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Conflitos na História do Brasil

- Império -
Segundo Reinado

Guerra da Tríplice Aliança ou Guerra do Paraguai: 1864-1870


A Guerra do Paraguai foi o maior e mais sangrento conflito armado internacional ocorrido no
continente americano. Estendeu-se de dezembro de 1864 a março de 1870. É também chamada
Guerra da Tríplice Aliança. Brasil, Argentina e Uruguai, aliados, derrotaram o Paraguai após cinco
anos de lutas durante os quais o Brasil enviou mais de 160 mil homens à guerra. Algo em torno 50
mil não voltaram. Alguns autores asseveram que as mortes no caso do Brasil podem ter alcançado
60 mil se forem incluídos civis, principalmente na então Província do Rio Grande do Sul e na de
Mato Grosso. As perdas humanas sofridas pelo Paraguai são calculadas em 300 mil pessoas, entre
civis e militares, mortos em decorrência dos combates, das epidemias que se alastraram durante a
guerra e da fome. Os outros dois envolvidos no conflito, Argentina e Uruguai, sofreram perdas
proporcionalmente pesadas — mais de 50% de suas tropas faleceram durante a guerra — apesar de,
em números absolutos, serem menos significativas. O Paraguai, antes da guerra, atravessava uma
fase marcada por grandes investimentos econômicos em áreas específicas. A derrota marcou uma
reviravolta decisiva na história do país, desde então um dos menos desenvolvidos da América do
Sul.

Antecedentes da Guerra - O Paraguai Antes da Guerra

Durante anos a historiografia considerou que nos governos de José Gaspar Rodríguez de Francia
(1813–1840) e de Carlos Antonio López (1841–1862), o Paraguai teve um desenvolvimento
bastante original em relação ao dos outros países sul-americanos. Essa tese afirmava que a política
de Francia e de Carlos López foi sempre a de incentivar um desenvolvimento econômico auto-
suficiente, graças ao isolamento imposto pelos países vizinhos. Nos últimos anos tal visão tem sido
abandonada em virtude de investigações profundas de autores como Francisco Doratioto e Ricardo
Salles.

O regime de Francisco Solano López caracterizava-se por um centralismo total sem qualquer
espaço para o surgimento de uma verdadeira sociedade civil. Não havia distinção entre o público e
o privado e a família López governava o país como se de uma grande propriedade se tratasse.

O governo controlava todo o comércio exterior. O mate, o fumo e as madeiras raras exportados
mantinham a balança comercial com saldo. O Paraguai nunca fizera empréstimo no exterior e
adotava uma política protecionista, isto é, de evitar a entrada de produtos estrangeiros, por meio de
impostos elevados. Francisco Solano López, filho de Carlos Antonio López, substituiu o pai no
governo em 1862, e deu prosseguimento à política de seus antecessores.

Mais de 200 técnicos estrangeiros, contratados pelo governo, trabalhavam na instalação do telégrafo
e de estradas de ferro e na assistência à s indústrias siderúrgicas, têxteis, de papel, tinta, construção
naval e pólvora. A fundição de Ibicuí, instalada em 1850, fabricava canhões, morteiros e balas de
todos os calibres. Nos estaleiros de Assunção, construíam-se navios de guerra.

O crescimento econômico exigia contatos com o mercado internacional, mas o Paraguai não tem
litoral. Seus portos eram fluviais (de rios) e seus navios tinham que descer o rio Paraguai e depois o
Paraná para chegar ao estuário do rio da Prata e, daí, ao oceano. O governo de Solano López
elaborou um projeto para obter um porto no Atlântico. Pretendia criar o chamado Paraguai Maior,
com a inclusão de uma faixa do território brasileiro que ligasse o Paraguai ao litoral.

Para sustentar suas intenções expansionistas, López começou a preparar-se militarmente. Incentivou
a indústria de guerra, mobilizou grande quantidade de homens para o exército (o serviço militar
obrigatório já existia no Paraguai), submetendo-os a treinamento militar intensivo, e construiu
fortalezas na entrada do rio Paraguai. No plano diplomático, procurou aliar-se, no Uruguai, ao
partido dos blancos, que se encontrava no poder, adversário dos colorados, que eram aliados do
Brasil e da Argentina.

A Política Platina

Desde que o Brasil e a Argentina se tornaram independentes, a luta entre os governos de Buenos
Aires e do Rio de Janeiro pela hegemonia na bacia do Prata marcou profundamente as relações
políticas e diplomáticas entre os países da região. O Brasil chegou a entrar em guerra com a
Argentina duas vezes.

O governo de Buenos Aires pretendia reconstituir o território do antigo Vice-reinado do Rio da


Prata, anexando o Paraguai e o Uruguai. Realizou diversas tentativas nesse sentido durante a
primeira metade do século XIX, sem obter êxito, muitas vezes por causa da intervenção brasileira.
Temendo o excessivo fortalecimento argentino, o Brasil favorecia o equilíbrio de poderes na região,
ajudando o Paraguai e o Uruguai a conservarem sua soberania.

O Brasil, sob o domínio da família real portuguesa, foi o primeiro país a reconhecer a
independência do Paraguai, em 1811. Na época em que a Argentina era governada por Juan Manuel
Rosas (1829–1852), inimigo comum do Brasil e do Paraguai, o Brasil contribuiu para o
melhoramento das fortificações e do exército paraguaios, enviando oficiais e técnicos a Assunção.
Como não havia estradas ligando a província de Mato Grosso ao Rio de Janeiro, os navios
brasileiros precisavam atravessar todo o território paraguaio, subindo o rio Paraguai, para chegar a
Cuiabá. Muitas vezes, porém, era difícil obter do governo de Assunção permissão para lá navegar.

No Uruguai, o Brasil realizou três intervenções político-militares. A primeira, em 1851, contra


Manuel Oribe, para combater a influência argentina. A segunda, em 1855, a pedido do governo
uruguaio, presidido por Venâncio Flores, líder dos colorados, tradicionalmente apoiados pelo
Império brasileiro. A terceira intervenção, contra Atanásio Aguirre em 1864, seria o estopim da
guerra do Paraguai. Essas intervenções atendiam aos interesses ingleses de fragmentação da região
do Prata. Impedindo, assim, qualquer tentativa de monopólio mineral.

A Intervenção Contra Aguirre

Em abril de 1864, o Brasil enviou ao Uruguai uma missão chefiada pelo conselheiro José Antônio
Saraiva para exigir o pagamento dos prejuízos causados a fazendeiros gaúchos por fazendeiros
uruguaios, em conflitos de fronteira. O presidente uruguaio, Atanásio Aguirre, do partido dos
blancos, recusou-se a atender as exigências brasileiras.

Solano López ofereceu-se como mediador, mas não foi aceito. Rompeu então relações diplomáticas
com o Brasil, em agosto de 1864, e divulgou um protesto afirmando que a ocupação do Uruguai por
tropas do Império brasileiro seria um atentado ao equilíbrio dos Estados do Prata.

Em outubro do mesmo ano, as tropas brasileiras invadiram o Uruguai. Os partidários do colorado


Venancio Flores, que contava também com o apoio da Argentina, uniram-se à s tropas brasileiras
para depor Aguirre.

A região platina era de grande interesse do Império Brasileiro, e era importante aos Estados
Nacionais que se consolidavam no entorno platino, confirmar a livre navegação fluvial. A Região
do Mato grosso era de difícil acesso pelo interior do Brasil, em razão do pantanal em épocas
alagadiças. Para se chegar à província do Mato Grosso, era preciso descer o litoral brasileiro, entrar
na bacia platina e subir o Rio Paraguai, e Paraná para então chegar ao território brasileiro
novamente.
A Guerra - Declaração de Guerra

Em represália à intervenção no Uruguai, no dia 11 de Novembro de 1864, Solano López ordenou


que fosse apreendido o navio brasileiro Marquês de Olinda. No dia seguinte, o vapor paraguaio
Tacuari apresou o navio brasileiro, que subia o rio Paraguai rumo à então Província de Mato
Grosso, levando a bordo o coronel Frederico Carneiro de Campos, recém-nomeado presidente
daquela província, que foi feito prisioneiro. Sem perda de tempo, as relações com o Brasil foram
rompidas e já no mês de dezembro o Mato Grosso foi invadido. Em março de 1865 as tropas de
Solano López penetraram em Corrientes (Argentina), visando o Rio Grande do Sul e o Uruguai,
onde esperavam encontrar apoio dos blancos. No dia 13 de Dezembro, o Paraguai declarou guerra
ao Brasil. Três meses mais tarde, em 18 de Março de 1865, declarou guerra à Argentina. O Uruguai,
já então governado por Venâncio Flores, solidarizou-se com o Brasil e a Argentina.

O Tratado da Tríplice Aliança

No dia 1°. de maio de 1865, o Brasil, a Argentina e o Uruguai assinaram, em Buenos Aires, o
Tratado da Tríplice Aliança, contra o Paraguai.

As forças militares da Tríplice Aliança eram, no início da guerra, francamente inferiores à s do


Paraguai, que contava com mais de 60 mil homens bem treinados e uma esquadra de 23 vapores e
cinco navios apropriados à navegação fluvial. Sua artilharia possuía cerca de 400 canhões.

As tropas reunidas do Brasil, da Argentina e do Uruguai, prontas a entrar em ação, não chegavam a
1/3 das paraguaias. A Argentina dispunha de aproximadamente 8 mil soldados e de uma esquadra
de quatro vapores e uma goleta. O Uruguai entrou na guerra com menos de três mil homens e
nenhuma unidade naval. Dos 18 mil soldados com que o Brasil podia contar, apenas 8 mil já se
encontravam nas guarnições do sul. A vantagem dos brasileiros estava em sua marinha de guerra:
42 navios com 239 bocas de fogo e cerca de quatro mil homens bem treinados na tripulação. E
grande parte da esquadra já se encontrava na bacia do Prata, onde havia atuado, sob o comando do
Marquês de Tamandaré, na intervenção contra Aguirre.

Na verdade, o Brasil achava-se despreparado para entrar em uma guerra. Apesar de sua imensidão
territorial e densidade populacional, o Brasil tinha um exército mal-organizado e muito pequeno. E,
na verdade, tal situação era reflexo da organização escravista da sociedade, que, marginalizando a
população livre não proprietária, dificultava a formação de um exército com senso de
responsabilidade, disciplina e patriotismo. Além disso, o serviço militar era visto como um castigo
sempre a ser evitado e o recrutamento era arbitrário e violento. As tropas utilizadas até então nas
intervenções feitas no Prata eram constituídas basicamente pelos contingentes armados de chefes
políticos gaúchos e por alguns efetivos da Guarda Nacional. Um reforço era, portanto, necessário. A
infantaria brasileira que lutou na Guerra do Paraguai não era formada de soldados profissionais,
mas pelos chamados Voluntários da Pátria, cidadãos que se apresentavam para lutar. Muitos eram
escravos enviados por fazendeiros e negros alforriados. A cavalaria era formada pela Guarda
Nacional do Rio Grande do Sul.

Segundo o Tratado da Tríplice Aliança, o comando supremo das tropas aliadas caberia a
Bartolomeu Mitre, presidente da Argentina. E foi assim na primeira fase da guerra.

A Ofensiva Paraguaia

Durante a primeira fase da guerra (1864-1866) a iniciativa esteve com os paraguaios. Os exércitos
de López definiram as três frentes de batalha iniciais invadindo Mato Grosso, em dezembro de
1864, e, nos primeiros meses de 1865, o Rio Grande do Sul e a província argentina de Corrientes.
Atacando, quase ao mesmo tempo, no norte (Mato Grosso) e no sul (Rio Grande e Corrientes), os
paraguaios estabeleceram dois teatros de operações.

A invasão de Mato Grosso foi feita ao mesmo tempo por dois corpos de tropas paraguaias. A
província achava-se quase desguarnecida militarmente, e a superioridade numérica dos invasores
permitiu-lhes realizar uma campanha rápida e bem-sucedida.

Um destacamento de cinco mil homens, transportados em dez navios e comandados pelo coronel
Vicente Barros, subiu o rio Paraguai e atacou o forte de Nova Coimbra. A guarnição de 155 homens
resistiu durante três dias, sob o comando do tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Porto
Carrero, depois barão do Forte de Coimbra. Quando as munições se esgotaram, os defensores
abandonaram a fortaleza e se retiraram, rio acima, a bordo da canhoneira Anhambaí, em direção a
Corumbá. Depois de ocupar o forte já vazio, os paraguaios avançaram rumo ao norte, tomando, em
janeiro de 1865, as cidades de Albuquerque e de Corumbá.

A segunda coluna paraguaia, comandada pelo coronel Francisco Isidoro Resquin e integrada por
quatro mil homens, penetrou, por terra, em uma região mais ao sul de Mato Grosso, e logo enviou
um destacamento para atacar a colônia militar fronteiriça de Dourados. O cerco, dirigido pelo major
Martín Urbieta; encontrou brava resistência por parte do tenente Antônio João Ribeiro, atual
patrono do Quadro Auxiliar de Oficiais, e de seus 16 companheiros, que morreram sem se render
(29 de dezembro de 1864). Os invasores prosseguiram até Nioaque e Miranda, derrotando as tropas
do coronel José Dias da Silva. Enviaram em seguida um destacamento até Coxim, tomada em abril
de 1865.

As forças paraguaias, apesar das vitórias obtidas, não continuaram sua marcha até Cuiabá, a capital
da província, onde o ataque inclusive era esperado (Augusto Leverger havia fortificado o
acampamento de Melgaço para proteger Cuiabá). O principal objetivo da invasão de Mato Grosso
foi distrair a atenção do governo brasileiro para o norte do Paraguai, quando a decisão da guerra se
daria no sul (região mais próxima do estuário do Prata). Era o que se chama de uma manobra
diversionista, destinada a iludir o inimigo.

A invasão de Corrientes e do Rio Grande do Sul foi a segunda etapa da ofensiva paraguaia. Para
levar apoio aos blancos, no Uruguai, as forças paraguaias tinham que atravessar território argentino.
Em março de 1865, López pediu ao governo argentino autorização para que o exército comandado
pelo general Venceslau Robles, com cerca de 25 mil homens, atravessasse a província de
Corrientes. O presidente Bartolomeu Mitre, aliado do Brasil na intervenção contra o Uruguai,
negou-lhe a permissão.

No dia 18 de março de 1865, o Paraguai declarava guerra à Argentina. Uma esquadra paraguaia,
descendo o rio Paraná, aprisionou navios argentinos no porto de Corrientes. Em seguida, as tropas
do general Robles tomaram a cidade.

Ao invadir Corrientes, López pensava obter o apoio do poderoso caudilho argentino Justo José
Urquiza, governador das províncias de Corrientes e Entre Ríos, chefe federalista hostil a Mitre e ao
governo de Buenos Aires. No entanto, a atitude ambígua assumida por Urquiza manteve
estacionadas as tropas paraguaias, que avançaram ainda cerca de 200 km em direção ao sul, mas
terminaram por perder a ofensiva.

Em ação conjugada com as forças de Robles, uma tropa de dez mil homens sob as ordens do
tenente-coronel Antônio de la Cruz Estigarriba cruzava a fronteira argentina ao sul de Encarnación,
em maio de 1865, dirigindo-se para o Rio Grande do Sul. Atravessou-o no rio Uruguai na altura da
vila de São Borja e a tomou em 12 de junho. Uruguaiana, mais ao sul, foi tomada em 5 de agosto
sem apresentar qualquer resistência significativa ao avanço paraguaio.
A Primeira Reação Brasileira

A primeira reação brasileira foi enviar uma expedição para combater os invasores em Mato Grosso.
A coluna de 2.780 homens comandados pelo coronel Manuel Pedro Drago saiu de Uberaba, em
Minas Gerais, em abril de 1865, e só chegou a Coxim em dezembro do mesmo ano, após uma
difícil marcha de mais de dois mil quilômetros através de quatro províncias do Império. Mas
encontrou Coxim já abandonada pelo inimigo. O mesmo aconteceu em Miranda, onde chegou em
setembro de 1866. Em janeiro de 1867, o coronel Carlos de Morais Camisão assumiu o comando da
coluna, reduzida a 1.680 homens, e decidiu invadir o território paraguaio, onde penetrou até
Laguna, em abril. Esta expedição ficou famosa pela retirada forçada que empreendeu, perseguida
pela cavalaria paraguaia.

Apesar dos esforços da coluna do coronel Camisão e da resistência organizada pelo presidente da
província, que conseguiu libertar Corumbá em junho de 1867, a região invadida permaneceu sob o
controle dos paraguaios. Só em abril de 1868 é que os invasores se retiraram, transferindo as tropas
para o principal teatro de operações, no sul do Paraguai.

A Batalha do Riachuelo

Foi no setor naval que o Brasil, mais bem preparado, infligiu, logo no primeiro ano de guerra, uma
pesada derrota aos paraguaios na batalha do Riachuelo.

Na bacia do rio da Prata as comunicações eram feitas pelos rios; quase não havia estradas. Quem
controlasse os rios ganharia a guerra. Todas as fortalezas paraguaias tinham sido construídas nas
margens do baixo curso (parte do rio perto de sua foz) do rio Paraguai.

Em 11 de junho de 1865, travou-se a Batalha Naval do Riachuelo, na qual a esquadra comandada


pelo chefe-de-divisão Francisco Manuel Barroso da Silva derrotou a esquadra paraguaia cortando as
comunicações com o general paraguaio Estigarribia, que estava atacando o Rio Grande do Sul,
obrigando-o a render-se em Urugaiana sob a presença de Pedro II, Mitre e Flores. Nesta batalha foi
destruído o poderio naval paraguaio, tornando-se impossível a permanência dos paraguaios em
território argentino. Ela praticamente decidiu a guerra em favor da Tríplice Aliança, que passou a
controlar, a partir de então, os rios da bacia platina até a entrada do Paraguai.

O Recuo das Tropas Paraguaias

Enquanto López ordenava o recuo das forças que ocuparam Corrientes, o corpo de tropa paraguaio
que invadira São Borja avançava, tomando Itaqui e Uruguaiana. Uma divisão que dele se separara e
marchava em direção ao Uruguai, sob o comando do major Pedro Duarte (3.200 homens), foi
derrotada por Flores na Batalha de Jataí, na margem direita do rio Uruguai.

Nessa altura, as tropas aliadas estavam-se reunindo sob o comando de Mitre no acampamento de
Concórdia, na província argentina de Entre Ríos, com o marechal-de-campo Manuel Luís Osório à
frente das tropas brasileiras. Parte destas deslocou-se para Uruguaiana, onde foi reforçar o cerco a
esta cidade pelo exército brasileiro no Rio Grande do Sul, comandado pelo tenente-general Manoel
Marques de Souza, barão de Porto Alegre. Os paraguaios renderam-se no dia 18 de Setembro de
1865.

Nos meses seguintes foram reconquistados os últimos redutos paraguaios em território argentino: as
cidades de Corrientes e de São Cosme. No final do ano de 1865, a ofensiva era da Tríplice Aliança.
Seus exércitos já contavam mais de 50 mil homens e se preparavam para invadir o Paraguai.
A Invasão do Paraguai

A invasão do Paraguai foi feita seguindo o curso do rio Paraguai, a partir do Passo da Pátria, onde
Osório desembarcou à frente de um destacamento brasileiro. De abril de 1866 a julho de 1868, as
operações militares concentraram-se na confluência dos rios Paraguai e Paraná, onde estavam os
principais pontos fortificados dos paraguaios. Durante mais de dois anos o avanço dos invasores foi
bloqueado naquela região, apesar das primeiras vitórias da Tríplice Aliança.

A primeira fortificação a ser tomada foi a de Itapiru. Após os combates do Passo da Pátria e do
Estero Bellaco (2 de Maio), as forças aliadas acamparam nos pântanos de Tuiuti, onde foram
atacadas. A primeira batalha de Tuiuti, a maior batalha campal da história da América do Sul e um
dos mais importantes e sangrentos combates da Guerra do Paraguai, foi vencida pelos aliados em 24
de Maio de 1866 e deixou um saldo de 10.000 mortos.

Por motivos de saúde, em julho de 1866 Osório passou o comando do 1.° corpo de exército
brasileiro ao general Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão. Na mesma época, chegava ao teatro
de operações o 2.° corpo de exército, trazido do Rio Grande do Sul pelo barão de Porto Alegre (dez
mil homens).

Para abrir caminho até Humaitá, a maior fortaleza paraguaia, na confluência dos rios Paraná e
Paraguai, Mitre determinou o ataque à s baterias de Curuzu e Curupaiti. Curuzu foi tomada de
surpresa pelo barão de Porto Alegre, mas Curupaiti resistiu ao ataque de 20 mil argentinos e
brasileiros, guiados por Mitre e Porto Alegre, com apoio da esquadra do almirante Tamandaré. Em
22 de setembro, os paraguaios sairam vencedores. Este ataque fracassado (cinco mil baixas em
poucas horas) criou uma crise de comando e deteve o avanço dos aliados.

Nessa fase da guerra, destacaram-se muitos militares brasileiros. Entre eles, os heróis de Tuiuti: o
general José Luís Mena Barreto, o brigadeiro Antônio de Sampaio, patrono da arma de infantaria do
Exército brasileiro, o tenente-coronel Emílio Luís Mallet, patrono da artilharia e o próprio Osório,
patrono da cavalaria, além do tenente-coronel João Carlos de Vilagrã Cabrita, patrono da arma de
engenharia, morto em Itapiru.

O Comando de Caxias

No segundo período da guerra (1866-1869), os desentendimentos entre Osório (comandante das


forças brasileiras) e o presidente argentino, que se opunha à s perseguições aos paraguaios, levou o
governo brasileiro a substituí-lo. Designado em 10 de outubro de 1866 para o comando das forças
brasileiras, o marechal Luís Alves de Lima e Silva, marquês e, posteriormente, Duque de Caxias,
chegou ao Paraguai em novembro, encontrando o exército praticamente paralisado. Os contingentes
argentinos e uruguaios vinham sendo retirados aos poucos do exército dos aliados, assolado por
epidemias. Desentendimentos entre Venâncio Flores (Uruguai) e Mitre (Argentina) e problemas
internos fizeram ambos se retirarem do combate e voltarem a seus países, deixando o Brasil
praticamente sozinho. Tamandaré foi substituído no comando da esquadra pelo almirante Joaquim
José Inácio, futuro visconde de Inhaúma. Paralelamente, Osório organizava um 3.° corpo de
exército no Rio Grande do Sul (cinco mil homens). Na ausência de Mitre, Caxias assumiu o
comando geral e providenciou a reestruturação do exército.

Entre novembro de 1866 e julho de 1867, Caxias organizou um corpo de saúde (para dar assistência
aos inúmeros feridos e combater a epidemia de cólera-morbo) e um sistema de abastecimento das
tropas. Nesse período, as operações militares limitaram-se a escaramuças com os paraguaios e a
bombardeios da esquadra contra Curupaiti. López aproveitava a desorganização do inimigo para
reforçar suas fortificações em Humaitá.
A marcha de flanco pela ala esquerda das fortificações paraguaias constituía a base tática de Caxias:
ultrapassar o reduto fortificado paraguaio, cortar as ligações entre Assunção e Humaitá e submeter
esta última a um cerco. Com este fim, Caxias iniciou a marcha em direção a Tuiu-Cuê. Mas Mitre,
que voltara ao comando em agosto de 1867, insistia no ataque pela ala direita, que já se mostrara
desastroso em Curupaiti. Por sua ordem, a esquadra brasileira forçou, sem maiores perdas, a
passagem de Curupaiti, mas foi obrigada a deter-se diante de Humaitá. Surgiram novas divergências
no alto comando: Mitre desejava que a esquadra prosseguisse, enquanto os brasileiros eram
favoráveis a um anterior envolvimento e cerco por terra de Humaitá. As vitórias de São Solano,
Pilar e Tayi iriam tornar possível este cerco, isolando Humaitá de Assunção. Como reação, López
atacou a retaguarda dos aliados em Tuiuti. Nessa segunda batalha de Tuiuti, López esteve próximo
da vitória, mas, graças ao reforço trazido pelo general Porto Alegre, venceram os brasileiros.

Com o afastamento definitivo de Mitre, em janeiro de 1868, Caxias reassumiu o comando supremo
e determinou a passagem de Curupaiti e Humaitá, realizadas com êxito pela esquadra comandada
pelo capitão-de-mar-e-guerra Delfim Carlos de Carvalho, depois barão da Passagem. Humaitá caiu
em 25 de julho, após demorado cerco.

Solano López deixara Humaitá, com parte de suas tropas, em março, indo se instalar em San
Fernando. Ali descobriu que alguns funcionários de seu governo e seu irmão Benigno tramavam
derrubá-lo. Formado um conselho de guerra para julgar os implicados, centenas foram executados,
no que ficou conhecido como o massacre de San Fernando.

Rumo a Assunção, o exército de Caxias marchou 200 km até Palmas, detendo-se diante do arroio
Piquissiri. Ali, López havia concentrado 18 mil paraguaios em uma linha fortificada que explorava
habilmente os acidentes do terreno e se apoiava nos fortes de Angostura e Itá-Ibaté. Renunciando ao
combate frontal, Caxias deu início à chamada manobra de Piquissiri. Enquanto a esquadra forçava a
passagem de Angostura, Caxias fez o exército atravessar para a margem direita do rio. Mandou
construir em 23 dias uma estrada nos pântanos do Chaco, pela qual as tropas avançaram em direção
ao nordeste. Na altura de Villeta, o exército cruzou novamente o rio, encontrava-se entre Assunção
e Piquissiri, na retaguarda da linha fortificada paraguaia. Em vez de avançar para a capital, já
desocupada pela população e bombardeada pela esquadra, Caxias marchou para o sul e iniciou a
dezembrada.

A Dezembrada constituiu-se de uma série de vitórias obtidas por Caxias em dezembro de 1868,
quando voltava em direção ao sul para tomar Piquissiri pela retaguarda: Itororó (6 de Dezembro);
Avaí (15 de Dezembro), Lomas Valentinas e Angostura. As batalhas da Dezembrada exibiram
espantosas mortandades dos dois lados, bem como tentativas de debandadas das tropas brasileiras,
impedidas graças à presença de Caxias na linha de frente. Na tomada da ponte de Itororó - onde o
exército paraguaio, comandado por Bernardino Caballero, foi vencido - Caxias, aos 65 anos de
idade, partiu a galope em direção ao inimigo, com espada em punho, exclamando: "sigam-me os
que forem brasileiros!"; não foi morto por sorte. Após destruir o exército paraguaio em Lomas
Valentinas, Caxias acreditava que a guerra tinha acabado. Não se preocupou em organizar e chefiar
a perseguição de López, pois parecia que o ditador fugia para se asilar em outro país e não, como se
viu depois, para improvisar um exército e continuar a resistir no interior.

No dia 24 de Dezembro os três novos comandantes da Tríplice Aliança (Caxias, o argentino Gelly y
Obes e o uruguaio Enrique Castro) enviaram uma intimação a Solano López para que se rendesse.
Mas López recusou-se a ceder e fugiu para Cerro León.

O comandante-em-chefe brasileiro se dirigiu para Asunción, evacuada pelos paraguaios e ocupada


em 1° de Janeiro de 1869 por tropas imperiais comandadas pelo coronel Hermes Ernesto da
Fonseca, pai do futuro Marechal Hermes da Fonseca. No dia 5, Caxias entrou na cidade com o
restante do exército e 13 dias depois deixou o comando. A partida de Caxias e de seus principais
chefes militares fez crescer entre as tropas o desânimo, com a multiplicação dos pedidos de
dispensa dos oficiais e voluntários.

O Fim da Guerra - O Comando do Conde d'Eu


No terceiro período da guerra (1869-1870), o genro do imperador Dom Pedro II, Luís Filipe Gastão
de Orléans, conde d'Eu, foi nomeado para dirigir a fase final das operações militares no Paraguai,
pois buscava-se, além da derrota total do Paraguai, o fortalecimento do Império Brasileiro. O
marido da princesa Isabel era um dos poucos membros da família imperial com experiência militar,
já que na década de 1850 participara, como oficial subalterno, da campanha espanhola na Guerra do
Marrocos. A indicação de um membro da família imperial pretendia diminuir as dificuldades
operacionais das forças brasileiras, problema agravado pelos muitos anos de campanha, pela
insatisfação dos veteranos e pelos conflitos, políticos e pessoais, que se alastravam entre os oficiais
mais experientes. Em agosto de 1869, a Tríplice Aliança instalou em Assunção um governo
provisório encabeçado pelo paraguaio Cirillo Antônio Rivarola.

Solano López organizou a resistência nas cordilheiras situadas a nordeste de Assunção. À frente de
21 mil homens, o conde d'Eu chefiou a campanha contra a resistência paraguaia, a chamada
Campanha das Cordilheiras, que se prolongou por mais de um ano, desdobrando-se em vários
focos. Os combates mais importantes foram os de Peribebuí, para onde López transferiu a capital, e
de Campo Grande ou Nhugaçu (16 de Agosto), nos quais morreram mais de cinco mil paraguaios.
Após a batalha de Peribuí, no dia 12 de Agosto, o Conde d'Eu parece ter-se exasperado com a
obstinação paraguaia em continuar a luta, nada fazendo para evitar a degola de prisioneiros
capturados durante e depois dos combates. Na batalha seguinte, Campo Grande, as forças brasileiras
se defrontaram com um exército formado, em sua maioria, por crianças e idosos, criminosamente
recrutados pelo ditador paraguaio. A derrota paraguaia encerrou o ciclo de batalhas da guerra. Os
passos seguintes consistiram na mera caçada a López.

Dois destacamentos foram enviados em perseguição ao presidente paraguaio, que se internara nas
matas do norte do país acompanhado de 200 homens. No dia 1.° de março de 1870, as tropas do
general José Antônio Corrêa da Câmara (1824-1893), o visconde de Pelotas, surpreenderam o
último acampamento paraguaio em Cerro Corá, onde Solano López foi ferido a lança e depois
baleado nas barrancas do arroio Aquidabanigui. Suas últimas palavras foram: "Morro com minha
pátria". Assim chegou ao fim o mais sangrento conflito internacional das Américas, a guerra do
Paraguai.

Mortalidade

O Paraguai sofreu uma violenta redução de sua população, beirando os 70% de perda. A guerra
acentuou um desequilíbrio pré-existente entre a quantidade de homens e mulheres. Autores da
década de 1970 chegaram a defender que o desequilíbrio teria chegado a 28 mulheres para cada
homem. Este número é certamente exagerado mas de qualquer maneira é provável que houvesse
cerca de 2 mulheres para cada homem no Paraguai em 1870 no final da guerra. Dos cerca de 123
mil brasileiros que combateram na Guerra do Paraguai as melhores estimativas apontam cerca de 50
mil óbitos e outros mil inválidos. As forças uruguaias contaram com quase 5600 homens, dos quais
pouco mais de 3100 morreram durante a guerra. Era formada em parte por estrangeiros. Já a
Argentina perdeu cerca de 18 mil combatentes dentre os quase 30 mil envolvidos. Entretanto as
altas taxas de mortalidade não são decorrentes do conflito armado em si. Doenças decorrentes da
má alimentação e péssimas condições de higiene parecem ter sido a causa da maior parte das
mortes. Dentre os brasileiros, acredita-se que até dois terços dos soldados tenham morrido em
hospitais e durante a marcha, antes mesmo de terem enfrentado o inimigo. No início do conflito, a
maior parte dos soldados brasileiros vinha das regiões norte e nordeste do país. As mudanças
bruscas tanto de um clima quente para frio quanto de alimentação (no teatro de guerra a dieta tinha
a carne fresca como base), além do consumo de água dos rios foi fatal, à s vezes, para batalhões
inteiros de brasileiros. A principal causa mortis durante a guerra parece ter sido o cólera.
Conseqüências da Guerra

Não houve um tratado de paz em conjunto. Embora a guerra tenha terminado em março de 1870, os
acordos de paz não foram concluídos de imediato. As negociações foram obstadas pela recusa
argentina em reconhecer a independência paraguaia.

O Brasil não aceitava as pretensões da Argentina sobre uma grande parte do Grande Chaco, região
paraguaia rica em quebracho (produto usado na industrialização do couro). A questão de limites
entre o Paraguai e a Argentina foi resolvida através de longa negociação entre as partes. A única
região sobre a qual não se atingiu um consenso — a área entre o rio Verde e o braço principal do rio
Pilcomayo — foi arbitrada pelo presidente estado-unidense Rutherford Birchard Hayes que a
declarou paraguaia. O Brasil assinou um tratado de paz em separado com o Paraguai, em 9 de
janeiro de 1872, obtendo a liberdade de navegação no rio Paraguai. Foram confirmadas as fronteiras
reivindicadas pelo Brasil antes da guerra. Estipulou-se também uma dívida de guerra que foi
intencionalmente subdimensionada por parte do governo imperial do Brasil mas que só foi
efetivamente perdoada em 1943 por Getúlio Vargas, em resposta a uma iniciativa idêntica da
Argentina.

O reconhecimento da independência do Paraguai pela Argentina só foi feito na Conferência de


Buenos Aires, em 1876, quando a paz foi definitivamente estabelecida.

Em dezembro de 1975, quando os presidentes Ernesto Geisel e Alfredo Stroessner assinaram em


Assunção um Tratado de Amizade e Cooperação, o governo brasileiro devolveu ao Paraguai troféus
da guerra.

As aldeias paraguaias destruídas pela guerra foram abandonadas e os camponeses sobreviventes


migraram para os arredores de Assunção, dedicando-se à agricultura de subsistência na região
central do país. As terras das outras regiões foram vendidas a estrangeiros, principalmente
argentinos, e transformadas em latifúndios. A indústria entrou em decadência. O mercado paraguaio
abriu-se para os produtos ingleses e o país viu-se forçado a contrair seu primeiro empréstimo no
exterior: um milhão de libras da Inglaterra, que se pode considerar a potência mais beneficiada por
esta guerra, pois além de exterminar a ameaça paraguaia na América do Sul como exemplo de
desenvolvimento, conseguiu fazer com que o Brasil e a Argentina aumentassem suas dívidas
externas, que se arrastam até hoje.

Depois da guerra, boa parte das melhores terras do Paraguai foi anexada pelos vencedores. O Brasil
ficou com a região entre os rios Apa e Branco, aumentando para o sul o estado do Mato Grosso. A
Argentina anexou o território das Missões e a área conhecida como Chaco Central (território
argentino de Formosa) e tornou-se o mais forte dos países do Prata. Durante todo o tempo da
campanha, as províncias de Entre Rios e Corrientes abasteceram as tropas brasileiras com gado,
gêneros alimentícios e outros produtos. O Brasil, que sustentou praticamente sozinho a guerra,
pagou um preço alto pela vitória. A guerra foi financiada pelo Banco de Londres e pelas casas
Baring Brothers e Rothschild. Durante os cinco anos de lutas, as despesas do Império chegaram ao
dobro de sua receita, provocando uma crise financeira. A escravidão passou a ser questionada, pois
os escravos que lutaram pelo Brasil permaneceram escravos.

O Exército Brasileiro passou a ser uma força nova e expressiva dentro da vida nacional.
Transformara-se numa instituição forte que, com a guerra, ganhara tradições e coesão interna e
representaria um papel significativo no desenvolvimento posterior da história do país. Além disso,
houve a formação de um inquietante espírito corporativista no exército.