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MANGUEZAIS

MARANHÃO - BRASIL

MARANHÃO - BRASIL GERENCIAMENTO COSTEIRO I N T E G R A D O
GERENCIAMENTO COSTEIRO I N T E G R A D O
GERENCIAMENTO
COSTEIRO
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MARANHÃO - BRASIL GERENCIAMENTO COSTEIRO I N T E G R A D O

PROGRAMA INTEGRADO “ESTUDOS ECOLÓGICOS DOS MANGUEZAIS DO ESTADO DO MARANHÃO”

FLÁVIA REBELO MOCHEL

1.Introdução

a partir de uma abordagem ao nível de macro-escala. Para a

Os manguezais são importantes sistemas costeiros tropicais

diversos serviços às populações humanas como a proteção da

caracterização dos manguezais

escolheu-se, como estudo de

caracterizados por uma vegetação arbórea adaptada a um substrato salino, instável e anóxico (Cintrón and Schaeffer- Novelli, 1992; Robertson, 1992; Lacerda et al., 1993). Os

caso, o povoado de Parnauaçu, situado entre a área portuária do Itaqui e o Consórcio Alumar. A partir de uma abordagem local (micro-escala), procurou-se responder a perguntas tais como:

produtos fornecidos pelos manguezais têm sido utilizados pelos grupos humanos desde a pré-história e na América Pré- Colombiana há amplos registros da extração de corantes, fibras, resinas, madeira e proteínas de origem animal (Lacerda et al., 1993). Além de fornecerem bens, os manguezais prestam

costa contra erosão, assoreamento, enchentes, poluição por metais (Silva et al., 1990), como berçários para várias espécies

Qual a biodiversidade da fauna e flora dos manguezais na área de estudo? Qual o grau de desenvolvimento estrutural desses ma ng ue za is ? Qu ai s as es pé ci es ap ro ve it ad as economicamente pela população local? Essas, entre outras questões, guiaram um levantamento intensivo que demandou o treinamento de 10 bolsistas do CNPq, do PET e da FAPEMA. Em continuidade ao Programa, a segunda fase iniciou-se em julho de 2000 tendo como área de estudo a Baía de Turiaçu,

de

relevância sócio-econômica, a exportação de nutrientes para

Área de Proteção Ambiental Reentrâncias Maranhenses, e um

as

zonas costeiras incrementando a pesca (Cintrón & Schaeffer-

diagnóstico pontual dos manguezais e do ambiente marinho

Novelli, 1983; Twilley, 1985) e como abrigo para muitas espécies

adjacente ao Terminal Portuário da Companhia Vale do Rio

ameaçadas de extinção (Rebelo-Mochel et al., 1991, Rebelo- Mochel, 1993).

Doce.

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Nos países tropicais, incluindo o Brasil, os manguezais estão 2.Equipe Técnica

entre os ecossistemas costeiros sob a permanente ameaça de aterros, drenagens e do desenvolvimento urbano não-planejado (Bacon, 1975; Lacerda, 1994). Isso ocorre devido à pressão humana sobre esse ambiente já que mais de 60% da população global habitam a zona costeira. Por essa razão, é urgente o

manejo racional da zona costeira objetivando um equilíbrio entre

o desenvolvimento e a conservação e, nesse contexto, a

estrutura e o funcionamento dos ecossistemas nela inseridos

devem ser intensamente investigados. No Brasil, os manguezais cobrem uma área aproximada de

A equipe executora do programa Manguezal é constituída por 5 doutores, 5 mestres (sendo 2 doutorandos), 8 bolsistas do PIBIC/CNPq/UFMA, 10 estudantes de gradução, e equipe de apoio (3 técnicos, 1secretária, 1 guia decampo).

3.Linhas de Pesquisa As linhas de pesquisa em andamento no Programa são:

Sensoriamento

Manguezais

Remoto

e

Mapeamento

Temático

de

Estrutura do Bosques de Manguezal

Dinâmica

Biomassa,

da

Formação

de

Clareiras

no

Ecossistema

Serrapilheira

e

Fenologia

do

Ecossistema

Fauna Bêntica do Ecossistema Manguezal

Ecologia de Macroalgas

Dinâmica de Perifíton

Ecologia do Fitoplâncton

13.000 km .Os estados do Maranhão, Pará e Amapá, inseridos

na Amazônia Legal Brasileira, detêm cerca de 50% da área de

manguezais do país (Herz, 1991; Kjerfve & Lacerda, 1993; Manguezal

Sant'Anna & Whately, 1981). Vários autores estimam, em

esses

entre os mais altos do mundo (Lacerda & Schaeffer-Novelli, 1992; Cintrón & Schaeffer-Novelli, 1983). As espécies de árvores existentes são Rhizophora mangle, R. racemosa, R. harrisonii, Avicennia germinans, A. schaueriana, Laguncularia racemosa e Conocarpus erectus (Santos,1986; Rebelo-Mochel

et.al., 1991)

Manguezal

algumas localidades, uma biomassa de 280 t/ha, valores

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O litoral ocidental do Maranhão possui mais de 3.000 km de

manguezais correspondendo a 60% da área de manguezais de

todo o estado. Essa região está protegida por Decreto Estadual

de 1991, que a transformou na Área de Proteção Ambiental das

Reentrâncias Maranhenses, estando assinaladas as ocorrências de espécies ameaçadas de extinção como o peixe- boi Trichechus manatus e várias tartarugas marinhas (Rebelo- Mochel,1991; 1995).

O Programa Integrado Estudos Ecológicos dos Manguezais do

Estado do Maranhão (Programa Manguezal) foi concebido para

uma duração mínima de 12 (doze) anos, distribuída em 6 (seis) etapas, tendo como objetivos principais:

(a)a caracterização dos manguezais ao longo da costa

maranhense;

(b)a formação e capacitação de recursos humanos para a

pesquisa nessas áreas e

(c)a

manguezais.

A primeira fase, ou etapa, foi iniciada em maio de1994 e

criação de um núcleo permanente de estudos em

2

finalizada em junho de 1996. Os trabalhos desenvolvidos durante essa primeira fase do Programa enfocaram a Ilha de

São Luís. As principais questões levantadas foram: Qual a área

de manguezais na Ilha de São Luís? Onde esses manguezais se

distribuem? Quanto se tem perdido em áreas de manguezais ao longo do tempo? As respostas a essas perguntas foram obtidas

Peixes e Ictioplâncton

Biogeoquímica do Ecossistema Manguezal

Nutrientes e Fisico-Química do Ecossistema Manguezal

Espécies de Importância Sócio-Econômica dos manguezais

Etnoecologia e Etnobotânica

Caracterização da Vegetação de Transição

Potencial e Fragilidade do Ecossistema Manguezal para o

Ecoturismo; e

Educação Ambiental

a

4.Resultados e Conclusões da 1 fase do Programa - Extensão e Distribuição dos Manguezais na Ilha de São Luís. Os dados mais recentes mostram que os manguezais cobrem uma área de aproximadamente 19.000 ha da Ilha de São Luís (em 1993) distribuídos sobre a costa como franjas, atrás das praias e dos cordões litorâneos e dunas arenosas, ou margeando rios e igarapés, de acordo com os tipos (franja, bacia e ribeirinho) descritos por Lugo & Snedaker (1974). A perda das áreas de mangue em São Luís estão na Tabela I e na Figuras 1, 2 e 3 (Rebelo-Mochel et. al, 2002)

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GERENCIAMENTO COSTEIRO I N T E G R A D O
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Figura 1 . Área de manguezal em São Luís no período de 1971/72. Escala 1: 200.000

Ano

Área deManguezal Estimada(ha)

Basede Imagem

1972

25.790

GMS1000

1979

23.190

LandSatMSS

1991

20.730

SPOT

1993

19.000

LandSatMSS

Tabela I - Mudanças na cobertura de manguezais (Rebelo-Mochel, 1997)

de 1971 a 1993 em São Luís

7.Endofauna:

MARANHÃO - BRASIL

- A endofauna encontrada em Parnauaçu é característica de ambientes estuarinos e de manguezais, com uma taxocenose constituída por Polychaeta-Bivalvia-Crustacea;

- O grupo predominante é de poliquetas escavadores, indicando ambientes sedimentares dinâmicos;

- A presença de espécies filtradoras e tubícolas (poliquetas e bivalves) indica locais de baixa energia hidrodinâmica;

- As espécies são indicadoras de sedimentos predominantemente

lamosos ou mistos de lama e areia fina, correlacionando-se às análises granulométricas realizadas;

8.Epifauna:

- A epifauna é constituída principalmente por caranguejos,

destacando-se os “chama-marés” (Uca spp.), os “aratus” (Goniopsis cruentata, Aratus pisonii e Sesarma crassipes) e a espécie Eurithium limosum;

- Em todas as espécies, há elevada ocorrência de indivíduos jovens ao longo do ano inteiro indicando o recrutamento constante;

O processo de degradação parece ser mais acelerado de 1991

1993, a despeito das diferenças entre escalas de imagens e

resoluções. Nesse caso a perda de manguezais em dois anos foi

ordem de 2.000 ha contra 5.000 ha em vinte anos, revelando um aumento, nos últimos anos, de 4 vezes na taxa de perda anual de

da

a 9.Aspectos Sócio-Econômicos:

- As espécies da fauna com importância sócio-econômica

encontradas foram o caranguejo (Ucides cordatus), os siris (Callinectes spp.) e o marisco (Lucina pectinata), todas com produção

inferior a 300 kg por hectare, sendo consideradas como um recurso

escasso;

manguezais. A Tabela II mostra a extensão e a distribuição das áreas

de

manguezais em São Luís em 1991. - Em relação a vegetação, observou-se a retirada da madeira do

mangue vermelho (R. mangle) e da siriba (Avicennia spp) nas áreas mais internas do manguezal, onde essas duas espécies predominam;

-Do ponto de vista sócio-econômico, sugere-se que os estoques das espécies do manguezal de Parnauaçu não suportariam a exploração comercial, esse ambiente, portanto, não sendo considerado auto- sustentável em virtude da degradação ambiental verificada;

- Parnauaçu apresenta uma população rural, de periferia urbana,

voltada para o cultivo e o extrativismo das áreas de terra firme. À diferença das comunidades pesqueiras, poucas pessoas praticam a pesca ou mantêm algum tipo de relação com o manguezal próximo a elas; - Verificou-se, em mais de 70% das entrevistas, que a população não tem consciência dos benefícios que o manguezal pode lhe trazer. As dificuldades de acesso à localidade, tanto pelos meios de transporte como pelos recursos de educação e saúde, tornam essa comunidade especialmente necessitada dos trabalhos de educação e

recuperação ambiental como um caminho para a melhoria de sua qualidade de vida.

como um caminho para a melhoria de sua qualidade de vida. Figura 3 . Área de

Figura 3 . Área de manguezal em São Luís no período de 1991/93. Escala 1: 200.000

5.Mapeamento Temático:

- A perda da área de manguezais na Ilha de São Luís foi estimada em 7.000 ha em 20 anos, sendo essa perda aproximadamente 4 vezes

10.Patrocínio e Apoio mais acelerada na década de 90 do que nos anos 70 e 80; Universidade Federal do Maranhão (UFMA); Companhia Vale do Rio Doce (CVRD); Consórcio Alumínio do Maranhão (ALUMAR);

6.Estrutura Vegetal:

- O manguezal de Parnauaçu encontra-se degradado pelo corte de árvores, pelo assoreamento decorrente do deslizamento das encostas adjacentes e pela película de óleo proveniente das embarcações que trafegam pelo canal ; - A espécie L. racemosa ocorre em maior freqüência nas áreas

degradadas por corte e nas áreas assoreadas pelos deslizamentos

da terra firme;

- A área é caracterizada por bosques heterogêneos, adultos, porém

Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão (FAPEMA 1994- 1996); Prefeitura Municipal de Bacuri.

pouco desenvolvidos estruturalmente, com classes de diâmetros predominantes entre 2,5 e 10,0 cm. Diâmetros inferiores a 2,5 cm foram encontrados na maioria das parcelas, revelando a colonização ativa por arbustos jovens.

- A porcentagem de herbivoria em folhas maduras de Laguncularia

racemosa é de 16% indicando a fragilidade da espécie ao ataque por

insetos.

Maiores informações:

Flávia Rebelo Mochel

Depto. de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Maranhão

e-mail: fmochel@terra.com.br

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