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Supremo Tribunal Federal

MEDIDA CAUTELAR NO HABEAS CORPUS 132.143 MATO GROSSO

RELATOR

: MIN. EDSON FACHIN

 

PACTE.(S)

: SILVAL DA CUNHA BARBOSA

IMPTE.(S)

: ANTÔNIO

CARLOS

DE

ALMEIDA

CASTRO

E

OUTRO(A/S)

IMPTE.(S)

: ULISSES RABANEDA DOS SANTOS

 

IMPTE.(S)

: VÁLBER

DA SILVA MELO

 

COATOR(A/S)(ES)

Decisão:

: RELATOR

DO

HC

Nº

343.053

TRIBUNAL DE JUSTIÇA

DO

SUPERIOR

Trata-se de habeas corpus impetrado contra decisão monocrática, proferida no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, que, no HC n°. 343.053/MT, indeferiu o pedido liminar.

Em repetição aos argumentos articulados no HC 130.521/MT, narra o impetrante que:

a) a decisão atacada consubstancia medida teratológica a justificar a superação da Súmula 691/STF;

b) o paciente é acusado de, na então condição de governador de Mato Grosso, praticar os crimes de concussão, formação de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Em síntese, o paciente, em conluio com diversos outros autores, alguns deles agentes públicos, teria concedido benefícios fiscais de forma irregular a empresas de propriedade de JOÃO BATISTA ROSA. Em contrapartida, o empresário teria sido constrangido a pagar vantagem indevida destinada ao suprimento de caixa de campanha. Em seguida, o grupo teria empreendido manobras a fim de conferir aparência de licitude aos valores recebidos (simulação de contratos de consultoria e negociações de títulos mediante utilização de factoring);

c)

inexistem indícios robustos de autoria a sustentar a medida

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excepcional, visto que as decisões restringem-se a inferir a participação do paciente a partir de meras ilações, como uma suposta ligação entre o então Governador e os demais agentes alvos da apuração. Pontua que a singela presunção de que o “então Governador esteja por trás dos fatos investigados, simplesmente por ter ocupado tão relevante função”, por configurar indevida responsabilização penal de cunho objetivo, não legitima a drástica prisão processual;

d) a decisão proferida no âmbito do STJ construiu-se tendo por base

fundamentos associados a outros investigados e não extensíveis ao

paciente;

e) as colaborações premiadas vertidas por JOÃO BATISTA ROSA e

FREDERICO MULLER COUTINHO foram artificiosamente ajustadas, o

que lhes retira a voluntariedade;

f) não há fundamentação idônea acerca da não aplicação das

medidas cautelares alternativas, possibilidade que deve ser enfrentada em momento anterior à imposição da medida excepcional. Tal proceder,

em seu entender, configura a teratologia do decisum impugnado, que se limitou a reproduzir o decreto segregatório;

g) em relação ao periculum libertatis, os argumentos empregados,

desacompanhados de base empírica, são de abstração incompatível com a

medida corporal;

h) os fatos em apuração teriam ocorrido durante a constância do

mandato eletivo do paciente. Considerando que, atualmente, o paciente não exerce cargo público, a custódia revela-se desnecessária. Nessa perspectiva, a proibição do exercício de função pública, de menor sacrifício, já alcançaria idêntico resultado acautelatório;

i) ultrapassaram-se 09 (nove) meses desde o término do mandato do

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paciente e, desde então, não há qualquer notícia de prática delitiva, de modo que não há contemporaneidade entre o risco e a cautela;

j) o receio de reiteração delituosa decorrente de suposta influência

política é fantasioso, na medida em que não há afinidade ou identidade

entre as gestões atual e anterior;

k)

foram

aplicadas

medidas

investigados, em ofensa à isonomia;

alternativas

em

favor

de

outros

l) propõe a aplicação das seguintes cautelares: comparecimento a todos os atos processuais e proibição de ingresso nas dependências de qualquer Secretaria do Estado em Mato Grosso;

m)

o paciente ostenta condições subjetivas favoráveis à restituição

do estado de liberdade.

Aduz que há alteração no panorama processual, visto que: “(i) o paciente encontra-se encarcerado há quase três meses; (ii) o paciente está regularmente respondendo a ação penal em primeiro grau; (iii) já houve julgamento de mérito do writ impetrado perante o TJMT, com intenso debate e decisão por maioria; (iv) a delação premiada que, em boa parte, serviu de fundamento à decretação da prisão, foi expressamente revogada pela magistrada de piso (doc. 02 – fls. e-STJ 715/722); (v) avizinha-se o recesso forense e a interrupção da sessões de julgamento obrigará o paciente a permanecer preso por mais quase dois meses, até que o mérito do HC 343.053-MT seja julgado pelo colendo Superior Tribunal de Justiça.”

É o relatório. Decido.

1. Cabimento do habeas corpus:

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Inicialmente, destaco que esta Corte tem posição firme pela impossibilidade de admissão de habeas corpus impetrado contra decisão proferida por membro de Tribunal Superior, visto que, a teor do artigo 102, I, “i”, da Constituição da República, sob o prisma da autoridade coatora, a competência originária do Supremo Tribunal Federal somente se perfectibiliza na hipótese em que Tribunal Superior, por meio de órgão colegiado, atue em tal condição. Nessa linha, cito o seguinte precedente:

“É certo que a previsão constitucional do habeas corpus no artigo 5º, LXVIII, tem como escopo a proteção da liberdade. Contudo, não se há de vislumbrar antinomia na Constituição

Federal, que restringiu a competência desta Corte às hipóteses nas quais o ato imputado tenha sido proferido por Tribunal Superior. Entender de outro modo, para alcançar os atos

seria

atribuir à Corte competência que não lhe foi outorgada pela Constituição. Assim, a pretexto de dar efetividade ao que se contém no inciso LXVIII do artigo 5º da mesma Carta, ter-se-ia, ao fim e ao cabo, o descumprimento do que previsto no artigo 102, I, “i”, da Constituição como regra de competência, estabelecendo antinomia entre normas constitucionais. Ademais, com respaldo no disposto no artigo 34, inciso XVIII, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, pode o relator negar seguimento a pedido improcedente e incabível, fazendo-o como porta-voz do colegiado. Entretanto, há de ser observado que a competência do Supremo Tribunal Federal apenas exsurge se coator for o Tribunal Superior (CF, artigo 102, inciso I, alínea “i”), e não a autoridade que

a

praticados

por

membros

de

Tribunais

Superiores,

Assim,

impunha-se

subscreveu

o

ato

impugnado.

interposição de agravo regimental” (HC 114557 AgR, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 12/08/2014, grifei).

Nessa perspectiva, tem-se reconhecido o descabimento de habeas corpus dirigido ao combate de decisão monocrática de indeferimento de

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liminar proferida no âmbito do STJ. Tal entendimento pode ser extraído a partir da leitura da Súmula 691/STF:

“Não compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de habeas corpus impetrado contra decisão do Relator que, em habeas corpus requerido a tribunal superior, indefere a liminar.”

2. Possibilidade de concessão da liminar de ofício:

Ainda

que

ausentes

hipóteses

de

conhecimento,

a

Corte

tem

admitido, excepcionalmente, a concessão da ordem de ofício.

Calha enfatizar que tal providência tem sido tomada tão somente em casos absolutamente aberrantes e teratológicos, em que “a) seja premente a necessidade de concessão do provimento cautelar para evitar flagrante constrangimento ilegal; ou b) a negativa de decisão concessiva de medida liminar pelo tribunal superior importe na caracterização ou na manutenção de situação que seja manifestamente contrária à jurisprudência do STF” (HC 95009, Rel. Min. Eros Grau, Tribunal Pleno, julgado em 06/11/2008, grifei).

Devido ao caráter excepcional da superação do verbete sumular, a ilegalidade deve ser cognoscível de plano, sem a necessidade de produção de quaisquer provas ou colheita de informações. Nesse sentido, não pode ser atribuída a pecha de flagrante à ilegalidade cujo reconhecimento demande dispendioso cotejamento dos autos ou, pior, que desafie a complementação do caderno processual por meio da coleta de elementos externos.

Como reforço, cumpre assinalar que o Código de Processo Penal, ao permitir que as autoridades judiciárias concedam a ordem de ofício em habeas corpus, apenas o fez quanto aos processos que já lhes são submetidos à apreciação:

“Art. 654. (…)

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(…)

§ 2 o Os juízes e os tribunais têm competência para expedir de ofício ordem de habeas corpus, quando no curso de processo verificarem que alguém sofre ou está na iminência de sofrer coação ilegal.”

De tal modo, ao meu sentir, não se admite que o processo tenha como nascedouro, pura e simplesmente, a alegada pretensão de atuação ex officio de Juiz ou Tribunal, mormente quando tal proceder se encontra em desconformidade com as regras de competência delineadas na Constituição da República. Em outras palavras: somente se cogita da expedição da ordem de ofício nas hipóteses em que não se desbordar da competência do órgão, de modo que essa não pode ser a finalidade precípua da impetração.

3. Análise da possibilidade de concessão da medida liminar de ofício no caso concreto:

Num juízo de cognição sumária, próprio desta fase processual, não vislumbro ilegalidade flagrante na decisão atacada a justificar a concessão da liminar.

Cumpre assinalar, por relevante, que o deferimento da medida liminar, resultante do concreto exercício do poder geral de cautela outorgado aos juízes e tribunais, somente se justifica em face de situações que se ajustem aos seus específicos pressupostos: a existência de plausibilidade jurídica (fumus boni juris), de um lado; e a possibilidade de lesão irreparável ou de difícil reparação (periculum in mora), de outro. Sem que concorram esses dois requisitos, essenciais e cumulativos, não se legitima a concessão da medida liminar.

Em relação aos argumentos ventilados no HC 130.521/MT, e ora renovados, reporto-me à decisão que indeferiu a liminar naqueles autos:

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“Quanto à inexistência de indícios mínimos da autoria delitiva, cumpre salientar que, nesta etapa, ainda embrionária, não se exige a presença de provas robustas e aptas a lastrear um édito condenatório. Em verdade, a medida cautelar contenta-se com um substrato mínimo a conferir plausibilidade indiciária à apuração.

No caso concreto, noto que o decreto preventivo descreve diversos fundamentos destinados a amparar a viabilidade da medida. Nessa perspectiva, o Juiz da causa, em minuciosa decisão, aponta, em breve síntese, que:

a) teria ocorrido inversão cronológica em documentos carreados ao processo administrativo que culminou na concessão de benefício fiscal em favor de JOÃO BATISTA (por exemplo: processo administrativo instaurado em 01.09.2011 e desde logo instruído com contrato social datado de 2012. E ainda, a consulta, que seria o primeiro ato do processo administrativo, também é datado de 12.09.2012), a sugerir a realização de fraude. Também não teria sido realizada vistoria no estabelecimento empresarial, o que teria sido confirmado por despacho de agente público e pelas declarações do empresário colaborador. Tal proceder macularia as normas de concessão do beneplácito fiscal em comento;

b) tais irregularidades teriam sido praticadas de modo proposital, a fim de condicionar a manutenção do benefício fiscal irregularmente concedido ao recebimento de quantia a ser paga habitualmente pelo empresário. Ou seja, o suposto grupo criminoso teria se utilizado da precariedade decorrente da concessão irregular do benefício como garantia de recebimento de propina;

c) o próprio Governador editou o decreto que confere ao interessado o favor fiscal. O ato administrativo ainda atestava que as empresas de propriedade de JOÃO BATISTA (Tractor

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Parts, DCP Máquinas e Casa de Engrenagem) haviam sido submetidas a procedimento de vistoria. Contudo, o decreto (utilizado indevidamente, no ponto, como ato enunciativo) não se conforma com as atribuições comuns do cargo de exercido, notadamente associadas a atos de direção. Tal circunstância, no entender do Magistrado, insinuaria eventual motivação específica e espúria da prática do administrativo;

d) os valores seriam repassados ao suposto grupo mediante a instrumentalização de terceiros ou diretamente aos investigados. Nesse ponto, a decisão menciona que foram identificadas 56 (cinquenta e seis) pessoas que, em tese, exerciam essa função e guardam vinculação à gestão do ex- governador. Ademais, teria sido objeto de simulação um contrato de consultoria firmado entre JOÃO BATISTA ROSA e a NBC ASSESSORIA (de propriedade do investigado PEDRO NADAF, que ocupava o cargo de Secretário de Indústria, Comércio, Minas e Energia e, em seguida, de Secretário da Casa Civil do Estado do Mato Grosso na gestão do Governador SILVAL DA CUNHA BARBOSA);

e) alguns cheques (que somados equivalem ao valor aproximado de quinhentos mil reais) emitidos pelas empresas TRACTOR PARTS e DCP MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS, de propriedade de JOÃO BATISTA ROSA, foram recebidos na empresa de factoring do colaborador FREDERICO MULLER COUTINHO. Na oportunidade, os títulos teriam sido apresentados por FRANCISCO GOMES DE ANDRADE LIMA FILHO (o “Chico Lima”), ex-procurador do Estado do Mato Grosso. Em razão de pendências decorrentes da devolução de cheques, Chico Lima foi questionado, oportunidade em que teria afirmado ao colaborador (sem grifo no original):

“Calma que essa resolução você sabe que não é pra mim, você sabe que todas essas operações de cheques não são para mim, que estou resolvendo problema para

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outras pessoas e você sabe quem é”.

Ao

ser

reinquirido

acerca

dos

fatos,

FREDERICO

MULLER COUTINHO acrescentou (sem grifo no original):

“Chico Lima expressamente disse que: “não posso assinar uma promissória em meu nome, assumindo uma dívida pelo fato de estar aqui representando interesse de Silval Barbosa”.

Ou seja, há relato específico associando, pessoalmente, o paciente ao recebimento de vantagens indevidas, supostamente percebidas em razão da função pública então exercida de Governador do Estado de Mato Grosso;

f) SILVAL figurava como líder da organização, contando com o auxílio direto de PEDRO NADAF e MARCEL CURSI, que atuavam como emissários e negociavam diretamente com o empresário. Nessa linha, a decisão colaciona diversas passagens probatórias de atos materiais supostamente perpetrados por PEDRO e MARCEL, com a indicação de possível controle de SILVAL, única pessoa à qual incumbia o poder legal de concessão do benefício tida como irregular.

Nesse cenário, e considerando os demais indícios colacionados, não vejo como absurda a tese acusatória que atribui ao paciente o controle da ação tida como delituosa. Ainda nessa linha, ao contrário do apontado pelo impetrante, ao que parece, não se trata de mera tentativa de censura penal objetiva ou de utilização de fundamentos aplicáveis tão somente em desfavor de terceiros, visto que se perquire a prática de fatos com suposto conteúdo criminoso e cuja materialização é imputada, direta ou indiretamente, ao ex- governador.

Registro

que

a

análise

da

higidez

dos

acordos

de

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colaboração premiada revela-se completamente prematura. Ademais, a alegação veio desprovida de comprovação pré- constituída de práticas que imprimam credibilidade à ausência de voluntariedade do meio de obtenção de prova.

Diante desse cenário, e considerando que a concessão de liminar em writ impetrado na hipótese da Súmula 691/STF reclama manifesta aberração do ato decisório, reconheço a existência de fundamentação mínima e afasto as teses defensivas “c”, “d”e “e”.

No que toca ao periculum in libertatis, ao meu sentir, o decisum ancorou-se em fundamentos de aparente idoneidade, vez que associados ao caso concreto e dirigidos a finalidades legítimas, como a proteção da instrução processual e da ordem pública. Cumpre elencar os seguintes elementos de cautelaridade relatados pelo Juiz singular:

a) Os emissários do paciente, notadamente PEDRO JAMIL NADAF e MARCEL SOUZA DE CURSI, teriam tentado intimidar JOÃO BATISTA ROSA, colaborador aparentemente visto como essencial ao sucesso da apuração.

Inicialmente, a dupla teria passado a assediá-lo, com o intuito de agendar reuniões, inclusive com a menção da suposta interferência de parlamentares a fim de frustrar os resultados positivos eventualmente gerados pela “CPI da Renúncia e da Sonegação Fiscal”, investigação parlamentar instaurada no âmbito do Estado do Mato Grosso com a finalidade de esclarecer possíveis irregularidades, ocorridas durante a gestão do paciente, voltadas à concessão irregular de benefícios fiscais.

Também se relata que MARCEL DE CURSI teria encaminhado mensagens de texto por meio de aplicativo de conversa instantânea ao colaborador reproduzindo notícia em que se reconhece que os incentivos fiscais praticados no Estado

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de Mato Grosso seriam considerados um “caso de polícia”, insinuando que o empresário poderia acabar responsabilizado.

Ademais, a defesa administrativa de JOÃO ficaria a cargo do próprio MARCEL DE CURSI, com o suposto intento de neutralizar potenciais efeitos deletérios da livre insurgência do empresário.

Não bastasse, o colaborador informou que estaria sofrendo abordagens de terceiros vinculados à dupla. A esse propósito, em âmbito policial, relatou (sem grifo no original):

“O declarante diz ainda que na data de ontem, no período vespertino foi procurado pelo Sr. Paulo Gasparoto, amigo do declarante, onde esse lhe informou que Pedro Nadaf havia lhe procurado para saber se o declarante havia feito uma “delação premiada”, pois Pedro teria tido essa informação. (…) o declarante quer deixar consignado ainda que as procuras incessantes do Pedro Nadaf tem causado problemas de saúde e psicológicos e que existe um temor não só com a

integridade física sua como de seus familiares.

Quanto à ciência da delação, segundo o Juiz da causa, “a organização criminosa fez questão de cientificar o colaborador que já sabia que o mesmo estaria entabulando uma delação premiada, na clara intenção de demonstrar seu poder de obter informações sigilosas e intimidar o empresário.”

b) Ademais, nos termos da decisão que decretou a custódia preventiva, além das investidas contra o colaborador, a organização estaria envidando esforços, por meio de articulações políticas, a fim de blindar seus integrantes. A esse respeito, o Juiz singular pontuou:

“Além disso, o próprio JOÃO BATISTA declara que,

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quando a CPI da Sonegação citou os nomes de suas empresas, PEDRO JAMIL NADAF teria lhe dito “ fique tranquilo vamos resolver estou indo na casa de Silval para entrar no circuito”.

Sendo assim, diante da notícia de possível interferência nos trabalhos de investigação parlamentar, afigura-se razoável que, em apuração policial, se encontrarem estímulos, os investigados poderão fazer uso de práticas tendentes ao prejuízo da persecução.

Como se vê, resta sinalizado que os investigados têm se dedicado a dificultar a produção da prova, providência que, aliada aos indícios de controle do paciente quanto à destinação da propina supostamente percebida, ao menos nesta etapa processual, sugerem plausibilidade ao decreto segregatório e recomendam o acautelamento do paciente.

Já no que se refere à indispensabilidade da medida, anoto que, além dos entraves à higidez da produção e colheita da prova, a decisão singular indica que “a forma atroz e ardilosa, que possibilitou que o empresário fosse achacado durante anos a fio denota o grau de periculosidade extremado da organização e sua capacidade de articulação”, de modo que há descrição do risco à ordem pública gerado a partir da gravidade concreta da conduta supostamente praticada.

de

preventiva “como único meio capaz de tutelar a livre produção de prova se impedir que os agentes criminosas destruam ou manipulem provas e ameacem testemunhas”, razão pela qual se excluiu “logicamente, a possibilidade da aplicação de quaisquer das medidas do artigo 319 do CPP”.

prisão

Em

seguida,

aponta,

forma

expressa,

a

Nessa ótica, a despeito do caráter excepcional e subsidiário da prisão preventiva, a decisão compreendeu que a

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custódia ante tempus constituía a única garantia idônea aos objetivos traçados, de modo que, ao meu sentir, há sim fundamentação mínima da opção cautelar a ser empregada.

Obtempero que as condutas a partir das quais emergem o risco traçado pelo Estado-Juiz teriam sido praticadas, em tese, em momentos posteriores à cessação do mandato eletivo do paciente e/ou desbordando da atuação governamental (vide suposta interferência em CPI e abordagens ostensivas do colaborador). Dito isso, nota-se que não há correspondência necessária entre o efetivo exercício da função pública e os requisitos da custódia preventiva, daí a insuficiência da cautelar de afastamento da função.

Não bastasse, as medidas cautelares propostas pelo impetrante apenas reforçam o aparente acerto da decisão. Com efeito, o mero comparecimento periódico em Juízo e a vedação de ingresso em determinadas repartições públicas consubstanciam restrições insuficientes ao risco processual a ser neutralizado, conforme descrito alhures.

Outrossim, a concessão de medidas alternativas em favor de outros investigados não configura mácula à isonomia, na medida em que não há comprovação da identidade fática e processual, pois tais medidas foram reservadas a atores de aparente atuação secundária no contexto supostamente criminoso. Ademais, do que se tem notícia, o paciente, ao contrário de terceiros beneficiados com medida não corporal, prosseguiria tencionando prejudicar à investigação, razão essencial de decidir.

No que toca à suposta presença de condições subjetivas favoráveis, perfilho do entendimento consolidado da Corte no sentido de que tais circunstâncias não impedem a decretação da prisão preventiva, quando presentes os requisitos previstos no artigo 312 do Código de Processo Penal.

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Nessa linha, deixo de acolher os argumentos elencados nos itens “f” a “m” da impetração.

Destarte, ausente teratologia evidente, e sem prejuízo de ulterior reapreciação da matéria no julgamento final do presente habeas corpus, indefiro a liminar. “

Em relação aos fundamentos novos, também não respaldam a concessão da liminar, que, em habeas corpus, mormente na hipótese da Súmula 691/STF, constitui medida excepcionalíssima. Vejamos.

a) “(i) o paciente encontra-se encarcerado há quase três meses”: esse prazo não configura excesso na formação na culpa, mormente na hipótese dos autos, em que se nota embaralhada instrução processual, com diversas diligências probatórias.

b) “(ii) o paciente está regularmente respondendo a ação penal em primeiro grau”: trata-se de elemento neutro, até mesmo porque a condição de preso não confere escolha ao denunciado.

c) “(iii) já houve julgamento de mérito do writ impetrado perante o TJMT, com intenso debate e decisão por maioria”: esse ponto apenas reforça a impossibilidade de concessão da tutela de urgência. A formação de juízo por maioria, ao invés de enfraquecer a decisão, a qualifica, na medida em que atesta que o tema foi realmente debatido de forma minudente. Mesmo assim, após “intenso debate”, o Tribunal de Justiça compreendeu que a custódia processual deveria ser mantida. Em tal ocasião, inaugura-se a competência a ser exercitada pelo Superior Tribunal de Justiça que, como se nota, não deliberou de forma conclusiva acerca da regularidade da prisão.

d) “(iv) a delação premiada que, em boa parte, serviu de fundamento à decretação da prisão, foi expressamente revogada pela

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magistrada de piso (doc. 02 – fls. E-STJ 715/722)”: importante enfatizar que a revogação do acordo de colaboração premiada não decorreu de sua invalidade, mas do fato de que, pelo convencimento ministerial, o colaborador, de potencial acusado, passou a ser considerado vítima. Nessa perspectiva, diante da ausência de acusação, verifica-se a impossibilidade de aplicação da sanção premial, objetivo da essência do instituto. Contudo, esse cenário não retira a força probante das provas obtidas por meio da referida colaboração. Tanto é assim que a Lei 12.850/13 (art. 1°, §12) prevê de forma a expressa a possibilidade de oitiva do colaborador não denunciado, atribuindo-lhe, em tese, valor probatório. Ademais, o art. 1°, §10 da referida Lei prescreve que, em caso de retratação, “as provas autoincriminatórias produzidas pelo colaborador não poderão ser utilizadas exclusivamente em seu desfavor”, de modo que, ao meu sentir, mesmo em caso de extinção do acordo (seja pelo desinteresse em alcançar a sanção premial, seja pela impossibilidade material de fazê-lo), o meio de obtenção de prova, em relação a terceiros, permanece hígido.

e) “(v) avizinha-se o recesso forense e a interrupção da sessões de julgamento obrigará o paciente a permanecer preso por mais quase dois meses, até que o mérito do HC 343.053-MT seja julgado pelo colendo Superior Tribunal de Justiça”: o perigo da demora, de fato, é induvidoso. Aliás, tal inferência é inerente à condição de preso do paciente, de modo, certamente, cada dia alongado no caminhar processual acarreta expressiva lesão a direito individual. A concessão da liminar, todavia, reclama a presença, concomitante, de plausibilidade jurídica a conferir à tese defensiva razoável probabilidade de êxito. Nessa etapa, e na hipótese de incidência da Súmula 691/STF, exige-se que a tese defensiva tenha altíssimo nível de verossimilhança, o que, ao meu sentir, não se afigura. Outrossim, o contexto fático é naturalmente intricado e complexo, como é da natureza da apuração de delitos funcionais, de modo a recomendar o enfrentamento mais verticalizado em âmbito colegiado.

Ressalto

que,

a

despeito

da

incidência

da

Súmula

691/STF,

 

15

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 10043744.

Supremo Tribunal Federal

HC 132143 MC / MT

circunstância que ordinariamente acarreta a extinção sumária da impetração, compreendo que o tema merece melhor reflexão.

Destarte,

indefiro

a

liminar

requerida,

sem

prejuízo

de

que,

oportunamente, a matéria seja reanalisada.

Colham-se as informações atualizadas do Juiz de primeiro grau.

Vista à PGR.

Publique-se. Intime-se.

Brasília, 18 de dezembro de 2015.

Ministro Edson Fachin Relator

Documento assinado digitalmente

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Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 10043744.