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A Realização Do Objeto Direto Anafórico Por Clíticos E
Pronomes Lexicais: Um Caso De Variação
THE REALIZATION OF ANAPHORIC DIRECT OBJECTS THROUGH CLITICS AND LEXICAL
PRONOUNS: A VARIATION CASE

Flávio Brandão SILVA1
Resumo: Neste trabalho, realizamos estudo acerca da realização do objeto direto anafórico por
meio de clíticos e pronome lexical. O corpus desta pesquisa constitui-se de narrativas orais e
escritas produzidas por alunos do Ensino Fundamental, Médio e Superior. A definição das
variantes tomou como base o trabalho de Duarte (1989). Por meio dos dados analisados,
constatou-se que a escolaridade foi um fator determinante na realização do objeto direto
anafórico. Também foi possível verificar que a forma não prescrita pelas Gramáticas
Tradicionais, no caso, a variante pronome lexical teve maior ocorrência entre as narrativas orais,
sinalizando uma tendência de se considerar, estigmatizadamente, a língua falada menos formal do
que a escrita, quando, na realidade, oralidade e escrita são duas modalidades da língua igualmente
importantes e sujeitas à variação.
Palavras-chave: oralidade e escrita; variação linguística; escolarização.
Abstract: In this paper we study the realization of anaphoric direct objects through clitics and
lexical pronouns. The corpus of this research comprises oral and written narratives produced by
elementary, high school and college students. The definition of the variants was based on the
research carried out by Duarte (1989). The analysis revealed that schooling is decisive in the
realization of anaphoric direct objects. It also demonstrated that lexical pronouns, which are
considered incorrect by prescriptive grammarians, were more frequently used in the oral
narratives, indicating a tendency to stigmatize the spoken language as less formal than the written
language, which, in fact, is a misconception because both language modes are equally important
and subject to variation.
Keywords: spoken and written language; linguistic variation; schooling
Introdução
Durante muito tempo, a escrita ocupou a primazia nos estudos linguísticos. A partir de
pesquisas realizadas na área dos estudos da linguagem, sobretudo a linguística saussureana, houve
a distinção formal entre a fala e a escrita como duas modalidades da língua. Ressalta-se, dessa
1

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Londrina
(UEL). Professor da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí (FAFIPA), Paranavaí, PR.
Endereço eletrônico: brandao77@uol.com.br.

CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP, Jacarezinho–PR, n. 1/2, p. 57-74, jun./dez. 2014.
ISSN: 2357-9234

desde o seu nascimento. tudo o que o homem faz. procurando observar possíveis semelhanças ou diferenças quanto ao uso das variantes nessas modalidades textuais. Dessa forma. Ao pensar na linguagem humana. se dá por meio de um tipo qualquer de linguagem. a modalidade da língua e o nível de escolaridade. pode escolher esta ou aquela modalidade para se comunicar. a partir de narrativas orais e escritas produzidas por alunos de diferentes níveis de escolaridade. entre paulistanos. Jacarezinho–PR. Também é via linguagem que o homem transmite a outras pessoas esses conteúdos. comunicativa e interacional. nos diferentes níveis de escolaridade. Esperamos. é impossível pensar a vida humana sem o uso da linguagem. pode ocorrer o uso de formas padrão e não padrão.58 forma. enquanto a fala acaba sendo associada a uma situação de uso de formas não padrão. bem como sobre os fatores que determinam tal variação. os sentimentos e as experiências vividas. Alguns estudiosos da linguagem já desenvolveram trabalhos com essa temática. aliás. neste caso. ISSN: 2357-9234 . um estudo relacionado à realização do objeto direto anafórico por meio de clíticos e pronome lexical. tendo em vista sua natureza simbólica. a partir de falas espontâneas e de textos orais veiculados na mídia (televisão). o que se tem observado empiricamente é que. n./dez. 1/2. Fundamentos teóricos A variação linguística A linguagem sempre acompanhou o homem durante o seu processo de evolução. há uma tendência em considerar a escrita como um modelo de utilização da norma padrão. dos quais destacamos Duarte (1989). uma vez que ela está diretamente relacionada a todos os momentos da sua vida. com este trabalho. refletir sobre o processo da variação linguística. o fato de que o indivíduo. 57-74. uma vez que é por meio da linguagem que o homem transforma em elemento material conteúdos abstratos. Mesmo se sabendo que a fala e a escrita não são modalidades que se opõem rigidamente. Procuramos desenvolver. como o conhecimento. p. de acordo com suas intenções. neste trabalho. tendo um papel essencial nesse processo. No entanto. ou seja. jun. tanto na fala como na escrita. devemos nortear nossa reflexão a partir de dois aspectos bastante relevantes: o CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. Por intermédio da linguagem o homem também interage com o grupo social no qual está inserido. 2014. que investigou a realização do objeto direto anafórico.

conforme preconizava o estruturalismo. os efeitos da sociedade no sistema linguístico e na maneira pela qual o mundo exterior pode ser visualizado nesse sistema. muitos estudiosos da relação entre língua e sociedade. p. que procura descrever as línguas. surge a Sociolinguística. pois. Jacarezinho–PR. constituem um rico objeto de investigação para a Sociolinguística. comprovaram. 2000. Mollica (2003) afirma que: CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. p. Já as variáveis são os fatores que determinam a variação. nos dizeres de Meillet: “por ser a língua um fato social resulta que a linguística é uma ciência social. a evolução e o desaparecimento de uma língua. Mas se a língua deveria ser entendida como uma ocorrência social. conforme suas intenções discursivas. 57-74. era. tendo em vista o seu dinamismo inerente. foi um grande avanço para os estudos da linguagem. Além de ocupar-se com o fenômeno da variação. Nesse sentido. ISSN: 2357-9234 . 1/2. também. A partir dessa perspectiva. sem dúvida. jun. o que. em sentido lato. iniciada por Saussure traz como objetivo principal descrever a estrutura do sistema linguístico. que nos leva a observar a diversidade étnica e cultural de uma comunidade. No que se refere ao estudo da variação. universal e científico. n./dez. de acordo com Monteiro (2000): “Cada língua existe.59 primeiro é que os fatos linguísticos são de caráter social e o segundo é que esses fatos linguísticos devem ser observados a partir da percepção da variabilidade a que estão submetidos. direcionando a sua investigação de forma a evidenciar a estreita relação entre língua e sociedade. observando sua diversidade. As línguas naturais. 19). sobretudo Labov (1972). de suma importância. 2014. 16). materializados nas estruturas linguísticas heterogêneas. em função das necessidades sociais de designar ou nomear a realidade” (MONTEIRO. que. a Sociolinguística também estuda o contato entre as línguas. 2002. revelando os seus valores e o seu modo de pensar. por meio de suas pesquisas. pois. pois. p. procura analisar o fenômeno da variação sob um prisma geral. Nesse sentido. levar em consideração os fatores sociais no processo de descrição das línguas. a diversidade linguística e a origem. e o único elemento variável ao qual se pode recorrer para dar conta da variação linguística é a mudança social” (MEILLET apud CALVET. As variantes podem ser concebidas. A linguística moderna. como as possibilidades de variação que o sistema linguístico pode sofrer. efetivamente realizadas pela comunidade dos falantes de uma língua qualquer. os conceitos de variantes e variáveis são de grande importância.

c) variação estilística. a variação linguística é compreendida como a variação da língua que ocorre em determinados grupos. Com efeito. centradas no falante e nas condições de produção discursiva. gênero. Os internos abrangem fonética. podemos citar os fatores relacionados à estrutura do sistema. ISSN: 2357-9234 . a idade. muitas vezes entremostrando suas identidades sociais. Nesse sentido. A partir dos fatores responsáveis pela variação. como o grau de formalidade e de tensão discursiva. as variedades que são usadas para cada situação. como origem geográfica e social.60 Entendemos então por variantes as diversas formas alternativas que configuram um fenômeno variável. mas de forma indireta. como já mencionada. sendo reconhecida pelo grupo.29-30). a sintaxe e a semântica. sintaxe e semântica. geograficamente falando. não e provável que um indivíduo iletrado se expresse de modo idêntico a outro nível cultural mediano ou altamente cultivado (CAMACHO. 57-74. a morfologia. Camacho (1988) apresenta quatro tipos de variação linguística: a) variação histórica. está condicionada a diferentes fatores. A variação linguística. diante da falta de reconhecimento das variantes linguísticas. n. p. centradas na língua. tecnicamente chamado de variável dependente. pois estão relacionados às situações que envolvem o falante durante o evento de fala. jun. 2014. A concordância entre o verbo e o sujeito. o nível de renda e o nível de escolaridade. Jacarezinho–PR. espaços e regiões. duas alternativas possíveis e semanticamente equivalentes. 1/2./dez. pois se realiza através de duas variantes. como a fonética e a fonologia. 1988. temos as variáveis internas ao sistema linguístico. e as variáveis externas a esse sistema. podemos dizer que tal dependência está centrada no fato de que a ocorrência das variantes é determinada por fatores diversos. relacionamos os fatores que se referem ao indivíduo diretamente como o sexo ou o gênero. status socioeconômico. por exemplo. p. Nos dizeres de Camacho (2008). fonologia. b) variação geográfica (diatópica). 35). Assim. p. e de circunstâncias de comunicação” (CAMACHO. 11) Com referência à dependência das variáveis linguísticas. é uma variável linguística. (MOLLICA. p. “A variação é o reflexo de diferenças sociais. há outros que também fazem referência ao indivíduo. Como variáveis externas. mercado de trabalho e redes sociais que produzem entre si. a raça. como muito bem definiu Mollica (2003). Como variáveis internas. que podem ser desvalorizadas pela sociedade. Os fatores de diversidade linguística não ficam assim limitados aos aspectos temporal e espacial. 2003. interna ou externa à língua. tempos. 2008. os fatores externos compreendem: faixa etária. Podem-se identificar e distinguir dois falantes de uma mesma comunidade linguística. Além dos fatores acima. por suas características decorrentes de diferente nível cultural. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. a profissão.

A variação geográfica abrange a diversidade linguística observada nas diferentes regiões. consequentemente. A variação estilística consiste na maneira como o falante faz uso da língua nas diferentes situações comunicativas. do grupo social. que é um dos fatores presentes na variação social. apesar de reconhecidamente legítimas. exclusivamente. 1/2. para a variação social. 2014. Jacarezinho–PR.61 d) variação social (diastrática). ISSN: 2357-9234 . n. conforme as práticas linguísticas realizadas em suas comunidades. A variação social diz respeito aos estratos sociais a que as pessoas pertencem. jun. p. Essa variação também adentra todos os níveis linguísticos que vão do fonético. morfológico. Os fatores sociais que mais interferem na ocorrência da variação linguística. 1988. imprensa etc. 2003. Outros fatores sociais que se têm revelado importantes em fenômenos variáveis são a posição do falante no mercado de trabalho e sua interação com a mídia (televisão. como veremos adiante. que exigem a adequação verbal condizente ao contexto. Dessa forma. fonológico. lexical e discursivo. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. (NARO. Neste trabalho. associado aos fatores intralinguísticos. “O comportamento normal do falante é variar a sua fala de acordo com a prática em que ele (a) se encontra” (FARACO. Paralelamente a essa discussão a respeito dos fatores que motivam as variações de uma língua./dez. p. nossa atenção se volta. poderá influenciar a atividade verbal do falante e as formas por ele preferidas.” (CAMACHO. nível socioeconômico e formação escolar. surgem os níveis formal e informal. “A variação social é o resultado da tendência para maior semelhança entre os atos verbais dos membros de um mesmo setor sociocultural da comunidade. é necessário considerar que essas variações. 31-32). A variação histórica consiste nas mudanças sofridas pela língua ao longo dos tempos.).16). As variáveis apontadas por Naro (2003) devem ser analisadas levando-se em consideração o contexto em que o fenômeno da variação ocorre. pois observaremos a interferência do nível de escolarização. p.40). Embora esteja o fator regional seja determinante para a variação geográfica. sexo. 57-74. por exemplo. p. na realização do objeto direto anafórico por meio de clíticos e pronome lexical. como. além do fato de que algumas podem ser substituídas por outras. estão sujeitas à aceitação e à avaliação da comunidade linguística e. 2008. que são articuladas pelo falante. a sua organização sociocultural. pois ele. quando caem em desuso. a ortografia das palavras. Parecem ser idade. segundo Naro (2003). tal variação não se limita aos limites políticos de um determinado território.

2002. pois apresentam um maior nível de monitoramento e planejamento no discurso. conforme Chafe (1994). são os vários modos de comunicação entre os falantes. Jacarezinho–PR. ou seja. A expressão estruturas de maior valor de mercado refere-se às estruturas que mais se aproximam da forma de prestígio. o fenômeno linguístico variável se insere em uma estrutura em que interage e se articula com outros elementos. jun. O estudo da variação deve. que vão de uma conversa informal na família a uma entrevista de emprego. “A variação linguística é consequência da propriedade da linguagem de nunca ser idêntica em suas formas através da multiplicidade de discurso” (MONTEIRO./dez. Todas as comunidades usam diferentes modos de se expressar. ISSN: 2357-9234 . (MOLLICA. Maior sensibilidade. 57-74. Mollica (2003) afirma que: Em princípio. seja tratada de forma a não reforçar o preconceito linguístico estabelecido no grupo social. 2014.62 Assim. percepção e planejamento linguístico são. que se expressam conforme o grau de letramento que possuem e os diferentes momentos de interação verbal nas relações sociais. Os níveis de formalidade e informalidade nas modalidades oral e escrita É possível depreender três momentos diferentes a respeito da discussão sobre a relação entre língua falada e língua escrita. Na tradição gramatical. compondo um sistema. n. p. a fala passou a ter a prioridade sobre a escrita. contribuir para que a diversidade linguística. ainda. p. no plano linguístico. a ocorrência das variantes linguísticas pode ser avaliada positiva ou negativamente e. 2000. Mais tarde. a escrita tinha a primazia sobre a fala nos estudos linguísticos. portanto. 13). caracterizando-se a língua como inseparável da variação. 1/2. estruturas de maior valor de mercado de que recebem avaliação positiva parametrizam-se com grau de alto monitoramento e de letramento. via de regra. p. pode determinar a posição que o falante vai ocupar no grupo social. A ideia do continuum social está associada à ideia de estrutura. 63). A variação linguística vai além dos espaços temporais e sociais. sendo esta entendida CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. iniciada pelos gregos e romanos. Mas isso só será possível quando as diversidades da língua forem compreendidas a partir de um continuum e não como ocorrências isoladas e opostas. précondição à produção de formas de prestígio e disposição adequada para eliminarem-se estigmas sociolinguísticos na fala ou na escrita. com o surgimento da Linguística. presente em qualquer língua.

Marcuschi (2003) afirma que: 2O termo continuum é muito frequente na literatura linguística no que se refere aos estudos sobre a língua falada e a língua escrita. por evoluir. a pausa. 2014. Utilizam. Essas modalidades compartilham semelhanças e diferenças que ficarão evidenciadas de acordo com o tipo de texto em que as mesmas são empregadas e as diferentes circunstâncias de produção do discurso. em parte. como a entonação. dos quais o falante dispõe para elaborar e transmitir sua mensagem. não podemos estabelecer entre essas duas modalidades uma relação dicotômica. o ritmo. por meio das quais o discurso pode ser expresso: a fala e a escrita. normalmente. pois. como a expressão facial. p. o indivíduo pode utilizar-se de duas modalidades da língua. ambas fazem parte de um continuum2. n. na realidade. tendo em vista o nível de formalidade da situação discursiva. 57-74. Mesmo havendo a possibilidade de transmitirem o mesmo conteúdo significativo. Para atender às suas intenções enunciativas. a intensidade.63 somente como uma representação da fala. jun. outros recursos. Com os avanços dos estudos linguísticos a língua falada e a língua escrita passaram a ter valores equivalentes. que se organizam em sequências de palavras separadas por espaços em branco que. assim como a língua falada. a língua falada. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. Nesse sentido. A língua falada pode ser caracterizada por ser uma realização momentânea. ISSN: 2357-9234 . 1/2. também. sobretudo no que se refere à sua estrutura e organização. que são considerados meios auxiliares. Quando o interlocutor tem a intenção de mostrar algum elemento característico da fala no discurso escrito. essas modalidades apresentam características diferentes. Jacarezinho–PR. de um discurso face a face./dez. oral e auditiva. nos primeiros tempos do estruturalismo. essas regras podem ser diferentes. por serem consideradas duas modalidades de uso da língua. o que se justifica pelo fato de que. Além disso. tendo em vista que essas duas modalidades não podem ser consideradas a partir de um ponto de vista dicotômico. ele o faz utilizando sinais de pontuação ou por expressões linguísticas específicas. diferentes. O falante faz uso de certos recursos prosódicos. muitas línguas foram descritas tendo como base apenas a fala. o que acaba afetando as duas modalidades. estão subordinadas às regras da língua. Embora a língua falada e a língua escrita estejam subordinadas às regas estruturais da língua. dispõe de alguns recursos (não linguísticos) de que a língua escrita não dispõe. igualmente importantes. Já a língua escrita é constituída por elementos gráficos. os gestos e a postura. Apesar da fala e da escrita apresentarem características lexicais e gramaticais.

se assemelhem. 57-74. como exemplo. que. levando-se em consideração aspectos lexicais e gramaticais. como uma modalidade de menor prestígio linguístico ou cultural. hesitações. Tomemos. o que lhe acaba impondo uma avaliação negativa em relação à escrita. tendo em vista o seu caráter espontâneo e momentâneo. estruturação. Apesar dos grandes avanços das pesquisas linguísticas no que se refere à língua falada e à língua escrita. 1/2. principalmente por parte dos educadores. E. p. dado o fato de que o interlocutor dispõe de um tempo maior para organizar as informações.. o discurso empregado pelo falante apresentará marcas de planejamento prévio. 42) Estando inseridas num continuum. (RISSO. a língua falada. a crítica frequentemente feita à L. como se o padrão escrito determinasse algum tipo de exclusividade no uso da língua. ela se desvia do que se chama norma padrão. surgindo daí semelhanças e diferenças ao longo de contínuos sobrepostos. Jacarezinho–PR. p. pela incidência de frases incompletas e interrompidas.64 O contínuo dos gêneros textuais distingue e correlaciona os textos de cada modalidade (fala e escrita) quanto às estratégias de formulação que determinam o contínuo das características que produzem as variações das estruturas textuais-discursivas. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. Por se tratar de uma situação formal. o que permite. E. essas modalidades da língua são utilizadas em diferentes situações de realização discursiva. A língua falada é considerada informal. Ocorre que. não se discute.. hesitações. ser examinada pelo viés da L. negativamente. Tendo em vista essa postura. entre outros “defeitos”. F. Risso (1994) afirma que: Em decorrência de a L. jun. Além do que acaba interferindo. ISSN: 2357-9234 . pois muitos acreditam que. Nesse sentido. é a de que ela conturba o sistema morfossintático manifesto na L. cacoetes verbais. muitas vezes. Que a fala e a escrita possuem diferenças e que uma a fala tende a apresentar situações de uso menos formais que a escrita. uma vez que. Já a língua escrita é considerada formal. grau de formalidade etc. concebidas como duas modalidades da língua. estilo. Entretanto. não é coerente tratar como defeitos alguns mecanismos utilizados no processamento do texto falado. falsos começos. p. tendo em vista a avaliação acima. dentro de uma língua. repetições. por ser “informal”. a fala apresenta. 2014. seleções lexicais. 56-57). F. (MARCUSCHI 2003. é tratada. que se dão num contínuo de variações. em alguns momentos. aliás. a língua falada é tratada de forma negativa. 1994./dez. no processo de produção do texto escrito. organização e complexidade semelhantes à escrita. n. disseminando-se às vezes a ideia de que se fala errado e se escreve certo. a apresentação oral de um trabalho acadêmico. como repetições. é impossíveis negar que ainda há certo “preconceito” em relação à língua falada. em determinadas situações. como maior cuidado com a seleção dos vocábulos e maior rigor na sintaxe do texto.

essa relação é vista por um viés tradicional.. jun.. sem a presença de uma preposição obrigatória (ex. n. 2001. Almeida. é importante relativizar a noção de formalidade e informalidade no que se refere à língua falada e à língua escrita. Esse complemento é chamado direto porque se liga diretamente ao verbo. a interação entre o falante e seu interlocutor. 62) A relação estabelecida de que o discurso oral é de natureza informal. contudo. em que o objeto direto é preposicionado por tratar-se do pronome relativo quem. Na realidade. essas marcas revelam a natureza dialógica da língua falada.) 3. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. sempre a partir de especificidades de processamento.: “O hábito não faz o monge”. ou seja. o objeto direto pode apresentar-se regido de preposição. Bechara (2003). Além da interação. em algumas situações. em que a oralidade e a escrita são tratadas como ocorrências absolutamente opostas. conforme se verifica no exemplo: Conheci pessoas a quem admiras. [é] representado por um signo léxico de natureza substantiva (substantivo ou pronome) não 3 Cf. por motivos de ordem sintática ou semântica. 419). enquanto o discurso escrito é de natureza formal. p. 57-74. O objeto direto na tradição gramatical Segundo a gramática tradicional. transmissão e recepção ajustadas a diferentes situações comunicativas e a diferentes condições de produção. está vinculada ao fato de que. p.. 14). ISSN: 2357-9234 . Entretanto. 2014. p. o nível de informalidade da língua falada ou o nível de formalidade da língua escrita estão sujeitos às diferentes situações de utilização dessas duas modalidades. 425.65 frases não concluídas. 1999. (RISSO. sem. Conforme Risso (1994): Organizam de forma diferente os seus padrões de construção. 1/2. muitas vezes. Cunha (2001) afirma que: O objeto direto é o complemento de um verbo transitivo direto. (BECHARA. p. p. entende-se por objeto direto o termo que serve de complemento para um verbo transitivo direto ou bitransitivo. levar em consideração que essas modalidades. Nesse sentido.] o complemento direto. etc. ao definir o objeto direto afirma que: [. o complemento que normalmente vem ligado ao verbo sem preposição e indica o ser para qual se dirige a ação verbal (CUNHA. 1994. Jacarezinho–PR. portanto. Levando-se em consideração as condições de realização dos discursos oral e escrito. também chamado objeto direto. evidenciando../dez. 2003.

o objeto direto é sempre um substantivo ou palavra equivalente. o autor comparou o comportamento sintático das palavras que figuram como objeto direto. além do substantivo propriamente dito. sem que isso altere sua função sintática. podem colocar-se antepostas ao verbo.. podem funcionar como objeto direto. 2003. por isso. o verbo e o sujeito. 57-74. para Perini (2000). por exemplo. aquelas com as quais o verbo não precisa. Outras questões também devem ser levadas em consideração para definir o objeto direto na oração. anteposição (Ant). entre elas. necessariamente. uma vez que é estabelecida a partir de relações de combinação entre o objeto direto e outros termos da oração. Jacarezinho–PR. dependendo do contexto. p. a seguir.. nas interrogações. conservado em português. Tais pronomes opõem-se aos pronomes pessoais do caso reto. como. b) palavras ou expressões que apresentam o traço (+Ant). quais as classes que podem exercer a função de objeto direto.66 introduzido por preposição necessária: (. e. que podem ser retomadas pelos pronomes (o) que/quem. vejamos. 2014. portanto. Essa oposição entre pronome complemento e pronome sujeito consiste num resquício do sistema casual latino. como o sujeito. ditos substantivos (os indefinidos e os pessoais oblíquos). c) palavras ou expressões que apresentam o traço (+Q). uma vez que estes têm o mesmo valor do nominativo e. na estrutura oracional. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. ainda. (BECHARA. uma vez que./dez. estas. os pronomes. ou seja. estão às questões de natureza morfológica. sujeito e adjunto adverbial em orações de período simples. Segundo a gramática tradicional. p. assumem a função de sujeito. basicamente. neste caso). n. define o objeto direto a partir de suas propriedades sintáticas (traços). possibilidade de ser retomável através de (o) que/quem (Q). se fundamentam exclusivamente em critérios de base morfossintática. Os pronomes oblíquos átonos desempenham a função de acusativo-dativo e. ou seja. Embora as estratégias acima sejam bastante úteis para determinar o objeto direto. Nesse sentido. o complemento direto se distingue do sujeito por vir à direita do verbo (o sujeito vem normalmente à esquerda) e não influir na flexão deste. Perini (2000).). na oração. 416) A definição de Bechara fundamenta-se. Assim. podem ser objeto direto: a) palavras ou expressões que apresentam o traço (-CV). jun. Assim sendo. quais sejam: concordância verbal (CV). concordar em número e pessoa. por expressão substantiva não marcada por um índice funcional (a preposição. Constituído. 1/2. em critérios sintáticos. Para chegar a esses traços. com base no estudo da hierarquia dos constituintes da oração. podem funcionar como pronomes complementos. ISSN: 2357-9234 .

CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. no caso da 1ª pessoa. de objeto direto. 1/2.) A inovação brasileira. 1972. morfologicamente. para a 2ª pessoa. em última análise. Esse pronome. (CÂMARA JR. Os pronomes de terceira pessoa aproximam-se. estabelecer que não se trata do emprego do caso-sujeito como um acusativo. já temos as formas você/vocês. acabam assumindo o valor de um substantivo. mais dos demonstrativos. podem exercer a função de objeto direto. trata-se de uma forma sintaticamente invariável que se aproxima dos nomes e dos demonstrativos. em construções do português do Brasil. é. A gramática normativa somente admite a utilização do pronome ele como acusativo nos casos de objeto direto preposicionado. exerce a função de sujeito. As afirmações de Câmara Jr. n.. (. Segundo o autor. jun. os advérbios sim e não. primeiro.49). ISSN: 2357-9234 ./dez. que não admitem a flexão de gênero e em que o número é marcado por um processo de heteronímia. Igualmente as orações subordinadas substantivas. p. verificadas no português arcaico. gramatical e semanticamente. por meio da derivação imprópria tornam-se substantivos.. simplesmente. se usar o pronome-sujeito ele na posição de acusativo. p. essas orações são chamadas de orações subordinadas substantivas objetivas diretas. Apesar de não ser uma ocorrência prevista e permitida pela gramática normativa.67 Além dos substantivos e dos pronomes. A forma êle no português do Brasil dêles se aproximou. ou seja. Nesse sentido afirma que: Deve-se. Nesse caso. no português do Brasil é muito frequente a utilização do pronome lexical ele e suas formas variantes no feminino (ela) e no plural (eles). tradicionalmente.. tanto na forma desenvolvida. acidentalmente. mas de uma forma invariável do ponto de vista sintático. uma vez que. separando-se do sistema dos pronomes pessoais. diferentemente dos pronomes de primeira e segunda pessoa. uma inovação de estrutura. como na forma reduzida. dissociando o pronome da terceira pessoa do sistema casual dos pronomes pessoais. essa ocorrência não consiste em. 57-74. 5 Mattoso Câmara Jr. pois admitem o acréscimo das desinências de gênero e número. exatamente como os nomes e os demonstrativos. os numerais e as expressões substantivadas4 também podem funcionar como complemento de verbos transitivos diretos ou de verbos bitransitivos. p. tanto em textos orais como em textos escritos.5 (1972) defende a premissa de que a utilização do pronome ele na posição de acusativo pode ser considerada um resquício de algumas ocorrências esporádicas dessa natureza. onde há uma flexão casual. CUNHA 2001. (Cf. na posição de acusativo. foi um dos primeiros linguistas brasileiros a observar a utilização do pronome lexical ele na posição de acusativo. Câmara Jr. 2014. Jacarezinho–PR. baseiam-se no fato de que a forma ele comporta-se. pois equivale ao nominativo. Um exemplo dessa ocorrência são os advérbios: Esperava um sime recebeu um não. 104). de forma diferente dos demais pronomes pessoais. Nesse exemplo. 4 Palavras ou expressões substantivadas são aquelas que pertencem a outras classes de palavras e que.

1990. mas um indicativo da existência de uma das muitas variantes possíveis de serem identificadas na língua... aqui. p. João estava andando pela cidade para conhecê-la. 2014. . nós. O objeto direto anafórico Além de sua função primeira que é a de completar um verbo transitivo. pode atuar como um mecanismo de coesão. utilizada como objeto direto no português moderno. . tu. ela... Além disso. inclusive no acusativo. o que permite que o pronome ele possa ter um comportamento sintático diferente daquele prescrito pela gramática normativa. portanto. seja um resquício de ocorrências esporádicas do português arcaico. 57-74. duas possibilidades de realização do objeto direto anafórico no português do Brasil. sendo possível. encontramos em português.para conhecer o novo::. ao lado de eu. em português. contrariamente ao sistema do latim clássico. desprovido.mas não encontrou sua amada.visitante da cidade. Conforme afirma Tarallo (1990): Assim. ISSN: 2357-9234 . em todos os casos. morfológica e semanticamente.e ele ficou procurando ela por todos os lugares. entretanto. também oriundas do demonstrativo ille./dez..68 A aproximação da forma ele com os nomes e demonstrativos possibilita a essa forma ser utilizada. eles. p. (EF – oral) 2) pronome lexical. elas.. por meio de: 1) Clítico acusativo: (01). comportar-se como complemento de verbos transitivos diretos. destacamos. 138) As considerações acima nos mostram que a forma pronominal ele comporta-se. n. .. 1/2. (EF – oral) CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. recuperando algum termo ou alguma ideia já apresentada no texto. jun. de sua função dêitica. vós. as formas ele. Jacarezinho–PR. (02) . o objeto direto também pode funcionar como elemento anafórico. não concordamos com as considerações de Câmara Jr de que a forma pronominal ele.. todos ficaram olhando. (TARALLO. Seguindo as definições de Duarte (1989). Vale lembrar que os pronomes de 3ª pessoa são derivados de pronomes demonstrativos latinos. de maneira diferenciada das demais formas do sistema pronominal da língua portuguesa. isto é.

doravante objeto direto nulo. foi coletada em 1996. com o auxílio de alunos do primeiro ano do curso de Letras (período noturno). 1998). investigou a realização do objeto direto anafórico no português do Brasil. Após a análise das ocorrências. Assim sendo. a modalidade textual (oral ou escrita) e o nível de escolaridade. por alunos do Ensino Fundamental. relativa ao ensino superior. Ao efetuarmos o levantamento do corpus. em narrativas orais e escritas. ISSN: 2357-9234 . que correspondem a 32% das ocorrências de objeto direto anafórico e 88 de pronome lexical. pertencente à região metropolitana de Maringá. a partir de gravações da linguagem da mídia (televisão). As narrativas orais foram transcritas alfabeticamente. em uma escola estadual do município de Sarandi. dos quais. 3) por meio de sintagmas nominais. 11-12) com algumas adaptações. 2) por meio de pronome lexical. Essas narrativas foram produzidas por três grupos de dez informantes cada. sendo 30 orais e 30 escritas. Jacarezinho–PR. 137 são de pronome clítico acusativo. analisamos as ocorrências do objeto direto anafórico por meio de: 1) clítico acusativo e 2) pronome lexical. 2014. foram reproduzidas exatamente como foram entregues pelos informantes. Paraná. Duarte (1989). da Universidade Estadual de Londrina. Os informantes eram dez alunos da 5a série do Ensino Fundamental e dez informantes da 1a série do Ensino Médio. Ensino Superior. condicionada pelas variáveis extralinguísticas: nível de escolaridade e faixa etária. para pesquisa de Mestrado (ANTONIO. e. pertencentes a diferentes níveis de ensino. verificamos o total de 225 ocorrências do objeto direto anafórico. tanto em narrativas orais. p. 4) por meio de categoria vazia. jun. que corresponde a 20. Paraná. Paraná. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. 1/2. por sua vez. a saber. Ensino Médio e Ensino Fundamental.69 Análise dos dados do corpus O corpus da pesquisa é constituído por 60 narrativas. n. A primeira parte do corpus./dez.5%. 57-74. como em narrativas escritas. a partir de amostras de fala natural colhidas por meio de entrevistas. das cidades de Londrina e Sarandi. será importante. Seguindo as definições de Duarte (1989). seguindo-se um padrão baseado nas normas do projeto NURC (PRETI 1993. As demais narrativas foram coletadas em 2001. para a nossa análise. As narrativas escritas. a autora acima constatou quatro tipos de realização variável do objeto direto anafórico no português do Brasil: 1) por meio de clítico acusativo. sem qualquer correção. produzidas em língua portuguesa. do Ensino Médio e do Ensino Superior.

2003. 2014. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. A utilização de clíticos na posição de objeto direto anafórico é mais frequente no Ensino Superior.3% e. lo. diretamente. Na tabela 1. No Ensino Fundamental.4% 25% 12. laelos). Esse contraste se deve à influência da escola. a. ISSN: 2357-9234 . uma vez que os textos que o integram são narrativas de uma história que não incluem o falante. na escolha e utilização das formas linguísticas pelo indivíduo. temos o cômputo dos dados. p. uma vez que as narrativas do corpus foram produzidas por alunos do Ensino Fundamental.1%. considerando-se a modalidade textual (oral) e o nível de escolaridade. entretanto. p. Inicialmente. foram 7. levamos em consideração apenas a modalidade textual (oral ou escrita) e a variável nível de escolaridade. relativos às ocorrências de pronome clítico acusativo e pronome lexical. que apresenta a norma padrão como a forma socialmente aceita. assim como as demais variantes identificadas no corpus.4% das ocorrências. no Ensino Superior. 56). 57-74. Se compararmos as ocorrências do Ensino Fundamental com as do Ensino Médio. teremos uma diferença de 2. pois. Jacarezinho–PR.5% Todos os casos desse tipo de pronome observados no corpus correspondem à 3ª pessoa (o.3% 32./dez.8%.70 Variável nível de escolaridade e modalidade textual Em nossa análise. n.9%. jun. se comparadas às ocorrências verificadas no Ensino Fundamental e Médio.4% 7. os. Médio e Superior. No Ensino Médio. 32. continua a desempenhar um papel crítico na configuração geral do domínio da língua padrão pelos informantes” (VOTRE. 1/2.1% Pronome lexical 36. temos uma diferença de 24. O levantamento apresentado na tabela mostra que a utilização de clíticos como objeto direto cresce de acordo com o nível de escolaridade. trabalhamos com os dados tendo como foco de nossa observação a modalidade oral e o nível de escolaridade. Vejamos: Tabela 1 – Narrativas orais: Variante Ensino Ensino Médio Ensino Superior Fundamental Pronome clítico 4. conforme Votre (2003): “o nível de escolaridade. Isso mostra que a escolarização interfere. Comparando-se as ocorrências do Ensino Médio com as do Ensino Superior. verificamos apenas 4.

é cada vez mais frequente o uso do pronome lexical como objeto direto. uma alternância das formas masculino e feminino.71 Outra variante identificada foi o pronome lexical como objeto direto anafórico. Se o uso de clíticos é crescente em relação ao nível de escolaridade. 2003. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. 1/2. os dados obtidos nas narrativas escritas. ocorrem. singular e plural. uma diferença de 23. também. 2014. (VOTRE. padrões estéticos e morais em face da conformidade de dizer e de escrever”. apenas.1%.8% 18. 51). pronomes de 3ª pessoa. jun. temos 36. a escola incute gostos. ISSN: 2357-9234 . apenas se alternando o gênero e o número. Embora não seja admitido na norma padrão. agora. Esses dados confirmam a ideia anteriormente lançada de que o nível de escolaridade interfere.8% 9. são 5. p. cresce. O maior índice de utilização do pronome lexical como objeto está no Ensino Fundamental. no Ensino Médio 18. o uso de clíticos como objeto direto. n. da mesma forma que acontece nas narrativas orais.3% 32. contra apenas 12. Há. de um “veículo de familiarização com a literatura nacional. Por se tratar.1% 2. na seleção e na utilização das formas linguísticas. que corresponde à educação básica. conforme segue: Tabela 2 – Narrativas escritas Variante Ensino Ensino Médio Ensino Superior Fundamental Pronome Clítico 5. o aluno ainda não tem um domínio amplo da norma culta. no Ensino Superior. não há variação quanto à utilização do pronome. No Ensino Fundamental. principalmente em textos orais. Em todos os casos. p. normas.5% no Ensino Superior. todos os pronomes utilizados como clíticos acusativo correspondem à 3ª pessoa.8% das ocorrências.1% Pronome lexical 14. Nesse nível de ensino. Vejamos. conforme aumenta o nível de escolaridade./dez.3% Também na escrita.4% das ocorrências. da mesma forma que acontece com os clíticos. No corpus em análise. 32. 57-74. conforme aumenta o grau de instrução. No Ensino Fundamental. diminui o número de ocorrências de objeto direto representado por pronome lexical. segundo Votre (2003). ou seja.9%. a utilização de pronomes lexicais na função de objeto direto anafórico apresenta-se de forma decrescente. Jacarezinho–PR. diretamente. somente. No que se refere ao nível de escolaridade.3% e.

apenas. 9. que. os quais também correspondem à 3ª pessoa. porque. há uma tendência de se utilizar formas linguísticas não prestigiadas. conforme aumenta o nível de escolaridade. corresponde a 32. no caso. há uma diferença entre as modalidades oral e escrita.8% de ocorrências no Ensino Fundamental.1%. ao contrário do uso de clíticos.8% nas narrativas escritas). Tomemos como parâmetro o uso de clíticos e de pronomes lexicais como objeto direto anafórico. 2. por meio das variantes pronome clítico acusativo e pronome lexical. 2014. das cidades de Londrina e de Sarandi-PR.1% no Ensino Médio e. tanto nas narrativas orais. 57-74. Diante dos resultados obtidos e analisados. trata-se de uma forma não padrão. como nas narrativas escritas. 1/2. jun.3% no Ensino Superior. o maior índice foi observado no Ensino Fundamental (36.4% nas narrativas orais e 14. médio e superior. Jacarezinho–PR. De acordo com os dados apresentados na tabela 2. singular e plural (ele/eles). inclusive pela variante pronome lexical que. observamos que os alunos com maior grau de instrução tendem a utilizar as formas linguísticas previstas na norma padrão. que é uma forma prevista na gramática normativa. em narrativas orais e escritas produzidas por alunos do ensino fundamental. procuramos desenvolver um estudo tendo foco a realização do OD anafórico. segundo a mesma tendência. p. o maior índice de ocorrência foi verificado no Ensino Superior. alternando-se as formas masculino e feminino (ele/ela). Dizemos semelhante. n. Também o nível de escolaridade é o responsável pelo uso ou não do pronome lexical como objeto direto anafórico. Quanto à variável nível de escolaridade. Entre os alunos com menor grau de instrução. Considerações finais Neste trabalho. semelhante ao que ocorre nas narrativas orais. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. Os percentuais acima mostram que. uso este considerado não padrão. temos 14. decresce a utilização de pronome lexical nas narrativas escritas. constatamos que o objeto direto tem-se realizado de forma variável na região onde os dados foram coletados. No caso da utilização dos clíticos. Quanto ao uso de pronomes lexicais como objeto direto. de certa forma. ISSN: 2357-9234 .72 Outra variante do objeto direto anafórico é a utilização de pronomes lexicais./dez. apesar dos dados se comportarem.

Mattoso Câmara Jr. Outro ponto a se considerar é o tratamento dado à oralidade e à escrita. Na realidade. _____. Moderna Gramática da Língua Portuguesa. Sociolinguistic Patterns. A Variação Linguística. Ante tal fato. SP: Pontes: Editora da UNICAMP. somos favoráveis a que a oralidade e a escrita sejam tratadas como duas modalidades da língua de igual importância. a estrutura argumental preferida. 44. e outras preferências. CAMACHO. Fotografias Sociolinguísticas. socialmente aceita. ed. Napoleão Mendes de. Sociolinguística: uma introdução crítica. por ser esta a norma de prestígio. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. (org. Narrativas orais e narrativas escritas. &BENTES.Philadelphia. n. Seleção e introdução por Carlos Eduardo Falcão Uchôa. Coletânea de Textos. 1972. tanto no texto oral como no escrito. Rio de Janeiro: Lucerna. 1989. São Paulo: SE/CENP. Discourse. Carlos Alberto. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. inseridas num continuum discursivo. Que fala e escrita apresentam diferenças. DUARTE. Consciousness and Time. Dispersos de J. 2003. 3. Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós. University of Pensylvania Press. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Jacarezinho–PR. 2008. LOUIS-JEAN . CALVET. ____. 2004. difundida pela escola. Wallace. (orgs. CHAFE. Fernanda. Lindley. SP: UNESP. The flow and displacement of conscious experience in speaking and writing. FARACO. ed. São Paulo: Saraiva. 1972. Joaquim Mattoso. Maria Eugênia Lamoglia. ed. 1998. No entanto. Sociolinguística – parte II. 8. o que reforça o tratamento dicotômico dado a essas duas modalidades..)./dez. p. São Paulo: Parábola. In: TARALLO. 1998. William. Araraquara. In: Subsídio à Proposta Curricular de Língua Portuguesa para o 1º e o 2º Grau. São Paulo: Cortez. Estrutura Retórica e Articulação de Orações em Narrativas Orais e em Narrativas Escritas do Português. Volume I. 2008. CUNHA Celso & CINTRA.73 Os resultados acima comprovam que há uma preferência pela norma padrão nos níveis de escolaridade mais elevados. Roberto Gomes. São Paulo: Parábola. as diferenças não devem ser tratadas de forma a estabelecer uma oposição rígida entre a oralidade e a escrita. devido às situações de produção. 2002.). isso não se discute. 1999. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. sendo esta a ideia. Campinas. Referências ALMEIDA. 57-74. temos níveis de planejamento textual diferentes. v. O levantamento e a análise dos dados mostraram a preferência pelo uso da variante objeto direto nulo nas narrativas orais. Isso quer dizer que o discurso oral e o escrito podem apresentar marcas de planejamento prévio ou não. direta ou indiretamente. CÂMARA-JÚNIOR. ISSN: 2357-9234 . Dissertação de Mestrado. Evanildo. Pronome Lexical e Categoria Vazia no Português do Brasil. 1/2. BECHARA. Nova Gramática do Português Contemporâneo. ed. LABOV. Clítico Acusativo. 2014. Chicago: Universityof Chicago Press. Tese de Doutorado. ANTONIO. 1994. 37. Fernando. Ana Christina. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. 2001. Araraquara. In: MUSSSALIM. jun. 1. Juliano Desiderato.

Tempos Linguísticos. 4. Maria Luiza. n.74 MARCUSCHI. Maria Luiza. Jacarezinho–PR. In: MOLLICA. Anthony Julius. Maria Luiza. São Paulo: Contexto. _____. 2014. São Paulo: Contexto. 57-74. MOLLICA./dez. Relevância das Variáveis não Linguísticas. Mario Alberto. São Paulo: Cortez. 4. Modelos Quantitativos e Tratamento Estatístico. RISSO. 2003. 2000. Relevância da Variável Escolaridade. Maria Cecília. jun. & BRAGA. 2003. Introdução à Sociolinguística: o tratamento da variação. In: MOLLICA. 1994. Boletim do Departamento de Linguística. In: MOLLICA. Mercedes Sanfelice. p. Aceito em 09/2014. 2003. 2000. TARALLO. São Paulo: Ática. Da Fala para a Escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Contexto. Fernando. ed. Fundamentação Teórica: conceituação e delimitação. PERINI. In: MOLLICA. Maria Cecília. Assis – SP. RJ: Vozes. MONTEIRO. 1/2. Faculdade de Ciências e Letras – UNESP. Maria Cecília. Para Compreender Labov. 1990. Gramática Descritiva do Português. Petrópolis. 2003. São Paulo: Ática. In: Confluência. 2003. & BRAGA. ed. VOTRE. ISSN: 2357-9234 . José Lemos. & BRAGA. Maria Cecília. Introdução à Sociolinguística: o tratamento da variação. Língua Falada e Língua Escrita: Conceitos e Preconceitos. Introdução à Sociolinguística: o tratamento da variação. Maria Cecília. São Paulo: Contexto. Recebido em 08/2014. Sebastião José. & BRAGA. NARO. Maria Luiza. CLARABOIA: Revista do Curso de Letras da UENP. Luiz Antonio. Introdução à Sociolinguística: o tratamento da variação.