentar o controle sável pela regulamentação e fiscali-
ões onde o trabalho é ainda mais ba- sobre a saúde dos empregados e dos zação dos ambientes e condições de
rato), as reivindicações referentes às riscos nos ambientes em que traba- trabalho, o principal problema ainda
questões de SST, se não desapare- lham, esses exames costumam servir é um conflito de identidade. Há mui-
ceram dos Acordos Coletivos, perma- apenas para efeitos burocráticos, to já superamos o entendimento de
necem como figuração. Negociam- atender às exigências da fiscalização, que nosso papel se resume à resolu-
se questões já resolvidas na legisla- comprovação de cumprimento legal ção de problemas pontuais em fisca-
ção ou pequenas variações em torno perante a justiça etc. lizações pontuais. Há muito é hege-
do mesmo tema, nada que possa im-
plicar tomadas de posição no sentido
da construção de políticas de segu-
rança, com a participação de traba-
lhadores.

Falta política
de segurança
Para os empregadores, é uma
questão de custo operacional. Em-
presas maiores, geralmente, incluem
em seus orçamentos gastos com pro-
teções de máquinas, equipamentos de

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mônica, entre os auditores fiscais do
trabalho especializados em saúde e
“Qual é o resultado da
segurança no trabalho, uma visão de terceirização?
que nosso papel pode ser muito mais Que repercussões trazem os
transformador se praticarmos a fis- novos produtos e processos
calização do trabalho de maneira pla- no ambiente trabalho? Essas
nejada, com objetivos definidos pre- e outras questões
viamente e com a participação dos di- permanecem sem resposta”.
versos atores sociais envolvidos.
Essa passagem do fiscal soli-
tário para um agente de transforma-
ção social que usa suas ferramentas
de trabalho, inclusive os recursos le-
gais da multa, da notificação, da me-
diação e outras típicas da função, em
ações envolvendo organizações de
trabalhadores e empregadores ou gru-
pos de empregadores e empregados negação de benefícios ao segurado in- engajamento de seus profissionais,
de um mesmo ramo ou atividade ou dividual, não analisando a relação en- mas ainda isolados do restante da rede,
ainda com o mesmo tipo de proble- tre o problema de saúde apresentado pouco equipados e sem grande ex-
ma; reflete-se na organização de gru- (seja doença ou acidente) e os ambi- pressão no mundo do trabalho.
pos e programas especiais de traba- entes de trabalho. Sem menosprezar É neste cenário sombrio que
lho e nas comissões tripartites para a necessidade do atendimento indivi- enfrentamos não só o quadro de aci-
introduzir mudanças na legislação, dual, é preciso ter em mente que a dentes de trabalho e doenças profis-
entre outras ações. No entanto, o de- particularização do problema pode sionais já conhecido como outro, ape-
senvolvimento dessas práticas é to- gerar e gera enganos tanto na con- nas suspeitado, advindo da rápida
lhido pelo modelo de controle e avali- cessão quanto na negação desses be- transformação de tecnologias de pro-
ação do trabalho do auditor fiscal, ain- nefícios e, principalmente, na carac- dução e organização do trabalho.
da baseado na produtividade indivi- terização da relação de causalidade Qual é o resultado do processo de ter-
dual e quantidade de fiscalizações re- entre os problemas apresentados pelo ceirização do trabalho na preserva-
alizadas. trabalhador/segurado e o trabalho. ção da saúde e vida do trabalhador?
E temos também o Sistema A agroindústria canavieira está le-
Diálogo insuficiente Único de Saúde (SUS), a quem cabe,
conforme a legislação, a atenção à
vando os colhedores de cana-de-
açúcar à morte por exaustão? E to-
Outro grave problema que apa- saúde do trabalhador desde a prote- dos esses novos produtos e proces-
rece como entrave à construção de ção e recuperação da saúde, com a sos químicos e físicos introduzidos
políticas públicas de saúde e seguran- realização integrada das ações assis- nos ambientes de trabalho, que re-
ça no trabalho é falta de diálogo e tenciais e das atividades preventivas. percussão têm trazido? Essas e ou-
mesmo o conflito de interesses entre Com tantas questões mais imediatas tras questões semelhantes perma-
as diversas instituições e níveis go- e prementes a resolver, o SUS ainda necem sem resposta. E se não te-
vernamentais ligados à questão. A fis- não tem organizado sua ação em SST. mos conseguido sequer responder
calização não tem nenhum mecanis- Alguns municípios até chegaram a de maneira coerente e integrada aos
mo formal de diálogo com a Previ- criar Centros de Referência em Saú- velhos problemas, dificilmente con-
dência Social que, por sua vez, foca de do Trabalhador que resistem bra- seguiremos compreender e atuar
sua ação na questão da concessão ou vamente graças, principalmente, ao sobre os novos.

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O elefante e a
Responsabilidade
Social Empresarial
“Desenvolvimento humano é o processo
de alargamento das escolhas dos
indivíduos, proporcionando a cada um a
oportunidade de tirar o melhor partido
das suas capacidades: viver uma vida
longa e saudável, adquirir conhecimentos
e aceder aos recursos necessários para
um nível de vida decente.”

V
Sergio Vieira de Melo

amos tomar a velha brincadei- Tiradas as vendas logo fica óbvio para no que diz respeito à atitude de algu-
ra “Descubra o que é” para ilustrar o os três participantes que aquilo só mas empresas quanto no envolvimen-
estado da arte do movimento de Res- poderia ser mesmo um elefante! to dos stakeholders (partes interes-
ponsabilidade Social Empresarial. A Assim é, mais ou menos, o sadas) que, mesmo de maneira tími-
brincadeira é vendar os olhos de al- que tem acontecido nos inúmeros se- da, começam a compreender a sua
guns participantes e desafiá-los a minários, conferências, debates e di- dinâmica. Parte destes avanços está
adivinhar, pelo tato, qual objeto estão vulgação sobre Responsabilidade So- por conta de entender – as empresas
tocando. O “objeto” não revelado é um cial Empresarial. Por se tratar de um e uma parcela da sociedade que se
elefante. Posiciona-se a pessoa jun- movimento das empresas de adesão interessa pelo assunto – que filantro-
to a uma pequena área do corpo do voluntária cujas políticas são definidas pia não é RSE em seu conceito mai-
enorme animal, o participante a toca unilateralmente de acordo com as pos- or, e que fazer publicidade de ações
e diz uma sorte de possibilidades; o sibilidades, interesses e nível de com- inócuas e mentirosas resulta em efei-
segundo, da mesma forma, é coloca- prometimento das empresas, encon- to contrário sobre sua imagem com
do pegando o rabo, e provavelmente tramos um sem número de aborda- muita rapidez.
dirá que é um burro ou outro animal gens e programas colocados dentro
de rabo semelhante; o terceiro terá
nas mãos parte da tromba e logo tam-
da “cesta” RSE. Desta forma, fica di-
fícil para o observador que não acom- Sustentabilidade e
bém dará as mais variadas sugestões. panha o tema discernir entre os avan-
ços, as oportunidades e os oportunis- Transparência
mos criados por este movimento. Sustentabilidade e Transparên-
Entretanto, como toda idéia e cia são dois elementos especialmen-
ação que amadurece ao longo de sua te importantes ao tratarmos de RSE.
prática e enfrenta suas contradições, Ambos também constituem o aspec-
a RSE no Brasil tem proporcionado to mais utópico e, por que não dizer,
evidentes exemplos de avanço tanto contraditório deste movimento empre-

Regina Queiroz
- Coordenadora da área de Responsabilidade Social do Observatório Social

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sarial que emerge justamente quando começam a apare- cas de RSE, como é o caso da ONU e da OCDE – Orga-
cer para a sociedade os rápidos resultados negativos do nização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
processo de globalização. A pergunta feita em meados Várias iniciativas internacionais e nacionais estão empe-
dos anos 90 era simples: onde vai dar tudo isso em ter- nhadas em organizar normas e diretrizes dando as condi-
mos econômicos, sociais e ambientais? O esgotamento ções para que as empresas iniciem o processo de forma
dos recursos naturais, a deterioração social e, portanto, o alcançar resultados para si próprias e suas partes inte-
caos, estavam e estão em processo acelerado. Obvia- ressadas, como por exemplo o GRI – Global Reporting
mente estamos sentados sobre uma bomba. Há estudio- Initiative, a SAI – Social Accountability International (AS
sos que dizem termos entre 30 e 70 anos para “consertar 8000), ISO 26000, Instituto Ethos, Balanço Social do Iba-
o estrago”, principalmente ambiental. Isso significa que o se, entre outros. Em todas essas orientações a base co-
mundo deve tomar uma atitude urgente pautada pela bus- mum inicial é o estabelecimento de relações com as par-
ca da sustentabilidade. Preservar a possibilidade econô- tes interessadas e, como conteúdo, o respeito e cumpri-
mica no sentido de viabilizar a produção e o consumo, mento dos artigos que compõem a Declaração dos Direi-
garantir a sustentação social baseada no trabalho e nas tos Humanos e as convenções da OIT – Organização In-
relações entre os povos e grupos sociais, assegurar que ternacional do Trabalho.
as gerações futuras tenham os recursos naturais disponi- O processo é um grande desafio. Muito tempo
bilizados são tarefas impostas para toda a sociedade neste levará, se acontecer, para que um razoável número de em-
século. E, portanto e principalmente, para as empresas presas empenhe o tão esperado adjetivo “socialmente res-
que realizam, em altíssima escala, o seu poder de deter- ponsável” e, muito mais importante do que isso, poder-
minar a economia, as relações sociais e o uso dos recur- mos constatar verdadeiras mudanças no curso das rela-
sos naturais. ções de produção e consu-
A Transparência é a mo, nas relações sociais e
primeira regra do comprome- trabalhistas e no uso dos
Arte: Frank Maia

timento. Impulsionadas pela recursos naturais. De nada


imperiosa necessidade de adiantará desenvolver certi-
ter atitudes conseqüentes e ficações, auditorias, selos,
embaladas pelo velho ditado prêmios se não houver o
“perder os anéis para não monitoramento dessas
perder os dedos”, as empre- ações, programas e políti-
sas, inicialmente as multina- cas de RSE por parte da so-
cionais, criaram o movimen- ciedade.
to de Responsabilidade So-
cial Empresarial. A proposta
é que as companhias se Os trabalhadores
comprometam em organizar Os trabalhado-
seus negócios levando em res de uma empresa e seus
consideração os impactos e sindicatos organizados são
sua responsabilidade sobre os aspectos econômicos, so- os elementos com maior possibilidade para desenvolver o
ciais e ambientais – também identificado como os triple monitoramento das políticas de RSE estabelecidas. Tudo
bottom lines: people, planet, profit. Para que este com- aquilo que foi transparentemente declarado pelas empre-
promisso ultrapasse a idéia de intenção ou total superfici- sas em suas publicações, relatórios, propaganda e ou-
alidade está instituído que a Transparência de sua políti- tros meios pode ser acompanhado por aqueles que vivem
ca é primeira atitude daqueles que aderem ao movimento o dia-a-dia. Se o resultado deste monitoramento será uma
e querem dar publicidade aos seus processos de Res- atitude de denúncia ou de cobrança para que uma ação
ponsabilidade Social Empresarial. Antes de esta Trans- seja efetiva e verdadeira, cabe aos trabalhadores e seus
parência ser para com a “sociedade em geral”, ela deve sindicatos discutirem.
ser direcionada para aqueles que têm imediato interesse Os sindicatos da CUT tomaram a frente neste de-
nos negócios e operações das empresas: seus trabalha- bate. No seu 9º Congresso, em junho deste ano, aprovaram
dores, as comunidades do entorno onde está operando, o uma resolução em que identificam a existência deste movi-
meio ambiente interno e externo, os governos, os consu- mento empresarial e, com bastante cautela, se colocam
midores e os fornecedores. como observadores das ações que estejam sendo criadas
pelas empresas. Para os sindicatos, esta observação mais

Monitoramento atenta está submetida, em primeiro lugar, a que as empre-


sas cumpram seus compromissos de respeito à liberdade
Diferentes organismos internacionais procuram sindical. Sem este ponto de partida não há como se imagi-
nortear e propor diretrizes para a implementação de políti- nar em um processo de responsabilidade social.

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Observatório Social avalia
saúde e segurança no trabalho
O Observatório Social se propõe a avaliar as condi-
ções de saúde e segurança nas empresas em que
aplica suas pesquisas. Para tanto, conta com um
termo de referência desenvolvido para interpretar e
contextualizar as normas internacionais à luz da
realidade brasileira, bem como complementá-las
com as normas e padrões nacionais de conduta
empresarial.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS),


saúde é “um estado de completo bem estar físico,
mental e social, e não somente a ausência de afec-
ções ou enfermidades”. Por isso, influências físicas,
químicas e biológicas das condições de trabalho
afetam a saúde do trabalhador tanto física quanto
mentalmente.

As ações em favor da saúde do trabalhador devem


ter a participação dos mesmos para contribuir na
compreensão do impacto do trabalho sobre o pro-
cesso saúde-doença e intervir efetivamente para
transformar a realidade.

Os marcos regulatórios dessa ação social são, en-


tre outros, a ratificação da Convenção 148 da OIT
sobre contaminação, ruído e vibração; a alteração
na NR-1, que determina ao empregador que infor-
me aos trabalhadores sobre a existência de riscos
no local de trabalho, de medidas de proteção, do
resultado dos exames médicos e do direito de par-
ticipar das decisões relativas a sua saúde; a Cons-
tituição da República de 1988, que atribui ao Siste-
ma Único de Saúde (SUS) a execução de ações de
vigilância sanitária e epidemiológica; a criação da
Rede Nacional de Atenção à Saúde do Trabalhador
(Renast) integrada ao SUS etc.

O Observatório Social ainda considera os efeitos


da abertura econômica do mercado brasileiro ao
mercado internacional. Por isso, busca constatar
se uma empresa é signatária do Pacto Global e se
ela aplica tais compromissos no Brasil.

Leia a íntegra dos termos de referência em


http://www.os.org.br/download/TRSconsolidados_maio2004port.pdf

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O uso indiscriminado de agrotóxicos é um dos principais
problemas de saúde do trabalhador brasileiro. Proteja-se!


Rosane Lima

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