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8 l O GLOBO

Rio

Segunda-feira 8 .12 .2014

SEM CIDADANIA

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A fila dos invisíveis

Mesmo com problema em queda no país, Rio ainda tem crianças e jovens sem documentos

F ERNANDA DA E SCÓSSIA

fernanda.escossia@oglobo.com.br

Sexta-feira sim, sexta-feira não, um ônibus azul e branco estacionado no pátio da Vara da Infância

e

entra e sai de gente a partir das 9h. Do lado de fo- ra, cerca de 50 pessoas, todas pobres ou muito pobres, quase todas negras, cercam o veículo, perguntam, se sentam e levantam, perguntam de novo e esperam sem reclamar o tempo que for preciso. É uma fila para sair da invisibilidade e conseguir documentos. Para muitos, será o pri- meiro da vida — a certidão de nascimento.

O ônibus desafia a estatística que o Brasil vai

comemorar esta semana, quando o IBGE divul- gar a pesquisa anual de registro civil, informan- do que o país se aproxima da meta internacio- nal de ter apenas 5% de crianças de até 1 ano e três meses sem certidão de nascimento (o nome técnico é subregistro). Em 2002, a taxa era de 20,3%. Um esforço concentrado a partir de 2007, quando o governo federal lançou o Plano Naci- onal de Erradicação do Subregistro, gerou muti- rões em todo o país e derrubou a taxa para 6,7% em 2012. O dado de 2013 sai amanhã. Mas, mesmo no Rio, segunda maior Região Metropolitana do país, ainda há um contingen- te incontável de crianças crescidas e adolescen- tes sem certidão de nascimento. Ou adultos que, registrados ou não, lutam para completar a documentação básica e ter carteiras de identi- dade e de trabalho, CPF e título de eleitor. Quem não tem documentos não vota, não se aposenta, não viaja, não recebe benefícios de programas sociais e, quando morre, é enterrado como indi- gente. É como ser invisível.

da Juventude, no Centro do Rio, sacoleja com o

UM DIREITO DE TODOS São essas pessoas que procuram o ônibus da Justiça Itinerante, um projeto da Corregedoria do Tribunal de Justiça do Rio. Dentro funcio- nam três salas improvisadas, onde três juízas, um promotor e um defensor público fazem au- diências para saber de onde vêm aqueles brasi- leiros e se de fato são quem dizem ser. Na falta de documentos, cada um leva testemunhas, pa- rentes, amigos e vizinhos que os viram nascer. Ali esteve, por exemplo, Rosana Mariano da Sil-

va, dona de casa de 28 anos, moradora de Itaboraí

e mãe de sete filhos. Os três primeiros, Lucas, de

13 anos, Rodrigo, de 12, e Carlos, de 10, não têm registro, porque Rosana e o marido também não tinham. Há nove anos, cresceu um tumor no pes- coço dela. Para conseguir tratamento, teve que ti- rar a certidão de nascimento. Ela extirpou o tu- mor, teve mais quatro filhos e registrou todos. Os mais velhos, no entanto, continuavam sem regis- tro. A escola, seguindo a lei, matriculou-os e co- bra todo ano o documento. Casos assim chegam aos montes à mesa da ju- íza Raquel Chrispino, uma espécie de padroeira dos registros impossíveis no Rio. Titular da 1ª Vara de Família de São João de Meriti e coorde- nadora do projeto para erradicação do subregis- tro, da Corregedoria Geral do Judiciário flumi- nense, há sete anos ela está mergulhada no te- ma da universalização do registro civil e da am- pliação do acesso do brasileiro à documentação básica. Como a maioria dos profissionais que trabalham com o assunto, diz que a queda do subregistro de crianças pequenas é uma vitória importante, mas está longe de refletir a realida- de dos adultos sem documento. Por lei, a criança deve ser registrada em 15

FOTOS DE LEO MARTINS

a criança deve ser registrada em 15 FOTOS DE LEO MARTINS No limbo. Rosana em frente

No limbo. Rosana em frente ao ônibus da Justiça Itinerante com os filhos Carlos, Marcelle e Rodrigo: ela recorreu ao projeto pensando nos dois garotos, que não têm documentos

projeto pensando nos dois garotos, que não têm documentos Sem entender. Kelly, Marilda (sentada) e Samuel

Sem entender. Kelly, Marilda (sentada) e Samuel dentro do ônibus do projeto, que conta com três salas onde são realizadas audiências:

eles não compreendem bem a necessidade de obter o registro de nascimento

dias, mas o prazo sobe para 45, se for feito só pela mãe, e para três meses, se o cartório mais próximo estiver a mais de 30 quilômetros. O registro pode ser feito sem problemas mesmo com a criança já mais velha, com testemu- nhas ou com a Declaração de Nascido Vivo, emitida pela maternidade. — O registro civil é um direito, e não é só para ter acesso a programas sociais. É um direito em si, tem nossos dados biográficos, quem somos, onde nascemos. Existe uma população pobre para quem o documento ainda não é direito ga- rantido. Nós, cidadãos da elite, somos podero- sos, perdemos um documento, fazemos segun- da via e está tudo resolvido. Para essa popula- ção, é tudo muito difícil — afirma a juíza. Ela cobra a ampliação do número de postos de cartório nas maternidades, prevista no pla- no de universalização do registro de nasci- mento. Pelos dados da corregedoria, hoje no Rio existem cerca de 200 maternidades. A As-

sociação dos Registradores de Pessoas Natu- rais, seção fluminense (Arpen-RJ), informa que em 45 há postos de cartório. A presidente da Arpen-RJ, Priscilla Milhomem, do 4º Cartó- rio de Registro Civil, diz que a situação melho- rou, e a meta é chegar a 65 postos em 2015. Em todo o país, são mil postos em maternidades, segundo a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Perder um documento mudou a vida da famí- lia de José Oliveira da Costa, de 64 anos, 12 fi- lhos, desempregado. Morador de Nova Iguaçu, Costa sempre teve os papéis em ordem e regis- trou os quatro primeiros filhos. Uma enchente, no entanto, levou-lhe o barraco com tudo o que havia, e ele parou de registrar as crianças que continuaram nascendo: Mateus, de 18 anos, Sa- muel, de 17, Marilda, de 15, e Kelly, de 14. O pai conseguiu tirar a segunda via da carteira de identidade e registrou os quatro últimos filhos. Os do meio, porém, ficaram no limbo.

O Censo 2010 contabilizou no Brasil 600 mil crianças com menos de 10 anos (1,8% da popu- lação dessa faixa etária) sem certidão de nasci- mento, 28.731 no Estado do Rio. Dos quatro ir- mãos de Nova Iguaçu, só Kelly está na conta. Não houve escola que os aceitasse, apesar de ser proibido a um colégio recusar uma criança por falta de documentos. São analfabetos e marca- ram com o dedão sujo de tinta a presença na au- diência da Justiça Itinerante. O pai disse que re- cebe cerca de R$ 300 do Bolsa Família pelos fi- lhos menores, mas não pelos do meio, porque, como não tinham documentos, não foram in- cluídos no programa.

SEM DOCUMENTOS, NÃO HÁ BENEFÍCIOS Marilda engravidou perto de completar 13 anos e, sem fazer pré-natal, teve uma filha, Ma- ria Alice, hoje com 2. O pai da menina não re- gistrou a garota. Marilda tentou o Bolsa Famí- lia para a menina — sem sucesso, porque ne- nhuma das duas tem documento. O Ministério do Desenvolvimento Social informou que, de fato, quem não tem documentos não pode re- ceber benefícios. Cerca de 20 mil pessoas nes- sa situação estão listadas no Cadastro Único Para Programas Sociais, do governo federal. Elas são encaminhadas a serviços de seus mu- nicípios para obter a documentação e só então entram em algum programa social. Marilda não entende o motivo da audiência da Justiça Itinerante. Seguiria no limbo se não tivesse sido localizada pela assistente social Sônia Mendes da Silva, da prefeitura de Nova Iguaçu. Sônia virou o que os especialistas cha- mam de “tutor social”, alguém que, por obriga- ção profissional ou solidariedade, ou as duas coisas, assume a responsabilidade por tentar ajudar uma família. Há dois anos ela encami- nhou o caso para a corregedoria. Estava na au- diência da Justiça Itinerante e saiu de lá com um mandado judicial para que, no cartório, fossem emitidas as certidões de nascimento. O registro, mesmo tardio, transformará em cida- dãos Marilda, seus irmãos e sua filha. l

em cida- dãos Marilda, seus irmãos e sua filha. l Quem anuncia nos Classificados do Rio
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