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ANTONIO PAIM

A QUERELA DO ESTATISMO

2ª edição revista e ampliada

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DO MESMO AUTOR

A) Livros
1) História das idéias Filosóficas no Brasil. São Paulo, Grijalbo/Edusp. 1967,276p. (prêmio
Instituto Nacional do Livro de Estudos Brasileiros - 1968): 2ª edição, São Paulo,
Grijalbo/Edusp, 1974, 431 p.: 3ª edição, São Paulo, Convívio/INL. 1984, 615 p. (Prêmio
Jabuti-85 de Ciências Humanas, concedido pela Câmara Brasileira do Livro); 4ª edição,
São Paulo, Convívio, 1987, X - 615 p.; 5ª edição, Londrina, Ed. da UEL - Universidade
Estadual de Londrina, 1997, 760 p.;
2) Tobias Barreto na Cultura Brasileira: uma reavaliação. São Paulo, Grijalbo/Edusp,
1972, 201 p. (em colaboração com Paulo Mercadante);
3) Problemática do Culturalismo. Apresentação de Celina Junqueira. Rio de Janeiro,
Graficon, 1977, 69 p.; 2ª edição, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1995, 196p;
4) A Ciência na Universidade do Rio de Janeiro (1931/1945). Rio de Janeiro, IUPERJ,
1977, 161 p.; reedição revista: A UDF e a Idéia de Universidade. Rio de Janeiro. Tempo
Brasileiro, 1981, 144 p.;
5) A querela do estatismo. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1978, 161p.; 2ª edição, revista:
A querela do estatismo. A natureza dos sistemas econômicos: o caso brasileiro. Rio de
Janeiro, Tempo Brasileiro, 1994, 212p.(incluído na Biblioteca Básica Brasileira, do
Senado Federal);
6) Pombal na Cultura Brasileira. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, Fundação Cultural
Brasil - Portugal, 1982, 137 p. (organizador);
7) Bibliografia Filosófica Brasileira - 1808/1930. Salvador, CDPB, 1983, 96 p.; Período
Contemporâneo - 1931/1977. São Paulo, GRD-INL, 1979, 246p.; 2ª edição ampliada
1931/1980, Salvador CDPB, 1987, 124p.; 1981/1985, Salvador, CDPB, 1988, 31 p.;
8) A questão do socialismo, hoje. São Paulo, Convívio, 1981, 145 p.;
9) Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro. Brasília, Ed. da UnB, 1982,
coordenação juntamente com Vicente Barretto e autoria das seguintes unidades: III - A
discussão do Poder Moderador no Segundo Império, 65 p.; IV - Liberalismo,
Autoritarismo e Conservadorismo na República Velha, 50 p. (em colaboração com
Vicente Barretto); IX - O socialismo, 57 p.; XI - A opção totalitária, 80 p.; XII Correntes e Temas Políticos e Contemporâneos, 69 p. (em colaboração com Reynaldo
Barros); Estudo de caso - III - Partidos políticos e eleições após a Revolução de 30, 63
p.; versão em 13 vols., em forma de curso à distância. Rio de Janeiro, Universidade Gama
Filho, 1995;
10) Evolução Histórica do Liberalismo. Belo Horizonte, Itatiaia, 1987, 99p.; edição ampliada
em forma de Curso à Distância, Rio de Janeiro, Universidade Gama Filho, 1977, 5 v. (em
colaboração com Francisco Martins de Souza; Ricardo Vélez Rodríguez e Ubiratan
Borges de Macedo);
11) Evolução do Pensamento Político Brasileiro. Belo Horizonte, Itatiaia-EDUSP, 1989, 463
p. (organizador em colaboração com Vicente Barretto);

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12) Curso de Humanidades - História da Cultura. São Paulo, Instituto de Humanidades,
1988, X unidades em 4 fascículos, 267 p.; Política. São Paulo, Instituto de Humanidades,
1989, X unidades em 4 fascículos, 307p.; Moral. Londrina, Editora da UEL, 1997, 308
p.; Religião. Londrina, Editora da UEL, 1997, 452 p.; Filosofia. Londrina, Editora da
UEL, 1999, 392 p.. (Em colaboração com Leonardo Prota e Ricardo Vélez Rodríguez );
13) A Filosofia Brasileira. Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991, 212 p.
(Biblioteca Breve, vol. 123);
14) Modelos Éticos: introdução ao estudo da moral. São Paulo, Ibrasa-Champagnat, 1992,
113 p.;
15) Fundamentos da Moral Moderna. Curitiba, Ed. Champagnat, 1994, 244 p.;
16) O Liberalismo Contemporâneo. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1995, 238 p.;
17) Estudos complementares à História das Idéias Filosóficas no Brasil.
Vol. I - Os intérpretes (3ª edição revista de O estudo do pensamento filosófico brasileiro,
1ª edição, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1979, 157 p.; 2ª edição, São Paulo,
Convívio -, 1985, 188 p.). Londrina, Editora da UEL, 1999, 236 p.
Vol. II - As filosofias nacionais. Apresentação de Antonio Braz Teixeira (inclui parte do
opúsculo Das filosofias nacionais, Lisboa, Universidade Nova Lisboa, 1991, 83
p.) - Londrina, Editora UEL, 1997, 172 p.;
Vol. III- Etapas iniciais da filosofia brasileira (inclui o livro Cairu e o liberalismo
econômico, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1968, 118 p.). Londrina, Editora
da UEL, 1998, 272 p.
Vol. IV - A Escola Eclética. Londrina, Editora da UEL, 1996, 415 p.;
Vol. V - A Escola do Recife (3ª edição revista e ampliada de A filosofia da Escola do
Recife, 1ª edição, Rio de Janeiro, Saga, 1966, 217 p.; 2ª edição, São Paulo,
Convívio, 1981, 211 p.). Londrina, Editora da UEL, 1999, 252 p.
B) Opúsculos
1) Os novos caminhos da Universidade. Fortaleza, UFC, 1981, 75 p.;
2) O modelo de desenvolvimento tecnológico implantado pela Aeronáutica. Rio de Janeiro,
Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica, 1987, 22 p.;
3) Oliveira Viana de Corpo Inteiro. Londrina. CEFIL. 1989, 31 p.;
4) Roteiro para estudo e pesquisa da problemática moral na cultura brasileira. Londrina,
Editora UEL. 1996, 115 p.;
5) A agenda teórica dos liberais brasileiros. São Paulo, Massao Ohno Ed./Instituto Tancredo
Neves, 1997, 85 p.
6) O krausismo brasileiro. Londrina, Edições CEFIL, 1998, 28 p.

........................ 59 ................... 57 3.............................. 10 CAPÍTULO I O ESTADO BRASILEIRO COMO ESTADO PATRIMONIAL: O DEBATE TEÓRICO .............................................................................. Os valores impostos pela Inquisição ............ 25 1......................... As reformas pombalinas ...........................................................4 SUMÁRIO Apresentação da 2ª edição .................................. 34 CAPÍTULO III A MODERNIZAÇÃO PRETENDIDA POR POMBAL E SEU ALCANCE .......................................... Aspectos teóricos mais relevantes ......... 14 3.................... O patrimonialismo segundo Weber ... Trajetória intelectual ........................... 46 CAPÍTULO IV A TENTATIVA DE ERIGIR O SISTEMA REPRESENTATIVO E SEU FRACASSO .... A base social do patrimonialismo segundo Schwartzman ...................................................................................... A aplicação da categoria à realidade brasileira ............. Apreciação republicana da experiência imperial .............................................................. 50 1............. 17 b............ 11 2...................................... 21 d................. O destino do ouro .................................... O lugar de Oliveira Viana em nossa contemporânea história política ...... A contribuição de Wittfogel ......... 24 CAPÍTULO II UMA PRIMEIRA INDICAÇÃO DA PREVALÊNCIA DE FATORES CULTURAIS: OLIVEIRA VIANA .................................................................. 25 2. O significado da experiência (renegada) do Segundo Reinado .................................... Como atuava a Inquisição ......................................................... 38 1............................ 06 Apresentação da 1º edição .... Principal resultado do debate ..................................................................................................................................................................... 27 3........ A questão dos mecanismos moderadores .......................................................................................................................................................... Coroamento da obra de Oliveira Viana ...... 54 b.................... Os valores básicos da sociedade brasileira .......................... 42 b..................................... 54 a........................................... 20 c......................................................................................................... 50 2......... A contribuição de Lobo Torres ............................. As limitações do estudo pioneiro de Faoro .................... 44 2...................................................... 38 a.................. 30 4. 17 a........................................................... 11 1.......................................................... A doutrina da representação e a organização do corpo eleitoral ...............................................................................

..... 86 b..................... 128 Índice Onomástico ............................... Representação e contrafação: a experiência dos anos trinta e do pós-guerra ............. A industrialização pós-64 e sua singularidade ...................................................................... 61 1......................................................................... O substrato moral que tem assegurado a sobrevivência do patrimonialismo .............. A República positivista do Rio Grande do Sul .. O principal resultado do novo ciclo: o castilhismo ....................................... 76 c.............................................. 86 a.................. 70 b........................ 111 2......................... A formulação do projeto de modernização econômica ............................................................ 105 5.................................................... 106 CAPÍTULO VI DIFERENÇAS NOTÁVEIS ENTRE O BRASIL E OS PAÍSES CAPITALISTAS ....... 120 CAPÍTULO VII ESTRATÉGIA PARA ENFRAQUECER O PATRIMONIALISMO E FAVORECER O CAPITALISMO .............................. 119 4...................................................................................5 CAPÍTULO V O EMBATE DO SÉCULO REPUBLICANO E SEU DESFECHO ....................................................................................................... 70 a.............. 115 3.......... 61 a...... A igualdade de oportunidades .................... A primeira versão do intervencionismo estatal na economia ... O sucessivo desvirtuamento da representação ....................................... A questão da democracia .................. A distorção básica: a estatização da economia .. 133........ 103 d.................................................................................... 79 3............................................................. 94 a...... 111 1.................. Principais ciclos do período considerado .. Os grandes mitos dos anos trinta ............................................................................ Como se dá a confluência entre ideário pombalino e positivismo republicano............................................................... . 67 2......... A contribuição de Vargas ao castilhismo .......................................... Principais resultados em termos de infra-estrutura ......... Abandono da representação e ascendência do castilhismo: o essencial do primeiro ciclo.............................................. 122 Bibliografia ................................................ Atitudes patrimonialistas típicas ..... Características da economia capitalista ............................................................. 94 b............. A distribuição de renda . 91 4.. 98 c.... 62 b.....

partindo do feudalismo e do contrato de vassalagem. empreendida no Segundo Reinado. receoso de ser vítima de visões impressionistas de difícil mensuração. Embora a obra de Raimundo Faoro (Os donos do poder) lhe tenha precedido. também. Ao invés. do livro de Simon Schwartzman – São Paulo e o Estado nacional que de fato começou a inquisição acerca de sua natureza profunda. Rio de Janeiro. conduzindo o debate para uma espécie de impasse. no Brasil. Além disto. em 1975. no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Tempo Brasileiro. apresentado sob a forma da retórica positivista. criado precisamente para aquele fim em 1952. inquestionavelmente. mais uma vez. como me parecia ser a proposta de Faoro. Chamara a atenção. curiosamente inspirando-se no próprio legado pombalino. . reconhecera o que se convencionou denominar de patrimonialismo modernizador. e 2ª) chamar a atenção para os componentes culturais do processo. presenciáramos o que chamei de (*) “Persistência do patrimonialismo modernizador na cultura brasileira”.6 APRESENTAÇÃO DA 2ª EDIÇÃO Quando publiquei a primeira edição deste livro. portanto. em 1978 – decorridos. já agora atribuindo todo o mal ao Estado. categoria suscitada por Max Weber para apontar uma linha de desenvolvimento diferente da que. ensaiava os primeiros passos. desembocou no Estado Liberal de Direito e no sistema representativo. 1982. foi com a publicação. verdadeiramente Seguindo a Schwartzman. entretanto. de outro”. passo que Schwartzman compreensivamente se recusava a empreender. Com a Querela do Estatismo pretendia basicamente duas coisas: 1ª) contribuir no sentido de evitar que nos encaminhássemos. portanto. mais forte que a sociedade. tão argutamente criticadas por Wanderley Guilherme dos Santos. fora violentamente rejeitada pela elite militar. dispondo de uma base social localizada prevalentemente naquelas regiões que chegaram a ser as mais desenvolvidas (Nordeste e Minas). Estava posta a questão de defini-lo como Estado Patrimonial. que foi executado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico. mais de vinte anos – a discussão teórica acerca do Estado. é geralmente difícil estabelecer conexões precisas e bem determinadas entre governantes e decisões governamentais. que não correspondia a uma estrutura desencarnada. Simon Schwartzman proclamava alto e bom som: “O fato é que. que cumpria levar em conta nesta segunda edição. para as clássicas análises dicotômicas. conceituação sugerida por Ricardo Vélez Rodríguez que o caracterizou devidamente (*) Tomara como símbolo dessa dimensão o empenho do Marquês de Pombal de inserir-nos na modernidade e. 110-119. A década de oitenta trouxe entretanto ensinamentos enriquecedores. Schwartzman indicava. de aglutinar os interesses dessa ou daquela classe. para a circunstância de que a tentativa de acrescer ao projeto pombalino as instituições do sistema representativo. tendo se tornado. a bem dizer. o programa formulado pela Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico (1951-1953). de um lado. em face da inconsistência das análises marxistas que o apresentavam como uma estrutura a serviço do latifúndio e do imperialismo. com a instauração da República. contemporaneamente. o Estado achava-se a serviço de si mesmo. e classes sociais e grupos de interesses específicos. p. in Pombal e a cultura brasileira.

que permanecera inédita durante cerca de quarenta anos. abandonado provavelmente por volta de 1948/49. A. A caracterização do Estado Patrimonial português repousava justamente na feição assumida por seu sistema tributário. em 1987. a Banca concordou em que o Brasil não pode efetivamente ser caracterizado como um país capitalista. Empreguismo e corrupção voltaram a ser a nota dominante. a partir de Geisel (1974) marchava no sentido de reencontro com as aspirações democráticas que a haviam originado. colocando-o ao serviço do empreguismo e da corrupção. recuperando-o como fenômeno cultural. mais uma vez. e a vasta pobreza em que se debatia todo o Leste Europeu não somente vieram confirmar que se tratava da Grande Mentira. Roberto Campos ponderou que há muita semelhança entre o patrimonialismo tomado como categoria geral. A compreensão do patrimonialismo requer. fórmula transitória para a economia de mercado. portanto. Lobo Torres demonstrou que também em Portugal a manutenção do Estado deixou de ter caráter patrimonialista. Valendo-me de uma oportunidade que me foi oferecida pela Universidade Gama Filho. Torna-se evidente que o comunismo nada mais era que uma das virtualidades do Estado Patrimonial. sendo esta a categoria fundante. como reiteradamente afirmara o ex-marxista polonês Leszek Kolakowski. No plano teórico tivemos dois fatos capitais para o aprimoramento da doutrina do Estado Patrimonial brasileiro. ao desfigurar o projeto modernizador do BNDE. A hipótese de que os sistemas econômicos ou eram capitalistas ou eram socialistas perdia a sua razão de ser. deste modo. No momento em que aparecem tanto São Paulo e o Estado Nacional (1975) como a primeira edição de A querela do estatismo (1978) parecia evidente que a Revolução de 64 não só assumira a bandeira da modernização como. de Ricardo Lobo Torres (Rio de Janeiro. como aliás pretendia Max Weber. O fenômeno decisivo consiste entretanto na débâcle do socialismo. o caráter patrimonialista do Estado brasileiro. conclui que. os professores Ítalo da Costa Jóia. No fundamental. segundo as quais o Estado czarista dominava virtualmente a economia. os professores Manoel José Gomes Tubino (Vice-Reitor Acadêmico) e Renato Cerqueira Zambroti (Diretor de Apoio ao Professor) constituíram uma Banca integrada por três de meus antigos colegas na própria UGF. retirar toda conotação determinística ao patrimonialismo. antes de aposentar-me das atividades docentes. tornadas públicas a partir de Gorbachov. correspondendo o Estado Soviético à simples exacerbação desse e de outros de seus aspectos. A experiência histórica corroborara. O primeiro correspondeu à edição. A intervenção do Estado na economia. ao contrário do que supunha. de Oliveira Viana. o Brasil não era um país capitalista. no Governo Goulart. 1957). tornouse um fim em si mesmo. na . Para debatê-la e avaliá-la. As divergências começam na parte afirmativa. Ed. os estamentos tradicionais haviam conseguido subordinar o projeto modernizador aos seus interesses patrimonialistas. Os anos oitenta vieram entretanto demonstrar que. Wittfogel (O despotismo oriental. Renovar. de que me incumbi diretamente. além de dois eminentes economistas. Vicente Barretto e Ricardo Lobo Torres. sistematizei as idéias antes resumidas e apresentei-as em forma de tese de Livre-Docência. 1991) que veio preencher uma lacuna deixada por Raimundo Faoro e. com a qual mantive estreitos vínculos ao longo de mais de dez anos. ao mesmo tempo.7 “desforra dos estamentos tradicionais”. O segundo consiste no livro A idéia de liberdade no Estado Patrimonial e no Estado Fiscal. mas sobretudo tornar plenamente atuais as análises de Karl. Nesse texto. As revelações sobre o atraso da antiga União Soviética. da História Social da Economia Capitalista no Brasil. que se investigue a sua base moral. os professores Ralf Zerkowski e Roberto Campos.

que no interregno democrático pós-46 fora patrocinada pelo pessedismo. Num desses seminários. O Estado Moderno. justamente o que sustenta os mecanismos moderadores requeridos pela sociedade. a premissa (o desenvolvimento como tendo transitado para a esfera moral) estava errada. De sorte que. exigente de análise mais circunstanciada. pelas Forças Armadas. Referiu concretamente estes aspectos: as coalizões entre o setor privado e o Estado. que há grupos sociais muito fortes que se opõem a toda espécie de desenvolvimento.8 descrição de Weber. No Brasil não há de fato moral social de tipo consensual. em nome do desenvolvimento (havia evidenciado que a segurança não assumira idêntica feição moral. consensual) não tem de fato cabimento. onde se comprova que intervenções das Forças Armadas na política constituem sempre indício de . ao circunscrevê-la a questões tais como o desenvolvimento econômico. A proposta é assim mesmo confusa (e inconsistente). certamente afeiçoou-se ao mercantilismo. Esta seria a retificação a fazer. respaldados naturalmente na tradição contra-reformista. para discutir o papel das Forças Armadas. no período subseqüente a 64. com a superação do ciclo mercantilista. com seu ódio ao lucro e à riqueza. 2ª) Havia admitido que a idéia de desenvolvimento. isto é. propugnando uma espécie de organização social onde não haja grandes empresas (e talvez nem mesmo propriedade privada). que se efetive confronto específico entre as categorias patrimonialismo e mercantilismo. Sem querer minimizar o significado do tema. que tinha a esse respeito convicções muito precisas e que me deu para ler a obra The Soldier and the State. deu-se a permanência das estruturas que talvez seja apropriado batizar de patrimonialismo. como mais significativas. Vicente Barretto também gostaria que se conceituasse melhor a relação entre ciência econômica e moral social. a pretexto de controlar importações. Ainda assim. Deste modo. decorrente sobretudo da Revolução Industrial. em franca oposição ao udenismo. Contudo. o que me deu oportunidade de participar de vários encontros. no período posterior à abertura política. finalmente. a presença aplastante do Estado. nos próprios termos em que colocara a questão na primeira edição. inclusive sustentando reservas de mercado. Apontaria. teria assumido caráter moral. que é o ingrediente fundante das instituições do sistema representativo. que entende ser mais ampla que a por mim pretendida. entretanto. a excessiva regulamentação (tendo lembrado as famosos Pragmáticas que. razão pela qual tornaram-se instrumentos privilegiados no estudo dos grupos sociais da época) e. A eventualidade do recurso a esta teria que ser invocada por uma instância exclusivamente moral. travei relações de amizade com o Ten. estabeleciam o modo de trajar dos vários segmentos da população. impressionoume vivamente o argumento de Edmundo Campos Coelho. de Samuel Huntington. A longa recessão dos anos oitenta evidenciou. isto é. identificado com o capitalismo. Brigadeiro Murillo Santos. não descarto a hipótese de que a questão deva ser aprofundada. De todos os modos. Contudo. toda conotação partidária. do IUPERJ. como é o caso da Suprema Corte dos Estados Unidos. as seguintes alterações em relação à primeira edição: 1ª) Supressão da referência ao momento teórico ISEB/ESG. e a experiência histórica do mercantilismo ibérico. pertenci à assessoria do Ministério da Aeronáutica. Além disto. revestindo-se de feição consensual. na gestão Moreira Lima (1985-1989). perdera. a fim de avaliar qual das duas denominações seria mais adequada para a nossa circunstância (ibérica). entendo entretanto que estaria deslocado do contexto geral da obra. embora o PT e a Igreja Romana tenham conseguido popularizá-la. cuja efetivação acabaria tangenciando o eixo do debate. do ponto de vista estritamente moral. de que a moderação não pode exercitar-se de posições de força. entre professores e militares. no exercício daquelas funções de assessor. forma transitória de gestão econômica. na Península Ibérica. o exercício das funções de árbitro.

não passaria de uma ingenuidade supor que a tradição patrimonialista brasileira possa ser superada sem a formação de partidos políticos comprometidos com a representação (e não com a burocracia que está super-representada no Parlamento). em nosso país. como começam as tradições culturais. não é razão suficiente para daquelas abdicar.9 baixos níveis de profissionalização. mesmo porque somente elas podem facultar a estabilidade política. colocando o projeto modernizador a reboque do empreguismo e da corrupção. antipatrimonialista. cuidando de retirá-lo da economia e de todas as esferas onde não seja imprescindível. As dificuldades e resistências na privatização da infra-estrutura. para distingui-los nitidamente do que seria a verdadeira vocação do Exército. questões todas exigentes de prazos dilatados. vale dizer. Agradeço ao Senador Lúcio Alcântara. constituem evidências da força do patrimonialismo. correspondia a uma hipótese equivocada. isto é. 110-119. Contudo. Quanto a avaliar de antemão as chances de um tal projeto. Contudo. que é o bem maior na convivência social. A precariedade do funcionamento destas últimas. nesta década de noventa. presidente do Conselho Editorial do Senado -–e a Joaquim Campelo e Carlos Henrique Cardim. . NOTA (*) “Persistência do patrimonialismo modernizador na cultura brasileira” in Pombal e a cultura brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. do exercício de funções moderadoras pelas Forças Armadas. corresponderia a uma temeridade afirmá-lo desde que ninguém conhece. sob Jango e sob os governos militares e subseqüentes. 3ª) Esta segunda edição é mais conclusiva que a primeira.P. acrescentarei o que se segue. a Ordem é mais urgente. bastando ter presente o inusitado da derrocada do Muro de Berlim e das estruturas patrimonialistas do Leste Europeu. a formação de uma elite técnica justaposta à burocracia tradicional. como tem sido a praxe recente. não deve caber à própria organização militar decidir de sua oportunidade nem fazê-lo para substituir as instituições do sistema representativo. com o propósito de eliminar tudo quanto deixe de justificar-se de uma ótica liberal. esta última obteve franca supremacia em duas oportunidades históricas recentes. De modo que a admissão. seriam nulas. a julgar pela experiência secular. ainda que apenas da própria discussão. ao mesmo tempo em que acredita que a tradição profissionalizante de nossas Forças Armadas é mais forte que os impulsos intervencionistas na política. De sorte que a estratégia mais aconselhável à sociedade consiste em tentar reduzir as funções do Estado. p. Agosto. Ainda assim. que sendo a Justiça o valor mais alto. Todos sabemos. 1982. mas no reexame circunstanciado das diversas estruturas burocráticas. 1991 – na qual defende a tese de que o Marechal Castelo Branco tinha esse entendimento. ainda que não se saiba o que irá surgir em seu lugar. o aprimoramento do sistema eleitoral e a emergência de uma liderança liberal competente. que o integram – a inclusão deste livro na Coleção Biblioteca Básica Brasileira. Para não deixar de explicitar integralmente o meu entendimento. que Castelo denominava de milicianos. Embora não se possa negar a existência do que se convencionou chamar de patrimonialismo modernizador. de fato. Essa plataforma não pode reduzir-se a cortes percentuais no Orçamento. razão pela qual podemos nos defrontar ainda com situações exigentes do recurso à força para manter a ordem. 1999 A. desde a advertência de Goethe. Murillo Santos é autor de uma obra capital a esse respeito – O caminho da profissionalização das Forças Armadas.

abril de 1978 A. que me sugeriu o tema. Inspira-se. a Wanderley Guilherme a advertência quanto à característica de que chegou a se revestir a ensaística política brasileira. 1975. Agradeço a Cândido Mendes. Azevedo Amaral e Nestor Duarte) é que competiria transformar esse esquema em autêntico paradigma.P. ou. ou maniqueísta. aos estudiosos dos anos trinta (Santa Rosa. a qual aliás não passa de uma forma embrionária de percepção segundo as regras dos jogos de soma zero”. perdendo-se de vista a componente modernizadora que a singulariza. p. democracia. populismo demagógico. A ingerência do Estado na vida econômica do país é encarada preferentemente do ângulo do empreguismo e da burocratização. Rio de Janeiro. Martins de Almeida. Convém repetir que a peculiaridade da matriz não é a percepção do conflito. A esse propósito escreveu: “A percepção dicotomizada. em especial Roberto Saturnino. nas análises desenvolvidas por Wanderley Guilherme dos Santos. descrevê-la no passado histórico nacional e. NOTA (*) Paradigma e história – a ordem burguesa na imaginação social brasileira. onde sobressai o caráter supérfluo e parasitário de suas instituições. especialmente a partir da década de trinta. alternativamente. da realidade é uma forma especial de perceber o conflito político. Alcindo Sodré.10 APRESENTAÇÃO DA 1ª EDIÇÃO Este ensaio pretende discutir o tema da estatização evitando a posição dicotômica vigente. No debate acerca da estatização tem vigorado a mesma visão dicotômica. finalmente. deste modo. industrialização e independência nacional. propor a alternativa com vistas à sua eliminação. estimulando-me a concluí-lo. Contudo. (*) Parece-lhe que Euclides da Cunha inicia a tradição que busca descobrir uma dicotomia à qual se possa atribuir a origem das crises. corrupção administrativa e subversão comunista. mas a maneira como o percebe. e aos diversos amigos que acompanharam a elaboração do texto. formulando críticas e sugestões. os que colocam em primeiro plano a necessidade de ser aprimorada a nossa capacidade gerencial reduzem o sistema representativo às fracassadas experiências brasileiras. 32. Por outro lado. Rio de Janeiro. Deve-se. . com efeito. Mauro Guia e Vicente Barretto. De conformidade com a matriz dicotômica existem conjuntos de atributos e/ou processos sociais que não podem existir senão simultaneamente – por exemplo.

e 3º) o patrimonialismo brasileiro dispõe de uma base social sólida.11 CAPÍTULO I O ESTADO BRASILEIRO COMO ESTADO PATRIMONIAL: O DEBATE TEÓRICO A doutrina do Estado Patrimonial. de modo radical. A aplicação dessa doutrina à circunstância brasileira. Weber enfatizava que os homens se orientam por uma pauta de valores. contrapondo-se frontalmente ao pensamento do século XIX que pretendeu reduzir o indivíduo e seus valores a um processo biológico ou social. que procurarei caracterizar devidamente. o patrimônio do Príncipe e do Estado. os que não conseguiram superar as tradições patrimonialistas apresentam expressivos contingentes de pobres. nunca foi enfrentada criticamente. diferente daquela seguida pelas principais nações do Ocidente. apresenta os seguintes resultados: 1º) Embora a base do Estado Patrimonial sejam um sistema fiscal peculiar em que não se distinguem. como se dá na circunstância brasileira. precisamente. 2º) a valoração contra-reformista não foi superada em nossa cultura e. Com efeito. como veremos mais detidamente. Mas igualmente negava que a componente . a crítica e a indisposição luso-brasileira com o capitalismo é anterior à sua existência entre nós. capaz de dar-lhe sustentação seja em regimes autoritários seja em regimes democráticos. aponta para uma outra linha de desenvolvimento político. que também estudarei de forma adequada. Enquanto estas encontraram uma base moral para sustentar o sistema representativo e promover o grande progresso alcançado pelo capitalismo. combinando-se de certa forma com as reformas pombalinas e perpetuadas em nosso século pela pregação socialista. exercitando-se o patrimonialismo pela apropriação e usufruto das receitas públicas pela burocracia estatal. 1) O PATRIMONIALISMO SEGUNDO WEBER Max Weber (1864/1929) tentou decompor as dimensões básicas da vida social e que costumam encontrar-se superpostas: a autoridade. talvez possamos concluir que não tenha passado de um desenvolvimento do Estado Patrimonial. há uma componente cultural que pode sobreviver a essa separação. a rigor. geralmente contrapostos a burocracias poderosas e privilegiadas. o interesse material e a orientação valorativa. Na medida em que assente a poeira do grande pesadelo deste século representado pela experiência soviética. logo adiante.

O significado origina-se no indivíduo do mesmo modo que em sua interação com os outros e Weber. O reconhecimento da componente moral não exclui que se expresse na forma de interesse material e que este busque consolidar-se através da autoridade. 2) a dominação tradicional e 3) a dominação carismática. entre os tipos tradicionais aparece. não tomada em bloco mas considerando fenômenos passíveis de delimitação acabada. a seu ver. partindo da experiência histórica. Contra a idéia do século XVIII – escreve Bendix – sustentou que os princípios morais existem dentro de um contexto social e histórico.) que destacam a importância do significado para compreender o comportamento do homem na sociedade. Neste. E não apenas isto. a exemplo do que faz qualquer ciência. (1) A ignorância da componente moral torna incompreensível o surgimento do capitalismo. Esta complexa posição intermediária entre o racionalismo e o reducionismo reflete-se nas definições (. escapa à análise que se pretenda científica. A separação entre os assuntos . direitos e deveres nas relações entre as duas instâncias. achando-se excluída a possibilidade de. Como se sabe. as relações de domínio sedimentam-se como o prolongamento dos poderes do patriarca familiar. esgrimir-se esquemas simplificatórios. tomada como ponto de referência para a modernização da estrutura tradicional típica. predominando nesta última os procedimentos legais. especialmente na medida em que o processo de apropriação se difunde. a partir de tais componentes. como bem o demonstrou Weber na análise das relações entre a ética puritana e o aparecimento da empresa de tipo capitalista. As formas tradicionais da dominação distinguem-se da moderna pelo modo de sua legitimação. a eliminação do valor moral torna incompreensível toda mudança e inovação sociais de certa magnitude. que algumas das idéias morais mais insignes foram concebidas e promovidas em luta contra o uso estabelecido e os interesses criados. na Europa. Contudo. A interpretação axiológica. o que exige o estabelecimento de normas. pois. recolher elementos para configurar tipos-ideais aptos a explica a realidade social. assinala ambos os aspectos. como supuseram os filósofos do século XVIII. Weber afirmou que “a organização política patrimonial não conhece nem o conceito de competência nem o da autoridade ou magistratura no sentido atual. o feudalismo de vassalagem onde o poder do barão não procede diretamente do soberano. a que correspondem estruturas: 1) a dominação legal. As constelações de interesses se correlacionam. que isto se verifica mesmo em relação à moral prática com pretensões melhor fundadas de universalidade. com valores morais e com tipos de dominação. argumentou que as idéias e o comportamento individual também possuem uma dimensão irredutível. prossegue: “Contra a tendência do marxismo ou do darwinismo social em buscar determinantes sociais ou biológicas.. Assim. Na dominação tradicional estabeleceu dois tipos básicos: o patrimonialismo e o feudalismo. Weber inovou igualmente na análise das formas de dominação. Considerou-as tomando três princípios de legitimação.. Weber não pretendia fazer história mas. contudo. reduzir a sociologia à axiologia. o feudalismo ocidental ofereceu a matriz primitiva a partir da qual se chegou à idéia do pacto político como fundamento da distribuição de poderes. Muito ao contrário. Weber não pretende. A “ação” abrange todo o comportamento humano quando o indivíduo atuante lhe atribui algum significado subjetivo e na medida em que o atribui”. levando-a em conta. em formas tipicamente não racionais. Mas. isto é. que deve ser entendida em seu sentido intrínseco.12 moral emprestasse racionalidade à ação. o Estado patrimonial. ao definir o tema próprio da sociologia.

13 públicos e privados. Contudo. em todo o sistema. O domínio exercido pelas normas racionais se substitui pela justiça do príncipe e seus funcionários. subseqüentemente. Estados patrimoniais e feudais iriam marchar para a estruturação de formas legais de dominação. isto é. na Europa. criando ao mesmo tempo a possibilidade de benefícios adicionais para seus funcionários. dentro do tipo arbitrário. consiste na redução ao mínimo de suas funções administrativas. assinala. um homem não submetido ao poder patrimonial de um senhor”. em seu caráter pleno. estratificou a divisão de poderes de forma mais avançada que a estrutura patrimonial. teve que ser um “homem livre. observa Weber. esta penetração. apontada por Weber. garantia que ultrapassava de muito a concessão de privilégios. em contrapartida. mediante um contrato bilateral. No Ocidente. desde que equivale à elevação de seu próprio poderio e de sua importância ideal. com as exceções conhecidas. da polarização em torno de Moscou. somente pode pertencer a uma camada de senhores. . Mais explicitamente: “o Estado patrimonial é o representante típico de um conjunto de tradições inquebrantáveis. do livre-arbítrio e da graça do senhor – se aproxime a uma organização jurídico-política pelo menos relativamente constitucional”. O feudalismo de vassalagem somente se interessa pela sorte de seus súditos na medida em que isto diz respeito aos seus próprios interesses econômicos. proliferam soberanos patriarcas na Época Moderna. Também o Estado russo evoluiu para assumir essa forma depois de Ivan IV. da dupla vinculação pela tradição e pelos direitos apropriados e. a ordem de precedência deu-se naquelas áreas em que a burocracia estamental patrimonialista se revelou mais débil. baseado na coexistência. E conclui: “Trata-se do que faz com que a estrutura feudal – frente ao domínio patrimonial puro. especialmente. “no sentido literal e específico do termo”. (3) Outra característica distintiva do feudalismo. a eliminação de todo trabalho desonroso que não consista no exercício das armas. como a relação feudal. pelo senhor. o ideal dos Estados patrimoniais é o título de “pai do povo”. do espírito de uma garantia da posição ocupada pelo feudatário. voltada para o bem-estar das massas. Os próprios privilégios outorgados pelo soberano são considerados provisórios”. O vassalo. sob o impacto do avanço do capitalismo. prossegue Weber. e as atribuições senhoriais públicas e privadas dos funcionários desenvolveu-se só em certo grau. A par disto. A experiência histórica iria demonstrar que. Foi portanto muito importante. a prática do domínio feudal irá requerer. ascendência nobre cada vez mais dilatada. Por isto mesmo. (2) Weber considerava o antigo Egito e o Império Chinês como as formas mais desenvolvidas de patrimonialismo. condicionada por circunstâncias meramente tradicionais. por outro. Tudo se baseia então em considerações pessoais. o que leva ao exercício do que se poderia denominar de “política social”. entre patrimônio público e privado. persegue a apropriação sucessiva de novas funções. agrega-se àquela primeira qualificação a exigência de um modo de vida senhorial (cavalheiresca) e. O fato de que o direito do vassalo nos distritos clássicos do feudalismo europeu se baseava num contrato. isto é. Com a impossibilidade de atender a toda a descendência dessa camada de barões feudais. a partir do século XIV. O patrimonialismo. mas desapareceu”. por um lado.

Wittfogel encontrou a resposta ao estudar as civilizações que se estruturam em torno da agricultura de irrigação. Assim.14 A esse propósito escreve Weber: “Não é casual que o capitalismo especificamente moderno brote justamente pela primeira vez naquele país. consolidou atividades paralelas. assim como. Diferenciando-se profundamente. por sua vez. Publicou The Natural Foundation of Economic History (1932) e Russia and the East (1936). como a construção e a manutenção de obras hidráulicas que. Considera-se que seu livro mais importante seja O Despotismo oriental. compreendendo o emprego de métodos governamentais: sua direção era uma . tanto no Oriente como na América. em determinadas regiões do mundo. na medida em que veio a assumir certas dimensões. por G. (4) 2) A CONTRIBUIÇÃO DE WITTFOGEL Karl August Wittfogel (1896/1988) é considerado um dos autores que propiciou desenvolvimento criativo da teoria weberiana do Estado Patrimonial. em 1978. cuja primeira versão apareceu em 1957. ao mesmo tempo. a península ibérica abrigava uma civilização feudal primitiva. emigrando para os Estados Unidos para escapar do nazismo.(5) Formulou com precisão o sentido de sua pesquisa através da seguinte pergunta: como se formaram Estados mais fortes que a sociedade? A pergunta é de todo pertinente porquanto fora da tradição constitucionalista do Ocidente. de Columbia. ao invés de se colocarem a serviço da sociedade. a submetem e dominam. formaram-se gigantescas estruturas estatais. segundo os modelos orientais. Estudo comparativo do poder total. denominando-as hidráulicas. no novo habitat. poucas empresas hidráulicas. já o capitalismo antigo havia alcançado seu ponto máximo em análogas circunstanciais”. dos romanos que dominaram a Europa Ocidental. onde permaneceu até 1933. Em 1939 tornou-se diretor do Projeto de História Chinesa mantido pela Low Memorial Library. Tornou-se pesquisador do Instituto de Pesquisas Sociais dessa Universidade. Ulmen (The Science of Society: Toward and Understanding of the Life and Work of Karl August Wittfogel). É interessante resumir algumas de suas observações relativas à Península Ibérica que nos permitem. em torno dessa agricultura de irrigação. identificar as particularidades distintivas do que na terminologia weberiana se chama Estado Patrimonial: “Antes da invasão árabe. comportando uma agricultura irrigada de pequena escala e. poderosas o suficiente para estender seu domínio. onde a estrutura de dominação condicionou uma redução ao mínimo do poder burocrático. que não se transmitisse por simples sucessão hereditária nem se fracionasse. os conquistadores árabes da Espanha conheciam perfeitamente a agricultura hidráulica e apressaram-se. nesse aspecto. Wittfogel fez estudo minucioso e detido dessas sociedades. pressupunham sistemas de defesa. o que se vê na imensa maioria dos países são organismos estatais que. provavelmente. exigiu um novo tipo de propriedade. com o propósito de averiguar traços comuns e peculiaridades. Sua contribuição intelectual foi avaliada. Nasceu em Woltersdorf (Alemanha) e doutorou-se na Universidade de Frankfurt em 1928. em levar a cabo aquelas obras que se tinham revelado extremamente proveitosas em seu país de origem. Inglaterra. vinculando-se inicialmente à Universidade de Columbia. Sob a dominação muçulmana. Depois de 1947 foi professor de história chinesa na Universidade de Washington. a irrigação artificial foi melhorada e estendida. Essa atividade.L.

Passa a constituir-se em verdadeira sociedade hidráulica. estima-se que o Estado chegava a apropriar-se de cerca da metade da renda do setor agrícola. manteve-se intacta a estrutura do Estado absoluto. A isto o autor denomina de extraordinária capacidade de sobrevivência da burocracia czarista. Dispõe-se a dirigir diretamente o essencial da indústria pesada e até mesmo uma parte da indústria de transformação. Nas últimas décadas do século. A influência ocidental manteve-se como algo exterior. com os quais a . administrada de modo despótico por funcionários nomeados e submetida a impostos segundo os métodos agroestatais de taxação. Assim. ao fazê-lo.15 prerrogativa do Estado. A reforma de 1906 mostra o funcionalismo absolutista muito mais preocupado em criar uma classe poderosa de camponeses proprietários (denominados de “kulaks”. a capital da Liga Hanseática. como o fizeram os governos da Europa Ocidental.. torna-se manifesto que era vital para a defesa do país a atividade industrial. sabe-se que. A Europa feudal contemporânea nada tinha de comparável a lhe opor”. empregando assim a maior parcela da força do trabalho. que estava submetida ao regime da servidão. Lubeck. a burocracia czarista mantém o meio rural submetido a um controle administrativo tipicamente oriental. entretanto. isto é. (6) Wittfogel indica que. A exemplo dos estados despóticos originários das sociedades hidráulicas. Quando. com base nas informações disponíveis. Na Rússia pós-mongol. tinha população avaliada em um milhão de habitantes e Sevilha. As relações entre a burocracia do Czar e as forças econômicas privadas mantiveram-se inalteravelmente presas à tradição. Cumpre lembrar que em toda a sua história. até a revolução de fevereiro de 1917. em que pese haja sido o país submetido a sucessivas invasões. depois do término da ocupação mongol. contava com mais de 300 mil. em 1248. no período imediatamente anterior à primeira guerra mundial. O regime da servidão seria extinto apenas na segunda metade do século XIX. a Espanha muçulmana torna-se mais que marginalmente oriental. na segunda metade do século XIV. Assim. esta. Córdoba. chegou a perder cerca de 40% das terras que tinha em seu poder. A Rússia esteve submetida a dois tipos de influência despótica estruturada segundo o modelo estudado por Wittfogel: bizantina e mongol. no século XVI. No apogeu do califato ocidental. É interessante passar em revista os fatos alinhados por Wittfogel para depois tentar descobrir em que teria inovado a burocracia soviética.. mesmo no período subseqüente à criação de indústrias e à aceitação de créditos externos para financiá-las e técnicas alienígenas para operá-las. abrigava 22 mil habitantes e Londres cerca de 35 mil. A burocracia czarista não se sentia obrigada a proteger a aristocracia territorial. nos começos do século XVIII. o governo czarista não se contenta em regulamentar algumas novas indústrias. por meio de taxas diretas e indiretas. transplantado da agricultura. o Parlamento funcionou apenas pouco mais de um lustro. Disso resulta uma circunstância que em geral se perde de vista: a concentração do poder total em mãos da burocracia czarista. O exército mouro passa de tribal a mercenário .. entre 1861 e 1914. sua capital. Um sistema protocientífico de irrigação e de cultura teve por complemento conhecimentos extraordinariamente avançados nos domínios tipicamente hidráulicos da astronomia e da matemática. a burocracia detinha simultaneamente o poder político e o poder econômico.

E conclui Wittfogel: “Certamente que não é necessário avaliar a ordem social russa pelo critério único do controle financeiro. desde que. O despotismo industrial da sociedade de aparelho estatal total alia o poder político absoluto ao integral controle social e intelectual”. Ao contrário: a nova elite burocrática logo conquistou posições de domínio sobre a sociedade ainda mais fortes que a burocracia czarista. considerava que o atraso russo somente seria superado se o socialismo se tornasse vitorioso na Europa industrializada. entre outras coisas. camponeses ricos e campesinato em geral). (7) Wittfogel supõe que os líderes mais importantes da revolução bolchevista deramse conta da virtual impossibilidade de arrancar a Rússia de seu caminho asiático. a extração mineral. a posição monopolista de sua burocracia dominante. faziam mais que a simples perpetuação dessa sociedade. contudo. O aparelho industrial estatizado lhes fornecia armas novas de organização. A coletivização transforma os camponeses em trabalhadores agrícolas submetidos a um único padrão: o novo aparelho do Estado. “Assim – escreve Wittfogel –. aptas a permitir a liquidação dos pequenos produtores agrícolas enquanto categoria social. A seu ver. o despotismo agrário da antiga sociedade aliava o poder político total a um controle social e intelectual limitado. nos começos do século XX o Estado czarista dirigia a parcela essencial das estradas de ferro do país. tanto urbanas (burguesia industrial) como rurais (aristocracia. mas é certamente necessário ter presente que um único “bureau” do aparelho de Estado czarista controlava todo sistema financeiro do país. de outra parte. os aparatchik (8) soviéticos dispunham de um sistema mecanizado de comunicação e de produção industrial que os colocava numa posição superior à alcançada pela burocracia agro-hidráulica. que poderiam lhe opor qualquer sorte de resistência.16 burocracia soviética acabaria desentendendo-se e liquidando fisicamente) do que preservar as prerrogativas da nobreza rural. qual era o papel da burocracia czarista na sociedade rural e urbana. . disso não se pode concluir que a Rússia tenha alcançado um patamar socialista inicial para depois regredir ao velho despotismo asiático. na medida em que os dirigentes da Rússia soviética perpetuam um dos traços-chave da sociedade agro-estatal. Bukharin e seus amigos “de esquerda” também levantaram a voz contra o avanço da centralização burocrática. O Banco do Estado era um autêntico banco central de todo o sistema de crédito russo. a saber. Persistentemente o Estado soviético conseguiu transformar a sociedade numa massa amorfa. Embora tivesse estimulado investimentos privados na indústria. ao longo de sua história. impunha um controle drástico às indústrias monopolistas importantes e ocupava uma posição chave nos investimentos estrangeiros. em 1914. o Estado dominava um terço da indústria de transformação não-monopolista e. não se pode deixar de concluir que. Mesmo antes da coletivização da agricultura. alcançando assim uma consistência com a qual a burocracia czarista não havia sequer sonhado. Se se considera. Por meio das garantias que facultava. propaganda e coerção. os homens do aparelho do Estado eram mais fortes que a sociedade”. Deste modo. Lembra que Lenine. nos começos do século XX. nunca menos de 90% da primeira das indústrias pesadas. a inovação introduzida pela burocracia soviética consiste em se haver apropriado dos segmentos da atividade econômica (a indústria e os serviços industriais) que lhe permitiram promover a eliminação ou a pulverização daquelas forças sociais. preservaram-se segmentos relativamente estruturados na sociedade.

Segundo Faoro. Dela. (10) Contudo. consistiu na formação de estamento de caráter marcadamente burocrático. abandonando as fastidiosas análises de cunho positivista-marxista. que se tornaram a nota dominante na abordagem da nossa realidade político-social neste pós-guerra. Os cargos eram. O Estado português. O . desde os primórdios. uma herança a repudiar em sua inteireza. pagava-o como se paga a um funcionário. Contudo.17 É provável que a derrocada do socialismo venha a promover a renovação do interesse pela obra de Wittfogel. Finalmente. Extremava-se tal estrutura da existência na Europa contemporânea. mas de organização descomunal. ao mesmo tempo. o que me disponho a fazer. como aparelhamento racional. A coroa separava nos nobres a qualidade de funcionário das qualidades de proprietário. parece-me. estruturado e consolidado nos primeiros séculos da história lusitana. o ponto de vista expresso em Os donos do poder (1958) (11) requer considerações mais pormenorizadas. nem com este se compatibiliza. não flui o capitalismo industrial. dentro de tal sistema. tamanha a arbitrariedade de que se reveste a sua démarche teórica. Burocracia não no sentido moderno. tem efeito estabilizador sobre a economia. com seu arbítrio e seu desperdício de consumo. no afã de enfatizar a novidade que trouxe a debate. conseguiu formar imenso patrimônio rural. O grande mérito de Faoro consiste em haver chamado a atenção para a importância da tradição cultural no adequado entendimento do processo histórico e. Semelhante realidade. como diria Alexandre Herculano. O comunismo. convencido que estou de que não fora o aparecimento de outras contribuições. desde que a efetiva do ponto de vista que a doutrina liberal veio a assumir muito mais tarde. não conheceu o feudalismo. em 1975. do próprio Schwartzman e de Lobo Torres. sob o Império. o desenvolvimento histórico desse patrimonialismo. Schwartzman eximiu-se de avaliá-la criticamente. marcando um traço prematuro de modernidade. 3) A APLICAÇÃO DA CATEGORIA À REALIDADE BRASILEIRA a) As limitações do estudo pioneiro de Faoro O debate acerca da oportunidade da aplicação da categoria de Estado Patrimonial ao quadro nacional começa de fato com Simon Schwartzman. afinal de contas. O rei. cuja propriedade se confundia com o domínio da casa real. adotou uma atitude extremamente radical ao deixar de reconhecer o caráter modernizador que o patrimonialismo luso-brasileiro chegou a assumir em certos momentos de sua história. inclina-se por torná-la uma espécie de lei inexorável de nosso desenvolvimento. entre outros. talvez não tenha passado de uma virtualidade do Estado patrimonial. de sua riqueza e de seus poderes. o assunto teria morrido por aí. que se reveste de inquestionável atualidade. ou então. em ter recorrido à inspiração de Max Weber. impedindo a calculabilidade e a racionalidade. quando precisava do serviço militar da nobreza. dependentes do príncipe. Mais grave. Formou-se em Portugal. mostra Faoro. Por tudo isto. embora não tenha deixado de consignar a precedência que de direito cabia a Raimundo Faoro. portanto. um Estado patrimonial e não feudal. a perda do sentido histórico da evolução do liberalismo na crítica à experiência do sistema representativo. ofuscado pela magnitude da própria descoberta. Portugal.

a seu ver. Enquanto no campo o censo alto excluía a grande massa de população. avidamente imitadas da França e Inglaterra. juízes de paz e vereadores. que chegou a ser identificada taxativamente com a dispensa de prova. notadamente de sua reforma da Universidade. muito oportunamente acentuado em livros recentes por Vicente Barretto. João IV”. em movimento e renovação. Em 1886. debaixo do jogo político. com vitória liberal: Minas teve 14 deputados liberais e seis conservadores. sete conservadores e um republicano. Esse assenta sobre a tradição. Rio Grande. no Brasil. dez conservadores e dois liberais. Faoro invoca o argumento do baixo percentual da massa de votante (Capítulo X). o conhecido e tenaz estamento burocrático nas suas expansões e nos seus longos dedos. Rio e Rio Grande do Sul em três eleições. Estes dados. que introduziu na mentalidade desse agrupamento. (12) Faoro dispensou-se de uma análise mais acurada da passagem de Pombal pelo governo português. senhora e detentora da soberania”. agricultura e comércio obedecem a uma tutela. Em 1884 com discreta maioria liberal: eleição quase empatada em Minas. como entidades feitas de vento. Na crítica ao sistema representativo ensaiado durante o Império. que se manteve em expansão. Resumindo essa tese. (13) No esquema de análise montado em Os donos do poder não há lugar para o papel modernizador que o estamento assumiu sob Pombal. no reinado de D. da Magistratura e da Igreja. Sobre as classes que se armam e se digladiam. através do sistema representativo. os habilitados com diplomas científicos ou literários. democratizando os mecanismos reguladores das eleições nas cidades. teimosa na sua permanência de quatro séculos. excetuadas as praças de pré e os serventes. a centralização articulada. mostram que em Minas. pelo predomínio da população urbana. Graças a isto as zonas urbanas chegaram a dar uma feição reformadora à representação liberal oriunda desses centros. “pela mão de seu duro ministro”. teorias assimiladas de atropelo e tendências modernizadoras. com 12 liberais. triturando. etc. todos liberais (eram os “maragatos” de Silveira Martins dominando tudo). o voto manipulado. legitimado no Poder Moderador. de “obra tão quimérica como o plano de companhias de D. não passa. a tentativa de fazer brotar uma nova tradição. Rio Grande. A consideração desapaixonada do tema irá demonstrar que a elite imperial evitaria cuidadosamente o monopólio da representação pela aristocracia rural. Rio (Corte e Província). abrangendo a totalidade do funcionalismo civil e militar. na corte.18 capitalismo possível será a empresa do príncipe. Em 1881. Mas a tradição não se alimenta apenas da inércia. aliás. fazendo caso omisso do fato. parece-lhe malograda. os membros do Poder Legislativo. cinco conservadores e um liberal. esmagadora vitória conservadora: Minas. porquanto a classe proprietária é que se fazia representar no poder legislativo. Rio Grande do Sul. com a peculiaridade de que agora se busca “a modernização implantada do alto”. todos liberais. nos dentes da engrenagem. o que o faz perder de vista a alteração fundamental. 12 conservadores. o corpo docente das academias. senão de fatores ativos. (15) . povo. José I. velhas idéias importadas. o sistema político. Rio. Nação. prenhe de conseqüências para a evolução posterior. pela vitaliciedade. nas cidades introduziu-se a noção de “renda presumida”. vela uma camada políticosocial. não criam. Com a independência. (14) de que o liberalismo em sua feição originária acha-se dissociado da idéia democrática. E o Rio (província e Corte) era dominado pelos barões do vale do Paraíba”. Limita-se a dizer que o empenho de reconquista da independência perdida. “perdida ao mercador inglês e alienada pelo sistema mercantil”. conforme observa João Camilo de Oliveira Torres: “Vamos comparar Minas. o governo de nada valia. 11 liberais e nove conservadores. escreve: “O predomínio do soberano. mas incapazes de alterar os dados do enigma histórico.

resiste a todos os assaltos. contra ou a favor do proletariado. capazes de fornecer-lhe os recursos financeiros para a expansão – daí que. supondo que ele se volta contra o fazendeiro. A lei. “O estamento. Na visão do autor. À luz do que apontou o grosso de nossa intelectualidade (ou pelo menos a sua parte mais ruidosa) não se sentiu instada a explicitar qual é de fato a base moral de suas convicções – justamente o que há de inovador na análise weberiana – o que evidencia ter-lhe escapado o espírito autêntico da proposta de Max Weber. e a nacionalização do poder. que engana o observador. pois a libera de reconhecer o papel que de fato exerce. reduzido.. quando a experiência brasileira sugere que se trata de mecanismos de extrema complexidade. o Estado Moderno .19 A minimização do significado da experiência do sistema representativo sob o império. nos seus conflitos. que há de ser devidamente valorizada quando nos dispusermos a contrapor algo de sólido e estável à tradição patrimonialista. Ricardo Lobo Torres no livro A idéia de liberdade no Estado Patrimonial e no Estado Fiscal (Rio de Janeiro. Ed. não o interessa. para manter a imagem a que recorre. em mãos de Faoro. pela cooptação sempre que possível. que quer ele? Este oscila entre o parasitismo. de caudatária do patrimonialismo. do que com os comandantes do alto. o que se não o leva a capitular diante do marxismo pelo menos o tem habilitado a circular livremente no seio da autodenominada “esquerda”. além de alimentar a sua fogueira com a retórica do conceito vago e impreciso de “classe dominante”. mediante a adoção dos mecanismos aperfeiçoados pelo sistema representativo pode ser alcançado mediante providências simples de caráter como eleição direta. em favor da classe média. mais preocupados com os novos senhores. a mobilização das passeatas sem participação política. para a estrutura patrimonial estamental. do ponto de vista fiscal.. Ilusões de ótica sugeridas pela projeção de realidade e ideologias modernas num mundo antigo. não raras vezes. dispensários de justiça e proteção. E nada melhor para exemplificá-la que a experiência imperial. paternais e. lhe recusa a escolha entre opções que ele não formulou”. pontos de apoio móveis. 1991). Renovar. divorciado de uma sociedade cada vez mais por estas compostas. A eleição. por sobranceiro às classes. serve tão-somente para acalentar a ilusão de que a organização da convivência democrática. valorizados aqueles que mais a sustentam. b) A contribuição de Lobo Torres Na caracterização do Estado Primordial português enfatizou-se a natureza do sistema tributário. entre as classes se alie às de caráter especulativo. lucrativo e não proprietário.(16) Vê-se que. E o povo. retórica e elegantemente. (. Esse aspecto foi estudado de modo brilhante pelo prof. à conquista dos membros reduzidos do seu estado-maior.) O Estado. a doutrina weberiana do Estado Patrimonial transformou-se numa espécie de determinismo histórico. palavra e não realidade dos contestatários. pluralismo partidário. O quadro a que chega Raimundo Faoro é pesado e sufocante. pela violência se necessário. filhos do dinheiro e da subversão. etc. mesmo formalmente livre. segundo entendo. historicamente consistente na fluidez de seus mecanismos. desenvolve movimento pendular. As formações sociais são.. como o bom príncipe. De sorte que Os donos do poder deixou de contribuir para encaminhar o debate acerca do Estado brasileiro na direção de negar e arquivar as fastidiosas análises marxistas.

O exemplo da fiscalidade. contudo. Lobo Torres tem inquestionavelmente razão no que se refere. no qual passa a readquirir valor heurístico. Lobo Torres enxerga o significado de sua investigação no fato de que mina pela base os partidários do determinismo histórico. não se pode tomar a categoria. através de que evoluem ou devem evoluir as sociedades humanas. simultaneamente. desde Alexandre Herculano (1810/1877) filiam-se à tese da ausência do sistema feudal em Portugal. tendo o Brasil passado diretamente do escravagismo para o capitalismo. tratava-se de implantar a sociedade capitalista. Como se sabe. Vale dizer. implicitamente. É interessante registrar a argumentação de Caio Prado e. (17) Ao mesmo tempo. vazada nesses termos: “Negar a existência do sistema feudal no nosso país significa. segundo os quais o curso do Ocidente estaria pré-figurado em ciclos perfeitamente delimitados. Disso naturalmente não se pode inferir que Portugal não poderia trilhar essa ou aquela etapa. Lembro aqui a esse propósito que Caio Prado Júnior (1907/1990) foi muito criticado por seus companheiros de Partido Comunista ao defender a teoria de que. faz sorrir”. pode-se dizer que há plena coincidência entre os culturalistas e os pontos de vista de Lobo Torres. passando por uma fase intermediária. Assim as caracteriza: “O Estado Patrimonial vive precipuamente das rendas provenientes do patrimônio e do príncipe. que inexistem de forma preestabelecida. existindo a sua presença até fins do século XVIII e início do século XIX. 1985). a sua bruta incoerência. permitindo até uma certa simbiose de que se valeram os socialistas. No caso dos que entendem possa aplicar-se ao Brasil a doutrina weberiana do Estado Patrimonial. Isso é. desde fins do século passado. finalmente. há uma outra possibilidade de utilização do conceito de Estado Patrimonial. que encontra o seu substrato na receita proveniente do patrimônio do cidadão (tributo) e que coincide com a época do capitalismo e do liberalismo”. como equivalendo a uma descoberta impeditiva que a nação correspondente venha a transitar para o Estado Liberal de Direito. Uma tal prefixação de etapas. e. Verbo. o reconhecimento da existência do Estado Patrimonial. de que se vale. para recusar o capitalismo e. Consiste esta na consideração da sua base moral. isto é. Lembra a exclamação de Armando Castro. ou de um Spencer e sua concepção da passagem do homogêneo para o heterogêneo. Desse ângulo. a Raimundo Faoro. situada basicamente no século XVIII. mantém-se aferrado à crença de que a passagem ao socialismo seria inevitável. negar a existência de leis gerais do desenvolvimento histórico ou até quaisquer leis”. 1964). estudada de forma definitiva por Marcelo Caetano no seu último livro História do direito português (Lisboa. é bem ilustrativo do que deseja evidenciar. convivendo com a fiscalidade periférica do senhorio e da igreja. que é justamente o que Max Weber tem de inovador nas suas análises. estudiosos de grande nomeada. o Estado Fiscal.20 transitou da situação patrimonial para a racional. de leis gerais e eternas que enquadrariam a evolução dos fatos históricos em leis universais. na obra A evolução econômica de Portugal (Lisboa. Portugal. por exemplo. o Estado Polícia que aumenta as receitas tributárias e centraliza a fiscalidade na pessoa do soberano e corresponde à fase do absolutismo esclarecido. Os valores contra-reformistas não foram ultrapassados pela nova valoração posta em circulação por Pombal. Contudo. tanto portugueses como brasileiros. em nome dessa . O empenho de caracterizar o processo histórico como inexoravelmente vinculado ao esquema “comunismo primitivo – escravagismo – feudalismo – capitalismo” é por ele rotulado de “pseudomarxista” e acrescenta ter “a impressão de estar vagando nas águas do velho Augusto Comte com a sua famosa „lei dos três estados‟.

decrescido de forma constante e progressiva nos últimos 40 ou 50 anos. Entretanto. sem referência ao contexto social. na realidade. também.21 recusa desconhecer solenemente as transformações que incorporou ao longo do século. os marxistas acusaram aqueles que o fizeram de postular a existência de um Estado desencarnado. dá forma definitiva a essa análise. Na fase inicial da utilização da tese weberiana. no entanto. uma área de população marginal e de desemprego. Em um terceiro exemplo. necessariamente. o patrimonialismo brasileiro revelara possuir uma sólida base social. cerca de 50% de sua força de trabalho estava empregada em “serviços domésticos” ou exercia “profissões . setores militares sempre tiveram participação na vida política brasileira. com Juscelino Kubitschek depois de 1955. Um outro exemplo: é fato que o país tem sido palco de períodos de industrialização intensa. ao referir o que depois passou a denominar-se de patrimonialismo modernizador (18) e. tendo afirmado o seguinte: “O fato é que. e onde a cultura e o consumo são mais acentuados. que estes tenham sido governos “dominados” ou “controlados” pela “burguesia industrial”. Antes de explorar essa hipótese. mas isto não significa. que mantém um contato mais direto com o modo de vida europeu. no Brasil é geralmente difícil estabelecer conexões precisas e bem determinadas entre governantes e decisões governamentais. de natureza nitidamente regional. limitarme-ei às referências factuais. A propósito do Rio de Janeiro teria oportunidade de escrever: “Este breve exame delineia três de nossos principais tipos de regiões. Esta é a área mais moderna do país. 1982. cumpre consignar as contribuições de Schwartzman. Schwartzman partira justamente da evidência de que os marxistas nunca conseguiram estabelecer correlações nítidas entre políticas públicas e seu conteúdo de classe. De acordo com o censo do Rio de Janeiro de 1890. Trata-se de elaboração teórica muito sofisticada. e novamente nos últimos anos. por exemplo. com Vargas depois de 1937. pairando no ar. que nenhum governo brasileiro se propõe a alterar de forma realmente drástica o sistema de propriedade da terra. sucessivamente reeditado). que estes governos tenham sido “controlados” pela elite rural. utilizando a categoria weberiana de Estado Patrimonial. (19) Na visão de Schwartzman. Seu principal suporte encontrar-se-ia no Rio de Janeiro. De modo que a aplicação da categoria de patrimonialismo à realidade brasileira pode dar-se no âmbito estritamente cultural. prescindindo do embasamento doutrinário. ao indicar que dispunha de uma base social muito sólida. c) A base social do patrimonialismo brasileiro segundo Schwartzman Suponho que Simon Schwartzman propiciou uma importante contribuição ao entendimento do nosso país. Ninguém diria. Uma é a sede do governo. É. inicialmente Salvador e depois Rio de Janeiro. Não há dúvida. mas as tentativas de estabelecer um vínculo entre a participação militar e as “classes médias” nunca passaram de um esforço pouco compensador para “explicar” a falta de correspondência entre a instituição militar e grupos de interesses sócio-econômicos claramente definidos”. No livro Bases do autoritarismo republicano (Editora Campos. sobretudo. e classes sociais e grupos de interesses específicos. de um lado. certamente. não porque o considere de somenos importância mas para não alongar demasiado a exposição. no Nordeste e em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. cuja força política tem. de outro.

Uma das questões mais obscuras – e ao mesmo tempo das mais interessantes – da história econômica e política do Brasil relaciona-se com o que acontece com essas áreas quando perdem sua capacidade exportadora. em 1889. o berço da vocação política de Minas Gerais. a residência do governante ou do corpo administrativo é a componente mais importante de sua estrutura e funcionamento. e desprovida de uma atividade econômica importante de alta lucratividade. a exaustão das atividades mineiras. o que representava 62. uma parte considerável dos seus quadros. e os burocratas e comerciantes. e esse é. cidade desenvolvida de forma muito mais independente e isolada. um processo de declínio econômico e político. desenvolveu sua própria ortodoxia. fornecendo. de formas variadas. Um outro remanescente foi a estrutura burocrática da administração colonial. A antiga área de cultura da cana-de-açúcar. O Rio Grande parece ter desempenhado no Brasil um papel semelhante ao que Portugal e Espanha desempenharam na Europa cristã: como um posto militar de fronteira. e daí em diante.22 não declaradas”. ao contrário. de outro. certamente. como em outros países. estava relacionado a isto. Mas as diferenças não eram assim tão grandes: 76% dos negros e 53% dos mulatos pertenciam a esse grupo. ocorrida por volta da segunda metade do século XVIII. que participam ativamente. O fato racial. essa distinção permite ver o Rio de Janeiro como uma cidade muito mais próxima. Finalmente.5% de toda a população “empregada”. e as antigas áreas mineiras de Minas Gerais são provavelmente os melhores exemplos do tradicionalismo brasileiro. são “núcleos econômica e politicamente autônomos. Em . também. regiões que experimentaram um período de progresso no passado. na derrubada do Império. localizada sobretudo nas concentrações urbanas. depois. deixou a província com a maior população do país. Aplicada ao Brasil. (20) Nessas cidades. Seus recursos econômicos provinham do comércio e do funcionalismo público. um incômodo para a elite. Entretanto. que reunia forças tanto para a luta contra o inimigo espanhol e portenho quanto para a luta pela autonomia em relação ao Império brasileiro. e ambas as regiões tiveram um passado de riqueza e proeminência nacional. definindo-as como segue: “No Brasil. comumente. no Nordeste. de um modo geral. O Rio de Janeiro do século XIX e do início do século XX pode. sede política e administrativa do Império. se aproxima bastante do que seria o modelo clássico de cidade “ocidental”. Desempenhou um papel bastante ativo na vida política nacional. Essa massa de população marginal representava. e nesse sentido não difere muito de outras capitais administrativas de sociedades não-industriais. muito provavelmente. Minas e o Nordeste acham-se na categoria que denomina de Regiões tradicionais. As cidades resultantes do desenvolvimento industrial. e sua vida política caracterizava-se por certo grau de tensão entre a pequena nobreza regional dependente. desde a criação do Partido Republicano Riograndense em 1882. No caso de Minas Gerais. obviamente. a qual. ocasionalmente. de um lado. do modelo “oriental”. mas também 43% dos brancos. alimentados pela atividade comercial ou industrial de seus cidadãos”. sofrendo. enquanto que São Paulo. em contrapartida. o positivismo – em uma combinação peculiar com a tradição militar local e a cultura boiadeira – e uma forte oligarquia estadual. historicamente. mas. uma vez que a escravatura fora abolida há apenas dois anos. ser qualificado como uma “cidade pré-industrial”. tinha que se haver com suas agitações. o Rio apresentava um cenário de política popular e de participação da massa que pouco tinha a ver com a maneira pela qual as coisas eram realmente decididas. prossegue. com ocasionais mobilizações das massas. da condução de seus destinos. A região era base da ala mais importante do Exército brasileiro. as áreas “tradicionais” não constituem regiões que ainda não se modernizaram.

e o livro de Vamireh Chacon – Estado e povo no Brasil. Goulart. permanece o fato de que o papel político do Rio Grande. tem atuado de forma relevante para a adequada compreensão de nosso sistema educacional. Costa e Silva. Seria importante levar em conta as divisões internas no estado e seu papel econômico especial como supridor de bens no mercado nacional. a burocracia luso-brasileira dispõe de enorme sabedoria no trato e na manipulação do populacho. que veio a merecer tradução brasileira (1978). Espírito sistemático. A par disto. Vargas novamente. historicamente. mais a ver com sua tradição militar. através de seus filhos civis e militares. como bom católico e bom vassalo. a máquina governamental no Rio de Janeiro continua correspondendo a um terço do mercado formal de trabalho. no Rio Grande do Sul. em que pese a existência de componentes modernos nas regiões mencionadas. No Nordeste. E Pombal o exprime abertamente nas Observações secretíssimas (1755) ao assinalar a forma ordeira como se comporta a multidão. em outras capitais européias. quando mobilizada pelo Estado. O próprio Simon Schwartzman polemizou com os marxistas e produziu outros textos interessantes antes de dar feição definitiva à sua proposição. e com eles os gaúchos literalmente atrelaram seus cavalos na capital nacional. 1977). e este primor de recomendação ao seu sobrinho governador: “Não consinta V. nas mencionadas Bases do autoritarismo republicano (1982). fará nisso serviço a Deus e a El-Rei”. Médici e Geisel. o fiel executor de ambos. 1976). E. Mesmo com a mudança da Capital Federal. assim como a importância da imigração européia para o desenvolvimento agrícola de alta produtividade dentro do estado. em 1961. onde. chegou ao poder nacional com Vargas. que tinha sido anteriormente governador do Rio Grande do Sul. todos esses presidentes gaúchos atestam a marcante vocação do Rio Grande para o poder nacional. Exa. Destacaria “Corporativism and Patrimonialism in the Seventies” (1978) e “As eleições e o problema institucional” (Dados nº 14. as . depois de 1964. com o brilhantismo que o caracteriza. diversos núcleos dependem integralmente da presença de guarnições militares para sobreviver. ao contrário do que ocorreria.23 1930. contudo. violência dos ricos contra os pobres. porque de ordinário os poderosos são soberbos e pretendem destruir e desestimar os humildes. seja defensor das pessoas miseráveis. Exa. tem. em 1950. a nível nacional. caudilhista. Caberia referir também a tese do pensador colombiano Fernando Uricochea (The Patrimonial Foundation of the Brazilian Bureaucratic State. revolucionária e oligárquica do que com os aspectos modernos e europeizados de sua economia e sociedade. o fato de o Estado constituir uma presença aplastante. de acordo com os interesses de Borges de Medeiros.” Schwartzman pretende evidenciar. Da nossa burocracia pode-se dizer o que costuma ser afirmado do Diabo: é perigosa porque é velha! (21) d) Principal resultado do debate O debate da hipótese do Estado Brasileiro como Estado Patrimonial não se resume aos momentos assinalados. Schwartzman parece ter dado por encerrada a sua contribuição ao entendimento do Estado brasileiro e voltou suas atenções para a sociedade. esta recomendação é das leis divinas e humanas e sendo V. Este breve esboço é por demais sucinto para registrar outros importantes aspectos do papel do Rio Grande do Sul na história brasileira. aos quais voltaremos. as chamadas “ilhas de modernidade” são de fato ilhas. segundo ele. o chefe político do estado. Apesar desses pontos.

Éditions Minuit. 1982 – serviu para situar o papel daquela eminente personalidade no esforço de inserir-nos plenamente na Época Moderna. É o que procurarei fazer nos capítulos subseqüentes. 1970. p. p. 1973) e Ideologia e política no pensamento de José Bonifácio (Rio. (9) Obra citada. (20) Bases do autoritarismo brasileiro. 1982. (19) São Paulo e o Estado Nacional.24 experiências do Estado Novo e da democracia populista. in Pombal e a cultura brasileira. Os donos do poder. como tem procurado fazer Meira Penna em sua obra mais recente. p. Fondo de Cultura Económica. Porto alegre. p.. p. 1937-1964 (1977). Buenos Aires. (18) Creio que a elaboração acabada dessa categoria seria da lavra de Ricardo Vélez Rodríguez no texto “Persistência do patrimonialismo modernizador na cultura brasileira”. Zahar. um retrato intelectual. (2) Economia e sociedade. 33. governador do Maranhão. p. ´. p. 1977). (7) Obra citada. 2ª ed. (8) Integrantes da máquina burocrática. ed. espanhola. Difel. 1977 . 387. p. 821 (V. (14) A ideologia liberal no processo da Independência (Brasília. Paris. 529-530. São Paulo. (12) Ed. Globo/USP. trad. Amorrortu. estado estamental e patrimonialismo). Embora o termo patrimonialismo haja ganho certa popularidade e até mesmo muitos políticos tenham passado a utilizá-lo. Trad. (15) Os construtores do Império. p. (17) A Revolução brasileira. Tempo Brasileiro/Fundação Brasil-Portugal. cit. 1968. com base na edição de 1959. 261-262. (13) Capítulo VI. Cia. 16. (5) Original em inglês. Rio de Janeiro. (6) Obra citada. Tradução francesa. UnB. México. 227/228. Acredito que tal se deva ao fato de que encaminhamos a discussão diretamente para o plano moral. Sociologia da dominação. 847. (16) Capítulo final. abril/junho. (21) Carta de Pombal a Joaquim de Melo Povoas.. espanhola. Brasiliense. (4) Obra citada. 27. nº 3. (3) Obra citada. Transcrita in Documentação e Atualidade Política. a intelectualidade acadêmica preferiu francamente bloquear essa discussão. 1964. A segunda aparece justamente em 1975. p. p. 23. 1975. 219-221. 784 (IX. VI. Cap. NOTAS (1) Max Weber. A obra coletiva que tive oportunidade de organizar – Pombal e a cultura brasileira. 2 v. São Paulo. 1977. 1975. pode-se dizer que o principal resultado da tentativa de aplicar à realidade brasileira a categoria de Estado Patrimonial reside na evidência de que corresponde a um fenômeno cultural. Assim. Tempo Brasileiro. cit.. p. IV. 655 p. 739 e 748. 2ª ed. editado pela Yale University Press. Dominação patriarcal e patrimonial). tradução francesa. São Paulo. (11) Raimundo Faoro. cabendo estudá-lo prevalentemente nessa condição. Editora Nacional. (10) A primeira edição de Os donos do poder é de 1958. p. Feudalismo. 1966. Zonas centrais marginais e submarginais das sociedades hidráulicas. 441.

Essa perspectiva analítica esbarrou com a questão da presença dos valores.25 CAPÍTULO II UMA PRIMEIRA INDICAÇÃO DA PREVALÊNCIA DE FATORES CULTURAIS: OLIVEIRA VIANA Francisco José de Oliveira Viana nasceu em 1883 na cidade de Saquarema. aceitando o termo comteano modificou-lhe o sentido ao separá-la da ética. Dedicou-se ao jornalismo e ao magistério. que é entretanto retomado após a queda do Estado Novo. viveu e educou-se na capital fluminense. direção na qual marchou a chamada visão analítica. enquanto o filósofo inglês. As novas funções de certa forma levam-no a interromper o sentido principal de sua obra. Seu primeiro livro – Populações Meridionais do Brasil – aparece em 1920. estar falando de ciência capaz de dominar os fenômenos sociais em proveito do homem. mas ainda tomada como um todo. Augusto Comte (1798/1857) distingue-se de Herbert Spencer (1820/1903) pelo fato de que o fundador do positivismo imaginava. notadamente na obra Règles de la méthode sociologique (1895). pelo menos. No primeiro caso. ingressando no Corpo Docente da Faculdade de Direito de Niterói em 1916. Na fase da pesquisa. o que parecia conduzir ao conflito inevitável das avaliações. Depois da revolução de 30 torna-se Consultor da Justiça do Trabalho. Nesse mesmo ano publica O idealismo da Constituição. concluindo o curso de direito em 1905. na ação humana. quando completa 37 anos. 1) TRAJETÓRIA INTELECTUAL Os grandes tratadistas costumam classificar a sociologia como tendo experimentado um ciclo inicial de natureza sintética. substituído posteriormente por uma visão analítica. complementando-a pela delimitação estrita do campo a ser pesquisado. Nessa fase. Estava dando um passo essencial no sentido de colocar esse tipo de investigação em bases científicas. no interior do Estado do Rio de Janeiro. os estudiosos podem colocar-se de acordo. criando uma espécie de sociedade racional. de modo inarredável. em 1951. ao empregar o termo sociologia. circunscrevendo os seus limites à tarefa puramente descritiva da sociedade. dando origem à diversidade de avaliações. teria o propósito de abranger a totalidade dos fenômenos sociais. ao tempo em que as avaliações extrapolam o plano científico. Ao longo da década de vinte viria a adquirir grande nomeada. Faleceu aos 68 anos de idade. Max Weber (1864/1920) solucionou a controvérsia ao mostrar que a pesquisa empírica pode ater-se a parâmetros rigorosamente científicos. Em 1940 passou a integrar o Tribunal de Contas da União. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. deixa-as na dependência dos resultados concretos da consideração de aspectos limitados. razão pela qual devem ser evitadas se se deseja ater-se ao . tendo desempenhado papel muito importante na ordenação do direito do trabalho brasileiro e na concepção dos institutos a que deu surgimento. Emile Durkheim (1858/1917) seria o iniciador desse novo ciclo. Interessa-se por aspectos particulares dos fenômenos sociais e evita as grandes generalizações ou. desde que se admita a possibilidade de múltiplas valorações.

ao escrever em Instituições políticas brasileiras: “Esta compreensão objetiva e científica de nossas coisas e de nossos problemas eu a adquiri cedo.. o espírito liberal das instituições que regem a república americana. o grande maciço continental de Minas e os platôs agrícolas de São Paulo. consiste em ter procurado identificar os valores a partir dos quais os principais grupos da elite nacional nortearam seu modo de agir. da cúpula burocrática estatal e das elites urbanas. Assim. Os riscos a evitar eram notoriamente de dois tipos. notadamente no Brasil Social (1908). contrariando a tradição de considerar ao povo brasileiro como massa homogênea. Caberia a Sílvio Romero (1851/1914). Devido a essa circunstância. de modernização) deduzido integralmente de uma doutrina acabada (como era o caso dos positivistas). as agitações parlamentares inglesas. tão sólido e seguro nos velhos capitãesgenerais. Este. O primeiro consistia em adotar um programa reformador (diríamos. 1982). . Embora sem se desprender inteiramente das teorias oitocentistas dos fatores determinantes. políticos. A inovação fundamental introduzida por Oliveira Viana na investigação da realidade brasileira. Assim. o desprendimento da sociologia de pressupostos apriorísticos – entre os quais se inclui o positivismo dos seguidores de Comte – é fenômeno que abrange mais ou menos o mesmo período mas tem outros elementos impulsionadores porquanto se tratava de compreender o Brasil. Os principais centros de formação do matuto são as regiões montanhosas do Estado do Rio. Rio de Janeiro. O objetivo de Oliveira Viana é chamar a atenção para a realidade circundante autêntica e denunciar o vezo de copiar instituições européias. de Euclides da Cunha (1866/1909) como principal marco do novo entendimento. que a seu ver começa com a independência. quem me deu a primeira orientação. é de todo pertinente a aproximação que Ricardo Vélez Rodríguez faz entre sua obra e a de Max Weber (Oliveira Viana e o papel modernizador do Estado Brasileiro. o processo de constituição da sociologia como ciência abrange grande parte da segunda metade do século XIX e as duas primeiras décadas deste século. das nossas classes dirigentes: há um século vivemos politicamente em pleno sonho. desapareceu. com base na chamada Escola de Le Play. E.26 mencionado plano. Não foi (Alberto) Torres. tudo isto exerceu e exerce sobre os nossos dirigentes. A isto Weber denominou de neutralidade axiológica. Em Populações Meridionais do Brasil. iniciada pelos predecessores. roteiro que seria adotado e de certa forma cumprido por Oliveira Viana. o segundo. neste sentido. Universidade Gama Filho. como geralmente se pensa. De sua presença acha que resultam três sociedades diferentes: a dos sertões. aliás. Oliveira Viana distingue três tipos característicos na formação de nosso país. teria oportunidade de reconhecer o seu débito em relação a Sílvio Romero. Os métodos objetivos e práticos de administração e legislação desses estadistas coloniais foram inteiramente abandonados pelos que têm dirigido o país depois da sua independência. foi Sílvio Romero”. podendo-se considerar Os Sertões (1902). estadistas.. estudou a valoração dos grandes proprietários. hoje. A esse propósito escreveu: “O sentimento das nossas realidades. a das matas e a dos pampas. as gerações que emergem de setenta a noventa irão encaminhar-se na direção do que então se entendia como pesquisa empírica. a tentação de encontrar um princípio explicativo do tipo do clima – a exemplo do historiador britânico Henry Thomas Bukle (1823/1862) – ou da raça. com efeito. com estes tipos característicos: o sertanejo. o matuto e o gaúcho. O grande movimento democrático da revolução francesa. Exerce influência poderosa no curso histórico seguido pelo país. No caso brasileiro. elaborar um roteiro exaustivo da investigação a ser empreendida.

“as idéias políticas. capaz de impor-se a todo o país pelo prestígio fascinante de uma grande missão nacional”. além da liberdade – como sejam a civilização e a nacionalidade. publicistas. incontrastável. o que de certa forma obscurece sua inteira significação. aqui. (2) Em geral. aparecido pouco antes da Revolução de 30.27 legisladores. uma fascinação magnética. E prossegue: “Este alto sentimento e essa clara e perfeita consciência só serão realizados pela ação lenta e contínua do Estado – um Estado soberano. afinal. continuada em Evolução do Povo Brasileiro (1923). conclui-se que lhe . que são. Vislumbra a emergência de “sensível tendência centrípeta. pode muito bem ser um fator de fraqueza e aniquilamento e. muito mais favorável ao progresso de um povo na direção daqueles dois objetivos. sobre cujo fundo de florestas e campos. a fim de completar e desenvolver o conjunto de sua obra. A linha a seguir está desde logo esboçada neste primeiro livro: tornar o Estado um grande centro de transformação social. que há muitas outras causas dignas de serem defendidas em política. de localismo ou provincialismo preponderante. pode realmente resultar na morte da liberdade e da democracia”. nos centros intelectuais e partidários. não só. em vez de ser um grande agente de força e progresso. todos os espíritos que se jactam de liberais e adiantados. Encarada no conjunto. escreve. apto a “fundir moralmente o povo na consciência perfeita e clara da sua unidade nacional e no sentimento político de um alto destino histórico”. que lhes daltoniza completamente a visão nacional dos nossos problemas. um rápido movimento das forças políticas locais na direção do poder central”. que perturba a visão exata das realidades nacionais a todos esses descentristas e autonomistas. nessa primeira fase com o livro Problemas de Política Objetiva. além das distorções e simplificações. Um regime de descentralização sistemática. “Há vinte anos”. Porque é preciso recordar. na análise da obra de Oliveira Viana tem sido dada maior atenção àquela parcela voltada para o intervencionismo estatal. Neste comenta e avalia as propostas de Alberto Torres e enxerga no país um novo clima. uma grande ilusão. A primeira delas seriam as instituições políticas. que a liberdade e a democracia não são os únicos bens do mundo. passam e repassam cenas e figuras tipicamente européias”. e que muitas vezes acontece que um governo não liberal nem democrático pode ser. unitário. locais como federais. e peregrino. um Brasil de manifesto aduaneiro made in Europe – sorte do cosmorama extravagante. de fuga à disciplina do centro. não obstante. ao retomar a meditação interrompida nos anos trinta Oliveira Viana pretendia estudar três grupos de questões. perdem a noção objetiva do Brasil real e criam para uso deles um Brasil artificial. centralizado. em vez de assegurar a liberdade e a democracia. corresponde entretanto a uma das mais notáveis contribuições ao entendimento do país. A mensagem de Oliveira Viana é clara e precisa: “Há evidentemente em tudo isto um grande equívoco. em 1920. diferiam muito das idéias atuais: traíam a concepção centrífuga do regime federativo”. com Seeley. Sob esse fascínio inelutável. ainda por descobrir e civilizar. favorável à centralização. (1) A meditação que inicia com Populações Meridionais do Brasil e com a denúncia do que então denominou de “idealismo da Constituição”. A julgar pelo fato de que o livro em que aborda o assunto tenha aparecido em 1948. coroa-se. 2) O COROAMENTO DA OBRA DE OLIVEIRA VIANA Pelas indicações que nos legou.

estas palavras embebidas na mais sadia ética. São Paulo. da riqueza. nos anos quarenta. Elaborou. a realização do progresso era obra dos europeus e não dos asiáticos ou africanos. Sob este novo ângulo de visão. acrescentou o seguinte: “Minha tese central sobre antroposociologia das elites e que pretendo desenvolver nos meus livros sobre sociologia dos migradores e das elites é muito aproximada da que se refere Linton na sua Introdução à antropologia. em 12 de outubro do mesmo ano. o biologismo universal. o mesmo ano em que aparece Formation ethnique du Brésil colonial. (Do prefácio à 2ª edição de Evolução do povo brasileiro. Denominou a primeira parte de Psicologia das etnias. p. O segundo grupo dizia respeito à questão racial.28 haja atribuído prioridade. a questão da raça. Oliveira Viana era caudatário do meio. a questão para Oliveira Viana apresenta-se de modo diverso.. a fim de realizar o sonho do progresso. apesar de tudo. Na sua honestidade intelectual inexcedível. portanto. já pela altura dos anos trinta havia alterado o seu ponto de vista. do dólico-louro e da sua superioridade. renovei profundamente minhas idéias sobre este e outros problemas da etnologia e da antroposociologia. há que alterar. o plano de um livro intitulado Antroposociologia das elites. como no mundo. – mas acreditava-se que essa postura diante do mundo tivesse algo a ver com a raça. Parece-lhe que uma investigação dos elementos étnicos poderia dar base a uma ciência que chamou de antroposociologia. por Martial e Montandon. escreveu uma nota introdutória intitulada de “advertência”: “Neste livro. 1933). a exemplo do que ocorria às suas vistas nos Estados Unidos. que fica. Viana se emancipou daquela quase tutela européia. (3) Quando a retoma. reduziu-se muito da sua importância e acabou saindo do horizonte das minhas preocupações”. com as grandes fontes de elaboração científica neste domínio. 7375. No final de contas.. etc. de acordo com a doutrina francesa (Montandon e Martial) ao conceito das “raças históricas”. pois. São Paulo. Havia certamente o entendimento de que se deveria buscar novos padrões culturais – isto é. à época. não apenas pela cultura . Com a data de 28 de julho de 1943. e as idéias de Gobineau e Lapouge. Em vez de raça – tipo biológico (“raças zoológicas”). Realmente. Entretanto. irresistível. sendo superiores. Substituí. de elevação e dignidade: “Devo confessar que após um estudo mais profundo dos problemas da raça e o crescente contato. escorreito na atitude do cientista veraz. em revisão total. 1943. a valorização do trabalho. porém mais definido e concreto. Na fase em que formou seu espírito. abandonando o conceito biológico dos alemães. A esta nota. A nova postura está definida deste modo no Prefácio: “O problema étnico na Europa havia sido posto pelos cientistas teutônicos sobre a base da superioridade da etnia germânica. as novas idéias ele as resumiu em Raça e assimilação. por “etnia” o que nestes capítulos é averbado à “raça”. escrito em 1923. dentro do critério mais científico e limitado. o conceito de “raça”. De sorte que em seus primeiros trabalhos. Retorna. de “etnia”. Completa identidade entre mim e ele: o que ele chama de bread é o que eu chamo de etnia”. e todo o esforço dos pensadores alemães convergia em demonstrar a tese de que os povos germânicos. etc. trabalho editado pelo governo da França. clássico. no começo do século. como adverte Marcos Almir Madeira: “Ao tempo dominavam aqui. em que entrei. o conceito será o da raça revelada através da “etnia”. Editora Nacional. as principais personalidades de nosso mundo cultural entendiam que era preciso promover emigração predominantemente européia. de 1932.

cabia-lhes o direito de domínio do mundo. O terceiro grupo de questões. entre germanos e celtas ou. Oliveira Viana tinha em vista o empenho de compreender o contexto cultural em que se deu a atividade produtiva destinada à obtenção de bens materiais e serviços. aproveitando para compô-la o que havia escrito em outras oportunidades. Com semelhante denominação. que não podíamos abandonar o tema. a tese igualitarista e educacionalista”. Os pensadores latinos. Diante dessa evidência. Dispôs de muito pouco tempo para programa tão vasto. dividiu-a em duas partes. em 1951. O essencial seria o que chama de “tabelas de valor”. Parecia-lhe. o novo tema iria absorvê-lo integralmente. para usar suas próprias palavras. Mas ainda assim restava-lhe escrever sete capítulos. idéias e sentimentos que se cristalizaram em tradições e usos de nossa coletividade nacional”. na Coleção Reconquista do Brasil. No que respeita entretanto os valores fundamentais de nossa sociedade levantou o essencial. corresponde a algo de novo em sua obra. O capitalismo propriamente dito correspondia ao menor segmento. com exclusão mesma das gentes celtas ou mediterrâneas. A primeira permaneceu inédita durante cerca de quarenta anos. Subdividiu-a em 16 capítulos. contra esta tese que os feria diretamente na sua dignidade nacional e – o que é mais – encerrava uma ameaça formidável aos interesses aos povos não germânicos no mundo. à mentalidade. para cujo entendimento requer-se atenção aos costumes. então. das “tendências gerais de nossas instituições econômicas e das idéias e sentimentos que vêm presidindo e inspirando o seu desenvolvimento e expansão. Em síntese. em 1987. adiante apresentada. Para esse fim planejou uma segunda parte da obra. com veemência explicável. . Revelando-se decisivo para a compreensão do Brasil. elaborando a história social da economia verificara que na sociedade brasileira como um todo predominavam valores pré-capitalistas. intitulada Mobilidade social e formação das nossas elites. reagiram. a que pretende se dedicar. mais expressamente. cabendo-nos pesquisá-lo. embora o espírito que a anime seja o mesmo que nutre a sua inspiração fundamental. certamente mais reveladora de nossa maneira de ser. Sem ter concluído a História Social da Economia Capitalista no Brasil lançou-se logo à outra obra – que lhe parecia destinada a uma “investigação mais larga” – voltada para a economia pré-capitalista. Oliveira Viana tinha mais de sessenta anos. “Esses pesquisas – dirá – versarão sobre o homem em nossa pátria. aos outros demais povos. nem o espírito metafísico. nesta réplica. etc. Denominou-o história social da economia. às instituições representativas. Quando retoma a sua meditação original. tendo falecido aos sessenta e oito. Como era natural. A seu ver. entre franceses e alemães”. mas um espírito estritamente naturalista”. nós brasileiros nada temos a ver “com esta querela entre dólico-louros e braquicéfalsos. aos tipos sociais. Dessa descrição deve resultar a identificação. como observa Papillaut. sendo publicada pela Editora Itatiaia. mas o espírito que há de presidilas e inspirá-las não pode ser o espírito religioso.29 mas também antropologicamente. especialmente franceses. deixando de executá-la. foram além do razoável: acabaram negando tudo e criaram. É provável que tal haja ocorrido na medida em que avançava na elaboração da parte última do plano. às novas classes. uma correspondente ao capitalismo e outra correspondente ao pré-capitalismo. tarefa de que se desinteressaria. em geral. Deste segunda teve tempo de ultimar a introdução.

distinguiu-se de forma bastante precisa moral individual de moral social. a saber: 1) a moralidade dos grandes senhores rurais. em nosso país. 2) a moralidade da elite estatal. Podia-se mesmo dizer que a muitos pareceria desnecessária e inútil. a moral social é de tipo consensual. No Decálogo diz-se expressamente que “não farás para ti nenhum ídolo que reproduza a imagem de quem quer que seja que está no alto do céu. entre católicos e protestantes. incumbia à Igreja Católica dizer o que era moral e o que era imoral. Oliveira Viana deve ter-se dado conta dessa situação singular. Pelo menos o tema não foi sequer discutido. sobre a Terra. Em síntese.30 3) OS VALORES BÁSICOS DA SOCIEDADE BRASILEIRA Durante cerca de cinqüenta anos. A moralidade social básica. imaginava que estivesse adaptado aos valores da sociedade capitalista moderna. Não te prostrarás nunca diante delas. a seu ver. No fim da vida aproximou-se do que lhe parecia ser um elemento comum aos grupos estudados. nessa matéria. lógico. que é a fonte fundamental de toda a moralidade ocidental. consensual –. Até muito recentemente. ou exigir que a pornografia seja submetida a certos limites. e. Como veremos a seu tempo. mais precisamente: o abandono do preconceito da virgindade – e a admissão da promiscuidade entre os jovens. Essa temática foi discutida com toda intensidade no século XVIII. atualmente. esse mandamento seria reintroduzido pelos protestantes. É possível que tenha dado conta da inexistência. 3) a moralidade da elite urbana. Em relação a esta última. Oliveira Viana estudou os valores básicos da sociedade brasileira.. Oliveira Viana distingue três tipos de moralidade presentes no processo histórico brasileiro. Assim. e não as adorarás. Parece que. em muitos círculos soa como algo retrógrado e inadmissível estabelecer-se uma distinção entre o reconhecimento da legitimidade das relações sexuais antes do matrimônio – para ambos os sexos. de uma moralidade social básica. (4) No Brasil. A primeira encontra seus fundamentos nas próprias crenças mais profundas do indivíduo. segundo as circunstâncias. ou embaixo. na evolução dessa sociedade distinguia o que chamava de supercapitalismo. recolhe-se a impressão de que inexiste moralidade social livremente convencionada. A segunda é fruto de uma negociação na sociedade. O próprio Decálogo de Moisés. formulando uma hipótese que seria presumivelmente a seguinte: inexistindo moral social de tipo moderno – vale dizer. Tenha-se em conta que não se tratava de questões de somenos importância.” Retirado da prática pela Igreja Católica. sendo talvez a Inglaterra o país onde o debate foi melhor sucedido. etapa que podia e deveria ser evitada no caso brasileiro. desde que nós homens sempre a desfrutamos. O certo é que se orientou na direção dos valores morais dos grupos sociais que. eram dominantes. dava margens a disputas acirradas.. resultou da divergência radical. Também em matéria de riqueza a divergência é absoluta. Vivemos como se a convivência social pudesse prescindir de regras morais ou como se a opção disponível consistisse em fixá-las autoritariamente. No mundo moderno. surgida na Época Moderna. na medida em que avança nessa . ou nas águas debaixo da terra. buscando ter dessa questão entendimento cada vez mais aprofundado. fenômeno que corresponde a uma criação da Época Moderna. Dessa presunção partiu diretamente para a análise da moralidade inferida das ações dos agrupamentos sociais mais importantes. inexiste uma instância substitutiva livremente reconhecida. deve predominar a moral desse ou daquele grupo. Para sua surpresa.

Diante desse resultado. No terceiro século. a elite que concebeu e implantou as instituições imperiais soube compor com equilíbrio as duas forças dominantes. os traços que a sociologia moderna distinguia no que denominaríamos de empresário e o autor chama de capitão de indústria e homem de empresa. 2ª) probidade. vitoriosa a primeira com o ato adicional. Não teria oportunidade de levá-la a termo. organizam a capangagem.31 investigação verifica que os segmentos adaptados aos valores do lucro e da competição são de fato ínfimos. uma tendência contraposta que aspira esmagá-la de todo. provavelmente. Em síntese. A origem de tais valores é o tema principal da investigação do livro subseqüente (Introdução à História Social da Economia Pré-Capitalista no Brasil). entende. Os valores dos demais grupos sociais estão estudados nos livros Populações meridionais e Instituições Políticas Brasileiras. com a freqüência que imaginava. Na sociedade em que vive. Revelam uma perspectiva profunda e mereceram elaboração paciente ao longo de meio século. 4ª) independência. Em torno dos domínios rurais formam-se autênticos clãs. no processo de consolidação da ocupação territorial. . Essa é a conclusão fundamental de História Social da Economia Capitalista no Brasil. Oliveira Viana não o encontra. editado postumamente (1958). com base em autores como Weber e Sombart. 3ª) respeitabilidade e. A par disto. Na visão de Oliveira Viana o país esteve a pique de soçobrar na anarquia. tendo arcado com o ônus fundamental da estruturação do país – e absorvendo em seu domínio as atribuições dispersas em outros grupos no feudalismo europeu –. A seu ver. tais elementos iriam revelar ausência da noção do que seria privado. aparecem no Primeiro Reinado. vitimado pelas disputas entre os clãs. A Revolução de 30 e o Estado Novo são uma reação a esse processo em que mais uma vez o elemento estatal faz com que se reduza a esfera do privado. ocupam a cena os elementos que resultam de uma longa tradição cultural precedente. cujos valores essenciais são a competição e o lucro. da existência de esferas de vida colocadas a salvo da ingerência estatal. Nos três séculos iniciais em que se forma o país. até o presente. Ao longo dos três séculos. Esse é o personagem central da sociedade capitalista. Esta conclusão está fundamentada no livro que permaneceu inédito – História Social da Economia Capitalista – e que Coleção Reconquista do Brasil divulgou em caráter pioneiro. Em relação à elite urbana. que se colocam acima de toda ordem legal. isto é. quanto à possibilidade de imprimir-lhe um rumo qualquer. a aristocracia rural é que viabilizou a independência. no entender do sociólogo fluminense. havia revelado as seguintes qualidades: 1ª) fidelidade à palavra empenhada. no Brasil. Cometeu certamente muitos equívocos mas tem o grande mérito de ter se rebelado contra a convicção superficial de que o Brasil é um país novo. mas nos deixou um texto fundamental acerca da sua origem social: Introdução à História da Economia Pré-capitalista. ao mesmo tempo. etc. encontram-se aí. perdeu a noção do que seria a coisa pública. extinguindo as guerras civis. Em sua ação. assegura à Coroa a possibilidade de derrotar a caudilhagem local e o exercício de ação disciplinadora. fazem justiça pelas próprias mãos. Oliveira Viana procurou fixar. E. com a designação de capitães-gerais para áreas territoriais relativamente limitadas. intocados. predominam valores tipicamente pré-capitalistas. Para Oliveira Viana. irá tentar reconstituir a evolução dos valores presentes à sociedade pré-capitalista. A tendência ao enfraquecimento do Poder e. na República Velha renasce o espírito de clã através das oligarquias estaduais. de quem a acalenta. As análises de Oliveira Viana não têm a singeleza do resumo precedente. para denunciar a ilusão. a mudança do sistema de administração.

de que decorria a insuficiência das suas rendas agrárias. cobrando prestações in natura de agricultores arrendatários ou serviços pessoais dos servos. Embora senhores rurais. quando mais felizes. p. a nobreza européia. habitação e mesmo vestuário dos ricos-homens e dos cavaleiros mais ricos. Trata-se de um autêntico tabu e a desnobilização era inevitável. antes. a não constituição de um regime propriamente feudal em Portugal.32 A observação fundamental de Oliveira Viana diz respeito à escala de valores da nobreza portuguesa. De um modo geral. dos príncipes ou do Rei. (p. tudo isto deixava a nobreza peninsular freqüentemente numa situação constrangedora. 169/170). da combatividade e do senso de independência dos landlords ingleses. antes de tudo. Bastava uma alta de preços ou uma quebra do valor da moeda – coisa aliás freqüentíssima. Era constituída de pessoas que viviam de rendas. por velhos historiadores. 165/166). como Herculano e Gama Barros e. A alternativa plausível era colocar-se ao serviço da Coroa. inclusive a portuguesa. No caso de Portugal. é que foi justamente esta redução da sua base territorial. de meios de luta. Este foi discutido com erudição e profundeza. uma classe dotada de suficiente poder econômico para enfrentar o Rei e a burocracia da Corte. que obrigou a nobreza lusa a ceder no seu orgulho anterior para ser apenas uma classe dependente. Oliveira Viana cita Frei Luís de Souza – que viveu na segunda metade do século XVI e nas primeiras décadas do seguinte. Várias causas históricas e políticas foram apontadas para esta indefinição do sistema feudal na Península. elemento que nutriu e deu base ao processo histórico de formação do núcleo principal da elite dirigente brasileira. Em Portugal tornou-se caudatária dessa burocracia. isto é. Como escreve Oliveira Viana: “Esta pequenez da base territorial e agrária. sobre que se assentava o sistema de vivência da nobreza lusitana. para que o equilíbrio dos orçamentos domésticos desta nobreza se rompesse e a maior parte dos seus membros se visse constrangida a viver uma vida parasitária. porém. modernamente. pelo contrário”. e. Tinham rendas mas não tinham lucros. era o meio que se lhes abria de evadirem-se à sanção desclassificadora dos preconceitos contra o trabalho manual ou contra a profissão mercantil. Adianta Oliveira Viana: “Dada a restrição da base territorial desta pequena nobreza agrária. que nunca se curvaram diante do Rei. Sob pena de perda dos privilégios que desfrutavam. esta tida por aquela época como vilíssima”. não era uma classe de agricultores. levou ao constitucionalismo. de apaniguados e comensais da Coroa. quase normal naquela época. a situação da nobreza singularizava-se por ser reduzida e medíocre a sua base econômica. agravada ainda por estes tabus de vivência nobre. em geral. Oliveira Viana avança outra conclusão da maior relevância ao indicar que o breve . eram “puros rentistas e não produtores: praticavam uma economia de consumo e não de produção.. de pessoas ligadas ao trabalho da terra. No enquadramento de classe em que viviam. segundo Weber. A nobreza portuguesa não veio a ser o elemento social que. autor de obras históricas de grande importância – que escreve num de seus livros: “A nobreza destes reinos toda se emprega em servir à Coroa e. por Manuel Mereia e Fortunato de Almeida. (1ª ed. os nobres não podiam dedicar-se ao comércio ou ao trabalho manual. destituída de recursos pecuniários. possui poucas rendas”. como poderia parecer à primeira vista. e isto é importante no ponto de vista social” – escreve o sociólogo fluminense. E a verdade. recebendo pequenos favores dessa. é que explica.

à reintegração da nobreza nos seus tradicionais preconceitos antimercantilistas expressa no seu retorno às suas velhas tradições agrárias e de feudalismo territorial. dirigiu-se inteiramente para o Novo Mundo – para a colonização do Brasil”. para os cargos da administração e para os postos militares. a base territorial com que poderia reverdecer as suas vergônteas e redourar os seus brasões esmaecidos”. difícil de construir pela imensidade do . Durante o delírio das Índias continuou pré-capitalista e aristocratizada como na fase da monarquia agrária. de novo. sociedade estruturada. O novo continente. No que respeita à presença do que chamava de super-capitalismo entre nós. a rigor. preferiram encaminhar-se. empobrecida pelo luxo da Corte. O contingente que chamou de “povo-massa” vivera sempre desprovido de direitos. A esse propósito afirma o seguinte: “O fim do século XVI e o começo do século XVII puderam assistir. como o nosso. em seus livros. que é peculiar aos nossos empreendimentos industriais e dos povos. a partir do governo autoritário. a que se dedicou preferentemente a elite de outras nações européias. As organizações empresariais com tais características em funcionamento no país – escreve em História Social da Economia Capitalista no Brasil – exprimem “antes criações do puro capitalismo financeiro e do capitalismo internacional do que do capitalismo propriamente industrial. pois. com as suas ilimitadas larguezas. serviu sobretudo para reforçar os tabus tradicionais contra o trabalho e o lucro. que constituem a base do sistema liberal. também sem meios e sem recursos. (p. o núcleos fundamental a partir do qual se constitui a elite urbana brasileira. fazendo emergir na sociedade interesses diversificados. entendia tratar-se de um produto de importação e nunca de floração natural. Não se tratava de promover a acumulação. 184). (p. ainda mal saídos da fase colonial”. Este movimento. fértil e ilimitada.33 surto mercantilista a que foi atraído Portugal. pela pilhagem das riquezas da Índia. Na sua visão. retraídos cada vez mais dessas atividades mercantis. que tivera início sob a influência do fracasso das Índias. Tal seria. 186). Finalmente. o super-capitalismo levava a colossais conflitos sociais. oriunda de nosso próprio passado. Este outro registro do notável estudioso de nossa sociedade é da maior relevância mesmo sob o mercantilismo a nobreza portuguesa nunca se transformou em classe comercial. com a terra farta. Para transmitir em sua inteireza o ponto de vista de Oliveira Viana cumpre acrescentar que. O resultado de tal experiência é assim descrito por Oliveira Viana: “Os homens da nobreza. com efeito. buscou demonstrar que nunca tivemos. sempre considerados – salvo durante o breve intercurso dos “fumos da Índia” – como únicos compatíveis com a condição nobre. O seu afã de rápido enriquecimento nutria-se apenas do desejo de fomentar o consumo conspícuo. iria dar a essa nobreza urbana. em vista de sua breve duração. notadamente Populações Meridionais e Instituições Políticas. e a esta nobreza campestre. seu velho domínio privilegiado. virtualmente constrangido a colocar-se sob a proteção de um potentado qualquer. Oliveira Viana alimentava a esperança de que o Estado poderia empreender uma ação modernizadora. ao aviltamento dos próprios valores do capitalismo à vista de sua exacerbação e até mesmo à perda do sentido da existência. Embora nos últimos quarenta anos o país haja superado os obstáculos que impediam a industrialização – que comenta em História Social da Economia Capitalista no Brasil notadamente a inexistência de mercado único.

a burocracia estatal está longe de corresponder à nomenklatura todo poderosa em que se transformou no Leste e em países como o Brasil. Oliveira Viana também tinha razão quando imaginava que a intervenção do Estado para constituir o mercado único e fazer eclodir o crescimento industrial diversificaria a sociedade. desprovidos de programas ou doutrinas. Essa velha tese. do processo descrito também resultou a disseminação dos valores do capitalismo pelo meio rural de todo o Centro Sul. que darão suporte ao pretendido sistema liberal. Tudo isto forma um conjunto mais parecido com os países comunistas do Leste do que com as nações capitalistas do ocidente. Surgia de novo a evidência de que o sistema democrático era uma flor exótica. que até hoje não fomos capazes de estruturar. como soube entrever Viana Moog em Bandeiras e Pioneiros e tem enfatizado Paulo Mercadante. partidos políticos formados em torno de personalidades. em 1945.34 território e distâncias a vencer –. no Parlamento. do que Wanderley Guilherme chamou de autoritarismo instrumental. mostrando-se ineficazes as políticas estatais para erradicá-lo. mais amplamente. Apenas mais uma observação: não deixa de causar espécie o fato de que Oliveira Viana não se tenha detido na análise da Contra-Reforma. 4) O LUGAR DE OLIVEIRA VIANA EM NOSSA CONTEMPORÂNEA HISTÓRIA POLÍTICA Com a queda do Estado Novo. Resta saber se corresponde à base social suficiente para suportar as instituições do sistema representativo. sendo conhecido. Assim. Ao mesmo tempo. Foi o que se viu em relação à Revolução de 64. aparece em feição renovada. como o concebemos. contudo. inadaptável ao nosso clima. conforme se verificara nos anos trinta. ao arrepio dos resultados proclamadas nas urnas. muito provavelmente devido às idéias de Oliveira Viana ou. Trata-se do instrumento adequado às reformas econômico-sociais. Essa industrialização trouxe em seu bojo o gigantismo da máquina estatal. Agora não mais se exalta o autoritarismo contrapondo-o ao sistema representativo. De sorte que voltamos a repetir aquela experiência malograda: sistema eleitoral proporcional. a elite liberal comportou-se como se a única ameaça ao sistema democrático-constitucional proviesse de Getúlio Vargas e seus herdeiros políticos. o contingente social da pobreza corresponde a uma parcela reduzida da sociedade. A própria industrialização que não chegou a presenciar parece se constituir numa prova da consistência de sua descoberta. a presença de grandes contingentes de pobreza nos centros urbanos e a atribuição ao Estado do principal papel na solução deste último problema. deixando de ser um fenômeno apenas de São Paulo e de umas quantas zonas urbanas. é fora de dúvida que Oliveira Viana identificou o traço comum a ponderáveis contingentes da elite. A Revolução de 1964 se fez. As reservas em relação ao lucro e aos outros valores do capitalismo talvez se constituam num ingrediente fundante da moralidade social básica de nossa sociedade. Afinal há de ter sido esse movimento da Igreja Católica que sufocou o espírito capitalista na cultura brasileira. e práticas das alianças de legenda. segundo a parcela mais representativa de sua . em lograr a estabilidade política. Ignorou-se solenemente a prática autoritária da República Velha e a incapacidade do sistema representativo. que permitia a formação de algumas grandes bancadas. Nestas.

E assim emergiu plenamente nova forma de autoritarismo. renunciando e provocando a crise que acabaria levando à derrubada de Goulart em março de 1964). general Ernesto Geisel. Promulgou-se nova Constituição em 1967. que governou alguns meses de 1961. adiando para período cada vez mais dilatado a prática democrática. como o castilhismo getulista. espécie de socialismo caboclo que misturava fraseologia esquerdista e corrupção. João Goulart. a Revolução de 1964 incorpora essa dimensão modernizadora. fechasse o Congresso. A Revolução de 1964 manteria o Parlamento. as mais importantes das quais são o conservadorismo (ou tradicionalismo) católico e o . Consagra-se o princípio da eleição indireta dos mandatários dos Executivos federais e estaduais. virtualmente revogada pelo AI-5 (Ato Institucional número cinco). De certa forma. Vargas acresceria ao castilhismo a dimensão modernizadora. se fizera através de lideranças não plenamente identificadas com seu ideário (governo Café Filho. As eleições em 1965 consagrariam a liderança e a vitória do então governador da Guanabara. tolerando o crescimento da oposição. o seu quarto mandatário. e eleição de Jânio Quadros. postergasse as eleições e proclamasse o que então se denominava “república sindicalista”. ainda se entendia como a eliminação do getulismo e a vitória do udenismo – qualquer que seja o seu desfecho. A liberdade de imprensa é restaurada em sua plenitude. implantou-se firmemente no Rio Grande do Sul e acabaria transplantado ao plano nacional por Getúlio Vargas. a presença daquela agremiação no poder. proclama que o projeto revolucionário não consiste apenas na modernização econômica em curso. não se resumindo ao término do mandato de Jânio Quadros. A derrubada de Goulart facultaria a retomada do processo de exorcizar o fantasma de Getúlio Vargas da política brasileira. que ocupara postos importantes no primeiro governo (Castelo Branco). No ciclo anterior. além de efêmera. Consumado o afastamento de Goulart. da morte de Getúlio Vargas em agosto de 1954 a novembro de 1955. mas está longe de pretender. devendo completar-se pela consolidação da democracia. O novo presidente (João Figueiredo) realiza a anistia e dá início à reforma partidária de 1980. constituir-se em alternativa para o sistema representativo. demonstra que o autoritarismo do período 1964/1978 não se identifica com as formas tradicionais do autoritarismo brasileiro. para impedir que o Presidente da República em exercício. decretado em dezembro de 1968. isto é. mediante a consolidação da democracia. A imprensa e os meios de comunicação foram submetidos ao controle oficial. que acrescera à pregação udenista tradicional (fidelidade aos princípios liberais. insuspeitado quando da eclosão do movimento. Ainda mais: assumindo o poder em 1974. Aos poucos assume como tarefa primordial a modernização econômica do país. As eleições de 1965 foram mantidas. Carlos Lacerda. O primeiro período presidencial exercido em seu nome (Castelo Branco) acabou durando três anos. Ao fim de seu governo (1978) revoga-se o AI-5. desatenta à problemática da representação) uma atuação governamental dinâmica. mas resumindo-os a fórmulas jurídicas. Este. entretanto. O novo surto autoritário não era certamente da mesma índole do castilhismo.35 liderança. À derrota governamental em importantes unidades da Federação seguiu-se a dissolução dos partidos políticos. mas apenas para governos estaduais. transitoriamente transferido a Goulart. seguindo-se a aceitação das escolhas de um político civil (Tancredo Neves) para completar a denominada abertura política. O ciclo de reencontro do movimento de 1964 com a bandeira da plena instauração democrática – e que. formulou-se na fase inicial da República. a Revolução de 1964 encontra dinâmica própria. A vitória eleitoral de Lacerda permitira afinal que a UDN chegasse ao poder com possibilidades efetivas de dar cumprimento ao seu programa. naquela época.

pela obra de Oliveira Viana. Eximiu-se da tarefa de criticar o liberalismo do período republicano à luz da própria doutrina liberal em sua evolução. que era afinal a sua verdadeira base de sustentação política. Ambos correspondem a uma recusa do sistema representativo. o que retira a possibilidade de considerar-se que a Revolução de 1964 a ele teria aderido por uma questão de inércia. meio hábil. Oliveira Viana nunca formulou plataforma de industrialização do país como instrumento adequado à formação do mercado nacional único e de classes sociais diferenciadas. muitas leis consideradas essenciais. mas apenas expediente transitório. Assim. As doutrinas de Oliveira Viana tinham entretanto um defeito capital: a subestimação dos institutos do sistema representativo. XIII). O sucesso alcançado por esse projeto serve também para evidenciar que essa nova versão d autoritarismo tem antecedentes doutrinários no pensamento político brasileiro. Durante o período Jânio Quadros – João Goulart (1961/março de 1964). de . à época. Por isto. foi retomado no segundo governo Vargas (sobretudo através da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos. Tampouco se pode sugerir que a nova liderança militar. que o governo Jânio-Goulart não conseguiu extinguir. A experiência do Estado Novo comprovava que a manutenção por prazos indefinidos do governo autoritário tampouco assegura a estabilidade política. do conjunto da pregação de Rui Barbosa retiraria apenas o reconhecimento do papel do Poder Judiciário na implantação e consolidação das liberdades civis (Instituições políticas brasileiras. Contudo. a obra doutrinária de Oliveira Viana. seria inteiramente abandonado. visceralmente empenhadas na criação da sociedade industrial. naquele período. retomada pela Escola Superior de Guerra. representados. sobretudo. Na matéria. além de que não acalentavam nenhum projeto de modernização econômica. tivesse “descoberto” as verdades do getulismo – e que. Os rumos seguidos pela revolução de 1964 são reveladores da presença de forças sociais poderosas. O que se perdeu na prática liberal brasileira foi a doutrina da representação de interesses. Este guardara ciosamente em suas gavetas. chegando ao poder. Essa plataforma seria elaborada pela elite técnica. a proposta mais expressiva correspondia ao corporativismo. As doutrinas de Oliveira Viana tinham a vantagem adicional de que não se resumiam a considerar o autoritarismo como forma ideal permanente. não se trata de averiguar tecnocraticamente. de que resultaria a criação do BNDE – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) e apropriado pelo governo Kubitschek (1956/1960). que não deixava de ser uma recusa da sociedade industrial. sendo ressuscitada pelo ministro Roberto Campos no primeiro governo da Revolução de 64. dava foros teóricos à convicção sugerida pela prática do sistema representativo após 1945: não é possível realizar qualquer reforma no país se depender do Parlamento. Metodologia do Direito Público. eram muito mais do chamado “pessedismo” que do braço trabalhista do mesmo getulismo. a minimização do papel do Congresso tornava-se requisito essencial para o desencadeamento do processo modernizador. aglutinada em torno do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico nos anos cinqüenta. Cap. agora sob a liderança de Goulart – e as limitações do udenismo. já que não o encontrara em pleno curso. que no seu horizonte intelectual pareciam resumir-se à fracassada experiência brasileira. Se os interesses são diferenciados.36 castilhismo. contando com a mais ferrenha oposição da UDN. para a consecução do seu projeto de liquidação da sociedade clãnica tradicional. O projeto de modernização econômica gestou-se no seio do Estado Novo. portanto.

Isto só é possível mediante a livre disputa entre facções. segundo entendo. onde os personagens centrais são Bernard Mandeville (1670/1733). (3) Homens de marca. 1991). Cumpre. desde que corresponde à maior realização da humanidade no plano da convivência social. reconhecer que se trata de tradição das mais fortes e arraigadas. 259. E. vol. A força dessa dicotomia vem sendo plenamente ratificada pelos percalços do período de abertura política subseqüente à morte de Tancredo Neves. buscando tornar inteligíveis as linhas segundo as quais se desenvolve o curso real. no Curso de Humanidades (São Paulo. Editora Nacional. Para não me furtar a opinar sobre a questão. Aos partidos políticos compete circunscrever a massa de interesses a reduzido número de vetores e. São Paulo. quero explicitar que. 97. Joseph Butler (1692/1752) e David Hume (1711/1776). 1930. Rio de Janeiro. em nome destes. 74/75 (4) Reuni numa antologia os textos mais importantes que atestam o curso desse debate na Inglaterra do século XVIII. A Assembléia Constituinte não deu de fato nenhum passo efetivo no sentido de facilitar a aglutinação de nossas correntes de opinião em partidos políticos. Parecendo insuperável. nutrindo assim um fracionamento que serve apenas para sustentar a crônica instabilidade. Problemas de Política Objetiva.. a uma das formas essenciais de nossa maneira de ser. antologia que foi editada pelo Instituto de Humanidades. José Olympio. neste. p. No Brasil republicano. a linhagem representada por Oliveira Viana voltou certamente a ocupar lugar de primeiro plano.. remontando ao Marquês de Pombal. (2) . 1978. portanto. p. disputar a preferência do eleitorado. a missão da intelectualidade não é certamente sobrepor-se à classe política e alimentar ilusões quanto às virtualidades do iluminismo. que interesses (mais explicitamente: de que segmentos sociais) vamos erigir em interesse nacional. A circunstância não nos desobriga do esforço de recuperar as tradições culturais do país. O processo histórico tem seu curso qualquer que seja o vigor da intelectualidade respectiva. assim. recusando frontalmente o voto distrital.. nosso voto seria no sentido de que o afã modernizador se completasse pela incorporação plena dos ideais do sistema representativo.37 forma centralizada. mantendo o sistema proporcional e criando toda sorte de facilidades à organização de agremiações políticas. Rio de Janeiro. 3º conde de Shafsterbury (1671/1713). I. Corresponde. Paz e Terra. 1986. tudo se resume a Governo e Oposição. p. NOTAS (1) Populações Meridionais do Brasil. Cia. 6ª ed. Anthony Ashley Cooper.

Mas aqui não houve nenhuma espécie de embate entre católicos e protestantes. quando vinha de Lisboa algum funcionário graduado da instituição. atividades econômicas firmadas. Era ele. a seguir.38 CAPÍTULO III A MODERNIZAÇÃO PRETENDIDA POR POMBAL E SEU ALCANCE 1) OS VALORES IMPOSTOS PELA INQUISIÇÃO E O ALCANCE DAS REFORMAS POMBALINAS Os valores são aquilo a que damos ou devemos dar preferência. do mesmo modo que o visitador. assentado o aparelho governamental e alcançada dinâmica de crescimento populacional assemelhada à que se firmara na Europa. Na verdade. . na medida em que foram sendo aculturadas. um agente direto daquele Tribunal em nosso país”. Em geral costuma-se supor que a ação do Tribunal do Santo Ofício estivesse limitada às chamadas visitações. A comprovação da eficácia encontra-se “a posteriori”. recebera autoridade para ouvir denúncias. quando o país passou a dispor de uma civilização sedimentada com base em núcleos urbanos estáveis. Estas ganharam corpo milenarmente. afora naturalmente os próprios visitadores. De sua estruturação dá-nos conta José Gonçalves Salvador (Cristãosnovos. jesuítas e Inquisição. Por isso é melhor falar diretamente em Inquisição. 1976). Portugal quando se lançou aos descobrimentos estava de posse de valores muito nítidos para a elite. entretanto. Em toda organização social são um aspecto essencial porquanto definem e explicam o que há de mais relevante no comportamento das pessoas. O comissário. Ambos não se achavam submetidos aos bispos nem a qualquer outro titular religioso. isto é. O primeiro a receber tal delegação foi D. na medida em que destroçou o empreendimento açucareiro. na qualidade de representante do Santo Ofício. Simplesmente os valores dos primeiros nos foram impostos. Os familiares eram geral leigos. a bem dizer. Além dessa delegação expressa. a presença da Inquisição no país se fazia também através de comissários e familiares. abrir devassas. No terceiro século (XVIII). 1530-1680. Precisamente por essa circunstância acabaram impondo-se às populações indígenas e negras. 1969. Estruturam as principais tradições culturais. Escreve então: “O bispo. que usava o título de Bispo do Brasil e tomou posse em 1576. Povoamento e conquista do solo brasileiro. Gonçalves Salvador refere a praxe de delegar poderes inquisitoriais à determinada autoridade eclesiástica do país. mandar prender os faltosos. e Judeus e Cristãos Novos. os valores prevalentes e sedimentados são aqueles que costumam ser afeiçoados à Contra-Reforma. contraposta à secularmente admitida. era obrigatoriamente clérigo. é de muito difícil consecução. ou receber os que lhe fossem encaminhados pelos vigários. para Lisboa. Antonio Barreiras. e remeter. Mais importante que ter esse fato presente é dar-se conta de que o estabelecimento de uma nova tradição. enquanto as autoridades civis estavam obrigadas a secundar-lhe a missão no que se fizesse necessário. (1) e nos impingiu a escala de valores que ora nos propomos caracterizar. a quantos julgasse incursos em pena que fugisse à sua alçada. organizou-se no país aparelho repressor permanente e de eficácia comprovada.

Estendiase às colônias. isto é. contudo. terminada a missão. No livro Bandeirantes e Pioneiros. Segundo esse registro. considerados exorbitantes). a perseguição ao onzenário e. E uma das razões por que se mandou para o Brasil o Santo Ofício foi sem dúvida para coibir a usura dos mercadores que já não queriam vender a dinheiro de contado. consoante acentua o autor. examina os diversos atos praticados por Espanha e Portugal no sentido de dificultar a transição “da sociedade feudal pré-capitalista de economia dirigida para a definitivamente capitalística de economia mista”. em especial na fase posterior à restauração e à expulsão dos holandeses. cit. conseqüentemente. 86).. afora as visitações. a produção de autores brasileiros equivale a cerca de duzentos títulos. As obras literárias. de cunho histórico ou descritivas. porque explicitamente afirmava a limpeza de sangue. sinônimo de agiota. foi montada no Brasil uma verdadeira rede de atuação permanente da Inquisição. à acumulação de capitais não se confinava a Portugal e Espanha. Ao seu ver. Afirma Viana Moog na obra citada: “Claro. bem como as de índole didática. (15ª edição. p. colocava-o a salvo da própria instituição. A literatura difundida – pela qual se pode aferir o teor dos sermões do comum dos prelados – era predominantemente de cunho religioso. Toda a parcela restante poderia ser agrupada como apologética da religião e da salvação. conforme se pode ver do levantamento bibliográfico realizado por Rubens Borba de Moraes (Bibliografia Brasileira do Período Colonial.. Daí as várias denúncias contra cristãos-novos apanhados na prática do feio pecado”. ao representante do Tribunal. o eixo dessa política consistia no combate à usura. Era-lhe negada a comunhão do mesmo modo que o sepultamento cristão. “os únicos capacitados nos dois impérios para a manipulação da riqueza”. As Ordenações recomendavam expressamente: “Que nenhum cristão ou judeu onzene” (onzenário. “vão além das quatro dezenas de milhares de processos”. que se inclui entre os poucos estudiosos que atentaram para o papel da Inquisição nos rumos subseqüentes da história brasileira. Considera- . Qual a linha principal de atuação desse aparelho repressor? Louvamo-nos da opinião de Viana Moog. Os efeitos desta. escreveu-se “malfeito não os queimarem. regressavam ao Reino. Segundo Gonçalves Salvador. estando a denominação relacionada aos juros de onze por cento. “existiam familiares nos principais portos e talvez em algumas vilas como é possível deduzir de fatos mencionados no decorrer desta obra. São Paulo. Chama-os de desatinos e atribui grande importância à expulsão dos judeus. p. Quando da expulsão dos judeus. técnica ou filosófica oscilam em torno de trinta. os familiares aqui residiam e reportavam-se. o usurário equiparava-se ao criminoso. A simples declaração de que a usura não era pecado devia ser punida como herética. Pela lei. Quem alugasse casa a um usurário estava sujeito à excomunhão. Jesuítas e Inquisição. na ausência destes últimos. Deste modo. em sua maioria na forma de sermões. porque eram onzeneiros”. até os começos da segunda metade do século XVIII.. Em virtude dos privilégios inerentes ao cargo.. Instaurou no país um verdadeiro efeito paralisante no que respeita à transição do ciclo mercantilista para o capitalismo. ao confrontar o progresso dos Estados Unidos com o atraso do Brasil e averiguar suas causas.39 Enquanto os visitadores e comissários. 79).. 1969). mas cobrando juros. 1985. ed. A transformação do combate à usura em ódio ao lucro fica por conta dos publicistas e prelados.” (Cristãos-Novos. o título de familiar era muito cobiçado.

. ficou a tantas misérias sujeito. Seus Discursos políticos-morais pretendem apoiar-se em “vasta erudição das divinas e humanas letras”. que Adão. e por isso diz São Jerônimo que todas as grandes riquezas são filhas ou netas da iniqüidade ou injustiça. Dos sete discursos que o compõem. também se lastima Cristo. pelos excessos das suas riquezas. os Diálogos das Grandezas do Brasil (1618)... naquelas economias. e que Baltazar pelas suas demasias se viu em uma noite condenado à morte. Tanto isso é verdade que. introduzidos e dissimulados”. porque um não pode achar o que outro não tem perdido. O tom geral da obra pode ser avaliado a partir da transcrição adiante: “As maiores riquezas que pode lograr o homem é a salvação. . que. E o emprego se situa entre os bens maiores da sociedade moderna. que penetrando os ricos o centro da terra vão buscar as suas riquezas à mesma região dos mortos. que se considera expressiva manifestação literária da época. como não virá o homem a ser tanto mais necessitado quanto for mais rico? Como não será a sua riqueza excessiva o mais certo prognóstico da sua maior necessidade e miséria? Que se estrague a vida com os excessos da riqueza. deles. Expressivo do estado de espírito da elite culta é a obra de Feliciano Souza Nunes (1730/1808) – Discursos políticos-morais (1758) – que nasceu e viveu no Rio de Janeiro. de Antonil. três ocupam-se da família e o último da amizade. . sendo a sua medida um dos indicadores do bem-estar social. São tantos os exemplos que esta a cada passo nos oferece que parece escusado nos diga Plínio. concluindo com aquela sentença de Aristóteles. a liberdade se perde e a vida se estraga.. a pessoa está privada de ter acesso ao que a economia desenvolvida proporciona à maioria. São Marcos. como o Tratado descritivo do Brasil em 1587. um aponta os perigos do estado conjugal. dois se dedicam ao combate da riqueza. vale dizer. . (2) Essa aversão ao lucro e à riqueza deixou marcas profundas em nossa cultura e trouxe algumas conseqüências de que não conseguimos até hoje nos livrar. de Gabriel Soares de Souza.. que o rico ou é injusto ou do injusto é herdeiro”..40 se que os mais importantes dentre os livros de cunho histórico ou descritivos das províncias – salvo talvez a História da América Portuguesa (1730) de Sebastião da Rocha Pitta – seriam aqueles publicados séculos depois. tendo chegado a ser impresso. foi entretanto recolhido e destruído pelas autoridades. tendo-lhe cabido a fundação da Academia dos Seletos. sem remuneração. basta que a experiência o veja. ocupando posição de destaque na administração colonial e na vida cultural da futura metrópole. Sem emprego. e nem de outros muitos que acompanhando aquele rico miserável do Evangelho ainda nesta vida chegaram a não ter uma gota d‟água. a liberdade e a vida. o desemprego é objeto de políticas públicas específicas. E se com a riqueza excessiva a salvação se arrisca. a História do Brasil (1627) de Frei Vicente do Salvador e Cultura e opulência do Brasil (1711). e mais desnecessário lembrar que Saul por querer um reino perdeu a vida. mesmo numa economia com os níveis de estatização alcançados pela brasileira. por comer superfluamente um pomo. A Academia reunia a intelectualidade local e publicou o livro Júbilos da América (1754). como réprobos. porque ainda que ignorássemos o que a respeito nos dizem São Mateus.. tendo por objetivo “desterrar do mundo os vícios mais inveterados. não é necessário que o discurso o mostre. Entre estas sobressai a pouca valorização dos empresários (e da própria empresa privada) que responde pela oferta fundamental do emprego. Santo Agostinho e outros muitos Santos e Doutores da Igreja de Deus.

Saraiva chama a atenção para o caráter faccioso do processo. em cujo seio se encontravam grandes contingentes de judeus e católicos. A seu ver. que seria secreto. já que vivia dos bens confiscados aos réus. No livro Inquisição e Cristãos-Novos (Lisboa. quando os países que a eliminaram não o fizeram graças à intervenção estatal mas pela prática de uma economia livre. entendimento esse de que não se libertam muitas pessoas bem-sucedidas ao imaginar que devam “poupar” os filhos de semelhante tipo de adversidade. mobilizando farta documentação. que o Tribunal do Sacro Ofício tivesse qualquer isenção. inventor. na Época Moderna. eram homens sujeitos à paixão e ao engano. em comunidades limitadas. mas como paternalismo estatal. “as regras do processo inquisitorial eram . Não se pode legitimamente supor. Dizia ele que os americanos teriam de copiar a maioria das instituições de seus ancestrais ingleses.. Aqui vamos nos limitar ao essencial. onde se pode acompanhar os efeitos de semelhante atuação. por lhe parecer que estimulavam a preguiça. Antonio José Saraiva descreve os procedimentos básicos da Inquisição. entretanto.41 Outra atitude que gravita em torno da aversão ao lucro é o entendimento do trabalho como uma espécie de destino adverso e não como o caminho da realização pessoal. a) Como atuava a Inquisição Por mais repulsivo que seja. Mas depois de constituída a sociedade moderna esse valor dissociou-se de suas origens e tornou-se uma aquisição consensual. repudiava os procedimentos oficiais de assistência aos pobres. transmitida pela educação. entendida não como prática da caridade. não podemos deixar de nos deter ao modo como a Inquisição impôs à nossa cultura. Editorial Estampa. neste lado do Atlântico. Outro componente do mesmo sistema de valores é o que se poderia denominar de “simpatia pela pobreza”. pelo terror. baseada na valorização do trabalho. Para construir uma Nação digna do nome. Desde logo. nem de que. no reconhecimento da legitimidade do lucro. 5ª ed. lançar-se denodadamente ao trabalho. no apreço aos bem-sucedidos. filósofo. enfim valores todos contrários ao que nos foi legado pela Contra-Reforma e inculcado à força pela Inquisição. tornando-lhes a vida a mais fácil possível. apontando os fatos justamente na direção oposta. só restava aos ingleses que por tal optaram. cumprindo combater com decisão tudo que se lhe contrapusesse. é certamente um resultado das religiões protestantes. A aceitação do trabalho pela elite. um autêntico sábio. um dos artífices da Independência Americana e de suas instituições republicanas. a “simpatia pela pobreza” fomenta a crença da responsabilidade do Estado por tal fenômeno. A esse propósito cabe ter presente a advertência do grande Benjamin Franklin (1706/1790). Nem por isto os valores adotados pelos fundadores se deixaram suplantar. Em nossa tradição cultura. Entre essas. afinal. Não se trata apenas do que fosse parte interessada em demonstrar que o judaísmo se multiplicava. 1985). Os Estados Unidos tornaram-se uma nação populosa mediante a aceitação de milhões de imigrantes procedentes das diversas partes da Europa. esses valores ultrapassados em toda parte da Europa pela Época Moderna. enfim. sem apelação e “deixava nas mãos dos inquisidores o poder praticamente absoluto e arbitrário de condenar ou absolver”.

em crime de heresia. que “se o acusador quiser desistir da acusação. “se sabem ou ouviram” que algum cristão batizado disse ou fez algumas coisas que no edital eram declaradas. consistindo geralmente numa cerimônia pública. Era entretanto grandemente dificultada pelas disposições em vigor. e os relaxados. o interrogatório obedecia ao princípio de que competia ao preso declarar espontaneamente as suas culpas. Vale dizer: este não precisava de modo algum comprometer-se com o fato alegado. para que a vítima não aparecesse de público “mostrando sinais de tortura”. Obtida a confissão por tortura. Esse procedimento em geral quebrava ou deslocava membros e recomendava-se expressamente que não fosse usado menos de quinze dias antes do “auto de fé”. aceitando-as mesmo por carta anônima. A delação era amplamente estimulada. dinheiro ou de outras formas os hereges processados”. As testemunhas no processo eram ignoradas do réu. Negada a confissão. o que sugere tratar-se de fato freqüente) e outros aspectos que não vêm ao caso já que se trata de referir apenas o essencial.42 incompatíveis com uma verdadeira imparcialidade de juízo e levavam automaticamente à condenação de inocentes”. para ser sucessivamente esticado. a prevenção contra simuladores nos casos dos presos que endoudeceram no cárcere (todo o título de um dos livros em que se subdivide o Regimento. Estava assente. Preso. mesmo porque a confissão acabava sendo obtida mediante tortura. de dois tipos: os reconciliados. estivessem de antemão condenados à morte. eram registradas e apresentadas ao réu 24 horas depois. Os instrumentos de tortura estão descritos nos Regimentos da Inquisição. desde que “são equiparáveis a fautores de hereges todos aqueles que visitam e ajudam com alimentos. não deve ser facilmente ouvido”. mesmo reconhecendo suas culpas. Sem que lhe fosse comunicado o motivo da prisão. içá-lo e sacudi-lo violentamente. usar-se-á a expressão “uma légua ao redor de Lisboa”. todas as entrevistas entre as partes eram presenciadas por um funcionário (meirinho). O Tribunal não se interessava em averiguar a idoneidade do denunciante. O segundo instrumentos era um leito de ripas em que o paciente era entalado com cordas acionadas por manivelas. para que ratificasse e dissesse de novo “sem medo. finalmente. sem menção expressa ao local. os que eram . recomeçava a tortura. A defesa ficava a cargo de advogado ou procurador escolhido pelo próprio Tribunal. O Regimento dava exemplos concretos para que não pairassem dúvidas. E. Consistiam basicamente em amarrar o preso a uma corda. justamente o policial encarregado de efetuar as prisões. também. a vítima da Inquisição era completamente isolada do mundo. a quinta. não poderia produzir nenhuma alegação que não fosse firmada conjuntamente pelo réu e pelo advogado. os que eram readmitidos no seio da Igreja e condenados a penas que iam desde penitências espirituais até a prisão e desterro. Assim. o preso não podia tomar conhecimento de nenhum detalhe que lhe permitisse identificar as testemunhas de acusação. isto é. no caso. Esta era uma das razões pelas quais quem caísse nas malhas da Inquisição via-se privado de qualquer escapatório. sob pena de excomunhão. repetindo-se anualmente os chamados “editais de fé” em que os crentes se lembrava estarem obrigados a denunciar. Primeiro. O “auto de fé” era o destino inexorável de quem fosse apanhado pela Inquisição. para execução da sentença. Há outros detalhes como a mis en scène para manter os presos sob permanente terror. Além disto. indicava expressamente o Regimento. força ou violência alguma”. se o crime fora cometido numa quinta situada a uma légua de Lisboa. isto é. A base do processo inquisitorial era constituída pelas denúncias e pelas confissões. Os interrogatórios estavam tipificados de modo a que os reincidentes.

conhecidas à saciedade. etc. a sua índole ternurenta revela-se pela maneira como lamentava a execução dos . que eram cachorros. e que movimentava toda a cidade. duas horas. Mesmo os que haviam morrido na prisão nem por isso ficavam isentos. o rito prosseguia sem interrupção. cada corpo vivo ou morto era amarrado a um poste. os depoimentos das testemunhas como fatos averiguados. diz Saraiva. por amor de Deus” – provocavam o júbilo da assistência. mas como a cena toda se desenrolava em praça pública e devia anteceder diretamente ao ápice do espetáculo. fora da qual não há salvação”. de pactos e até de coitos com o Diabo. pelo contrário. como as maiores festividades públicas”. que é freqüentemente ventosa. a tempo de construir o cadafalso e o anfiteatro. que chamava a atenção de todos. como que o réu comia carne à sexta-feira. freqüentemente o rei em pessoa. O capelão inglês que assistiu ao auto de fé de 1682 mostra-se impressionado com este espetáculo e pondera. a propósito. nos deixa enojados. a quem formalmente cabia a responsabilidade pela execução da sentença. A chama não o afogava. geralmente ipsis verbis. denominação que se supõe seja uma corruptela de saco bendito). ao pé do qual se incendiava a lenha. “As sentenças eram muito extensas e reproduziam. que era a queima da vítima na fogueira. finalmente. Seus momentos culminantes são os preparativos. não havendo propriamente julgamento e nem a mais remota possibilidade de ser revogada a sentença do Santo Ofício. de confeccionar os sambenitos (hábitos trajado pelos sentenciados. espetáculo de horror. ambos se confessaram por adeptos da lei de Moisés.. mas o anúncio público fazia-se quinze dias antes. que causava grande excitação e. a que assistiam as autoridades supremas. porque muitas das sentenças eram seqüências e fórmulas estereotipadas. Os seus gritos – “Misericórdia. durante hora e meia. mas grelhava-o. a incineração da vítima. Mas o sensacional misturava-se com o monótono. Era neste ponto que. porque não havia para a curiosidade pública pasto mais sensacional que a narração detalhada de algumas cerimônias judaicas. em forma de saco longo. Os executados ficavam assim bem visíveis perante uma enorme multidão”. “Uma compacta multidão saía às ruas” – acrescenta. Os preparativos iniciavam-se com vários dias de antecedência. ainda hoje. tudo se passava o mais rapidamente possível. a brisa inclinava a chama. de quem as freiras pariam filhos.43 entregues à Justiça secular para execução da pena de morte. a tensão coletiva atingia o ponto máximo. a leitura das sentenças. a procissão. A cena seguinte era de uma barbaridade inominável e Saraiva refere as circunstâncias: “Na Ribeira de Lisboa. provavelmente. Algumas levavam horas a ler. Prossegue o autor: “Em Lisboa. para alcançar a maior mobilização possível. junto ao Terreiro do Paço. de prevaricação de frades com mulheres. Concluída essa parte e entregues os relaxados à Justiça comum. e a vítima encontrava-se a uma altura tal que o lume não lhe subia acima da cintura. gatos ou monstros. “tendo-se encontrado com pessoa de sua nação. A procissão saía na manhã de domingo da sede do Santo Ofício e percorria uma parte da cidade antes de chegar ao local da leitura das sentenças. numa das praças principais do país. etc. não comia peixe nem escama. acabou por ser um grande e pomposo espetáculo. de casos de bigamia. Estes pelourinhos de madeira eram instalados na Ribeira. que o povo português não é naturalmente cruel. antes que ele morresse. enfiado pela cabeça. Saraiva descreve no pormenor o “auto da fé”. cuja simples descrição. “Com o tempo e a experiência. Formalmente haveria um outro julgamento pela justiça ordinária.

situando-se o seu apogeu nas décadas de cinqüenta e sessenta. O ciclo do ouro. b) O destino do ouro Esquematicamente. deram a notícia de haver encontrado ouro à flor da terra.. A esse propósito escreveu Buescu na História do Desenvolvimento Econômico do Brasil: “Só em 1694-95. etc. para não viver toda a vida em temor e sobressalto quando entrará em esbirro da Inquisição por suas portas. a elite portuguesa se houvesse alheado do curso do mundo. milhares de pessoas dirigiram-se para os territórios de mineração. E. desceram pelo Rio São Francisco numerosos aventureiros. profissões liberais. mas a medida ficou sem efeito”. A conclusão de Saraiva é de que os autos-de-fé constituíam “uma exibição esmagadora do poderio do Santo Ofício”. Desde . não durou muito tempo. Os altos lucros da mineração permitiram suportar o custo elevado dos escravos importados. O seguinte texto de um escritor espanhol da cidade de Toledo. Isto precisamente explica que. como fator importante. reflete com precisão o estado de espírito que a Inquisição acabou impondo à elite: “Os predicadores não ousam predicar e já que predicam não ousam imiscuir-se em coisas sutis. A notícia provocou considerável afluxo de gente tanto do exterior. pelo terror. porque na boa dos néscios está sua vida e honra e não há ninguém sem o seu esbirro (empregado menor do Tribunal) nesta vida. transcrito por Henry Kamen na obra antes mencionada. alheamento que lhe era imposto pelo terror justamente para guardar fidelidade à Igreja Romana e seus dignatários. logo adiante: “A prosperidade da região concretizou-se nas vilas fundadas (afirma-se que Via Rica chegou a ter 100. nos sertões de Taubaté. os bandeirantes. e as despesas de luxo atingiram a níveis muito altos”. a crise de açúcar.44 criminosos de direito comum”. na Alemanha nazista e na Rússia estalinista. em poucos anos.. artesanato. a que se somaria a partir de 1729 a extração de diamantes. do ano de 1538. de Portugal (a técnica da mineração veio talvez da Metrópole) e de outros países.000 habitantes). Da Bahia. as necessidades de mão-de-obra apta para o trabalho dura nas minas foram resolvidas pela intensificação do tráfico negreiro e a transferência de escravos da zona açucareira. iniciando-se o grande fluxo migratório naquela direção. o que se pode dizer é que o empreendimento açucareiro deve ter sido inteiramente destroçado por volta das últimas décadas do século XVII. quanto do próprio território brasileiro – sendo de considerar-se. A elevação da renda dos mineiros permitiu o florescimento de várias atividades. no setor do comércio. Os nomes das vítimas eram difundidos por todo o país e com maior destaque naquelas localidades de onde provinham. camponeses.. do século XX. De outro lado. até Pombal. é fácil compreender o que se passava: trata-se daquilo que Hanah Arendt chamou de transformação do povo em massa amorfa e manobrável. Pouco a pouco se desnaturalizam muitas vezes e se vão a reinos estranhos. quando então tem lugar a descoberta do ouro em Minas. que a maior morte é o temor contínuo da morte próxima”. com construções de luxo e vida bem mais intensa do que na zona agrícola. entrados no interior de Minas Gerais à cata de índios e de pedras preciosas. Houve tentativa de limitar o número de escravos a serem enviados para as minas. Para nós. etc. que assistimos ao fenômeno do totalitarismo.

sobretudo. O auge dos ganhos com a mineração teve lugar sob D. Na segunda metade do século XVIII. introduzem-se novas rotações de cultura obtendo-se aumentos expressivos da oferta agrícola. caracterizada pelo emprego de máquinas no processo produtivo. Surgira. desde que durou 43 anos. Há que atentar também. ajudando muito. sendo a tarefa de juntas as peças realizada autonomamente. A manufatura e o começo da tecnificação da agricultura antecedem diretamente a Revolução Industrial – que na Inglaterra deu-se entre 1760 e 1830 –. na Inglaterra e na Holanda. A José Herculano Saraiva parece que a explicação contempla apenas uma parte da verdade. A maré alta passou por nós como vento e deixou o País como dantes”. Esse expediente aumentou muito a produtividade. a metade do que se obteve como açúcar e certamente muito menor do que foi alcançado nessa última atividade no século XVII. para o equilíbrio das relações comerciais de Portugal com a Inglaterra. escreve aquele autor: “Mas o aumento da receita pública e privada não se repercutiu em transformações duradouras no plano econômico ou em modificações sensíveis na estrutura social portuguesa. Enquanto isto. de proporções que excediam de longe tudo quanto até então se edificara em Portugal: o Palácio-Convento de Mafra. É verdade que o rei consumiu quase tudo quanto ao Estado coube no rendimento das minas brasileira na manutenção de uma corte luxuosa e em gastos enormes relacionados com o prestígio real”. Ora. tudo isto decorre precisamente da valoração infundida à força pela Inquisição e pela debandada a que se viram forçados os elementos empresariais. já que à Coroa cabia apenas um quinto da receita dali proveniente. as denominadas manufaturas. Apesar da discordância. de salvar as próprias almas.45 então. Estima-se que. em todo o período. de 1707 a 1750). parece-lhe. em outros países europeus. Depois de assinalar que o período de maior afluxo de ouro brasileiro coincide com o longo reinado de D. A riqueza acumulada sob a Inquisição não foi aproveitada para fomentar outras atividades produtivas. na mesma época. ocupando-se as pessoas. E acrescenta: “Uma explicação muito popularizada desse fenômeno consiste em responsabilizar o próprio D. os trabalhadores não se ocupavam de fazer sozinhos todo um produto mas apenas parte dele. observa Buescu. a exemplo do que ocorria. Tanto a atuação do rei como a inexistência de grupos sociais divergentes da orientação geral constituem uma prova inconteste da vitória plena do Tribunal do Santo Ofício. ao todo. fábricas em que. A mineração de ouro e diamantes tornou-se importante fonte de recursos para a Coroa. como no artesanato que as precedera. embora oponha os reparos que indicaremos. entra em declínio. isto é. João V foi o projeto de construção de um edifício gigantesco. João V. na França. João V pela dissipação dos tesouros vindos do Brasil. cujo grande feito consistiu na construção do Convento de Mafra. para a ausência de mentalidade empreendedora e muito menos liderança capaz de imprimir outra direção aos acontecimentos. acarretando novos saltos na produtividade e na produção. Mas também para isso o País não dispunha de técnica . José Hermano Saraiva (História Concisa de Portugal) registra a existência de certo consenso quanto à responsabilidade daquele Monarca na oportunidade perdida. haja propiciado receita da ordem de 170 milhões de libras. na Inglaterra. João V (um dos mais longos reinados da história de Portugal. Hermano Saraiva não se furta a registrar: “A mais importante realização pessoal de D. cerca de 30% da exportação total dos três séculos. Portugal continuava vivendo o clima medieval. embora se continuasse empregando o trabalho manual.

Esse pequeno fato demonstra sem dúvida grande mudança de mentalidade”. que foi coroado rei em 1750. destruiu Lisboa quase completamente. areja-o. João V. além de sete mil soldados que os obrigavam a trabalhar. Ed. conforme foi mencionado. Chegada a oportunidade. apostou sobretudo na criação de uma elite possuidora de conhecimento científico de seu tempo. durante 33 anos gastou milhões de cruzados na construção do convento de Mafra. fora embaixador de Londres. com a morte de D. José I. As obras começaram em 1717 e duraram até 1750. O plano incluía um grande palácio real. tudo veio de fora”. A par do ensino clássico de humanidades. Que fez Pombal? Instala no convento o Colégio Plebeu. Foram chamados. livros – e alguns frades. No século XVIII havia em Portugal muitos homens ilustrados. vivifica-o em contato com a visitação popular. A partir da energia demonstrada em face do terremoto que. foram apanhados à força todos os homens válidos do País e mandados para Mafra. Alba. quartos e celas conventuais. Assim. submetidos a uma disciplina férrea. Gastou à larga para edificar uma mole gigantesca que poderia albergar dois regimentos de infantaria e vários serviços públicos. tratou de fazer uso dessa experiência. tratou de abolir o monopólio que os jesuítas exerciam sobre o ensino. Em 1761 foi organizado o Colégio dos Nobres. impressionou-se profundamente com o progresso alcançado pela Inglaterra e buscou compreender suas causas. com capacidade para 100 alunos internos. Ludwig (Ludovice. O rei exigiu que a sagração da basílica se fizesse em 1730. Marquês de Pombal (1600/1782) fez parte do primeiro ministério organizado por D. Abre o convento ao público. carrilhões. de estrangeirados. com plena consciência do descompasso do país em relação à Europa. O desenho seguido foi o de um arquiteto. Teixeira Soares. Ainda que tivesse se ocupado de promover a indústria manufatureira e criado no país companhias estatais de comércio. encarregando os Regrantes de Santo Antonio de educar os alunos. amarrados em cordoadas. Com exceção da pedra (os mármores pretos de Pêro Pinheiro ficaram desde então célebres). no dia do seu aniversário. Para tentar aprontar a obra. enfim. na manhã de 1º de novembro de 1755. Antes de tornar-se ministro. vê-se claramente que Pombal atribuía o progresso da Inglaterra à ciência. Pombal seria o melhor sucedido dentre eles. na forma italianizada pela qual ficou conhecido). 1961) escreve o seguinte: “Dom João V. o conjunto atingia cerca de 4000 m2 e perto de mil trezentas dependências. 2) AS REFORMAS POMBALINAS Sebastião de Carvalho e Melo. o . correr contra o tempo e impor o ingresso de Portugal na época moderna. fundado em 1772. enchendo-o de sinos. teve ascendência completa no governo e carta branca para realizar grandes reformas. no livro O Marquês de Pombal (Rio de Janeiro. Pelo encaminhamento que deu às suas reformas. entre salas. um convento para trezentos religiosos e uma basílica. alfaias.46 nem de gente. e foi preciso recorrer à importação maciça de artistas estrangeiros e de obras de arte inteira produzidos fora de Portugal. acabando por expulsá-los do país e das colônias e pôs fim à interdição que até então existia em relação à física de Newton. Juntaram-se assim quarenta e cinco mil trabalhadores. de reformar o Exército.

como ciência aplicada desde que seus cursos destinamse a formar pesquisadores de recursos naturais. a tarefa de comandar o inventário de suas riquezas e promover a sua exploração. Continua sendo admitido o emprego da tortura. Esta se compreendia como “filosofia natural”. a administração pombalina tratou de soerguer as atividades econômicas. já agora para enquadrar oponentes às reformas. arquitetura civil e militar. . metalurgistas. incumbindo a cada um produzir aquilo que estivesse em melhores condições de fazê-lo. criando a primeira escola de comércio do mundo. Pombal era adepto das teorias mercantilistas então em voga.). Gabinete de Física. Foram importados instrumentos e professores. Recrutam-se famosos professores italianos e criam-se estas instituições voltadas para a observação e a experimentação: Horto Botânico. Francisco Xavier de Mendonça Furtado. bem como de ciências aplicadas (hidráulica. Na Universidade reformada por Pombal. Em relação ao Brasil. Contudo. Dispensário Farmacêutico e Gabinete Anatômico. Preservou-se a Inquisição. Observatório Astronômico. Essa doutrina. somente seria difundida no Brasil no século XIX. atribuindo diretamente ao irmão. sua grande obra seria a reforma da Universidade de Coimbra. Na Universidade pombalina o papel-chave será desempenhado por dois novos estabelecimentos: as Faculdades de Matemática e de Filosofia. Em matéria de instrução. “foi verdadeiramente a criação de uma nova Universidade”. Como diria Hernani Cidade. Essa iniciativa não parece haver satisfeito à amplitude da reforma de mentalidade que visava promover. Sua reforma da Universidade antecipa de algumas décadas à que seria promovida por Napoleão. que se vinculava diretamente à Metrópole. razão pela qual este deveria estar diretamente subordinado ao Estado ou por este supervisionado muito de perto. enfim. Laboratório Químico. mais precisamente. segundo as quais a riqueza das nações provinha do comércio internacional. tanto da França como da Inglaterra. “em nada mais tivesse de pensar”. O estabelecimento tornar-se-ia o núcleo constitutivo da futura Escola Politécnica. isto é. através do ensino das matemáticas e da física. ao mesmo Hernani Cidade. conhecida como liberalismo econômico. medidas que contribuíram para cimentar a unidade nacional. Eliminou o Estado do Maranhão. e extinguiu as capitanias hereditárias remanescentes. que se evidenciaria como elemento capital no processo da Independência. para quem aquela riqueza seria uma decorrência do trabalho e da divisão internacional do trabalho. Promoveu a mudança da Capital para o Rio de Janeiro (1763). porquanto dez anos mais tarde voltar-se-ia para a Universidade. Pombal tomaria uma outra iniciativa pioneira na Europa. As teorias mercantilistas foram mais tarde refutadas por Adam Smith (1723/1790). Museu de História Natural. Acreditava sobremaneira nas possibilidades da Amazônia. homens capazes de identificar as riquezas do Reino e explorá-las.47 propósito central consistia em dar-lhes rigorosa formação científica. e que tanto impressionaria a elite brasileira no século passado. A modernização realizada por Pombal não compreendia a reforma das instituições políticas. botânicos. etc. combalidas pela perseguição que o Tribunal do Santo Ofício movia às pessoas bem-sucedidas. Estas continuaram adstritas ao absolutismo monárquico. distinguiram-se muitos brasileiros que passaram a liderar várias das novas esferas do conhecimento científico. Daria a essa reforma tal dedicação que mais parece.

Rodrigo era não apenas personalidade representativa da elite renovada. devendo circunscrever-se apenas à aplicação. tendo figurado entre os primeiros diplomados pela Universidade de Coimbra. chama para o governo D. nem de longe revogou ou abalou a antiga. mas. Conde de Linhares (1755/1812). Daí que esse período histórico viesse a ser denominado de Viradeira de D. D. Rodrigo de Souza Coutinho. Formara-se um novo agrupamento social abastado. parte do patrimônio do Príncipe e não um órgão ao serviço da sociedade. do período pombalino mas que se caracterizava sobretudo como restauração de índole medieval. isto é. decorrente da expansão da manufatura. é perdoado das penas corporais que lhe deviam ser impostas. modernizado. à vista das graves moléstias de que padece. Essa circunstância acarretou que embora correspondesse ao início de uma nova tradição. quem sabe. Fora educada no respeito à ciência e aderira ao projeto de conquistar a riqueza. eximiu-se de criticar a tradição precedente que combatia a riqueza em geral e o lucro. Pombal também deu à burocracia estatal uma grande supremacia em relação aos outros grupos sociais. admitindo a riqueza em mãos do Estado. No ano seguinte. em 1796.48 A adesão de Pombal ao mercantilismo trouxe conseqüências perversas para nossa história porquanto. e do estado de decrepitude em que se encontra. O Estado português. A nobreza dos anos oitenta pouco tinha a ver com a dos meados do século. o que nem de longe corresponde à sua real destinação. em agosto de 1782. Ao mesmo tempo. A admissão da posse de riquezas em mãos do Estado passou a coexistir com a velha tradição. Ao cabo de dois decênios. Maria I. A rainha manda arrancar do pedestal da estátua de D. O sonho era fazer renascer os velhos tempos em que o padroado dava as cartas e. a reforma da Universidade atribuía à ciência o poder de transformar a sociedade. de um discurso retórico acerca da ciência sem maiores conseqüências. D. tratava-se aqui de uma ciência pronta e conclusa. o que equivalia ao reconhecimento tácito de que a nobreza reformada por Pombal não se dispunha à volta aos velhos tempos. diz o decreto real. A linha mestra do governo de D. passou a atribuir-se a função de promover a modernização (prevalentemente econômica) como algo que deveria beneficiá-la diretamente. submetendo-o a interrogatórios e humilhações. Inimigos e perseguidos são trazidos ao primeiro plano da cena. Maria I consistia no propósito radical de fazer desaparecer da história de Portugal a figura do marquês. tornar de novo freqüentes as fogueiras de Inquisição. Sebastião José de Carvalho e Melo despertara forças ponderáveis que não se dispunham a assistir passivamente a revanche que se fazia em nome da componente obscurantista. Começa o reino de D. na . o Príncipe Regente. Começa a longa tradição do chamado cientificismo. João VI. José o medalhão ali existente com o busto de Pombal. José I morreu a 24 de fevereiro de 1777. Um ano depois. dispensando-se de dividi-lo com a Igreja. A sentença de agosto de 1781 considera-o culpado. tinha em suas mãos todo o poder. isto é. que era tipicamente um Estado Patrimonial. crescentemente dirigida contra o empresário privado. tem início o longo processo que lhe moverá a Corte. Maria I. O empenho estava entretanto fadado ao fracasso. O estamento burocrático. seguindo-se diversas iniciativas destinadas a eliminar sua influência. Além disto. punitiva. sendo entretanto condenado a viver “fora da Corte na distância de vinte léguas”. futuro D. falece Pombal. Pombal é demitido logo nos começos de março.

Data de Pombal igualmente. 1979. fazendo com que se perpetuasse até os nossos dias essa reminiscência do mercantilismo do século XVIII. João VI. que ainda se encontra presente à realidade brasileira.49 década de setenta. D. (2) Para maiores detalhes desse tipo de pregação. achava-se muito ligado à pessoa de Pombal. após a transferência da Corte para o Rio de Janeiro. ainda no século XVIII. Mais que isto. o entendimento cientificista da ciência. em Coimbra. Basta ter presente que em sua passagem pelo Ministério do Ultramar. . destinada. elabora vasto plano de desenvolvimento para o Brasil. NOTAS (1) A significação do empreendimento açucareiro no século XVIII tem escapado à nossa historiografia. Rodrigo de Souza Coutinho sempre mantivera relações de amizade com os naturalistas brasileiros diplomados. como a precedente. Em síntese. especialmente Câmara Bitencourt (mais conhecido como Intendente Câmara). Com a República. tendo sido educado para seu sucessor. como pretendo demonstrar no livro em preparo (Momentos decisivos da História do Brasil). os militares iriam apropriar-se da bandeira de que ao Estado é que incumbe promover a riqueza. como ele. Documentário. de quem era afilhado de batismo. a uma longa sobrevivência. Rio de Janeiro. prevendo inclusive a implantação de siderurgia. O destino reservara-lhe um papel singular em nossa história. já que seria o chefe do primeiro governo de D. o Marquês de Pombal cria uma segunda grande tradição na cultura brasileira. Ed. consulte-se a antologia Moralistas do século XVIII. Conceição Veloso e José Bonifácio de Andrade e Silva.

na verdade. Talvez a expressão mais acabada desse ponto de vista corresponda à obra de Frei Caneca (1774/1825) representante do que se convencionou denominar democratismo. e estas independentes umas das outras. quando ainda vigoravam os vínculos com a monarquia portuguesa. (2) Na medida em que o liberalismo virtualmente se confunde com o republicanismo. evoluiu no sentido de admitir a Constituição e a modernização das instituições. Facção ponderável da opinião nacional adotaria a hipótese simplista de que o liberalismo correspondia à aplicação dos princípios científicos à sociedade. com Napoleão. toda calcada na suposição de que a grandeza de Portugal encontrava-se na dependência da assimilação e do domínio da ciência. Segundo essa vertente. escolher a forma de governo que julgasse mais apropriada às suas circunstâncias e constituir-se da maneira mais conducente à sua felicidade. estudada de forma acabada e conclusiva por Paulo Mercadante. Trata-se. Essa radicalização. podia cada uma seguir a estrada que bem lhe parecesse. as divergências são concebidas de forma absoluta. Semelhante caracterização não se formula para o estabelecimento das bases de uma coexistência possível mas apenas para advogar a organização autônoma das províncias. O Rio de Janeiro seria o baluarte do absolutismo e o Nordeste. a magnitude do tema seria obscurecida pelo imperativo da Independência. (1) O democratismo é o ponto de referência básico para a polarização política que se estabeleceu no país. em contrapartida. nem província alguma. impondo-se o compromisso. Esta poderia organizar-se em bases puramente racionais. O Brasil só pelo fato de sua separação de Portugal e proclamação de sua independência ficou de fato independente não só no todo como em cada uma de suas partes ou províncias. do corolário natural da reforma pombalina. a cidadela da liberdade. Parcela da elite no poder. por mais pequena e mais fraca. Contudo. carregava o dever de obedecer a qualquer outra. que acabaria levando alguns . Portanto. Uma província não tinha direito de obrigar outra província. por menor que fosse. a coisa alguma.50 CAPÍTULO IV A TENTATIVA DE ERIGIR O SISTEMA REPRESENTATIVO E SEU FRACASSO 1) O SIGNIFICADO DA EXPERIÊNCIA (RENEGADA) DO SEGUNDO REINADO O sistema representativo implantado no Império resultou da impossibilidade virtual do domínio exclusivo de uma das facções em luta. Ficou o Brasil soberano não só no todo como em cada uma de suas partes ou províncias. por maior e mais potentada. enrijecem-se as posições dos partidários da monarquia constitucional. tendo presente o que então se entendia como o fracasso da Revolução Francesa. Somente em seguida a esse evento é que emergiria para primeiro plano a questão da convivência dos diversos interesses. que acabara desembocando na restauração monárquica.

tal a hipótese acalentada por Silva Lisboa. Essa polaridade. Contudo. mas a tarefa de relaxar as tensões e impedir o esfacelamento do país. foi Papa de 1831 a 1846). Não se trata de pulso de ferro. tendendo para os extremos. iria criar um clima de bem-estar e harmonia. pregando a República e o federalismo americano com a sua descentralização administrativa. A economia política é. em 1756. Fiel à herança modernizadora de Pombal. “tiveram que voltar a toda pressão a máquina para trás. alheio á problemática ético-política. política e economia. promovendo a Independência. Na conturbada primeira metade do século passado. para depois alterá-lo. ameaçava o esfacelamento do país. em matéria política. que marca um ponto culminante de rompimento da Igreja Católica com o mundo moderno e insere uma condenação frontal ao liberalismo. pode ser ilustrada pela trajetória descrita por José da Silva Lisboa. Esses moderados. Cairu engajar-se-ia na defesa da liberdade de comércio e de indústria. “são os líderes realistas da política de transação. uma parcela do agrupamento liberal. ou passaram a temê-la. dele não se destacou quem quer que fosse para desempenhar um papel de relevo na política nacional”. imprimindo um rumo . A monarquia está a pique de soçobrar com a abdicação de Pedro I. Desta forma. na verdade. de Gregório XVI (nasc. marcha sem rebuços para o ultramontanismo. de fato. Assim. que comentaremos oportunamente (Capítulo V. por exemplo. 1a). quase a reacionários”.51 liberais ao mais extremado reacionarismo. em permanente conflito. encontra nesta última a chave para a conquista de uma vida social eminentemente moral. Cairu desespera da solução liberal e passa a atribuir à religião não mais o papel de elemento formador do comportamento moral. embora Silva Lisboa tenha chegado a estabelecer distinções entre ética. arrogavam-se de revolucionários mas. Desatento às condições próprias de nossa realidade econômica e social. confundindo as aspirações com a realidade. Esses revolucionários. Generalizava-se a guerra civil pelo país. redigiram o Ato Adicional. trasladando-se para o Brasil e regendo-se pelos princípios do laissezfaire. uma síntese dos demais planos e seu elo fundamental. Ao que aduz: “Meia dúzia de homens acrescentam bem amiúde uma ponta de moderação nas crises políticas que sacodem o Império. (3) A monarquia portuguesa. assim. supondo que os princípios da economia política revestir-se-iam de possibilidades ético-normativas. “passaram. em diversas oportunidades. Visconde de Cairu (1756/1835). temiam a revolução. rugitava contra a escravatura. Mas o fez. Paulo Mercadante enxerga três tendências. para impedi-la de precipitar-se com a velocidade adquirida”. em face da situação do democratismo. segundo princípios límpidos e racionais. Por isto mesmo assume a responsabilidade de divulgar a Encíclica Mirari vos. ainda conforme Mercadante. Seguiam-se os liberais que. Deles também seria a falange regressista da Interpretação e do Código de Processo”. na medida em que a Nação se avizinhava do precipício. face ao rumo dos acontecimentos. de um momento para outro. O curso dos acontecimentos iria entretanto evidenciar que as pessoas não se comportam. Assim. o centro moderador passa a congregar a maioria. a conservadores. prossegue Paulo Mercadante. Assim caracteriza a primeira: “Inspirado na Revolução Francesa. patrocinando o 7 de abril e levando à consumação do afastamento de Pedro I. ainda como autêntico discípulo de Pombal. revolucionismo-reacionarismo. muito próxima do entendimento da vida social manifestado por Pombal nas Observações secretíssimas. como se dava na fase precedente. há o liberalismo extremado. preconizando a eliminação da escravatura.

em 1821. a adesão da elite à filosofia de Victor Cousin contribuiu para congregá-la em torno da fundamentação doutrinária das tendências conciliatórias espontâneas. própria de homens que se consideravam emancipados de qualquer subordinação à Igreja. Repetia-se. Miguel Reale afirma que o ecletismo de Cousin tinha o grande mérito de “compor em unidade. que se seguiu à derrubada de Napoleão I. A contribuição de Silvestre Pinheiro Ferreira ao debate da idéia liberal no Brasil consiste em ter chamado a atenção para o fato de que o núcleo da nova doutrina consistia na representação. mas o equilíbrio dos líderes aparece de molde a contaminar as aspirações desenfreadas e assustadoras. Deixando o posto de Ministro de Portugal na Corte de Berlim. Aqui viveria cerca de doze anos. A par disto. entre outros. A par disto. No período da Restauração. o desejo de uma filosofia secular. conduzir o país a uma revolução. Durante a permanência no Rio de Janeiro. e os cursos de Cousin são proibidos no país.52 novo aos acontecimentos. por se considerar reduto do ecletismo. mas da palavra firme e sensata. em pleno ciclo da revolução industrial. de parte de Silvestre Pinheiro Ferreira (1769/1846). A rigor. Comentaria exaustivamente as constituições portuguesa e brasileira e todas as discussões e reformas verificadas no período. em 1810. tornava coerente a filosofia empirista introduzida no momento da reforma da Universidade. onde se encontrava a sede da monarquia. O Visconde de Cairu. como chefe de seu último governo no Brasil. o singular predomínio das tendências moderadoras na vertigem revolucionária”. vinha em socorro da postura vigente desde Pombal. portanto. tendo acompanhado D. O sucesso da componente moderadora se deve atribuir também à circunstância de que a doutrina da monarquia constitucional haja encontrado elaboração plena e acabada. radica-se em Paris onde elabora obra significativa de fundamentação do liberalismo. (5) De igual relevância é o fato de que o ecletismo haja vinculado a sua sorte à do liberalismo. não sem certo encanto verbal. que consistia em deslocar a religião para plano secundário. não tinha compromissos com o ideal democrático. (6) Deixando de levar em . em três volumes). no século passado. muitas vezes. enquanto internamente preservava formas arcaicas de efetivar as atividades produtivas. teria oportunidade de debater tais pronunciamentos no Senado. obra essa que se coroa com o Manual do cidadão em um governo representativo (1834. e a aspiração não menos viva de atender a um sentimento religioso alimentado desde o berço”. ministraria cursos de filosofia. A par disto. sem contudo afrontá-la. seu grande artífice e teórico. (4) Mercadante indica ainda que o país como um todo apresentava essa duplicidade. obra de uma geração mas que iria encontrar em Paulino José Soares. Silvestre Pinheiro Ferreira regressou ao Rio de Janeiro. nos anos vinte. estabelecendo vínculos estreitos com a elite brasileira que ascendeu ao poder com a Independência. do mesmo modo que à concepção das instituições imperiais. Visconde de Uruguai (1807/1866). Vicente Barretto apontou o fato fundamental de que a idéia liberal. definiu-a como sendo de interesse. João VI. ao vincular-se externamente ao mercado mundial. Abandonando Portugal em vista da vazante liberal e da reação conservadora na Europa. Tudo faz crer que o radicalismo fosse. Essa parcela de sua obra ainda figura obrigatoriamente nos catálogos da Garnier editados na década de sessenta. em vários transes. na fase considerada. a Escola Normal é fechada.

mas tomando-se por base os econômicos e profissionais. reconhece. como iremos mostrando. Quando se tratasse de fixar os direitos e os deveres dos mandatários ou representantes. mormente quando trataram de direito constitucional e dos direitos e deveres dos agentes diplomáticos. representa especialmente os do estado a que pertence. entre publicistas e jurisconsultos. destituídas de interesse público. é na natureza dos interesses que se devem procurar os motivos. quaisquer que sejam. e não . Os três estados sociais (comércio. os críticos do sistema imperial não tiveram a possibilidade de enxergar em que consistia o essencial do sistema representativo. Silvestre Pinheiro Ferreira assinala que. nos países que persistiram em sua prática e no devido tempo. é extremamente variada. Ao que acrescenta: “Se os jurisconsultos tivessem avaliado a importância desta observação. explicita. a saber: comércio. em prol da clareza e da exatidão. etc. indústria e serviço público todos os moradores de um país. a população poderia ser distribuída em doze grupos (agricultura. portanto. competia dizer que “o procurador representa os interesses do seu constituinte”. tornou-se praxe. por não saberem dar-lhes valor. por sua vez. em cada estado deve haver um certo número de homens capazes de compreender e sustentar no congresso os respectivos interesses. indústria e serviço público. Assim. minas. não é sobre esses conhecimentos que os eleitores estabeleceram a sua confiança.” (7) A massa de interesses. a que está dedicado o tópico subseqüente deste capítulo. tornar-se democrático. por diversas vezes. em prol da concisão. (8) Resumindo a doutrina exposta afirmaria Vicente Barretto: “A função da representação política consistiria. Portanto cada deputado. A atividade governamental era entendida como uma questão de conhecimento e racionalidade. teriam concluído sem hesitar que a jurisprudência da representação não pode ser outra que a do mandato. Os deputados seriam recrutados em cada um desses estados. artes e ofícios. caíram em graves erros. ver-se-á como essa característica não impediu que as camadas da população urbana tivessem acesso à representação. que Silvestre Pinheiro Ferreira. nem poderem aí achar senão um interesse mui remoto”.53 conta essa circunstância. estabelecia-se quem podia fazer-se representar. tanto na obra de Silvestre Pinheiro Ferreira como na Constituição adotada. Ora. não se permitindo o predomínio da emoção e de reivindicações personalistas. ainda que deva representar sobretudo os interesses gerais da nação. em. Prossegue Silvestre Pinheiro Ferreira: “Nós dissemos que se podiam distribuir pelos três estados de comércio. mas perdendo de vista esta idéia tão simples ou omitindo a palavra interesses. Na caracterização do processo eleitoral. Discutindo a natureza da representação. através do voto ou da representação virtual. dizer que “o procurador representa o seu constituinte” quando. e conservando a de pessoa. Estes homens distintos devem ter dado provas das suas capacidades nas ordens inferiores de onde não subiram sucessivamente senão pelo voto de seus concidadãos. justamente o que lhe permitiu. Ainda mesmo no caso de possuir conhecimentos mui extensos em outros ramos da ciência administrativa. mas seriam representantes da vontade nacional. que nunca foi exclusiva da aristocracia rural e dos comerciantes. seriam compreendidos em apenas três estados. O interesse nacional deveria ser determinado em função dos grupos sociais que tivessem mais a proteger na sociedade. indústria e serviço público) seriam então os fundamentos da representação nacional.) que. Permanece o pressuposto antidemocrático. fazer com que os problemas sociais e políticos fossem debatidos por uma elite.

da lavra de Silvestre Pinheiro Ferreira. prisões. Ali se vê que. para os interesses entre o poder que manda e os súditos que obedecem são os representantes. somos nós os deputados da nação. A questão se transfere do terreno da luta armada para o plano institucional. não pode nem deve ser ninguém que consinta o imposto senão a câmara dos deputados. 2) ASPECTOS TEÓRICOS MAIS RELEVANTES a) A doutrina da representação e a organização do corpo eleitoral A doutrina da representação de interesses. submetido à Constituinte. E pergunto: . Senadores entram em mais alta categoria”. capazes de impedir a volta da confrontação pelas armas. era muito superior à de Edmund Burke (1729/1797). em que informa ter sido a Constituição de 1824 calcada no anteprojeto de sua autoria. nos interesses representados pelas três partes que representam os interesses gerais. de Stuart Mill (1806/1873). Para os interesses de cada profissão somos nós. a julgar por sua reafirmação da parte de Antonio Carlos Ribeiro de Andrada (1773/1845) no famoso discurso de 24 de abril de 1840. Senadores. há interesses entre profissões. emergiu a convicção generalizada de que todos os interesses são legítimos e o essencial consistia em cuidar das formas de sua conciliação. segundo a índole do sistema representativo. Publicando-o na íntegra. a elite política brasileira irá dedicar-se ciosamente ao aprimoramento da representação mas também dos mecanismos moderadores. E esclarece: “. ambas focalizando prerrogativas do representante e seu melhor preparo em relação à comunidade –. para o sistema eleitoral que deve conduzir ao afunilamento dos interesses a fim de permitir que estejam adequadamente representados. . todo mundo não ignora as divisões do interesse.O imposto diz respeito aos interesses das grandes massas territoriais ou diz respeito aos interesses de cada uma das profissões? Quem pois deve consentir nele? É o representante hereditário desses interesses. entende que ao Senado “não compete alterar o „budget‟ feito pela Câmara dos Srs.” A superioridade dessa doutrina reside no fato de que aponta diretamente para o aprimoramento da representação.. para os interesses das grandes massas territoriais são os Srs. Aduz que os “deputados são procuradores imediatos do povo. há interesses particulares. isto é. (9) Sob a égide de uma experiência política entrecortada de choques armados. geralmente aceita no ciclo considerado – e também à que lhe sucedeu. (10) Walter Costa Porto permitiu-nos constatar que.54 da vontade particular”. há interesses entre o poder que manda e os súditos que obedecem. Habitualmente. sobressaltos. base doutrinária coerente. os Srs. A existência de teóricos do porte de Silvestre Pinheiro Ferreira permitiu tomar como ponto de referência. e além disto na Constituição”. o discurso em questão tem sido divulgado na parte em que se refere àquele evento. A partir da década de quarenta. na natureza do imposto. há interesses entre a nação e as nações estrangeiras. há interesses de grandes massas. tendo se tornado senso comum. no intróito. exílios e intermináveis disputas.. Fundo-me na índole do sistema representativo. Deputados. para a configuração das instituições políticas.

ao mesmo tempo. O que importa pois determinar é a extensão do território que. capacidade e virtudes. entendia. a fim de compensar os efeitos da desvalorização da moeda. mas sim ao voto universal de todos os seus concidadãos capazes de emitirem a seu respeito uma opinião com conhecimento de causa”. Logo depois introduzir-se-ia modificação preservado ao longo do Império: os distritos passaram a eleger três deputados. por exemplo. consistiam nas seguintes: 1) estabelecimento de condições objetivas a serem atendidas pelos cidadãos que deveriam fazer-se representar. e. etc. mas decerto o cantão onde é domiciliado. Os eleitores. Ora. com preferência os que tivessem feito serviços à pátria”. fixou a renda deste em duzentos mil réis. Escreveria Silvestre Pinheiro Ferreira: “A proporção que se há de estabelecer é entre o número de representantes e o das pessoas representadas. que introduziu a eleição direta. a Constituição de 1824 consagrou o princípio denominado de censitário. por sua vez. Assim. e ao nível destas vinculou o exercício de determinadas atribuições. em regra geral. O alargamento da representação seria efetivado mantendo-se intacto o censo em relação ao Interior – com o que tão-somente os proprietários constituíam o corpo eleitoral –. depois de prolongados debates. à massa de votantes. “pessoa de saber. devendo possuir renda anual de duzentos mil réis. poderiam ser eliminados pela simples efetivação das eleições. mesmo em todos os pormenores... isto é. No intervalo. não a província. portanto. Estabelecia a lei que as províncias seriam divididas em tantos distritos quantos fossem os seus deputados. Assim. e. se identifica taxativamente com a dispensa de prova (“considera-se como tendo a . Em consonância com o espírito e a letra do liberalismo da época. é de presumir que os conhecimentos do deputado possam abranger na sua especialidade. liberalizando-o nas cidades. manteve-se inalterado o censo até 1881 (Lei Saraiva). a possibilidade de reconhecer as qualidades e defeitos do mandatário. instituindo. qualificou o corpo eleitoral segundo suas posses. de que deveria ocupar-se o legislador. A Lei Saraiva. De onde se segue que cada cantão deve mandar ao congresso um deputado por cada um dos três estados. Avançou-se. um único corpo de eleitores.55 Essa elaboração teórica tem ainda outros desdobramentos. 2) a fixação de uma base territorial que assegurasse ao representante a possibilidade de familiarizar-se com o interesse que lhe competia defender. As questões centrais. “as condições de probidade e aptidão ficam seguras contra o perigo de qualquer manejo da intriga. aos quais incumbia eleger os representantes com assento na Assembléia. Nas sucessivas alterações introduzidas no Império. não se representam pessoas mas sim interesses. elevou a dos senadores para um conto de réis e a dos deputados para oitocentos mil réis. subdividiam-se nos que formavam o colégio eleitoral primário – cuja renda exigida era de cem mil réis – e os de segundo grau. por exemplo. Para os deputados requeria-se renda de quatrocentos mil réis. Silvestre Pinheiro Ferreira havia examinado os diversos elementos que poderiam desfigurar a representação. escolhidos pelos primeiros. elegendo o distrito apenas um deputado. (11) O distrito eleitoral seria introduzido em 1855. indústria e serviço público”.) incluía-se rendimento atual de oitocentos mil réis. comércio. porquanto nenhuma suspeita pode inspirar o cidadão que não deve a sua elevação nem ao favor da corte nem à baixeza diante do poder. entre os requisitos para ingresso no Senado (“idade de quarenta anos para cima”. exigia-se a partir de 1846 que a renda indicada se avaliasse em prata. a noção de “renda presumida” que. na Lei Saraiva. Muitos destes. porque . nós entendemos que todo homem é capaz de representar e conhecer.

o corpo docente das Academias. No Brasil. qualquer que fosse o partido escolhido para compor o Gabinete. e os serventes das repartições e estabelecimentos públicos”. Enfim. o direito à Justiça de fiscalizar e decidir questões surgidas nas juntas. A prática das eleições no Império evidenciou igualmente a importância da parte material do processo. A apontada liberalidade do censo nas cidades determinou que o Partido Liberal. a classe proprietária. se identificasse com esses setores da população e dispusesse de bancada estável. A prerrogativa chegou a abranger todo o funcionalismo civil e militar. nem por isto impediu que outras camadas da população se fizessem representar. regendo-se a sociedade por regras a que todos se obrigam. os artífices do sistema partiram da suposição de que semelhantes circunstâncias não se poderiam improvisar com facilidade. predominantemente urbana. excetuadas “as praças de pré. os membros do Poder Legislativo. “os habilitados com diplomas científicos ou literários”. enfim. excluise automaticamente a hipótese de que se viole a integridade do território nacional. venha a apossar-se de um dos poderes da nação e. Silvestre Pinheiro entendia que a função de zelar pelo cumprimento dessas regras . em relação à harmonia entre os poderes. No entendimento da função dos partidos políticos e da noção de “maioria parlamentar”. A par disto. as questões de que depende o adequado exercício do sistema não podem ser objeto de negociação ou barganha. precisou de quase dois séculos para consolidar partidos capazes de formar maiorias sólidas e estáveis. da Magistratura e da Igreja. que era constituída precisamente pelos proprietários rurais. Assim. mediante esse artifício.56 renda legal. etc. era com o sistema e não com os partidos. independentemente de prova. compete prevenir a circunstância de que determinado grupo de interesses. Assim. juízes de paz e vereadores. em algumas províncias. a pretender impor-se aos demais. o título eleitoral. b) A questão dos mecanismos moderadores Numa sociedade em que todos os interesses são considerados legítimos. cuja legitimidade todos reconhecem. partiu-se da consideração de que o país não dispunha da menor tradição na matéria. passando-as diretamente à Justiça. desde que o compromisso do eleitorado do Interior. comerciantes.”). Outro indicador da representatividade do sistema consiste no fato de que o Partido Republicano haja logrado enviar representantes à Assembléia.. A Inglaterra. etc. Em que pese a circunstância de que o sistema não era democrático. correspondendo a uma regra maior o imperativo da convivência dos vários interesses. ao arrepio das normas de convivência... sempre que o governo não encontrasse apoio na opinião nacional. ainda que seu propósito expresso consistisse na eliminação da forma de governo que lhe assegurava o direito de contestá-lo. constituído de forma a privilegiar a elite dominante.. O partido que recebia a incumbência tinha assegurada a maioria requerida para governar. notadamente em Minas Gerais. a convivência desses interesses só se torna possível mediante a aceitação universal de regras que os transcendam. que fez a Revolução de 1688 para impor o sistema representativo com a feição que veio a ser experimentada no Brasil depois da Independência. o Imperador dispunha da prerrogativa de chamar ao poder o partido da oposição. por exemplo. levando a que se constituíssem juntas eleitorais escolhidas mediante votação. A Lei Saraiva retirou destas últimas as atribuições quanto ao alistamento.

a nossa Constituição não admite o governo exclusivo das maiorias parlamentares e principalmente da maioria da Câmara dos Deputados só. com muita sabedoria. tinha em vista a experiência legislativa da Inglaterra. não quis que algum dos poderes governasse exclusivamente. o Poder Executivo poderia submeter a processo a maioria dos seus membros. o Poder Moderador. segurança e propriedade dos cidadãos. e ninguém ignora que os príncipes estão de tal modo cercados de lisonja e intriga que a verdade apenas pode chegar ao trono. e nos intervalos de uma sessão a outra cada deputado assaz tem que fazer com os seus próprios negócios. pelos outros poderes e. A prerrogativa de submeter a processo o membro de qualquer dos poderes se atribuía a todos eles. entendia ser imprescindível a existência de um órgão eletivo para fiscalizar o cumprimento da Constituição e das leis. mais importantes dadas pelo seu Primeiro Representante e delegado privativo. ou contra os poderes políticos do Estado”. durante a sessão. indistintamente. (. por assim dizer provisórias. Deu a cada um o seu justo quinhão de influência nos negócios do país. no entendimento do ilustre pensador. do mesmo modo que Benjamin Constant. A seu ver. as soluções. ainda. a fiscalização exercida pelo Executivo ou pelo Legislativo não seria suficiente. Sua competência diz respeito a duas questões essenciais: 1) manutenção dos direitos civis e. por estas razões: “O monarca não pode receber as suas informações senão em um círculo muito estreito.) A Constituição. Mas ela não poderia absorver em si os quinhões dos outros poderes.57 devia incumbir a um poder especial. Sobre a complexidade desse arranjo escreveria Paulino José Soares: “Finalmente. Inclusive deram-lhe uma denominação mais próxima dos fins que tinha em vista ao chamá-lo de Poder Moderador.. é sem dúvida o maior. o tempo apenas pode chegar para o conhecimento dos negócios que fazem objeto dos debates. definitivamente. O que deu à Assembléia Geral é importantíssimo. porque. e para nós essa consideração é a mais forte. nos comícios eleitorais. (12) Silvestre Pinheiro Ferreira. O congresso nacional não tem suficientes meios de informação.. deveria ser exercido de modo descentralizado. desde que convocados os substitutos a fim de não impedir seu funcionamento. por um órgão especial que denominou de Conselho Superior de Inspeção e Censura Constitucional. 2) harmonia e independência dos poderes públicos. Benjamin Constant denomina de Poder Neutro ao conjunto de atribuições que não são específicas de qualquer dos poderes constituídos. E a Nação reservou-se.” (13) . diretamente pelos cidadãos. A Constituição de 1824 e a prática legislativa ulterior não seguiram expressamente as indicações de Pinheiro Ferreira mas sobretudo o seu espírito. o que o sistema representativo do Império brasileiro chegou a conceber foram os mecanismos moderadores e que consistiam não apenas nas prerrogativas do monarca mas igualmente na vitaliciedade do Senado e no funcionamento do Conselho de Estado. O Poder Conservador. sem destruir pela base a Constituição. Na verdade. No caso do Parlamento votar uma lei atentando “contra os direitos de liberdade. durante mais de um século. a que chamou de Poder Conservador. Silvestre Pinheiro Ferreira previu amplamente as diversas hipóteses de conflito e indicou os procedimentos aconselháveis. A este respeito eles não estão em circunstâncias mais favoráveis do que quaisquer outros cidadãos”. pelos artigos 65 e 101 do parágrafo 5º da Constituição. e não pode entrar em um exame sobre o procedimento dos numerosos agentes do poder. Além da fixação em lei da vigilância entre os poderes e dos procedimentos para prevenir violações aos direitos civis. o direito de rever e decidir.

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Acerca da missão precípua do Poder Moderador, escreve o Visconde de Uruguai:
“No Exercício do Poder Moderador tem sempre havido acordo entre esse Poder e
os ministros do Executivo. Talvez em algum caso houvesse transações, concessões
voluntárias, recíprocas. O certo é que tem havido acordo e as referendas o provam. Talvez
mesmo que quase todos, senão todos os atos do Poder Moderador, tenham sido solicitados e
propostos pelos ministros, o que lhes é lícito e é muito conveniente. Prova a harmonia dos
poderes. Não tem portanto aparecido necessidade de prescindir o Poder Moderador da
referenda. Se algumas crises têm aparecido, têm elas tido um desenlace constitucional e
prudente. E por que? Porque os ministérios não têm procurado dominar a coroa e não a podem
dominar. E por que os ministérios não têm procurado dominar a Coroa? Por que não a podem
dominar? Porque a Constituição constituiu o Poder Moderador independente. Porque
constituiu-o não-satélite dos ministros mas primeiro representante da Nação, e fez dele um
ente inteligente e livre.
A questão tem porém um alcance imenso. Refundi o Poder Moderador no
Executivo. Ponde o exercício de suas atribuições na absoluta dependência dos ministros e as
coisas mudarão completamente. Tereis dado um grande passo para a aniquilação da
monarquia no Brasil. A nossa Constituição ficará transformada nas Cartas Francesas de 1814
e 1830 e terá a mesma sorte que elas tiveram. A Coroa perderá a maior parte do seu prestígio
e força. O Imperador não será mais o primeiro representante da Nação como o fez a
Constituição. Os ministros hão de procurar pôr-se acima da coroa. ...Se a Nação estiver
dividida em partidos encarniçados, se estiver no poder um partido opressor, não haverá um
poder superior, independente, sobranceiro às paixões, que valha aos oprimidos.
Durante os ministérios de 23 de março de 1841 e de 2 de fevereiro de 1844, a
Coroa procurou sempre moderar as reações e atenuar as asperezas da posição dos vencidos.
Pois bem, os vencedores queixavam-se de obstáculos postos à aniquilação de seus
adversários. Os vencidos queixavam-se por não serem embaraçados todas as medidas e pela
existência e conservação, no poder, dos seus contrários.
Quando se pretende que, conforme a Constituição, os atos do Poder Moderador
sejam exeqüíveis sem a referenda e sem a responsabilidade, quer legal quer moral, dos
ministros, não se quer excluir sempre os ministros e a sua responsabilidade moral, não se
pretende que cada Poder marche para o seu lado em direções diversas. Semelhante pretensão
seria absurda e funesta. O que se pretende é que fique bem entendido e parente que, havendo
desacordo entre os Poderes, e portanto em casos extraordinários, quando perigar a
independência dos Poderes, quando estiver perturbado o seu equilíbrio e harmonia (hipótese
da Constituição), possa o Poder Moderador, coberto pelo Conselho de Estado, obrar
eficazmente como e nos termos que a mesma Constituição determinou, e que ninguém possa
obstar a execução de seus atos, com o fundamento de que não estão revestidos da referenda
dos ministros de outros Poder”. (14)
Paulino José Soares, em sua obra clássica, expressa o papel que a geração de
políticos conservadores, responsável pelo sucesso do Segundo Reinado, atribuía às
instituições, isto é, a de implantar uma sociedade onde coexistissem os vários pontos de vista,
assegurada a sua adequada modernização. Para dizê-lo com as palavras de Wanderley
Guilherme:
“Qualquer ordem social, a partir da visão de Paulino, não ocorre naturalmente,
mas resulta da ação política coordenada. Se se deseja constituir uma ordem privada burguesa

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no Brasil convém preliminarmente dotar o poder político dos instrumentos que lhe permitam
instaurá-la e sustentá-la, o que queria dizer, no Brasil do século XIX, expandir a capacidade
regulatória do Estado pela criação de um aparelho administrativo nacional, subordinado a um
comando único, e pela redução do centrifuguismo local, obrigando-o a integrar-se por via do
Estado. Era aparentemente inviável, dadas as condições do escravismo quase auto-suficiente,
que os diversos localismos se integrassem por via das interações econômicas e sociais. E com
isto Paulino apenas repetia, ou sugeria que se repetisse, no essencial, a mesma estratégia de
criação política que presidira à implantação da ordem liberal burguesa na Europa, onde a
organização administrativa e militar do Estado nacional produziu a força política necessária –
que foi usada aliás, sobretudo na Inglaterra cuja história se idealiza –, para assegurar a
instrumentação e operação de práticas econômicas, políticas e sociais antifeudais”. (15)

3) APRECIAÇÃO REPUBLICANA DA EXPERIÊNCIA IMPERIAL

A nova elite que ascendeu ao poder com a República não era certamente
homogênea. Em seu seio havia inclusive políticos experimentados do regime anterior,
conscientes da complexidade dos mecanismos de funcionamento da sociedade. Contudo,
acabaria prevalecendo uma visão maniqueísta segundo a qual haveria o Partido Republicano e
o Partido Monarquista. A difusão do cientificismo e do positivismo contribuíram igualmente
para a ulterior distorção do fato político.
Assim, a República não distinguiu, no regime anterior, o que era próprio do
sistema representativo (a ser preservado) ou de sua forma monárquica (a ser eliminado). A
tendência predominante consistiu na condenação em bloco do conjunto das instituições
imperiais.
A luta que se estabeleceu entre o Executivo e o Parlamento, numa circunstância
em que haviam sido desativados os mecanismos moderadores, propiciou a ascendência
simultânea do republicanismo autoritário e do autoritarismo doutrinário, este tomando por
base as idéias de Comte, aquele atropelando a representação em prol da centralização do
poder em mãos do Presidente da República.
Assim, a problemática da organização do corpo eleitoral, integralmente
explicitada no Império, foi abandonada. E quando se pretendeu restaurar o sistema que tivesse
no voto o esteio de sua legitimidade, em especial após a queda do Estado Novo, passou a
vigorar a ilusão de que o simples direito de voto e a organização de uma eficiente Justiça
Eleitoral seriam suficientes para implantar um sistema de base representativa. Nem se cogitou
do distrito eleitoral, perdendo-se de vista a importância das dimensões do território, quando se
pensa em autenticidade da representação. Também os mecanismos moderadores foram
solenemente ignorados.
Em suma, mantinha-se o estigma em relação ao sistema imperial, privando-nos da
possibilidade de nos apropriarmos de forma criadora daquela experiência, a que nossa história
reservaria destino insólito, qual seja, o de constituir-se num evento absolutamente singular em
matéria de implantação bem-sucedida de um sistema de base representativa.

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NOTAS
(1)

Typhis Pernambucano, 10/06/1824, in Ensaios políticos, Rio de Janeiro, PUC-CFC –
Documentário, 1976, p. 100.
(2)
A Consciência conservadora no Brasil, 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1972.
(3)
Análise mais detida do tema é efetivada por Antonio Paim – Cairu e o liberalismo
econômico. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1968.
(4)
Obra citada, p. 99.
(5)
O processo de formação da corrente eclética acha-se suficientemente estudado, em
especial na obra A liberdade no império, de Ubiratan de Macedo (São Paulo, Convívio, 1977).
(6)
A ideologia liberal no processo da Independência do Brasil, Brasília, Câmara dos
Deputados, 1972.
(7)
Manual do cidadão em um governo representativo, in Idéias políticas, Rio de Janeiro,
PUC-CFC-Documentário, 1976, p. 131.
(8)
Obra cit., loc. cit., p. 132.
(9)
Introdução às Idéias políticas de S.P. Ferreira, ed. cit., p. 17.
(10) Grandes discursos.Seleção e introdução de Walter Costa Porto. Brasília, Instituto
Tancredo Neves, 1988, p. 5-16
(11)
Obra cit., loc. cit., p. 133.
(12)
Obra citada, loc. cit., p. 169.
(13)
Ensaio sobre o direito Administrativo, Rio de Janeiro, Tipografia Nacional, 1862, tomo II,
p. 150.
(14)
Obra cit., tomo cit., p. 111/114.
(15)
Paradigma e história – a ordem burguesa na imaginação social brasileira, Rio de Janeiro,
1975, p. 43.

pela própria burocracia. nos estados. O primeiro é a busca e o encontro de uma doutrina autoritária capaz de aglutinar o estamento burocrático e facultar-lhe um programa. Progressivamente irá afunilando a sua plataforma. No mesmo ciclo esboça-se uma primeira formulação de intervencionismo estatal na economia. Ainda na República Velha. Tal seria o castilhismo. alcançar a unificação da burocracia no ciclo subseqüente. com o agravante de que a historiografia marxista buscou aproximá-lo de outro conceito ainda mais confuso e impreciso. de onde provêm os quadros que iriam erigir o Estado Novo. logo apropriada pelo elemento militar. Foram derrotados pelo que tem sido denominado de oligarquias estaduais. por uma parte de sua liderança. Essas burocracias articulam os próprios interesses. é virtualmente afastado do Exército. Contudo. ainda nesse período emerge o grupo que aposta na profissionalização e investe neste sentido. desde a proclamação em fins de 1889 até a Revolução de outubro de 1930 –. na República Velha. No primeiro deles – que se convencionou denominar de República Velha. observam-se dois processos no seio das oligarquias estaduais. os militares tentaram perpetuar-se no poder durante a primeira década republicana mas viram-se forçados e renunciar à pretensão. Trata-se de uma prática autoritária. um primeiro embate do qual sairia derrotada para não mais se recuperar ao longo do século. Este. abrangendo quatro décadas. A formação da oligarquia estadual corresponde ao processo de apropriação do poder. Este livro não é certamente o lugar para examinar-se esse aspecto com a profundidade requerida. (1) Esse processo apresenta alguns ciclos muito nítidos. até circunscrevê-la à reivindicação da liberdade. cumpre indicar que seu pecado capital há de ter consistido no abandono da doutrina da representação . que já se considerou seria mais apropriado designar de “política dos estados”. Na visão de Murillo Santos. que se recusa a aceitar a proposta profissionalizante. assumiu o projeto pombalino revestindo-o da retórica positivista. o objetivo parece só configurar-se claramente para o estamento militar. sem radicalizar a autonomia com o propósito de levá-la até o separatismo. efetivada sem alterar a Constituição. A liderança liberal sofre. com a “política dos governadores”. dispondo de uma autonomia de que não desfrutava no Império. graças sobretudo à liderança de Getúlio Vargas. expressa sobretudo em Benjamin Constant.61 CAPÍTULO V O EMBATE DO SÉCULO REPUBLICANO E SEU DESFECHO 1) PRINCIPAIS CICLOS DO PERÍODO CONSIDERADO O século republicano compreende a remontagem do Estado Patrimonial até transformá-lo numa estrutura verdadeiramente aplastante. O tenentismo. O segundo é o processo de diferenciação de São Paulo. Como se sabe. A solução seria encontrada por Campos Sales. isto é. que somente conseguiria. o de “classe dominante”. distinguindo-se do autoritarismo doutrinário em gestação. A consciência dessa realidade talvez explique que a disputa se tenha deslocado para a posse do Poder Central. Este é um conceito válido mas muito mal formulado. O país é em geral muito pobre. estudado por Simon Schwartzman.

em primeiro plano. busca-se uma alternativa definitiva para o sistema representativo. e também a primeira versão do intervencionismo econômico. isto é. que lastro de conhecimentos deveriam possuir? Seria suficiente . entre outros pelo autor de D. assim se manifesta Jeovah Motta: “Para nós a questão que se coloca é. sem respaldo em pesquisa científica. De alguma forma procuraremos referir esse ponto. no último capítulo. pela forma como se conduzissem nas batalhas. D. esta: qual a base de conhecimentos gerais a ser dada à cultura profissional do oficial do Exército? Ou. o autoritarismo é a nota dominante. encaradas as coisas do ponto de vista de D. sendo de destacar que D. pendentes de suas mãos. Aqui mesmo neste tópico trataremos de examinar a questão doutrinária do positivismo republicano. o ensino de ciências. ainda que apenas topicamente. ou melhor. Na fase pós-64 prevalece o que Wanderley Guilherme denominou de autoritarismo instrumental. Rodrigo Souza Coutinho. Competiria naturalmente examinar-se as estratégias de sobrevivência do empresariado brasileiro. No Estado Novo. Inspirou-se amplamente nos Estatutos da Universidade pombalina e colocou. Oliveira Lima. Os principais aspectos dessa dinâmica serão considerados neste capítulo. e quiçá de Portugal. João VI. corresponde ao castilhismo. essencialmente. a ponto de que o futuro D. Deste modo. Tornando-se chefe do governo. na condição de Regente. intervenção transitória para permitir que a sociedade se diversifique. e cujo início de funcionamento ocorreria em abril de 1811. isto é. vale dizer. que as reformas pombalinas haviam conseguido modificar a mentalidade da elite. justificando que lhe busquemos adjetivação precisa e insubstituível (aplastante). justamente a pessoa que Pombal havia escolhido (e preparado) para substituí-lo. buscando comprovar sua filiação ao ideário pombalino. criada em dezembro de 1810. tratou de criar um instituto que fosse uma espécie de prolongamento da Universidade reformada em 1772. João VI no Brasil. (3) O desfecho deu-se entretanto no sentido de exacerbar o predomínio do Estado Patrimonial. no Brasil. Rodrigo concebeu a Academia Militar como estabelecimento destinado à formação simultânea de oficiais do Exército e engenheiros.62 elaborada no Império. constituindo assim a base social para aquele sistema (representativo). no capítulo III. que só parece ter servido para alterar-lhe a base doutrinária. Rodrigo não escondia – e teve ocasião de expressá-lo – a sua admiração por Pombal. com a transferência da Corte. questões estas que constituem uma espécie de pano de fundo do processo analisado na parcela restante deste capítulo. Rodrigo Coutinho. (2) Ao projeto modernizador do autoritarismo não logrou contrapor nada de consistente. a sorte do século republicano acha-se decidida neste primeiro ciclo (a República Velha). como se caracterizam as estruturas capitalistas que conseguiram sobreviver. A pretensão seria considerada excessiva. com o breve interregno após a queda do Estado Novo. Apreciando-a. aqueles que no futuro poderiam ter os destinos da Colônia. Tal seria a Real Academia Militar. a) Como se dá a conjugação entre ideário pombalino e positivismo republicano Tivemos oportunidade de mencionar. Depois de 30. acabou entregando o governo a D.

resultantes de um ensino de grau superior. por muito tempo. talvez o que melhor expresse esse entendimento sejam as Observações secretíssimas . seu adestramento na paz. representadas . e através dele o ideário pombalino. aparecem quase resmas de papel inteiras em memoriais e petições de letras perfeitíssimas”. O critério seletivo que invoca é a habilidade em escrever com boa letra.63 ministrar-lhes um ensino de nível primário ou médio? Quem apenas possuísse parco saber matemático e fosse jejuno de noções científicas. vindo dos reinos estrangeiros”. respectivamente. em ter difundido a crença de que a ciência (entendida como sinônimo de ciência aplicada) é o meio hábil para a conquista da riqueza. Rodrigo Coutinho ao criar a academia. administração e legislação. “que são os braços e as mãos de todos os Estados”. isso para não falar de balística. sua direção na guerra? Ou. aptos ao desempenho de todas as tarefas requeridas pelo comércio e pela construção. “de cada vez que se quer nomear um escriturário para qualquer das contadorias do real erário. problemas tais como os da organização de uma força militar. mas igualmente de inspirar a ação do governo (política) e as relações entre os homens (moral). seria preservado ao longo do Império. Agora. disciplina e instrução. O segundo princípio é o domínio das técnicas de fabricação industrial (“artes fabris ou ofícios mecânicos”). poderia dominar. A peculiaridade da mensagem pombalina consiste. Daí ter sido muito certa a linha curricular que Oliveira Lima taxou de exagerada. munições e transportes. o conhecimento e o domínio da técnica militar não estariam exigindo um ensino de nível superior. mormente aqueles baseados nas matemáticas e nas ciências da natureza”. da do comércio. E. O quarto e o quinto princípios correspondem. A situação inverteuse a tal ponto que. (5) Pombal parte do pressuposto de que Portugal atravessa uma nova era de prosperidade e busca explicá-la recorrendo ao que entende como ciência do Governo e denomina “economia do Estado e aritmética política”. A sua resposta a essas questões foi aquela que daríamos nós. como condição indispensável ao equacionamento de questões como as de recrutamento e armamento. tática e estratégia? Essa a problemática com que se defrontou D. das juntas da fazenda. O primeiro princípio da política pombalina consiste em promover a disponibilidade de homens para constituir uma burocracia capacitada. história e costumes. O terceiro princípio é a formação de uma elite de profissionais liberais. satisfatoriamente. Dentre os documentos que nos legou. foram tidos entre nós os estudos técnico-científicos. tudo que se requeria “entrava pela barra. ao estímulo das artes e da literatura (“da filosofia ou das belas artes”) e das “ciências maiores”. em ter nutrido a suposição de que a ciência não corresponde apenas ao processo adequado de gerir e explorar os recursos disponíveis. em primeiro lugar. examinando as coisas com a visão de nossos dias: o oficial do Exército tem que erigir a sua cultura técnicoprofissional sobre fundamentos científicos consistentes. já naquela época. das companhias gerais e das outras repartições públicas. “as manufaturas nacionais florescem”. Antes. raridade antes de 1750. ao contrário. além disto. (4) O currículo da academia Militar. numa explosão bem expressiva do desfavor em que.

Nada mais distanciado do que havia sido ensinado nos séculos anteriores. E tendo visto pela outra parte mais de cento e cinqüenta mil pessoas de ambos os sexos da ínfima plebe e espécie de povo em confusão e aperto na praça real do comércio. ordens. com irreparáveis ruínas da coroa a que servem e dos vassalos dela”. etc. no trajar (mesmo o sexo masculino achando-se “ricamente vestido e ornado. por tardes e noites inteiras. classes e grêmios de porte superior da capital de Lisboa na mais perfeita harmonia e recíproco trato e na mais suave consonância nos camarotes e salões das assembléias e das mesas. na ornamentação dos lugares. com a mesma tranqüilidade e silêncio. O sexto e sétimo princípios dizem respeito aos regulamentos do comércio interno e externo. com copiosíssima baixeta de prata nacional. e igualmente ao fruir. na presença de “extraordinário número de carruagens novas e de bom gosto”. Em Paris vimos há pouco tempo que as festas de casamento do conde de Provença causaram mais de trezentas mortes desastradas. os que entram de novo. Mais importante é assinalar que tais enunciados são entendidos como suficientes para assegurar a boa marcha da vida social em seu conjunto. como que poderiam estar em uma igreja fazendo oração”. a componente ético-normativa. por si mesmos. . estribado em conhecimentos e em ciência. E mais. Caracteriza esse evento nos termos adiante: “abolindo os expurgatórios romano-jesuíticos. freqüentes desordens que todos sabemos logo que se ajunta em número de três e quatro mil indivíduos.64 estas pela restauração da Universidade de Coimbra. arruínam assim o que estava bem. desde os indivíduos de primeira nobreza até os da última plebe”). entre os distúrbios da referida plebe. quando a experiência tem mostrado que semelhantes novadores. para que esteja melhor. a cada passo. tendo visto por uma parte os diferentes estados. Entre os efeitos que provêm da aplicação de semelhantes princípios. A evidência de que havia sido alcançado podia se ver nas recepções (exemplifica com o senado da câmara. isto é. fugindo às novidades com que ordinariamente costumam. O oitavo princípio refere-se à harmonia entre as classes (“harmonia e consonância com que se viram concordes a primeira nobreza com a civil e ambas com a plebe”). e encheram estes reinos de claríssimas luzes em que hoje abundam”. Pombal destaca o seguinte: “É notório que na corte de Londres comete a plebe. “porque enquanto se governarem pelos mesmos princípios e pelas mesmas máximas é certo que terão sempre os felicíssimos sucessos. inserem. sem entrar nem uma só peça de estrangeiros”. e todos aqueles estrangeiros que se achavam nesse conhecimento não podiam deixar de confessar que estamos muito mais sociáveis do que eles. querer emendar o que está bem. fecharam aos livros perniciosos as portas que abriram aos de sã e útil erudição. o conjunto descrito deve ser preservado. onde observou-se “a mesa servida com grande exatidão e delicadeza de pratos para quatrocentos pessoas. Os nove princípios pombalinos resume-se ao fazer. em lugar de conseguirem o que cuidam que é melhor. O nono princípio é assegurar o estado de riqueza dos vassalos.

Isto aliás vem em reforço à tese de que o comtismo foi admitido enquanto servia para reforçar crenças anteriores (o ideário pombalino). Foi preciso que chegássemos a 1872. para comprová-lo. falava-lhe das leis que regem a sociedade e comandam a história. O conhecimento de Comte começa justamente na Real Academia Militar e. Conclui Jeovah Motta: “Ao conformismo natural e espontâneo dos moços. teria oportunidade de escrever que “operava o prodígio quase sobre-humano de transfigurar a cátedra de Geometria Algébrica em altar levantando à mais pura idealização da pátria”. abertamente. da ciência que racionaliza o governo dos povos e lhes ilumina o futuro – tal era. Nos cento e sessenta anos da Academia. o fato durante muito tempo se circunscreve aos aspectos meramente matemáticos: era Comte. alguns lentes da Escola haviam descoberto. a partir de então. de Cálculo Diferencial e Integral e de Mecânica. na Academia Militar. nenhum pôde disputar-lhe o título de educador emérito”. na Praia Vermelha. A esse propósito escreve: “Já no período anterior (1850/1874). O mérito de Augusto Comte consiste precisamente em explicitá-lo.65 De todos os modos. ainda que não deixasse de ser enorme incongruência que militares aceitassem a liderança teórica de quem. Invoca. logo a partir de 1850. Fascinava porque não se detinha na matemática. Como professores de Geometria Analítica. a essência de seu magistério. para que o comtismo ganhasse. com o ingresso de Benjamin Constant no quadro de lentes da Escola. São possíveis a moral e a política científicas. pregava a dissolução dos exércitos. deu-se no estrito limite em que contribuiu para desenvolver as apontada premissas do ideário pombalino. foram tomando corpo. como esperamos demonstrar. inspirando professores de Matemática. plantada originariamente entre os militares e engenheiros. difundida pela geração pombalina. sentiram-se empolgados pelas conceituações e pela vigorosa sistematização que encontravam na Géométrie Analytique e no primeiro volume do Cours de Philosophie Positive. (7) Benjamin Constant singularizava-se não apenas por haver retomado a crença na possibilidade da sociedade racional. mais amplos contornos. tendo sido discípulo de Benjamin Constant. além das formulações sobre a filosofia da Matemática. configurando-se como a doutrina política em plena ascensão no período republicano. O interesse inicial pela obra de Comte na Academia era de índole meramente científica. mas pelo fato de que se elevava à Filosofia da História e aos princípios da dinâmica pessoal. a crença na possibilidade da moral e da . a crença na possibilidade de moral e política científicas achase apenas implícita na pregação de Pombal. estando superados os tempos em que o homem tinha uma lei para a razão e outra para o coração. como sobretudo pela virtude de explicitar plenamente todas as premissas abrigadas por aquele ideário. isto é. professor de Matemática. o positivismo iria irradiar-se pelo país. também as definições comteanas nos campos da Filosofia da História e da Sociologia”. Indico dois exemplos comprobatórios de que a adesão às doutrinas de Augusto Comte. deu-se ali nesse estrito limite. nem mesmo na filosofia da matemática. as formulações matemáticas de Comte. como observa Jeovah Motta. (6) Benjamin Constant não lhes ensinava apenas a equação da linha reta. segundo Jeovah Motta.. Contudo. O fato consignado pode ser resumido como segue: dessa base. o testemunho de Rondon que. com grande encantamento. Benjamin Constant dava um suporte teórico e doutrinário. até a ascensão de Benjamin Constant (1833/1891).

catedrático de matemática do Colégio Militar. sendo professor Roberto Trompovsky: “Muitos dirão hoje que jamais aplicaram na vida prática o que aprenderam naqueles altos remígios pelas regiões elevadas do cálculo transcendente. ao invés de recomendar a dissolução do Exército. às autoridades que mantinha na esfera do ensino superior. o cidadão armado. Segundo exemplo: nas reformas do ensino que se fizeram na República. O objetivo da matemática é menos científico ou doutrinário do que lógico. todas estruturadas com base na suposição de que a abordagem do real se esgota na ciência. o Estado. Para ele caminham mais rapidamente do que todos os outros – como é forçoso e grato reconhecê-lo –. organização e nos seus destinos a leis imperturbáveis reguladoras da evolução geral do progresso humano que tende inevitável e progressivamente para o feliz regime final – industrial e pacífico – resultante do fraternal congraçamento dos povos. Benjamin Constant atribui-lhe nada mais nada menos que a liderança na implantação do estado positivo. A orientação dominante nos povos e nos exércitos americanos dá-nos lisonjeira esperança de que aquele sublime ideal do verdadeiro progresso humano se transformará em futuro não muito remoto em grata e feliz realidade. o magistério cientificista serviu sobretudo para configurar certa mentalidade. apoio inteligente e bem intencionado das instituições republicanas. de hoje em diante. teria oportunidade de afirmar: “O soldado deve ser. Primeiro exemplo: Augusto Comte entendia que as forças armadas deveriam ser transformadas em simples milícias cívicas.) Quem não aprendeu a raciocinar em matemática ressente-se dessa falha a vida . Na pregação de Benjamin Constant. descrita adiante por Alfredo Severo. Assim. aniquila o estímulo e abate o moral”. sempre disposto a sacrificar dignamente o seu egoísmo nacional ao largo e fecundo amor universal. considerada a ação particular meramente supletiva. os povos americanos de um modo ainda mais acentuado o nobre povo brasileiro. Na verdade. Ao invés disto. (8) Como se vê. o que dá enorme coerência ao modelo que atribui ao Estado a direção do processo de modernização. na justificativa da reforma do ensino militar. Para ele concorrerá poderosamente o exército brasileiro a que me orgulho de pertencer”.. ao escrever-lhe a biografia. assume a responsabilidade pelo ensino primário e secundário. Benjamin Constant afirma que: “Eles (os exércitos modernos) obedecem consciente ou inconscientemente na sua índole. (. que figura entre os documentos divulgados por Teixeira Mendes. Em vão os membros do Apostolado iriam lembrar a pretensa incompatibilidade entre o positivismo e qualquer forma de militarismo. e que freqüentou os cursos da Escola em fins do século. de que ficamos armados como de um inestimável tesouro. a começar da que leva o nome de Benjamin Constant. A verdade porém é que. destinadas ao policiamento das cidades e do interior. corporificação da honra nacional e importante cooperador do progresso com garantia da ordem e da paz públicas. a elite militar tornava-se uma espécie de porta-voz da Nação. cabendo ao primeiro as tarefas no âmbito da educação. jamais instrumento servil e maleável por uma obediência passiva e inconsciente que rebaixa o caráter. como queria Comte.66 política científicas. abandona-se integralmente o princípio comteano da separação entre os poderes espiritual e temporal. Na Ordem do Dia expedida na ocasião em que deixa o Ministério da Guerra. em 1894.. sem aquele treinamento de nossas circunvoluções cerebrais nunca poderíamos ter adquirido a capacidade aquisitória de assimilação mental.

onde era professor. Aarão Reis parte da seguinte premissa geral: “Não podem os fenômenos sociais. que ilustrou e ainda está a ilustrar. quando jamais houve lá uma cadeira de filosofia. considera que este seria decorrência do desenvolvimento da sociedade industrial. Por isso Augusto Comte restabeleceu-lhe o antigo nome de Lógica. (. na formulação dos programas substitutivos da importação de aço. uma relação entre os dois processos que a experiência histórica jamais comprovaria. Também remonta a Pombal o nacionalismo (o anti-americanismo). a meu ver mais relevante. Engenheiro muito conhecido no país. Muito provavelmente – como procuro apontar no item subseqüente (2) deste Capítulo – corresponderá à fonte inspiradora dos militares que assessoraram Vargas. . perdeu-se de vista a elaboração teórica que teve lugar no seio do próprio positivismo. horizontes tão amplos que os cérebros ficavam afeitos a tudo conceber convenientemente.. o suficiente para abrir. como os vários setores da vida nacional a que circunstâncias várias a solicitaram”. (. infelizmente. dando em resultado uma geração de tal modo apta a tudo assimilar. mas. o ideário pombalino ganhou nova consistência e atualidade. filosofia matemática e confusionista. Hoje é que se ensina filosofia até no curso secundário. como também de manual de matemática e de tratado de direito administrativo.) É freqüente ouvir-se que aquele ensino era muito filosófico. No compêndio de economia política. geralmente mencionadas.. b) A primeira versão do intervencionismo estatal na economia Prevaleceu. não só os altos escalões da hierarquia militar. entre outras a de planejar e implantar a nova capital de Minas Gerais. ainda nos anos trinta.. dogmaticamente. em lugar de matemática. O poderoso Marquês é que poria em circulação a tese segundo a qual Portugal era pobre porque a Inglaterra era rica. O que lá na escola sempre se ensinou foi ciência. que começa a elaborá-la ainda em fins do século passado. Tenho em vista o combate frontal ao liberalismo econômico e a elaboração de uma ampla doutrina centrada no intervencionismo estatal na economia. às inteligências. o entendimento (liberal) de que o Estado não deveria intervir na economia.. Além das iniciativas (estaduais) para a proteção do preço do café. estar isentos da subordinação fatal a leis determinadas. E mesmo dela só o cálculo e a geometria diferencial e integral obedeciam à orientação da Síntese Subjetiva de Augusto Comte. que significa apenas ciência.. Escreve: “No início do moderno regime econômico da grande indústria..) isto era. porém. (9) Assim. Igualmente nessa matéria os brasileiros não esperaram as revisões keynesianas.67 toda. Aarão Reis é autor de um compêndio de economia política. (10) adotado oficialmente na Escola Politécnica. exerceria importantes comissões. (11) No que se refere ao intervencionismo estatal. na Revista da Escola Politécnica. estabelecendo. em que acabaria desembocando essa pregação cientificista. devida a Aarão Reis (1856/1936). Belo Horizonte. Firmar definitivamente esta noção sobre sólidas bases científicas foi a grande e monumental obra do imortal Augusto Comte”. como todos os demais fenômenos da natureza. durante a República Velha.

com eficiência completa. por meio de imparcial distribuição de justiça.68 pretendeu a metafísica econômica. 10) promover. proporcionando-lhe também as condições higiênicas. 313). favoráveis à sua maior produtividade. 3) realizar empreendimentos superiores às forças da iniciativa particular. de interesse tanto coletivo como individual.. sempre que causas quaisquer tendam a rompê-lo. 313). Aarão Reis condena a oposição a esse intervencionismo estatal a pretexto de que leva por vezes a intoleráveis exageros. e. na ilusão desse falaz fundamento... 9) velar como possível pelo restabelecimento do conveniente equilíbrio entre consumo e produção. a seu ver. 7) assegurar a salubridade indispensável à ação fecunda do trabalho. 4) impulsionar.. (§ 581. p. desde que as da procriação de gerações fortes. restringir as funções do Estado aos seus primordiais deveres de garantir. de modo a permitir a livre expansão da liberdade e firmar o direito. a integridade nacional e a tranqüilidade pública interna. 2) proteger. 8) atenuar quanto possível os inconvenientes decorrentes de uma concorrência desregrada. de cuidadosa supressão de abusos e de vigilante afastamento de obstáculos. laissez passer”. recursos para o custeio normal de sua própria subsistência como órgão imprescindível. impedindo mesmo com mão forte que dela pretenda prevalecer-se o interesse sórdido da ganância individual contra os da coletividade. Era aliás o natural prolongamento. incitar e amparar por acertadas disposições legais o espírito de associação para que aja eficientemente quer no sentido da produção e da circulação.. como atento. Cabe. (§ 580. 6) coibir abusos e eliminar obstáculos.. discreto e patriótico regulador das funções econômicas”. assegurar a conveniente circulação e garantir justa e eqüitativa distribuição dela. em interferência meramente fiscal. do laissez faire . p. 11) promover carinhosamente a educação popular no sentido de preparar os cidadãos para o exercício regular de todas as suas múltiplas funções. E prossegue: “Dentro em pouco porém os próprios interesses nacionais e as próprias conveniências públicas foram reclamando que . Na mesma ordem em que efetiva. sadias e robustas até da defesa intemerata da pátria nos campos de luta armada. regular o respectivo consumo. quer no do consumo e ainda no da distribuição da riqueza. “coibi-los sem desfalecimentos e sem . animar ou favorecer certas operações industriais ou mesmo determinadas classes da população. dirigir e guiar a produção da riqueza. eis a enumeração que apresenta das atribuições do Estado na esfera econômica (§ 583): 1) Procurar. 5) estimular a atividade do trabalho e oferecer ao capital a imprescindível confiança sem a qual para logo se retrai e encolhe. como propulsor do organismo social não pode (o Estado) deixar de intervir na movimentação normal de suas forças.

tornando efetiva e real a aparente liberdade atual do trabalho e das trocas. importaria negar a luz do sol. algumas radicais. Bastaria essa admirável divisão dos poderes – constituindo o judiciário num quase poder espiritual presidindo superiormente o temporal. que contribuirá para o crescente melhoramento da sorte geral da humanidade apropriando cada vez mais os agentes naturais à satisfação cada vez mais ampla de suas múltiplas necessidades. mais se assemelha a uma parcela indissociável da tradição patrimonialista. se o regime político da atualidade é de transição entre o absolutismo e o liberalismo e como tal carente de reformas. Aarão Reis acredita na capacidade ético-normativa da ciência.69 transigências” mas pretender eliminá-la. do comércio e da administração da sociedade humana. regularizando a concorrência. 314). que quando esse intervencionismo se traduz. graças à melhor organização social fundada na liberdade do trabalho e do comércio. A esse propósito teria oportunidade de escrever: “Negar que a atual organização política da sociedade – a democracia – representa extraordinário progresso em relação às que tem constituído os anteriores estádios. a despeito de tudo. numa substituição do Estado ao particular. como dos contemporâneos. Denomina-o de socialismo determinado. em suma. de acordo com as regras previamente fixadas e iguais para todos – para indicar que. pelo menos na forma em que nos foi transmitida por herança.” Semelhante objetivo. graças às novas instituições que irão surgindo”. é ele suscetível de largo desenvolvimento que.” Como se vê. serviços imprescindíveis ficariam por fazer enquanto outros. e que há de afinal harmonizar a reciprocidade com solidariedade. se acelera e acentua suas gloriosas etapas. depurando as relações de valor econômico e aperfeiçoando. Há porém casos em que. o socialismo. sob a inferência falaciosa “da eloqüente verbiagem da metafísica econômica”. que lhe foi precursor no ensino da disciplina de que se ocupava. por mais eqüitativa distribuição da riqueza. a exemplo do Marquês de Pombal ou do Visconde de Cairu. aliás. prossegue. ao apostar igualmente na organização democrática da sociedade. constitui-se em novo ideal moral. Aarão Reis preconizava o advento do socialismo “não por meio de golpes de leis e de regulamentos ou de um triunfo revolucionário” mas pela tendência da humanidade à sua indefinida perfectibilidade. exercido pelos outros dois. dia a dia. Não há dúvida. “pela rigorosa aplicação do método científico ao estudo de todas as questões sociais. seria contrariar o progresso normal da sociedade humana (§ 584. esses serviços assim oficializados. são. Ao que acrescenta no parágrafo seguinte: “E o socialismo não é senão a meta definitiva desse movimento que. sem essa interferência. acrescenta. que tende a realizar-se juridicamente (§ 604). na prática. não podem ser confiados à iniciativa particular. em geral. sem destruí-lo. o irá adaptando às novas condições sociais. mais onerosos. (12) 2) ABANDONO DA REPRESENTAÇÃO E ASCENDÊNCIA DO CASTILHISMO: . p. pelo respeito da própria autonomia individual. todo o complicado mecanismo da indústria. finalmente. Essa componente. graça à crescente aplicação dos progressos científicos ao desenvolvimento da indústria e. por sua natureza especialíssima. Aarão Reis distingue-se entretanto de seus precursores.

) O atentado de 5 de novembro dava-lhe elementos de reação que. a atribuição de reconhecer os diplomas dos parlamentares. Tudo isto se faz. o presidencialismo do regime adotado em 15 de novembro de 1889 revelava a tremenda soma de poderes que poderia enfeixar nas mãos o presidente da República e dos quais os seus sucessores saberão colher o máximo proveito. José Maria Belo assim caracteriza o clima vigente na década de noventa: “Ainda não libertos das tradições parlamentares do Império. o castilhismo. não se entenderiam nunca”. mandatário do quarto governo republicano. com a amplitude que seria de desejar pelos estudiosos do pensamento políticosocial brasileiro. como por exemplo a tentativa de reduzir o Estado Novo a uma projeção do nazi-fascismo. dentro da própria órbita constitucional. ocorrida após a Revolução de 1930. (13) No terceiro governo republicano. No primeiro decênio. seria paulatinamente abandonado durante a República. e que se repetiria em várias fases da história da Terceira República francesa. sofre o Presidente da República um atentado no qual perde a vida o Ministro da Guerra. No fundo. que se segue.. A 5 de novembro de 1897. o Presidente elimina pela força a oposição no Parlamento. Sob o estado de sítio. “enfim. Tudo isto mediante simples arranjo no Regimento da Câmara dos Deputados. de fazer repousar o regime no sistema representativo. (.. a representação passa a constituir abertamente um simulacro. os congressistas republicanos reivindicavam uma primazia política que violava a natureza do regime.70 O ESSENCIAL DO PRIMEIRO CICLO a) O principal resultado do novo ciclo: o castilhismo O processo anteriormente descrito. o primeiro civil do novo regime. através da chamada política dos governadores. sem maiores compromissos com o evento real. isto é. O poder do Congresso e o Poder do Presidente da República harmonizavam-se apenas nos artigos constitucionais. reproduzia-se em outro plano a luta entre o Parlamento da França e o governo de MacMahon. Entretanto sem a referência da teoria e da prática castilhista nossa história republicana torna-se campo propício a simplificações de toda ordem. contudo.. confeccionada na Capital da República a partir do único critério de assegurar maioria sólida ao governo. corresponde à ascensão do castilhismo ao plano federal. inutilmente. na imprensa e nas ruas. Viu-se então representantes eleitos que perdiam seus votos na confecção da ata e toda sorte de chicana.. na realidade. composta pela Chefia do Executivo. O desfecho desse processo. Ainda mais: não se trata . Às eleições concretas se substituía a ata da apuração. a luta pela hegemonia entre o Poder Legislativo e o Executivo decide-se em favor deste último. A peça-chave dessa política consistia em delegar à Mesa da Câmara. intocada a Constituição. isto é. procura. firmar a suprema autoridade do chefe do Poder Executivo. exercido por Prudente de Moraes. o de abandono da representação. sem qualquer doutrina e ao arrepia da Constituição. conseguindo. no dizer de José Maria Belo. Neste século.” O golpe de morte na representação seria entretanto desferido por Campos Sales. ainda não foi compreendida. sob Campos Sales. Embora se reconheça a presença da influência positivista no Rio Grande do Sul. daí resultante. surgiria a oportunidade para anular a autonomia do Parlamento. a importância da filosofia política.

pois. com exceção de um único mandato. até 1928. para a votação dos créditos financeiros e exame da aplicação das rendas públicas. O governo acha-se. para que todos hoje chamam a atenção. da autoria de Joaquim Luís Osório. de acordo com o regime republicano.” Ao longo da República Velha. quando assumiu a Presidência da República. Foi substituído no governo por Borges de Medeiros (1864/1961) que permaneceu no cargo. foi reunido no livro Constituição Política do Rio Grande do Sul. coerentemente elaborada. porém após exposição pública dos respectivos projetos. investido de uma grande soma de poderes. nos quais podem assim colaborar todos os cidadãos. em virtude de tais disposições. de plena confiança e inteira responsabilidade. acham-se nele plenamente asseguradas. em nome da Família. isto é. proceder à caracterização do castilhismo. após a proclamação da República. Não há parlamento: o governo reúne à função administrativa a chamada legislativa. Todo esse material. da política fundada na ciência. A paixão dessa crítica impede que se visualizavam as questões efetivamente relevantes. A Assembléia é simplesmente orçamentária. estabelece a separação dos dois poderes. do ponto de vista doutrinário. em 1923. que foi defendida e aperfeiçoada no Rio Grande do Sul ao longo dos quatro primeiros decênios da República e. razão pela qual a melhor fonte para apreendê-las ainda é a defesa veiculado pelo próprio castilhismo. decretando as leis. a liberdade religiosa. transplantada para o plano nacional por Getúlio Vargas (1883/1954). A caracterização oficial do regime imperante no Rio Grande do Sul é apresentada do seguinte modo no folheto justificativo do monumento a Júlio de Castilhos: “A Constituição Política do Estado do Rio Grande do Sul. Outros aspectos suscitados pela prática castilhista seriam . da Pátria e da Humanidade. Borges de Medeiros seria substituído por Getúlio Vargas que cumpriu o mandato até outubro de 1930. como Chefe do Governo Provisório. Autor da Constituição estadual. discursos parlamentares e artigos de jornal. a liberdade de profissão e a liberdade de indústria. código político promulgado a 14 de julho de 1891. saído da Revolução. no Rio Grande do Sul. Tendo adquirido sua formação sob o castilhismo. Incumbe. a seguir. dos Hobbes e dos Fredericos.71 tão-somente das ascendência do autoritarismo. resultante das mensagens dos governantes riograndenses e outros textos oficiais. Vargas iria aperfeiçoar essa doutrina e dar-lhe uma feição que está no cerne do comportamento de facções ponderáveis da contemporânea elite brasileira. O castilhismo não é uma simples defesa do autoritarismo. exerceu a presidência do Estado até 1898. conforme as aspirações e os exemplos dos Danton. 1991). temporal e espiritual. o que permite-lhe realizar a conciliação da força com a liberdade e a ordem. É uma doutrina de muito maior significação. de que aliás resultou a interrupção da praxe das reeleições sucessivas de Borges de Medeiros. o castilhismo foi combatido com veemência e deu mesmo lugar a uma guerra civil. Júlio de Castilhos (1860/1903) assumiu a liderança dos diversos grupos republicanos. Como conseqüência disso. de acordo com o princípio capital da política moderna. Comentário (Porto Alegre. forçando a intervenção federal.

” Os grandes teóricos do liberalismo que inspirou as instituições imperiais.72 posteriormente considerados por Monte Arraes em O Rio Grande do Sul e suas instituições governamentais (Rio de Janeiro. O meu ponto de vista é mais geral: é demonstrar que isso que se alega nãos e constitui de modo algum ofensa à forma republicana federativa. Na Constituição do Rio Grande do Sul (este é o nosso modo de ver) eu vejo perfeitamente representado o pensamento. também é organizada por meio da eleição e os intendentes. Não parece que a objeção deva ser levada em consideração. que tem intervenção direta na governação pública. a Câmara dos Representantes. estou enunciando uma doutrina que é exposta por espíritos superiores. Se nós consideramos governo representativo aquele em que os diferentes órgãos da autoridade pública se acham investidos do poder.” Semelhante entendimento da questão chegou a receber o apoio de Campos Sales. Não discuto se a Constituição do Rio Grande do Sul possui ou não defeitos. mesmo porque todas as constituições estaduais os têm mais ou menos graves. . portanto. não autoriza. a propósito da tentativa de regulamentação do artigo 6º da Constituição de 1891. se a eleição dos mandatários ou a elaboração das leis pelo Parlamento. 1925). a intervenção da autoridade federal. em virtude dos votos que lhe dá o povo. devemos dizer que o projeto. A questão central que então se discutia resume-se em saber se o regime riograndense poderia ser enquadrado dentro do sistema representativo. com a sanção do poder executivo. bem como os conselhos municipais. em que se dá o poder legislativo a uma Assembléia de Representantes. Joaquim Luís Osório transcreve este pronunciamento de parlamentar castilhista na Assembléia Estadual que é bem expressivo do modo de encarar o assunto: “Afirmou-se que a lei fundamental em discussão não adotara o governo representativo. em discurso no Senado. transcrito por Luís Osório. estão elas caracterizadas pela votação dos impostos e das leis de meios em geral. que faz a lei. tal qual foi concebido. o princípio fundamental da forma republicana federativa. manifestar-se-ia acerca da discussão das circunstâncias rio-grandenses. o que constitui e caracteriza o regime representativo. Quanto às funções legislativas. iriam evitar qualquer discussão da idéia mesma de representação buscando travá-la em torno do que seria a essência do regime. Nesse discurso. o chefe do Estado é investido das funções que lhe dá a Constituição. Os castilhistas. e por ela se demonstra que a maior ou menor amplitude dada às funções de cada um dos três poderes políticos não afeta a questão da forma de governo. governo que se funda no princípio da divisão dos poderes. da lei orçamentária. em 1895. que estabelecia os casos em que a União poderia intervir nos Estados. consagra o governo representativo. com grande sucesso. consideramos o governo representativo. Eis o trecho: “O Sr. não apenas aceitando as premissas castilhistas como igualmente se solidarizando com a argumentação. e nem também nós o queremos. em virtude dos sufrágios populares. Com efeito. dirá que o Projeto da Constituição não estabeleceu esse sistema de governo. mas como o governo parlamentar. entretanto. que em tal caso seria criminosa. se acham colocados na posição de gestores dos negócios dos municípios em virtude dos sufrágios que receberam dos eleitores dos municípios outorgantes do mandato. Campos Sales entende que o dispositivo é suficientemente explícito e dispensa interpretação. Se. não como aquele em que somente pelo sufrágio popular é a autoridade investida do exercício das funções governativas. Campos Sales: Senhores. pela confecção da lei das leis.

questão de competência”. a política jamais poderia constituir uma profissão ou um meio de vida. ensinara que o governo havia-se tornado uma questão de competência. Augusto Comte. seria desde logo indigno de exercê-la. passa-se a entender que o poder origina-se da representação. ou. adiante transcrita por Luís Osório: “É assim que o escrutínio secreto fica suprimido. como a astronomia ou a química. diria Silvestre Pinheiro Ferreira. e considerando-se não só competente mas possuído de intenções absolutamente puras. ao invés da luta armada. ainda não desapareceu”. A diversidade dos mandatos. As instituições que a prática consolidou tinham o propósito expresso de conciliar tais interesses através da negociação. Aquele que se servisse da política para seu bem-estar pessoal. dignificando-o. Em igual culpa. fazendo compreender ao cidadão a responsabilidade que assume ao intervir una composição do poder público e no estabelecimento das leis. No seu conceito. mas um meio de prestar serviços à coletividade. O saber de que se trata é o do estado positivo. Escrevera no Sistema de Política Positiva (1851/1854) que “é perfeitamente inútil discutir sobre o direito divino num mundo em que Deus não desempenha nenhum papel. mesmo com prejuízo dos interesses individuais.. a origem do poder provinha de Deus. permitindo aos particulares (no exercício de uma função política) eximirem-se dela.) Como governante. por conseguinte. os desambiciosos. Mais tarde. Júlio de Castilhos imprimiu na administração rio-grandense um traço tão fundo de austeridade que. Como bem o assinalou Ricardo Vélez Rodríguez. para dizêlo com as palavras do historiador Arthur Ferreira Filho: “(Para Júlio de Castilhos) a República era o reino da virtude. Aceitando semelhantes pressupostos. e estes incorrem somente na pública censura. quando aquele arrisca ficar sujeito a severas penas. a necessidade de assumir a cada um a plena responsabilidade das próprias ações. graças sobretudo a John Locke. como antagônico e incompatível com a nova ordem fundada a 15 de novembro. Somente os puros. no conceito castilhista incorreria o político que usasse das posições como se usasse de um bem de família (. não pode provir senão da diversidade dos interesses que o mandatário é chamado a representar. como dever que a todos incumbe. tinham presente que a representação era de interesses. ou para aumentar sua fortuna.73 notadamente Silvestre Pinheiro Ferreira (1769/1846). (15) Essa suposição de que a eliminação do interesse material era não apenas desejável mas sobretudo possível informa em seus mínimo detalhes a atuação política de Júlio de Castilhos. como se pode ver pela argumentação em favor da abolição do voto secreto. da qual surge. em contrapartida. a exemplo do que ocorrera no ciclo anterior. último estágio a ser atingido pela humanidade. apesar de tudo. aceita universalmente na Idade Média. Castilhos supõe que o governo está agora a serviço do aprimoramento moral da sociedade.. os impregnados de espírito público deveriam exercer funções de governo. nem muito menos sobre a soberania do povo numa época em que a política é uma ciência e torna-se. Comte avança uma nova doutrina: o poder vem do saber. O segredo em tais casos . Seria visivelmente iníquo exigir do governo a inteira publicidade dos seus atos. O voto a descoberto é o único remédio legislativo capaz de reabilitar o processo eleitoral. (14) Na doutrina clássica. tanto o representante da autoridade como qualquer cidadão. para os castilhistas a República correspondia ao regime da virtude.

a sua prosperidade material atestada pelas inúmeras obras postas em execução e por outros tantos fatos auspiciosos. A peculiaridade do castilhismo consiste na admissão de que a posse do poder político constitui a condição essencial e suficiente para educar a sociedade na busca do bem comum. etc. ou da necessidade em Feuerbach. (16) Deve-se reconhecer que os castilhistas lograram amplo sucesso no propósito de escamotear a discussão do essencial. origem de toda moral social. em que a riqueza passa a ser enaltecida. E as necessidades humanas. os interesses em geral.. entre os quais avultam os pecuniários. a considerável amortização de sua dívida (. O texto que citaremos à continuação expressa admiravelmente todos os aspectos que implica o conceito castilhista de „bem público‟. por parte do governante esclarecido. são subjetivas. em relação à arte e outras atividades desinteressadas. no final de contas. o crescente desenvolvimento das indústrias (. Ascendendo ao poder. Feuerbach diria que uma existência sem necessidades tampouco tem necessidade de existir. em que vivemos. tenha-se presente. a sua progressiva educação cívica. o grifo é nosso).. contando com o sigilo da urna.) A completa reorganização política e administrativa do Estado..” O interesse material. Castilhos iria simplificar esse esquema. A problemática do desejo.74 presta-se a menos decentes maquinações e degrada sobremodo ao eleitor. tudo isso resume a brilhante atualidade do Rio Grande do Sul (maiúsculas de Castilhos. Em Comte. deixa-se ela corromper e concede o seu voto a um candidato. Muito ao contrário. que fortalecesse o Estado em detrimento dos egoístas interesses individuais e que velasse pela educação cívica dos cidadãos. Conforme Velez Rodríguez: “O bem público confundia-se. nada tem de imoral. estão referidas ao tempo histórico.. sustentados por grupos sociais diversificados.. para ele. e passa a ser considerado como objeto de saber. a exemplo da Idade Média. O bem comum deixa de ser uma barganha entre interesses.). é que movem os homens.). quando tem compromissos públicos e solenes com outro – debilidade moral que tanto coopera para o extremo relaxamento dos costumes políticos (Exposição de motivos encaminhando a Lei Eleitoral). na exaltação dos sentimentos altruísticos mediante o culto da mulher. de ciência.. na colocação da ciência numa situação subalterna.. a estabilidade do seu crédito (. já que sua ambição é constituir uma física social. o que aliás corresponde à principal característica do positivismo. por si mesmo. em Hegel. como é o caso do ciclo histórico. (. O que caracteriza o sistema representativo é a eletividade do mandatário e não as funções do Poder Legislativo – tal a hipótese em torno da . refletem interesses e hierarquização de valores. na prática da religião da humanidade.). dum governo moralizante. e subordinada à fecunda divisa de: CONSERVAR MELHORANDO. moldada de harmonia com o bem público. uma ciência que condicione integralmente os homens e os reduza a uma única bitola mediante sucessivas alterações nas condições sociais. isto é. em que se fortalece o ininterrupto aperfeiçoamento moral deste povo glorioso. De modo que tentar eliminar os interesses equivale à tentativa de eliminação do próprio homem. No apogeu do idealismo alemão adquiriu-se plena consciência da circunstância. Quantas vezes.. com a imposição. não se deve perder de vista. contribuíram para elucidar plenamente esse momento da ação. o numerário acumulado no seu Tesouro. esses interesses. o tema não deixa de assumir maior complexidade porquanto o estado positivo. repousava na proeminência do poder espiritual. desde o advento do protestantismo.

Tal é. O próprio Castilhos teria oportunidade de escrever: “Nós pensamos e temos sempre ponderado que é vão e inepto o empenho daqueles que através da expressão numérica das urnas pretendem conhecer as correntes que sulcam profundamente o espírito nacional. Não se avançou a tese – a rigor. só se dispondo a abandoná-la quando compreendeu. porquanto tautológica – de que o sistema é representativo porque se apóia na representação. impróprio a conformar. o que não se consumou devido à influência de Pinheiro Machado. Sob o governo Hermes da Fonseca (1910/1914) tal efetivamente ainda não havia ocorrido porquanto. o caráter miniatural do estatismo positivista. Não deixa de revestir-se de certo interesse saber-se quando se deu a aproximação entre os militares e o castilhismo. nos seus liliputianos quadros. porque antes de filosofar sobre doutrinas importava sobreviver às crises profundas de ordem interna e externa que se anunciavam. repugnou ao meu modo de ser militar. nem alagoano. que me parece fundamental. É brasileiro. . Para evidenciar que a problemática da representação desapareceu de todo da perspectiva da nova elite em formação. federativo no puro sentido. etc. O voto não é nem pode ser o verdadeiro instrumento capaz de determinar precisamente o profundo trabalho de formação das opiniões. operado fora da preocupação eleitoral. que se desliza nas correntes superficiais”.. trabalhei sob vocação muito mais ampla do que o borgismo. em consciência. por um general.75 qual girou o debate. os olhos voltados para o futuro do Brasil. aos quais aderira de corpo e alma. nem amazonense. Contudo. Para esse objetivo. do seu meio contornante. o conjunto brasileiro. o que teria levado à identificação da natureza da representação. como tenho ainda hoje. 1º “. como diz Nitti. ao reconhecimento da diversidade dos interesses em toda sociedade. contrapondo-se a Castilhos. o general Goes Monteiro. especificamente. o castilhismo. nunca me ter abandonado o pensamento de fortificar a defesa nacional e contribuir para atualizar o progresso militar do país. O interesse perdeu os direitos de cidadania e foi expulso para o limbo da imoralidade.. Os filósofos. antes caracterizada – que Assis Brasil. aceitos apenas pelos que “permanecem embalados ao ritmo da Marselheza” e pretendem entregar os governos “aos azares da opinião flutuante”.. A partir dessa plataforma que é o essencial do castilhismo.. a tripartição e a independência dos poderes. localista.. intuitiva. ajustando-o à evolução do mundo contemporâneo e. o problema de dimensões continentais como é. em síntese. cogitou-se de substituir Borges de Medeiros.” E. de fato. 2º) por se achar aquém dos autoritarismos formulados nos anos trinta. propenso a construir republiquetas de governança patriarcal. só prevêem os acontecimentos do passado e eu tinha.. na onda das salvações (intervenção federal nos estados). seus seguidores iriam detratar o sistema parlamentar (batizado de para lamentar). confessa numa carta endereçada a Sobral Pinto e publicada em abril de 1945 (17) sua grande admiração por Castilhos e por sua doutrina. diria que a eleição tem lugar para averiguar a média das opiniões. ou para dizê-lo com suas próprias palavras: “Sem acreditar. Quem diz militar diz brasileiro. que foi o principal líder militar dos anos trinta e quarenta. O soldado não é gaúcho. de que as idéias de um homem promanam dos interesses e influências de sua classe. reconheço. no ensinamento básico marxista. basta dizer – e para não mencionar a chamada política dos governadores introduzida sob Campos Sales. e sobretudo o voto. no Rio Grande do Sul. Esse caráter fracionário. de modo rígido e inflexível.

. enfim. é puro porque é grande. teria já uma participação destacada na discussão das reformas constitucionais de 1926. Identificando-se com uma doutrina sã. transformam o gládio da Justiça em espada de Damocles pendente sobre a cabeça dos fracos. propiciou a eleição de um substituto pouco conhecido fora dos pagos: Getúlio Dorneles Vargas”. nas matrizes do “positivismo castilhista”. colosso generoso. (19) Com o passar do tempo. teria oportunidade de dizer: “Enquanto essas nações que se dizem grandes e civilizadas. Em 1903. é sábio porque. Desde muito jovem (18) aderiu de modo fervoroso a essa doutrina. Exerceria importantes comissões estaduais. elegendo-se deputado estadual. quando o Brasil inteiro se debate na noite trevosa da dúvida e da incerteza. é grande porque é sábio. entretanto. soube melhor do que ninguém moldá-la aos costumes e às necessidades de seu povo”. a mocidade deve-lhe o exemplo de pureza e honradez de caráter. é o santelmo brilhante espargindo luz para o futuro. que possuem exércitos colossais e esquadras gigantescas. de Porto Alegre. o Rio Grande é o timoneiro da Pátria. Reeleito. desaparecerá o tom laudatório. em 1909. a 31 de outubro. como líder da maioria. com as finanças desmanteladas. uma semana após o falecimento de Castilhos. Vargas contava apenas 20 anos.76 Senti. Seu aparecimento no plano federal ocorreria em 1922. o Brasil. Vê-se pois que a aproximação entre a elite militar e o castilhismo é fenômeno anterior à ditadura Vargas. Não pairam dúvidas. entretanto. b) A República positivista do Rio Grande do Sul Getúlio Vargas adquiriu sua formação de homem público convivendo estreitamente com a elite castilhista de sua terra. Tudo isso devemos ao cérebro genial desse homem. Os seus coetâneos o exemplo de perseverança na luta por um ideal. Como orador da sessão fúnebre realizada no Teatro São Pedro. Os seus correligionários devem-lhe a orientação política. Júlio de Castilhos para o Rio Grande é um santo. Em 1917 volta a integrar a chapa situacionista de passa a atuar na Assembléia Estadual. É um santo porque é puro. um fruído de humanitarismo água-de-flor. ajoelha soluçando junto da tumba do condor altaneiro que pairava nos píncaros da glória. batem às portas da bancarrota. uma excessiva confiança na dulcificação dos processos da política internacional – uma política internacional. quando morreu Júlio de Castilhos. podendo considerar-se como figura destacada do castilhismo local. Rafael Cabeda. “A morte de um castilhista gaúcho. o que entretanto somente expressa maior integração à doutrina. não se prolongaria demasiado. (20) Elevado mais tarde à liderança da bancada. incondizente com o espetáculo darwiniano do “Struggle for life” mundial”. Vargas ingressaria na equipe de Borges de Medeiros aos vinte e seis anos. que tenha cabido a este último cimentá-la e torná-la duradoura. renunciou em 1913 em vista de desentendimento com o oficialismo que. ao contrário. quando outros Estados cobertos de andrajos.

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Em sua atuação na Câmara dos Deputados, Vargas revela não só extremo zelo na
defesa do patrimônio castilhista como expressa, através do jargão empregado, o quanto o
marcara a atmosfera reinante na cúpula administrativa rio-grandense. Para que se tenha idéia
desse clima, é suficiente indicar que o intendente municipal de São Francisco de Assis, que,
segundo João Neves da Fontoura, enviava mensagens à Câmara recheadas de citações de
Comte e de Clotilde de Vaux, divergindo de Borges de Medeiros, acusou-o de estar
“lafittizando” a obra de Castilhos. (21) Quer dizer: Castilhos se equiparava a Comte e Borges
de Medeiros a Lafitte, porquanto vivia-se em plena atmosfera da república positivista.
Borges de Medeiros, de sua parte, não fazia por menos. A chamada liberdade
profissional – que assegurava a qualquer pessoa o exercício da medicina, bastando para tanto
registrar-se na Diretoria de Higiene, e assim em relação a outras profissões porque a
Constituição estadual não admitia “privilégios escolásticos e acadêmicos” – defendeu-a por
tratar-se de dogma positivista. A propósito do dispositivo constitucional que reduzia as
atribuições da assembléia à elaboração orçamentária afirmaria: “A lei financeira é tudo
porque sem ela o governo terá de oscilar fatalmente entre a revolução e o despotismo.
Augusto Comte não trepidou em afirmar que a composição do orçamento e a votação do
imposto envolvem uma questão capital para a sociedade e mais importante que a própria
controvérsia sobre as formas de governo”. A preocupação com o abastecimento e a situação
do funcionalismo é justificada nestes termos: “À luz dos ensinamentos de Augusto Comte,
cumpre afinal promover definitivamente a incorporação do proletariado na sociedade
moderna e considerar o salário como a equivalência da subsistência e não como recompensa
do trabalho humano, que não comporta nem exige nenhum pagamento propriamente dito, mas
o reconhecimento devido”.
Enfermo, Borges de Medeiros, afastou-se do governo no transcurso do seu
terceiro mandato, de julho de 1915 a maio de 1916, ocasião que aproveitaria, segundo Ivan
Lins, para reler e repensar Augusto Comte. Em sua volta, em resposta à manifestação popular
que lhe prestaram, assim resumiria o essencial de sua meditação:
“O Brasil atravessa uma crise profunda que abrange a complexidade dos
fenômenos de ordem moral, intelectual e material. É em vão que tenta a sua debelação pelo
emprego exclusivo de remédios políticos. (...) Não existe uma doutrina universal, não existe
uma doutrina positiva, generalizada; e a moral teológica, exausta e decrépita, luta debalde
pela reconquista de sua influência perdida. Inspiram as classes dirigentes doutrinas
metafísicas, incongruentes e eivadas de preconceitos revolucionários. (...) Urge, pois,
substituir a metafísica pela ciência social positiva, pela sociologia fundada por Augusto
Comte – única que pode iluminar e guiar a verdadeira política. As sociedades não podem
subsistir indefinidamente sob o jugo de vontades arbitrárias ou sob o império de paixões e
sentimentos desordenados.”
A missão fundamental do positivismo, prossegue, é generalizar a ciência e assim
aprimorar a convivência social. Ao que acrescenta:
“Esse supremo ideal será o fruto da educação positiva que, sistematizando todos
os conhecimentos humanos, tem por princípio fundamental a supremacia da moral sobre a
ciência, do sentimento sobre a razão, da sociabilidade sobre a inteligência. Relevai-me esta
rápida digressão filosófica, de que não podia prescindir, porque só nos ensinamentos do
incomparável filósofo de Montpellier, vamos encontrar soluções definitivas e adequadas aos
tormentosos problemas que agitam a civilização moderna. Só a educação positiva poderá

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curar o ceticismo, que domina as classes superiores, e o indiferentismo ou a revolta que
caracterizam as classes inferiores”.
O incidente adiante, relatado por Mem de Sá, que hoje nos soa absurdo, retrata
muito bem a mentalidade vigente:
“E quando um engenheiro porto-alegrense, Rodolfo Ahrens, reunindo capitais
estrangeiros, projetou a construção da usina hidrelétrica de Salto Grande do Jacuí, a ser
inaugurada em 1922 como celebração maior do centenário da Independência do Brasil, os
engenheiros positivistas da Secretaria de Obras Públicas vetaram a iniciativa porque os
proponentes se prontificaram a entregar a usina sem indenização após 50 anos de exploração.
Os dogmas de Comte proibiam tal prazo.” (22)
Getúlio Vargas viveu nesse ambiente e nele amadureceu politicamente. Sua
aparição de público, no plano nacional, de forma mais evidente, ocorreria por ocasião do
debate das reformas constitucionais aprovadas em 1926, uma das quais dizia respeito
precisamente à eliminação do dispositivo da Carta gaúcha que permitia a reeleição do
primeiro mandatário, estabelecendo a obrigatoriedade da adoção do princípio oposto,
consagrado na Constituição Federal. Naquela oportunidade, revelar-se-ia o castilhista
acabado, no raciocínio e na adjetivação. Respondendo, na sessão de 8 de dezembro de 1925, a
um parlamentar que dissera ser atéia a Constituição do Rio Grande, começa por lembrar-lhe
que “também levara oblatas ao altar de Clotilde de Vaux”, para acrescentar: “Deus é uma pura
abstração mental com diferentes nomes, mas revestida da mesma significação... tenhamos
mais em conta a realidade, a solução dos grandes problemas da vida nacional e não nos
aferremos demasiado ao sonoro verbalismo das expressões – Deus, liberdade, democracia,
povo. Nos períodos de exaltação e de luta não é raro vermos a democracia matando em nome
da liberdade e a fé religiosa trucidando em nome de Deus”.
Não seria parlamentar o destino do jovem líder em ascensão e certamente não o
desejaria, tão convicto devia estar de sua irrelevância. Logo em 1926 assume a pasta da
Fazenda no governo Washington Luís. E, em 1928, o governo do Rio Grande, em substituição
a Borges de Medeiros.

c) A contribuição de Vargas ao castilhismo

Qual a contribuição de Vargas ao castilhismo? Indicaria, de um modo geral, que
consistiu no empenho em transformar as questões políticas em problemas técnicos. Buscaria
universalizar essa diretriz, na medida em que o governo devia realizar-se em meio à vigência
de amplas franquias democráticas, a que não estava habituada a elite rio-grandense, com a
agravante de que as pressões se faziam de forma difusa e anárquica, já que não havia nenhum
agrupamento apto a lutar pela organização efetiva do sistema representativo.
Na década de trinta ninguém parecia preocupado com a adequada configuração da
sociedade civil, a serviço da representatividade do sistema e da busca de sua legitimação. As
reivindicações de classes e grupos eram identificadas e levantadas apenas para promover a
radicalização, já que o embate maior se travava entre dois agrupamentos totalitários – o
comunista e o integralista – buscando ambos apoiar-se na tradição nacional mas sobretudo
voltados para inspirações externas. Em meio a esse contexto, os liberais, desprovidos de
doutrina agarravam-se à defesa da liberdade em seus aspectos meramente formais.

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Se Getúlio Vargas – ou a elite que chegou ao poder com a Revolução de 1930 –
tivesse se formado num ambiente onde vigorasse o entendimento do sistema representativo –
em especial de sua complexidade – a alternativa considerada seria a busca da organização do
corpo eleitoral, a fim de levá-lo à expressão de seus interesses em determinadas agremiações
políticas. A par disto, teriam sido acionados os instrumentos moderadores, cuja necessidade a
experiência anterior igualmente sugeria.
Formado no castilhismo, Vargas não poderia ascender a semelhante problemática.
Mas teria suficiente acuidade para compreender que a situação requeria não declarações
retóricas com vistas à estruturação da sociedade ideal, no estilo puramente castilhista, mas
uma ação governamental concreta, apta a tornar-se referencial aglutinador. Ao clima vigente,
de radicalização e disputa, Vargas oporia uma linha de tratamento eminentemente técnico dos
problemas.
Todo o esforço de Vargas vai consistir em criar organismos onde as questões de
alguma relevância passem a ser consideradas do ângulo técnico. Amadurecido o ponto de
vista dos técnicos, a instituição deve assegurar a audiência dos interessados. O governo não se
identificará com qualquer das tendências em choque porquanto exercerá as funções de árbitro.
O esquema, para quem se proponha discuti-lo e contestá-lo, parecerá de
fragilidade gritante. Basta perguntar de onde provêm as inspirações da arbitragem. Se as
hipóteses possíveis são a técnica e o interesse a que se reduzirá o empenho moderador? À
tentativa de descobrir e aventar hipóteses de conciliação ou de ir impondo as soluções dos
técnicos? E como fazer para que os grupos e as classes prestem-se a semelhante jogo?
O certo é que Vargas, com a adoção desse esquema, conseguiu fazer de seu
governo um centro aglutinador. Enquanto as reivindicações eram levantadas apenas para criar
a possibilidade de acesso ao poder do agrupamento que delas se apropriava, o governo
adotava uma atitude construtiva, cuidando de encaminhá-las e solucioná-las. Ao longo da
década de trinta criam-se portanto dois processos de exercício do poder. O primeiro, que dava
seguimento ao clima que propiciou a Revolução, nutria-se de assembléias, manifestações,
plataformas e, depois, de debates na Assembléia Constituinte, logo substituída pelo
Legislativo restaurado. A rigor, tratava-se de um novo simulacro de representação porquanto
até mesmo a discussão desse tema assumiria uma conotação técnica e não havia preocupação
efetiva com a organização do corpo eleitoral, para assegurar o sucessivo aprimoramento do
sistema.
O segundo processo correspondia à ascendência crescente dos técnicos no
aparelho governamental. Organizam-se novos ministérios e sucessivas comissões e conselhos.
E assim emergia, para grupos e setores ponderáveis, uma opção mais atrativa, correspondendo
talvez ao que Schwartzman denominou de sistema cooptativo. A instauração do Estado Novo
equivaleu ao seu predomínio e à eliminação do concorrente.
É lícito supor que Vargas não chegou ao poder com semelhante esquema
plenamente amadurecido. Contudo, ainda no primeiro semestre de seu governo, expressa com
clareza a idéia do Estado aglutinador, mediante o concurso de conselhos técnicos, em discurso
pronunciado a 4 de maio de 1931.
Diz textualmente:

através da Associação Brasileira de Educação. que acompanhe a revolução sem desprezar interesses gerais ainda preponderantes. sinônimo de excesso de liberdade. O Estado puramente político. circunscritas à órbita do Estado. o espírito da subcomissão mais afeito ao programa tenentista. reunidos numa mesma assembléia. num primeiro momento com pleno sucesso no âmbito da polícia educacional e da questão salarial. os educadores acham-se divididos a propósito da . Deu esse seu voto ainda na sessão de 28 de novembro de 1932. a defesa dessa inovação se faz sobretudo em nome do primado da técnica. patrões e sindicalistas. sem atender a outras considerações que não as de caráter puramente ideológico. como colaboradores da administração pública. na famosa Comissão do Itamarati. sem dúvida. com dupla representação. no organismo político do Estado. A velha fórmula política. (24) Com o advento da Revolução de 1930. se torne possível o equilíbrio econômico. parece estar decadente. Para levar a efeito essa revisão. Evaristo de Moraes Filho mostra que na discussão daquele tema. vai perdendo o valor e a significação. com funções conjugadas e número reduzido e limitado de membros”. Realizaram-se sucessivos inquéritos e debates. além de conferências nacionais em 1927. e sim revolucionário. assim. no primeiro mês dos trabalhos”. que. de transição. introduzida na Assembléia Constituinte e adotada pela Constituição de 1934.. dos conselhos técnicos integrados à administração. incumbida da elaboração do anteprojeto constitucional. opinaria por uma pequena Assembléia. à distância. voto por uma Assembléia só. a fim de que. todos os representantes das corporações de classes. Em vez do individualismo.” No magnífico estudo que dedicou à questão da representação classista. integrados. Tão alevantado propósito será atingido quando encontrarmos. Assim. profissional. A época é das assembléias especializadas. podemos considerá-lo atualmente entidade amorfa. Por isso transigindo diante de tais imperativos. De sorte que temos de aceitar um regime misto. Vargas buscou deliberadamente o consenso dos técnicos. modificada a sua estrutura íntima. nova modalidade de escravidão. e do comunismo. nos anos seguintes. Essa entidade havia sido criada em fins de 1924 e desenvolvera. organizada por meio de representação de classe.. deve prevalecer a coordenação perfeita de todas as iniciativas. em uma colaboração efetiva e inteligente.80 “O que parece urgente. patrocinadora dos direitos do homem. plutocratas e proletários. e o reconhecimento das organizações de classe. faz-se mister congregar todas as classes. uma política e outra de classe. Cuja ruptura constitui perigo iminente para a civilização. aos poucos. técnica. no sentido antigo do termo. Em matéria educacional. é a necessidade de uma revisão no quadro de valores sociais. Creio azado o ensejo para o cancelamento de antigos códigos e elaboração de novos. levou por escrito as suas sugestões nestes termos: “Se eu tivesse de dar meu voto. (23) O princípio do encaminhamento técnico dos problema seria decididamente universalizado. que não permite ilusões a respeito da eficácia dos grandes parlamentos constituídos pelo sufrágio universal. Ao direito cumpre dar expressão e forma a essa aliança capaz de evitar a derrocada final. que me parece hoje. Mas. uma grande atividade no sentido de unificar o ponto de vista dos educadores acerca dos diversos temas relacionados à questão. nada reacionário. 1928 e 1919. bem compreendo que estamos em um período de transição entre o sistema individualista-democrático e um regime novo absorvido por preocupações sociais e cuja estrutura política tem caráter eminentemente prático. escreve: “Themistocles Brandão Cavalcanti.

dezembro de 1931). a mudança de regime. O recrutamento dos técnicos de mais alta qualificação existentes no país. Assinale-se que a sessão inaugural desse encontro contaria com a presença do próprio Getúlio Vargas. à época Gustavo Capanema. se permitiu o adequado equacionamento de vários problemas da educação brasileira. chegou inclusive a haver um tiroteio. pareceu sempre aos nossos estadistas que a intervenção do governo central. Num dos congressos da ABE. em matéria de educação pública. o Estado agora se atribui múltiplas responsabilidades em matéria educacional.” (25) Com o respaldo de eminentes técnicos. A partir de determinado momento vê-se claramente que o Ministério da Educação abdica do consenso dos educadores sem renunciar ao suporte técnico que deseja dar a suas iniciativas. ao menos em parte. o governo patrocina um encontro no Rio de Janeiro (IV Conferência Nacional de Educação. Lourenço Filho. que não chega a alcançar resultados positivos. Ainda assim. a Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. significaria coerção às tendências liberais e democráticas. em fins de 1932. balanceando as realizações daquele primeiro governamental de Vargas. São recrutados. em Fortaleza. prossegue intensa. a afirmação de uma nova consciência do problema educacional do país. deveria colocar o problema em outros termos. dirigidas mais num sentido formal de autonomia e representação. E é curioso que. Contribuiu igualmente para facultar-lhe significativa elaboração teórica. tamanha a exacerbação dos ânimos. . teria oportunidade de indicar: período “Por quase um século. tivesse havido sempre oposição e resistência à disciplina que imprimisse ao ensino primário caráter nacional. em 1944. o governo solicita à Associação um anteprojeto de Plano Nacional de Educação. No conclave de 1936. Lourenço Filho. sucedendo a um movimento de opinião nacional. nos objetivos e formas do ensino secundário e superior. entre os educadores. a radicalização política. Todos os temas são apropriados pelas facções radicais em luta e assumem logo conotação política extremada. traduziu-se igualmente no acentuado revigoramento do patrimonialismo-modernizador. para constituir suas equipes. e as soluções de muitos deles. admitindo-se aquela intervenção. discute-se a organização dos Conselhos e Departamentos de Educação. com vistas ao que se convoca a V Conferência. logo após o estabelecimento do governo provisório. Como deveria ocorrer em relação a muitos outros aspectos da vida do país. Ainda no mesmo ano esse Ministério promoveria um inquérito entre educadores acerca do Plano Nacional de Educação. em que se perguntava: Como pode ser definido o plano nacional de educação? Qual deve ser a sua compreensão? Enquanto isto. diversos técnicos. a frente Lourenço Filho. Em 1938 é organizado o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP) e. assinala. A discussão é presidida diretamente pelo ministro da educação. em 1930. com efeito. a partir de documento elaborado por Anísio Teixeira. que num sentido funcional de habilitação do povo ao exercício dessa mesma autonomia e dessa mesma representação.81 faculdade de ministrar o ensino religioso nas escolas públicas. A criação do Ministério da Educação e Saúde Pública. Fernando de Azevedo e Celso Kelly. Com o objetivo expresso de tentar uma conciliação. a exemplo da organização da universidade.

primeiro concebendo uma legislação abrangente e. com as mais variadas e às vezes pitorescas denominações. Funcionavam ou haviam funcionado os Partidos Comunista e Socialista. jornalistas. desde 1918. escritores. na Câmara. Evaristo de Moraes Filho observa que. Da agitação participavam intelectuais. a intenção era análoga no que respeita à organização sindical. Chegou-se até a promover um estudo denominado “organização científica do trabalho”. Numa certa medida porquanto aqui o comtismo deixaria indicações expressas. A escola é obrigada a realizar o ensino cívico. a exemplo do que se fizera na educação. por encargo do ministro. a expressão educação nacional possui um sentido e uma forma que. A questão salarial – que é a ponta de lança da conflituosa questão trabalhista. Não foi um país morto e parado que o movimento de 30 surpreendeu. dando competência privativa e expressa à União para legislar sobre o trabalho.82 Estabelece-se expressamente que a fixação das diretrizes da educação nacional é da competência privativa da União. o entendimento eminentemente técnico do tema. A educação é conceituada como instrumento ao serviço da unidade moral e política da nação. Luderitz. cuja magnitude iria dar ao capitalismo um rumo totalmente diverso do preconizado pelas teorias socialistas do século XIX – seria submetida gradativamente a mecanismos técnicos. O ensino primário torna-se obrigatório e gratuito. o ensino pré-vocacional e profissional. com decididas tomadas de posição. revolucionárias ou reacionárias. tanto que a legislação pertinente seria encomendada a dois conhecidos lutadores em prol do reconhecimento da magnitude da questão social: Evaristo de Moraes e Joaquim Pimenta. na exposição de motivos do decreto que disciplina a organização sindical. que recomenda um sistema integrado de formação profissional. inclusive um Código de Trabalho. numerosos projetos de leis no Congresso Nacional. Balanceiam-se resultados. que se define como dever social. não lograva despertar ou transmitir”. Conclui Lourenço Filho: “No atual momento. encontrou a revolução em vigor cerca de uma dúzia de leis trabalhistas. professores. da autoria de Lindolfo . reivindicações. numa certa medida. O movimento social. Os sindicatos passariam a se constituir em peças dessa engrenagem. Observa desde logo: “Quando eclodiu a 3 de outubro. ainda há poucos anos. a Comissão de Legislação Social. depois. fixando-se como primeiro dever do Estado o ensino primário. expulsão de líderes estrangeiros e prisões de toda ordem. (27) Pode-se dizer que. mormente a partir de 1917. era intenso e atuante. com publicações próprias e representantes no Congresso. Raul Azedo e F. com greves. uma comissão integrada por Joaquim Pimenta. a famosa “incorporação do proletariado à sociedade moderna” que iria cunhar o encaminhamento desse problema num sentido eminentemente paternalista. Grande era o número de entidades sindicais. Esse mecanismo foi analisado com perspicácia e profundidade por Evaristo de Moraes Filho. no que respeita ao trabalho. violências. o Brasil já filiado à OIT desde sua fundação. mas tudo significando vida e presença. Todo o sistema educacional tem por finalidade preparar para o trabalho. como de sua unidade econômica. organizando a Justiça do trabalho. a reforma constitucional de 1926. muito pelo contrário”. Fixam-se metas. tendo se desincumbido da tarefa. (26) Vargas criaria o Ministério do Trabalho. Indústria e Comércio e iria promover.

Participando. mas. como Vargas educado sob o castilhismo. criando-se comissões especiais para elaborar leis e decretos no âmbito do Ministério da Justiça e nos estados. ainda assim. que começou a bater em retirada há quase meio século. Daí essa apreciação conclusiva de Evaristo de Moraes Filho: “As tendências atuais manifestam-se no mesmo sentido. Avançar-se-á doutrina de que os sindicatos constituem pessoas jurídicas de direito público e. O índice de sindicalização é diminuto. para ser discutida e negociada em termos eminentemente técnicos. De posse do controle dos sindicatos. notadamente a radicalização e o virtual domínio da cena pelos agrupamentos totalitários. dá-se a convergência da inspiração técnica e dos propósitos paternalistas. não falta sequer uma citação de Comte. revestem-se da condição de “delegado do Estado. De um sindicalismo de oposição. Depois de fechado o Congresso. (29) É na década de trinta. o Estado acabaria reduzindo a questão salarial a uma fórmula. tais como convenção ou dissídio coletivo. que a administração assume esse papel de promotor da técnica nas diversas esferas da atividade governamental. Os demais reclamos da questão social seriam paulatinamente enquadrados no mesmo espírito. O sindicato mantém-se associado do Estado. condicionado. incumbido de funções especiais do Estado e. em conseqüência. O peleguismo continua. jurando e cumprindo fidelidade ao regime. em segunda ou posteriores convocações. A solução ensejada por Getúlio Vargas reforçou extremamente a tradição patrimonialista porque a emergência de um sindicalismo ativo teria talvez contribuído para o estabelecimento e a consolidação do sistema representativo e democrático. nós saímos fatalmente do empirismo individualista. Nunca tivemos. de cuja doutrina diz o seguinte: “Guiados por essa doutrina. . portanto.83 Collor. com o número mínimo exigido por lei. e. integrando o sindicato no Estado. sob o manto protetor da Justiça do trabalho. vive da contribuição compulsória cobrada pelo Estado a todos os integrantes da categoria. em que as classes interdependem uma das outras e em que a idéia de progresso está subordinada à noção fundamental da ordem”. em 1937. para ingressarmos no mundo da cooperação social. O propósito de dar esse cunho à ingerência estatal em matéria educacional e trabalhista seria igualmente transposto para a tarefa legislativa. mas não raro com antigas e tradicionais figuras dos quadros sindicais brasileiros”. controlado.” (28) Com o ambiente político instaurado na década de trinta. não vendo neles rivais de soberania. portanto. por uma sociedade aberta e pluralista. exercentes de qualquer atividade privada remunerada. seu órgão técnico e consultivo. democratas. levaram para a norma jurídica a experiência acumulada ao longo dos anos. administrativos e judiciários do Estado. nem temos a tão apregoada sindicalização em massa. como assinala Evaristo de Moraes Filho: “Socialistas ambos. fiscalizado e mesmo orientado pelo Estado”. antes. delegado de algumas de suas funções. desordenado e estéril. Pensavam que havia chegado o momento da vitória final. Evaristo de Moraes e Joaquim Pimenta nutriam-se de outras inspirações. fazendo do Estado o aval e a garantia das reivindicações dos trabalhadores. procuraram instituir um sindicalismo de controle. nos organismos técnicos. aliados no encaminhamento da longa e ampla reforma social que se iniciava. leva-se a cabo no país uma ampla experiência de legislação sob o primado de critérios técnicos. decidindose matérias da maior relevância. não como órgão de luta e de oposição.

O Estado Novo restaurou o monopólio e. como os de água. estabelece-se a ingerência na negociação da moeda estrangeira. Presidindo o livre jogo das forças econômicas. instituiu os mercados oficial (alimentado por 30% das cambiais obtidas pelos principais produtos de exportação). afinal efetivada em Volta Redonda. servindo essa designação . as compras externas de carvão. Em seguida. precursora do Banco Central. a partir de 1939. conforme se pode ver da manifestação adiante. Constituiu-se. (30) Datam do mesmo período as primeiras operações de intervenção direta do Estado na economia. compete ao Estado exercer uma ação reguladora. os exportadores são obrigados a vender ao Banco do Brasil apenas 35% das cambiais em seu poder. quando se trata de serviços urbanos. na medida das necessidades indicadas pelo bem público. tudo quanto se relaciona com o interesse da coletividade: é a socialização dos serviços públicos. Nesse Conselho é que foi amadurecendo a idéia de tornar seletivas as importações e de promover a sua substituição. para pagar a importação de equipamento e. na etapa subseqüente. É a municipalização. A centralização das emissões pelo Banco do Brasil. A partir de então. Em 1931. como missão precípua. da Superintendência da Moeda e do Crédito. Até a revolução de 1930. seu objetivo explícito era tratar diretamente com especialistas e representantes classistas a fim de conciliar interesses em jogo mediante o equacionamento de soluções técnicas. lutou por vincular exportações de minério. de Borges de Medeiros: “A administração direta de alguns serviços industriais. em julho de 1934. É muito sintomático que os serviços dessa superintendência somente tinham sido estruturados em 1953. privilegiada. (31) Foi portanto o empenho de equacionar os problemas políticos em termos técnicos que levaria Vargas a dar ao Estado a atribuição de promover a racionalidade econômica. em seu interior. A intervenção direta na economia seria uma decorrência de tal diretriz. o Conselho Federal de Comércio Exterior. a partir de 1939. de operação da usina. obteve entre nós a consagração vitoriosa dos fatos e o assentimento geral. das quais a mais importante corresponde à decisão de implantar uma usina siderúrgica. Deriva-se dessa concepção o princípio que aconselha a subtrair da exploração particular. luz. através de decreto de fevereiro de 1945. Vargas há de ter-se dado conta da relevância das questões econômicas. Esse conjunto de tarefas e atribuições iria dar ensejo à criação. Segundo essa hipótese. quando de utilidade pública. livre especial e livre. no decênio anterior. esgotos.. etc. que se pretendia fossem tornadas monopólio estatal. O castilhismo cogitara da intervenção direta do Estado na economia mas de forma bastante restrita. no segundo governo Vargas. Mas convém lembrar que não se cogitou desde logo da hipótese de fazê-la diretamente pelas mãos do Estado nem muito menos de um programa de industrialização.84 Nesse afã de substituição da política pela técnica. é a socialização quando os serviços são de interesse estadual. é agora consolidada. à construção de uma usina cuja posse também ficaria em mãos do Estado. tendo sido inaugurada em 1946. a promoção da racionalidade nessa esfera. uma Comissão Especial para estudar o problema do aço que.negocia-se um “fundingloan”. a interferência do Poder Público nas transações com o exterior limitava-se à manipulação das tarifas aduaneiras. A política de restrição às importações é sistematizada. no período 1934/1937. Quando Vargas criou. Vejamos as dimensões que essa temática chegou a assumir. O processo de implantação dessa indústria de base no país é bem conhecido. o que acabaria levando-o a atribuir ao Estado. De início instaura-se o monopólio oficial do câmbio. energia elétrica. as exportações de minério se efetivariam numa primeira etapa.

A primeira delas consiste em afirmar que o liberalismo não resolve o problema social. 1918) tinha uma visão bastante ampla da intervenção do Estado na economia. para que aponta Wanderley Guilherme dos Santos. acreditava que o governo. O radicalismo vigente tudo reduzia a slogans. devêssemos encontrar as causas de sua incapacidade para assegurar estabilidade política equivalente à alcançada no Segundo Império. pode-se dizer que logrou incorporar. a castilhista e a intervencionista do domínio econômico. não propiciou nenhum debate maior se por isso entendermos o empenho esclarecedor. Resume-se ao menosprezo pelos partidos políticos.85 genérica para exprimir que a administração de tais serviços deve estar a cargo exclusivamente do poder público”. finanças e contabilidade. Essa idéia não resultou de uma avaliação amadurecida do sistema liberal. A outra crença não tem uma formulação afirmativa. No plano da análise política é neste decênio que se estratifica o paradigma dicotômico. como se sabe. no momento em que. Tal é a contribuição de Vargas ao castilhismo. ao longo de todo um século. em seu segundo governo. conforme tivemos oportunidade de indicar. incluem-se entre os principais desdobramentos . o empenho modernizador torna-se componente inelutável do Estado brasileiro. a componente modernizadora no patrimonialismo tradicional. tivessem conhecimento das idéias difundidas na Escola Politécnica por Aarão Reis (1853/1936). contemporaneamente. Saiu pronta e acabada de nossa tradição republicana. incorporando-se. ainda por inspiração do próprio Vargas. Rio de Janeiro. contudo. Vargas menosprezava o sistema representativo e a instituição parlamentar. Contudo. Essa circunstância. Estes. (32) E possível que os engenheiros militares que assessoravam Vargas e o levaram à solução intervencionista do problema do aço. Plenamente identificado com os ensinamentos castilhistas. Depois de marchas e contramarchas. Este. Contudo. Duas crenças adquirem no período grande vitalidade. 3) REPRESENTAÇÃO E CONTRAFAÇÃO: A EXPERIÊNCIA DOS ANOS TRINTA E DO PÓS-GUERRA a) Os grandes mitos dos anos trinta É de toda evidência que nos começos dos anos trinta tenha vigorado no país um clima de ampla liberdade. Seu exercício. entretanto. pareceria. a bem dizer. como veremos adiante. parece atualmente mais importante compreender como o estamento tradicional valeu-se de circunstância para fomentar corrupção e empreguismo. que o simbolizava. Fiel a essa inspiração. Ao fazê-lo. ao conjunto de plataformas políticas de todos os ciclos subseqüentes. Vargas terá fundido numa só as duas vertentes de inspiração positivista. Esse projeto seria enormemente aperfeiçoado. Imprensa Nacional. em definitivo. tornara-se uma questão de competência. não mais se faria em vista do aprimoramento moral da sociedade mas objetivando a conquista do bem-estar material. Podemos portanto concluir que o castilhismo corresponde à filosofia política que inspirou o Estado Novo. em seu magistério e no manual de economia política que elaborara e fora adotado na Escola (Economia política.

conduziria a privilegiar a dimensão material dos homens. nos distanciamos da evolução do liberalismo europeu. o liberalismo. Ganha corpo a idéia de que o liberalismo clássico teria sido incapaz de defrontarse com a questão social. no aspecto político. já que se abdicara de qualquer veleidade em matéria de partido nacional. Empenharam-se a fundo na adoção dos mecanismos capazes de assegurar a lisura dos pleitos certos de que. No ciclo de sua formulação original incorporaram-se ao sistema liberal as doutrinas econômicas clássicas. lugar-comum no país a ponto de que os próprios liberais acabassem adotandoo como premissa. No período subseqüente à sua formulação originária. (33) Não deixa de causar espanto o silêncio que paira naquele período sobre as idéias de Keynes como o fato de se haver consolidado aquela certeza. a vista de que a invocação do conteúdo se fazia para eliminar a liberdade. pelo menos numa situação de maior destaque. Na década de trinta. de sua consolidação. A crítica dos defeitos do liberalismo clássico não se constituía entretanto em monopólio dos grupos totalitários. Aceitaram portanto o desafio em termos dicotômicos. No período contemporâneo formula-se um novo tipo de liberalismo econômico. com exclusividade na história da humanidade. etc. no Império brasileiro. De . que preconiza a intervenção do Estado na economia. a doutrina do Partido Político reduziu-se à consagração do papel que acabou representando entre nós. a exemplo das civilizações anteriores. incorporaria duas dimensões significativas: a idéia democrática. mas que a maioria estava condenada a viver com salários de fome. Dessa componente política tratar-se-á logo adiante. sem dispormos. uma sociedade onde o bem-estar material se difundiu entre a quase totalidade de seus membros e não apenas entre os grupos dominantes. desde então. Não se trata propriamente de uma resultante da propaganda de cunho totalitário. apenas uma faceta da arenga totalitária. A propaganda extremada tende sempre a galvanizar apenas os agrupamentos minoritários. privada de escolas e de assistência médica. que se pode resumir como segue. que se corporifica de modo acabado no mesmo período. Nem se diga que se tratava de uma apreciação valorativa. com a República. Não se adotou como premissa maior a hipótese de que o sistema liberal seria alienante. Esse aspecto nem foi trazido a debate.86 da doutrina liberal clássica. em que pese ter sido precisamente os sistemas liberais que erigiram. e a estruturação dos partidos políticos como instrumentos para a configuração de “zonas de interesses”. o liberalismo clássico experimenta uma grande transformação. Enquanto o convencimento de que o sistema liberal seria elitista e infenso à elevação social das grandes massas tornar-seia. Os dois mitos devem ser contemplados mais de perto. cuja essência cifrava-se no laissez-faire. precisamente. bem como as regras fundamentais da chamada economia de mercado. preservador os institutos tradicionais (representação e liberdade política). e com razão. Na medida em que. Simples instrumento para preservar o poder em mão de determinadas facções das elites estaduais. resultaria o adequado equacionamento dos grandes temas que efetivamente estivessem preocupando a nação. Na década de trinta. de experiência real na matéria. isto é. Tudo mais foi considerado simples diversionismo. os liberais brasileiros entregaram aos agrupamentos totalitários – e sobretudo aos castilhistas no poder – a bandeira da questão social. a representação assumindo forma democrática de que não dispunha. Mais precisamente: agarraram-se ao aspecto formal. por Locke. etc. A ênfase nesse aspecto parecia-lhes.

3) a consecução de semelhante objetivo requer que o Estado assuma certas atribuições que tradicionalmente pertenciam à iniciativa privada. O último capítulo da Teoria Geral contém um enunciado sintético das proposições keynesianas. o Estado Liberal é responsável pela manutenção de determinada taxa de ocupação da mão-de-obra. Em síntese. batizadas por Prebisch (34) de filosofia social. torna-se imprescindível chamar a atenção para alguns de seus aspectos. de que cumpre destacar o seguinte: 1) os defeitos fundamentais da economia capitalista consistem em não haver alcançado a plena ocupação e em coexistir com uma arbitrária distribuição da renda e das riquezas. dessa premissa. Contudo. reformulando nesse particular a doutrina clássica acerca do desemprego. Trata-se de que. Seria extemporânea. a longo prazo. o poder do capitalista para valer-se da escassez de capital. Uma adequada taxa de juros seria sempre inferior à menor remuneração no mercado de capitais. eventualmente. a que chegou o liberalismo brasileiro na década de trinta. Pode-se inclusive admitir que o incentivo do lucro há de desviar energias que de outra forma seriam canalizadas para a crueldade. no que se refere à evolução dessa doutrina. Contudo. da taxa de juros e de outras medidas. Tendo a experiência evidenciado que a simples manipulação desse mecanismo (taxa de juros) revelou-se insuficiente para manter o nível das inversões. se inferissem conclusões totalitárias. o liberalismo abandona o laissez-faire e concebe modalidades de intervenção econômica estatal. preferentemente segundo mecanismos indiretos. enfrentar o segundo tema. mesmo que não se cogite do projeto utópico de modificar a natureza humana. nesta oportunidade. 2) o adequado equacionamento da questão dos juros deve contribuir para a minimização de pelo menos um dos defeitos antes apontados e. semelhante incentivo provavelmente não precisaria ser tão forte. Neste sentido. deve cuidar sucessivamente da redução da taxa de juros. a fim de que as economias (poupanças) assumam de preferência a forma de inversões. se não tivessem sido levados a circunscrever suas reivindicações a uma plataforma exclusivamente libertária consagrando a perda dos vínculos que se mantinha. Isto não significa entretanto que se deve chegar à socialização dos meios de produção. não são requeridas altas taxas de juros a fim de provocar a necessária poupança. no século XIX. com o pensamento europeu. e liberdade pessoal). eliminando-se a figura do investidor sem funções e. Segundo Keynes. a ambição de poder e outros defeitos da criatura humana. poderiam fazer causa comum com os críticos da economia liberal. a fim de que se possa aquilatar do grande isolamento. incumbe-lhe estimular os investimentos. tratando de influir sobre o comportamento do sistema através da tributação. por essa via. conceberam-se as formas de transferir recursos ociosos para as mãos do Estado.87 sorte que os liberais brasileiros. a pretensão de resumir a teoria keynesiana. criar condições para que a sociedade possa. Para que tal se dê. O último aspecto é em parte justificado por motivos humanos e psicológicos. evitando que. a exemplo da taxação progressiva das rendas. eliminando seus . 4) trata-se de conseguir a manutenção de todas as vantagens do individualismo (eficiência. proveniente da descentralização das decisões. ao contrário do que supunha a economia clássica. A ação sobre a taxa deveria desenvolver-se até que o custo do capital chegasse a ser idêntico ao dos bens de consumo.

A essa Justiça especial. prática que vinha deturpando a seriedade e a verdade das eleições. não pode substituir toda a cadeia. a que chamou de estados. da base territorial limitada. a reforma do sistema eleitoral. inegavelmente. O Estado liberal deve livrar-se do mal sem perdê-las e. como vimos. tenha-se presente. É nesse sentido que se formula. posteriormente denominada de distrito eleitoral – eleitores e representantes foram sendo constrangidos a circunscrever zonas ou constelações de interesses. deixou. eventualmente. não se tinha entendimento apropriado do que fossem os partidos políticos. O Estado totalitário resolveu o problema do desemprego às custas da eficiência e da liberdade. com a atribuição de proceder à apuração dos pleitos. foi conferida a de proclamar os eleitos. como a sua melhor conquista. O ponto culminante dessa reforma foi a instituição da Justiça Eleitoral que. isto é. o predomínio de um líder graças ao recurso à corrupção. o New Deal americano. os liberais concentrariam suas energias no sentido de assegurar que os pleitos eleitorais fossem cercados de garantias quanto ao seu desfecho legítimo. A prática do sistema representativo indicou que a identificação e plena configuração dos interesses não se resume a esquema tão simples. embora peça essencial. Na prática do sistema representativo – que não se dissocia. Robert Walpole (1676/1745) manteve-se no poder por mais de vinte anos (1721 a 1742) graças a esse expediente. Hierarquizaram-se aspirações. O primeiro dos grandes “premiers” ingleses. eliminando-se a praxe da chamada “eleição a bico de pena” nos bastidores da Mesa da Câmara dos Deputados. tinha-se presente que a representação era de interesses. poderia contribuir para a manutenção da paz. abolindo-se assim a fase de reconhecimento de poderes até então exercido pelos próprios órgãos legislativos. na década de trinta começa a ganhar a adesão de grupos políticos dominantes nos países capitalistas. A nova doutrina do liberalismo econômico. que minavam a própria substância do regime democrático. da realidade do sufrágio popular e. Silvestre Pinheiro Ferreira. (35) Inexistia entretanto a nítida compreensão de que a Justiça Eleitoral. Neste sentido atuaram dois mecanismos: a eleição majoritária e o partido político. supunha mesmo que os vários interesses poderiam ser agrupados em três segmentos. inspirando-se certamente na tradição de dividir a sociedade em nobreza. sob sua inspiração. clero e terceiro estado. invocando com sua principal justificativa a fraude e corrupção eleitorais. não se deve subestimar o papel que nelas desempenha a luta pelos mercados. da consolidação daquele regime. por exemplo. se encontrou resistências nos anos vinte. Do ponto de vista da experiência ulterior. acima dos interesses partidários. Tal circunstância em nada iria influir na conjuntura brasileira. impulsionada pelo desemprego. apontada nestes termos por Edgar Costa: “A revolução política de 1930. . Do ponto de vista da doutrina clássica faltava a organização do corpo eleitoral em áreas geográficas limitadas. Sua eliminação. 5) se bem as guerras provenham de diversas causas.88 defeitos. Nos primórdios da doutrina liberal. conseqüentemente. Seu extremo fracionamento facilitou. de que faz parte. iniciada com o Código de 1932. De sua luta resultaria uma conquista notável. se erigiu como a mais lídima garantia da verdade e da legitimidade do voto. Em vista do clima vigente.

Tendo se aliado ao Ocidente. Assegura-se a representação proporcional. E não a simples supressão da democracia em nome do pretenso conteúdo social. em São Paulo e no Rio Grande do Sul havia igualmente dois partidos que entretanto formaram uma legenda única. Em quatro Estados – Maranhão. por seu turno. Os liberais. As associações de classe legitimamente constituídas podiam igualmente desfrutar das prerrogativas atribuídas aos partidos. Embora fadada ao fracasso. o novo instrumento legal consagra estrutura partidária extremamente frágil. em novembro de 1937. a Rússia adquiriu imerecidamente uma auréola democrática. embora contivesse disposição relativa à representação classista. Ceará. essa experiência não chegou a mostrar sua inteira fragilidade. Mas foram inspirar-se na Constituição de 1934. buscando paralisar o Executivo mediante a . E acabaria desembocando no fechamento do Congresso. de uma aliança de partidos ou ainda por um grupo de cem eleitores. O resultado do novo código seria o abandono do modelo uniforme dos Partidos Republicanos Estaduais. (36) Corroborando o abandono da experiência européia. mediante a congregação de 500 eleitores. desde logo. Acreditou-se inclusive que havia alcançado um acréscimo real ao que se dizia ser meramente formal no Ocidente. todos os candidatos que tivessem alcançado o quociente eleitoral.89 O Código Eleitoral de 24 de fevereiro de 1932 constitui legítima expressão do pensamento liberal e corresponde sem dúvida a uma conquista dessa corrente. isto é. As sobras seriam rateadas proporcionalmente entre as legendas inscritas. na eleição proporcional e na ausência de limites geográficos factíveis para as circunscrições eleitorais. b) O sucessivo desvirtuamento da representação A queda do Estado Novo coincidiu com a derrota do fascismo na Europa. Rio de Janeiro e Minas Gerais – dois partidos elegem representantes à Constituinte. na admissão do fracionamento partidário. Parecia que a humanidade havia ingressado numa fase áurea da democracia. resultado da divisão entre o número de votantes e o número de lugares a preencher. vigente na República Velha. queriam a todo custo o poder da Lei e do Parlamento. cada Estado – ou circunscrição eleitoral mais restrita para as eleições dos níveis correspondentes – apuraria o respectivo quociente eleitoral. Não são muitas as exigências requeridas para obtenção de registro nem essa é uma condição inelutável porquanto se admitia a estruturação. As legendas podiam se constituir de um único partido. não se podia exigir mais em matéria de preocupações fracionistas. A circunstância iria atrair para a esfera do Partido Comunista parcelas significativas da intelectualidade brasileira impedindo que florescesse o socialismo de inspiração democrática e ocidental. O processo político em curso escapava inteiramente aos limites que a corrente liberal pretendera estabelecer. originando-se de partido único a representação dos demais. em bases provisórias mas podendo concorrer aos pleitos. E como esse sistema logo fracassaria no que consideravam o seu objetivo maior – impedir a volta do ditador ao poder – evoluíram para o franco abandono dos ideais liberais ou a simples resistência passiva. Tinha lugar na radicalização crescente dos grupos totalitários em choque e no empenho oficial em dar tratamento técnico às reivindicações e aspirações dos diversos setores. Estariam eleitos.

000 558. quanto pretender conclusão oposta. Assim. esse mecanismo contribuiu para agravar os defeitos e incoerências do sistema. não das legendas partidárias de cada um. Edgar Costa conclui que se chegou à integral decência no alistamento. uma parte da Nação iria sendo acostumada à idéia de que o processo democrático deve ser usado para outros fins que não aqueles a que está destinado.318. como de fato ocorria. Como nessa parcela se incluíam grupos representativos da elite universitária. Não se pode esquecer que mais de três quartas partes da bancada do PTB e quase três quartos da UDN resultam. Quase vinte anos de experiência representativa iriam desaguar no mais retumbante fracasso.636 2. pois. que parece ter sido inteiramente perdido de vista nas análises posteriores. o sistema proporcional seria capaz de conduzir a maiorias estáveis e não ao sucessivo fracionamento. A ascendência constante de tais alianças pode ser comprovada pelos dados adiante transcritos.068. as alianças de legenda tiveram quase cinco milhões de votos. muitas vezes.220 1.447. Inventou-se mesmo um expediente sem a mínima base ética: as alianças de legenda. Desde essa época a instituição deu passos significativos para a lisura dos pleitos. o Partido Comunista popularizaria a consigna de que as eleições se dão para “conscientizar”. A par disto. contra cinco milhões e setecentos mil dados diretamente aos quatro maiores partidos. tão faccioso afirmar um incremento de tendência esquerdista no eleitorado. a única tendência que parece suscetível de afirmação é a da polarização ideológica que vem substituindo a fisionomia tradicional das bancadas pela das frentes parlamentares. na realização das eleições e na apuração de seus resultados.792 1954 2.” (37) Nas eleições de 1962. Balanceando essa experiência.262.489 1.405 1.501 2. no livro A legislação eleitoral brasileira. Mesmo admitindo que.136. nas quais.401 .101 1. No particular. por força da maciça ascensão da bancada do PTB. A Constituição de 1946 a consagraria como parte do Poder Judiciário. mas das legendas de alianças.301. votos petebistas elegeram udenistas e vice-versa. a praxe das alianças de legenda levou à acentuação extrema do desfiguramento da representação como bem observou Pompeu de Souza a propósito das eleições de 1962: “Parece-nos. Contudo. a longo prazo. com a autoridade de quem a viveu diretamente. privado do direito à existência legal. Reconheça-se desde logo que o pensamento liberal logrou consolidar a grande conquista do Código de 1932 que era a Justiça Eleitoral.552.90 lentidão do processo legislativo. a intelectualidade ia sendo sucessivamente abastecida de segmentos desinteressados na efetivação de uma crítica construtiva à experiência brasileira do sistema representativo.496. A manutenção do princípio da eleição proporcional iria entretanto levar ao extremo fracionamento partidário. Enquanto isso florescia o fenômeno das alianças de legenda. à base do considerável aumento de representação da UDN. coligidos por Pompeu de Souza: PARTIDOS Ano Alianças PSD UDN PTB PSP 1950 1. graças sobretudo à introdução da cédula oficial.784 863.

e assim por diante. o PSD elegeu apenas 79 deputados federais.91 1958 4. introduziu-se. do mandante. sem produzirem.769. Daí anomalias como estas: na última eleição.314 1. O fenômeno em causa aparece com clareza no processo final de composição das bancadas na Câmara eleita em 1962: . para a escolha do mandatário. Porque o grave de tais alianças é que elas são estritamente eleitorais. Perante o eleitorado.546 124. nunca efeito ou conseqüência. é a aliança. o que existe. o mandado. cada vez menos nacionais e até cada vez menos partidos. Existem apenas para efeito de registro e apuração eleitorais. aos partidos nacionais improvisados. ou melhor eleitoreiras: possuem apenas causa.140.296. para as Câmaras.604. mas conseguiu uma bancadas de 122. alcançou 109. por força mesmo dessa intromissão: a aliança eleitoral de legendas. o instrumento da desintegração do que já nascera tão pouco integrado. Escamoteiam.337 No pleito de 1962. Nascem à boca das urnas e morrem à porta das Casas legislativas. só existe o partido.640 1. É ainda Pompeu de Souza quem observa: “Essa gravidade maior do fenômeno: antes que se houvesse dado oportunidade.722. com 55. elegendo 63.693 1. quase a metade da Câmara dos Deputados se constituiu através das alianças. onde o mandato será exercido.213 2.830.621 291. de conquistarem consistência e tradição. chegou aos 94.225.644. na sistemática eleitoral do regime. a UDN.655 2.743 1. Introduziu-se uma entidade mortal à unidade e ao próprio organismo dos partidos nacionais. A gravidade do evento é que estas não se instituíam para congregar organizações afins mas para dar curso a simples acordos eleitorais sem maiores conseqüências. o PTB.761 1962 4.

isto é. espontaneamente surgidos à esquerda e à direita: “Frentes”. também outras “Ligas”. “Pactos de Unidade”.13 3 1 4 3 3 193 Bancada Final 122 109 94 22 20 11 8 5 4 3 4 4 3 409 (1) Diretamente pela legenda partidária (2) Graças às alianças de legendas (3) Subtraído Caminhou-se pois no sentido inverso ao das intenções declaradas. aptas a governar. A liderança liberal brasileira perdeu de vista o desenvolvimento da doutrina e acabaria virtualmente capitulando diante da crítica totalitária. enfim. “Confederações”. o processo eleitoral em seu conjunto não estava a serviço da representação mas de seu desvirtuamento. “Ibades”. A polarização totalitária em todos os períodos de nossa história. “Campanhas” (da mulher) e outras siglas à direita. com a liquidação virtual dos partidos. “Associações” (de inferiores militares) e outras siglas de incoerente agitação e inócuas exigências à esquerda. E mesmo as resultantes do processo eleitoral. . o número crescente de novos eleitores alistados. As iniciativas em prol do voto distrital foram ensaiadas com o máximo de timidez e o mínimo de audácia. “Ligas”. acabariam sendo atraídas àquela polaridade. “Ações Democráticas”.92 número de deputados Partidos Eleitos (1) PSD PTB UDN PSP PDC PTN PST PR PRP PL PSB MTR PRT 79 63 55 6 1 0 2 6 1 2 0 1 0 Totais 216 Acrescidos (2) 43 46 39 16 19 11 6 . Observa a propósito Afonso Arinos de Melo Franco: “No Brasil. a toda sorte de organismos espúrios. deputados radicais se uniam. atuava em campo livre porquanto não se lhe contrapunha um sistema autenticamente representativo. as bancadas parlamentares. em 1963.” (38) Falta dizer que os liberais não souberam avaliar criticamente a própria experiência. No fundo parece ter havido uma adesão ampla e geral à tese de que as eleições se justificam por razões as mais diversas e não pelo propósito exclusivo de alcançar maiorias estáveis. Desconhece-se que haja saído de seu seio condenação mais veemente do sistema proporcional. O aprimoramento sucessivo da Justiça Eleitoral.

pode durar e sobreviver”. A seu ver. inspirada pela filosofia cristã da justiça social e imposta pela civilização industrial”. essa doutrina teria sido incapaz de promover a ascensão social das classes menos favorecidas. num mundo em mudança. Essa restrição seria eliminada logo mais parte. fazendo caso omisso da obra de Keynes. Afirmaria Milton Campos na aula inaugural de 1966. entretanto. o Plano SALTE. O novo governo estabeleceu. o princípio liberal. Alegava-se. Milton Campos chega mesmo a proclamar que o liberalismo esgotou-se no plano político. se os partidos liberais e a organização liberal dos Estados decaíram da missão que originariamente lhes competiu. pelo menos como estado de espírito. (39) 4) A INDUSTRIALIZAÇÃO PÓS-64 E SUA SINGULARIDADE a) A formulação do projeto de modernização econômica Na fase inicial do pós-guerra. que disciplinava a aquisição de moeda estrangeira para viagens e remessa a título de donativo. que militou sempre nas hostes liberais e se considera tenha chegado a ser um de seus líderes expressivos. o liberalismo não buscou dissociar-se do laissez-faire quando “a ordem natural das coisas não pode ser largada às distorções que fatalmente lhe provocam a cobiça e as competições dos interesses egoísticos”. Abbink e Kleine-Saks e formula-se. Não decorreu muito tempo e os saldos existentes foram consumidos. expressa sobretudo na política cambial. ainda em 1966 supunha que o liberalismo estivesse visceralmente ligado ao laissez-faire.). alimentado por uma parcela das divisas obtidas pela exportação. insensíveis ou egoisticamente hostis à ascensão humana. alocução que mais tarde se divulgou com a denominação de Em louvor da tolerância: “Em certos países. de modo expresso. Tratar-se-ia. caracteriza-se por uma autêntica desorientação. O mesmo decreto extinguiu o denominado mercado livre especial. o liberalismo ficou sendo o suporte das classes dirigentes. o que era o caso do país que havia acumulado. reservas ponderáveis no exterior. logo no começo de 1946. em 1948. Essa fase. foi que o liberalismo perdeu seu lugar”. parecendo esquecer-se de que essa possibilidade seria comprovada precisamente nas grandes democracias do Ocidente. abolindo-se igualmente as taxações que ainda incidiam sobre as importações e outras exigências (prova de venda de câmbio no licenciamento das exportações. na Universidade de Minas Gerais. a idéia de impulsionar a modernização econômica não chega propriamente a ganhar corpo. Milton Campos (1900/1972). devendo preservar-se tão-somente como ingrediente formador da consciência moral. Mantinha-se. contudo. que o governo retinha. É certo que se promove a vinda ao Brasil das missões Cooke. de preservar a tolerância. no período do governo Dutra. Além disto. em cujo louvor é concebido o discurso. A conclusão decorre dessa tônica: “Todavia. seguindo-se . exigia novas providências de ordem regulamentar. que o disciplinamento até então vigente “só se aplicava de carência de divisas”. A esse respeito afirma de modo taxativo: “Precisamente pela fatal inadvertência de não ver que a ordem natural. o mercado oficial. etc.93 de que é exemplo eloqüente o testemunho que adiante se invoca. a plena liberdade na compra e venda de cambiais. durante a guerra. em suma.

embora não se possa dizer que. Mais tarde. bem como de variado grupo de especialistas estrangeiros. Inicia-se o ciclo da famosa Instrução 70. sensibilidade e adaptabilidade da economia a variações de preços e mercados. De sorte que a ação estatal de cunho modernizador e positivo. o empenho modernizador cifrar-se-ia na mobilização de tais ingredientes. segundo o critério da essencialidade. a rigor. Esse empenho – que consistia na verdade na manutenção de taxas fictícias – fazia aparecer o fenômeno da gravosidade. atuante.94 período em que as exportações se revelavam insuficientes para sustentar o fluxo de importações. A circunstância sugere um artifício: importações vinculadas a exportações. embora reconhecesse o predomínio das unidades familiares fechadas. A configuração da nova esfera é obra da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico. isto é. optava-se pelo regime do subsídio direto e do estabelecimento de categorias de importação. é que teria início a formulação de uma política sistemática de disciplinamento das compras no exterior. em decorrência de acordo firmado com os Estados Unidos em dezembro de 1950. (40) Com essa Instrução. (41) Contou com a colaboração de cerca de cinqüenta técnicos “senior” brasileiros. Quando o fenômeno ocorreu. O controle de câmbio tinha. educação e saúde. todo o seu acervo passou ao Conselho Técnico de Economia e Finanças que o divulgou durante o ano de 1954. produtos brasileiros cujos custos internos ultrapassavam os preços do mercado internacional. a modernização de métodos agrícolas. diversas providências no pressuposto de manter as transações sob a égide de taxas cambiais livremente convencionadas mas que não registrassem bruscas alterações. um caráter defensivo porquanto tardou muito a que se completasse por uma política agressiva no terreno das exportações. recrutados entre a elite acadêmica e na Administração. A inoperância do sistema levaria entretanto à restauração aberta dos controles de câmbio. acabaria deslocando-se para a esfera do que mais tarde se denominou de “planejamento”. no ciclo subseqüente se haja atentado . “o país não dispunha de maior experiência no disciplinamento do comércio exterior”. entendido não como instância administrativa mas como um conjunto de técnicas destinadas a assegurar a consecução de determinadas metas. Funcionou ininterruptamente até dezembro de 1953.244 (conhecida como Lei de Tarifas). Identificou desde logo uma série de fatores favoráveis ao desenvolvimento econômico. melhoramento em tecnologia. A Comissão Mista procedeu a amplo diagnóstico da economia brasileira. entre outros o aparecimento de um grupo de homens de empresa. a partir de 1958 vinculado à tarifa aduaneira “ad-valorem”. empreendedores e abertos a projetos de longo prazo. observa Knaack de Souza. a Comissão chamou a atenção para aspectos igualmente essenciais. introduzida pela Lei 3. sucessivamente. A Comissão Mista Brasil-Estados Unidos iniciou seus trabalhos em 19 de julho de 1951. Ao que acrescenta: “Do segundo semestre de 1947 a fins de 1953 tenta-se. Com a efetiva organização da Superintendência da Moeda e do Crédito – SUMOC – em 1953. e mobilidade do capital e da mão-de-obra. criativos. Após essa data. com ênfase no disciplinamento das importações. Em relação aos fatores desfavoráveis.

Os técnicos da Comissão Mista consideravam que os obstáculos ao desenvolvimento decorriam tanto de condições naturais como de circunstâncias sociais e culturais. revelando-se todos os grupos ansiosos por auxílio e proteção governamental. que não tinha expectativa razoável de dispor senão de recursos limitados. Assim. Esse princípio era de aplicação particularmente pertinente no caso da Comissão Mista. rural e feudal. e desse lugar a uma “reação em cadeia” propícia ao desenvolvimento”. a qual. a vigência do subdesenvolvimento. O fenecimento da classe alta. se bem esse programa represente apenas uma pequena parcela dos investimentos totais do país. sem dúvida. O governo permaneceu pessoal e paternalístico em alto grau. A educação continuou a orientar-se no sentido de assegurar posição social. da era monárquica – que produziu.” (42) Para fazer face a circunstâncias tão complexas a Comissão Mista recomendou a atuação em setores muito limitados. não explica. tecnologia e governo. ao invés de dar ênfase ao treinamento técnico para tarefas agrícolas e industriais. para o financiamento de seu programa. não se pretendeu nada de espetacular mas o estabelecimento de um novo estilo. o insucesso em descobrir reservas de petróleo em larga escala ou de carvão de primeira qualidade. influenciará. o fato de que os maiores rios da área central tenham seu curso na direção “errada” e. A manutenção de uma disciplina de prioridades. setor econômico e projetos individuais de maneira que se rompessem os pontos de estrangulamento que ameaçam retardar o crescimento da indústria e da agricultura no Brasil. implicava numa escolha de regiões de aplicação. finalmente o fato de que grande parte dos solos disponíveis achem-se sujeitos a rápida erosão. A esse propósito afirma-se no Relatório Geral: “Entre tais atitudes e instituições destacam-se a tradição herdada de uma agricultura devastante e feudal. Não pretenderam estabelecer qualquer hierarquia mas chamar a atenção para a solidariedade desse conjunto. a formidável barreira representada pela Serra do Mar. por si só. no entendimento dos técnicos que a integraram. é absolutamente vital que se canalizem recursos. a exemplo do que ocorreria com as componentes favoráveis. notáveis estadistas e servidores públicos – e a emergência de novos grupos de poder político e econômico não foram acompanhados por um rápido desenvolvimento de novas atitudes em relação à educação. os hábitos especulativos do comércio e um sistema de governo paternalístico. é lícito esperar. quer em moeda nacional. de futuro. em certos setores-chave cuidadosamente selecionados. “provavelmente contribuirá para a criação de uma nova concepção de prioridades. quer estrangeira. destacou-se a vigência de clima tropical exaustivo em muitas das áreas litorâneas. As dificuldades naturais não foram superadas em decorrência de atitudes e instituições culturais e sociais. em tempo útil. com o fito de evitar a dispersão de recursos. contudo. Dentre as condições naturais. O princípio essencial da atuação recomendada acha-se formulado nos seguintes termos: “Em qualquer programa de desenvolvimento econômico. A presença de tais fatores. (43) Ao longo de sua atividade a Comissão Mista atuou através destas subcomissões: . pelo fato de que. os critérios de investimentos e planejamento de todo o setor público da economia”.95 para a sua significação. Essa estratégia se justifica.

com a seguinte distribuição dos recursos: transportes.3%.96 1) energia elétrica. construção de estaleiros e de recuperação da navegação do Prata. dimensionados e concebidos em função das estimativas de mercado. energia. a Comissão Mista elaborou 41 projetos prioritários. Ainda no período de seu funcionamento. o essencial é estabelecer a necessária escala de prioridades. em especial junto ao Banco Mundial (BIRD). Posteriormente essa tarefa foi transferida ao próprio BNDE. produto que se considerou indispensável para a consecução de saneamento de cidades do interior. a Comissão Mista promoveu a organização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico. Para cada uma de tais iniciativas elaborou-se o correspondente projeto. 33. Ao BNDE cabia a mobilização da parcela de moeda nacional comprometida nos projetos antes mencionados. O segundo campo de atuação prioritária era o de energia elétrica. A preferência pela modernização de tais setores dos transportes deveu-se à existência de estoque substancial de capital investido. 6) assistência técnica. A própria Comissão Mista incumbiu-se de promover a negociação de empréstimos estrangeiros. ameaçado de deterioração pela ausência de recursos para manutenção e aperfeiçoamento. a iniciativa era concebida. com o propósito de financiar o que então se denominou de “plano nacional de reaparelhamento”. tendo passado a atuar preferentemente na execução do reaparelhamento ferroviário. 3) transporte sobre água. deve-se ter presente que. tendo se optado basicamente pelos projetos de geração de energia hidráulica. 5) agricultura e. projeto de reaparelhamento da frota mercante. 60. Outro elemento igualmente valorizado correspondia à clara definição das fontes de financiamento e na adequada mobilização de agências estrangeiras. sendo limitados os recursos disponíveis. 6. As idéias popularizadas pela Comissão Mista Brasil-Estados Unidos seriam posteriormente incorporadas aos propósitos modernizadores do Estado.1%. A Comissão deu curso ainda a um programa de treinamento de técnicos brasileiros no exterior. maquinaria agrícola e armazenamento de grãos. 2) transporte ferroviário. O primeiro destinava-se a implantar a indústria de álcalis. em seus mínimos detalhes. selecionou-se o tipo de atuação mais recomendável. A Comissão Mista elaborou 18 projetos de reaparelhamento ferroviário. tais procedimentos seriam . com vistas à poupança cambial e ao estabelecimento de um núcleos da indústria química pesada. Em primeiro lugar o entendimento de que. do ponto de vista técnico. além do fato de que sua presença encontrava justificativa econômica em diversas regiões do país. O segundo à produção de tubos de ferro centrifugados. projetos de dragagem e reaparelhamento de 16 portos. Em termos globais.6%. Contudo. indústria. Na época correspondia a fato inusitado. A Comissão recomendou reduzido número de projetos. na ação planejada. Mais tarde semelhante procedimento seria generalizado. Além do exame da situação geral de cada um dos grupos de atividades considerados. Na eventualidade de que se justificassem investimentos corretivos. com vistas sobretudo à formação de uma elite familiarizada com a elaboração de projetos e a efetivação e controle de financiamentos de longo prazo. 4) portos. no âmbito da agricultura (maquinaria agrícola e armazenamento de grãos) e só dois projetos industriais. Seguia-se o dimensionamento das inversões requeridas e a identificação das fontes de financiamento. O projeto descrevia a situação do mercado e avaliava as condições vigentes no atendimento da demanda.

fruto. o nosso país dispunha de cerca de quatro mil cidades. Criam-se então diversas empresas. enquanto em 1980 moravam nas cidades aproximadamente 70% (80. tendência essa que prosseguiu no decênio seguinte. o que permitiu evidenciar a vitalidade do novo segmento em emergência.495 87.60 401 10. requerida por uma ação modernizadora global e interativa. foram considerados temas de grande relevância. Embora se tratasse de metas isoladas. Tratava-se de uma etapa prévia e inelutável. como se disse. o BNDE logo conquistou posição de liderança. em termos de economia de mercado. na prática. a população urbana representava cerca de 45% do total. Em que pese correspondesse ao período relativamente curto. componha adequadamente as fontes de recursos a mobilizar e assegure o retorno do investimento. o gestor do programa. Dos 17. 76% estavam ligados à rede geral de abastecimento de água e o esgotamento sanitário adequadamente constituído beneficiava aproximadamente 7 milhões de domicílios urbanos (40% do total). Nos decênios de sessenta e setenta ocorreu modificação substancial na distribuição da população do território nacional. dando início ao estabelecimento de normas de atuação inteiramente novas no conjunto da administração tradicional.4 milhões de pessoas). O BNDE que era. Em 1980. b) Principais resultados em termos de infra-estrutura Caberia basicamente aos governos militares do período 1964/1984 implantar uma infra-estrutura econômica e urbana que colocou o país entre as maiores economias do mundo. dos transportes e da indústria de base. Assim. A aplicação conseqüente desse conjunto de princípios iria levar a que se desse preferência à gestão empresarial. como a questão da energia.00 . erigir uma infra-estrutura urbana moderna. Esse elemento viria a ser o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico.8 milhões de domicílios urbanos existente em 1980. teria oportunidade de testar e aprimorar as novas técnicas nos setores essenciais da economia brasileira. logrou-se. mesmo quando a componente modernizadora da tradição patrimonialista virtualmente desapareceu sob Goulart.001 a 100 mil nº de cidades % 3. Finalmente o novo estilo ganharia uma outra componente através do Programa de Metas do Governo Kubitscheck. em grande medida. Criado em 1952. O importante a destacar é que no seio destas algumas tiveram a possibilidade de alcançar sucesso. em 1960. isto é. Faltava um elemento catalisador apto a erigi-lo em patrimônio de comunidade mais ampla. ao imperativo de consubstanciar seus propósitos e planos num documento que leve em conta as exigências do mercado. O essencial corresponde ao empenho de submeter certos órgãos públicos a regime de projeto. de recomendações da Comissão Mista. classificadas do seguinte modo: Número de habitantes Até 20 mil 20.97 compreendidos e valorizados quase que exclusivamente pelo limitado número de técnicos brasileiros que viveu essa experiência.

dos quais 100 mil pavimentados. Afora esse núcleos.20 Mais de 1 milhão 7 0. esta com cerca de 200 mil km.480 Rio de Janeiro 5.991 100.290 Nova Iguaçu 1. onde não há pedintes nas ruas e nem miséria gritante. pujantes agroindústrias e núcleos urbanos bem-sucedidos. unidades pequenas sem qualquer dinamismo e de onde as pessoas se sentem estimuladas a emigrar. o Norte do Paraná.00 500. há pólos de progresso espalhados por todo o país aptos a servir de base para a eliminação das grandes disparidades regionais. o Oeste de Santa Catarina.001 a 500 mil 81 2.056 Belo Horizonte 2. O desenvolvimento de nosso sistema de transportes é subdividido.20 3.98 100.336 Salvador 2. as maiores cidades. na obra Brasil – uma visão geográfica dos anos 80.001 a 1 milhão 7 0. erigiu-se invejável infra-estrutura de transportes. o núcleo básico das cidades brasileiras registra nível de civilização material equiparável à parcela desenvolvida do mundo.00 Totais Segundo o Censo de 1991. Esse bolsão compreende cerca de 30 milhões de pessoas (20% da população recenseada em 1991.758 Curitiba 1. o estado de Mato Grosso do Sul. formou-se um imenso bolsão de moderna agricultura. em diversos estados. diversas regiões do Rio Grande do Sul.286 Campinas 846 Guarulhos 781 São Gonçalo 748 Duque de Caxias 665 Embora em algumas dessas grandes cidades se hajam formado periferias pobres e sem condições de habitação e existam. nas seis fases seguintes: . que compreende uma rede rodoviária primária – constituída de estradas vicinais e municipais – acoplada à rede principal. Sul de Goiás. Interligando esses núcleos populacionais.049 Fortaleza 1.2 milhões). equivalente a 146. Abrangendo o interior de São Paulo. naquela data. eram as seguintes: Discriminação Mil Habitantes São Paulo 9. Triângulo e Sul de Minas.

para o porto. com a complementação das ligações entre centros de diferentes hierarquias no interior com os portos do litoral. ligação de algumas vias secundárias. apesar de. além de intensificarem-se os fluxos entre os três maiores centros do Sudeste. das novas áreas de produção vinculadas à agricultura de produtos de exportação”.99 “Fase 1 – pequenos portos dispersos pela costa brasileira. ao asfaltamento de eixos troncais importantes e à interiorização. O mecanismo de interconexão lateral toma impulso em todas as cinco regiões do País e completa-se em 1974. consolida-se a sexta fase do modelo. iniciada ao final da década de 70. Fase 5 – completa-se o processo de interconexão lateral do sistema. a fase 6 já havia sido iniciada. tendo em seu interior as áreas da Cemig (Minas . Há um aumento da hinterlândia e o surgimento de numerosos centros intermediários. pelo Governo Geisel e tenuemente mantida pelo Governo Figueiredo. Fase 2 – início das primeiras linhas de penetração para o interior das hinterlândias de alguns portos mais próximos das áreas de produção. que abrange os estados da região Sudeste e mais o Distrito Federal e Goiás. Nessa fase. Utilizando-se esse modelo evolutivo. até 1985. vinculado à mobilidade da população nordestina em direção ao Sudeste e o segundo. principalmente entre algumas áreas mais produtivas do interior de São Paulo para o porto de Santos e. da área de Londrina ao porto de Paranaguá. Fase 4 – início da interconexão do sistema. São Paulo. Fase 6 – aparecimento de vias expressas e especializadas entre grandes centros. a rede está completamente interligada. Fase 3 – início da convergência de vias secundárias para os centros intermediários do interior e. Essa interconexão pautou-se fundamentalmente em dois tipos de fluxos: o primeiro. com hinterlândias limitadas e quase nenhuma conexão entre si. Completa-se a infra-estrutura econômica pela presença de uma rede interligada de centrais hidrelétricas. ligado aos produtos industrializados no Sudeste que passaram a ser cada vez mais consumidos nas Regiões Nordeste e Norte. No início dos anos 80. no Paraná. Com isso gerando um processo hierárquico de centros e criando redes convergentes para os maiores centros do interior e para os portos mais importantes. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. que até então possuíam entre si uma tênue ligação rodoviária. Essa fase corresponde à estruturação dos corredores de exportação. Com esse processo. cada vez maior. Neste mesmo período. principalmente entre os do interior e os portos ou interpostos. destacando-se os sistemas de Furnas. também. cada uma delas já possuir uma rede estruturada. apesar dos problemas climáticos e da forte crise econômica por que passou o País. Sudeste e Sul. inicia-se a concentração portuária. As fases descritas são mostradas no Mapa a seguir. A fase 5 vincula-se aos três primeiros governos militares que estenderam-se de 1964 a 1974. nota-se que no período do Governo Kubitscheck o sistema rodoviário brasileiro ingressou na fase 4. daí. pois iniciou-se o processo de interconexão entre as Regiões Nordeste. internamente. fechando circuitos de transporte entre centros no interior e os portos.

abrangendo Paraná. o sistema Nordeste. que hoje mantém praticamente todo o país ligado pelo sistema DDD.100 Gerais). Finalmente. capitaneada pela CHESF (Centrais Elétricas do São Francisco) e o da Região Norte. da Light (Rio de Janeiro) e da Eletropaulo (São Paulo. inclui-se entre as maiores do mundo. . a infra-estrutura econômica compreende ainda o serviço de telecomunicações. com capacidade para gerar 12. a Eletro Sul.6 milhões de kw. A Usina Hidrelétrica de Itaipu. Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

101 .

80 316. No setor de aço.362. Nos anos posteriores criaram-se duas novas usinas siderúrgicas sob hegemonia estatal (Cia.40 Público 147. Siderúrgica de Tubarão e Açominas). por exemplo. Gilberto Paim evidencia o fenômeno porquanto o Estado detinha 45. Em pesquisa realizada no ano de 1973.742.10 39. Nos começos da década de oitenta o Governo criou a Secretaria de Controle das Empresas Estatais – SEST. Eis os resultados registrados por essa pesquisa: Estoque Brasileiro de Capital Segundo a Origem Patrimônio líquido (1973) % do Nº de % do CR$ Milhões Total Empresas Total __________________________________________________________________________ Setores Privado Nacional 126.275.3 bilhões dos grupos privados. que produziu alguns balanços adiante resumidos. De acordo com o Cadastro das Empresas Estatais.275 maiores empresas não-agrícolas).60 45.801.8% do patrimônio líquido do mundo empresarial brasileiro (5. o patrimônio líquido das empresas governamentais somava US$ 7.80 Capital nacional Gerido por empresas Estrangeiras 1.00 100.6 bilhões contra US$ 3.280. em setembro de 1984: Discriminação Nº de Empresas Setor produtivo estatal 234 Entidades típicas de Governo 142 Previdência Social Bancos oficiais federais Concessionárias de serviços públicos 6 14 26 ______________ Total 422 .00 0.80 321.40 14.00 Total No período subseqüente a estatização seguiu seu curso.40 618. elaborado pela SEST esse universo achava-se distribuído do seguinte modo.421.00 81.257.30 4.50 43.20 100.102 c) A distorção básica: a estatização da economia O fenômeno da industrialização e da modernização econômica se fez acompanhar de uma brutal estatização da economia.00 Estrangeiro 46.00 5.00 6.00 11.10 0.

as trinta e oito empresas estatais organizadas para administrar esse conjunto. tratando-se na verdade de um resultado do keynesianismo. a produção pelo Estado de bens e serviços como parte . em 1982.5 bilhões de dólares). foram fixados em Cr$ 5.4%. Vale a pena determo-nos nesse tipo de ressalva. Desse modo. a 5. o prejuízo passou a Cr$ 1. Seus dispêndios. As empresas do setor produtivo estatal tinham. nada justificando o seu estatuto empresarial. em 1982.7%.349.6% das receitas operacionais e. por conseguinte.2%. a 8. extração e beneficiamento de minerais 10. o que significa que o seu coeficiente de capital implica o emprego de pouca mão-de-obra. Tomando-se o setor elétrico como exemplo. as receitas operacionais alcançaram a cifra de Cr$ 7. o prof. transportes 14. em 64%. que.7 bilhões. Mário Henrique Simonsen calculou a participação do Estado no conjunto dos investimentos. as empresas estatais registraram. o déficit ficou muito acima do anterior em termos reais. Creio que não há nenhuma evidência.840 pessoas.25 trilhões (com o emprego de uma taxa cambial de Cr$ 173 por dólar. Para serem operadas com eficiência requerem apenas pequenos contingentes de mão-de-obra especializada. em sua maioria.5 trilhão (mais ou menos 2. As usinas geradoras de eletricidade implantadas no País são unidades modernas de grande porte.0%. as empresas estatais empregavam 1. em 1984. a propósito. Não se dispõe de nenhuma avaliação conclusiva acerca dos níveis alcançados pela estatização da economia brasileira. pois não geram recursos próprios. em conjunto. comunicações 8. no ano seguinte. Muitos analistas têm insistido em que o fenômeno observado no Brasil teve lugar também na Europa. O valor em moeda nacional foi também menor.3% das mesmas. Em 1983. prejuízo operacional de CR$ 410 bilhões (cerca de 2. que produz valor inferior ao de 1982). ainda que presumivelmente indesejado.1%.4 bilhões de dólares). esse valor corresponderia a cerca de 42 bilhões de dólares).5 trilhões (em US$ uma ordem de grande de 40 bilhões) assim distribuídos: setor hidrelétrico 38. as receitas cresceram para Cr$ 18.7%. De acordo com a SEST. na obra de Keynes. em 1983. Contudo.4 trilhões (esse valor poderia exprimir uma ordem de valor de US$ 3 bilhões).103 As denominadas entidades típicas de governo correspondem a simples eufemismo. Em 1982. em 1983. um imobilizado equivalente a Cr$ 71. Tenha-se presente que este resultado superpunha-se à estatização de quase 50% da economia. Em 1983. Não acompanhou a taxa inflacionária de 211. demais setores 4.8%. setor siderúrgico-metalúrgico 23. em termos de desperdício de recursos financeiros e de subemprego da força de trabalho. à taxa de Cr$ 521. observada por Gilberto Paim nos começos do decênio de setenta. verifica-se que a natureza e as características de tais empreendimentos foram dissociadas das estruturas administrativas que lhes correspondem. ao longo dos anos setenta e em parte da década seguinte. essas empresas são modernas ou modernizadas. De sorte que não se deve considerar nenhum exagero a suposição de que os níveis de estatização da economia brasileira tenham chegado a 70%. isto é.1 trilhões (ou 34. Considere-se. número que configura uma enormidade. de que admitiria a intervenção direta na economia. é fácil identificar a forma pela qual as estatais fomentam o empreguismo. Esse prejuízo correspondeu. De um ano para outro. A função de tais estruturas consiste em multiplicar os cargos de diretores e em aumentar os contingentes de funcionários subordinados para justificar uma safra tão prodigiosa de diretorias. Não eram necessárias.

temendo que os russos desmontassem as fábricas que trabalharam para Hitler e as levassem embora. Trata-se de comportamento típico da nomenklatura formada nos países comunistas. (44) Talvez fosse plausível que as empresas estatais contribuíssem para restaurar a situação atuarial da Previdência Social Brasileira. Na obra antes mencionada. Na Itália. Duverger refere este pronunciamento do líder trabalhista Bowe. Na Inglaterra. A Inglaterra é certamente um caso à parte. É sintomático que entre as empresas estatais que souberam constituir ricos patrimônios para os Fundos de Pensões de seus empregados encontra-se a Rede Ferroviária Federal. desde que a chegada dos trabalhistas ao poder. os níveis alcançados pela presença do Estado na economia nada têm a ver com o que ocorreu no Brasil. nos anos trinta: “A Teoria Geral acha-se perfeitamente em harmonia com a política do trabalhismo e. Na expressão de Duverger: “Em Paris. O fato de que. muitas empresas foram absorvidas pelo Estado devido à pressão dos sindicatos e dos comunistas para salvar estabelecimentos mal geridos e à beira da falência. Contudo. Cumpre observar que vinham procurando mostrar que o keynesianismo representava uma espécie de capitulação diante do socialismo. a Renault foi confiscada a um colaboracionista”. procedeu-se à sua encampação. de patrimônio superior a US$ 20 bilhões. logo no início do pós-guerra. Ainda assim. cujos prejuízos anuais ultrapassaram US$ 100 milhões. como em outros países. oscilando entre 30 a 35%. 1980) aponta algumas determinantes. a estatização nunca superou 30%. Maurice Duverger. Na Áustria. exprime na forma de teoria econômica o que sempre esteve implícito na atitude do movimento trabalhista”. pelos Fundos de Pensões das estatais. de triste memória. Seria uma forma de beneficiar os trabalhadores de um modo geral. empreender semelhante caminho visando beneficiar um segmento da população corresponde nitidamente a uma imoralidade. d) Atitudes patrimonialistas típicas Creio que uma das expressões mais acabadas de patrimonialismo brasileiro corresponde à acumulação. na Europa do pós-guerra. . Seuil. Estima-se que os mais elevados se tenham verificado na Áustria. O certo é que o Partido Trabalhista promoveu ampla estatização da economia. criou uma situação nova. a começar pelo Banco da Inglaterra. se hajam disseminado as chamadas nacionalizações obedece a outras causas.104 de sua política anticíclica. no livro Les oranges du lac Balaton (Paris. o que é mais importante. A nacionalização (estatização) da indústria automobilística na França correspondeu a uma represália ao comportamento de seus proprietários durante a ocupação alemã.

aqui espera talvez fazer alguma greve pilhérica sonhada por algum deputado ambicioso. desde 1930. sustentada numa base moral de índole contra-reformista. os orçamentos atribuem-lhes verbas e a ninguém ocorre fazer uma avaliação. com exceção de alguns fazendeiros. aqui faz alguma passeata acadêmica ou vai ao São Pedro ou ao Lucinda assistir algum espetáculo burguês”. Sílvio Romero chamou a atenção para esse circunstância num ensaio que redigiu. como prefere denominar Ricardo Vélez Rodríguez – não parece muito apropriado. sendo o primeiro fato de que tenhamos tido aqui socialismo sem que tivéssemos capitalismo a combater. A partir daí criam-se as estruturas burocráticas correspondentes.105 Considero que outro exemplo típico de patrimonialismo corresponde às denominadas políticas sociais do Estado. o que quis dizer foi o seguinte: “Estado rico. achando-se nessa situação mesmo os pequenos proprietários urbanos e rurais. a grande massa estruge famélica. 5) O SUBSTRATO MORAL QUE TEM ASSEGURADO A SOBREVIVÊNCIA DO PATRIMONIALISMO O patrimonialismo brasileiro é uma herança cultural profundamente arraigada. o depoimento de um expoente da estatização pós-64. O país nitidamente não dispunha de poupança para empreender o caminho da industrialização. o General Alencastro e Silva. De sorte que a utilização da categoria de corporativismo para designar atitudes como as descritas – utilização do Estado em benefício próprio. Ora. em sua época. Na verdade. antes mesmo de vislumbrarmos qualquer coisa parecida com o capitalismo. o segundo. É bem expressivo dessa situação o fato de que. de alguma forma. apoiar populações carentes. Para comprová-lo tomo dois exemplos. o trabalhador famélico que veja suas forças exploradas criminosamente pelo capitalismo? Não está em parte alguma. O Presidente Médici exprimiu esse quadro na famosa frase: “País rico. sejamos francos. enquanto a pobreza alcança níveis assustadores. é a resposta irrefragável”. continua Sílvio Romero. Na Europa. publicado como introdução ao livro Doutrina contra doutrina. intitulado “Os novos partidos políticos no Brasil e o grupo positivista entre eles”. E. Na visão de Sílvio Romero. em todas essas classes. A pequena indústria local era insignificante. ou privatização poder. senhores de engenho ou negociantes urbanos. quando não está na luta pertinaz. Tais políticas consistem basicamente no seguinte: o Estado se propõe. povo pobre”. o país haja empreendido nitidamente o caminho da preferência pelos pobres e tudo fazer “pelo social”. Avança esta conclusão: “É por isso que o caráter de macaqueação da democracia social brasileira é visível a olhos desarmados. O correto seria denominá-las de patrimonialismo. comemora suas datas com manifestações assombrosas. povo pobre”. O objeto claro é constituir novas burocracias. Sílvio Romero limita-se entretanto a fazer a constatação e não a aprofunda. Tivemos aqui o socialismo. Talvez por isto não tenha sido capaz de acompanhar a evolução do capitalismo e o papel que em sua transformação desempenharam tanto o socialismo . Tudo indica que essa espécie de socialismo deita suas raízes nas tradições contra-reformistas da cultura brasileira. Na Europa. nos fins do século passado. a grande massa de nossa população era constituída de gente pobre. em 1895. “onde está aí.

quando Oliveira Viana avalia as chances do capitalismo no Brasil o quadro não era favorável. No ciclo subseqüente. em sua longa convivência com o poder. sendo um dos principais responsáveis pela estatização do setor. o que evidencia a sua índole patrimonialista. No que se refere mesmo ao chamado “liberalismo social” esteve atento ao sentido novo da legislação. como o tenentismo. a ponto de desfigurar-se inteiramente como instituição religiosa. da transformação da Universidade em centro de formação socialista. etc. preferindo o socialismo de Estado. E. Nos anos trinta.106 desvinculado de utopias socialistas como o liberalismo social. no pós-64. as correntes liberais lograram diversas vitórias. como bem o demonstrou Evaristo de Moraes Filho. o liberalismo conseguiu impor a Constituição de 91 – derrotando os partidários da ditadura republicana – e em torno dela manter uma certa articulação durante a República Velha. Estes perdem os vínculos com as fontes no exterior. formada sob a égide do positivismo de Comte e. na verdade corresponde ao que há de mais retrógrado nas tradições culturais luso-brasileiras. perde francamente o medo do “bicho-papão” do comunismo e sela com os socialistas algumas alianças muito sólidas. adere francamente à postulação socialista. segundo o general. Creio que o embate decisivo entre as correntes liberais. quando cai o Estado Novo. De sorte que nos começos da década de cinqüenta. consuma-se a derrota. O Estado Novo e o exílio prolongado dos principais líderes isolam completamente os liberais. Veja-se a ressalva que estabelece em relação ao Almirante José Cláudio Beltrão Frederico. como é o caso da estatização da economia. O general foi presidente da TELEBRÁS. a preferência pela iniciativa privada era sinônimo de desnacionalização. a começar do próprio Rui Barbosa. presidente do CONTEL. para a mentalidade estatizante. Passo à consideração do depoimento do general Alencastro e Silva (nascido em 1918) e que está contido no livro Telecomunicações – histórias para a história (DIFEL. na política de informática. o que se dá é o agrupamento de todas as forças retrógradas em torno do ideário socialista. que até os começos dos anos sessenta era dominada pelos tradicionalistas. no último meio século. entretanto. praticamente transformando-se num partido político. período em que o órgão. que acabaram agrupadas em torno de ideais socialistas. e as forças autoritárias. tendo fracassado apenas no que se refere à edição de listas telefônicas. O curioso é que. Ao que aduz: “É que. A elite militar. portanto. quando. não há lideranças capazes de confrontar o autoritarismo. Contudo. O próprio fato de que o movimento político vitorioso em 30 se tenha denominado Aliança Liberal – embora abrigasse em seu seio tendências autoritárias capazes de lhe conquistar a hegemonia. O curioso é que esse ajuntamento de forças ainda se pretende “progressista”. Na década de vinte. Sabe-se que a ascensão das correntes autoritárias começa com a proclamação da República. entre estas a campanha em prol da Universidade. embora só se costume chamar a atenção para os eventos de índole antiliberal. como se viu depois – é um sintoma do prestígio da idéia liberal. “não tomou qualquer posição visando a aquisição do controle da CTB”. O livro do general Alencastro e Silva é muito elucidativo no que se refere à forma como a mentalidade estatizante tornou-se dominante no setor de telecomunicações e como se deu o afastamento das pessoas que permaneceram fiéis aos compromissos da revolução com a economia privada e a economia de mercado. A Igreja Católica. deu-se nos anos trinta. conforme afirmei tratando da criação . que preconizavam a aproximação de nosso país ao Ocidente capitalista. do ponto de vista da mentalidade predominante e das tradições morais mais arraigadas. 1990). com uma componente conservadora predominante. isto é.

desejo afirmar que sua posição privatista não poderia ser confundida com desnacionalização . Refere uma afirmativa “de um ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal” quanto ao conflito vivido pelos dirigentes militares da revolução de 64: “No campo político são visceralmente anti-socialistas. O general Alencastro e Silva declara haver mudado quanto ao intervencionismo estatal. pelo qual os países ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres. A vida me ensinou a aceitar. O economista sueco. Campus. Brasiliense. Teria repetido a frase para um interlocutor cujo nome nem sequer se recorda. se existe. Myrdal é um crítico mordaz da propensão à corrupção manifestada pelas novas lideranças surgidas nos países em desenvolvimento. 1966. notadamente em relação àquelas economias. Não pode lhe ser atribuída a tese de que “desde os tempos bíblicos existe um processo circular cumulativo de riqueza ou pobreza”. 1968. como ocorreria no Brasil e era a bandeira do general Alencastro e Silva.107 da EMBRATEL. Parece-lhe que. Suas contribuições são sobretudo de caráter teórico (como Produto Nacional Bruto. 1965. atendendo à solicitação de órgãos criados neste pós-guerra. insistindo em que a agricultura precisa ter prioridade. 1962. Aos que alegam a . Pela razão muito simples de que é extremamente fácil verificar que sequer o leu.. e. refere-se a países que não fizeram a Revolução Industrial. nada mais justificava que a sua intervenção continuasse”. somente o Estado pode. Toda a doutrina do general está contida nestas frases: “A defesa de minha posição favorável à exploração de serviços públicos pelo Estado se inicia com a afirmação de que cedo me incorporei à corrente de opinião que se identifica com um dos princípios da teoria econômica de Gunnar Myrdal. É mesmo contrário a todo empenho de industrialização à outrance. são contra o lucro. Fazendo justiça ao Almirante Beltrão. e lhe atribui a frase adiante: não existe uma grande fortuna que não tenha surgido no esterco. O valor em teoria social. 65). paradoxalmente. Não foi feliz o autor de Telecomunicações – histórias para a história ao atribuir a Gunnar Myrdal suas convicções socialistas.. 30). ou. O estofo doutrinário da mentalidade estatizante é também algo de “fazer corar um monge de pedra”. como afirma Gunnar. embora com repugnância. A obra de Gunnar Myrdal é conhecida. 1977). por isso. Saga. A intervenção que preconiza é no sentido de criar estímulos e promover reformas. Sua fonte doutrinária.” (p. cuidou de tempos imemoriais. este determinismo do regime capitalista” (p. que a União assumisse tal controle. Sua preocupação.. por exemplo). (p. às nações que passaram a ser denominadas de subdesenvolvidas. Traduz deste modo: “em outras palavras: o lucro muitas vezes cheira mal. uma posição socialista”. Desafio à riqueza. Perspectivas de uma economia internacional. O general Alencastro e Silva confessa que a mentalidade estatizante é sinônimo de socialismo. havendo inclusive muitos de seus livros publicados em português (O Estado do Futuro. enquanto no campo econômico. como o Banco Mundial. Zahar. 1967. não há em sua obra nenhuma recomendação quanto à absorção direta pelo Estado de qualquer setor econômico. não concordava com a posição do CONTEL. 133). Pioneira. como se diz habitualmente para enfatizar o primarismo de certas postulações. o Almirante era filosoficamente favorável à iniciativa privada e. isto é. há de ter sido outra. isto é. Embora considere que o Estado deva intervir no processo. quebrar o referido processo nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento”. assim sintetizando: desde os tempos bíblicos existe um processo circular cumulativo de riqueza ou pobreza. cumprida a missão de quebrar “o processo circular cumulativo da pobreza. o mais recente: Contra a corrente. Negro: o dilema americano. em nenhuma circunstância..

De fato o general Alencastro e Silva não tem a menor idéia do que seja mercado. depois de ter deblaterado contra as “atuais” empresas estatais. portanto. habituado a raciocinar em termos pessoais e sem condições de fazer generalizações. Assim. de que o governo não é capaz de fixar objetivos claros para as suas empresas. objetivando subsidiar tarifas em nome do que entender por universalização dos serviços. Só uma companhia obrigada a pagar dividendos aos seus acionistas – gerar lucros. portanto. condeno? A resposta é manter o monopólio. por exemplo. Em matéria de intervenção estatal mantém grande obtusidade. 35). A universalização de qualquer serviço só pode se dar mediante a redução de . voltadas fundamentalmente para o interesse dos empregados”. Os principais argumentos referem-se ao fato de não haver conseguido tudo estatizar. Os governos são o apoiaram “na batalha que travou com o objetivo de solucionar o complexo problema das listas telefônicas”. única alternativa para não nos afastarmos ainda mais – hoje já estamos retrocedendo – do serviço universal. a favor da conservação do monopólio. Ora. fiscalizar e controlar os resultados. eletricidade e telecomunicações”. Contudo. as necessidades do país de aço. Reconhece pesaroso que “as atuais empresas estatais perderam condições de satisfazer. empreender a necessária provisão de recursos. escolher adequadamente os dirigentes. Ao mesmo tempo. Queixa-se. que são um primor de falta de lógica e de coerência. etc. atribui ao governo defeitos que são diretamente das empresas estatais. Esta revolucionária mudança na situação atual exige medidas preventivas que dêem garantias ao Estado brasileiro quanto aos aspectos ligados à segurança nacional e à obrigatoriedade de a empresa a ser criada ou resultante da transformação da TELEBRÁS manter. isto é. o general percebeu ter ocorrido “a transformação das empresas (estatais) em entidades corporativas. o forte do general Alencastro e Silva não é certamente a capacidade de retirar conseqüências lógicas dos eventos. 36). competição. como ele mesmo explica. Seu raciocínio seria mais ou menos o seguinte: em matéria de estatização é tudo ou nada. (p. nisto precisamente reside a força do capitalismo que o general tanto detesta. no momento.108 ineficiência demonstrada pelo Estado responde com uma série de exemplos casuísticos. não é uma instância aleatória que deve fazê-lo mas a própria companhia. o compromisso de cumprir o grande objetivo: a universalização dos serviços”. Em que pese essa declaração tão enfática. A proposta é tão confusa e conflitante com as premissas estabelecidas que ele mesmo se faz esta inquirição: “Poderia ser perguntado: como conciliar a privatização que eu defendo. (p. palavra ante a qual o general se contorce de náuseas. E tampouco na estatização da companhia privada que atua em parte de Minas Gerais (CTBC). com a desregulamentação que eu. em seus estatutos. E quanto a contar com provisão de recursos para atender à reposição de capital ou promover novos investimentos. não estabeleceu maiores distinções entre as fases da sua vida em que militava no quartel ou na empresa estatal. retirados de sua experiência pessoal. Depois de passar tantos anos à frente de uma empresa (estatal) o general não aprendeu que lhe competia prover os recursos e não pedi-los ao governo. com produtividade. No essencial. como vimos – pode seguir estritamente aquelas regras. diz ser contra a desregulamentação dos serviços de telecomunicações.

(16) A filosofia política de inspiração positivista no Brasil.. 5ª ed. p. 2ª ed. 151. Rio de Janeiro. (6) Formação do oficial do Exército. p. 283. Globo. São Paulo. 350. (8) Ordem do Dia ao deixar Benjamin Constant a pasta da Guerra. 1989). (18) Ivan Lins informa o seguinte sobre a família Vargas: “O General Manuel Vargas. 191. (3) A questão do autoritarismo instrumental também está examinada no livro mencionado na nota precedente. Cia. 17. O Estado não é melhor regulador que o mercado. (14) Apud Henri Gouhier. sempre se disseram positivistas e. 1967. (4) Formação do oficial do Exército. grande amigo de Júlio de Castilhos. e seus filhos Protásio e Viriato. p. I. Porto Alegre. p. 1894. mas de mentalidade anticapitalista. 311. Lisboa. 23/24. Aurélio: cansar-se.-dez. Comte. 22/01/1939. São Paulo. (7) Idem.. Ciências Humanas (3). p. vol. Não se trata apenas da presença de mentalidade pré-capitalista. 6ª ed. As Forças Armadas e o desafio da Revolução. como achava Oliveira Viana. Aubier. 188.. 12-13.. em sua carreira militar? Ou foi na própria TELEBRÁS. 1977. criando assim amplos mercados para aqueles mesmos serviços. finanças e contabilidade. 5. p. já sabia que este não prestava? Talvez seja esta uma singularidade da história cultural brasileira. 1976. 1958. 1969. NOTAS (1) A filologia brasileira incorporou o verbo espanhol aplastar mas no sentido que parece ter sido popularizado pelos torcedores de corridas de cavalos (Cf. Editora Nacional. 1861. Oeuvres choisies de A. p. ed. (15) História Geral do Rio Grande do Sul. José I” in Cartas e outras obras seletas do marquês de Pombal. já que em português não se diz esmagante. Apud Ivan Lins. (5) O documento intitula-se “Observações secretíssimas do marquês de Pombal na inauguração da estátua eqüestre em 6 de junho de 1775. Paris. antes mesmo de vivenciar o capitalismo. p. Cia. São Paulo. Finalmente. Apud Teixeira Mendes. 1918. entregues por ele mesmo. Rio de Janeiro. GRD. História do Positivismo no Brasil. 1964. p. out. Será que foi nos quartéis. (13) História da República. Imprensa Nacional. 21. Editora Nacional. esfalfar-se) e não o adjetivo com sua força insubstituível. 2 v. (2) O leitor interessado na consideração específica do tema consultará com proveito a obra coletiva Evolução do pensamento político brasileiro (Itatiaia.109 seus custos (e não há nenhum outro meio de consegui-lo senão através da concorrência). seria interessante verificar onde se deu a vivência do general Alencastro e Silva com o capitalismo a ponto de incompatibilizá-lo de maneira tão decidida contra essa forma de organização do processo produtivo. (12) Obra citada. 1943. p. (11) Obra citada. (17) Transcrita integralmente por Oliveiros Ferreira. durante muito tempo. a el-Rei D. foram subscritores do subsídio da Igreja e Apostolado Positivista do . Jornal do Comércio. supondo-se que seria esta a sua primeira experiência empresarial? Será que não se pode dizer que o General Alencastro e Silva. 8 dias depois. que organizei em parceria com Vicente Barretto. cit. 149. Benjamin Constant. (9) Crônica de Saudades (Praia Vermelha). (10) Economia política. p. p. Ao mesmo tempo. a sociedade capitalista desenvolvida é que foi capaz de reduzir a percentuais insignificantes os contingentes de pobreza e baixa renda. Rio de Janeiro. 2º volume.

(20) Afonso Arinos de Melo Franco. donde a atualidade do tema estudado. O discurso foi publicado na íntegra no Correio do Povo. obra cit. compreendendo o Relatório Geral (2 vols. (40) Estruturas do comércio exterior brasileiro e suas implicações econômico-financeiras. México. cit. 214/222. p. Projetos Diversos (1 vol. p. (35) A legislação eleitoral brasileira. p. (26) Sindicato e sindicalismo no Brasil desde 1930. Estruturas do comércio exterior brasileiro e suas implicações econômico-financeiras. DIP. São Paulo. (30) Análise circunstanciada da experiência brasileira de disciplinamento do comércio exterior foi efetivada por J. a ABE realizou oito congressos nacionais. p. Projetos de Transportes (9 vols.. Rio de Janeiro. (38) Obra citada.). cit. que o governo entretanto enxertaria no Código. 195. (24) Do ano de sua fundação até 1942. na ausência do autor. tendo sido queimado. 1976.O. (34) Raul Prebisch. Fondo de Cultura Económica. herdeiro de Comte. p. setembro. p. A documentação respectiva foi entretanto preservada pela entidade. (23) A experiência brasileira da representação classista na Constituição de 1934. 192. o que levou Miguel Lemos a declará-lo cismático e a promover um auto-de-fé. p. Imprensa Nacional. (36) Na Comissão do Itamarati a maioria liberal votou contra a admissão da representação classista. Revista Brasileira de Estudos Políticos. 1967. 40. ed. p. 1942.. 208. (43) Relatório Geral. 1976. (31) O funcionamento do Conselho Federal de Comércio Exterior foi descrito por John D. Fundação Getúlio Vargas. número comemorativo do primeiro centenário do nascimento de Júlio de Castilhos. (19) Apud Ivan Lins..110 Brasil” (História do Positivismo no Brasil. 43. p. 51/52. Porto Alegre. José Olympio. fundou a Revue occidentale (1878) e aceitou. A Câmara dos Deputados. 215. na frança.). p. p. 311). tomo cit. 19. p.. obra citada. Introducción a Keynes. Forense. 1976. Salvo essa circunstância. obra citada. São Paulo..) e Estudos Diversos (1 vol. 1965. cit. (41) Essa documentação abrange 17 volumes. . Rio de Janeiro.. em 1883 uma cátedra. (33) José Maria Belo enxerga na “tendência socializante da Constituição de 1934” expressão acabada desse processo. cia. (25) Os grandes problemas nacionais. 2ª ed. 133. vol. p. 14/15.)..). Rio de Janeiro. 113. (Op. o livro Calcul Arithmétique. Síntese histórica. In As tendências atuais do direito público. Carta Mensal (22). (28) Texto citado. 16. nº 2. (27) Texto integral publicado na Revista da Universidade do Rio de Janeiro. (39) Testemunhos e ensinamentos. janeiro de 1964. dos quais só se publicaram os anais do terceiro (1919). A política do desenvolvimento na era de Vargas. ANPES. Rio de Janeiro. (29) Loc. 1964. p. Wirth. 135. (37) Eleições de 62: decomposição partidária e caminhos da reforma. São Paulo. 200. ANPES. (42) Relatório Geral – Tomo I. Editora Nacional. Brasília. 26/06/1960. predomina na nova lei a inspiração da liderança liberal da época. Observa que essa temática – a dicotomia do político e do técnico – mantém-se viva. p. Knaack de Souza. 1970. (32) Apud Ivan Lins. 1954. 1970. 5ª ed. p. 191/192. Projetos de Energia (4 vols. p. 88. 1932. Rio de Janeiro. 245/259. 1973. 1912. Rio de Janeiro. (21) Pierre Lafitte (1823/1903). p.

111 (44) Em novembro de 1992. Centrus (Banco Central). US$ 1.5 bilhão. US$ 4. Sistel (Telebrás). RFF. Funcef (Caixa Econômica).7 bilhão. o patrimônio dos principais desses fundos era o seguinte: Previ (Banco do Brasil). etc.) . BNDES. US$ 1. Vale do Rio Doce. Petros (Petrobrás).1 bilhão. US$ 1 bilhão e os demais abaixo de um bilhão (CESP. US$ 1.5 bilhões.

Na África muçulmana e negra não há capitalismo e muito dificilmente tal ocorrerá. Inicialmente destaca que o empreendimento capitalista controla sua rentabilidade por meio da contabilidade moderna. além da nítida divisão do mundo em dois blocos políticos antagônicos originou uma espécie de maniqueísmo no que refere à natureza dos sistemas econômicos. 2º) A liberdade mercantil. o Banco Mundial fomentou políticas destinadas a promover o fim do subdesenvolvimento. dos que se arrolavam como países capitalistas. isto é. (2) sendo naturalmente necessário distinguir o tema das condições que favorecem (ou favoreceram) sua emergência e sucesso. (1) De todos os modos. sem resultado. Mesmo a idéia de terceira via. O fenômeno dos chamados tigres asiáticos somente agora vem sendo estudado. . a economia de mercado é uma invenção ocidental. em desenvolvidos e subdesenvolvidos. Ao longo de todo o pós-guerra. surgiu a divisão. póstuma. 1923). tinha como pressuposto a mencionada dicotomia. embora não se trate do empreendedor isolado mas da família. Para minorar os efeitos de tal simplificação. suscitada pelos sociais democratas. que é uma das características essenciais do capitalismo.. Os países capitalistas são todos desenvolvidos. exigência que teria sido formulada pela primeira vez em 1698 pelo teórico holandês Simon Stevin. do tema que aqui consideramos: como classificar aquelas economias que nitidamente não são capitalistas. contidas na sua obra História econômica geral (1ª ed. 1) CARACTERÍSTICAS DA ECONOMIA CAPITALISTA No que se refere ao ciclo de emergência e consolidação. A equipe de Peter Berger inclina-se pela hipótese de que o confucionismo facilitaria a emergência do empreendedor. Na enumeração. destaca o seguinte: 1º) Apropriação de todos os bens materiais de produção como propriedade de livre disposição por parte das empresas lucrativas autônomas. agora que acabou o pesadelo comunista talvez se possa reconhecer que a expressão país capitalista desenvolvido seja redundante. De sorte que. a liberdade de mercado em relação a toda irracional limitação.112 CAPÍTULO VI DIFERENÇAS NOTÁVEIS ENTRE O BRASIL E OS PAÍSES CAPITALISTAS A longa vigência do socialismo no Leste Europeu e a crença nutrida por seus dirigentes de que venceriam o capitalismo. para continuar trilhando o caminho da investigação parece essencial fixar as características mais marcantes do capitalismo. suponho que permaneçam válidas as observações de Max Weber. Basicamente não havia alternativa: a economia ou era capitalista ou era socialista. Sem querer naturalmente substituir uma simplificação por outra.

5º) Trabalho livre. de transportes.que ultrapassaram as fronteiras de um só país passando a ser denominadas de multinacionais. que se tornou. com capacidade equivalente a apenas um terço daquela disponível nas unidades de menor porte em operação nos Estados Unidos. na satisfação de suas necessidades. São as indústrias nascidas no interior da eletrônica. 6º) Comercialização da economia. por conseguinte. Para que a exploração capitalista proceda racionalmente. Aço produzido a preços mais competitivos propicia enorme “handicap” na oferta de automóveis. surgiram entretanto novos ramos industriais que se desenvolvem segundo ritmos acelerados. nossa contemporânea.113 3º) Técnica racional. num sentido mercantil e de rentabilidade”. etc. a indústria siderúrgica japonesa inovou significativamente no que respeita às dimensões dos altos-fornos. empresas de seguros. que existam pessoas. Em alguns ramos. Essas atividades revelam a tendência à estabilização. navios e outros bens resultantes da elaboração de produtos siderúrgicos. obrigadas a vender livremente sua atividade em um mercado.). Deram lugar ao terciário clássico (bancos e financeiras ligadas ao mercado de capitais. isto é. não somente do ponto de vista jurídico mas econômico. 4º) Direito racional. couro. embora inexista consenso quanto à forma de defini-las. A indústria química tornou-se de igual modo outro suporte do gigantismo desde que logrou substituir por sintéticos grande número de itens cuja oferta dependia da produção agropecuária ou florestal (madeira. direito calculável. Weber dirá que a empresa capitalista deve dispor da “possibilidade de exercitar uma orientação exclusiva. isto é. precisa confiar em que a justiça e a administração seguirão determinadas pautas. Resumindo. A indústria eletrônica também facultou a formação de conglomerados gigantescos. (3) Todos os estudiosos concordam em que o capitalismo teve diversas fases. devendo circunscrever-se a obtenção de níveis de crescimento meramente vegetativos. isto é. Tais são os setores da chamada indústria tradicional. etc. o principal empregador de mão-de-obra na sociedade desenvolvida do Ocidente. serviços administrativos. repousa na formação de gigantescas empresas industriais . conseguindo alcançar produção equivalente à americana (superior a 100 milhões de toneladas/ano) dispondo de altos-fornos gigantes.). não só quanto à confecção senão também com respeito aos custos de transportes. sob cuja denominação compreendemos o uso geral de títulos de valor para os direitos de participação nas empresas e igualmente para os direitos patrimoniais. A sociedade afluente do mundo desenvolvido. Refiro aqui o posicionamento de dois estudiosos. contabilizável ao máximo e. sem que essa preferência signifique menosprezo pelas demais opções. Nos últimos lustros. Assim. a concorrência entre os próprios países industrializados tornou-se a causa fundamental de seu crescimento. com o correr dos tempos. A partir de tais indústrias vêm . vinculadas ao processamento da informação e à comunicação. mecanizada. tanto na produção como na troca. fibras.

exigem sobretudo capacidade inventiva. para 23% em fins da década passada. Mas. muitos eram de nível superior. basta indicar que a posição do operariado industrial. Crozier observa que o capitalismo industrial desenvolveu-se com base no denominado “sistema Taylor”. mantido pelas próprias empresas. New York. Destes últimos.” (4) Mais recentemente. um diploma universitário”. Aqui é necessário um esclarecimento para não se supor que a referência ao diploma universitário tem o mesmo sentido que em nosso país. O sistema de formação para o trabalho. e. “Todos os países desenvolvidos tornam-se sociedades pós-industriais. escolher o aprendizado e não a planificação. a reconstrução paciente e politicamente genial do “Konzern Krupp” redundou no maior fracasso econômico do pós-guerra -. aceitar a condição de rampa de lançamento dos inovadores. que nas economias desenvolvidas já são computados à parte.ultrapassando de longe as mudanças na política. saúde. nos novos setores de atividade. Em seu livro (New Realities. Crozier escreve o seguinte: “Sua expansão encontrou seus limites e os termos de intercâmbio político e social lhes serão cada vez mais desfavoráveis. desde que revelam incontestavelmente dinâmica própria. os grandes grupos industriais de amanhã somente poderão sobreviver em duas condições: 1ª) ser capazes de desinvestir a tempo: a sociedade futura conhecerá rupturas tão fortes como as atuais e aqueles que se deixarem enclausurar na concepção galbratiana simples do condicionamento da demanda acham-se condenados à falência.114 se estruturando novos serviços. São vulneráveis porque expostas e submetidas à mudança de todos os governos. A expectativa é no sentido de que esse contingente venha a corresponder a apenas 3% nos próximos trinta anos. sociedades do conhecimento. comunicação. Peter Drucker acrescentou outros elementos à análise de Crozier. de modo crescente. anualmente. Os serviços que ora começam a dinamizar-se. uma situação proveitosa para a siderurgia alemã. 1989) escreve: “A maior transformação . no conjunto da população ativa nos Estados Unidos. Sua dependência será cada vez menor do capital. com sua ênfase na organização do trabalho. que consistia em simplificar ao máximo as tarefas. tem maiores dimensões que o sistema universitário brasileiro. nos governos ou na economia . educação. Para que se tenha uma dimensão do que se espera venha a ocorrer nos próximos anos. 3. nos Estados Unidos. diga-se de passagem. sua vitalidade porque não têm como manter o espírito de empresa em seu seio. não se deve esperar o predomínio de multinacionais. Serão incapazes de preservar durante longo tempo.5 milhões de empregados participaram de cursos em horas de trabalho e 700 mil fora de tais horários. ministrados por 45 mil professores de nível universitário em tempo integral. Essas atividades podem ser classificadas genericamente como sendo de serviços às empresas. Especulações. Apresenta os seguintes indicadores: 1º) O centro de gravidade deslocou-se para o trabalho relacionado ao conhecimento. 2ª) resignar-se a dar nascimento em seu seio a empresas novas. cultura e lazer. a fim de incorporar ao processo número crescente de produtores. criatividade. reduziu-se de 38%. Não disponho de dados atualizados. Acerca das grandes empresas multinacionais.é no direcionamento à sociedade do conhecimento em todos os países desenvolvidos não-comunistas”. em 1960. ao contrário. na década passada. O acesso a bons empregos e o progresso na carreira requer. sonhos? Não esqueçamos que no momento mais favorável do grande milagre alemão. . Assim. De todos os modos. o que correspondeu.

nunca se deve esquecer que o Brasil há de ter sido o único país do mundo onde um parlamentar imaginou a possibilidade (legal) de revogar a lei da oferta e da procura. obscurece a natureza profunda da mudança. Essa espécie de cultura era mais ornamental que necessária”. Essa política tem alguns antecedentes que . compreendendo gerência. foi capaz de inventar um mecanismo (os consórcios) que a desobriga de levar em conta a lei da oferta e da procura. 4º) Mesmo nos começos do segundo pós-guerra. supervisão. não só o Estado prescinde do mercado no Brasil (no sentido de instância reguladora de preços e serviços). como a automobilística. 2) A IGUALDADE DE OPORTUNIDADES Em sua evolução histórica. A própria sobrevivência dos sindicatos é uma questão problemática. Esclareça-se que o capitalismo não perseguiu o que se denomina de igualdade de resultados. à qual não voltarei. propiciada basicamente pela escola. 3º) Na sociedade do conhecimento (ou na sociedade culta) o “business” deixa de ser a única via para o sucesso profissional. como espero demonstrar. Creio que as análises precedentes permitem a fixação de alguns parâmetros a partir dos quais seja possível fixar as principais diferenças existentes entre o Brasil e os países capitalistas. Escreve: “Ainda muito recentemente havia poucas empresas requerendo conhecimento (no sentido de cultura geral). Enquanto no patrimonialismo a chamada sociedade afluente limita-se à nomenklatura. A Universidade americana. O que a sociedade capitalista se propôs realizar foi a igualdade de oportunidades. Os títulos outorgados são genéricos: “bacharel em artes” ou “bacharel em ciências”. P.115 De um modo geral. padronização de métodos (artigo do prof. Vejamos como se apresentam. Esse tipo de raciocínio . do mesmo modo que a maioria das congêneres em outros países desenvolvidos. Uma questão essencial. relativa à liberdade de mercado. Mesmo uma indústria estrangeira. o liberalismo formulou a doutrina da igualdade de oportunidades. Hoje se transformaram na “contracultura” ao invés de apontar. o mais incrível. na visão de Drucker. achavam-se voltados para o processo produtivo. não habilita profissionais. nº 2. como se supunha. E. o caminho de acesso aos bons empregos não era através da educação. Nesse particular. quanto a esse aspecto. nos países capitalistas prevalece distribuição de renda relativamente satisfatória. consiste na presença aplastante do Estado na economia. sendo reduzidas as camadas que poderiam ser arroladas como pobres. é que parece tê-lo conseguido! Mas há outros aspectos mais marcantes. 2º) A prevalência do conhecimento é vista hoje como o desenvolvimento natural da sociedade industrial. nem se pode alcançar tal desfecho. que viola uma das características apontadas por Weber. nos aspectos considerados. que coexiste com gigantescos contingentes de pobreza. 1982). Lembra que apenas um dos grandes capitalistas do passado. J. No desenvolvimento do raciocínio de Drucker ver-se-á com clareza a distinção que ora procuro estabelecer. quando a educação passou a ser considerada investimento. transcrito na revista Diálogo. reduzindo-se a uma das vias possíveis. havia cursado uma universidade estrangeira. da Universidade de Connecticut. Os trabalhadores da indústria manufatureira experimentaram grandes avanços em matéria de status e bem-estar material. o curso da história. Aliás. as disparidades entre os países capitalistas e o Brasil. William Brazziel. Morgan.

E esclarece as razões pelas quais o assunto não pode ser entregue aos pais como se a responsabilidade fosse só deles. além da matemática.exclama. Rejeita a tese de que isso seria transformá-los em aristocratas. A nova concepção educacional. ao longo do século XIX. Mas não partiu daqui o impulso para alteração de natureza radical que se consumaria na Época Moderna. Logo o Japão aderiu a esse sistema. que se expandiu na Europa. Lutero refuta a opinião de que seria suficiente que todos aprendessem apenas o alemão porquanto a Bíblia e a palavra de Deus podem ser ensinadas nessa língua. na América do Norte e em outras ex-colônias inglesas. a juventude se perderia e era isso o que o Diabo realmente pretendia conseguir!” .116 conviria fixar. exteriormente. Seu “culto” estava a cargo do clerigus.os cirurgiões e a burocracia civil e eclesiástica. e tudo. em 1524. Tratava-se de uma concepção diversa da que se estruturou na Época Moderna. no começo de caráter confessional mas que. A educação na Idade Média era muito restrita.os guerreiros . no sentido de que criassem e mantivessem escolas. A boa educação dos rapazes e moças pretende conseguir “homens capazes de governar país e povo” bem como de mulheres aptas a assumir a responsabilidade de casa. pois é assim que nos chamam nossos vizinhos e parece-me que bem mereceremos estes nomes”. como a Nova Zelândia e a Austrália. É preciso também contribuir para que ao mundo possa “preservar melhor. Esclarece que não pretende que as pessoas vão à escola para tornar-se eruditas mas para enfrentar o fato de que “surgiu um mundo diferente. Insiste em que “Deus ordenou aos pais que ensinassem aos filhos o que é bom para eles. “ninguém mais aprenderia coisa alguma. As crianças precisam ser reunidas para aprender não apenas as línguas e as histórias. A Renascença e o aparecimento da imprensa criaram a premissa para o surgimento e a difusão de novos tipos de saber o que. de nada valendo o aprendizado do latim. e Ele pedirá a nós a devida prestação de contas por isso”. O aparecimento da Universidade. Laicus aplicava-se a quem não sabia ler. não alterou esse quadro. Vejamos inicialmente como se firmou a educação popular. por toda parte. porquanto a única novidade era a disciplina e o controle da formação de algumas profissões . mas também a música e o canto. muito tem a ver com a educação. A educação não propõe ensinar apenas o caminho da salvação. A vigorar semelhante reação.era constituído de pessoas iletradas. denominação que só tardiamente estendeu-se à classe sacerdotal como um todo. grego ou hebraico. tornou-se um serviço público. o fato de que se tenha iniciado nos países protestantes. Nesse documento. Lutero enxerga um grande risco que poderia resultar do crescente desprestígio das instituições de ensino ligadas à Igreja Romana. naturalmente. porquanto o núcleo básico desta última . Seria errôneo dizer-se que o saber era monopólio da elite. isto é. seu estado profano”. hoje . no sentido próprio do termo. Semelhante opinião eqüivale a pretender que “nós alemães teremos de permanecer bestas e animais grosseiros por toda a vida. O não cumprimento de tarefa de tal magnitude afeta a todos. motivo pelo qual deve ser assumida pelas comunidades. frontalmente contraposta à medieval. começa a formular-se com o apelo que Martim Lutero (1483/1546) dirigiu “Aos senhores Conselheiros de todas as cidades e terras alemãs”. Entendia-se que o saber devia ser cultuado. Entendeu-se que não haveria nenhuma razão para deixar que os filhos estudassem tanto tempo “já que não vão ser monges ou freiras”. pela chamada educação popular. desde o século XII.

com diferentes níveis de qualidade e outras singularidades que assinalaremos. o esforço passa a ser direcionado no sentido de democratizar o acesso à escola secundária. financiado com recursos públicos. na Escócia. No texto que estamos comentando. Incumbia-lhe assegurar que o número de vagas nas escolas correspondesse à população em idade escolar e inspecionar todas as escolas. etc. à escola. na Suíça. oferecendo esperanças de poderem servir. No Japão. que dê para ir à escola. Em 1880. De todos os modos. corridas e brigas? Do mesmo modo pode uma moça ter tanto tempo. Transcorreria muito tempo até que.. como pregadores ou em outras funções eclesiásticas. Antes do fim do século também os Estados Unidos haviam lançado as bases da constituição de um sistema de ensino elementar aberto a todos. na Inglaterra. de modo que as duas coisas se combinem. ou continuar a estudar sempre”. ou aprender um ofício ou profissão que os pais queiram. nos países em que havia multiplicidade de seitas protestantes. sem que isto crie impedimento aos seus afazeres de casa. em 1870. estruturou-se e consolidou-se na Inglaterra um sistema de escola elementar para todos. jogo de bola. dez vezes mais tempo com tiro ao alvo. as chamadas “escolas confessionais” proliferam na Prússia. Nessa fase. devem freqüentar por mais tempo as escolas. Mantiveram-se os subsídios às “escolas confessionais” mas estas. Ao longo dos oitenta anos seguintes. esse sistema educacional começou a ser montado na mesma época das grandes reformas introduzidas na chamada Era Meiji que dura de 1868 a 1912 e põe fim ao sistema feudal e abre o país ao Ocidente. já que. dançando e brincando. é que se deve deixar os rapazes irem diariamente. com maior ou menor intensidade. fazendo-os trabalhar o resto do dia em casa. A partir de 1960. o mesmo ocorrendo na França e na Alemanha. Aqueles porém que formam um grupo de escol. Entretanto. que estabelecia as Juntas Educacionais (School Boards). dessas diretrizes dispersas. diz Lutero. na Holanda. de outra foram. A sofisticação da indústria exigia número crescente de trabalhadores com melhor qualificação profissional ao mesmo tempo em que surgiram sempre novos serviços.117 está mudado”. agora. “Minha opinião. A conversão das escolas confessionais em escolas públicas estava virtualmente consumada.. Estados Unidos e em grande parte do território francês. com habilidade. passa o tempo dormindo. Ainda assim. desperdiçando horas preciosas. como professores e mestres. normalmente. o ensino elementar foi tornado compulsório. quando o grande líder e reformador liberal William Gladstone (1809/1898) promulga o Elementary Educacion Act. por uma hora. recebiam alunos de diferentes confissões. Na verdade. requerendo pessoas dotadas de cultura geral. esses países chegam às últimas décadas do século XIX com o denominado sistema de educação popular plenamente concebido. Pois não desperdiçam eles. etc. esta esteve muito mais na dependência de uma longa prática que foi muitas vezes interrompida em decorrência das guerras religiosas e da intolerância que os protestantes só fizeram fomentar. Presbiteriana. na Alemanha do Norte.) o processo de conversão dessas escolas num serviço público não apresentou maior complexidade. Inglaterra. Ali onde a doutrina protestante encontrou logo uma igreja dominante (Luterana na grande maioria dos principados alemães e na Prússia. O . A elevação geral dos padrões de renda criava condições para o surgimento de uma sociedade mais igualitária. Lutero fala ainda da organização de bibliotecas. da edição de livros. durante uma ou duas horas. em todos os distritos. a transição foi muito conturbada. surgisse uma nova doutrina educacional. a escola secundária era acessível a número limitado.

queria aqui invocar o exemplo dos Estados Unidos. devastado pela conflagração. Em 1880. Em matéria de recursos e resultados no período mais recente.8% em 1983. Em termos de freqüência à escola os resultados são sempre alentadores. percentagem que se mantém em nossos dias. facultada a todos. e não apenas aos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e formação de técnicos de nível superior. sendo que 34% o concluem integralmente. 8. como o nosso segundo grau). alemães e francesas. Nos principais países europeus. há uma consciência profunda de que o adequado aproveitamento dos recursos naturais e de outras potencialidades nacionais encontra-se na estrita dependência da educação. O setor privado corresponde a mais ou menos dez por cento do total. antes de mais nada. estas dizem respeito sobretudo à forma organizacional e ao ensino da ciência. praticamente todos os alunos. Na medida em que o sistema representativo ganhou dimensão universal e os processos produtivos adotados no Ocidente revelaram-se capazes de elevar os padrões de renda e eliminar a pobreza. razão pela qual os princípios a seguir enunciados formam hoje parte do ideário liberal. A colaboração da União é relativamente pequena (6. O ensino fundamental americano absorveu US$ 132. Na conquista desse consenso tiveram destacado papel muitos educadores liberais. em 1960.7% em 1980). estabeleceu-se um certo consenso quanto às funções do ensino obrigatório. 60. o que assegura o adequado instrumento para alcançar a pretendida igualdade de oportunidades. afeta a todas as nações. explicando-se as defasagens pelo afluxo de emigrantes de países onde não se faculta idêntica oportunidade.5% em 1980 e 90% em 1990. com maior ou menor intensidade. Em síntese. 84. Os analfabetos são menos de 0. O sistema mantém uma grande estabilidade. Praticamente toda a população tem doze anos (high-school) ou mais de escolaridade. contemporaneamente denominado de fundamental ou básico. Assim. Mas. cerca de 96% passam ao curso colegial (constituído de três séries. equivalentes a 4% do PIB. nesses países. a missão do ensino fundamental desdobra-se do modo adiante resumido. Esse problema foi mais agudo nos Estados Unidos. o Japão já dispunha de número de escolas suficiente para atender à população e na virada do século 98% das crianças em idade escolar encontravam-se na escola.7% e embora a obrigatoriedade do ensino seja equiparável à brasileira (nove anos no caso japonês). De sorte que se pode tomar como um princípio de ordem geral.9 bilhões em 1983. . nas últimas décadas do século passado. tem-se presente. isto é.1% em 1975. A mudança introduzida neste pósguerra consistiu sobretudo em atribuir à escola papel primordial na restauração do país. percentual que se eleva a 70.7% da população havia completado o high-school. sem interferir na preservação dos valores da cultura japonesa. Quando se faz semelhante enunciado. A experiência sugeriu que cabe ao ensino fundamental a responsabilidade de assegurar a homogeneidade cultural de cada um dos países considerados. As principais fontes dos recursos são as administrações estaduais (cerca de 45%) e locais (aproximadamente 40%). nos Estados Unidos e Canadá do mesmo modo que no Japão. 83. válido para a maioria das circunstâncias.118 código fundamental da educação é de 1872 e embora reflita influências pedagógicas inglesas.5 bilhões em moeda constante). aproximadamente o triplo de 1970 (US$ 45. pelo grande afluxo de emigrantes.3% em 1970. a educação geral.

porquanto não basta serem alcançados pelas indústrias mais sofisticadas. os que alcançam a 8ª série. aproximadamente dois terços (cerca de 600 mil) concluem a 3ª série e inscrevem-se diretamente no vestibular. um dos elementos definidores das modernas sociedades capitalistas. a produção de bens primários e a diversificada gama dos serviços. na década de oitenta. na verdade.5 milhões e. Para compreendê-las. mas. na ausência de formação para a cidadania reside uma das diferenças fundamentais entre o Brasil e os países capitalistas. Este é o fato capital. preceito constitucional estabelece a sua obrigatoriedade.6% chegam à segunda série.3% à oitava. devem ser avaliadas periodicamente. devendo abranger toda atividade industrial. Contudo. Os meios de comunicação contribuem.6 milhões. na melhor hipótese. A matrícula na 1ª série do 2º Grau. de cada 100 alunos que ingressam nesse nível de ensino.9% à sétima e 27. oscilou em torno de 900 mil. 3) A DISTRIBUIÇÃO DE RENDA . Assim. tarefa que incumbe à massa dos votantes. o dispositivo constitucional que torna obrigatória a freqüência às oito séries do Primeiro Grau estará sendo cumprido na proporção de 13% e. Observa-se deste modo que.%% à terceira. isto é. Mesmo utilizando procedimentos de análise mais sofisticados para minimizar os efeitos da repetência. A serviço de que se encontra. de 10%.119 O sistema democrático exige. A produtividade do trabalho inclui-se entre os fatores decisivos do desenvolvimento econômico. Deste modo. os resultados apurados pelo Ministério da Educação são melancólicos e desalentadores. Eis por que. consoante é demonstrado a seguir. praticamente todos inscrevem-se no Segundo. por seu turno. A par disto. 45. requer-se um mínimo de cultura geral. situam-se abaixo de um milhão de crianças (890 mil em 1982 e 865 em 1984). dos alunos matriculados na primeira série do ensino fundamental. O nosso Primeiro Grau não se encontra aos serviço da tarefa que lhe é atribuída. contingente que alguns avaliam ser de muitos milhões. em todos os países desenvolvidos. todo o sistema de ensino está direcionado para a formação profissional de nível superior. nos piores. 68. 37. 73. isto é. na pior. essa prioridade é meramente declaratória.2% à quarta. Em toda parte. 6. que a grande massa de cidadãos tenha noção plena e integral do papel que compete a cada um desempenhar. a matrícula na 1ª série alcançou 7. As conclusões do 1º Grau. 60. No caso brasileiro.4% à sexta série. os níveis de produtividade a serem atingidos precisam ser considerados numa escala de massa. se não considerarmos os que sequer se matricularam na 1ª série e ficaram de fora do sistema. é certo. Destes. a de facultar ensino fundamental para todos. segundo essa fonte. para destacar as questões efetivamente polarizadoras. então? Dos que concluem o Primeiro Grau. Nos melhores anos. que o ensino fundamental deve ser capaz de universalizar. que é como vimos. Deste modo. as funções do governo são exercidas por elites preparadas para esse mister.7% à quinta série. apenas 27 chegam a concluí-lo. sem os quais os índices de conclusão do Primeiro Grau chegam a 18/20%. simultaneamente. 57. isto é. o ensino fundamental se considera como merecedor da máxima prioridade. nos anos oitenta.

mais uma vez. As faixas de renda compreendidas na classe média encontram-se entre $ 20 mil e 100 mil anuais. A faixa de contribuintes do imposto de renda é ridícula. seguindo-se uma grande celeuma. ao lazer.: Número de famílias em 1989: 93. teremos o seguinte: a população recenseada em 1991 era constituída de 36 milhões de famílias. no exercício fiscal 1989/1900: Faixas de Renda Familiar (em US$) % Sobre o Total Abaixo de 15. triplicando em pouco mais de dez anos. Tomo aqui. porquanto o imposto de renda o divulga todos os anos. alcançando 59% das famílias.000 a 25. abaixo de US$ 12. Mas é de fácil percepção que a imensa maioria é pobre . Acrescente-se que a questão do perfil de renda marca uma presença permanente na discussão política. em 1964. naquele ano.000 17. Se nos valermos das estimativas da renda familiar efetivadas pelo IBGE. mas obteve uma distribuição de renda bastante eqüitativa.120 Conforme enfatizamos. A situação é muito parecida à descrita nos demais países capitalistas. Ali. em 1964 a 2.000 17. No ciclo subseqüente foram alcançados resultados equiparáveis. com o que ficou alargada a faixa de recursos destinados à poupança.000 15. sobretudo pela incapacidade dos investimentos públicos em reduzir a pobreza a partir de determinados níveis.6 milhões.000 3.000 a 50.3 milhões. A renda mensal disponível de um trabalhador assalariado germânico elevou-se de 904 marcos.havendo até estudiosos que distinguem a simples pobreza do que chamam de pobreza absoluta .00 OBS. constituindo a elevação do salário real um objetivo apoiado por toda a comunidade.40 15. não sendo esta uma fonte capaz de refletir a situação em sua inteireza. População segundo o Censo de 1990: 249.753 marcos.5%. Na Alemanha.90 25.60 Acima de 100.000 19. o capitalismo não buscou a igualdade de resultados cifrando-se no empenho em prol da igualdade de oportunidades -.000 a 100. a população carente é de 4.90 35. o exemplo dos Estados Unidos. entre outros itens que simbolizam um estado de bem-estar que acelera o processo de integração social.000 anuais (em torno de 15% das famílias). FONTE: Bureau of Censes Considera-se que a faixa de pobreza situava-se. vestuário e habitação consumiam 64% do orçamento familiar. Que dizer do Brasil nessa matéria? Não temos sequer critérios para determinar os níveis de pobreza.90 Total 100. as despesas com alimentação. das . proporção que se reduziu a 54% em 1976.e a classe média vem sendo destroçada impiedosamente.000 25. à cultura e ao turismo.000 a 35.30 50. em 1976.

Democratization in the Late Twentieth Century (University of Oklahoma Press. Huntington procederá à elaboração de alguns modelos.6%) democracias. portanto. e apenas 12 . Permito-me. A idéia de Terceira Onda resulta da democratização subseqüente a 1974. Segundo Huntington. Venezuela e Colômbia) ou estão em vias de alcançá-lo na terceira (Espanha. 32. A primeira onda abrange de 1828 a 1926 (de 64 nações independentes.). o Brasil está muito próximo dos antigos países comunistas e não dos países capitalistas. Linz. Pode-se concluir. a nossa pirâmide de distribuição de renda é exatamente inversa à dos países capitalistas: 68% situam-se na faixa da pobreza. A segunda reversão teve lugar entre 1958 e 1975.121 quais 11 milhões (32%) integram as classes média e alta (renda superior a 5 salários mínimos). As duas hipótese iniciais conduzem a muitas ambigüidades. Bolívia e Equador. Nesse plano temos mais afinidades com o Leste Europeu que com o Ocidente capitalista. A seu ver não há propriamente uma alternância de sistemas políticos. Subseqüentemente tornou-se uma tradição de analistas políticos aderentes a essa postulação (Robert Dahl. isto é. Japão. Devido à debacle dos sistemas coloniais. Huntington começa por estabelecer que a democracia. resumir aqui as principais teses relacionadas ao assunto da lavra de Samuel Huntington em seu mais recente livro The Third Wave. Socilism and Democracy. Brasil. como forma de governo.7% . para conceituá-la de modo adequado. em 1962 o número de estados ascendia a 111. Peru. . Juan J. O segundo grupo é integrado por aqueles países que se inseriram no processo de democratização dos sistemas políticos compreendidos na primeira onda e não lograram sustentá-lo. Turquia e Nigéria em outros continentes).3%). 12 milhões (32%) a classe pobre (renda entre 2 e 5 salários mínimos) e 13 milhões (36%) a classe muito pobre (renda inferior a 2 salários mínimos). foi definida em termos de fontes de autoridade para o exercício do poder. finalmente. O primeiro parâmetro consiste no posicionamento nas diversas ondas. que do ponto de vista do perfil de renda. para 122 estados nacionais havia apenas 30 (24. as nações independentes haviam se reduzido a 61. 4) A QUESTÃO DA DEMOCRACIA A questão democrática é certamente mais complexa mas é possível correlacionála com o capitalismo. 1991). Giovanni Sartori. elevando-se as nações democráticas a 36. 24 eram democráticas. de democratização e de reversão (Argentina. pelo processo de constituição dos governos. O sistema político desses países é que consistiria precisamente nessa incapacidade de consolidar a democracia. na segunda onda.19. chegaram a ser bem-sucedidos (Alemanha. as nações democráticas eqüivalem a 58 (45% do total). a mais importante desse entendimento de democracia é devida a Joseph Schumpeter (Capitalism.4%. pelos objetivos perseguidos pelo governo e. A concepção de que o procedimento central da democracia reside na seleção de seus líderes através de eleições competitivas alcançou maior fortuna. A segunda onda de democratização transcorreu entre 1943 e 1962. Alfred Stepan. na América Latina. seguindo-se a brutal reversão ocorrida entre 1922 e 1942 (nesse último ano. Se é que essa estimativa reflete com propriedade a situação real. Esta seria a terceira onda. Em 1973.preservavam sistema democrático). 1942). equivalentes a 45. Em 1990. de que emergiria um primeiro segmento integrado por países que participaram dos dois ciclos. Áustria. Itália. Porém. isto é. etc.

A maneira como tenha ocorrido o fenômeno também traz implicações para análise subseqüente. Finalmente. O quarto modelo é o da transição direta (de sistema autoritário estável para a democracia). para citar um exemplo afeiçoado ao que o autor tem em vista. 3) a mudança de posição da Igreja Católica. 3º) intensidade dos problemas conjunturais que podem conduzir rapidamente ao saudosismo do ciclo autoritário. As principais causas da terceira onda são as seguintes segundo Huntington: 1) os problemas de legitimação do autoritarismo num mundo em que os valores da democracia tornaram-se largamente aceitos. Huntington louva-se na opinião de estudiosos que concluíram ter as sustentação da República Federal resultado basicamente do ingresso na vida política das novas gerações. Trata-se da enumeração dos problemas de que depende a consolidação do processo bem como a resposta à pergunta quanto às chances de fracasso e reversão. que deixou de ser suporte de sistemas autoritários em vários países. Na Espanha. 5º) a institucionalização do comportamento político democrático. a opinião encaminhou-se no sentido de apostar em mudanças segundo o próprio modelo democrático e não numa volta ao franquismo. que é do maior interesse. que esta é uma circunstância desfavorável de grande peso nos dois países. Taiwan. onde as tradições culturais mais arraigadas não ajudam a democracia. Esquematicamente. cujo paradigma é a Espanha. Grécia. 2) o crescimento econômico sem precedente posterior a 1960. Entre os vários exemplos que suscita sobressaem os da Alemanha e Espanha. El Salvador. e 5) o “efeito demonstração” que a adesão à causa democrática por esse ou aquele país veio a alcançar num mundo onde a comunicação difundiu-se amplamente e tornou-se instantânea. Uruguai e Chile). como se dá no Brasil em relação ao voto distrital. Checoslováquia e Polônia). Huntington atribuiu grande importância às formas como se deu o abandono do sistema autoritário. Filipinas. depois de tê-la conseguido estabilizar por grandes períodos (Índia. Huntington não o diz expressamente mas. sendo este o caso de România. Huntington é justamente o autor do estudo clássico The Soldier and the State (1957) onde comprova que a ingerência militar na política traduz baixos níveis de profissionalização. A esse modelo denomina de segunda experiência. México. referida às próprias ondas de democratização. capacidade dos militares de opor-se às reformas ou possibilidade de que trilhem o caminho da profissionalização. isto é. ou pela via insurrecional (Portugal). sobretudo) não tinha qualquer espécie de sustentação interna. resultante do Concílio Vaticano Segundo. em contrapartida. os problemas que mais influem na consolidação democrática seriam os seguintes: 1º) atitude diante da tortura (punição ou esquecimento) desde que poder deixar a nação estancada no passado ou com o sentimento de impotência diante do problema seguinte. situação que se prolongou por um largo período. se por iniciativa própria. . 2º) a questão pretoriana. Além da distinção anterior. 4º) a possibilidade de florescer uma cultura favorável à democracia. Nos anos cinqüenta. Honduras e Nicarágua). apesar do agravamento dos problemas (notadamente inflação e desemprego). O interregno foi portanto muito dilatado. Coréia. 4) a influência externa da Comunidade Européia e dos Estados Unidos na promoção dos direitos humanos e o acolhimento dessa influência pela nova liderança soviética. e. Bulgária.122 Portugal. Tal resultado depende de reformas que a própria beneficiária (a elite política) reluta em empreender. Guatemala. pode-se inferir do modelo em que situa o Brasil e a Argentina. o modelo resultante da descolonização. a liderança da reconstrução (Adenauer. O terceiro grupo denomina-se de interrupção da democracia.

123

O livro conclui numa das possibilidades de reversão, a exemplo das que surgiram
nas ondas anteriores. Desse ângulo atribui certa importância à duração do ciclo democrático
subseqüente à segunda guerra bem como o relacionamento externo com o mundo
democrático. No que se refere ao último aspecto, considera extremamente favorável a
situação dos países que vieram a integrar um bloco democrático, a exemplo do Mercado
Comum Europeu. Situa o Brasil entre aquelas nações em que tais circunstâncias são
indiferentes ou desfavoráveis, isto é, não há uma influência externa poderosa capaz de criar
uma situação irreversível (como seria, por exemplo, o caso da criação do mercado americano,
resultante do que se está formando entre Estados Unidos, México e Canadá, ao qual
aderíssemos). Contém ainda uma apreciação das chances (remotas) dos países africanos e
islâmicos virem a engrossar a onda democrática.
Em síntese, o que se pode inferir da análise de Huntington é que a democracia não
é dada a todos. Nesses países em que a democracia firmou-se, pode-se atribuir a circunstância
ao capitalismo?
Talvez o que se possa afirmar sem risco de dogmatismo seria o seguinte: as
condições que favoreceram o aparecimento do capitalismo são as mesmas que contribuíram
para a emergência e a consolidação da democracia. Com efeito, o sistema representativo é
uma criação inglesa e difunde-se preliminarmente nas nações protestantes. Esse sistema,
como se sabe, não tinha qualquer compromisso com o ideal democrático. A democratização
da idéia liberal é um processo longo e complexo, abrangendo das últimas décadas do século
passado aos anos vinte. Poucas nações, como registra Huntington, saíram incólumes dessa
prova. A democratização do sufrágio levou ao poder facções totalitários como é o caso da
Itália e da Alemanha. Ambas, certamente, eram nações capitalista mas em presença de
tradições culturais muito desfavoráveis aos dois desfechos (capitalismo e democracia). A
Alemanha obedecendo à hegemonia de um Estado Patrimonial (Prússia) e a Itália, pela longa
tradição de pequenas unidades políticas, resistindo bravamente (como aliás o faz até hoje) à
formação do Estado unitário.
Neste pós-guerra talvez se possa estabelecer uma vinculação mais estreita entre os
dois processos. Certamente a presença do Mercado Comum Europeu é uma circunstância
altamente favorável à consolidação da democracia na Península Ibérica. Esta não é
naturalmente uma relação abstrata. Como reconhece o próprio Huntington, o bem-estar social
facilita a consolidação de práticas democráticas.
NOTAS
(1)

The culture of entrepreneurship, ed. Brigitte Berger, San Francisco, Califórnia, ICS Press,
1991.
(2)
A questão do capitalismo japonês, como observa Roberto Campos, “é animal um pouco
misterioso”. Ao que acrescenta: „duvidava-se mesmo que o capitalismo pudesse viajar
naquelas plagas”. Entre as condições que o favoreceram, aponta para a base ética fornecida
pelos samurais. Aproximação entre a ética desse grupo social e a do feudalismo europeu havia
sido efetivada por Marc Bloch (A sociedade feudal; tradução portuguesa, 2ª ed. revista.
Lisboa, Edições 70, 1987).
(3)
História econômica geral, trad. espanhola. México, Fondo de Cultura Económica, 6ª
reimpressão, 1987, p. 237-238.
(4)
On ne change pas la société par décret. Paris, Grasset, 1979, p. 253-254.

124

CAPÍTULO VII

ESTRATÉGIA PARA ENFRAQUECER O PATRIMONIALISMO
E FAVORECER O CAPITALISMO

Agora que não mais existem as economias auto-proclamadas de socialistas, talvez
se possa desenvolver a tese de que o fenômeno verificado na Rússia e no Leste Europeu
provavelmente não tenha passado de uma das virtualidades do patrimonialismo. Certamente
aquela derrocada em muito fortaleceu a doutrina do Estado Patrimonial, naturalmente
entendida de forma não dogmática, para atender aos reclamos de estudiosos do porte de Lobo
Torres.
As tentativas de implantação da economia de mercado naqueles países também
deve propiciar muitos ensinamentos. Guy Sormam é bastante cético quanto ao sucesso dessa
empreitada, segundo se pode ver do seu livro Sair do Socialismo.
Tampouco se pode pretender que seriam apenas dois os modelos prevalentes de
economia em nosso tempo: o patrimonialista e o capitalista. Creio que este será um tema
aberto à investigação no futuro imediato. A julgar pela edições que tem patrocinado, o
Institute for the Study of Economic Culture, da Universidade de Boston, dirigido por Peter
Berger, ocupará lugar de destaque em semelhante investigação.
Acredito que a caracterização da economia brasileira como sendo
predominantemente patrimonialista pode atrair para o estudo do tema mentes criativas, de que
depende, em última instância, o sucesso de qualquer linha de pesquisa na Universidade.
Do ponto de vista da estratégia do elemento liberal, a hipótese também poderá
revelar-se muito fecunda. Assim, seria necessário atribuir uma grande prioridade ao estudo da
Contra-Reforma. Este é reconhecidamente um movimento complexo e trouxe significativa
renovação à Igreja Romana, sem o que é provável não teria suportado o ataque que sofreu de
parte do democratismo, sobretudo no século XIX. Contudo, a sua pauta temática
extremamente rica e mobilizadora (livre exame da Bíblia; predestinação e graça; a presença
Cristo na hóstia, que deixara divididos aos próprios protestantes; o segundo mandamento do
Decálogo, relativo às imagens; o posicionamento diante da riqueza, etc.) parece ter sido
enormemente empobrecida no universo cultural da Península Ibérica, desde que, tudo indica,
ter-se-ia concentrado no combate à usura. A questão moral é central. Os liberais não
reverterão o quadro, sobretudo no seio da juventude acadêmica e da intelectualidade, sem
deixar patente a ampla base ética do capitalismo. Num dos estudos recentes, editados sob o
patrimônio do mencionado Instituto dirigido por Peter Beger, o aspecto destacado está
resumido desta forma: “Não há desenvolvimento capitalista sem classe empresarial; não há
classe empresarial sem código moral; não há código moral sem premissas religiosas”.
Em suma, é preciso obter algum arejamento na Universidade e conseguir quebrar
o monólito da dominação marxista-positivista que tem feito fenecer a sua criatividade. Não
deixa ser melancólico continuar assistindo, como se nada tivesse havido, a pregação

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comunista nas cátedras universitárias, anacronismo que corresponde, na verdade, ao desfecho
da aliança selada pela denominada esquerda com os governos militares.
É óbvio que essa conquista não assegurará, por si só, o enfraquecimento do Estado
Patrimonial, já que seria irrealista pretender afastá-lo de uma vez de nossa realidade, tratandose de uma instituição secular que tem revelado inusitada capacidade de sobrevivência.
A questão crucial seria a seguinte: deve ser incumbência do próprio Estado liderar
o processo? A experiência sugere que o elemento modernizador tem-se originado fora do
Estado Patrimonial. Aceita-o na proporção da força que revele possuir. Mas, na primeira
oportunidade, o expulsará, como ocorreu com Pombal, ou então colocará abertamente a seu
serviço o projeto modernizar, como se verificou com a Revolução de 64, transformando-o
numa plataforma de empreguismo e corrupção.
Na visão de Roberto Campos, mesmo depois de consumado o afastamento do
Estado de funções diretamente produtivas, restar-lhe-á papel essencial no estímulo ao
desenvolvimento econômico sob a égide da iniciativa privada. Segundo seu entendimento,
precisamente este tem sido o papel exercido pelo Estado nos denominados Tigres Asiáticos.
Na conferência de encerramento das atividades do Conselho Técnico da
Confederação Nacional do Comércio, no exercício de 1992, dedicada ao tema da
representação empresarial, na qual considerou a questão do patrimonialismo, Amaury
Temporal constata que o empresariado não foi o agente formulador ou condutor das várias
etapas modernizantes de nossa história. Ao que acrescenta: “Contudo, a ação desenvolvida
por parte de suas lideranças, nomeadamente aquelas que se perfilaram com firmeza em torno
da doutrina do pluralismo democrático da economia de mercado, mesmo quando a postura
resultava em prejuízos transitórios, tem sido importante e indispensável. Lembremo-nos: a
resultante política é vetorial”.
O conhecido líder empresarial entende que mais uma vez em nossa história a
agenda modernizadora corre o risco de interrupção, se não houver pressão da sociedade
organizada. A função do empresariado parece-lhe ser a seguinte: “... agregar forças em torno
de um projeto mínimo, a partir do claro entendimento do que está em jogo. Aqui reside parte
importante de nossa baixa eficiência como agentes de transformação no passado. Por não
entendermos o que poderia ser empreendido, deixamos de tentar, perdidos em uma infinidade
de ações reativas, conjunturais, transitórias, de baixo significado.”
Trata-se, portanto, de encontrar uma pauta mínima, na qual incluiria estes pontos:
1º) Eliminar todas as burocracias estatais devotadas aos programas oficiais de
combate à pobreza. É preciso ter presente que, consoante estudo do Banco Mundial (Brazil public spending on social programs: issues and options, 1988) o Brasil aplica em políticas
sociais proporção do PIB (18%) equivalente à que tem lugar nos países desenvolvidos, com os
resultados desastrosos que se conhece porquanto desde 1930, quando o Estado assumiu o
lema de “tudo pelo social”, “opção preferencial pelos pobres”, gerando em seu seio, desde
Vargas, sucessivos “pais dos pobres”, o que se tem visto é que os indicadores da pauperização
das camadas de baixa renda - e da própria classe média - têm-se tornado sempre mais
aterradores. Essas políticas, como tudo mais, transformaram-se em mero pretexto para
justificar a voracidade fiscal e permitir ao patrimonialismo apropriar-se de verbas sem o
menor controle da opinião pública. As dotações públicas para combate à pobreza e
atendimento a contingentes de baixa renda passariam para entidades sem fins lucrativos,

A praxe das reduções percentuais no Orçamento atende precisamente ao jogo do patrimonialismo. condicionada a sua liberação à apresentação de projeto específico ao Banco do Brasil. a pretexto de dar assistência àquelas organizações. Manietada pelo corporativismo. 4º) Concebida uma nova estrutura administrativa para a União. tão agudamente percebido por Amaury Temporal. As organizações empresariais brasileiras dariam uma grande contribuição em prol da redução dos gastos da União se patrocinassem esse tipo de estudo. de estabelecer a tutela do Estado sobre a sociedade -. o pressuposto básico consiste na admissão de que as duas instâncias teriam dimensões ótimas. de modo a levar a bom termo o empenho de profissionalizá-las e reduzir suas dimensões. Estaria voltada para pactuar com aquelas forças que. Consumada essa proposição. examinar concretamente as ações de que poderia resultar a dignificação do servidor. 2º) Levar a bom termo o programa de privatização. depois do desfecho de 64 e da dolorosa experiência dos governos civis subseqüentes (Sarney. como parte do processo de constituição do mercado comum que resultará da ampliação que vem sendo constituído pelos Estados Unidos. situações análogas serão encontradas. Nesse particular seria necessário afrontar o anti-americanismo infantil do Itamarati e colocar na ordem do dia a adesão à ALCA. Tanto no que se refere aos dispêndios da União como aos custos das tarifas públicas. Essa enumeração poderia prosseguir se se tratasse de uma pauta exaustiva e não de fixar prioridades. Canadá e México. O Ministério da Agricultura mantém até hoje um órgão denominado Departamento Nacional de Cooperativas (Denacoop). demonstração cabal da força e do caráter retrógrado do Estado Patrimonial. Na circunstância. no Forum Nacional. se dispusessem a abdicar das tradições patrimonialistas isto é. Não creio que possa sustentar-se a idéia do patrimonialismo modernizador. sua liderança exauriuse sem esse gesto de grandeza. e. Como de fato o Estado nada tem a ver com isto. proposta pelos Estados Unidos.126 criadas nos próprios locais em que devessem ser aplicadas. sua existência corresponde a mero expediente para justificar empreguismo. em ambas as circunstâncias. no sentido de gerar um novo consenso em torno da matéria. aceitando o penoso caminho de buscar a constituição do Estado Liberal de Direito. Grande parte das atribuições desse Ministério no que se refere à fiscalização sanitária ou à pesquisa poderia ser privatizada. insistir na simplificação tributária que tem sido sugerida pela Confederação Nacional do Comércio. que cobraria uma taxa apta a permitir não só a fiscalização como também a avaliação de seus efeitos. merecendo ambas as providências a máxima publicidade. no interior do Estado. 3º) Não teremos sucesso no combate à voracidade fiscal do Estado enquanto não se proceder ao reexame específico da estrutura administrativa dos vários órgãos integrantes da União. Com efeito. Se nos debruçarmos sobre os outros Ministérios. Collor e Itamar). o que não passa de grave equívoco. Tomo um exemplo singelo. o maior desastre representado pela Revolução de 64 consiste justamente em ter-se retirado da cena sem deixar ao país um projeto de desenvolvimento que pudesse ser liderado pela iniciativa privada e merecer o apoio do capital estrangeiro. empenhando-se no sentido de transformá-lo num novo projeto de desenvolvimento. reveste-se da maior relevância o esforço realizado por João Paulo dos Reis Velloso. Nesse esboço estou naturalmente suponho que a liderança empresarial brasileira estaria convencida de que só tem a ganhar se conseguir obstar a atuação do patrimonialismo e lograr que o capitalismo alcance um novo patamar. . Novos objetivos precisariam ser apontados igualmente às Forças Armadas. a fim de evitar a dispersão do passado.

fosse grandemente desfiguradora da representação. Mas aqui comete. com muita freqüência. valor maior . que a afetariam mesmo se se tratasse de algo melhor estruturado. indefinidamente. Os Partidos Liberal e Conservador. O único fato novo digno de assinalar-se consiste na circunstância de que uma parte da classe política tradicional perdeu o medo de denominar-se liberal. Está contida em alguns textos básicos e. De sorte que. Entretanto. Dinâmica diversa somente se inicia em 1926 com a criação do Partido Democrático em São Paulo. o jugo do Estado Patrimonial. com alguns amigos organizei o livro a eles dedicado. Mas os governos militares não permitiram que a experiência tivesse curso. Parece fora de dúvida que tem crescido o número de adeptos das religiões afro-brasileiras e evangélicas. organizada em 1945 com o fim da ditadura de Vargas. para sustentar a candidatura de Armando de Salles Oliveira (1887/1945). Esta teve na pessoa de Silvestre Pinheiro Ferreira um mestre inexcedível. O grande trunfo com que contamos na concepção e organização das instituições do sistema representativo. a sua missão cifra-se em assegurar maiorias sólidas. na verdade. A doutrina liberal vem sendo sedimentada desde Locke e Kant. Com a abertura democrática em 1985. tudo começa de novo. Conforme indicamos. sob o Império. sob a República. consistiu precisamente na qualidade da liderança liberal. entre outras coisas. Nossos políticos liberais deixam-se enredar pelo sofisma de que a eleição se faz para assegurar a representação das minorias quando. Ainda assim. Itatiaia. como indicamos. dissolvida pelo Estado Novo mas que serviu de embrião da União Democrática Nacional (UDN). estudiosos ligados ao grupo liderado por Peter Berger manifestam grande esperança em relação aos últimos agrupamentos. A experiência dos países que conseguiram estabelecê-lo sugere que guarda estreita dependência em relação ao que se convencionou denominar de moral social de tipo consensual. no Império. no que se refere à criação de circunstâncias favoráveis ao capitalismo. essa é uma via de muito longo prazo. ainda que a legislação eleitoral. corresponde a uma presença em nossa história de nação independente. não sabem fixar uma linha diferenciadora. insistindo-se nos mesmos equívocos da década de trinta e do pós-45. Mas foi a partir dessa situação que se formaram os grandes partidos das democracias do Ocidente. Talvez fosse mais factível estimular a tradição liberal que. podendo desde logo dispor dessa conquista notável que foi a sua doutrina da representação. de uma forma ou de outra. Mas esta repousa na pluralidade religiosa. constituída em junho de 1937. que intitulamos de Evolução histórica do liberalismo (Belo Horizonte. segundo entendo. PSD e PTB). Este agrupamento seria o artífice da União Democrática Brasileira. ainda que acabemos. para que todos tivessem presente essa evidência. Tomemos a questão dos partidos políticos. capazes de alcançar a estabilidade política. eram certamente simples blocos parlamentares. um erro craso. O fato repete-se em nossos dias na discussão de um tema básico como o voto distrital.127 Ao enfrentar a questão do patrimonialismo brasileiro cumpre-nos reconhecer francamente que as tradições culturais prevalecentes em nosso país são francamente desfavoráveis ao capitalismo. 1987). O breve interregno democrático entre 1945 e 1964 permitiu que se definissem pelo menos três grandes partidos (UDN. A tradição liberal é débil e descontínua e sofreu tão fortes constrangimentos. os partidos liberais não a levam em conta e poucos dentre os seus líderes dispuseram-se a estudar essas obras. A República extinguiu-os e impôs o sistema do partido único. de todos os modos. por termos de empreendê-la se é que de fato não nos conformamos com o destino de termos que suportar. porque perderam de vista aqueles ensinamentos relativos à natureza da representação. Os liberais republicanos não tiveram competência para derrotar os castilhistas.

tinha em vista não “a mudança de princípios. Não há tradição cultural em abstrato. A experiência de todos os dias demonstra à saciedade que as minorias são hoje muito ruidosas e conseguem. de que é exemplo expressivo a questão ambiental. Em nenhuma parte do mundo tiveram audiência através da representação parlamentar. É preciso ter presente que não pode haver democracia sem partidos políticos. ao afirmá-lo. a partir do qual propõe e concretiza alianças (não desfiguradoras). Estes certamente não resultam de nenhuma “aritmética política” – para usar a expressão cunhada por Pombal –. Contudo. sem dúvida. À primeira vista parece difícil recuperar uma tradição cultural espezinhada e combatida ao longo de todo um século. do qual não pode prescindir. marco inicial proeminente do Welfare. desencarnada. em 1984. que devem consubstanciar-se em algumas siglas. Gary Hart selou sua sorte como postulante à indicação presidencial pelo Partido Democrático. metas. ao proclamar que os democratas deviam voltar as costas ao New Deal. martelar-nos com as suas teses. mas de métodos”. Essa feição é um ranço patrimonialista. as organizações partidárias precisam dispor de um núcleo programático. foi Walter Mondale. do qual a sociedade ocidental acabará por livrar-se quando tiver sedimentado o atual quadro mundial subsequente ao fim do comunismo. alcançam sucesso invejável. nos meios de comunicação. as eleições devem proporcionar o afunilamento dos interesses. que incidiram sobre as próprias Forças Armadas. teriam que buscar identificar-se com a tradição do liberalismo político brasileiro. aspirações ou ideais. que havia sido vicepresidente de Jimmy Carter. reconstituindo os laços que perdemos com os grande centros em que se dá o debate e o amadurecimento das questões emergentes. naquela eleição. Mas são muitos os indícios de que já estivemos mais longe de alcançá-lo. NOTA (1) O oponente de Reagan. sem personagens e histórias. corresponde ao renascimento da liderança política liberal. de nada adiantando esclarecer que. Nesse mister. assim entendido o que resultar do consenso da classe política. corresponde a uma parte integrante do núcleo programático daquele partido. O mais importante. De modo que o processo de sua constituição deve seguir o curso natural. refluindo tais organizações para o mundo (patrimonialista) que lhe é próprio. Nos assuntos específicos de que têm se ocupado. submetido à paralisia institucional por vinte anos). hoje plenamente reconstituída. (1) Precisamente o New Deal. não podem fugir do imperativo de familiarizar-se com a doutrina. Deste modo. Dar-lhe forma e levá-la a empreender um caminho de sucessos – eis desafio a enfrentar no futuro imediato. a julgar pelo teor de suas reformas. certamente temos de que nos orgulhar. No que se refere entretanto aos liberais organizados em partido político.128 na vida democrática. O partido político moderno não é naturalmente nenhuma instância ideológica. equívoco em que incidiu mesmo um homem tão lúcido como o Marechal Castelo Branco e que muito provavelmente tinha clareza quanto aos objetivos de 64. A par disto. . para dificultar novas intervenções (o que parece ter conseguido ainda que talvez com custos excessivos para o país.

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D. 61. 91 CONSTANT. 120. 54. Maurice 105 FAORO. 113 CUNHA. Mal. Augusto 21. 67 COUTINHO. 53. 62 BENDIX. J. 75. 95 LOURENÇO FILHO. 75. 126 BRANCO. 19. Frei 50 CASTILHOS. 104 KNAACK DE SOUZA. 76. Peter 113. 54. 26 DRUCKER. Reinhard 12 BERGER. 127 BUESCU 44. Raimundo 6. 20. 83 MADEIRA. Manoel 82. Euclides da 10. 58. 65. 90 HUNTINGTON.M. 58. 33. 45 CAETANO. 107 COSTA. 26. Edmundo Campos 8 COMTE. D. Peter 111. 77. 60. 114 DURKHEIM. 10.134 ÍNDICE ONOMÁSTICO BARBOSA. 111. 78. 25. 88. 53. M. Visconde de 51. 94. 7. Marcos Almir 28 . 65. 57. 63 CROZIER. 17. Roberto 7. 121. J. 35. 8. 54. 85. Júlio de 71. 73. 66. 45 JOIA. Emile 25 DUVERGER. 122 HERCULANO. 87. 123. Marcelo 20 CAIRU. Italo 7 KEYNES. Rui 37 BARRETTO. Silvestre Pinheiro 52. 55. 36. 74. 84. Edgar 89. 68. Alexandre 18. 70 CAMPOS. Rodrigo de Souza 49. 77 CIDADE. 124 CANECA. Hernani 47 COELHO. Benjamin 57. Castelo 9. 19. 73. 62. 79. 18. 66. 67. Samuel 8. Vicente 7. 73. 20. Milton 94 CAMPOS. 21 FERREIRA.

125 TORRES.135 MEDEIROS. Campos 61. 44 SARAIVA. Gunnar 108 NUNES. 50. 10. Gen. 73. Marquês de 6. 21. José Gonçalves 38. João Camilo de Oliveira 19 TORRES. 104 PENNA. 43. 77. 27 TORRES. 107. 39 MORAES. 106 ROMERO. 21. 87 SARAIVA. Sílvio 26. 61 SANTOS. Paulo 34. Viana 34. 72. Antonio José 41. 46 49. 86 RODRIGUEZ. 24. Rubens Borba de 39 MORAES FILHO. 20. 70. 92 TEMPORAL. Fernando 24 . 110 SIMONSEN. 39 SANTOS. Wanderley Guilherme dos 6. Borges de 23. Alencastro e 106. 61 SILVA. Adam 47 SOUZA. Amaury 124. 26. 69. 106 SÁ. Feliciano Souza 40 PAIM. Murillo 8. 71. Mem de 78 SALES. 107 MOTTA. 73. Gilberto 103. 71. 84. 79. 9. Caio 20. 70 PRADO JR.. 65 MYRDAL. 123 TUBINO. 37. Aarão 68. 51 MOOG. 76. Ricardo Vélez 6. Afonso Arinos 93 MERCADANTE. Simon 6. Miguel 52 REIS. 78. Manoel Gomes 7 URICOCHEA. Meira 24 POMBAL. 70.83. 21 REALE. 109. 17. 108. Pompeu de 91. Alberto 26. Jeovah 63. 86 MELO FRANCO. 75 SALVADOR. Ricardo Lobo 7. 17. 63. Mário Henrique 104 SMITH. José Hermano 45 SCHWARTZMAN. Evaristo 81.

136 URUGUAI. 7. 35. 21. 82. 30. 32. 61. Ralf 7 . 76.S. 110 WEBER. 34. 7. João Paulo dos Reis 125 VIANA. 17. 29. Visconde de 52. 71. 27. 114 WITTFOGEL. 84 VELLOSO. 25. 10. 36. 14. 32. 112. 16. 26. 76. 11. 15. 111. 37. 31. 12. Oliveira 7. 25. 17 ZAMBROTI. 8. Max 6. 14. 107. 35. 13. 33. Getúlio 34. 7 ZERKOWSKI. 15. 28. Renato C. 26. 79. 58 VARGAS. F. Karl A.