Gêneros orais na escola / Oral Genres in School

Lucia Teixeira

RESUMO
O artigo analisa a utilização da noção de gênero na escola fundamental, detendo-se
sobre o ensino dos gêneros orais. Apresenta postulados teóricos de Bakhtin e incorpora
a contribuição da semiótica discursiva e as sugestões metodológicas da pedagogia de
ensino de línguas desenvolvida na Universidade de Genebra. Em seguida, propõe
exemplo prático de aplicação do conceito ao desenvolvimento da expressão oral em sala
de aula.
PALAVRAS-CHAVE: Gênero oral; Semiótica; Ensino de língua materna

ABSTRACT
The article analyzes the use of the concept of genre in elementary school, focusing on
oral genres teaching. It presents the basic Bakhtin’s postulates and incorporates the
contribution of Semiotics and the suggestions of the pedagogy of language teaching
developed at the University of Geneva. It also offers an example of oral genre to be
worked in the classroom.
KEY-WORDS: Oral genre; Semiotics; (First) Language teaching

Professora da Universidade Federal Fluminense – UFF, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil; CNPq; FAPERJ;
luciatso@gmail.com
240

Bakhtiniana, São Paulo, 7 (1): 240-252, Jan./Jun. 2012.

Não parece inteiramente fora de moda pensar que meninas e meninos vão à escola para ler. robôs./Jun. Ou ainda penetrar numa roda de conversa de professores de escolas de bairros de periferia de grandes metrópoles e escutá-los relatar seu dia a dia cheio de medo. ainda que se considere o refinamento de teorias pedagógicas e. os avanços dos diferentes campos de estudo da Linguística. no caso particular do ensino de Língua Portuguesa. agressividade e insegurança. o sentimento de impotência e mecanismos institucionais pesados e obsoletos teimam em manter um certo estado de coisas preguiçoso. 29 dez 1996). Essa introdução algo melancólica tem por fim indicar ao leitor – particularmente ao professor de escolas fundamentais – que se compreendem e conhecem as limitações e dificuldades de seu trabalho. incapaz de fazer o aluno avançar além da alfabetização precária e dos deveres de repetição de modelos estruturais. em que não há espaço para criatividade ou inovação. cheia de linhas de montagem. Se as formulações teóricas vêm oferecendo ao professor estratégias bem fundamentadas de ensino e propostas sólidas de reflexão sobre a língua e sobre o ensino de língua. como bem lembra a anedota contada por Ziraldo: O cara adormeceu na Idade Média numa fábrica de carroças. São Paulo. Entrevista ao Jornal do Brasil. 241 . escrever e contar. Acordou e entendeu tudo: “Olha eu aqui na sala de aula”. Jan. com a peste negra em volta. 2012. como me explicou recentemente uma editora experiente. A escola vem perdendo a chance de reformular-se. Ou visitar uma escola e ver ainda meninos e meninas copiando do quadro-de-giz listas de coletivos. 7 (1): 240-252. Acordou no século 20 e estava numa fábrica de BMWs. e se a tecnologia digital vem colocando à disposição da prática docente instrumentos antes ligados a sonhos de ficção científica. A professora ensina o dever e cobra do menino depois (Ziraldo. Outro dormiu numa sala de aula. o espírito de acomodação. Tem por fim também incluir a autora no mundo dos experientes professores com mais de 30 anos de magistério e alguns sonhos Bakhtiniana. espantado. Outro dormiu num hospital. Acordou numa UTI moderna. a fim de que o professor se sinta mais à vontade para “pulá-los” se assim o desejar. Continua a ser a mesma coisa: as carteiras com meninos e a professora ali na frente. Bastaria pensar nos livros didáticos que deslocam para o final das lições os exercícios de expressão oral.

feita de tanta impossibilidade? Desde quando exercer o magistério é conformar-se com as condições concretas de atuação? Para que as teorias nos levam tão longe. ao final das lições. que circula numa esfera de comunicação e serve a objetivos definidos. a mera oralidade não caracteriza pedagogicamente a atividade de uso da linguagem em situações formais e informais de comunicação oral. o livro didático.despedaçados. escrever mensagens carregadas de traços de oralidade nas redes sociais. Aqui também. com a justificativa de sua importância. após formular alguma conceituação teórica de base. costumam suceder-se em atividades propostas. São Paulo. O falante usa com competência a linguagem em situações informais da esfera cotidiana. se desistimos diante dos gestos de recusa e incompreensão? A proposta que se vai ler aqui é simples e viável. razoável e necessária./Jun. Trata-se de. mesmo essas atividades já conhecidas podem passar por uma sistematização que permita ao aluno perceber as regras presentes em cada uma. A conversa de todo dia com o amigo não é a 242 Bakhtiniana. De que vale acumular conhecimento e informação se isso não puder servir à famosa “realidade da sala de aula”? Que realidade é essa afinal. Jan. particularmente por meio daquele que vem sendo o instrumento privilegiado de acompanhamento das aulas. em geral. “exponha sua opinião” e “discuta em grupo”. 1 O conceito de gênero e sua articulação com a expressão oral Na prática da expressão oral. Ora. sem qualquer sistematização ou justificativa. boa e econômica. e a sugestão de articulação com leitura de textos e exercícios de gramática. 7 (1): 240-252. 2012. tanto quanto em relação à seleção dos textos a ler e produzir e às noções de gramática a exercitar. dar uma informação na rua. Ordens como “converse com seu colega”. . A comunicação oral é um comportamento verbal e somático. é capaz de conversar. o envolvimento lúdico e a informalidade parecem predominar nas atividades propostas na escola. sugerir ao professor alguns encaminhamentos e um exemplo de atividade de expressão oral. tão vagas quanto pouco razoáveis. No entanto. Mas tem sobretudo por fim insistir numa teimosa expectativa de intervenção. a noção de gênero pode ser muito rendosa.

praticar gêneros. a reformulação e a repetição como procedimentos-padrão. Sabe-se que se deve falar de gênero. 243 . por quê nem como. notícias de jornal. A produtividade da noção de gênero está atrelada à compreensão de sua elasticidade. mutável do gênero – como de toda atividade linguageira – recorrências e invariâncias tornam a interação discursiva minimamente previsível e instauram um universo compartilhado de expectativas entre enunciador e enunciatário. mas não se sabe exatamente para quê. os gêneros variam para adequar-se às esferas sociais de comunicação e à intencionalidade dos participantes da interlocução. Jan. por exemplo. incorporar-se numa manifestação genérica mais abrangente. numa fragmentação genérica que serve à composição de um romance que tematiza formalmente o estilhaçamento e multiplicidade de acontecimentos da vida contemporânea. Num outro patamar de variação. da rede Bandeirantes. em que as conversas devem ocorrer num registro cuidado e com temática voltada para assuntos de interesse mais geral e diversificado. à noção de variabilidade. como costuma fazer Boris Casoy.262). Marcados por temática. no Jornal da Noite. os gêneros podem interpor-se. cartas. A oscilação entre regularidade e instabilidade permite compreender que. variável. Examinar a transcrição de uma conversa livre pode oferecer a oportunidade de observar a hesitação. alternar-se. A gradação que se verifica entre os dois tipos de conversa exemplifica a variação do gênero e reforça a ideia de estabilidade relativa defendida por Bakhtin (2003. com grande força e pouca consistência teórico-metodológica. como fez Roseana Murray em belo livro para crianças. ensinar gênero. que tanto serve a Bakhtiniana. juntamente com as diferenças internas no quadro das realizações de um gênero. mas embaraçosos numa situação de formalidade. ao lado do caráter instável. São Paulo./Jun. p. em que predomina o registro informal da língua. 7 (1): 240-252. 2012. paródia ou recurso de expressão. perfeitamente comuns e aceitáveis nessa situação típica da esfera de comunicação cotidiana. Um romance de Valêncio Xavier incorpora receitas. a assimilação de um gênero por outro remete. fotos. ou que um comentário de apresentador de jornal na TV adquira ares de conversa ao pé de ouvido do telespectador.mesma conversa formal com o vizinho que se conhece há pouco nem tem o alcance da conversa social em solenidades ou situações de convívio mais monitorado. Como simulacro. Muito provavelmente isso se deve a uma flutuante filiação teórica da noção. Também é possível que um poema se escreva à moda de um anúncio classificado. estilo e composição particulares. O conceito entrou recentemente nas escolas.

por fugir inteiramente às expectativas do gênero e às marcações permitidas na esfera de circulação acadêmica. . Assim. DISCINI. prática que regula “a presença das grandezas discursivas no campo do discurso” (FONTANILLE. 2006./Jun. Jan. quanto as regras de composição de um conto literário. mecanismos de articulação e conexão entre palavras e períodos. quanto as contribuições metodológicas de pedagogos que alargam o alcance do conceito ao refinálo em situações práticas (SCHNEUWLY e DOLZ. num Programa de Letras. GOMES. que tanto poderão enfatizar as temáticas próprias a uma receita de bolo.271). ao estranhamento mais simples. aos que acolhem a última moda pedagógica e reproduzem o que lhes dita um certo consenso que não chegam a compreender bem. que não chega a abalar as estruturas previstas. uma certa modalização da rebeldia conseguiu incorporar o material ao 244 Bakhtiniana. ao considerar tanto um repertório de estereótipos quanto uma ação inovadora de apropriação do discurso que desestabiliza a previsibilidade das fórmulas discursivas. o conceito vem de Bakhtin mas se dilui em corpos teóricos diferenciados. 2009). 2012. No segundo caso.analistas do discurso mais voltados para as relações semânticas que inscrevem o texto num contexto socio-histórico quanto a linguistas do texto. que servem de base a contribuições importantes para os estudos de gênero (FIORIN. p. O grau de surpresa com a inovação pode ir do espanto. subverteu até mesmo as condições de sua aceitação. Serve também aos repetidores de fórmulas. perde-se o global do conceito. composição e estilo) e na tensão entre regularidade e instabilidade própria de todo gênero. 2007. dessa forma. preocupados com as relações internas de coesão e coerência. 2003. 2004). Uma tese apresentada como instalação foi recentemente rejeitada num Programa de Pósgraduação em Comunicação. a realização do trabalho atingiu um máximo de intensidade inaceitável para a academia e. por exemplo. Num caso como em outro. considerarei tanto a concepção de texto e de discurso da semiótica. que está resguardado em dois aspectos igualmente importantes: na articulação equilibrada dos três componentes do gênero (temática. 7 (1): 240-252. Para as sugestões que darei neste artigo. No primeiro caso. São Paulo. identificado como uma intensidade tônica num eixo de expectativas átonas. Tomarei da semiótica particularmente o conceito de práxis enunciativa. Já uma tradução de romance foi aceita como parte substancial de tese sobre o tema.

entretanto. são exemplo da força pulsante da linguagem. por exemplo. que agregam em famílias abstratas textos concretos. Compreender o gênero não como fórmula mágica.campo acadêmico e contribuiu para romper fronteiras estreitas de compreensão do gênero. para sistematizar os componentes. mas como noção de base para o ensino de língua significa reconhecer sua fertilidade teórica e a possibilidade que Bakhtiniana. substituídos por formas de expressão mais rápidas e imediatas./Jun. “o impacto da novidade pode surpreender e resgatar o sentido de gêneros já dessemantizados tanto como sua difusão e reiteração pode levar a um desgaste do gênero”. pelos textos que contemplam os gêneros sobretudo em sua força de repetição. p. Se a intensidade de uma ruptura pode particularizar uma manifestação e pôr em choque e em risco a estrutura esperada do gênero. São Paulo. A locução de uma notícia escrita.580). uma instalação não é aceita como tese e os emails. como as mensagens trocadas em redes sociais. fechando a circulação e dificultando a compreensão. Como afirma Gomes (2009. presos à corda bamba que tem numa ponta a inovação e na outra a repetição e que. 245 . 2012. possuem gradações nunca completamente previsíveis. enquanto gêneros voltados para finalidades estéticas abrem-se à novidade e às rupturas. Por isso mesmo. no caminho entre uma ponta e outra. possui regularidades formais. chegam hoje a substituir a comunicação oficial e tendem a esgotar-se como gênero de comunicação cotidiana. como o recurso à entonação e a formalidade e clareza da leitura. ainda que marcada por uma pauta. Jan. Essa força de tensão entre intensidade e extensidade é o centro mesmo dos mecanismos de produção de sentido. temática e composição. 7 (1): 240-252. com a reiteração da regularidade de suas características. torna-se mais interessante quanto mais aproveita a interlocução e incorpora as digressões a uma temática mais ampla e extensa em relação a acontecimentos pontuais previstos inicialmente. e os gêneros. Gêneros de circulação oficial ou acadêmica tendem a manter com mais rigor as coerções de estilo. Na escola. Já a entrevista. será preciso começar pela estabilidade. e o resultado prático será a ampliação da extensidade de sua circulação. fixar regras e estabelecer padrões. das direções contraditórias e inquietas que podem tomar os discursos. que podem ser treinadas e sistematizadas. tão difundidos e presos a certas normas de composição. o procedimento oposto será a difusão de um gênero.

. temporal e actorial. É a compreensão do conceito de gênero que permite perceber. enriquecem os efeitos de imparcialidade e. 2006. respeitar a palavra do outro e expressar-se com cordialidade tanto estimulam uma interlocução mais viva e interessante quanto preparam o aluno para situações mais formais de uso. Esses pressupostos criam as condições de utilização da noção em todas as atividades da aula de Língua Portuguesa. Em relação aos gêneros orais. nomes. no caso da reportagem. pelo emprego da 3ª pessoa. tudo podendo estar enfeixado sob o rótulo das atualidades de interesse coletivo. datas.62). em que ele precisará desenvolver as habilidades de argumentar. o professor conta inicialmente com a capacidade de todo falante comunicar-se oralmente nas situações de convívio social imediato. que devem tratar com a mesma importância as competências de falar. etc. portanto. anterioridade e posterioridade. expor. opinar ou narrar. as relações lógicas de causa e efeito. ler e escrever. mas a uma recorrência de traços num conjunto de textos. regras como saber ouvir. Nas situações informais. 2012. da economia ou das artes. conscientizando-o da variação linguística e das diferentes situações de uso da língua. produzindo o efeito de sentido de distanciamento e presença. com citação de lugares. que também não se refere a um autor particular. Desenvolver os usos da linguagem oral próprios das situações formais e 246 Bakhtiniana. e a exploração da heterogeneidade discursiva./Jun. horários. explicar. a objetividade. ao mesmo tempo. como a debreagem enunciva de pessoa e espaço (3ª pessoa) associada à debreagem enunciativa de tempo (presente). numa reportagem. O estilo. mas corresponde a “um domínio de sentido de que se ocupa o gênero” (FIORIN. traços de composição recorrentes. ampliar as possibilidades de interlocução do aluno. marca-se. Uma reportagem cuidará de assuntos do cotidiano ou da política internacional. idades e profissões de pessoas. 7 (1): 240-252. p. criam o efeito de presença do narrador na cena.oferece de expansão das atividades discursivas desenvolvidas na escola. com a incorporação de diferentes vozes e pontos de vista. do futebol ou da saúde. a um só tempo. que não é um assunto universalmente presente em todas as manifestações do gênero. a economia de adjetivos e ausência de digressões. pode ser definida pelos procedimentos semânticos de tematização e figurativização. por exemplo. Ainda os recursos de ancoragem espacial. Jan. São Paulo. Deve o ensino escolar. A expressão oral não é um complemento nem um acréscimo nas aulas de Língua Portuguesa. A temática. a narratividade.

Assinalar as características da oralidade “produzidas pelo locutor sem intenção nem Bakhtiniana. 7 (1): 240-252. Será preciso valorizar a entonação. 2004. julgar. reformulações. DOLZ. o que seria inteiramente contraproducente. apelar. marcada por pausas. interrupções – tudo aquilo normalmente considerado como “escória” da comunicação – só pode ser relegado a um plano secundário na escola se “julgado na medida das normas da escrita padronizada” (SCHNEUWLY. Jan.públicas. as atividades orais variam entre dois polos. O aspecto aparentemente caótico da comunicação espontânea. hesitações. posturas. p. é tarefa que contribui enormemente para a formação de cidadãos conscientes e críticos. Construir o oral como objeto de ensino-aprendizagem significa compreender que a oralidade se manifesta em textos vinculados a gêneros regidos por regras próprias de estilo. numa complexificação crescente das atividades. exercitar estruturas de argumentação. as atividades de expressão oral desenvolvem habilidades sociais de cordialidade. e perceber que “tomar a palavra está em relação íntima com o corpo” (SCHNEUWLY. quebras. composição e temática. capazes de expressar-se para reivindicar. 2 Expressão oral na escola Se o conhecimento teórico da noção é fundamental para que o professor saiba definir objetivos e estabelecer métodos de ensino. fórmulas narrativas. marcar o acabamento ou a continuidade do fluxo verbal. titubeios. 2004. Para isso. que vão do oral espontâneo às produções orais restringidas por uma ordem escrita. sugerir leituras. e portanto mímicas faciais. 247 .159). p. expressar emoções. da discussão em grupo à exposição oral formal. São Paulo. retomadas. considerando seu papel de abrir e fechar turnos. 2012. Da mesma forma. olhares. interpelar.159). a gestualidade do corpo são aspectos incluídos nas atividades de expressão oral. será preciso criar situações concretas de comunicação./Jun. expor o aluno à convivência com os gêneros trabalhados. há uma questão muito simples que se faz de modo recorrente: o que e como ensinar? Penso que se deve ensinar tudo: da conversa informal ao debate regrado. DOLZ. tolerância e ensinam ao aluno formas de gestualidade e expressão corporal que contribuem para sua inserção social e a compreensão histórica do momento que vive. emocionar. recursos de apelo e emoção. respeito. Para os autores suíços. em que deverão ser usadas as normas urbanas de prestígio.

(aqueles da vida pública num sentido lato). ao ritmo mais cadenciado ou livre. as coerções marcadas e mais rígidas da leitura oral de textos escritos podem também passar por gradações e abrir muitas possibilidades de intervenção. DOLZ. 2012. entretanto.175). como trava-línguas e adivinhações. motivador e interessante dedicar-se também a atividades mais lúdicas. em situações em que emergem gêneros voltados a jogos da expressão oral. mediadas./Jun. 7 (1): 240-252. que todo uso tem regras de organização e realização e que será então necessário aprender novas regras.consciência” como marcas de regras do uso oral espontâneo pode assinalar para o aluno que sua fala também tem regras. gradações e diferenças a considerar e respeitar. etc. e somente assim a noção de gênero terá rendimento máximo. p. 2004. discussão em grupo (os que servem à aprendizagem) e debate. Jan. pode ser um primeiro passo para propor um debate sobre o mesmo tema. . A definição das regras de cada um dos gêneros auxiliará o aluno a compará-los e compreender a diferença das situações de interlocução. uma contenção ou um arrebatamento inscritos em cada leitura. parcialmente reguladas por restrições exteriores” (SCHNEUWLY. numa crônica lida em sala de aula. relativas a novos usos que ampliarão seu domínio da expressão oral. Por outro lado. negociação. Toda leitura é um gesto de interpretação. desenvolvido. testemunho diante de uma instância oficial. uma gestualidade mais leve ou pesada. como na apresentação de piadas ou na contação de histórias já 248 Bakhtiniana. portanto. teatro. já que “os alunos geralmente dominam bem as formas cotidianas” e o papel da escola é levá-los a “ultrapassar as formas de produção oral cotidianas para os confrontar com outras formas mais institucionais. Na comunicação mais espontânea ou na mais regrada. Ler um poema terá tantas realizações possíveis quantos forem os leitores que dele se apropriarem. por exemplo. há um timbre de voz. Há certos recursos conhecidos. há oscilações. São Paulo. Dirigir uma atividade de conversa para um tema específico. referentes às entonações ascendentes e descendentes. O aproveitamento das atividades espontâneas levará ao ensino dos gêneros da comunicação pública formal: exposição. Comentários espontâneos a respeito de uma pintura podem encaminhar-se para uma exposição oral e discussões em grupo sobre uma questão polêmica podem resultar num seminário. relatório de experiência. Será. às pausas mais curtas ou mais longas. Mas há o corpo de um leitor interferindo em toda leitura. entrevista. ou em que a capacidade de narrar é desenvolvida de modo mais livre.

/Jun. como ouve as réplicas e como faz a tréplica. TEIXEIRA. 249 . poema ou crônica.começadas ou criadas a partir de um aquecimento temático oferecido pela leitura de textos afins. que objetivo deverá atingir e que resultado se espera é essencial para que a atividade tenha bom andamento e conclusão. em nome de quem fala. São Paulo. 2012. os mecanismos e as formulações que constituirão os objetivos da aprendizagem dos alunos (SCHNEUWLY. após a definição das regras. 2004. diversidade e complexidade. Trata-se de um debate presidido por regras que definem quem fala. DISCINI. pinturas e fotografias. p. Seriam temas produtivos. Explicar ao aluno o que ele fará. seja capaz de permitir a manifestação de pontos de vista diferentes. é no momento de falar que se desenvolvem procedimentos de escuta do outro que concretizam regras de polidez e cordialidade. cartas de leitores. delimitando uma questão pontual pertinente ao mundo conhecido pelos alunos. etc. a instalação de uma fábrica num grande terreno livre nos arredores da cidade (danos ao meio ambiente versus geração de emprego). a construção de um estacionamento no lugar de uma praça (necessidades pragmáticas de locomoção versus tradição. Há quatro etapas principais para o desenvolvimento da atividade. a fim de adequá-la ao movimento crescente do trânsito (tradição versus progresso). A providência inicial é expor os alunos a um conjunto de textos motivadores. Mescla-se assim o que se ensina ao que já se sabe. 3 Um exemplo Para ensinar um gênero oral é necessário definir os princípios. trechos de romance. que podem ser apresentadas pelo professor e submetidas às sugestões da classe. o que exige formalidade com o que se inclui na esfera da comunicação coloquial cotidiana. quanto tempo fala. a derrubada de casas antigas para alargamento de uma avenida. desenvolvido numa lição sobre o tema “Cidades” (cf.199-201). Bakhtiniana. A primeira etapa é a definição do tema. Jan. Não se pode oferecer um tema vasto como “A vida nas cidades hoje”. e a expressão oral ganha em densidade. Para além disso. p. 7 (1): 240-252. 2009. por exemplo. lazer e preservação ecológica).180-181). mas é fundamental circunscrever um problema que. Tomemos como exemplo o debate regrado. DOLZ. que tanto podem ser reportagens de jornais.

de síntese. Os alunos dividem-se em grupos e pesquisam sobre a questão indicada. 2012. em grupo. consultam os textos lidos e ampliam a informação. Um moderador deve ser escolhido. mas também sem ausência de emoção. com uma lista de argumentos a favor de determinado ponto de vista. Os alunos podem discutir. Estimula-se. Passa-se então ao debate. A previsão da atitude a ser assumida no debate tem grande importância nesse estágio do trabalho: sem exacerbação apaixonada. casos que concretizem a argumentação. conectar os argumentos. definido pelas regras estabelecidas anteriormente em relação a quem toma a palavra. Ao final da atividade. Em seguida. nos grupos. São Paulo./Jun. . assim. de anterioridade e posterioridade. recorrendo à internet. haverá a etapa de avaliação. Os alunos. de impacto. para fazer cumprir as regras. 7 (1): 240-252. de causa e efeito. a melhor forma de encontrar um meio termo entre esses dois polos tão comuns em debates de opinião. Passase em seguida ao roteiro. os argumentos devem ser organizados em ordem de apresentação. tanto a questão do desenvolvimento da capacidade de argumentar quanto a vinculação dessa capacidade à aquisição de uma atitude política. Devem ser registrados dados. de quanto tempo dispõe. Jan. Devem tomar notas e isso permitirá uma boa articulação com produção textual. Podem ser também estudadas formas de articular. passa-se à fase de preparação do debate. a livros e artigos indicados pelo professor da disciplina ou de disciplinas afins. Pode-se começar por um argumento geral. dois gêneros muito necessários ao desenvolvimento de eventos argumentativos. preparam um roteiro. que abrange busca de informações.Definido o problema. após trocar informações que terão anotado. As regras devem ser divulgadas antes e presas no quadro ou no mural da sala de aula. encadeando-os por relações de progressão. passar para o registro de fatos e concluir-se com outro argumento geral. Deve-se ainda estimular a discussão sobre a relação entre o debate e a formação de cidadãos conscientes e participantes. socialmente engajada. que é outro gênero escrito de apoio ao debate oral. A escolha de conectores adequados ao estabelecimento dessas relações liga a atividade de expressão oral a uma questão gramatical relevante. números. definição de um roteiro e planejamento de atitudes. que deve explorar menos uma resposta à questão “quem ganhou o debate?” e mais a aprendizagem de uma situação em que todos se enriqueceram pela expressão de opiniões diversas e respeito a pontos de vista divergentes. 250 Bakhtiniana. como são feitas as réplicas e as tréplicas. ensinando-se a fazer notas de leitura ou fichamento.

2003. Bakhtin: conceitos-chave. Conclusão O aluno legitima-se como sujeito enunciador quando a definição de sua voz pode encontrar outras. Em tais manifestações da expressão escrita. Estética da criação verbal. REFERÊNCIAS BAKHTIN. Trad. expressão oral e conhecimento gramatical – a fim de permitir que meninos e meninas ultrapassem a desgastada trilogia ler-escrever-contar. não se podem hierarquizar as atividades que costumam compor os currículos e programas de Língua Portuguesa nas escolas fundamentais. São Paulo. que algum dia compreenderão como nossa morada. Jan. abaixo-assinado. 2006. editorial de jornal. que consolidam relações lógicas de causa. Paulo Bezerra.A atividade oral poderá culminar com alguma produção escrita do tipo dissertativo. Bakhtin: outros conceitos-chave. Ao contrário de uma hierarquia. como carta de leitor. para se lançarem na direção do pleno domínio da linguagem. estarão presentes. desenvolver e concluir ideias.). 2012. convergentes e divergentes. como já há algum tempo descobriram filósofos e poetas. Bakhtiniana. com textos de gêneros preponderantemente argumentativos ou opinativos. sem que o enunciado se perca do núcleo temático e do ponto de vista previamente amadurecidos. os gêneros orais não podem figurar como acessórios de final de lição. áspera e acolhedora. entre outras. (org. 251 . M. B. São Paulo: Contexto. Consideradas as habilidades de falar. etc. (org. _______. de modo a fazer da prática de gêneros orais momento privilegiado de estabelecimento de espaços discursivos. dotado de senso crítico e capacidade de intervir. consequência. BRAIT. concessão. ler e escrever como fundamentais para o desenvolvimento harmônico de um cidadão participante e consciente. São Paulo: Contexto. 2005. o que se defende é a articulação de todas as atividades – leitura de textos./Jun. contraditória e definitiva.). Nesse sentido. São Paulo: Martins Fontes. bem como a sugestão de fórmulas para iniciar. produção textual. 7 (1): 240-252. questões gramaticais como a dos encadeadores da coerência textual. que considerem a polêmica constitutiva da palavra em situação de uso.

B.br/alfa/article/view/2132/1750 Acessado em: 15 mar 2012. J. 2004.. DISCINI. 2006. S. Campinas: Mercado de Letras. . Recebido em 15/02/2012 Aprovado em 11/06/2012 252 Bakhtiniana. 2008. Tradução e organização por R. N. O estilo nos textos. Gêneros orais e escritos na escola.2. FONTANILLE. análise de gêneros e compreensão. In: Alfa. São Paulo: Ática.unesp. Jan. S. TEIXEIRA. Gêneros do discurso: uma abordagem semiótica. DOLZ. Semiótica do discurso. D. Trad. e colaboradores. Tradução por Jean Cristtus Portela. Rojo e G. N. J./Jun. 2008. Produção textual. J. 1998. Língua Portuguesa. 2009. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos.. São Paulo: Contexto. 2009. Secretaria de Educação Fundamental. J. A. Paris: Hachette. COURTÉS. 2007. Brasília: MEC/SEF.BRASIL. L. 2012. R. São Paulo: Contexto. São Paulo. J.fclar. MARCUSCHI. GREIMAS. n. DISCINI. Sémiotique 2: dictionnaire raisonné de la théorie du langage. 1986. 2 ed.. Disponível em: http://seer. São Paulo: Parábola. A. Dicionário de semiótica. FIORIN. Manual do Professor. Introdução ao pensamento de Bakhtin. GREIMAS. GOMES. 2003. A. Lima et al. SCHNEUWLY. J. J. 6º ano.. L. 7 (1): 240-252. A. L. v. São Paulo: Editora do Brasil. São Paulo: Contexto.53. COURTÉS. Novo Passaporte para a Língua Portuguesa. Cordeiro.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful