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TEMPO PASCAL. TERCEIRA SEMANA.

QUARTA-FEIRA

64. FRUTOS DA TRIBULAÇÃO


– Espírito apostólico dos primeiros cristãos durante a perseguição. Frutos da tribulação e das
dificuldades.

– Fortaleza diante de circunstâncias difíceis.

– A união com Deus nos momentos mais custosos.

I. DEPOIS DO MARTÍRIO de Santo Estêvão, originou-se uma perseguição


contra os cristãos de Jerusalém, que tiveram que dispersar-se por outras
regiões1. A Providência serviu-se dessa circunstância para levar a semente da
fé a terras distantes, que de outro modo tardariam mais em conhecer a figura
e a doutrina de Cristo. Os que se haviam dispersado iam por toda a parte,
anunciando a palavra de Deus2. “Observai – diz São João Crisóstomo – como
os cristãos, mesmo no meio de infortúnios, continuam a pregação, ao invés
de descuidá-la”3.

O espírito apostólico dos primeiros cristãos pôs-se de manifesto tanto nas


épocas de paz (que foram a maioria) como nos tempos de calúnia e
perseguição. Nunca cessaram de pregar a boa nova que levavam no coração,
convencidos de que a doutrina de Jesus Cristo traz a salvação eterna e é,
além disso, a única que pode tornar este mundo mais justo e mais humano. O
fervor, a firmeza, a coerência da sua fé, a sua integridade de homens de bem,
a amabilidade com que tratavam todos os que se relacionavam com eles
foram em inúmeras ocasiões o primeiro impulso de que Deus se serviu para
que muitos se sentissem atraídos pela fé.

Esses primeiros fiéis deviam lembrar-se sem dúvida – talvez o tivessem


ouvido dos lábios dos próprios Apóstolos – daquilo que o Senhor havia
repetido em diversas ocasiões e de formas diferentes: Se o mundo vos odeia,
sabei que primeiro me odiou a mim4. E encher-se-iam de optimismo ante a
certeza de que dispunham de mais graça para enfrentar as dificuldades e
tribulações, e de que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem dos que
o amam5.

Nenhuma dificuldade nos deve surpreender: Caríssimos – adverte-nos São


Pedro –, não vos perturbeis com o fogo da tribulação, como se vos
acontecesse algo de extraordinário6. E o Apóstolo Tiago diz-nos: Tende por
suprema alegria, meus irmãos, ver-vos rodeados de diversas provações7. São
dificuldades de que podemos tirar muito bem, sejam de que tipo forem: umas
provirão de um ambiente materialista e anti-cristão que se opõe ao reinado de
Cristo no mundo (calúnias, discriminação profissional, ambiente sectário anti-
cristão...); outras serão doenças que o Senhor pode permitir, um revés
económico, fracassos, falta de resultados imediatos na tarefa apostólica
depois de muito esforço, incompreensões...

Em qualquer caso, devemos entender no mais íntimo da nossa alma que o


Senhor está muito próximo de nós para nos ajudar a amadurecer nas virtudes
e para fazer com que o nosso apostolado dê o seu fruto. Nessas ocasiões,
Deus deseja purificar-nos, da mesma maneira que o fogo no cadinho limpa o
ouro da sua escória, tornando-o mais autêntico e valioso.

II. E TODOS OS DIAS não cessavam de ensinar e de pregar o Evangelho


de Jesus Cristo no templo e pelas casas8.

Quando o ambiente se torna mais sectário ou se afasta mais de Deus,


devemos sentir como que uma chamada do Senhor para que manifestemos
com a nossa palavra e com o exemplo da nossa vida que Cristo ressuscitado
está entre nós, e que sem Ele o mundo e o homem perdem o seu eixo e o seu
rumo. Quanto maior for a escuridão, maior a urgência de luz.

Deveremos lutar então contra a corrente, apoiados numa vida de oração


pessoal, fortalecidos pela presença de Deus no Sacrário. A nossa luta interior
contra o aburguesamento pessoal deverá ser mais firme. Será esse um dos
maiores frutos que tiraremos das contradições, sejam elas quais forem: a
necessidade de estar mais pendentes do Senhor, de ser mais generosos na
oração e no espírito de sacrifício, de purificar bem a intenção, realizando as
coisas por Deus, sem andar à busca de recompensas humanas.

Se por covardia, por falta de fortaleza, por não pedirmos ajuda ao Senhor,
cedêssemos ante as dificuldades, a alma iria retrocedendo na sua união com
Deus, encher-se-ia de tristeza e daria provas de uma vida interior superficial e
de pouco amor a Deus. O demónio costuma servir-se dessas ocasiões para
redobrar os seus ataques, e então a alma tem um de dois caminhos: ou se
aproxima mais de Cristo – unindo-se à sua Cruz – ou se afasta d’Ele, caindo
num estado de tibieza, falto de amor e de vibração. Uma mesma dificuldade –
uma doença, uma calúnia, um ambiente adverso... – produz efeitos diferentes
conforme as disposições da alma.

Não podemos esquecer que o bem sobrenatural que temos de alcançar é


um bem árduo, difícil, que exige da nossa parte uma correspondência
decidida, cheia de fortaleza, dessa fortaleza que é virtude cardeal, angular,
que desfaz os obstáculos e os temores que poderiam retrair-nos da vontade
de seguir firmemente o Senhor9. Não esqueçamos que Deus sempre nos dá
as graças de que mais necessitamos em cada momento e em cada
circunstância.

Em face das oposições do ambiente, devemos estar serenos e alegres. É o


mesmo júbilo dos Apóstolos, que estavam cheios de alegria por terem sido
achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus10. “Não se diz que não
sofreram – sublinha São João Crisóstomo –, mas que o sofrimento lhes
causou alegria. Podemos vê-lo pela liberdade com que, imediatamente depois
de terem sido flagelados, se entregaram à pregação com admirável ardor”11.

III. QUANDO SENTIMOS o peso da Cruz, o Senhor convida-nos a ir ter


com Ele. “Vinde, mas não para prestar contas. Não temais ao ouvirdes falar
de jugo, porque é suave; não temais se vos falo de carga, porque é leve”12. E
então, junto de Cristo, tornam-se amáveis todas as fadigas, tudo o que pode
haver de mortificante e difícil na nossa vida. O sacrifício, a dor junto de Cristo
não é áspera nem aflitiva, mas aprazível. “Tudo o que é difícil..., o amor o
torna fácil [...]. Que há que o amor não leve a cabo? Vede como trabalham os
que amam: não sentem o que sofrem, antes aumentam os seus esforços
conforme aumentam as dificuldades”13.

A união com Deus através das adversidades, sejam de que género forem,
é uma graça que Deus está disposto a conceder-nos sempre; mas, como
todas as graças, exige o exercício da nossa liberdade, a nossa
correspondência, que não desprezemos os meios que o Senhor põe ao nosso
alcance, particularmente que saibamos abrir a alma na direcção espiritual se
alguma vez a Cruz nos parece excessivamente pesada.

“Não são a mesma coisa um vento suave e um furacão. Ao primeiro,


qualquer um resiste: é brincadeira de crianças, paródia de luta. – Pequenas
contradições, escassez, apuros de nada... Aceitavas tudo isso com gosto, e
vivias a alegria interior de pensar: agora, sim, estou trabalhando por Deus,
porque temos Cruz!... Mas, meu pobre filho: chegou o furacão, e sentes um
balançar, um fustigar que arrancaria árvores centenárias. Isso..., por dentro e
por fora. Confia! Não poderá arrancar a tua Fé e o teu Amor, nem tirar-te do
teu caminho..., se tu não te afastas da «cabeça», se sentes a unidade”14.

O Senhor espera-nos no Sacrário para nos animar e dar alento, e para nos
dizer que a parte mais pesada da Cruz, a caminho do Calvário, foi Ele que a
carregou. Junto d’Ele, aprendemos a enfrentar com paz e serenidade tudo o
que nos parece mais custoso e difícil: “Ainda que tudo se afunde e se acabe,
ainda que os acontecimentos ocorram ao contrário do previsto, e nos sejam
tremendamente adversos, nada ganhamos perturbando-nos. Além disso,
lembra-te da oração confiante do profeta: «O Senhor é nosso Juiz, o Senhor é
nosso Legislador, o Senhor é nosso Rei; Ele é quem nos há de salvar». –
Reza-a devotamente, todos os dias, para ajustares a tua conduta aos
desígnios da Providência, que nos governa para nosso bem”15.

Da perseguição que se abateu sobre os primeiros fiéis na fé surgiram


novas conversões em lugares inesperados. Das dificuldades e oposições que
o Senhor permitirá na nossa vida nascerão incontáveis frutos de apostolado, o
nosso amor tornar-se-á mais forte e delicado, e a nossa alma sairá mais
purificada dessas provas, se tivermos sabido enfrentá-las com serenidade e
junto de Cristo. Ao terminarmos a nossa oração, dizemos ao Senhor que
queremos procurá-lo em todas as circunstâncias – profissionais, de saúde, de
idade, de ambiente... –, umas favoráveis, outras adversas, e no meio das
dificuldades interiores ou exteriores que se nos apresentem.

“Na hora de desprezo da Cruz, Nossa Senhora está lá, perto do seu Filho,
decidida a correr a sua mesma sorte. – Percamos o medo de nos
comportarmos como cristãos responsáveis, quando isso não é cómodo no
ambiente em que nos desenvolvemos: Ela nos ajudará”16.

(1) Act 8, 1-8; (2) Act 8, 4; (3) São João Crisóstomo, Homilias sobre os Actos dos Apóstolos,
18; (4) Jo 15, 18; (5) cfr. Rom 8, 28; (6) 1 Pe 4, 12; (7) Ti 1, 2; (8) Act 5, 42; (9) cfr. São
Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 122, a. 3; (10) Act 5, 41; (11) São João Crisóstomo, Homilias
sobre os Actos dos Apóstolos, 14; (12) São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 37,
2; (13) Santo Agostinho, Sermão 96, 1; (14) São Josemaría Escrivá, Sulco, n. 411; (15) ib., n.
855; (16) ib., n. 977.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)