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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA
Nome: Tobias dos Santos Gomes Disciplina: Leituras etnográficas II
Prof: Denise Jardim Semestre: 2008/02
Resenha do capítulo “identidade en Mashpee” no livro “Dilemas de la cultura” de James
Clifford
Na década de 70, vários grupos indígenas do oriente estadunidense passam a
demandar a demarcação de suas terras. Os wampanoag são um desses grupos, mas com a
peculiaridade de terem menos reconhecimento exterior de sua diferença, ou até nenhum
reconhecimento. Esse grupo que demanda a demarcação controlava o poder na cidade até
60, quando perde o controle para os brancos, que se tornam maioria populacional.
Os wampanoag entram com um processo pedindo a demarcação de terras, processo esse
que é etnografado pelo autor, que vê o tribunal mais como teatro do que um confessionário.
Para descrever ele recorre a personagens chaves e a versões da história (onde a praga, a
conversão ao cristianismo, o estatuto de “plantação”, o fato de pôr-se ao lado dos colonos, a
existência de casamentos mistos, a conversão de Mashpee em povo e a assimilação são
vistas de formas diversas) que são de possível interpretação, vendo de forma crítica esse
processo, trazendo assim sua interpretação de tudo isso, que já aparece no próprio manejo
das histórias, o que envolve sua compreensão da etnografia como interpretação.A imagem
do índio no imaginário dominante e o diálogo entre uma identidade índia e americana
atravessam o texto.
Outros atores que surgem no processo são antropólogos e historiadores, que são
pressionados pelos advogados a darem respostas inequívocas, trazendo dificuldades ao
antropólogo por seu caráter científico diferenciado, onde a cultura não é um arquivo finito.
Fato que aparece nos textos que se propõem a debater a carta de Ponta de Cana e no texto
de Oliveira Filho.
Jurados e juiz também são atores no teatro do tribunal, onde os taquígrafos
transformam gestos dramáticos em documentos definitivos.O procedimento dos jurados é
baseado numa oposição de contrários, como culpado ou não, enquanto outras formas
permitem uma argumentação que leve em conta que os pontos de vista mudam no decorrer
do tempo.
O argumento historiográfico que conta com os documentos, sem se ater muito sobre
seus silêncios e as instruções do juiz sobre como os jurados deviam decidir categoricamente
são tomados com detalhe, aparecendo como decisivos nesse caso, onde o veredicto, após
votação dos jurados em que os wampanoag se tornam índios em certo período de tempo,
mas não o são hoje.
Refletindo sobre o resultado Clifford trás a impossibilidade de se compreender a
vida índia moderna por meio das categorias de identidade e tribo, o que se deve também a
pressupostos que embasam a compreensão da lei (como a idéia de totalidade cultural e
estrutura, a distinção hierárquica entre formas de conhecimento orais e escritas e a
continuidade narrativa da história e da identidade). Isso permite a ele dissertar sobre as
diferentes concepções de cultura, onde uma concepção que pense cultura de uma forma
“orgânica” não permite perceber que os grupos que vivem renegociando a identidade.
Também demonstrar a iniqüidade presente na supremacia do textual sobre o oral, onde as
múltiplas vozes desaparecem e impossibilidade de um discurso antropológico ser tão
“documental” quanto o histórico, detalhe também presente em O’Dwier e Oliveira Filho.
Vermos a história do contato e mudança cultural como assimilação ou resistência não
permite ver as interações mais complexas, com toda sua diversidade.

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