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.Para Jesus. o noivo glorioso.

além do vale. pois era a mulher mais linda que Charlotte já vira. Compradores e licitantes entravam e saíam da tenda armada no gramado lateral. O leilão anual Ludlow de antiguidades para angariar fundos para caridade tomava conta dos jardins exuberantes da propriedade. murmurava com um suspiro: – Não é lindo? – Sim – Charlotte sempre respondia. Aquele era o seu refúgio pessoal. Sua mãe costumava levá-la ali para piqueniques. continuava sendo a mulher mais linda que Charlotte já vira. abria um pote de frango frito ou um saco do McDonald’s e. mesmo que o resto do mundo não soubesse disso. observando e tentando decidir o que fazer. Charlotte encontrou seu pedacinho de Red Mountain muito movimentado e apinhado de compradores e caçadores de pechinchas. a Cidade Mágica como era chamada. um dom que não tivera tempo de transmitir à filha antes de morrer. Sua mãe tinha um jeito simples de ser. as árvores primaveris. Charlotte ergueu os óculos escuros e os apoiou no topo da cabeça. em vez da solidão que buscava. Ela sempre encontrava um bom lugar atrás de uma colina. onde ocorria o leilão. rindo e sussurrando “Psiu”. Voltar para casa ou caminhar pela propriedade? Não precisava ou queria qualquer coisa que pudesse estar debaixo da tenda. e levando Charlotte furtivamente até o perímetro da propriedade dos Ludlow. orar. Charlotte parou no gramado bem cuidado da propriedade Ludlow para respirar o ar puro. Charlotte cou ali parada. chegar mais perto do céu. admirando Birmingham. a luz do sol re etida no para-brisa do carro. como se estivessem escapando ilesas de alguma travessura cometida. Naquela manhã. Protegendo os olhos da luz do sol. Porém. ela acordara com a necessidade de pensar.Capítulo Um Charlotte 14 de Abril Foi a brisa. quase dezoito anos após sua morte. Agora. e não nas luzes de Birmingham. Vestira seus shorts favoritos e dirigira até a montanha. Não tinha dinheiro para . uma mudança invisível no ar. embora seus olhos se mantivessem xos na mãe. ressentida da intrusão. sentindo a brisa na pele. observando os elementos do dia – o céu azul. que a fez erguer os olhos e passear por entre os carvalhos. Gritos invadiram o momento de Charlotte com sua mãe. onde estendia um cobertor. estacionando em uma estradinha de cascalho.

Tudo aquilo a forçava a reconsiderar o grande passo que estava prestes a dar. Não pelo nome ou pelo rosto. Ela comprou o vestido na minha loja? – Sim. Ela parou diante de Charlotte. querida. está? – perguntou. sempre usando um discreto colar de pérolas. e. – Tive muita sorte. mas pela aura. – Estendeu a mão. e a casa pareceu piscar para Charlotte. – E queria que o mundo inteiro soubesse disso – Cleo acrescentou com uma risada. blusa de algodão. No momento em que o vento provocou o movimento na paisagem. ou orar. mesmo que quisesse. vamos. re etiam a luz dourada da manhã e pareciam observar os acontecimentos nos jardins.comprar nada. O movimento está enorme este ano. aproximando-se com uma caixa nas mãos. ou seria melhor sair correndo e gritando na direção do meu carro? Cleo sorriu. sobre as di culdades surgidas recentemente entre ela e a família de Tim. ofegante. Foi uma noiva linda. Charlotte a acompanhou para não parecer rude. – Sou Cleo Favorite. Lembre-se de que toda a renda vai para a Fundação Ludlow. – Admiro a fundação há muito tempo – Charlotte replicou. Quando Charlotte se virou na direção de seu carro. o vento voltou a atingi-la e ela olhou para trás. É sua primeira vez aqui? – Enfiou a mão na caixa e retirou um catálogo. Você tem uma loja e tanto.. de pele aveludada. O que precisava era re etir. – Ela quase levou meu irmão à falência. por algum tempo. Distribuímos milhões em concessões e bolsas de estudo na cidade. Ora. construída de pedras e vidro. Cleo começou a caminhar na direção da tenda. Mais especi camente. Katherine. calça com vinco. pode notar pelo número de carros estacionados. – Olá – cumprimentou uma mulher de gura imponente. a cunhada dele. Através das árvores e além da tenda. exibindo dentes que combinavam com as pérolas. – Minha sobrinha se casou no ano passado. temos lindas peças este ano. – Você ainda nem foi à tenda do leilão. – Entendo. mas só se casa uma vez. Uma das clássicas mulheres sulistas que viviam em Birmingham. Bem. – Tive de correr até meu carro para pegar mais. achei que ela estava mais entusiasmada em trabalhar com você na escolha do vestido do que em se casar com o noivo. certo? . – Devo me impressionar pelo fato de você me conhecer. uma sombra passou pela janela. apertando sua mão devagar.. – É claro que me lembro de Elizabeth. Venha e veja. Charlotte a reconheceu de pronto. – Não está indo embora tão cedo. presidente da Fundação Ludlow. – Você é Charlotte Malone. Ela se casou com Dylan Huntington. Vi quando estacionou. Charlotte observou Cleo por um momento. folheando o catálogo. – Mais que qualquer menina órfã e pobre poderia sonhar. – Quem é sua sobrinha? – Elizabeth Gunter. as janelas do segundo andar da mansão Ludlow.

Cleo se afastou. Parou diante de uma mesinha para vestíbulo e deslizou os dedos pela madeira escura. Charlotte seguiu adiante. estiver olhando – Cleo comentou com uma piscadela. Diga-me o que está procurando. Charlotte entrou na tenda. Com o polegar. Ora. Ah. vindas do reino dos céus. Malone & Co. Charlotte tinha de se esforçar para obter as respostas em sua vida.. O catálogo informa o número do lote. ela estivera perfeitamente acomodada em sua vida constante. Achamos que assim seria mais fácil. Quatro meses antes. provavelmente. Mas. – Na verdade. ela havia cado tão furiosa quando descobrira as travessuras de Charlotte com o pincel atômico. Cleo inclinou a cabeça para o lado e cruzou as mãos à altura da cintura. o que havia mudado a vida de Charlotte. – Funciona melhor se você se permite gastar um pouco do seu dinheiro suado. E a zera sentar-se ao lado de Tim Rose.. não. Nem surgir diante dela de repente. avaliava a situação. tinha hora marcada no cabeleireiro um pouco mais tarde. Não fora. enquanto. Talvez ouvisse: “Ele é o homem certo”. deixando os pensamentos se concentrarem em Tim e no conflito em seu coração. Aquela não era a mesa de Gert. é sempre interessante dar uma olhada. Arregaçava as mangas. E pode até encontrar algo que a agrade. a razão de sua ida até ali. No entanto. e parou pouco antes da entrada da tenda. Então. Gert uma tinha igual no vestíbulo de sua casa. Por outro lado. seguiu pelo corredor ao lado. Cleo – vim até aqui para pensar –. como se esperasse que Charlotte a seguisse. o local e horário dos lances.– Pelo que sei. ao passar por um armário ou guarda-roupa do século XX. Charlotte parou diante dela e deslizou a . se não tivesse agido assim. Charlotte tocou seu anel de noivado. certo? – Sim. A nal. O que teria acontecido com o móvel? Charlotte se curvou para verificar se o lado debaixo fora marcado com pincel atômico vermelho. No nal do corredor.. Deveria voltar para a cidade. O leiloeiro vai até cada peça. Ela poderia refletir e orar enquanto caminhava pelos corredores. e Charlotte escolheu um corredor lateral para percorrer. previsível e confortável. a ideia é essa. Suas respostas não costumavam aparecer simplesmente. – Tentarei me lembrar disso... Jamais teria aberto sua loja. – Temos belos guarda-roupas. Charlotte? Algo para sua loja? – Cleo depositou a caixa de catálogos sobre uma mesa e seguiu pelo corredor principal. – Está procurando por algo especí co. parou com um suspiro. Uma escrivaninha velha e opaca chamou sua atenção. o que importa? É um grande leilão e funciona muito bem. minha loja de noivas é estritamente contemporânea. examinando as peças como se as respostas que procurava pudessem estar escondidas entre as antiguidades. claro. o empreiteiro que reformara sua loja a persuadira a aceitar um convite para o jantar de m de ano em sua casa. calculava os custos e tomava sua decisão.

Ela o enchera de perguntas.mão pela superfície. o brilho das esperanças e sonhos em seu olhar. de aparência simpática. que pertencera à avó de Tim. Fez com que eu desejasse estar me casando outra vez. Quando Tim contou a Charlotte. como suas esperanças e seus sonhos se refletiam em seu olhar. E a velha Gert quando sua mãe morrera. que tinha quatro irmãos. O telefonema da editora no outono anterior fora mais uma onda em uma maré de sorte na vida de Charlotte. – Charlotte Malone? – Uma mulher roliça. Nem sabia ao certo se era o desejo de fazer parte de uma família grande. aproximou-se pelo outro lado de uma mesa de jantar. – Li sobre você na revista Southern Weddings . E. Se a madeira pudesse falar. Mas o anel não tinha respostas. que histórias contaria? De um marido calculando as nanças da família? Ou de uma criança resolvendo um problema de matemática? De uma esposa escrevendo uma carta para seus pais? Quantos homens e mulheres haviam se sentado diante daquela escrivaninha? Um ou centenas? Quais eram seus sonhos e esperanças? Uma peça de mobília sobrevivendo ao tempo. Desde garotinha. O riso da mulher ainda ecoava no ar quando ela se despediu e seguiu adiante. tocando de leve o braço de Charlotte ao passar por ela. E você? – Adoro vestidos de noiva. ser parte de algo importante? Queria sentir que fazia parte da família Rose. É igualzinha à foto que publicaram. Charlotte só tivera sua mãe. – Espero que isso seja bom – Charlotte replicou com um sorriso. primos e amigos de uma vida inteira. – Tivemos muita sorte por publicarem aquela matéria. tios. Na verdade. Adoro casamentos. certamente. Adorava a maneira como o semblante de uma noiva mudava quando ela experimentava o vestido perfeito. não fazia Charlotte sentirse parte da coleção gregária de irmãos. Parecia excitante. estava prestes a sofrer a mesma transformação: a prova do vestido perfeito. . Nunca tivera um irmão ou irmã. Sua loja parece ser mágica. tias. Charlotte olhou para o anel de noivado de platina e um diamante de um quilate. um menino? Teria sido por esse motivo que aceitara o pedido de casamento de Tim Rose depois de quatro meses de namoro? No momento. na primeira vez em que saíram juntos. – Imagino. o brilho dos vestidos brancos a deixava atordoada. Era isso o que ela queria? Sobreviver. Katherine. quanto menos quatro. Charlotte realmente amava vestidos de noiva. sim. – Ah. Ela não tinha respostas. com certeza – disse Charlotte. não tinha certeza de que seu motivo era amor. ela sequer fazia ideia de como era viver assim. – Sou casada há 32 anos e leio Southern Weddings tão religiosamente quanto a Bíblia. é.

então. Tawny Boswell.Mas. E. Quando Charlotte tomou a última colherada da sopa de ostras servida como entrada. reformara sua loja. sempre calma e pragmática. O toque suave do destino provocou um arrepio em sua alma quando ela sentiu a brisa que soprava na montanha acariciar suas pernas. para fechar o ano com chave de ouro. chá. qual era o problema? Por que a hesitação? Havia considerado quinze vestidos. Não havia uma nuvem sequer à vista. pedindo que a ajudasse a realizar os sonhos de Tawny. Charlotte foi ao jantar de m de ano e se sentou ao lado de um homem atraente. – Há quanto tempo trabalhamos juntas no ramo de vestidos de noiva. e não acho que vá dizer que pretende mudar de loja. passando noites inteiras acordada na cama. em Mountain Brook. Domingo? – Está tudo certo? Ela pareceu bem ao telefone? Como se ainda estivesse satisfeita conosco? Charlotte passara meses tentando encontrar o vestido de noiva perfeito para Miss Alabama. Dixie. Depois de algumas semanas de pânico e euforia na tentativa de descobrir quem poderia ter lhe dado tanto dinheiro. murmurando orações ao Deus do amor. Tim Rose já havia conquistado seu coração também. Temos queijo e torradas suficientes? Café. vou ligar para Tawny e dizer a . mas não provara nenhum. que funcionava em uma casinha construída em 1920. – Não sabíamos o que estávamos fazendo naquela época. que encantou a todos os convidados. Escute. desde que você abriu a loja. tudo em ordem na loja? – Sossegado. – Ei. – Você sabe muito bem que não tem nada a ver conosco. Quer encontrar você amanhã. Estaria sentindo cheiro de chuva? Inclinando a cabeça para enxergar além da borda da tenda. descobrira uma pequena e nova grife de Paris e concluíra que havia descoberto uma mina de ouro em forma de seda branca. Em fevereiro do ano anterior. mas Tawny ligou. água e refrigerantes? – Estamos bem abastecidas. Tawny parecia entusiasmada. nalmente. Miss Alabama. Charlotte resgatara seu presente e. – E quantas vezes perdemos uma cliente no último instante? – Mesmo depois de incontáveis horas de pesquisa junto a grifes para encontrar o vestido perfeito. às três. investindo todo o seu capital em estoque e fazendo apenas os reparos indispensáveis para manter de pé sua loja. – Dix. O dia 23 de junho estava chegando. E tudo havia mudado. Fora então que ocorrera o depósito de um cheque anônimo no valor de cem mil dólares em sua conta bancária. Charlotte mal conseguia se sustentar. Dix. Charlotte não viu nada além do sol glorioso iluminando o céu azul cristalino. Dix? – Cinco anos. Somos especialistas agora – Dixie afirmou. A editora da Southern Weddings telefonou. Então. tornou-se sua cliente e Charlotte cou famosa. – Ligue de volta para ela e con rme o encontro para amanhã. Passou para o corredor seguinte e seu telefone vibrou no bolso da calça jeans.

Estou passeando entre as antiguidades enquanto conversamos. Dixie. – Vai se casar dentro de dois meses e. todos exclusivos. Ela sabia. – Tim é um homem incrível. Mas era incrível para ela? .. – Está se referindo às coisas ou às pessoas? Charlotte sorriu. – Um pouco dos dois – respondeu. – Vai encontrar Tawny às três. Noivado rápido. só isso. Ou. Gostosão. Dixie.. claro. Rose se ela já fez a lista de convidados do lado de Tim. – Se levou. Ela sabia. – Era disso que falávamos? – Não é do que falamos sempre? Os convites do seu casamento continuam sobre a mesa da sala de estoque. repleta de joias. Quer que eu os leve para casa esta noite? Dix e o marido. – Mas seu tempo está se esgotando. Jared. quando voltar da igreja. posso fazer uma pergunta? – Não. está me deixando atordoada. Eram as pequenas coisas que a ajudavam a manter seu sucesso. eu cuide deles na segunda-feira à noite. brincos.. – A voz de Dixie sempre carregava o peso da con ança. Uma viga de sustentação para o sonho de Charlotte. leve-os para casa.. Peças exclusivas eram complementos perfeitos para suas noivas. – Espere. Charlotte. e a necessidade de encontrar respostas a levara até a montanha naquela manhã de sábado. ha. pulseiras e tiaras. Ela sabia. Sim. – Falando em casamentos – Dixie murmurou em voz baixa e lenta. casamento rápido.. – Já z isso.. – Certo. Charlotte. – Charlotte. Ela sabia. Posso começar a cuidar deles amanhã. Charlotte mantinha um estoque de colares. bem. que ela chamava de Dr. observando as cabeças grisalhas que pontilhavam os corredores.. no apartamento vizinho ao de Charlotte. eles voltaram andando. – Ha. – Deveríamos ter marcado o casamento no outono. jura? Ainda estão na sala de estoque? Pensei que já os tinha levado para casa.ela que teremos prazer em recebê-la amanhã. Ela era um presente dos céus. Vim até aqui para pensar. na propriedade Ludlow. – Onde você está. Não achei que você pensaria em recusar o pedido dela.. Preciso perguntar à Sra. – Charlotte sabia onde a amiga pretendia chegar. depois do encontro com ela.. como você é engraçadinha. afinal. – Ainda há tempo. moravam em Homewood.. talvez. Parou diante de uma vitrine fechada. Estivera fazendo as mesmas perguntas a si mesma havia semanas. Char? – Em Red Mountain. – Tenho estado muito ocupada. mas me deparei com a multidão do leilão anual. Acho que não tenho nada marcado para segunda à noite.

. O leiloeiro era um homem sem qualquer traço distinto. Diga a ela que te deixe em paz. Quando percorria o corredor para deixar a tenda. descobriu-se sendo praticamente arrastada para um lado. Não havia lote número zero. sairei do seu caminho. Tentando sem sucesso localizar o sapato perdido. Consultou a lista alfabética na última página. Ela deu um passo para trás. Estatura e peso medianos. “Lembre-se de porquê você se apaixonou. – Charlotte olhou por cima do ombro. levando Charlotte consigo. Preciso descer a montanha dentro de poucos minutos para ir ao cabeleireiro. subindo no pequeno patamar posicionado ao lado do baú. – Foi feito para uma noiva. – Baú? – Aquele baú horroroso? – Aproximem-se todos – anunciou o leiloeiro. grisalhos? Cor de cinzas? No entanto. em sua opinião. O baú não parecia valer mais do que isso. Lote número zero? Ela folheou o catálogo. Foi feito em 1912. junto de Tim. por uma pequena multidão que se formava.. Esteja lá. preciso ir. velha e coberta de marcas. Charlotte desligou. en ada dentro da calça cinza chumbo presa por suspensórios de couro. Ela tropeçou e perdeu um sapato. – Desculpe. com alças desgastadas de couro ressecado. – Divirta-se esta noite. – Vou tentar.. Sorriu para o homem ao seu lado e tentou desviar dele. . olhando xamente para a peça a ser leiloada. mas não encontrou nenhum baú. de fazer disparar o coração. Os interessados naquela peça pareciam muito determinados.. Não deixe Katherine aborrecê-la. – Esta peça foi resgatada de uma casa poucos minutos antes de sua demolição. – Este é o lote número zero – ele informou com uma voz profunda que envolveu Charlotte. Lembre-se de porquê você se apaixonou. mas agora eram. – Logo daremos início aos lances – acrescentou o leiloeiro. vestia uma camisa púrpura brilhante. arca ou bagagem. Charlotte não estava certa de que seria capaz de identi car uma razão real e sólida em meio ao turbilhão. Gostou dele. Vai fazer um lance por aquele. O grupo de quinze ou vinte pessoas se adiantou. Charlotte sorriu. Subiu no patamar com seus tênis Nike muito brancos e limpos. enquanto o conselho de Dixie ecoava em sua mente. Charlotte olhou em volta para ver quem. mas se me der licença. embora quando ele a encarasse. Vinte dólares.– Escute. – Ele se inclinou para o grupo.” Fora tudo muito romântico. poderiam ter sido castanhos. Ligo para você mais tarde. Quanto tempo poderia demorar o leilão? Dez minutos? Talvez fosse divertido acompanhar o processo de perto. estaria disposto a desembolsar dinheiro por uma caixa de madeira feia. – Com licença – murmurou. Charlote. Ele não se moveu. Cabelos que. simplesmente. o fogo azul em seus olhos zesse o espírito dela se agitar. permanecendo plantado no lugar. mas permaneceu ilhada por todos os lados. Charlotte acabou por decidir esperar para procurar melhor. um dia.

– Dou 5 – Charlotte anunciou. agitando os dedos. – Mas o lance inicial era 500. – Deve sempre considerar o custo. – Mas para quem se dispuser a abri-lo. alguém tem de oferecer cinco dólares. e piscou. chocada.. sua simpatia despertara. Não havia. – Bem. Ora. Parabéns! – Iniciaremos os lances em 5 – ele decretou. sabe o preço. faça um lance. Por favor. Muitos riram. – Alguém dá 5? – perguntou novamente. – Tem cem anos de idade. erguendo seu catálogo. todas as coisas. ou onde levar os itens necessários às viagens missionárias. precisam de amor. moça. Agora que o baú tinha um preço e havia sido alvo do riso alheio. 550? – ela repetiu. que teve um sobressalto. apesar de um tanto ressecada. como se estivesse presa ali. Por que ele dirigia sua atenção a ela? Pressionou a mão contra o calor intenso que se acendeu em seu peito. Muito bem. de fato. e a peça inteira se encontra em boa condição. E ouvir um pouco de sua história alterava sua aparência insignificante. Doaria o baú para a igreja. – O que aconteceu com o fecho? – O homem à esquerda de Charlotte apontou com o catálogo para o latão retorcido que mantinha a tampa fechada. O ar fresco se movimentando em torno de suas pernas era agradável. aliviando a pressão que Charlotte sentia.Seu olhar se xou em Charlotte. essa é uma história à parte. . seus olhos azuis penetrantes pararam em Charlotte. alguém. – O leiloeiro ergueu a mão. – Tenho 500 dólares. – Alguém dá 550? – Espere. alguém. – Por uma garota de coração partido. Charlotte nalmente compreendeu. Mais cinco segundos se passaram. que parecia aumentar. cinco notas de 100 – ele esclareceu. Todas as pessoas. Estavam sempre precisando de peças onde pudessem guardar brinquedos para as crianças da creche.. Como podia ter sido tão estúpida? A cena do velhinho inocente a enganara direitinho. A madeira e o couro são originais. Ele arqueou as sobrancelhas num gesto teatral. há um grande tesouro dentro do baú. não. – Dou 550. Estudou a audiência. As mulheres do grupo murmuraram “Oh” e se puseram na ponta dos pés para ver melhor o baú. Mais uma vez. Charlotte estudou os semblantes dos interessados. e o leiloeiro se mostrou satisfeito por ter conseguido atrair a atenção de todos. Várias pessoas se afastaram. Quem dá 550? Por favor. ofereci 5 dólares. O homem ao lado de Charlotte ergueu o catálogo. Era um vendedor e tanto. Ele só queria que as pessoas acreditassem que poderia haver. – Não. Agora. – O leiloeiro voltou a se inclinar para a audiência. nenhum grande tesouro dentro do baú. O fecho foi soldado. enquanto Charlotte recuava mais um passo. Por que ele a estava encarando? Tratou de esconder a mão com o anel de noivado atrás das costas. Um século. ofereça 550. vamos.

– O homem à esquerda de Charlotte. – Dou 700 – disse Charlotte. o fato de ela ter gasto todo o seu dinheiro na reforma. sim – ela respondeu. inclinando-se na direção de Charlotte e erguendo as sobrancelhas espessas. Até o último centavo. ele não constava da lista. Três pessoas se afastaram. mas suas pernas se recusaram a obedecer. alguma informação. queria almoçar antes de ir para o cabeleireiro. – Infelizmente. – Alguém dá 750? A mulher ao lado dela ergueu a mão. Eu mesmo o resgatei. as palavras explodindo em seus lábios. Algo dentro dela se rebelou diante da ideia de destruir o baú. – Dou 8. e seus pés continuaram plantados no gramado Ludlow. A mulher mais próxima de Charlotte ergueu a mão. – Ele te chama. pensando que Tim teria um ataque se ela levasse aquela coisa para casa. E sua conta bancária pessoal tinha apenas o su ciente para arcar com as despesas de uma pequena cerimônia de casamento. pensando que deveria aproveitar a oportunidade e se retirar também. Se tivesse de gastar todo aquele dinheiro. suas faces estavam coradas. até agora. alguém dá 650? – A cabeça do leiloeiro balançava a cada sílaba. ainda. Voltou a folhear o catálogo à procura de uma descrição. sem nem sequer esperar que o lance fosse aumentado. teria tempo apenas de voltar para casa e se trocar. – Sem dúvida. pressionando a mão contra o peito. elegante e so sticadamente contemporânea. Sua experiência no processo do leilão até aquele momento já era mais que suficiente. qualquer coisa sobre o baú. Malone & Co. – Dou 650. Limpou a garganta e encarou o leiloeiro. provocando arrepios em Charlotte. caro senhor. Não precisava dele. – Charlotte disparou. Oitocentos dólares por um baú não fazia parte do orçamento. Charlotte voltou a estudar o baú. Ela não queria o baú. – Tenho 550. Seu apartamento era contemporâneo. compraria um par de sapatos Christian Louboutin. pequeno e. mas. antes que Tim fosse buscá-la às seis. Desmontá-lo? Nunca.Charlotte suspirou. – Este baú merece cuidados e atenção. Charlotte estreitou os olhos e examinou o baú. Quando saísse do salão. era uma loja requintada. Exatamente como ela gostava. bem organizado. Um sopro de brisa refrescou o suor em sua testa. minha jovem. – Tenho 600. O ar da montanha debaixo da tenda era quente para abril. Além disso. – Dou 600. definitivamente. – Poderei desmontá-lo e usar as partes em uma caldeira que estou restaurando. Quem seria o homem ou a mulher que o possuíra no . – Os olhos do leiloeiro brilhavam a cada palavra. alguém dá 600? Os olhos azuis do leiloeiro brilhavam animados. – Dou 800. não é mesmo? – indagou o homem de camisa púrpura. Onde ela colocaria um baú velho? E havia. Corra! Vá embora! Charlotte tentou se virar. Obrigada. E o que eu resgato nunca é destruído.

– Espere..000”. – O baú pertence à senhorita. espalmando as mãos uma contra a outra e retirando um papel do bolso. Juntamente com o restante do grupo e o burburinho de vozes. “Redimido. – Vendido – o leiloeiro declarou. mas como sabia. Ele se fora.. Virou-se para o leiloeiro. – Mil dólares – Charlotte falou e. $1. Charlotte encontrava-se completamente sozinha. cobriu os lábios com a mão. era tarde demais. O lance estava feito. senhor. desculpe. Porém. Ah. Charlotte leu o papel impresso. . teria de se explicar com Tim. exceto pelo baú velho e uma leve agitação no ar fresco.passado? E quanto à noiva de 1912 que o leiloeiro mencionara? Ela não desejaria que seu baú velho e desgastado tivesse um lar? – Dou 850 – ofereceu outro homem. imediatamente.

à medida que a iluminação festiva coloria o salão. Tim. culparia Charlotte pela falta de participação de Tim. É só dinheiro. enquanto estivera sentada na cadeira do salão. Vamos dançar. Então. Charlotte se inclinara para seu noivo e dissera: – Ah. alisando o vestido com as mãos. Todos. exceto Tim e Charlotte. Jack está acenando para nós. Jack era o irmão mais novo de Tim. em Red Mountain. Ora. Tim. o semblante normalmente vibrante e encantador dava lugar a uma carranca. e comprei um baú. já ia me esquecendo de contar. combinando com os sapatos Jimmy Choo que comprara em uma liquidação. Estava determinada a se divertir naquela festa. – Daqui a pouco – Tim murmurou e fez um sinal para Jack esperar. Tivera uma longa conversa com aquela garota à tarde. esquecer sua missão frustrada em Red Mountain e permitir que seu eu interior extrovertido dominasse a noite. o que vinha logo depois dele na sequência de cinco meninos. Charlotte ergueu os olhos para admirá-lo. quinze minutos antes. A noite ia tão bem. vamos. Jack. No momento. – O jantar estava bom. Por mil dólares. mas fui parar em um leilão. pulando e rodopiando. Era perfeito para ela. Charlotte se levantou. – Quer dançar? Veja. Katherine. a família. Se é que ela podia usar essa palavra. A luz âmbar iluminou seus pratos por um momento. porém. Vestira seu novo traje de festa. – Ora. eles observavam a festa de aniversário de casamento dos pais dele. Todos os convidados daquela festa de aniversário de quarenta anos de casamento estavam na pista de dança. um vestido azul marinho de corpete justo e saia curta e rodada. não é um grande problema. não? – disse ela. – Estava ótimo. Os longos cabelos loiros brilhavam em torno das faces bem desenhadas. cantando “celebrate good times. pela primeira vez. Tim não conseguia tirar os olhos dela e.Capítulo Dois Charlotte aninhou-se de encontro a Tim. Foi então que notou a luz nos olhos dele se apagarem. vamos. por que ela não havia esperado para contar o incidente quando estivessem voltando para casa? Agora. . Ora. Sentados à mesa. Tim. Ora. arrumando os cabelos e fazendo as unhas. O nariz reto combinava com os lábios cheios e o queixo quadrado. David. ou melhor. Chase e Rudy. Tim. hoje. come on” a plenos pulmões. não fora tão ruim. Charlotte se sentia verdadeiramente uma parte da família Rose.

– Eu sei. ela havia aprendido que ele precisava de tempo para processar os acontecimentos. não comprei – Charlotte respondeu com uma pontada de irritação. – Eu sei. Durante os quatro meses desde que conhecera Tim. Por outro lado. O debate abafado só terminara quando a sobremesa foi servida. Sempre obedecia ao coração. Depois disso. – Eu sinto muito por ter gasto tanto dinheiro. o pedido fora perfeito e romântico. puxando de leve o braço dele. eu sei. Char. Charlotte respondera “sim” sem pensar. sobre por que e como ela podia ter gasto tanto dinheiro sem antes conversar com ele. então. O que era mais uma razão para questionar o casamento. – Tem certeza de que não quer dançar? – ela insistiu. eu juro. queria mesmo se casar com ele? Talvez Charlotte tivesse de voltar a Red Mountain pela manhã. Casais se aproximaram e começaram a dançar juntinhos ao som de “I Only Have Eyes for You”. mas. fora o que Gert lhe dissera. Charlotte. Se casse ali sentada mais um pouco. Ele nunca fazia nada por impulso. aplacando os temores dela. – Não. – Vamos nos casar dentro de dois meses. – Está tudo bem. A confissão pairou entre os dois e apagou os últimos vestígios de brilho no olhar de Tim. e colocar um anel em seu dedo? E ela. Quando Charlotte aprenderia a manter a boca fechada? O momento não poderia ter sido mais errado para o comentário. – Tim? Ele se virou para encará-la. – Certo. por que o pedido de casamento tão rápido? Teria sido apenas um momento de fraqueza romântica? Charlotte nem sequer tinha certeza de que ele realmente queria se casar com ela. O que o zera ajoelhar. A banda começou a tocar uma música lenta e as luzes da pista foram diminuindo. Você é dona de uma loja de noivas. – Ainda não comprei meu vestido de noiva. – Charlotte fitou-o com olhos marejados de lágrimas. haviam discutido em sussurros durante todo o jantar.– Mil dólares? Tim cuidava do orçamento do casamento e mantinha cada centavo calculado até 23 de junho. Comeram o bolo de cenoura em relativo silêncio. porque não podemos mais pagar por ele. Pelo menos. – Tim acariciou de leve o rosto de Charlotte. . alguém viria perguntar de Tim. Charlotte pegou a bolsa e foi para o banheiro feminino. – Vou respirar um pouco de ar fresco. Voltarei em um minuto. Tim raramente tomava decisões impulsivas. apenas dois meses depois de terem se conhecido. Tim empurrou a cadeira para trás e se levantou. – Espero que não tenha comprado aquele vestido de cinco mil dólares.

– Mas meus pais tinham de . Ainda bem que Blanch não podia ver vocês dois diretamente. Charlotte. Charlotte – Katherine retirou um lenço de papel da caixa sobre a pia –. Sim. retirando o batom da bolsa. esposa de David. meu pai decidiu que nos mudaríamos para o outro lado da cidade. – Quarenta anos de casamento é um feito e tanto. ou discutir a família Rose com Katherine. fechado. como se ele não tivesse o direito de socializar com a própria família. – Katherine cruzou os braços e se recostou na pia. ignorando a caça da outra por informação. – Katherine amassou o lenço de papel e atirou-o no lixo. – Essa cor combina muito bem com seu tom de pele – Charlotte elogiou. Então. não querendo se colocar na defensiva. Charlote olhou para o espelho. – Sabe de uma coisa. se você pretende se tornar uma Rose. Charlotte. Preferia jogar em seu próprio território e desfrutar da vantagem de ser o time da casa. deve começar a agir como uma Rose. o irmão mais velho. As mechas de cabelo que haviam escapado do penteado encaracolavam-se em torno de seu pescoço. – Há mesmo um assunto. Com a ponta do dedo. Isso não vai cair nada bem com os outros. Katherine – Charlotte replicou. faz a maquiagem de nossas noivas. – Você também. – Você e Tim brigaram? Sussurraram o tempo todo durante o jantar. Correr para a porta só serviria para atiçar ainda mais a hostilidade de Katherine. Sua conversa com Tim não era da conta da cunhada dele. no verão anterior à sétima série. Tínhamos piscina e quadras de tênis. Katherine? Mais parecia um interrogatório. Precisava de uma distração. Ela tem usado tons suaves de rosa em noivas de pele clara. – Minha assistente. – Tim costuma ser o primeiro na pista de dança. hoje. este me foi sugerido pela vendedora da Saks. se continuar assim. – Retirou o excesso de batom dos cantos da boca com o lenço de papel. uma voz soou atrás dela: – Está bonita. Katherine jogou o batom de volta na bolsa. Katherine se aproximou da pia e se inclinou para o espelho. – Deixe-me contar uma história a você. Ele era o mais velho. Ele nunca perde “Celebration”. Charlotte sentiu-se grata por estar sozinha. Fui vizinha dos Rose desde os três anos de idade até meu primeiro ano no colegial. estava parada atrás dela. – David me levava à escola. mas hoje nem dançou ainda.Lá dentro. tentando esquivar-se do brilho quase cruel das lâmpadas fortes. – Estou me divertindo muito. isso mesmo. Você vive arrastando Tim para os cantos para conversas particulares. – Está se divertindo? – Katherine perguntou com um sorriso forçado. já estava na segunda série. para uma mansão em um condomínio de luxo. Dixie. Charlotte. na primeira série. Adorei seu vestido. Era a primeira e única nora na família de Marshall e Blanch Rose. mas não mude de assunto. Quando abria a bolsa para pegar o batom. – Bem. examinando o cabelo e a maquiagem. Apoiou-se na pia e estudou o próprio reflexo no espelho. Seria inútil. Charlotte fechou a bolsa e pegou um lenço de papel. retirou um cisco de rímel de debaixo do olho. Uma distinção que ela levava muito a sério e protegia com afinco. Katherine. – Aplicou o batom vermelho nos lábios.

Nunca se apaixonara tão profundamente. peguei o carro e fui até nosso antigo bairro. . – Mas ele é o homem certo para mim. – Como estava me sentindo completamente perdida. como se assim pudesse protegê-lo. Charlotte a observou no espelho por um instante. ou festa de aniversário desde que começamos a namorar? Nunca. Charlotte jamais conhecera alguém como Tim. ele conhece você em um jantar de m de ano e não conseguimos vê-lo por quase duas semanas. Você não se enquadra na família. Então. para sair da mira do olhar gelado de Katherine. – O que está tentando dizer? Charlotte foi até a pia para lavar as mãos. Ele me viu e acenou. Não porque não pode. Chase e Rudy pularem. e isso destruiu nossa família. – Katherine exibiu os dedos. – Ela xou o olhar nas próprias mãos. Charlotte queria desesperadamente que Tim fosse o homem com quem ela comemoraria quarenta anos de casamento. Eles namoraram durante seis meses. dois meses depois de ter te conhecido. Dave e Tim estavam juntando as folhas secas de outono em montes. conversava com ela depois do culto. pegou uma toalha de papel e. – Não sou muito boa na arte de ler as entrelinhas. Estacionei diante da garagem. – Vou deixar de rodeios e dizer o que penso. inspirando profundamente. Era o último lugar onde havíamos sido felizes. – Foi o mesmo tempo que ele demorou a para convidar a última namorada para sair pela primeira vez. – Por favor. do nada. forte e lindo. Nunca sentira o que ele a fazia sentir. apoiando o ombro na parede oposta. Charlotte fechou a torneira. por que ele se afastaria da família? Katherine você está inventando coisas que não existem. – Não acho que você seja a mulher certa para Tim. Chegamos a pensar que ele havia enlouquecido. Mamãe Rose temeu que ele não passasse o dia de Natal conosco. O que vai acontecer depois que vocês se casarem? Os pais dele ficarão arrasados se Tim se afastar de nós. E. conhecendo-a melhor. apesar do terror provocado pela sensação de queda livre e de sua ida à montanha naquela manhã para se afastar do barulho da cidade e ouvir a voz de Deus. Ele orava. e nós pensamos que ela poderia ser a mulher da vida dele.. Dois. – Por que. Era como se o tempo houvesse parado na residência Rose. seus olhares se encontrando. Meus pais nalizaram o divórcio um dia depois de eu ter obtido minha carteira de habilitação. Charlotte.. e nunca mais parti.trabalhar oitenta horas por semana para nos manter naquela vida luxuosa. – Charlotte. Katherine – falou em voz baixa e rme. faça isso. ou almoço de domingo. conversava com pessoas que já a conheciam. porque Tim não perderia tempo namorando uma mulher se não acreditasse que o relacionamento tinha futuro. Quando foi que Tim deixou de participar de uma reunião de família. tentou contrair o peito em torno do coração. E eu sou a mulher certa para ele. com a diferença que David havia se transformado nesse rapaz alto. para Jack. – O namoro nos pegou de surpresa – Charlotte falou. O amor de sua vida. Tim a pediu em casamento com o anel da avó dele. em diversos aspectos. junto à porta. mas porque não quer. para saber como ela era.

Tudo o que envolve esta família me diz respeito. Nenhum segredo é tão sagrado. – Esqueça isso. . Tenha certeza de que não temos a menor intenção de nos afastar dos pais e irmãos dele. No mesmo instante. Daremos um jeito.. – Charlotte. aí está você. Charlotte virou-se para a porta. – Quer dançar? – ela perguntou. – Posicionou um dedo sob o queixo de Charlotte e tou-a nos olhos. Tim apertou Charlotte contra si e tou-a nos olhos enquanto o cantor entoava algo sobre “a casa que me construiu”. Olá. – Ah.. – Pensei que não fosse me convidar. Você pode comprar o que quiser. recostado na parede. – Lauren. Tim. apertando-a contra si. Charlotte tentou adivinhar onde Katherine pretendia chegar com aquele interrogatório. – Oi – ele a cumprimentou. acompanhante de Rudy na festa. Charlotte saiu sem olhar para trás. – Charlotte oscilava de um lado para outro com ele. Katherine. nem vou permitir que esta família seja destruída. mas é da minha conta. não da maneira horrível que meus pais me forçaram a crescer. – Eu realmente sinto muito pelo dinheiro que gastei com o baú. Charlotte agarrou a maçaneta da porta e puxou com força. – Os convites estão na minha casa. Tim é mais próximo de mim que meu próprio irmão. – O que aconteceu lá dentro? – Nada. Não quero vê-lo sofrer. Eu só precisava me acalmar. – David me disse que ele e Tim ainda não têm os trajes do casamento. – Mas você está chateada. Charlotte o beijou. sim. mas Katherine espalmou a mão na madeira para mantê-la fechada. – Charlotte praticamente desabou sobre ele. e Tim a envolveu nos braços. Estou criando três lhos como Roses e quero que eles cresçam como o pai. – Ainda temos tempo. – Segredos de banheiros femininos. Katherine. – Desculpe pelo que eu disse sobre o vestido. – Foi Katherine. – Você deveria ter me avisado que ela parece um cachorro raivoso. – Também não vi um convite. Lauren. acha mesmo que essas coisas são da sua conta? Tim e eu vamos nos casar. Na pista de dança. as mãos nos bolsos. se a convicção de sua voz se estendesse ao seu coração! – E vamos fazer tudo à nossa maneira. nem sequer um cartão comunicando a data. – Tim esticou o pescoço sem disfarçar o esforço para tentar enxergar quem saía do banheiro. deixando que a presença dele a aquecesse depois do confronto gelado com Katherine. – Ah.Katherine estreitou os olhos. – Oi. Tim estava no corredor. entrou no banheiro. Tim está à sua procura.

escapando do abraço. Charlotte soubera que Paul e Artie eram primos de Tim. fechando a porta atrás de si. ela não teve muito tempo para re etir sobre a questão. – Vai trabalhar no domingo? Tim passou um braço em torno da cintura dela e a puxou para si. – Não vamos correr. quase sorrindo. – Estamos pensando em sair de motocicleta. Era corredor de motocross amador e apaixonado pelo esporte. Quando voltaram a se beijar. amanhã. imitando o tom da pergunta dele. sorrindo. Até convenci Dave e Jack a irem também. os Buchanan. prefiro não falar da mulher de meu irmão. Charlotte se perguntou se realmente o conhecia tão bem. . Os lábios de Tim encontraram os de Charlotte. – Charlotte ergueu as mãos e enroscou os dedos nos cabelos de Tim. de mãos dadas. assim? Com um beijo rápido e brincalhão. – Já foi mordido por ela? – Charlotte perguntou com uma careta. – A corrida começará no momento em que vocês derem a partida nos motores. vamos só passear de moto. uma vez que ele os mantinha na superfície. Se vivêssemos nos tempos da bíblia e algo acontecesse a David. afrouxando a gravata e desabotoando o colarinho da camisa. da família da mãe. Tim passou por ela e entrou no apartamento. – A garota mais linda da festa está em meus braços – Tim sussurrou ao ouvido de Charlotte. Porém. – Venha conosco. sentindo a tensão provocada por sua discussão com Katherine se dissipar. – Ela mais late do que morde. – Quer entrar? – Acha que me conhece tão bem. e eles se beijaram ao ritmo da música melancólica. acendeu a luz do hall de entrada e se apoiou no batente da porta. e a abraçou. Tim levou Charlotte para casa e subiu com ela os quatro lances de escada até o apartamento. Pouco depois das 11 horas. – Naquela noite. – Você vai correr de moto? No domingo? – Ela arqueou a sobrancelha. Tim a puxou. interrompendo seus pensamentos. se você não se incomoda. Charlotte passou os braços em torno do pescoço de Tim e deixou de lado todos os seus problemas. Sobre toda a família. – Portanto. – Tim apoiou o ombro na parede enquanto Charlotte destrancava a porta do apartamento.. – Tenho um encontro marcado com Tawny – Charlotte explicou. O senso de competição e a paixão de Tim por atividades extremas não eram difíceis de perceber.– Não pensei que ela fosse implicar com você. – Ela parece acreditar que tem ascendência sobre você. – Tim segurou o rosto de Charlotte entre as mãos. O movimento fez com que ela batesse os calcanhares em algo duro e perdesse o equilíbrio. – Paul e Artie não correm desde que se mudaram para o Texas..

estou. Gert costumava ouvir um disco antigo. – Devemos marcar uma reunião para discutir o casamento e sabermos exatamente em que ponto dos preparativos estamos? Charlotte suspirou. – Olhou para Charlotte. Esta semana.. inspirando o perfume da pele dele. Que tal quarta-feira? – Tim deu a volta no sofá e se aproximou da mesa de jantar. – Ora. Então. se somos capazes de satisfazer a Miss Alabama. Tim estreitou os olhos. Tim? Que notícia ótima! Na terça-feira. – Perfeito. uma linda peça feita de madeira rara. quanto na morte. – Vejo você amanhã de manhã – Charlotte murmurou com um suspiro. Charlotte detestava a canção e saía de casa sempre que Gert punha o disco para tocar. . – Sim. Aquele som sempre despertava nela o fantasma de estar sozinha. Fora sua primeira compra de mobília de verdade. então. – Estarei livre. Já estamos no meio de abril. – O que eles estão fazendo no hall de entrada? Tim carregou a caixa até a mesinha de centro. – Dixie os trouxe da loja. talvez possamos fazer o mesmo por ela. tenho uma reunião na câmara municipal. – Sem sombra de dúvida. cuidar dos detalhes do casamento. Tim.. – Ela leu sobre Tawny no jornal e concluiu que. porém. De alguma maneira. abriu a caixa e espiou seu conteúdo.Tim conseguiu alcançá-la antes que ela atingisse o chão. algo sobre “um” ser o número mais solitário. formada pela paisagem de sua família. os olhos fechados. – Char. – Ah. Desde a morte da mãe. Nossos convites de casamento. vamos dar à lha do prefeito o tratamento Charlotte Malone. – Não. – A filha do prefeito? – Ele arqueou as sobrancelhas. vejam! Estou impressionado.. O que é esta caixa? – Charlotte se curvou. – É mesmo. Charlotte vivia na desconfortável companhia da solidão e da realidade de que só tinha a si mesma. Podemos jantar e. – É melhor eu ir embora porque eu não quero ir embora. tanto no nascimento. Completamente sozinha. puxou Charlotte para um longo beijo. Tim voltou a digitar algo na tela do celular e.. depois. observou Tim sair e se preparou para ouvir o clique da porta se fechando atrás dele. tenho uma consulta marcada com a lha do prefeito. você está bem? – Sim. – Segunda à noite? – Tim tocou a tela de celular. – Parece que Dave e eu caremos encarregados do projeto de restauração do centro da cidade. Ela foi até a mesa de jantar onde deixara seu iPad. Charlotte Malone acabara se tornando sua própria ilha. que Charlotte economizara por um ano para comprar.

parou diante da janela e deixou o olhar vagar pelo brilho alaranjado distante de Birmingham. Um baú. Charlotte colou o nariz à porta e espiou o sujeito pelo olho mágico.Tirando os sapatos. – Estendeu uma prancheta a ela. – Não pesa nada. – Ora. – Não precisa me dizer que é tarde. meu novo amigo. Charlotte abriu a porta e um homem franzino. Só preciso que assine o recibo. – Tim? – Tenho uma entrega da propriedade Ludlow para Charlotte Malone. Sabe quanto problema me causou. Quando pagou pelo entrega do baú. hoje? . Sobressaltou-se quando ouviu uma batida na porta. Charlotte empurrou o baú até o centro da sala e se ajoelhou diante do fecho soldado. foi até a cozinha para beber água. – Já é muito tarde – disse. Espero que seu dinheiro tenha valido a pena. esperava recebê-lo na semana seguinte. Não às quinze para meia-noite. ora. Enquanto retirava a tampa da garrafa. carregou o baú para dentro do apartamento. examinando seus pensamentos e separando os sentimentos. de calça jeans suja e bigode à Fu Manchu. Quando ele se foi. – Assine aqui.

Sua mãe caria irritada. Com um grito. – Emily. teriam tido mais tempo e ela poderia ter escapado do discurso deplorável da Sra. Emily girou o corpo com o punho já preparado para o ataque. Desejou que o ar de agosto se agitasse para que pudesse respirar melhor. O suor escorria por seu pescoço. porém. – Daniel. assustou-se com a mão que se estendeu. Emily riu baixinho e. A voz da mulher se erguia e baixava. acalme-se. Sou eu. Assim. por debaixo da gola alta e descendo por suas costas. De novo. Daily era engraçada. seu vizinho e amigo de infância. Daily. que o ruído do choque foi alto e claro. desde que tivera notícias dele pela última vez. erguia e baixava. meses. ajeitando os cabelos e acertando a posição dos grampos que os prendiam. Uma pena que ele não a houvesse interceptado antes da reunião. O pai acharia divertido. Fazia muito tempo. se a mãe a repreendesse por estar atrasada. Ela abaixou a mão e fitou Daniel Ludlow nos olhos. atravessando o gramado da Sra. quando passava pela grande sempre-viva. Emily poderia culpar Phillip. ela o acertara. dirigindo-se à entrada dos criados. A saia se agitava contra seus tornozelos e os saltos ressoavam no cimento. Sua cabeça chegava a doer. um dia. conhecia a força de seu soco. Bem. A simples lembrança dos beijos que haviam trocado na carruagem fazia a temperatura de Emily subir. A Sra. Ele havia pulado de detrás de árvores muitas vezes e. A reunião pelo direito de voto feminino. Ele a interceptara quando ela saía da reunião. havia durado mais do que ela esperava. sou eu. na cozinha. Earl Donaldson. reprimindo o desejo de correr. Eram tantas opiniões e vozes. Emily dobrou a esquina na direção de Highland. agarrou seu braço e a puxou para trás da árvore. Seus joelhos amoleceram. . o que está fazendo aqui? Atirou-se para ele com tanta força. Schell a passos rápidos. Emily disparou pela calçada e deu a volta na casa.Capítulo Três Emily Agosto de 1912 Birmingham Estava atrasada.

que ela deixaria tudo de lado e correria para o estádio Rickwood só para vê-lo acertar a bola com um bastão? – O que pode ser mais importante que beisebol? – Tomou-a nos braços e girou uma volta completa. trata-se de beisebol. – Daniel ergueu os braços. – Senti sua falta. – Procurei por você quando estivemos na cidade. e viviam em casas confortáveis. de Barons. o passatempo preferido da América. – Em. agora. garota tola. Por que não foi me ver jogar? – Eu tinha compromissos mais importantes. a expressão em seu semblante revelando sua paixão. de fato. mas apenas meio passo. atrás de uma bolinha branca. é por que você não respondeu às minhas cartas. Onde você esteve? – Sabe muito bem onde estive. direito de voto. Não me provoque. Ty Cobb. Um bom rebatedor ou arremessador pode ganhar um salário decente nos dias de hoje. em um mês. ou no gramado ao lado do diamante de beisebol. Havia um grande “B”. Dizem que ele está ganhando uma fortuna. Pressionou o rosto ao dela. educação. Nap Lajoie. Emily se desvencilhou da mão dele. E está cando cada vez melhor. fazendo a determinação de Emily em continuar zangada se dissipar. arrepiando quando os dedos dele roçaram sua pele. Onde esteve? – Onde estive? Bem aqui. é o que estou fazendo. Já ouviu falar dessa invenção. Veio até aqui para me contar que vai assinar um contrato pro ssional de . Cinco mil dólares. Estou interessada. não ouviu? – Ora. Daniel a estava deixando confusa. estava interessada em Daniel Ludlow. bordado no boné. – E escrevi para você toda semana. o time no qual ele jogava. – Ele sorriu e empurrou o boné para trás. Cinco mil dólares por ano? O pai de Charlotte ganhava isso. A pergunta aqui. Arte. Phillip Saltonstall e o pai. Em. onde você me encontrou.– Procurando por você. manipulando-a com seu charme. mais ainda. antes de voltar a colocá-lo. Cy Young. – Daniel brincou com uma mecha de cabelo que se soltara e encaracolava junto ao pescoço de Emily. – Muitas coisas são mais importantes que beisebol. – Emily empurrou Daniel para longe de si quando ele a pôs no chão. e Emily passou os braços em torno de seu pescoço. não em motéis de beira de estrada. Ele acreditava. – Novas regras estão sendo estabelecidas e temos mais ligas. – Não me interesso por Cy Young ou Ty Cobb. por que não escreveu? E existe uma coisa chamada telefone. teatro. ou mais. Emily virou-se. deixando os lábios que procuravam os seus beijarem o ar. aprender com mamãe como administrar uma casa. – É o maior esporte do mundo. ajeitou os cabelos com os dedos. Sou um pobre jogador de beisebol. não em ônibus velhos. Eles andavam em Oldsmobiles. ou melhor. jogando para o Tigers. – Se sentiu minha falta. Onde já se viu homens adultos correndo o dia inteiro na terra. – Tirou o boné. Estrelas estão surgindo. Ela prendeu a respiração. Em. minha jovem. Não posso pagar chamadas telefônicas. – Veio até Highland para me interrogar? Por que não assisti aos seus jogos? Por que não escrevi? Foi você quem embarcou naquele ônibus velho e foi embora com quatorze homens malcheirosos para jogar um jogo bobo.

mas por enquanto – o brilho dos olhos azuis derreteu os últimos resquícios da ira de Emily –. mas Emily se afastou.. Foi por isso que parei. cruzou os braços e fechou o coração. ela soltou as amarras de seu coração. Ele cheirava a sabonete e algodão lavado e aquecido pelo sol. Papai e Phillip. – Escrevi para você todos os dias. de Memphis. quando ele a puxou para si. Na verdade – Daniel virou-se e en ou as mãos nos bolsos. tocando seu queixo e abaixando a cabeça para tá-la nos olhos. vou trabalhar no Instituto Pollock Stephens. – Mas não tive notícias suas durante cinco meses. nós perdemos para o Turtles. sorrindo. provocando arrepios em Emily. Devo dizer que isso quase me faz deixar de respeitá-lo. Pertencia a outro homem agora.. mas era Daniel parado à sua frente.. um dia. – Conte-me o que o fez decidir abandonar o beisebol – mudou de assunto. se fosse honesta. – Bem – Daniel começou. – Phillip? – Daniel indagou. Não estava preparada para ter aquela conversa naquele dia. bebendo. o prazer de golpear a bola com o taco. e os rapazes caram muito irritados. – Minha alma mater? Fazendo o quê? Dando aulas? – Daniel estava voltando para casa. seria ótimo se eu pudesse comprar meu próprio time. Quem é Phillip. E quanto à sua chance como batedor.milhares de dólares? Emily endireitou as costas. não estou ganhando milhares de dólares jogando beisebol. Nem nunca. – Eu? – Emily se viu indefesa diante dos avanços de Daniel e. Estava de nitivamente atrasada para o jantar agora. Daniel não sabia de nada. Daniel. xingando. Não tenho com quem jogar croqué. Emily? Você. Nem mesmo um cartão postal. – O que importa. é que estou em casa agora. Nem amanhã. – Emily se aninhou junto a ele. tentando vender a Daniel o sonho dele mesmo. devagar e deliberadamente. – Acariciou os ombros dela e beijou-a na testa. – Nem com quem praticar as novas danças. – Parou de falar no mesmo instante. e o ônibus cheirava como esgoto depois de um verão quente e seco. e comecei a me perguntar: “Por que pre ro estes marmanjos à minha garota favorita?”. – Senti tanto a sua falta. Daniel. Phillip. – Quando isso aconteceu? Mal posso acreditar que desistiu do jogo que ama tanto. tentando distraí-lo das perguntas sobre Phillip. Não foi isso que você disse que gostava tanto no jogo? Emily golpeou o ar com um taco imaginário. os olhos xos nos dela. Adoro o jogo e.. E enviei todas as cartas. Nenhuma carta. cruzou os braços e esperou. – Não. eu juro. eu mesmo. querida. em uma rodada dupla. – Não achei que prestasse atenção ao que eu dizia nas noites em que passeávamos pelo campus . Daniel. a pulseira do relógio de ouro re etindo o brilho do sol –. O que deu em você para fazer uma coisa dessas? – Não sabe. Emily? – Mas você ama o beisebol. de “sentir a madeira lascar”. Estavam fumando. Ah.

púrpura. nem tenho notícias suas. Consegui um emprego e um apartamento espaçoso no condomínio Ridley. ao querido Daniel. Ele a observava sorrindo. teria levado você ao cinema ou a um restaurante so sticado. – Estudoua por um instante. quando eu pensava em você. – Daniel acenou com o boné na direção da grande casa de pedras. lembrando-a de que a mãe serviria o jantar em breve. – Você não precisa parecer importante para mim.. Emily. – Me ama? Como pode me amar? Não o vejo. – Mesmo assim. Ela deslizou do assento de madeira e tentou passar por Daniel na direção do pátio.. Seu estômago roncou. Emily. muito bom para casais apaixonados . – Não amo o beisebol..da faculdade. – Você realmente não recebeu minhas cartas? – Por que eu mentiria? Emily esquivou-se dele e foi até o balanço que pendia do olmo. enquanto seus olhos buscavam os dela. a novidade. – Sua respiração se tornou super cial e sua voz. se não fosse verdade. mas ela não podia deixar Daniel ainda. – Meu pai? – Emily desvencilhou-se do abraço. – Acha que eu diria que escrevi. desde abril. Ainda penso naquelas noites. mais grave. – Se eu tivesse dinheiro. Com um impulso dos pés na grama. quero falar com seu pai. depois de ele ter se esforçado muito para penteá-los. Emily costumava libertar os cachos rebeldes. – Eu enviava cinco ou seis cartas todo sábado. Daniel recostou no tronco da árvore. só para provocá-lo. Caminhar pela quadra era um ótimo passeio. Então ele segurou o balanço e chegou perto dela. colocou o balanço em movimento. mas ele a aprisionou em seus braços. é um lugar decente. – Condomínio Ridley? Estaria ele planejando pedi-la em casamento e levá-la a morar no Ridley? – Os apartamentos no Ridley são ótimos. que era o tempo todo. Daniel Ludlow. Emily? Daniel tirou o boné. e não oferecia nenhuma ideia de como contar a Daniel. O entardecer de agosto oferecia uma explosão de cores: rosa.. – O que está me escondendo? – ele insistiu. se você não tiver nada contra – ele acrescentou. – Eu gostaria de ir até sua casa mais tarde. Eu adorava nossos passeios noturnos. onde uma fatia do dia ensolarado parecia cobrir o telhado escuro. Amo você. – Eu também. Emily impulsionou o corpo e o balanço foi ainda mais alto. deixando os cabelos castanhos espessos cobrirem sua testa. assim como seus pensamentos. – O que um pobre estudante pode fazer com uma garota bonita como você? Beisebol era só o que eu tinha para me fazer parecer importante. – Não recebi suas cartas. – Mas estou aqui agora. continuo sentindo a mesma coisa. O pânico apertava o peito de Emily. Daniel. laranja e azul. – Ouvi cada palavra. e foi por isso que deixei o beisebol. – Virou os bolsos pelo avesso. mas seu olhar repetia a pergunta cada vez que encontrava o dela: “Posso visitar você mais tarde?”. Não são mansões como a casa de seu pai. Jogar não fazia mais sentido. Com ou sem cartas. pedindo que você esperasse por mim.

– Emily apertou as mãos. Um misto de tristeza e confusão tornou a expressão no rosto dele sombria. não chegamos a nenhum tipo de entendimento. Tenho planos de.. em maio. mas pensei que havia conhecido uma garota que sabia o que queria e era dona de si e escolheria a vida e o marido que amasse. Emily se aproximou de Daniel. Daniel. Daniel desviou o olhar.. Nada mais. Não pretendo ser professor para sempre.. – Phillip. – Nós éramos. não estava. não amor. Os olhos de Emily se encheram de lágrimas quando ela viu o nariz de Daniel car vermelho. – É exatamente o que estou fazendo. você sabia quem eu era. – Mas você foi embora – Emily declarou.começarem uma nova vida. me ouça e me leve a sério por um momento. – Phillip e eu nos reencontramos no baile Preto e Branco. – Como eu poderia pedir que se casasse comigo. Por favor. – Daniel segurou os ombros de Emily com delicadeza e a virou para si. Não. – Do que está falando? Que Phillip? Pensei que tínhamos um entendimento. amigos de faculdade. mas voltou a recolhê-la antes de tocá-lo.. – Não. – Desistiu de mim assim tão rapidamente? – Daniel. e sempre seremos. Emily. Tomando coragem. fomos juntos a alguns bailes e eventos sociais da sua fraternidade. e ela cobriu um soluço e os lábios trêmulos com a mão. Por favor.. de onde vinha e que expectativas pairavam sobre mim.. Ora. – Entendo. quando eu estava partindo em um ônibus caindo aos pedaços? Mesmo assim. mas. éramos muito mais que isso. Em? Pensei que estivesse claro que nos amávamos e queríamos ficar juntos. como poderia contar a ele? – Passei cinco meses fora. . Acreditei que íamos nos casar. Um casamento envolve muito mais que lembranças de faculdade. nenhuma promessa. Somos a escolha certa. ela não o traíra. Passara os últimos cinco meses dizendo a si mesma que o que tivera com Daniel fora apenas uma paixão juvenil. recolocando o boné na cabeça. Nossas famílias são amigas há anos.. – Mas não fizemos nenhuma declaração de verdade. – Sabia. Temos os mesmos. – Contatos sociais? A mesma riqueza exuberante? – O tom de súplica afetuosa deu lugar à acusação amarga. fizemos alguns passeios pelo campus. estava subentendido... Daniel. concorde comigo. – Quando nos conhecemos. risos despreocupados e afeto juvenil. um para o outro.. Foi por isso que abandonei o Barons e voltei para casa. Precisamos conversar sobre Phillip. – Phillip e eu. perguntando-se se suas palavras soavam convincentes. Emily. – Daniel. uma contra a outra. virando-se para não ter de encará-lo. não cinco anos. Você realmente acreditou que nós nos casaríamos? – Estendeu a mão.

está apaixonada por ele? – A voz de Daniel soou levemente trêmula. – Parou de falar. – Estou aqui agora. Vou provar que tenho mais valor que Saltonstall. – Uma ação que estou disposto a realizar. Afinal. Daniel. – Ele recuou um passo. ou enlouquecia de amor por você.. – Ele é muito o quê? – Emily cruzou os braços. – Respeitado? Saltonstall? – Daniel solou uma risada baixa e fria. – Mas pode fazer comigo? – Daniel indagou. – Não tenho nada a dizer. Emily.. Amor é uma coisa subjetiva. Apoiou-se nos galhos do pinheiro sem se importar com as agulhas que espetavam sua mão. Phillip é um homem maravilhoso. Quero amar você pelo resto da vida. – Cerrou os dentes e confessou: – Foi a coisa mais difícil que tive de fazer em toda minha vida. orando para que o vento carregasse suas palavras e o confortasse. ela podia ver o arfar de seu peito. dois e.. Sentindo o calor arder em seus lábios e em seu coração. – Diga o que tem a dizer. eu. mas não seu coração. – Você me deixou. segurou-a pelos ombros e a beijou com paixão e ternura. educação. – Daniel. em vez de correr pelo gramado. Está tudo acabado entre nós.. Trata-se de um verbo que indica ação. Emily observou-o correr até a montaria e cavalgar para longe. – Não posso fazer isso com ele. Eu não tinha escolha: ou seguia adiante com minha vida. um dia. – Fomos só isso? Diversão? Diga-me. você parece saber tanto. partiu apressado. . lugares onde. ertando com o cavalo de Daniel. sentir as batidas de seu coração. Em.. sua riqueza. eu o amo. Daniel – murmurou baixinho. – Ele estendeu a mão para acariciar o rosto dela. então. ele se lançou para frente.. Mesmo a alguns passos de distância. amarrado à cerca. – Sim. – O sentimento brotou de algum recanto em seu coração. Emily afastou-se. – Não. – Adeus. e ele recuou um passo na direção do cavalo preto e castanho. juntando os lábios em uma linha dura. é muito.. sua família. sentindo a irritação se misturar a suas lágrimas. a brisa refrescando sua pele. Sou um homem em quem ele pode con ar para entregar a filha. – Ele tem muitas. os sentimentos expostos nas linhas de seu rosto. educado e respeitado na cidade. afável e atencioso. seja lá o que for que isso significa. A égua do pai de Emily havia en ado a cabeça para fora de sua baia. O som dos cascos ecoaram nos recantos vazios de seu coração. Porém.Ele deveria saber que uma moça como Emily tinha de considerar sua posição social. – Sinto muito. Estou disposto a falar com seu pai agora mesmo. não concorda? – Não.. ela acreditara que seu amor por Daniel Ludlow florescia. – Vou dizer o que ele realmente é. culto. Emily... Daniel. Phillip Saltonstall é um.

Tarde demais. Daniel Ludlow chegara tarde demais. simplesmente. . Seria melhor assim. porém. chegara tarde demais. Emily havia comprometido seus sentimentos e sua mente ao casamento com Phillip Saltonstall.Daniel.

Capítulo Quatro
Parada junto à pia da cozinha, Emily bombeava água sobre os dedos, enquanto as últimas
lágrimas pingavam de seu queixo para a pia e desciam pelo ralo.
Os raios vermelho-dourados do sol das cinco da tarde penetravam as copas das árvores e
deixavam sombras estreitas e escuras no chão. O perfume suave das madressilvas entrava pela janela,
trazido pela brisa que agitava de leve as cortinas.
Jogando água no rosto, Emily esfregou os olhos, afastando assim o calor das lágrimas e a
imagem de Daniel. Como ele se atrevia a voltar e interromper sua vida? Phillip logo chegaria para o
jantar e ela tinha de se recompor.
Pegou uma toalha da barra debaixo da pia e secou o rosto. Se Daniel havia mesmo enviado
cartas, o que acontecera com elas? Onde teriam ido parar?
– Então, está aí, senhorita. – Molly entrou na cozinha, vindo do quintal, o avental carregado
de tomates. – Estive à sua procura. Aonde foi depois da reunião? O que achou? Está pronta para
sair na marcha pelo direito de voto?
– Não sei, Molly. Tudo parece tão... Mamãe procurou por mim? – Emily permaneceu de costas
para a criada, ainda se recompondo. – Está quente, hoje, não?
– Um forno. Sim, se-nho-ri-ta, um for-no. – A maneira cantada com que Molly pronunciou as
palavras alertou Emily. A criada tinha um segredo. – Sua mãe não esteve à sua procura.
– Molly, você me viu lá fora? – Emily perguntou, dobrando a toalha e pendurando-a na barra.
– Ah, não sei. – Molly despejou os tomates na pia. – Acha que tenho tempo de car olhando
pela janela para poder ver a senhorita beijar um rapaz que não é o Sr. Saltonstall?
– Ora, Molly, você viu! – Emily deu a volta na mesa para encarar Molly de perto. – Ele me
beijou. Eu não o beijei.
– Pois, para mim, pareceu que a senhorita estava beijando o rapaz, sim.
– Eu não estava beijando ninguém. Ele, simplesmente... Me agarrou.
Emily deu um tapa na tábua sobre a qual Molly trabalhava. A criada era cinco anos mais velha
e, com vinte e sete anos, era mais como uma irmã para Emily.
Quando sua mãe a contratara, Molly tinha dezesseis anos e acabara de chegar da Irlanda, com
nada além de uma muda de roupas na mala pequena. Uma tarde, a Sra. Canton fazia compras no
centro da cidade, ouviu Molly pedir emprego e cou horrorizada quando o comerciante vindo de
Boston, que não gostava de irlandeses, ridicularizou e rejeitou a jovem com crueldade. Sem hesitar,
ela contratou a moça no mesmo instante.
Naquela noite, durante o jantar, a Sra. Canton dissera ao marido:
– Uma garota bonita como ela deveria estar nos salões de baile. Que acusações teria o bom
Deus contra mim se eu permitisse que tamanha injustiça acontecesse, quando fazer o bem estava ao

meu alcance?
– Daniel me beijou, está me ouvindo?
Emily aproximou-se e segurou a criada ruiva pelos ombros.
– Por Deus! – Molly desvencilhou-se de Emily e arregalou os olhos castanho-claros. – Aquele
era Daniel? Onde ele se escondeu nesses cinco meses, enquanto deixou a senhorita chorando no
travesseiro?
– Eu não chorei no travesseiro, Molly. De onde tira essas ideias?
– Tenho ouvidos, não tenho? E Big Mike é capaz de ouvir um passarinho mastigando uma
minhoca, sabia?
Molly pegou a faca e cortou o primeiro tomate em quatro pedaços, para, então, jogá-los em
uma tigela.
O quarto de Molly cava exatamente embaixo do de Emily. E Big Mike, o cavalariço do Sr.
Canton, entrara no estábulo uma tarde, quando Emily havia subido ao palheiro para esconder suas
lágrimas no feno.
– Ele disse que me mandou cartas – Emily contou, sentando-se no banquinho. – Veio aqui,
hoje, para me dizer que abandonou o beisebol, arranjou um emprego e alugou um apartamento.
– Você disse “cartas”? Ora, veja que sujeira. – Molly apontou para o suco do tomate na tábua
de cortar. – Esta faca deve estar mais cega que...
– Não há nada de errado com a faca, Molly. – Emily pousou a mão no braço da criada. – Não é
você quem pega a correspondência todos os dias?
– Senhorita, se quer uma lista completa das minhas tarefas domésticas, vá falar com sua mãe.
Preciso preparar o jantar. – Molly desviou o olhar, desvencilhando o braço da mão de Emily. – O
que seu pai vai dizer, se a torta de tomates e a salada de verão não estiverem na mesa?
– Molly, comece a falar.
Ignorando-a, a outra cortou mais um tomate com gestos rápidos, e cerrou os lábios numa
linha fina e pálida.
– O que aconteceu com as cartas de Daniel? – Emily insistiu.
Corta, corta, corta.
– Nada como uma salada caprichada em uma noite quente de verão. Encomendei sorvete para
a sobremesa de hoje. O Sr. Saltonstall vai jantar aqui, sabia? Aliás, eu acho que ele...
– Onde elas estão, Molly?
Molly assassinou com violência um pobre tomate inocente.
– Ah... – Emily levou a mão ao peito. – Papai. Ele... Diga que ele não as jogou no incinerador.
Só então, Molly a encarou com um brilho travesso no olhar.
– Pense em seu pai, Emily. Acha que ele faria uma coisa dessas?
– Eu diria que não, mas por que ele pegou as cartas? Ou foi minha mãe?
– Misericórdia, não. Não foi sua mãe. Um dia, ela vai virar santa por ter salvado minha vida.
Emily ocupou-se com o coque já frouxo, retirando os grampos longos e deixando os cabelos

caírem livres sobre seus ombros e controlando a raiva que sentia do pai por ele ter escondido sua
correspondência pessoal. O que não era do feitio dele.
– Molly, onde estão as cartas?
A porta da cozinha se abriu e Jefferson, assistente do Sr. Canton, entrou.
– Srta. Emily, seu pai está à sua procura. – Jefferson vestia terno claro e gravata, e o suor
encharcara sua camisa e manchara o colete. – Ele está na biblioteca.
– Qual é o humor dele no momento, Jefferson? – Emily indagou, roubando uma fatia de
tomate da salada e olhando para Molly.
– Ele me pareceu muito alegre, Srta. Emily, com certo brilho no olhar.
– Ótimo. Estarei lá em um minuto. – Ela se virou para Molly assim que Jefferson saiu. – Não
terminei com você, Molly.
– Esqueça isso, senhorita – Molly pediu, segurando-a pelo braço. – É leite derramado. Pense no
Sr. Saltonstall – acrescentou em tom suave e sonhador. – Ele é um homem atraente e educado,
perfeito para a senhorita e para seu nível social. Ele a adora, ouve fascinado cada palavra sua. O Sr.
Ludlow também é um bom moço, tenho certeza, mas seu pai trabalhou duro para lhe dar esta vida,
com tudo de melhor que existe. Por que se casar com um homem comum como Daniel Ludlow,
quando Phillip Saltonstall a corteja? O amor só dura até o momento em que falta comida na mesa,
ou dinheiro no banco, e as crianças começam a chorar. Acredite, eu sei o que estou dizendo.
Emily considerou as palavras de Molly enquanto se dirigia à porta.
– É melhor eu me casar com Phillip, não é? Ele é gentil, atencioso e... Educado.
Assim como Daniel.
– Educado em uma das melhores universidades do norte, aliás. Yale.
– Phillip é bonito e inteligente. – Assim como Daniel, mas fazer uma lista dos atributos de
Phillip ajudava bastante. Que memória curta que ela tinha. – Será um pai excelente. – Mas Daniel
também seria um pai rme e amoroso. – Nossos pais se adoram, e faremos com que se mudem para
Red Mountain – Emily acrescentou, fortalecendo o argumento.
– Acho que a senhorita sabe o que fazer.
Sim, ela sabia.
A mãe de Daniel morrera quando ele tinha quinze anos. O pai era policial em Birmingham e
deixava, com frequência, Daniel e o irmão sozinhos. Mesmo assim, Daniel se saíra bem. Terminara a
faculdade, jogara beisebol, conseguira emprego como professor na escola mais prestigiosa da cidade
e, ainda, alugara um apartamento no respeitável condomínio Ridley.
Phillip, porém, era herdeiro da fortuna dos Saltonstall. Seria um dirigente de empresas, um
líder em Birmingham. Emily se envolveria na liga das mulheres ou qualquer instituição de caridade
ou causa que escolhesse. Poderia realizar os desejos de seu coração, inclusive uma propriedade em
Red Mountain do tamanho de quatro condomínios Ridley.
– Sim – falou em voz alta. – Phillip é a escolha lógica. A melhor escolha em nome da harmonia
geral.
– Bom, co contente que tenhamos esclarecido esse ponto. Agora, vá ver o que seu pai quer e

saia da minha cozinha. Está me distraindo, e sua mãe vai querer saber por que o jantar não está
pronto. – Lágrimas brotaram nos olhos de Molly. – Estou feliz pela senhorita.
Emily parou diante do espelho do corredor, ajeitou os cabelos e prendeu os grampos no cinto.
Arrumou a blusa e alisou a saia com as mãos, satisfeita pela constatação de que não restava qualquer
evidência de suas lágrimas. Depois de atender ao chamado do pai, trataria de se lavar e trocar de
roupa para o jantar.
O sorriso lacrimoso de Molly voltou de súbito à sua mente. Estou feliz pela senhorita. Por que
tanta emoção pela decisão de Emily de que Phillip era a melhor escolha? Não tinha tempo para
refletir sobre a questão, pois já estava diante da porta da biblioteca.
– Boa tarde, papai.
Emily entrou no aposento espaçoso e fresco sem bater. Seu pai passava as manhãs em seu
escritório, no banco e, à tarde, voltava para casa e trabalhava no conforto de sua biblioteca. Lá fora,
algodoeiros protegiam as janelas grandes dos raios do sol poente.
– Emily, querida – o pai cumprimentou, levantando-se.
Porém, não estava sozinho. Phillip também se levantou quando Emily entrou.
– Phillip, você aqui – ela murmurou surpresa, juntando os cabelos na nuca e pensando que sua
aparência devia estar horrível. Depois de tê-lo encontrado na cidade, havia voltado para casa no
bonde empoeirado. – Não esperava vê-lo tão cedo. – Lançou um olhar furioso para o pai. – Por que
não mandou Jefferson me avisar?
– Vim mais cedo para conversar com seu pai – Phillip explicou.
Estava bem vestido e perfumado e parecia seguro e con ante com aquele eterno brilho
divertido no olhar. Aproximou-se dela e beijou-lhe a face com um cavalheirismo que não
apresentava quando estavam sozinhos na carruagem.
Emily foi receptiva, embora o perfume e a força musculosa de Daniel ainda estivessem vivos em
sua lembrança. Segurando os braços menos poderosos de Phillip, ergueu os olhos para ele e limpou
a garganta, antes de dizer:
– Está cheirando como uma loja de perfumes caros.
– É um perfume que comprei quando estive em Paris no ano passado. Você gosta?
– É a sua cara, Phillip. Muito rico.
No entanto, ela preferia o cheiro de Daniel, o aroma limpo de sabonete comum.
– Bem – O Sr. Canton limpou a garganta e se dirigiu para a porta –, preciso telefonar para o
escritório. Com licença.
Emily observou o pai sair, sentindo um aperto no peito. Assim que a porta se fechou, Phillip a
puxou para si e a beijou. Quando ergueu a cabeça, apontou com o queixo na direção da
escrivaninha.
– Acha que devemos avisá-lo de que o telefone fica aqui mesmo?
Emily apertou a mão dele.
– Acho que ele sabe disso.
O que estava acontecendo? Seu pai deixando-a sozinha com Phillip. O beijo ardente...

– Pedi sua mão em casamento a seu pai. – Você está me aterrorizando. . – Phillip retirou do bolso do paletó uma caixinha de madeira. – É platina. alimentando a chama que acendera pouco antes. como tocá-la. seu dedo deslizando pelo queixo e pescoço de Emily. para mim. E se seu pai voltasse e a encontrasse corada e ofegante? Além disso. – Ora.. Era como se ele soubesse. eu a acompanhei ao baile Preto e Branco e. segurou o rosto dela entre as mãos. Seus movimentos eram calculados e astuciosos. Emily se afastou da mão de Phillip. Sim. – A reunião foi. as carícias de Phillip. esplêndida. – Já ia me esquecendo de perguntar: como foi a reunião pelo direito de voto? – Foi. – Encontrei isto em uma loja de Paris no outono passado. Acomodado no forro de seda da caixinha havia um anel com um diamante quadrado de um quilate.. Phillip colocou o anel no dedo de Emily. Phillip. soubesse.. Phillip acariciou o rosto de Emily.. Então. ao nal da noite. Assim que o vi. – Ele estendeu a mão para ela e a puxou de volta para o assento a seu lado. E as pedras menores também são diamantes. – Gosto dos seus cabelos soltos. mas ainda não sabia quem era ela. sabia que me casaria com você. tando-a nos olhos.. ela acabaria derretendo e se transformando em uma poça. E o canto de seus lábios.. – Você é tão linda. As pedras extravagantes absorveram a luz que entrava pela janela. – Phillip voltou a acariciá-la. – Emily engoliu seco.. Phillip ajoelhou. que provocava ondas de arrepios por seu corpo. não? Se ele continuasse a tocá-la daquela maneira. Estou tentando agir como uma dama... – Emily apertou as mãos contra o peito em expectativa. Foi por isso que vim. E o coração de Emily. ele agora beijava seu nariz. – E um homem resiste menos ainda. esplêndida. Phillip ergueu o anel. – Emily Canton.. secando o suor da testa com a mão. soube que pertenceria à mulher da minha vida. redirecionando-a em um arco-íris que coloriu a parede.. minha querida. – Levantou-se de um pulo. – Mal posso respirar – ela murmurou.Conduzindo-a à namoradeira junto à janela. mas nem mesmo uma mulher cristã e educada pode resistir tanto. Phillip. Sua mãe a educara para ser uma dama controlada e reservada. cercado de pedras menores. – Estou usando um vestido comum e. – Então.. – Estou horrível! Eu pretendia trocar o vestido e prender os cabelos antes de você chegar.. – Está. quer se casar comigo? Com essas palavras. afastando-se dele apenas uns poucos centímetros. Deve usá-los sempre assim.. Está quente hoje. Ah. O que Phillip pensaria se ela se rendesse aos seus avanços com tamanha facilidade? – Desculpe se a estou deixando nervosa.

Phillip segurara seu rosto entre as mãos e a beijara em despedida. haviam dançado na varanda. Molly mantinha o roupão fechado até o queixo. todas as dúvidas. naquela noite.– Sim. Especialmente depois que ele e o Sr. Inclinando-se para espiar. O relógio de pêndulo no vestíbulo anunciou a chegada da meia-noite. à luz do luar. com um anel assim. – Molly. O banco de seu pai se beneficiaria muito com um cliente como Cameron Saltonstall. Ora. A noite havia superado até mesmo sua noite de Natal predileta. acabando de fechá-la. quando ele a tomou nos braços. todas as lembranças de Daniel escaparam pela porta aberta de seu coração. com o brilho das estrelas em seus olhos. ela viu Molly saindo da cozinha na ponta dos pés. Estava noiva de Phillip Saltonstall. – Ele lhe deu um anel bonito? – Veja você mesma. e ao ouvir as baladas da meia-noite. seu pai estivera tão feliz a noite inteira. Quando os Saltonstall chegaram para a comemoração em família durante a sobremesa. – É bom fazer negócios em família. E a mãe. Emily pensou que ia explodir de felicidade. o som que mais agradara os ouvidos de Emily fora a risada radiante de seu pai. Saltonstall. Phillip! Atirou-se para ele e. – . Eu não podia dormir enquanto ele não fosse embora – a criada respondeu em um sussurro. erguendo-a do chão. Os Saltonstall haviam se mostrado satisfeitos e orgulhosos. e os cabelos enrolados em papelotes tornavam sua figura ainda mais cômica. que não escondera o prazer que o acontecimento proporcionava a ele. Emily se virou na direção da escada no momento em que a porta no nal do corredor rangeu. o que está fazendo acordada? – perguntou e caiu na risada quando a criada pulou de susto. Howard. – Cuidando da senhorita. permanecendo junto dela todo o tempo. Ele fora tão meigo e carinhoso. – Phillip fez excelente escolha – aprovara o Sr.. – Santo Deus! Eu poderia comprar uma vila inteira. Ah. Saltonstall desapareceram na biblioteca e voltaram apertando as mãos. voltara para casa pela primeira vez depois de seu primeiro ano em Harvard. e o marido olhava para o outro lado. aproximando-se de Emily. soube que o anel pertencia a mim. – Emily estendeu a mão para ela. Emily apoiou-se na porta. sim. tão alegre e despreocupada. Howard Jr. Então. Poderia haver noite mais sublime? Emily ergueu a mão com o anel de noivado para admirá-lo à luz do lampião a gás. Canton tocava piano e cantava. roubando-lhe beijos sorrateiros enquanto a Sra. Era lindo. segurando-o rmemente com as mãos. Depois do baile Preto e Branco. – Disse que comprou quando esteve em Paris. – Excelente. muito mais do que ela jamais imaginara. quando seu irmão. O planejamento da festa de noivado já se iniciara. em minha terra. No entanto.

e o sabor me agrada. senhorita? – Leite? Por que eu tomaria leite agora? Molly agia de maneira estranha às vezes. Lembra-se de quando tínhamos uma vaca. nosso leite é entregue por um homem em uma carroça cheia de gelo. – Não vai lá agora. então. eu mesma pegaria. Molly? Sei que não gosta de leite. – Emily aproximou-se de Molly e agarrou-lhe o braço. – As cartas de Daniel – concluiu. Não há nada naquele estábulo. senhorita? Bessy. como minha vovó Killian. Emily só conseguia discernir a expressão no rosto de Molly pela luz pálida do luar. então? – Ele é meu patrão. – Molly ergueu o copo. – O que está tentando me dizer? – Só que a ouvi chorar. mas não bebeu nem um gole. pegar os copos no armário. – O palheiro. Emily abriu a gaveta onde Molly guardava os fósforos. de dia e de noite. – Quem sabe ele não leve a senhorita para Paris na lua de mel? – Sim. vai. a senhorita chorou por Daniel Ludlow em seu quarto – a criada lembrou e se virou para voltar à cozinha. – O estábulo! Papai escondeu as cartas no estábulo? Molly a encarou por cima da beirada do copo. quando papai pode decidir tirá-las de lá? Emily acendeu o lampião. Já ouvi você dizer isso uma centena de vezes. vacas. Tenho saudades do leite fresco. Quer um pouco de leite. O que está tramando. . Confesso que não tenho saudades de ordenhar a velha Bessy. – Onde estão? Na biblioteca? – Não acredita que ele as esconderia lá. – Tem certeza de que não quer leite? Retirou a garrafa de leite da geladeira e a colocou na mesa para. – Molly.Molly examinou o anel e ergueu os olhos para Emily. Na cozinha escura. – Tem certeza de que não quer um copo de leite? Leite faz bem. Põe manteiga no meu pão.. Era uma velha teimosa. – Onde. senhorita. Agora. recém-tirado das vacas. O lampião já esperava junto à porta. bobagens. – Emily recolheu a mão e estudou o diamante. – Ergueu os olhos para Molly e as duas se encararam por um instante. cartas. pare de falar de. – Na semana no baile Preto e Branco. sorrindo. Ela mugia o tempo todo. – Eu ainda o amava.. além de cavalos malcheirosos e um velho palheiro coberto de mofo. acredita? Molly levou o copo aos lábios. é possível. – Mas a senhorita gosta. mas isso mudou. fazendo o leite respingar do copo para a mesa. – Emily correu atrás dela. – O que foi? Diga. senhorita? – Por que esperar até amanhecer. – Se quisesse leite. – Ficaremos um mês. – Não sei do que está falando.

mas um pequeno brilho chamou sua atenção. com um pequeno fecho de latão. Emily depositou o lampião na mesa e tomou fôlego para soprar a chama. Dawson. devolveu a chave à mesa. Seu pai mantinha dúzias delas na segunda gaveta de sua escrivaninha. ela prendeu a respiração. pegou o lampião e voltou apressada para casa. Quando suas mãos bateram em uma caixa de madeira. Foi até o canto mais distante da escada e ajoelhou. Não havia pensando no que faria se realmente encontrasse as cartas. balançando no ar. apagou o lampião e subiu silenciosamente para seu quarto. Se fosse escondê-las. para então guardá-las em um canto. Molly e o Sr. Emily soltou o trinco e abriu a porta.. Molly! Emily destrancou a caixa.. . Onde seu pai esconderia as cartas? Examinou as paredes. Ora. à procura de armários ou portas escondidas. procurando em meio ao feno. abrindo espaço para o lampião. A criada fechou a porta. como sabe que o feno está seco? – A senhorita não é a única que tem um amor no coração. Uma chave pequena. Molly deu meia-volta e. a chama do lampião se agitando na noite. Teria de levá-la para dentro. Uma chave. senhorita. Sabia onde encontrar a chave. O feno está seco e pode se incendiar com facilidade. – Molly. assobiando.– Cuidado. se fosse necessário. Sr. O estábulo de seu pai era imaculado. ela afastou o feno. En ou a caixa debaixo do braço. dessas que trancam caixinhas de madeira. Emily tentou. Os pedacinhos de feno presos à sua saia foram se soltando e caindo na baia lá embaixo. voltou para seu quarto. – Que direito tinha papai de esconder minhas cartas? No topo da escada. pensou. Ao chegar ao estábulo. Abençoada seja. Com isso. outras cinco à esquerda. cobertas de feno. Era uma caixa simples.. mas não conseguiu abri-la. Cinco baias à direita. porque estava trancada. Passaria a noite em claro. Dawson. Na cozinha. Os cavalos ergueram a cabeça ao ouvirem Emily marchar na direção da escada para o palheiro. Tive uma noite de amor com o entregador. ela as guardaria em uma caixa ou bolsa. feita de cedro. – Molly. e Emily atravessou o quintal sorrindo. separadas por um largo corredor de chão com pedras.. Até que formavam um belo par. quadrada. Levou a caixa até onde deixara o lampião e sentou-se com as pernas penduradas. tentando encontrar a chave certa.

que mostrava uma coleção de noivas de Birmingham nos últimos seis meses. – Bem.. desde o noivado. O que Charlotte não conseguia entender era por que as noivas queriam tanto se parecer umas . ele consumia seus pensamentos durante o dia e seus sonhos durante a noite. – Ele faz você se sentir especial. perguntando-se se também se sentia assim com relação a Tim. – . – Os olhos de Kristin brilharam... Gostamos das mesmas coisas. E namoramos durante todos os anos de faculdade – Kristin completou com um suspiro e um sorriso. – Como você disse. Quando se conheceram. – Fui ao casamento de uma amiga. – Oliver? – O rubor nas faces de Kristin foi mais forte que seu sorriso. – Ele faz você se sentir especial da mesma forma que Oliver a faz sentir especial? – Sim. é óbvio. nascemos um para o outro. Somos os melhores amigos. e me apaixonei pelo vestido dela. sim. – Vocês nasceram um para o outro. Charlotte suspirou. Combinamos em tudo. Procurei em toda parte. ela segurava sua arma secreta: um álbum de fotografias. – É este o vestido que você escolheu? – Charlotte mostrou um recorte de revista com a foto do vestido que Kristin queria. Especial. até encontrar um que fosse igual. Quer que seja especial. Nosso lugar é ao lado um do outro. O que tinha de fazer no momento era se concentrar em transformar aquela cliente em uma noiva linda e singular. não é? – Mesmo depois de sete anos de namoro. Charlotte depositou o álbum na mesinha de centro. Todas elas usavam exatamente o mesmo estilo do vestido que Kristin alegava ser o seu vestido. Charlotte observou Kristin por um instante. A tonalidade de rosa pálido das paredes emprestavam uma coloração rosada ao tapete cor de caramelo e ao sofá luxuoso. o dia mais importante para você e Oliver. Mesmo no colégio. Como se completassem um ao outro. – Só terminamos uma vez... sim. porém.Capítulo Cinco Charlotte – Kristin. Sobre as coxas. Será perfeito para mim. nós nos conhecemos no colégio. Charlotte estava sentada no sofá ao lado de sua cliente. já completávamos as frases um do outro. Ultimamente. que está muito animada com o seu casamento.. posso dizer pelo brilho em seus olhos. há alguns anos. Como soube que ele era o homem certo para você? Charlotte abriu o álbum na primeira página. O vestido com o qual ela havia “sonhado desde menina”.

Charlotte tomou de volta o álbum e o fechou. se você quer este vestido. – Kristin. Charlotte inclinou-se para frente.. Kristin começou a virar as páginas. pequeno talento. – Fico com lágrimas nos olhos cada vez que vejo a foto. Con e em mim. sua vocação. se realmente o quer. Não sou uma fábrica de noivas. velha. não encomendo vestidos que estão à venda em todas as outras lojas. Se você não gostar dos vestidos que eu separar para você. – É um lindo vestido. e Charlotte continuou: – Vamos fazer uma coisa. o mesmo vestido. gorda. para então abandoná-lo no chão. Quando assistimos a um casamento de cada vez. na Malone & Co. – Bateu a mão de leve na capa do álbum. magra. O que vou fazer agora? Pensei que havia encontrado o vestido perfeito. ao lado do sofá. respirando fundo e calculando suas próximas palavras. descobrir vestidos que expressem cada noiva em particular é meu único talento na vida. aproximando-se da cliente.. a alma de Charlotte mergulhava na mais pura satisfação. ela mesma. saia evasê e cauda média. seu entusiasmo se dissipando. – Bem. – Cetim branco. – Está vendo o que eu vejo? Páginas e mais páginas. – Quer ver o que está aqui? – Deslizou no sofá. – Charlotte inclinou a cabeça para Kristin e sorriu. tomara que caia. foi virando as páginas. – Charlotte ergueu a foto como se a estudasse.. – Os ombros de Kristin vergaram. não arrasá-la. Encarou Kristin com um sorriso amável e en ou o álbum debaixo do braço com movimentos exagerados. vestir cada noiva da maneira mais exclusiva possível. meu Deus. ou melhor. apenas noivas diferentes. – Ah. Delicadamente. assim como com seu coração. e abriu o álbum sobre as coxas de Kristin. Kristin. Kristin. Como era possível que um vestido igual ao da amiga de Kristin a zesse sentir especial? Considerava sua missão. jovem. que vende o vestido que temos aqui – determinou com um . Então.com as outras. Uma loira. Essas são apenas as dos últimos seis meses. Kristin era uma cliente relutante de Malone & Co. eu mesma a recomendarei a uma amiga minha. – Onde conseguiu estas fotos? – No jornal. e estava ali somente porque a mãe insistira.. nosso trabalho e nosso prazer é encontrar um vestido que combine com seu corpo. Sua intenção era abrir os olhos de Kristin. – Nunca imaginei. Os lábios de Kristin se curvaram em um sorriso. – Por que você não pode encomendar o vestido? Eu o vi em várias lojas. Eu visto noivas de dentro para fora.. Mas aqui. deve comprá-lo na loja onde o encontrou. todas da região de Birmingham. não nos damos conta de que a maioria dos vestidos é praticamente igual. – Por favor. não me negue meu único. Kristin pousou a mão no peito e seu anel de noivado refletiu a luz que entrava pela janela. – Encontraremos o vestido perfeito para você. O brilho nos olhos de Kristin diminuiu e ela acompanhou cada gesto de Charlotte. websites. Quando uma noiva provava o verdadeiro vestido perfeito. uma morena.

– Vai ajudar Charlotte a escolher o próprio vestido? – Ah. assim que conseguira recuperar a voz. Mas posso encontrar algo exclusivo e lindo. – Kristin – Charlotte xou o olhar em Dixie –. – Charlotte? – Dixie indagou.. – Só não me ponha em uma lista dos vestidos de noiva mais feios. todas de uma só vez. Lançou um olhar zangado para Dixie. Vai me dar um voto de confiança? – Sim. abaixando-se para apanhar o álbum. mas ela ainda não o fizera. Dixie insistira para que provasse o vestido. – Nenhuma de minhas noivas jamais fará parte de uma lista de vestidos feios. Chegou de Paris esta manhã. que encarava Charlotte com expressão irônica. Charlotte girou o anel em torno do dedo. Charlotte. deixando os braços caírem ao longo do corpo. – Minha mãe insistiu que eu viesse conversar com você. Kristin segurou sua mão. e você também quer car bonita. e Charlotte ficara boquiaberta. É sobre Kristin – Charlotte lembrou. – É lindo. Charlotte prometera que cuidaria do assunto. a expressão . Quando Charlotte se levantou. o vestido teria de fazê-la sentir como Cinderela. – Entendo como se sente com relação a esse vestido. – O anel pertenceu à avó de meu noivo. Naquela manhã.tapinha no recorte de revista que Kristin trouxera consigo. acho que tenho um vestido na loja que caria perfeito em você. A mudança do foco de atenção de Kristin para ela fez com que desejasse esconder os sentimentos a qualquer preço. – Kristin apertou o braço dela. – Passou um dedo pela imagem no foto. estudando a postura de Kristin. Todas as suas amigas caram lindas no mesmo estilo. Charlotte. Charlotte tinha de senti-lo. – É caro demais. E cumpriria a promessa. princesa Diana e Kate Middleton. – Estou disposta a provar outro vestido. mesmo com meu desconto de revendedora – ela determinara. Charlotte riu. Juro. não sei. sorrindo para Dixie. Ao preço de oito mil dólares. – Está noiva também? – Sim. Dixie lhe mostrara o novo modelo do gurinista Bray-Lindsay. estou. Disse que eu poderia encontrar algo melhor que isso.. mas ela estava sorrindo. – Esta sessão não é sobre mim. A sócia a atormentara a semana inteira. Sim. O diamante criou um redemoinho de cores. vou ajudar você a escolher seu vestido? – Dixie cruzou os braços e soltou as rédeas de seu sarcasmo. Acha que consegue encontrar o vestido certo para mim? – Seus olhos exibiram o brilho das lágrimas. Como explicaria um vestido de oito mil dólares a Tim? Ele já cara furioso pela compra do baú de mil dólares. Nunca vi um anel assim – Kristin elogiou. insistindo para que ela escolhesse um vestido de noiva. que acabara de chegar de Paris. Charlotte se acomodou no sofá.

É perfeito para Kristin. se dissipou quando Dix nem sequer sorriu. Isso não é normal? – Um dia desta semana? É mesmo? É a terceira vez que ele promete passar por aqui “esta . falando nisso.sarcástica se transformando em uma careta. O Bray é a mistura perfeita de simples e sofisticado. – Você o encomendou para mim. tropeçando escada abaixo. Francamente. a voz carregada de expectativa. Eu adoraria ver esse Bray-Lindsay. Dix. Nós o encomendamos para você. Além de divertida. Charlotte. Sua alegria. ainda não escolheu seu vestido. levantando-se de um pulo. Dix. há salgadinhos e bebidas no bufê. por favor. – Meus pais pagarão o que quer que eu escolha. como pode duvidar de mim. – É um tanto caro. aderia a suas curvas nos lugares certos. Kristin. – Dinheiro não é problema – Kristin garantiu. – Dix. Vamos mostrar a ela como é se sentir uma verdadeira noiva princesa. – Kristin. – Juntou as mãos diante do peito. Dixie Pryor era uma amiga incrível e excelente consultora de noivas. Dixie preparou cuidadosamente o vestido para ser colocado no manequim posicionado no centro da plataforma de madeira escura. não fosse por ela ser tão inteligente e carinhosa. Pense. vou prepará-lo para você. ainda sendo puxada por Dixie até o salão de provas. Char. sentando-se no sofá mais próximo e observando Dixie trabalhar. Charlotte poderia detestá-la. e está se comportando como se isso fosse normal. – Um vestido de Paris. nem os smokings para o noivo e para o padrinho. – Quer saber o que me surpreende? – Se eu disser que não. – É fumaça o que vejo saindo das suas orelhas? – Charlotte perguntou. pode me dar uma mãozinha? – Dixie puxou a amiga pelo braço. depois de cinco anos observando da sombra da minha genialidade? – Charlotte indagou com uma gargalhada. A cena fez o coração de Charlotte disparar. Os cabelos castanho-claros de Dixie estavam presos em um rabo-de-cavalo perfeito. – Este era o seu vestido. prepare o Bray-Lindsay de Paris para Kristin. são babados demais para mim. porém. Dixie estreitou os olhos. Sofás e espreguiçadeiras formavam um círculo em torno do mini palco. Sirva-se à vontade. – Fumaça su ciente para eu me engasgar. – Dixie abriu a porta do armário onde os vestidos eram guardados e retirou o Bray-Lindsay. A saia esvoaçou como um redemoinho sussurrante na direção do chão. Que maravilha! – Está bem. Tim disse que vai passar por aqui com Dave algum dia desta semana para escolher os smokings. – Babados demais? Você disse que o modelo de Maggie Sottero era simples demais. – Ah. você vai me dizer do mesmo jeito? – O que me surpreende é que você vai se casar em dois meses. e seu terninho Malone & Co. Eu nunca disse que queria este vestido. – É a mistura perfeita para Kristin. O vestido de seda caiu como uma cascata luxuriante sobre o manequim.

como se os gestos pudessem encher seus pulmões de coragem. – E por concordar que este é o vestido perfeito para Kristin. até o cheque anônimo ser depositado em sua conta. No entanto. – Ela não vai querer estar sozinha quando descobrir que este é o vestido perfeito para ela. – Existe algum livro. É melhor ele se apressar. ajustando o corpete e as mangas do vestido. Durante mais de um ano. se espalhou por todo seu corpo. – Adoro você por ser tão honesta comigo. sei. – Por favor. – É melhor você dizer a Kristin que chame a mãe ou quem quer que ela deseje ter por perto quando provar o vestido. com um salão tão magní co. A con ssão reverberou em seu peito e. Já é quarta-feira à tarde. despertando nela uma paz sublime. se aproximou de Charlotte. eu acho. ao mesmo tempo em que as centrais se tornaram mais intensas. diminua a iluminação – pediu. – Charlotte sorriu. que pareciam transbordar para o tapete alto. Dixie a fitou com uma pontada de irritação. Simplesmente. Charlotte passou seu álbum mágico de um braço para o outro. descobrira a existência de lareiras de pedras debaixo do gesso aplicado em 1920 e assoalho de cerejeira sob o carpete surrado. – É meu instinto. O salão de provas era o foco do artigo publicado na Southern Weddings . – Esqueça o que eu disse – Dixie murmurou. o resto da loja precisava de uma reforma. Charlotte foi até o painel de controle de iluminação e ajustou os botões. Charlotte vira esse salão em um sonho. – Se tem algo a dizer. vá em frente. estudando o vestido de posições diferentes. meu espírito. ajudando as noivas. Dixie ajeitou a saia do vestido de noiva. – Dixie. não perdera um minuto. Como sabe? – Dixie resfolegou de mãos na cintura. Dix. Encomendara o projeto e a construção do salão de provas. – Então. Então. cor de vinho. então. Seu empreiteiro. e seu mundo mudara por completo. As luzes do perímetro diminuíram de intensidade. Jim. Assim que con rmara a legitimidade do presente incomum. dando a . – Vocês dois não estão agindo como um casal prestes a se casar.semana”. – Charlotte foi até a porta. se pretende cumprir a promessa desta vez. um manual sobre como agir? Gostaria de ler para aprender. você sabe que encomendar os trajes não prova a devoção de um casal. Charlotte reformara o andar superior inteiro. criando poças reluzentes na plataforma encerada. foi quem a convidara para o jantar de fim de ano onde ela conhecera Tim. Uma luz brilhante banhou o vestido. – Acho que Deus conversa comigo enquanto trabalho. considerara seu sonho impossível. – O que me deixa louca é que você sempre acerta. O salão era o mundo mágico dos vestidos de noiva. peça a Ele para conversar com você sobre o seu próprio vestido – Dixie falou. – Voltou a ajeitar a cauda sobre a plataforma. Um presente inesperado. Adeus ao que restara dos cem mil dólares. derrubara paredes. veri cando o efeito das luzes.

– Dix. A sinceridade e o carinho contidos na confissão emocionaram Charlotte. Ao atravessar a sala iluminada apenas pela luz fraca que vinha do pôr-do-sol lá fora. – Prometo que vou procurar este mês. – Está procurando pelo menos? Você tem dois meses. Os cristais Swarovski bordados na renda delicada do corpete refletiam a luz. – Dixie foi até o fundo do salão e pegou o controle remoto do aparelho de som. verificando os últimos detalhes. – Nunca me canso de ver você trabalhar. Todos os dias. Dixie. Charlotte tropeçou no baú antigo que havia deixado no meio da sala. Passava das sete horas quando Charlotte entrou em seu apartamento e acendeu a luz do hall de entrada. e a madeira pálida e ressecada precisava de um longo banho de cera. coisas que eu amo. – Sabe como é.. equilibrando o que trouxera de trabalho para fazer em casa e sua correspondência. – Eu sei que é isso o que deseja para mim e tenho uma porção de coisas que me fazem feliz. – Já havia pensado nisso. O que faria com aquilo? O fecho continuava soldado. – Mamãe sempre dizia que eu deveria usar meus poderes para o bem. “grandes mentes pensam igual”. Kristin me parece fazer o tipo “Stardust”. – Se há uma mulher no mundo que merece felicidade e amor. Gargalhadas caíam bem ao nal de uma boa venda. Tivera um dia maravilhoso. juntamente com a pilha de catálogos e pan etos de lojas para analisar. saberei qual é meu vestido perfeito no momento em que puser os olhos nele. Mas. é você – Dixie acrescentou. neste exato momento. e hora marcada na semana seguinte para a primeira prova e para discutir os vestidos das damas de honra. – Quero que você seja feliz. mas nem tanto depois de quase quebrar o dedão em um baú velho e ordinário.. Charlotte largou a bolsa sobre a mesa de jantar. Kristin Gillaspy saíra da loja com um Bray-Lindsay reservado e pago. está bem? Agora. enquanto a bolsa escorregava de seu ombro. Esta será a grande alegria do meu dia.volta no mini palco. Gemeu e tratou de substituir a palavra duvidosa que brotou em seus lábios por: – Coisa idiota – murmurou. Char. Chutou o baú antes de se abaixar para apanhar os papéis caídos. As luzes eram programadas para piscar e dançar ao ritmo da música. Pan etos de propagandas deslizaram por entre seus dedos e caíram no chão. para então se abaixar e esfregar o dedão. – É uma grande amiga. As duas coisas exigiam um esforço que ela não estava disposta a dispender no momento. Os acordes de “Stardust” encheram o salão. Dixie a parabenizara quando a cliente satisfeita deixara a loja. quero vender aquele Bray-Lindsay para Kristin e fazê-la feliz. de Michael Bublé para tocar. . Decidiu não pensar no baú. ponha “Stardust”.

de fato. porém. A secretária de Tim a informara que ele havia deixado o escritório antes do almoço e não retornara. lá estavam eles. como elas? O coração de Charlotte doía em resultado do con ito de seus pensamentos e sentimentos. procurar um vestido para si mesma não era tão prazeroso quanto cuidar de noivas como Kristin. Havia pedido a Tim que os pusesse ali. Charlotte olhou pela janela. Talvez ele pudesse fazer alguma coisa. Estava procrastinando? Por que não sentia o mesmo entusiasmo de suas clientes? Por que não tinha sonhos de casamento. exceto pela mãe.Chutar quinas de madeira doía. A tela. em comparação. Retirando o telefone da bolsa. Tim iria até lá para ajudá-la a endereçar os convites. mas seus olhos brilhavam como os de Kristin Gillaspy quando ela falava de Oliver? Charlotte olhou para o anel da avó de Tim. Ao virar no corredor. Desabotoou o paletó e foi até o quarto para trocar o terninho de trabalho por uma calça jeans confortável. O baú parecia um projeto pequeno e simples. Um pedaço da vasta história dos Rose acoplado a seu dedo. Seria esse o seu medo? Ela o amava mais do que amara qualquer outra pessoa. o homem para ela. sem irmãos. está se deprimindo. – Ora. Sem pai. com seu questionamento sobre o fato de ela não haver escolhido o vestido ainda. definitivamente. Ah. podia ouvir as batidas do próprio coração. Em seguida. Decidindo que pizza cairia bem no jantar. Quem sabe o couro e a madeira ressecados pudessem tocar o coração de Tim. avistou seus convites de casamento debaixo da mesinha de centro. Sua respiração se tornou ofegante. veri cou se seu noivo havia respondido às duas mensagens de voz e três de texto que ela deixara. já que. Havia deixado o baú na sala para Tim ver. Simplesmente. fosse a insistência de Dixie. Talvez Tim não fosse. Charlotte tirou a caixa debaixo da mesa. O silêncio de Tim durante toda a tarde alimentara suas dúvidas. lavou o rosto e prendeu os cabelos em um rabo de cavalo. assim como suas perguntas sobre Tim e seu casamento. nem avós. enviou outra mensagem de texto para Tim. A nal. retirou uma do freezer. Ora. A garota sem nenhum ramo em sua árvore genealógica ia se casar com um membro do enraizado clã Rose. admirando a onda âmbar que se erguia no céu e as leiras luminosas formadas pelos faróis dos automóveis no trânsito de nal de expediente. . diga a verdade. Os estalos suaves da madeira do edifício antigo eram reconfortantes e aqueciam seu coração. Charlotte – falou em voz alta. No silêncio. não tocavam o de Charlotte. Naquela noite. adorava restaurar os edifícios antigos do centro da cidade e os velhos bairros de Birmingham. talvez. trocou de roupa. Ou. uma camiseta folgada e meias grossas. A árvore genealógica de Charlotte consistia de sua mãe como o tronco e ela própria como o único ramo. estava vazia. para tirá-los do hall de entrada. ou tios e tias. como se ela houvesse corrido uma maratona.

solicitando uma reunião. Ela espiou o telefone ao seu lado no sofá. Ela se levantou do sofá. guardara as sobras na geladeira. Retirou seu iPad da bolsa. A qualquer momento. Charlotte aprendera que as tardes de Tim costumavam adquirir vida própria: telefonemas de clientes. Decidiu esperar e ouvir o que ele teria a dizer quando ligasse. Nos quatros meses desde que o conhecera. acabaria se sentindo culpada. Ela sabia. deixando para trás o momento de medo. limpara a cozinha. Tim adorava pizza. o estômago de Charlotte começou a roncar. Mesmo assim. porém. provocando-lhe arrepios com o chiado do “z”. Ficava todo animado só de ouvir a palavra. tentando ensaiar o que diria: . À medida que o aroma de pizza assando tomou conta do apartamento. o sinal falhava dentro do apartamento. reuniões de planejamento na prefeitura e consultas para clientes potenciais preenchiam as lacunas em sua agenda. mas se ele houvesse se machucado. Não prometo deixar um pedaço para você. “T. No entanto. Charlotte olhou para a tela da televisão. O alarme do forno tocou. Tim.” Apertou a tecla “Enviar”. Oito horas.” A emissora musical começou a tocar “Missing You”. Onde estava Tim e o que estava fazendo? Pensou em car zangada. Charlotte comera a pizza. empilhara os convites na mesa de jantar. foi até a geladeira para pegar um refrigerante e se acomodou no sofá para ler seus e-mails. Ela tirou a pizza do forno. mas o silêncio de Tim não era resultado de alguma falha cibernética. informando Charlotte que a pizza estava pronta. Lembrando-a de que Tim não havia respondido a suas mensagens. Um arrepio percorreu sua espinha.. mas seus modelos eram vintage. que devolveu para debaixo da mesinha. Às vezes. Até mesmo os encontros espontâneos que enchiam seus dias eram organizados. pegou o controle remoto do Blu-ray player e sintonizou a televisão em uma emissora musical. onde você está? Vou comer a pizza. cujo nome era Oldies. Quer salada?” Enquanto aguardava a resposta dele. o ouvido apurado à espera do toque anunciando a mensagem de texto de Tim. “Atrasado. exatamente como Katherine dissera. e Charlotte sabia antes mesmo de vê-los que não se enquadrariam no estilo da Malone & Co. zera sua lista de quarenta convidados em um bloco. Um novo gurinista entrara em contato. ele sempre encontrava tempo para uma breve mensagem de texto. e ela perdia uma ligação ou mensagem. Às nove e cinquenta e cinco. uma loja essencialmente contemporânea. Respirou fundo antes de pressionar a tecla “Ligar”. lembrando-a de que ela não havia almoçado. de John Waite. Sua agenda era organizada em segmentos de quinze minutos. Charlotte procurou em sua lista de contatos pelo telefone de David e Katherine. Duas horas mais tarde. a ausência longa e injusti cada não era do feitio de Tim. Ele planejava e calculava tudo em sua vida. I ain’t missing. voltara a guardar os convites na caixa. Costumava repeti-la várias vezes ao ouvido de Charlotte. “não sinto falta”.“Pizza no jantar. Pegou o telefone a caminho da cozinha. ou um e-mail rápido.

– Charlotte apontou para a porta ao lado da geladeira. Tim ligou o aspirador e limpou a sujeira que fizera. ela olhou para a porta de entrada. ele se abaixou para tirar as botas. apoiou-se na parede. mas já passava de meia-noite quando eles saíram de minha casa. Tim parecia encabulado em seu traje de corrida enlameado. conquistá-la com sua simplicidade. – Por que não me telefonou? Algo no tom de voz dele.. – Onde você esteve? Eu já ia telefonar para David e Katherine... A menos que esteja cansado demais e queira dormir. provocou uma sensação gelada em Charlotte. Perguntou-se se ele fazia ideia de quanto a magoava com . você disse que estava cansado e queria dormir cedo. nem enviou uma mensagem. Então. A camiseta branca que usava por baixo era justa. Graças a Deus! Charlotte atirou o telefone na mesa. Fiz pizza. – Trouxe a lista de convidados? Talvez ainda possamos endereçar alguns convites. deduzi que estaria ocupada. tão facilmente.. – Sim.“Olá. – Eu já estava na cama quando eles chegaram com Chase e Rudy. – São dez horas. se eu estiver ocupada. – Na geladeira. Aquele era o jeito de Tim. – Eu pretendia ligar. – Ontem à noite? Quando liguei. – Os dois irmãos mais novos de Tim eram corredores ainda mais entusiasmados que ele. Katherine. mas acabei não ligando. Da cozinha. Tirou a blusa de corrida. – Achei que voltaríamos antes do jantar. – Ainda não entendi por que você não ligou. – Paul e Artie apareceram ontem. E você sabe que. Saímos por volta das onze para ir até Albertville. Lançando um olhar conciliatório para Charlotte. Temos mais ou menos uma hora.. por acaso Tim. Fui para o escritório às seis da manhã para trabalhar um pouco. delineando os músculos do peito e dos braços. Ele ainda devia uma explicação. a primeira indireta fora dada. eu sei. lindo. – Passei o dia pensando em ligar. – Desligou o aspirador e guardou-o no armário. – Sobrou pizza? – perguntou com um sorriso tímido. – O aspirador está no armário. – Ele se inclinou para espiar dentro do forno. sentindo a pizza do jantar revirar em seu estômago. Parado ali. mantendo os olhos no chão. Pronto. Há salada na tigela azul – Charlotte informou. e pedaços de lama seca cobriram o chão limpo. depois da minha reunião e.. – Só sei dizer que conseguimos convencer Dave a faltar no trabalho e planejamos uma corrida para hoje. Então.” – Charlotte? A porta da frente se abriu. em sua postura. Ele apontou para a sujeira no chão e disse: – Vou limpar. recuando até a porta e deixando que ele se virasse sozinho. Mas não naquela noite. conquistador. Você disse que atenderia clientes a tarde toda. Tim. você pode deixar recado ou mandar mensagem de texto.

para a sala. e Charlotte se deu conta de que desde que ele entrara no . Simplesmente? Esqueceu dos convites? Esqueceu de mim? Do que. – E planejar a festa. O alarme da revelação soou em seu peito. Charlotte se sentou à mesa da cozinha e fingiu ler alguma coisa em seu iPad. Nós. Char. – Tudo bem. – Esqueceu. – Tim olhou para a pizza em seu prato. Não fui à casa de minha mãe esta semana. Desculpe. – Posso perguntar por que não pagamos alguém para fazer isso? Tim abriu a geladeira e pegou um refrigerante. – Ele se levantou e pegou uma toalha de papel para usar como guardanapo. mas tive de adiá-los várias vezes. Eles podiam pagar o casamento que eles quisessem. – Você gasta mil dólares em um baú velho. lançando um olhar para os convites e. Tim foi até a mesa e sentou-se. os smokings estavam na minha agenda. – Eu me esqueci de que havíamos combinado de conferir a lista de convidados e endereçar os convites. mas não pode pagar alguém para cuidar dos convites do nosso casamento? Não ocorreu a você que talvez eu possa pagar? Ou que nós possamos pagar? – Pre ro usar o dinheiro em comidas mais so sticadas na festa ou para comprar aquelas correntes de platina que eu queria para as damas de honra.. A conversa pareceu empacar. decidir como seria o jantar. eu me esqueci de hoje à noite. Disse que escolheria os smokings. – Tim. o que está acontecendo? O som de sua própria dúvida trouxe lágrimas a seus olhos.seu silêncio. – Charlotte bebeu um gole do refrigerante de Tim. envolvendo sua mente e sua alma. você se esqueceu. Desde o noivado. Charlotte.. – Eu não sei. – Acha que pode fazer algum uso dele? – Talvez. Tim? – Não me esqueci de você. – Tim transferiu as sobras de pizza fria para um prato que retirou do armário e comeu um pedaço sem requentar as fatias. Você também planejou cuidar disso esta semana. – Porque não tenho dinheiro para isso. passou a mão pelos cabelos. mas amanhã já é quinta-feira. porém. Tim falava sempre no plural. reclinou-se na cadeira. certo? Mesmo que a família dela fosse. os smokings. Ela sozinha. depois. Tim afastou o prato com a pizza.. exatamente. – Charlotte. – Sim. o bolo. – Não estou tão cansado. – Não tenho a lista. – É aquilo o seu baú de mil dólares? – É aquilo. A família dela deveria pagar pelo que pudesse.. resistia à ideia de Tim e os Rose pagarem por tudo que se relacionasse ao casamento. Foi naquele momento que Charlotte soube. mas temos quinhentos convites para endereçar em poucas semanas. as ores.

– Pensei que quisesse – ele murmurou. Não queria magoar você. . Fui rápido porque me apaixonei por você. tentando se livrar do arrepio gelado que os percorria. Tim. – Mas não vão a lugar nenhum.apartamento mal a fitara nos olhos. – Não é que eu não te amo. mas ela se esquivou. ela sentiu uma estranha a nidade com a peça velha e rejeitada. Só não sei se estou pronto para me casar. – Tim nalmente a encarou. Nosso relacionamento praticamente me atropelou. – Ponha o anel de volta no dedo. – Está sendo injusta. Katherine precisa aprender a cuidar da própria vida. Fico me perguntando se algum de nós dois realmente quer se casar. – Existe outra pessoa? – Charlotte inquiriu em meio a uma nova torrente de lágrimas. Estávamos conversando sobre a grande corrida na Flórida. o que vamos fazer? – Adiar. – Mas não quer se casar? Charlote juntou as mãos diante da cintura e tirou o anel do dedo. na montanha. – Alguns dos rapazes do nosso clube de Motocross foram conosco hoje. Quando o colocou sobre a mesa. eu sinto muito. Tim olhou por cima de seu ombro. Como se eu fosse uma das suas pistas de corrida. tentando pegar a mão de Charlotte. Eu não z o depósito da reserva do bufê. Charlotte. Esperar. – São bonitos. as lágrimas correram soltas por suas faces. – E agora. olhando para as mãos cruzadas sobre as coxas. – Então. – Charlotte. Charlotte fixou o olhar no anel sobre a mesa. Char. Charlotte passou a mão pelos braços. o que mudou? Tim se levantou e foi até a sala. Acho que fomos rápidos demais. de verdade.. Seu olhar pousou no baú e. Ainda quero me casar com você. você se deu conta de que estamos falando da semana posterior a vinte e três de junho? Não vai se casar nesse dia? Não vai estar em sua lua de mel?”. naquele momento. quando o vento a zera erguer os olhos e enchera seu coração de dúvidas? Tim arrastou a cadeira para perto dela. na direção da janela escura. Não zemos nada para esse casamento acontecer. Ainda estamos noivos. não é mesmo? Quando ela havia se dado conta? No sábado. – Não sei ao certo. – Tim também olhou para o anel. – Bem. Você ainda não tem um vestido de noiva. – Katherine estava preocupadíssima com a possibilidade de eu magoar você. você foi rápido. quando um deles olhou para mim e disse: “Tim. fazendo planos de ir. sem fazer qualquer movimento na direção do anel. Ele estendeu a mão e retirou um convite da caixa.. – Eu te amo. – Você se esqueceu do próprio casamento. – Nós não fomos rápidos. Parecia ser seu único aliado no apartamento.

se você realmente me amasse e quisesse mesmo se casar comigo. Abandona amigos e hobbies. limpando a garganta. – Às vezes. Se não está pronto. – Você é a mulher certa. não faz sentido continuar fingindo. mas aprendi algumas coisas trabalhando em lojas de noivas desde os tempos de colégio: um homem é capaz de fazer qualquer coisa pela mulher que ama e com quem vai se casar. Não se pode cancelar um casamento e manter o noivado. se não vindas de Tim. – Esperando o quê. eu acho. tudo se encaixe e que bem? Tudo se encaixava e estava bem quando você me pediu em casamento.. depois. – Charlotte pegou o anel e aproximou-se de Tim para devolvê-lo. Ah. Detestava despedidas. – Uma lágrima rebelde desceu pela face de Charlotte. – Acho que. – Então. É um arquiteto bem sucedido em Birmingham. – Ele fez uma pausa e a tou com olhar terno. .. tudo se complica e. – Secou uma segunda lágrima com a mão.. com exceção de mim. mas ela detestava separações. mesmo que o primeiro tenha cado ótimo. – Se não vamos nos casar em vinte e três de junho. também. então não estamos noivos. acha que eu pediria para você colocar o anel de volta no dedo? Não há ninguém. – Diga-me que também não percebe que há algo estranho nessa nossa história. as noivas. colocandoo no dedo mínimo.. Tim afagou seus cabelos sem dizer uma palavra sequer. sou o homem certo? Por que vem adiando tanto as suas decisões? Não é costume as noivas correrem para comprar o vestido. – Eu me apaixonei por você na primeira vez em que a vi. talvez. estamos esperando. mas. Então. – Achei que estávamos muito ocupados.. – Não quero te perder – Tim murmurou. como funcionária em lojas de noivas e. chorou. a sensação difusa de “é isso mesmo o que eu quero?”. Mas. Meu próprio egoísmo.. na manhã de sábado. já que fui criada por mamãe e Gert.. Tim? Que. Tudo por amor. Tem acesso aos melhores vestidos do mundo. E eu. não se esqueceria do nosso casamento e lua de mel por uma chance de correr com os amigos. Havia pressentido esse momento. – Um soluço sacudiu Charlotte.. sim. assim que ganham o anel? Você é dona de uma loja de noivas. Charlotte cedeu e. – Charlotte. A precisão das palavras partiu o coração de Charlotte.. Prova dez smokings. Achei que estava pronto. Sentira as vibrações.. como se tentasse sufocar a tempestade em seu peito. não estamos fingindo. examinando o anel na palma de sua mão. então vindas dela mesma.. Então. de repente... – Se não vamos nos casar.– Se existisse. – Não sei muita coisa sobre o sexo masculino. Tim. talvez eu não seja a mulher certa. – Você tem trinta e dois anos. Faz compras no domingo do Super Bowl. em sua própria loja... Primeiro. trabalhando junto a noivas e noivos ao longo dos últimos doze anos. Quando o casamento é adiado. mas que em algum momento nos dedicaríamos ao casamento.. os vestidos. só isso.. os detalhes. não sabemos o que queremos até conseguirmos. apoiada no corpo forte e suado de Tim. puxou Charlotte para si. – Aprendera isso.. ou até mesmo se muda para o outro lado do país. E acredito que. Fora isso o que a levara à montanha.

– Apertou-a contra si. pois se mantiveram éis às suas convicções e não dormiram juntos. Tim. Tim. porém bondosa. ainda era seu melhor amigo. desde que não ouvisse o “clique” da porta se fechando atrás de Tim quando ele fosse embora. – Será mais fácil se você for embora. Gert. Teria sido muito mais difícil agora. – Vai ficar tudo bem. as lágrimas embargando seus sussurros. Charlotte se manteve de lado para ele. Como poderia não sobreviver a uma coisinha simples como esta? O m de um noivado? Ora. Embora ele estivesse cancelando o casamento com ela.. – Espero que não se importe se eu não acompanhar você até a porta. também. Agradeceu a Deus. – Adeus. – Charlotte. enterrando a cabeça debaixo do travesseiro. entregando-se aos soluços violentos que a sacudiam. Charlotte fechou porta e se atirou na cama. de frente para o corredor que levava ao seu quarto. Em seu quarto. Char. sua força. Sobrevivera à morte da mãe. O lado que ele houvesse ocupado em sua cama seria tão frio nessa noite. deixando que a ternura de Tim aliviasse seu pesar. Sobrevivera às comemorações solitárias de Natal e aniversários. Quando nalmente se desvencilhou do abraço e secou as lágrimas do rosto..– Eu sinto muito. acariciando-a. sobreviveria a esta noite. Charlotte passou os braços em torno da cintura ele. Sobrevivera a ser educada pela rabugenta. .

aquecida por seus beijos amorosos. Justamente naquela noite. comparado ao maço de cartas em sua mão direita. o querido Daniel. Emily despejou as cartas da caixa de cedro sobre a cama. 16 de Abril de 1912 Querida Emily. se ele julgasse necessário. todas na caligrafia fluida de Daniel. perdeu momentaneamente parte de seu brilho. Emily organizou as cartas pelas datas de postagem. especialmente à uma e meia da madrugada. o encontro inesperado com Daniel. E. Emily se endireitou e pegou a primeira carta. contando quarenta ao todo. no gramado da propriedade Woodward. sabia que de nada adiantaria agir assim. E o pedido de casamento de Phillip. pareciam mais raros que qualquer pedra nascida do carvão. Ah. Havia dezenas delas. No entanto. Emily se afundou nos travesseiros e fechou os olhos. escritos de seu próprio punho. Palavras e pensamentos nascidos no coração de Daniel. Seu pai nunca reagia bem a crises de birra.Capítulo Seis Emily À luz oscilante do lampião a gás. que fosse dormir e se preparasse para pedir desculpas pela manhã. O anel de Phillip em sua mão esquerda. Devolveu o restante à caixa. Ela esperava que fosse acontecer em breve. talvez na festa para comemorar o m do verão. Por que se preocupar com seu pai. Teve um leve ímpeto de marchar pelo corredor e bater na porta do quarto dos pais. Ele se limitaria a ordenar que ela se comportasse. Seu anel de noivado enroscou na colcha quando ela se acomodava na cama e se apoiava nos travesseiros. Emily esfregou os olhos para afastar o sono. talvez discutisse a questão. agora? Tinha as cartas de Daniel em suas mãos. o encontro com Phillip na cidade. no fim de semana do feriado do Dia do Trabalho. de abril a agosto. tão rico e elegante. Que dia! A reunião pelo direito de voto. . Depois. Por que seu pai as esconderia? Não era do feitio dele. A lembrança de seus carinhos fez o sangue ferver nas veias de Emily. a m de exigir que seu pai explicasse por que a afastara de Daniel. tentando também aplacar o cansaço em seu coração. os momentos passados com ele na carruagem.

Diga “olá” por mim para o pessoal daí. apenas serviu para me lembrar de quanto O amo. poderia mandar uma nova fotogra a? A que eu tinha foi destruída quando o ônibus atolou na lama até a altura do chassis e tivemos de tirá-lo de lá. O pastor fez um sermão pesado sobre o apocalipse e o fogo do inferno. A namorada de Milton escreveu contando que cou noiva de outro homem. só tenho olhos para você. Eu escreveria mais se soubesse o que você tem feito. antes de viajarmos. Você se lembrou? Espero que tenha me enviado um “feliz aniversário” em suas orações.É tarde e preciso descansar. Quero passar a vida inteira fazendo você feliz. quando o pastor convidou ao arrependimento. Pobre sujeito. Scully conseguiu impedir o Atlanta Crackers de marcar pontos no jogo desta noite. Todo meu amor e afeto. Quando escrever para mim. Lembra-se da noite em que nos conhecemos. Ele correu para o púlpito. Senti saudades do bolo que minha mãe fazia. já que seu pai financiou a mina de calcário que produz a escória. Quando voltávamos para o dormitório. sem dar atenção às regras. Ficou muito deprimido até chegarmos ao estádio. Ele marcou um treino amanhã bem cedo. Em. Daniel Emily dobrou a carta e devolveu ao envelope sem saber ao certo o que ou como se sentir. na biblioteca do campus? Meus amigos estavam fazendo bagunça. Sinto muita falta de você. alguns dos rapazes e eu fomos ao culto no domingo. Jogar beisebol é muito trabalho por pouco dinheiro. onde várias garotas bonitas esperavam junto à bilheteria. Você nos fuzilou com esses seus olhos escuros. mesmo jogando beisebol e parecendo me divertir com os amigos. antes. O que mais posso contar? Gostaria de ter notícias suas. Moley encontrou uma senhora simpática que nos alugou um quarto para um banho quente. Para terminar. E quanto amo você. Ele esqueceu a antiga namorada bem depressa. pouco antes de morrer. Se não estamos jogando. Mas não se preocupe. que tocou fundo em Scully. mas não conseguiria dormir sem. Orei por você e por mim esta noite. escrever para você. Ontem foi meu aniversário. se o bom Deus sorrir para mim. Mas você já sabe disso. Choveu durante uma semana inteira e tivemos de dormir no ônibus. Moley diz que devemos manter acesa a chama da vitória. para que pudéssemos conversar um pouco sobre o seu mundo. estamos treinando. Lembro-me do que ela fez no meu aniversário de dezesseis anos. depois de termos nos lavado apenas em um balde por dez dias. mas tenho pensando muito em você e no futuro que teremos juntos. Acho que não posso culpá-lo. Emily. . Faz poucos dias que parti. Não preciso dizer como cheirávamos. Acredite quando digo que penso em você todos os dias. Para mim. falando bobagens. As estradas em Tennessee não são tão boas quanto as de Birmingham. O velho Moley nos faz suar um bocado. se é que você pode imaginar. ormimos em motéis baratos e até mesmo em campos de beisebol. E falei sério. eu disse ao meu companheiro de quarto: “Vou me casar com aquela menina”. Se você me quiser.

mamãe e eu zemos compras no centro da cidade e. Emily se enterrou debaixo das cobertas e esticou as pernas nos lençóis macios. Guardando o diário debaixo do colchão. voltamos para casa para cuidar da horta com Molly. Ora.Bobagens de estudante. Talvez fosse a vontade de Deus que o zera partir. Passar a vida fazendo-a feliz. Quem vai me fazer rir. seu anel de noivado produzindo um ruído seco ao se chocar com a madeira. Quando Daniel partira. Em vez de fechar os olhos. em palavras e no coração. Guardando a carta. Uma pontada de raiva do pai fez com que se sentasse na cama. querendo saber onde você está. preferindo o beisebol a ela. Estava noiva. Penso muito em você. Como podia ser tão in el a Phillip poucas horas depois de aceitar seu pedido de casamento? Emily se preparou para dormir e. na verdade. ela sabia que o amava. então. O convite parecia mais que fortuito. Elas só provocam o riso fácil de mamãe. Emily fechou o diário. perto da parede. Gostaria que escrevesse para mim. . e a escondeu debaixo da cama. e orando para que esteja bem e em segurança. onde costumava abrir seu coração para Daniel quando ele partira com os Barons. depois. Algumas semanas depois. Estava noiva. 30 de Abril de 1912 Querido Daniel. Foi um dia lindo e me fez lembrar de nossos passeios pelo campus. Emily fechou a caixa. Meu Deus! Que declaração mais infantil! Daniel não era mais criança para continuar falando daquela maneira. Sinto tanto a sua falta. O restante do que escrevera naquele dia era mero desabafo consigo mesma. retirou de debaixo do colchão o diário de capa de couro. começou a ter dúvidas. na maior parte. Emily afastou os cabelos do rosto e esmurrou a colcha com os punhos. mas já estou imune às velhas histórias que ele tem para contar. E seria fiel a Phillip. Phillip fora visitá-la e a convidara para o baile Preto e Branco. estava praticamente traindo seu noivo ao ler as cartas de amor de outro homem. ajoelhou e fez suas orações. empurrando-a bem para o fundo. na tentativa de compreender os próprios sentimentos. mas com o passar das semanas. Parecia celestial. porém. Atirou-se de volta aos travesseiros e apagou a luz. Como aquela noite teria sido diferente se ela houvesse recebido as cartas de Daniel. quando eu estiver triste? Papai tenta. O quarto mergulhou na escuridão. Ontem.

De volta à cozinha. E comida. Sim. as luzes estavam acesas e música enchia o ar. Bach. o novo dia envolveu seu coração em um aperto doloroso e triste. E a esperança. e de ter chorado até acabarem as lágrimas. vindo do salão de provas. perfeitos para violinos. A adrenalina que a enchera de energia durante o banho e a parada no Starbucks para comprar café começava a evaporar. sacudiu o braço adormecido e voltou ao seu carro para pegar a caixa de convites não usados. apesar dos joelhos trêmulos. espiou a escada e o patamar do segundo andar. Faltavam cinco minutos para abrir a loja. Esqueça Tim Rose. e agarrou-a pela mão. ela devia estar no andar de cima. O que está acontecendo? Eu trouxe café e comidinhas. apesar de ser seu dia de chegar mais tarde. obrigada. Charlotte telefonara para Dixie. o café.Charlotte Charlotte equilibrou os copos de café e o saco de guloseimas em uma das mãos. – Ótimo. Ora. com seus acordes suaves. – Dixie? Trouxe café. Charlotte obedeceu e se deixou levar por Dixie. Paris? Havia planejado uma viagem a Paris. Charlotte foi até a porta. Planos de jogá-los no lixo. Acho que preciso dormir – dissera. esperando ouvir os passos da amiga. – Parou na porta do salão de provas. já chegou! – Dixie apareceu. A caixa registradora já estava ligada. Tim o quê? Não. uma oportunidade de se renovar. – O que quer que você esteja tramando. – Charlotte. – Dixie. implorando à amiga para abrir a loja pela manhã. E. Charlotte não conseguira dormir muito. – Feche os olhos. . dizendo que aquele era um novo dia. mas trancada. por que não. Acabou. O amor se foi.. mas só encontrou silêncio. Depositou o café da manhã sobre a mesa. ganhar foco. primeiro. mas deixara a ideia de lado quando conhecera Tim.. Talvez assistir a uma exposição de vestidos de noiva em Nova Iorque ou Los Angeles. – Não estou me sentindo bem. Recomeçar poderia ser bom. – Está aí em cima? Parou diante do vestido em exposição e ajeitou a cauda. mas antes feche os olhos. para se dirigir à cozinha. Bray-Lindsay enviara um convite que ela ainda não aceitara. não estou disposta. Charlotte deixou os convites no chão e pegou seu café. No entanto. Mas. Tinha uma segunda chance na vida. Tinha planos para os convites. o amanhã como sendo um novo dia. Depois que Tim saíra de sua casa. e abriu a porta dos fundos da loja. – Dix? – chamou. ei! Onde você está? – Foi até o balcão da loja. – Dix. uma segunda chance. – Para dar de cara na parede? Não. Havia enganado a si mesma. por favor. parecia mais distante. Bom. não vou participar.

os olhos arregalados. Saíra da cama. é lindo.” Cochilara nas primeiras horas da manhã. ansiosa.. – Lembra-se de como apresentou Kristin ao vestido perfeito? Bem. – Ah. Dixie. com exceção do Dr. endireitando seus ombros. não. Dix. “Sem mim nada podeis fazer. Não. Charlotte. existem várias maneiras de se vestir um noivo. desistiu. Charlotte havia chorado até dormir. – Você prometeu que escolheria um esta semana. Ha! Vocês precisam acordar muito cedo. – Mantenha os olhos fechados. Ei. – Não. suspirando. Gostosão. despertara com um sobressalto. com a lembrança da noite em que sua mãe morrera. então. chefinha. Gosta. Espere. – Tá-dá! No manequim postado no centro do mini palco havia um vestido simples de cetim. não. – Dixie. enchera um copo de refrigerante e lera João 15. por favor. diga como me saí. Conheço você melhor do que qualquer outra pessoa. Conquistou você também? Juro que não sei como você consegue espiar dentro do coração de uma mulher e retirar dali o vestido perfeito para ela. Dixie se aproximou. mas o vestido me conquistou. Se Charlotte fosse se casar. É um presente de Deus.Depois que Tim fora embora. – Dixie fez Charlotte virar um pouco para a direita. As luzes dançavam pelo cetim imaculado e re etiam a incandescência das pérolas. mas. – Já disse. Charlotte tentou conter as lágrimas por um breve instante. por favor. – Abra os olhos. – Pode dizer que adorou o vestido? Eu adorei. acordando a todo instante com o rosto apoiado em um travesseiro molhado de lágrimas. e eu encontrei a melhor. sussurrando orações a Jesus. espere. E então? – Dixie finalmente parou de falar. há uma música que diz isso? Bem. e encontrei o vestido perfeito para você. me ouça. Vamos lá. eu não posso. o seu pó mágico caiu sobre mim. se quiserem segurar a velha Dixie. As mangas três-quartos tocavam as extremidades das luvas brancas longas. deixe-me colocá-la na melhor posição. Ao sentir a voz embargada. puxando Charlotte consigo. mas achei que formavam o complemento perfeito.. com uma faixa de renda italiana na cintura. – Pare de protestar. de verdade? As mangas não são a última moda. . – Dixie se postou diante dela com os braços abertos. Charlotte respirou fundo e se recuperou depressa. Mas é o que você faz. bordada com pérolas. Alguns minutos depois. mas não foi fácil projetar a sua essência nesse vestido. Tule e crinolina davam volume à saia rodada. acendera um abajur fraco. depois de cinco anos observando das sombras da sua genialidade. que se estendia em uma cauda cintilante. – Você vai adorar – Dixie garantiu. – Dixie entrou no salão de provas. – Sei que junho não é um mês apropriado para luvas. Dixie realmente teria encontrado o vestido perfeito para ela. com vários smokings para ele e David provarem. E já telefonei para o seu noivo e deixei uma mensagem dizendo que estarei no escritório dele às três da tarde.

que não vou me casar. Mal posso acreditar. Quando ele telefonou pela primeira vez para me convidar para jantar. minha amiga querida. – Então. foi ele quem terminou comigo. Dixie recusou o bolo que Charlotte ofereceu. no brilho das pérolas. não se sente pronto? Todo mundo ca inseguro antes do casamento. passei a me esquecer de mim mesma e a conversar sem censurar minhas palavras. – Por estar com Dixie. – O quê? Charlotte. realmente não fazia sentido. – Exibiu a mão sem anel. – Fiquei lendo minha Bíblia. Charlotte se virou para sair. puxando uma cadeira e se sentando ao lado dela. – Ah. – Se alguém teve sorte. abandonando o bolo sobre um guardanapo. E daí? Tim se apaixonou à primeira vista e continuou se apaixonando até “desapaixonar”? Não entendo. Eu disse que ou nos casamos. este vestido é a sua cara. – Isso não faz o menor sentido. Charlotte Malone. Mas. ou terminamos. eu sinto muito. – Lamento muito que isso esteja acontecendo. por favor. Colocado naqueles termos.. porém. acreditei que havia algo de celestial no que estava acontecendo. de nitivamente. Dê-me uma boa razão por que não pode se casar com este vestido. Ele disse por que queria adiar? – O tom de voz de Dixie deixava clara a sua simpatia pelos sentimentos de Charlotte. – Não dormi muito bem – Charlotte confessou.. Charlotte sentou-se e mordeu a fatia de bolo. bem ali. Veja. mas ele não protestou. sentindo-se exausta pela montanha emocional das últimas horas. – Charlotte. parecia errado. Gostosão. É honesto. – Ele disse que queria adiar o casamento.– Bem. fui eu. ponha-o de volta no armário. Depois. pelo menos aos meus olhos. não sei flertar. Fiquei apavorada antes de me casar com Dr. Desde o momento em que o conheci. deu livre vazão às lágrimas. – Charlotte tomou o rumo da cozinha. O bolo parecera tão apetitoso na vitrine do Starbucks. Você gostaria que Jared se casasse com você se tivesse dúvidas? . Charlotte? – Dixie perguntou. Ele. sendo inteligente como você? Tim teve muita sorte por você ter lhe dado atenção. Esnobe é o que ele é. já que não sou tão bonita e. simplesmente.. na verdade. Ele não é esnobe.. – Acontece. bem. – Por favor. O que.. É divertido. Esnobe. Dixie. Eu queria que Tim fosse o homem da minha vida. você se saiu muito bem.. O vestido é. Porém. – Não vai se casar? Você terminou com Tim? – Não. tinha gosto de papelão. Quem precisa ertar. Perfeito. por Deus! O que aconteceu? – Dixie seguiu Charlotte. – Ele é lindo.. cava me perguntando se havia feito papel de boba. Talvez pelas razões erradas. Dix. Não vou usá-lo. mas Jesus não fala muita coisa sobre como saber se alguém é o homem certo. nas profundezas de seu coração. – Está brincando? Você é linda! E encantadora. Agora. – Você está bem.. inteligente e me faz rir. guarde o vestido. – Deu de ombros. em si. era como se aquela fosse a atitude mais correta a tomar. acho que terminei. Dix. voltando para o conforto de seu café com bolo.

No sonho. – Voltando ao sonho. estou entrando na igreja. No fundo... – Tinha tanto medo de vê-los como leões enjaulados em um zoológico. o que acontecia quando você estava entrando na igreja? – Eu dava meia volta e fugia. – Os Rose são todos homens. imaginando Tim e os irmãos. – Sim. Charlotte apoiou o rosto no ombro da amiga e chorou as últimas lágrimas daquela manhã. garota.. Acha que foi por isso que você nem chegou a escolher um vestido? Você sabia de alguma maneira? – Quem sabe. Por outro lado. Nem se dera o trabalho de usar maquiagem. pedindo a Deus que me ensinasse alguma coisa sobre os homens. Dixie. – Quando Tim me contou que tinha quatro irmãos. – Ora. que a haviam aceitado como a uma irmã. – Quer dizer jogar futebol. – Alisou o terninho com as mãos e afastou os cabelos do rosto. – Isso me deixa triste.. nem irmão. em algum ponto entre o púlpito e a porta da igreja. – Isso. – E agora? Como vou saber quem é o homem da minha vida? Dixie a abraçou. – Charlotte xou o olhar na parede. mas talvez Tim esteja certo. eu não sabia como me preparar. – Charlotte se endireitou na cadeira. não é? – Eu costumava ter um sonho recorrente sobre meu casamento desde que o “amor da minha vida” – Charlotte usou os dedos para indicar as aspas – terminou comigo no colégio. todos os detalhes do casamento acabariam se encaixando. ah. que eu saberia que estava tomando a decisão certa.... – Até eu conhecer Tim – Charlotte completou com um suspiro. – Charlotte se levantou e embrulhou a fatia de bolo. ele só pode culpar a si mesmo pela rapidez. é tudo que temos. – Sim. Estou sozinha porque não tenho quem me leve ao púlpito. eu fugia gritando: “Nãããããão!”. ou tios.. a festa. – Fé. – Quando chegou a minha vez de ser a noiva – murmurou –.– Não... eu queria saber como me relacionar com eles e brincar de bola. eu acreditava que o vestido. caminhando para meu noivo. – . – Fomos rápidos demais. – Talvez fosse um sinal de que não deveria se casar com Tim. No final das contas. – Vamos trabalhar. Tenha fé. – Sim. – Ah. Até. – Mas você nunca soube com certeza. secou o rosto em um guardanapo. tentando engolir o nó em sua garganta. passei a noite em claro. Charlotte. Charlotte apoiou a cabeça na parede. exceto por um pouco de corretor e uma pincelada de pó. Nem pai. – Ela riu. Não assuma essa culpa. todos muito seguros de si. desejando que aquele dia houvesse passado há anos. esfregando os olhos. A luz forte da cozinha a fez sentir-se fria e exposta. – Dixie suspirou. – O sorriso de Charlotte foi fraco e trêmulo. – Geralmente. eu sei. Acordava desse sonho duas ou três vezes por ano. acho que não. Então.

.Hoje é o primeiro dia do resto de minha vida.

Assim. Seria dona de si. como Sra. Emily adorava o centro da cidade e vinha de Highland sempre que podia. O anel de noivado tilintou no vidro da janela quando Emily se inclinou para enxergar mais adiante a avenida movimentada. Para fazer compras onde e quando bem lhe aprouvesse. abanando-se com as luvas e retirando os grampos do chapéu. ela quase enlouquecera de tédio. mas ele a censurara prontamente. ia se casar e teria sua própria casa e seria capaz de determinar sua própria vida. bater um cartão e trabalhar por um salário abaixo da sua posição. ou partiram em viagens pela Europa. Phillip Saltonstall. que insistira que ela tinha de aprender jardinagem. Uma vez. – Deve ter empregados. – Então. Emily aceitara de bom grado. Emily cava em casa. – Não vai à cidade. – Você é uma dama da sociedade – a mãe acrescentara. ou se casaram. Então. A Sra. . Caruthers era a costureira mais renomada em toda Birmingham. Phillip a visitara e seu coração desesperado cedera. Um papel de parede verde e dourado cobria as paredes do provador. o movimento do centro de Birmingham era intenso e se estendia além do grande edifício de pedras onde funcionava a loja de departamentos. – Misericórdia! Está quente aqui dentro – sua mãe se queixou. A luz da manhã banhava o sofá forrado de crina de cavalo. teria uma mesada à sua disposição.Capítulo Sete Emily A Sra. Era algo para fazer. para gastar em quaisquer projetos que julgasse importantes. Provavelmente. não sou dama o bastante para não me ajoelhar na terra e plantar hortaliças – declarou com um olhar irritado para a mãe. Quando Molly a convidara para uma reunião pelo direito de voto. Quando Daniel partira e suas amigas. O ruído de um bonde atraiu Emily à janela. oito dias depois. Lá embaixo. e um tapete persa dava vida ao assoalho antigo e marcado. – Você cuida da horta para a sua família – o pai corrigira com um leve tapa na mesa. na Rua Dezenove. Agora. formada na faculdade. mas não treinada em coisa alguma. e os sons da rua eram abafados pelos vidros das janelas fechadas. Emily entrava no luxuoso ateliê que ela ocupava nas dependências da loja de departamentos Loveman’s no centro da cidade. Agora. por que me mandaram para a faculdade se queriam que eu passasse o tempo todo fechada em casa? Além disso. se oferecera para trabalhar no banco do pai. não ser empregada de alguém. simplesmente esperando. Canton marcara uma consulta com ela na manhã seguinte ao pedido de Phillip.

Canton fez uma careta.. esquivando-se da poeira. – Vou tentar abrir a janela. Que história é essa de abrir um banco? Vai perder até a roupa do corpo. – Mamãe. o perfume das mulheres. – Emily inspirou profundamente. Emily voltou a olhar pela janela. – Vovó e vovô o aprovavam? – Seu avô o considerava um tolo. – A Sra.” – Ela riu e ergueu as sobrancelhas. – Gasolina. virou-se para a janela e. Fala demais. – “Esse rapaz só pensa bobagens. estudada. Quer que a vejam? – Se isso evitar que eu desmaie de calor. Há muita gente na rua. contava as melhores histórias que nos faziam rir e era o ídolo de todas as moças de nossa classe. mamãe. Ele estava prestes a explodir de contentamento um dia depois de Phillip ter pedido sua mão. imitando a expressão do pai e sua voz profunda. – Mamãe. Emily se afastou da janela. Comprou charutos novos para distribuir no clube.Emily depositou a bolsa e a sombrinha na mesa junto à porta. – É o cheiro da vida. A nal. – Não. – Misericórdia! – A mãe tapou o nariz. debruçou no peitoril. porém. – Não se debruce na janela como uma dançarina de cabaré. Caruthers. graças à minha insistência. Vai tornar Phillip um homem eminente na comunidade. o suor dos homens. sim. mamãe. Emily. Canton parou de falar ao ouvir o suspiro alto de Emily. É inteligente e talentosa. e tem uma cabeça sensata sobre os ombros. hoje é o seu dia de escolher o vestido de noiva. Ele fez bem ao escolher você. quero que saiba que seu pai e eu estamos muito orgulhosos de você. Talvez houvesse chegado o momento de fazer a pergunta que fermentava em seu coração desde que Phillip a pedira em casamento. especialmente depois que papai comprou um automóvel como presente no aniversário dele. – Segurou a lha pelo braço. Você se tornou uma das moças mais bonitas de Birmingham. O motorista de um Ford T acelerou e ultrapassou uma carroça de entregas puxada por um cavalo muito lento. com certeza. – Hoje. . – Ou desmaiamos de calor. você amava papai quando se casou com ele? – Ora. preferia aquilo ao ar parado do ateliê da Sra. Depois de lançar um olhar para a porta estreita por onde a costureira desaparecera. Emily. eu achava que seu pai fazia nascer o algodão na primavera! Ele era tão bonito e inteligente. ou respiramos o ar fedorento das minas. observando a vida na rua e deixando seus pensamentos vagarem. não. cavalos. – Imagino. Denso e úmido. Emily abriu a janela e uma lufada de vento invadiu o ateliê. querida. Maggie.. Pedi a Molly que preparasse carne assada. o ar era carregado com os cheiros da cidade. vamos almoçar no Newman’s. – Está bem. – Seu avô não pensa assim agora. bem como com a fuligem cinzenta das usinas e minas. – A Sra.

O que deu em você? A mãe remexia as luvas de algodão. – Será que foi a Paris buscar o tecido? Nos últimos anos. esbelto. por que permitiria que ele a beijasse e acariciasse daquela maneira? – Onde está a Sra. – Sente-se. Perguntou-se se seu pai também fazia sua mãe se arrepiar de desejo. Alto. Emily sabia que Phillip não fazia o algodão nascer. não queria ouvir a resposta. Caruthers fazia sua mãe feliz.. Nem a fazia rir com suas histórias jocosas. Do contrário. Mesmo que tivesse a coragem e a ousadia necessárias para perguntar à mãe.. amava Phillip. Seu coração disparou. constatando que a mãe se acomodara no sofá. Emily precisava que sua mãe se aquietasse para poder processar o sentimento inoportuno que a perturbava. respirou fundo. Voltando a se debruçar na janela. Sim. – Emily Lee Canton.. mas nunca conseguira. Canton tentara várias vezes contratar os serviços da renomada costureira para vestidos de ocasiões especiais. ela acabara de descobrir seus verdadeiros sentimentos. A mão firme da Sra. Homem de polainas. Especialmente para um homem com a reputação de Phillip e que. fazia com que ela tremesse até os ossos quando deslizava a mão por seu pescoço. Phillip. ainda por cima. não com frequência. estou aqui. No entanto. Não se preocupe. Ora. Foi só depois do noivado com Saltonstall que ela se “classi cara” para uma consulta com a rainha da costura. Phillip era bonito e inteligente. vestindo um conhecido colete cor de vinho e usando polainas.. Nem mesmo quando frequentavam as aulas de inglês juntos. Emily avistou uma gura familiar. Phillip Saltonstall. o homem com quem vou me casar. – Phillip. – Mamãe. Por que não posso chamá-lo da janela? – A nal.Amava Phillip. mamãe. passando-as de uma das mãos para a outra sem parar. Emily debruçou ainda mais e acenou. claro. As palavras se enroscaram na garganta de Emily e ela quase se engasgou nelas enquanto seus .. Devia amá-lo. uma dama de respeito não se debruça em janelas do quarto andar.. Emily fechou os olhos e tratou de afastar a ideia da cabeça. é seu noivo. e sem sombra de dúvida o desejo de todas as garotas que frequentavam seu círculo. bem respeitado na cidade. Emily espiou por cima do ombro. misericórdia. então Emily também ficaria feliz. Canton a puxou para dentro. Phillip. Misericórdia. pare com essa gritaria agora mesmo! Está se comportando exatamente como uma dançarina de cabaré. A ideia não agradava Emily. Caruthers? – A mãe foi espiar além da porta estreita. a Sra. Na esquina da Terceira Avenida. Ela vai aparecer. Ao menos. Assim como seu pai. – Meu querido. Ao contrário de sua mãe. é Phillip. Por que não contar ao mundo? Emily abriu a janela um pouco mais. gritando como uma camponesa bruta para cavalheiros respeitáveis. Phillip! Você é o único homem que usa polainas no.. mas se ter seu vestido e enxoval produzidos pela Sra.

mas acredito que cetim seja a melhor escolha para vestidos de noiva. – Estou pensando em ir até lá para ver por que a Sra. minha querida. – O que acha. rindo. Já marcou a data do seu casamento? – Estamos pensando em marcar para março – a Sra. Já viu isso dezenas de vezes. Phillip não era o único. eu acho. que ainda tentou alcançá-la quando ela se dirigiu à esquina. Ele ergueu o chapéu para um trio de cavalheiros e parou para conversar. Perdoe a demora. aninhou-se de encontro a Phillip.. Sra. Emily testemunhou o nal do abraço. Uma mulher muito esbelta. meu bem. A mulher se afastou. – Emily. Canton. Afaste-se da janela.. aqui estamos. querida? – Eu acho. – Nada. Emily recuou de um pulo.olhos se fixavam na cena lá embaixo. ou vai estragar sua pele perfeita. Caruthers tinha os braços cobertos por peças de cetim cintilante. Outros homens usavam coletes cor de vinho e polainas. Mesmo em dias de semana. ao mesmo tempo em que ele a envolvia nos braços e a beijava. rindo. mas minha assistente se esqueceu de desembrulhar estes tecidos adoráveis. Chocada. como previ. Encomendei em Paris há seis meses. Emily viu Phillip caminhando na direção do edifício Saltonstall. – Mas você gemeu. A bela Emily Canton. Emily viu Phillip observar a mulher até ela desaparecer na distância. tão alegre e despreocupado? E. – Acho que acabo de ver outra mulher nos braços de meu noivo. o que foi? – A mãe esticou o pescoço para espiar a janela. certa de que logo teria um casamento especial. só isso. Caruthers.. – O pobrezinho tropeçou. – Aqui estamos. – Emily.. – Você está bem? – a mãe perguntou.. na Rua Dezenove. . Um cavalo perdeu a ferradura. – Tenho sedas. estando tão longe da esquina. Isso é inaceitável. Certamente. Soltou um grito e levou a mão ao ponto dolorido. Com um olhar de soslaio. As faces de Emily arderam. O quê? O que ela achava? Sem dúvida. ainda por cima. usando um vestido azulão e empunhando uma sombrinha da mesma cor. Emily sentiu o estômago revirar. em público. E. O que Phillip estava fazendo naquela esquina? Com uma mulher nos braços. Ele não tinha decência? Respeito? Tarde demais. Nunca vira a mãe se esforçar para agradar alguém e lá estava ela. para atravessar a avenida. veja esta renda! – a mãe exclamou. também. Lançando mais um olhar para a janela. um gemido escapou de seus lábios. estava imaginando coisas. Canton respondeu com um sorriso orgulhoso. No pescoço. mamãe.. batendo a sombrinha no braço de Phillip. fechando os olhos. Caruthers está demorando tanto. fazendo exatamente isso com Sra. de pele clara e cabelos loiros. atirando a cabeça para trás às gargalhadas. batendo a cabeça na janela. mas ainda vendo os cabelos loiros da mulher re etindo a luz do sol. embora sua atenção continuasse concentrada na porta estreita e fechada. Não podia estar enxergando direito. – A Sra.

querida. – Março é um mês perfeito para casamentos. Caruthers tirasse suas medidas. E diga à Sra. claro. – Tão puro e branco. Agora. o corpo miúdo modelado por um espartilho. Canton virava as páginas. e talvez sua cintura chegue a perfeitos cinquenta centímetros até o casamento. como ele cara jovial depois de abraçar aquela vareta de mulher. Canton. E Phillip? Seu coração disparou com a lembrança das carícias experientes. Emily voltou a olhar pela janela. Então. – Pre ro que guarde suas opiniões para si mesma – Emily retrucou e desceu do banquinho. Não é muito quente. Caruthers. Quantas damas de honra? E. Emily lançou um olhar irritado para a mãe. Srta. você sabe muito bem que a Sra. E respirar.. mas. – E me dá tempo su ciente para a confecção do vestido. trate de melhorar seu humor e veja que modelo é do seu gosto. Emily? – a costureira concluiu.. segurou uma ponta do tecido junto ao rosto de Emily. – É lindo – declarou. o seu vestido. este cetim é macio como manteiga. Sra. – Você faz o tipo cheinha. perfeito. por favor. – Comece a apertar o espartilho. ou de respirar. Caruthers está apenas aconselhando. Por favor. às vezes. – Comer? – A mulher arqueou as sobrancelhas. – Acho que esta tonalidade é perfeita para o seu tom de pele. sentindo-se prestes a desmaiar. Voltou à janela. – A Sra. A mulher que vira com Phillip era magra. – Cinquenta e cinco está ótimo para mim. também. afaste-se da janela e deixe de lado as suas curiosidades. – A Sra.Ora. era educada demais. Emily se recusava a parar de comer. Obrigada pela preocupação. pendurando a ta métrica no pescoço. Caruthers o que acha destes tecidos. Emily se virou e viu a mãe deslizando os dedos por um tecido macio. Sra. – Emily Canton. Prefiro comer. – Acho que deveria aceitar minha opinião. Foi para isso que contratamos seus excelentes serviços. – Apontou para uma gura no álbum. por favor. como se o coração de Emily não houvesse se partido. isso é óbvio. – Este . Caruthers. – Emily – a mãe chamou. Preocupação? Sua mãe. nem muito frio. mas as sulistas eram robustas e saudáveis. – Bem. para emagrecer. querida. Caruthers estudou Emily por cima dos óculos. – Sim. As moças do norte podiam comer como passarinhos. – Sim. de aparência fantasmagórica. venha até aqui. enquanto Emily continuava sobre o banquinho para que a Sra. Podemos escolher o modelo? Tenho os álbuns de Goody aqui. – Mamãe. – Discutiremos isso em casa. Caruthers e Canton conversavam como se tudo fosse maravilhoso no mundo. Canton. – O modelo é para uma noiva magra. Caruthers conduziu Emily ao banquinho no meio da sala e pediu que ela subisse. A tarde se aproximava ensolarada. – O que há de tão interessante lá embaixo? Por favor. considerando com quem vai se casar. – Ela confeccionou vestidos para as melhores famílias de Birmingham. Ela era pura. a mãe sabia bem como agradar alguém. Talvez o de sua mãe? E o enxoval. não é mesmo. Já pensou nas damas de honra? Sra. – As Sras. A Sra.

Emily corava ao pensar no que certamente dominava os pensamentos de Phillip. Emily se inclinou para olhar. haviam se comunicado bem pouco através de palavras. Caruthers se dirigir à sua mãe em tom de superioridade. Vou sufocar debaixo de tanto tecido. Caruthers. se aprendera alguma coisa de seu encontro com Daniel na semana anterior. – Só uma costureira nesta cidade se compara a mim. A Sra. montar um dos cavalos de seu pai e galopar até Red Mountain para clarear a mente. Canton. A nal. Tenho uma lista padrão de vestidos e lingerie que. Porém. É muita generosidade sua. mas . – Como assim? – Emily perguntou. naquela noite. Então. uma vez que ela está em posição de desvantagem. Esperarei pelo seu depósito até o final da semana. não insulte a Sra. O vestido era pomposo. – Vou lhe dizer o nome. Leve o álbum de Goody esta noite e façam suas escolhas. sou muito requisitada. A noite de núpcias. À luz do dia. talvez até mesmo de Alabama. elevar seu coração a Deus. fora do alcance dele. Emily só queria ir para casa. sim. Caruthers? A Sra. os ombros firmes. seu pai estava rapidamente se tornando um dos homens mais proeminentes de Birmingham. com os negócios indo tão bem no banco. – Emily. – Vou preparar uma ordem de serviço. Peço desculpas. – É medonho e pesado. Sra. ela tivesse coragem de conversar com ele sobre o que presenciara minutos antes. agradará à Srta. E teremos de começar a confeccionar o enxoval imediatamente. E as dobras e pregas nas costas se pareciam demais com o vestido que a mulher magra na rua estivera usando. fora como deixar claros os seus sentimentos. quem sabe. – Dê-nos o nome dela e decidiremos por nós mesmas. Embora. o modelo de seu vestido e quantas damas de honra terá. – O que devemos fazer para garantir os seus serviços. quando Phillip chegasse para jantar. Canton encarou a costureira de cabeça erguida. – Ótimo. ela se sentaria do outro lado da sala. Por favor. Como sabe. Sra. colocando-se entre a mãe e a costureira. ele falava com beijos apaixonados e sussurros íntimos. Na maior parte do tempo. Não vou me incomodar se preferir contratar os serviços dela. Emily não gostou de ouvir a Sra. aquele que aterrorizava Emily quando era menina. mas não tenho de me preocupar com a concorrência. Não sei o que deu em minha filha hoje. Canton e eu decidirmos acrescentar algumas peças ao enxoval de Emily? – Tenho. quero um vestido simples. A senhora deve pagar metade como depósito. Canton lançou um olhar furioso para a lha. Talvez sugerisse um jogo de cartas ou dominó. o quanto antes. desde o noivado. tenho certeza.ficaria ótimo em você. Sra. É claro que ela deverá escolher o modelo para os vestidos delas também. Bem. Tem um catálogo para o caso de o Sr. pensar. Caruthers. Preciso que Emily escolha. Canton.

– Emily. mas quando abria a Bíblia e conversava com Deus.posso adiantar que ela não serve para vocês. Enquanto descia. Emily espiou a mãe pelo canto do olho. – Compreendo e aprecio sua paixão por ser dona de sua própria vida. – A Sra. a sabedoria dos homens não fazia o menor sentido. – Você não pode dizer tudo que pensa. O que não vai acontecer se você a rejeitar por qualquer razão. Seu pai e eu fazemos grandes contribuições para diferentes caridades pela cidade. Taffy é negra. na rua ensolarada. os sussurros de sua mãe com a Sra.. – Ela se chama Taffy Hayes. Os saltos dos sapatos de Emily produziram muito barulho enquanto ela descia os degraus de madeira. – Ouvi muito bem. estabelecida na Quinta Avenida. os quadris largos se derramando para fora do assento. Ouvira as regras. Já usei os serviços dela para algumas peças. nunca compreendera a divisão entre negros e brancos. mamãe. então? Quando chegaram ao cruzamento onde a amiga de Phillip havia atravessado a rua. – Estou faminta. – Sra. mas você não vai querer uma negra confeccionando seu lindo vestido de noiva branco. ocupando-se de ajeitar as luvas nos dedos. Desde menina. a mãe enlaçou o braço no de Emily. Gaston. É uma mulher de cor. Emily. Caruthers. Caruthers ecoavam pela escada. No entanto. Vamos almoçar. quero continuar nas graças dela também. não vou permitir que você insulte a Sra. Caruthers. Emily podia não ter a chance de fazer nada com relação a Phillip e ela. você vai ter de se valer dos serviços dela com certa frequência. Acho que não ouviu o que eu disse. Canton sibilou. sou formada na faculdade e estou noiva. Tenho idade para tomar minhas próprias decisões. pontuando a frase com um golpe da sombrinha no ar. Caruthers se sentou à escrivaninha. A Sra. Tenho vinte e dois anos. Srta. Lá fora. Dentro de seis meses terei minha própria casa. Compreendo sua simpatia pelos menos privilegiados e necessitados. – Veja bem. mas acho que não houve nenhum dano maior. E. Seu pai trabalhou duro para chegar onde está. ouça o que vou dizer – a mãe falou baixinho ao ouvido da lha. – O que eu penso? A senhora ouviu o que ela falou sobre a outra costureira? O dano foi causado pela Sra. Caruthers e arruíne nossa reputação. não por mim. Caruthers. Vamos. mas podia fazer alguma coisa com relação à Sra. Quero engordar um pouco mais. as razões e os porquês. – Almoço no Newman’s. para ser honesta. – Abaixe a voz – a Sra. uma vez que será uma Saltonstall. a bainha da saia amontoando no tapete. Caruthers. – Que diferença faz ela ser negra? – Emily pegou a bolsa e a sombrinha de sobre a mesa. mamãe. Canton suspirou. Emily respirou o ar livre de preconceitos. Enquanto não houver outra costureira branca do calibre da Sra. Caruthers. e poder usar seus serviços. Ela aluga um ateliê no hotel do Sr.. não vou precisar de um vestido de noiva ou qualquer outra coisa da senhora – Emily declarou. Não sabe que . o que era um sinal claro de reprovação. – Agora. por favor. Canton. mamãe. Vou ter de aplacar a Sra.

quando viu Emily entrar no Newman’s. por favor.aquela mulher tem a boca de uma locomotiva? A esta altura. papai ou os Saltonstall. a Sra. o movimento do trânsito cessou. Automóveis e charretes . – De repente. – Misericórdia! Esqueci meu chapéu. se ela espalhar por aí que você prefere os negros? – Ela é arrogante e rude. Então. A mãe parou de súbito. copia os modelos de Goody. Emily. – A Sra. – Vai dar tudo certo. O que foi que eu ensinei sobre bater os pés no chão? – Nesse caso. – E se só tiverem leite quente. uma vez que os Saltonstall vêm de lá. Canton tocou o rosto da filha com a mão enluvada. Não quero os serviços dela. ele hesitou. Essa mulher é uma fraude. O brilho da luz do sol re etido nos cabelos escuros de Emily quando ela caminhava entre os edifícios do centro de Birmingham o fez lembrar do carvão vindo de Red Mountain: rico e brilhante. Se conseguir mesa antes de eu voltar. Emily. Detestava brigar com a mãe. Encontro você no Newman’s. você vai ver. Nova Orleans e Miami. daqui até Atlanta. você vai usar um vestido criado e confeccionado pela Sra. Caruthers. mas aquela mulher não vai fazer meu vestido de noiva. – Emily conduziu a mãe na direção do Newman’s. Sem dúvida. também. como é seu pai quem está pagando pelo seu casamento. mamãe? – Emily perguntou com um suspiro. peço desculpas à senhora. Como pôde deixar que eu esquecesse meu chapéu? Vá em frente. forçando Emily a parar. peça um sanduíche de carne e um copo de leite frio para mim. quando isso for assunto seu e de Phillip. – Suas implicações somadas às marteladas dos seus passos na escada falaram muito mais alto do que suas palavras. – Eu não disse uma só palavra que pudesse envergonhar você. Canton levou a mão à testa. ajeitando sobre os cabelos recém-cortados seu novo chapéu de feltro marrom com ta de seda. Está vendo? Um sorriso afasta o mau humor. mamãe. até Filadél a. e conseguiu fazê-la sorrir. que Deus o ajude. – Você vai determinar o que será ou não será feito depois que estiver casada. metade das vendedoras da Loveman’s já sabe da sua discussão com ela. Um bonde passou. – O nome de quem zer o seu vestido sairá nos jornais e colunas sociais. menina. Mas. simplesmente. Ela podia ser sua maior defensora. Teria ela visto Phillip? Teria testemunhado a cena que ele vira uma hora antes? Orou a Deus para que ela não tivesse visto. antes de se virar para voltar à Loveman’s. Na esquina da Rua Dezenove. uma bela aquisição para um ex-jogador de beisebol. se perguntando há quanto tempo ela estivera por ali. Emily. Imagine o que pode acontecer. na intenção de provocar a mãe. minha querida. também. – Criado? Ela. – Muito bem. Daniel Daniel saía do barbeiro.

– Boa tarde – Daniel cumprimentou. – Esteve no barbeiro? – Como sabe? – Senti o perfume de água de ores quando você chegou. sempre houvera uma grande camaradagem entre os dois. Bem. na intenção de tocá-las. Desde a primeira vez em que haviam se cumprimentado na faculdade. Daniel respirou fundo. como ele detestava a distância que surgira entre eles. Emily entrara sozinha. sorriu e pronunciou algumas palavras. Entrou no Newman’s com passos lentos e cuidadosos. lá no fundo. Li no jornal que você está noiva de Saltonstall. Como se a música que inspirava suas almas tocasse no mesmo ritmo. – Se você está feliz. era impossível saber. fora o que parecera a ele. – Parece surpreso. Primeiro. Papai e Phillip têm o mesmo cheiro quando voltam de lá. à vontade e encantador como gostaria. – Vou bem. E você? – Emily ergueu o cardápio. – Estou delirante – ela declarou. também estou feliz. – Depositou o cardápio na mesa e cruzou as mãos sobre as coxas. – Está esperando alguém? – ele perguntou com um sorriso. Emily estava mesmo feliz? Pela atitude dela. – Vejo que conseguiu domar seus cachos. Um garçom apressado fez uma parada rápida na mesa dela. tentando ver os rostos sob eles. carregando uma pilha de pratos sujos. a calça nova poderia esperar. mas ela se recusava a encará-lo por mais que uns poucos segundos. Ah. Deve chegar a qualquer momento. de fazê-lo mudar seu destino. ou ao menos. e atravessou a rua. na direção das de Emily.desapareceram momentaneamente. O ar se tornou estranhamente silencioso. Ah. escondendo-se atrás dele. os olhos passeando por sobre os chapéus. Daniel tentou ler o olhar de Emily. – Não tenho uma garota para me despentear. Agora. fora o beisebol. mas o olhar frio que ela lhe lançou o fez recolhê-las e ocupá-las com o chapéu de feltro. depois de estudá-lo por um instante. Eu disse que ficaria noiva dele. – Mamãe esqueceu o chapéu na Loveman’s. escondendo-se no burburinho dos homens almoçando no balcão. – Como vai você? Daniel deslizou as mãos sobre a mesa. Emily tinha o dom de tirá-lo de seu rumo. Ela ergueu os olhos. As mesas dispostas ao longo da parede estavam ocupadas por mulheres vibrantes em seus chapéus de plumas e vozes agudas. sentando-se diante de Emily. – Daniel – ela murmurou. a seção masculina da Loveman’s. já que sua voz soou ligeiramente trêmula. passando as mãos pela beirada da mesa em um gesto . quando tivera em mente exatamente para onde ia e o que ia fazer. Daniel percorreu o corredor central. durante os cinco meses em que ele estivera ausente. embora não conseguisse se mostrar relaxado. Emily parecia ter mudado seu compasso. com a cabeça inclinada sobre um cardápio. No entanto. O garçom assentiu e se dirigiu à cozinha.

eu o conheço. – Não acredito. Daniel se virou para o garçom e apontou para o copo de Emily. Você estava aí sentada. vai começar a dar aulas em breve? – Sim. por que no último outono você passeava comigo no campus. Ora. – Mamãe deve estar chegando. tão rígida e formal. – Como dizem por aí: “os homens ganham. – Phillip ou você? – Daniel sorriu. Daniel. – Emily pareceu despertar. as mulheres gastam”. É essa a justi cativa de alguns de meus amigos para serem contra o direito de voto para mulheres. Então. – É mesmo? Com certeza. Viu uma joia que adorou e sabia que. A mistura dos sabores doce e azedo lembrou-o de que ele tinha opções a considerar. Reclinou-se na cadeira e assobiou baixinho. Daniel Ludlow. têm seus lhos. Daniel viu o anel. Cozinham. Por favor. à primeira dor do parto. Os homens que trabalham nas fornalhas dos Sloss e dos Saltonstall cairiam de joelhos. choramingando. endireitando os ombros. mais cedo ou mais tarde. empinando o queixo e exibindo o brilho no olhar que fazia Daniel gostar tanto de provocá-la em debates. – Ele gastou uma fortuna nesse anel. Em. – Ele não é assim. – Vou beber o mesmo que ela. – O garçom colocou um copo de limonada sobre a mesa. encontraria a mulher certa para usá-la. do que a garganta. como se resignada à companhia dele –. A educação precisa de benfeitores. – Você o conhece? O garçom voltou com a segunda limonada e perguntou se queriam pedir a comida. – E não recebem salário. – E então – ela suspirou. Ele comprou o anel para a mulher com quem viesse a se casar. assim como meu pai. Em. não se esqueça de sua alma mater. ou apenas oferecer apoio. – Delirante de felicidade. Você não o conhece.hipócrita. dizendo que esperaria pela mãe. não era você que ele tinha em mente na ocasião. limpam. – Tenho certeza de que Phillip será muito generoso para com o instituto. – Sim. que cheguei a pensar que Saltonstall havia drenado toda sua energia. As mulheres trabalham muito. – Pronto! Objetivo e direto. Conheço Phillip desde criança. vamos. Argumento aceito. Daniel bebeu um longo gole da limonada. Deveria arrasar Emily com o que sabia. – Comprou em Paris no último outono. mais para refrescar a alma. Qual seria o preço da gravidez e do parto. Mostre-me seu sorriso maravilhoso. minha mãe e Howard Jr. lavam e passam as roupas dos homens. hã? E como cam as mulheres solteiras e as viúvas? Elas não deveriam ter o direito a opinar sobre o uso dos impostos que pagam? – Muito bem. como o bom amigo que alegava ser? . – Que comentário maldoso e egoísta. Por que dar a elas o direito de votar e opinar em questões como impostos e política. quando são os homens que fazem todo o trabalho? – Uma noção mesquinha e machista. Esta é a segunda vez que você insinua que não conheço meu noivo. – Não está na hora de você ir embora? – Emily lançou um olhar rápido para a porta do restaurante. Emily declinou.

. Aquele homem perdidamente apaixonado por você. sentindo o rubor arder em suas faces. – Encontrou minhas cartas? – Que diferença faz. uma prima. O dia em que Broderick e Stonewalter se envolveram em uma briga.. – Acho que você não sabe o que está me pedindo. – Talvez fosse uma amiga. Além disso.Por outro lado. agora. Boa sorte. mas Emily voltou a agarrá-la. mas se você tem certeza do que está fazendo. você disse algo sobre Phillip. recolhendo a mão. – Vou me queixar ao Serviço de Correios. Algo sobre. Daniel. quando Emily o segurou pela mão. A nal. e eu costurei seus cortes com agulha e linha. Preciso ir agora. – Obrigada. não me lembro exatamente. também. Em. olhando pela janela. Emily desviou o olhar. – Daniel depositou o copo na mesa e a tou nos olhos. O jogo que vencemos por trinta a zero. Eu queria abraçar você. quando o vi. Reconheceria Saltonstall em qualquer lugar. O que quer dizer tudo isso? – Preciso ir – ele murmurou. Em. mas lançou dúvidas sobre o caráter dele. – Ah. não tinha a menor dúvida do que vira na esquina da Rua Dezenove com a Terceira Avenida. E. está usando o anel que ele lhe deu. – Con o em você. espere. Emily. Ah. Sou o mesmo homem. Emily vira o beijo íntimo que Phillip depositara no pescoço da mulher. Daniel teve de se esforçar para não tomá-la nos braços e jurar proteger seu coração. Talvez tenha sido intervenção de Deus.. Daniel mudou de cadeira. beijar. Daniel. quando ainda não possuíamos sabedoria suficiente para distinguir o certo do errado. indo se sentar ao lado dela e apoiando um braço no encosto da cadeira de Emily. não a outra garota. Emily.. Quando fomos nadar em Ohio. Ao ouvir a voz de Emily tremer. – Tenho certeza de que não foi nada. fico satisfeito. da inocência na expressão dela. Quando foi me visitar em Highland. mas é a verdade. dançar com você. De nada adianta pensarmos nessas coisas. – Danny. Daniel sentiu-se . Que Deus me ajude. antes que eu tivesse tempo de piscar. acaba de me perguntar se o conheço bem. – Chega. Contei várias histórias interessantes naquelas cartas. Uma mulher magra se aproximou dele e. – Estou feliz por você. nós sabíamos o que era certo ou errado. – Eu estava no quarto andar da Loveman’s. – Com toda sinceridade. ele a tomou nos braços. Daniel pegou seu chapéu e ia se levantando. Phillip deu o anel a você. – Você acha? Diante daquele tom de voz. – Daniel voltou a se sentar. agora. Suas palavras significam muito para mim. – Se gosta mesmo de mim. vai me contar.. ou a filha de um associado. Vi Phillip na esquina hoje. ele era o único sujeito que usava polainas para trabalhar. Somos pessoas diferentes agora. a noite em que ouvi um tocador de banjo cantando uma canção sobre seu grande amor e não consegui parar de pensar em você. Ele é o único homem na cidade que usa polainas todos os dias.. E. Daniel? Nós dois seguimos adiante.

conhece até mesmo o velho Woodward em pessoa. As unhas de Emily se cravaram no braço dele. você quer saber? – Phillip tem uma. – Emily. ela suspirou. Daniel Ludlow.. é porque desejo saber. Por favor. – A senhora e a Srta. – ela parou de falar. porque se recusava a magoá-la ainda mais. Emily? Está tão quente. faça uma pergunta específica. Saltonstall se comportava com outra mulher. como se comportaria com sua esposa. na intimidade do lar. Talvez eu saiba alguma coisa. – Aí está você. exatamente. Você é muito gentil. Emily. Pensei que houvesse saído do restaurante. – Mas você sabe de alguma coisa. mas a Sra. Sra. Seu pai é capitão da polícia. . – Pediu meu leite gelado. – Daniel ajeitou o chapéu. – Emily. – Está bem. Não vou fazer papel de idiota. – Responda à minha pergunta – sussurrou. – Uma amante? Emily assentiu em um movimento curto e rápido. minha querida. O que. Canton.. mamãe.. – Estava esperando a senhora chegar. Daniel não poderia. garçom! – Tenham um bom dia. Daniel. – Você conhece muita gente.. – Desculpe minha demora. mamãe – Emily murmurou. – Não deveria fazer perguntas cujas respostas não deseja ouvir. lá fora. Ela caria arrasada. – Colocando o chapéu sobre a mesa e as luvas debaixo da aba. – Ele tem? – Se ele tem uma amante? Ela o tou nos olhos. tudo de bom. já se levantando. – Se perguntei. Caruthers me encurralou e não parava mais de falar de suas quali cações como costureira. atraindo a atenção dos demais fregueses do restaurante. – Daniel recuou na direção da porta. não teria feito insinuações. Ele o recrutou para jogar no poderoso Birmingham Barons. – Daniel se levantou. Daniel Ludlow. Canton são as mulheres mais adoráveis em toda Birmingham.envergonhado ao se lembrar da cena. está me ouvindo? – Emily deu um tapa na mesa.. – Obrigada. agora. senhoras. Seu amigo é repórter no jornal. Ora. E. passando pelo garçom e seguindo Daniel até a entrada do restaurante. O que está fazendo aqui? – É um prazer revê-la. A conversa interrompida o deixara perturbado. Vi Emily entrar no restaurante e vim parabenizá-la pelo noivado. Não queria que seu leite esquentasse. – Muito bem. Se não soubesse de nada. Canton se sentou diante de Emily e Daniel. no centro comercial da cidade. – Com licença. Daniel se via obrigado a defender seu rival para consolar a mulher que amava. boa tarde. escute. – A Sra. Boa menina. sentindo o perfume de Emily penetrar suas narinas e agitar seu coração. Em plena luz do dia. – Daniel.. – Nesse caso. Não se atreva a mentir para mim.

seria melhor deixar a situação como estava. mentindo para mim? – O que você pretendia ganhar. Comprara aquele anel para outra mulher. se é verdadeiro. Não acredito em você. Não. Saltonstall era um verme. Parado diante da grande janela de vidro. então abriu a porta com violência. Não queria que a última lembrança que Emily guardasse fosse dele lançando dúvidas sobre o homem com quem ela pretendia se casar. furioso. Emily saiu atrás dele. – Bem que eu gostaria que isso fosse verdade. mas não tinha como provar. por si mesma. olhando para ele por cima da beirada do copo. Daniel Ludlow. . Daniel viu as duas levarem a mão ao rosto. – Emily recuou um passo. Daniel ergueu a mão em um cumprimento. com o coração apertado. e não gosto disso. Daniel sabia disso. suas expressões maravilhadas ao se inclinarem para examinar o anel de Emily. fazendo os sinos tocarem. era tarde para voltar atrás. Emily. tentando expressar sua simpatia. mas você deveria veri car. certamente contando a ela que canalha era Daniel Ludlow. Preferiria ser chamado de mentiroso dez vezes. não era o bastante para conquistar uma mulher como Emily Canton. sacudindo a cabeça e estreitando os olhos. se isso signi casse que Saltonstall não traiu você. me perguntando se seu noivo tem uma amante? Fez com que eu a magoasse. Daniel parou e deu meia-volta. mas seus dedos escorregaram pelo metal. ao lado do cartaz que anunciava “Torta de Maçã – 25 Centavos”. Sentiu o coração acelerar quando ela pegou o copo de limonada. porém. Duas mulheres que se levantavam de outra mesa. – O que pretendia ganhar. Ao chegar ao Newman’s. – Não. Aquele fora seu último encontro com Emily. Canton. Você está bem? O aceno de cabeça quase imperceptível aliviou a agonia de Daniel.– Sim. Daniel a tou por um momento. estendeu a mão para o trinco da porta. e ele se arrependeu de pronto por ter cedido ao pedido dela pela verdade. sem olhar para trás. A acusação atingiu Daniel como um tapa. – Está sendo ciumento. invejoso e mesquinho – ela acrescentou. Agora. Daniel virou-se e caminhou a passos largos na direção da Loveman’s. Já causara danos demais. De repente. Daniel se perguntou se deveria entrar. Era o fim. Ela bebeu um gole da limonada. não. Quando os olhos dela pousaram nos dele. se aproximaram de Emily e da Sra. pedir para falar com ela em particular e explicar como sabia a verdade sobre seu noivo. observou-a conversar com a mãe. Fosse qual fosse o preço daquela joia. Emily. – Está mentindo. É o boato que corre pela cidade. Eu disse que não deveria fazer perguntas cujas respostas não deseja ouvir. Olhe para mim. Você sabe como as fofocas vão se deturpando.

Palavras dela. Pode ser que eu me depare com um prego saliente no seu apartamento. por que trouxe um martelo e uma chave-de-fenda? Dixie bateu uma ferramenta na outra.. Infelizmente. um martelo e essa chave-de-fenda enferrujada. – Está soldado. uma e meia da tarde. então. – Ou um parafuso solto. – Ela fez um sinal para Dixie entrar e atravessou a sala de volta até a mesa de jantar. Gostosão só sabe usar bisturis e tesouras. é tudo o que tenho. nunca mais passarei de carro sobre uma ponte. Tawny. no Bellini’s. só porque ela é difícil ou porque foi fechada com solda. Até lá. – Dixie fingiu martelar uma parede imaginária. – Dr. – Era Tawny? – Dix perguntou. – Um garfo? – Sim. Desligou o telefone e digitou o compromisso em sua agenda no iPad. sua amiga tinha o dom de atravessar fechos soldados de baús emocionais com ferramentas como sua ousadia. – Bem. grata por ter algo para distraí-la de Dixie e suas ferramentas. – Nunca se sabe quando podem ser úteis.. E. – Você não pode evitar uma coisa. que sobrou do pedaço de torta que ele comeu enquanto pendurava os quadros nas paredes. Se quebrarem. podemos usar as ferramentas para abrir o baú. – Que não seja o parafuso solto que tenho na cabeça.. – Obrigada. Martelo e chave-defenda não quebram metal soldado. . – Charlotte sorriu. – Char. não minhas. Tudo que há dentro dela é um garfo. como suporta não abri-lo? – Ele me lembra. Dix. – Abrir o baú? – Charlotte repetiu com uma risada. onde está o baú de mil dólares? – No meu quarto.. eu espero. A melhor propaganda é. Só o baú. Não consigo deixar de pensar que aquela coisa feia foi o catalisador do nal de meu noivado com Tim. – Não estou evitando nada. Charlotte atravessou a sala com o telefone colado ao ouvido. – Dixie depositou as ferramentas na mesa.. Dix.. Charlotte deu uma olhada rápida em seus e-mails. Abençoada seja Tawny por ajudar nossa loja. o boca a. quem sabe. – Ou. – Almoço na quinta-feira. – Ela me convidou para um almoço com suas damas de honra. Quer que elas conheçam “a grande Charlotte Malone”. e três estão em relacionamentos sérios. Sua caixa de ferramentas é patética. – Só uma delas já é casada. sem dúvida.Capítulo Oito Charlotte Ao ouvir a batida na porta.

o burburinho baixo de vozes. – Uma coisa eu sei com certeza: vai nevar no inferno antes que Jared perceba que elas desapareceram. – Charlotte olhou para a janela escura. eu trabalho. Adorava o clima “seja bem vindo” que reinava no Homewood Gourmet. Precisaria entrar em contato com os gurinistas. mas algo a fizera ter dúvidas. esperando que Dixie zesse seu pedido. Você está bem? – Dixie indagou. fui a primeira da lista das convocadas para o time de voleibol. – Que tal o Homewood Gourmet? – Vamos. – Se Jared tivesse terminado nosso noivado dois meses antes do casamento. chorei por um bom tempo. Dix – Charlotte observou. para então decidir as melhores datas. contratar alguém para tomar conta da loja. – Estou pensando em viajar a Paris. a expectativa pela comida deliciosa. conquistei frações. Quando mamãe morreu e tive de ir morar com Gert. Saí da cama. identificar seus sentimentos. parei. Então. Retirou o iPad da bolsa para estudar o calendário do outono e bloquear os dias que pretendia passar em Paris. Faço com que mamãe se orgulhe de mim. seja honesta. sopa e salada. Charlotte pediu frango ao molho pesto. Decidi me tornar motivo de orgulho para minha mãe. Sigo adiante. – Como já disse. aprendi gramática. Não me trariam um pai ou avós. Por isso. digerir seus próprios pensamentos. O silêncio entre as amigas deu a Charlotte um momento para respirar e re etir. – As lágrimas também não vão trazer Tim de volta. pontilhada pelas luzes de Homewood. no outono. nunca se sabe. está tarde. eu estaria na cama. Dixie inclinou-se sobre a mesa e apertou a mão de Charlotte. fui para a escola. já se dirigindo para o elevador. para uma visita a Bray-Lindsay e nossos outros gurinistas franceses. – Não vamos precisar de ferramentas esta noite. determinar a melhor época para visitas. – Você fez essa pergunta uma centena de vezes. Estou bem. Bebericou seu chá. – Você se en a na cama com lenços de papel.– Char. o tilintar de pratos e talheres. – Charlotte pendurou a bolsa no ombro. sentando-se e acomodando martelo e chave-de-fenda no colo. . Se for sem mim. Quer me acompanhar? – Se quero? Já fui! É claro que quero ir a Paris. Depois de um mês chorando todas as noites. Dixie atingiu o ar com o martelo e a chave-de-fenda. Esqueço o passado. – Dixie examinou as ferramentas enquanto Charlotte apertava o botão do primeiro andar. Lágrimas não trariam minha mãe de volta. Amava Tim. atearei fogo à loja. – Está com fome? – Até que estou. vivi o luto pela morte de mamãe fazendo coisas. agarrada a uma caixa de lenços de papel. eu trabalho. disse a ela que estava doente demais para ir à escola.

se quiser. mas precisamos ir embora. mas eu vou embora. Você não tem que se esconder. ela sorriu para ele. – Dixie. arejar. senhorita. atravessou o labirinto humano até a porta e saiu para a noite fresca . uma cliente. – Vamos embora. enroscava o braço no dele. podemos sair sem sermos vistas. A garçonete passou e Charlotte depositou mais duas notas de vinte na mesa. o que foi? – Dixie espiou por cima do ombro. Ele é quem deveria se envergonhar. Ele estava sentado do outro lado do salão com a outra. Porém. basta olhar. Seja como for. ela é. – Isso deve cobrir meu pedido. Charlotte. não como o que deu a entender. Tim olhou em volta. – Por que está defendendo Tim? Eles estão juntos. Viemos até aqui para comer. nos divertir. retirou uma nota de vinte e pôs na mesa. os olhos em Tim. mantendo-se curvada. – Você não vai embora. concluiu que dez passos gigantes a poriam na rua depressa. Ele se inclinou para sussurrar algo ao ouvido dela. de per l simplesmente perfeito. – Char. se escondendo atrás de garçonetes e fregueses. provavelmente.Charlotte ergueu os olhos quando Dixie acabou de fazer seu pedido. – Você sabe exatamente o que eu quis dizer – Charlotte resmungou com uma careta. – Como posso me esquecer dele. vou embora e não quero que ele me veja. prestes a questionar a amiga sobre sua agenda. Tim. Isto deverá cobrir a conta. se sou obrigada a olhar para ele? Se cada risada que eu ouvir vai me fazer olhar para trás para ver se foi ela quem riu? Se vou car imaginando o que ele está dizendo a ela. colega. Ainda curvada. esforçando-se para conter as lágrimas. Dixie a segurou pelo braço. Calculando a distância até a porta. – Ah. quando avistou a porta de entrada. Não acredito. – Desculpe. Charlotte se levantou. – Nós nem comemos. – Sente-se direito. Tinha de sair dali. enquanto a loira bonita. algo relacionado a arquitetura. sentada com você. exibindo dentes impecáveis. – Charlotte fechou o iPad e en ou-o na bolsa. – Pegou a carteira. avaliando o movimento do restaurante. ou por que ele está aqui com ela? – Charlotte. Charlotte sentiu o calor do olhar da mulher. Com uma linda mulher. – Mas pedimos. – Vou entender o comentário como o que você quis realmente dizer. Charlotte poderia sair sem ser notada. Alimentos não comidos ainda custam dinheiro. – Assim que eles se sentarem – abaixou-se e se escondeu atrás da amiga –. as palavras enroscaram em sua garganta e seu coração quase parou de bater. manter a cabeça erguida e tudo mais. enquanto eu estou aqui. – Que conta? – Dixie abanou as mãos sobre a mesa vazia. mas ele está acompanhado de uma mulher maravilhosa. – Claro. Viemos para esquecer dele e falar de negócios. você pode car e ser corajosa. Clientes não têm aquele ar sonhador. não. mesmo estando do outro lado do salão.

– Acha que ele me viu? – Ele está a meio metro de você. Sim. cobrindo os olhos com a mão. – Virou-se para Dixie. – Lágrimas comprovaram suas palavras. fechou a porta atrás de si. Charlotte – Tim declarou. então? – Charlotte indagou. Dixie a seguiu de perto. Ela deve ser a razão pela qual ele tem dúvidas. Vi você saindo escondida. Estou triste e essa história me magoou muito. a esquerda apertando a bolsa contra o peito. Acomodando a bolsa no colo. parado junto à porta do carro. Charlotte se atirou no banco do passageiro. seus passos na calçada parecendo recitar “estou furiosa – sou solidária – estou furiosa – sou solidária”. – Eu menti. afastando delicadamente a mão que Charlotte usava para esconder o rosto. sua “ex”? – Sim. a cabeça inclinada para o lado. encarando Charlotte. essa Kim. – Ele fez uma careta. Charlotte lembrou-se de que Tim era um homem honrado. – Tim estava. – Não acredito que ele tem outra. nada disso me parece ser do feitio de Tim. de fato. – Charlotte. ele deixou a outra sozinha e veio atrás de você. Tim continuava lá.de abril com um suspiro. Ótima. – Para quem gosta de magricelas com excesso de maquiagem. – O que você quer? – Como você está? – Bem... Não estou tão bem. ela é um prato cheio. – Posso falar com você? Ela se virou para Dixie. – Mas. é linda. – Quer ouvir o que ele tem a dizer? Afinal. olhando para ela. Jared está de plantão no hospital. a mão direita segurando a porta. de verdade? – Sabemos que ele está parado do lado da sua janela neste exato momento. o que sabemos sobre ele. basta dizer. as lanternas piscaram. não é? Sim. Dix. se quiser que eu arranque daqui agora mesmo. A buzina tocou. as mãos na cintura. recostou-se na lataria e cruzou os braços. Dix. como se não houvesse visto a outra antes. – Ela é só uma amiga. – Está jantando com Kim. Charlotte. – Isto é ridículo! Ele termina o noivado com você. e você deixa que ele a expulse de um restaurante? Dixie pressionou o controle remoto apontado para seu carro. – Kim. – Quem? Charlotte virou para o restaurante. ele te viu. que detestava deixar qualquer situação mal resolvida. – Sei que nos viu. – Ela é bonita. Charlotte. – Devo conversar com ele. Saiu do carro. espiando por cima do ombro. apontando para o restaurante. . Só não garanto não passar por cima do pé dele. – E você continua a defendê-lo? Dix. – Dixie soltou uma risada. Curtindo a noite com minha amiga.

. ou do casamento comigo? – De casamento em geral. não chegamos a enviar os convites.. tudo bem. acho que tem razão. Tim. Tim? Sobre por que não deu certo? Por que você não quis se casar comigo? Acho que já dissemos tudo o que podíamos dizer e estou fazendo o possível para seguir em frente. – Tive um dia longo. Pequeno. Charlotte se sentiu um tanto covarde por esconder suas próprias dúvidas atrás das dele.. mordendo o lábio. sinto muita falta dela. – O que está feito. – Foi melhor assim. – Ela descruzou os braços e fez um gesto pací co com as mãos. A todo instante. A única resposta a que consegui chegar foi “sinto falta de Charlotte. Tim. você tem medo? De casamento em geral. jogando-os sobre os olhos dele. está feito. . Talvez eu não soubesse quanto. o que você quer? Por que saiu para falar comigo? – Quero me explicar. Charlotte cerrou os punhos.... De você. mas. O vento soprou os cabelos de Tim.. eu imagino. – Você está bem? – Pareço bem? – A resposta brusca não re etia a suavidade que começava a envolver seu coração. – Sim. mas minha amiga Charlotte. minha melhor amiga”. forçando os braços a permaneceram colados a seu corpo.. Foi correr de moto e se esqueceu completamente de nosso planos. Pelo menos. Tim assentiu. Ele riu baixinho. Imagine termos de devolver todos os presentes? Seria um pesadelo. – Não acha isso estranho? Ontem você não encontrou tempo para me ligar. – Do que. desviando o olhar para as vagas do estacionamento. Eu não sabia que Kim estava na cidade até ela me telefonar hoje. – Foi o dia mais longo de toda a minha vida. – Ei. – Podemos conversar? Quem sabe algum dia esta semana? – Sobre o quê. eu gosto. olhos e faces. Não podemos continuar noivos se você não quer se casar. como um gato preso em uma árvore. resistindo ao impulso automático de afastar os cabelos do rosto dele e acariciar sua testa. pegava o telefone para ligar para você. exatamente. Muito. – Não consegui dormir esta noite – Tim confessou em tom baixo e íntimo. Charlotte estremeceu de frio. – Sinto sua falta. – Você tem alguma. Tim. está tudo bem. – Passei o dia tentando entender.– Tim. – Encarou-a com o mesmo olhar que conquistara o coração de Charlotte quando haviam se conhecido. – Mas não sente falta da noiva? – Aquela situação estava me fazendo sentir encurralado. – Limpou a garganta. – É. querendo conversar. deve haver sempre um lado bom.

Charlotte abriu a porta do carro. – Sim. Tim. porque você está jantando com outra mulher. Eu te amava. não é possível. – Ele olhou para o restaurante. agora. Você não pode ter uma sem a outra. vejam só! – Charlotte entrou no carro. vinte e quatro horas depois de termos terminado o noivado. – Aproveite o seu jantar. E a noiva Charlotte está sofrendo. – Talvez esta seja a sua chance de tê-la de volta. – Ora. mas você me pediu em casamento. por favor. – Como eu? Mais um membro da brigada de ex-noivas de Tim Rose? Ele suspirou. antes que o primeiro soluço escapasse dos lábios de Charlotte. . ela chorou durante todo o trajeto de volta para casa. – Ela é só uma amiga. Tim. e você sabe. já entendi. – Charlotte. – Ela terminou comigo. Eu con ei em você. – Acho que sim. – Seria possível almoçarmos ou tomarmos um café um dias desses? – Não. Dixie estava fora do estacionamento. sem ter que se sentir um gato preso em uma árvore. Sinto muito se você sente falta de sua amiga e da conveniência de me ter por perto. – Acho que é melhor eu ir agora. Apoiando a cabeça nos joelhos. já descendo a rua. – Lute por mim. Derrote seus medos. Não é nada disso. Amiga e noiva.– Sou como um pacote.

. Sua educação. até iniciar os estudos em Harvard. ela vai. Bem. – Bateu a mão no peito com orgulho. Emily? Parece perturbada. sem jamais exigir uma batida na porta ou qualquer permissão antes de entrar.. Apesar de seu pai ter escondido as cartas de Daniel.. – Estou escrevendo uma carta para seu irmão. – Vou dizer. em uma fria cidade “ianque”. mas você insistiu. – O pai abandonou a caneta e se levantou para cumprimentá-la. E. sempre fora um dos melhores amigos dela. Se casar. zera a escolha certa por ela. Emily caminhou até a janela. esta noite. minha filha? Sim! O pai a conhecia bem demais. – Lembra-se de quando Howard Jr. Ela sentia falta da sabedoria do irmão. Ele me deve uma carta muito longa. antes de girar o trinco e entrar. vendo um fantasma da imagem do rosto bonito de Daniel nas sombras das árvores.. Emily hesitou por um instante. – Diga a ele que eu queria muito que ele estivesse conosco esta noite. mais vezes do que ela queria admitir. – Ele está aprendendo que o pai sabe o que é melhor.. – Preciso ouvir seus conselhos. papai. contando todas as novidades. Esta noite será. ele era seu porto seguro. O Sr. – Sim. aquele que. seu apoio. vou dizer – o pai prometeu antes de voltar a se sentar. Desde que era menina. Em algumas . Ele argumentou que Harvard era muito longe. Canton retirou um de seus preciosos charutos cubanos da caixa sobre a escrivaninha. será uma grande ocasião para todos nós. – Minha garotinha vai se casar. Emily. – É por isso que estou aqui. seu con dente e defensor. sentando-se diante da escrivaninha. Ela nunca entrava na biblioteca por uma bobagem qualquer. Papai saberá o que fazer. contando sobre sua festa de noivado esta noite. Ela devia entrar sempre que quisesse. entre. – Está preocupada com alguma coisa. papai – Emily falou.Capítulo Nove Emily Parada diante da porta da biblioteca. – Qual é o problema.. entre. bem como de suas provocações. – Está ansiosa pela noite de hoje? Toda a alta sociedade de Birmingham estará lá. uma escola “ianque”. – Emily. não queria ir para Harvard? Ele queria estudar na Universidade do Alabama. Fale de uma vez. seu pai sempre a encorajara a ir até ele quando precisasse. Howard Jr.. três anos mais novo que Emily.

Naquele momento. tenha certeza. mas não é para você. – Leis injustas. Emily precisava do conforto do pai no que dizia respeito a Phillip. os preconceitos da Sra. – Conheço o su ciente. Ele continuou a fumar seu charuto. mas. não foi? – Não. Ela é uma mera costureira. o que eu esperava ser somente um namorico de escola acabou se transformando no que você considerou amor. dissipou a fumaça. e nós só precisamos de seus melhores serviços. – É mesmo? Eu as encontrei no estábulo. Posso fazer com elas o que bem entender. Emily. A brisa da tarde. O senhor não me deu a chance . Ela é sua con dente leal. minha querida. nas questões do coração. Existem leis. Não gosto dela. os pais sabem o que é melhor para seus filhos. – Estou consciente das leis. Ainda assim. papai. – Apontou para ela com o charuto. – Por que fez isso? As cartas pertencem a mim. papai. – O que foi fazer no estábulo? – O pai bateu a cinza do charuto no cinzeiro e a encarou. nem de sua postura com relação aos negros. Caruthers passavam para segundo plano. do qual tirou várias baforadas antes de falar: – Fiquei sabendo que ele voltou. de cabeça erguida e confiante. Era apenas a mais simples e pura verdade. – Cartas que chegam à minha casa são minha propriedade. Você me educou para que eu fosse dona de mim mesma. – Não quando estão endereçadas a mim. No entanto. – Molly me delatou. trazendo o aroma de terra seca pelo sol. Observei vocês dois no ano passado. sim. Emily se levantou e abriu a janela. Estamos falando de Daniel. Não leve isso tão a sério. quando Daniel partira para jogar pelo Barons. – O senhor escondeu as cartas que ele mandou para mim. O Sr. – É verdade. Até mesmo sugerindo Phillip como pretendente adequado. Não sou sua propriedade. Emily. – Levo muito a sério. – Não ama Phillip? – Não estamos falando de Phillip. de Daniel Ludlow. Daniel Ludlow é um bom rapaz. – Cuidado. diante das insinuações de Daniel sobre Phillip. – Papai. papai. – Eu decido quem devo amar. – Trata-se do que aconteceu na Loveman’s? Sua mãe me contou sobre a discussão com a Sra. Caruthers. – Emily manteve a atitude corajosa. Conheço sua família e descendência. – Trata-se de uma acusação bastante grave.ocasiões. – Como pode dizer uma coisa dessas? Mal o conhece. Daniel veio me visitar e falou das cartas. pois era essa a melhor maneira de conversar com seu pai. suas amizades. A frase não buscava uma briga. Sua mãe cuidará de tudo. Emily. Caruthers. porém. Isso não é do seu feitio. não estou aqui por causa da Sra. Canton desviou o olhar para o charuto. temporariamente. – Fiquei contente quando ele partiu para ser jogador de beisebol.

– Emily. eu acho. o nervosismo fazendo o sangue gelar em suas veias. o que o transformou em um homem de caráter. Canton usava um vestido de chiffon rosa claro e renda. Assim como Daniel. Acha que tive a sabedoria de aceitar? – Claro. As mesmas características que fazem do senhor um grande homem. Fui promovido a uma categoria superior em meu próprio clube. além de seu coração. – Era isso o que eu via em Daniel. Mas o senhor não deu sequer uma chance a ele. e construiu o seu futuro. pressionando as mãos nos braços da cadeira. Emily se levantou.. o casamento com Saltonstall é bom para você e para toda a família.” Ela encarou o pai. Seria justo para com Phillip trazer à tona sua indiscrição. há muitos anos. – O senhor não tinha dinheiro. E.. papai. O que seu pai pensaria se ela acusasse Phillip de tal pecado? Pensaria que ela era uma tola fuxiqueira. – Emily deu a volta na escrivaninha e ajoelhou diante dele. ao esconder as cartas de Daniel. não criei você para se casar com um homem sem dinheiro. antes. seus olhos jamais mentiriam para ela. Emily. mas e se. a garantia de que seus filhos terão muito mais do que você jamais teve. Vira o que vira naquele dia na Loveman’s. O senhor manipulou meu coração. o senhor não é tolo. Howard. Há muito mais em jogo. minha menina. – Disse que Molly é minha confidente leal? – Mas ela também não é tola.. quando eu me matava de trabalhar para erguer meu banco. claro. Emily. você ia perguntar “e se. apoio nanceiro. quando se casou com mamãe. Sua mãe está sendo convidada a fazer parte dos clubes femininos que. um investidor me procurou. sem posição social e sem futuro. – Nada. Não teve medo de trabalhar duro. papai. uma promoção na sociedade. Mas fez bons contatos. tramando em conjunto com seu amante rejeitado.. assim como fazer recomendações a seus amigos. – Emily. – Eu só queria saber das cartas – Emily mentiu. Nem mesmo uma mentirinha boba. Cameron Saltonstall pretende transferir parte de seus negócios bancários para o banco Canton. Phillip está lhe oferecendo uma vida melhor. a esnobavam. por que não está se vestindo? – a mãe perguntou ao entrar na biblioteca. olhando para as mãos. ganhou dinheiro e posição. Ele me ofereceu ajuda. Os belos cabelos castanhos com . – Emily. – O que quer que eu faça? Que a deixe devolver o anel a Phillip Saltonstall? Quer você aprecie ou não.de decidir por mim mesma entre eles. posição ou futuro. eu entendo. por que está atrasando sua filha? A Sra. – Sua festa começa dentro de uma hora. querida. – Nem você. sem tê-lo confrontado? Sem ter ouvido o lado dele da história? Daniel podia ter mentido. Além disso. – Está bem. embora nunca houvesse mentido antes.

Saltonstall. – Garanto que um anel como esse teria me conquistado. Howard. – Seu smoking está à sua espera no quarto. enquanto criados distribuíam taças do líquido borbulhante aos demais convidados. Brincos de diamantes brilhavam em suas orelhas. se juntou a Phillip e Emily no centro do salão. na qualidade de padrinho de meu grande amigo. – Powell Jamison. uma pequena orquestra a nava os instrumentos. toda noiva ca nervosa. e tenha certeza de que não errei ao direcionar você. Do outro lado do salão. – Ergueu sua taça de champanhe. O som de risos tomou conta do salão. Emily – ela continuou. já era viúva. Phillip se curvou em uma mesura. eu a seduzi com meus encantos. e se dirigiu aos convidados: – Senhoras e senhores. que arrancou aplausos e risos da plateia. Emily. meu sábio pai. Emily foi a princesa da noite. – Você gosta de . se destacando dos demais convidados. produzindo uma melodia dissonante. – Phillip a puxou para mais perto. Phillip. Aos trinta e quatro anos. – A ousada Cornelia Weinberg deu um passo adiante. O mordomo abriu as portas do terraço para a entrada da brisa fresca do vale. – Ah.mechas naturais cor de âmbar estavam presos em um coque elegante. Eu não disse? Emily ergueu sua taça para ele. Canton se levantou e inclinou-se para beijar a esposa. – Vá se trocar e trate de se apressar. – Foi um jantar e tanto. Emily? – o pai perguntou. Canton assentiu com uma piscadela. – Meus desejos de um casamento longo e feliz. Ao senhor. – Obrigado a todos por terem vindo comemorar com Emily e eu. Cornie – Phillip zombou. – Terminou seu assunto comigo. Cem convidados jantaram codornas assadas com purê de batatas e musse de chocolate como sobremesa. Powell? Naturalmente. No topo de Red Mountain. – Sim. Obrigada. Afaste suas preocupações. – Molly levou seu vestido para o seu quarto. papai. com vista para Jones Valley e as luzes tremulantes da Cidade Mágica. mas acho que sou jovem demais para você. – Todos ergueram seus copos. quero fazer um brinde. quando todos se dirigiram ao salão de baile da propriedade Saltonstall. – Pois eu arrisco o palpite de que foi o anel que você deu a ela. – Como conquistei esta criatura maravilhosa para ser minha noiva. – A Phillip e sua linda noiva. – O Sr. – Emily. Não errei ao direcionar seu irmão para Harvard. Emily. tendo seu marido morrido três anos antes de um ataque cardíaco aos sessenta e cinco. Tudo isso em homenagem a ela e Phillip. depois você vai me contar o que esse patife fez para persuadi-la a se casar com ele. Phillip passou um braço em torno da cintura de Emily no momento em que ela se virava e encarava o pai. ainda se dirigindo aos convidados. O Sr. um dos amigos mais antigos de Phillip. Phillip enroscou o braço de Emily no seu.

uma festa adorável. Herschel. – Obrigada. Phillip Saltonstall. – Emily.. acho que você jamais saberá. – Ela ofereceu a mão para Phillip. – Apresente-me. Emily adorava momentos como aquele. – Se você estivesse na minha mira. eu não teria errado o tiro. Sr.. que se aproximava. mas. Os homens discutiam o Barons e o Alabama. as táticas de caçar maridos de Cornie não o intimidavam... Ele está sempre muito ocupado. Wainscot.. mas erguendo as sobrancelhas. Emily respirou fundo e se preparou para espiar Phillip pelo canto do olho. Canton. – Bem. – Herschel Wainscot apertou-lhe a mão. apenas por um instante? – Só por um instante. – Então. Emily empertigou-se. mas manteve os olhos baixos. não consigo localizar Phillip durante o horário de expediente. Suas pernas tremeram debaixo da saia de tafetá. – Muito bem. time de futebol americano regional. Cornie. como em um duelo. abaixando o queixo. linda como sempre. Emily Canton. Estaria ele se . Cornie estava se tornando uma grande amiga. Embora o encarasse com olhar de reprovação. fique no escritório de vez em quando. que tinha um jeito especial de fazê-las parecer tão inocentes. – Sua mira não é tão a ada. – Srta.homens mais. Esta é a minha festa de noivado e não vou permitir que nada estrague a noite. e as pessoas se sentiam livres para rir. seu vestido é um encanto. Phillip manteve Emily colada a si.. Sr. Cornie – ele retrucou. vocês dois. experientes? Emily se aconchegou ao seu noivo. Phillip Saltonstall e sua noiva. Quando espiava da janela da Loveman’s. Nenhuma outra mulher de Birmingham era capaz de fazer piadas como as de Cornie. nos quais amizade e camaradagem extinguiam o decoro social. – Powell se colocou entre eles. – Prometo devolvê-lo bem depressa. Vou telefonar. – Phillip. por alguma razão. – Estou sempre disponível para você. – Emmeline Graves. e Emily admirava sua vitalidade. Importa-se se seu noivo e eu discutirmos alguns negócios. Wainscot. Emily estava feliz demais para se importar de fato. A mulher que vira na rua. esperando que a orquestra começasse a tocar. deixando todas as suas dúvidas se dissiparem em meio às brincadeiras dos amigos e da alegria de ser a homenageada da noite. sentindo um aperto no peito. – A orquestra está pronta. como posso dizer. Sr. Os convidados formaram pequenos grupos. Srta. Saltonstall. Hersh. poderia me conceder a honra da primeira dança? Sendo solteirão convicto. As mulheres conversavam sobre a estação das debutantes. – É um prazer conhecê-lo. Uma mulher esbelta surgiu ao lado do Sr. – Cornie se postou diante dele no meio do salão.

defende seu ponto de vista com eloquência. já que a pavimentação com escória é mais cara do que concreto. chicotadas pelas menores infrações. enquanto esperamos. Talvez ela devesse estudar para obter licença como advogada. concentrou a atenção na orquestra. forçados a trabalhar por tempo maior que suas sentenças. para economizar em salários. Wainscot perdera o charme de momentos antes. – O olhar duro de Phillip exigia silêncio submisso. – Emily não tem esse tipo de aspiração. – São condenados. tocando de leve seu queixo com a ponta de um dedo. – E são todos negros. porém. vejo que tem um barril de pólvora nas mãos.. – Mas recebe dos cidadãos. – Estão pagando sua dívida para com a sociedade. então. – Já me perguntou? São homens como vocês dois que fazem as mulheres lutarem pelo direito de voto. – Eu não sabia que se importava com esse assunto. não animais. Eles receberam julgamento justo. – Não recebemos nenhuma queixa de nossos inspetores. Ela se preparou para ouvir argumentos super ciais. Não vejo condenados brancos nesse programa. – Inclinou-se para Wainscot. não pelo mesmo crime. Canton. melhor até que muitos homens. Phillip – Emily entrou na conversa. mas ele caiu na gargalhada e deu um tapinha nas costas de Phillip. Srta. – Como sabe. para quê? Uma vida de pobreza sórdida? Encher os bolsos de proprietários de minas e políticos corruptos? – Srta. – Phillip. – Estou pronto para rodopiar pelo salão com esta criatura maravilhosa em meus braços. Emily. – De quanto tempo eles precisam para a nar os instrumentos? – queixou-se em tom zombeteiro.embriagando com a visão daquela mulher tão delicada? Aquela que Emily vira rindo com ele em uma esquina do centro da cidade? Ela apresentava a mesma estatura. – O Sr. – Grilhões e trabalhos forçados por uma contravenção? Alimentação insu ciente. – São homens. Phillip riu. Ao menos.. – O tom de voz do Sr. ou para assumir a administração nos escritórios Saltonstall. Phillip. É bárbaro e está abaixo dos padrões de um cavalheiro sulista. – Os condenados vivem em condições deploráveis e são tratados com brutalidade. O Sr. corpo esbelto e cabelos loiros. Canton. deixe-me ter uma palavrinha com você. Inteligente. Os homens são enganados. que determinam punições cruéis e exageradas que não seriam aplicadas a criminosos brancos. – Emily . – De juízes brancos e júri composto por indivíduos brancos. Phillip. . para que possamos levar um pouco de civilidade e humanidade à política. Papai tem cavalos e cachorros que recebem tratamento melhor. Wainscot estreitou os olhos. Phillip? – Emily retrucou. Olhou para Emily. – Bem. Wainscot riu. mal apertou a mão dela e. como se Wainscot só pudesse estar brincando. o programa de contratação de condenados está funcionando bem para você e as Minas Saltonstall? Estamos pensando em usá-los na manutenção das ruas e estradas da cidade.

. Com uma das mãos. Os lábios dele acariciaram o lóbulo da orelha de Emily. Phillip.. Ainda não era sua noite de núpcias. posso perguntar uma coisa? – Qualquer coisa – ele respondeu de bom grado. rodopiando Emily com graça e leveza.. – Desculpe-me. Por que não. mas é um homem de caráter sólido. embora estivesse óbvio que Phillip gostaria que fosse. com a mulher esbelta nos braços. escute. querida Emily.. sem a menor preocupação com o salão repleto de amigos e familiares que poderiam estar prestando atenção ao casal. Em nome de nossa querida fraternidade.. mas não se engane. O tom de voz baixo e romântico a seduziu. amor. Hersh é um pouco arrogante. querida. Os olhos dele se xaram nos dela. por me livrar de uma dama tão tola. Phillip. – Mal posso esperar pela nossa noite de núpcias. – Mas ca linda quando se zanga. Herschel . Quando Phillip se afastou. Em seguida. você surpreendeu a nós dois. saiu rodopiando com Emily pelo salão. claro. fazendo-a sentirse presa a ele. mais parece um pan eto retórico. – Phillip. – Você conhece a amiga do Sr. Não pretendo lhe causar nenhum problema. – Excelente dançarino. Emily. sentindo as faces arderem de vergonha. Não havia me dado conta de que tudo isso estava reprimido dentro de mim. – Nesse caso. É tão linda. Esta é a nossa festa. – Phillip! – ela sussurrou.. rodopiou Emmeline diretamente para os braços do amigo. – Não tive a intenção de embaraçá-lo. Acabei de conhecê-la esta noite. – Não se preocupe. dançamos? – Sim. – Obrigado. ela apoiou a cabeça no peito dele. Com a outra. sou um homem igual Herschel Wainscot. – Seus lábios cobriram os dela e Emily correspondeu com paixão. – Nunca me canso de olhar para você. Agora. provocando em Emily um arrepio. Espero que guarde um pouco do seu fogo e da sua paixão para mim. Wainscot apareceu entre os casais que dançavam. Wainscot tomou a mão de Emily que Phillip segurava. Emmeline? De onde ela é? – Sei o mesmo que você. – Ele segurou o rosto dela entre as mãos e acariciou seus lábios com o polegar. Vou lhe ensinar tudo o que precisa saber. – Phillip acariciou o rosto de Emily e os dois começaram a dançar ao som da valsa. – Não me embaraçou. Dance com Emmeline e me deixe dar uma volta pelo salão com essa visão de mulher que você chama de noiva. – Phillip. Emily afastou o rosto. Um homem de negócios que trabalha para tornar esta cidade melhor para todos nós. Faz com que eu tenha vontade de. faça um favor a um velho amigo. da maneira como fala. embora a intenção dele fosse despertar o seu desejo. Wainscot.– Minha querida – Phillip passou o braço em torno de sua cintura e a apertou contra si –. – Emily secou o suor em sua testa com o lenço que trazia na palma da mão. cara Emily. Pensei que não se interessasse pelas reuniões pelo direito de voto. – a orquestra começou a tocar – . – E você é um homem bonito e querido.

conduziu Emily para longe de Phillip. Wainscot – Emily falou. Imediatamente. não encontrou nenhum deles entre os convidados que dançavam. não? Eu duelaria com ele se acreditasse que a senhorita me aceitaria depois de minha vitória. No entanto. por que a empurrou para Phillip? Espiou por cima do ombro de Wainscot e avistou Phillip dançando com Emmeline como se o corpo dela lhe fosse muito familiar. de vez em quando. ela olhou em volta à procura de sua mãe e seu pai. – Ele tem a senhorita. Emily olhou ao seu redor. – E ele continua tendo sorte com as mulheres? Herschel fitou-a nos olhos. – Vamos dançar? . Wainscot – Emily se afastou. – Emily – Herschel falou após alguns instantes –. – O senhor não me parece sofrer por falta de belas acompanhantes. Herschel ofereceu o braço a Emily. mas o ar entre Emily e Herschel era quente e pegajoso. – Se a dama é tão tola. para então servir a si mesmo. por favor. ainda se esforçando na tentativa de descobrir onde Phillip estava. – Só espero não ter ofendido o senhor. Lembrome de nosso primeiro dia no campus. Emily sentiu o cheiro forte de vinho do porto. Maldito Daniel Ludlow por semear a dúvida em seu coração. espero não tê-la ofendido em nossa conversa há pouco. Herschel ofereceu-lhe a mão. – Porque eu queria dançar com a senhorita. e nunca senti tanta inveja de meu melhor amigo. erguendo o queixo com um sorriso e mantendo a voz leve e alegre. Sinceramente. Foi então que decidi que ele seria meu melhor amigo. – Emily conhecia a maioria das mulheres em seu círculo social. A bebida era doce e refrescante. Emily bebeu o que restava de seu ponche e depositou o copo na mesa. sentindo o calor subir por suas faces. – Phillip sempre teve mais sorte com as mulheres. – É a mulher mais linda desta festa. quando todas as garotas competiam pela atenção dele. Como ele esperava que ela respondesse? – Sr. Ou Phillip. como se suas mãos tivessem conhecimento íntimo de cada curva. – Seria preciso mais que interromper uma dança comigo para me ofender. netas e parentes que iam a Birmingham para longas visita. Herschel – ela respondeu. Emmeline é uma mulher muito bonita. – Herschel. onde lhe serviu um copo de ponche. – Não me ofendeu. lutando contra o sentimento de culpa por descon ar dele. – Sr. – Quando ele exalou o ar dos pulmões. – Como a conheceu? – Ela é filha de um amigo. e a levou até a mesa de bebidas. Herschel. considero sua posição admirável. Herschel riu alto. até mesmo sobrinhas. Desejando escapar da companhia dele.

Emily hesitou. – Conversarei com Phillip a respeito ao final desta dança. Você não é todo mau. quando estivermos casados. – Talvez seja ele quem deva nos encontrar. – Você se tem em alta conta. mas acabou cedendo. – Teremos de convidá-lo para jantar conosco. não é mesmo. – Precisamos encontrar Phillip – determinou. Emily riu. Herschel? – Não mais que qualquer outro homem. . Foi então que Emily avistou as costas de seu noivo desaparecendo nas sombras escuras do terraço. – Vindo da senhorita. Com isso. Herschel se pôs a rodopiar pelo salão. seus cabelos loiros re etindo o brilho dos candelabros. – Talvez Phillip tenha razão. o sorriso magnífico tentando conquistá-la. deixando-se conduzir por entre os convidados. com Emmeline Graves nos braços. trata-se de um grande elogio. – Convite aceito desde já.

para Tim. o que agora tinha coragem para ser. A costureira da Malone & Co. O assoalho de cerejeira brilhava sob seus pés. Charlotte imaginou a expressão no rosto da moça quando vestisse o Herrera e. quase uma semana depois de ver Tim no Homewood Gourmet com a ex-namorada. Em que posso ajudar? O homem caminhou na sua direção. Ou de um noivo. uma família ou de um casamento de Cinderela para se afirmar. Ela recuou um passo. A verdade era que não quisera abrir mão de sua identidade como órfã bem-sucedida. estou – ele respondeu e parou diante dela. telefonasse para o noivo aos prantos. amor. em seguida. ele nunca a chamara por qualquer nome que não fosse Charlotte ou Char. Onde o vira antes? . chocada. Charlotte parou quando a porta se abriu e os sininhos tocaram. Ao chegar no patamar da escada. e marcara a primeira prova para sábado. e pela saia de tule. Conseguira dormir bem nas duas noites anteriores. Ajeitando o vestido no manequim. agora. Charlotte tinha de admitir que se mantivera fechada. Nunca “querida”. E se fosse honesta consigo mesma. Havia provado ser capaz de se realizar sozinha. Charlotte Malone podia voar muito alto. passando pela cascata de luz do sol que entrava na loja pelas claraboias. depois de pedir a Deus um pouco de paz. “meu anjo” ou “amor”.. O perfume de rosas tomou conta da loja.” Por que nunca tivera um apelido carinhoso para Tim? Ele sempre fora. Enquanto descia a escada. bordado à mão. talvez? – Está aqui para tratar de um casamento? – perguntou. Uma cliente nova escolhera o Herrera. passando pelos vestidos de Heidi Elnora e Bray-Lindsay em exposição. Charlotte tentou adivinhar se ele era o pai de uma noiva. Tim. Que ela se lembrasse. Era um de seus modelos favoritos. criando uma vida boa. contando apenas consigo mesma. – Para dizer a verdade. que ela adorava.Capítulo Dez Charlotte Charlotte levou o vestido do estilista Herrera à sala de costura. Ela havia notado a camisa púrpura no momento em que o vira e. segura e confiável. simplesmente. os olhos azuis a atingiam com algo familiar. Não precisava de um homem. mas ela se sentia melhor naquele dia. – Bem-vindo a Malone & Co. que era perfeito para ela. “Encontrei meu vestido. provocando uma sensação ardente e agitada em seu peito. Charlotte deslizou a mão pelo corpete de cetim cor de marfim. ao menos em parte. Em seu coração ainda faltava luz. Bethany. sempre inspecionava o vestido antes que a noiva o provasse.

ao mesmo tempo em que uma onda de calor envolvia seu espírito. que olhava pela vitrine. – Sim.. – O homem caminhou pela loja. Charlotte bateu o cartão contra a ponta dos dedos. Só sei que foi ele quem me vendeu o baú no leilão. aquilo é o que se pode chamar de roxo ofuscante! – Dixie bateu de leve no vidro. Lindos. Como é mesmo o seu nome? – Minha filha conhece a sua loja. ela sentiu algo diferente. – Posso perguntar qual é o seu interesse no baú? Era seu? Pertenceu a alguém em sua família? – De certa forma. como se ele a conhecesse. Mas.– Você abriu o baú? – o homem indagou. A porta dos fundos bateu e os passos de Dixie. – Cara. – Tesouro? Aquele baú não é exatamente um tesouro. as mãos cruzadas atrás das costas. Dix. posicionando-se atrás do balcão e sentindo o ar frio envolver seu peito e se espalhar por todo seu corpo. empunhando seu cartão de visita. – Charlotte.. mas era impossível. eu. – Ele se aproximou e estendeu a mão. – Charlotte esfregou as mãos pelos braços gelados. – Talvez eu tenha acabado de conhecer meu pai. Preciso manter minha loja funcionando.. Foi um prazer revê-la. Um calafrio percorreu a espinha de Charlotte. observando o homem partir. tando Charlotte por cima do ombro. – Eu só queria saber do baú. – Estação das noivas? – Charlotte riu diante da expressão tão incomum. Ele estudou o cartão com expressão gentil e se afastou sem pegá-lo. – Esta é a estação das noivas. está bastante familiarizada com ela. – Como sua filha se chama? Talvez eu tenha o cadastro dela. que sempre pareciam dizer “querida. Diga à sua lha que terei prazer em. Sentiu-se. – O que disse? – Charlotte balbuciou. . – Tem uma filha que vai se casar? Charlotte se aproximou dele. – Modelos exclusivos.. inspecionando os vestidos. Suas mãos se apertaram como se houvessem feito isso centenas de vezes. Como poderia esquecer um homenzinho tão estranho? – Não. Você o abriu? – Foi o senhor que me vendeu o baú? – Ela riu. – Charlotte pressionou a mão contra o estômago. sim. Era como se o conhecesse. – Deu de ombros. – Uau. – Espero que seja. a era das discotecas da década de 1970 já passou! – Deu meia volta e encarou Charlotte.. ressoaram no assoalho. Encontrada. Os calafrios se espalharam pelo corpo dela. – O fecho está soldado. afinal. Aliás. Ela parou perto de Charlotte. – O baú que adquiriu no leilão. não. Quando ele pronunciou a palavra “resgatar”. tenho uma lha que vai se casar – ele nalmente respondeu.. – Quem é aquele homem? – Não sei exatamente. – Sim. cheguei”. mas faz bem se esforçar para resgatar um tesouro...

Simples e sem dramas. assim!”. Depois que Dixie e Jared se foram. se tivesse passado trinta anos fora da vida de sua filha? – Não. mas preciso voltar para o hospital dentro de poucas horas e estava contando com a minha amada Dixie para preparar um lanche para mim enquanto durmo um pouco. Disse que tem uma lha que vai se casar. Ela e Tim. à luz do abajur. Onde estivera ele. se fosse seu pai? – Você diria. zum”. – Dixie se pôs de pé. acho que não. acho que terá de fazer um buraco para conseguir abri-lo. O martelo e a chave-de-fenda de Dix. mas esse senhor. – Já contei que Charlotte acha que o pai dela esteve na loja hoje? – É mesmo? – Não sei. Charlotte alinhou suas ferramentas. Não precisava dele agora. porque Dix insistira que ela poderia precisar. que ainda vestia sua roupa de cirurgia e parecia pronto para um longo cochilo. então? Charlotte suspirou. Então. Charlotte se sentou no chão. – Mas um buraco não me leva a lugar algum. erguendo a ferramenta na direção do Dr. uma serra. o mesmo que me vendeu o baú. – É claro que vou cozinhar para você. foi à loja e perguntou se eu já o havia aberto. sem ele. precisara de um pai. A resposta que inventara quando criança para explicar a ausência do pai era a mesma a que se apegava enquanto mulher. Gostosão de Dixie. – Dix. – Não conheci meu pai. pegando a furadeira e examinando o fecho do baú. imaginando o homem de camisa púrpura e tênis Nike brancos. eu acho. com música tocando.Em seu quarto. Mas ele estava só se despedindo de mim. perguntei o nome dela e ele respondeu com o meu nome exatamente ao mesmo tempo. Desculpe por eu não poder ajudar mais. Jared – Charlotte respondeu pensativa. preciso da furadeira? – perguntou. muito bem. Quando sua mãe morrera. amantes usavam apelidos carinhosos. pegou o martelo e bateu de leve no metal soldado. Jared? – Não acha que ele diria. diante do baú. . Dix. – Bem. Seria ele seu pai? Queria ter um pai? Para quê? Qual seria a vantagem? Sua vida ia bem. Minha amada Dixie. O metal continua soldado – Charlotte concluiu. querido. e pareceu que o nome da lha dele é Charlotte. e uma furadeira. mas ele atiçou minha curiosidade. – O que há para saber? Você aponta esse negócio comprido para o metal soldado e “zum. Charlotte o encarou. não sei como usar a furadeira. – Jared – Charlotte virou-se para o médico sentado na beirada de sua cama. – E você. o que acha. Acha que pode haver alguma pista dentro do baú? – Não sei. – Dixie ilustrou suas instruções com mímicas e uma expressão que dizia: “Viu? Simples. O melhor a fazer é abrir e descobrir. faz um buraco. não. Ela não precisa de uma furadeira. Sim. – Char tem razão.

Talvez o melhor a fazer fosse arrastar aquela coisa até o lixo. cujo desejo de correr o mundo o levara a atravessar mares bravios e desertos castigados pelo sol. Por que perder tempo tentando abrir aquele baú velho. Ou pior. sim. Ao menos. Um verdadeiro Indiana Jones. Nem mesmo o amor profundo por sua lha. o homem de camisa púrpura. A solda se manteve intacta. esse era seu pai. havia deixado claro para ele que não havia separação entre o noivo e o amigo. Martelou o cabo da chave-de-fenda. se preparando para ouvir a voz dele. Talvez o baú não devesse ser aberto. Charlotte desistiu. desligou e se sentou na cama. uma fresta. Charlotte começou a falar. ia resgatar? “Este baú pertence a você”. pegou o telefone da mesinha de cabeceira e discou o número de Tim. um dia. tentando criar uma abertura. Um viajante incrível. Assim que ele atendeu. sentindo a madeira e o couro mais lisos do que esperava. Então. Ora. Quero abrir o baú. entrasse em seu coração. riscado e estragado? O que. Charlotte. Quem quer que houvesse decidido que o baú deveria permanecer fechado para sempre. exatamente. Precisava de uma ferramenta elétrica. Pegou a chave-de-fenda e procurou por um ponto maleável no metal soldado que. o coração aos saltos. Ele tinha de se render às paixões de seu coração. O que cortaria o metal? Charlotte olhou em volta. fora um fecho. podia. não. No entanto. levara a intenção muito a sério. na última quinta-feira. Sua vocação exigia que ele quebrasse as barreiras de Birmingham e fosse além da calmaria da vida cotidiana. Ridículo! Como serrar metal? Mesmo assim. e Charlotte foi tomada de alívio. Como havia comentado com Dix antes. se fosse possível partir uma solda com martelo e chave-de-fenda. Para o noivo Tim. Nenhuma evidência de seu pai. Depois da conversa que haviam tido no estacionamento do restaurante.Seu pai era um grande aventureiro. Voltou a discar o número de Tim. Provavelmente. Atirou-se na cama. O Homem Púrpura poderia não saber o que estava dizendo. Ela só precisava abri-lo e provar a si mesma que estava tudo bem. sabia quem tinha as ferramentas adequadas. Charlotte se pôs de pé. tentara. como poderia passar de carro sobre uma ponte? Pegou a serra. antes que o que quer que houvesse ali dentro adquirisse vida e subisse em sua cama durante a noite. Charlotte abraçou os joelhos e se balançou para frente e para trás. Charlotte. Charlotte passou a mão pela tampa. o baú estava vazio. evitando a possibilidade de uma conversa pessoal e de pesados instantes de silêncio. mas preciso de algum tipo de . poderia impedir seu destino. ou de qualquer coisa a ser resgatada. Depois de umas poucas tentativas. talvez ela houvesse mudado de ideia. Charlotte abaixou o martelo. – Amigo Tim? Aqui fala a amiga Charlotte. mas não havia nenhuma no apartamento. porém. Aquilo era loucura. posicionou a serra debaixo do fecho. Ou podia? Para o amigo Tim. ela não podia ligar para ele e pedir ajuda. Sim. dissera o leiloeiro. de coisas como casar-se e educar filhos.

não z você vir até aqui para falar de meu pai. Nunca o vi. Mamãe o conheceu quando estudava na Universidade do Estado da Flórida. E uma furadeira. sentada no chão diante dele. às vezes. Charlotte.. Nem mesmo sei seu nome. então.. simplesmente. deslizou-os pelos cabelos. pressionando o metal. uma chave-de-fenda e um garfo em sua caixa de ferramentas. Chegarei aí em dez minutos. – Obrigada. estudando o fecho. Tim.. encaixando uma lâmina na serra. Assim como acontece com crianças e seu cobertores. Tim interrompeu o trabalho. que só serve para fazer buracos. – Charlotte. foi ao mesmo tempo interessante e assustador – Charlotte respondeu. Foi apenas um momento estranho. um baú no leilão Ludlow? – Falando assim. Eu levaria o baú até sua casa. agora. depois de vender a você. E então. acha que consegue abrir o baú? – Consigo. bem. mas. engravidou e. – Ela contou sobre a coincidência de ele ter respondido à sua pergunta com seu nome. Kim está aí? Não se preocupe. – Foi isso.. – Charlotte.. parece completamente sem sentido. o que a fez pensar que ele poderia ser seu pai? – Não sei. – Está dizendo que. mas ele atiçou minha curiosidade. se seu pai parasse na sua frente. mas. Loucura? Sim. – Está dizendo que o homem que vendeu o baú a você apareceu na loja? – Tim indagou. – Podemos cuidar disso outro dia. – O que está dizendo? Seu pai apareceu na sua loja.ferramenta elétrica. fiquei com a impressão estranha de que ele poderia ser meu pai. quando contou a ele. – Ora. se coubesse em meu porta-malas.. Quando ele se foi. um homem foi à loja e. Podemos.. Charlotte nunca tivera essa conversa com Tim. loucura. Ele estava apenas se despedindo. – Não. – Charlotte pressionou os dedos sobre os olhos e. ou posso esperar até Jared voltar para casa. – Algumas das coisas que ele disse me deixaram arrepiada.. – Charlotte perdeu o fôlego e a coragem.. Tem compromisso? Desculpe. Tim. se apaixonou. me desfazendo do baú. Ligue essa serra. a gente se apega a coisas velhas e feias e não consegue se livrar delas. – Nem mesmo em fotografias? Mesmo tendo chegado tão perto do casamento. – Sim. ou da falta dele. Ela soltou o ar. – Estou na rua. Outra prova de que ela havia mantido uma barreira entre eles. misteriosamente. não o reconheceria? – É claro que não. ele a abandonou. Hoje. Se você estiver ocupado ou tiver algum compromisso. Respire. Achei que acabaria. – Deu um tapinha na . embora ele só tenha um martelo. encontrando um ponto onde começar seu trabalho. – Tim depositou a ferramenta no chão e a encarou. é uma história longa e esquisita.

Os muros que protegiam o coração de Charlotte estremeceram. – Sairei em um minuto. Tim. Perguntei dele à minha mãe uma vez. Alguém precisa testemunhar este momento. Quando as lágrimas secaram. Tim ligou a serra sem pronunciar nem mais uma palavra. o espaço diante de “nome do pai” é um grande vazio. sobre Tim. fique. Como doía. seu amigo. – Gosto de ter meu amigo Tim aqui. – Tem certeza? Charlotte o fitou nos olhos. a serra já fizera seu trabalho. – Charlotte ajoelhou diante do baú.tampa do baú. alguns nomes impróprios a lábios cristãos. quando ela havia omitido partes importantes de si mesma. a serra sibilava e zumbia. – Por favor. conversando com ela sobre seu pai. Em minha certidão de nascimento. – Tenho pena dele. – Com licença – ela murmurou e desapareceu no banheiro. – Talvez o amigo Tim tenha uma conversa com o noivo Tim. – E o que ele vai dizer? . sem olhar para Charlotte. ela se sentou sobre a tampa abaixada do vaso e desenrolou papel higiênico su ciente para que pudesse cobrir o rosto e chorar. Tim juntou suas ferramentas. Charlotte assoou o nariz. desejos despertaram. seu noivo. – Bem. – Abra essa coisa. – Ele abriu mão de algo incrível. Do outro lado da porta. ela não me contaria nada sobre ele. Ele assentiu com um sorriso nos lábios. – Vamos ver o que há aí dentro. Ela o segurou pelo braço. – Eu magoo a mim mesma. – Nem mesmo o nome dele? – Tim insistiu em abrir a porta que mantinha os sentimentos de Charlotte bem guardados. – Desculpe. seu amigo. lavou o rosto e penteou os cabelos. Ela disse que se ele não queria me dar seu nome e seu amor. Quando abriu a porta do banheiro. Não podia culpá-lo por não estar preparado para se casar. Como sentia falta dele. Porém. quando tinha dez anos. Sentimentos a oraram. – O amigo Tim gosta de estar aqui. ela queria conversar com Tim. não tive a intenção de magoar você. Depois de fechar a porta. – O problema é que meu amigo Tim é muito parecido com meu noivo Tim. mas a conversa ecoou no coração dela. em vez de se empenhar em abrir o baú. estava ali. sobre o baú. – Tim se posicionou diante do baú e apanhou a serra elétrica. – Talvez ele tenha se sentido como um gato preso em uma árvore. Tim segurava o fecho em uma das mãos.

revelando o que parecia ser um vestido perfeitamente preservado. Era fechado por um cordão. Tim? – Ele estava destruindo o momento glorioso da descoberta do vestido espetacular. – Eu não disse que você sabia. Espiando o interior. Quais são as chances de você ir parar na montanha. abra esta coisa. passando o saco para ela. O aroma de cedro tomou conta da sala. – Sim. Por que o Homem Púrpura insistiria tanto para que eu abrisse um baú vazio? Tim enterrou o braço no baú e empurrou o papel. Dando um passo para trás. – O que é? Deixe-me ver. Agora. – Pare de colocar palavras em minha boca. mas alguém sabia. amigo Tim. Você comprou um baú com um vestido de noiva dentro? Pouco antes de terminarmos? – Ei. Charlotte. por exemplo? Um tesouro? Ouro? Rubis? – Claro. O homem de camisa púrpura. – Acho que está vazio. – Isso é muito estranho. o cenho franzido. isso é loucura. Charlotte engoliu seco. mas seja gentil com o noivo Tim. vamos. Por que diz isso? – O leiloeiro. Charlotte sorriu. – É o que estou pensando? – Tim murmurou. – É o seu tesouro. e acabar comprando um baú com um vestido de noiva dentro? E o que foi que o homem disse quando foi à loja hoje? Que tinha uma filha que ia se casar? – O que está tentando dizer. e a saia e a cauda tocaram o chão. Charlotte. – Ora. com o mesmo cuidado que teria ao passar um recém-nascido. – Como o que. que carregou o saco até a cama. lançando um olhar rápido para ele. em um leilão onde não pretende comprar nada. Um vestido de noiva. acho que encontrei alguma coisa. – Tem de haver alguma coisa. ela começou a escavar as camadas de papel de seda. Charlotte desamarrou delicadamente o cordão e abriu o saco. Vai me dizer que não acha essa história nem um . Pense bem. diga ao confuso noivo Tim que eu não sabia que havia um vestido dentro do baú. amigo Tim. Por que não? Espere. – É você quem deve abri-lo – ele disse. Tim olhava fixamente para o vestido. – Sinto muito se tudo isso o faz sentir encurralado. – Veremos. Charlotte acompanhou Tim. Tim retirou um saco de linho macio do meio das camadas de papel. – Está bem. Charlotte ergueu a tampa do baú com uma pontada de expectativa.– Vai dizer: “Você é um grande tolo”. ela o ergueu.

. Este é um vestido de noiva. – Talvez Deus. – Como é? – ele indagou confuso. formando um “V” central. – É lindo! A saia era mais curta na frente. – Não faço ideia. O corpete simples parecia ter sido cortado confeccionado nas medidas exatas da noiva. se é que ela podia usar uma palavra tão ousada. – Charlotte pressionou a testa com os dedos. Os os pareciam cintilar. apenas o bastante para revelar um par de sapatos elegantes. A mistura de seda e cetim re etia o brilho dourado dos abajures. Sua ex-noiva Charlotte não vai começar a chorar e declarar que nascemos um para o outro. – Virou-se para encará-lo. As camadas de tule e crinolina mantinham a forma perfeita da saia evasê. Sabe o que o homem de púrpura me disse? Esta é a temporada das noivas. – Não fique aí parado. – Não sei bem o que isso signi ca. onde ela planejara ter uma penteadeira que nunca fora comprada. – De onde você acha que veio? – Tim perguntou do outro lado do quarto. erguendo o manequim e passando-o por cima da cama. Ou que devemos reatar o noivado. Fazia sentido agora. Deus concedera esse dom a ela. Charlotte virou a bainha para examinar as costuras e o acabamento. Charlotte se perguntou como encontraria uma noiva na qual o vestido servisse. As pérolas incandescentes da cintura alta também haviam sido bordadas a mão. É mesmo? Então. O cetim cor de mar m fora costurado à mão. Espere. – Ponha ali. A reconheceria quando a visse. – Tim. não na máquina. – Ajuste-o na altura máxima. destinada a usar este vestido e sou eu quem vai realizar esse destino. Venha me ajudar. talvez esse vestido seja o motivo pelo qual nós terminamos. Charlotte teve vontade de abraçar o vestido. mas talvez signi que que este vestido foi “enviado” para mim – usou os dedos para fazer o sinal de aspas – para . Há uma mulher por aí. – Sou dona de uma loja de noivas. Tim ajustou a altura e recuou para Charlotte ajeitar o vestido no manequim. O tecido macio cascateou até o chão. Ela já vira vestidos demais e sabia reconhecer a diferença.pouco estranha? – Acho muito estranha.. como se satisfeito por ter ganhado vida. mas trate de se controlar. Alterar aquele vestido seria o mesmo que modi car um Rembrandt ou acrescentar um rosto à Capela Sistina de Michelangelo. – Charlotte indicou o espaço vazio no quarto. por que parecia tão aliviado? Charlotte abriu o guarda-roupa e retirou um velho manequim que guardara ali. Charlotte estendeu a cauda de tamanho médio. sem que fosse preciso dani car o trabalho perfeito com alterações. Tim obedeceu. Ela teria de encontrar a noiva perfeita para o vestido. Não. – Não pensei nada sequer parecido.

Examinou-o entre os dedos. – Nada – declarou.. inclinando a cabeça e apurando os ouvidos. – Talvez. supostamente.. Os dedos de Charlotte passaram por pontos salientes na costura traseira da saia.. Tive receio de me casar porque esse vestido pertence a outra noiva? – Sim. – Ah.. haja mais no baú. Charlotte atravessou o quarto para apreciar o vestido a certa distância. não. Não é “nada”. – Charlotte segurou-o pelos ombros. o tule teria deteriorado. TH? Não reconheceu as iniciais. TH. mas nada exatamente como aquele vestido. batendo na madeira. Ela ergueu o tecido para enxergar melhor. – Alguns baús têm painéis secretos. Mais que uma história.. – Quer dizer que.. naturalmente. Tim. mas há algo aqui. era um homem prático.que eu encontre a noiva perfeita para usá-lo. A nal. apertou-os e soltou-os. Não sei. Não conseguiu pensar em um gurinista de noivas dos últimos cinquenta anos com aquelas iniciais. Cem anos de idade? De jeito nenhum! Se o vestido tivesse mais de vinte anos de idade. E Charlotte estudara todos eles quando ainda acreditava que queria desenhar vestidos em vez de só vendê-los. e parece nunca ter sido usado. – Encontrou alguma coisa? Não havia mais nada no saco. Ela já vira modelos parecidos àquele em revistas de noivas e na internet. ontem. – Certo – Tim murmurou sem convicção. Não era contemporâneo. Ergueu a última camada de papel de seda e descobriu um sachê. Veja se há mais alguma coisa no saco. enquanto Tim examinava o interior do saco de linho. O vestido tem. atirando o sachê sobre a cama. . Charlotte reposicionou a saia e alisou-a com a mão.. – Apalpou o interior de cedro. Seria impossível um vestido daquele calibre e preservado tão perfeitamente ser parte do baú ou ter pertencido a uma noiva de 1912. – Tim ajoelhou ao lado do baú – . mas talvez. que mantinha os pés no chão com rmeza maior que as raízes dos carvalhos centenários. cem anos de idade. sentindo uma corrente elétrica percorrer seu braço e se instalar em seu peito. mas também não era vintage. como o leiloeiro alegara. Isso é uma coisa incrível. O vestido parecia ter sido confeccionado. Voltou a examinar a bainha à procura da marca de um gurinista.. o tecido teria amarelado um pouco. Sentou-se.

As mangas bufantes nos ombros quase atingiam a altura de suas bochechas. tocando-lhe o braço. – Não posso usar este vestido. Emily. Abrindo-a com um gesto irritado. Caruthers. – Sempre acrescento um toque do meu estilo próprio a cada vestido. é simplesmente maravilhoso. mantendo os olhos na porta. A gola alta apertava sua garganta. – Acrescentei um pouco de tecido à saia com relação ao modelo original de Goody. Havia ali tecido suficiente para dois vestidos de noiva. A imagem a fez lembrar-se dos soldadinhos de chumbo de Howard Jr.Capítulo Onze Emily – Meu Deus. Simplesmente maravilhoso. – Emily en ou um dedo entre o pescoço e a gola sufocante. Quer que a cidade inteira a veja com seu vestido de noiva? – a mãe a repreendeu. afaste-se da janela. Trate de medir suas palavras. . mamãe. debruçou-se o sobre peitoril para respirar o ar fresco de Birmingham em pequenas golfadas. Desceu do banquinho e foi até a janela. querida? Não é lindo? – É horrível – Emily sussurrou para a mãe. as mãos cobrindo as faces coradas. Seu pescoço parecia sustentar sozinho todo o peso da saia de cetim branco e da cauda longa. – Pedirei a ela que ajuste melhor a gola e alargue a cintura. Parecia balofa e rechonchuda. – O que acha. Mais do que eu havia imaginado. É lindo. Não sei de onde ela tirou a ideia de que é adequado a um casamento na primavera. e ela ainda tem de confeccionar o seu enxoval inteiro. ou respirar. Sra. Emily queria gritar para o próprio reflexo no espelho. longe de ser ela mesma. este vestido é celestial. No mais. e os cotovelos estavam tão apertados. A Sra. parecendo muito satisfeita consigo mesma. os olhos brilhando. Caruthers estufou o peito. Caruthers. que voltaria a qualquer momento com um par de sapatos para combinar com o vestido. sob a luz fraca de outubro. rasgando o vestido para se livrar dele. E é apertado demais. esforçando-se para conter o grito que se formava em sua garganta. no meio da sala. Canton deu uma volta em torno de Emily. Caruthers. De cima do banquinho. talvez três. – A Sra. ou vai acabar ofendendo a Sra. que era impossível a Emily dobrar os braços. Não posso me mexer. Ela não podia respirar. o que deu em você? Não é horrível. à espera da Sra. – Ela precisa ser ofendida. Ela fechou os olhos. o vestido é deslumbrante. O corpete justo exigia um espartilho mais justo ainda. assim como o impulso de sair correndo da sala. – Emily. – Emily.

Se não temesse desmaiar por falta de ar. reunira coragem para falar com ele sobre Emmeline. Caruthers. A mãe teve de desamarrá-los para ela. – Sim. Quando se levantou. não há resposta simples para um homem acusado de infidelidade. – O vestido é perfeitamente adequado ao casamento de um Saltonstall – a rmou a Sra. Emily quase caiu. sentia-se sufocada pelo excesso de cetim e renda.. Caruthers forçou os sapatos nos pés de Emily. – Acho que são pequenos demais. – Certamente. Phillip. – Tenho certeza de que será aprovado pela Sra. o que fez suas costelas esmagarem os pulmões. ao menos.” – Aqui estão. – Emily tentou se levantar.– A gola. Caruthers – ela disse. Aquela camisa de força. – A Sra. Tirou os sapatos. A experiência a fizera sentir-se muito mal. – “Ela é ou não é sua amante?” – “Não acredito no que estou ouvindo. – “Está respondendo à minha pergunta com outra pergunta.” – “Um ‘não’ me parece simples o bastante. – Tenha cuidado. Emily se sentou em uma cadeira. mas não conseguiu se curvar para tirar os sapatos que usava. Está me acusando de in delidade. um número. e pela lembrança da conversa que tivera com Phillip na noite anterior. ou vai rasgar as mangas – a costureira advertiu. Estou perplexa por você não conseguir pronunciar essa palavra. Caruthers depositou um par de sapatos de couro branco e saltos altos aos pés de Emily. .” Ora. para então começar a soltar os ganchos e botões. Finalmente. encarando a Sra. Canton – retrucou a mãe de Emily em tom um tanto enérgico. enquanto o bico espremia seus dedos. Sra. De nitivamente. Basta um simples sim ou não. a cortesia de ser um homem casado primeiro. Estou chocado com este interrogatório. ainda mais satisfeita consigo mesma. dando um leve tapinha na mão de Emily. ela não teria um momento de prazer em seu próprio casamento. o sujeito já a tirava do sério. Ela é sua amante?” – “Emily. se usasse aquela. No entanto.” – “Porque estou tentando compreender a sua acusação. minha querida. mamãe.. antes mesmo de nos casarmos? Dê-me. – Emily demonstrou a incapacidade de dobrar os braços. Saltonstall. – As mangas. Muito bem. As laterais enrugaram suas meias. Uma noiva precisa de pés delicados. mas você vai se acostumar. A Sra. Emily teria continuado a discussão com a mãe. Caruthers enquanto tentava erguer os braços para desabotoar a gola do vestido. a cintura e as mangas. Emily fez uma careta para a mãe e se deixou cair de volta na cadeira. tem a aprovação da Sra. – Quero um par no meu tamanho certo – sibilou. mamãe! – Vou desmaiar se não tirar logo este vestido. mas caiu de volta na cadeira.

a menina terá um buquê nas mãos quando se encaminhar para o púlpito. Loveman a mantém na loja. Caruthers e desceu as escadas ruidosamente. – Pois eu não con o. Caruthers. Canton afastou-se alguns passos e entrou no bonde. engolindo a bile que ameaçava alcançar sua garganta e respirando fundo para que seus pulmões se expandissem. – Ela é quem é rude e insolente. – Soltarei as mangas. – Emily ajeitou o chapéu de marinheiro sobre os cabelos presos. nalmente extinguindo o fogo que ardia em seus pulmões. Com isso. ainda calçando as luvas. Caruthers. Emily inspirou o ar fresco. Emily observou a mãe partir. mamãe. – Francamente. e Emily fechou os olhos ao sentir o ar na pele. A Sra. – Atrevo-me a dizer que estamos pagando para que a senhora faça o que pedimos. Por piedade.o e esperando que o trânsito parasse . – Pedirei que cubram o sorvete com calda quente de caramelo. ela mal conseguirá erguer o copo em um brinde. e me dei conta de que você não tem vestidos de veludo su cientes no seu enxoval. – por favor. Vi umas peças de veludo na Loveman’s. apertando a mão da lha. Sra. caminhando até o meio. como se houvesse chegado ao paraíso. Em. – Não entendo como o Sr. Ela está prestando um serviço a você. Caruthers é a melhor costureira da cidade. juntamente com a pequena multidão que fora às compras na quinta-feira. o nariz virado para o sol. Que tal um chocolate quente? – Nunca é frio demais para sorvete. Misericórdia! E ainda nem encomendei o seu baú! Eu realmente gostaria que você se esforçasse para apaziguar a Sra. Emily! – A mãe a alcançou. – A Sra. Emily implorou à mãe que soltasse os cordões do espartilho. mas vou alargar apenas meio centímetro na cintura. Caruthers – a Sra. Emily pousou a mão no estômago. – Já tivemos esta conversa uma centena de vezes. a Sra. Quero falar com seu pai. Desvencilhando-se do vestido. Emily vestiu seu conjunto de lã xadrez em preto e branco. por favor. acredite ou não. – Atrevo-me a dizer que está me pagando pelo meu conhecimento do assunto. – Está frio demais para sorvete. Emily. Assim que a mãe a livrou do espartilho apertado. Caruthers soltou o último botão. – A mãe se rendeu. Com a mão no peito. Precisava de ar. Mamãe. Canton começou com diplomacia. alargue um centímetro na cintura e dê mais espaço às mangas. disse adeus à Sra. – Vá na frente. E terá de jantar na festa. Almoçar doces não lhe fará bem algum. – E pela minha reputação. de liberdade. e as mulheres de Birmingham confiam nela.– Sra. nada mais. mas não vou admitir seu comportamento rude e insolente. se quiser. Emily. Assim. – Você precisa comer uma refeição quente. para então atravessar as portas da Loveman’s e sair para a brisa de outubro. podemos ir ao Newman’s para tomar um sorvete? Preciso de algo para refrescar meu estômago. – Fique nervosa. Que tal? – Parece que não vou conseguir fazer você mudar de ideia.

– De quem é o anel que você leva no dedo? De quem são os lábios que está beijando? – Seus. Significa que você me ama muito. e sua mãe estava determinada demais a se adequar ao círculo social da Sra. Emily deixou os pensamentos voltarem a se concentrar na outra perturbação em sua alma. o lenço de seda púrpura que envolvia seu pescoço emprestava a ele um aspecto de ousadia e realeza. – Hoje é um dia fantástico. – Devo dizer que me sinto lisonjeado. Phillip. Saltonstall para se dar conta disso. enquanto o vento forte castigava sua pele. beijando e acariciando o pescoço de Emily. – Você é a grande Emily Canton.para que ela pudesse atravessar a rua. cuja posse é toda sua? – Seu. vendo-se livre em sua caminhada solitária até o Newman’s. Phillip tentara acalmar Emily com beijos e carícias. e o terno e colete de tweed não eram exemplares da moda do ano anterior. Quinta Avenida. mas sim do século anterior. Phillip. Emily ergueu os olhos e se deparou com o rosto largo e olhos azuis luminosos de um homem que devia ter a idade de seu pai. Pedira a Big Mike que lhe conseguisse o cartão da costureira negra. exceto por ela mesma. – Já nos conhecemos. Emily parou no meio da calçada e retirou da bolsa um cartão. Os cabelos eram grisalhos. Não havia dúvida de que Phillip sabia exatamente como acender sua paixão. – Não vá se acostumar. Agora. e seu ciúme é embriagante. pois as batidas do próprio coração abafavam qualquer som. Caruthers não prestava serviço a ninguém. A Sra. E não sou a grande Emily Canton. senhorita? – O cavalheiro ofereceu-lhe o braço ao mesmo tempo em que um mensageiro passava por eles de bicicleta. No entanto. . – Você também me ama muito? – Deixe-me demonstrar quanto a amo. haviam discutido em sussurros nas sombras da varanda da casa dos Canton. beijos e murmúrios ardentes sobre partilhar sua cama. Não havia nada de excepcional nele. porém. Consegui provocar ciúmes na grande Emily Canton. Tentou dominar a frustração. É perturbador. abaixando as mangas do vestido. Emily mal conseguia ouvi-lo. Phillip a encostara na parede e deslizara a mão por seus ombros. Quando haviam esgotado todas as palavras. o toque da mão dele ao longo do decote de seu vestido fazendo seus desejos arderem à simples lembrança. Não fora a primeira vez em que ele respondera às perguntas dela sobre seu amor com carícias. longe das janelas da sala. Ele a beijara de maneira íntima e sensual. Taffy Hayes. Hotel Gaston. Na noite anterior. Sou apenas uma garota que vai se casar. – De quem é o coração. Emily sentiu os joelhos tremerem. senhor? – Posso acompanhá-la.

condenados a trabalhos forçados. Não lhe restava dúvida de que era extenuante. Emily devolveu o cartão à bolsa. Um arrepio percorreu a espinha de Emily. – Tenho estado muito ocupada. aceite minha oferta. – É para lá que está se dirigindo? – Sim. pressionando o cartão de Taffy contra a cintura. – Já assistiu ao novo lme em cartaz no Princess eater? – perguntou o cavalheiro. Emily? – Se quer saber. com as mãos pousadas na bengala. Emily desviou o olhar. – Planejar um casamento toma tempo. – O senhor parece saber um bocado sobre mim. Então.G. – E em sua vida? – ele indagou. Emily inclinou a cabeça para o lado. O cocheiro sacudiu as rédeas e manobrou o capão para ultrapassar um automóvel que brecava. – E paciência. A charrete passou por um grupo de homens acorrentados. O homem fez sinal para uma charrete de aluguel. ele lera o cartão antes que ela o escondesse. estudando o homem a seu lado. – Emily deslizou a mão pelo braço arrepiado. mas logo cedeu e pousou a mão no braço curvado à sua frente. – É verdade. voltando a oferecer o braço. certamente. quase impossível. mantendo os olhos xos à frente e exibindo um sorriso largo. tentando adivinhar suas intenções. ele instruiu o cocheiro a leválos ao hotel de A. e ela foi tomada pelo ímpeto de sair correndo. Emily cruzou as mãos sobre as coxas. – Se eu a acompanhar. Sou inofensivo. Na Quarta Avenida. Emily hesitou. senhor? – Emily indagou. se recusavam a levá-la dali. – Como sabia? Ora. Eu sei – o homem assentiu. ele ofereceu o braço. Quem sabe. E o senhor não sabe para onde estou me dirigindo. mas eu não disse para onde ia. – Posso fazer uma pergunta? O que está procurando. Pela terceira vez. dizendo a si mesma que o sujeito parecia ser do tipo que lia as colunas sociais dos jornais. – Vai providenciar seu vestido de noiva – ele respondeu.– E como sabe para onde vou. estará segura em qualquer lugar. assim. – Vamos. Com dedos trêmulos. Suas pernas. Gaston. embora sejamos meros desconhecidos. porém. Não lhe farei mal algum. – Mas não o conheço. desfazer o que fora estabelecido e endurecido com o tempo naquela . a charrete diminuiu a velocidade devido ao trânsito intenso. Guardas brancos conversavam e riam enquanto os homens negros golpeavam com martelos e machados o concreto da cidade. para o caso de o homem ser astuto e tentar ler o endereço. os ouvidos concentrados no som produzido pelos cascos do cavalo. pudesse evitar que ele eletrocutasse seu coração cada vez que os olhos azuis se fixassem nos seus. Seu coração batia descompassado. que parou imediatamente. procuro por um vestido de noiva. o corpo balançando no ritmo da charrete.

apareceu no saguão. . – Isso não sei dizer. O braço dele era firme e quente. Vi seu retrato no jornal. Emily hesitou. – Soube que é costureira. – Meu nome é Emily Canton. do outro lado da avenida. pareceu-lhe perfeitamente seguro e acolhedor. Desconhecido conduziu Emily para dentro do hotel. – Não sabe? – ele insistiu. – Uma das melhores? – Taffy sorriu. Por uma janela aberta. vestindo saia e blusa de cores vibrantes e feitas à mão. O Sr. Emily se virou para olhar. muito mais doce. Uma das melhores. A noiva de Saltonstall. e ela sentiu o coração disparar. O proprietário de uma loja apareceu na porta para repreendê-los por quase derrubarem suas bancas de verduras. – Obrigada. seus corpos não são. Após alguns minutos. – Em que posso ajudá-los? – Srta. a liberdade é muito. mas seus espíritos. Os olhos azuis se desviaram da cena na rua para se xarem no semblante de Emily. Hayes? – Emily estendeu a mão. – Ah. – Como pode saber tanto? Em vez de responder. O Senhor me agraciou com esse dom. Quando a charrete ultrapassou a linha de negros suados sob o sol de outubro. – Liberdade. mas me orgulho do trabalho que faço. O ar carregava o som da música e de risos. – Diferente do que esperava? Emily sentiu as faces corarem e ela lançou um olhar para seu acompanhante. – Sei quem é. sim. mas aceitou. – Para aqueles que já foram prisioneiros. Emily estudou os traços escuros e os olhos castanhos intensos que a observavam. um dia. – A resposta escapou de seu coração por vontade própria. Não vou me demorar. Taffy Hayes e se pôs a conversar sobre amenidades com o jovem funcionário atrás do balcão da recepção. alta e esbelta. Meninos de bicicleta percorriam a calçada em disparada. ouviam-se os acordes de “Cakewalk Rag”.cidade. perguntou pela Srta. “Desconhecido” ofereceu o braço novamente. Viraram na Quinta Avenida e estacionaram diante do hotel. – Diga-me uma coisa – ela murmurou. O clima alegre. o Sr. O cocheiro abriu a porta para Emily e disse: – Esperarei pela senhorita. uma mulher negra. – Mas eles não são totalmente livres. Olhos escuros os observaram da esquina. porém. – Não sei exatamente o que eu esperava.

– Seja bem-vinda ao meu estabelecimento. Tenho uma ideia para você. a enfeitiçara. Taffy sorriu. Emily olhou em volta. – Para você ou para mim? – Para as duas. Admiro a sua. – Ei. – Tem coragem? – Taffy perguntou.– Gostaria que confeccionasse meu vestido de noiva – Emily declarou com um passo à frente. Taffy estivera à sua espera. tendões e ossos. seguindo pelo corredor. Emily. perfeitos. Hayes. Srta. fique à vontade. porém. Ele a acompanhara até ali. fazendo o bem e ocupando os bancos da igreja por uma ou duas horas aos domingos. Gaston. – Por favor. – Farei o seu vestido. Em seu lugar. Era como se estivesse pregada ao chão. É um prazer conhecê-lo. libertando os pés da âncora invisível que os mantinha no lugar. – Tem coragem? – Estou aqui. – Para mim? – Emily não conseguia fazer os pés obedecerem seus comandos. Ela observou Emily como se tentasse medir sua resistência. penetrando sua pele. mas estou acostumada a problemas. Gaston. Taffy passou um braço em torno dos ombros de Emily e as duas seguiram pelo corredor. – Venha. um calor intenso envolvendo sua alma. não estou? Quero ter coragem.G. mas haverá problemas. E você? As palavras envolveram Emily. tou-a com olhar rme. encontrava-se um homem de rosto redondo e olhos castanhos. determinada. claro. à procura do Sr. não como . Srta. Só sei que algo me diz que é você quem tem de fazer meu vestido de noiva. Taffy esperou e. Emily estremeceu diante da ideia. Mas isso. Agora. – Eu sabia que viria. Canton.. – Sim. eu sabia que viria. eu acho. lindos. Desconhecido. serpenteando em torno de seu coração. a conduzira para algo surreal. – Muito bem. quando Emily voltou a encará-la. Emily teve a sensação sagrada de estar sendo tocada pelo celeste. Tinha pouca experiência no que dizia a Deus interceptar seu caminho ou o caminho de alguém que conhecesse. A maior parte de sua família e amigos viviam vidas simples. – Não sei. exibindo dentes brancos. enquanto seus passos ecoavam em uníssono com os de Taffy. Emily lançou-se para frente. Sou A. – Faça seu preço. Sr. – Como? – Como disse. Deus vindo a ela no meio da semana? Porém.. vidas cristãs sossegadas. – Finalmente. onde esteve? – Molly foi encontrá-la na porta da cozinha como amiga. ele se fora.

deu uma piscadela para Emily quando a mãe não estava olhando. senhorita.. Onde estão papai e mamãe? Emily en ou o chapéu debaixo do braço e se curvou para se ver re etida na janela. e a segunda. depositando um copo na tábua de cortar. – Onde? Que tipo de assuntos? – a mãe inquiriu. – Mamãe. papai. retirando o relógio do bolso. isso mesmo. – O pai se levantou e deu a volta na escrivaninha. você estava a caminho do Newman’s para tomar sorvete.. para confiança. Desconhecido enquanto levava o copo aos lábios. – Na biblioteca. lançando um olhar signi cativo para o marido. – Boa tarde? Já é quase hora do jantar. minutos haviam se transformado em horas. ele a conhecia. mas não o bastante para encarar os pais com arrogância. ao menos. não. – Fui a Quinta Avenida para ver Taffy Hayes. – É melhor eu ir falar com mamãe e papai. uma vez para ganhar coragem. Passando pela porta da cozinha. Planejara um encontro rápido com Taffy. – Conhecendo pessoas assustadoramente interessantes. Está muito preocupada. ela seguiu pelo longo corredor que levava à biblioteca. – Ficou horrível. Emily apertou a mão de Molly. – Ele me pareceu inofensivo. – Emily imaginou o Sr. – Não me diga. A mãe se levantou. empinando o queixo. boa tarde. minha lha. – Sim. Molly. mas. Onde esteve. Seu pai devia um pagamento e tanto ao homem. – Pensei que a poderosa Sra. Bem. Emily respirou fundo. – Um cavalheiro estranho. ajeitando os cabelos e prendendo as mechas soltas. me acompanhou. Diante da porta da biblioteca. . Caruthers houvesse feito seu vestido. Foi sozinha? – Sim. Emily sentira-se grata ao cocheiro da charrete por ter esperado por ela. – Foi ao distrito negro com um desconhecido? – Molly inquiriu. – Emily tirou o chapéu. as faces ainda coradas pela tarde gloriosa com Taffy. Emily bebeu um longo gole do leite gelado. Sua mãe chegou há horas. quando a costureira lhe mostrara os modelos que desenhara com ela em mente. Era como se eu o conhecesse por toda minha vida. com um lenço púrpura. Embora apoiasse o interrogatório da esposa. – Fui resolver alguns assuntos. – Encontrei uma costureira para fazer meu vestido de noiva. imaginando o que pode ter acontecido com você. Emily? Quando nos separamos na rua. – Ou. – Você nos deixou preocupados.criada. deixando seu livro de lado. – Emily abriu a geladeira e pegou a garrafa de leite. pegando a garrafa de leite e servindo Emily. – Quer mesmo saber? – Emily retrucou.

– Acalme-se. Howard. esfregando a mão no braço arrepiado. Você recebe de acordo com o que pagou. tomando a mão da esposa entre as suas. aproximando-se de Phillip. – Para o diabo com o preço de vestidos de noiva. com as costuras se desfazendo. – Pagamos à Sra. – Quinhentos dólares? Por todos os vestidos? – A mãe segurou Emily pelo braço. passou três horas desta tarde com uma negra. – O Sr. – O vestido feito por Taffy.– Senhor. o que está dizendo? – Isso é verdade. Hayes não fará um trabalho ordinário. – Que história é essa que ouvi. Ela vai fazer meu vestido de noiva. Emily? Você foi ao hotel Gaston? Ficou horas lá dentro. que trabalham por uma vida decente? O que encontrei lá foram pessoas gentis e cordiais. A con ança e coragem com que havia se armado antes de entrar na biblioteca evaporaram. mais os vestidos de todas as damas de honra. a Srta. Antes mesmo de eu ir procurá-la – Emily declarou. – Papai. Caruthers. Vocês precisam ver os modelos que ela desenhou para mim. Canton desa ava o padrão de comportamento esperado de uma dama sulista. Emily? Você foi ao distrito negro? – perguntou o pai. – Jefferson bateu na porta ao mesmo tempo em que entrava na biblioteca. – Sim. Taffy Hayes. custarão apenas quinhentos. Phillip entrou sem esperar ser convidado. Emily. – Phillip. – O tom de voz da Sra. Canton interferiu. lembrando-os de sua presença. . O vestido que ela confeccionou custou setecentos dólares ao seu pai. – Foi procurar aquela costureira. pais e lhos. Sua lha. ao mesmo tempo em que seu corpo parecia desabar no assento. as mãos na cintura. o Sr. fui procurar pela Srta. não foi? – a mãe perguntou em tom acusador. – Violentada ou raptada? Por quem? Por homens bons. Phillip Saltonstall deseja vê-lo. – Minha cabeça está fria. Canton arregalou os olhos e se apoiou no braço da poltrona. Canton não piscou. – Não vou permitir que entre na igreja usando um vestido ordinário. querida. Emily deve ter uma boa explicação. – Com licença – Phillip sibilou. minha noiva. gente boa como nós. recolhendo a mão e cerrando os dentes. – Phillip – o Sr. Emily? Poderia ter sido violentada ou raptada. Emily recuou um passo. Emily. no distrito negro. – Sua mãe tem razão. – Você já tem um vestido de noiva. O que tem na cabeça. no estabelecimento dela. Está me dizendo que a sociedade de Birmingham está aliviada por saber que estou sã e salva? Ou porque está desapontada por eu não ter sido atacada? – Estão comentando a sua extrema estupidez. – Phillip andava de um lado para outro. – Vamos nos acalmar e esfriar a cabeça. Desta vez. com expressão irada. A notícia já se espalhou por toda Highland e Red Mountain a esta altura. Que diabos foi fazer lá? A Sra.

– Já não tenho tanta certeza com relação à sua filha. – Um homem – Phillip corrigiu.. – Esfregou as mãos em um gesto nervoso. – Conte a eles que você não foi até lá sozinha. Phillip. – Só pode ser o estresse provocado pela proximidade do casamento. – Conte o resto da história a seus pais. o que deu em você? – A mãe soou exasperada. envolveu a mão dele nas suas. vigiados por guardas armados de pistolas e chicotes. mamãe. . Emily sentou-se devagar na poltrona forrada de crina de cavalo. – Se me insultar mais uma vez. – Quem a acompanhou? – o pai perguntou em voz baixa e firme. aprendera algumas coisas sobre Phillip. a expressão de seu semblante se tornando mais suave –. – Acorrentados uns aos outros. – Não tive a menor intenção de desrespeitar os Saltonstall. – Mas não pensou antes de fazer o que fez. acendendo a cigarrilha sem perder a frieza do olhar. Emily – ele disse. Garanto que se houvesse caminhado nua pela rua. onde você estava. Desconhecido porque ele não me disse seu nome. irei embora daqui. ou a seus olhares sugestivos. – Não admito que ande pela cidade. Algo que ia além dos nomes terrenos. – Um senhor gentil que conheci na rua. Mais uma vez. Ao menos. – Foi Phillip quem mencionou estupro. tando-o nos olhos. – O que deu em você para ir ao distrito negro? Condenados trabalham lá. Embora não soubesse muito sobre os homens. – V-você piorou ainda mais a situação.mantendo o paletó aberto. Emily assoprou o fósforo e apertou a mão do noivo. Sorrindo. e ela. Emily – Phillip gaguejou.. só porque tem alguma ideia maluca sobre um novo vestido. retirando uma cigarrilha do bolso do colete. Ele tinha de parar de insultá-la. – Phillip encarou Emily com expressão severa e fria. papai. – Fui com um acompanhante – acrescentou. depois que mamãe pegou o bonde. – É verdade. pelo distrito negro. Somos os Saltonstall. Phillip. Ele nunca deixava de reagir ao contato da pele dela na dele. – A mãe parecia prestes a desmaiar. Emily ergueu os olhos para Phillip. Porque o nome dele era celestial. bem no centro comercial. – Emily. mais segura do que com metade dos comerciantes bajuladores de Birmingham. – Nem os Canton. levou a chama até a ponta da cigarrilha. quando passeou pela cidade na companhia de um homem que não conhecemos. – Talvez você devesse se deitar. E atrevo-me a dizer. Delicadamente. – Está zombando de mim. – Emily. estaria mais segura com os condenados negros do que com aqueles guardas brancos. Emily se levantou quando Phillip se preparava para acender o fósforo. Passei a me referir a ele como Sr. – Passou os braços em torno da lha. fora o que Emily concluíra durante o trajeto de volta para casa. pegou o fósforo e o acendeu para ele.

fazendo a brasa arder. Maggie. – Que assuntos. Emily é uma moça ajuizada. – Vi você entrar na charrete. Phillip. – Não sei por que precisa se colocar na defensiva. mamãe. Desconhecido. – Não há nada naquela parte da cidade. – Será possível que todos foram tratar de assuntos que os levaram para o lado oposto da cidade esta tarde? Howard? – Eu. papai. Sra. Obrigada. A Sra. Phillip? – Emily perguntou. amigos dos Saltonstall. cuido pessoalmente dos negócios. – Emily se virou para Phillip. vi com meus próprios olhos. pare de atormentar seu noivo – a mãe ordenou e se levantou. – Isto está me parecendo uma briga de casal. com o seu Sr. atentos a qualquer coisa que possa nos afetar. – E não sei por que a senhora precisa defender Phillip. – E o que estava fazendo no centro da cidade às duas da tarde? – Emily inquiriu. Emily lançou um olhar irritado para Phillip. – Esteve me seguindo? – Segurando-o pelo braço. – Por quê? O pai deu um passo na direção dos dois.Pedirei a Molly que leve panos úmidos para colocar em sua testa. Emily o fez virar-se para encará-la. não. muito mais do que alguns homens que conheço. alisando a saia e ajeitando os cabelos. Desconhecido? – Tenho minhas fontes. empregados e trabalhadores. o peito subindo e descendo a cada baforada. Estava em meu escritório. em vez de defender sua própria filha. – O pai se colocou entre Emily e Phillip. sozinha. – Ocasionalmente. Canton. a fumaça envolvendo seu rosto. Canton suspirou e voltou a desabar em sua cadeira. como sempre. uma imagem de Emmeline se formando em sua mente. – Emily. – Como soube que fui ao distrito negro? Como soube do Sr. – Fui tratar de alguns assuntos. – Não preciso me deitar. Ele estava escondendo alguma coisa. Temos bons contatos e faremos com que quaisquer rumores . – Não se preocupe. – Phillip? – Tenho pessoas. peço desculpas por qualquer problema que Emily possa ter lhe causado. – Muito bem. – Phillip tirou uma baforada da cigarrilha. Ele exibiu um sorriso arrogante que fez o estômago de Emily ferver. – Mas se quer mesmo saber. – Mas você disse que “viu com seus próprios olhos” – Emily insistiu. exceto por uma grá ca e uma loja de móveis. E você manda as suas pessoas tratarem de questões menores. – Phillip. – Se me viu. Ele usava um lenço púrpura horroroso. Ou você acha que passo o tempo todo sentado em meu escritório dando ordens? Plantou a cigarrilha entre os lábios. por que não me chamou? – Era tarde demais.

Emily? Se eu realmente gostasse daquela magricela. – Ótimo – disse a Sra. então. e você sabe disso. com um tapinha amigável no braço do genro. – Phillip voltou a assumir seu tom severo. depositá-los de volta a seus lugares. – Não essa história de novo. A temporada social está prestes a começar. Já cansamos de discutir minha dança com Emmeline. – Obrigado. mas não esta noite. Sim. vamos encerrar o assunto do vestido. que ela mal podia respirar. Canton. Teremos uma noite de cavalheiros. – Compromisso? Em plena quinta-feira à noite? – Emily observou o pai fechar a porta da biblioteca atrás de si e da esposa. Phillip. Caruthers. O que o fez pedir minha mão? Vai se casar e não ser levado para a prisão. Emily. naturalmente. ajeitou a blusa e afastou uma mecha de cabelo do rosto. – Combinei com alguns amigos. e Emily sentiu os joelhos amolecerem. Quando ele lhe ofereceu uma piscadela. o amigo da esbelta Emmeline. pressionando o corpo contra o dela e beijando-a com fervor. seu sorriso irresistível. – Agora. jantará conosco. – Lembre-se de sua boa educação cristã. Wainscot. exceto que você dançou no terraço escuro com. Ela estava se sentindo fraca e queria respirar um pouco de ar puro.. – Dirigiu-se para a porta. – Venha comigo esta noite. Não terei muitas delas depois que nos casarmos. – Acha que está se casando com um tolo. e nosso casamento em seguida. Como podia duvidar dele? Os olhos de Phillip faiscaram quando ele puxou Emily para si. e estou dizendo “se”. Canton. Canton. exceto que você invadiu minha casa. – Não foi o que eu quis dizer. – Phillip! – Ela rmou as mãos no peito dele com determinação. Ponto nal. os passos rmes castigando o tapete. assim como suas damas de honra. ela respirou fundo. então virão as festas de fim de ano. Phillip exibiu. Nada de bom poderia resultar de um ato pecaminoso como . Não sei de nada. eu não me envolveria com ela justamente em minha festa de noivado. parecendo inspecionar os papéis do Sr. Não sabia que você considerava o casamento como sendo tamanho fardo. erguendo-os da escrivaninha. Serei sua em breve. então.sejam abafados. para. Talvez amanhã. Tenho um compromisso. Emily. ou escapar do abraço. – Entendo. Seja minha. Wainscot e Powell. – Não. – Howard. Não me importa o preço. A brisa entrava pela janela aberta. Abraçou-a com tanta força. – Não sei de nada. me acusando de mau comportamento. ela estava agindo de maneira infantil. – Vai ao clube Phoenix? As tonalidades de rosa e laranja do pôr-do-sol penetravam por entre os galhos das árvores e pousavam nas prateleiras da biblioteca. Sra. vou providenciar o jantar. imagino que não. Os lábios experientes exploraram os dela até ela não saber mais onde terminavam os seus e começavam os dele.. Emily. Esta pode ser minha última chance. Você vai usar o vestido confeccionado pela Sra.

– Além de aplacar meu apetite? A insistência grosseira na voz dele resfriou a paixão de Emily. – Isso é absurdo. mas apenas trocando juras de amor? – Emily indagou com um sorriso. como você vai se comportar quando eu for inteiramente sua e não estivermos discutindo. gostemos ou não. nunca expusera a ele seus medos e sonhos. Taffy. Emily Canton. a segregação racial justi cada pela doutrina “separados. A Srta. – Emily. Canton. Emily pensou. festas de casamento e filhos. Phillip riu alto. Hayes e no velho Gaston. – Agora. – Desculpe.. Condenados acorrentados. ou que contrate os serviços de uma costureira negra. o braço esquerdo em torno de seu pescoço. – Phillip a soltou e se encostou na janela. quer mesmo se casar comigo? – Ela manteve a mão direita enroscada na dele. À medida que as questões de seu coração tomavam vida em suas palavras. Vamos nos casar muito em breve. nem partilhara suas ideias sobre o mundo. Por que eu faria algo assim? . sim. Emily passou a se sentir aberta e vulnerável a Phillip. – Perdoe-me. – As pessoas vão pensar que você está infringindo a lei. O que a Sra. O que você pode ter em comum com uma costureira negra? – Moda e tecidos. – Phillip. retirando a mão das dele e se posicionando atrás da poltrona. minha doce Emily. Phillip.esse. – Será que nos conhecemos de verdade? – Emily. às quais devemos obedecer. – Phillip abaixou as mãos. o voto das mulheres. Ora. Caruthers fez é horrível. Falamos de tardes de outono e do amor que temos por nossas famílias. – Meu Deus. Jesus. – Tomou a mão dela entre as suas. mas devo defender minhas convicções. Hayes? Porque senti como se ela fosse uma irmã para mim. estendeu a mão e a apagou no cinzeiro do Sr. pense na Srta. meu amor. – Phillip. Nós duas sentimos profunda tristeza pelas injustiças que ocorrem em nossa cidade. desfazendo o contato com Emily. Embora o conhecesse desde a infância. a fé. passando o braço em torno da cintura de Emily. É claro que quero me casar com você. ou melhor. música. Livros. a conversa me parece ótima. Falamos de casamentos.. – Está tremendo – Phillip murmurou com voz suave e um tanto surpresa. as pessoas. Não posso admitir que minha noiva frequente o hotel de um homem negro. Casamento e filhos. – Não acredito no que estou ouvindo. – Preciso ir. não sou uma dançarina de cabaré. mas iguais”. talvez até mesmo incitando os negros contra os brancos. – Sabe por que me demorei tanto no ateliê da Srta. Existem leis. girando com ela pela biblioteca. – Você é incrível. – Phillip a segurou pela nuca e beijou-a na testa. como se nos conhecêssemos por toda a minha vida. Você tem razão. ah. – Ele olhou para a cigarrilha ainda acesa entre seus dedos. a conversa fechava seu círculo. – Se não se importa comigo ou consigo mesma. – Não vou mudar de ideia. – Bem. É prejudicial aos negócios. não volte ao hotel Gaston. Hayes. As pessoas comentam. querida. é lindo. vai fazer o meu vestido.

é a minha menina. pediria a Big Mike que levasse Taffy a ela. – Cheguei aqui muito zangado. – Não voltarei ao hotel Gaston. não foi? – O direito de voto não tem nada a ver com incitar revoltas. à sua casa na Avenida Highland.– Você foi a uma reunião pelo direito de voto. se obedecermos às regras do jogo. Phillip. – Phillip ergueu o queixo de Emily com a ponta de um dedo e beijou-a de leve nos lábios. Não fazia ideia de quanto minha atitude perturbaria você e os seus negócios. . – Emily acomodou a cabeça no ombro de Phillip. – Desculpe. pressionando o rosto contra o peito de Phillip. – Esta. Emily esquivou-se de um segundo beijo. gostamos dos nossos limites e devemos considerar a comunidade e o bem maior. sim. Simplesmente. Phillip e Emily Saltonstall podem ir muito longe em Birmingham. – Qual é o problema dessas pessoas? – Nenhum. – Emily se pôs a andar de um lado para outro. mas você me faz esquecer até de mim mesmo. e ele acariciou suas costas. Se não podia ir a Taffy. Havia experimentado um pouco do paraíso na companhia da costureira e estava determinada a não se desviar de seu plano.

Charlotte tinha um propósito. Só podia estar imaginando aquela luz. – Muito bem. longe da janela. O brilho das luzes da cidade penetrava ao longo das extremidades da persiana. porém. Charlotte pretendia agir. vestido? – perguntou em um sussurro. Parecia vir diretamente de um ponto à sua frente. formando uma moldura dourada em torno da janela. Talvez fosse apenas a luz da janela refletida no espelho. Charlotte ajeitou os travesseiros. Oleoso. Charlotte recostou-se na cama. quando Charlotte retirara o vestido do saco. Tim parecera um garotinho apanhado em agrante ao quebrar a janela do vizinho com sua bola de beisebol. parecia possuir sua própria energia luminosa. Ele realmente não queria se casar com ela. a m de afastar o sono desprovido de sonhos. de qualquer espelho ou fonte de luz. diante do manequim. O vestido. Charlotte bebericou sua água. Piscou os olhos repetidas vezes. Ainda podia sentir o perfume de Tim no quarto. Um baú velho. Afastando as cobertas. A primeira vez que ouvira que Deus era seu pai celestial fora em um encontro de jovens da . recostou-se neles e observou o vestido. Deus. e xou-os no vestido. Agora. o que está acontecendo? Charlotte abraçou os joelhos de encontro ao peito e esperou. levantou-se e foi à cozinha pegar um copo de água. Deslizou os dedos pelo tecido sedoso. um homem de púrpura. Nem pairava no ar. – Qual é a sua história. Pesado. mas a fragrância oral que penetrou suas narinas não era de Tim. porém. – De onde veio e por que veio me procurar? Uma garota órfã procurando por outra? Saiu da cama e foi se sentar no chão. se ele voltasse à loja. Inclinou a cabeça para trás a m de inspirar profundamente. o vestido estava no manequim a um canto do quarto. Encontrar a noiva a quem o vestido pertencia de fato.Capítulo Doze Charlotte Charlotte despertou de um sono profundo. Concentrado. O que tudo isso significava? – Ajude-me a encontrar a sua noiva. sentou-se na cama com o copo nas mãos e estudou o vestido no manequim. Da próxima vez que o homem de camisa púrpura entrasse na loja. Quando voltou ao quarto. sentindo-se como se houvesse feito uma nova amizade. um vestido antigo e mágico. Os olhos de Charlotte se encheram de lágrimas. No entanto.

Charlotte comeu meio sanduíche. vestido. Quando conseguira raciocinar com clareza. na última noite do encontro. quatro anos depois da morte de sua mãe. Ou por que o homem de púrpura lhe entregara um recibo de venda que dizia “redimido”. – A costureira apareceu na porta do escritório de Charlotte. – Ei. – Vim trazer o vestido. Tony. o aroma fora mais intenso. agora. Naquele verão de salvação. terminara seu sermão “Amor por Jesus” e perguntara se alguém queria conhecê-Lo. Na tarde de quarta feira. mostre-me o caminho. desligara a mente e correra. “Ninguém vem ao Pai a não ser por Mim. Não fazia ideia do que “ser salva” signi cava e não se importava. A diferença era que. ela acreditava ser impossível e improvável que jamais fosse chamar alguém de pai. outro jovem subira ao palco e dissera que a única maneira de chegar ao Pai era acreditando em Jesus e na cruz. ouvindo apenas as batidas de seu coração. tomava conta de seu quarto. algo mudara no coração de Charlotte. pagando contas online e lendo seus e-mails. No entanto. Não poderia ter sequer sonhado com um Pai melhor. – Não. Ela tivera de se segurar na garota a seu lado para não cair. sentada à sua mesa.igreja. quase a derrubando ao chão. Simplesmente. Tendo crescido sem pai. Olá. quando tinha dezesseis anos. assim como os das damas de honra. ela bebera. Então.” Tal opção não deixou Charlotte nem um pouco entusiasmada. quando um palestrante adolescente se referira a Deus como Pai. o tremor incontrolável em suas pernas e a certeza de que Deus era seu Pai. A porta da cozinha bateu. Quando o pastor. Jesus. Uma lufada de ar frio do ar condicionado trouxe Charlotte de volta ao presente. compreendera Deus como sendo seu Pai e acreditara. – Sou eu – anunciou Bethany. – O vestido de Tawny está pronto. naquela ocasião. Charlotte tinha um Pai. E ela sentira a mesma fragrância que. Jesus? Cruz? Sangue e morte? Sacrifício? Não era para ela. Só importava a paixão poderosa em seu peito. esticando as pernas e tocando a seda macia com os dedos dos pés. você conhece Deus? – Riu baixinho. mais pesado. Charlotte disparara pelo corredor da igreja. a loja cou sossegada depois do movimento alto de meio-dia e de uma reunião com uma noiva e sua dama de honra durante o intervalo do almoço. Fazia muito tempo que não pensava naquela última noite do encontro de jovens. Charlotte ergueu os olhos e apurou os ouvidos. . devorara e vivera a realidade do amor de Deus e do desejo Dele por ela. Mas o vestido lhe pareceu vivo. Ela acendeu o abajur e depositou o copo de água na mesa de cabeceira. fechara os olhos. mas era uma lembrança e tanto. embora não compreendesse por que ele fora parar em suas mãos. Já o amava. acho que não conhece. E a cruz que ela um dia desdenhara era prova irrefutável do amor poderoso de Jesus por ela.

Char? Cem anos? – Arqueou a sobrancelha. Qual é a probabilidade de um vestido servir em uma noiva sem sofrer qualquer alteração? – É possível. Bethany acomodou os vestidos em um braço e estendeu a mão livre para o pequeno saquinho branco. – Não esperava nada assim. Beth – Charlotte murmurou com um sorriso. para mostrar o tipo de trabalho que podemos oferecer? – Deixe comigo. provavelmente. São muito antigos. – Bethany estudou as placas de perto. – Que história é essa. mas não encontrei nada.. – Charlotte rolou sua cadeira até a bolsa que guardara na última gaveta do arquivo. Charlotte pegou o sachê que Bethany lhe estendeu e desamarrou o cordão. Pelo menos. nunca foi usado. – Gostaria de vendê-los. Por que pergunta? – E quanto a um vestido permanecer em perfeitas condições durante algo como cem anos? Isso acontece? Bethany se apoiou no batente da porta e riu. Onde o encontrou? – Estava dentro de um velho baú. seus dedos pousaram em uma placa de metal. – Charlotte decidiu não mencionar a participação de Tim no achado. Pretendo vendê-los com os vestidos. Disse que está em perfeitas condições? – Como se houvesse sido confeccionado ontem. com certeza. – Belo trabalho. – Foi o que pensei. uma vez que não estava disposta a entrar nos detalhes. mãe da noiva. – Bethany ergueu o sachê contra a luz. algo vai mudar. Quando en ou a mão no saquinho. – Está falando sério? Tudo depende de como foi guardado. O corpete. Faça de cores variadas. – Então. – Diga-me uma coisa. provavelmente. mas no mundo dos vestidos de noiva. . há uma boa chance de algumas partes amarelarem ou mesmo se estragarem. Talvez possamos variar a aparência para noivas e damas de honra. Os dedos de Bethany apalparam o sachê. O que acha de bordarmos monogramas.. – Nunca foi alterado? Nesse caso. Juntamente com um vestido de noiva em perfeitas condições. Onde disse que o encontrou? – No velho baú. Eu olhei. Nunca foi alterado. Quantos você quer? – Vamos começar com dez. – Acha que pode reproduzir isto? – Mostrou o sachê de seda que Tim encontrara no baú. Bethany sorriu. Mas o sachê eu posso fazer. – Há algo aqui dentro. Já teria de dar uma porção de explicações quando contasse a Dixie. Você sabe como é. não que eu pudesse perceber. a bainha. mas mesmo com todo cuidado. enchimentos. mas Charlotte reconheceu o “impossível” invisível em seus lábios.– Você é ótima. excelente bordado. viu que se tratava de uma placa de identificação do exército. foi confeccionado ontem. Aliás. daquelas que os soldados usam no pescoço. – Meu pai serviu no Vietnã. – É mesmo? Nós. mãe do noivo. Ao retirá-la. – Não se veem mais desse tipo.

mas começarei a reprodução do sachê esta noite. Joel Miller. – Vou deixar os vestidos lá em cima. como amo meu homem! – Dixie suspirou e depositou a bolsa sobre o arquivo. Jared sabe muito bem que você não abriu o baú com o martelo e a chave de fenda. – O que faz uma placa de identi cação do exército dentro do sachê? – Charlotte indagou. – Bethany pegou o sachê e saiu do escritório.H. – Obrigada. despertando Charlotte de sua contemplação. – Ah. as faces coradas. e esta se parece com a dele. – Boa pergunta. Como conseguiu abrir o baú? – Quem será Joel Miller? – Eu também gostaria de saber. – Charlotte ergueu a mão e deixou a placa pender da corrente diante de Dixie. no almoço. – Está bem. Preciso ir buscar meus filhos na escola. – Certo. Beth. sua sorte é o volante do meu carro não poder repetir o que eu digo”. os cabelos despenteados pelo vento. o vestido também. – Bethany disse que a placa é igual à do pai dela. me dizendo quanto aprecia o fato de eu aceitar seus horários malucos e estar sempre ao seu lado. perguntando-se como Dixie podia ser tão . – O que é isso em sua mão? – A placa de identificação de um soldado.? Como descobrir a verdade? A alegria tomou conta de seu coração.Vi a placa de identificação dele muitas vezes. – Charlotte. Ele lutou no Vietnã. – Estava tão adorável. – Sabe de uma coisa? Jared não acreditou que você conseguiu abrir o baú com um martelo e uma chave de fenda – Dixie comentou enquanto examinava a placa. Deus ouvira suas orações. Foi Tim – Charlotte confessou. Joel Miller 1271960 USMC – M Protestante O soldado tinha nome. aproximando a placa da luminária sobre sua mesa para ler a gravação. como Jared disse. Charlotte fechou a mão em torno da placa e se surpreendeu quando seus olhos se encheram de lágrimas. Charlotte sentou-se com a placa na mão. Dixie entrou. Dix sentou-se na beirada da mesa e bebeu um gole da garrafa de água de Charlotte. E. seria ela T. Seria o marido da mulher que usara aquele vestido? E a mulher. – Estava dentro do sachê. passando sem as pequenas coisas e sem me queixar. agora. Ele a estava guiando na direção do destino do vestido. Como você abriu o baú? – Com o martelo e a chave de fenda. Eu disse: “Bem.

O que ele disse? – Nada. mas Charlotte foi mais rápida. as noivas usavam vestidos muito enfeitados. e o vestido não é dos sessenta. Pareceu prestes a entrar em pânico. – Dixie bebeu outro gole da água de Charlotte. foi um noivo nos anos sessenta. – Tim foi até lá e serrou o fecho. é um vestido tão lindo.persistente. E então. com renda e golas altas. Bethany. Dixie estendeu a mão para a garrafa de água. Não combina com os modelos de 1912. mesmo já sendo casada. e até mesmo cashmere. – Ela vai fazer sachês para vendermos com os vestidos. entre sessenta e setenta anos? Se houvesse mesmo lutado no Vietnã. E a maioria das mulheres de linhagem comum não usavam vestidos de seda ou cetim. – Ele estava lá quando você encontrou o vestido? – Dixie indagou com um sorriso malicioso. – Doce ironia! Tim ajudou a ex-noiva a descobrir um vestido de noiva secreto. agarrou a garrafa e apontou com a cabeça para a mini geladeira no canto do escritório. que seda e cetim se tornaram comuns para vestidos de noiva. então. além de caudas longas. depois da Segunda Guerra Mundial.. Foi só nos anos cinquenta. – Acha que esse Joel Miller tem alguma ligação com o vestido? – Talvez. não sabe? ... chefe.. – Olá. muito. Outras usavam vestidos mais simples. Até logo. Joel Miller? Estaria vivo? Se estivesse. pareceu um pouco desapontado. – Rico? Não consigo pensar em outra palavra. – Por você não ter arquitetado um grande plano para reconquistá-lo? Francamente. e meu vestido continua sendo muito. você provou o vestido? – O quê? Não. Quem é você. – Ideia brilhante. Tim Rose parece se achar mais do que realmente é. Não o malvado noivo Tim. Na década de vinte. – Dixie foi até a porta e espiou a loja.. Espere até vê-lo.. Mas. Depois que Bethany e eu encontramos a placa de identi cação. – O mesmo Tim que te deu o fora? – Meu amigo Tim.. Usavam musselina ou algodão. Pesquisei vestidos de noiva no Google a manhã inteira e não cheguei a nenhuma conclusão quanto ao estilo ou à idade do vestido que encontrei no baú. Bethany. pesquisei vestidos dos anos quarenta até os sessenta. Essa menina parece uma ventania. e longos véus de tule. Naquela época. entrando e saindo desta loja. – Você sabe que temos uma geladeira cheia de garrafas de água. Lembro-me de algumas de minhas aulas na Universidade Estadual de Ohio. – Dix. – Olhou para a amiga. Nem vou provar. – Está brincando? Jura? Como pode resistir? Estou louca para prová-lo. – Depois da Primeira Guerra Mundial. nós não sabíamos. até eu garantir que não se tratava de um truque para reatarmos o noivado. mas se ele lutou no Vietnã quando jovem. as noivas também não levavam sachês.. – Bem. teria. imperavam os vestidos de cintura baixa. – Charlotte esfregou o polegar nos dedos. – Charlotte parou de falar e voltou a ler a placa de identificação. Meu amigo Tim tem ferramentas de verdade. com bainhas que deixavam à mostra seus sapatos. Dixie riu alto.

Em ambos os casos. Nesse caso. Ele merecia seu respeito. não era da Primeira Guerra Mundial. Nem da segunda. os instintos de Charlotte a conduziriam à noiva certa. A placa. Será como procurar uma agulha em um palheiro. – Com certeza. não serve para mim”. especialmente se o vestido tem mesmo noventa ou cem anos de idade. – Meu trabalho é encontrar a mulher pela qual o vestido está procurando. Depois de examinar algumas páginas. Joel Miller.” A descoberta da placa de identi cação havia gerado uma série de perguntas. mas se existe alguém capaz de encontrar uma noiva para aquele vestido. de nitivamente. – Continue procurando – disse. não vou prová-lo. A de Joel Miller não é chanfrada e deve ser dos últimos anos da guerra no Vietnã.Suspirando e revirando os olhos. Não. Como a placa fora parar dentro do sachê? Teria Joel abandonado a noiva antes do casamento? Charlotte imaginou uma noiva furiosa e magoada soldando o fecho do baú. você está aqui? . – Dixie apertou o ombro de Charlotte e abriu sua garrafa de água. – Por que porque não? Charlotte revirou a placa na mão. Merecia muito mais do que uma noiva imatura prová-lo de lábios franzidos e um desdenhoso “Não. Charlotte não saberia explicar a reverência especial e sagrada que tinha pelo vestido. Mas o que estava procurando.” Outra lista de nomes. esse alguém é você. Era um começo. seria possível que o vestido não houvesse chegado a ser usado? E como a placa de identificação fora selada dentro do baú? O primeiro resultado do Google mostrava O Muro. – Cuidarei da cliente. Charlotte digitou “Joel Miller”. Dixie se abaixou para abrir a mini geladeira. “Joel Miller+USMC+Vietnã+Birmingham. os olhos voltando a se encherem de lágrimas. ela re nou um pouco mais. E se nunca tiver sido usado? E se foi feito para aquela noiva especial? Não vou arruinar nada disso. – As últimas placas chanfradas foram produzidas em 1964. alguém já provou. – Simplesmente. um ator. O mecanismo de busca forneceu uma resposta rapidamente. Charlotte descartou um advogado de Nova Iorque. – Por que não vai provar o vestido? – Porque não. e Dixie foi até a porta do escritório. um memorial aos soldados mortos na guerra do Vietnã. as placas de identi cação eram chanfradas. o que podemos descobrir sobre a placa de identificação? – Voltemos ao Google – Charlotte respondeu. ou esperando encontrar? A sineta da porta de entrada da loja tocou. – Você deve estar certa. um político. – Enquanto isso. “Joel Miller+Birmingham. Charlotte acrescentou detalhes à sua busca. Ah. Uma lista de nomes apareceu na tela.

parentes e companheiros da marinha. Sempre me lembrarei de você. abandonado à morte? Ou sido feito em pedaços. seus olhos se encheram de lágrimas.. Joel Miller. Joel C. – Encontrou alguma coisa? – Ele morreu. Outro clique a levou a uma lista de postagens para Joel C. Dixie se endireitou. Seu rabo de cavalo deslizou por sobre seu ombro. nascido em Birmingham. Não resgatado. Miller.. Percorrendo cada página com olhos marejados. da Sociedade Semper Fidelis e da Sociedade Scabbard and Blade. Seu corpo não fora resgatado. Resgatado. Senhor. Quando o resultado surgiu na tela. data da baixa: quatorze de abril de 1969. Havia apenas três postagens na última página. feitas por amigos. O que isso signi cava? Teria cado perdido. Ouça o que descobri. ele morrera em combate. – Há alguma foto? – Não. os olhos marejados. Ah. imaginando um fuzileiro bem apessoado. vinte e dois anos. Casado.. Joel fazia parte da sociedade de honra militar na Universidade da Carolina do Norte. sul do Vietnã. Prendendo a respiração. Jogava basquete pela universidade. – Charlotte ergueu os olhos para Dixie. As palavras na tela se tornaram turvas. e uma delas captou a atenção de Charlotte. de maneira que fosse impossível. Lembra-se de quando ganhamos o campeonato de basquete no último ano da faculdade. O período de serviço de Joel na guerra tivera início em onze de setembro de 1968.. antes de fechá-lo para sempre em um baú. Não. Charlotte. – Ela guardou o vestido no baú e soldou o fecho. de musculatura esbelta e olhar implacável. inclinando-se para espiar a tela. 02. JC. Fora . misericórdia. Miller. Em quatorze de abril de 1969.. E ele era. ela esperou pelo resultado da busca. em Quang Tri. primeiro-tenente. tenha misericórdia. começava a sentir saudades de um homem que não conhecera. – E era casado.Charlotte entrou na página e digitou o nome de Joel. Alabama. em quatro de setembro de 1946. fuzileiro naval. “Eu estava lá no dia em que você morreu.” “Pensando em você. Uma sensação gelada envolveu seu coração. Semper Fi. porém. seu número de série e estado. Miller. Dix. pouco antes de nos alistarmos na Marinha?” Dixie voltou e se sentou na beirada da mesa. os dedos pressionando os lábios. – É o que eu penso. O coração de Charlotte disparou quando ela clicou no nome dele em busca de mais informação.. Misericórdia. procurou por uma pista da mulher que talvez o amasse e que guardara a placa de identi cação em um sachê de seda.

mas ainda penso em você. esfregando os braços com as mãos. O vestido. Charlotte clicou em “enviar”.” – Ah. E orar para não ter aberto um túmulo e despertado lembranças de um coração partido. secando as lágrimas e olhando xamente para a tela. o fato de ela ter postado não signi ca que deseja que você desenterre o passado dela. essa viúva angustiada de quarenta e tantos anos posta uma mensagem na página de Joel. olhando para Dixie. – Estou arrepiada. – Tenho de enviar este e-mail. imagine! – Deixou cair um lenço de papel. – O dia em que você comprou o baú. Sim. – Voltou ao e-mail. – Passou os dedos pelos cabelos e olhou para a tela por um longo momento. – Acho que ela quer tocá-lo de alguma forma. em quatorze de abril. Charlotte. – Geralmente. os pensamentos se encaixando como um quebra-cabeça. – Uau. voltando ao computador e clicando na postagem da mulher. Ela postou há três semanas. então. Não te esqueci. “Já se passaram mais de quarenta anos. Com amor. – Detesto quando você tem razão. e a placa de identificação do noivo. quatorze de abril foi o dia em que fui à montanha para pensar e acabei no leilão Ludlow.postada três semanas antes. – Charlotte rolou a página até a postagem anterior à de “sua esposa”. Charlotte se levantou de um pulo. ela deixara seu e-mail. Ou trazer à tona lembranças de Joel. aniversário da morte de Joel Miller. Não estou certa de que meu coração jamais tenha se curado. Um passado que me parece doloroso. – Então. – Ela deixou um endereço de e-mail? – Charlotte indagou. Dix. no mesmo dia em que eu comprei o baú contendo um vestido de noiva. – Ela pode não querer se comunicar com você. ou ler sobre ele. Sinto sua falta. Charlotte clicou no endereço e digitou na linha de assunto: “Você soldou o fecho de um baú há quarenta anos. provavelmente. e ela o usou no casamento com Joel. por que postou a mensagem na página dele? É óbvio que ela não tem medo de pensar nele. Ela guardou a placa no baú e soldou o fecho por uma razão. Agora. puxando a mão de Charlotte do teclado. – Dixie recuou um passo com um suspiro. – Dix. meu Deus! Ela postou uma mensagem. talvez o vestido dela. sua esposa. – Mas. – Charlotte. um calafrio percorrendo sua espinha à medida que ela chegava a uma conclusão signi cativa. com a placa de identificação de Joel dentro dele?”. . a morte em geral é uma droga – Charlotte comentou. Sente falta dele. – Sim. foi de sua mãe ou avó. – A guerra é uma droga. Joel C. você não pode fazer isso – Dixie a interrompeu. – Faz mais de um ano que ninguém visita a página. – Eu sei. Charlotte suspirou e se recostou na cadeira. só lhe restava esperar. e então ele morreu e ela guardou todas as lembranças deles dois no baú. – Dixie estremeceu.

Detestava jogos. Mas ela não se atreveria. certi cando-se de que seus ombros estivessem à mesma altura dos ombros do manequim. mudando rapidamente quando se deparava com lmes estrelando homens inteligentes que conquistavam o afeto de mulheres lindas. e deslizou os dedos dos pés para debaixo da bainha. donas de seios perfeitos. compilando opções. . Saiu do sofá e se postou diante do vestido. O modelo que jamais cairia de moda e o tecido resistente eram incríveis. E até mesmo brilhava. Havia procurado pelo óbvio. O que era estranho. ele lhe serviria. vestido.Capítulo Treze O aroma de alho e manjericão ainda tomava conta do apartamento. – Não. De quando em quando. mas era horrível em matéria de desvendar mistérios. Sentou-se ao lado dele e ligou a televisão. sentando-se de pernas cruzadas. – Isso é uma televisão. – Tem certeza de que não quer vir conosco? – convidara. Talvez. Charlotte afastou-se do manequim. Desligou a televisão e virou-se para o vestido. um vestido passado de mãe para filha. Devia haver mais de mil nas quatro páginas. Joel Miller ou Joel C. Talvez houvesse um Júnior ou Neto. não havia nenhum Joel Miller em Jefferson County. Como se tentasse formar uma imagem visual do quebra-cabeça. Charlotte arrumou a cozinha. ou de um vestido maravilhoso. pensando em maneiras de descobrir quem amara e sentia falta do tenente Joel Miller. se provasse o vestido. muito depois de Charlotte e Dix terem esvaziado seus pratos de espaguete e salada. – O que foi? Conte-me a história que há nos seus fios. Da última vez que saí com você e Sally. Seu e-mail para a esposa de Joel Miller fora devolvido por Mailer-Daemon. Poderia demorar meses para ligar para todos. Poderia haver mais alguma coisa no baú? Charlotte correu até o quarto e ajoelhou no chão. seu olhar se desviava para o vestido. suas línguas ferinas acabaram comigo. Ela precisava de outra pista. O comprimento da saia parecia ser perfeito para ela. Miller. obrigada. Charlotte pendurara placa de identificação no pescoço do manequim. Talvez. Teria “sua esposa” cancelado sua conta logo depois de postar a mensagem? Charlotte bebericou o chá. Seu coração não precisava da esperança de um casamento. Já viu uma televisão antes? Exibe muita porcaria hoje em dia. Dixie fora ao cinema com a irmã de Jared. Porém. Só podia se tratar de uma segunda ou terceira geração. Retirara o manequim com o vestido do quarto e o pusera ao lado do sofá. Sua mãe gostava de jogar porque sempre ganhava. Charlotte surfou pelos canais. Poderia jurar que ele se movia. Poderia telefonar para todos os Miller que constassem da lista telefônica de Birmingham. já que o endereço fora postado apenas três semanas antes. preparou uma xícara de chá e foi até a sala.

Um a um. nada mais. Transformara as instalações em escritórios. Centro. vermelhas. de encontrar respostas. um dia. virou o saco pelo avesso. Nem perguntei se estava ocupado. abanando a mão como se Tim pudesse ver o gesto. Está ocupado? Charlotte sentou-se na cama. Discou o número de Tim sem considerar o custo ou as implicações da ligação. – Minha avó trabalhou lá quando terminou o colegial. Lewis. Segunda Avenida. dentro do saco de linho – Charlotte explicou. Lewis? – Boa pergunta. Tim. Conhecia o lugar. Como não encontrou nada. – Companhia de Tortas. também encontrei uma placa de identificação. Coração partido ou não. A Famosa Companhia de Tortas da Sra. Sra. Charlotte examinou o saco de linho onde encontrara o vestido. Birmingham. parados debaixo das luzes laranja. – Ah. Os Lewis também eram proprietários da Confeitaria Lewis. Ah. alisando-as. – Sim. Então. ou neta. batendo nas laterais de cedro liso e perfumado. ela retirou as folhas de papel de seda. azuis e verdes. antes de encontrar seu atual apartamento em Homewood. com apartamentos no andar superior. seu sexto encontro. Estava dentro do sachê. desculpe. – Lembra-se do edifício que você reformou na Segunda Avenida? Você me mostrou o lugar quando caminhamos pelo centro no Ano Novo. em um impulso. – Eu teria dito se estivesse. Lewis. com pétalas de magnólia a um canto e letras em alto relevo no centro. Estranho. – Havia mais alguma coisa dentro do sachê? Não. A Famosa Companhia de Tortas da Sra. como Tim fizera. Charlotte passou o dedo sobre as letras. Acha que o vestido pertenceu à Sra. depois de limpar a garganta. Charlotte quase comprara um deles. Charlotte contou a versão resumida da história. Lewis. como se estivesse se divertindo. mas o primeiro beijo. Mas por que o súbito interesse na Sra. Talvez à filha dela. abrigara a companhia das tortas. propositadamente. Um cartão de visita retangular utuou no ar e caiu a seus pés. Precisava de respostas. telefonou para Bethany. eu sei. Apalpou o fundo do baú. não encontrei nada. Era de um rosa desbotado. Isso mesmo. Tim zera uma grande reforma no edifício de esquina que. dobrando-as e empilhando-as. – Placa de identificação? – Loucura. – A trama se complica – ele murmurou em tom relaxado. eu me lembro – ele respondeu. enquanto ele assobiava e dizia: – Incrível! Quando apalpei o sachê. – Não havia uma confeitaria lá? – Sim. Sacudiu a peça como se os os a estivessem impedindo. Nada. Fora uma noite deliciosa. conversar com ele sempre a fazia sentirse em casa. Lewis? – Encontrei o cartão dela no baú. . Gert costumava falar delas.

as palavras “você é meu herói” carregavam um peso que ela preferia ter evitado. mas com renda. usando apenas roupas de baixo. O sol poente penetrava a janela e aquecia o ar frio de outubro dentro do quarto. Canton? O cetim cor de marfim realça o tom de pele de Emily e o castanho intenso de seus cabelos. Emily subiu no banquinho. As mangas serão de renda e seda. – Adoro ver o tecido sobre a pele de uma jovem. Avise quando tiver novidades. acha que pode descobrir quem foi o último proprietário do edifício onde funcionava a Companhia das Tortas? Ou quem poderia ter trabalhado lá? Há alguma informação nos registros municipais? – Sim. Sra. – As mãos escuras e delicadas de Taffy formavam pregas e al netavam com rapidez e habilidade. não à altura de seu queixo. Emily No quarto de costura do andar superior da residência Canton. Canton atraiu um olhar fulminante de Emily. Ou mande um e-mail. mal tocava seus sapatos na frente e formava uma pequena cauda atrás. Taffy falava com profundo respeito. há muita informação sobre compras e vendas do imóvel. A saia. Verei o que posso descobrir. O vestido era leve. – Vou usar o mesmo tecido da saia. – E o corpete? – O tom condescendente da Sra. seu vestido de noiva. Charlotte tossiu e tentou encerrar logo a conversa. formando um tipo de cascata para dar à saia mais volume e a impressão de profundidade. delicado em seus ombros. Depois de desligar. gentileza e consideração. Era exatamente assim que ela se imaginava como noiva. – Até mesmo por brincadeira. – O que acha. Sentou-se no sofá e apontou o telefone para o vestido. adquiriu vida. Adoro . tão diferente da arrogante Sra. – Vou ajudá-lo a encontrar o caminho de volta para casa. Caruthers. O vestido. braços cruzados e lábios franzidos. – E vou bordá-la em pérolas. Ligue se descobrir qualquer coisa.– Tim. assim – Taffy demonstrou com um grande pedaço de tecido –. Sei que é ocupado. – Pensei em acrescentar dois babados leves à saia. Sem pressa. A mãe montava guarda de pé. Acho que a cintura alta vai acentuar suas formas – acrescentou com um sorriso. Quando Taffy se afastou. – Vou verificar amanhã mesmo. e deixou que Taffy Hayes en asse o vestido ainda não terminado por sua cabeça. – Você é meu herói. Charlotte voltou à sala e en ou o cartão da Companhia das Tortas na cintura do vestido. Emily viu o próprio re exo no espelho. O decote arredondado terminava logo abaixo de seu pescoço. – Obrigada. Espere e verá. impedindo-a de respirar. ou a parte que Taffy confeccionara até então.

– A maioria das moças pobres da cidade se casam com seus vestidos de ir à igreja. – O Sr. – Talvez você possa usá-lo na recepção. com seus cabelos fartos e corpo em forma de ampulheta. Se têm um pouco de dinheiro.. madame Sinclair. Canton é tão linda quanto uma Garota Gibson. A maioria se casa com seu vestido de ir à igreja. pode nos dar licença. – Claro. Vou sufocar naquela gola. Ora. – Será mais apropriado a um vestido de festa. ou até mais. apenas a determinação diante do estilo de vida das moças negras de Birmingham. senhora. mamãe? – Emily passou a mão pela cintura de seda. – Mamãe... Não havia qualquer sinal de inveja em sua voz. – Há bolo e leite na cozinha – a Sra. en ando os al netes na pequena almofada presa a seu punho. – Então. não. Taffy – disse a Sra. A mãe passou a mão pela saia e estudou o decote. – Taffy mordeu o lábio – . Algumas escolhem mar m. – Caroline Caruthers? É uma boa costureira. Caruthers me faz sentir como se o peso do mundo estivesse sobre meus ombros. – Taffy. Canton acrescentou. – O vestido confeccionado pela Sra. como se para minimizar a confissão de Taffy. e não são muitas. – A mãe se dirigiu à porta. dizer à Sra. – De que cores são os vestidos que você faz para noivas de cor. – Fico contente que goste. – Não seja dramática.. – disse a Sra. Nunca tive amigas de cor antes. – Não estou faltando com respeito. Faz tempo que não costuro para uma. por favor? Preciso de um momento a sós com minha filha.. Caruthers que suspenda a encomenda a esta altura. – Nem eu quis dizer isso. – Não é uma escolha restrita aos negros. Sra. Canton. Canton. mamãe. não podemos. – Não comece. Canton.. Taffy? – Emily! – A mãe empinou os ombros e descruzou os braços. a Srta. para um casamento. – O vestido é adorável. ora. simplesmente. gostam de cetim ou tafetá branco. – Noivas negras que podem pagar por um vestido de noiva. talvez comprem um vestido de passeio para usar no casamento. Saltonstall vai sentir os joelhos tremerem quando a vir caminhando para o púlpito. Emily a encarou através do espelho. – Taffy recuou um passo. Sra. – Pelo menos o que posso ver dele. desmaiar nos braços de papai. Emily desceu do banquinho quando a mãe fechou a porta. mamãe. – Emily. por que está se comportando dessa maneira? . Canton. Emily. Taffy saiu do quarto de costura com a ta métrica em torno do pescoço. – Diga a Molly que pedi para servi-la. Já sei o que vai dizer. – Está vendo. examinando o tecido reluzente do vestido de Emily. – Seus olhos desceram até a sai reta.trabalhar com seda. Aprendemos com a mesma professora.

que provocou essa expressão no seu rosto. – A senhora disse a papai que cuidaria do assunto. mamãe. – É feliz com papai? . Quero usar um vestido que adoro. – Nós nos escondemos naquela árvore.. que vivíamos em meio a pessoas diferentes de nós. Desde o encontro no Newman’s. Meu gramado espetacular e minhas roseiras estavam destruídos. Emily se deu conta de que sentia falta dele.. – A Sra. Emily. Não estava certa de que sabia a resposta. ouça o que vou lhe dizer. diga-me em que está pensando. Algo de que você precisa se lembrar agora. Eu sabia que não. Emily encarou o espelho com um suspiro. porém. eu me lembro. – Algo de que nunca vou me esquecer. apontando para um salgueiro distante. – Ficamos apavorados. – Ora. – Lembra-se de quando nos mudamos para cá. – É o meu casamento. embora o tom de voz bem-humorado traísse o cenho franzido. quando a ouvia falar. Era mais do que a fé em Jesus que partilhavam. tentando decidir se íamos fugir ou não. deveria acontecer aqui. Ou se é negra. Assim que a cerimônia terminar. Encurralada. – Mamãe. que seria a minha primeira. Não me importa se a costureira é a mesma que foi contratada pelas lhas dos Woodward ou dos Campbell. Naquele momento. você está me deixando um tanto contrariada – a mãe respondeu. Aprisionada pela sociedade. Emily sentia grande a nidade com a mulher negra mais velha. O que viu foi derrota. e Howard Jr. era a sensação de estar. – Emily. despertara nela o desejo de vê-lo. você é feliz? – No momento. e até mesmo papai. Emily bateu de leve no vidro da janela. pensara nele uma vez ou outra. Sorrindo.Emily foi até a janela. estivessem tentando se encaixar em um molde para que a sociedade goste de mim. A mãe sorriu. avistou a árvore onde Daniel a surpreendera dois meses antes. Sabíamos que papai nos daria uma surra. pelas expectativas e desejos dos outros. – Emily se afastou da janela. É a sociedade em que vivemos que a está perturbando? Nossos amigos? – Tenho de admitir. querida – a mãe tocou seu braço e inclinou a cabeça para encarar a lha –. Canton levou as mãos ao rosto. Caruthers e m da história. na prova do vestido de Taffy. e ele se limitou a nos lançar um olhar severo no jantar e nos lembrar que devíamos nos comportar. Alguma coisa naquele dia. que é como se você e Phillip. poderá trocar pelo que Taffy está fazendo. Quando olhava para Taffy. e eu escavamos o quintal para fazer um forte? – Misericórdia! Sim. No quintal. – Emily lembrou com uma risada. Você vai usar o vestido da Sra. – Eu havia acabado de entrar para o clube de jardinagem e a reunião seguinte. a seda farfalhando em torno de suas pernas. – Mas vocês não fizeram por mal. apenas lembranças que ela fazia questão de afastar.

É muito bonito. – Posso entrar? Se a Srta. – Sim. Emily. – Em nossa primeira visita à Sra. não de uma menina. Tem vinte e oito anos. Caruthers. ela é apenas uma menina. Canton – Taffy chamou do outro lado da porta. mas ela não podia lê-las. Aliás. Ele será um marido maravilhoso. Ora. por favor. Já terminamos. acho que Taffy costurou com fio de ouro. não porque a futura Sra. Não tenha qualquer receio. Se a futura Sra. Srta. por sua causa. Phillip conhece todo mundo. Canton. – Que tolice! Fui a umas poucas reuniões. Estou orgulhosa e feliz por você. menina. ela também acredita. – A mãe exibiu um sorriso carregado de amor. – Sra. – Emmeline Graves? Ora. isso é pergunta que se faça? É claro que não. transforme este vestido em um traje para Emily usar na recepção. quando me debrucei na janela da Loveman’s. Ele me acompanhou em meu baile de debutante. Emily vinha re etindo sobre Phillip e Emmeline fazia tempo. as cartas de Daniel escondidas debaixo de sua cama pareciam chamá-la. de uma família muito poderosa. Ora. estava conversando com Della Branton no clube de bridge. Nem estou certa de que acredito no direito de voto. Até mesmo para Howard Jr.A Sra. e acho que nunca mais deixou de estar ao meu lado. – Ocupou-se do cetim e da seda do vestido de Emily. Ele adora você. Cartas de amor não eram a mesma coisa? Emily envolvida com outro homem? Daniel? Mesmo que fosse somente na privacidade de seu coração? – Emily. você não acha? – Mamãe. – Não pareço feliz? – Alguma vez ele foi infiel a você? A mãe respirou fundo. Canton foi até a porta. Trata-se de um excelente casamento. Molly me servir mais bolo e leite com tanta simpatia. – Beijou o rosto de Emily. você é mesmo lha de seu pai. – A con ssão pareceu soltar uma válvula em seu coração. entre. Saltonstall acredita no direito das mulheres ao voto. Este vestido é lindo. – Acha que tenho muito em comum com Phillip Saltonstall? Ele é o mesmo tipo de homem que papai? – Phillip é um homem muito poderoso. Canton corou. minha querida. Phillip Saltonstall acredita. às vezes. – Por misericórdia. – A Sra. Você e Phillip serão o grande casal da Cidade Mágica. Taffy se preparou para voltar ao trabalho e lançou um olhar interrogativo para Emily. – Tão direta. À noite. se não queria que Phillip se envolvesse com outra mulher. – Vou verificar se está tudo pronto para o almoço. agora ela era responsável pelas convicções e atitude de outros? – Ora. Ela deveria acreditar em um causa porque seu coração acredita. Agora. Emmeline Graves. – Seu pai e eu temos muito em comum. que . nunca mais vou querer ir embora daqui. com amigos por toda a cidade. – Você será muito feliz com Phillip. e ela me contou que decidiu frequentar as reuniões pelo direito de voto. eu o vi com outra mulher. Um homem como Phillip está à procura de uma mulher. juntamente com a lha. – Era a mulher que foi à nossa festa de noivado na companhia de Herschel Wainscot. Para você e para nossas famílias.

. Gaston. Vejo vestidos. Canton? – Não sei do que você está falando. – Sonhos? – Sonhos. há alguns anos. alfinetando e medindo. – De vez em quando. . vi um vestido. – Este será meu vestido de casamento. Quando acordei.. – O que acha que isso significa. Srta. Na noite anterior à sua visita. Meu único palpite é que a senhorita vai precisar da coragem celeste para usar este vestido. o Senhor me envia visões noturnas. Fiz um para a lha do Sr. desenhei minha visão.subia de volta ao banquinho. – Não sei. sentindo o coração disparar no peito. A senhorita o está vestindo agora. A costureira trabalhou em silêncio por um momento.. – Em que situação está se metendo. Taffy.. Sim. Taffy? Emily curvou-se para fitá-la nos olhos.

Se Emily Canton entrasse. – Terei isso em mente se entrar uma garota tão linda que faça meu coração se esquecer de meu estômago. Há uma senhora idosa que gosta de fazer biscoitos para mim. – Estou faminto. sim. Depois de trabalhar a semana inteira. Ross arrancou o cardápio das mãos de Daniel. Al? – Ross indagou. – Os acompanhantes podem ser pais. Depois de uma longa e árdua semana de trabalho na escola. – Recuperou o cardápio. – Com seus acompanhantes.. – Meia-noite. – Daniel – Ross apertou a mão do amigo –.. Daniel chegou ao Italian Garden. Ross esfregou as mãos. por que não põe um pouco de juízo na cabeça desse louco? – Impossível. – Você faz Danny e eu esperarmos até quase meia-noite para comer. que costumava se encarregar de tarefas árduas como aquela. camarada? – Alex perguntou. Não mantenha a mente tão fechada. – Além do mais. Ross. pensamos que havia se esquecido de nós. – Alex. – Traga água e pão. imagino. – Alex sinalizou para o garçom. e já que você é amigo dele há mais tempo deve saber disso. aproximou-se deles.Capítulo Catorze Daniel Era tarde da noite de sexta-feira. – Como vai a vida no Ridley. Estava exausto. mas. por favor. E nos dê um minuto para escolhermos o resto. o cinema e a ópera acabaram de abrir as portas. para começarmos. fechando seu cardápio. – Devo avisálos que meu estômago é muito importante para mim. Ela os deixa diante da porta. lavando suas próprias roupas. – Muito bem! Não precisa mais de uma esposa. embora sua compaixão pelo “sexo frágil”. sentindo-se reconfortado ao encontrar os amigos reunidos em torno de uma mesa de canto. para eu pegar quando volto do instituto. Ross? Não podia marcar uma hora mais decente para socializar? – Daniel se sentou e cumprimentou o homem à sua direita. – Decente. – Todas as moças bonitas entrarão por aquela porta a qualquer momento. – Faminto. abriu-o e começou ler. Ludlow. ele não passara o começo da noite de sexta-feira na companhia de uma bela dama. – Apontou com o queixo a entrada do restaurante.. tios. O que espera? Eu poderia comer um cavalo agora. . – Alex sorriu e deu um tapinha nas costas de Daniel.. – Daniel mal olhou para o casal que entrava naquele momento e se ocupou com o cardápio. aumentara sensivelmente. irmãos. Com um aceno para o maître d’.

de iluminação suave. – É humilhante. amigo. inspecionando o salão discretamente. – Ross esticou o pescoço para estudar a moça sentada na mesa ao lado. aquela ali. – Ross estreitou os olhos e empinou o queixo. Existem outras mulheres. Phillip Saltonstall e sua noiva. Detesto ter vinte e três anos. – Pior. Daniel não se deu o trabalho de veri car a escolha de Ross. por favor. Ross quase tombou a cadeira para trás quando caiu na gargalhada. Daniel enfiou o pão na boca e fingiu dar um soco no ombro de Ross. participaram de um jantar na residência Strasburg. tenha piedade. – Alex devolveu o cachimbo ao bolso. em homenagem a seu noivado. – Não importa quanto seja bonita. as colunas sociais do News e Age-Herald publicam praticamente cada folha de grama pisada por eles. Já entendemos. um deles afagou meus cabelos. Canton usou um lindo vestido de noite de. camarada. – Como vão as coisas entre você e Georgette. até o sol despontar no topo de Red Mountain.” – Ora. A Srta. – Ótimo. Passou manteiga no pão. – Não tenho a menor inveja de você. Você sabe ler. – Acho que sim. Havia algumas moças bonitas naquela noite. decidindo-se pelo linguini. Srta. Como se eu fosse um fedelho. – Esse cachimbo faz você se parecer com seu pai.. o repertório mudava para ragtime e jazz. em Red Mountain. – “O Sr.– Vou comer uma porção grande de espaguete com almôndegas. sem acendê-lo. Tem de saber dançar. Vocês precisam ouvir como os gerentes do banco falam comigo. Daniel sorriu. ele passara a evitar ler as colunas sociais e até mesmo algumas .. Alex. meu amigo. – Aprenda a esperar. – Espero que não.. Emily Canton. – Alex sacudiu a cabeça. Inclinou-se para o lado. Daniel pegou uma fatia de pão e depositou-a em seu prato. – Se encontrar a resposta. Olhou para os amigos e tentou falar enquanto mastigava: – Eu disse que estava com fome. – Ainda não consigo acreditar que você abandonou o beisebol para se casar com Emily. a m de dar espaço para o garçom servir a bandeja de pães e os copos de água. mas todas pareciam estar acompanhadas. Depois do noivado de Emily. e ela trocou você por Saltonstall. Dentro de alguns anos. – Não vou dançar com nenhuma perna de pau. além de Emily Canton. mas quem pode saber com certeza? Como saber quando encontramos a pessoa certa? Alex pegou uma fatia de pão e comeu de uma só vez. porém. Qualquer mulher era uma beldade para ele. À meia-noite. – Uma beldade. Alex? Está ficando sério? Daniel fechou o cardápio. O Italian Garden era um lugar romântico. – Alegre-se. – Alex reclinou-se na cadeira. me avise.. retirou o cachimbo do bolso do paletó e colocou-o entre os lábios. depois vou dançar o Navajo Rag com as garotas mais lindas aqui presentes. Outro dia. com uma banda italiana tocando músicas de seu país de origem. você estará afagando os cabelos dos novos funcionários.

Ou sobre Howard Canton. en ando pão na boca e tentando chamar a atenção das mulheres da mesa vizinha. – Quando se tem tanto dinheiro – Alex deu mais uma mordida em seu pedaço de pão. por favor. – Não sou louco. Ross se reclinou na cadeira. – Ora. Sabiam que as Minas Saltonstall tiveram o maior número de mortes de trabalhadores condenados entre todas as demais? Não consegui encontrar essa notícia em nenhum de nossos excelentes jornais. – O que é o bastante para fazer um homem acreditar que as mulheres precisam começar a votar – Daniel continuou. – Eu adoraria que uma dama fosse capaz de derreter meu cérebro – Alex declarou. Estendeu para a cesta de pães. quente e deliciosa. os olhos escuros e cabelos espessos revelando sua descendência italiana. Sirva-nos uma rodada de vinho. passando de voto feminino a esportes e ao nal da temporada do Barons. Ludlow. – Não pessoalmente. Li sobre ele. Ross virou-se rapidamente. como você sabe disso? – Um amigo de meu pai trabalha com guarda em uma das minas – Daniel explicou. A febre do amor que atacou Ludlow derreteu parte de seu cérebro. Quando o garçom chegou com a comida. Sr. alisando o estômago. nem estou doente de amor – Daniel corrigiu. – Se não está nos jornais. inspirando o aroma de alho e tomates. – Agora você está dizendo bobagem. A primeira garfada.páginas de economia. Alex. – Maravilhoso. – Chame um médico. falar de Emily só aumentava as saudades que sentia dela. aqueceu seus ossos e energizou seus sentimentos. Muitas vezes. Os anos que sua mãe passara insistindo em que ele tivesse boas maneiras à mesa haviam produzido resultado permanente. Por que não investiga isso. pare com isso. Daniel pegou o garfo e enrolou o macarrão em uma bola. mas desligara antes que a telefonista lhe pedisse o número. – Exatamente – Ross concordou e girou na cadeira quando a música começou. os cotovelos na mesa –. No entanto. . onde sempre havia algum artigo sobre os Saltonstall. erguendo a voz acima do volume da música. Angelino. fora até a cabine telefônica de Ridley House ligar para a residência Canton. – Conhece Saltonstall? – Alex perguntou intrigado. Kirby. A brincadeira continuou entre os três amigos. camarada? – Daniel fez um sinal para Ross. – Só estou dizendo que talvez o voto feminino faça sentido. – Sou um homem que pensa. os olhos arregalados. O garçom se afastou. estralando os dedos ao ritmo do ragtime. a pele morena. – Pois não. pode-se sair incólume de qualquer coisa. resistindo ao impulso de devorar as fatias restantes. camarada! – Ross zombou.

mais bela sua noiva. tentativas de decidir se as pessoas se casavam por amor. acredite.– Esta noite. – A única coisa feminina que tenho tocado. – Vejo isso acontecer todos os dias. Danny. a nal? Na essência. risos. Daniel afogou seu mal estar com outra garfada de macarrão e um sorriso para os amigos. meu amigo. É melhor descobrir agora que tipo de mulher é Emily. ultimamente. pois fora assim que Saltonstall conquistara o coração de Emily Canton. o trabalho de repórter de Ross no Birmingham Age-Herald. Então. mas não se arrependeu. – Analise a questão deste ângulo. É assim que funciona o mundo – Alex insistiu. – Não. Se tudo o que é preciso para conquistar o amor de Emily é dinheiro. onde realmente conta. Danny está sofrendo do mal do amor. terá de dançar.. A Emily que conheci jamais se casaria com um homem por dinheiro. ele não mencionava as noções românticas. Vejo assim. são as pontas das luvas de uma mulher. um tanto tolas e fracassadas do amigo na frente de Alex. Ross era seu melhor amigo desde os dias da irmandade Phi Delta na universidade. Está melhor assim. Ludlow. amigos? Acham que conseguirei me lembrar? O que um camarada tem de fazer para conquistar uma garota nos dias de hoje? – É preciso ter dinheiro – Daniel falou sem pensar. depois de seu primeiro encontro com ela. A conversa mudou para trabalho: os alunos de Daniel e seu cargo de professor no instituto. não. Fora o primeiro a ouvir a novidade quando Daniel retornara para o dormitório. Ross compreendia a luta de Daniel para esquecer Emily. – Nada como uma mulher para nos fazer esquecer outra. O assunto “amor” acabou se transformando no assunto “esporte”. Que tipo de esposa e mãe ela seria? O que aconteceria se você enfrentasse um período de di culdades? O primeiro sujeito rico e elegante que aparecesse roubaria o amor dela.. o assunto voltou a ser o maior desejo do coração dos cavalheiros. e as aspirações bancárias de Alex. – A menos que a primeira seja inesquecível. quando entrego dinheiro a ela no caixa do banco. – Foi o que ela fez você pensar. A discussão ocorreu ao som . Mais que qualquer outra pessoa. dinheiro ou beleza. – O que faço. “Encontrei a garota com quem vou me casar. por que um homem não poderia se casar por beleza? – Quanto mais dinheiro há na conta bancária de um homem. – Ross espetou o ar com o garfo. debate. Mesmo agora. exceto Deus. – Alex levou o garfo aos lábios para um beijo exagerado.. Vai girar pelo salão com uma bela jovem nos braços – Ross declarou enquanto cortava suas almôndegas. enquanto você estivesse se matando de trabalhar para sustentá-la. – É justamente esse o problema. que tipo de garota ela é. os cabelos escuros se soltando da brilhantina e caindo sobre sua testa. Ross fez uma careta para Alex. Se uma mulher podia se casar por dinheiro. sem zombarias. camarada. – Eu não disse? Chame o médico. E a conversa continuou com animação.” Ross ouvira pacientemente. e não o considerara um tolo. – Se você diz..

aquela é Emily? Não é de admirar que você esteja perdidamente apaixonado. . alho. quando parou de falar e assobiou baixinho. repleto de música e alegria. Rico. – Aquela não é Emily. pão quente e vinho. Infelizmente. – Anime-se. voltando a olhar na direção da porta. temperada pelo aroma de velas.da sinfonia do tilintar de copos e dos talheres contra os pratos de porcelana. penetrou a alma de Daniel. – Tem certeza de que aquele é Phillip? Você disse que não o conhecia – Ross lembrou.. quando Daniel se virou para a porta e seus olhos reconheceram o homem de smoking e cartola. – Aquele. era a melodia da risada de Emily que o ninava todas as noites.. o rosto de Emily era sempre o obstáculo mais difícil de superar. Definitivamente. apontando para a porta. – Aquele é Saltonstall – sussurrou. nem tudo está. Alex dissertava sobre suas aspirações de ascensão na carreira bancária. preciso ganhar algum dinheiro para poder me exibir por aí. inclinando-se para enxergar melhor. sentia como se só metade de seu coração estivesse batendo. desde o dia em que conversara com Emily no Newman’s e contara a verdade a ela. quando erguia os olhos das provas que corrigia à luz do lampião. – Então. Daniel mencionou sua intenção de continuar a estudar. Ross começou a falar sobre seus planos de vida e o que pretendia para seu futuro. e seu coração parecia prestes a saltar do peito. – Aquele é Phillip. Emily não era a única jovem bonita. inteligente. meu amigo. Tinha grande interesse por política. – Saltonstall? Qual deles. O que ele estava fazendo ali. dando as costas à porta. sensível e amável de Birmingham. – Daniel virou-se rapidamente. depois de meia-noite? E com ela? Não voltara a vê-los na rua. – A frase pairou no ar incompleta. elevando seu espírito cansado. Ross e Alex provaram ser amigos muito melhores do que ele conseguia ser no momento. No entanto. o pai ou o irmão? – Ross perguntou.. pelo corte do terno. Alex. nem o irmão. e acompanhado por uma deusa de mulher. E estavam certos. é um camarada de sorte. Tinha a boca seca. Nem seu pai policial ou seu irmão haviam tido notícias das atividades suspeitas de Phillip Saltonstall. O ambiente acolhedor. – Phillip? O noivo da sua garota? – Alex sussurrou alto demais. Daniel empurrou o copo de vinho para o lado e pegou o copo de água. esticando o pescoço para espiar a porta. por mais que se esforçasse para imaginar o futuro. sim. Às vezes. Ela fora o centro de todos os seus sonhos e planos. Quando o garçom retirou os pratos vazios. – Não é o pai. Daniel bebeu o último gole de seu vinho.. talvez concluir um curso de magistério. até o sono chegar. Infelizmente.

mas não naquela noite. O maître d’ conduzia Phillip e a mulher pelo salão pouco iluminado. – Mas sei que é ele. – Receio que não. No entanto. claro. – Vejo que teve a sorte de assistir a um bom jogo.. – Sim. Ela se aninhou de encontro a Phillip.. por que não o convida para se sentar conosco? – Emmeline sugeriu sorridente. Está me confundindo com meu irmão – Phillip respondeu. Daniel limpou a garganta. Sou eu. Srta. Emmeline Graves. – Não sei. Aproximando-se. e Phillip apertou-a ainda mais contra si. Ambos tão bonitos. – Devo me curvar em triunfo ou me encolher em vergonha? Enroscando os dedos nos bolsos do colete. Emmeline. Phillip. – Pode se curvar em triunfo. – É um prazer conhecê-la – Daniel beijou a mão da moça –. – Virando-se para a mulher. Paul. mas ele simplesmente a apertou contra si. Daniel afastou-se por entre as mesas cobertas por toalhas xadrez e velas altas. – Acho que está na hora de conhecer pessoalmente esse patife. esbelta. Phillip virou-se e. – Apoiando as mãos na mesa. Daniel teria se sentido lisonjeado. – Phillip e Paul realmente se parecem. Daniel considerou dar a Phillip o benefício da dúvida. – Graves. – Paul. – Paul! Com licença. Sou Daniel Ludlow. senhorita. e Daniel esperou que ele se mostrasse constrangido e se afastasse. deslizou a mão carinhosamente pelos ombros nus de sua acompanhante. – O que vai fazer? – Ross inquiriu. ao fazê-lo. – Sim. de compleição clara. Phillip.– Nunca fomos apresentados. Sua jogada decidiu o jogo – Phillip respondeu com uma pontada de admiração. Por um momento. conduzindo-a para dentro do salão privado e . querida. com olhos azuis e lábios cor de rubi. Daniel curvou-se para a mulher. – Temos uma mesa à nossa espera. que abrira a porta de um salão privado. fazendo-o sentir-se lento e pesado. – Phillip a virou para o maître d’. claro. Daniel. Talvez a mulher que vira com ele na rua fosse mesmo sua prima ou amiga. – O jogador do Barons? Já vi você jogar. a posição íntima da mão dele nos quadris dela indicava o contrário. – O linguini parecia haver se transformado em cimento em seu estômago. – De maneira alguma – ela replicou com o re nado sotaque do norte. apertando a mão de Daniel com firmeza. Era bonita. Daniel se levantou. – É mesmo? – Em qualquer outra circunstância. não se lembra de mim? – Daniel ofereceu um sorriso largo e estendeu a mão. mas isso não levaria a permitir que Saltonstall continuasse com sua farsa. Peço desculpas. – Espero poder voltar a vê-los. Daniel acrescentou: – Perdoe-me se a incomodei. – Vamos.

Em plena luz do dia. – Agora. Pettis insistira em preparar um chá. Não há como sair ganhando nessa história – Ross concordou. Alex ergueu os olhos do cardápio de sobremesas. Ontem à noite. A Sra. por sua vez. sem saber o que fazer. Na maioria das vezes. Emily. Charlotte O tilintar de xícaras atravessou a parede. por favor. considerando os acontecimentos da noite. – Daniel se sentiu encurralado. – Daniel olhou para onde havia interceptado Phillip e Emmeline. Daniel refletiu. Além disso. Se houvesse levado a cabo seus planos. – Ela já sabe. Porém. por ter me convencido a sair esta noite. ou para onde ir. . Um súbito sorriso iluminou seu semblante. Daniel arrastou a cadeira com violência. – Eu o vi com esta mulher no centro da cidade há alguns meses. – Vai ficar aí. é um esnobe. – Daniel estudou a expressão dos amigos. Ela me perguntou se Phillip tinha uma amante e eu disse que sim. “Olá. – Estou em dívida com você. – Não. porém. Senhor. – Sem chance. Vamos ao cinema?” – Daniel sacudiu a cabeça. Deu um tapinha nas costas do amigo. imagine. por que continua com ele? – Elevando o tom de voz. a sorte põe um homem no lugar certo na hora certa. Reconquiste sua amada. – Só me resta esperar que ela descubra por si mesma. Mas tinha de fazer alguma coisa. – Ela é maravilhosa mesmo de perto? – É muito bonita. Alex gesticulou para o garçom: – Três fatias de bolo de chocolate. Outras vezes. Então. Então. Faça com que ela veja o patife com quem pretende se casar. chamada Emmeline. – Ele. em posição comprometedora. era a vontade de Deus e Sua graça inesgotável. A banda tocava uma música lenta. lendo um livro. – Já sabe? Então. camarada. – Seja um herói. Emily me chamou de mentiroso. acham que devo contar sobre esta noite? Ela não quer saber. não posso fazer isso. – E o que você vai fazer. encontrei Emily e descobri que ela também o viu. saí com Ross e Alex e vi Phillip com uma mulher lindíssima.sussurrando em seu ouvido um protesto contra a sugestão. cedera à insistência de Ross para saírem juntos e se divertirem um pouco. – Alex pontuou a frase com um tapa da mesa. um bom amigo. teria cado em casa. fazendo os pés produzirem um ruído alto ao contra o chão. Daniel se reclinou na cadeira. Às vezes. meu amigo? – A expressão no rosto de Ross era tão sombria quanto a iluminação do salão. De volta à sua mesa. certo? – Acho que orar para que ela descubra seria mais apropriado – Alex corrigiu. sentado e resmungando? – Tem de contar a Emily. meu relato a faria se sentir humilhada e não me traria qualquer vantagem. o que devo fazer? – Acho que está certo.

Cortinas de renda cobriam as janelas. Tem de fazer as coisas aos poucos. e guardanapos de um branco acinzentado protegiam os braços de cada sofá e poltrona. Fazendo uso de seus contatos na prefeitura. voltando para a cozinha. Charlotte mudou de posição. A nal. – Dixie. colocando-se de lado para Tim. Onde estão esses biscoitos? Portas de armários abriram e fecharam. De certa forma. – Como você sabe que ele não está? Dixie ergueu a mão de Charlotte sem o anel de noivado. – Aqui está o chá. Ele insistira em levá-la até lá. A sala longa e estreita cheirava a balas de limão. ele descobrira que a última proprietária da Famosa Companhia das Tortas da Sra. Estudou-o por um instante. Charlotte deu de ombros. ele queria continuar o noivado.. Lewis era Aleta Pettis. – A Sra. . e Charlotte se perguntou como a velha padeira conseguia se movimentar sem tropeçar em uma cadeira ou mesa. na tarde do mesmo dia. para não começar a achar que ele está interessado em voltar para você. Pettis abanou um dedo no ar. não a quer de volta. Tim cheirou o chá e comentou: – Ela parece ser muito simpática. Tim telefonara para a velha senhora na manhã de segunda-feira e. se importava. Havia peças de mobília espalhadas por toda a sala. Seu joelho bateu na mesinha de centro. não a quer de volta. – Tem certeza de que não se importa com minha presença? – ele perguntou. – Fui eu quem devolveu o anel. Ele não pediu. Charlotte. Ah. a nal? Estaria mesmo tão curioso sobre o vestido de noiva? Lembrou-se de trechos da conversa que tivera com Dix durante o almoço: – Tenha cuidado. se ele não quer se casar com você. mas. – Sim. Homem nenhum abre mão de uma mulher que realmente quer.. Char. – Evidência A. Em frente a Charlotte. – Lamento dizer que não foram feitos em casa. Não pode cancelar o casamento e pedir o anel de volta na mesma noite. – Você tem o direito de ver o resultado do seu esforço. O que estava fazendo ali. mas você acha que ela vai se lembrar de um bolo que fez em 1968? Ou 1967? Ou seja lá quando for que Joel Miller se casou. Se ele não quer se casar com você. esqueci os biscoitos. Tim sentou-se em uma velha cadeira de balanço. meus jovens. Charlotte e ele foram juntos a Irondale. Tive de parar de preparar guloseimas. ele tem coração. acomodando-se no sofá surrado. – Como sabe? – Jared me contou tudo sobre o código romântico masculino em nossa lua de mel. – Mas sem se casar? Ora.– Posso ajudar? – Charlotte ofereceu. – É claro que não.

Mal pude acreditar. Fiz muitos bolos de casamento na época. – Ah. naturalmente. nem chegou a conhecê-lo. e meu lho tem sobrenome Pettis. meu Deus! Por misericórdia! Muito triste. Ao menos. – A Sra. – Abriu o pacote e despejou os biscoitos em um prato de porcelana que combinava com as xícaras. – Então. – Charlotte depositou sua xícara e pires sobre as coxas e retirou o cartão da companhia de tortas de sua bolsa. Todos aqueles edifícios. – Já ouviu o nome Joel Miller. o que já é uma grande ajuda. talvez descobrisse alguma coisa. vejam. – Não vejo um desses há anos – murmurou com um brilho no olhar. – Ah. Sra.– Você tem um nome. . Pettis? – Charlotte ofereceu. embora Charlotte não zesse a menor ideia de como isso aconteceria. senhora. trabalhando para a Sra. tenacidade. A mulher aceitou com mãos trêmulas e olhos marejados de lágrimas. Adorava a confeitaria. Tínhamos tantos clientes. – Perco o equilíbrio de vez em quando. naturalmente. Até mesmo as mulheres. – Acha que pode ter feito o bolo para o casamento dele? Com base nas datas de nascimento e morte dele. Talvez a informação levasse à noiva. Pettis voltou com um pacote de biscoitos recheados. – Aqui estão os biscoitos. grandes lojas como Loveman’s e Pizitz simplesmente fecharam e deixaram de existir. – A Sra. Lewis? – Sim. junto a um vestido de noiva e uma placa de identificação. Não conheço nenhum Miller. – Gostaria de guardar este cartão. – É possível. Oscilou levemente e se segurou em uma cadeira. Preparava cada bolo e torta com carinho. Mas eu me orgulhava do que fazia. Acha mesmo que ela vai se lembrar do noivo? Provavelmente. Pettis riu baixinho. – Quantos bolos de casamento? – Charlotte queria ter uma ideia da probabilidade de a velha senhora ter feito o bolo de Joel Miller. Depois. Não me parecia importante fazer o que qualquer outra mulher podia fazer na cozinha. – Ele morreu em 1969 no Vietnã. Pettis passou um dedo pelas letras em alto relevo no cartão. – Um nome. A verdade é que minha memória já não é mais o que costumava ser. Foi tão triste quando o comércio deixou o centro da cidade. – Ora. Todos nos conheciam por nossos nomes. Sra. Lewis. – Sabia que calculei quantas tortas eu z em meus quarenta anos nesse ramo? Duzentas e vinte mil tortas. Talvez tenha sido por isso que ele foi junto. Primeiro. quando comprei a confeitaria. – A Sra. – Vamos perguntar e ver o que ela diz. nenhum Joel. uns vinte mil bolos. Se zesse muitas perguntas. talvez? – Não tive nenhuma lha. O nome do noivo. mas nós sorríamos e chamávamos a todos de Jimmy. É seu parente? Genro. Fé. Sinto que realizei algo importante em minha vida. querem saber sobre a Sra. acho que pode ter se casado em 1968. – Encontrei este cartão dentro de um velho baú. Pettis? É o nome na placa de identi cação que encontrei.

lho. – Nós íamos nos casar. Vocês se lembram? Acho que são jovens demais. Naquela época. Pettis. Sra. Pettis. longe da usina malcheirosa.– Afinal. na grande guerra. encostava-se no pilar e cava olhando algum ponto distante. Bem feito! – Ele não me traiu. descobriu que não estava preparado para o casamento. Meu irmão morreu na guerra. caminhando pela alameda particular de suas lembranças. depois de partir meu coração. passando as mãos pelos cabelos. Que escritório? Charlotte o encarou com um olhar que lhe ordenava que se sentasse. não – Charlotte respondeu depressa. lançando um olhar de advertência para Tim. mas você não parece ser do tipo fiel. Simplesmente. – A Sra. – Meu Deus – murmurou a Sra. é com os bonitos de cabelos compridos que devemos ter cuidado. – Sim. Pettis – Tim se levantou –. – Somos apenas amigos. Meu pai nunca voltou a ser o mesmo. Pettis agitou sua metade de biscoito no ar. Ele voltava da usina siderúrgica. voltar ao assunto pelo qual viemos até aqui? – Tim implorou. meus jovens? Vão se casar? – Não. e apartamentos no segundo andar – Tim completou. eu achava que ele queria estar com meu irmão. A tuberculose o matou. – Disse que ele morreu na guerra? Foram tantos homens bons perdidos nas guerras. Fui apenas jantar com uma amiga. saía para a varanda. – Ele traiu você. compartilhadas com pessoas vivas somente em seu coração. obrigado pelo seu tempo. Pettis pegou mais um biscoito. se sentava em sua poltrona e lia o jornal. preciso voltar para o escritório.. mas Tim pareceu constrangido. Morreu dez anos depois. como se as duas partilhassem um segredo exclusivamente feminino. mas. – Costumávamos decorar a loja para o Natal. Costumávamos dizer que aquele era o aroma do paraíso. havia sempre uma camada de fumaça pairando sobre a cidade. – Desculpe-me. como se estivesse esperando que o lho voltasse para casa. Charlotte teve vontade de rir. Pettis. de cabelos compridos. geralmente não são. – Charlotte também pegou um biscoito. sem que elas ficassem manchadas.. Então. para sair com outra. – Ela riu. – Somos só amigos – Charlotte interrompeu. ora. – Poderíamos. – E esperou vinte e quatro horas. Pettis. – A ex-noiva dele – Charlotte esclareceu. Competíamos com . existe alguma maneira de conseguirmos alguma informação sobre Joel Miller? Com quem ele se casou? Lembra-se dele? Era soldado da marinha. além do jardim do vizinho. Minha mãe não podia sequer pendurar a roupa lavada no varal para secar. que impregnava os tijolos. Tem só trinta e dois anos. querida? – A Sra. Às vezes. como fez com tantos trabalhadores da usina. em que posso ajudá-los. – Sra. Ah. – Como já disse. – Minha velha confeitaria é um edifício de escritórios agora – comentou a Sra. – Fico me perguntando se as pessoas ainda sentem o cheiro das tortas no forno. franzindo o nariz para a velha senhora. – Sra. Homens bonitos. Já era assim no meu tempo. como era bom ver Tim corar de vergonha! – Ora. por favor. afundando-se na cadeira. – Não saí com outra. Charlotte.

– Levou as xícaras para a cozinha. – Ela disse que homens que se parecem comigo são in éis – ele corrigiu. nos tempos que vocês mencionaram. Pettis. Sra.. vá. – Charlotte . Tim. – Meu avô tinha um como este em sua garagem – Tim comentou distraído. – Olhe à sua esquerda. mas precisamos ir – Tim despediu-se. até uma luminária postada ao lado de uma cadeira de balanço. Se precisa ir. – E como você vai voltar? – De ônibus. – O que você achou daquela cena? – Tim perguntou. Pettis não poderia ajudá-los. uma de cada lado do aposento. O centro da cidade era o centro dos acontecimentos.. Tim caminhou por entre peças de mobília. – foi até as prateleiras na parede. vestidos desbotados e um casaco com cachecol e luvas en ados nos bolsos pendem de um varal estendido entre duas vigas. Pettis. não me lembro de nenhum de meus fregueses. Joel Miller e a noiva devem estar lá.Newberry’s e a doceria Mary Ball. girando os botões do rádio. juntou-se a Tim diante da porta. obrigada. Charlotte examinou o sótão abafado. chutando outra caixa de seu caminho. seguido por Charlotte. permitiam a entrada de pouca luz. você está livre para ir embora quando quiser. Não é uma vitrola? E um rádio Westinghouse.” – Pare com isso. Deveriam ver este sótão. A propósito. chamava todos de Jimmy. Tim. – Está quente. Tenho um sótão repleto de recibos da confeitaria. – E as pessoas se perguntam se viajar no tempo é possível. desconte sua raiva na caixa. A Sra. meninos. Ternos velhos. Será que poderíamos encontrar. desde 1939. Empurrou caixas para abrir caminho. Vou procurar pelo recibo ou qualquer coisa que tenha o nome de Joel Miller e sua noiva. Sentiu certo aperto no peito. E agora? Onde poderia encontrar Joel Miller? Deveria contratar um detetive? Não fizera algo assim nem mesmo para encontrar o próprio pai. Aleluia! Charlotte olhou para Tim. O centro se tornou um lugar perigoso depois que atiraram bombas na igreja e a polícia soltou seus cães em meio ao povo. Está magoado porque ela disse que homens como você são infiéis. – Obrigado. – É uma pena. Mas aqueles dias ficaram para trás. É claro que. – “Ah. as tensões raciais eram muito altas. Pequenas janelas redondas. ou táxi. aqui. repletas de caixas – o que quer que estejamos procurando e irmos embora logo? – Ei. atravessando a porta aberta. Quando voltou. Sra. – Isso mesmo. – Mais uma vez. quando chegaram ao topo da escada estreita que levava ao sótão. – Adoramos conversar com a senhora. tenho sessenta anos de recibos no sótão.

Pode dar azar.. Char. Ela depositou a caixa no chão e se ajoelhou ao lado dela. – Dezembro de cinquenta e nove. – Eu me esqueço que. – É por causa dela? – reuniu coragem para perguntar. – Ao que parece. Quando se virou para ele. não adiei a data do nosso casamento por causa dela.. Pettis que nós íamos nos casar. examinando rapidamente os recibos. – Muito bem. Nada. Charlotte.. e veremos se há algum emitido em nome de Joel Miller – Charlotte determinou. – Ela os separou por meses. – Além de agrupar os recibos pelos meses de emissão. e se a Sra. – Mas acabou. Tim pegou a caixa marcada 1968. e a Sra. pegando uma caixa à direita. Tim. duas prateleiras acima. – Sinto muito por ter magoado você. Charlotte ergueu os olhos sorrindo. – Apontou para as prateleiras na parede. – Mas não sabemos o sobrenome da noiva. – Acredito em você. Esta caixa contém os de cinquenta e nove. Desfizemos o noivado. – Retirou a tampa e pegou um recibo. se conseguirmos encontrar Joel Miller. – Ela? Do que está falando? Charlotte suspirou alto. Ela se virou para encará-lo. – Bingo! Agora. – Tim foi até lá e retirou a primeira caixa da prateleira mais baixa.tirou o paletó de seu terninho e o pendurou no corrimão da escada. ela arquivou os pedidos de bolos de casamento pelos sobrenomes das noivas. ela fez muitos bolos e tortas. – Tente se lembrar. são recibos da confeitaria e estão datados. viu que a observava. Já disse que ela só me telefonou depois que havíamos. Pettis os colocara em ordem alfabética. Pettis não fez o bolo do casamento deles? – Psiu! Não diga isso em voz alta. vamos encontrar os de sessenta e sete. – Descobriu alguma coisa? – Talvez – Charlotte murmurou. – Ela voltou a se concentrar na caixa. por favor. – O que foi? – Quando disse à Sra. A etiqueta dizia “1967”. – Tim passou os olhos pelo grande número de caixas. conversado. Só preciso resolver alguns conflitos meus.. – Kim? Não. não acha? – Era exatamente o que eu estava pensando. – Ora. – É tão normal estar com você – comentou. – Sim.. São todos de cinquenta e nove.. – Mas sabemos do noivo. – Acho que o que procuramos está naquelas prateleiras. não tive a intenção de deixar você chateada. eu juro. Devemos virar a . – Vamos procurar pelos recibos da confeitaria? Essas caixas parecem conter documentos. Charlotte. sessenta e oito e sessenta e nove. mas sem olhar para Tim. a Sra. – Charlotte veri cou os meses de julho e agosto de sessenta e sete. Pettis escrevia o nome do noivo logo abaixo do da noiva. Os olhos azuis pareceram enxergar dentro de seu coração.

Noivo: Joel Miller. noivo partindo para o Vietnã. – Aqui está – Tim falou. Vamos nos limitar a isso. Pare. Charlotte voltou aos recibos. O vestido. – Tim agitou o papel. Veja.. Tim tirou a tampa de sua caixa. – Noiva: Hillary Saltonstall. nós viemos até aqui para descobrir com quem Joel Miller se casou. até que o farfalhar de papel cessou na caixa de Tim. – Levantou-se. seu sorriso parecendo um facho de luz. – Joel Miller. “Ordem urgente.. passando um braço em torno dos ombros de Charlotte e beijando sua testa. – Abril de 1969. deu-se conta do que acabara de fazer e se afastou sem jeito. há uma anotação no nal. – Não. Nada. A separação encerrara sua relação com Tim. pois. mas não os desejos de seu coração. O perfume da colônia de Tim atravessou o tecido da camisa e ela apoiou a mão no ombro familiar. ele destruía sua determinação à menor indicação de ternura. Estendeu o recibo para Charlotte. – Eu nunca disse que não éramos a escolha certa um para o outro. – A-ha! – Tim ergueu um recibo à luz difusa que entrava pelas pequenas janelas. . Oito de setembro de 1968. poderia apagar o calor em seu coração. em vez de descobrirmos depois. Continuaram trabalhando em silêncio contemplativo. Veja. ao menos.. Pense. fazendo Charlotte agarrar com força os próprios joelhos. Tudo isso está acontecendo por causa do vestido. manter uma barreira erguida entre eles? Infelizmente. – Encontrou? Jura? Charlotte se aproximou para espiar por cima do ombro dele.página e seguir adiante. Retirou a mão depressa. Concentre-se. Foi melhor descobrirmos que não somos a escolha certa um para o outro antes do casamento. – A ser retirado na manhã do casamento. se não fosse cuidadosa. Por que não conseguia sentir raiva dele? Ou. porém. Acho que combinamos muito bem. Eu só. – Quando disse que ele morreu? – Tim perguntou.. Joel Miller se casando às pressas. Hillary Saltonstall. Então. poderia se apaixonar por ele outra vez. esfregando os dedos onde sua pele parecia queimar com o calor dos lábios dele. Tudo bem – ela balbuciou. – Encontramos nossa noiva. tando-a com olhar transbordando de conforto. afastou seu coração de Tim. como se pudesse ler alguma coisa com os olhos cheios de lágrimas. “muita” foi sublinhada três vezes. Encomendaram um bolo de coco com muita cobertura. antes de partir para a guerra.” Aquilo. – Tim. – Desculpe. sim.

afastou os cabelos de seu rosto e. o corpete. Exceto por “sua esposa”. O sótão se tornava mais e mais quente. – Podemos ir? – Sim. sentia-se muito longe da verdade. alguma coisa. então. – Deve ter sido muito difícil para uma noiva recém-casada. – Acha que chegaram a se casar? Você disse que o vestido parece não ter sido usado. Embora estivesse muito mais perto de descobrir a verdadeira história do vestido. – O Muro. – É possível um vestido servir em duas noivas sem ajustes. porém. – Tim se aproximou dela. tinha um pedaço da vida de um homem que a história e o tempo haviam esquecido. que postara o comentário no website. mostrar o passado. – Tim manteve os olhos xos no recibo. A menos que o vestido não tenha.– Seis meses depois. dizia que o corpo dele nunca foi resgatado. Exceto por Deus. Charlotte apanhou o paletó. de fato. – Charlotte pegou o recibo. – Acha que a Sra. onde encontrei o nome de Joel. como se o papel pudesse. pelo menos emprestado? Tim fechou a caixa e a devolveu à prateleira. – Por que não? Foi por isso que viemos. Na escada. Charlotte tremia. Pettis vai me deixar levar o recibo. sido feito em 1912. Sempre há algo a ser mudado: a bainha. de alguma maneira. e o leiloeiro tenha inventado uma história para me convencer a comprá-lo. . – Nem alterado. enfiou as mãos nos bolsos. Em sua mão. mas é muito improvável.

como fotografias. até encontrar a tia idosa de Hillary que. havia uma pequena casa branca com acabamento em tijolos aparentes. telefonara para todos os Saltonstall que encontrara na lista telefônica de Birmingham. não havia se registrado na escala emocional de Charlotte. a possibilidade de Hillary ter acenado para sua mãe quando uma passava pela outra. o quarto pintado de rosa com margaridas amarelas brotando da “terra” que era o rodapé. depois de ouvir com atenção à história de Charlotte e de fazer várias perguntas. Charlotte estreitou os olhos. parada na entrada. varanda de concreto e um balanço de madeira. Charlotte desligou sem deixar recado e ligou para Tim. onde as ruas Baker e Monarch se encontravam. na rua. planejando como acessar o passado da mulher. vestindo calça jeans justa e mini blusa. Charlotte apurou os sentidos. agora. Charlotte saiu do carro. Retirando o telefone da bolsa. – Onde você está? – Charlotte perguntou. O que lhe permitia ignorar o fato de estar ela mesma mergulhando em seu próprio passado: vivera em Crestline anos atrás. brincara com as amigas e andara de bicicleta. O andar superior. Teria a jovem Charlotte encontrado. viúva da guerra? Hillary. concordara em fornecer o número da sobrinha. – Oi – ele atendeu hesitante. alguma vez. E você? . afastando os cabelos do rosto. o som dos motores de motocicletas ao fundo. Nem Saltonstall. O fato de que Hillary vivia no bairro onde Charlotte passara sua infância. A entrada para automóveis formava uma curva diante da casa de tijolos aparentes. recortando o gramado impecável. Sua mãe. a Sra. naquela tarde. Carvalhos e olmos abrigavam a casa contra o sol do meio-dia e o calor já intenso de maio. Até agora. nem Miller. A sete casas dali. Virando-se para a casa de Hillary.Capítulo Quinze Pouco antes do meio-dia de sábado. a voz carregada de expectativa. tirou o paletó e jogou-o no banco do passageiro. Para chegar ali. Caminhou até a extremidade da passagem. só as paredes recordavam a voz de sua mãe. mas tudo o que conseguiu foram lembranças recortadas. tentando ouvir. gritando para Charlotte voltar para casa. perguntou-se há quanto tempo Hillary vivia ali. Joel Miller. Charlotte estacionou em frente à residência de Hillary Saltonstall em Crestline. o jantar estava pronto. Sete casas à direita. ensaiara mentalmente uma entrevista pragmática com Hillary. Dixie tinha uma consulta marcada com uma nova cliente. mas a chamada foi direto para a caixa postal. ver. Charlotte ligou para Dix. cheirar a essência daquela casa. Durante o trajeto. era Warner. e devia estar se preparando. – Na pista de corrida.

– Na esquina da Baker com a Monarch.
– Falou com ela por telefone? – A voz de Tim soou mais alta à medida que o ruído dos motores
se afastava.
– Ela mora a sete casas de onde passei minha infância, a casa onde eu morava quando mamãe
morreu.
Ele assobiou.
– Sabia disso antes de chegar aí?
– Não tinha sequer pensado nisso até agora. É estranho estar aqui, Tim. Nunca voltei depois da
morte de mamãe.
Um ruído alto se fez ouvir através da ligação.
– Charlotte, pode aguardar um instante? – Mais ruídos, então: – Estou ao telefone, cara.
A conversa abafada e distante revelou que Tim precisava desligar e se encaminhar para a pista.
– Desculpe, Char, mas vou ter de desligar logo. Então... É estranho?
– De certa forma, sim, como se minha mãe devesse estar aqui, naquela casinha branca. Mas ela
não está. O pior é que não consigo me lembrar de quase nada dos tempos em que morava aqui.
– Ela se foi há muito tempo, Charlotte. Você era uma garotinha que havia acabado de perder a
mãe. Agora é uma mulher construindo sua própria vida com sucesso.
– Mas uma garotinha não deveria ter de aprender a não precisar da mãe.
– Quem disse? Charlotte, todos os dias, pessoas superam a perda de mães, pais, irmãos, amigos,
seja porque partiram, ou porque morreram. Superar a perda faz parte da vida.
– É diferente com a morte. Perdi minhas lembranças dela, Tim. Fico me perguntando se o que
me lembro sobre ela é apenas uma fantasia, ou um ideal que eu mesma inventei. Estou tentando
enxergar alguma coisa do meu passado com clareza e não consigo.
– É possível que isso seja uma bênção.
O som inconfundível da porta da caminhonete se fechando foi um aviso para Charlotte de que
a ligação terminaria em breve.
– Mas, lembranças são tudo o que tenho. São, na verdade, minha família.
– Você vai criar lembranças novas. Terá uma nova família... Um dia.
As palavras pareciam travar uma batalha entre o amigo Tim e o noivo Tim.
– Bem, você precisa desligar, e eu também. Obrigada por ter atendido minha ligação.
– Sim, Charlotte... quando... quiser.
– Divirta-se. Cuide-se, está bem? Agora que você é meu amigo, não meu noivo, posso dizer que
detesto sua paixão por corridas de motocicleta em pistas de terra. É tão perigoso.
Ele riu, e o som fortaleceu a coragem de Charlotte.
– E só agora você me diz isso? Devo entender que sua ideia era deixar o noivo Tim se arriscar,
mas dizer ao marido Tim: “Pode esquecer”?
– Não cheguei a traçar um plano de ação. Mas, sim, provavelmente, seria algo assim.
– Você deveria ter me falado – ele insistiu em tom mais sério. – É o tipo de coisa que uma

garota diz a seu namorado.
– E quando eu poderia ter falado? Nós nos conhecemos, conversamos, nos beijamos, camos
noivos.
– Ora, Charlotte, acho que você está começando a entender por que eu queria adiar o
casamento.
– Vou desligar agora. Tim, tenha cuidado.
O brilho do sol empalideceu quando uma nuvem cinzenta atravessou o céu.
– Boa sorte com Hillary. Seja você mesma. Ela vai te adorar.
Charlotte desligou e guardou o telefone na bolsa. Quando se virou, uma mulher alta e esbelta,
de cabelos grisalhos, a observava da beira do gramado.
– Charlotte?
– Sim. Sra. Warner?
Charlotte se aproximou para apertar a mão de Hillary e se surpreendeu ao notar o brilho das
lágrimas em seus olhos.
– Por favor, me chame de Hillary – pediu a mais velha, que usava calça jeans, camiseta e tênis
brancos. Os cabelos curtos se agitavam ao vento, encaracolando-se em torno de seu rosto, e os olhos
castanhos irradiavam gentileza. – Posso perguntar o que há de tão interessante na rua?
Lembranças.
– Morei naquela casinha branca quando menina.
Os raios dourados do sol venceram a batalha contra a nuvem.
– É mesmo? – Hillary foi até a rua e se inclinou para espiar além das árvores. – Greg e eu nos
mudamos para cá há vinte anos, e havia muitas crianças correndo por estas ruas, andando de
bicicleta. Todas se foram. Aliás – pressionou os dedos nos lábios –, havia uma garota magrinha, de
cabelos escuros, que pedalava uma bicicleta roxa. Eu costumava dizer a meu marido que, se
tivéssemos uma filha...
– Eu tinha uma bicicleta roxa – Charlotte interrompeu –, além de cabelos escuros.
– Que iam até a cintura e se recusavam a ficarem presos no rabo de cavalo – Hillary completou.
– Verdade.
– Ora, ora. – Hillary estreitou os olhos. – Então, era você. Como...
O coração de Charlotte acelerou as batidas.
– Mundo pequeno.
– Eu dizia a Greg que, se tivéssemos um bebê, gostaria que fosse uma menina como aquela, na
bicicleta roxa.
Charlotte se sentiu tocada pela ideia.
– Lembro-me do cheiro de churrasco que vinha do seu quintal, no verão. E, no Natal, sua casa
era mais bem decorada e iluminada.
– Meu marido adorava fazer churrascos. Como nunca fui grande cozinheira, achava ótimo. Mas
a decoração de Natal, eu fazia toda sozinha. – Hillary apontou para a casa e começou a caminhar
em direção a ela. – Sua mãe morreu, não foi?

– Sim, quando eu tinha doze anos, em um acidente de carro.
Hillary parou na sombra de uma árvore.
– Sinto muito. E seu pai?
– Não conheci meu pai. Fui viver com uma amiga de mamãe chamada Gert.
– Eu não sabia. – Hillary hesitou, olhando para o gramado. – Eu não... Fazia ideia. – Encarou
Charlotte por um longo momento, antes de se virar para a casa de novo. – Fiz bolinhos de canela.
O interior da casa combinava com seu exterior: bem cuidado, convidativo, aconchegante. O
carpete era novo e espesso, a mobília, moderna. O ar carregava o cheiro de tinta fresca e um toque
de canela. Hillary atravessou a sala até um jardim de inverno.
– Sente-se – convidou, tocando de leve o encosto de uma cadeira de balanço cor de vinho.
Havia outra cadeira, igual à primeira, do outro lado de uma mesinha, e as duas encaravam as
janelas e o jardim. Na mesinha, havia um livro sobre pássaros e um binóculo.
Charlotte se sentou e encaixou a bolsa entre seu corpo e o braço da cadeira. Vira o jardim de
inverno muitas vezes, do lado de fora. E Hillary a observara andar de bicicleta. Fora o último
presente de sua mãe. Um ano depois, Charlotte era uma órfã, morando com Gert, que atropelara a
bicicleta roxa na semana em que Charlotte se mudara para lá.
– Aqui estão. – Hillary depositou um prato branco repleto de bolinhos quentes na mesinha. –
O que gostaria de beber? Tenho leite, café, chá, água, refrigerante, não diet. Só tomo bebidas de
verdade.
– Leite, por favor.
Charlotte gostou do jeito franco, porém simpático, de Hillary.
Saboreando bolinhos de canela com leite, as duas conversaram, conhecendo-se melhor. Hillary
fora enfermeira na marinha e, depois, no hospital St. Vincent’s.
Charlotte era dona de uma loja de noivas.
Hillary se casara com Greg quando já passava dos quarenta anos de idade. O cial da marinha
aposentado, fora contratado pela marinha para prestar serviços como civil.
Charlotte tinha trinta anos e era solteira.
As duas adoravam dias quentes e ensolarados, cachorros e Michael Bublé.
– É bem-sucedida em sua loja? – Hillary indagou.
– Desde que abri, há cinco anos, consegui manter as contas no azul a maior parte do tempo.
Recentemente, Tawny Boswell comprou seu vestido de noiva de nós.
– Tawny Boswell. A Miss Alabama? Ora, ora.
Charlotte sorriu. Hillary não parecia ser do tipo que se interessava por concursos de beleza.
– Pela sua expressão, posso dizer que cou surpresa por eu saber quem é Tawny Boswell. –
Hillary balançou sua cadeira, levando sua xícara de café aos lábios. – Fui nalista do concurso para
Miss Alabama Teen, em sessenta e dois.
– É mesmo? Você não parece fazer o tipo miss. – Ocorreu-lhe que seu comentário poderia soar
como um insulto. – Estou me referindo ao espalhafato, ao fingimento, à falsidade...
– Vinte anos como enfermeira da marinha acaba com essas bobagens todas. – Bebeu o café. Não

bebericou. Bebeu. – Não precisa car constrangida. Não sou a mesma mulher que era, então. Nem
sou a mulher que pensei que seria aos sessenta e cinco anos. Diga-me, por que veio me ver? Disse
que encontrou algo que me pertence?
– Espero que possa me ajudar a desvendar um mistério.
Charlotte retirou da bolsa o sachê de seda e o entregou a Hillary. Bethany o devolvera depois
de confeccionar as amostras, e Charlotte voltara a guardar a placa de identificação no original.
– Encontrei isto em um baú que comprei em um leilão – explicou.
Inicialmente, Hillary não demonstrou o menor reconhecimento, mas, quando seus dedos
tocaram a seda, começaram a tremer. Seu nariz e seus olhos ficaram vermelhos.
– Ora, por misericórdia... – A emoção embargou sua voz. – Não esperava voltar a ver isto.
– A placa de identificação está dentro do sachê. Foi você quem a guardou aí?
– Vejo que encontrou um jeito de abrir o baú. – Hillary despejou a placa na palma da mão e
cerrou os dedos em torno dela. – Eu queria queimar tudo aquilo na noite seguinte ao enterro dele.
– Li que o corpo dele nunca foi resgatado.
– Ele foi feito em pedaços por uma bomba. Não havia corpo a resgatar. – Apanhou um lenço
de papel. – Nunca imaginei que alguém fosse conseguir abrir aquele baú, depois que soldei o fecho.
– Não foi fácil. Um amigo meu teve de usar uma serra elétrica para abri-lo.
– Ao que parece, não sou uma soldadora tão e ciente quando imaginei. – A curva do leve
sorriso nos lábios de Hillary aprisionou uma lágrima solitária. Ela acariciou a placa de
identi cação de Joel. – Ainda sinto falta dele. Quarenta e tantos anos se passaram, e ainda sinto
falta dele.
– Vocês se casaram antes de ele partir?
– Tivemos uma cerimônia linda, no quintal da casa de meus pais, não muito longe daqui. Joel
fora convocado para a guerra, e eu queria me casar com ele de qualquer maneira. Eu ainda tinha um
ano de faculdade pela frente, mas ele estaria no Vietnã. Achei que deveríamos selar nosso amor com
o casamento. Sabia que nosso amor era mais forte que a morte.
– Talvez seja mesmo, Hillary. Ainda o ama, não é?
Hillary secou as faces com a mão.
– Nosso amor não era a prova de balas, não o manteve vivo. Não sei como foi a perda de sua
mãe, mas com a morte de Joel descobri que é terrivelmente difícil virar a página de uma vida que
nem sequer começou. Todos os nossos sonhos foram colocados em compasso de espera enquanto
ele lutava na guerra. – Hillary balançou a cadeira. – E eles continuam lá, ainda esperando.
Empoeirados e enferrujados na prateleira, solitários porque não os contemplo mais. Ele não queria
se casar, mas...
– O que aconteceu, afinal? Vocês se casaram, certo?
Charlotte imaginou os nomes de Hillary e Joel no recibo do bolo.
Hillary sorriu.
– Eu estava decidida a fazer uma festa de despedida para ele, pouco antes da data de sua

ao vestido e à placa de identi cação. vi o vestido como algum tipo de sinal. – Hillary. Queria tê-lo beijado pela última vez. – A semana seguinte foi um redemoinho de preparativos. Como se houvesse sido confeccionado para mim. – O que Joel achou? – Não contei a ele. Estávamos na metade da festa de despedida. diga-me que não vai se casar usando aquele vestido.. mas meu pai não deixou. Meus pais também não sabiam. Charlotte – Hillary con rmou. Conversamos e discutimos a questão do casamento. Por favor. Fez algum ajuste? – Não foi preciso. embora manter a boca fechada quase me matasse. se cou fechado no baú por todo esse tempo. Charlotte recostou-se na cadeira. mas Joel insistia que não queria me deixar sozinha. É perfeito. – Eu queria queimar o vestido.partida. Estava limpando o porão. mas não com o casamento. Ele concordou com a festa de despedida. Aquela. era uma história para ser contada outro dia. – Ela sorriu. E esse foi o detalhe mais estranho. até onde pude verificar. Joel partiu para a guerra exatamente uma semana depois. encarando Charlotte de sobrancelhas erguidas. Como novo. quando ele me surpreendeu. Eu me apaixonei por ele. E. sem conseguir pensar em quaisquer palavras adequadas ao momento.. Minha mãe e minha avó mal acreditaram. finalmente. – Eu queria que nossas últimas semanas juntos fossem felizes. – O modelo estava acima do tempo e da moda. Depois do . bordada com pérolas e. Mas o que eu não sabia era que Joel havia mudado de ideia quanto a esperar. E aquela foi a última vez que o vi. – Não sabia que estava lá? – Não fazia a menor ideia. Não tive sequer a chance de ver Joel morto. Bem. correr o risco de me transformar em viúva ainda tão jovem.. murmurou: – Hillary. porém. – Hillary apertou sua xícara contra o peito. – Eu o usei. Tim também havia pedido Charlotte em casamento diante dos familiares e amigos.. Então. Eu estava enlouquecida pela dor. nossos parentes. imagino que sim. quando ele se ajoelhou e me pediu em casamento diante de nossos familiares e amigos. Convidei todos os nossos amigos da faculdade. quando encontrei o baú com o vestido. – Se abriu o baú. é claro que o encontrou. Não queria perder tempo brigando por causa de casamento ou festa de casamento. um sorriso que iluminou todo o seu rosto. O vestido serviu em mim como uma luva. de beijar seus lábios frios e azulados. Eu estava prestes a atear fogo ao baú. É como se nunca houvesse sido usado. nem preciso dizer. Nós nos casamos na noite da sextafeira seguinte. não vou me casar. Mas o vestido está. e que Charlotte sentiu na alma. o vestido está comigo. Ainda tem a cintura alta. – Não. – Não parece? – Não. Não me importaria se o espírito dele não estivesse mais ali. o vestido nunca foi alterado.

Então.funeral. Dixie me deu o seu número. mesmo não reconhecendo o número na tela. Ele me salvou. – Nunca pensei que fosse encontrar o amor novamente. – Ergueu os olhos para Charlotte. Como o encontrou? – Comprei o baú no leilão Ludlow. – Dix está bem. – Da casa? – Eu o encontrei na casa e o deixei lá. – Acabei de chegar para meu plantão e. até onde sei. O baú e o vestido faziam parte da casa. Acredite quando digo. – Jared suspirou de um jeito que fez os pelos se arrepiarem nos braços de Charlotte. Greg. – Hillary. conheci meu marido. – Hillary voltou a cerrar o punho em torno da placa. Jared. liguei a solda e selei o fecho. – Alô? – Charlotte. – Quarenta e quatro anos depois. – Nós nos mudamos de lá antes de a casa ser demolida para a construção de um shopping center. A loja também está bem. aquele maldito baú vai parar em Red Mountain. Ele pertencia à casa. logo depois de completar quarenta anos. A nal. É teimosa demais para se machucar. Charlotte. Tim foi trazido de helicóptero para o hospital. estava meio enlouquecida e fora de mim. – Então. Retirou-o da bolsa e atendeu. Não queria que ninguém jamais voltasse a usar um vestido de noiva tão triste. interrompendo o momento de contemplação. quarenta anos depois? – Não. em Red Mountain. está tudo bem? Algum problema com Dix? Com a loja? Charlotte sentiu um frio na espinha. . você a deixou nas mãos de Dix. embora parecera estar indo tão bem até então. de onde veio o vestido? Tem alguma ideia? – A casa. Achei que você deveria saber. sou eu. Sobressaltou-se quando seu telefone tocou. – Abriu a mão e estudou a placa de identi cação. – Jared. Charlotte concluiu que chegara a um beco sem saída. Nunca perguntei a minha mãe o que ela fez com o baú. não sabe como o baú foi parar no leilão Ludlow. ele me salvou. – É terrivelmente doloroso ser casada com um fantasma. Na época.

– E é seu noivo quem a ama? Taffy ajoelhou para medir a bainha. simplesmente. Emily. não minha mãe. mas Emily tratara de encontrar Big Mike para levá-la até a Quinta Avenida. se possível. – Vire-se. seu noivo a amava. não é do meu dia que estamos falando? – Você não é tão ingênua a ponto de acreditar que o dia não inclui as famílias também. É possível conseguir qualquer coisa nesta cidade. que imóvel para que eu termine logo o meu trabalho – pediu a costureira – e a senhorita possa ir embora daqui. – Taffy deu um tapinha de leve na perna de Emily. virando o rosto para tossir. Sedoso.. – Emily estudou o próprio re exo no espelho da costureira. lustroso e. – Fiz as costuras com fio de ouro. – Pelos céus! É ouro de verdade? – Vou juntando aos poucos. Meu vestido de noiva. – Não me sinto inteiramente à vontade nesta situação. A nal. – Não. Cancelara sua visita à residência Canton por estar doente. – Não vou me meter em nenhuma encrenca – Emily afirmou. guardando sobras dos trabalhos que faço. Ou não? O vestido era lindo. deixando-se envolver pela sensação de chuva morna em uma tarde de verão e pelo farfalhar suave do tecido deslizando por sua pele e se derramando sobre seus pés. – Srta. deslizando a mão pelo corpete do vestido. que fechou os olhos. – O que pediu a Ele enquanto confeccionava meu vestido. Além disso. Quem vai escolher o vestido sou eu. Às vezes. – Taffy. Mas trata-se do meu casamento. desde que se saiba o que quer e como conseguir. juro que este vestido parece emitir sua própria luz. Não sou teimosa.. Não quero que ninguém nos apanhe aqui juntas. – Eu me sinto à vontade.Capítulo Dezesseis Emily Taffy ajeitou o vestido pronto sobre o corpo de Emily. . mas estamos falando de uma coisa muito simples. – Eu me sinto amada neste vestido. Taffy. Sim. Sua mãe me pareceu um tanto insistente quanto a você usar o vestido feito por Caroline Caruthers. ou que a senhorita se meta em encrencas. A noiva sou eu. Emily. Taffy? – Pedi que dê o que você precisa. peço ao Senhor que me dê o que preciso. mesmo uma mulher de cor como eu. – Ouro? – Emily examinou a bainha da manga de renda. meu vestido de noiva. não quero que leve minha doença para a casa de sua mãe.

Srta. nalmente senhorita – Molly declarou. – Ah. para se casar com Phillip. en ou o último al nete na bainha e se levantou para encarar Emily – . abrindo a porta e encarando Emily com sobrancelhas arqueadas. – Estava pensando alto. Emily espiou o espelho por cima do ombro. Desde o noivado. Emily desabotoou a saia e se despiu dela. para que a senhorita tenha coragem e fé. Com os sapatos e a saia respingados de lama. – Onde está mamãe? Poderia lavar minha saia antes que ela a veja? Sem esperar pela resposta. – Penso alto e falo sozinha o tempo todo – confessou. Velhas negras ajoelham e oram. – Deveria consultar um médico. ela se dera conta de que não seria tarefa fácil levar o nome dos Saltonstall. – a costureira suspirou. Emily. Taffy sorriu e retirou um alfinete de entre os lábios. Srta. sem dúvida. estendendo-se em uma cauda discreta. – O que disse.. Emily atravessou o quintal da casa vizinha. Voltou a virar o rosto para tossir. aquele homem teimoso. Irei buscá-la – Molly prometeu e despejou a massa de pão sobre a tábua de cortar antes de perguntar: – E onde a senhorita esteve? . – Sua mãe está à sua procura. Precisaria das duas coisas. A saia aderia com suavidade a seus quadris e se derramava em uma cascata leitosa sobre o banquinho. você disse? Emily se concentrou nas palavras de Taffy.. por que acha que vou precisar de coragem e fé? – Porque. – Moças brancas consultam médicos. mas não pudera esperar por ela. – Coragem e fé. – É pelo que tenho orado.. Big Mike a levara até o ateliê de Taffy. Canton lhe dera uma longa lista de tarefas. – Taffy. O decote do vestido se aprofundava nas costas. Queria não ter de tirá-lo nunca mais.por favor. Mulheres como Emmeline não davam a menor importância a votos matrimoniais. Estariam sempre lançando olhares oferecidos e ostentando decotes indecentes para homens como Phillip. tolo demais para não se sentir lisonjeado. uma vez que o Sr. Emily? Emily sentiu as faces arderem. – Deixe-a em seu quarto de vestir.. – Gostaria de ter a sua fé e a sua coragem – Emily murmurou. escondendo-se atrás da porta da despensa. vai precisar das duas coisas para se casar com o homem certo. para o caso de Jefferson entrar enquanto ela estava em roupas de baixo. Taffy – Emily sugeriu e se virou no banquinho. já se encaminhando para a escada dos fundos. – Ele é muito egocêntrico. dirigindo-se à porta da cozinha de sua própria casa. Decidiu chafurdar na lama? – Voltei para casa de bonde – Emily respondeu. Sentiu-se capaz de utuar naquele vestido.

os olhos atentos em Molly. – Ele vai ter de compreender. pelo ar frio do final de tarde que entrava pela janela que Molly insistia em manter entreaberta. que servia apenas para aliviar sua luxúria. Preciso que o vestido esteja pronto na data marcada. Emily se perguntou se se sentia limpa e pura.. Phillip a viram outra vez? – Sou cuidadosa – Emily a rmou. – Ah. – Amada? – Molly fez uma careta. – Por que não pediu a ela que viesse até aqui? Sabe muito bem o que seus pais acham de suas idas ao bairro dos negros. – E se os empregados do Sr. sem a menor inclinação para fazer cenas. precisamos tirar todas as roupas de uma gaveta para poder guardá-las em ordem outra vez? Às vezes. Não eram os lábios de uma amante submissa. Molly. – Não se sente amada. Acontece que o vestido me faz sentir. tremer ou balbuciar pedidos de perdão. como se ele se lembrasse de quem eram os lábios que beijava: de sua futura esposa. – O que acontece quando Deus toca alguém? – Emily indagou. é como me sinto na igreja. Molly. quando sinto o toque de Deus em mim. mas ainda sentindo um calafrio agora que estava de volta à sua casa. . O tremor foi provocado. eu me senti. Ela mandou um recado.. eu precisava garantir que Taffy confeccionasse um vestido de noiva.Emily corou sob o olhar zombeteiro da criada. no dia em que ele. – O que acontece? O que Ele quiser. não para que todos vejam. e a pessoa volta à vida normal. Ouvira falar de sinais e reações assustadoras em algumas igrejas. era uma moça sóbria e equilibrada. cheia de júbilo. – Só para nós mesmos. – Não conte a mamãe que fui ao ateliê de Taffy – pediu. dizendo que o vestido estava pronto para marcarmos a bainha. como minha mãe insiste em querer. senhorita? – Veja como fala. às vezes. – É claro que sou amada. Amada de verdade. Molly.. Tão boa. porém. tão limpa. senhorita.. Deus faz o mesmo com nossos pecados. cheia de júbilo. – Ele põe todos os nossos pecados à mostra? A ideia era tão assustadora. Suas paixões eram moderadas e controladas. em parte. Mas o pecador pode chorar. tendo calculado o risco antes. Você vai ver. ele se transformara no noivo mais atencioso e carinhoso. em um piscar de olhos. que a conhecia melhor que algumas de suas amigas da escola. Quando fora a última vez que rira de verdade? Fora com Daniel. Deus põe tudo em ordem novamente. Vou pensar em um jeito de usar o vestido de Taffy no meu casamento. sim. – Fui ao ateliê de Taffy. Então. Era difícil encontrar palavras que descrevessem o que Emily sentia... quatro semanas antes. O pastor da igreja que Emily frequentava descartava tais manifestações como exageros emocionais. Desde que confrontara Phillip sobre sua primeira visita a Taffy. – Ela não estava se sentindo bem. Quando provei o vestido hoje. que Emily estremeceu. Sabe como. sentindo-se limpa e pura por dentro. e não um vestido de festa. Além disso.

viemos em missão oficial. quando ela ouviu a campainha da porta da frente. entrem. – Estamos aqui pela senhorita. Emily tomou banho e vestiu roupas limpas. vindo da cozinha. No mesmo instante. Sra. Seus pensamentos começavam a girar em torno de uma espessa fatia de pão com geleia. – Eu? – indagou em um fio de voz. Com isso. mas não é o fim do mundo. – O que está acontecendo? – indagou a Sra. – Violação da lei. – Aconteceu algo com meu pai? Ou com Big Mike? – Não. senhora. – Querem prender minha filha? Sob que acusação? A mãe se postou entre a lha e os policiais. – Algum problema? – perguntou aos policiais. Desceu a escada apressada. que não perdeu tempo em atendê-la: – Aceita uma fatia de bolo. Molly. tirou o chapéu –. mas por que sua saia está coberta de lama? – Está chovendo. Mamãe faz qualquer coisa por bolo de chocolate. – Em que posso ajudá-los? Emily desceu o último degrau para o vestíbulo. – Certamente. Canton. Aceitam chá ou café? O Sr. – Boa noite. – Jefferson abriu a porta para que os homens entrassem. – Boa noite. Obrigada. por favor. Emily Canton. – Misericórdia! Está seminua! O que aconteceu com sua saia? – Lama. Emily disparou escada acima. . – Que tipo de missão oficial? – Temos um mandado de prisão para a Srta. Ela foi vista no hotel Gaston esta tarde. Jefferson ajoelhou ao lado dela e pressionou a mão rme em suas costas. Canton? Guardei o último pedaço do bolo de chocolate para a senhora. – Senhora – o mais alto. senhorita. enquanto Emily se deixava cair sentada no degrau da escada.. lançando um último olhar de súplica para Molly. o coração parado em seu peito. está aí? – A Sra. – Senhores.– Emily. Canton não está em casa.. de olhos azuis muito sérios.. As ruas estão enlameadas.. mamãe. ameaçando instigar uma insurreição. Papai? Ou. É acusada de confraternização com negros. Especialmente o seu bolo de chocolate. Canton surgiu na porta da cozinha. Big Mike? Sua mãe tinha razão: alguém sofreria as consequências da ida de Emily ao bairro dos negros. Espiou pela janela e viu um carro da polícia estacionado na entrada de sua casa. Desculpe o incômodo – uma voz sombria anunciou no vestíbulo. – Os policiais trocaram um olhar constrangido. mas não deve demorar. Emily ficou petrificada. guardas.

Emily se agarrou a Jefferson quando o policial exibiu o mandado. – Jefferson. – Emily. tropeçando porque suas pernas não obedeciam seus comandos. mamãe. – Emily prostrou-se nos braços do policial que a conduzia ao carro. – Segurou o rosto da lha entre as mãos. transformam minha filha em um espetáculo público? As palavras da Sra. segurando-a pelos ombros e forçando-a a se endireitar. não acredito. Simplesmente. Está dizendo que não podemos usar os serviços de minha costureira porque ela é negra? – Não quando acredita-se que isso provocará problemas sérios. Canton repetiu. – Mamãe? – Isso é uma afronta! – a mãe sibilou. o policial livrou Emily dos braços de Jefferson. – Emily. – Estou certa de que esses homens vão tratá-la como a dama que você é. Não me largue. para isso. mas devem viver separados. Estarei logo atrás de você. – E. O policial estendeu a mão para Emily. seja forte – a mãe ordenou. – Senhorita. telefone para o Sr. A mãe correu para alcançá-los. Agora. batendo um pé no chão. – Ah. – Não acredito. O policial ajudou Emily a se sentar no banco traseiro. Tentou ler. com sangue dos Woodward nas veias. seguindo-os até os degraus da varanda. mas as palavras dançavam diante de seus olhos. pondo os cavalos em movimento. – Eu só queria um vestido de noiva que me fizesse sentir livre e amada. Jefferson. e caindo como brasas em suas mãos geladas. Quando o outro sacudiu as rédeas. Com um sincero pedido de desculpas no olhar. – Taffy Hayes é minha costureira. terá de nos acompanhar. Seja forte e corajosa. A mãe arrancou o papel da mão do homem. mas Jefferson continuou a segurá-la com rmeza. Jefferson me levará de automóvel.. Canton.. – Você é uma Canton. traçando um caminho de fogo dos olhos ao queixo. – Tudo estará resolvido antes do jantar. Existem aqueles que fazem questão de nos lembrar que brancos e negros são iguais. lágrimas quentes desceram pelo rosto de Emily. escute. Bonita como uma princesa. Emily foi parcialmente arrastada até o carro de polícia puxado por cavalos.– Insurreição – a Sra. – Lançou um olhar furioso aos policiais. . Canton explodiram como fogos de artifício nas comemorações do Dia da Independência.

Charlotte continuou esperando. a situação era inteiramente nova. Chegara ao hospital ao mesmo tempo que o Sr. Observando-os entrarem no quarto de Tim. ela não se sentiria à vontade no quarto com eles. assustadas e angustiadas deveriam se sentar no escuro? Charlotte foi até a janela com vista para a cidade. no silêncio da sala de espera. Charlotte esperara junto da família por mais notícias. Charlotte esfregou o polegar no dedo que. . Jack e Chase estavam a caminho. Se realmente sentisse. ela cara ao lado das cadeiras. Tim ficara preso entre as duas motos no chão. e a Sra. – Somos duas. Katherine se demorou um instante. Tim foi levado para a sala de cirurgia e. esperando. caiu sobre outra moto. entrou errado. mas hesitou. afagava o braço de Charlotte. os irmãos chegaram. sentindo-se grata pela luz do sol que lutava contra a chegada da noite. Esportes perigosos e homens que os amavam. As informações deixaram Charlotte furiosa.. trazendo suas motocicletas de Huntsville. Para Charlotte.. Charlotte. – Quero que Tim seja feliz.Capítulo Dezessete Charlotte A sala de espera precisava de iluminação melhor. Pedira a Tim que tivesse cuidado. Charlotte não tinha disposição para joguinhos no momento. Fez a curva.. – Tim vai ficar bem. – Sinto muito por você e Tim.. Katherine. Por volta de seis horas. Era a família que tinha o direito de ver Tim em primeiro lugar. porém. Enquanto eles conversavam com ao médico. teria me telefonado há semanas. Às sete. ainda vestindo os uniformes de corrida empoeirados. os Rose se juntaram no corredor para vê-lo. A quase cunhada começou a falar. antes. Tim foi transferido para um quarto. Por que homens adultos se comportavam como garotinhos invencíveis? A Sra. Na verdade. não a ex-noiva. entre diálogos confusos e tentativas de compreender os detalhes da ligação aflita de David. Assim que o médico deu permissão. Os irmãos David. Rose e Katherine. Rose. que já enfrentara vários acidentes dos lhos. A motocicleta de Tim girara no ar e caíra sobre ele. – A notícia já é velha. Por que os arquitetos insistiam em pensar que pessoas nervosas.

acorda e dorme novamente. Gostosão de Dixie. cada um parando para envolvê-la em um abraço rápido. Preciso ver alguns outros pacientes. ele se virou para se afastar e. Por favor. Quando Charlotte entrou.. Ele tem sorte por estar vivo. afagando os cabelos de Charlotte como zera tantas vezes. tentando livrar-se dos sentimentos confusos. ele estaria paralisado ou morto. Seu rosto ainda estava coberto de poeira. Charlotte deu um passo para o lado para Katherine passar. Ficará internado por alguns dias. – Jared apertou as mãos de Charlotte. – Bons. se puder – convidou a Sra. – Quais são os prognósticos de Tim? – Charlotte perguntou. Natal ou Ação de Graças. – Tim está perguntando por você. – Mas não. O que faria sem Tim? O amigo Tim.. – Ei. a família saiu. – Estamos com você. vá jantar conosco. Voltando à janela. Dependia dele de uma forma que não se dera conta até agora. o nome de Charlotte fora o único na lista de parentes do obituário.. Se tivesse um irmão. Tivemos de retirar o baço e colocar um tubo no peito para ajudar a recuperar o pulmão esquerdo. capazes de curar. Charlotte – Jared chamou ao se aproximar. que se apressou em dizer: – Voltarei mais tarde. Ela não saberia dizer sequer se sabia exatamente o que era aquilo. apoiou a testa no vidro aquecido pelo sol e suspirou. Jesus.carregara seu anel de noivado. – Parou de falar e sinalizou para que ela o acompanhasse. Com isso. Charlotte gostaria que ele fosse assim. Ela o amava e precisava dele. – Querida. – Charlotte? – Jack saiu do quarto de Tim. prendera nos pulmões. Ela espiou por cima do ombro de Jared. O quarto mergulhou no silêncio. por um instante. quando ela ainda era noiva de Tim. – Obrigado. – Ah. depositando as mãos nas de Jared. sem perceber. fique com Tim.. sempre a matriarca. Charlotte soltou o ar que. Quando sua mãe morrera. . iluminado apenas por um pequeno abajur ao lado da cama. fosse aniversário. – Está bem machucado. Tem sorte por estar vivo. – Obrigada. depositando parte de seu fardo em Jared. Jared a envolveu em um abraço. – Estaremos em casa. Só quer saber de você. Ainda está sob efeito da anestesia. – Tim não está nem aí para nenhum de nós. Ela está cuidando de tudo. Família. doutor – Jack agradeceu e olhou para Charlotte. Com sua mãe. A frase ecoou na mente de Charlotte. – Dix pediu para dizer que você não precisa se preocupar com a loja. Charlotte teve o impulso de se agarrar àquele abraço fraternal. para um homem que caiu em cima da motocicleta de alguém e quase foi esmagado pelos duzentos e trinta quilos da própria motocicleta. Rose. Se a moto houvesse caído uns poucos centímetros acima. Seu tom de voz era sério. sempre fora “nós duas”. o Dr. que eram macias e fortes. vestindo o uniforme azul e avental branco.

ficarei furiosa com você. ele parecia em paz. Charlotte pressionou os lábios contra a mão dele. – Amo você. quase se matou. Tim acariciou seus cabelos. Devagar. – Durma. Ele sorriu e. Hematomas horríveis marcavam seu pescoço e braço. – Tim. – Trate de não morrer. Até meus cabelos.. Ela ergueu a cabeça e. não é? Tim dobrou o braço menos machucado e tocou os dedos nos próprios lábios.. sentou-se na cadeira ao lado da cama. – Com muito cuidado. viam-se os últimos raios de sol. a única parte do rosto de Tim que não tinha hematomas. – Tudo dói. – Parece que me machuquei feio. – Não quero. – Sente muito? Por quê? Por ser você? Não me deve. Ele enroscou os dedos nos cabelos dela. . voltou a beijá-lo.. – Um beijo? Charlotte afastou os cabelos suados e embaraçados da testa dele. está me ouvindo? Do contrário. mas ele estava dormindo. posso? Charlotte se inclinou para beijá-lo no canto da boca. e ele pousou a mão em suas costas. fez uma careta de dor.. você precisa car bem. – O que foi? Precisa de alguma coisa? Água? – Beijo. Ela deslizou os lábios sobre os dele para mais um beijo. – Faz os machucados doerem menos. desaparecendo debaixo do gesso e ressurgindo nas pontas dos dedos. com uma expressão meiga no rosto machucado e ainda lindo. Conectado a tubos e máquinas. descanse. no mesmo instante. deslizando o polegar carinhosamente pelo rosto de Charlotte. mas te amo. Com gestos delicados. – Garoto maluco. ordene a seu pulmão que recupere a boa forma. Charlotte – ele sussurrou sem descolar os lábios dos dela.Na janela. Tim fechou os olhos. – Ah. – Que Deus me ajude. Tim. – Por achar que havia alguma coisa neste mundo que eu pudesse amar mais do que você. – Ela apoiou a testa na beirada da cama e murmurou: – O que eu faria sem você? Um toque suave em sua cabeça provocou-lhe um arrepio. quando seus olhares se encontraram. – Sinto muito – ele sussurrou com a voz fraca. Charlotte inclinou-se para dizer “Estou aqui”. certo? – Não posso negar o desejo de um homem ferido. mas também te amo. acariciou-lhe a testa. Charlotte se levantou e se apoiou na lateral da cama.

Só um instante. você está bem? – Sim – Charlotte respondeu. orou com a congregação do primeiro culto matinal. É quase impossível de encontrar. só conseguia pensar em você. quando se deu conta de que deixara a bolsa na cadeira ao lado da cama de Tim. contraindo o peito para conter os sentimentos turbulentos. Então. franzindo o cenho. a porta se abriu. além de ser minha melhor amiga. ela se lembrou. pois se os liberasse. Por um breve instante. tomou banho e se arrumou para ir à igreja.. mas uma mulher que amo e que é a coisa mais linda que já vi. depois do acidente. querido. fitando-a nos olhos. vim o mais depressa que pude. ofereceu o coração para Aquele que a cobria com Seu amor incondicional e Sua graça infinita. Os lábios que haviam estado colados aos de Charlotte até segundos antes. Tim e Kim. – A voz dele. . a loira do restaurante. – Muito prazer. Atrás deles.. Saiu da cama e. a voz firme. De um banco ao fundo da igreja. No domingo de manhã. inclinando o corpo perfeito. – Kim estendeu a mão. nada a faria voltar àquele quarto. Então. George e a turma mandaram abraços.– Quando voltei a mim. sabia? – Tenho bons amigos. – Tim fez uma careta. mas sabia quem era você. Charlotte. Porém. – Cancelei nossa reserva para o jantar. De olhos fechados e braços abertos. mas eu estava lmando um comercial.. tudo estava certo no mundo. a garganta doendo pelos soluços reprimidos. por alguns minutos. tentando se esquivar dela. depositou a bolsa na mesa de cabeceira e ajeitou os cabelos maravilhosos sobre um dos ombros. Aproximou o rosto bem desenhado do dele. sem se dar tempo para remoer a dor que machucava seu coração. agora. Eles se mereciam. Que gracinha! Tim e Kim. a seguiu até o corredor. – Nossa. – Meu Deus. querido. sobressaltando-se com a entrada não anunciada de Kim. você está bem? Kim deu a volta na cama e beijou Tim nos lábios. – Kim. Tim. Tim. não sabia do que seria capaz. espere. – Charlotte. Estava quase na sala de espera. – Até logo. novamente fraca. Não sabia onde estava e. Charlotte acordou cedo e viu o sol brilhando sobre as montanhas. Charlotte deu um pulo. Ah... quem eu era. Tim parecia totalmente desperto. Charlotte tropeçou na cadeira ao se afastar da cama. – Katherine telefonou há horas. Kim olhou para ela.. – Bons amigos são difíceis de encontrar. – Esta é Charlotte Malone.

Sabia que podia con ar Nele. fechou os olhos. essa tal de Kim invade o quarto. Charlotte. – Diga a ele que estimo melhoras. – Fiquei sabendo. vestido? Entra como se fosse dona do lugar. sentindo os acordes dentro do peito. Nosso Deus reina. resistindo ao impulso avassalador de pedir uma pizza grande e comê-la inteira. – Charlotte. por favor. – Ele me viu. “Então. Charlotte deixou a força da melodia envolver seu coração. – Olá. – Ele tem um jeito muito estranho de demonstrar esse amor. Jack suspirou quando a música se dissipou e a mulher sentada à frente deles se virou para os dois com uma careta. porque não estou competindo. Um sorriso se formou no peito de Charlotte e flutuou sobre seus lábios. Charlotte passara a noite de sábado mastigando um pacote de cenouras miniatura. eu sei. teria nos apanhado nos beijando. Era o milagre e a beleza de Jesus: o amor eterno e inabalável. Sou Sua / Sou Sua Abriu os olhos quando um corpo masculino com perfume de sândalo se sentou ao seu lado. Ele me pediu para beijá-lo. Era a favorita Dele. Se tivesse chegado um segundo antes. Ele não desviaria Seu olhar de sobre ela quando outra pessoa aparecesse. Buscando consolo nas cenourinhas. Jack. O vestido do baú. Jack não se moveu. Está ouvindo. Ontem. – Não se preocupe. Virou-se para frente quando a música seguinte passou do versículo para o refrão. Nosso Deus reina. mas tinha encontro marcado com ela. – Ele te ama. assistira a um jogo de basquete e conversava com o vestido. O vestido pelo qual ela era responsável até encontrar sua próxima noiva. sozinha. – Ele quer te ver – sussurrou ao ouvido de Charlotte. os versos falando ao seu espírito. – Graças a Katherine. – E eu não sei? Você foi a melhor coisa que jamais aconteceu a ele. O vestido de Hillary. Jack. não deixe Kim colocar você fora da corrida. Sim. chegando ao refrão glorioso: Nosso Deus reina. Então. e ela abriu um só olho para fitá-lo. nosso Deus reina. – Sabendo o quê? – Kim apareceu no hospital. A declaração de Jack atingiu o espírito elevado de Charlotte como um golpe cruel.” – O que quer que eu diga a ele? – Jack indagou quando a música crescia. Kim não pode me colocar para fora da corrida – xou os olhos nos dele –. O mais velho dos irmãos Rose passou um braço em torno dos ombros de Charlotte para um . encorajando sua alma.

Hillary. Trêmula. Charlotte afundou-se no banco. A outra mão pousou sobre seu coração. Dix tentara avisá-la. Charlotte balançou as chaves que tinha na mão. Charlotte. estava de volta ao redemoinho formado por seu coração e a outra mulher. massa fina. agora. a placa de identi cação de Joel pendendo da corrente em seu pescoço. cuja vida fora resumida em cinco linhas em uma placa de identificação e alguns detalhes em um website. saiu. Joel e eu. – Charlotte torceu as mãos. antes de se lembrar de que o vestido estava na sala. entregando-se a Deus e à oração. revivendo toda a tragédia. – Nunca pensei que fosse vê-lo de novo – Hillary murmurou. Até mesmo meu marido sabia que esse dia de ajuste de contas teria de acontecer. Quem sabe. Nunca consegui entender por quê. Charlotte subiu as escadas. – Moro no quarto andar. – Adoro pizza. eu não deveria ter procurado você. Havia conseguido se sentir tão bem. No dia seguinte. abaixou o rosto e cheirou tecido. me encontrou cercada de fotogra as. dizendo a si mesma que aquele seria um bom dia para comer uma pizza inteira. eu tinha um velho vestido de noiva. – Vá na frente.abraço de lado e. – Minha mente parecia um redemoinho de ideias sobre você. – Aproximou-se de Charlotte na entrada do edifício. abriu a porta do apartamento e deu as boas-vindas a Hillary. o vestido. uma bolsa de couro pendurada no ombro. Quando estacionou na garagem de seu edifício. Eu precisava disso. Quando Greg chegou em casa. – A saia . circundando o vestido. – Eu estava pensando em pedir uma pizza de mussarela. – Hillary. Então. estava mergulhada na história desse homem misterioso. apanhou sua Bíblia e saiu. uma mulher gritou seu nome. – Hillary? O que está fazendo aqui? – Não consegui parar de pensar em você. Espero que não se importe. Liguei para a sua loja depois que você foi embora ontem. Pegou a bolsa do chão – sim. há anos. Hillary levou a mão aos lábios. Assim que entrou. Agora. telefonara para o hospital ao chegar em casa na noite anterior e pedira a uma enfermeira que a tirasse do quarto –. Sua amiga me deu o seu endereço. – Estou contente que tenha me procurado. Por que me casei com Joel. em Homewood. Ela se virou e viu Hillary caminhando apressada na sua direção. eu tenha a chance de virar essa página de minha vida. só para perdê-lo? Não havia me dado conta de que ainda guardava tanta dor em meu peito. sobressaltada. chorando. que não pensei no quanto nosso encontro afetaria você. Havia me esquecido de que o vestido estava aqui. – Desculpe. secando as lágrimas e tocando de leve as pregas da saia. que eu não havia acabado de me despedir de Joel. Ele disse que sabia. – Um dia. querida. então. – Está me informando ou me convidando? – Depende da sua resposta. qualquer que seja a cobertura. Estava tão obcecada pela necessidade de saber quem foi Joel e como ele se relacionava com o vestido.

vi o sol se pôr no mar muitas vezes. mas acredite. encomendou a pizza e foi se trocar. quem possa vesti-lo. – Porque só serve para quem o aceita. – Por que acha que é tão especial. Ver o vestido através dos olhos de Hillary aumentava ainda mais sua determinação de encontrar a próxima noiva que o usaria. – O semblante de Hillary se iluminou. – Fico tão contente que você tenha encontrado o baú. Charlotte engoliu o nó que se formava em sua garganta. E me deu um recibo com o carimbo “redimido”. é um destino. – Hillary aproximou-se de Charlotte. Até mesmo uma tempestade no mar é de uma beleza ímpar. – Apertou a mão contra o peito e deixou as lágrimas correrem soltas por suas faces. Charlotte. – Ora. – O que está querendo dizer? Só para quem o aceita? – Não sei o que quero dizer. Simplesmente. – Vou encontrar a noiva perfeita. – Adoro as costuras com fio de ouro. mas nenhum se comprara a este. quanta veemência! – Quando as pessoas começam a falar coisas doidas. – Não. – É só um vestido.. – É preciso aceitar este vestido.. deixando Hillary sozinha com o vestido e com suas lembranças. Charlotte pegou o celular. – O homem que me vendeu o baú mencionou algo sobre o ano de 1912 e a noiva. tenho de erguer a voz. observando a cidade e apertando um porta-retratos contra o peito. muitos deles maravilhosos. E também vi o sol nascer muitas vezes. Teria de ser uma mulher especial. Hillary? Charlotte apoiou o queixo na mão. – Este lado das montanhas oferece um lindo pôr-do-sol. – Ainda é o vestido de noiva mais lindo que já vi. – Vivia em alojamentos menores que seu guarda-roupas. virando-se para a nova amiga. – E acho que tenho uma boa ideia de quem será a próxima a se casar com esse vestido. está aqui. Agora. mas é verdade. mas quando o vesti tive a sensação de que não era a primeira noiva a usálo.. – A mim parece capturar luz – Charlotte comentou. – Bateu no peito. ... – Encarou Charlotte com olhar suspeito. cruzando as pernas e relaxando. Sabe o que significa? Sabe se foi a única a usá-lo. – É especial – Hillary concluiu com emoção. vamos pedir a pizza. Quando voltou do quarto. – Charlotte se pôs de pé.. Charlotte se sentou na beirada do sofá. ter fé. todas espetaculares. – Você tem um belo apartamento. Mas você disse que esteve na marinha. ela não sou eu. – Já vi muitos vestidos de noiva.sempre parece exalar a fragrância de um óleo perfumado. Meu Deus. – Não. acreditar nele. Enfrentei algumas. Hillary estava parada diante da janela. Charlotte – elogiou. eu não. Hillary? – Não tenho certeza. Morou em um navio? Deve ter visto um pôr-do-sol mais lindo que outro.

– Charlotte apontou da despensa. – Algumas das melhores histórias de amor do mundo são sobre homens e mulheres que se conheceram em um dia e se casaram no dia seguinte. pelas melhores razões. Ele conquistou você do mesmo jeito que conquistou a mim. de porte atlético. Relembrei tudo o que foi bom. Era uma fotogra a colorida. – Onde estão os pratos e copos? – Ao lado da pia. um herói. Charlotte pagou. – Não posso. Disse que não estava preparado. agora pendurado no manequim. – Hillary parou.. abrindo a caixa da pizza sobre a mesa. Seus sorrisos largos eram cheios de esperança. de repente.– Tenho algo para você. ele queria adiar o casamento. você estava tão linda. Só tomo bebidas de mentira. – De certa forma. – Ele é especial para você? – Era. por favor – Hillary pediu quando Charlotte tentou devolver a foto. mas no centro estava um tenente bonito. Ela. – Hillary abriu os armários na cozinha. Família. parecendo uma escultura perfeita no vestido de noiva. Fomos noivos. uma versão jovem e sorridente de Hillary. Pela primeira vez. Estar no limbo. – Ele está bem. – É adoçado? Charlotte sorriu. Não quero saber mais nada. – Fico com o chá gelado. leite. Você não a quer? – Quero que seja sua. recusando o dinheiro de Hillary. – É mesmo? Quem. – Fique com ela. Joel pertence a nós duas agora. Mas como alguém pode estar noivo e planejando um casamento e. refrigerante diet. desbotada. pude me sentir feliz por ter me casado com ele. por exemplo? . – Joel e eu no dia do nosso casamento. uma beldade sulista. Ficamos noivos dois meses depois de termos nos conhecido. Sofreu um acidente em uma corrida de motocicletas. de cabeça erguida e olhos iluminados pelo brilho do amor. desde que ele morreu. Joel era exatamente como imaginei. mas ele desfez o noivado. – Charlotte pegou seu refrigerante. – Muito bem. passar a. Fizemos tudo depressa demais. – Estendeu o porta-retratos. senão soubesse ser absolutamente impossível. sim. As imagens ao fundo eram difusas e granuladas. suco.. – Cheira bem. onde pegava guardanapos. toda a felicidade. Você o trouxe de volta para mim. Esperar. água. A palavra atingiu Charlotte diretamente no peito e fez arder seu coração. A campainha tocou e a entrega da pizza interrompeu o momento. Charlotte virou-se e. Era um casal jovem. um braço em torno de sua noiva. Então. Ele. – Tenho chá gelado. E devo isso a você. As duas comeram as primeiras mordidas em paz. – Bem. Hillary pegou um guardanapo e perguntou: – Como está seu amigo no hospital? – Vamos falar de mim agora? – Por que não? O vestido fez com que nos tornássemos quase família. – Hillary. teria jurado que ouvira o vestido suspirar.

desmaiei. Hillary se levantou. dizer adeus a esse rapaz. mas ela morreu assim mesmo. Como ele podia dizer uma coisa dessas? Só havia um Joel. foi até onde deixara sua bolsa e retirou dela uma fotografia. quei furiosa. encontrei a solda e a liguei. trocávamos cartas e escolhíamos um dia para observar a lua juntos. peguei a placa de identi cação de Joel e desci para o porão. quando. papai saiu.Hillary arregalou os olhos. Mas tenho certeza de que existiram muitos. Queria queimar aquele baú maldito e tudo o que ele representava. com seus trinta e poucos anos. – “Está sofrendo. como seu pai devia ter feito naquela noite. Como a lua se atrevia a brilhar. en ei a placa no sachê e arrastei o baú para fora. Mas não dei ouvidos a ele. – “Querida”. – Talvez não. Ao invadir o passado de Hillary. Soldei o fecho do baú até o metal arder. como um globo de iluminação de baile. mas sabe que já ouviu histórias de amores muito rápidos. Não queria nada que me lembrasse Joel. de volta ao lugar de onde viera. Charlotte riu. – Não sei. “Ouça o que estou dizendo. Atirei o vestido dentro dele. – Também não queria que minha mãe morresse aos trinta e cinco anos. Papai conversou comigo. Na noite do funeral de Joel. mais de quarenta anos antes. de fato.” – Hillary agitou um dedo no ar. – Estes são meu pai e minha mãe e.. – Encontrei isto quando estava remexendo as fotos. “acho que você não quer fazer isso”. Mas sempre há pizza. Então. – Entregou a Charlotte um retrato em branco e preto. Charlotte ouvia com atenção. mas meu pai chegou antes que eu pudesse levar meu plano a cabo. até que vi o baú. quando meu coração estava mergulhado na escuridão? Eu me descontrolei.. ao lado deles. Foi o que ele ganhou por ter insistido em que eu comparecesse às aulas de mecânica no colegial. o único homem para mim. a consultora de casamentos é você. com curativos nas mãos queimadas. Não fazia ideia do que ia fazer. e. a diurna. E algo me diz que você não quer. – Antes de Joel morrer – Hillary contou –. incandescente. um de nós observaria a lua noturna.” Ah. A nal. mas não vai se sentir assim para sempre. na manhã seguinte. – Hillary. – A casa onde você encontrou o baú? – A mulher. Mas um pouquinho de razão penetrou minha mente. Minha intenção era atear fogo a tudo. Pode querer esse vestido de volta um dia. Acordei em minha cama. os antigos proprietários de nossa casa. fui até a o cina dele. enquanto o outro. – Você não sabe mentir. ele disse. era bonita e . Charlotte tirou uma mordida grande de uma fatia pequena. dera a ela permissão para invadir o seu. a lua estava cheia e brilhante. Como havia uma diferença de doze horas no fuso horário. corri para meu quarto. quando conseguíamos enxergá-la no céu. Outro Joel poderá surgir em sua vida. agora. arranquei o vestido do cabide. Nem sempre a vida é como queremos.

o que acha? – Acho que Deus usa pessoas imperfeitas para fazerem o que Ele deseja. A caligra a é de minha mãe. Os nomes deles estão escritos atrás.vestia roupas domingueiras. Hillary pegou mais uma fatia de pizza. . Ele me usa para ajudar noivas a se prepararem para o seu dia. onde pretendiam promover cultos religiosos pelo país. – Se estiverem vivos. – Sorriu. omas e Mary Grace Talbot. e que eles haviam acabado de comprar uma grande tenda. – Charlotte estudou a fotogra a. Perfeita. não acreditava que homem algum pudesse curar. – omas e Mary Grace Talbot. não? Lembro-me de que omas era pastor. mesmo aos dez anos. talvez noventa anos agora. Ele disse à minha mãe que tinha o dom da cura. – É mesmo? Por causa da conversa sobre cura? – Eu era uma futura enfermeira e. – E acho que posso descobrir onde moram. – Acha que estão ligados o baú? – Não sei. Para onde vocês foram? – Devem ter oitenta. Eu o achava o homem mais esquisito que já conheci. E você. – Estão vivos.

Charlotte sacudiu o vestido seguinte. para voltar em seguida. Na segunda-feira. Teve o impulso de apertar o vestido contra si. mas quando ela entrou. Charlotte acreditava que o estoque de sua loja era o seu santuário mais sagrado.. “Com Deus por testemunha. Heidi Elnora. Charlotte fez uma careta e revirou os olhos. – É bom ter alguém para cuidar de você quando se está sofrendo. – São mesmo lindos. – Mas você disse que ele. – Preenchera sua cota de punhos no ar. – Lute por ele. Os vestidos de inverno que encomendara eram lindos. – Sim. seguida por um agudo “Olá!”. eu nunca passarei fome novamente”. Fico contente. A sineta da porta da loja tocou. Não deixe Tawny ver os vestidos novos. Charlotte contara todos os acontecimentos do fim de semana para Dixie. – O que acha destes vestidos? Adoro todos os Bray-Lindsay. – Quer parar de ser boazinha! Fique furiosa. Dixie deu um tapa na mesa. que exigira saber de todos os detalhes. O’Hara. irá para casa ainda hoje. prendendo os cabelos em um rabo de cavalo. Provavelmente. – Seu alívio chegou. uma peça nova de uma figurinista local. o que só a deixara mais e mais triste. fundir-se nos os sedosos e na brancura imaculada. ele falou algumas coisas. Passos ecoaram no assoalho da loja. – Muito dramático. ou vai mudar de ideia. Srta. Agite os punhos no ar. – Não posso lutar por um homem que não me quer. – Que bom. foi como se eu houvesse desaparecido nas sombras. – Estou aqui – Dixie anunciou. durante um almoço de duas horas. – Deixe comigo – Dixie falou e saiu do estoque. Grite. – Entrou na sala de estoque e se sentou na beirada da velha mesa de madeira. – Jared disse que Tim está passando bem. até o último “até logo”. em dias como aquele. O que eu ganharia sacudindo meus punhos no ar? Apenas me desgastaria por algo que não posso mudar.. – Charlotte ergueu um novo Bray-Lindsay. acompanhada de . – Jared também disse que a garota loira de Tim tem ido visitá-lo todos os dias. – Dixie exibiu sua melhor imitação de Scarlett O’Hara em E o vento levou.Capítulo Dezoito Charlotte abriu uma nova encomenda de vestidos que chegou depois do almoço na quartafeira. lute pelo que é seu. No momento. estava em paz e gostaria de navegar naquelas águas por enquanto. a começar pelo primeiro “olá”. Cuidar de sua valiosa mercadoria sempre dava ordem a seus sentimentos confusos. A música de “Jesus Culture” tocava nas caixas conectadas ao seu iPad e.

chamado Talbot. – Não sei se quero entrar. situado em um bosque à margem do rio Cahaba.Hillary. acusou: – Você não me contou essa parte da história. . Não foi para isso que você me encontrou? – Hillary protestou. – Eu mesma não sabia. – Posso ter. – Eu sei. Mas estou em dívida com esta mulher que o redimiu. Quando se deparou com o sobrenome de omas e Mary Grace. tem algumas horas livres? – Hillary perguntou. Charlotte estacionou o carro e se encaminhou para a entrada principal. o que está fazendo aqui? Dixie. Expliquem à velha Dixie o que está acontecendo. virando-se para Hillary. ligou para seu conhecido médico para perguntar se havia algum parentesco. – Acha que a Sra. Vincent’s. Hillary? Charlotte pendurou o último vestido da encomenda. que me redimiu. que assentiu em concordância. no hospital St. – Vamos descobrir. até ontem à noite. – Charlotte contou a Dixie a “versão Twitter”. – Hillary. mas estudou com outro Talbot. Talbot usou o vestido antes de você. Tudo bem? – Charlotte perguntou a Dix. – Uau. se você quiser ir até lá. Redimiu. O Dr. – Charlotte. – Nunca tinha ouvido falar deles – Hillary assumiu o relato –. A palavra usada pelo homem de púrpura ecoou na alma de Charlotte. Como entrou em contato com os Talbot? – Apontando um dedo para Charlotte. você é a Hillary que usou o vestido? Quem soldou o baú? – Culpada. enquanto Hillary falava: – Ele tem noventa e quatro anos e apresenta princípio de demência. – Dixie retomou seu lugar na beirada da mesa. Kirkwood by the River era um condomínio para aposentados. – Então. descobre-se coisas. se você precisar de mim. – Agora? – Agora. ela continua perfeitamente lúcida. – Telefonei para omas e Mary Grace Talbot. Ao menos. Estão dispostos a receber uma visita esta tarde. – E? – Dix inquiriu. Talbot que conheci me pôs em contato com Harry. Já nos apresentamos. – O quê? Viemos até aqui. esperem um pouco. – Uau. que é sobrinho-neto de Thomas e Mary Grace Talbot. Aos noventa e três. Charlotte parou no meio do pátio.. esta é Hillary. – Ela acenou para que Hillary entrasse. Quando se estuda na mesma classe por tanto anos. foi o que Harry disse. Charlotte pendurou o vestido na arara.. – Hillary trabalhou com um médico. – Dixie murmurou.

muito magra. mas encontraremos alguém que sabe como amar. uma família? – Era isso o que ela queria tanto? Se sentir segura? Ter seu próprio lar e sua própria família? Charlotte nunca ilustrara seus medos com palavras antes. George. não o tipo que você acha que vai encontrar se fugir e se esconder. – E o seu vestido também. atravessando a sala com sua bengala e pedindo: – Mande-as entrar.sentando-se em um banco de ferro batido com almofadas floridas. como você. Não existem garantias de respostas na vida. Digamos que. – Ao que parece. do tipo que não fere seu coração. de cabelos escuros. É esse o tipo de amor que vai superar os seus medos. Não sei se estou preparada para encarar o m da linha. Talvez não encontremos outra mulher que tenha usado aquele vestido. perguntar não leva ninguém à escuridão. Estamos aqui. parecendo perdida dentro da calça e suéter. – Você errou de profissão. George. – Mas eu posso ngir. mas sim da vida. – Hillary endireitou os ombros. um noivo bonito. passando pelas salas de televisão e de jantar. e não fazemos a menor ideia de quem veio antes disso. . Já existem coisas desconhecidas demais em meu passado. Uma noiva adorável. – Hillary se levantou e começou a caminhar na direção da entrada. Era por isso que tinha tantas dúvidas quanto a se casar com Tim? Seria porque não tinha certeza de que seu coração se sentiria amado com ele? Ou que lar signi cava família? Katherine não a via como parte da família. assumindo postura militar. você quer um amor perfeito. posso inventar o resto da história. depois do Vietnã. – Charlotte se sentou ao lado de Hillary. Não saberemos se a noiva anterior a você se casou por amor ou por conveniência. nada sabem sobre ele. Sem dizer uma palavra sequer. Sabe que eles estão casados há setenta e dois anos? Sete décadas mais dois. as recebeu no saguão e as acompanhou pelo longo corredor. – Se eu não conversar com a Sra. Talbot. Charlotte obedeceu. pelo menos saberemos que tentamos. Vou dizer uma coisa: esse tipo de amor não existe. Quem não quer ser amado? Se sentir seguro? Ter um lar. para descobrir que nunca saberei a verdade. – Eles sabem que vocês viriam para uma visita? – o rapaz perguntou e bateu de leve na porta. Deveria escrever romances. – Mary Grace? Thomas? Sou eu. vamos. descobrimos que os Talbot não têm qualquer recordação do vestido. Charlotte. Talbot. Charlotte. Foram mais três guerras. não estamos? Se chegarmos a um beco sem saída na história do vestido. um casamento simples. – Agora. Um assistente jovem. ou nunca saibamos como ele foi parar no porão da casa de meus pais. – Não estou falando de romance. Não quero acrescentar o vestido à lista. Hillary. E ela usou o seu vestido. É mais que o dobro da sua idade. – E se ela não souber de nada sobre o vestido? E se este for um beco sem saída? Você foi a última a usá-lo. – Charlotte. Vocês têm visitas. depois de entrarmos por aquela porta. Ou se cou viúva. até a porta do apartamento de Thomas e Mary Grace Talbot. nem provoca seus medos. George abriu a porta e Charlotte avistou a Sra.

uma xícara de café em cada mão. – Exceto por me fazer companhia – argumentou a Sra. Seus nervos já . ainda vão me deixar louco. ela reconheceu a aura da bela jovem na fotografia. – Encontrei um vestido de noiva. Não tenho mais qualquer serventia para Ele aqui embaixo. pérolas na cintura e o brilho do fio de ouro? Hillary apareceu na porta da cozinha... Não sei por que Ele não vem me buscar. – Malditas pernas. Quem quer creme e açúcar? – Puro para mim – Thomas declarou. – Ah. então você encontrou o vestido? – Os dedos de Mary Grace continuaram enroscados nos do marido. Poderia buscá-lo na cozinha e trazer para nós? Eu mesmo poderia fazer isso. – Querida. – Fui eu quem falou com vocês ao telefone – Hillary esclareceu. já será hora do jantar. A recompensa é tão sua quanto minha. – Todos aqui nos chamam de Thomas e Mary Grace. aceitando a mão estendida de George e se acomodando em outra cadeira. – Quero só água – ela pediu. virando-se para Charlotte: – Comece a história. Não envelheçam. – Agitou um dedo no ar em sinal de advertência e se curvou para sentar na cadeira de balanço. Hillary se dirigiu à cozinha. Thomas. George se fora e não estava claro o que a velha senhora queria. – Sentiria a minha falta se partisse para o céu. Se ele realmente sofria de demência. entrem. minhas jovens. Talbot. – Posso ajudá-la? – Acabei de fazer café. levantando-se ao ver Mary Grace começar a sair de sua cadeira. – A mão coberta de manchas e veias saltadas deslizou pelo braço da cadeira e segurou a dela. – Sim. maravilhando Charlotte com sua juventude e humor. esse mesmo. não pretendo ir sem você. Sr. – O ar pareceu mudar de consistência e os olhos de Charlotte se encheram de lágrimas. nossas convidadas chegaram. com saia de cetim. tando Mary Grace nos olhos azuis e claros como o céu de verão. Charlotte se apaixonou por ele à primeira vista. – Em que podemos ajudá-las. Você sempre esteve ao meu lado. – Entrem. sábio e paciente. – Não vale a pena. Estou em paz com o Senhor. Não vale a pena. – Charlotte? – Hillary indagou. Charlotte apoiou os cotovelos no braço do sofá. Tommy. minhas jovens? O brilho no olhar de omas era bondoso. – Aquele feito de seda. Quando a Sra.O coração de Charlotte se encheu de expectativa. George se apressou em atravessar a sala e oferecer ajuda ao homem frágil que saiu do quarto. Talbot. a doença ainda não havia se manifestado até então. erguendo a mão trêmula. – Uma colher de cada no meu. – Sou Charlotte Malone. Talbot sorriu. mas até eu chegar lá e voltar. – Em um baú que comprei em um leilão. uma vez que cafeína só a deixaria mais agitada. – Mary Grace movimentou uma colher imaginária no ar. A risada de Mary Grace parecia negar sua idade e decorrentes dificuldades. Esta é Hillary Warner.

– Ele nunca deixou de me cobrir de palavras doces. mas logo recuperou a seriedade. e nosso querido George insiste em dizer que é.. ouvi dizer que você era pastor. – Mas eu encontrei o baú no porão da casa de meus pais. – Acredito em você. Ah. durante cinquenta e dois anos. Canadá e Alasca. – Você é a noiva.. – Meu trabalho é ajudar noivas a se prepararem para o dia mais importante de suas vidas. Mary Grace. Percebendo que o coração de Hillary ainda não havia feito as pazes por completo com a morte de Joel. – Ele ainda prega – disse Mary Grace – para mim e os demais residentes do condomínio. É o meu dom.. o argumento soou vazio. o que você faz? – Eu. – Sim. – Bem. Hillary pareceu congelar na cadeira. Deve ser usado por quem o encontrou. Charlotte pegou o copo de água que Hillary ofereceu. Sou muito boa no que faço. – Mary Grace balançou de leve sua cadeira. – Eu o deixei lá para você. Preguei a Palavra do Senhor do Estado de Maine ao Havaí. Diga-me. Charlotte tratou de desviar o assunto do vestido por um momento. – Charlotte bebericou sua água. Eu o usei em meu casamento. determinada a ajudar a mais velha a compreender a situação. – Eu disse! – Hillary sussurrou pelo canto da boca. – Mary Grace. quase como se estivesse espetando algo invisível e flutuante.. Charlotte. sim. O semblante de Hillary se transformou em um misto de choque e surpresa. – Você o deixou. . E o homem que nos entrega verduras está prestes a renascer.. – Quieta! – Charlotte deslizou para a beirada do sofá. Mary Grace apontou para Charlotte em um gesto lento e deliberado. omas! – Mary Grace protestou e bebeu um gole da xícara que Hillary entregou a ela. você conhece o vestido? – Claro. A quem estava tentando enganar? Não fazia a menor ideia de por que havia redimido o vestido. Foi passado de uma noiva para outra. apreciando a cerâmica fresca em suas mãos.estavam à or da pele devido à emoção e aos temores provocados por aquela visita. O que é mesmo que ele se diz.. no México e Guatemala. – Ora. acho que eu devo encontrar a próxima noiva a usá-lo. mas esse vestido nunca esteve à venda. – E foi a noiva mais linda que Birmingham já viu – Thomas completou com voz clara e firme. – Thomas. – Mas aquele vestido não deve ser vendido. – E encontrou o meu vestido. – Mary Grace sorriu. Mesmo a seus próprios ouvidos. os olhos xos em Mary Grace. tenho uma loja de noivas em Mountain Brook. Eu tinha dez anos de idade. A pobre da faxineira ouve um sermão por semana. – Eu sei. – Talvez alguém entre em minha loja e eu saiba de pronto que ela é a escolhida. sim. pode-se dizer. Mary Grace usara o vestido.

sacudindo a cabeça. antes de continuar: – Foi um dos verões mais quentes de que me lembro. que acalmou os mares e afastou a tempestade. quando parou de repente. – Ele é um pastor abençoado – murmurou Mary Grace. ele disse. Eu havia colocado minha reputação e meu ministério em risco com aquele pedido insano. mal pronunciara cinquenta palavras. os éis foram até lá para ouvir sermão. – Levou muitas almas perdidas até à Cruz. como se não se pudesse esperar outra coisa. estávamos pregando em uma tenda. – Mas o calor excessivo ameaçava derreter os fiéis. – Não faz sentido ficar calado. Acreditem quando digo que não havia sequer sinal de brisa na campina. dançando uma valsa. Nenhum sinal de esquecimento. estendeu as mãos. tombou a cabeça para trás e fechou os olhos.. Amante de nossas almas. e havia moscas por todo lado. – Mas ele não se deixou perturbar.. olhando para o marido. – Isso. – omas bebericou o café. Por favor. apesar de todos se abanarem. – O suor começou a atravessar minha camisa. Imaginem não acreditar em nada! Que esperança pode haver? – Exatamente. Thomas começou a pregar e. – “Mande-nos uma chuva fresca” – Mary Grace terminou. “Deus dos ventos e das ondas. também – omas complementou. – A maioria das pessoas não tinha televisão. Criador de todas as coisas. que Tommy falou na voz mais calma e segura: “Senhor Deus. devemos cair louvando Seu bom nome – Thomas explicou. naquele tempo. que vieram de longe para ouvir a Sua Palavra. uma mensagem de esperança. no meio de uma campina no Kansas. – Alguns dos ouvintes na primeira fila deram risada – Thomas contou. – Mary Grace ergueu as mãos. deve contá-las aos outros.. – E foi assim.. mande-nos uma chuva fresca”. Uma vez. cheios de energia.Tommy? – Agnóstico. O ar pareceu se movimentar na sala. – Mary Grace. – Para o caso de os éis sentados no fundo quererem dar uma boa risada. então? Repetiu o pedido – Mary Grace falou. – E o que ele fez. – O tempo foi passando. ou de demência. parado no meio do palco. e o país esperava por uma boa notícia. Então. Os dois contavam a história como um casal de bailarinos bem ensaiados. Se alguém tem boas novas. – “Senhor”. Mesmo assim. .” – Se tivermos de cair. rosto voltado para o céu. e. e nada aconteceu. nem perdeu sua concentração – Mary Grace explicou. A história de Mary Grace produziu uma sensação reconfortante no peito de Charlotte. naquela noite. – Foi logo depois da guerra. Thomas não se moveu. Os Talbot falavam como éis jovens. peço a Sua misericórdia para esses humildes éis. – omas riu baixinho. onde está o meu café? Ela pegou a xícara da mesinha entre suas cadeiras e estendeu-a para ele. – Postou-se bem no meio do palco. braços abertos.

Thomas pôs os óculos e se inclinou para examinar a fotografia. ou Deus. – Foi o minuto mais longo de nossas vidas. mas sim uma porção de éis que abriram o coração para o Senhor. – Assim. e correu pela tenda como um homem livre. Então. Falou com autoridade. queridas. – Homens limpavam a garganta. – Sem fé. a xícara esquecida em suas mãos. Charlotte limpou a garganta e alisou a saia com a mão. respingando as cadeiras. – Foi o dia em que meus pais compraram a casa de vocês. – Eu já tinha trinta e tantos. o que queriam de nós? Sim. Até mesmo algumas curas aconteceram. vejam! – Mary Grace levou a mão ao peito. . é impossível agradar a Deus. Fez um sinal para que Hillary mostrasse a foto aos Talbot. nessa foto. desabotoavam os colarinhos. Choveu pelo resto da noite e todo o dia seguinte também. – Mary Grace. os olhos brilhando. Hillary encontrou esta fotogra a em uma caixa contendo lembranças dos pais dela. – omas deixara de ser um homem velho.. Então. com suas mãos segurando rme o copo d’água. – Não havia um só ateu naquela tenda – concluiu Mary Grace –. – O cheiro de grama recém-cortada se ergueu do chão. – Isso foi há tantos anos. – Entendo. Ele determinou que o menino tinha uma perna completamente nova. – Um menino foi curado de pólio? – Hillary depositou sua xícara na mesa com um suspiro cético. apavorada pela proximidade dos quarenta. Podíamos ver as extremidades da lona balançar à brisa. – Mary Grace apertou gentilmente a mão dele.– As cadeiras rangiam – disse omas. – Quem é a linda jovem ao meu lado? Mary Grace riu. Agora. a garoa se transformou em chuva e os pingos batucaram a tenda. arrancou os suportes das pernas. por favor. Hillary aproximou-se. Bebês choravam e mães tentavam se refrescar com leques. Tommy? – Os olhos dela brilharam. – omas. – Atrás. nem menos? – Estalou os dedos. Thomas se reclinou na cadeira com um sorriso nos lábios. – Mary Grace fez uma pausa. – Ora. esperando para ver o que omas. de volta ao vestido. Não exibia o menor sinal de demência. – Foi um milagre legítimo. comprovado pela medicina. Nunca vi ninguém se curar de pólio.. O pai finalmente conseguiu segurálo e deixar que um médico presente o examinasse. sua fé se baseia na sua experiência? No que você viu? Não irá muito longe assim. – Sou enfermeira há quase quarenta anos. achando que estava ficando tão velha. faria. – O ar se agitou. há uma data – Hillary esclareceu. Lembra-se do menino com pólio. – E uma garoa na e fresca invadiu a tenda. os cabelos das pessoas. Charlotte inclinou-se para perto da senhora. Os éis se levantaram e começaram a orar. Então. sem mais. a tenda balançou de leve. – Atirou longe as muletas. Quando suas vozes se elevavam em um crescendo.

contar uma história em perfeita harmonia. recém-casados e sorridentes. pintara de vermelho os lábios de ambos. me chame de Mary Grace – a senhora pediu. eu sinto muito. – Hillary virou-se para omas. – Nós nos conhecemos na escola primária. – Na foto. – Sra. Ao menos. – Ah. Queria ser engenheiro. – Meu bisavô era um dos irmãos. usei. donos das minas? Meu pai trabalhou naquelas minas por trinta anos. sim. Mary Grace se levantou. trazia uma fotografia. Mary Grace deixou a cabeça cair para trás. continuar ouvindo que era a noiva mais linda de Birmingham. você foi a garotinha para quem deixei o vestido. Aliás.– Aposto que. mesmo que só por um instante. ele morreu no Vietnã. Mesmo assim. pegou a bengala e foi até o pequeno aparador junto à porta de entrada. – Hillary. Charlotte lançou um olhar para Hillary. nem parecia estar acordado. Enquanto Hillary falava. Charlotte pôde ouvir as batidas do coração da nova amiga reverberando em suas palavras. – Ela era filha do pastor. Lindell e Arlene Saltonstall. Se não descobrissem o resto da história do vestido dentro de poucos minutos. – Estava me lembrando de meu pai. Eu tinha dez anos. Meu irmão mais velho tinha o apelido de Shoop. não naquele dia. perguntando-se se a mulher estava bem. – Você tem algum parentesco com os Saltonstall. querida. omas. e eu não queria nada com ela. por sua vez. não parecia preocupado. Hillary. não se interessou pelos negócios da família e seguiu outro rumo. não é. – Mary Grace – Hillary chamou e foi se ajoelhar junto à cadeira de balanço. Um artista aplicara uma tonalidade rosada às faces de Mary Grace. Quando voltou. você usou o vestido? – Sim. amor? – Em um piscar de olhos. – Eles compraram a casa de vocês em 1957. Queria saber como era amar alguém por setenta e dois anos. não havia como não reconhecer a beleza dela e a juventude máscula dele. Eu me apaixonei por ele no playground. Paul Saltonstall. – Tommy e eu no dia do nosso casamento – Mary Grace confirmou. poderiam não descobrir mais. omas balançou a cadeira e Mary Grace voltou a fechar os olhos. mas meu avô. segurando a mão . Seis meses depois. Talbot? Alarmada. vocês estão com meus pais. com seus olhos fechados. Charlotte começou a se levantar. Talvez eles estivessem dispostos a trocar de lugar com Charlotte ou Hillary. mas Charlotte daria tudo para trocar com eles. se fosse agora. – Querida. trocaria sem hesitar. Charlotte reconheceu de pronto os Talbot. – Mary Grace se reclinou com um suspiro e fechou os olhos. que segurava a fotogra a. – Eu me casei com meu primeiro marido usando aquele vestido. Charlotte estudou a foto em branco e preto com retoques. abrindo os olhos.

Não pediu licença. e Charlotte calculou que a amiga queria con rmar se a velha senhora estava acordada e. uma boa pergunta.da mais velha. – O vestido foi dado a mim pela mulher que o usou pela primeira vez. Usei para me casar com um homem que morreu seis meses depois. E você o encontrou. quando estávamos prontos para partir. tomar-lhe o pulso. – Senti que devia deixá-lo para você. – Ela ainda está muito abalada com todas as lembranças. Charlotte se sentou ao volante e atirou as duas bolsas no banco traseiro antes de perguntar: – O que se passa com você? – Vamos embora. ao mesmo tempo. que franzia o cenho. – Hillary – Charlotte chamou da porta e espiou o corredor. você é rápida para uma velha senhora. – Então. usei. Ela vai superar tudo isso. Acredito que foi o que Ele fez. deixe o baú para a garotinha”. Hillary estava parada ao lado da porta do passageiro com expressão sombria. Hillary abriu a janela e inclinou a cabeça para fora. – Eu estava prestes a carregá-lo até o caminhão de mudanças – disse omas. ela o segue sem questionar. – Ei. quando Gracie falou: “Tommy. – Mas. então. Posso voltar outra hora? – Por favor. – Sim. Hillary se levantou. Hillary se lançou porta afora antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa. pegou sua xícara de café. mas a nova amiga se fora. Charlotte alcançou Hillary quando ela chegava no carro. – Acho que sim. omas. – Pálida. o baú era um dos últimos itens a ser retirado da casa. sim. venha nos visitar. acionando o controle remoto da chave do carro. – Deus . – Vendemos a casa para seus pais e. Quem dera o vestido a Mary Grace? Quem fora a primeira mulher a usá-lo? Aparentemente. Dos lábios de Mary Grace para os ouvidos de Deus. mas quando o Senhor aponta um caminho para Gracie. no entanto. Obrigada pela ajuda. não agradeceu. eu sinto muito. aquele era o dia da jornada de Hillary. Charlotte pontuou o comentário com uma risada. não se despediu. – Ela adorava aquele vestido. Sentindo calafrios. abriu as portas para enxurrada de perguntas. com a mão trêmula. E usou o vestido. Não se preocupe com Hillary. realmente deixou o baú para mim? – A voz de Hillary soou trêmula. olhando para Hillary. – Mary Grace. mas não a que Charlotte teria feito. Dúvida. as pálpebras semicerradas –. – Pegou sua bolsa e a de Hillary. tão clara e profunda. Assombro. por que deixou o vestido quando vendeu a casa? Muito bem. – Deus mandou você deixar o baú no porão para mim? Incredulidade. No dia mais feliz de minha vida. Que levou ao pior. e Charlotte se acomodou no sofá e bebeu sua água. A declaração. – Como conseguiu aquele vestido? Ele foi feito para você? Mary Grace endireitou-se na cadeira e. Charlotte escorregou para a beirada do sofá.

Hillary. só um de vocês estava condenado a morrer seis meses depois. não sei o que deu em mim. ajude-me. E se você se casou com Joel para que um homem jovem pudesse partir para a guerra se sentindo feliz. abafando os soluços que sacudiam seus ombros. Ele está em todos os lugares. em cinquenta e sete. – As lágrimas banharam as faces de Hillary. É possível que só tenha acontecido por Joel. Naquele verão. seis meses antes da data em que ele estava marcado para morrer? – Deu um murro na porta do carro. Charlotte suspirou.. – E se só as suas cartas pudessem fazer com que ele mantivesse a sanidade no campo de batalha? Pense. Já lhe ocorreu que Deus pode ter amado Joel tão profundamente. certamente. O vento agitava as árvores. . – Você está bem? – perguntou. Deus. Só por ele. Sinto muito. da sua amizade e das alegrias que compartilharam fossem as únicas coisas que dessem a Joel a força de que ele precisava naqueles momentos em que era atacado pelo medo e pela solidão. O que devo dizer? – Hillary. segundo a sua teoria. esperou. E dezenas de outras vezes desde então. – Hillary. Então. – Acha que Deus só pode ser encontrado em igrejas? Ele estava naquela sala conosco cinco minutos atrás. A brisa reconfortante entrava pelas janelas. – Mas. pelo desespero que. consolado pela ideia de que uma grande paixão e uma linda esposa esperavam por ele em casa? E se as lembranças de você. talvez Deus. – Nunca mais porei os pés em uma igreja. Engatou marcha a ré e saiu da vaga do estacionamento. Talvez seu casamento com Joel realmente não tenha acontecido por você. O asfalto surgiu ondulado diante de seus olhos cheios de lágrimas. sussurrando “Jesus. secou as lágrimas com as mãos e olhou pela janela. e os pensamentos dela se deixaram levar com o vento. que eu caria viúva? Que me casaria com um homem. – E Ele deixou que eu me casasse com Joel assim mesmo. mas parou o carro no meio da pista. pelo frio e a fome. Após vários minutos. das noites de amor. – Desculpe. Charlotte conhecera a onipresença de Deus depois da morte de sua mãe. – Há alguma razão para estarmos paradas no meio do estacionamento? Charlotte olhou pela janela. que decidiu lhe dar uma noiva antes que ele morresse? Acha que se sentiria melhor. da cerimônia de casamento. Hillary? Charlotte tirou o pé do freio e pôs o carro em movimento. Charlotte parou na saída do estacionamento e colocou sua mão sobre as costas de Hillary. Hillary se endireitou. se fosse essa a resposta. Ele sabia que Joel ia morrer.determinou. no encontro de jovens. – Ele sabia.. Jesus” de quando em quando. amado. só um soldado na guerra conhece? – Os pensamentos de Charlotte formavam palavras com rapidez maior do que ela podia pronunciá-las. e se o casamento com Joel não aconteceu por sua causa? E se foi por causa dele? – O casamento foi por causa de nós dois. Hillary se curvou e escondeu o rosto nas mãos.

quando nalmente deixaram o condomínio para trás. Hillary estendeu a mão e apertou a de Charlotte. .Charlotte voltou a pôr o carro em movimento e.

O ar gelado de novembro atravessava as pedras e envolvia seus braços e pernas. ou melhor. De ombros vergados e coração apertado. por favor.. devastador. . e seu coração. porém. Claro que seu pai podia pagar. Aquela provação era algo impensável. mas fora informada de que seria preciso pagar a ança de mil dólares. a ponto de exigir um mandado de prisão contra ela? Livrou-se da capa quando seus pensamentos começaram a ferver. a mãe insistira. Sua mãe fora à delegacia com Jefferson e exigira a libertação da lha. seja forte. tentando espiar o corredor. se desfizera em prantos e tivera de ser praticamente arrastada à cela. mas ser presa e trancada em uma cela não estivera entre elas. apoiou as costas na parede de pedra e se cobriu com a capa. tudo o que ouviu foram os próprios soluços. mas tudo o que desejava no momento era desistir de sua luta. prometer nunca mais voltar a visitar Taffy. Emily não era uma Canton. Porém. Mil dólares. Queria tanto ser forte e corajosa como sua mãe havia implorado que fosse. Emily imaginara muitas coisas em seu futuro. que enregelava seus ossos. tentando ignorar as paredes escuras que pareciam se fechar ao seu redor. agarrou as barras de ferro e pressionou o rosto contra um pequeno quadrado. presa e esquecida. Era humilhante. totalmente absurdo. O valor pago a um trabalhador por um ano inteiro de trabalho. Não. não conseguia pensar em nada além do frio gelado na cela claustrofóbica. – Olá! Alguém. Durante vários minutos longos e sombrios. Emily. exigira que o policial entregasse à filha a capa que ela levara. Então. ou se a deixariam apodrecer ali.Capítulo Dezenove Emily Sozinha na cela. Quem zera tamanha maldade para com ela? Quem a odiara tanto. Lembre-se de que é uma Canton. qualquer pessoa que pudesse tirá-la daquele lugar frio e escuro. Ela se levantou. Emily esperava pelo pai ou Phillip. Olá? Perguntou-se se alguém atenderia ao seu chamado. ela desabou sobre o catre surrado e cheirando a mofo. como ele conseguiria o dinheiro? Quando Emily fora levada para a cela. mas com os bancos já fechados. Emily voltou a se sentar no catre e abraçou os joelhos de encontro ao peito. Emily. – Vou encontrar seu pai. Quando a porta de ferro se fechou. Era uma covarde..

O que acontecera com sua mãe. A noite escurecia a janela com grades e os ruídos do comércio na rua haviam silenciado muito tempo antes. – Estava prestes a fazer exatamente a mesma pergunta a você. um rosto bonito e muito familiar surgiu à sua frente. – Daniel en ou a mão por entre as barras e acariciou o rosto de Emily. teria exigido que o anel fosse aceito como garantia do pagamento de sua fiança. Ela suspirou. quando fica zangada. – Fui acusada de infringir a lei Jim Crow. dissera ele. Emily. e verá uma beleza que a humanidade nunca contemplou. – Qual foi o democrata que você ofendeu. frio e úmido. você é linda. tirando o chapéu. – Continue me provocando. – Já tenho compaixão por eles. O policial havia tirado seu anel de noivado. Como podiam. Uma luz intensa iluminou as paredes de pedra. achava que não. a nal? E seu pai? Por que Phillip não havia corrido para salvála? Horas haviam se passado desde que ela chegara à prisão. Ele vai do trabalho direto para o clube. – Hoje é quinta-feira. – Embora. Daniel Ludlow? Estou atrás das grades. mesmo atrás das grades. Ninguém atenderia ao seu chamado. Até mesmo sua fiança parecia atingir proporções absurdas. – Por favor. nas últimas horas. ela houvesse duvidado da profundidade de suas convicções. Uma porta de aço se fechou. Ouviu vozes que logo se tornaram muito baixas. Por segurança. Passos ecoaram. libertem-me! As vozes se tornaram ainda mais baixas. para então se dissiparem por completo. mas ele já tinha ido embora. mas então. deixá-la ali? Uma porta se abriu. Emily perdeu o fôlego ao pensar na quantia exorbitante. conseguindo enxergar o único lampião aceso na parede distante. Terá mais compaixão por aqueles que são acusados injustamente. valia mil dólares. o coração disparado. – Veio até aqui só para zombar de mim? – Vim para ajudá-la. Se soubesse que caria presa por tanto tempo. O ritmo dos passos não lhe pareceu familiar. – Ei! Olá! Sou Emily Canton – gritou a plenos pulmões. Tenho certeza de que minha mãe . – Agora você sabe como é viver do outro lado. De pé. – Daniel! – Emily estendeu as mãos por entre as grades. Olhe à sua volta. Emily se levantou de um pulo e voltou a inclinar a cabeça para espiar o corredor. simplesmente. outra vez. Mais uma vez. – O que está fazendo aqui? Ele tomou as mãos dela nas suas. Fui ao escritório de seu pai. Estou presa neste lugar escuro. – Ah. Emily apanhou a capa e se cobriu com ela. torceu as mãos e sentiu o dedo anular nu. Mil dólares. querida? – Acha engraçado. Especialmente. Por quê? Por contratar Taffy Hayes para fazer meu vestido e visitar o ateliê dela. e ela correu até a grade e inclinou a cabeça. Ele riu. Ao menos.Emily não tinha inimigos. Daniel Ludlow. Pode me tirar daqui? – Estou tentando. Certamente.

se sua declaração de amor tem algum fundo de verdade. – Daniel estendeu o braço e segurou Emily pela cintura. Ele mandou me avisar. Comecei a ler. – O tenente Flannigan mandou avisar você? – Ele achou que eu gostaria de saber. diga-me a verdade. e não devo ler cartas de amor de meu ex-namorado. Soube de sua prisão por um amigo de meu pai. Já passamos por isso antes. – Emily recolheu as mãos e cruzou os braços sob a capa. Emily puxou Daniel de encontro às grades.. Não seria certo. Em. Danny. não posso passar a noite aqui. – Não é difícil para ninguém perceber. quando um sujeito está apaixonado. mas mudei de ideia. diga-me o que sabe. Ao contrário. e adoro você.. nem tentou recuar. Como eu poderia imaginar que você caria noiva daquele fanfarrão do Saltonstall? Mas. Nossa amizade foi a mais sincera. especialmente para os amigos. Emily. – Ora. Daniel Ludlow. encarando Daniel de perto.. tudo acabou. – Se ainda signi co alguma coisa para você – ela insistiu –. fazendo-a sentir-se reconfortada por saber que não estava mais sozinha.foi até lá à procura dele. Eu não gostaria se Phillip. Emily. Ah. ao menos que eu saiba. meu Deus! É tão humilhante. É meu amigo. – Andasse por aí com outra mulher? Emily virou-se e cruzou os braços. Daniel. Foi a maneira gentil que você encontrou de me dizer adeus. acusando o homem que amo. – Lá está você de novo. manteve os olhos fixos nos dela. – Encontrei suas velhas e tolas cartas. – Não importa. e vim assim que pude. ignorando o arrepio que a verdade provocou em seu corpo cansado. Emily segurou as barras de ferro e pressionou o rosto contra o vão entre elas. fez. – Você sabe de mais alguma coisa? – Agarrou-o pelo colarinho. – Não diga isso. – Como soube que eu estava aqui? A notícia já se espalhou por toda Birmingham? Apareci no jornal vespertino? Havia um fotógrafo na entrada na delegacia quando cheguei. A confissão aqueceu o coração de Emily. não é? . se tivesse lido minhas cartas. Ah. tenente Flannigan. – Em nome da decência. – Maneira gentil de dizer adeus? Nunca tive a menor intenção de escolher entre o beisebol e você. – Sabe? – Não faça a pergunta se não quer ouvir a resposta. O ferro frio pressionou contra seu rosto. Simplesmente. Estou noiva de outro homem. mesmo. Por que não confessar tudo? – Papai as escondeu no estábulo. – A notícia não saiu no jornal. já estava presa.. mas ele não reagiu. – Por que ele fez isso? Daniel a soltou e recuou um passo. mas quando partiu para jogar no Barons. – Não o acusei de nada. Mas os bancos estão fechados e não sei se ele costuma ter mil dólares à mão.

Ele suspirou e fixou o olhar nas sombras do corredor. Só me preocupando comigo mesma. Ah. Flannigan disse que recebeu ordens apenas para mandar um recado dizendo a ela que fique longe de você. – Ela não tem o seu caráter.. Daniel. – Até onde sei. Ela secou as lágrimas com a mão e murmurou: – Não acha incrível ele andar por aí com uma moça que tem o nome quase idêntico ao meu? Provavelmente. Com ela. sim. – Ela é muito bonita.. Quero muito ser sua amiga. a escolheu para não se confundir. – Sou tão egoísta. Olhe só para você. quem seremos.. não acha? Emily virou-se para o fundo da pequena cela. assim que voltou. Se não antes de partir com o Barons. quero me casar com sua lha. deveria ter falado com meu pai.– Eu o vi. por que vai se casar com Phillip Saltonstall? – Estou presa. – Nesse caso. – E o que vou ganhar com isso? – Emily virou-se de repente. uma delinquente vergonhosamente aprisionada. Pedirei a ele que tente descobrir alguma coisa. O que eu poderia dizer ao seu pai? “Olá. então. não faça isso. senhor. meu Deus. Danny? Vai me ajudar a descobrir quem me acusou? – E como eu poderia recusar um pedido tão sincero? – Voltou a segurar as mãos dela entre as suas. – Ficar longe de mim? Isso não faz sentido algum. não é? – Não. Emmeline? – No restaurante Italian Garden.. Emily. Ross? Ele escreve para o Age-Herald. fitando-a com seus olhos azuis intensos. os olhos arregalados. está tudo bem com ela. Daniel.. mesmo não tendo falado com ela nos últimos cinco meses. por favor. diga-me que ela está bem. Emily. – Ele estava com aquela mulher. Devemos seguir adiante com o que somos agora. se comparada a esbelta Emmeline Graves. à meia-noite. – Ela não é nada se comparada a você. presa por defender suas convicções. mas o que farão a Taffy? Por favor. Daniel! – Voltou às grades para agarrar o paletó dele outra vez. – Faria isso. – Então. sentindo-se fraca e insípida. Daniel. – Mas eu te amo. Não nos fará bem algum relembrarmos o que fomos. você não pode ser tão ingênua no que diz respeito aos costumes desta cidade. – Taffy. mas.. Quem daria uma ordem como essa? – Emily. Emily recolheu as mãos. Você não tinha respondido a nenhuma de minhas cartas. – Eu ainda nem tinha falado com você.” – Sim. – Danny. – Lembra-se do meu amigo. – Emily largou as grades para segurar a capa que estava prestes a cair de . – Sinto sua falta. Uma gura ordinária e medíocre. – Depois daquele dia na rua? – Emily soltou sua lapela e Daniel esfregou a mão no rosto.

– Com meus amigos. en ou a mão pela grade e acariciou-lhe o rosto. seu corpo.seus ombros. Emily não conseguia pensar em nada além de ser libertada. – Curvou-se ao se afastar. notícias sobre quando será libertada. estava prometida a Phillip. Ele caminhava ao lado de um policial. e o coração de Emily disparou. e eu me comportando de maneira tão rude. mas esta é minha primeira experiência na cadeia. olhando xamente para o lugar onde Daniel estivera até pouco antes. Tem razão. mas queria saber assim mesmo. Só quero sair daqui. e que diferença fazia? Prometera seu amor a Phillip. você veio – ela murmurou aliviada. se possível. – Emily Canton. por misericórdia! Emily tentou sacudiu as barras de ferro. Gostando ou não. mas ela adorava discutir com ele também. Daniel. Ora. raramente comentava suas histórias ou ria de suas piadas. O sangue latejou em suas veias pela perspectiva da companhia de Daniel. as costas eretas. Que valor teria sua palavra se ela não a honrasse quando se visse diante de um momento difícil? Mesmo que amasse Daniel. – Você dançou? – Uma vez.. Ah. não foi Daniel quem apareceu no corredor. – Pôs o chapéu. ele a deixava furiosa. – Tenho certeza disso – ele replicou. – Obrigada. fazia seu sangue ferver. Porém. – Daniel. – Desculpe. – Tirem-me daqui! A porta de aço voltou a se abrir. Sua boca se encheu de água diante da perspectiva de comida. os ombros largos. Desculpe. estava presa por suas próprias ações e confissão. pode descontar suas frustrações em mim sempre que quiser. – Está com fome? – Sim.. Embora elogiasse seu charme e beleza e mencionasse com frequência o sobrenome dela. – Phillip. O som da risada dele elevou os ânimos de Emily e suavizou sua dor. com quem você estava? Emily sabia que não tinha o direito de perguntar. E. – Não quero falar sobre isso. – Voltarei com comida e café e. mas só para poupar Ross do constrangimento e para não humilhar a pobre moça que ele arrastou até nossa mesa.. Diferente de Phillip. Ora. Amava Phillip? Naquele momento. Perguntou-se se o amava. Emily apoiou-se nas grades.. Daniel. você é tão gentil. muita. – Discutir com você é sempre muito mais interessante e divertido do que conversar e brincar com qualquer outra garota. Serei mais cordial na próxima vez. Não posso pensar nisso agora. o queixo empinado. estendendo os braços por entre as barras. aceitara o anel que ele lhe dera. que parecia interessado apenas em. – Sim? – Naquela noite. Vou ver o que posso fazer. inspirando seu perfume sutil. Ele fazia seu coração e sua mente acelerarem seu ritmo. no Italian Garden. . Ross e Alex.

. Cuidarei de tudo. precisando mais do que nunca dos braços do seu noivo. Phillip. Phillip sacudiu a cabeça.. posso fazer uma pergunta e pedir que a resposta seja verdadeira e honesta? – Acha que eu arriscaria sua ira com uma mentira? – Quando estivermos casados. sem dizer uma palavra sequer. não é? – Um homem faz o que deve ser feito. Confie em mim. A porta da cela se abriu e Phillip puxou Emily para si. que empunhava uma cesta. Não parece uma ótima ideia. se depararam com Daniel. – Olhou em volta. Como podia ter ertado com Daniel poucos minutos antes? Como ele se atrevia a plantar dúvidas em seu coração? De novo. Emily se sentiu fraca e feminina. enquanto cuida das ovelhas. acariciando-a e sussurrando: – Estou aqui agora. – Estou falando de nosso casamento. Vamos nos casar na noite de Réveillon. Não quero esperar até a primavera. Phillip? – Fantástico! Você se tornará minha esposa no Réveillon. – E quanto a nossas mães? Phillip passou um braço em torno de sua cintura. – Sinto muito por tudo isso. – Os policiais podem nos apanhar em agrante. ele deu meia-volta e partiu. – A fiança foi paga – anunciou o policial. Emily ergueu os olhos para Phillip. é o que venho dizendo há tempos. As palavras seguintes foram engolidas pelas lágrimas. – Acho que isto lhe pertence. Falarei com o chefe de polícia e com o prefeito sobre este erro lamentável. minha querida. Ela soltou uma risada animada. – Segurando o rosto dela entre as mãos. Vamos terminar o ano de 1912 nos braços um do outro.– Assim que pude. Seus olhos estudaram o rosto de Emily.. – Isso. Phillip. – Tem certeza? E quanto à lua de mel na Europa? – Iremos para Hot Springs ou Flórida. Um sorriso largo iluminou os olhos dele.. livre. iremos a Paris. mas não podemos. – Ah. – Sujeito estranho – comentou com um risinho zombeteiro. querida. – Segurou a mão dela e devolveu o anel a seu dedo. Canton. Quando se aproximavam da porta de aço. Emily passou a mão pelo paletó de . Emily. Durante compromissos masculinos.. – Phillip. Já o encontrei por aí. Falarei com seu pai e o meu. – Querida. beijou-a na testa e a conduziu para fora da cela. – Você me entrega aos lobos. Na primavera. – Você o conhece? – Não muito bem.... é tarefa sua. Srta. inclinou-o para lhe dar um beijo na testa. – sem tá-lo nos olhos. – Está livre. – Não quero esperar. então o de Phillip e.

Não vamos até as pessoas. Simplesmente. Agora. quando forem libertados. Phillip. . – Nunca? – Existem muitos homens e mulheres brancos procurando por trabalho. Por acaso. – Que tipo de pergunta é essa? Já conversamos sobre isso. pelo mesmo preço. e a lã de alta qualidade emitiu um leve resíduo de perfume de mulher – . – Emily. – Estamos proporcionando trabalho e aprendizado para criminosos condenados. no momento certo. ela conteve um gemido que pedia mais. – Sim. se acredita que sou in el? Foi ele? – Apontou para a porta. quando soubemos da notícia. Não quero que nosso casamento seja ofuscado pela imagem de você em um carro de polícia. Como sua teoria se aplica lá. somos Saltonstall. fui ao ateliê de Taffy para provar meu vestido. abrindo o paletó e ajeitando o colete. mais parece um espinho em minha carne. o que quer saber? – Esta será a última vez que tiro você da cadeia? Não foi fácil acalmar meu pai. poderão ser contratados para trabalhar em troca de salário. E não tratamos com negros. – Podemos voltar à pergunta original? Phillip tomou Emily nos braços e a beijou com paixão. – Cinco minutos atrás. Phillip parecia sempre responder às suas perguntas com outras perguntas. Quando descolou os lábios dos dela. pois estava cansada de discutir sempre a mesma cosia. Você era como um rosa em minha mão. Assim. Por que quer se casar comigo. – O que eu disse sobre ir ao bairro dos negros? Emily reprimiu a resposta. Phillip? Os condenados negros parecem dar conta do serviço. eu teria sido capaz de fazer amor com você em uma cela. Qualquer trabalho que um negro faria pode ser feito por um branco pobre. – Foi aquele cretino que encheu sua cabeça com mentiras? – Só quero que você seja claro e honesto. Telefonamos para o jornal para retirar seu nome da lista de presos e pagamos uma soma alta para garantir que sua foto não seja publicada. Nem sei como responder.Phillip. elas vêm a nós. querida – Phillip segurou-lhe o queixo –. certo? – Emily! – Phillip se afastou de um pulo. – Com exceção das Minas Saltonstall.. não haverá mais Emmeline. deixando-a sem fôlego. – Quando foi a última vez em que as Minas Saltonstall contrataram um ex-presidiário negro para trabalhar em troca de salário? Phillip mordeu o lábio e ergueu os olhos para o teto. um trabalhador negro pode perfeitamente atender às suas necessidades.. – Nunca tive a menor intenção de ser presa. Está sendo infiel? Esteve com Emmeline? – Será que eu posso fazer uma pergunta? Emily suspirou. você tenta aumentar as penas deles para que possam continuar trabalhando de graça? Nesse caso.

Phillip Saltonstall pertencia a ela. . o ardor de Phillip seria su ciente para convencê-la. A verdade era que Emily não fazia a menor ideia.– Acha que um homem capaz de beijá-la assim está satisfazendo seus desejos com outra mulher? – Imagino que não. Naquele momento. porém. Tinha muito que aprender sobre os homens e sobre seu noivo. só a ela.

E. claro. Querido. suas escolhas. está acordado? – A voz de Kim encheu a casinha construída na década de vinte e reformada por Tim. Suas atenções eram mero resultado da atitude dele. Tim enfiou o celular no bolso e caminhou devagar pelo corredor largo. esse alguém sou eu. Os hematomas. Seu corpo inteiro fora atingido por pancadas fortes. trata-se de um lugar sempre movimentado. se re etia pelo peito. seu coração partido por sua própria culpa. nem pensar. – É mesmo? Não é de surpreender. e ele se sentou lentamente e com cuidado no banquinho diante de sua prancheta. calçou os tênis Nike e. costelas trincadas. Ao menos. di cultavam tarefas simples como tomar banho e se vestir. Às vezes. respirando fundo. pois gostava da sensação criativa proporcionada pelo papel e pelo lápis. além de deixá-lo tão cansado quanto uma maratona. lentamente. tivera mais tempo que o necessário para re etir sobre sua vida. Mesmo assim. sempre o tratara com o maior cuidado. – Mas se existe alguém que sabe como se comportar em uma la. – Ela pontuou cada sílaba de seu nome com um estalar de dedos. Tim se desviou para o escritório. durante a noite. E ela não zera nada errado. Fora estúpido. . era o que parecia. ele podia viver por si só. ele podia sentir o osso se movimentando sob a pele. – Você vem ou não? Vou ter que ir embora dentro de meia hora. Desde que voltara do hospital para casa. – Tim? – A porta da cozinha bateu. tivera o coração partido. Kim Defario. Tivera hematomas. muito estúpido. ombro e braço. – Você precisava ver a fila no Starbucks – disse Kim. querido. estou acabando de me vestir. graças a Deus. Nunca. sem piedade.Capítulo Vinte Tim Tim já sofrera acidentes antes. O médico lhe dera alta sob a condição de ele car em casa. queimaduras. vestiu a camisa. – É verdade. se repetia em sua mente sem parar. porém. Tim gemeu baixinho. Falar alto doía. Tim vestiu a calça jeans. – Sim. ossos quebrados. ainda sentia muitas dores. Como se alguém precisasse dizer isso a ele. Dez dias depois do acidente. enquanto Kim se debruçava sobre ele. repousando. Nada de dirigir. corridas. mas salvar Charlotte teria signi cado humilhar Kim. A imagem de Charlotte saindo de seu quarto no hospital. Não. Ainda desenhava suas ideias e projetos iniciais à mão. ainda visíveis no pescoço. – Trouxe o café da manhã. peito e braços. sim. Nem precisa dizer duas vezes – Tim replicou do escritório. A dor tinha origem na cintura. Afinal.

como um avestruz assustado. querendo marcar um encontro para pôr a conversa em dia. maior o pânico de Tim. ela era uma constante em sua vida. desde quando você consegue comer o café da manhã de duas pessoas? Vou comer o meu e metade do seu. Uma mulher linda. dos vestidos e das noivas. sentindo-se completo. Dormira como um bebê. a realidade fria da fusão de duas vidas em uma transformara tranquilidade em tempestade. Kim. à medida que a data do casamento foi se aproximando. Ela deixara bem claro quais eram seus sentimentos por ele. Charlotte começava a invadir sua alma como acontecera na primeira vez em que ele a vira.. até ela telefonar. linda e ainda o amor de sua vida. Quando mais o dia vinte e três de junho se aproximava. “Trate de se concentrar no trabalho. Tim pedira a Jack que fosse falar com ela. Charlotte. e ele se perguntava como chegara àquela situação. A maneira como os olhos dela brilhavam quando ela falava de sua loja. Mais e mais o paspalhão que perdera a doce.” Dois meses depois. mas nem mesmo o charme do irmão mais novo abalou a resolução de Charlotte. Ela era uma emoção bonita e inesperada que fazia corrida de motocross parecer brincadeira de criança. Nem sabia que ela estava de volta à cidade. No entanto. recusando-se a voltar ao hospital depois que Kim interrompera o momento romântico do casal. Tim. Qual era o seu problema. Retirou o celular do bolso. Simpática e amigável. Tinha trinta e dois anos e queria ter uma esposa e lhos.– Só um minuto. Tim a pedira em casamento. Tim passou a mão pelas costelas trincadas e doloridas. A sensação dos cabelos dela roçando de leve o seu rosto. inteligente acabara de chegar com seu café da manhã. abrira mão da melhor coisa que jamais acontecera em . O som do riso dela apanhando-o de surpresa e fazendo com que ele também risse. Pare com isso. Por que continuava a sentir tanta falta dela? Tinha de seguir adiante com sua vida. Nunca antes havia discutido tanto com David. estou comendo o meu café da manhã e se você não estiver aqui em sessenta segundos. vou comer o seu também. certo? Três semanas depois. afinal? Ora. naquela noite. Tim estremeceu. Ela riu alto. ele passara os dias seguintes ao seu primeiro encontro calculando maneiras de conquistá-la. Timbo. Em vez de procurar novos trabalhos para a Empresa Rose. Nunca tivera a menor intenção de reatar com Kim. esquecer Charlotte. sentindo-se mais e mais um idiota. seu problema era o sabor dos lábios de Charlotte ainda nos dele. Não era fácil a recuperação depois de ter sido quase esmagado por uma motocicleta de duzentos e trinta quilos. adorável. Nada de Charlotte. nem enviara mensagens de texto. Não perdera nenhuma ligação. – Ora. A lembrança do perfume dela a atiçar suas narinas. amadurecendo. – Ei. Escondendo a cabeça na areia. – Você me conhece tão bem.. Não telefonara. cara.

Esvaziamos totalmente a casa de minha mãe. Tim. – Conhece alguém que possa ter conhecido o pai de Charlotte? Avós. Charlotte Malone. Obrigado pela atenção. Não me ocorre nada que tenha cado para trás. Não fui tão chegado a ela. Tim desligou. a única maneira de lidarmos com nossos con itos é não saber.sua vida. Enquanto ouvia o telefone tocar do outro lado da linha. Meu nome é Tim Rose. – Sim. As únicas alternativas seriam orfanato ou adoção. justamente porque a menina não tinha mais ninguém. Você não pode. Kim estava parada no corredor. amiga. mais um grande favor por ter conseguido aquele número de telefone. O céu azul. roupas e eletrodomésticos. ou quando sua mãe morreu? – Não conheço ninguém que fosse chegado a Phoebe. Por que você quer saber? – Estou apenas tentando fazer um favor a uma amiga. pontilhado de nuvens brancas. pegando o telefone e discando o número que havia rabiscado no bloco de rascunho. Quando abriu a porta. caminhou com dificuldade até a porta para fechá-la parcialmente. – Não ficou nada para trás. Não restou quase nada. claro. Gert. – Às vezes. – Talvez ela não queira que você desenterre o passado dela.. Tim abriu o armário para pegar uma tigela para comer cereal. tios? – Tim foi até a janela. Devia ao amigo. simplesmente. morava com sua mãe. – Eu nunca disse que queria ser herói. pairava sobre os edifícios de Birmingham. tias. Os olhos de Kim. – Só preciso dar um telefonema rápido – falou em voz alta. quando ela se mudou. – Talvez. – Monte Fillmore? – Ele mesmo. A verdade era que ele queria. Brooks. dizendo: “Encontrei seu pai” e esperar ser tratado como herói. mas as informações jamais chegaram aos meus ouvidos. invadir a vida dessa mulher. de braços cruzados. – Você não me conhece. que trabalhava na prefeitura. castanhos como os de um falcão e duas vezes mais intensos. com filhos. – Por acaso.. não se desviaram de Tim quando ele se encaminhou para a cozinha. Eu já era casado. Sobressaltou-se quando um homem atendeu. você sabe o nome do pai dela? – Do pai de Charlotte? Não. . e minha no. Minha mãe levou Charlotte para morar com ela depois que Phoebe morreu. – Sua mãe nunca o mencionou? – Não. Doamos mobília de cinco cômodos. – Alô? – Tim falou. É possível que Phoebe tenha falado sobre ele à mamãe. ou à mãe dela. quando minha mãe praticamente adotou Phoebe e Charlotte. Em que posso ajudar? – O tom quase pro ssional indicou a Tim que o melhor seria ir direto ao ponto. na véspera do acidente. Monte.

– Viu o que ele fez ontem à noite? – É claro que vi. perdoe-me. Charlotte ocupou seus sábados com casamentos. Queria encontrar um jeito de compensar a própria estupidez. Ainda estava apaixonado por Charlotte. – Não me venha com essa. exceto pelo dela mesma. eu sinto muito. A porta se fechou suavemente atrás dela. – Quando ele se virou.. – Nunca deixei de amá-la – acrescentou. Isso. Tim. – Estamos tomando café da manhã. no momento exato em que comia uma garfada do meu jantar. pegou o leite e despejou sobre o cereal. E não posso culpá-la. Seus problemas não são culpa dela. Tim.. Ao mesmo tempo. o que está acontecendo? – Kim perguntou. Muitos. Senhor. Levava pratos preparados por ela mesma para as três almoçarem juntas e descobriu que ela e Dixie tinham uma paixão em comum: a série de televisão Trabalho Sujo e seu apresentador. então? Segunda opção? – Você voltou. fazer algo duradouro por ela. vá atrás dela – Kim sugeriu com voz triste. Eu sei.. deveria ter sido claro desde o início. – Sim. sentindo profunda tristeza por Kim. A melhor parte da história fora Hillary. Charlotte Durante o mês de junho. – O que eu sou. deveria. – Ela foi até a mesa e pegou seu café. – seus olhos se fixaram no leite – . É isso que está acontecendo.. – Acho que ainda amo Charlotte. Nunca quis ser mais que seu amigo.sim. foi tomado de grande alegria. – Quero saber o que está acontecendo entre nós dois. mas acho que a iludi. Nunca mais . Engoliu a primeira colherada. ser o herói de Charlotte. me telefonou e nós começamos a sair para jantar. – Acha? – Sei. – Kim. Tim abriu uma gaveta e pegou uma colher. oferecendo-se para ajudar de todas as maneiras possíveis e recusando qualquer pagamento ou recompensa. Mike Rowe. – Ela não me quer. – Os saltos altos de Kim estalaram nos ladrilhos. Tim pensou. encostando-se ao balcão. – Então. Kim estava pendurando a bolsa no ombro. – Não aja como um idiota com ela. Ela e Dix haviam preparado nada menos que vinte e cinco noivas. – Tim. Eu deveria. – Tim tou-a nos olhos. Ela ia à loja quase todos os dias. espertalhão. Tim abriu a geladeira.

– Ontem foi. – Sua aparência está mais saudável do que da última vez em que te vi – ela acrescentou. – Ele parou no último degrau. mas bem. também se deparava com outros Rose. uma combinação que ela não sabia se seu coração poderia enfrentar. Centenas de éis. o nome “Rose” cai muito bem em Tim. Geralmente. E você? Charlotte sorriu ao reconhecer a aura que o cercava. Tim atravessou o estacionamento em uma corrida leve. mancando um pouco. atordoada e exausta pelo mês. Chase e Rudy. Dix e eu tivemos sete casamentos. Ah. O verão atacava a todo vapor em seu primeiro domingo. con ante e vulnerável. – Ei! – Tim se aproximou. e a Sra. ou caminhar até onde estava a família. O sol das dez horas estava alto e quente no céu azul. em três dos quatro domingos de junho. – Onde tomaremos o café da manhã? Ela virou e viu David passando pela calçada. O que ela queria para o café da manhã? Aquilo. parecendo dizer “tudo está bem”. Aos domingos. Rose. Cansada. . Charlotte sentiu um aperto no peito. o dia seguinte ao seu casamento cancelado. – Um dia muito ocupado. Fizera tudo o que poderia ter feito. os cabelos compridos esvoaçando e brilhando ao sol. para não encontrar nenhum deles. Infelizmente. sem temer rejeição. – Como você está? – Cansada. meter-se no grupo e perguntar: “Quais são os planos?”. deu de cara com ele. Charlotte via Tim de longe. com exceção de chegar atrasada para o culto. Charlotte apoiou-se no corrimão. a verdade era que sentia falta deles. Queria estar no seio de uma família.. sem precisar ser convidada. saindo do primeiro culto. no estacionamento. tamanho o movimento de casamentos. e entrava depressa pela porta lateral da igreja. chegando para o segundo culto quando ele saía do primeiro. Estacionava seu carro no lado oposto ao de Tim. Mesmo assim. Ele era. – Sinto-me muito melhor do que da última vez em que você me viu.. Ele parou assim que alcançou o grupo e se virou para a igreja. quando uma voz conhecida a fez parar. Naquele domingo. Charlotte subia os degraus para o pórtico. o Sr. esperavam no estacionamento. Acabei dormindo de roupa. despertando a serenata pesarosa dos grilos pela partida da umidade. mãos na cintura.. Charlotte chegou apressada à igreja. Cheguei em casa quase meia-noite. a camisa para fora da calça jeans. e ela tinha de dar de cara justamente com Tim Rose. mas sentindo-se grata por estar de pé. Katherine com seus dois lhos. enterrando qualquer ameaça de se lembrar de que aquele deveria ser o dia do casamento dela. Vestira sete noivas na véspera. com Jack. Os demais Rose. estreitando os olhos para ela.. ao mesmo tempo.olharei para espaguete com os mesmos olhos.

ela o fechou no baú e soldou o fecho. – Agora. Aquele bando de famintos vai se transformar em uma quadrilha perigosa se você pedir a eles que esperem. Hillary tinha uma fotogra a dos pais dela com as pessoas que venderam a casa para eles. e a foto nos levou a Mary Grace Talbot. Kim. – Podemos esperar até o culto terminar. Tim esperou pela resposta de Charlotte visivelmente ansioso. sim. Charlotte. Ele subiu mais um degrau. – Vou assistir ao culto e. terno e apaixonado? O beijo que invadia sua mente sem permissão toda vez que surgia um momento de silêncio em seu dia? – É melhor eu entrar. você vem ou não? – David chamou. – Tim. – Sim. disse: – Como vai sua busca pela dona do vestido? O que aconteceu com Hillary? Charlotte sorriu.. – O que aconteceu no hospital? Está falando de Kim? – O beijo. – Olá. – Você está muito bem. então. – Não. em um minuto – Tim respondeu. – Uma história incrível. – Vá com sua família. que usou o vestido em 1939. O beijo? Ele sentia muito por aquele beijo doce. – Depois de observá-la por um longo momento. – Uau! “Incrível” é realmente a melhor palavra. – Tudo bem. – Não é preciso – disse ela. desviando o olhar. por favor – Charlotte respondeu. Tim. E. David. – É mesmo? Não. então. Charlotte. seu perfume a envolvendo por completo. – Posso telefonar para você? – Não. Tim. subindo um degrau na direção da entrada. Mais que qualquer outra coisa. Até logo. – Olá. Tim. Ela acenou. Quando ele morreu. Simplesmente. Hillary nos ajuda na loja o tempo todo. Preciso passar algum tempo com Jesus e Seus amigos. não posso. . eu não poderia pedir algo assim. apontando por cima do ombro para o clã reunido no estacionamento. irei para casa para descansar. Acho que não devo impedir uma garota de se encontrar com o seu Senhor.. O tom de voz dele a fez sentir-se admirada. – Quer tomar café da manhã conosco? – Tim convidou.Não dê a ele a chance de dizer que hoje eu seria sua esposa. sinto muito pelo que aconteceu no hospital. Ela usou o vestido em seu casamento com Joel. – Eu ficarei esperando. aparece e. – Não tenho olheiras profundas? – Não. – Tem certeza? – Ele franziu o cenho. respirando fundo. Já ouço a música começando – Charlotte declarou.

– Charlotte. . mas no momento. quero que saiba que o amigo Tim sente muito a sua falta. o amigo Tim e o noivo Tim se parecem demais aos meus olhos. – Sim.

seus professores haviam dado muitas aulas de educação cívica baseadas na Sra. Bebeu outro gole de água e se inclinou para examinar a foto de perto. – Palmas para você. Algo naquela mulher chamara sua atenção. Ela parecia familiar. da Fundação Ludlow. pela última vez. Havia algo intrigante na expressão dela. Ludlow e seu marido. A Empresa Rose fora autorizada a participar da concorrência na última hora. Alta e imponente. Tim olhou para o relógio. almoçar e . Seu assistente. Tim passou os olhos pelo material da pesquisa que zera sobre a foto das mulheres que haviam trabalhado para acabar com tal programa. Evidentemente. bebeu um gole de sua garrafa de água e estudou a mulher no centro do retrato. recrutados pelo programa de contratação de condenados. Devolveu a fotogra a a seu lugar na mesa. Tim gostava de acrescentar esculturas de memórias do passado a seus projetos de restauração.. mas na escola. por ter lutado contra a injustiça quando isso ainda não era moda. Precisava afastar tais pensamentos da cabeça. Tim admirava a paixão com que defendera a justiça. e ele queria oferecer a melhor proposta possível. Era como se a conhecesse. Uma hora. em 1928. Quem vivera e trabalhara naquele local? Como se vestiam? Que aparência tinham? O que podemos aprender de sua história? Como não repetir os mesmos erros? Trabalhara com seu escultor em bronze favorito no planejamento de um memorial para acompanhar a restauração dos escritórios de uma das Minas Saltonstall. Tim era um garotinho quando ela morrera. Enquanto ensaiava sua conclusão: “A liberdade. seus olhos. a emprestara de Cleo Favorite. Javier. O memorial celebraria o final do programa de contratação de condenados. A foto em preto e branco estava gasta e rasgada nas beiradas. Tim pegou a fotografia e inclinou-a na direção da luz. a apresentação do projeto de restauração que faria naquele dia. Decidiu que a exibiria e sugeriria uma gravura em água-forte ou uma placa de bronze com aquela imagem. deve ser celebrada”. Lábios arqueados. Emily Ludlow. com a promessa de que seria devolvida assim que a apresentação terminasse. em todos os seus estágios e por todos os meios. Sra.Capítulo Vinte e Um Tim Tim revisou. Parou quando chegou à fotogra a de um grupo de homens negros acorrentados. L. em seu sorriso festivo. Parecia capaz de laçar a lua e cavalgá-la sobre a linha do horizonte. Olhar expressivo. Daniel.

– Tim atravessou a sala e recebeu Monte com um forte aperto de mão. foi ideia do meu sócio passivo. – Monte aproximou-se da janela e apreciou a cidade vista do quinto andar. mande-o entrar. – Estendeu a caixa de sapato para Tim. Linda vista. Daí. – Eu me lembro do seu jingle no rádio. O tipo de música que fica gravada na cabeça. – Por favor. o testamento e minha batalha para manter minha família e os negócios em andamento. Não . depois que você telefonou. – Tive um escritório na Rua Vinte e Dois. quei pensando. Foi pegando um a um e lendo os títulos: Fundação Ludlow oferece primeiro subsídio para empreendedores Emily Ludlow comemora seus noventa anos Professor Colby Ludlow homenageado no banquete da UAB Emily Ludlow morre aos noventa e um anos Criada a Fundação Ludlow para o comércio e educação – Interessante. você ligou. são recortes de jornal e algumas fotogra as. – O tom de voz forte e decidido fez Tim se lembrar de líderes e mentores que conhecera em sua jornada de vida. acabei me esquecendo. – Belo escritório você tem aqui. Deixei a caixa no balcão da cozinha durante meses. – Deu de ombros e fez uma careta. Acho que mamãe estava guardando tudo para Charlotte. mas a família de minha esposa descende dos Canton. Monte soltou uma risada que fez seus olhos se iluminarem. – Monte Fillmore está perguntando por você. en ando a cabeça no vão da porta. – Tim – Javier chamou. Então. – Sócio passivo? Monte se sentou. – Minha esposa. – Bem. encontramos isso no fundo do guarda-roupa no quarto dela. mas isso nunca aconteceu. – Ele está aqui? Sim. e eu tinha a intenção de entregar a caixa a ela. Escute. Por que será que Phoebe colecionava artigos sobre os Ludlow? Tinha algum parentesco com eles? – Não sei.veri car se os slides estavam em ordem para a reunião das quatro horas com a comissão de restauração do centro da cidade. a família de Emily antes de ela se tornar uma Ludlow. Achei que. Acho que você não esperava me ver. Tim retirou a tampa da caixa e se deparou com recortes de jornal amarelados. Ela não conhece nenhum ramo da família com sobrenome Malone. – Disse que você saberia do que se trata. um dia. Foi ela quem compôs aquele jingle. O conteúdo não me pareceu importante. fomos empurrando a caixa cada vez mais para longe de nossas vistas. até o dia em que minha esposa queria assar biscoitos e a empurrou para um canto. Na maior parte. Não é nada demais. mas com as providências para o velório e enterro. com uma caixa de sapato debaixo do braço. – Quando esvaziamos a casa de mamãe. apenas bugigangas do escritório de Phoebe Malone. apontando para uma das cadeiras em torno da pequena mesa de reunião. – Aceita um café ou água? – Não. eu encontraria Charlotte e me lembraria. sente-se – convidou. obrigado. sim. Fui proprietário de uma agência de seguros durante quarenta anos.

inclinando a fotografia contra a luz da janela. A bela Phoebe. quando não se está no lugar de Charlotte – Tim murmurou. sentindo o sangue acelerar em suas veias. com Monte espiando por cima de seu ombro. Um arrepio percorreu sua espinha. Tim ergueu os olhos. Virou a foto e leu: “Nosso primeiro dia em Birmingham”. há certa semelhança familiar. Havia outra foto na caixa. o retrato de uma Phoebe mais jovem. – Olhe bem para o professor. Amigos? Tim leu o verso: “Projeto de Verão em Silver Lake. A bela Charlotte. Uma vez.achamos que Phoebe e Charlotte façam parte da árvore genealógica dos Ludlow e Canton.. com um grupo de. mas paramos porque a pressão de minha mãe se elevava. – Ludlow? Você viu esta foto. Pensou no olhar de Emily na fotogra a. – Fácil falar. mamãe me disse que o pai de Charlotte era inexistente. Tim? – Monte indagou. alinhando a foto do grupo de Emily com a foto do grupo do professor. estudando a fotografia. engenheira. – Ora.. Eu costumava discutir política com ela. seja um nome ou uma razão. conseguiria subir a montanha. – A filha também não engole. Vira aquela mesma expressão centenas de vezes. 1981. e acho que Phoebe Malone pode ter se apaixonado por ele. aqui. – Phoebe era muito eclética. nos tempos de faculdade. Monte? Tim estudou a imagem. en ando tudo na maleta. – Vejo duas pessoas muito parecidas. Acha que Colby Ludlow era parente de Emily? – Sim. Artista. No centro do grupo estava um homem de postura arrogante. Tim recolheu suas anotações e pesquisa e fechou o laptop. Tim empilhou os recortes e pegou uma fotogra a de Phoebe e Charlotte.. Sim. e Emily Ludlow. inteligente e perspicaz. desejando poder ouvir as milhares de conversas que haviam se passado entre as duas.. – Reconheço Phoebe. mas o homem parecia estar na casa dos quarenta anos. com o sorriso incompleto da fase de troca dos dentes. Os gênios do professor Ludlow”. em Charlotte. Diga-me o que você vê – disse Tim. além do mesmo sobrenome. Tim se levantou de um pulo e apanhou a pasta contendo sua pesquisa. Uma coisa posso a rmar: aquela mulher não engolia desaforo nenhum. – Foi tirada em 1981. olhar expressivo e lábios arqueados. – Quando foi tirada? – Monte perguntou. vejam. vestia paletó de veludo e tinha cabelos longos. sentindo o arrepio se espalhar por todo o seu corpo. – Sinto muito por não ter maiores informações para dar a você. Se corresse. A foto antiga tornava difícil distinguir detalhes. – O que você viu aqui. procurar por outras evidências na propriedade . Trata-se apenas de uma teoria. aqui – bateu um dedo na foto –. mas não sei quem é esse Ludlow. com seus cabelos longos e fartos.

– É assim que isso se chama. – Você. não. purê de nabos e molho de carne – da cozinha para a sala de jantar. Canton. Canton arrumou uma linda mesa de Natal. O Sr. e vice-versa. e a Sra. – David. – Monte.Ludlow e estar de volta a tempo para a reunião. olhando de relance para Monte. Emily A Sra. Canton ocupava o lugar à cabeceira. jantava à direita da Sra. Molly e Jefferson. Ligue para o meu celular se precisar de mim. Howard Jr. De todas as delícias. – Telefone se descobrir alguma coisa – Monte pediu. a que mais impressionou a Sra. Tim apertou o botão do elevador. pato assado. – Como agora somos família – lançou um olhar para Emily –. Saltonstall. carregavam os pratos preparados pela Sra. isso se chamava amor. pegou o telefone e as chaves. seguindo Tim porta afora. Os os de linho cor de creme da toalha de mesa realçavam a luz dos lampiões e das velas. muito obrigado. porém. assim como todos os jovens apaixonados. Margaret. – O que é tão engraçado? – Tim indagou. ela acomodara ramos de pinheiro frescos e perfumados. vejo você na reunião. – A receita veio de minha avó – a Sra. que se esforçava sem sucesso para disfarçar um sorriso largo. você terá a receita ainda esta . além do delicioso pão e geleia feitos por Molly. Canton – sopa de cebola. – Apaixonado? Estou apenas tentando ajudar uma amiga. com a ajuda de duas criadas adicionais. Você ajudou muito. Phillip e Emily sentavam-se ao centro. com a esposa na extremidade oposta. mas preciso sair. enquanto sua acompanhante estava à esquerda de Emily. Saltonstall foi o chá gelado da Sra. Saltonstall. Com isso. – Tim. Os dois entraram no elevador. – Pode deixar. mas vou verificar. – Ajudar uma amiga? – Monte apertou o botão do andar térreo. Sobre o centro de mesa carmesim. hoje em dia? No meu tempo. – Precisa me dar a receita. copos de cristal lapidado à mão e os talheres de prata que haviam pertencido à mãe dela e sido polidos até brilharem como espelhos. de frente para o Sr. com porcelana cor de mar m. corando pelo elogio. Vejo você na reunião. Canton explicou. – Tim bateu na porta da sala de David ao passar. É celestial. Foi muito bom você ter vindo. ou seremos em breve. aonde vai? Verificou os slides? – Sim.

– O Sr. querida. . Phillip. Abusado. senhor. Emily querida. – Emily ajeitou o guardanapo no colo enquanto o silêncio pesado descia sobre a mesa. Phillip voltara ao seu comportamento antigo. que deve ficar longe dos negros. mas acho que cou bem claro. – Emily deverá usar o vestido de sua escolha. – Desculpem. Todos os olhos se fixaram no mordomo irlandês. Não sei de onde tiramos a noção de que noivados longos são boa ideia – comentou o Sr. provocando nela uma onda de calor. Tentei usar meus contatos na polícia. Deus o abençoe. Vai retirar a acusação. Phillip apertou o joelho de Emily. – Maggie. A única garantia que recebi por meio de meu advogado foi que a acusação seria retirada. estou satisfeito pela antecipação da data do casamento. já que estou pagando a conta. – Phillip pegou sua taça. Nunca comi um pato tão suculento. papai – O que eu realmente quero saber é quem prestou queixa contra Emily. mas não posso fazer segredo da minha escolha. Debaixo da mesa. – Eu posso opinar. Canton. – De minha parte.noite. Tenho certeza de que você não quer ver sua noiva desmaiar no meio da cerimônia porque o vestido cortou sua respiração e circulação sanguínea. – Acertou. – Phillip contou a você. sentira-se grata pelas complexidades de seu espartilho. Canton soou contrariado. tornando-se mais e mais amoroso. mantendo os olhos xos no garfo e na faca que usava para cortar o pato. Jefferson apareceu na porta de colete e um guardanapo na mão. – Com licença. – Encontrei o mesmo problema. Parece ser o mais bonito na opinião de todos. – O delegado demonstrou boa vontade. Howard? – O Sr. – Mas eu gostaria que você usasse o vestido da Sra. O mais aceitável. sinceramente. – Ele livrou Emily das acusações. devemos ser gratos pelas pequenas bênçãos – disse a Sra. Na noite anterior. Canton ergueu a voz. Podemos providenciar para que o vestido seja entregue a mim sem que nenhuma lei idiota seja infringida. – Exceto pelo fato de que vou usar o vestido de Taffy no nosso casamento. Caruthers. Ela não conseguia apagar a palavra de seu coração. que ela disfarçou com uma mordida nada delicada no pão. Emily limpou delicadamente os lábios no guardanapo carmesim com estampa cor de creme. O senhor tem um visitante. – Posso saber quem faz visitas na hora do jantar? É uma emergência? – O Sr. – Ah. Saltonstall. Desde a decisão de que não esperariam até a primavera para se casarem. ou que eu seja acusada de instigar insurreição. mas parece haver um muro de tijolos guardando a informação. – Nesse caso. – Imagino que o noivo não tenha direito a opinar – Phillip sibilou. Noivos não têm direito a opinar. – Nosso advogado fez um excelente trabalho. Ela ergueu os olhos e encarou um por um. Saltonstall limpou a boca e o queixo no guardanapo. Phillip se tornara abusado. você e Molly se superaram esta noite.

– A decoração é praticamente nova. – O an trião se curvou para os convidados e. Havia muito o que fazer com a antecipação da data. – Ah. Não quis dar o nome. Emily – garantiu a Sra. virou-se para a esposa. – Emily agradeceu sem convicção. deixando o guardanapo na mesa e se levantando. – Ele comeu um pedaço de pato. querido. Saltonstall. Tinha o rosto vermelho e os olhos estreitos. Sr. O clube para cavalheiros contava com um belo salão de festas. Teremos o bolo de chocolate de Molly para sobremesa. no time de futebol americano de Harvard. Só preciso que Phillip me acompanhe. Howard Jr. senhor. – Está tudo bem? – Phillip perguntou. as considerações do Sr. mas a decoração da Sra. Emily observou o pai deixar a sala de jantar. querida. Jennifer Barlow. A conversa se tornou vazia e esparsa: o clima adorável de dezembro. papai? O Sr. o programa de Natal da igreja. Raramente os negócios de seu pai eram resolvidos em sua residência. O Sr. – Papai e mamãe nos presentearam com a casa em Highland. – Será um prazer ter vocês morando lá. Emily escondeu seus sentimentos atrás do copo de chá. Saltonstall havia reservado o clube Phoenix para a recepção. a poucos quarteirões da residência Canton. A conversa à mesa passou aos detalhes da festa de casamento. Saltonstall. também se levantou. ia me esquecendo. Eu disse que o senhor estava jantando com a família. Canton acabou com o clima alegre. Cam e Henrietta. – É muita generosidade. – Precisa de mim também. mas não era a casa de Emily. Já temos uma casa pronta para nós. Saltonstall era pesada e escura. seu pai invadiu a sala de jantar. a invenção de luzes elétricas para árvores de Natal. Saltonstall juntou-se ao coro: – Posso ajudar? – Não. mas não nos mudamos para lá. A casa em questão situava-se à sombra de Red Mountain. então. – E de graça. Então. pensei que compraríamos nossa própria casa – ela acrescentou. – Querida. que usava sua costumeira máscara de “está tudo bem”. – Phillip apontou para os pais. – Com licença. A interrupção causada pelo Sr. Emily olhou para a mãe. Saltonstall sobre a última novidade. quando . falaram do bom desempenho de Howard Jr. o que ela achava de Birmingham. mas ele insistiu. curiosa para saber quem poderia ter interrompido o jantar. Especialmente diante das visitas. com licença. e Sra. – Phillip. Era linda. – Volte logo. não. O tique-taque do relógio no corredor marcava a passagem do tempo. por favor. Não teremos de procurar onde morar. A mãe da noiva cuidara dos acertos com a igreja e pagara por costureiras extra para costurarem os vestidos das damas de honra e o que faltava no enxoval de Emily. – Phillip. – Por quê? A casa de Highland é perfeita. Naquele momento.– Ele diz que é urgente. A mãe perguntou à acompanhante do lho. sua presença é exigida. Reformamos a casa.

– Mas interrompeu assim mesmo. mas se deparou com Daniel. – Não respondeu à minha pergunta. e sua mãe e eu a ensinamos a ser sensata. – Você é dona de si.comparada a Boston. papai. dando um passo para o lado para dar passagem a ela. apagando a cigarrilha no cinzeiro do Sr. com acabamento em pele. . – Emily entrou na biblioteca. O que ele podia querer com ela? Sentiu um nó se formando em seu estômago. está tudo bem? Ele a segurou pelo braço. a se voltar para o Senhor em busca de sabedoria. – Devo cortar o bolo. – Ele veio para me acusar. Emily. O que signi ca tudo isso? – Postada diante do pai e de Daniel. Sinto muito por ter interrompido o jantar. hesitante. no canto oposto da biblioteca. – Por favor. – Será que eu deveria ir até lá para ver o que está acontecendo? – Howard está cuidando do assunto. Mais dez minutos se passaram. Sempre foi. se levantou. Seus olhos se estreitaram ao vêla. – Já disse isso. ela alisou o vestido de seda bordado em o dourado. mas pode trazer o café. – Emily. Vamos esperar pelo Sr. Molly. fumando. Canton e se juntando ao grupo. não comece a andar de um lado para outro. – Insistiu. Faça perguntas como ensinei. o Sr. – O que está fazendo aqui? Ele usava um suéter de lã grossa e gola alta debaixo do paletó. lançando um olhar para Phillip. planejando manter a calma. – Sim. está me assustando. Então. Canton entrou na sala de jantar com expressão séria e contrariada. senhora? – Não. tentando adivinhar o que se passava. O Sr. – Eu precisava falar com seu pai. Vinte minutos depois que o Sr. isso sim – Phillip protestou. papai. que andava de um lado para outro. – Acalme seu coração e apenas ouça. – Papai. Cam – disse Henrietta. carregados de preocupação. aqueceu o coração de Emily. – Papai. Canton e Phillip haviam se retirado. Canton. Seu sorriso. – Vim falar com seu pai. Então. Molly apareceu para tirar os pratos. por favor? Ela o estudou. Saltonstall se levantou e se dirigiu à porta. Seria presa outra vez? – Na biblioteca – o pai informou. Não reaja até ter re etido sobre o que ouvir. Não sabia que tinham convidados. posso falar com você. porém. – Sim. É uma moça inteligente.

– Acha mesmo que eu gastaria dinheiro ganho com trabalho duro para que minha noiva fosse presa? Que tipo de idiota é você. em vez de com você. endireitando os ombros e encarando Daniel. Bastou algum dinheiro para molhar algumas mãos na delegacia. vamos agir como cavalheiros. . os policiais me ignoraram. – Ele quer tirar você de mim a qualquer custo. quei descon ado. Agora. Deu dois passos na direção da porta. Emily. mas foi barrado pelo Sr. demorando-se mais ao encarar Phillip. Daniel hesitou. porém separados se aplicava aos dois lados. Membros da alta sociedade comentavam que os Canton eram amigos dos negros. encarando Phillip com irritação por ele ser tão dramático e cômico. Seu noivo se cansou de ser envergonhado por suas idas ao bairro dos negros e pelo impasse sobre quem faria o seu vestido de noiva. Canton –. Ludlow? – Não tão idiota quanto você. Emily. – Pedi aos dois que contem suas versões a você. como que para trazer calma ao ambiente. – Essa história é ainda mais divertida. – Acredito que o inocente acusado deveria falar primeiro. tratou de se sentar em uma poltrona. Canton e partiu para cima de Daniel. – Phillip bufou sua indignação. se recusaram a me tar nos olhos quando falavam comigo. Howard. – Vocês dois concordaram com este método. você terá toda chance de se defender depois que Emily ouvir os detalhes. Emily. pedi a Phillip que viesse até aqui e se explicasse. Pediu para falar comigo. repleto de tolices. – Lançou um olhar severo para os dois rapazes. mas conseguiu descobrir o que se passou. – Phillip. foi sugerido que a lei dos iguais. – É um mentiroso. Emily. Ele alegou que você estava arruinando a reputação da família dele. De alguma forma. já que o jantar dava voltas em seu estômago. por que não conta sua história a Emily? – História é exatamente do que se trata. Phillip acendeu outra cigarrilha e soprou a fumaça diretamente em Daniel. pegue sua cigarrilha. Conheço a maior parte daqueles homens e o comportamento estranho deles chamou minha atenção. Canton ergueu as mãos abertas. quando se ouve pela segunda vez. Canton. Daniel.– Acusar de quê? – Emily indagou. – Phillip – ele deu de encontro com o peito largo do Sr. que se postou em seu caminho e o segurou pelo ombro. – Vamos esclarecer a situação. – Sou toda ouvidos – ela declarou. Depois de ouvir o que Daniel tinha a dizer. como se ainda estivesse fumando. Perguntei a meu pai se algo extraordinário havia acontecido na noite em que você foi presa. que já tem idade para decidir quem está dizendo a verdade. atirou a cigarrilha no tapete persa da Sra. Phillip explodiu. Daniel veio trazer notícias que o deixaram preocupado. e ele conseguiu que você fosse acusada e presa. para pedir meu conselho. mas prosseguiu: – Meu pai demorou algumas semanas. Por isso. acho que já ouvi tolices demais. – O Sr. – Quando fui visitá-la na prisão. Um romance para mocinhas. – Phillip apontou para Daniel.

continue e explique o resto da história. forçou-o a virar-se para encará-la. Phillip – lembrou o Sr. – Sem dúvida. Ele tem bom faro para notícias. – . farei com que você seja preso. zombeteiro. – Ele está mentindo. – Acha que nosso delegado pode ser subornado com tamanha facilidade? – Por quê? – Emily se levantou. como se o ameaçasse com a brasa. Parece que toda a história fora cercada de mistério. como só ele saber fazer. mas Emily fez sua escolha: você. Phillip parecia prestes a perder de vez o controle. – Você fez mesmo isso? Não minta para mim. com um safanão. – Você viu meu nome? Viu minha assinatura? Você deixou que seus sentimentos por Emily afetassem o seu bom senso.. – Pegue a cigarrilha antes que queime o tapete de Maggie. inabalável. que permaneceu imóvel. Daniel. e não por amor. Vermelho e bufando. Era um sujeito forte. Ross procurou o advogado que cuidou do caso e fez algumas perguntas muito inteligentes. Emily estudou Phillip. – O amor é a única razão pela qual estou aqui. Ele mandou prender você. Depois. Desculpe. agarrou Phillip pelo braço e. lançando-lhe um olhar que costumava fazer Emily tremer. – Saia. Ross.. Disse que o nome que constava no mandado era Phillip Saltonstall. virou-se e apontou para Daniel. mas ele nalmente conseguiu examinar o processo. – Emily – Daniel se aproximou dela com uma nota de súplica na voz –. – É por isso que está aqui. obstinado e determinado a conseguir o que queria. Não poderei ajudá-lo se ela descobrir uma queimadura neste persa. avaliando seu tom de voz e suas palavras. Está negando que a ama? Daniel não hesitou. Se voltar a se aproximar de Emily. – Meu pai pediu a um amigo da delegacia da região oeste para veri car a sua prisão. – Não. Canton. não nego meus sentimentos. para ver o que ele poderia descobrir. Para colocá-la contra mim. Então. Phillip se abaixou e pegou a cigarrilha. Está deixando minha noiva nervosa. foi Saltonstall. Agora. – É claro que quer deixá-la nervosa – Phillip interrompeu. sim... – Os lábios de Daniel se curvaram em um sorriso atrevido. Então. – Mandar prender minha noiva? Pareço um imbecil? Como pode sequer perguntar isso? – Como seu nome foi parar no mandado? – Daniel inquiriu. não tive a intenção de deixar você nervosa.– Mas o senhor ouviu o que ele disse. Mas não poderia viver comigo mesmo se não contasse o que sei. mas por egoísmo e estupidez. – Ele está na minha casa. Não foi fácil. – Virou-se para Emily com um brilho no olhar que a deixou sem fôlego. subornou o delegado para retirar o nome dele do processo. E não haverá qualquer dúvida sobre que nome vai constar do mandado. – Ele vai sair quando eu mandar. Emily! – Phillip voltou a partir para cima de Daniel. que fez o coração de Emily saltar. Howard. falei com meu amigo. Mas era mentiroso? Ela sabia que Daniel não mentia.

o coração disparado e os olhos cheios de lágrimas. – Emily – Daniel chamou. Trata-se de um modo baixo para conquistar o coração de uma . que deu uma cabeçada no peito de Daniel e agarrou-o ao mesmo tempo. estreitando os olhos –. O jogador. nem por vingança. Eu não. Saltonstall. – Ora. Canton. tropeçou no abajur derrubado e se espatifou no chão. – Filha. esforçando-se para conter as lágrimas que sufocavam seu coração. Phillip acendeu outra cigarrilha. foi para o outro lado do aposento. endireitando o abajur quebrado da esposa.. Meus amigos o viram com ela duas vezes depois daquela noite. Seu pai a puxou para junto da estante de livros. Canton...Voltou a encarar Phillip. – Bem. – Parem. Sr. Vim para falar com o senhor.. Seu corpo todo doía.. os punhos cerrados. pontadas lancinantes atravessavam seu peito. que se abaixou e desviou do golpe. – Preciso pensar. – Vocês são cavalheiros. tentando acertar um soco no olho de Daniel. – Daniel recuou na direção da porta. Os dois caíram sobre a cadeira. – Era você. – Não quero brigar. – Deixe-os. vou embora. – Italian Garden? – Phillip se agitou e derrubou cinzas no tapete da Sra.. seguido pelo tilintar de vidro se quebrando. Saltonstall. Canton foi capaz de dominar a fúria de Phillip. Daniel se livrou de Phillip e. – Faça as perguntas que quiser e tome sua decisão. Nem por amor. depois de se levantar com di culdade. eu não mentiria para você e você sabe disso. Canton ordenou sem piedade.. derrubando o abajur Tiffany da Sra. – Eu. Nem mesmo o Sr. Saltonstall. mas Emily merece a verdade. E sobre o Italian Garden. papai. Não esperava ter o privilégio de acusar Saltonstall frente a frente. Você disse que eu deveria pensar. Você é o Daniel com quem Emily andava pela universidade? – Eu mesmo. – Conte a ela. Vi você no restaurante com Emmeline Graves. Quando Phillip tentou acertá-lo novamente. – Não sou uma ameaça a você. – Sua versão da verdade é diferente da minha. vocês dois! Parem! – Emily passou os braços em torno do corpo. Phillip – o Sr.. você está mentindo. Phillip voltou a atacar. – Tire Ludlow daqui – o rapaz pronunciou. Canton. – Mantendo os olhos xos no pai. Emily continuava pregada à estante. A queda provocou um ruído alto.. – Foi você quem começou com suas palavras. Phillip se pôs de quatro. ela foi se afastando até a porta. – Você! – Seu pescoço e faces adquiriram uma tonalidade profunda de vermelho.. para então se levantar. sobre a prisão. – Levante-se. Com um gemido alto. Sei. você ouviu os dois lados – disse o pai.

– Boa noite. Daniel hesitou na porta. ela seria uma tola se casasse com Phillip. – Você não tem nada. As vozes do pai e de Daniel ecoaram no vestíbulo. Emily espiou por cima do corrimão. erguendo os olhos para ela. Fizera uma promessa. Subiu a escada correndo. – Ah. – Emily! Isso é absurdo! Como pode acreditar nele? Ela não sabia em que. Saltonstall e Phillip. Os jornais haviam anunciado o seu noivado. tenho provas. Emily manteve a cabeça erguida. fazendo um sinal na direção de Phillip. três segundos. Não só a Phillip. Não é uma atitude civilizada. – Daniel. Ela girou nos calcanhares e se dirigiu ao quarto.. Dera sua palavra. o que eu fiz? . O ruído da porta se fechando atrás dele reverberou no peito de Emily. ela se tornaria Sra.mulher. Seu olhar rme gravou a fogo a verdade em sua alma. Parando no patamar do segundo andar. – Silêncio. por mais que desejasse acreditar que era forte. Em dez dias. Emily. Seu noivo mandara prendê-la. abrindo um abismo enorme. mas à família Saltonstall. Senhor. não pode acusar um homem sem provas.. Se Daniel estivesse certo. sim. Phillip Saltonstall. Emily – disse Daniel. Fitou-a por um. Phillip! – Ela se virou para ele. – Daniel nunca mentiu para mim. furiosa. – Tenho provas – ele retrucou. sentou-se no chão. embora seu coração estivesse despedaçado. Não dê ouvidos a ele. Ah. como sua mãe insistia em afirmar. Então. Ao sair da biblioteca. Uma vez no quarto. era fraca. ou em quem acreditar. A sociedade esperava pelo casamento. Porém. Não tenho tanta certeza que posso dizer o mesmo. dois. foi a vez do Sr. Emily disparou a correr. e admitir a verdade. Já você.

usando o vestido que sua mãe queria. Descanse. Quanto a Emmeline. – Onde está papai? – Exibiu seu melhor sorriso para Bernadette. agora. Manteve sua inocência. – Ora. . Phillip Saltonstall. – Sinto tanto calor neste vestido. vai conduzir a filha ao púlpito em quinze minutos. depois da briga com Daniel. – Você é a noiva mais linda que já vi. Depois do confronto com Daniel. Bernadette. Jamais. Emily respirou fundo. Acredito em você. voltando a fechar a janela.. seus passos lentos e pesados. Acabara. Bernadette. Uma fila de homens negros atravessava a rua. Eu preciso. Emily. sentimental e galante. então. exposta ao vento frio. O Sr. Naquela noite. – Não sei se vou conseguir chegar ao púlpito – acrescentou. Amar Phillip. abrindo a janela e en ando a cabeça para fora. Sem esperança. Vou encontrar seu pai. – Está pálida. Afinal. Saltonstall encomendaram orquídeas de uma estufa na Flórida e decoraram o Clube Phoenix com esplendor e opulência. no ar frio do fim de tarde. e Phillip se transformara em um sonho. Amar o Senhor. Era domingo. Bernadette segurou Emily pelos ombros e a beijou na face. atencioso. – Pousou a mão na testa de Emily. Gentil. e a Sra. o que está fazendo? – perguntou sua dama de honra. Phillip. querida. Emily sentia como se estivesse afundando lentamente em um buraco escuro e profundo? Foi até a janela e se esforçou para abri-la. Era uma coisa do passado. restritos pelos grilhões. Decidiu que se casaria com Phillip. Abatidos. Emily. Acredito em você. Emily endureceu com a sensação que tomou conta de seu peito e se afastou da janela. O cheiro de enxofre fez as narinas de Emily arderem. Amar uns aos outros. Eu devo. Esta é a última fotografia.Capítulo Vinte e Dois Noite de Ano Novo – Parada. Por que. complacente. um dia para amar. Emily desistira de lutar. – Vai pegar uma pneumonia. Emily desistira completamente de lutar. O fotógrafo desapareceu debaixo da pequena cortina preta e tirou a foto.. A mãe e o pai haviam virado Birmingham de cabeça para baixo para dar a ela aquele dia. ela seria Sra. – Ele deveria estar aqui. Phillip. Não mandara prendê-la. O som de correntes arrastando chamou sua atenção para um ponto adiante na avenida. Terno.

com ânsia de crescer. Gostou do que eu estava fazendo. – Sim. Havia se formado em Haverford. – Não está perdendo uma filha. Puxou a gola alta e justa. Eu havia acabado de abrir meu banco e precisava de capital. – Uma noite sagrada. Molly. – Sim. Ah. mas sim ganhando um filho. as mãos cruzadas às costas. Linda e doce. erguendo um pouco a voz. mas não até que eu me afastasse de Willoughby. Emily riu baixinho. transpirando sob o vestido de cetim pesado. recusaria toda pompa e circunstância e se casaria na própria casa. no maior casamento da alta sociedade daquela temporada. eu sei. por misericórdia. como eu. – A igreja está lotada. amada. – Eu preferiria estar usando o de Taffy. Queria se associar a mim. Então. Hayes? Muito bonito. – Papai. tremendo e. abrindo um banco. Emily não poderia ter a criada de sua casa ao seu lado. – Tanta gente dedicando seu tempo a nós na noite de Ano Novo. investir seu dinheiro. Ele me . não Bernadette. – É uma grande desculpa para uma festa. – Parece sua mãe quando me casei com ela. segurando-a pelos ombros. Lars investiu. – Ah. Se pudesse voltar no tempo e fazer tudo de novo. ao mesmo tempo. papai? – Emily beliscou-lhe o queixo. – Este é o que foi feito pela Srta. sentindo-se livre. e o coração de Emily se agitava. apenas um homem sábio que acreditara em Canton e investira em seu futuro. seria sua dama de honra. com quem está falando? Com os varredores de ruas? Ele se virou para ela. Canton se pôs a andar de um lado para outro. – Então. Bastava um olhar para o vestido. – O pai foi até a janela. Parou diante do vestido de Taffy. assim como sua mãe e eu. – O Sr. as mãos ainda cruzadas às costas. O Sr. – A noite está fria e limpa – comentou. Elegante e imponente em seu smoking preto com um cravo branco na lapela. Juro que o peso deste vestido está me dando dor de cabeça. O governador acabou de chegar com a esposa. na presença apenas de amigos e familiares. – Pensei que tio Lars tinha investido no seu banco. naquele tempo – o pai continuou com sua história e com o passeio pela sala – nossa cidade era jovem. Canton beijou a lha na testa e a abraçou. esperando que Emily o vestisse depois da cerimônia. afastou-se. mas sem sorrir. – Emily sentiu o coração falhar uma batida. – Willoughby era um homem conhecido em Birmingham. Ele apareceu e se ofereceu para ser meu sócio. No entanto. O vestido de Taffy estava pendurado no cabideiro a um canto.Emily se sentou no sofá da Igreja Metodista Unida. Tio Lars não era um tio de verdade. no púlpito. Era apenas um bebê quando o conheci. papai. leve. Ele veio de Filadél a. tinha o cenho franzido e a sombra da preocupação no olhar. por que não está sorrindo. como queria se libertar daquela monstruosidade. A porta se abriu e seu pai entrou. em vez deste aqui. – Lembra-se de Ward Willoughby? Talvez não.

ofereceu uma quantia respeitável como investidor. estava deliciada por poder usá-lo no casamento da lha. Em. – Papai. e o senhor está falando de homens sem valor e ações sem valor. . Con e em Deus. Eu não sabia se minha herança seria su ciente para manter os negócios em andamento. durante os três primeiros anos. estou prestes a me casar. naquele ano em particular. – Às vezes. Ou até Willoughby recuperar seu investimento. – Papai. – Era o tipo de homem que todos queriam ter por perto. Não podia passar o controle do banco para ele. Fui à cidade no dia seguinte. forçando-o a se virar para ela. Lars entrou em meu escritório com uma expressão que dizia: “Bem. tentando me dizer? – Emily. querida. porém. Eu teria perdido tudo se houvesse assinado aquele contrato. ela mandava fazer um vestido de Natal e. – E se isso significa decepcionar uma porção de gente importante? – Ocasionalmente. Um belo dia. poderia perder uma grande oportunidade. está pronta? – perguntou a mãe. Algo nas maneiras do pai fez o coração de Emily acelerar. – Emily segurou o braço dele. – O que aconteceu? – Ele começou a impor condições. eu teria de passar o Canton Exchange para o nome dele. – Continue – ela pediu. Ah. entrando no cômodo. Devemos estar preparados para ouvir o que Ele tem a dizer e reagir a qualquer momento. Todos os anos. Bernadette está à sua procura. Cinco anos se passaram antes que Lars aparecesse. – Como se distingue entre nervosismo de noiva e con ança em sua intuição. insatisfeito com minha indecisão. além de um teto sobre nossas cabeças. por favor. – Seu vestido é perfeito. os olhos fixos à frente. perturbado. Você tem de fazer o que é certo para você mesma. Sua mãe e eu nos deitávamos à noite e conversávamos. não nos importamos com o que os outros pensam. Se eu quisesse o dinheiro e o apoio dele. linda e jovial em seu vestido escarlate de acabamento em pele. O pai se balançou para frente e para trás. – Howard. mas sabendo que tinha de recusar a oferta de Ward. sem nos importarmos com as consequências. Emily atravessou o aposento para se juntar ao pai na janela. Mas. realmente. quando chegou o momento. – O que está. maravilhados com nossa sorte de termos conhecido Ward Willoughby. você está simplesmente linda! – Seus olhos se encheram de lágrimas. – O que aconteceu com Ward. simplesmente não consegui assinar os papéis. cheguei”. temos de acreditar em nossa intuição. papai? Como soube que seus instintos com relação a Willoughby estavam certos? – Isso se chama fé. A cidade estava crescendo tão depressa. Emily. papai? – Ele havia planejado investir no banco com ações sem qualquer valor. Se eu não fosse ágil. finalmente. Sabia que sua mãe e os poucos funcionários do banco cariam desapontados.

iluminada pela luz natural. como se ele flutuasse sobre a cidade. Tim sorriu ao sentir o estômago se apertar.– Não vou usar este vestido. Francamente. – Gostaria de saber se você pode responder a algumas perguntas sobre Colby Ludlow. Tim O sol de julho parecia mais próximo quando visto do topo da colina. Desabotoe para mim. Tim seguiu Cleo por um corredor longo. – Ele conhecia Cleo da comissão de restauração da cidade. Devia ter sido incrível viver ali. em que posso ajudar? – Cleo Favorite cumprimentou com o sorriso típico das mulheres sulistas clássicas. Vou precisar dela em uma reunião dentro de poucas horas. – Além do mais. Fazia alguns anos que ele fora até lá. – Tim Rose. como se brotasse da própria montanha e dos bosques. senhora. Tim girou o trinco. mamãe. Pare de agir como criança. É uma mulher adulta. que se curvava como um esconderijo debaixo da . – Olá. a porta se abriu e ele se viu na entrada esplendorosa de madeira e vidro. – Não recebo visitas de homens atraentes com frequência. Era uma extensão de Red Mountain. – Ela o estudou. Os passos de Tim ecoavam no caminho de pedras quando ele se caminhou na direção da casa. – Não vejo por que não. por favor. Mãos hábeis domavam a natureza selvagem e transformavam seus elementos em obras de arte da arquitetura. Emily sorriu para o pai. Continua noivo? – Ela riu da própria brincadeira e sinalizou para que ele a seguisse. – Não comece outra vez. você era mais bem comportada quando tinha três anos – a mãe repreendeu. oferecendo uma vista espetacular do vale. já erguendo as mãos para tirar o véu excessivamente longo. Olhando o horizonte além das copas das árvores. o que o traz aqui? Veio devolver minha fotografia? – Ainda não. Emily. Emily deu as costas à mãe. – Nunca é tarde demais para mudar. os cabelos loiros impecáveis e o colar de pérolas no pescoço. Tratava-se de uma maravilha arquitetônica. afastando as mãos de Emily e reposicionando os grampos que prendiam o véu. – Não. do que da cidade. A parede dos fundos consistia de janelas que iam do teto ao chão. é tarde demais para mudar o vestido. à brisa fresca que soprava de Jones Valley. Ele havia estudado o projeto na faculdade. esperando ouvir mais detalhes. mas a visão da estrutura de pedras e vigas de madeira sempre o encantava.

presos em um penteado pompadour. Colby era professor permanente da Universidade do Alabama em Birmingham. aos vinte e dois anos. assim mesmo. provocado pela sensação de estar utuando acima das copas das árvores. – Nos anos oitenta ele saiu em licença. – Queria saber sobre Colby? – Cleo caminhou ao longo da leira de fotos e retratos e apontou para um próximo ao nal. Pertenceu a Phoebe Malone. não? – disse Cleo. e um grande diamante solitário adornava seu dedo anular. afinal? – Estava em uma caixa. Os cabelos escuros. – Este é Colby Ludlow. Não era o vestido que Charlotte encontrara no baú. em torno da cozinha. – Professor Ludlow.. Como não percebera antes? A semelhança. – Este é Colby em seu aniversário de cinquenta anos.escada. – Onde a conseguiu. – Uma mulher linda. neto de Daniel e Emily. lamentando que a imagem não fosse colorida. À direita. Tim aproximou-se para estudá-la melhor. – Sinto muito por ouvir isso. no centro? – Sim.. Mais uma vez. – A dona da loja de noivas? Sua ex-noiva? . cada uma repleta de livros com capas douradas e de couro. estendendo a foto de Phoebe Malone com os gênios do professor Ludlow para Cleo. com aquela gola alta e mangas muito justas. em 1912. O pai dele era Daniel Canton Ludlow. – Devolveu a fotografia a Tim. apresentavam-se coroados por um véu de renda. As paredes à sua esquerda eram cobertas por prateleiras. no dia de seu casamento. – Ergueu a foto que Tim encontrara na caixa de sapato. – O que me diz desta fotogra a? – Tim indagou. – É ele. filho de Emily. Ele parou para estudá-la. – Os registros históricos dizem que ela não queria usar esse vestido por achá-lo volumoso e pesado demais. – Sim. Já ouviu esse nome? – Deveria? – A filha dela é Charlotte Malone. Tim caminhou pela biblioteca. Olhos luminosos e serenos encaravam o fotógrafo com rmeza. – Cleo virou a foto. No centro. As mãos de Emily estavam cruzadas em seu colo. Eu diria que tem mais ou menos a mesma idade aqui. era linda. para então se abrir em uma biblioteca muito clara. Ele tem os olhos dos Canton. Charlotte. Ele morreu na Normandia quando Colby era um bebê. Onde conseguiu esta foto? – Cleo parou diante de outra fotogra a na galeria. claro. mas eu não sabia que ele havia trabalhado na Universidade do Estado da Flórida. – É ele. – É Emily. – Ela se apoiou em sua escrivaninha e cruzou os braços. Sim. – Mas usou. Vi Charlotte Malone aqui há não muito tempo. a parede era uma galeria de fotografias. ele sentiu o aperto no estômago. – Uma moça adorável. – Quero informações sobre Colby Ludlow. havia uma foto de Emily em seu vestido de noiva.

– Disse que ela encontrou um vestido de noiva dentro do baú? – Sim. A vibração que envolvia seu coração se dissipou quando seus instintos o advertiram de que devia ficar quieto.. A saia é evasê e forma um “v” na frente...– Ela mesma. a cabeça atirada para trás. – Emily Canton ia se casar com Phillip Saltonstall. nem precisava de um baú velho e feio. – Certo. – Está querendo saber de onde veio o baú? Recebemos peças de todos os cantos dos estados do sul para o leilão. – Mas no dia do casamento. Desde que o descobriu.. porque não queria. – Obrigado pela ajuda. ela mudou de ideia e.. meu amigo. Tem certeza? – Charlotte comprou o baú aqui. Infelizmente. – Tim se levantou e começou a se dirigir à porta. O fecho estava soldado e tivemos de serrá-lo. fugiu da igreja. Por outro lado. transbordando de felicidade. em vez de se casar com Phillip. talvez. desapareceu dentro dele e voltou com uma fotografia na mão. – Mostrou o recorte de jornal. Casou-se com ele naquele mesmo dia. O leiloeiro disse a ela que o vestido foi confeccionado em 1912. também não temos o vestido com que ela aparece na outra fotogra a. – Meu Deus. com pérolas na cintura. uma imagem granulosa e apagada de Emily na garupa de um cavalo. das Indústrias Saltonstall. Emily dizia não saber que m levara esse vestido. com Daniel Ludlow. Estava rindo. tudo o que temos é esta fotogra a. É este o vestido? – Cleo apontou para a foto. um vestido lindo. Tim praticamente sentiu a emoção dela vibrando em seu peito. que família guardaria um retrato de sua . – Cleo se apressou em bloquear a porta. – Tim. – Ela se abaixou para espiar a tela do computador. Ela estava usando o vestido. mas mantemos um inventário. – Tim apontou para Phoebe na foto. Preciso ir. ou talvez demais. Cleo. Não pode ser. montada em um cavalo. agarrada a um homem de cabelos escuros. – Conheço os Saltonstall – disse Tim. responda. Cleo se endireitou com expressão perturbada. – O que o fato de Phoebe Malone ser mãe de Charlotte tem a ver com Colby Ludlow? – Acho que.. – Esta é a mãe dela.. digitou algumas palavras e franziu o cenho. – Cleo voltou à escrivaninha. Ficou furiosa. não costureira. – Sou arquiteto.. abriu um armário estreito. – Tim hesitou. Charlote encontrou duas mulheres que usaram o vestido. – Nada disso. Falara o bastante. Cleo retirou um molho de chaves do bolso da calça. – Quando estava viva. a boca aberta. – Sabia que Charlotte encontrou um vestido de noiva no baú que comprou no seu leilão? – Interessante. Estranhamente. Por que esse interesse repentino pelos Ludlow? E a curiosidade sobre um baú vendido no leilão? Está escondendo alguma coisa. – Cleo riu. Movimentando-se com rapidez. – É este o vestido? Na moldura havia um velho recorte de jornal. – É feito de seda e cetim. – Não estou encontrando nenhum baú que tenha sido vendido no leilão de primavera.

matriarca usando o vestido de noiva errado? Entende o que estou dizendo?
– Sim, é uma pena. E os herdeiros da propriedade Ludlow? – Tim perguntou, aproximando-se
lentamente da porta.
– Estão todos mortos. Colby foi o último. – Cleo acompanhou os movimentos dele com a
mesma lentidão. – A fundação é a única herdeira.
– Ele não se casou?
– Sim, casou-se com uma moça de Woodward, mas não tiveram lhos. No nal da década de
noventa, eles se divorciaram e ela se mudou para Florence, para car perto da família da irmã.
Colby me contratou para administrar a propriedade depois que a avó dele morreu. Nossas mães
eram amigas. Quando Colby morreu, um conselho de administração assumiu o controle, mas
mantiveram meu contrato para supervisionar as operações cotidianas e administrar a fundação.
– O que aconteceria se surgisse um herdeiro?
Tim pousou a mão no trinco da porta.
– Assim, caído do céu? Ou emergindo das vigas de madeira? – Cleo apertou a fotogra a contra
o peito e soltou um riso zombeteiro. – Não há herdeiros, Tim. Não sei onde você pretende chegar
com todas essas perguntas, mas nós procuramos por um herdeiro depois da morte de Colby. Mesmo
que um aparecesse, o espólio está nas mãos dos conselheiros. Além disso, Tim, a história dos
Ludlow não tem proporções bíblicas. Existem pessoas ainda vivas na cidade, que conheceram
Daniel, Emily e Colby. Acredite, se houvesse um herdeiro, nós saberíamos. A linhagem dos Ludlow
acabou, o que é triste.
Cleo marchou de volta ao armário, seus passos con rmando sua a rmação: “não há herdeiros”,
e devolveu o recorte de jornal às prateleiras escuras.
– O que aconteceu a Colby? – Tim perguntou. Talvez estivesse imaginando coisas, mas toda vez
que olhava a fotogra a de Phoebe com o professor Ludlow, ele via Charlotte. – Ele se aposentou da
Universidade e fez o quê, depois?
– Jogou muito golfe. Viveu a vida que queria.
– Foi um bom homem?
– Creio que sim. Era generoso, gentil, decente. – Cleo encarou Tim. – Sabe, Tim, se Charlotte
tem o vestido que Emily estava usando na garupa do cavalo, ele pertence à Fundação Ludlow. E
também pertence à cidade e ao Instituto dos Direitos Civis. Emily usou o primeiro vestido de noiva
confeccionado por uma gurinista negra no sul. Foi presa por isso. Precisaremos que o vestido seja
devolvido.
– Foi presa por agulhas, linhas e alguns metros de tecido?
– É difícil para nós imaginarmos, mas, sim, naquela época, a lei dos iguais, porém separados
era levada a sério. Portanto, se você sabe onde está o vestido... O melhor a fazer é me ouvir e trazêlo para mim.
– Mais uma vez, obrigado pela ajuda, Cleo. – Tim abriu a porta, lamentando sua decisão de ir
até lá. – Preciso ir à reunião que mencionei. Não precisa me acompanhar.
A última pessoa a quem Tim precisava ouvir era Cleo Favorite. A primeira pessoa com quem

Tim Rose tinha uma obrigação era Charlotte Malone. Tinha de encontrar um meio de provar que
Colby Ludlow era pai dela.

Capítulo Vinte e Três
Charlotte
Charlotte saiu de sua sala para o showroom empunhando o jornal News, aberto na página da
coluna social.
– Dix, estamos em um momento crucial. A matéria sobre o casamento de Tawny é fantástica.
Mas em vez de encontrar Dixie no meio da loja, encontrou o homem de púrpura.
– Olá – Charlotte cumprimentou. – O senhor de novo.
– O vestido é seu, sabia? – ele falou sem sequer piscar.
Charlotte dobrou o jornal e foi até o balcão.
– Por que não me fala de uma vez quem é e qual é a sua ligação com o vestido?
– Já provou o vestido?
– Não, e para ser franca, não tenho intenção de prová-lo. Não vou me casar, mas
encontraremos a noiva certa para ele. Não que isso seja da sua conta.
O balcão proporcionava uma barreira perfeita.
– Mas você é da minha conta.
O olhar dele, o mesmo azul intenso, pareceu envolver o coração de Charlotte, abalando seus
alicerces. Os alicerces que diziam: “Charlotte é autossu ciente. Charlotte não precisa de ninguém.
Charlotte é imune a um coração partido”.
Não podia tá-lo por muito tempo. Sentia-se inquieta, como se estivesse cercada de santidade,
e se ficasse ali por mais um segundo, implodiria.
Ou pior: explodiria em lágrimas.
Ainda assim, em meio ao turbilhão de calor e calafrios se expandindo em seu peito, ela se
sentia profundamente em paz.
– Como posso ser da sua conta? O senhor não me conhece. Acho que deveria ir embora.
– Está bem, eu irei. – Ele recuou até a porta. – Apenas lembre-se de que o vestido é seu.
– Não acho que alguém vá me processar por ele.
– O vestido é seu.
O telefone tocou. Quando Charlotte atendeu, uma voz aguda feriu seu tímpano.
– Sou Cleo Favorite, da Fundação Ludlow.
– Cleo, como vai?
Charlotte voltou a olhar para o homem de púrpura, mas o lugar onde ele estivera se
encontrava vazio. Para onde ele fora? Como conseguia entrar e sair sem produzir qualquer ruído?
– Quero ver o vestido.

– Que vestido?
Charlotte procurou pela loja inteira e carregou o telefone sem o com ela, quando subiu a
escada. Ele se fora.
– O vestido que você encontrou no baú que comprou em nosso leilão em abril.
– Como sabe que o encontrei?
– Ele está na sua loja?
– Não, está no meu apartamento. Cleo, como soube que eu encontrei o vestido?
– Podemos marcar um encontro às sete horas?
– Bem... Sim, eu acho. – Ora, era como se estivesse sendo atropelada por um caminhão. – Não,
espere, Cleo. Oito horas é melhor. Do que se trata? Quem disse a você que encontrei um vestido no
baú?
– Contarei quando nos encontrarmos. Qual é o seu endereço? Consultarei o mapa no Google.
Quando Charlotte desligou, seus nervos estavam à or da pele. O que estava acontecendo?
Primeiro, o estranho homem de púrpura aparecera. O vestido é seu. Em seguida ao seu literal
desaparecimento, Cleo telefonara, exigindo ver o vestido.
Charlotte deu a volta no balcão.
– Senhor? Homenzinho? – Caminhou pela loja, mas ele não estava na sala de provas, ou no
estoque, nem na cozinha ou na sala dela. – Senhor? Homem de púrpura...
Ele não estava no andar de cima. Não estava no banheiro.
Saindo pela porta da loja, Charlotte esquadrinhou a calçada e o outro lado da rua. Não havia o
menor sinal dele. O vento assobiou pela rua, e ela sentiu seus braços arrepiarem. Atravessando o
showroom, ela se postou no lugar que ele ocupara e respirou o ar que ele havia respirado. Uma
fragrância suave, porém distinta, de almíscar pairava no ar.
– Char, voltei.
Dixie emergiu da cozinha, os saltos altos fazendo barulho, a bolsa Dolce & Gabana pendurada
no braço. Ela tirou o papel de um pirulito e enfiou-o na boca.
– Aquele homem estranho esteve aqui. Aquele que usa camisa púrpura e tênis brancos.
Charlotte ergueu um pé e apontou com os dedos das mãos.
– Essa história está cando sinistra. O que ele queria? – Dixie desapareceu na sala de estoque e
voltou usando seu paletó Malone & Co. – Viu o jornal? O repórter fez um excelente trabalho na
matéria. A foto de Tawny ficou tão boa. Você é um gênio em se tratando de vestir noivas, Char.
Dixie parou atrás do balcão e pegou o jornal que Charlotte deixara lá.
– Ele disse que o vestido é meu.
– Quem? O repórter? – Dixie indagou, abrindo o jornal com o pirulito na boca, a bochecha
distendida em uma bola perfeita.
– Não, Dix, preste atenção. O homem estranho. O sujeito púrpura. Ele disse que o vestido no
baú é meu.
Dix fez uma careta.
– É claro que é seu. Quem disse que não é?

e a barba curta cobria suas faces. A última palavra provocou uma pontada de calor em seu coração. O vestido é meu. Nem se deu o trabalho de tirar as compras de dentro antes de fechar a porta. querendo saber do baú e do vestido. Sentar-se no balcão era algo que ele sempre fazia. – Precisa de ajuda? Tim passou por ela e se abaixou para recolher as frutas. Mas ele diz: “É seu”. Como na manhã em que subira a montanha para orar. laranjas e um pacote de bolachinhas salgadas pelos ladrilhos. ele exibiu os dentes perfeitos. essas coisas acontecem. – Onde está sua namorada? – Não tenho namorada. seu coração começaria a bater mais forte e ela ficaria sem fôlego. Evitou olhar para ele. minha amiga. Charlotte entrou em seu apartamento. Os cabelos loiro-escuros e longos emolduravam seu rosto. tanto no coração de Charlotte. afastou os cabelos do rosto. – Como ela descobriu que havia um vestido? – Essa. pois adorava seus cabelos e lábios. – Vou receber alguém – explicou. – Mas o homenzinho estranho insistiu em uma coisa. Tim sentou-se no balcão e pôs a pasta ao seu lado. – Vim convidar você para jantar. um saco de supermercado e a chave. desde que o homem de púrpura aparecera. na fruteira sobre o balcão da cozinha. uma a uma. o laptop. – O que está fazendo aqui? O que havia de diferente naquele dia. um minuto depois de ele ter dito isso. acomodou-as nos braços. Então. maçãs. é uma boa pergunta. Tinha um jeito especial de se colocar à vontade. Cleo Favorite. Ela quer ir ao meu apartamento às oito horas. Tim depositou as maçãs e laranjas. É claro que é meu. espalhando pão. Às cinco para as oito. Quando se virou para fitá-la. exatamente como ela gostava. – Bem. telefonou. ela sentira uma mudança em seu espírito. – Então. Charlotte acordara uma mulher comum em um dia comum. . da Fundação Ludlow. quanto em seu apartamento. a nal? Dezenove de julho.– Não sei. o vestido que você encontrou no baú é seu”. – Charlotte baixou a voz e arrastou as palavras. tentando equilibrar a bolsa. e se olhasse por muito tempo. No entanto. – Não posso – Charlotte respondeu. mas ele não diz: “Ei. abriu a despensa e pôs o saco rasgado na prateleira. – Charlotte devolveu o telefone à base debaixo do balcão. Eu comprei o baú. Quando Charlotte o encarou. O saco de supermercado foi parar no chão. Ele trazia uma pasta em uma das mãos.

– Ou antes da sua visita. O que ela sabe. não? Quando acreditara que ela tinha um encontro com outro homem. Charlotte vestiu calça jeans e um pulôver e calçou seus chinelos favoritos. respirando fundo. Não sei quanto tempo ele vai ficar aqui. O que Tim estava fazendo lá? Quando ela começava a expurgá-lo de seus sentidos. Veja com quem. Charlotte. apagou a luz do quarto e voltou para a cozinha e para Tim. – Tim a segurou pelo braço quando ela passou por ele. Quando foi até o banheiro. descendo do balcão. ele aparecia e cava inteiramente à vontade em sua cozinha. Quando fechou a porta do quarto. a intoxicava. – Cerrou o punho. aonde vai? – Meu quarto. uma onda de luz dourada chamou sua atenção. Ele a enfurecia. Bem. e os os de ouro brilhavam. – Não. – Deslizou os dedos pelas dobras da saia. O que ele quer? Lembra-se dele. – Não posso. – Hum. – É claro que pode. não? Ele me ajudou a resgatar você do baú. A nal de contas.– Que tal jantarmos depois que você receber sua visita? – Ele deu de ombros. – Com todas as partes do meu ser. Qual é a sua história? Cleo vem aí para ver você. Passava das . mas valeu a pena mentir para ver a sua cara. – Ei. Sim. Convidando-a para jantar. – Lembre-se de que ele não te ama de verdade. Cabeça Fria e Con ante tinha de lutar contra o monstro dos olhos verdes. que eu não sei? E quem é o seu amigo. então. fazia com que ela desejasse entregar o coração para ele sem perguntas. – Seja forte! Por outro lado. A nal. Não deveria. talvez você também não saiba. Portanto. apoiou-se nela. A confiança de Tim se abalou um pouco. Ah. vestido mágico. A cintura de pérolas dava a volta no vestido como um rio incandescente. Quero me trocar. não vá ceder. – Voltou a se sentar na cama. o homem de púrpura? – Charlotte se inclinou e ouviu. – Pode guardar um segredo? – Charlotte riu baixinho. ainda vestindo o manequim no canto do quarto. Charlotte se sentou na beirada da cama. ou melhor com o que estou conversando. Estou apaixonada por Tim. A saia de seda tremeluzia. eu sei. mas estou. por mais que o ame. Charlotte olhou xamente para o teto e. – Charlotte se dirigiu ao quarto. Posso? Ela continuou pelo corredor. e Tim está aqui. – Não é gostoso.. – É um encontro? – perguntou. o Sr. Hillary prendeu você no baú por quarenta anos. Por um longo momento. ele ficara com ciúmes. Charlotte tirou os sapatos e a saia e se inclinou para o espelho da penteadeira. é? – Nunca traí você. O vestido. Por que não conseguia esquecer Tim? E por que objetos inanimados têm histórias que não podem contar? Prendeu os cabelos. Um sorriso curvou os lábios de Charlotte. – Ei. para o vestido..

Por que está me mostrando esta? – Você a conheceu? – Emily Ludlow? Ela já era uma velha senhora quando nasci. Tim. – Como sabe? Tim. pegou um refrigerante para Tim e outro para si mesma. depois de quase um século sufocada por espartilhos. – Encontrei uma fotogra a de Emily Ludlow quando estava fazendo pesquisas para meu projeto no centro da cidade. Fui até lá hoje. ao lado do telefone. afastando os cabelos do rosto. A mulher é astuciosa. como um mano. imagino que quanto mais largo melhor. – Como podiam usar esses vestidos de cintura baixa? Bem. – Como quiser – Charlotte respondeu com um olhar descon ado e foi abrir a porta. David está bem. – Investigando o quê? Estão abrindo concorrência para reformas? Quando estive lá. e Charlotte devolveu seu refrigerante à geladeira. em abril. – O que foi fazer lá? – perguntou. estendendo o elástico a ele. tudo bem? – Tim perguntou. Amigo. os olhos azuis de Tim eram como areia movediça. o que está acontecendo? – Ela quer ver o vestido. Charlotte suspirou. apoiado ao armário da cozinha. . todas usando chapéus e vestidos largos. todos os seus alarmes tocavam. Charlotte foi até onde estava o porta-lápis. – Tim? – Charlotte o encarou. Cleo. mano? – Charlotte acendeu a luz sobre a mesa de jantar e pegou o laptop. Entre. não é? Tim levou as mãos à cintura e resfolegou. e Cleo chegaria a qualquer momento. – Vou ficar. Tim prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e respondeu: – Investigando. retirou dela a fotogra a e a ofereceu a Charlotte. Ela trabalha depressa – Tim resmungou. posso apresentá-la. Quem vem te visitar? – Se você estiver aqui quando ela chegar. trate Tim como amigo. Tim pegou a pasta que trouxera consigo. – Deve ser Cleo. Com os cabelos afastados do rosto. a propriedade parecia impecável. – Olá. – Como vai a firma? Você e David estão se saindo bem? – A firma vai bem.oito horas. e retirou dele um elástico. – Ou talvez você já a conheça. – Charlotte dirigiu um sorriso falso a Tim e pôs o laptop na mesa. – Contou a ela sobre o vestido? – Mais ou menos. – Já vi outras fotos de Emily. – Charlotte abriu a geladeira. – Onde a teria conhecido? Por que a conheceria? A campainha tocou. – O que você me conta. – Cleo Favorite virá aqui. Ela espiou a mulher no meio de outras dos anos vinte. – Emily é a do meio.

. – O vestido está no quarto. Deus! Aqui está! – exclamou. é tão óbvio. Meu marido insistiu em jantarmos antes de eu sair. como se tentasse lhe dizer algo. A manchete diz: “Emily Canton saindo da igreja após casamento”. Charlotte se curvou para confirmar as iniciais da costureira. Com muito cuidado. Estou estufada. – Era conhecida por seus vestidos de noiva. – Taffy Hayes. virou a bainha e deslizou os dedos pela costura. há uns cinco anos. – Onde conseguiu esta foto? – Faz parte da história da Fundação Ludlow. – Eu também não esperava encontrá-la aqui. – Conhece este vestido. – Olá. – Deve ser o dia de sorte dos dois – Charlotte comentou. Ao entrar no quarto. A mãe havia contratado uma costureira muito conhecida. – É esse o vestido. Está. o braço enroscado no de um homem de terno escuro. estudando o recorte de jornal. Emily queria que seu vestido de noiva fosse confeccionado por Taffy. – Do que está falando? – Charlotte olhou para Tim. – Cleo gravitou em torno do vestido. arrisco-me a dizer que provavelmente estava fingindo. Cleo. enquanto Charlotte o posicionava ao lado do sofá. Está perfeito. E ela usava o vestido. assim que Charlotte entrou na sala. Ou ngiu que não entendeu. O que se passava entre aqueles dois? Mas Tim e Cleo caram calados. Charlotte parou para ouvir a conversa na sala. Cleo ajoelhou. Era a noiva à qual o homem de púrpura havia se referido. quer dizer? Dixie e eu não conseguimos descobrir. mas ela já estava com quase noventa anos. Charlotte. ela não parecia estufada. Usando terninho e saltos altos.– Desculpe meu atraso. Pelos céus. mas. Não esperava encontrá-lo aqui. Sra. Tim. e não sabia bem do que eu estava falando. Pertenceu a Emily Ludlow. Uma vez. mas seus pais e seu noivo resistiram. perguntei a ela onde estava. O vestido cou perdido durante décadas.H. você disse que não sabia. Nasceu escrava. a cabeça tombada para trás. Cleo abriu a bolsa e retirou uma fotogra a emoldurada. mas somente na comunidade negra. – Sabe o que T. Caroline Caruthers. Ela fez o vestido que aparece no retrato do casamento que temos na fundação. Cleo? – É claro que conheço. – É como se o tempo não houvesse passado. – Meu. encontrei esta fotogra a entre algumas velharias no sótão. – Ouvi falar de Taffy Hayes – disse Charlotte. Vou buscá-lo. ela arrastou o manequim com o vestido em torno da cama e saiu para o corredor. Uma grande bolsa preta pendia de seu ombro. mas foi libertada quando ainda bebê.. composta e perfeita. Tim. Emily Canton usara o vestido. Cleo emitiu um som de surpresa e fascinação. . Era uma costureira negra de Birmingham. que sacudiu a cabeça de leve e estreitou os olhos. Debaixo do vidro havia um recorte de jornal amarelado e desbotado com a foto de Emily Ludlow rindo. Conhecendo Emily.

– Há uma herdeira viva dos Ludlow. Se não são encontrados na propriedade. O vestido pertencia a ela. – Onde pretende chegar com isso? – Suas pesquisas deveriam ser mais precisas. o baú nunca foi propriedade da fundação. – Cleo cruzou os braços e bateu o pé no chão. eu comprei o baú e seu conteúdo. – Tim. – As leis municipais determinam que objetos históricos encontrados na propriedade pertencem ao espólio. – Ora. Tim se colocou ao lado de Charlotte. – Estamos procurando por ele há muito tempo. você nem saberia da existência dele. O baú nem sequer consta da lista em nosso inventário. Se eu não houvesse ido à fundação hoje. Fez esse vestido especialmente para Emily. mas Taffy era gurinista. Ele não pertencia a você antes e não pertence a você agora. – Tim assentiu com um sorriso atrevido para Charlotte. eu sei. Tim. – Ele pertence a mim. mas há provas de que pertenceram a ela. – Mas você foi e. seja de onde quer que tenha vindo. não estava à venda no leilão. Charlotte. está se esquecendo de um detalhe – Tim protestou. vou devolver a quantia que pagou pelo baú. – Cleo. – Não há nenhum herdeiro Ludlow. Agora a visita do homem de púrpura fazia sentido. – Este vestido não vai a lugar nenhum. – Cleo guardou o retrato na bolsa. embora seu perfume não a deixasse esquecer de sua presença. – Então. o vestido pertence ao Instituto dos Direitos Civis de Birmingham.– Emily foi a primeira mulher branca a usar um vestido de noiva confeccionado por uma gurinista negra. . Estou olhando para ela. mas este vestido pertence à Fundação Emily Ludlow e ao Instituto dos Direitos Civis. – Não o vendi. – Cleo retirou um maço de documentos da bolsa. pode me ajudar a carregar o vestido até meu carro? Charlotte. – A lei determina que objetos históricos passem a pertencer à propriedade ou a um herdeiro. que continuava a sacudir a cabeça. – Cleo deu a volta em torno do vestido. Foi um escândalo em 1912. tais objetos passam a pertencer à propriedade. – Cleo. – E se a lei não é su ciente para convencê-la. você mesma disse que o baú nem constava na lista do inventário do leilão. Carregar o vestido até seu carro? – Charlotte abriu os braços e se postou entre Cleo e o vestido. Cleo. Charlotte sentiu como se seu coração fosse coberto por um manto púrpura. espere um instante. por que vendeu o baú? Charlotte se manteve de costas para Tim. agora. Charlotte. pela atitude pioneira de Emily ao usar um vestido de noiva criado e confeccionado por uma mulher afro-americana. Havia muitas lavadeiras e costureiras negras. Aquele baú. – Receio que esteja enganada. – Ei. pura e simplesmente. – Tem razão.

acho que Colby Ludlow é seu pai. – Não tive a intenção de manchar a reputação dela. – Acho que você perdeu os últimos resquícios de sanidade quando caiu de motocicleta. – O quê? Como? Ele. – Ela não era esse tipo de mulher. Tim? – Charlotte estudou a foto. não tenho parentesco algum com os Ludlow. E a foto é sua. desempenhando com perfeição seu papel de enciclopédia Ludlow. Tim. mas Colby Ludlow deu aulas na Flórida no ano em que tirou licença da Universidade do Alabama em Birmingham. até ver isto. Charlotte. devolvendo a fotografia a Tim. mas acabou se esquecendo e. a m de quebrar o gelo e. esta foto estava na caixa... Tratava-se de evidência circunstancial.. mas era tudo de que ele dispunha para ilustrar seu argumento. pensando em convidar Charlotte para jantar.. Char. – Tim abriu sua pasta e pegou a fotogra a de Charlotte com a mãe. Onde a conseguiu? – Monte me entregou uma caixa com algumas coisas que foram de sua mãe. – O acidente de moto foi justamente o que me proporcionou um momento para re etir sobre tudo isso. Tim. enquanto você inventa uma história para essa pobre moça. . Fora até lá na intenção de explicar tudo a Charlotte.. de nitivamente. – Não tem prova. Ele pretendia entregá-la a você. Para impedir que Cleo saísse dali com o vestido.. não posso car aqui parada.Tim – Do que você está falando? – Charlotte o encarou como se ele houvesse enlouquecido. Tim entregou a ela a fotogra a do grupo da faculdade. ofegante. – Por que fez isso.. – Não tenho parente nenhum. O que achei muito estranho. – Está dizendo que minha mãe teve um caso com seu professor? – Charlotte sacudiu a cabeça. antes que Cleo a procurasse. Fique com ela.. claro. Bem. – Cleo bufou e caminhou em círculos. Lembra de mim? Aquela que só tem um galho na árvore genealógica? E. o que está tentando dizer? – Charlotte. velho. – Charlotte apontou para a fotografia. ele é. – Era linda. que também continha vários recortes de jornal sobre os Ludlow. – Não vejo esta foto há vinte anos. – Agitou as mãos no ar. contar a ela que Colby Ludlow era seu pai. – Telefonei para Monte Fillmore e perguntei se ele teria encontrando algo que pertencesse a você ou a sua mãe entre as coisas de Gert. – Tinha quarenta e cinco anos em 1981 – Cleo falou sem pensar. – Charlotte ergueu as mãos a m de impedir que Cleo continuasse. – Esta é minha mãe. – Ora. Levara a pasta consigo. então. – Pare. – Tim.

Tim. Charlotte segurou o braço dela com firmeza. Ele é meu. – Quando comecei a juntar as peças do quebra-cabeça. apanhando a bolsa dela ao arrastá-la para a porta. z algumas ligações. Ela tinha de ir embora. – Tirou as palavras de minha boca – ela retrucou.. o que. Imagino que existam estilistas implorando para você usar um de seus vestidos. Sabe o que ela disse? – O quê? O que ela disse. – Está mentindo. passou por ele. Cleo – declarou. Tire as mãos do meu vestido. Nenhuma. Tim? – Ela disse: “Você quer saber de Phoebe Malone?”. Noelia. os olhos fixos no vestido. inclusive para Noelia Ludlow. – Rasgou o papel e atirou os pedaços em Tim. – Para trás. vá atrás do homenzinho de camisa púrpura que o vendeu para mim. – Vou levar o vestido – Cleo anunciou em tom casual. – É melhor você ir agora. – Se quiser o vestido. Era uma mulher re nada da sociedade de Birmingham.. – Por que quer tanto este vestido? – Cleo inquiriu em voz estridente. – Telefonou para ela? Tim. Tim voltou para a sala. Charlotte se deixou cair no sofá. dando as costas a Cleo. – Tudo o que eu queria era subir ao cume da montanha para pensar e orar. Não tivera a intenção de deixar Charlotte nervosa. Por que está fazendo isso? – Quando perguntei a ela sobre o ano em que Colby ensinou na Flórida. Colby era independente e dono de si. mesmo que fosse. – Eu conheci Colby e a esposa. parece ter fugido dessa ameaça. atingindo-o de propósito com o ombro. – Você não tem qualquer prova de que Colby Ludlow seja pai de Charlotte. Qual é o seu problema? Que direito você tem de investigar minha vida sem o meu conhecimento? Com isso. velho como é. estendendo a mão para abrir o primeiro botão. Por que. ela suspirou. – Pare com isso. você é dona de uma loja de noivas. Veja o que . pois estava começando a se cansar dela. vai precisar de um mandado judicial. Uma fotogra a e o suposto testemunho da ex-esposa dele? Tenho muito mais que isso a meu favor. Este aqui. e podia ver que ela estava prestes a perder o controle.. Se não acredita. Ele vai confirmar. Tim se aproximou de Cleo e segurou seu braço.. Tim suspirou e se virou. – Que homenzinho de camisa púrpura? – O que me vendeu o baú no seu leilão.. desvencilhando-se dele. Charlotte. E você. Tim estendeu para Charlotte um papel com nome. Charlotte bateu no braço de Tim. não significa nada para você.. mas adúltero? Duvido. – Não vai se casar e. Não é possível que uma mulher de setenta anos se lembre de minha mãe em 1981. Respirou fundo e esperou que ela desse vazão a sua raiva. Tim não se mexeu. A porta bateu com estrondo.Cleo cruzou os braços com expressão cética. endereço e número de telefone de Noelia.

Tim. ou para dar a ele a chance de te conhecer. . sua mãe se apaixonou por Colby e se mudou para cá para estar perto dele. Minha mãe me amava. ela morreu. Ela disse que meu pai me amava.aconteceu. e o pai delas era bombeiro. me dei conta de que eu não tinha um pai em casa. Não sei. Nós nos divertíamos tanto. e ela respondeu: “Te amo mais”. simplesmente aceitei. ela me disse que ele tinha morrido. mas não podia ser meu papai. – Sinto tanta falta dela. – Sua mãe nunca disse nada sobre seu pai? Nenhuma menção? – Quando voltei da casa de Gracie e Suzie. por exemplo. Mas. Não sei como ou por que. Queria fazer algo bom para você. a mãe delas fez frango frito e pãezinhos caseiros. por que ela não se entendia com meus avós? Por que a mãe dela deixou o marido? Nós viemos de Tallahassee para Birmingham quando eu tinha três anos e nunca mais voltamos. Ele nos levou em um curto passeio no carro de bombeiros e. perguntei a mamãe: “Onde está meu papai bombeiro?”. cuidava muito bem de mim. me contaria mais. – Quando eu tinha uns seis anos. Gracie e Suzanna Gunter. – Deveria ter falado comigo antes. – Charlotte deitou a cabeça para trás e cobriu os olhos com um braço.. Quando Charlotte se virou para encará-lo. Meu coraçãozinho disparou e eu os observei de olhos arregalados pelo resto da noite. Como. – Uma vez. lamentando que seu ato galante houvesse criado aquela situação. Talvez buscasse suporte para criar você. – Descobriu um olho para espiar Tim. fomos tomar sorvete. – Charlotte afundou-se nas almofadas. Para o jantar. Quando assisti pela primeira vez ao seriado Tal Mãe. com copos altos do chá mais doce que já provei. quando passou pela Sra. Fingi que precisavam dele para apagar incêndios e resgatar gatinhos de árvores. – E pensei: “O que é isso?”. – Sim. achei estranho. um dia. Só vi meu avô duas vezes depois disso. vejo isso agora. Quando vi todos aqueles recortes sobre Ludlow na caixa. – E agora tenho tantas perguntas que só ela poderia responder. – Sinto muito. inspirando seu perfume. Pensei. Tim secou as lágrimas no rosto de Charlotte. Foi a primeira vez que dormi na casa de minhas amigas. Tal Filha . foi ao meu quarto para se desculpar e confessar que tinha mentido. Pouco depois. se estou certo. Quando fiquei mais velha. fiz mais perguntas. depois. Tim.. Eu tinha dez anos e era muito inocente e feliz com minha vida. Esse é o ponto onde minha jornada termina e a sua começa. havia um brilho de perdão nos olhos dela. Gunter se levantou para pegar alguma coisa e. podia jurar que os produtores haviam se inspirado em nossa vida para criar a série. Tim se sentou ao lado dela. Char. Disse que. o Sr. No meio do jantar. Gunter. ele a beijou e disse: “Te amo muito”. – O que você descobriu quando falou com a esposa de Colby? – Só pedi que me desse seu endereço e perguntei se estaria disposta a conversar com você. – Então.

Vai dizer que não se importa por não saber? Deve ser uma emoção e tanto ser parente de Emily Ludlow. você parece pensar que sinto falta de algo que já tive. – É verdade. Mas. Burro. Emily Ludlow era sua bisavó. pronto para ir buscar a ta adesiva. Charlotte.... Tem fita adesiva? Tim se levantou. assim que Charlotte lhe dissesse onde estava. Dizia apenas: “Não é uma casa linda. – Por que agora? – Como posso saber? Mas. Burro. por que este vestido veio a mim? Ele limpou a garganta. por que telefonou para Monte? – Bem. É o que eu conheço.. Quando eu estava no primeiro ano do segundo grau. talvez eu tenha ido à procura de algo. Nunca tive família. O seu é formado de irmãos. – Todos nós precisamos saber de onde viemos. Aquele era meu mundo. os recortes de jornal. – Conheço essa estrada. mas ele atrapalhara os planos celestiais. mas Monte disse que não sabia de nada. primos. cresci para trabalhar com vestidos de noiva. mas. – Tim empurrou o papel colado na direção de Charlotte. E. O que está pensando? – Não sei. – Há uma estradinha de cascalho.. – Não acho que foi ideia minha. postaram-se junto ao balcão e colaram os pedaços. – Abaixou-se para pegar os pedaços do papel que Tim lhe dera. – Porque. – Minha. Burro. Charlotte. Juntos. É só especulação. Aprendemos que Emily Ludlow foi a primeira mulher sulista a usar um vestido de noiva feito por uma gurinista negra. corridas de motocicletas e aniversários de quarenta anos de casamento. – Então.– Meu Deus. – Qual é o nome dela? – Noelia Ludlow. Tim. Charlotte. Ela nunca mencionou que conhecia os Ludlow. Ela ficou em silêncio por um momento. e eu não persisti na busca. Aprendi a viver com a vida que me foi dada. – Tim. a escola nos levou em uma excursão ao instituto para uma aula de educação cívica. o peito subindo e descendo com sua respiração. só minha mãe. Acho que foi de Deus. – Charlotte endireitou-se no sofá. Tim. Mas não podemos ter certeza. Não podemos viver em um vácuo. Porque ela ia se casar. .. Charlotte?”. Eu gosto da minha solidão. Vi as fotogra as de Ludlow. Tim. “Gostaria de viver em uma casa como aquela. Então. foi você quem resgatou a sua herança. – Não saí à procura de nada disso. Não sei se quero saber. Tim. ou falou deles.. Char. As peças começaram a se encaixar. bisavó. onde estendíamos um cobertor e comíamos frango frito ou sanduíches do McDonald’s. – Estacionávamos e subíamos até os limites da propriedade. Charlotte. ele trouxe a caixa. amigos da primeira série. todas as vezes que zemos piquenique na propriedade dos Ludlow. Charlotte?”. – Na cozinha.. pressionando os dedos nas têmporas.

– Hillary.– Comprei um baú. Só precisamos ser inteligentes o suficiente para reconhecê-las. Cleo. pela viagem de volta no tempo. se abanando com um dos pan etos contendo as atividades sociais do condomínio. – Mas outras têm. quando caminhava sem minha bengala. observandoo. Lembrei-me do tempo em que viajávamos levando a Palavra do Senhor. e Charlotte cou parada onde estava. Ah. não pude deixar de pensar muito sobre o vestido. roupão e pantufas de lã. omas usava um suéter grosso e Mary Grace. sem pensar em Tim. – Esse foi o jeito que encontrei para dizer que sinto muito. – O vestido chegou a mim quase da mesma forma que chegou a você e à outra mulher. Tim parou na porta aberta. – Porque sempre havia um garoto mais velho correndo atrás de nós com uma varinha – Thomas explicou. não acha. você comprou o vestido da sua bisavó. . – Como vocês se conheceram? Charlotte se manteve sentada na beirada do sofá. – Charlotte. – A voz de Grace suavizou. Havia bandejas de café da manhã nas mesinhas ao lado de suas poltronas. Sentiu-se grata pela pausa no trabalho. Ele me levou de volta ao passado. Charlotte fugiu da loja e foi para Kirkwood by the River. mas não tinha muitas esperanças de que seu desejo se realizasse. quando Mary Grace telefonou. você precisava ver omas. Corria muito mais depressa que todos os outros meninos. – Ah. – Tommy. abrindo um olho e piscando para Charlotte. Na tarde seguinte. Colby Ludlow e sua esposa. – Tão forte e bonito. Charlotte estava sentada no apartamento de Mary Grace e omas. Mal consigo acreditar. – Girou o trinco e abriu a porta. – Tim foi até a porta. pelo brilho convidativo que iluminava os olhos azuis de Mary Grace enquanto ela falava. – O vigor e a energia de Mary Grace eram quase palpáveis em sua narrativa. Hillary. Tommy? Quando vocês vieram naquele dia. Charlotte. Ela torceu para que o ar condicionado começasse a funcionar. – Quero contar o resto da minha história. Um nome lindo. estou falando sério. É incrível. tirando as chaves do bolso. A televisão exibia um programa religioso. – Algumas coisas não têm de ser. de cabelos encaracolados. me fazendo lembrar de quando eu era jovem e vibrante. um lugar quente cheirando a pomada para dores musculares. – Éramos crianças e frequentávamos a mesma escola. Charlotte estivera praticamente mergulhada na nova remessa de vestidos. – Sim. – Fui um idiota por ter perdido você. Assim que Dixie chegou. Do nada. como Ele nos ama.

Charlotte sorriu. – Mas não sozinho. Não. – E eu não queria me casar usando um vestido que poderia ser usado em um funeral. O rio estava transbordando nas margens devido à chuvas da primavera. eu jamais teria ganhado você. Levaria comigo a garota mais linda que Deus jamais criara. enquanto a polícia investigava. Nós o chamávamos de Fido porque ele parecia um buldogue e era tão resistente quanto o cachorro. mas um tanto rude.. – Mas Mary Grace vinha sonhando com um vestido de noiva havia muito tempo. mas achamos que venceríamos a mãe natureza se saíssemos com o barco do pai de Cap à meia-noite. ouça o que está dizendo. – omas.. levou-o aos lábios. tirando os sapatos e dobrando as pernas no sofá. sabe? Então. – Ela olhou para Charlotte. E eu disse sim. Gostava de uísque. – Foi então que aconteceu meu encontro com Jesus. sobre Colby Ludlow . Eu estava plantada. a mim e ao ministério. Quando meu pai estava tão furioso com minha estupidez. deve ter sido muito difícil – Charlotte murmurou. também. – O melhor amigo de Thomas se afogou no rio Black Warrior. – Minha mãe não quis gastar dinheiro em um vestido de noiva. Minha bolsa de razão e meu coração estavam vazios. Ela cou ao meu lado nos dias que se seguiram à morte de Cap. Meu pai trabalhava na fábrica da Coca-Cola e precisávamos de cada centavo do salário dele para viver. – Por misericórdia.. percebendo que os lábios dele estavam muito secos e indo à cozinha buscar um copo de água para ele. Eu sabia que ela entenderia.– Ainda bem que eu era o corredor mais rápido. mesmo naqueles dias. à sua espera. Eu tinha vinte e um anos quando ele finalmente me pediu em casamento. Cap.. senhor. Do contrário. Éramos garotos tolos. – Então. Estávamos na época da depressão. imóvel. Mary Grace era quem sussurrava orações ao meu ouvido. mas valeu a pena. ele me pediu em casamento. muito mais do que aquela que Tim lhe contara no outro dia. Fido e eu. Foi recolhendo pratos usados pelo caminho. Estávamos no rio. – Mary Grace balançou em sua cadeira com expressão serena no rosto. que cou sem falar comigo. – Esperei quinze anos. como um sussurro. Estava adorando aquela história. – Eu havia plantado todas as minhas sementes. Como eu poderia errar com uma mulher como Gracie? Charlotte depositou o copo com água na mesinha ao lado de Thomas. bebendo como os rapazes das fraternidades costumavam fazer. – Cap caiu do barco e se perdeu. Gracie. – Thomas decidiu entrar no ministério. – No dia da nossa formatura na universidade. Ele era um homem de coração bom. mamãe insistiu para que eu comprasse um conjunto prático de saia e blusa para meu casamento. e um bom conjunto seria muito útil à esposa de um pastor. Charlotte – Mary Grace falou em voz baixa. com a mão trêmula. omas pegou o copo de água que Charlotte lhe trouxera e. relaxada.

ser seu pai. acredite. O marido dela havia acabado de assumir o controle dos negócios do pai dela. eu estava trabalhando e a Sra. foi até lá para me oferecer o vestido de noiva que ela havia usado. mas seria usado em lençóis e utensílios domésticos. – Simplesmente. Atrevida que era. eu aceitei. se recusou. Mas um dia. Ela entrou na loja e parou diante do meu balcão. – Mas o orgulho irlandês da mãe dela quase arruinou tudo. – Emily Ludlow? – Ela mesma. e ela estava sempre buscando fazer o bem na Cidade Mágica. Era uma das minhas melhores freguesas. Ela cou sabendo que eu estava noiva e. . – Eu trabalhava como balconista na Loveman’s e tinha algum dinheiro guardado. Ludlow... Mamãe não me deixava desperdiçar um centavo sequer. no meio da tarde. Ela se recusou a aceitar – omas contou. Uma mulher tão boa.

sustentamos nossa família e podemos não ter tudo o que os Canton e os Ludlow têm. Mary Grace precisa se lembrar que vai se casar com um pastor. um vestido de noiva. acompanhando o ritmo do vento nos galhos das árvores. – Mas certamente seria bom. Vie. Nós trabalhamos duro. branco. Um vestido bonito. Clem. como aqueles que ela vira nas . onde os dois discutiam. porém. E que mal há em a Sra. Encolheu-se no balanço. em seu coração. O pai vendera o vestido de noiva de sua mãe. caiu em seu colo. estremecendo a casa inteira e pondo o balanço em movimento. além de seu salário. as porcelanas e pratarias. Emily Ludlow entrar na Loveman’s e encher a cabeça de Mary Grace com sonhos de um vestido de noiva? E oferecer para dar a nossa filha. – Jesus. O assoalho rangeu sob os passos pesados de seu pai quando ele atravessou a sala. apoiando a cabeça contra a corrente. – Não vou me curvar diante daquela mulher. nossa filha. Ludlow querer ser caridosa conosco? – Não precisamos de caridade. Perdera o vestido. Ficará linda se casando em um conjunto bonito. Onde já se viu. – Não é prático. Esse é o mal. mas temos mais que o su ciente. eu não preciso de um vestido de noiva – Mary Grace sussurrou em oração. porque. um vestido usado. não é mesmo? Mary Grace fechou os olhos ao ouvir a porta do quarto bater. não teve peso ou verdade. E é extravagante demais. – A con ssão. – Acho que Mary Grace já tinha seus próprios sonhos sobre seu vestido de noiva.Capítulo Vinte e Quatro Mary Grace Birmingham. – Você usou vestido de noiva. Graças a Jesus. – E Mary Grace poderia ter usado o mesmo vestido em seu casamento. apostando que Jack Dempsey nocautearia Gene Tunney em uma luta de pesos pesados. A vida não é feita de sonhos e contos de fadas. A voz da mãe atravessava o vidro fino. mas todos nós sabemos que isso não vai acontecer. mantendo-se longe da janela do quarto dos pais. porém prático. E l a queria um vestido de noiva. 1939 A lua parecia descansar sobre o topo de Red Mountain quando Mary Grace saiu sorrateiramente para a varanda de sua casa.

assim como está. Briguei muito com sua mãe e gastei muitos salários com bebida. mas não acho que vou mudar um dia. Mary Grace recomeçou sua oração. praticamente um mês de salário. – Você está bem? – Sim. Ludlow me ofereceu o vestido dela. – Dempsey deveria tê-lo nocauteado – disse Mary Grace. – Sei que você e sua mãe passam os domingos orando para o bom Deus me libertar dos meus demônios. – Toda moça não quer um vestido de noiva? Sua avó não permitiu que nos casássemos enquanto não terminou o vestido de sua mãe. – Teria nocauteado. – Ele limpou a garganta. mas que custava setenta e cinco dólares. mas sem fé era impossível ir adiante. Está tudo bem. – Não se preocupe com o vestido. seus olhos percorreram as rachaduras antigas que seguiam na direção das botas de seu pai. Mary Grace fechou os olhos. como o juiz mandou. – Você é linda. afastando os cabelos dourados da testa porque seus cachos fartos se recusavam a car no lugar.revistas. o papel branco queimou em uma chama vermelha. Mary Grace. O pai soprou a fumaça pelo canto da boca. o olhar para além do jardim. – Espiou a lha pelo canto do olho. quanto sua opinião importava para ele. Mamãe tem razão. O que ela mais gostava era a maneira como ele conversava com ela. Estudando as tábuas do chão da varanda. enxergando a imagem do seu belo e forte omas. se tivessem começado a contagem quando Tunney atingiu a lona. Mary Grace estremeceu e se endireitou no balanço. no balanço. mas existem momentos como este. com seu sorriso irresistível e olhos verdes. Gosto de ser como sou. – Mary Grace. – Fiquei entusiasmada quando a Sra. Eu tinha acabado de chegar da guerra e teria me casado mesmo que ela usasse o vestido que usava para limpar a casa. Como o vestido que vira na Loveman’s. . E como ele a fitava nos olhos antes de beijá-la. Vou me casar com um pastor. Dempsey deveria ter ido para as cordas. apoiando-se na coluna de madeira. em que me arrependo de muitas coisas. e vou precisar de um bom conjunto para usar em casamentos e funerais. – Então. – Não fui o melhor pai que uma garota poderia querer. A porta da frente bateu e seu pai surgiu na varanda. agradecida por ele não ser capaz de ler seus pensamentos. O rubor tomou conta de suas faces. – Uma moça quer estar bonita no dia de seu casamento. papai. você poderia ter o seu vestido de noiva e um casamento bonito. por que foi pedir um vestido? Ela deu de ombros. Se eu não devesse dinheiro a tanta gente. Os olhos castanhos do pai e fitaram por entre a fumaça. Quando puxou uma baforada. Não preciso de nada tão so sticado. – Não faça isso. Pegou um cigarro e acendeu. papai. Sei que Thomas diria o mesmo. papai. Fui ranzinza demais às vezes. batendo o maço de cigarros na mão.

Ele foi até a porta. – Seus pais estão em casa? Mary Grace não teve chance de responder. bonita em seu vestido simples. – Um presente? Nem mesmo conhecemos a senhora. as linhas de preocupação visíveis em sua pele de porcelana. Não nos envergonhe. Dez dólares. Ludlow.– Aqui está. – Clem. – Sua mãe saiu para a varanda. mas. perfeito para uma noite de primavera. Seus olhos se encheram de lágrimas. não vamos precisar da sua caridade. Seria o bastante para comprar o bolo. Ludlow. observando a Sra. o pai espiou Mary Grace pela tela. A mãe foi se postar ao lado do marido. Pouco antes de entrar em casa. O que a traz até aqui? – Mary Grace indagou. Mary Grace encolheu-se contra a coluna na entrada da varanda e fechou os olhos. – Sim. contendo as lágrimas. Mas não um vestido de noiva. Ela se recostou no balanço. papai. o ponche e a toalha de mesa que ela vira em liquidação na Loveman’s. Não sei bem o que pode fazer com esta quantia. Mary Grace a atende no balcão da . – Soubemos que a senhora ofereceu seu vestido de noiva a Mary Grace e. embora sejamos gratos pela gentileza. Fox. Dez dólares. – Ouvi dizer que sua filha vai se casar. mamãe. Mary Grace foi até a entrada da varanda. É um presente. Ludlow sair de seu grande e brilhante Buick. O que você quer comer? – O que você servir. – Obrigada – ela murmurou. que usava um casaco de lã fina. O pai de Mary Grace deu um passo na direção da elegante Sra. valeu mais que a nota que dera a ela. – Pegue. – Aproximou-se dela em três passadas largas. ela desdobrou a nota com dedos trêmulos. – Vou preparar o jantar. Ouvindo o ruído dos pneus de um carro na entrada de cascalho. – Pôs uma nota dobrada na mão de Mary Grace e fechou os dedos dela. Mary Grace. baixando os olhos para o vestido surrado e os sapatos gastos. de saia plissada. Vie? – É claro que não – ela respondeu em tom mais suave. Dobrou o dinheiro e guardou-o no sapato. – Olá. Ah. – O que está fazendo? – Conversando com minha filha. segurando a tela aberta para a esposa passar e ouvindo a sugestão dela de jantarem ensopado requentado. Isso a incomoda. – Não se trata de caridade.. Sra. ela vai. Quando ele se foi. – Olá.. pois o pai e a mãe apareceram na varanda. Sra. era um homem terno por trás daquela aparência grosseira. O brilho úmido e momentâneo em seu olhar disse mais que mil palavras. – Em que podemos ajudá-la? – o pai perguntou. antes que eu gaste.

– Eu aceito.Loveman’s. – Ah. esperando ver as costas da Sra. não. Ludlow. – Dez dólares? – a mãe de Mary Grace zombou. O marido se limitou a sacudir a cabeça. Sra. Mary Grace correu até ela. – A mulher negra que costura para a senhora? – A mãe abaixou a cabeça e en ou as mãos nos bolsos da saia. ou foi apenas um impulso de momento? – Ao que me parece. – Negócios são negócios. – Não podemos pagar esse tipo de vestido. diga-nos o preço. não podemos simplesmente aceitar o presente? – Dez dólares. Por acaso. não.. Ludlow se retirando. – Pelo vestido de uma noiva rica da alta sociedade? – É o meu preço. Talvez em todo o sul. mas um presente extravagante como um vestido de noiva para uma moça que a senhora mal conhece. sem nem ter ouvido o preço ainda. – Mary Grace. ela desceu os degraus da varanda e se pôs diante da Sra. Vim trazer um presente e a senhora o recusou. Ludlow empinou o queixo. Sra. Ludlow. mas Mary Grace se esquivou rapidamente. que a atende em um balcão. Fox. – Acho que o preço é justo. a senhora planejou vir até aqui para nos humilhar. Foi feito especialmente para mim. – Vie – o marido advertiu. Ora. retirou o dinheiro da meia e desdobrou a nota. não. mas constatou que ela permanecera onde estava. Seria insulto maior que caridade. Papai me deu o dinheiro. Com isso. – Estou pedindo dez dólares – repetiu a Sra.. Ludlow. onde conseguiu esses dez dólares? – A mãe estendeu a mão para pegar o dinheiro. por favor. – A Sra. – Taffy é a melhor gurinista da cidade.. Nem mesmo por dez dólares – declarou com determinação. Olhou para o pai com olhos marejados. Senhor. a Sra. Depois do que pareceu uma eternidade. – Mamãe. Mary Grace espiou detrás da coluna.. A quantia explodiu no ar e atingiu em cheio o coração de Mary Grace. Ludlow aceitou o dinheiro. Mary Grace viu a mãe corar. – Quando me ofereço para vendê-lo. Você tem sorte por usar um vestido feito por ela. – Muito bem. – Não. por Taffy Hayes. – Ouviu quem foi a costureira que fez o vestido? – Ouvi e não me importo. – Estendeu a . a senhora diz que é caro demais. e não vá dizer um dólar. é caridade. Como havia en ado na meia a nota de dez dólares que o pai lhe dera. Usei o vestido uma vez. Não sujei nem sequer o amarrotei. Ludlow. obrigada. está humilhando a si mesma. sentiu-a arranhar seu tornozelo quando se moveu. Sem perder tempo. venderei o vestido a vocês. – A Sra. Sinto muito. Tenho dez dólares. Sra. Será porque não está à sua altura? – Escute aqui. Ludlow falou: – Então.

Estou aqui. Fox. Ludlow entregou a ele as chaves do carro. Fox passou por elas com um baú nos ombros. este não é um vestido comum. – Srta. – Tem certeza de que esta coisa não está vazia? É leve como uma pena. – Estendeu a mão e. deve estar à sua altura também. os olhos cheios de lágrimas. Seu sorriso era tão largo. tendo sido confeccionado por uma negra. o pai estava na varanda. ela sorriu e pressionou os dedos contra a palma da mão dele. O vestido da Sra. O Sr. – A Sra. Fox. Sra. – Mulheres que vivem e respiram nesta cidade. – Sra. – Acabou de pagar dez dólares por ele. Simplesmente cou ali parada. estendendo a nota de dez dólares para a esposa. – Somos muito parecidas. e o vestido nas mãos. – Não usarei o vestido se você não quiser. sua lha é uma moça especial. Vou ter de fazer os ajustes e reparos necessários. – Meu Deus! – A mãe pareceu despertar. a Sra. Daniel e eu temos sido muito felizes. fazem com as doações que recebem. Quando a Sra. por favor. Ludlow virou-se para o carro. temos chá gelado na cozinha? Estou morto de sede. . Ele apagou o cigarro e pegou as chaves já a caminho do automóvel. ou seja lá o que for que vocês. Acredito que seja um elogio à senhora. o vestido é seu agora. – Posso garantir que o vestido está aí dentro. – O prazer foi meu. eu acho. a brisa leve agitando a bainha de sua saia e cobrindo de poeira seus sapatos marrons. Ludlow. Mary Grace tinha um vestido de noiva. que ela nem se atrevia a olhar para a mãe. Desejo toda felicidade a você. foi um prazer negociar com a senhorita. Sinto-me privilegiada em dar a ela o vestido que usei para me casar. – Mary Grace. agora. mulheres. Fox continuou parada. – Vamos ver essa obra de arte. admiro Mary Grace. – Ela pôs isto em minha mão – ele disse. Use-o com amor. Fox. Mary Grace. Fox. Vie. Ludlow se foi. o baú aberto. e não sabemos em que estado de conservação está o vestido. – Sr. como se dançasse pendurando em seus dedos. Fox – a outra continuou. – A Sra. – O vestido está no banco traseiro. já faz tempo. desejando abençoar sua lha. quando ele a apertou. obrigada por ter retirado o baú de meu carro. Ludlow. assim como da comunidade. Ludlow. Sra. É um presente. Quando as duas se viraram. Não tive lhas mulheres e. de mulher para mulher. A mãe mordeu o lábio e não disse nada. Aceite-o com alegria.mão para Mary Grace. – Compre o que for necessário para ajustar o vestido. feito especialmente para ela. – Secou as lágrimas com a mão. – Mamãe? Ela não se moveu. – Mary Grace. os dedos pressionados contra os lábios. que querem o bem de seus maridos e lhos. Acha que vou deixar o vestido apodrecer dentro daquele baú? E se estava à altura da Sra. tremendo. Sr. Mary Grace passou um braço em torno da cintura da mãe e deitou a cabeça no ombro dela. Ela se casou há uns vinte e cinco anos. É muito especial para mim e para a mulher que o confeccionou.

– O arrepio que percorreu a espinha de Charlotte já estava se tornando familiar. o vestido realmente pertenceu a Emily Ludlow? – Sim. à medida que a voz de Mary Grace pairava no ar. Mary Grace. Charlotte Charlotte sentiu a tensão se dissipar em seu peito. – Havia um brilho de amor nos olhos da mais velha. e mamãe aceitou muitos presentes dela.– Não é uma doação. dando um ponto final à história. . vou precisar de alguns minutos antes de preparar o jantar. Ludlow se tornaram grandes amigas. – Ah. Eu espero. – É claro que acredito. Acredita? – Sim. – O pai deu um tapinha no ombro de Mary Grace. nem por qualquer outro homem. – Ela o usou para se casar com Daniel Ludlow. papai. Clem. – É perfeito. Vou lhe dizer uma coisa: aquele vestido é mágico. Mary Grace. – Então. Mary Grace prostrou-se de joelhos. acredito. levantando-se e tirando o vestido das mãos do pai. Nada. – Use o tempo de que precisar. Vie. – Nunca perca a fé. Ludlow era uma mulher esbelta. as coisas se acertaram entre mamãe e papai. não precisamos fazer nenhum ajuste. O pai se afastou um passo. Eu tenho os ossos grandes de minha avó alemã. A seda brilhava e o brilho avermelhado do pôr-do-sol parecia atear fogo às pérolas na cintura. Mamãe e a Sra. limpando a garganta. Desceu os degraus da varanda e atravessou o jardim. – Muito bem. vamos entrar e provar o vestido. mamãe – ela murmurou. como se quisesse se certi car de que Charlotte estava ouvindo – foi que o vestido serviu com se tivesse sido feito especialmente para mim. A Sra. uma expressão arrebatada. Nunca. Mesmo assim. Depois daquele dia. Nem por mim. até desaparecer entre as árvores. Mas a melhor parte – Mary Grace espetou o ar com o dedo.

– Deve ter sido a emoção – acrescentou com uma piscadela para Emily. o Dr. mas pensei que iríamos acabar nos amando. – Não acho que Cam quisesse fazer essa con ssão. – Ele limpou a garganta. Canton havia desmaiado no sofá ao ver Molly ajudar Emily a tirar o vestido da Sra. Voltara para casa muito antes do que era esperado. – O que aconteceu? – Ela desmaiou. O orgulho não consegue ficar em silêncio. – O Sr. Poder respirar quase fez o desmaio de sua mãe valer a pena. O futuro sogro ouvira Phillip se vangloriar para os amigos. ela ouviu seus sussurros agitados com a esposa quando passou pela porta do quarto. Canton mandou Bernadette buscar o médico. seu pai sempre dissera. Sim. o Sr. mas o conhaque o domina. – Papai. O marido revelara a verdade nal sobre Phillip. mas muito terno. Ele realmente assinara o mandado de prisão de Emily. saiu do caminho do médico. – Está tudo bem – disse o pai. Pouco se importa se as in delidades de Phillip serão problema nosso. pragmático como sempre. Ele parecia muito satisfeito consigo mesmo por ter feito tal arranjo. No entanto. Caruthers. à medida que Molly foi abotoando o levíssimo vestido de seda. papai. será um grande golpe nos seus negócios? – Resolverei isso. A pobre dama de honra havia se transformado em garota de recados. mas a Sra. Canton. a última noite de Phillip como homem solteiro.Capítulo Vinte e Cinco Emily O Sr. ou lamentar. Na noite anterior. Canton. ajoelhando ao lado da esposa e segurando-lhe a mão. e se retirara para seu quarto sem falar com Emily.” A porta se abriu. me perdoe por não ter falado tudo antes. solene e perturbado. Até mesmo a lembrança do peso absurdo do primeiro vestido foi desaparecendo. O orgulho incha. mas não sabia que os pais dele ameaçaram deserdá-lo se ele não se casasse comigo. Canton se juntara aos “rapazes” no clube para celebrar. “Tudo o que Cam deseja é garantir um bom casamento para o lho. da habilidade com que resolvera o problema. – Tenho certeza absoluta. – Acho que eu sempre soube. tem meu total apoio. – Sinto muito. Eu sabia de Emmeline. como se eu devesse ficar satisfeito também. – Nesse caso. – Não vai ser fácil. – Desde que você tenha certeza do que está fazendo. papai – Emily sussurrou quando Molly desamarrou seu corpete. fora emoção. Gelman entrou e foi direto para o lado da Sra. durante a despedida de solteiro. . Emily.

Então. surgiu na porta. Ao nal do corredor. mantendo os saltos longe do chão. Emily tentou guardar o ar nos pulmões. informando Daniel que ele poderia ter uma chance. resplandecia em seu smoking. Já estamos atrasados para começar a cerimônia. não tivera coragem até vestir o vestido de Taffy. – Emily. Ao se ver sozinha. os cabelos perfeitamente penteados. talvez de maneira irreparável. querida. Outro riso se formou em sua garganta. Gelman agitou sais medicinais diante do nariz da Sra. Canton. Saiu daquele cômodo. diga a ele que pensei muito. A Sra. – Papai disse que falou com você. Lá estava ele. – Voltarei em cinco minutos. está feito. esforçando-se para se pôr de pé. O riso ameaçou escapar de seus lábios. ouviu a música vinda da igreja. espiou pela janela. Não se casaria com Phillip Saltonstall.Dr. percorreu o corredor apressada. tossindo. tomei minha decisão e segui meu coração. Potter. na ponta dos pés. parado ao lado de Two Tone. endireitando-se. – Quando o encontrar. Sem esperar. o queixo firme e barbeado. . – Minha querida Sra. Foi como se todas as suas orações se unissem e invadissem seu coração. Ela adorou o brilho que viu nos olhos dele. – Já me recuperei. Quando o médico agitou os sais diante de seu nariz outra vez. – Mamãe. Daniel. Emily abriu a porta e saiu para o ar frio e glorioso da noite de Ano Novo de Birmingham. segurando as mãos da mulher –. esforçando-se para ver Emily. Seria agora ou nunca. ela o afastou com um abanar de mão. Emily. Quando abriu a porta e espiou o corredor. – Quer se casar comigo? Por favor? – Ah. montado em seu glorioso cavalo chamado Two Tone. vou me casar. querida. este é o casamento de nossa lha. A cerimônia está começando. Estava livre. O que está feito. Daniel. – Vou encontrar seu pai. Ela se lembrou do pai gritando na janela: “Uma noite sagrada”. porém. – Vai insultar os Saltonstall. Emily cobriu a boca com a mão. Descendo os degraus na direção dele. Emily. Potter – Emily falou rindo. – Ela sorriu e afagou o braço de Emily. Não vamos começar outra discussão. ele conduziu a esposa até a porta. – Maggie – o marido a tomou nos braços –. onde parou e olhou para Emily. – A mãe respirou fundo. esperando. eu sei. – É verdade. Ela se levantou tossindo e engasgando. mas ela se desvencilhou dele. Phillip está no púlpito. – É claro que vai. – Eles foram os responsáveis pela sua prisão. Papai me contou.. E teve sua certeza. – Agradecendo ao médico. Emily sentiu o vestido esvoaçar livre em torno de suas pernas. como seu pai dissera. aí está você.. ouça o que tenho a dizer. ela suspirou aliviada ao ver as portas da igreja fechadas. O marido a ajudou a se sentar. secretária do pastor. – Daniel ajoelhou. – Como pode sequer pensar em usar esse vestido? – Apontou para o vestido.

observando e balançando a cabeça em aprovação.. vai se casar com ele? – Não vou abandoná-lo no púlpito..” Diante dela. – Emily se virou e ofereceu o braço ao pai. Phillip estava plantado no púlpito como uma estátua grega. A igreja explodiu em exclamações. – Não posso simplesmente abandonar Phillip no dia do casamento. Two Tone empinou. Emily se virou e viu a Sra. convidados e colegas. aguardavam lá dentro seu casamento com ele.. Ah. – Emily – Daniel chamou. abafando os murmúrios impacientes. – Emily? – A confiança de Daniel estremeceu.. ela se virou e olhou para Daniel. as mãos cruzadas.. Ludlow.. não pode entrar. Senhor.. organizado chás e jantares. Emily engoliu seco. As portas da igreja se abriram e o tropel dos cascos abafou os acordes do órgão. seguido de perto por seu padrinho. “Bonito. Quando Emily entrou com o pai. Seu pai estava lá. é isso mesmo que você quer? – o pai perguntou. – Case-se comigo. agitando os braços no ar. agitando as patas dianteiras no ar. Dera sua palavra a Phillip. A música tocava. por favor. com Daniel agarrado às rédeas. . Ela não queria se rebaixar ao nível dele. Um pandemônio se formou. Mas como podia deixar Phillip no púlpito? Por mais cruel que ele houvesse sido.. – Emily. Esperara por esse dia. Seus cabelos castanhos brilhavam e seu sorriso desa ava a luminosidade das velas.. bonito como sempre em seu smoking. Por favor.. Sonhara com esse dia. jogos de bridge. Amigos e parentes. Ela segurou o braço do pai com mão trêmula. que continuava imóvel ao lado de Two Tone. Phillip deixou o púlpito. – Então. acompanhe-me até lá dentro. Ela riu.. – Espere. parando na entrada da igreja.. era um homem com um coração batendo dentro do peito. Case-se comigo. Potter perseguindo Two Tone pelo corredor. Quando subiam os degraus. mas ela não foi buscá-los. Negra. Daniel. Este é o meu dia. – Senhor. Vestido. Taffy Hayes. Caruthers. O véu e o buquê haviam cado para trás. Haviam enviado presentes. Não é da Sra. os convidados se levantaram. – Tirem-no daqui. gritos e protestos. – Papai. eu o proíbo.. montado ereto e orgulhoso em Two Tone. emitindo sons de surpresa e sussurrando.Emily lançou um olhar para as portas amplas da igreja.. Gritos ecoaram.

por sua vez. – Phillip. Tenha essa certeza em seu coração. emitindo um círculo de fumaça que rodopiou pelo ar frio da manhã. A decisão é dela. – Desejo que seja feliz. estendeu a mão para o braço que ele oferecia e. Daniel segurou as rédeas e esporeou o cavalo. Eu te amo. não posso me casar com você. – Feliz Ano Novo! – Apertou o rosto contra as costas de Daniel. você mandou me prender. O olhar de Phillip se fixou no outro lado da igreja. Desconhecido com seu lenço de seda púrpura. atravessou as portas altas e desceu os degraus para a rua.Um assobio alto silenciou a confusão. – Emily se pôs na ponta dos pés e o beijou no rosto. ele se curvou. E você não pode se casar comigo. Canton. – Nada disso diz respeito a ninguém. diminuindo a velocidade ao passar por um bonde. nos olhos da pálida e esbelta Emmeline. virou-se para Daniel. – Ah. Emily deitou a cabeça para trás e riu. sua mãe! Emily montou na garupa de Two Tone. Phillip. Então. Naquele momento. Um fotógrafo do Age-Herald despertou de seu cochilo e acionou a câmera que. caro Phillip. levando Emily para sua liberdade. Sei que você ainda tem uma amante e que seus pais ameaçaram deserdar você se não se casasse comigo. Então.. O que quer fazer.. como se soubesse que tipo de carga levava no lombo. Emily? Casar-se com Ludlow ou Saltonstall? Ah. Two Tone disparou pela igreja. O velho Sr. na esquina da Quinta Avenida com a Rua Dezenove. ergueu o chapéu e acenou para ela em um gesto encorajador. disparou o flash. Portanto. Saltonstall interrompeu furioso.. Ela não pode se casar comigo. Emily o viu. Todos os olhos se xaram no Sr. os sinos da igreja começaram a badalar. Two Tone galopou pela rua. que se postara nos degraus do púlpito. exceto Emily. Daniel Ludlow. foi assim que eduquei você? Para ser derrotado dessa forma? – Ela tem razão. Quando seus olhares se encontraram. – O que signi ca isso? – o Sr.. – Eu sabia que você viria. . E eu não posso me casar com ela. a generosidade que existia no coração de seu pai! – Phillip – Emily pousou a mão no braço dele –. com um pequeno impulso de.

– Essas foram as palavras de Thomas. mas seus corações são jovens. – Estarei pronta quando você chegar.. Mary Grace se desliga da conversa e olha xamente para a parede. O baú. No começo. A situação veio até você. cheios de vida e do que eu acredito que possa ser Deus. não queria se aventurar sozinha pelo desconhecido. o vestido. – Ela riu baixinho. Meia hora depois.. mergulhadas em silêncio contemplativo. mudou. Porém. e sobre mim. Você comprou aquele baú e o seu mundo. – Nunca quis saber antes. – Thomas? – Charlotte arqueou a sobrancelha antes de lançar outro olhar para a amiga. O papel com o nome de Noelia estava no painel do carro. – Que juízes seriam esses? – Os juízes do céu. Eles são velhos. Charlotte lançou um olhar rápido para Hillary. eu pensava que ela estava apenas passando por . – Não sei por que estou fazendo isso. Charlotte se sentiu ousada. escondendo um sorriso. Ligou para Hillary. – Porque quer saber. – Olá. – Hillary se ajeitou no banco. É sobre mim. Charlotte tomou uma decisão. como se estivesse pronta para atacar! – Sim. meu mundo. desligando e ligando o rádio. Charlotte apertou o volante com as mãos. – Devo dar o vestido a Cleo? Mesmo que ela não consiga um mandado judicial? – Acho que você tem juízes muito mais in uentes do seu lado. e ela não podia mais se esquivar da luz. sou eu. Pronta. do que aqueles que Cleo está usando para conseguir o que quer. – Agora é diferente. Quer dar um passeio. – Desde quando você se tornou uma pessoa espiritual? – Não sou.Capítulo Vinte e Seis Charlotte Quando voltava para Mountain Brook. – Algumas vezes. Charlotte e Hillary dirigiam pela estrada 157N para Florence. fazer uma investigação? – É sobre o vestido? – Hillary perguntou em tom rme e direto. Tim abrira a porta para o corredor escuro de sua vida. – Fui visitá-los algumas vezes.

Graciosa. o coração de Mary Grace é inteiramente dedicado a Jesus. recuada. Pensei que fosse loucura. quando sua hora está próxima. – Noelia segurou Charlotte pelos ombros quando subiu os degraus da varanda. – Da maneira como fala. por favor. nariz delicado e faces bem desenhadas. eu tenha. sim. Acabamos de fazer as pazes – Hillary retrucou. Sou enfermeira há muito tempo e sei que coisas estranhas acontecem com pessoas muito velhas. mas seu tom de voz disse muito mais. . Charlotte diminuiu o passo quando a porta se abriu e Noelia apareceu.. – Finalmente nos conhecemos. Então. hesitante. Só disse “finalmente”. sua irmã do vestido. não creio que tenha sido culpa sua – Charlotte replicou. de cintura delgada e pernas longas. sorria. o lugar era lindo. Tivera uma pequena discussão com Hillary sobre o melhor caminho. Era uma casa construída no estilo Tudor. batendo a porta do carro. – Não comece.um momento de senilidade. querida. Charlotte. em um lote grande e arborizado. entrou na casa e apresentou Hillary. Charlotte estacionou diante da casa de Noelia. seus olhos se arregalavam. Charlotte sorriu para a amiga. acho que ela vê coisas. – Foi. Foi minha culpa. – Lágrimas rolaram pelas faces de Noelia. – Hillary olhou para Charlotte. – Entrem. – Gert costumava dizer que quando a mente de uma pessoa começa a se enevoar. Ela resmunga também. Seguindo na direção da entrada. ela parece ter vindo do espaço. – Foi. – Por favor. – Obrigada por permitir que viéssemos. minha jovem. Quando se sentou. – Sim. – Finalmente – Charlotte murmurou ao sair do carro. é justamente quando seu coração se revela. – Este lugar é lindo. porém correta. suspirou. – Não estou começando nada. talvez. mesmo sendo avisada tão em cima da hora – Charlotte agradeceu. Com movimentos vigorosos. de repente. – Sinto muito pelo que Colby fez a você e sua mãe. mas agora. Noelia Ludlow poderia ter sido irmã de sua mãe. começava a cantar “Amazing Grace” ou “How Great ou Art”. Sentar-se na sala com Noelia provocou nela uma sensação surreal. – Nesse caso. meninas. Charlotte riu. sim. – Ou. olhos atentos. – Hillary ajeitou a roupa. Sim.. Por volta de uma hora. Ela ria. – Acho que ela fala outras línguas. Noelia afastou os cabelos longos e lisos do rosto e os prendeu com uma fita. – Hillary também riu. Esbelta. – Talvez tenha. Nada além de Jesus. Mas. cedera à pressão da amiga e acabara perdida.

– Entregou o envelope a Hillary. concordamos que ele deveria aproveitá-la. Mary Grace e Thomas. Não tivemos lhos e. Seria um ano apenas. era apenas Charlotte Malone. Quase arruinou nosso casamento. a conversa se concentrou em amenidades: o tempo. naquela época. o que aconteceu? – Ah. Noelia pegou um envelope. uma mulher simples e comum. Quando Colby teve a oportunidade de dar aulas na Flórida. quei sabendo da sua existência. – Essa era minha mãe. bonita. – Sem desviar os olhos dos de Charlotte. Charlotte fazia parte de uma rede: Hillary. férias de verão. os problemas começaram a se multiplicar. mas assumir o romance com uma aluna teria arruinado a carreira dele. Então. acredite. as últimas notícias. ela se apaixonou perdidamente por Colby. Em sua árvore genealógica brotavam galhos fortes e robustos. Sua bisavó infringira leis em nome de suas convicções. Daniel. Ele cou fascinado por ela. – Ela enviou uma carta registrada a Colby. Especialmente naqueles com problemas. e uma bela jovem de vinte e um estivesse disposta a se entregar a você? Colby tinha muitos pontos fortes. – Sabe por que ele se envolveu com minha mãe? Charlotte segurava seu chá sem beber. nós dois nos dedicamos mais às nossas carreiras do que um ao outro. Quando voltou à sua cadeira. Questionava Colby no trabalho e na vida pessoal e não permitia que ele a desrespeitasse. Estávamos casados havia mais de vinte anos e acreditamos que seria fácil. eu o amava e não queria conhecer a mulher que quase o roubou de mim. Colby sempre gostou de um bom desafio. Charlotte sorriu. inteligente. Queria que Colby reconhecesse você. Seu bisavô. Nós nos veríamos nos ns de semana e feriados. – Claro. Noelia. exceto por Dix e o Dr. – Noelia. Eu caria aqui e continuaria meu trabalho no Alabama Fine Arts Institute. tantas coisas acontecem em um casamento. porém. Gostosão. Hillary foi diretamente ao motivo daquela visita. sozinha. que o passou para Charlotte. que admitisse que você era filha dele. – Pelo que sei – Noelia continuou –. ele se preocupava mais com a carreira do que com Phoebe ou comigo.Tudo o que Charlotte sabia sobre sua vida empalidecia à luz de tantas revelações. – Ela queria ajuda para comprar uma casa maior em um bairro melhor. por que ele arriscou tudo? – Crise de meia-idade? Queria se sentir jovem outra vez? O que você faria se fosse um homem de quarenta e um anos. assim. mas. sem luxos. . Dois dias antes. Quando Noelia interrompeu a conversa para servir chá gelado. – Você conheceu minha mãe? – Não. – Então. como era o meu e de Colby. Sentia-se ancorada ao copo gelado em sua mão. resistir à tentação não era um deles. Tinha um pai com nome e reputação. Agora. No entanto. fora um banqueiro e filantropo respeitado em Birmingham. Embora Colby e eu não fôssemos felizes no casamento. mas. Ela era jovem.

depositando o copo na mesinha e se aproximando de Charlotte para ler por cima do ombro dela. trêmula de emoção.. – Enviei dinheiro para você no ano passado. A sensação surreal de que aquela visita era a coisa certa a fazer começou a se dissipar. Quando Colby e eu nos divorciamos. eu não queria metade dos meus ns de semana passados com uma garotinha consumindo o tempo do meu marido. mas não tive coragem de destruir a carta. – Então. a enfurecia e fazia tremer. que você não precisava conhecer Colby. mas suas pernas tremiam e os joelhos mal suportavam seu peso. viagens a fazer e. Tínhamos uma vida planejada. Foi como se chegássemos a um acordo silencioso de que sua mãe havia seguido adiante com a vida dela. – E nunca a mostrou a Colby? – Hillary perguntou. sabia que ela tinha morrido? Que eu não tinha ninguém? E. Charlotte abriu o envelope para ler a carta. Charlotte se levantou e deu a volta na mesinha de centro. – Mas eu não queria você ou ela em nossa vida – Noelia prosseguiu. – Mas cabia a você esconder a carta de minha mãe? Garantir que ele não entrasse em contato com mamãe ou comigo? – Quando eu era esposa dele. mais peças se encaixando. – Estou apenas sendo honesta. concluí que era o que ele queria também. mas os ombros vergavam . Era o que eu queria acreditar. francamente. Um amigo de Colby trouxe a notícia.. Rasguei a fotogra a que ela mandou. eu me dei conta de quanto nós dois havíamos sido egoístas. mas não cabia a mim dizer a ele que fosse procurar você. – Não me orgulho do que z. Ficar sentada a fazia sentir-se pior.. – Eu havia me convencido de que seria melhor assim. agora. longe do coração.. Charlotte. ele sabia de você. Charlotte – Noelia confessou. Não foi nada. – Não. se casado e tido mais lhos. aos cinquenta anos de idade. – Noelia secou as lágrimas do rosto suave e ligeiramente marcado pelo tempo. Protegi o que era meu. – Não foi nada. Soubemos que Phoebe morreu um ano depois disso. encontrado um bom homem. manteve meu pai longe de mim? A mulher que recebera Charlotte com sua aparência maternal e convidativa. Não tinha uma vida.. O frio gelado do copo de chá se espalhou de sua mão até seu coração. Eu. Infelizmente. mas. mesmo assim. Mais uma revelação.. Ou contar a você sobre Colby. Aparentava menos que seus setenta e poucos anos. E o pouco que eu tinha foi interrompido quando alguém bateu com o carro no de minha mãe e a matou. – Havíamos superado alguns dos problemas entre nós e estávamos nos entendendo.Com as mãos trêmulas. Por que interromper a vida de todos? – Eu tinha doze anos.. Como Colby nunca disse nada em contrário. sim.. – Os cem mil – Charlotte murmurou. longe dos olhos. – Não sei bem o que fazer com tudo isso. Mas nunca deixei de pensar em você.

sob o fardo de sua história. como os anos passaram depressa”. Foi quando fiz a transferência bancária anônima para sua conta. A montanha estava silenciosa. Charlotte olhou pela janela. Charlotte caminhou até a mansão e entrou. quando procurava por alguns documentos bancários. – Cleo a observou por um momento. Um dia. que o deixou para Hillary. a luz do sol refletindo nas janelas cristalinas. – Emily deu o vestido a Mary Grace. o que está fazendo aqui? Trouxe o meu vestido? – Os passos de Cleo ecoaram no assoalho impecável. Não esperava encontrar nada. – Não quero o seu dinheiro carregado de culpa. árvores de verão. – Charlotte. Charlotte parou para respirar profundamente o ar puro. eu me mudei para Florence para estar mais perto dos lhos de minha irmã. Três meses antes. – Noelia sorriu. sentindo um peso enorme no peito. fora até lá para re etir. – Ofereceu as fotos de Mary Grace e Hillary usando o vestido. Agora que sabia de onde o dinheiro viera. para além do gramado verdejante. mas descobri sua loja. Então. A casa onde Emily criara seu avô. Céu azul. A casa onde seu pai brincara. Cem mil dólares. – Está bem. parando no amplo vestíbulo da casa que seus bisavós haviam construído. z uma busca na internet. – Não vai fazer isso. – Vou devolver seu dinheiro. exceto pelo vento. Ela trocaria todo o dinheiro pela chance de ter conhecido seu pai. as janelas do teto ao chão emoldurando uma vista do vale de tirar o fôlego. – Parece que só uma fotogra a não é o bastante. – Depois do divórcio. – Achei que você gostaria de ver estas. Pensei: “Misericórdia. Dinheiro nenhum aliviaria minha culpa. Charlotte. Gastei muito dinheiro comprando uma casa grande demais para mim e mimando sobrinhos e sobrinhas. Diante dos jardins bem cuidados da propriedade Ludlow. encontrei a carta de sua mãe. – Por que a demora? – O juiz quer mais provas – ela respondeu irritada. Charlotte retirou duas fotogra as da bolsa ao entrar na biblioteca clara e espaçosa. – Gostaria de ver a biblioteca. Mal sabia ela que a colina estava carregada de segredos. – Não é culpa. Se uma fotogra a é prova . Fiquei orgulhosa por você. ou compraria o afeto de uma garota que nem sequer me conhecia. De sua mãe. – Estou providenciando a ordem judicial para a entrega do vestido. – Ele teria gostado de você. Foi um presente e não chegou nem perto de compensar o fato de você ter crescido sem Colby. para se sentir mais perto do céu. antes de se virar em um movimento rápido. Charlotte não o via mais como um prêmio. Um presente da esposa de seu pai.

espiando o pôr-do-sol por entre os galhos das árvores. a luta se esvaindo de dentro dela.. – Charlotte parou diante da fotogra a de Emily usando seu outro vestido de noiva. Não. Charlotte. Aborrecido. não. Uma vez privatizado. – Vai tomar esta linda propriedade da cidade? Vai exigir sua herança? Provavelmente. adeus verba pública. Uma parte grande demais de sua identidade estava no trabalho. – E esta carta registrada de minha mãe para Colby. Apoiou-se no cabo da vassoura. Charlotte. Charlotte virou-se para Cleo. Não vou vender o vestido. – Vendê-lo? Não. de alguma maneira.... é tarde demais. Deus sabia como tecer uma tapeçaria maravilhosa.. você não tem condição de administrar este lugar. A lenda é. Charlotte caminhou ao longo da parede coberta de fotogra as. Charlotte? Vai vendê-lo? Não pode fazer isso. Nunca foi ajustado ou alterado. Com ou . virou-se para Charlotte. Cleo. Cleo cerrou os lábios. Pobre Cleo. Charlotte riu baixinho. – E então? O que vai fazer com o vestido. Tudo o que quero é o vestido. – Era esse que ela ia usar? – Para se casar com Phillip Saltonstall. Além disso. pertenciam a ela. Uma imagem de seus dias como professor. – Acha que ele está se revirando na tumba porque a filha não fez faculdade? – Provavelmente. – Sabia que Hillary Saltonstall usou o vestido em 1968? Phillip era seu tio-avô. O vazio do espaço que podia abrigar até três automóveis o fez sentir-se vazio por dentro. o que. – Não quero esta propriedade. o que vai fazer com estas? – Pegou também a carta de sua mãe para Colby.. Charlotte sorriu. mas incrivelmente livre. tentando registrar na memória os rostos e nomes que. Tim Tim varreu os últimos resquícios de poeira e fuligem de sua garagem. Vou usá-lo. lendo a carta à luz do dia. Parou diante de Colby. talvez. pedindo pensão alimentícia? Foi a esposa dele quem me deu. – Cleo foi até a janela. por misericórdia. Quando terminou.de propriedade.. Noelia disse que você é filha de Colby? – Sim. – Ora. – Que lenda? – A lenda de que o vestido serve com perfeição em todas as noivas que devem usá-lo. parecendo murchar.. Reconheceu traços de si mesma naquele olhar... Não é certo. Cleo.

se acomodar na vida. – Como se tivesse perdido setecentos quilos. chegara a hora de crescer. inclusive o memorial de bronze relembrando o trabalho forçado de condenados. Como voltar a tocar violão. confuso pela enxurrada de sentimentos em seu peito. – E. – Quer jantar conosco? Katherine está preparando sanduíches de carne moída e batatas fritas. em espera. – David fez uma dança engraçada pela garagem. ela amaria Charlotte. Disse que. ligou o rádio e puxou uma cadeira de praia até o centro . o aperto em seu peito afrouxou e ele compreendeu que fazia muito tempo que se agarrava a algo que Deus pedira que ele renunciasse. – Ela vai ter de se acostumar à ideia de que se casou só com você. as mãos na cintura. entrando na garagem. mas seu coração estava cheio. é só dizer. Está preparado para mais notícias boas? Brody Smart telefonou quando eu estava vindo para cá. permitia que ele queimasse estresse e energia. David desviou o olhar para a rua. seus pratos prediletos. – Ainda não acredito que fez o que fez. Tim sorriu. – Você tem o meu apoio. dar mais atenção à sua carreira. Bom. depois que contei que Colby é pai dela. – Finalmente. Há alguns empreendimentos novos na região oeste da cidade. pudesse voltar a praticar motocross. Outros fatores em sua vida haviam ficado para trás. Dave. Bastara um ato de obediência para Deus abrir as portas do céu. até que ele pudesse lhes dar atenção. Tudo estava bom. – Não seja assim. Quando pusera sua última motocicleta na carroceria da caminhonete do último freguês. O que precisar. se casar. Ele quer que entremos na concorrência.. – David deu um tapa no ombro de Tim. – Se isso fosse verdade. A garagem estava vazia. – Boas notícias. – Como está se sentindo? – perguntou.sem Charlotte. Não. que fosse ousado. Os irmãos conversaram por mais alguns minutos e. o acalmava. Tim sacudiu a cabeça. Preciso saber se ela ainda fala comigo. a menos que nossos projetos sejam desenhos de crianças. Estava livre. Tim. Tim apoiou a vassoura em um canto. erguendo a mão e espalmando-a na do irmão. Correr o mantinha preso. Acreditara que correr o tornava livre. então. Tim. passar mais tempo com seu amigo. Jesus. Ele não podia não correr. já ganhamos. O motor de uma caminhonete roncou na entrada da garagem. – Vai atrás de Charlotte outra vez? – Não sei. Tim pôs a vassoura em ação. Quem sabe quando e se tivesse lhos. David consultou o relógio e disse que precisava ir embora. Você é como um irmão para ela. Ela quer o melhor para você. Tim ergueu os olhos quando David desligava o motor e saía do veículo.. tiramos a sorte grande. A comissão adorou seu projeto de restauração da fornalha e dos antigos escritórios Saltonstall. Eles querem que sejamos nós.

O vizinho passou de motocicleta. . Não sentiu inveja do homem. Glorioso espaço. Tim acenou de volta. de frente para a rua. Nem um pouco. buzinando e acenando. Estava pronto para o que quer que Deus pusesse em seu caminho. Espaço.da garagem.

Capítulo Vinte e Sete
Charlotte
Na luz suave de seu quarto, Charlotte tirou o vestido do manequim. Em dez segundos, saberia.
O vestido servia nela? Era ela a próxima noiva?
– Charlotte, por que está demorando tanto? – Hillary bateu na porta.
– Precisa de ajuda? – Dixie ofereceu.
– Fiquem quietas e me deem um minuto.
Tomara banho e vestira roupas íntimas limpas. Então, pegou o vestido devagar com todo
cuidado. Ele carregava em si os corações de três outras mulheres. Uma história de cem anos.
Foi somente quando Charlotte começou a vesti-lo, que ela se deu conta de quanto queria fazer
parte daquela história, da história do vestido.
Sirva, por favor. Hesitou ao puxar a saia pelos quadris.
– E se não servir? – perguntou em voz alta.
– Ora, pelo amor de Deus, Charlotte. Vai servir – disse Hillary, sem dúvida. – Acha que tudo
isso aconteceu só para você dar o vestido para outra mulher? Vai servir. Confie em mim.
– Se não servir, você vai encontrar a noiva perfeita, Char. É o que você sempre faz.
– Psiu, Dix! Como pode dizer uma coisa dessas? Ela é a noiva perfeita.
– Bem, se não for, vai encontrar uma. Hillary, você está deixando Charlotte nervosa.
Charlotte sorriu ao ouvir o diálogo do outro lado da porta, en ando os braços delicadamente
nas mangas e ajeitando o corpete nos ombros. Já amava Hillary como a uma irmã, ou melhor, como
a uma mãe.
Juntando os lados do vestido às costas, Charlotte prendeu a respiração. Ia servir?
A cintura de pérolas circundou seu corpo com perfeição. Serviu. O vestido serviu. Não vou
chorar, não vou chorar.
Seu coração, porém, disparou e, quando ela tentou falar, as lágrimas embargaram sua voz.
– Serviu, meninas. O vestido serviu. Venham abotoá-lo.
A porta do quarto se abriu com um estrondo.
– Não acredito que você duvidou! – Hillary foi abotoar os botões nas costas.
– Ah, Char! – Dixie a estudou da cabeça aos pés, com um sorriso largo e os olhos cheios de
lágrimas. – É lindo. Você está linda.
– Mas, como? Emily teve de usar espartilho. Mary Grace disse que estava magra. Ah, Hillary, a
cintura vai ficar apertada demais.
– Charlotte, pare de se preocupar e comece a pensar no que vai fazer quando descobrir que o

vestido serve em você.
Hillary acabou de abotoar o vestido em silêncio. O único som no quarto era a respiração das
três mulheres.
Charlotte observou no espelho o vestido se moldar ao seu corpo, o corpete acentuando suas
curvas. O decote ia até pouco abaixo do pescoço. As pérolas na cintura distribuíam-se em uma
leira perfeita, não justa ou esticada. As mangas envolviam seus braços delicadamente até logo
abaixo do cotovelo.
– Calce estes sapatos. Dixie pôs um par de sapatos cor de creme que pegara na loja diante dos
pés de Charlotte. – O salto é mais ou menos do tamanho que Emily teria usado.
– Está todo abotoado – Hillary anunciou, apertando de leve os ombros de Charlotte e se
inclinando para espiar seu rosto. – Solte o ar – sussurrou.
Quando Charlotte obedeceu, suas costelas se acomodaram de encontro ao vestido, e cada bra
se encaixou em seu lugar.
O espelho re etia mais que uma mulher em um vestido bonito. Re etia o coração de
Charlotte. E, no mesmo instante, ela soube... Arriscaria seu coração outra vez.
– Preciso ir – Charlotte falou, pegando a bolsa do chão do quarto.
– Ir aonde?
– Ir atrás do amor.
Enquanto saiu do apartamento e desceu até o carro, tudo cou muito claro em sua mente e
seu coração. Ela não pertencia ao vestido. Pertencia a Tim. Era o que o vestido tentara lhe dizer
todo aquele tempo, desde o dia em que ela comprara o baú.
Acomodando-se cuidadosamente ao volante, deu a partida no motor e, quinze minutos depois,
além de quase bater em uma betoneira, ela embicou o carro na garagem de Tim.
A porta da garagem estava aberta e ele estava sentado no meio do espaço vazio, os cabelos
longos emoldurando seu rosto, os pés descalços despontando da bainha da calça jeans.
– Tim?
Charlotte atirou as chaves no assento do motorista ao sair do carro, segurando o vestido para
impedir que a bainha arrastasse no chão.
– Charlotte. – Tim se levantou de um pulo e se encaminhou para ela. – Está usando o vestido?
– Sim, ele... Ele me serve. Tim, onde estão suas motocicletas?
– Eu as vendi. Finalmente, ouvi aquela voz em minha cabeça. – Fixou os olhos nos dela. – Por
que está usando o vestido de noiva de sua bisavó?
Charlotte notou que ele gostava de dizer aquilo: bisavó.
– Porque... Eu...
Ela não havia pensado no que diria a ele quando o encontrasse. Fora movida pela necessidade
de vê-lo.
Tim apontou um dedo para ela, caminhando de lado até a porta que levava ao interior da casa.
– Não se mova. Vou... Só... – Abriu a porta. – Espere.
Com isso, desapareceu lá dentro. Seus passos ecoaram pela casa e voltaram.

Ele surgiu na porta de repente, os olhos brilhando, dançando, indo diretamente para
Charlotte. Sem qualquer palavra ou hesitação, ajoelhou e pegou a mão dela.
– Case comigo, Charlotte. Por favor, case comigo.
Colocou o anel de sua bisavó no dedo dela.
– É por isso que estou aqui, Tim, usando o vestido de noiva de minha bisavó.
Quando Tim a tomou nos braços e se pôs a girar, Charlotte riu e soltou gritos alegres,
deitando a cabeça para trás e deixando a felicidade ecoar na garagem.
Tim enterrou o rosto em seu pescoço e, por um momento, as batidas de seus corações
pareceram uma só.
– O anel serve, o vestido serve. – Ele a pôs de volta no chão. – Nós servimos um ao outro,
querida. – Beijou-a, apertando-a contra si. – Ah, Charlotte, adoro seu cheiro. Adoro sentir você
junto a mim.
– Ei, amigo Tim?
– Sim?
– Diga ao noivo Tim que estou feliz por tê-lo de volta.
– Charlotte... – Ele a encarou, segurando o rosto dela entre as mãos. – Que horas são?
– Seis e meia.
– Case comigo agora, esta noite. Você tem um vestido, um lindo vestido. Eu tenho um
smoking. Nossa licença de casamento ainda é válida.
– Tim, está falando sério? Agora? Esta noite? – Charlotte espiou o céu daquele m de tarde de
agosto. Demoraria um bocado para escurecer. – Quem vai realizar a cerimônia?
Ela adorou o brilho que iluminou o olhar de Tim.
– Deixe comigo. O que me diz?
– Sim. Sim!
Charlotte colou os lábios aos dele, com trêmula suavidade no início, mas com crescente
confiança e paixão, à medida que ele a apertava contra si e despejava seu amor no coração dela.

Foi a brisa, uma mudança invisível no ar e em seu coração, que a fez erguer os olhos.
Estava pronta. Charlotte caminhou com passos seguros por entre os carvalhos até chegar à
trilha iluminada pelo luar. A lua cheia brilhava sobre Red Mountain, afastando as cortinas da noite.
Um casamento à meia-noite.
Charlotte segurou com força o buquê quando um quinteto começou a tocar “Hallelujah
Chorus”. Outra explosão de felicidade tomou conta de seu peito e espalhou uma sensação de
formigamento por suas pernas e braços. Seu coração tremeu de amor. Sua mente descansou em paz.
– Muito bem, Charlotte, está pronta? – Cleo surgiu das sombras, as pérolas em seu pescoço
rivalizando o brilho do luar.
– Sim... Estou pronta.

Em seguida, surgiram suas “irmãs do vestido”, Hillary e Mary Grace.
A música produzida pelas cordas se tornou mais intensa. A brisa soprou e, por um momento,
carregou o perfume de jasmim e cedro. O perfume de sua mãe. Charlotte fechou os olhos e inspirou
profundamente.
– Devo dizer que Daniel, Emily e Colby estariam muito orgulhosos. – A voz estridente de Cleo
soou trêmula de emoção. – Assim como eu.
– Minha mãe estaria orgulhosa também.
Charlotte inspirou uma última vez, como que para reter o perfume que se dissipava.
– Com certeza – murmurou Hillary, à sua esquerda, enroscando o braço no dela. – Eu estou.
A mais velha manteve o olhar xo à frente, as costas eretas. Charlotte pressionou o rosto
contra o ombro de Hillary ao ver o leve tremor nos lábios da amiga.
– Acho que este é o segundo melhor dia de minha vida – disse Mary Grace, à direita de
Charlotte, também enroscando o braço no dela.
– O meu também – Hillary concordou, ajeitando o véu de Charlotte... o véu de Emily... e
beijando o rosto de Charlotte, para, então, acenar para Cleo sair do caminho. – Vamos casar esta
menina.
Os acordes se elevaram. Em meio às lâmpadas suspensas e velas, Charlotte viu Tim e David se
levantarem de suas cadeiras e se dirigirem ao pequeno púlpito improvisado, juntamente com o
orgulhoso e sorridente Thomas.
Tim olhou para ela e, na luz suave, Charlotte pôde ver as lágrimas em seus olhos. E nas ondas
produzidas pelas chamas tremulantes, ela sentiu a felicidade no coração dele.
Ele zera tudo aquilo. Telefonara para Cleo, chamara a família e os amigos. Em poucas horas, a
cerimônia e a festa de casamento haviam sido planejadas e executadas.
Quando Tim ligou para Hillary, ela se pôs em ação, indo até Kirkwood e convidando Mary
Grace e Thomas.
– Não perderíamos por nada neste mundo – os dois haviam declarado.
Um casamento à meia-noite.
David entrara em contato com um cliente da Firma Rose, que tocava na Sinfônica de
Birmingham. Ele, por sua vez, reunira um quinteto de cordas: dois violinistas, um violista e dois
violoncelistas, que ficaram muito inspirados por um casamento espontâneo, à meia-noite.
Os arcos tiravam das cordas os acordes “Aleluia, aleluia”. Charlotte seguiu na direção do
círculo de cadeiras brancas, na direção de Tim, do amor.
O vestido esvoaçava em torno de suas pernas. A cintura alta parecia abraçar seu coração.
Lágrimas se formaram em seus olhos. Ao seu lado, Hillary fungou e limpou a garganta, enquanto
Mary Grace deu livre vazão às lágrimas, sem a menor vergonha.
– Nunca pensei... Ah, meu Deus, querido Jesus, nunca pensei... Aos noventa e três anos, ora,
ora... – ela murmurou.
– Nem eu, Mary Grace – Hillary falou em voz baixa e trêmula. – Nem eu.

o brilho das lágrimas em seus olhos mais evidente agora. mais do que nunca? – O velho pastor sorriu. Hillary e Mary Grace deram beijos emocionados no rosto de Charlotte e foram se sentar na primeira fila. E contou a história de um vestido de cem anos de idade e quatro noivas especiais. Redimida. porém. – É incrível – prosseguiu com voz nítida e jovial – como o vestido serviu em cada uma delas com perfeição. . nem um ponto. pelos irmãos de Tim. – Você está linda – ele sussurrou quando Thomas ordenou que pegasse a mão de Charlotte.. Nunca envelhece e está sempre na moda. A Bíblia nos diz. Fico feliz por estar vivo para testemunhar este momento. os cabelos emoldurando o rosto bonito e realçando o brilho em seus olhos. Seu rosto resplandecia de felicidade. Não precisamos Dele agora. e Sra. Passou pelo Sr. E me atrevo a dizer que parece tão em moda em Charlotte. Um casamento é o que O próprio Jesus espera. descobrira que Deus reservara muito mais que isso para ela. a um vestido de noiva e ao grandioso poder do amor. – E cá estou eu. tão satisfeita com a vida. Charlotte encarou Tim. bonitão. forte. Nessa noite. – Caros irmãos e irmãs – sua voz soou clara e forte –. está pronto para se casar? – Mais do que pronto. quanto pareceu em minha Mary Grace. Thomas empunhou a Bíblia. Nunca desbotou. omas contou que o primeiro milagre de Jesus se realizara em um casamento. Charlotte Malone disse “sim” ao amor e ao resto de sua vida. As últimas notas do quinteto se dissiparam. Por misericórdia. – omas piscou para Charlotte. alto e magnífico em seu elegante smoking preto. É como a boa notícia do Evangelho de Jesus. Dixie surgiu do nal da primeira leira e assumiu seu lugar de dama de honra. – E você. A boa notícia é sempre boa. Nunca foi alterado. fundindo-se ao luar. por Katherine e os lhos. Não é por engano que estamos aqui reunidos com Charlotte e Tim à meia-noite. Rose..” Este casamento é o presságio desse grande dia. Havia se conformado com uma vida sossegada. Quando chegou ao púlpito. lindo. que haverá um clamor à meia-noite. Sempre serve. por sua vez. aceita esta mulher. sem emoções. E uma Rose. estamos aqui reunidos devido a um destino. e o marido de Hillary. em Mateus 25. Tim observou Charlotte com terna intensidade. que levara seu noivo. À meia-noite e meia de uma madrugada fresca de agosto. Greg. “Aí vem o esposo.Charlotte. pregando outra vez. se tornando o que sempre estivera destinada a ser. Apoiado em sua bengala. Não precisa de nenhuma mudança. omas pediu a Tim que segurasse a mão da noiva. Mas eles não me tiraram da cama para pregar um sermão. – Tim. Vamos prosseguir com este casamento. nunca imaginara sentir-se tão feliz. há setenta e quatro anos. – Vamos casar esses dois. Acenou com a cabeça para Noelia e Tawny. que coisa maravilhosa Deus realizou.

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