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Universidade de Brasília

Instituto de Ciências Sociais


Departamento de Antropologia
Orientadora: Profª. Drª. Cristina Patriota de Moura
Aluno: Rafael Simões Lasevitz 04/19184

Dissertação:

O jogo das cadeiras: por uma antropologia dos incômodos em um espaço de lazer
e sociabilidade brasiliense, o Pontão do Lago Sul.

I - Introdução.

“Ao transformar a paisagem urbana, as estratégias de segurança dos cidadãos


também afetam os padrões de circulação, trajetos diários, hábitos e gestos
relacionados ao uso de ruas, do transporte público, de parques e de todos os
espaços públicos” (Caldeira, 2000).

A frase acima, da obra de Teresa Caldeira, se refere às suas observações da vida


urbana moderna da cidade de São Paulo. Também poderia estar se referindo a observações
sobre a cidade de Goiânia, onde, de acordo com Silva (2003), se verifica a “formação de
uma cultura do fechamento e enclausuramento, uma auto-segregação que vem também
sendo praticada por setores sociais menos abastados financeiramente”. Ou poderia ainda
se referir à Brasília, onde a cultura das comunidades cercadas (as gated communities) se
difunde e se manifesta nas formas mais diversas, e que vão desde os condomínios
“verticais” e “horizontais”, até as casas particulares muradas individualmente e os clubes de
entretenimento, entre outras.

É justamente próximo do Setor de Clubes Sul de Brasília, à beira do Lago Paronoá,


que se encontra o Pontão do Lago Sul, tido como o mais bem sucedido de três pólos de
lazer e sociabilidade criados pelo Projeto Orla do Governo do Distrito Federal. A região,
originalmente pública e sob as diretrizes de secretarias governamentais 1 que pautavam uma
1
Nomeadamente, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SEDUH), e a Subsecretaria de
Urbanismo e Preservação (SUDUR).

1
necessidade de democratização do acesso à orla do Lago Paranoá
(DIPRE/SUDUR/SEDUH, 2003) – ocupada, em sua maior parte, por clubes privados –, se
destaca em Brasília como um exemplo bastante peculiar daquilo que Teresa Caldeira
(2000) denomina como cultura dos enclaves fortificados. Quando soube de sua existência,
pouco depois de ingressar na faculdade, entre 2005 e 2006, não deixava de me provocar um
certo choque o largo muro, composto por inúmeras pilastras e gradis de metal, um grande
arco, guaritas e cancelas que, de certa forma, aparentavam fechar o Pontão. Um olhar
desavisado poderia até pensar se tratar de mais um condomínio horizontal brasiliense, um
mais ousado, que tivesse se sentido no direito de represar uma área tão vasta de terra em
plena orla do lago. Mas não se tratava de uma área residencial. Ninguém mora no Pontão.
A busca pela liberdade dos guetos voluntários dos condomínios e casas muradas parecia
precisar expandir-se para além da idéia de residência. Para moradores que sentiam a
necessidade de ir além-muros para percorrer os pedaços de seus circuitos urbanos que
invariavelmente extrapolavam os seus cercos residenciais, a idéia de uma “liberdade
vigiada” (Moura, 2003) acabou por transbordar a residência; passou a fazer parte de
espaços de lazer e, enfim, chegou ao Pontão do Lago Sul.

Em princípio, creio que posso descrever de forma bastante sintética o cenário


central desta dissertação como sendo o de um espaço público brasiliense, situado à beira do
lago Paranoá, criado na forma de um pólo gastronômico repleto de restaurantes, bares e
cafés para o lazer e entretenimento da população da capital nacional. Seria uma boa síntese,
não fosse o fato de que o Pontão tem se demonstrado um espaço demasiadamente ambíguo
para me permitir dar continuidade a essa síntese. Até que ponto, afinal, podemos chamar de
público um espaço que se encontra cercado por um dos mais vastos e marcantes muros do
Distrito Federal, vigiado por uma equipe de segurança terceirizada e situado em região para
onde as opções de transporte público coletivo são tão escassas? Por outro lado, até que
ponto podemos realmente chamá-lo de privado quando se trata de uma concessão
governamental a uma empresa privada, de caráter temporário, e de um espaço cuja
regulamentação prevê o livre trânsito da população, e que, mais do que isso, encontra-se
regido por um projeto que visa justamente “transformar a orla do lago Paranoá, até então
restrita aos moradores do lago e aos clubes, em um grande pólo de lazer e turismo aberto
a toda a população e aos visitantes da cidade" (GDF/Terracap/IPDF, 1995-98). E como se
2
todas essas perguntas já não bastassem por si só, cabe ainda questionar-se quanto do
Pontão, afinal, foi realmente feito e existe para ser usufruído pela população da capital
nacional como um todo?

Ao contrário do que acontece em condomínios residenciais ou mesmo em clubes de


entretenimento, essas peculiaridades do Pontão fazem com que qualquer tentativa de
determinação daquilo que poderíamos chamar de uma "população local" se transforme em
um considerável exercício de abstração. O caráter volátil e efêmero da comunidade de
freqüentadores locais marcou desde o início de forma bastante determinante as minhas
estratégias de abordagem etnográfica. Como fazer, afinal, um estudo etnográfico de uma
comunidade que se faz e desfaz continuamente a todo instante, e cuja única coisa que deles
poderia fazer uma comunidade era o fato quase corriqueiro de uma grande coincidência de
trajetórias, antes tão dispersas em seus circuitos urbanos certamente bastante distintos? Essa
quase irônica liberdade da comunidade local de entrar e sair, se criar e recriar a todo
instante, me fez tentar criar eu mesmo, em princípio, uma espécie de dique de contenção,
ao menos, de um pequeno pedaço da população "nativa" do Pontão. Eu tinha na época do
início das minhas pesquisas de campo alguns contatos pessoais com pessoas que iam ao
Pontão com alguma freqüência. Minha intenção ali era de fazer com eles uma espécie de
observação participante. Iria ao Pontão sempre que eles fossem, participaria de seus rituais
de interação e, no futuro, talvez, poderia até expandir os horizontes da minha pesquisa à
totalidade do circuito urbano que eles percorriam, do qual o Pontão era somente uma etapa
esporádica. Após uma saída juntos, porém, o grupo se desfez. Alguns deles eram também
estudantes universitários e, na época, estavam se formando e tinham de se dedicar mais
exclusivamente aos seus trabalhos de conclusão de curso. Outros nem gostavam tanto assim
do Pontão, e só lá iam quando eram puxados por quem era mais adepto do lugar. E claro,
havia enfim aqueles, que provavelmente constituíam maioria no grupo, que não tinham
carro, e cujo acesso ao Pontão, especialmente à noite, dependia de sua capacidade de
conseguir carona. Como o tempo que eu tinha disponível para concluir minha pesquisa de
campo era consideravelmente escasso, eu definitivamente não estava em condições de me
permitir interromper essa pesquisa, ou, ao menos, até que lograsse me inserir em outro
grupo de freqüentadores locais. Teria, afinal, de optar por outra abordagem. Não queria
fazer entrevistas. Ainda não sabia bem o que esperar do Pontão. Um questionário, com suas
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rígidas estruturas, pressupõe que se tenha conhecimento, se não das respostas, ao menos
daquilo que se vai perguntar, e reconheço que isso para mim até então ainda estava pouco
claro. Decidi enfim que iria tentar abordar os freqüentadores e funcionários do Pontão
através de conversas livres, fazendo uso apenas de perguntas de caráter mais geral como “o
que é que te agrada”, ou “o que é que te incomoda dentro do Pontão”, e que serviriam mais
de motores para possíveis novos desdobramentos da conversa do que diretamente pelo teor
da pergunta em si.

Essas circunstâncias metodológicas geraram algumas repercussões bastante


peculiares. Minhas primeiras noites de Pontão foram noites de descobertas de caráter quase
experimental, mas que serviram ao menos para começar a determinar o que seria, mais
adiante, meu viés etnográfico. Nem por isso, contudo, foram as minhas primeiras
abordagens de campo absolutamente descartadas. Muito pelo contrário, algumas das
conversas que tive com freqüentadores locais em minha primeira noite de campo foram
fundamentais para toda a pesquisa, e eu teria sem dúvida retornado a essas mesmas pessoas
ou grupos sociais para repercutir com eles minhas conclusões e retirar deles maiores
informações, não fosse a peculiaridade desta pesquisa de tratar de uma comunidade de
existência essencialmente efêmera. Em etnografias urbanas clássicas como a Sociedade de
Esquina de Foote Whyte (2005), por exemplo, o antropólogo vivia em contato direto com a
comunidade ítalo-americana que pesquisava, e repercutia com seus informantes de
Cornerville os desdobramentos de suas interpretações e conclusões de campo fossem elas
tiradas dias, meses ou mesmo anos depois de suas primeiras interações com essa
comunidade. Eu tinha um tempo etnográfico diferenciado, e tinha de saber lidar com isso.
Algumas conversas duraram poucos minutos e logo foram abruptamente interrompidas. Em
um espaço criado para o lazer e a sociabilidade, minhas abordagens eram freqüentemente
vistas como uma espécie de perturbação do ambiente – algo de que falarei mais
laboriosamente no decorrer dos próximos capítulos –, o que, em geral, me inibia de tentar
buscar conversas mais prolongadas com esses grupos. Contatos fora do Pontão estavam
fora de cogitação. Minha posição de antropólogo era invariavelmente estranhada, quando
não, posta em dúvida por aqueles que eu abordava, de modo que qualquer tentativa de
aquisição de um contato mais pessoal parecia a mim ser simplesmente absurda. Ainda que
houvesse casos de reações menos hostis ou antipáticas, e algumas até simpáticas às minhas
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abordagens, eram demasiadamente poucas e abrir-lhes exceção como grupos com quem eu
teria um contato estendido era algo que me soava até então como uma forma de dar-lhes um
privilégio estranho à etnografia – ainda que hoje eu me até me arrependa, de fato, de não tê-
lo feito em alguns destes casos. De qualquer maneira, de modo geral o que me restava –
salvo no caso dos vigias locais, com quem tive a oportunidade de ter um contato mais
prolongado – era tentar extrair o máximo dos dez minutos à uma hora que eu tinha com
cada um e, então, observar as continuidades e descontinuidades de comportamento entre os
vários freqüentadores locais que eu conhecia – a continuidade, aliás, quando aparecia, por
vezes chegava a me passar impressão, até bastante curiosa, de estar revisitando todas as
semanas as mesmas quatro ou cinco pessoas, como se fossem fabricadas, todas, através de
remendos de dezenas de conversas de Pontão feitas no decorrer do campo. De fato, esse
tipo de continuidade, ainda que devesse ser tratada com muita cautela, é mais do que
fundamental para dar ao antropólogo qualquer idéia de que haja, ao menos, algum tipo de
coesão de comportamento no estudo de comunidades efêmeras como a que eu estudava.

O próximo passo tornou-se então o de partir para longos exercícios de interpretação


e imaginação quase especulativas sobre os dados que eu obtinha. Não que se tratasse de
algum tipo de manipulação dos dados, pelo contrário. Contudo, pelo fato de minhas
observações de campo terem se baseado em comportamentos notados em circunstâncias
consideravelmente específicas, acabei sentindo que caberia a mim, em certos momentos,
optar por extrapolar minhas interpretações. Seria necessário, em outras palavras, deixar-me
levar pelo exercício imaginativo sobre o que teriam feito, afinal, essas mesmas pessoas, se
as condições fossem outras. Que diferença teria feito, afinal, para as garotas que buscavam
no Pontão um espaço de paquera se lá elas encontrassem um tipo de música que as
satisfizesse? Como reagiria então, neste novo cenário, o senhor que tanto se demonstrava
incomodado com os jovens que insistiam em perturbar o seu ambiente? Até aqui, vale
notar, tratei este trabalho como tendo como característica central uma proposta de
etnografia de uma comunidade efêmera. Talvez agora então eu deva alterar meu enfoque e
dizer que, mais do que isso, se trata da etnografia de um espaço, e das formas de interação
de seu público transitório com as propostas de sociabilidade que o próprio espaço
apresentava. Neste sentido, uma antropologia imaginativa acaba se demonstrando bastante
útil, por exemplo, para a compreensão de formas de interação que este espaço pode ou não
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favorecer – através de dispositivos de controle que vão desde seus arranjos concretos até,
em última instância, sua equipe de vigilantes. Da mesma forma, pode confirmar útil
também para uma compreensão das prováveis repercussões de certas formas de subversão
destes mesmos dispositivos de controle, assim como, em alguns casos, também de sua
própria não-subversão. Uma antropologia imaginativa, que se permita especular sobre o
que de fato não ocorreu, pode ser capaz de revelar peculiaridades de um espaço social que
de outras formas permaneceriam obscurecidas. Pode revelar dispositivos de controle que de
outra forma poderiam permanecer velados. Pode desvelar consciências deste controle que
de outra forma não seriam notadas.

Retomando por um momento o antropólogo Clifford Geertz, é justamente “o poder


da imaginação científica que nos leva ao contato com a vida dos estranhos” (Geertz, 1989:
27). Em outro trecho, Geertz prossegue:

“Como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (...), a cultura não é um


poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais,
os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro
do qual eles podem ser descritos de forma inteligível – isto é, descritos com
densidade” (Geertz, 1989: 24).

Se o papel do antropólogo reside na interpretação e na tradução do conjunto de


significados de uma cultura para dentro da coerência de significados da cultura do próprio
antropólogo – não que se busque com essa tradução equivalências culturais, mas sim,
formas de se tornar explicável, dentro de um vocabulário fornecido por uma cultura
diferente da cultura interpretada, os seus comportamentos freqüentemente tão distintos, ou
mesmo, “exóticos” –, estabelece-se então, dentro deste contato bicultural, uma espécie de
marco de comparatividade. Por outro lado, quando uma etnografia tem por enfoque muito
menos um grupo social fixo do que um espaço que serve de ponto comum de convergência
de trajetórias plurais, a noção de que o comportamento e os acontecimentos sociais possam
ser compreendidos simplesmente quando inseridos dentro de um contexto cultural já não
me parece mais suficiente. Com a considerável multiplicidade de contextos que permeiam
as várias bolhas de sociabilidade – quase que hermeticamente fechadas umas em relação às

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outras – que freqüentam o Pontão, tentei, no decorrer desta pesquisa, lidar também com o
cenário no qual estes contextos culturais se inserem. Um cenário de Pontão que
freqüentemente não condiz – ou não se adéqua – às expectativas de cenário de uma parcela
considerável de seus freqüentadores, confundidos pelas diversas confusões e ambigüidades
que se apresentam no Pontão desde a sua fachada. Entretando, ainda que um cenário, com
todas as suas formas de sugestão e controle de comportamento, não possa ser vistocomo
alguma espécie de agente semi-consciente moldador da sociabilidade de seus
freqüentadores, ele se entrelaça com seus contextos culturais momentaneamente e, se não
determina, ao menos interfere – constantemente, de forma até dramática – em suas formas
de conduta e rituais de interação. Neste sentido, a comparação entre as possibilidades
diversas de espaço em que um contexto cultural pode se inserir surge como uma estratégia
interessante para a compreensão da própria capacidade de interferência destes espaços ou
cenários sobre seus freqüentadores, assim como para tornar possível até mesmo uma
coleção de variáveis possíveis que possam demonstrar continuidades e descontinuidades
entre estes diferentes cenários e contextos, transformados em metáforas uns dos outros pelo
próprio antropólogo. Nas palavras de outro antropólogo, Stephen Gudeman:

“Like Tambiah, I emphasize that metaphors and models are used in everyday life.
But invoking a metaphor is only a way of redescribing a context. A metaphor
predicates, through a humanly contrived system of rules, a new situation”
(Gudeman, 1986: 46-47).

Essa busca por metáforas que permitam ao antropólogo a possibilidade de


redescrever uma mesma situação de diversas formas não se restringe, porém, ao campo
etnográfico. Ao longo desta etnografia, busquei em vários momentos fazer uso desde
exemplos de caráter literário até analogias e metáforas que me auxiliasse nessa difícil tarefa
de composição desta grande coleção de possibilidades de uso e disputa de espaços – cujas
variáveis denotassem entre eles tanto continuidades quanto descontinuidades –, de modo a
ter parâmetros que me permitissem situá-los uns perante os outros. Mais do que isso, creio
que um dos maiores desafios que encontrei ao longo desta fase final de descrição e
interpretação daquilo que eu encontrei no campo residiu justamente em minha proposta de
tentar conciliar a antropologia com uma linguagem que, no decorrer de boa parte desta

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etnografia, se propunha literária. Digo literário em vários sentidos, que dizem respeito
desde uma preocupação maior com a estética da linguagem apresentada até o uso de figuras
de linguagem como meio para um enriquecimento das cenas apresentadas. Tratando-se de
uma pesquisa que parece se apresentar, em vários momentos, como uma espécie de
antropologia dos incômodos do Pontão do Lago Sul, uma linguagem que se proponha
literária possui a capacidade de enfatizar e destacar em vários momentos os meandros e
pormenores de uma situação que, de outra forma, por suas sutilezas, poderia passar
despercebida. A ênfase ou obscurecimento de uma situação de campo também faz parte de
uma etnografia e diz respeito diretamente à linguagem que o antropólogo opta por utilizar.
Mais do que isso, a metáfora, a prosopopéia, a metonímia, a comparação, a elipse, ou
quaisquer figuras de linguagem em geral, mais do que redescrever, revelam novas
possibilidades de ligações e conexões de significado que, de outra forma, poderiam
permanecer absolutamente obscurecidas. Para o romancista e filósofo francês Michel Butor
(1974):

“O romancista que se recusa a este trabalho [de busca de novas formas


romanescas], não transtornando os hábitos, não exigindo de seu leitor nenhum
esforço particular, não o obrigando a essa volta sobre si mesmo, a esse
questionamento de posições há muito tempo adquiridas, tem certamente um êxito
mais fácil, mas torna-se cúmplice deste profundo mal-estar (...). Ele torna ainda
mais rígidos os reflexos da consciência, mais difícil seu despertar, contribui para
sua asfixia, tanto que, mesmo se ele tiver intenções generosas, sua obra é
finalmente um veneno” (Butor, 1974: 11-12) Colchetes meus.

Esse mal-estar do romancista, em busca de novas formas de narrativa que possam


ao mesmo tempo servir às novas realidades que surgem ao seu redor tanto quanto ao
despertar de um leitor desatento aos questionamentos que essa mesma narrativa se propõe,
tudo isso pode ser encarado também, sem nenhum grande esforço epistemológico, como
um mal-estar do etnógrafo. Etnógrafo, aliás, cujo papel, não raramente, se confunde com o
de um romancista do século XIX. Aquele que, querendo fugir das dramatizações e
teatralizações quase exageradas de um Balzac ou um Dostoievski, se esforçava por
enfatizar não o extraordinário, mas sim, o cotidiano. Seu papel – que parece soar tão

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familiar aos nossos ouvidos – era o de estranhar o que não lhe era estranho. Para outro
romancista, e também crítico literário, Milan Kundera (2006), falando sobre Flaubert e o
romance flaubertiano:

“O cotidiano. Não é apenas monotonia, futilidade, repetição, mediocridade; é


também beleza; por exemplo, o sortilégio das atmosferas; cada um conhece a partir
da própria vida: uma música que ouvimos docemente, vinda do apartamento
vizinho; o vento que faz sacudir uma janela; a voz monótona de um professor que
uma aluna, em pleno devaneio amoroso, ouve sem escutar; essas circunstâncias
fúteis imprimem uma marca de inimitável singularidade a um acontecimento íntimo
que desse modo se torna marcante e inesquecível” (Kundera, 2006: 26).

Guardadas as proporções – em geral, de caráter metodológico – que a reflexividade


antropológica nos obriga a guardar, esse divórcio que às vezes se afigura entre uma
linguagem literária e as ciências sociais parece fazer cada vez menos sentido. Se
substituirmos, neste trecho de Kundera, o termo “beleza” por "antropologia", teremos aí
uma afirmação que serve muito bem, por exemplo, a uma antropologia urbana que
invariavelmente se vê diante da obrigação de conceder singularidade a acontecimentos que,
de outro modo, não seriam mais do que “apenas monotonia, futilidade, repetição,
mediocridade”.

Esse “sortilégio das atmosferas” do qual o Kundera fala, ocupa, aliás, boa parte da
etnografia que apresento a partir dos próximos capítulos. Vale enfatizar que busquei desde
o princípio um enfoque bastante específico, que logo parece criar uma interessante
dualidade. Foquei-me, durante a maior parte do meu tempo etnográfico, sobre os
freqüentadores do Pontão que, por uma razão ou outra, decidiam não ocupar as cadeiras de
seus bares e restaurantes – loci oficiais do consumo local – e optavam pelo calçadão, pelo
gramado à beira do lago, ou pelo estacionamento situado entre os restaurantes e o portal de
entrada. Essa opção de enfoque parece ter possibilitado a criação de uma espécie de
dicotomia dentro do Pontão. Uma dualidade, nem sempre rígida, entre os que estão aqui
fora e os que se encontram lá dentro – dualidade que, se o campo tivesse sido delimitado de
outra forma, provavelmente não teria sido encontrada –, sendo o aqui e o lá definidos pela

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minha própria opção de voltar a minha atenção mais para o aqui fora dos restaurantes do
que para o lá dentro nas cadeiras, escolha que inevitavelmente acabou concedendo a mim
uma perspectiva bastante específica sobre esse espaço. Por fim, como um espaço de lazer
como o do Pontão implica em formas de interação e sociabilidade consideravelmente
diferenciadas de acordo com o momento em que ele se situa no tempo, na semana, ou
mesmo, dentro de um único dia, acabei optando por uma etnografia das noites de sábado –
essa brecha singular que se abre em todos os fins de semana para formas de lazer, talvez,
mais específicas do que as que se manifestam em outros momentos em geral. E que
provavelmente, por todas as peculiaridades que possui enquanto momento de peculiaridade
tão notável quando comparado com qualquer outro de uma mesma semana, atraía públicos
mais diversos ao Pontão, e que vinham, freqüentemente, com expectativas bastante
específicas. Mas nem sempre devidamente correspondidas.

II – ‘Roma não é aqui’.

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Isso foi ainda antes de eu chegar, no final da década de 90. O Pontão do Lago Sul na
época não era muito mais do que uma espécie de pequeno parque na orla do lago Paranoá.
Quem passasse em frente, provavelmente de ônibus, ou de carro, ou até mesmo a pé, vindo
de algumas das mansões localizadas próximas à região, provavelmente veria ali, em uma
tarde ensolarada de sábado ou de domingo, rodas animadas de violão entre amigos e casais
de namorados estimulados pela paisagem do lugar. Veria também disputas excitantes de
vôlei de praia nas quadras mais ou menos improvisadas do Pontão, vendedores de picolé,
água e refrigerante, e que certamente também vendiam algumas latas de cerveja de vez em
quando para grupos mais animados e, quem tivesse tempo de explorar a área com um pouco
mais de calma, ainda poderia passar por entre os vários quiosques de artesanato, móveis e
jardinagem que até então, instalados de frente para a via de acesso à ponte Costa e Silva,
serviam de fachada para o Pontão.

Mas como eu disse agora a pouco, isso tudo aconteceu antes que eu chegasse a
Brasília, muito antes que eu pensasse na possibilidade de perambular meus olhares de
pretensões antropológicas pelo Pontão, e certamente antes que tudo isso se transformasse
no Pontão que eu então vim a conhecer. Acabo assim de certa forma forçado a confiar meu
primeiro parágrafo às construções ou reconstruções que a imprensa da época puderam me
proporcionar. E que constroem meu primeiro parágrafo com os tijolos românticos de
jornais que escreviam preocupados, temendo o novo que estaria por vir. De fato, os jogos
de vôlei nunca foram tão freqüentes, e as rodas de violão eram raras. A transformação do
lugar começou com o surgimento do Projeto Orla, criado em janeiro de 1992 por uma
empresa de consultoria contratada pelo GDF, trazendo consigo uma proposta tanto de
criação de alternativas de práticas turísticas às margens do lago Paranoá, quanto de
desenvolvimento de uma maior articulação entre cidade e lago, tornando-o vivenciável
através de uma organização de sua ocupação (Parente, 2000). A proposta incluía a criação
de onze pólos de lazer e sociabilidade ao longo de sua orla, entre os quais foram escolhidos
como pontos de partida para o projeto o pólo 10, o já existente Pontão do Lago Sul, que
seria renovado, e o pólo 8, o hoje extinto Complexo do Brasília Palace Hotel 2. A licitação

2
O Complexo Brasília Palace Hotel foi concluído ainda em 1998. A idéia do projeto era aproveitar a área do
Brasília Palace Hotel, em um pedaço da orla do lago onde já se encontrava a Concha Acústica, para construir
um calçadão de pedras portuguesas para o público brasiliense. Apesar de bastante freqüentado durante seu
primeiro ano de existência, porém, o espaço acabou abandonado, em 1999, com a paralisação dos

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dos terrenos foi concluída e as obras finalmente começaram em 1998, seis anos depois do
início do projeto.

Mas voltemos agora ao primeiro parágrafo. Se aquele personagem imaginário que


vislumbrava o Pontão em fins de anos 90 fosse um funcionário, quem sabe mesmo o
arquiteto responsável pelo projeto de renovação do lugar, ele veria que certas coisas ali não
eram muito compatíveis com suas propostas de transformação do Pontão em um centro
gastronômico, espaço de sociabilidade e de lazer da cidade. Em sua visão, o espaço teria
que ser requalificado, reapropriado por novos usos que viabilizassem novas coerências na
forma de apropriação do espaço. As improvisadas quadras de vôlei de praia foram logo as
primeiras vítimas do projeto. Mas somente as quadras não bastavam. Os quiosques também
não podiam ficar, pois que não cabiam no Pontão, nem fisicamente nem visualmente. Um
processo de limpeza era necessário, e os quiosques logo foram também varridos. Mas não
sem longa resistência. Forçados em 1997 a deixarem o Pontão, resolveram se mudar em
conjunto para um terreno localizado na sua frente, à beira da pista. De acordo com o
administrador da região do Lago Sul, Marcelo Amaral, em entrevista ao jornal Correio
Braziliense (10/08/1999):

“Eles não vão voltar para o Pontão porque a área foi concedida para um centro
gastronômico, de acordo com o Projeto Orla, o que não combina com os serviços
que oferecem”.

Somente em julho de 2000 o caso teve, ao menos, um princípio de fim, com a


retirada definitiva dos quiosqueiros do Pontão para um espaço alternativo. Ainda assim,
algumas das reações da imprensa ao caso continuaram merecendo nota. Em uma delas, um
jornalista provoca:

“Qual é, por exemplo, a diferença entre os artesãos do Lago Sul e os vendedores de


bugigangas que ficam em frente ao Gran Circo Lar? Nenhuma, a não ser as

investimentos no projeto. Com o crescimento do mato e a lama acumulada, a maior parte dos quiosques locais
fecharam. Sobraram poucos, e o público, que chegou a ser grande, passou a ser bastante escasso (Correio
Braziliense, 21/11/2001). Hoje o pólo está abandonado e são poucos os que lá se aventuram a enfrentar a lama
e o mato crescido. Os quiosques servem para abrigar a noite de moradores de rua, e os concertos musicais da
Concha Acústica são cada vez mais raros.

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mercadorias que vendem. Mesmo assim, são tratados de forma diferente”. (Trecho
de artigo de Paulo Pestana para o Correio Braziliense, 27 de julho de 2000).

É provável que Pestana tenha de fato razão, e que os quiosqueiros do Pontão tenham
sido tratados pelo GDF com critérios diferentes dos que seriam usados em outros casos
semelhantes. Os dois casos que ele aponta, contudo, são certamente mais diferentes do que
ele supõe, e o contraste vai além do tipo de mercadoria que é vendida por cada um deles.
Os vendedores de bugigangas do Gran Circo Lar3 estavam instalados em uma área de
acesso popular, onde talvez a sobreposição de imagens, pessoas, coisas e espaços já fizesse
parte do vocabulário visual de seus freqüentadores. Ou talvez até não fizesse, incomodasse,
e talvez haja mesmo movimentos de reivindicação de uma limpeza visual no local tanto
quanto no Pontão, e que provavelmente seguiria critérios diferentes, seriam outros ruídos e
outros arranhões. Se fosse esse o caso, então talvez faltasse a esses movimentos uma
capacidade de influência política que, claramente, não faltava ao Pontão. Ainda que
inserido no Projeto Orla e em suas propostas oficiais de democratização do espaço, o
projeto tinha desde sempre o respaldo, acompanhamento e influência claras da
administração regional do Lago Sul – a retirada dos tapumes da primeira fase de obras do
Pontão, por exemplo, deu-se com a festa de aniversário da região, organizada pela mesma
administração (Correio Braziliense, 10/08/1999). E aí então seria ingenuidade não imaginar
que a administração local não seria, por sua vez, consideravelmente influenciada pelos
moradores locais, reconhecidamente membros de uma elite econômica brasiliense. Havia
ainda a pressão de pelo menos uma grande construtora imobiliária de Brasília, que na época
dos primórdios da obra do Pontão, dava início às vendas de dez mansões situadas na
chamada Península dos Ministros, uma das regiões residenciais mais caras da cidade, e que
se valorizava bastante com as repercussões locais do Projeto Orla (Correio Braziliense,
09/06/1999).

O projeto de renovação do Pontão, desde o seu princípio, trazia consigo um embate


entre democratização e elitização. Se um dos primeiros passos do projeto, ainda em 1997,

3
Em fevereiro de 2007, o GDF anunciou a construção de um shopping popular na rodoferroviária de Brasília
com o intuito de acomodar os camelôs do Gran Circo Lar e de outras áreas do plano piloto. Ainda que a
remoção tenha se dado de forma semelhante ao que ocorreu com os quiosqueiros do Pontão, não deixa de ser
significativo o espaço de quase dez anos que separa uma remoção da outra.

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um ano antes do início das obras do pólo, consistiu justamente na remoção dos
quiosqueiros locais, resta pouca dúvida sobre para qual lado do embate a corda estava
sendo puxada com mais força. Ainda mais quando a idéia de elitização se torna sócia de
construções estéticas que transformam a noção de belo na remoção daquilo que provoca
estranhamento, do que manifesta signos que se oponham aos signos tão cuidadosamente
construídos como pilares de sua distinção social enquanto elite (Bourdieu, 1984) e, pior,
contagia esses signos com ruídos simbólicos que lhes são alheios. A renovação visual do
Pontão fundou-se desde o princípio em ideais de gentrificação. Sua idéia de beleza parte de
uma beleza que incorpora, dentro de um paradigma de belo, a eliminação ou, ao menos, um
filtro do diferente. Mais do que isso, trata-se de um controle generalizado de signos
econômicos, separando elementos representantes de uma estética de grupos de baixa-renda,
dos elementos que representem uma estética de grupos de alta-renda. A oposição
econômica tende a assumir um caráter de oposição estética (Bourdieu, 1984), e a segurança,
tão citada nos discursos de diversos freqüentadores do pólo 10, era muitas vezes também
uma segurança para os olhos. Voltarei a falar nisso mais tarde. O Pontão desenvolve-se, aos
poucos, dentro de uma grande contradição. Tenta4 abrir-se como um espaço democrático,
ao mesmo tempo em que propõe um controle social e estético do espaço comparável
somente ao de espaços fechados. Quer ser um espaço público e plural, mas traz seu senso
de beleza de fora, importado de ideais estéticos de espaços de lazer elitizados – e privados.
Como se quisesse se abrir de portas fechadas.

***

Em 1996 o projeto de inserção do Pontão do Lago Sul no Projeto Orla foi repassado
para a EMSA5, empresa goiana vencedora de uma concorrência pública promovida pela
Terracap6. Estava instalada a parceria público-privada. As obras têm início em 1998 e

4
Neste caso, o uso de prosopopéia não deve ser confundido com uma tentativa de conferir agência ao Pontão,
que não pretendo tratar como algum tipo de entidade abstrata. A agência aqui, ao contrário, deve ser
entendida como pertencente aos responsáveis humanos pelo planejamento e construção do próprio Pontão,
como esclarecerei mais adiante. Em um texto de caráter antropológico, a linguagem fica em geral subordinada
a diversas necessidades técnicas de escrita etnográfica, prejudicando, com freqüência, o uso de figuras e
artifícios lingüísticos que poderiam, de outra forma, enriquecer a leitura, concedendo-lhe fluência e muitas
vezes, multiplicando a capacidade de uma frase de armazenar significados. Ao longo desta etnografia, fiz o
possível para evitar que essa subordinação servisse de obstáculo à linguagem.
5
EMSA: Empresa Sul-Americana de Montagens S/A.
6
Terracap: Companhia imobiliária de Brasília, órgão gerido pelo Governo do Distrito Federal.

14
seguem até meados de 2000 quando, durante as comemorações do aniversário de Brasília,
os tapumes são retirados. Mas mesmo com tapumes, quem passava em frente ao Pontão
durante estes dois anos de obras já tinha a sua curiosidade, espiava de lado e via o que dava
para ver. Entre um piscar de olho e outro, um dia, alguns olhos mais atentos notaram algo
de diferente. Por detrás dos tapumes de obras e do calçadão do Pontão, emergia em seu
gramado verde um alto, largo e grosso muro gradeado ornamentado com várias pilastras de
médio porte e gradis de metal, cuja somatória irei convencionar chamar simplesmente de
“muro”. Seus cinco metros de altura e trinta de largura eram cortados no meio por um
grande pórtico, criado para receber a entrada e saída de veículos – e pedestres. O pórtico,
contendo ainda duas guaritas e cancelas para o controle do acesso público ao lugar, era
também bastante estilizado, e ganhou nome de “arco romano do Pontão”. Este foi, pelo
menos, o vocabulário empregado na época por arquitetos e por meios de comunicação
brasilienses para descrever sua arquitetura e que, aparentemente, se disseminou como
terminologia típica entre a população para comentar o tal arco (Correio Braziliense,
22/01/2000; 25/12/1999; 26/03/2000).

E realmente a queda dos tapumes acabou sendo seguida de uma grande repercussão
em diversos setores da sociedade brasiliense. Arquitetos e artistas plásticos protestaram
contra as incoerências que um arco romano trazia ao que seria um estilo típico e
homogêneo de Brasília. Tratava-se de uma ofensa aos valores modernistas da cidade. O
jornal Correio Braziliense de 22 de janeiro de 2000 estampava na capa de seu caderno de
‘Cidades’ a manchete “Roma não é aqui”. O que parecia estar em jogo agora já era mesmo
uma questão de identidade candanga7. Em dezembro de 1999, o Instituto dos Arquitetos do
Brasil do Distrito Federal (IAB-DF) encaminhou um pedido de embargo das obras do
Pontão em defesa da preservação de uma identidade visual e arquitetônica brasiliense. De
acordo com Haroldo Pinheiro, vice-presidente da IAB nacional na época:

“No lugar que deveria existir apenas um marco visual, está sendo construído um
edifício com cômodos, guaritas, depósitos e cancelas, fugindo das determinações

7
Termo popular utilizado em princípio como forma de se referir aos operários das grandes obras da
construção de Brasília, mas utilizado, hoje em dia, para referência à população brasiliense como um todo.

15
do edital”. (Haroldo Pinheiro, vice-presidente da IAB, falando ao Correio
Braziliense de 25/12/1999).

Em outra entrevista para o mesmo jornal, Haroldo continua:

“O pórtico constante do anteprojeto da vencedora da licitação constituía-se apenas


de um marco visual, destinado a acentuar o acesso principal ao parque” (...). “A
indicação de cancelas nas vias de entrada e saída, associada à especificação de
gradis, torna evidente e inaceitável a intenção de privatizar a área pública”.
(Haroldo Pinheiro, vice-presidente da IAB, falando ao Correio Braziliense de
22/01/2000).

Posteriormente, ainda na mesma reportagem, o próprio autor do projeto


arquitetônico básico do Pontão, contratado pela EMSA para elaborar o trabalho apresentado
à comissão de licitação, teria renegado à obra, que subvertia a proposta de seu projeto:

“Jamais faria aquilo” (José Galbinski, autor do projeto básico de arquitetura do


Pontão, falando ao Correio Braziliense de 22/01/2000).

Márcia Mesquita, arquiteta da EMSA, responde à acusação de privatização de


espaço público, também na mesma reportagem:

“A mudança do pórtico e o cercamento da área visam dar segurança à população e


aos equipamentos. Além disso, o controle de acesso só vai ocorrer com carros, mas
nunca com pedestres8”. (...) “No projeto de Galbinski, o portal não comportaria
uma guarita para controle de entrada. Por isso tivemos que fazer outro projeto. No
próprio memorial descritivo apresentado na concorrência estavam previstas
instalações para distribuição de tíquetes” (Márcia Mesquita, arquiteta da EMSA,
falando ao Correio Braziliense de 22/01/2000).

8
Ao contrário do que afirma Márcia, o trânsito de pedestres foi, durante muito tempo, interditado no Pontão, e
seus visitantes deparavam-se logo na entrada com uma placa que sinalizava claramente – de acordo com
freqüentadores da época com quem conversei – que a entrada de pedestres no espaço era proibida. Após
protestos, a placa foi enfim retirada em 2006.

16
No discurso da arquiteta da EMSA, a idéia de controle do acesso e de acesso livre
parecem se misturar, se associando sob uma imagem de espaço aberto e seguro,
simultaneamente livre e restrito. A aparente contradição provocou diversas reações, tais
como a de Haroldo, que acusou a EMSA de estar desenvolvendo um projeto com intenções
claras de privatização da área. Em separado, aparece a reação de Galbinski e do próprio
Haroldo, entre outros tantos citados na matéria do jornal e que não citarei de novo aqui,
criticando duramente o contraste estético e identitário de um arco romano com a arquitetura
brasiliense. O interessante aqui é que a própria distinção estética do portal do Pontão,
associado ao romanismo, desenvolveu-se com o intuito claro de servir ao cercamento do
espaço e à construção do que Parente (2000) chama de uma fachada inibidora. O estilo
romano de arquitetura atuaria como elemento de justificação, dentro de um vocabulário de
estilos estéticos arquitetônicos, de um muro volumoso, conspícuo, e que transforma seu
tamanho em expressão explícita de uma vontade manifesta de cercamento de alguma coisa
que, aparentemente, se fecha e se esconde do lado de lá. As alterações estéticas estão de tal
forma diretamente associadas a uma estratégia de justificação da expansão do volume do
muro, assim como de sua própria largura, que aconteceram através de uma mesma e única
ação dos executores do projeto. De acordo com matéria do Correio:

“Aos olhos de [Haroldo] Pinheiro, houve um desvirtuamento do projeto básico


aprovado na concorrência pública promovida pela Terracap, com a edificação que
se está erguendo agora. ‘A proposta era de um portal que não apresentasse
volume. Agora temos uma edificação’, concorda o atual presidente local da IAB,
Gilson Paranhos” (Trecho do artigo de Ana Maria Campos para o Correio
Braziliense, 22/01/2000. Colchetes meus).

Ainda que se possa argumentar que Brasília não tenha toda essa coerência e
padronização estética pressuposta por algumas das falas anteriores, a idéia de subversão de
um padrão parece surtir efeito aos olhos dos transeuntes. Mesmo que as interpretações
possam ser bastante diversas, há um certo impacto criado por essa coisa diferente que
começava a ser erguida na cidade. Na visão de Odete Rodrigues:

17
“A cerca parece o muro de um castelo romano. Não tem nada a ver com o Pontão.
Parece um parque americano no meio do cerrado. Levei um susto quando vi o
pórtico. Parecia que era de papelão. Estraga o visual do lago e de Brasília” (Odete
Rodrigues, 60, comerciante, falando ao Correio Braziliense, 22/01/2000).

O susto de Odete não aparece aí à toa. No vocabulário de fachadas de Brasília, e


talvez mais ainda no vocabulário dos espaços públicos brasilienses, o Pontão destoa, se
apresentando como uma palavra pouco inteligível para aqueles que o vêem de fora. Não
tenho aqui a pretensão de querer com isso defender a manutenção de quaisquer coerências
estéticas da cidade, ou propor que tenha se tratado de uma violação da identidade local,
apesar do fato de esse discurso ter aparecido sim, como já se pôde ver, na boca de alguns
dos entrevistados pela imprensa da época. O que quero colocar aqui, ao menos por
enquanto, é que o Pontão partiria, desde seu princípio, de uma proposta de comunicação
relativamente pouco inteligível para o leitor de fachadas comum. A estratégia da
ambigüidade parece ter surgido como uma espécie de solução consciente da EMSA para
resolver o problema da necessidade de criação de um espaço público restrito ás elites. Com
grossos muros romanos, cancelas e guaritas, o Pontão abriu-se para o público em setembro
de 2000.

***

“Um morador da Península dos Ministros, na QL 12 do Lago Sul, iniciava sua


caminhada matinal. Era domingo, 7h da manhã. Ao passar pelo estacionamento
que separa as residências da ciclovia, à beira do lago Paranoá, ele deparou-se com
a seguinte cena: dentro de um carro, um casal de namorados fazia sexo. Nus, com
as janelas abertas, os dois jovens nem se incomodavam com a possibilidade de
serem vistos por outras pessoas” (Trecho de artigo de Valéria Feitoza para o
Correio Braziliense de 08/02/2002).

Assim começa um artigo do jornal Correio Braziliense de fevereiro de 2002. Havia


se passado pouco menos de um ano e meio da (re)inauguração do Pontão do Lago Sul pela
EMSA e pelo GDF, e sua segunda fase de obras já estava em andamento. As obras do
Pontão, contudo, haviam tomado bastante tempo. Tiveram início em 1998 e só foram
18
terminar em setembro de 2000, cinco meses depois do prazo inicialmente estabelecido para
sua conclusão. Neste período, muita coisa aconteceu, quiosqueiros foram removidos, muros
foram discutidos e polemizados e pedidos de embargo de obras foram feitos e recusados.

Mas não era só isso. Para muita gente, o Pontão era um importante fragmento de
complexos itinerários urbanos percorridos de forma que era às vezes até bastante cotidiana.
Tratava-se de um espaço que, para eles, concentrava toda uma capacidade de
desenvolvimento de uma considerável esfera das atividades que compunham um todo que
tornava suas vidas razoavelmente viável e sustentável. Era um ponto de encontro dos mais
diferentes grupos sociais que viam nele um espaço adequado para a satisfação de cada uma
de suas expectativas de sociabilidade, neste diálogo contínuo que costuma existir entre
espaço e prática social. Assim, é claro que toda essa gente não ficou parada, com suas
práticas sociais mutiladas enquanto esperavam que a interdição do Pontão chegasse a um
derradeiro fim. Pelo contrário, buscaram alternativas. Os quiosqueiros mudaram-se para o
que hoje é um Pólo de Artesanato na região administrativa do Jardim Botânico. Os
jogadores de vôlei de praia de fins de semana buscaram suas alternativas em clubes da
região, na prainha do Lago Sul, ou talvez tenham simplesmente substituído o vôlei por
outra prática que satisfizesse suas necessidades de lazer e fosse capaz, de um fim-de-
semana para o outro, de reunir indivíduos mais ou menos dispersos na forma de um grupo
social mais ou menos coeso, unidos por coincidências teleológicas dessas que unem e
depois fazem dispersar por aí tanta gente.

Antes das obras, porém, o Pontão também dialogava e se encaixava bem em outros
tipos de finalidade. Jovens casais de namorados, freqüentemente despojados dos espaços
privados de suas próprias casas para a realização de contatos mais íntimos, viam no Pontão
uma possibilidade de prolongamento do espaço privado dentro do público. Se associarmos
a isso o desenvolvimento de possíveis fetiches ligados a essa clara inversão de valores do
público e do privado, temos que o espaço então aberto do Pontão, com um baixo
movimento de pessoas e dando de frente para o Lago Paranoá, parecia realmente servir
muito bem a esses casais, de modo que a interdição do lugar criou um problema. Os casais
claramente não iriam deixar de existir de um momento para o outro. Se o Pontão era até

19
então a “sede oficial do amor ao ar livre” (Correio Braziliense, 01/06/1999), agora era
necessário buscar um novo espaço.

A busca por amor ao ar livre traça uma das relações mais interessantes entre espaço
público e privado. A relação sexual é por excelência uma relação tipicamente desenrolada
em espaços privados, especialmente em nossa, digamos, sociedade “ocidental”. Trata-se,
para muitos, do cúmulo da intimidade e da necessidade da busca por muros e paredes para
o cercamento de algo que não pode ultrapassar as fronteiras de um controle, em geral,
bastante rígido de acesso. Desse modo, podemos pensar que um casal que é desprovido da
possibilidade do uso da casa como espaço tradicional de muros para o desenvolvimento da
esfera intima e sexual, tenderá muito possivelmente a buscar reencontrar estes muros em
outro lugar. Alguns encontrarão paredes satisfatórias em motéis. Outros, com menos tempo
ou disponibilidade econômica, usarão seus próprios carros. O que tem início então é a
busca por um lugar paradoxal. O carro, enquanto prolongamento do espaço privado da casa,
é também um espaço de acesso visual quase que absolutamente aberto para o público. As
portas do carro com suas janelas de vidro transparente são absolutamente insuficientes para
a composição do que seria um espaço privado ideal, ou seja, de acesso plenamente
controlado. Torna-se necessário assim a busca por um segundo muro, um muro
complementar.

Este segundo muro, em geral, é a escuridão. Tanto quanto uma parede sólida, a
escuridão da noite e dos lugares pouco iluminados é também capaz de criar espaços de
acesso visual restrito e relativamente controlado. Muros e escuridão servem ambos a um
mesmo bloqueio da capacidade de observação e vigia do outro. Restringem, os dois, a
publicidade de um espaço. Um caso bom para a ilustração dessa idéia é o do Bairro do
Recife, em Pernambuco, estudado pelo antropólogo Rogério Proença Leite. Bairro histórico
enobrecido por políticas de gentrificação na década de 1990, exibia contrastes visuais e
sociais bastante notáveis em suas ruas e calçadas. Em sua rua central, a Rua do Bom Jesus,
a oposição entre o enobrecido e o não-enobrecido se manifestava na oposição entre suas
duas calçadas. Uma era mais comercial, turística e esteticamente renovada. Também era
bem iluminada, feita para ser vista. Era a “calçada-luz”:

20
“A dimensão cenográfica da calçada-luz era visível pela calçada oposta. Como um
palco à italiana, que afunila o olhar em direção a uma única perspectiva, a calçada
enobrecida era observada por olhares à distância, por pessoas que transitavam e
permaneciam na outra calçada. Na calçada não enobrecida, tudo lembrava uma
cidade comum. Sob árvores enormes, mulheres de aparência simples conversavam
em bancos de madeira, engraxates procuravam clientes, trabalhadores do porto
conversavam e riam alto. Alguns meninos em situação de rua dormiam nos bancos,
outros desafiavam a aparente normalidade do bairro, cheirando cola à luz do dia.
Havia bares onde se vendia comida barata, casa lotérica, banca de jogo do bicho,
Sindicato dos Portuários. Pequenas intimidades do mundo privado se esvaíam para
a cena pública cotidiana: calçada comum, “calçada-sombra”. Quase uma
expressão pública da esfera íntima” (Leite, 2006).

Em oposição à “calçada-luz”, a “calçada-sombra” era o espaço público das coisas


que não queriam ou não deviam ser vistas. Em uma estratégia de limpeza visual da rua,
assim como se separa a totalidade das práticas sociais de uma pessoa entre o que se quer
que seja visto, e o que se quer manter oculto, como na relação entre bastidores e fachada
(Goffman, 1985), a iluminação reduzida da calçada não-enobrecida da Rua do Bom Jesus
servia de tapume, como que para conservar essa espécie de “expressão pública da esfera
íntima” escondida nesse mundo pavimentado mais ou menos privado9, e assim, preservar o
olhar mais sensível do contato com essa “feiúra” criada pela intimidade, que tanto insiste
em contaminar o “belo” e suas fachadas tão obstinadamente controladas.

A luz, porém, não está lá somente para iluminar o “belo”. A revelação do mundo
por mecanismos de iluminação serve, antes de tudo, à capacidade de transformação desses
pedaços de mundo em algo acessível ao olhar. O olhar, é verdade, é o aparelho humano por
excelência do encontro com a beleza. Até por isso, não deixa de ter certo interesse
filosófico o fato de que é também este mesmo aparelho o responsável pelo controle e pela
vigia do outro. A “calçada-luz” é iluminada não somente para exibir a si própria como que
9
No decorrer desta dissertação, fiz opção por um uso freqüente da dualidade público-privado como
ferramenta descritiva e analítica para a análise e interpretação do campo estudado. Contudo, devo deixar claro
que não trato esta dualidade como uma dicotomia rígida. Ao contrário, trata-se de algo flexível, e repleto de
gradações, cujos extremos eu tomo como, de um lado, o espaço de uso e acesso absolutamente restrito, e do
outro, o espaço de uso e acesso absolutamente livre – ambos, tipos ideais.

21
em algum tipo de narcisismo vulgar. Suas luzes abrem seus muros de sombra para olhares
que regulam o comportamento social e suas propostas de sociabilidade. Dentro das
fronteiras da claridade, cada gesto “fora-de-lugar” pode ser censurado ou advertido. A
“calçada-luz” se transforma assim em um espaço especial de controle do corpo, garantindo
a tranqüilidade daqueles que já estão habituados e devidamente adaptados às regras postas
pelo espaço, e garantindo a certeza de que suas expectativas de segurança não serão
perturbadas por comportamentos “anômalos”.

Volto agora ao caso dos adeptos do amor ao ar livre. Tentando prolongar o espaço
do privado para o público, se esforçam por fazer da rua como que uma prótese do espaço da
casa. O carro serve de muro parcial, porém insuficiente, de modo que eles buscam também
a escuridão. Dão-se conta então de que a escuridão também não serve, e então percebem
que o privado é composto de mais camadas e níveis do que talvez imaginassem. O muro da
noite é um muro consideravelmente permeável e agora nosso casal hipotético se lembra de
que o que não pode ser visto não é necessariamente o que não pode ser tocado. Mais do que
isso, sua fuga de espaços controlados pelo acesso visual generalizado que pode ser
provocado pela luz, é também o espaço não vigiado que permite outros tipos de
comportamento que tentam fugir destes mesmos mecanismos de controle social para se
realizarem no espaço. Com o medo de serem abordados por assaltantes, surge também a
vontade de voltar ao espaço público e vigiado. Chegamos então ao problema da busca por
um lugar paradoxal. Ao mesmo tempo, escuro e iluminado. Simultaneamente público e
privado. Visível e invisível. Questionado por um jornalista sobre esse dilema enfrentado
por casais de amantes brasilienses, a resposta dada por um delegado policial parece ilustrar
bem essa situação contraditória.

“A melhor dica de segurança é não namorar no carro. Mas, se quiser, faça em um


local mais iluminado e mais movimentado possível” (Carlos Alberto, delegado
policial, falando em entrevista ao Correio Braziliense de 31/10/2001).

Como o próprio jornalista Renato Alves pondera em seguida, a idéia do namoro em


carros pressupõe justamente a busca por lugares distantes dessa idéia de vigia e publicidade
presumida por locais iluminados e movimentados, tais como os sugeridos pelo delegado.

22
Assim, é neste contexto que o Pontão surgia, ainda antes de sua reforma, como “sede do
amor ao ar livre”. Ainda que sua iluminação e sistemas de segurança não estivessem tão
desenvolvidos quanto seriam no futuro, tratava-se justamente deste espaço público que
parecia satisfazer essa idéia de lugar simultaneamente iluminado e escuro. Ao mesmo
tempo com e sem muros. A interdição do Pontão gerou a necessidade da busca por espaços
equivalentes, tais como a Esplanada dos Ministérios. Curiosamente, porém, a solução durou
pouco tempo. Com o racionamento de energia do governo de Fernando Henrique Cardoso
(1999-2002), as luzes da Esplanada passaram a ser apagadas durante a noite. A nova
solução foi bastante emblemática.

“Com o apagar das luzes que iluminavam os ministérios, o Congresso Nacional e


os palácios que compõem os poderes do país, a Praça dos Três Poderes, por
exemplo, tornou-se um disputado point para aqueles que adoram namorar dentro
do automóvel. Lá, os casais deitam e rolam (dependendo do tamanho do carro) sob
a bênção da bandeira nacional, a segurança da guarda presidencial, e a discrição
da justiça que, dizem, é cega” (Trecho de artigo de Renato Alves para o Correio
Braziliense de 31/10/2001).

Espaço máximo e exemplar de poder e controle oficiais, a noite da Praça dos Três
Poderes vigiava sem vigiar e seu caráter simbólico de sentinela perpétua somava-se a uma
quase ausência de funcionalidade que o espaço sofria durante a noite. Com o pôr-do-sol, o
poder estatal dormia, mas suas expressões arquitetônicas e visuais permaneciam,
culminando no que talvez fosse a manifestação espacial mais perfeita do paradoxo
necessário para a satisfação da ambigüidade exigida para que se tornasse viável este ideal
de amor ao ar livre.

Da mesma forma, como já dizia o trecho que citei ainda no início desta última parte
de capítulo, serviu também a Península dos Ministros, em quadra residencial nobre de
Brasília em frente ao Pontão do Lago Sul. Pequena área verde pública e iluminada em meio
aos espaços privados de algumas das maiores mansões da cidade, a Península era composta
por fachadas que denotavam lugares bem guardados, cuja alta renda exigiria um acesso
extremamente seletivo ao local. Ao mesmo tempo, tratava-se de um espaço público, e,

23
portanto, de acesso facilitado e irrestrito, a não ser, é claro, pelas dificuldades de transporte
ao local, feito quase exclusivamente de carro, especialmente à noite. Mais uma vez, criava-
se a ambigüidade deste espaço ideal, que soma luz e escuridão simultaneamente dentro de
si próprio. Se quiser, posso até dar-lhe nome e falar de um espaço da penumbra – aqui,
aliás, pode-se até defender a tese de que a penumbra, no caso da Península, não dependia
tão fundamentalmente assim de algum tipo de escuridão física real para a criação de um
espaço que criasse em seus usuários a segurança que suas práticas exigiam; vide o caso que
serviu de epígrafe para este trecho do capítulo, onde os ousados amantes foram
encontrados, nus, dentro do carro, à luz de um sol que, às sete horas da manhã, certamente
já nascia. Na Península, porém, os moradores locais reagiram. Não gostavam do tipo de
sociabilidade que se instaurava na região, e que parecia entrar em conflito com suas
próprias propostas de vida social. Assim, da mesma forma como se deu no caso do Pontão
do Lago Sul, a solução para a área pública da Península dos Ministros foi a solução do
soerguimento de muros ou, no caso, de grades. Os moradores locais uniram-se em
associação e, com a permissão da administração da região do Lago Sul, conseguiram
garantir, ainda em 2002, o fechamento da área durante o período da noite. O serviço de
vigia e controle se completava com a permanência de um segurança particular no local,
também contratado pela própria associação de moradores. O uso do espaço da Península,
que na época também, dizia-se, se transformava em ponto para o consumo de drogas ilegais
(Correio Braziliense, 08/02/2002), estava controlado. A barra imaginária de medida do
nível de controle do acesso movia-se um pouco mais para perto do privado e, ao mesmo
tempo, ficava um pouco mais distante do público. O choque entre diferenças se resolvia
com grades e o espaço público era mais uma vez contestado. O controle agora ia além da
penumbra. A luz que se jogava sobre os que queriam ser vistos sem ser vistos, agora era
forte demais e cegava os olhos.

Com o Pontão reaberto, porém, a prática do amor ao ar livre aos poucos começou a
voltar ao lugar. Agora, mais do que nunca, o pólo 10 do Projeto Orla se ostentava como
espaço primaz da penumbra. Cercado por muros romanos e por uma considerável equipe de
seguranças particulares, o Pontão se cercava de garantias de que, enquanto espaço
oficialmente público, ele teria seu acesso o mais controlado possível. O diferente, o
poluente, o vago e o incerto seriam devidamente filtrados e o lugar, transformado em um
24
quase espaço privado. Tanto que até o sexo, o extremo da esfera íntima, se achava viável e
fazia suas visitas.

***

Chamado por muitos ainda hoje de ponta-de-picolé do Lago Sul, por seu formato e
sua localização, já que se encontra situado em uma espécie de península no meio do lago
Paranoá, o Pontão é, afinal de contas, apenas um pedaço, ou, se preferir, reflexo ou mesmo
sintoma de um grande todo da história de Brasília, que começa 38 anos antes.

Construída em 1960 durante o governo de Juscelino Kubitschek de acordo com


projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e urbanístico de Lúcio Costa, Brasília funda-se
sobre o chão de uma proposta modernista, carregando consigo os ares de promessas de um
Novo Mundo, desencadeando no meio do Planalto Central “o florescimento de uma grande
civilização num paraíso de abundância" (Holston, 1993).

O Novo Mundo de Brasília, porém, surge imerso em acusações de artificialidade,


em uma cidade esforçada por limpar ou disfarçar dentro do novo, todo o velho mundo que
ainda existia ao seu redor. Nas palavras da socióloga Christiane Coêlho (2007):

“Apesar do projeto de Brasília, enquanto capital moderna, prever a construção de


uma cidade diferente das outras cidades brasileiras, seus problemas de moradia e
de emprego aproximam-na de outras cidades do país. Os problemas de
segmentação e de fragmentação social parecem ainda mais importantes em
Brasília quando comparados a outros centros urbanos. O caráter planejado da
cidade provocou a exclusão das classes populares do centro da cidade. O Plano
Piloto — parte planejada da cidade — sofreu um forte processo de especulação
imobiliária, no qual os setores menos favorecidos da população foram expulsos
para os subúrbios distantes. Neste contexto, as diferenças sociais correspondem a
diferenças espaciais significativas. A heterogeneidade social presente na maioria
dos centros urbanos é menos visível em Brasília”.

25
Para o também sociólogo Brasilmar Ferreira Nunes (2004), o projeto de Brasília
surge como uma associação entre um projeto arquitetônico e outro urbanista, significando
“um momento de inflexão na prática de intervenção no espaço físico das cidades do país,
no sentido em que marca um novo referencial de ação”, constituindo uma aliança entre
urbanismo e as esferas econômica e política, trazendo consigo o desafio subjacente de
introdução de uma “nova racionalidade na dialética secular que liga o homem ao seu
ambiente de vida”.

Essa “nova racionalidade”, contudo, enquanto tal, não deixou de trazer consigo
também novos estranhamentos e contrastes. James Holston (1993), em uma tentativa de
exprimir uma das formas nas quais se manifestava na prática este estranhamento em relação
à nova capital federal, falava em uma sensação de frieza, artificialidade e de
impessoalidade que dificultava tanto a identificação quanto a adaptação ao cotidiano que a
cidade tentava impor aos seus então ainda novos moradores.

Se Brasília era ou não o reino da frieza e da artificialidade, erguidos


monumentalmente no meio do planalto central do Brasil, é algo que se pode questionar.
Mas é diante deste cenário, em que novos mundos tentam trazer novas racionalidades para
a vida urbana através de um urbanismo que se propunha capaz de domar o social e seus
usos do espaço público, que nos vemos, 38 anos depois, diante da construção do Pontão do
Lago Sul, um dos três pólos já erguidos do Projeto Orla, de oito ainda a serem construídos.
Traz em seu arco romano de entrada uma tentativa não tão tímida de retorno ao “mundo
velho”, que Brasília queria deixar para trás com seu modernismo. Traz em seu largo muro
uma afronta clara aos seus princípios básicos, bem sucedidos ou não, de criação de amplos
espaços públicos democráticos, de acesso facilitado e irrestrito à população da cidade
(Parente, 2000). E em uma cidade que tão difícil já foi de se entender, parece embaralhar a
semântica de seus prédios e de suas divisões urbanas. A começar pela porta.

III – Batendo na porta.

26
— O Pontão é tipo o portal de Brasília. Lugar bonito, com diversão boa, coisa e
tal. O pessoal fala muito daqui. Eu nunca tinha vindo antes mas é porque, não sei,
já tinha passado em frente de ônibus aqui antes, via esse portal todo, esse muro
todo na frente, eu achava que não podia entrar, que era tipo um clube, uma
Asbac10, que rolava ingresso, convite, sei lá. Não imaginava que isso era assim.
(Trecho de conversa com Joca11, 17 anos, morador da Candangolândia, que vinha
então pela primeira vez ao Pontão. Junho, 2007).

Vim pela primeira vez ao Pontão, foi em meados de 2006. Não foi com nenhuma
preocupação etnográfica. Fui para encontrar uns amigos, desses que eu já não via há
tempos, e de lá íamos sair para uma festa de aniversário-surpresa de outro amigo que
tínhamos em comum.

Se eu não tinha ido ao Pontão antes, não foi por acaso. Já havia passado em frente
ao Pontão algumas vezes. Sempre de carro, claro, já que o Pontão é desses lugares de
Brasília que ficam longe de qualquer lugar de onde se poderia pensar em sair a pé. Ao seu
redor, só a extensa via motorizada do Lago Sul, a ponte Costa e Silva, a segunda das três
que cruzam o lago Paranoá, algumas áreas de proteção ambiental, e algumas poucas e
grandes construções residenciais, naquele que é um dos setores habitacionais mais caros de
Brasília. Não me era exatamente um cenário dos mais atraentes. Na época, tanto eu quanto
meus amigos em geral costumávamos evitar encontros nesses lugares mais dispendiosos, e
isso tanto por razões econômicas quanto ideológicas. Aliás, frequentemente, ideológicas
porque econômicas. Éramos em geral estudantes universitários de classe média de maior ou
menor renda e, como bons estudantes com pouco apego a bens materiais,
compartilhávamos, creio, de uma espécie de rejeição de certos tipos de pessoas, que
identificávamos com certos tipos de roupas, certos tipos de formas de falar, certos tipos de
carros e, claro, certos tipos de lugares. Somávamos tudo o que víamos e, se
identificássemos o todo com este ou aquele grupo que tivesse esta ou aquela identidade,
principalmente quando associada a uma ostentação um pouco maior de suas posses

10
Asbac: clube de lazer da Associação dos Servidores do Banco Central, situado na orla do Lago Sul, onde se
realizam freqüentes eventos festivos e concertos musicais.
11
Os nomes de funcionários do Pontão do Lago Sul citados nesta dissertação, assim como o de freqüentadores
do Pontão com quem conversei, foram substituídos por nomes fictícios para preservar seu anonimato.

27
materiais, dizíamos que nos sentíamos pouco a vontade por ali, que não era lugar para a
gente, e íamos embora.

Nessa gramática das ruas e das pessoas, o Pontão era desses lugares que parecia nos
comunicar vários dos seus códigos internos já do lado de fora, só pela fachada. Seu largo
muro gradeado ornamentado com pilastras ao longo de um vasto terreno em plena orla do
lago Paranoá, e que culminava em um alto pórtico conspícuo, com grandes portões e uma
guarita com dois ou mais seguranças que controlavam atentamente a entrada e saída de
veículos – cujos modelos dificilmente eram vistos em outras partes menos nobres da cidade
–, tudo isso se conectava a diversas dessas partículas elementares de comunicação visual
que se juntavam e se articulavam. Eram então interpretadas de forma mais ou menos
parecida por algumas pessoas que por ali passam de forma mais ou menos rotineira e então,
enfim se traduziam em duas ou três palavras ou duas ou três idéias. E é sobre essas
traduções que falarei mais adiante.

James Holston (1993), se referindo ao que ele chama de cidade pré-industrial, já


falava das fachadas dos prédios como “uma divisão seletivamente porosa” que constitui
“uma zona liminar de troca entre os domínios que separa”. A fachada seria então a
responsável pela comunicação entre estes dois domínios, tendo cada um diferentes
possibilidades e formas de acesso. Compensa a invisibilidade do seu interior, geralmente
criada por muros e paredes, com formas alternativas de comunicação da razão de ser de um
prédio ou de outro para quem está do lado de fora, e que criam expectativas e antecipam no
indivíduo, de forma nem sempre precisa, as normas de comportamento do lugar. Chico
Buarque, em Budapeste (2003), parece ilustrar bem esta idéia.

“Bar de nome inglês, com decoração de pub inglês, caixas de som tocando rock
and roll inglês, logo imaginei que o The Asshole fosse freqüentado exclusivamente
por húngaros. Mas na sua semi-escuridão a jovem clientela não me discriminou,
nem por forasteiro nem por beirar os quarenta e me ralearem os cabelos”. (Trecho
de Budapeste, de Chico Buarque, 2003).

Através da fachada, seja ela externa ou interna – no que já me aproximo de uma


acepção mais goffmaniana (Goffman, 1985) do termo – o personagem de Chico Buarque
28
gera expectativas sobre aquilo que está em seu interior, e que leva seus leitores, sejam eles
pedestres, motoristas ou passageiros, a realizar interpretações daquilo que vêem de acordo
com suas próprias experiências de fachadas ou de pedaços de fachadas semelhantes,
evitando assim entradas constrangedoras, perguntas desnecessárias ou batidas
desprevenidas em portas alheias. Assim, nessa gramática das ruas, seus pórticos
representariam signos razoavelmente claros da existência, nesse ou naquele lugar, de
dispositivos específicos de controle e seleção de quem entra e sai. A fachada do The
Asshole, contudo, acaba confundindo o José Costa do Budapeste, que tenta traduzir os
elementos visuais que percebe no pub como evidências da presença de um tipo de grupo
social bastante específico e talvez até mesmo hostil, e vê-se forçado a reconhecer, até com
algum espanto, o seu próprio equívoco.

Holston (1993), referindo-se à gramática das fachadas de espaços públicos e


privados do que ele considera como um típico exemplo de uma cidade pré-industrial – no
caso, especificamente, Ouro Preto e o Rio de Janeiro de fins do século XIX –, propõe que
“a experiência de um vazio figural indica previsivelmente que estamos no âmbito público,
em uma rua ou praça”, enquanto que “quando se percebe uma linha anônima de fachadas
na rua, sabe-se que são propriedades privadas”. A idéia então seria que, havendo a
necessidade de se distinguir claramente o público e o privado nas regiões de fachada dos
prédios, a solução semântica encontrada pela arquitetura pré-industrial teria sido a de
simplesmente inverter a relação, projetando essas construções públicas “não como um
fundo contínuo, mas como figuras esculturais”, isoladas de outras fachadas e tendo como
plano de fundo não mais do que o ambiente que as circunda. Assim, um habitante de uma
dessas cidades, habituado com suas paisagens urbanas, não teria dificuldade para decifrar,
através de leituras gramaticais dos seus corredores de ruas e prédios, o caráter público ou
privado daquilo que se esconde por detrás das fachadas e seus diferentes graus de
porosidade.

Mas Holston está falando de cidades-barrocas do fim do século XIX, e mais do que
isso, está propondo oposições radicais entre estes modelos arquitetônicos de cidade e o
projeto modernista dentro do qual estaria envolvida a cidade de Brasília. De fato, quando
Holston contrapõe essa arquitetura com a Brasília modernista ainda jovem de meados da

29
década de 1980, ele fala de uma Brasília praticamente ilegível. O truque de sintaxe da
inversão da relação entre rua e prédios – ou, nos termos de Holston, entre figura e fundo –
como forma de exprimir com clareza para o passante o caráter das edificações que o
rodeiam sem precisar do auxílio da palavra escrita, teria perdido o sentido em Brasília. Em
uma cidade onde esta inversão seria praticada sem distinção em edificações tanto privadas
quanto públicas, o brasiliense, confuso e desnorteado com sua gramática ultrapassada,
ficaria completamente perdido. Bateria na porta do Ministério da Fazenda achando se tratar
de um prédio residencial e, frustrado, invadiria um bloco residencial querendo falar com o
presidente da república. Talvez esse tipo de confusão até pudesse de fato ocorrer durante os
anos da primeira juventude da capital federal. Contudo, também é certo que as vias
motorizadas do plano piloto, rodeadas por seus setores habitacionais e comerciais e
entrecortadas por um eixo monumental repleto de estabelecimentos públicos, possui sua
própria gramática. E o povo brasiliense, como o bom leitor que é, certamente adaptou-se à
nova linguagem que lhe era apresentada e aprendeu a interpretar a cidade e suas fachadas
de acordo com os outros e novos elementos visuais que lhe eram oferecidos.

Assim, quando o Joca passava de ônibus em frente àquela vasta área murada,
traduzia a idéia de muro da língua dos prédios para a língua das palavras, pensava em
termos como “ambiente privado” ou coisa que o valha, via seu acesso interditado,
interpretava o Pontão como continuidade do espaço fechado dos clubes que o rodeavam e
deixava seu ônibus seguir adiante. Parente (2000), em sua tese de mestrado para a
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de Brasília, sugere que o
muro atuaria como uma espécie de artefato de dissimulação, forjando o que seria,
teoricamente, seu espaço público, na forma de espaço privado. O portal ostentatório com a
guarita comunica uma idéia de que a entrada e saída de pessoas serão filtradas através de
um ritual de seleção. O Pontão acaba assim se transformando em um espaço que já começa
ambíguo em sua entrada. Na visão de Parente, pode-se dizer que é como se o lugar fosse
uma frase em língua estrangeira no longo texto coerente que seria Brasília, já que estaria
longe de se encontrar em sincronia com a arquitetura modernista da cidade, assim como de
toda a sua proposta de apagamento de qualquer tipo de distinção entre público e privado.
Mesmo com toda a sua alfabetização modernista, o brasiliense ficaria, agora sim,

30
desnorteado e confuso. Como se estivesse em Budapeste, diante de um bar de nome inglês,
com decoração de pub inglês e caixas de som tocando rock and roll inglês.

***

Por detrás do muro do Pontão e de sua guarita vê-se um vasto estacionamento de


carros. O estacionamento, aliás, é imenso, ocupa a maior parte da área útil destinada ao
Pontão, sem dúvida provocando também seu impacto visual nos transeuntes da região.
Carros são grandes denunciadores de status, e o estacionamento acaba se transformando em
uma espécie de prótese arquitetônica da fachada do lugar. Em vários elementos bastante
pensados, o Pontão desenvolve seus meios de comunicação de uma espécie de distinção do
local em relação aos demais.

Uma vez conversei com o Ednaldo, 30, que trabalhava lá como vigia. Era um dos
doze contratados de uma empresa particular que fazia o serviço de segurança do local.
Costumavam alternar entre diferentes pontos estratégicos de vigia do Pontão, e o fato de
que em geral se podiam encontrar pelo menos metade dos seguranças trabalhando nas áreas
de estacionamento de carros não pode passar despercebido. Era o caso de Ednaldo, que
encontrei sozinho, próximo ao Café Antiquário, um dos restaurantes locais. Já tinha na
minha cabeça a idéia formada de que um vigia não pode ser tão simplesmente uma máquina
de seleção e descarte de observações relevantes ao trabalho. Acaba se transformando em
um observador geral, quase como um flâneur assalariado, e eu achei que essas observações
tinham que ser provocadas.

— Observar a gente acaba observando mesmo, as pessoas, o movimento, até pra


passar o tempo de vez em quando sabe? E aqui tem muita gente interessante, que
vem com esses carros todos, que aqui o que mais tem é carro importado, dá até pra
se distrair só olhando cada marca que vem pra cá. Tem uns que quando passam,
não tem jeito, todo mundo olha, comenta, puxa, que carro, você viu? (...) Acho que
eles vem da garagem direto pra cá, que a gente não vê eles em mais lugar nenhum
né? (...) Muita gente bonita também, grande variedade de perfumes, de cheiros.
Você chega até a respirar fundo quando passa alguém. (Trecho de entrevista com
Ednaldo, vigia do Pontão. Abril, 2007).
31
Mais do que compor a fachada do Pontão, os carros dão um aspecto monumental ou
escultural ao espaço. Através – para usar os termos de Holston – de uma esculturalidade
arquitetônica, eles erguem-se em destaque como formas de descontinuação do chão. Assim
como um prédio com caráter monumental que disputa a atenção dos passantes com outros
prédios, e usam todo um conjunto de dispositivos de diferença para realizar esse objetivo,
no caso do Pontão, são os carros que chamam essa atenção para si e claramente conquistam
este objetivo da distinção. Ednaldo se distrai com eles e é capaz de formular narrativas
sobre essa distração com facilidade. E se distrai também com os perfumes, igualmente
distintos.

Mas o que eu quero agora é chamar a atenção para a idéia de carros que vem da
garagem direto para cá, e então volto a colocar-me como um passante do lado de fora do
Pontão. De lá, vejo estes mesmos carros, entrando, passando pelo pórtico ostentatório, pela
guarita, e estacionando. A idéia de garagem não está aí à toa, estes são carros que não
costumam ser vistos circulando pelas ruas. São caros, precisam de segurança e devem estar
guardados, excluídos o quanto possível do público e mantidos em ambientes privados,
fechados ou seletivos. Se brincarmos um pouco com a imagem criada pelo Ednaldo e
imaginarmos o percurso percorrido de um carro da garagem direto para o Pontão,
estaremos imaginando um percurso incompleto, amputado justamente em seu trecho mais
público, as vias motorizadas que formam o circuito de trânsito rodoviário de Brasília. Os
carros distintos do Pontão criam um contexto funcional para seus muros. Recriam, em
algum grau, a idéia de garagem. E para os desavisados, na dúvida, em garagem não se
entra.

Volto mais uma vez à porta de entrada do Pontão. Dessa vez, noto a ausência de
pedestres. Eu mesmo, muito provavelmente estou dentro de um carro ou em um ônibus que
pode, no máximo, ter parado em um ponto mais ou menos próximo e, de qualquer forma, a
via movimentada que se deve atravessar para chegar ao Pontão certamente não é das mais
convidativas. O Pontão se encontra distante, como já disse antes, de setores residenciais em
geral, salvo as casas do Setor de Habitações Individuais Sul (SHIS) que ficam por ali a uma
distância razoavelmente próxima. Não há nenhum outro estabelecimento próximo o
suficiente que justifique que se desça de um ônibus por ali por qualquer outra razão que não

32
seja o Pontão e, como em geral outros pontos de encontro de sociabilidade serão mais
facilmente acessíveis para os ‘sem-carro’ do que o próprio Pontão, o fato é que raramente
vejo pedestres perambulando em torno de sua área, o que me faz lembrar mais uma vez de
Holston (1993). Talvez a rua em Brasília, cidade sem esquinas e construída em homenagem
aos veículos motorizados, esteja mesmo morta..

Tereza Caldeira (2000) faz uma longa discussão em torno do projeto modernista de
abolição da rua. Para a autora, o modernismo teria sido reapropriado pelos enclaves
fortificados, que teriam invertido sua proposta original de criação de espaços igualitários e
de apagamento da diferença. “Ao destruir a rua como espaço para a vida pública, o
planejamento modernista também minou a diversidade urbana e a possibilidade de
coexistência de diferenças. O tipo de espaço que ele cria promove não a igualdade – como
pretendido – mas apenas uma desigualdade mais explícita” (Caldeira, 2000). O que
acontece é que, sem rua, nesta visão, destrói-se a possibilidade do encontro anônimo e
aleatório que é tão característico do ambiente público. A rua é o espaço que, se não garante,
ao menos, potencializa um acesso igualitário a um mesmo ambiente para grupos sociais
diversos. Quando Caldeira associa a morte da rua aos enclaves fortificados, fala de uma
“rua” que foi cercada por muros. O acesso a esses enclaves é filtrado por sistemas de
segurança, e de tal modo que se pode dizer que quem anda por essas “ruas” tem, ao menos,
até certo ponto, o controle do acesso de si próprio pelo mundo. No caso dos condomínios
horizontais, a antropóloga Cristina Patriota de Moura ilustra bem este cenário.

“Se, para alguns, morar em um condomínio é um sinal de ascensão social, para


outros o condomínio é um refúgio em um mundo onde não é mais possível
identificar quem é quem. O maior perigo então passa a ser a indistinção ou, nos
termos utilizados por um morador vindo do Rio de Janeiro, a “mistura”,
responsável por toda a “desordem” do mundo atual” (Moura, 2006).

O problema é o do estabelecimento de limites para o contato com o diferente, com o


inclassificável ou com o estranho. Os muros estreitam o leque de expectativas de
sociabilidade, reduzem as possibilidades de formas de abordagem de si pelo outro. Se em
seu artigo, Moura afirma ter ouvido o termo “liberdade” de forma recorrente durante sua

33
pesquisa de campo, o termo recorrente para adjetivar o Pontão era “segurança” e, claro, na
maior parte das vezes acompanhado de uma conotação positiva. Ambos remontam a um
ideal de mundo completamente mapeado, onde se possa existir despreocupado com aquilo
que possa vir a obstruir ou interferir de forma imprevista naquilo que se projetou para o seu
próprio cotidiano, ou para uma noite, ou para um encontro social qualquer. Quem vai ao
Pontão não pretende esse tipo de acesso aleatório e descontrolado ao seu próprio círculo de
amigos. Em geral, este freqüentador típico vai deixar o ambiente privado do seu carro para
encontrar-se novamente com um espaço público já do lado de lá do muro, aonde se
encontra com um espaço de sociabilidade de acesso bastante controlado. Os contatos
sociais são reduzidos a este espaço interior, e as pessoas lá, em geral, tem consciência disso
e fazem planos de sociabilidade levando essa condição em consideração. Pontão é lugar de
quem não quer ter sua atenção disputada entre seus “iguais” e seus “diferentes”, e o próprio
Ednaldo demonstrou ter percebido isso muito bem enquanto conversávamos.

— O Pontão é um lugar muito tranqüilo, muito seguro, tem umas paisagens


bonitas. Eu vejo muita gente, muito casal mesmo, que vem pra cá pra conversar,
pra resolver problemas, coisa e tal... Acho que é um lugar bom pra vir, pra expor
os problemas, né? (Trecho de entrevista com Ednaldo, vigia do Pontão. Abril,
2007).

Para o Ednaldo, a segurança do Pontão é uma condição importante para que se


possa desenvolver de forma adequada uma interação mais intensa ou mais dramática como
a de pessoas que querem resolver os problemas de suas relações. Sem interferências, com
calma, tranqüilidade, e uma atenção indisputada. Senão, vai que alguém mais estranho
aparece com algum tipo de abordagem imprevista. Você se desconcentra, perde o fio da
meada e quando dá por si, já tem até palavras estranhas pulando o muro da conversa,
invadindo os corredores da discussão, e até mudando de assunto.

IV – ‘De um silêncio para o outro’.

“Não chore ainda não,

34
que eu tenho um violão,
e nós vamos cantar.
Felicidade aqui
pode passar e ouvir
e se ela for de samba
há de querer ficar”.
('Olê, Olá', canção de Chico Buarque de Holanda).

Era um sábado à noite em abril de 2007, e o Pontão, como sempre em sábados à


noite, estava cheio. Mesmo com seu vasto estacionamento à prova de falta de vagas, ainda
tive que circular por alguns minutos até encontrar um lugar vago, que ainda me fez andar
um bocado antes de chegar à área de lazer do Pontão propriamente dita, com seus bares,
restaurantes, calçadão e píeres que beiravam o lago.

Da reinauguração do Pontão, em setembro de 2000, até aquela data já haviam se


passado quase sete anos, e o lugar já estava bem estabelecido como parte do circuito urbano
de diversos grupos sociais brasilienses. Alguns já o chamavam de “portal de Brasília”,
como fez o Joca, que citei no início do capítulo passado. Assim pareciam apresentá-lo
também Gérson, 36, e Maria, 30, moradores de Taguatinga, cidade-satélite do Distrito
Federal.

— “A gente não costuma vir muito pra cá não, até porque fica meio longe de onde
a gente mora né. (...) Viemos pra cá hoje mais pra mostrar o lugar pros nossos
amigos que vieram visitar a gente nesse fim-de-semana. Eles são de Vitória, do
Espírito Santo, não conhecem nada aqui ainda, e tal, e pôxa, pra quem vem em
Brasília o Pontão é um lugar obrigatório né, lugar bonito, tinha que vir mostrar”
(Trecho de conversa com Gérson, morador de Taguatinga. Junho, 2007).

Gérson e Maria colocam o Pontão como ponto de parada obrigatória para quem vem
a Brasília. De fato, em 2007, o lugar já parecia fazer parte do itinerário turístico da capital
federal, destacando-se de outros lugares menos iluminados da cidade, como se algumas
rotas estivessem marcadas com marca-textos abstratos, como que marcando com um
amarelo-fosforescente mapas imaginários nas mentes das pessoas. Esses itinerários
35
marcados – além de reduzirem as cidades a um todo mais imaginável para quem vem de
fora, ajudando mesmo na criação de uma identidade urbana mais geral (Signorelli, 1999),
bastante útil para campanhas de publicidade de agências de turismo – serviam também
como espaços idealizados de introdução ou mesmo de iniciação de um indivíduo em uma
cidade. E enquanto meio de introdução, não é difícil descobrir que o Pontão pode virar boa
metonímia, pegando a parte pelo todo, e ser chamado de porta da cidade. Ou portal. É
verdade que Gérson e Maria traziam consigo amigos que vinham de longe, de Vitória, mas
eles próprios não eram de Brasília propriamente. Vinham de Taguatinga. Assim como o
Joca, que morava na Candangolândia, região de renda relativamente mais baixa. O Joca,
aliás, vinha ao Pontão pela primeira vez quando conversei com ele, e já lhe concedia o
status de portal, imagem que pressupõe acesso controlado. Portais existem para serem
abertos e, portanto, também para serem fechados. Acessar o Pontão, para o Joca, e talvez
também para Maria e Gérson, não era somente ter uma porta aberta, ainda que somente por
uma noite ou outra, para acessar a orla do lago Paranoá. Era também uma porta aberta para
a cidade como um todo. A metonímia ganha novas proporções.

Mas o Joca, assim como o Gérson e a Maria, eu só fui encontrar meses depois, em
outro sábado à noite, mais frio e mais próximo do inverno. Neste sábado de abril, talvez até
pelo clima mais agradável, o Pontão estava mais cheio. Poucas das várias mesas de seus
cafés e restaurantes que contornam a orla do lago estavam vazias, e mesmo o pierzinho, que
prolonga o calçadão lago adentro e também serve, principalmente durante o dia, como
atracadouro de lanchas e outras embarcações, estava quase intransitável. Como
antropólogo, tive maior interesse em abordar primeiro os sem-mesa, que se espalhavam
pelo calçadão e pelo píer, que pensei que estariam buscando formas alternativas de uso do
espaço. Comecei a caminhar pelo píer em busca do meu primeiro alvo. Caminhando por
suas tábuas de madeira, porém, tinha de tomar cuidado para não acabar tropeçando em
algum dos inúmeros casais de namorados que ali estavam a contemplar o lago e os restos de
pôr-do-sol que sua água poderia talvez ainda refletir. Como não queria ser invasivo em
demasia já em minha primeira abordagem da noite, escolhi, dentre as dezenas de bolhas de
sociabilidade que ali estavam, a única em que cabiam mais de duas pessoas. Aliás, até
minha chegada, cabiam pelo menos quatro, sem estourar. Então por que não cinco?

36
Eram dois rapazes, Ébert, 19, e Roberto, 17, e duas garotas, Denise, 18, e sua irmã,
Scarlete, 15. Ébert e Roberto se conheciam já do serviço, e tinham se encontrado
casualmente ali mesmo, no Pontão. Ébert estava de carro e tinha vindo junto com outras
quatro garotas, que tinham se afastado. Denise e Scarlete, que estavam com eles agora,
tinham conhecido tanto Ébert quanto Roberto naquele mesmo dia. Nenhum deles vivia no
plano piloto, e dos quatro, apenas Denise e Roberto já tinham vindo ao Pontão antes, uma
vez cada. O fato de Ébert estar de carro não deve passar despercebido. Não tardei a
encontrar, após deixar o quarteto para trás, as quatro garotas que tinham vindo com Ébert e
se afastado, aparentemente, por livre e espontânea vontade. Estavam sentadas em um banco
no calçadão, a cerca de trinta metros do píer. Em uma cidade feita para automóveis,
estavam presas em uma de suas ilhas mais isoladas. Aliás, este é um dos fenômenos
interessantes que ocorrem em cidades ou lugares em que se depende de carros para se
locomover. Quando um tem carro, mais do que proprietário, pode se tornar líder de um
grupo inteiro, a dizer, seus passageiros. Possui prerrogativas para manter privilégios
decisórios, e autoridade para guiá-los como quem guia a um rebanho.

Era, ao menos, o caso de Ébert perante as quatro garotas. Ao perguntar-lhes o que


faziam ali sentadas, responderam-me com tal unidade de afirmações que reconheço que
terei dificuldade em separar suas falas e, provavelmente, farei uma das poucas citações de
autoria coletiva de que se tem notícia:

— “A noite foi um fracasso! Derrota! Derrota total! A gente queria ir pra choperia,
mas o ‘Zé’ ali – apontando para o Ébert, do outro lado – trouxe a gente pra cá,
sabe! Por quê? Porque ele tem carro, e a gente não! Ele faz o que quer com a
gente! (...) Ah, ele tava mal-humorado. Chegamos na choperia, ela tava cheia,
lotada, fomos embora. Então fomos para o Píer 2112. Chegamos lá, o ‘Zé’ lá não
tava com paciência pra estacionar o carro, aí acabamos vindo pra cá, não sei por
quê. (...) Pôxa, a gente preferia estar era na choperia ou num pagode né gente,
dançando até se acabar. Pelo menos tem música. Ah, e o chope é mais barato,
claro!” (Trecho de conversa com Janaína, 18, Andréia, 20, Rayssa, 19, e Maira,

12
Píer 21: Grande shopping situado na orla do Lago Sul, em um dos extremos da ponte Costa e Silva. No
outro extremo, encontra-se o Pontão do Lago Sul.

37
18, moradoras respectivamente de Planaltina, Riacho Fundo, Samambaia e Guará.
Abril, 2007).

Ébert manteve sua autoridade de controlador dos meios de transporte mesmo com o
pouco conhecimento que tinha do circuito urbano que percorria. Se buscava um substituto
para a choperia, deveria saber que dificilmente o encontraria dentro do Pontão. Mas era a
primeira vez que vinha e, diante das circunstâncias adversas e do provável medo, que devia
crescer a cada minuto de indecisão, de ser responsabilizado pela frustração de toda uma
noite, achou prudente arriscar-se. Saindo do Píer 21, percebeu que o Pontão estava
próximo. Visualizando sua fachada mentalmente, tentou interpretá-la de acordo com o que
sua memória permitia. Aliás, mais provável é que já tivesse interpretado o Pontão em
oportunidades anteriores e que aquilo que antes o afugentava e o fazia buscar novas opções
de espaço na cidade, naquele dia parecia atraí-lo. Ora, além da fachada em forma de arco
romano, que se completava com um grande muro de pilastras e gradis de metal, era notável
também o fato de que o Pontão encontrava-se rodeado por clubes. Brasília, cidade
planejada, está entre outras coisas dividida em setores funcionais. Há, entre tantos outros,
setores comerciais, habitacionais, hospitalares, hoteleiros, de entretenimento, e de clubes.
Não surpreende, portanto, que, cercado por muros, rodeado por clubes, e ainda, situado tão
próximo do Setor de Clubes Sul (SCS), o pólo 10 do Projeto Orla pudesse ser confundido
com clubes que, em geral, tem por hábito a realização de festas e, freqüentemente, até
mesmo longos concertos musicais nas noites de sexta, sábado, e feriados em geral. Tudo
isso são coisas que se somam, e culminam na afirmação de Ébert, quando perguntado sobre
o que achava do lugar:

— “Aqui é um ambiente bom para se estar com namorada, aqui tem muito pouco
agito. Achei que ia ter umas bandinhas tocando aqui, uma música, mas não tem
nada” (Trecho de conversa com Ébert. Abril, 2007).

Ébert é pego semanticamente desprevenido por uma gramática que talvez não fosse
tão coerente quando pensava, ou que não conhecia tão bem em todas as suas minúcias
quanto imaginava. Não muito diferente do que aconteceu em outra noite de sábado com o
Joca, que achou que o Pontão era que nem o clube da Asbac. Ébert, tanto quanto Joca, e

38
tanto quanto as quatro garotas que trouxera de carona, acaba se frustrando com a proposta
de ambiente que encontra. Estão todos derrotados.

Todos são bastante claros em reconhecer a origem da derrota. O problema está no


silêncio. Parece haver uma diferença radical entre um ambiente que se associa à música e
outro que se associa à sua ausência. Janaína, Andréia, Rayssa e Maira foram todas
contundentes em afirmar que preferiam a choperia ou um ‘pagode’ por serem espaços
musicados, em oposição direta ao Pontão, espaço sem música. O som é posto aqui como
elemento central de composição de ambientes, e se confunde com eles. ‘Pagode’, na frase
construída pelas garotas, não é música somente, mas, antes disso, é apresentado dentro de
uma tipologia de espaços, e listado ao lado de ‘choperia’. O ambiente assim, como
somatória de elementos visuais e sonoros, apresenta uma proposta própria de sociabilidade,
a qual será rapidamente compreendida por quem tiver maior familiaridade com o espaço e
seus códigos locais. E é neste sentido que o Pontão e a choperia ou o ‘pagode’ teriam
propostas tão radicalmente diferentes quanto à oposição entre ‘vitória’ e ‘derrota’.
Perguntei-lhes o que estariam fazendo naquele instante se estivessem na choperia.

— “Se a gente estivesse na choperia? Ah, a gente estaria dançando, bebendo


cerveja, falando de homem. (...) Olha só, aqui você tá vendo quatro derrotas em
uma só noite, remoendo o passado, falando dos casos antigos (...) Solidão machuca
sabe. E aqui é um lugar muito ruim pra se ficar solteira, com esse monte de
casalzinho ao redor. É horrível (...) Na choperia, a essa hora, certamente a gente
estaria paquerando, não é? Ou pelo menos conversando, jogando conversa fora, na
derrota também, mas seria um lugar bom sabe! Com música, coisa e tal.” (Trecho
de conversa com Andréia. Abril, 2007).

Naquele instante, refletindo sobre a relação entre som e silêncio dentro de um


ambiente, devo ter-me ausentado da conversa por algum momento, como se tentasse ‘ouvir’
o silêncio do Pontão. Daí minha surpresa ao perceber que, ao invés disso, o que eu ouvia
era o som de uma canção, que vinha de não muito longe, escapando das portas e janelas da
cervejaria que se encontrava atrás das nossas costas. Sabia que essa música, que soava a

39
MPB, com voz e violão, não poderia ter passado despercebida pelas garotas, e resolvi
provocá-las. Afinal, não seria música o que eu ouvia naquele exato momento?

— “Ah, meu filho, mas isso aí também não vale né! Essa coisa que nem dá pra se
mexer. É música de namorado né gente, é isso que eu tô falando, Pontão é lugar
pra casalzinho, pra namorado! (...) Se fosse num pagode? Ah, num pagode é mais
fácil! Você vê um cara, rola um sorriso, você joga o cabelo prum lado, pro outro,
se aproxima, abre uma roda de pagode, você pega ele pra dançar no meio da roda,
pronto, acabou!” (Trecho de conversa com Andréia. Abril, 2007).

A dicotomia entre as categorias de música-de-namorado e música-pra-se-mexer


surge com naturalidade não só para Andréia. É reiterada pelas outras três garotas, e já havia
sido afirmada antes por Ébert. A derrota de Andréia era a derrota de uma proposta bastante
clara de sociabilidade, que envolvia a viabilidade da dança e, mais importante ainda, da
paquera. O silêncio do Pontão, audível na forma de música-de-namorado, obstruía essa
proposta, e criava seus frustrados. Para a Andréia, assim como para a Janaína, a Rayssa, a
Maira e o Ébert, a paquera e a música eram indissociáveis. Aliás, a descrição que Andréia
faz de sua relação com a música em uma choperia ou em um pagode deixa bastante clara a
pressuposição de uma série de códigos de comportamento que, tal como ela propõe,
somente se realizam e, possivelmente, somente ganham sentido e inteligibilidade dentro de
um ambiente com música, ou melhor, com música-pra-se-mexer.

É o que diz também Isabel, 16, em outra ocasião e em outra conversa. Isabel estava
sentada no calçadão do Pontão junto com um grupo de mais dez adolescentes, estudantes
do Ensino Médio, todos mais ou menos da mesma faixa etária. Estavam sentados em roda,
conversando em voz alta quando eu os abordei. Dos dez, Isabel e Alex foram os mais
interessados em conversar comigo, enquanto os outros permaneceram entretidos em suas
respectivas conversas. Quando perguntei a Isabel, como de praxe, se havia algo que a
incomodava no Pontão, respondeu-me de imediato.

— “Ah, o que incomoda aqui é o silêncio né. Não tem música, não dá pra animar,
entende”.

40
— “Hm, mas como assim, animar?”, perguntei eu, tentando extrair mais
significados da palavra.

— “Ah, animar, animar! Entrar num clima, sabe?”

(Trecho de conversa com Isabel. Junho, 2007).

O ideal de clima de Isabel certamente não era o mesmo do ideal de Andréia ou de


outras pessoas com quem conversei. Mas, fosse qual fosse, suas meteorologias sociais
certamente coincidiam no fato de que ele não se encontrava no Pontão. Havia silêncio
demais para haver a possibilidade da construção do clima. Mas o que era afinal esta coisa,
que pairava ou deixava de pairar na atmosfera dos espaços de sociabilidade de Brasília,
alterando, e por vezes até subvertendo o comportamento daqueles que respiram o seu ar ou
ouvem os seus sons? Buscando algo que inspirasse uma digressão um pouco maior sobre o
tema, encontrei Jean-Claude Carrière (2006), cineasta, roteirista e escritor francês.

“Num famoso comentário, Sacha Guitry disse uma vez: ‘O concerto que vocês
acabaram de ouvir é de Mozart. E o silêncio que veio depois também é de Mozart’.
Vários músicos contemporâneos dizem que seu objetivo principal é deslocar-se de
um silêncio para o outro”.

No Pontão, assim como em qualquer outro lugar, a música se associava ao seu


ambiente e ajudava a compor a sua totalidade. Do mesmo modo, aliás, em que qualquer
ambiente tende a ser composto ou, ao menos, percebido, pela totalidade dos estímulos
sensoriais que ele transmite, e que se transformam mutuamente, e se fornecem de forma
igualmente mútua informações para uma reinterpretação um do outro, até que um todo
entrelaçado de vozes, sons, cores, formas, asperezas e odores, possa em fim se formar e,
aos poucos, vá conferindo inteligibilidade ao espaço em que se penetra. A música, ao
contrário de outros elementos que costumam estar presentes na composição de um
ambiente, por seu caráter volátil e sua considerável mutabilidade, torna possível, em maior
ou menor grau, uma necessidade de reinterpretação constante do próprio ambiente. Assim,
quando Carrière cita Guitry dizendo que o silêncio que veio depois da música era também
de Mozart, fala de um ambiente que, de um silêncio a outro, passou por um longo e intenso

41
processo de transformação e ressignificação, até culminar no silêncio final, onde esse
ambiente, como que retorcido por suas notas musicais, já se encontrava longe de ser o
mesmo.

E o ambiente pode ser retorcido de formas diversas, e o próprio indivíduo, com sua
memória dotada de um vasto leque de ambientes passados, interage com estes silêncios e
impõe também sua subjetividade à construção da cena (Crapanzano, 2005). Para a Andréia,
a música-pra-se-mexer retorce o ambiente de uma forma bastante distinta da música-de-
namorado. Comunica uma série de códigos sociais que, em contato com o ambiente, podem
ser interpretados de formas diversas. Se imaginarmos uma cena em que uma música-pra-
se-mexer começasse a tocar no Pontão naquele mesmo sábado à noite em que conheci a
Andréia e suas amigas, as reações que se seguiriam seriam certamente bastante
interessantes. Alguns talvez ficassem confusos ou mesmo atormentados com o novo
ambiente que se constituiria. O que seria o clima rompido para estes seria possivelmente –
antes mesmo do retorno ao próximo silêncio – o princípio do clima ideal para a Isabel ou a
Andréia. Elas, agindo agora como especialistas perante a tarefa talvez difícil para outros da
interpretação dos novos códigos apresentados através da música, também provavelmente
não teriam dificuldade em interagir com algum grupo de pessoas que fosse capaz de
interpretar de forma relativamente homogênea a nova totalidade ambiental que surgiria – e
de tal modo que se viabilizaria entre estes intérpretes uma interação social mais consistente
e com uma capacidade de comunicação mais fluente do que com outros, aos quais estes
códigos são pouco inteligíveis, de difícil tradução, ou mesmo proporcionam sensações de
aversão e repulsa. Andréia, assim como Ébert, Janaína, Maira, Rayssa, e talvez até mesmo
Scarlete e Denise, veriam então à sua frente a oportunidade da instituição da paquera
enquanto forma possível de sociabilidade local. Outra música, por sua vez, poderia
proporcionar à Isabel a constituição de um clima adequado para a sua idéia de animação,
quando então provavelmente se instauraria para ela a possibilidade de interação através de
formas de sociabilidade mais alegres, para não dizer novamente, animadas – e sim, a
alegria pode ser vista aqui neste sentido como uma forma de sociabilidade, com seus
próprios códigos e expectativas (Schutz, 1979) de comportamento, e não somente como um
estado de espírito de caráter meramente psicológico.

42
Sem querer penetrar no tema além do que posso resolver nestes poucos parágrafos,
o importante a ressaltar aqui é a situação em comum em que se encontraram tantos destes
de que venho falando até aqui. Atraídos por uma série de informações ambíguas ou mal-
transmitidas, dadas por fachadas de caráter dúbio e por coisas postas como que fora de
lugar ou de contexto, não tardaram a ver suas expectativas de sociabilidade de Pontão
frustradas, e em alguns casos, de forma até bastante drástica.

Mais do que expectativas frustradas, porém, falo aqui de expectativas obstruídas.


Não é difícil notar, como veremos mais adiante, como as formas de interação social do pólo
são planejadas e controladas de forma clara e consciente através dos mais variados
mecanismos de controle. E o freqüentador assíduo do Pontão tem consciência disso e,
assim como os, digamos, “nativos” novatos, que criam expectativas não raramente
equivocadas sobre aquilo que o espaço pode lhes oferecer, da mesma forma os seus
“nativos” mais veteranos possuem também seu quadro de expectativas sobre o lugar. Um
quadro formado de acordo com imagens de Pontão que eles próprios viram se repetir ao
longo de suas várias visitas e que, quando não se confirmam, também podem se ver
frustradas – aliás, mais do que novatos ou veteranos do Pontão, são “nativos” de classes
sociais e grupos de consumo específicos, dotados de seus próprios espaços e códigos típicos
que se repetem ou não dentro do Pontão. Dando continuidade ao meu vai-e-vem no tempo –
mas não no espaço –, avanço novamente para outro sábado à noite do mês de junho, quando
me deparo com outro casal, Régis, 35, e Cristina, 29, que acabavam de deixar o Café
Antiquário e agora caminhava pelo calçadão rumo ao estacionamento, junto com outro
casal de amigos que os acompanhavam e que permaneceu calado. Os dois viviam no
Cruzeiro13, região de Brasília historicamente estabelecida como residência de militares e
parentes de militares, e já tinham vindo juntos ao Pontão diversas vezes, além de terem o
hábito de freqüentar outros espaços de consumo elitizado da orla do lago, tais como o Píer
21. Quando inquiridos sobre sua experiência de Pontão, Régis respondeu, aparentemente,
em nome de todos.

13
Além de residência tradicionalmente militar, o Cruzeiro também se notabiliza como uma das regiões do
plano piloto brasiliense onde a preocupação com idéias de segurança e privacidade ganharam maior
visibilidade, onde seus moradores utilizaram grades de ferro nos pilotis dos edifícios, subtraindo áreas
oficialmente públicas, alegando falta de segurança (Parente, 2000).

43
— “Nessa cidade não tem muito o quê se possa fazer né, então a gente vem muito
ao Pontão por isso, muito por falta de alternativas mesmo. E pra falar a verdade,
de bom aqui só tem a vista mesmo, porque de resto, o lugar não é lá tudo isso que
as pessoas falam não. (...) De ruim? De ruim aqui tem os preços, que aqui pra
comprar uma água você já paga uma fortuna, e a molecadinha aí, que fica fazendo
muita sacanagem, coisa e tal. (...) Ah, ficam bagunçando o tempo todo, enchendo a
paciência, e ninguém faz nada. Irrita!” (Trecho de conversa com Régis. Junho,
2007).

A resposta de Régis, curiosamente, contrasta com a de Gérson e Maria sobre o


mesmo assunto, poucos minutos depois. Com um perfil aparentemente semelhante ao de
Régis e Cristina, ao menos, no que diz respeito a questões de renda e de assiduidade no
Pontão, os dois parecem ter uma postura, ao menos, mais tolerante com propostas
alternativas de sociabilidade que pudessem vir a aparecer naquele espaço.

— “Incômodo? Não, nenhum. Não vimos nenhuma garotada por aí não. Mas
também, acho que música, diversão, isso tudo faz parte né?” (Trecho de conversa
com Gérson. Junho, 2007).

Não consegui estender muito longamente a conversa com Régis e Cristina. Régis se
demonstrava profundamente incomodado com o que ele chamava, já de forma pejorativa,
de molecadinha. Referia-se provavelmente aos mais jovens, incluindo alguns grupos de
adolescentes de faixa etária entre 12 e 15 anos que insistiam em correr de um lado ao outro
do calçadão, corriam, gritavam e, não duvido, deviam também esbarrar de vez em quando
nos passantes que caminhavam ao longo da orla para uma conversa familiar ou para
apreciar a vista enquanto faziam a digestão de um longo jantar. De fato, a música não era a
única fonte de conflito e de manifestação de formas específicas de sociabilidade do Pontão.
Estas formas, por vezes, tão distintas, podiam se manifestar como conflitos de maneiras
bastante diferentes. Ora sob a forma de diferentes alturas de voz que obstruem outras, que
se propõem uma altura mais baixa e calma. Ora sob a forma de diferentes ritmos de
passada, e aí então o conflito já ocorre entre os de passo lento e os de passo mais veloz,
que, com sua pressa e toda a imprevisibilidade de passadas que carregavam consigo,

44
pareciam, até mesmo para mim, como que interromper a proposta bucólica de paisagem do
Pontão, construindo um contraste provavelmente até imprevisto entre a calma do lago à luz
do luar, e o passo corrido de adolescentes que, indiferentes a qualquer bucolismo que
poderia estar enquadrado nas expectativas de alguns, ressignificavam a vegetação exótica
que se espalhava pelo longo espaço da orla preenchido pelo pólo, e utilizavam-na como
refúgios para jogos de esconde-esconde – por sinal, uma boa alegoria para a discussão de
espaços públicos e privados.

Já o Gérson, por sua vez, achava que tudo aquilo, que ele mesmo chamava de
música e diversão, faziam parte do Pontão. Referia-se também à música e diversão que
exalava de duas rodas de amigos que, sentados em um gramado à beira do lago, animavam-
se em rodas de violão, freqüentes no lugar, especialmente em noites de sexta e de sábado. E
de certa forma sim, faziam parte do cotidiano noturno do Pontão, já que eram formas de
sociabilidade vistas com certa freqüência no lugar. Mas não que fossem incentivadas. Os
garotos que brincavam e corriam eram vigiados de perto pela equipe terceirizada de
segurança local, e soube de casos, que veremos adiante, em que chegaram a ser advertidos.
Já as rodas de violão, ainda que toleradas, eram claras formas de subversão da ordem
oficial do Pontão. Espaço famoso por controlar suas fronteiras musicais aos limites da
música-de-namorado, espalhava placas ao longo de seu estacionamento explicitando a
proibição do uso de carros-de-som – tradicionais portadores de climas autônomos e
ambulantes –, além de piqueniques. O violão não podia ser proibido. Sentados no calçadão
ou no gramado que intermediava seu contato com o lago, várias vezes vi a imagem de rodas
de jovens ao som de um violão que tentava, às vezes até conscientemente – como já fiz eu
mesmo, com amigos, antes de resolver que isso tudo também era bom para antropologia –,
subverter a ordem local. Mas mesmo essa tolerância tinha suas formas de lembrar-nos, de
vez em quando, de que estávamos fora-de-lugar. Às duas horas da manhã, sem aviso
prévio, saíam da grama esguichos de água, prontos para dar um banho gelado naqueles que
ainda resistiam a estar por ali a praticar formas alternativas de sociabilidade. Olhava-se para
o lado e não se via esguichos de água saindo das cadeiras dos bares e restaurantes que nos
rodeavam. Em poucos minutos, um segurança atrás do outro iria, sistematicamente,
começar o procedimento de retirada, nem sempre muito simpática, do público que lá ainda
estava. Público ou não, o Pontão também fechava, e só reabriria na manhã seguinte.
45
Diante de tudo isso, e mesmo em função de tudo isso, é difícil não ganhar algum
tipo de admiração por Ébert, aquele que tinha vindo de carro, dando carona para as quatro
garotas ‘derrotadas’ do calçadão. Na realidade, a ‘derrota’ das quatro tinha ainda outras
razões. Abandonadas no calçadão, haviam se afastado de Ébert. Não era à toa. Quando
perguntei a Ébert sobre o que conversavam ali, ele, Roberto, Denise, e sua irmã Scarlete,
respondeu-me sem constrangimentos.

— “Bom, quando você chegou, eu tava tentando dar em cima dessa garota aqui ó,
[a Denise]! E eu falo mesmo, falo mesmo, porque ela fica enrolando aqui sabe, não
se decide!” (Trecho de conversa com Ébert. Abril, 2007).

Sem intimidar-se com a falta de clima, com o ambiente do Pontão sabidamente


adverso a paqueras, com a pressão de quatro passageiras frustradas que reivindicavam
impacientemente uma carona de volta para casa, com a presença a um passo de distância da
irmã mais nova de Denise, e nem mesmo com as próprias negativas tímidas e claramente
incomodadas da própria Denise, Ébert tenta pular todos os obstáculos que insistem em
obstruir sua proposta de sociabilidade para aquela noite. Como em uma espécie de
heroísmo solitário e individualista em que a única pessoa que ele quer e pode salvar é a si
próprio, desarmado de violões e sem um exército de vozes que se arremessasse em coro
contra o silêncio, ele bem poderia ter resolvido cantar ele mesmo, de voz própria. Se
transformaria ele próprio em alto-falante e instituiria a paquera como forma oficial de troca
de olhares e palavras que se estenderia até onde sua voz alcançasse. E então, enfim, se
calaria ao alcançar o próximo silêncio e, vendo à sua frente o ambiente já retorcido por sua
própria voz, voltaria às palavras que dizia antes a Denise, e que agora se entrelaçariam com
o novo silêncio e ganhariam um significado completamente novo. Mas Ébert não virou
alto-falante para sabermos o que teria acontecido. Continuou a falar depois que eu saí, e os
silêncios deixados pela música-de-namorado que ecoavam – se tanto – no Pontão e que se
fundiam com suas palavras, provavelmente o transformavam, no máximo, em um chato.

V – A polícia da sociabilidade

46
Lembro que logo ao sair do meu carro, em minha primeira ida ao Pontão como
pesquisador de campo, me deparei com dois seguranças. Estavam de pé, pouco visíveis,
debaixo de uma das árvores que se erguiam em meio ao asfalto do seu vasto
estacionamento. Tinha resolvido já alguns dias antes que os seguranças seriam os primeiros
alvos da minha pesquisa. Achava que estavam dotados de uma posição de observação
privilegiada do lugar, afinal, ainda que de forma enviesada em função de objetivos bastante
específicos, o fato é que passavam entre sete e oito horas por dia observando o movimento
de pessoas que passeavam pelo Pontão, e isso tinha que me servir de algo. Abordei-os ainda
com alguma insegurança. Era minha primeira abordagem no campo, e acho que não fui
muito convincente tentando explicar as razões da minha pesquisa, de modo que não
perderam tempo em me pedir que fosse tentar abordar os seguranças que estavam do outro
lado, na guarita, já que eles mesmos estavam ocupados e podiam ser chamados para
resolverem alguma situação “a qualquer momento”.

A guarita do Pontão se situava precisamente debaixo do polêmico arco romano que


marcava sua entrada, e dividia suas vias internas de acesso ao estacionamento em duas. Em
princípio, achei estranho que justamente a guarita, posto emblemático de atenção e
segurança, servisse de referência de lugar onde eu poderia tomar o tempo de seguranças,
digamos, menos ocupados. Chegando lá, encontrei com três deles. Estavam apertados em
uma salinha minúscula, um sentado em seu posto de trabalho e outros dois, que
conversavam ao redor de um bebedouro. A guarita, além de posto estratégico de vigia, lhes
servia também de ponto de encontro e de repouso, com a vantagem peculiar de estar
fechada entre quatro paredes e que concedia ao espaço um certo caráter de bastidores, e
sempre tive a clara impressão de que ali os vigias se expressavam muito mais abertamente
do que quando abordados no estacionamento ou em frente aos cafés e restaurantes locais. E
talvez tenha sido justamente essa atmosfera de bastidores que tornou possível respostas
como a de um deles, Geovane, 36, às minhas inquisições sobre o seu trabalho, em busca de
histórias interessantes que me dessem algumas primeiras noções de Pontão.

— “Se já vi algo de interessante? O ser humano é sempre muito interessante. Você


quer anotar tudo aí nesse bloquinho? Pra anotar tudo o que você pode aprender

47
sobre o ser humano você iria precisar de uma pilha de papel”, (Trecho de conversa
com Geovane, segurança do Pontão. Abril, 2007).

Disse isso representando com as mãos o que seria o tamanho da pilha de papéis
necessária para mim, do chão até seu pescoço. Apenas ri e insisti na pergunta. Momentos
de descontração assim seriam raros em conversas com os seguranças locais dali em diante.
Mas diante de minha insistência, José Paulo, 32, que até então permanecera mais sério,
sentado em sua cadeira enquanto observava pelas janelas da guarita os carros que entravam
e saíam do Pontão, resolveu colaborar.

— “O que a gente tem muito aqui no Pontão são QRU14’s vários de pessoas
transando dentro dos carros. Muitos mesmo. (...) Não, não tem muito mais coisa
interessante que acontece por aqui não. Em geral é mais isso mesmo, e um que
outro caso de pessoa mais alcoolizada que também aparece e que a gente tem que
lidar. Esses dias mesmo teve uma senhora que bebeu demais, passou mal, a gente
teve que chamar uma ambulância, coisa e tal, mas sem grande alarde. (...) Em
geral não temos nenhum grande problema. Mesmo quando vemos que tem algum
casal transando em algum carro, o que a gente faz é bater na porta do carro
calmamente, pedimos para o casal ir buscar um lugar mais apropriado. (...) Em
geral eles entendem e vão embora, sem maiores problemas.” (Trecho de conversa
com José Paulo, segurança do Pontão. Abril, 2007).

Outros seguranças com quem conversei confirmaram para mim que sua principal
função no Pontão, além de um caráter ostentatório que já servia em si só para a contenção
da criminalidade, era o controle da prática de sexo nos estacionamentos e do consumo de
bebidas alcoólicas. Arílson, 31, o terceiro segurança, completou o comentário de José
Paulo, comentando que até meados de 2005, o Pontão era ponto reconhecido de briga do
que ele chamava de gangues juvenis. Em geral formadas por estudantes colegiais de classe
média e classe média-alta e com faixa etária entre 15 e 19 anos de idade, essas gangues
anunciavam dia e hora de suas brigas pela Internet, sendo esses encontros realizados quase

14
QRU: sigla arbitrária utilizada em geral para comunicação via rádio, e que pode ser traduzida como
“assunto”. Faz parte da chamada língua do ‘Q’ (do inglês “query”). A sigla QRU também pode ser traduzida
como “você tem algo para mim?”.

48
sempre dentro do Pontão. De acordo com Arílson, esses encontros só teriam parado de
acontecer depois que a administração do Pontão aumentou o seu efetivo de seguranças,
dobrando o número que antes era de seis, para doze seguranças no total. Contudo, algumas
semanas depois, em maio, conversando com o dono de uma pequena barraca de sorvetes
que havia se instalado no Pontão já há três anos, obtive uma versão um pouco diferente do
caso. De acordo com Gilvan, 41:

— “Pois é, tinha muita briga aqui mesmo, até que cortaram a bebida. Porque
antigamente, até uns anos atrás, bebida aqui era livre né, aí rolava, tinha muita
briga mesmo, uns garotos bebiam, ficavam bêbados, e depois direto rolava briga
por aqui. Todo fim-de-semana, sempre tinha alguma coisa. (...) Então, aí eles
começaram a proibir né, acabar com essa coisa de bebida aqui fora, agora só pode
beber dentro dos restaurantes mesmo. Aí isso acabou, nunca mais teve problema.
(...) Porque na época era complicado né, o Pontão tinha até uma má fama por
causa disso” (Trecho de conversa com Gilvan, 41, morador do Riacho Fundo e
responsável pela barraca de sorvetes da Yopa no Pontão. Maio, 2007).

Um espaço pode ser apropriado de formas bastante diversas. Ainda que possa haver
uma proposta oficial de como um lugar possa ou deva ser utilizado, ainda que seja criada
alguma polícia do uso espacial e da sociabilidade, ainda que seja feito uso dos artifícios
mais diversos para assinalar, verbalmente e arquitetonicamente, que se façam placas, que se
ergam muros para dissimular o caráter público de um espaço, que se jogue água, que se
encha o lugar de carros importados e de seguranças em um conjunto de palavras quase-ditas
que se somam para quase-interditar esse ou aquele tipo de conduta, que fuja do que se
espera de um “ambiente familiar”, como dizia um, ou de um “lugar bom para casalzinho”,
como dizia o outro, ou de um espaço ideal para “ver o pôr-do-sol”, como disseram tantos.
A subversão de um do uso de um espaço pelo outro é sempre possível. É o que ocorre
quando uma multidão em frenesi não deixa dois amigos conversarem em voz baixa. Ou
quando os alto-falantes de um show de pagode não deixam um casal de namorados trocar
palavras amorosas ao pé do ouvido. Ou ainda quando um grupo de jovens adolescentes
manifesta relações de oposição de gangue na forma de brigas sistemáticas do lado de dentro
de muros que deviam justamente significar, para pessoas como o Régis e a Cristina, e

49
talvez até o Gérson e a Maria, a retirada da insegurança para o lado de fora, em um caso
limite de formas de sociabilidade radicalmente diversas e que ocupam um mesmo espaço.

Um conflito entre formas de sociabilidade, ou seja, entre diferentes propostas de


dinâmicas de interação social, implica também em uma disputa pelo espaço. Não se trata
simplesmente de deter o monopólio de um espaço, mas sim, de controlar o que será feito
nele e com ele. Deixado qualquer juízo moral de lado, a briga de gangues juvenis pode ser
encaixada dentro da noção de forma de sociabilidade tanto quanto o bate-papo familiar à
beira do lago. A proposta oficial, pelo menos do lado de dentro dos muros do Pontão,
detém o monopólio do poder legítimo manifesto em sua não pouco notável equipe de
seguranças, e faz uso dessa legitimidade para atuar efetivamente no controle da conduta de
seus freqüentadores. Mas não pode simplesmente agir perante aquilo que já acontece. Uma
ação de controle perante uma briga que já começou a acontecer, ou um grupo de jovens que
já começou a ouvir música em um carro de som, ou um casal que já começou a fazer sexo
dentro de um carro, é também uma ação que interfere no ambiente e gera reações em quem
está ao redor. Se o ambiente é composto por uma série quase infinita de estímulos
sensoriais que dialogam com o indivíduo na constituição de uma informação que
determinará sua compreensão dos códigos locais, não são somente alterações musicais que
irão provocar distorções na compreensão deste ambiente. Não se vai de um silêncio a outro
apenas através da música, mas também, através do corpo, de gestos e performances. A
briga gera novos silêncios tanto quanto a ação de opressão de um corpo de vigilância.
Comunicam, juntos, a existência da possibilidade da violência física, tipo de sociabilidade
que a atuação policial somente enfatiza, denunciando novas formas de conflito.

Não, uma ação de controle deste tipo não pode simplesmente agir perante aquilo que
já acontece. A estratégia adotada pela equipe de seguranças do Pontão foi a de agir de
forma preventiva, ou mais do que preventiva, de forma cirúrgica sobre o ambiente local.
Como quem dele extrai pequenos “tumores” ambientais. E assim, como disse o Gilvan, não
foi só o efetivo de vigias que foi duplicado. O corte do consumo de bebidas alcoólicas fora
dos estabelecimentos comerciais locais também passou a ser proibido, e passou a ser
comum a ação da equipe de segurança terceirizada do Pontão coagindo jovens que bebiam
no gramado ou no calçadão a jogarem suas garrafas fora, ou a serem jogados para fora eles

50
mesmos. A bebida alcoólica, assim como a música, é capaz de provocar alterações
consideráveis sobre todos os outros elementos que compõem um ambiente. Interfere
radicalmente em sua totalidade, e catalisa alterações na conduta social que se realiza no
espaço. Na disputa pelo controle do espaço, se instaurava, de forma cada vez mais intensa
desde 2005, a polícia da sociabilidade.

***

Tudo isso dito, não deixa de ser interessante notar que as possibilidades sociais que
os vigias controlavam diariamente para conter dentro de fronteiras preestabelecidas pelas
normas locais, incomodavam de alguma forma os próprios vigias que, ao menos alguns
deles, não se viam tentados pelo tipo de vida social que se desenvolvia a sua frente. José
Paulo não freqüentava o local em seu tempo livre devido à distância, mas ainda dizia que,
do contrário, certamente o faria, pois que considerava o local ótimo para o lazer,
especialmente “devido à segurança”. Ednaldo, por sua vez, achava que mesmo que o
Pontão fosse de fácil acesso, mais próximo de casa, viria pouco.

— “Não, acho que não viria muito aqui não. No geral eu saio umas duas vezes por
semana com os amigos, mas é mais pra ir em uma pizzaria, um bar, ou coisa assim,
mais simples mesmo, sabe? Pra vir aqui já é quase um evento, você vem bem
vestido, arrumado, pra um jantar de família, mais pra comemorar alguma data
importante mesmo”.

Se o portal do Pontão atuava como um filtro de controle de um acesso que é sim


restrito, seus vigias são como que um prolongamento humano desse portal, e que culmina,
combinado também a uma série de outros fatores já enumerados, na determinação do tipo
de grupo social que o freqüenta, com suas expectativas de comportamento, roupas, estilo e
nível de renda econômica claramente incompatíveis com o tipo de lazer cotidiano que
busca o Ednaldo, que também faz elogios à mesma segurança do lugar que talvez deixasse
ele próprio pouco a vontade se viesse vestido com suas roupas de fim-de-semana. Talvez
então, estigmatizado, sofresse ele próprio com um olhar mais duro e totalizante de sua
própria vigia.

51
Ironicamente, colocado dentro de uma espécie de guerra de incômodos, Ednaldo de
certa forma servia à vitória espacial e social daqueles que incomodavam a ele mesmo.
Enquanto caminhava, percorrendo ao longo de oito horas diárias o circuito de segurança do
Pontão, sua mente não se ocupava somente da vigia oficial que era proposta pela
administração local. Seus olhos pessoais subvertiam os olhos do segurança e, observando o
andar dos passantes, suas feições, roupas e gestos, vigiava-os e julgava-os também de
acordo com seus próprios valores. Criava dentro de si um sistema de vigia sem porrete e
sem voz, mas que partia de um mesmo homem, e que, resignado, mantinha-se calado com
seus próprios incômodos, como se fosse a própria vigia dele sobre ele mesmo que o
mantivesse calado – e de fato o era. Mas, como eu insistia em lhe perguntar sobre o que ele
via, o que ele ouvia, e se havia algo que lhe incomodasse dentro do Pontão, terminou por
ceder diante das minhas perguntas e, carregando no rosto um olhar ligeiramente inquieto,
respondeu enfim.

— “Não dá pra passar tanto tempo parado olhando o movimento sem tentar ouvir
alguma coisa pra passar o tempo. (...) De vez em quando ouço algumas coisas que
me chamam a atenção, pessoas que diziam que não crêem em Deus, etc. Eu, como
evangélico, acho estranho né. (...) O que eu fico é curioso pra tentar entender né,
como é que se pode viver sem acreditar. Eu não sei, queria mesmo entender”.

***

“Celina teria gostado de ficar. Via-se isso nos seus quadris e na boca, era feita
para o tango, nascida para toda a farra. Por isso era necessário que Mauro a
levasse aos bailes, e eu a via transfigurar-se ao entrar, com as primeiras lufadas de
ar quente e dos foles. A esta hora, metido de corpo e alma no Santa Fé, medi a
grandeza de Celina, sua coragem de pagar Mauro com uns anos de cozinha e mate
doce no pátio. Renunciara a seu céu de cabarés, à sua ardente vocação pelo anis e
às valsas crioulas. Como se condenando de propósito, por Mauro e pela vida de
Mauro, só violentando seu mundo para que ele a levasse às vezes à uma festa”
(Trecho do conto ‘As portas do céu’, da obra ‘Bestiário’, de Julio Cortázar).

52
A relação entre Celina e Mauro que Cortázar tão bem cria e descreve, serve bem
para pensarmos o problema de sociabilidades que entram em conflito. Cortázar descreve o
sacrifício que Celina teve que fazer de seu cotidiano no Santa Fé, uma casa noturna da
boemia argentina, como uma renúncia “ao seu céu de cabarés”. Descreve sua facilidade de
adequação ao ambiente como uma “ardente vocação”, e, nas raras vezes em que Mauro
trazia Celina de volta ao Santa Fé, ela era transfigurada pelo ambiente.

Alfred Schutz (1979) descreve as relações de sociabilidade ideais como relações em


que, situados em um contexto devidamente mapeado, dois ou mais atores possam
compreender-se mutuamente, reagindo cada um conforme as expectativas do outro perante
um espaço e tempo compartilhados juntamente com toda a sua dimensão semântica. Neste
sentido, Celina, ao entrar no Santa Fé, parece romper com o mundo de significados que até
então compartilhava com Mauro, para passar a reagir, ou, se preferir, a dialogar com as
expectativas dos outros, que interpretam e se adéquam ao ambiente da mesma maneira que
ela. Quando Cortázar descreve a transfiguração de Celina ao entrar no cabaré, fala
claramente de uma situação em que Celina adapta sua performance (Bauman, 1986)
corporal às expectativas dadas pelo espaço. O corpo então adéqua-se ao espaço como que
para encaixar-se nele, em uma espécie de jogo sofisticado de encaixa-encaixa em que
‘pessoas-triângulo’ podem ou não caber em um ‘espaço-retângulo’. A sociabilidade nesse
sentido poderia ser pensada então como uma espécie de corpo de códigos verbais e
corporais que chegam a manter uma relação quase que totalizante com a expressão
identitária de um indivíduo ou grupo de indivíduos, assim socializados para o tipo de
interação que lhes é proposta. Deste modo, mutilar o ambiente que viabiliza essa auto-
expressão, assim como alterá-lo com a coexistência com outras formas de sociabilidade que
interferem e distorcem o ambiente, pode implicar em notáveis desencaixes entre corpo,
fala, espaço e tempo. Se quisermos, podemos até usar as palavras de Isabel e dizermos que
se perdeu o “clima”. Uma solução, que talvez tornasse até possível o seu restabelecimento,
pode estar em uma adaptação a essas situações de coexistência, fazendo do convívio, da
indiferença, ou da oposição, parte de suas possibilidades de sociabilidade e de expressão
identitária. Celina e Mauro parecem ter negociado esse conflito, e os sacrifícios de Celina
eram compensados, ainda que raramente, quando Celina violava o mundo de Mauro para
que ele a levasse a uma festa.
53
A outra solução possível para esse tipo de conflito é a da polícia da sociabilidade.
Praticada no Pontão, ela retira os insumos de sociabilidades conflitantes, proibindo o
consumo livre do álcool, a prática do sexo nos carros e os carros-de-som, e controla de
perto o uso de insumos alternativos para o conflito, que vão desde o violão até as pernas
dos adolescentes que insistem em correr através do seu calçadão, tropeçando nas pernas que
somente andam. Volto então a junho de 2007, em outro sábado a noite do Pontão. Em geral,
eu estava acostumado a, chegando ao Pontão, descer do estacionamento até o calçadão e
virar-me para o lado esquerdo onde eu acreditava que se concentravam as práticas e usos
mais alternativos do lugar. Era lá que ficava o pierzinho, em geral repleto de jovens casais,
mas também sempre com uma ou outra roda de violão. Era naquele lado também que ficava
o bar-loja da Mormaii, tido como um estabelecimento freqüentado essencialmente por
jovens. Uma vez, conversando com George, 18, estudante do Ensino Médio que tocava
violão com amigos, comentei essa separação entre o que eu pensava ser um lado esquerdo
de calçadão mais ‘jovem’ e um lado direito mais ‘familiar’. George não somente
concordou, como afirmou-me que a separação era tão nítida que, em geral, jamais trazia a
família para o lado esquerdo.

— “Nunca vou com meus pais praquele lado. Aquela parte ali, que tem a Mormaii
e o Bier Fass, eu vou mais quando venho pra cá com amigos mesmo. Se venho com
meus pais, geralmente ficamos mais do outro lado, no Café Antiquário ou no
Bargaço”.

O lado direito era o lado dos restaurantes mais caros, do Bargaço e do antiquário
que ficava dentro do café de mesmo nome. Não se via ali pessoas sentadas no calçadão e a
faixa etária do freqüentador do Pontão parecia crescer radicalmente com cada passo a mais
que era dado em sua direção. Nesse sentido, pode-se dizer talvez até que haja uma certa
preocupação dos tocadores-de-violão e dos conversadores-de-grama-em-voz-alta de evitar
um choque exagerado com os outros usos do espaço, e essa separação, ainda que nunca
estabelecida oficialmente, nem mesmo através de eufemismos verbais, tão comuns nestas
situações, parecia estar instituída de forma tácita, como que fixando uma linha imaginária
divisora de formas de sociabilidade no Pontão. Era ainda uma divisão bastante permeável, e
a presença da cara cervejaria da Bier Fass ao lado da Mormaii favorecia uma ambigüidade

54
um pouco maior na definição de um perfil, ainda que etário, dos freqüentadores do lado
esquerdo.

Assim, se resolvi naquele dia aventurar-me pelo lado direito do calçadão, era muito
mais por pretender tentar conhecer melhor uma face mais, digamos, oficial dos usos do
Pontão, do que buscando encontrar quem a subvertesse. Minha surpresa teve início quando
comecei a ouvir uma música estranha, dessas que parecem vir de lugar nenhum. Com o
ouvido um pouco mais atento, pude distinguir um som de hip hop, que chegava em mim já
um tanto distorcido pela má qualidade das caixas de som. Não era difícil deixar-se
surpreender com aquela música, e para ser sincero, não era um tipo de som que eu
imaginaria ouvir no Pontão um dia. O hip hop em geral se caracteriza como música de
grupos de baixa renda, posicionada politicamente em oposição a grupos sociais de renda
mais alta e a formas de consumo com eles associadas. E independentemente disso, o hip
hop de fato traz consigo um ritmo sonoro mais agressivo, e que destoa profundamente de
qualquer tentativa local de sustentar um ambiente familiar e bucólico, onde casais de
namorados costumam vir, em fins de tarde, para apreciar o pôr de um sol que se deixa
morrer todos os dias dentro do lago Paranoá. Minha curiosidade se atiçou, e enfim, me
aproximei.

A primeira coisa que vi foi um ponto luminoso, iluminando discretamente um dos


raros pedaços de escuridão que os holofotes do Pontão, por displicência ou descuido, tinha
se esquecido de iluminar. Com um olhar mais atento, pude então enfim distinguir alguns
gestos, braços se movendo e, finalmente, perceber vozes que se misturavam com o som
distorcido do hip hop, e se deixavam somar em um único e indistinguível som que juntos,
um disfarçando o outro, pareciam mesmo esconder-se mutuamente, em contraste com o
ponto luminoso, agora já mais claramente uma brasa de cigarro, que os revelava na
escuridão que tanto se esforçava por preservá-los da luz. Me aproximei de vez, e notei que
eram seis. A música vinha de um celular, pequeno, e era controlada por um deles que
estava agachado mais distante de mim. Estavam em sua maioria sentados no gramado que
ficava além do calçadão, reclinados sobre algumas das árvores que serviam para compor o
aspecto bucólico exótico da vegetação do pólo 10. Me apresentei e pedi para que se
apresentassem. Pareciam estar um tanto que constrangidos com a minha presença e

55
mantiveram-se quase todos entretidos em sua própria conversa com a exceção de Joca, 17,
que por alguma razão levantou-se e resolveu que tinha que me dar uma atenção maior que
os demais. Contou-me – como já disse alguns capítulos atrás – que vieram ao Pontão atrás
de festas, que achavam que o lugar era uma espécie de clube como a Asbac, que ficava por
ali perto. Frustrados, sentaram-se e se deixaram levar, conversando por algumas horas, mas
já estavam decididos que não iam terminar a noite ali e já tinham planos de seguir mais
tarde para uma boate em Taguatinga. Olhei novamente para os outros que continuavam
sentados. Agora estavam calados, e sua discrição parecia ocultá-los ainda mais na escuridão
que os envolvia. Suas vozes já não encobriam mais o hip hop, nem o hip hop encobria mais
suas vozes. A música agora se misturava somente com o resto do Pontão, passava por cima
das músicas lentas e quase implícitas de tão suaves e que saíam do restaurante do Bargaço,
o que tornava o contraste ainda mais nítido, como se fosse uma trilha sonora mal escolhida
para um filme de Pontão. Joca, assim como alguns de seus amigos, vestia uma camisa que
trazia estampada o nome de uma banda de hip hop, calças jeans desfiadas e apertadas com
um cinto adornado com rebites prateados, caracterizando um estilo e uma identidade
claramente definidos do grupo, e que se associava diretamente àquele tipo de música, que o
celular de um deles denunciava, como que desafiando de forma até provocante o ambiente
contrastante que os rodeava, violentando o mundo de alguns dos passantes do calçadão. No
fundo, talvez até com alguma pretensão de recriar ali, debaixo daquelas árvores sombrias,
no frio de uma noite de junho brasiliense, algo equivalente ao “céu de cabarés” de Celina.

Todos os seis vinham de longe. Eram três homens e três mulheres, todos entre 17 e
18 anos. Joca e mais dois do grupo moravam na Candangolândia. Os outros três vinham do
Núcleo Bandeirante, ambas regiões de renda média do Distrito Federal. Joca dizia gostar do
lugar, que ele próprio considerava como sendo uma espécie de “portal de Brasília”,
bonito, bom para conversar com os amigos. Admito que fiquei surpreso e resolvi provocá-
los. Perguntei ao Joca se não havia algo, qualquer coisa, que o incomodasse no Pontão.
Subitamente, a conversa pareceu ganhar um novo tom.

— “Não nos sentimos à vontade com a segurança. Já vieram falar com a gente
umas três vezes, perguntar o quê que a gente tava fazendo. Pôxa, brincadeira!”
(Trecho de conversa com Joca, 17. Junho, 2007).

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Everaldo, que até então permanecera calado, alheio àquilo do que falávamos,
pareceu sentir-se repentinamente obrigado a participar da conversa e, como que para ajudar
o amigo, completou:

— “Essa segurança devia ser menos irritante. Eles vêem as pessoas com diferença.
Nunca vi isso! Ficam olhando pra cá o tempo todo, como se a gente fosse alguma
coisa estranha, diferente” (Trecho de conversa com Everaldo, 18. Junho, 2007).

A segurança do Pontão provavelmente havia notado naquela cena os mesmos


contrastes que eu. Viam nos recursos visuais e sonoros contrastantes que aquele grupo
utilizava para apresentarem sua própria identidade, uma ameaça de conflito com a
sociabilidade local. Joca e seus amigos talvez até soubessem disso desde o princípio e,
tentando forjar um espaço mais privado dentro de um espaço oficialmente público,
escolheram para se sentar um dos pontos menos iluminados de todo o Pontão. Aliás, não
fosse a música e a brasa do cigarro, que abria as fronteiras entre o privado e o público com
um único ponto de luz que o cigarro não pôde evitar, e provavelmente teriam passado
despercebidos. Mas é justamente a escuridão, ou melhor, a tentativa de utilizá-la como
muros para existir e coexistir de forma alternativa, como quem tenta fugir de olhares
incomodados – e evitar que conversas alheias sejam interrompidas para que os olhares se
incomodem com a presença de um grupo que certamente causaria estranhamento a muitos
que por ali passavam se dessem por sua presença –, é justamente essa escuridão que os
denuncia para a polícia da sociabilidade. Incapaz de compreender com segurança toda
verbalização simbólica que exalava de seus sons e imagens, de compreender com segurança
as árvores e as sombras que os envolviam, e incapaz enfim de compreender a brasa do
cigarro que poderia muito bem ser brasa de outra coisa, os vigias resolvem abordá-los.
Advertem-nos, não uma, mas três vezes, com três seguranças diferentes que tiveram o
mesmo comportamento diante da mesma cena. A música insistia em subverter o ambiente,
e os chiados e ruídos provocados pelo som de baixa qualidade do celular pareciam até fazer
parte desse projeto de subversão. Quando perguntei ao Joca sobre a música, ele me
respondeu como eu imaginava:

57
— “Ah, a música é importante pra animar né. Aqui não tem música” (Trecho de
conversa com Joca, 17. Junho, 2007).

Outros que provavelmente passavam por perto na mesma hora, entretidos com a
bela paisagem noturna do lago Paranoá que admiravam, possivelmente sentiram-se
incomodados. Buscando como tantos outros a tranqüilidade bucólica do Pontão como
forma de fuga – para usar os termos de Georg Simmel – da vida mental da metrópole
(1967) e seus ruídos visuais e sociais que estimulam a mente até a exaustão, viam o Pontão
como espécie de ilha bucólica em meio ao frenesi urbano, cercada por muros que
continham do outro lado todos os tipos de barulhos e chiados da cidade. O pontão era para
eles, como cheguei a ouvir um amigo falar uma vez, e em sentido não tão figurativo quanto
pode parecer, uma espécie de “pôr-do-sol entre muros”. Mas essas mesmas pessoas,
admiradores de vegetações bucólicas e de composições visuais que se formam ao longo do
firmamento em fins de tarde, sentiam também que alguns desses ruídos ainda escapavam,
se esgueiravam através dos muros e se escondiam debaixo de árvores sombrias.
Entorpeciam o ambiente, e distorciam o bucólico.

Sobre os vigias que os abordaram, perguntei ao Joca e ao Everaldo ainda sobre o


que eles lhes tinham perguntado. Ao cabo de alguns momentos, entreolharam-se e, enfim,
me responderam:

— “Ah, essa já é uma pergunta muito pessoal” (Trecho de conversa com Joca, 17.
Junho, 2007).

***

“Reinaugurado há cerca de 15 dias, o Pontão oferece uma das melhores vistas da


cidade – agora, com infra-estrutura. Segurança, muitas vagas de estacionamento,
banheiros limpos e quiosques para comprar petiscos ou refrigerante são a garantia
de que nada vai faltar durante o seu passeio. O lugar tem atraído muitos turistas. O
clima é de praia e as opções de diversão vão desde uma caminhada à beira do lago
até um papo com amigos regado a água de coco (...)” (Trecho do artigo de Tatiane
Freire para o Correio Braziliense, 17 de setembro de 2000).

58
Ainda que com suas variações, já que as palavras, mesmo que com sentidos
semelhantes, sempre variam quando passam de boca para boca, a idéia de Pontão como
uma bela paisagem com infra-estrutura foi uma das que mais li e ouvi, tanto em conversas
com seus freqüentadores, quanto em reportagens de jornal. Perguntados sobre aquilo que
mais os atraía no Pontão, eram raras as respostas que fugiam do padrão “pôr-do-sol”,
“paisagem” e “céu estrelado”, com as poucas exceções do muito apreciado açaí de um de
seus bares e, claro, da segurança.

Ilha verde cercada de asfalto por todos os lados, o Pontão encaixa-se com alguma
facilidade em uma gramática razoavelmente geral que compreende pedaços de vegetação e
beira-de-lago como espaço adequado para uma forma bastante específica de sociabilidade,
associada a ideais de bucolismo. Seja ele um bucolismo de segundo plano, de caráter
decorativo para o ambiente, seja um bucolismo de primeiro plano, razão da visita ao
Pontão, trata-se de uma proposta clara de uso do espaço, indissociável do tipo de ambiente
que ele proporciona.

Enquanto prática ou ideologia, o bucolismo traz consigo ideais de purificação de um


espaço urbano sujo, é o espaço saudável em contraste com o ambiente insalubre da
poluição industrial e rodoviária, e serve de esconderijo da calma e do silêncio, indefesos
contra os sons sobrepostos e descontrolados de sirenes e buzinas. Neste sentido, o Pontão
contrasta com outros lugares parecidos, como as pedras portuguesas do Complexo Brasília
Palace Hotel, pólo 8 do Projeto Orla, onde a grama mal cuidada virou mato, e o mato virou
sinal de descuido. Muito mais do que isso, o Pontão destoa de um bucólico natural, como o
do Parque Nacional ou de regiões campestres em geral. O Pontão é uma simulação do
bucólico, e realiza essa simulação desde a sua vegetação exótica, que, talvez até por seu
exotismo, como se uma árvore natural do cerrado não fosse ser notada enquanto árvore,
sirva como marca para enfatizar a proposta bucólica do lugar – o que não acho pouco
provável; lembro-me de um amigo que uma vez disse-me, conversando sobre Brasília e o
Parque Nacional da cidade, que até gostava de parques, mas que “convenhamos, cerrado
não é parque, é reserva ecológica!”. A idéia, como diria Zygmunt Bauman (2001) falando
sobre shopping centers, é de criar um ambiente selvagem, no sentido da capacidade do
lugar de fabricar o surpreendente ou o belo, mas também de um selvagem purificado e

59
higienizado, onde o estranho e o exótico estão sob controle e podem ser vistos de perto e
até tocados. No caso, Bauman falava de shopping centers, mas creio que a analogia valha
também para o bucolismo do Pontão. No caso, o que está sendo vendido, porém, mais do
que o espetáculo e o surpreendente, é a calma, devidamente filtrada e purificada, cercada de
muros que controlam a entrada de um oceano de urbanidade brasiliense – cujas ondas
sobem à praia na forma do estacionamento de carros, devidamente escondidos do lago e das
árvores pelos fundos dos bares e restaurantes, que os isolam do calçadão –, e de vigias que
controlam os ruídos e os movimentos dos seres humanos que o muro não é capaz de
segurar.

A calma e tranqüilidade no bucolismo se transformam quase que em uma


instituição, capaz de se desfazer com o primeiro sopro ou ao primeiro vento. Me lembro de
estar uma vez observando um jovem que estava sentado à beira do lago. Tinha os olhos
fixos sobre o Paranoá e já não movia o corpo há alguns minutos. Eu, querendo abordá-lo,
sentia-me como se estivesse prestes a profanar um ambiente incrivelmente delicado, como
se o meu chamar fosse ser responsável por transportá-lo inesperadamente de um mundo,
talvez melhor, para outro, talvez pior. Esperei então que se movesse, como se isso fosse um
sinal de que ele ainda pertencia a este mundo – pensando agora, era como se o movimento,
por menor que fosse, estivesse sempre associado a uma ruptura com o mundo do bucólico,
cuja ascese estaria na paralisia total, o não-movimento –, para então enfim aproximar-me.
Cadu tinha 26 anos e era professor de música. Contemplava as águas do lago Paranoá
enquanto esperava pela namorada. Não se sentia muito à vontade no Pontão, mas dizia,
como tantos outros, que a falta de opções de lazer de Brasília o trazia para lá.

— “Vim para cá de bobeira mesmo. Olhando o lago, viajando, pensando na vida”


(Trecho de conversa com Cadu, 26, morador do Lago Sul. Maio, 2007).

Cadu usava o espaço do Pontão para viajar e pensar na vida. O bucólico, enquanto
ambiente construído, pode ser pensado também como um não-espaço, uma espécie de
mundo silenciado para que a mente possa dele se ausentar e focar-se – ou até refugiar-se –
em si própria. Nesse caso, falar em bucolismo como proposta de sociabilidade é quase uma
contradição, a não ser que estejamos falando de uma sociabilidade de si para si próprio. Um

60
bucólico ideal, do qual Cadu parece ter se aproximado em alguns momentos,
provavelmente faria boa analogia com a imagem do ermitão, isolado e ausente do mundo,
fechado em sua própria bolha quase impermeável de existência. Mas o ermitão do Pontão
não está no topo de uma montanha, isolado da presença humana em um raio de cinqüenta
quilômetros – aliás, poderia estar até na Ermida Dom Bosco, pólo 11 do Projeto Orla e,
enquanto ermida, espaço par excellence do ermitão. Ao contrário, ele está rodeado de
pessoas que se comportam de forma certamente menos previsível do que as ondas que o
vento faz nas águas do lago e nas folhas das árvores. Essa imprevisibilidade, a polícia de
sociabilidade controla em parte, com sua presença conspícua e com suas atuações também
explícitas. Um ermitão mais exigente, porém, provavelmente não iria ficar satisfeito com
tão pouco. Exigiria algo mais, algo como uma vigia do espetáculo, ou quiçá até uma polícia
do movimento. Mas não creio que iremos tão longe.

VI – O jogo das cadeiras.

“— Tusa — ordenou Rengo. — Agora tusa e caricatusa. Ponha-o.


Larrañaga não entendia, mas Fiori mostrou-o para Kurchin com um gesto seco e o
baixinho puxou-o pelo cabelo obrigando-o a agachar-se cada vez mais, os outros já

61
iam formando uma fila, as mulheres com gritinhos e arregaçando as saias, o
primeiro era Perrone e depois o professor Iriarte, (...) uma fila que ia até o fundo
do salão e Larrañaga subjugando Kurchin arqueado como um porquinho, saltavam
em ordem mas gritando “Tusa!”, gritando “Caricatusa!” cada vez que passavam
por cima de Kurchin e refaziam a fila do outro lado, davam a volta no salão e
começavam de novo, Nito quase no final pulando da maneira mais leve que podia
para não esmagar Kurchin, depois Macías deixando-se cair como um saco,
ouvindo Rengo que gritava “Pular e bater!”, e toda a fila passou novamente por
cima de Kurchin, mas agora procurando chutá-lo e bater-lhe enquanto pulavam.”
(Trecho do conto ‘A escola de noite”, da obra ‘Fora de Hora’, de Julio Cortázar,
1982).

Nito e Toto são os dois personagens centrais do conto do escritor argentino Julio
Cortázar. Obcecados com a idéia de conhecerem sua própria escola durante as misteriosas
horas da noite, decidem um dia enfim pular os seus muros e começar a explorar seus
corredores e salas escuras e vazias. Subitamente, se deparam com uma luz acesa e um ruído
de música, e sua aventura ganha cores completamente novas quando repentinamente se
vêem infiltrados dentro de uma violenta cerimônia festiva que envolvia vários alunos,
professores e funcionários conhecidos de sua escola, entre eles, Rengo, o diretor autoritário.
Nessa última cena que descrevi, Rengo ordena com as palavras de ordem ‘tusa’ e
‘caricatusa’ que os presentes dêem início a um violento jogo de ‘pular e bater’ em Kurchin,
um dos membros do grupo, escolhido como vítima para o ritual.

O evento presenciado por Nito e Toto na surpreendente noite de uma escola normal
dos anos 30 de Buenos Aires deixou-os com pouca capacidade de ação. Viam-se em um
espaço que tinha suas próprias regras de interação estabelecidas de forma bastante rígida.
Usavam roupas completamente diferentes dos demais que se fantasiavam com maquiagens
grosseiras enquanto boa parte dos homens vestia-se com roupas e perucas femininas. As
formas de sociabilidade locais contrastavam em demasia com aquelas com as quais estavam
habituados, e em meio a um grupo que parecia quase tão coeso quanto um exército,
poderiam facilmente denunciar-se através de gestos ou performances fora de lugar.

62
Esse tipo de forma de interação social descrito por Cortázar, repleto de
características de instituição total (Goffman, 2005), possui entre tantos atributos bastante
peculiares, um que, especificamente, me chama a atenção. Como qualquer evento social,
com suas regras de conduta e expectativas de comportamento, a festa da escola de noite
possui seu próprio clima. Contudo, com a grande cumplicidade que se estabelece para a
realização de um evento de códigos tão estranhos à normalidade de Nito e Toto e que,
como diz Toto em um momento, “naturalmente, não podia estar acontecendo” (Cortázar,
1982), entretanto acontecia e era graças a essa cumplicidade, esse conhecimento profundo e
generalizado das regras, cujo descumprimento seria facilmente denunciável justamente
devido a essa mesma cumplicidade, que faz de todos os que dela fazem parte como que
vigias em potencial, policiais da própria sociabilidade.

Erving Goffman (1982), falando sobre rituais de interação, faz uma abordagem
bastante interessante para essa discussão da vigia da sociabilidade ao falar em jogos de
salvação de face (face-saving game). Tentando resguardar a delicadeza ritual dos
participantes de uma roda de conversas, os membros integrantes do círculo de interações
tenderiam a agir de forma cúmplice, comunicando por debaixo dos panos ou através de
estratégias sutis de socialização as formas devidas de relacionamento com o grupo, as
performances permitidas de interação assim como aquelas que são interditadas. Seriam
professores tácitos ou juízes delicados – ou nem tanto – do outro, perdoando ou
sancionando suas falhas rituais. Na festa noturna descoberta por Nito e Toto, contudo, a
pressuposição de um pleno conhecimento das regras por todos – posto que isso deveria ser
provavelmente condição para a própria aceitação de si no grupo, que parecia ser bastante
restrito – tornava esse tipo de parceria e de misericórdia interacionais pouco ou nada
aceitáveis, aumentando a rigidez ritual da interação que castigava desvios com olhares
desagradáveis – no mínimo –, como se nota em uma das cenas seguintes do conto, cujo uso
figurado de vocabulário militar não deixa de ser bastante apropriado:

“(...) depois uma ordem seca e todos começaram a se formar em quadro, de quatro
em quatro, as mulheres atrás e Raguzzi como adail do pelotão, olhando furioso
para Nito, que custava em achar um lugar qualquer na segunda fila” (Cortázar,
1982. Destaque meu).

63
Tudo isso me traz enfim de volta ao Pontão. Ainda que se trate de um tipo de espaço
público, o Pontão não é exatamente o que se possa chamar de espaço político (Arendt,
1998), onde exista uma relação face-a-face e a diferença, exposta, seja sistematicamente
negociada. Não, no Pontão, as pessoas não se conhecem. Isoladas em suas próprias rodas de
conversa ou na solidão da apreciação bucólica, o maior laço que possuem com as outras
pessoas que freqüentam o espaço é justamente o compartilhamento do próprio espaço e as
necessidades de negociação anti-colisões que disso decorrem15. De fato, não possuem
compromissos significativos com a salvação de faces alheias, e tampouco com a vigia de
sua sociabilidade. Suas estratégias de resposta aos incômodos que sentem tendem a se
voltar para a própria roda, onde não raramente desfilam juízos de valor sobre o que vêem
sem qualquer compromisso político com aqueles que se encontram de fora de sua bolha
social. Assim, Régis sente-se a vontade para verbalizar suas críticas da ‘molecadinha’ que
‘ficava bagunçando’ entre os seus ou comigo, mas provavelmente não o fez com a própria
‘molecadinha’ que, afinal, não conhece. Vou voltar a tocar nesse ponto mais tarde. Por ora,
o que fica é a relativa, digamos, “tolerância” dos freqüentadores de um espaço como o do
Pontão perante aquilo que subverte sua noção pessoal de ordem. Afinal, ao contrário dos
personagens de Cortázar na noite escolar, que sabem poder confiar no rigoroso controle de
acesso imposto por suas portas – que Nito e Toto só subvertem por desavisadamente pular
os seus muros em uma ingênua aventura adolescente – e que por isso sentem-se capazes de
dizer, como que com a autoridade de um uníssono imaginário, o que é e quem é que
subverte suas regras, os “membros” da “comunidade” efêmera e volátil do Pontão
provavelmente já não se sentem tão seguros assim de ter em seu muro de ‘arco romano’ um
dique tão rigoroso para conter noções diferentes de comportamento adequado.

Em um momento marcante do conto de Cortázar, os amigos Nito e Toto são


enviados por um corredor ao cabo do qual se deparam com duas portas. Desnorteados, cada
um deles acaba optando por uma porta diferente, e eles se separam. A porta de Nito o leva
de volta a festa, faz com que ele passe por rituais de iniciação e, enfim, sem ter por onde ir
e observado por todos os lados, leva-o a optar por uma adesão plena ao ritual. Já a porta de

15
Além, é claro, dos contatos que podem vir a ser necessários com os funcionários dos estabelecimentos
locais, mas que se dão de forma hierarquizada e muito mais interrompem as relações de sociabilidade dos
grupos que freqüentam o Pontão do que fazem parte delas, de modo que não foram parte do foco das minhas
pesquisas de campo.

64
Toto o leva a uma sala escura que, mais tarde, de uma forma ou de outra, acaba por levá-lo
a possibilidade de fuga, e de rejeição plena do ritual. A bifurcação que depois viria a
separar Nito e Toto para o resto de suas vidas é simbólica de uma falta de opções com a
qual, juntos, se depararam. Vigiados por um ‘clima’ totalizante, não havia meio termo. O
paralelo é bom para pensarmos no tipo de interação e de controle que se dá no Pontão. Lá,
ao contrário, a subversão de qualquer proposta oficial de ‘clima’, ainda que possa não ser
incentivada ou bem vista, se transforma em alternativa possível de uso do espaço.
Disfarçada em meio a uma multidão de pequenas diferenças e apostando na insignificância
de uma diferença ligeiramente mais notável que outras, a subversão pode ser confundida
com diferença ou mesmo instaurar outra diferença possível entre tantas, incorporando-se a
uma abstrata coleção de expectativas de uso do Pontão. Assim se tornaram possíveis as
rodas de violão no gramado do Pontão, e assim também tornou-se possível a aceitação do
Gérson perante a mesma ‘molecadinha’ que tanto incomodava o Régis alguns minutos
antes.

Essa terceira porta da subversão, contudo, se por um lado se torna possível por ser
capaz de disfarçar-se de diferença em meio a tantas outras perante uma multidão de
freqüentadores isolados, desprovidos de grandes acordos políticos sobre o uso do lugar e
assim de qualquer autoridade significativa para a repressão unilateral daquilo que perturbe
seu próprio ‘clima’ – claro que em casos extremos, por exemplo, se alguém fosse morto, é
possível prevermos que haveria uma reação generalizada, alguns fugindo e outros
enfrentando o criminoso, com a certeza de se tratar, de fato, de uma subversão do uso do
espaço –, mas por outro lado, é como se esse papel de controle, por todas essas razões e
pela volatilidade da comunidade local, fosse transferido, conscientemente ou não, para o
único resíduo de comunidade fixa que resta ao pólo 10, ou seja, seus funcionários e,
principalmente, seus vigias. Dá-se em um microcosmos do Pontão mais ou menos o mesmo
tipo de transferência de poderes que se dá no mundo fora dele em relação ao poder policial
e ao Estado como um todo, e não nego que este hábito de concessão, como diria Norbert
Elias (1994), de um monopólio da violência para o Estado, ultrapasse as fronteiras do
Pontão, que o mantém por comodidade e por costume. Contudo, por hábito ou não, o que
ocorre aqui não é apenas uma transferência redundante. Trata-se de uma segunda
transferência, que se sobrepõe à primeira. A vigia da violência, que justifica sua própria
65
existência com um discurso de violência especializada e competente perante uma
população civil leiga e inapta, acaba por ganhar dentro do Pontão um novo braço: a vigia
do ‘clima’. Fica a pergunta. Se antes para a polícia estatal foi transferida a violência, o que
é, afinal, que foi transferido agora? Em relação a quê essas pessoas não estão aptas agora?

Procurando por uma bibliografia que trate do assunto, não é difícil encontrar
exemplos das mais diversas manifestações possíveis de espaço público ao redor do planeta.
Alguns são espaços públicos que privilegiam um encontro político da diferença. Outros são
espaços públicos destinados ao comércio e ao consumo, e que obstruem o político. Alguns
facilitam um encontro quase que aleatório de uma diferença que acaba se vendo forçada a
se comunicar devido às circunstâncias, e outros são praticamente não-encontros, de pessoas
que simplesmente transitam tentando não se trombarem umas com as outras.

Em seu ensaio sobre a Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman (2001) cita a praça
de La Défense em Paris como um exemplo de espaço público de não-permanência. Aliás,
mais do que isso:

“O que chama a atenção do visitante de La Défense é antes e acima de tudo a falta


de hospitalidade da praça: tudo o que se vê inspira respeito e ao mesmo tempo
desencoraja a permanência. Os edifícios fantásticos que circundam a praça enorme
e vazia são para serem admirados, e não visitados; cobertos de cima a baixo de
vidro refletivo, parecem não ter janelas ou portas que se abram na direção da
praça; engenhosamente dão as costas à praça diante da qual se erguem. São
imponentes e inacessíveis aos olhos – imponentes porque inacessíveis, essas duas
qualidades que se complementam e reforçam mutuamente (...). Nada alivia ou
interrompe o uniforme e monótono vazio da praça. Não há bancos para descansar,
nem árvores sob cuja sombra esconder-se do sol escaldante (Bauman, 2001).

A falta de hospitalidade de La Défense incentiva a efemeridade de seu público que,


sem ter onde entrar ou lugar para parar e contemplar o espaço, concebido como um dos
grandes monumentos parisienses do século XX, simplesmente segue em frente até o
próximo espaço em que ele se sinta a vontade ou tenha razões para enfim parar e fazer
alguma coisa. La Défense, contudo, ainda se esforça para ser sutil, e delicadamente convida
66
os seus passantes a se retirarem sem precisar dizê-lo explicitamente. Casos mais duros vão
aparecer, por exemplo, na São Paulo de fins do século XIX, tal como ilustrada por Fraya
Frehse (2005), cenário de embates intensos entre o rural e o urbano – e que se travestiam de
embates entre o civilizado e o não-civilizado – e que reprimia a transformação das ruas em
palco de festas populares como meio de satisfazer a demandas por uma “circulação
saudável do transeunte”. Heitor Frúgoli Jr., comentando o texto de Frehse, continua a
descrição das ruas da São Paulo da época.

“Se é possível dizer que posteriormente boa parte dessa tradição de festas
populares nas ruas paulistanas veio a ser eclipsada por medidas de controle como
essas, o mesmo não se pode afirmar com relação ao comércio ambulante (...).
Nesse caso, são nítidos os conflitos ligados às oposições entre o "circular" (dos
transeuntes) e o "permanecer" (dos vendedores de rua como quitandeiras,
tropeiros, carreiros etc.), datando de 1867 a primeira tentativa de reorganizá-los
territorialmente (tentou-se confiná-los na "Praça do Mercado", atual praça
Fernando Costa), com taxação de impostos e controle sobre os produtos, cujo
efeito foi quase nulo (...). Nesse e em outros casos, as queixas pedem a prática de
uma fiscalização, sempre inoperante (em parte pela dimensão das próprias
solicitações), o que antecipa outro tema, como se sabe, de forte permanência até os
dias de hoje” (Frúgoli Jr., 2005).

Em ambos os casos, a idéia de uma “circulação saudável do transeunte” pressupõe


uma concepção bastante específica de como a rua deveria ser usada, uma rua que teve seu
público bastante transformado ao longo do século, com o êxodo rural e a chegada de navios
repletos de imigrantes europeus (Frehse, 2005). De repente, a rua, espaço público por
excelência, antes intocável, agora já não era mais tão pública assim. Aliás, alguém mais
inspirado já diria que sim, que todas as ruas eram públicas, mas algumas ruas eram mais
públicas do que as outras.

Permanecer ou circular vai além do mero movimento. Permanecer em um lugar é


tornar-se parte de sua paisagem, como quem se transforma em objeto que se pendura em
uma parede e ajuda a compor um ambiente tornando-o mais ou menos agradável. O

67
comércio ambulante das ruas de São Paulo de fins do Império, assim como algumas de suas
festas populares e outros representantes do que era chamado de uso ‘não saudável’
claramente eram vistos por uma elite local como uma forma de poluição visual a ser
combatida. A solução era tirá-los de lá ou fazê-los se mexer. Parado ninguém fica.

Parar também é a possibilidade do perceber, o qual por sua vez está a poucos passos
do querer fazer algo com aquilo que se percebe, e então, observar e talvez até querer se
comunicar. Para aquele que permanece, uma multidão em movimento já não é mais
necessariamente uma profusão absurda de obstáculos para a sua própria grande marcha
individual. Passa a ser, ao contrário, uma multidão de pessoas que, como ele, podem
também parar, ouvir e serem ouvidas. Para quem abandona o movimento e opta por deter-
se, descobre na rua um espaço privilegiado para a fala, para o encontro com o diferente e
para a possibilidade do político. Gilberto Velho descreve uma situação de rua no Rio de
Janeiro do fim da década de 70 que serve bem para ilustrar este contraste.

“Estava caminhando em direção a Ipanema. Notei um ajuntamento de pessoas. A


primeira hipótese foi de algum acidente ou de alguém passando mal. À medida que
fui me aproximando, o ajuntamento começou a tomar forma. Notei uma espécie de
fila sendo organizada. No seu início, vi um senhor negro, forte, de uns sessenta e
poucos anos, cabeça branca, com trajes modestos, sentado em um pequeno banco.
Naquele momento, a fila tinha entre quinze e vinte pessoas, homens e mulheres,
jovens, pessoas de meia-idade e mais velhas, brancos, negros e pardos. Procurei
me informar. Um soldado da polícia-militar ajudava a organizar a fila. Entabulei
conversação com um senhor de terno, quarentão. Na sua frente estavam duas
empregadas domésticas. Vi senhoras de “classe média” vestidas com um certo
apuro, funcionários de um banco que encerrava o expediente, motoristas e
trocadores de um ônibus próximo (...). Com o que vi, e com as informações obtidas,
rapidamente, ficou delineado o que estava se passando. O senhor, foco das
atenções, estava caminhando só e, aparentemente sem maiores preâmbulos, teria
incorporado um “preto-velho” (Velho. 1994).

68
Trata-se talvez de um caso extremo, de um senhor que interrompe o seu trânsito
cotidiano pela Av. Nossa Senhora de Copacabana para incorporar um preto-velho e assim,
em meio a uma multidão, repentinamente criar um acontecimento político. O espaço que
até pouco antes não era mais do que espaço de circulação, tornava-se de súbito, se não para
todos, ao menos para muitos, em espaço de permanência. Vozes se faziam ouvir e se
escutavam, pessoas oriundas das mais distintas classes sociais se aglomeravam em torno de
um mesmo fim e, com o reconhecimento de uma sólida plataforma fundante de seus
interesses comuns, viam-se capazes – e em alguns casos até mesmo na obrigação – de
interagirem, trocarem informações e negociarem diferenças, com a segurança daqueles que
se sentem parte de uma fraternidade A fraternidade daqueles que pararam. Acho até que se
pode distinguir uma certa dicotomia, ao longo de todos esses casos que descrevi. Em todos
eles, a circulação de pessoas parece manifestar-se como forma típica de interação entre
estranhos. Permanecer seria para os conhecidos e os desestranhados. Em Nossa Senhora de
Copacabana, o preto-velho rompe a barreira do blasé (Simmel, 1983) dos transeuntes e faz
subir à tona um ponto em comum em meio a uma horda de desconhecidos. Cria, como no
conto do Cortázar, uma bifurcação, e com ela, a necessidade de uma tomada de decisão.
Circular ou permanecer. Parar ou seguir em frente. Adesão ou fuga. Sem erguer muros, o
senhor que incorpora o preto-velho cria uma forma alternativa de interação – ou nem
alternativa, já que é difícil chamar-se o trânsito de interação – sem contudo evitar que
outras possibilidades de uso da rua sejam preservadas. O policial militar ajuda a organizar a
fila. Não toma partido de uma forma de sociabilidade. Ao contrário, tenta tornar possível a
sua coexistência, e se transforma em intermediário em uma negociação do espaço. Na
realidade, o papel de controle da sociabilidade criada pelo preto-velho coube somente a
alguns senhores que ali também estavam, e que o fizeram com a legitimidade de
especialistas no tipo de ritual proposto, como narra Velho:

“A fila aumentou. Muitos curiosos foram se aproximando. A essa altura, duas


senhoras e um senhor estavam desempenhando o papel de “filhos-de-santo”, fiéis
mais graduados que assistiam à entidade e organizavam a situação. Definiam seus
contornos e limites” (Velho, 1994).

69
Atuando como filhos-de-santo, esses fiéis definiam e negociavam as fronteiras de
performance para aqueles que estavam ao redor. Era uma comunidade efêmera, mas que
havia se criado com os mesmos membros com os quais iria se separar. E se era efêmera,
mantinha laços com uma comunidade imaginada (Anderson, 1989) maior, que era a dos
adeptos, religiosos e simpatizantes da umbanda. Coisa que não ocorre no Pontão. Em Nossa
Senhora de Copacabana, o controle parte dos próprios membros da comunidade que se
forma. É parte integrante do tipo de sociabilidade sugerida e se legitima com a qualidade de
conhecedores das formas adequadas de interação para uma consulta apropriada ao preto-
velho. A polícia da sociabilidade do Pontão não é delegada pelos membros de sua
comunidade de freqüentadores. Se legitimam com o monopólio da violência, e vigiam de
acordo com as expectativas que possuem do que sejam as expectativas de quem o
freqüenta.

Ao cabo de uma hora de consulta, os tais filhos-de-santo a dão por encerrada. O


senhor que incorporara o preto-velho deixa o transe e, após ser amparado por quem estava
por perto, se recompõe, entra em um ônibus, e vai embora sozinho. A fila enfim se desfaz e
a circulação volta a prevalecer sobre a permanência. Chegava ao fim a fraternidade dos
parados que, misturados novamente a multidão, agora poucos saberiam se reconhecer
novamente e se dizer quem eram. Retomavam, afinal, suas respectivas e tão diversas
trajetórias. Tão diversas, ao menos, quanto podem ser as trajetórias individuais dentro de
uma rua ou avenida, onde cada faixa de pedestre atravessada e cada porta em que se bate
pode representar uma discrepância tão grande de biografias e projetos individuais. A rua, se
é espaço público, é também espaço de trânsito por excelência. O Pontão, ao contrário, é
espaço de permanência. Como o espaço de consumo que representa, manifesta-se como
ponto de convergência de projetos que inesperadamente se cruzam, e qualquer conhecido
que ali se encontrar sem que se houvesse antecipado o encontro não hesitará em exclamar,
“ora, vejam só, que coincidência”. Ali, as trajetórias mais variadas – ou às vezes nem tão
variadas assim, dependendo do ponto de vista ou da biografia que se olha – se encontram e
se vêem e se reconhecem como sendo parte, ainda que de forma efêmera, de um mesmo
algo. Entretanto, na rua ou no Pontão, continuam sendo trajetórias e projetos individuais
ou de grupos (Velho, 1997), e o mais provável é que não se misturem. De acordo com a
socióloga Liisa Uusitalo:
70
“(...) os consumidores freqüentemente compartilham espaços físicos de consumo,
como salas de concertos ou exibições, pontos turísticos, áreas de esportes,
shopping centers e cafés, sem ter qualquer interação social real” (Uusitalo, 1998).

O Pontão, como a rua, não é mais do que um ponto de convergência ao longo de


intermináveis trajetórias individuais que pouco se confundem ou muito menos se
comunicam devido a essa aparente confusão existencial que o fato pode querer denotar. Em
ambos, se houver interação, será com acompanhantes previamente selecionados e, de
preferência, adequados e já iniciados no tipo de sociabilidade que o grupo propõe, dentro de
um campo de possibilidades (Velho, 1997) maior dado pelo espaço. E para tanto, espera-se
que o resto dos que ali estão, seus colegas momentâneos de trajetória, não interfira.
Formam-se como que bolhas de sociabilidade, como se fossem pequenos muros dentro de
um muro maior, como a das polêmicas pilastras romanos do Pontão. Tudo o que não há de
comunidade e de político (Arendt, 1998) em um espaço como o do Pontão do Lago Sul,
existe dentro dessas bolhas. Ali há a possibilidade de comunicação, de reconhecimento do
outro, relação face-a-face, cumplicidade, conflito e negociação de diferenças. O clima
ganha formas mais rígidas, enquadrando-se mais ou menos no esquema atmosférico maior
proposto pelo espaço. Das interferências ambientais possíveis, aquela que fura essas bolhas
sociais – que também são bolhas políticas – são provavelmente as mais delicadas. Na
posição de etnógrafo, senti isso de forma bastante clara. Minha obrigação não era outra
senão a de furar bolhas, e algumas vezes era nítido o incômodo que o ato provocava. O
Régis que tinha se incomodado com a molecadinha fez o possível para evitar um maior
prolongamento da conversa. Caminhava para o carro com a esposa e um casal de amigos e
em momento algum se deteve no caminho enquanto conversava comigo. Rejeitava qualquer
idéia de pertencimento à fraternidade dos parados a qual eu o convidava a participar, ainda
que somente por alguns instantes. Houve até quem dissesse explicitamente que era hora de
terminar a conversa e fosse embora sem maiores cerimônias, como em um caso que
descreverei mais adiante. Havia claramente uma expectativa de não-interferência na maior
parte dos freqüentadores do Pontão, como se houvesse uma espécie de acordo tácito, um
cessar-fogo ou cessar-verbo implícito para que palavras perdidas não fossem parar em
bolhas alheias. Minhas primeiras tentativas de abordagem eram quase sempre ignoradas.
Não que as pessoas não me ouvissem. É simplesmente que a abordagem de um estranho
71
naquele espaço era algo demasiadamente inusitado, e se tinham a impressão de estarem
sendo chamados, preferiam não lhe dar muito crédito. Ao menos, até que fosse feita uma
segunda ou terceira chamada.

***

Quando Frehse (2005) fala das transformações dos espaços públicos paulistas do
fim do século XIX, ou quando Bauman (2001) fala das peculiaridades do moderno bairro
de La Défense, não falam de um acontecimento isolado. Em várias grandes capitais
européias intervenções urbanas foram feitas, muitas vezes em bairros históricos, com a
finalidade de colocar a população em movimento e tentar, de alguma forma, isolar do resto
da cidade as populações mais pobres que vinham da zona rural. A estratégia era retirar do
público o quanto fosse possível de seu caráter de espaço de encontro de diferenças. Nesse
sentido a praça, espaço tipicamente político onde as multidões se encontram, foi
provavelmente um dos mais sacrificados. De acordo com Frúgoli:

“Nessa época, [na segunda metade do século XIX], as ruas e os espaços centrais
como praças sofreram alterações consideráveis, com o aumento populacional, a
existência de grandes massas humanas e os novos ritmos de circulação.
Intervenções urbanas procuraram alterar os tipos de usos tradicionais:
contraditoriamente, as novas praças surgidas nesse período tanto em Londres
como em Paris – marcadas pela monumentalidade, por grandes espaços abertos ou
jardins – negaram estrategicamente seu papel como espaços de uso múltiplo e
popular, enfraquecendo-se como ponto central da vida urbana (...). Os espaços
públicos são alvo de intensas intervenções urbanas visando priorizar o fluxo.
Pressentem-se vivências inéditas, ao mesmo tempo que crescem representações
sobre a cidade moderna que ressaltam sua dimensão perigosa e ameaçadora”
(Frúgoli Jr., 1995). Colchetes meus.

O movimento de transformação do meio urbano era claro. As multidões que


invadiam as ruas e praças movimentadas dessas grandes capitais já não eram mais as
mesmas multidões de outros tempos. De acordo com o próprio Frúgoli (1995), a multidão
nem sempre carregou consigo a marca da aglomeração desordenada de pessoas,
72
caracterizada por uma predominância do estranhamento e da imprevisibilidade. Pelo
contrário, as praças tradicionais eram espaços de sociabilidades com fronteiras claras e bem
delimitadas. As cidades, transformadas, agora visavam com seus novos projetos urbanos
conter essa cotidianização do choque constante com o estranho. Se tinham de se cruzar, que
pudessem se ignorar. A transfiguração da praça em espaço de trânsito tentava dissimular o
contato das diferenças e dos desconhecidos, e em especial, com a população trabalhadora,
“vista como um perigo urbano a ser controlado, circunscrito, afastado” (Frúgoli Jr., 1995).
Trata-se novamente do ideal paulista de uma circulação saudável da população,
restringindo os lugares de permanência e contato social a espaços de acesso controlado,
devidamente “higienizados”, como cafés, parques e teatros (Sennett, 1988).

As reformas urbanas parisienses e londrinas serviram de inspiração para diversas


outras também no Brasil. Se São Paulo sofria efeitos semelhantes já em fins de império,
Recife por sua vez sofreu com transformações dramáticas no final do século XX. De acordo
com o antropólogo Rogério Proença Leite (2002), a renovação visual da Rua do Bom Jesus,
no centro histórico de Recife iluminou uma de suas calçadas, enobrecida, para esconder a
outra, onde se deixava ocultar o trânsito diário da pobreza. Do lado escuro, havia o fluxo
constante das multidões, onde várias classes sociais se misturavam em suas trajetórias rumo
a seus espaços de trabalho e a pontos de venda de comércio ambulante, enquanto outras por
ali mesmo ficavam, freqüentemente consumindo drogas ilegais, despreocupadas com a
quebra ou não de qualquer clima visual que pudesse ter sido construído para a sociabilidade
dos turistas que passavam ao largo, do outro lado da rua, abrigados que estavam pela
própria penumbra. Do lado iluminado, ao contrário, cadeiras convidavam os passantes à
permanência, enquanto mesas tornavam possível um mínimo de separação entre cada um
que chegava. Nas palavras do então secretário de Planejamento do Município, José Múcio
Monteiro:

“Eu enxergo o bairro como um shopping que está funcionando a praça da


Alimentação, eu vejo o bairro, vejo a Rua do Bom Jesus que é um absoluto sucesso,
e enxergo a praça de Alimentação de um shopping” (PCR/URB/ERBR, 1998b, pp.
15-19).

73
A ressignificação da praça aqui toma contornos bastante claros, e é até curioso como
o nome praça se mantém na definição de Monteiro da Rua do Bom Jesus como uma praça
de Alimentação de um shopping – aquele espaço que agora há pouco descrevíamos como
espaço que privilegia a ação em detrimento da interação. A transformação de uma praça em
shopping center implica, de fato, em uma renovação bastante radical do uso do espaço. De
espaço público de encontro das diferenças, passa-se a um espaço de acesso controlado, com
uma segurança público-privada que controla o acesso da população ao lugar – no caso do
bairro do Recife, cancelas são postas à noite em pontos estratégicos para controlar a
circulação em suas ruas, enquanto os vigias contratados tornam-se responsáveis por definir
os limites da livre circulação local – enquanto um conjunto de elementos visuais é
cirurgicamente organizado para antecipar ao passante quaisquer sentimentos de
pertencimento ou não. A cientista social Valquíria Padilha provavelmente tem palavras
melhores para fazer este contraste.

“As pessoas que freqüentam shopping centers reconhecem, de maneira geral, que
esse é um espaço de livre acesso, uma vez que não é preciso pagar para entrar, mas
que se trata de um lugar onde raramente se vêem circulando pessoas das camadas
mais pobres da população. Existe uma relativa identificação entre os
freqüentadores de shopping centers, pois eles notam a rara presença de um
“outro”, de alguém que não compartilha os mesmos princípios e condições do
grupo ao qual pertencem” (Padilha, 2006).

Em uma praça ou em um shopping center, circular ou permanecer, entrar ou passar


ao longe, são todas possibilidades bastante concretas, assim como Nito e Toto podiam optar
por uma das duas portas que apareceram a sua frente, ou como o Ébert da paquera com a
Denise ou o Joca do celular que tocava hip hop poderiam ter vindo ao Pontão várias vezes
antes de enfim virem, com esperanças equivocadas, e logo, frustradas daquilo que
encontrariam ali nas redondezas da ponte Costa e Silva. Contudo, assim como o próprio
Ébert e o Joca, antes de tornarem-se freqüentadores por um dia do Pontão, foram também
leitores que perante a gramática ambígua da fachada do Pontão se esforçavam por lê-la de
forma adequada, também as fachadas de shopping centers, praças e calçadas exibem
cuidadosamente sua própria literatura, esforçando-se por serem devidamente

74
compreendidas. Em La Défense, a ausência de bancos e sombras deixa claro aos passantes
desavisados que não se espera deles que ali fiquem. Mais ou menos como faziam os
antigos, que botavam uma vassoura de cabeça para baixo ao pé da porta para avisar
delicadamente que a visita já não era mais bem-vinda. Ao contrário de La Défense, o
Pontão, a Rua do Bom Jesus e os shopping centers em geral convidam seus visitantes a
sentarem-se em suas cadeiras, oferecidas em suas lojas ou praças de alimentação. Trata-se,
contudo, de uma oferta bastante dúbia. Para qualquer destes estabelecimentos, sentar-se é
visto como um gesto de concordância com uma série de pressupostos. A cadeira não é mera
gentileza. Está ali como objeto de troca, utilizado dentro de uma negociação que logo
identifica o sentado como cliente, e cria de imediato a expectativa do consumo. Criado
originalmente como um pólo comercial do Projeto Orla, as cadeiras do Pontão se
encontram cuidadosamente distribuídas ao longo de seus bares e restaurantes. Fora deles, o
que se encontra são somente dois ou três bancos desses de praça, postos ao ar livre, em
frente a uma barraca de sorvetes situada na área verde, atrás da faixa de bares e restaurantes
do Pontão. Assim, não é difícil interpretar o ato de sentar-se no gramado, em algum grau,
como forma de subversão. Assim como pode ser visto como subversão sentar-se na calçada
iluminada da Rua do Bom Jesus, ou no chão frio de um shopping center. Não há bancos no
calçadão ou no gramado do Pontão. Aliás, o que há são esguichos de água, ativados ao cabo
da noite e sem aviso prévio. Regam o gramado e deixam claro que os que ali se sentam, que
se recusaram ao jogo das cadeiras e do consumo nos estabelecimentos locais, não são tão
bem-vindos quanto os que dele participam. Não há esguichos de água nas cadeiras. Na
disputa entre o circular e o permanecer, a permanência, em todos esses espaços citados,
parece poder ser justificada somente através do consumo, e as lojas, bares, restaurantes e
cafés cada vez mais parecem deter o monopólio das cadeiras e das sombras. Os não-
consumidores que continuem a circular, não ousem parar, ao menos, até que encontrem
alguém que lhes ofereça um banco onde possam repousar, conversar e interagir, ou que se
resolvam por arriscar-se às intempestividades do chão e dos gramados.. Para estes, a
vassoura parece estar permanentemente prostrada de ponta-cabeça nas portas invisíveis das
ruas, das praças e dos corredores dos shopping centers. O político, claramente, perdeu o
jogo das cadeiras.

***
75
Como disse antes, parece haver um acordo tácito entre os compradores de cadeiras
do Pontão, e mesmo nas rodas de amigos que preferem optar pela ‘compra’ do chão, para
que as bolhas sociais evitem cuidadosamente qualquer possibilidade de choque umas com
as outras. Cada uma possui sua própria idéia de sociabilidade mais ou menos definida e
qualquer interação indevida parece ser calculadamente evitada. Mas ainda que o acordo
tácito possa existir, e que graças a ele seja possível simular em uma bolha social vários
aspectos de um espaço privado mesmo em um espaço público como o do Pontão, o fato é
que as bolhas transitam entre si sem paredes para protegê-las umas das outras. Em espaços
densamente povoados, as palavras se escapam e acabam se misturando umas às outras.
Quando se tornam indistinguíveis, formam o chamado burburinho, repleto de sons
embaralhados que, em uma cumplicidade que até parece proposital, bem se disfarçam uns
aos outros. Nada, porém, que um ouvido um pouco mais atento, ou mesmo mais distraído –
desses que tiram uma folga de alguma conversa mais enjoativa da própria roda de amigos
para voltar-se para os barulhos e imagens do mundo que, pasmem, ainda está ao seu redor –
não possa desembaralhar acidentalmente e transformar em frase clara e nítida. Me lembro
agora de um episódio que se passou comigo há algum tempo atrás no restaurante
universitário da minha universidade, em Brasília. Sentei-me para almoçar com um grupo de
amigos com quem almoçava quase todos os dias. Em geral falávamos abertamente de nossa
vida pessoal, sem grandes precauções de privacidade. Naquele dia especificamente, a pauta
do dia incluía também as últimas aventuras sexuais de uma amiga. Aqui é bom enfatizar o
fato de que o restaurante universitário em que estávamos tinha as mesas contíguas, dando
uma proximidade ainda maior aos seus freqüentadores, conhecidos ou não. Assim não é
difícil imaginar que em um dado momento em que a conversa ganhava tons mais
controversos, um vizinho de mesa inevitavelmente começou a ouvir o que dizíamos. Seu
rosto reagia de forma dramática, e comecei a alternar minha atenção entre o que minha
amiga dizia e suas reações, cada vez mais escandalizadas. Enfim, após alguns minutos, o
rapaz, que se sentava sozinho ao nosso lado, acabou decidindo por mudar-se para uma mesa
mais distante. Talvez querendo preservar o clima que havia antecipado para si próprio
durante aquele almoço, e que tanto perturbávamos com nossas palavras mal represadas, a
idéia ali era tentar simular com a distância os bastidores que não tínhamos na forma de
paredes. Curiosamente, neste caso, a atitude não partiu de nós, os que falávamos e que

76
expúnhamos nossa própria intimidade, mas sim dele, que somente ouvia. A situação oposta
cheguei a notar uma vez de forma explícita no próprio Pontão, onde acidentalmente – veja
bem, acidentalmente – ouvi um grupo de garotas que se dirigiam para o estacionamento, e
que comentava em voz alta:

— “Depois a gente conta as fofocas no cinema. Aqui é complicado que tem muita
gente. Vai que alguém ouve, aí já viu” (Trecho de conversa no Pontão. Junho,
2007).

O quanto que um cinema pode deixar de ser um espaço de entretenimento para se


transformar em espaço de escuridão, servindo inocentemente para acobertar as fofocas
alheias, já é um assunto que não pretendo abordar aqui. O fato é que as garotas tinham
razão em não confiar a sua privacidade à boa vontade dos passantes do Pontão, tanto que as
ouvi, assim como o vigia Ednaldo, por mais que não quisesse, acabava ouvindo pedaços
soltos de uma ou outra conversa que se esfregava em sua frente, esperando que a falta de
contexto lhes disfarçasse o sentido. O curioso é que todos que cito aqui, sem ver sentido em
interações com as bolhas de sociabilidade que flutuam ao seu redor, não somente tentam
conter suas palavras para si mesmos. Mais do que isso, quando elas chegam ao outro, se por
algum acaso criam algum tipo de interação que se possa chamar de política por verbalizar
para o outro a sua subjetividade, é de forma absolutamente acidental. O tipo de acidente
político que as garotas da fofoca tentaram evitar fugindo para o cinema. Quando falei antes
do Régis, que ao invés de verbalizar sua insatisfação climática com a tal molecadinha que o
incomodava, preferia reproduzir o incômodo para dentro de sua própria bolha política na
forma de juízos de valor unilaterais, ou seja, de dentro para dentro, era justamente esse
perigo de acidentar-se politicamente o que o continha com a boca voltada para dentro.
Como um rapaz tímido que não se expõe por um medo ontológico das respostas
inesperadas que o mundo pode lhe dar. Claro, não era bem esse o caso. Régis tinha uma
sociabilidade interna e a fina camada de sua própria bolha de amigos a zelar. Sair dela para
entrar em contato com outros seria como que arriscar-se a furá-la, perder ainda mais o
clima que antecipara para seu encontro e que já se deteriorara devido às correrias da
molecadinha ao longo do calçadão. Expor-se-ia, enfim, a uma extrapolação do incômodo,
arriscando-se a calamidades climáticas e capotagens políticas. Não, não se aventuraria a

77
tanto. Usou seus incômodos como oportunidade para revelar algumas de suas opiniões
sobre o mundo bolha adentro. Era mais uma regra de convívio que era enfatizada. Entre os
seus, claro.

Entretanto, essa interdição social – que claro, não é plena e tem suas raras exceções
– para a negociação de diferenças e incômodos em espaços como o Pontão não tem as suas
repercussões sociais encerradas aí. A ausência de uma vontade de negociação verbalizada
do uso do espaço com o outro obstrui o próprio conhecimento desse outro que incomoda.
Sem voz, o outro é freqüentemente jogado dentro de grandes pacotes de ‘outridade’. Perde
sua capacidade de estabelecer ele mesmo as fronteiras de sua própria identidade. Calados,
ficam à mercê do julgamento alheio que, presos neste intrigante pacto pelo silêncio, são
forçados a recorrerem a estigmas readymade, que lhes servem de embalagem e dão a
sensação de que, afinal, se sabe bem com o quê se está lidando. Ao ser questionado sobre o
porquê de terem abordado, três vezes em uma única noite, o grupo do Joca e do Everaldo
que ouvia música hip hop no celular enquanto se sentavam em um trecho mal iluminado do
gramado e fumavam um cigarro, obtive de um vigia a resposta de que tinham a obrigação
de vigiar aqueles que praticam atividades suspeitas. Mas o que era ali suspeito? A música,
que desafiava o clima musical oficial do Pontão? Suas roupas, que estampavam nomes de
bandas de hip hop e de metal? Talvez a escuridão, que denotava sua vontade de esconderem
algo. Provavelmente a si próprios, a própria diferença, da qual o Everaldo mostrou clara
consciência, e que se não podia ser negociada, dado o silêncio político dos passantes, podia
ao menos ser escondida, no silêncio visual da penumbra. Nos termos de Leite, o que eles
faziam era um contra-uso do espaço. No Recife, o contra-uso se refugiava das luzes e da
vigia reforçada pela gentrificada Rua do Bom Jesus e encontrava abrigo no pólo Moeda,
ocupação espontânea que ainda não havia sido “revitalizada”. Lá buscavam abrigo os
exilados da Rua do Bom Jesus, era onde os meninos de rua que lá não podiam permanecer
ressurgiam, e viviam livremente. Nesse caso do Recife, a polícia da sociabilidade que se
esforçava para sustentar o ambiente enobrecido do bairro não se contentava em retirar de
suas ruas os seus contra-usuários. Não raramente, subiam até o pólo Moeda, onde batidas
policiais já tinham se transformado em algo rotineiro. De acordo com Leite:

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“Os estereótipos eram variados: corpos tatuados, cabelos grandes, outros curtos e
coloridos, cabeças raspadas, estilo rastafari. Bermudão na altura do joelho, roupas
dos anos de 1960. Óculos escuros com aros coloridos, boné com aba virada. São
funkeiros, rockeiros, mangueboys, skatistas. Estes últimos, vez ou outra, iam em
bando até a rua Madre de Deus para fazer suas manobras, sob o olhar da Polícia
Militar. O clima era sutilmente hostil a quem quer que não se enquadrasse em
algum dos perfis dos grupos, embora fosse possível transitar (quase) normalmente
pelo local. Não raramente, ocorriam batidas policiais que já não surpreendia seus
freqüentadores” (Leite, 2002).

Sem espaço para negociações de uso dos espaços, os estereótipos eram utilizados
para identificar contra-usuários tanto do lado do pólo da Moeda quanto do lado enobrecido
da Rua do Bom Jesus, cada um com seus estigmas, cada um com suas visões do que devia
ser o outro. No Pontão, o contra-uso encontrava seu refúgio em tudo o que não fosse
cadeiras. Servia o estacionamento para os que praticavam sexo em seus automóveis, servia
o gramado para as rodas de violão, o pierzinho para as tentativas de paquera do Ébert e as
penumbras que restassem para os celulares que tocam música hip hop. Cabia aos
seguranças do Pontão regular, absorver como legítimos ou recriminar como insalubres
esses contra-usos. Suprir a incapacidade dos presentes de negociarem entre si as próprias
diferenças e o seu uso do espaço. Não, os conceitos de uso e contra-uso não estavam em
negociação. Estavam definidos antes que qualquer negociação pudesse acontecer. Sem
vontade de se falarem uns aos outros, esse papel do político é transferido aos vigias. É a
segunda transferência, que antes mencionei em tom mais interrogador. Em outros tempos,
ao longo do processo civilizador (Elias, 1994), transferia-se à polícia o monopólio do
controle da violência física. Aqui já não se trata mais de violência física. O que parece estar
se transferindo, sutilmente, é um pedaço gigantesco da esfera do político. Na praça do
consumo, o indivíduo parece renunciar à própria fala. Espera que essa polícia do clima
exprima estigmas parecidos com os seus. E que deles, ela faça bom proveito.

***

79
“O encontro de estranhos é um ‘evento sem passado’. Frequentemente é também
um ‘evento sem futuro’ (o esperado é não tenha futuro), uma história para ‘não ser
continuada’, uma oportunidade única a ser consumada enquanto dure e no ato, sem
adiamento e sem deixar questões inacabadas para outra ocasião. Como a aranha
cujo mundo inteiro está enfeixado na teia que ela tece a partir do seu próprio
abdome, o único apoio com que estranhos que se encontram podem contar deverá
ser tecido do fio fino e solto de sua aparência, palavras e gestos” (Bauman, 2001).

Dentro da esfera da relação entre estranhos, essa espécie de contra-fraternidade


criada pelas circunstâncias, o estigma16 (Goffman, 1982b) como bem aponta Bauman, surge
como uma peculiar estratégia de interação social. Não foram raras as vezes em que me
deparei com o uso franco de expressões estigmatizantes durante minha pesquisa de campo.
Em geral, serviam para facilitar a criação de um vocabulário. Ajudava a delimitar na
multidão e definir de alguma forma aqueles que eram os agentes dos incômodos de cada
um. Servia para os inseguros tentarem classificar, entre os passantes, aqueles que ainda não
tinham sido devidamente classificados e rotulados, e cujo comportamento poderia seguir
rotinas imprevistas a qualquer instante.

O vigia Ednaldo, quando lhe perguntei sobre se haveria algum perfil geral típico do
Pontão, respondeu-me rapidamente que se tratava de “pessoas bem-educadas, de classe
média. É um pessoal diferente do que você vê em cidade-satélite, por exemplo”. É verdade
que minha pergunta já pedia, de certa forma, por uma generalização. Ainda que eu possa tê-
lo induzido a falar de um perfil geral, a forma como esse perfil veio não deixa de ser
interessante. O pessoal de cidade-satélite era usado aqui pelo Ednaldo – ele próprio um
morador do Guará, uma das várias cidades-satélite do Distrito Federal – como meio de
estabelecer um contraste com o pessoal do plano-piloto, para ele, mais bem educado.
Ednaldo já tinha servido ao exército e, por alguns anos, lidou diretamente com populações
mais pobres do Distrito Federal. Quando conversamos sobre o assunto, Ednaldo
16
Definindo o conceito de estigma, Erving Goffman parte do princípio de que a sociedade estabelece categorias
para o reconhecimento de pessoas e seu provável conjunto de atributos, assim como categorias também são
estabelecidas para o reconhecimento de ambientes sociais, viabilizando uma antecipação das rotinas de relações
sociais. As categorias sociais geram, enfim, expectativas normativas para o comportamento em sociedade. Para
evitar maiores confusões de significado, estabeleço já aqui que é a essa definição que me refiro ao fazer uso do
conceito.

80
aproveitou-se para fundamentar suas opiniões sobre o contraste entre cidades-satélite e o
plano-piloto:

— “A gente trabalhava muito em cidade-satélite, em campanha de vacinação, esse


tipo de coisa. Você ouve muita besteira, muita gente pouco educada, pouco
tratável. Por isso que eu digo, aqui no Pontão é diferente, é outro tipo de gente né”
(Trecho de conversa com Ednaldo, vigia do Pontão. Abril, 2007).

A observação pareceu ser confirmada, mais tarde, em outra conversa, agora com o
Gilvan, 41, dono de uma pequena barraca de sorvetes estabelecida no Pontão. Ainda que
Gilvan discordasse de Ednaldo quando dizia que nos fins-de-semana vinham sim para o
Pontão muitos moradores de cidades-satélite, concordava, contudo, em relação à forma
como tipicamente se comportavam.

— “Dá pra perceber quando é classe alta pela educação, pela conversa. São bem
mais educados né. Porque tem gente que vem aqui que é mal-educada pra
caramba” (Trecho de conversa com Gilvan, 41, dono e atendente da barraca de
sorvetes da Yopa no Pontão. Junho, 2007).

De fato, não concordavam de todo. Gilvan não fala diretamente em moradores de


cidades-satélite. Classificava seus clientes entre uma classe alta mais bem-educada, e uma
classe baixa mais rude e mal-educada. Contudo, como historicamente as classes mais
pobres do Distrito Federal têm estabelecido residência em cidades-satélites – ainda que
algumas cidades-satélites tenham sim, hoje em dia, um custo de vida consideravelmente
alto e sejam habitadas por grupos de mais alta renda –, imagina-se que Gilvan e Ednaldo
não passariam muito tempo negociando seus pontos de vista.

Outra conversa interessante se passou com uma ex-funcionária do bar e loja da


Mormaii. Conheci a Priscilla durante uma reunião com minha orientadora. Como eu, ela
estava ali também para falar sobre seu projeto de pesquisa, que serviria de base para sua
monografia. Eu falava das minhas observações de campo, ainda parcas até então, e fiz
algum comentário sobre a loja da Mormaii, ao qual ela imediatamente interveio. Discordou
do que havia me dito minha primeira informante na loja, uma jovem funcionária de 18 anos

81
que interrompia a conversa a cada trinta segundos para atender um cliente, e que havia me
dito que não havia nenhum tipo de treinamento específico feito com atendentes da loja. De
acordo com a Priscilla, havia sim um grosso livro de instruções que preparavam o
atendente, entre outras coisas, a identificar potenciais compradores de acordo com sua
aparência e seu comportamento. Mas seu comentário que mais me chamou a atenção foi
quando descreveu o processo de seleção de funcionários feito pela loja. Para ela, não havia
qualquer grande preocupação com currículo, e mesmo a entrevista de trabalho tinha pouco
valor. Ela mesma sequer passou por uma entrevista. Teria sido contratada unicamente por
sua aparência. Era loira, magra e tinha olhos claros, além de utilizar roupas e acessórios
corporais que poderiam muito bem estar à venda na própria loja. Tinha, de acordo com ela
mesma, “uma aparência bem burguesa”. A maior parte dos vendedores da Mormaii, aliás,
tinha perfil físico semelhante. Claro, não creio que a Mormaii acredite que pessoas com
esse tipo de aparência sejam capazes de realizar um trabalho mais profissional do que
outras, com traços físicos diferentes. A aposta da loja claramente era a de que os seus
clientes reagiriam positivamente ao arquétipo de seus funcionários. Espontaneamente, eles
mesmos associariam essa imagem aos seus próprios arquétipos e estereótipos e se
sentiriam, enfim, mais bem atendidos. Tentei entrar em contato com a gerente da loja da
Mormaii do Pontão, mas disseram-me que estava ocupada. Perguntei então aos
funcionários da loja se sabiam o horário em que ela costumava encerrar seu expediente.
Responderam-me, para minha surpresa, que não, não sabiam.

O estigma servia também para ajudar a demarcar espaços. Para George, 18, que
tocava violão com um grupo de amigos no gramado à beira do lago Paranoá, havia
diferenças bastante claras entre o perfil de quem freqüentava o bar da Mormaii e daqueles
que tinham o hábito de ir, por exemplo, ao Café Antiquário ou ao restaurante do Bargaço.
Ele próprio quando vinha ao Pontão com amigos, em geral vinha para a Mormaii, mas
jamais o fazia na companhia dos pais, com quem costumava buscar um “ambiente mais
familiar” como o do Bargaço. De fato, a própria Mormaii fazia questão de enfatizar que
tinha um público jovem. Sua loja, que ficava nos fundos do bar, vendia roupas e acessórios
típicos de esportes aquáticos, e, para o George, a própria decoração do ambiente e seus
atendentes davam ao lugar um “jeito mais descolado” que, provavelmente, pouco teria a
ver com o clima e a linguagem desejados por seus pais. Já a Isabel, que também encontrei
82
sentada na grama em uma roda de amigos que conversavam e tocavam violão, foi bem mais
direta e estabeleceu fronteiras muito mais rígidas entre ela e o seu outro. Para ela, o Pontão
era “lugar de gente metida”. O curioso é que ela mesma também estava no Pontão. No
entanto, ao falar da tal “gente metida”, denunciou com um gesto automático do dedo
indicador que se referia a outros. Apontou para o outro lado. O lado onde ficavam os bares,
restaurantes, e suas cadeiras. Por sua vez, o professor de música Cadu, que esperava por sua
namorada sentado no pierzinho do Pontão, não foi muito diferente. Quando perguntei-lhe se
reconhecia algum tipo de perfil geral do Pontão, foi logo enfático:

— “Olha, o perfil do Pontão não é muito o meu não. A galera aqui é meio
patricinha, meio mauricinho (...). Mas também não pode rotular né” (Trecho de
conversa com Cadu, 26. Maio, 2007).

Em apenas três frases, Cadu foi capaz de situar-se de forma bastante clara em
relação ao Pontão. A primeira frase foi praticamente um pedido de desculpas por se
encontrar tão fora de lugar quanto estava naquele momento, e a negação do perfil do Pontão
como sendo semelhante ao seu tentava claramente dissociar sua imagem de qualquer
estigma que estivesse associado ao lugar. Ele próprio, aliás, é quem denuncia esse estigma
do Pontão com a frase seguinte, associando o lugar a patricinhas e mauricinhos, apelidos
não tão carinhosos tipicamente utilizados para descrever jovens de classe alta em geral – e
especialmente, aqueles que deixam claro que pertencem a uma classe de renda superior.
Fecha com uma terceira frase em que se desculpa, afinal, pelos estigmas que ele próprio
propunha. Evitava assim maiores constrangimentos que podiam provocar uma
generalização arriscada e talvez pouco apropriada. Mas ao mesmo tempo, não negava a
identidade que ele já havia demarcado para si próprio. Acreditando ou não nos estigmas
que denunciava, o importante era que se afastava de todos eles.

Essa seqüência de discursos estigmatizantes é de fato bastante reveladora.


Sistematicamente, o discurso oficial do Pontão, seja ele partindo da boca de um vigia, seja
do dono da barraca de sorvetes, ou mesmo da administração de um de seus
estabelecimentos locais, procuram estigmatizar e delatar incômodos provocados pelos mais
pobres, que por sua vez aparecem na forma de ‘moradores de cidade-satélite’, na oposição à

83
‘aparência burguesa’ dos loiros, brancos de olhos claros da loja da Mormaii, ou
simplesmente por oposição lógica a uma ‘classe alta mais bem-educada’. Embalada em um
mesmo pacote identitário, a pobreza, que não compra cadeiras e não faz ‘uso adequado’ do
espaço, é cuidadosamente agredida. De forma não menos sistemática, os contra-usuários do
Pontão se juntam em um mesmo contra-discurso. Estigmatizam uma elite consumidora com
termos pejorativos vinculados à sua condição material, e tentam evitar o quanto podem que
a sua presença no lugar possa contaminar semanticamente a sua própria identidade com os
estigmas de Pontão que eles próprios criam com seus discursos.

Mas como se trata de um espaço de consumo de caráter pouco político, dificilmente


há confrontos diretos entre esses estigmas. Usuários e contra-usuários praticamente não se
falam, e o discurso, provavelmente pouco sabe sobre aquilo que o contra-discurso tem a
dizer.

VII – A lancha.

Era uma típica noite de maio de Brasília, e o calçadão do Pontão estava abarrotado
de gente. Era sábado e eu tinha até ficado surpreso com um certo vazio inicial, e até às oito
horas da noite, o pólo 10 do Projeto Orla poderia até se passar por um lugar decadente para

84
um olhar mais desprevenido. Logo, porém, essa impressão tão equivocada se desfez. As
cadeiras da Bier Fass e do Bargaço rapidamente estavam sendo ocupadas, e os garçons e
garçonetes dos bares corriam de um lado para o outro, tentando em vão vencer os pedidos
dos clientes. No gramado uma roda de violão se formava e dava mostras do que seria mais
uma noite de disputas musicais que todo o fim-de-semana tentavam conquistar o ambiente
e moldá-lo a sua imagem. Afinal, ouvia-se música vindo também de dentro da cervejaria da
Bier Fass. Mais lenta, é verdade. Cheguei a conhecer gente que diria que aquilo nem era
música. Que música de verdade era forró, música-pra-se-mexer de verdade, que aquilo que
se ouvia nos restaurantes do Pontão não tinha graça, era música-de-casalzinho.

Mas naquela noite a disputa pelo controle do ambiente era ainda mais acirrada do
que o normal. Havia uma terceira música, que chegava aos ouvidos com uma intensidade
ainda mais forte do que as duas primeiras. Não foi necessário procurar muito para descobrir
que o som era irradiado pelos alto-falantes de uma lancha que estava atracada no pierzinho
do Pontão, flutuando sobre as águas do lago Paranoá. Dentro da lancha, alguns rapazes
conversavam em voz alta, se esforçando para vencer o som dos seus próprios alto-falantes.
Tinham um semblante alegre, de quem já passou por algumas latas de cerveja e que viam à
sua frente a perspectiva de outras mais. Aproximei-me e pude então distinguir mais
claramente que se tratava de quatro rapazes. Suas idades variavam entre os 25 e os 30 anos,
não mais do que isso. De fato, as lanchas que freqüentemente se deixavam atracar no píer
do Pontão não era nenhuma novidade para mim. Já eu as tinha notado antes, e não poucas
vezes me indagava o porquê de atracar a lancha por ali. Nenhum dos quatro chegara, em
nenhum momento – ao menos, que eu tenha visto – a descer da lancha de fato para a área
do Pontão. Estavam ali, de pé, flutuando sobre o Paranoá, e eu provavelmente nem sentiria
que faziam de alguma forma parte do espaço do Pontão não fosse a mão esticada que suas
caixas de som em volume altíssimo estendiam para a terra firme.

Quando resolvi enfim abordá-los, tive dificuldades de me fazer compreender, e não


era somente devido ao som alto – que em nenhum momento fizeram menção de baixar; de
quebra de ambiente, já bastava a minha intervenção. Eu estava ansioso por encontrar uma
resposta àquilo tudo, o porquê da lancha, o porquê do Pontão, o porquê do som, o porquê
do porquê. Uma curiosidade que claramente não era compartilhada por eles. Não

85
compreendiam minhas perguntas e se respondiam, era balbuciando respostas de caráter
meramente retórico. Ao cabo de alguns minutos, um deles elaborou enfim uma primeira
resposta. Era por causa do movimento. Me dava ao menos algo para pensar, mas eu
continuava achando a resposta vaga. Insistia em minhas perguntas. Tentava induzi-los a
uma reflexão sobre os próprios atos que talvez, como que levados passivamente pelas
marés do lago, ainda não tivessem feito. Aliás, dos quatro, somente um, que parecia ser o
dono da lancha, me respondia. Os outros três continuavam entretidos com a própria lata de
cerveja e com a música que seguia tocando, que eu identificava como sertanejo, mas que
eles definiam como sendo música-de-corno. Minha insistência já começava a cambalear
quando um deles, que até então permanecera calado, enfim respondeu:

— “A questão é que, quando a gente traz a lancha pra cá pro Pontão, ela vira meio
que um ‘point’ dentro do Pontão, entende? A gente tem música, tem cerveja, aí a
galera vem pra cá mesmo” (Trecho de conversa com Germano, morador do Lago
Sul. Maio, 2007).

O cenário subitamente parecia ganhar colorações inesperadas. As perguntas mais


variadas passavam pela minha cabeça. Tiveram, contudo, que se conter por alguns
instantes. Um garçom, vindo da Bier Fass, se aproximava da lancha. Trazia em uma das
mãos um embrulho com petiscos que Anderson, o dono da lancha – só agora descobria seu
nome –, havia pedido. Os membros da lancha eram afinal, consumidores oficiais do Pontão.
A lancha além de lancha era também cadeira, e se por mero acaso flutuavam nas águas do
lago, nem por isso deixaria o garçom de vir até eles para atendê-los.

Quando passados alguns instantes o garçom, agora devidamente pago, enfim nos
deixou, retomei meu questionário. Sim, eram também consumidores, mas claramente, e isso
eles já tinham dito, essa não era a razão central pela qual ali estavam. Perguntei-lhes então
se podiam me descrever como se dava essa aproximação das pessoas que vinham ter com
eles na lancha. Anderson, que até então vinha tendo dificuldades para compreender minhas
curiosidades, dessa vez respondeu-me de forma bastante clara.

— “Ah, o pessoal se aproxima da lancha com conversa besta mesmo, trivial, e


assim se formam as amizades, entende? (...) Que tipo de gente que vem aqui? Aqui
86
vem todo tipo de gente. Homem, mulher. Ah, gente normal” (Trecho de conversa
com Anderson, morador do Lago Sul e dono da lancha. Maio, 2007).

A lancha se aproveitava das brechas de sociabilidade deixadas pelo Pontão.


Subvertia, uma a uma, as regras do convívio local, e oferecia aos passantes mais frustrados,
os derrotados do Pontão, aquilo que o próprio Pontão parecia ser incapaz de oferecer. Um
clima. Ou, ao menos, um clima diferenciado. A bebida alcoólica, de consumo proibido no
Pontão, à exceção da que for consumida dentro de seus próprios estabelecimentos, era
bebida livremente dentro da lancha que por sinal tinha, guardado em um armário interno,
um considerável estoque de latas de cerveja. Por outro lado, se os carros-de-som, grandes
inimigos da sociabilidade proposta pelo Pontão, eram expressamente proibidos pela sua
administração, nada havia que dissesse respeito a lanchas-de-som. Resguardadas pelas
águas do lago, era como se não estivessem submetidas às regras criadas para o uso do
espaço. Claro, não era de todo um contra-uso do Pontão. Eram também consumidores da
Bier Fass. Tinham comprado as cadeiras, ainda que preferissem usar as suas próprias.
Parecia ser uma cadeira subversora, mas que era também legitimada pelo reconhecimento
até exagerado do garçom, que vinha até a lancha como se a lancha fosse um prolongamento
da varanda da Bier Fass. A lancha concentrava dentro de si uma mistura singular de uso e
de contra-uso do espaço do Pontão. Sem ser em nenhum momento incomodada pelos
vigias, se regozijava de um monopólio de uma sociabilidade subversiva tolerada. Nas
portas entre as quais Nito e Toto tiveram que escolher no conto de Cortázar, criava uma
terceira. Não fugia, nem aderia. Seu próprio clima flutuava, literalmente, como um
prolongamento real do espaço privado dentro de um espaço público, como se, insatisfeitos
com os muros do Pontão, erguessem outro, dessa vez, na forma de fosso. Até porque, se
tinham o monopólio, se aproveitavam dele. Faziam uso de sua força da melhor forma que
podiam. Ou seja, escolhiam. Eram um portal dentro de outro, e se o primeiro, o da guarita
protegida pelo arco romano da entrada do Pontão, controlava o acesso do público com sua
ostentatória fachada inibidora – quando não com ações menos sutis da segurança local –,
esse segundo portal, o da lancha, simplesmente fazia uso da própria prerrogativa que
tinham de escolher aqueles que queriam que entrassem em um espaço que, afinal, era
privado.

87
Naquele momento, enquanto eu conversava com eles, um casal ao meu lado, de pé,
no pierzinho, dançava alegremente em frente a lancha. Se aproveitavam da atmosfera criada
de forma inesperada e, ao mesmo tempo, mostravam intenções de aproximar-se do que o
Germano chamava de ‘point’. Naquela noite, porém, não tiveram tanta sorte. Quatro
garotas, todas com idade média de 25 a 30 anos, já tinham, ao menos dessa vez, a sua vaga
assegurada na lancha. Eram conhecidas dos quatro rapazes, se encaixavam melhor do que
os outros em sua definição de “gente normal” que podia freqüentar o seu “point”, e uma
delas era inclusive namorada do próprio Anderson, com quem também conversei por
alguns minutos. Logo, porém, nossa conversa foi interrompida. Anderson tinha a expressão
claramente incomodada, e esbravejou.

— “Então, acho que já deu de pergunta né? Tchau” (Trecho de conversa com
Anderson. Maio, 2007).

Assim que nos despedimos, a lancha foi-se pelo lago. Pensei que iria enfim buscar
um novo destino, vagar longamente pelo Paranoá. Ao invés disso, preferiu navegar em
círculos pela área do lago que ficava próxima ao Pontão. E meia hora depois, ainda estava
lá, jogando água para o alto, o cantar-os-pneus que as lanchas podem fazer. Molhavam as
paredes dos casais sentados à beira do lago e se exibiam para a multidão que, com ou sem
cadeiras, se resignava a ficar do lado de fora.

VIII – Considerações finais.

“Se sabe, que a classe social, o nível de instrução, a faixa etária, o sexo, a violência
urbana, o acesso ao espaço, limitam o lazer a uma minoria da população.
Particularmente quanto ao aspecto do acesso ao espaço, para a garantia de que o

88
lazer seja uma escolha não obrigatória, as diversas possibilidades de práticas ou
consumo do lazer devem estar presentes no espaço urbano, de forma a poder
atender as pessoas no seu todo. A democratização do lazer implica
necessariamente a democratização do espaço” (DIPRE/SUDUR/SEDUH, 2003).

Neste trecho de um documento sobre a caracterização da orla do lago Paranoá,


elaborado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SEDUH) e pela
Subsecretaria de Urbanismo e Preservação (SUDUR), ambas secretarias do GDF, o termo
democratização é particularmente enfatizado. Ainda que este documento seja de 2003 e,
portanto, posterior à construção do Pontão do Lago Sul, assim como dos outros pólos já
construídos do projeto, trata-se de uma forma ou de outra de um termo recorrente em
documentos e relatórios do GDF que dizem respeito à orla do lago, e que aparece também,
como já citei anteriormente, em trechos do seu relatório de atividades, concernentes aos
anos de 1995 à 1998. Neste caso específico, a conexão entre uma democratização do lazer
e uma democratização do espaço como intrinsecamente associadas surge de forma bastante
marcante. A noção de democrático aparece aqui associada diretamente à idéia de “poder
atender as pessoas no seu todo” em detrimento de uma série de empecilhos, cuja existência
reconhecem, e que tendem em geral a obstruir estes espaços, limitando “o lazer a uma
minoria da população”.

Contudo, toda essa proposta democratizante parece estar desde o princípio


subordinada a determinantes essencialmente econômicos. Para o urbanista Apoena Parente:

“Apesar destes princípios e objetivos o viés econômico do empreendimento [do


Projeto Orla] permeia todas as propostas de intervenção. A visão econômica do
empreendimento é dada pela Secretaria de Indústria e Comércio do Distrito
Federal, versão 1998 em seu ‘Perfil do Distrito Federal e Guia do Investidor’”
(Parente, 2003: 79) Colchetes meus.

O Projeto Orla, desde a sua concepção em 1992, parece ter sido constituído sobre
bases essencialmente contraditórias. Contradições, por sua vez, que se manifestam em
termos concretos nas obras do Pontão através de formas bastante diversas. Sua fachada
arquitetônica mina as possibilidades de interpretação do Pontão como um espaço de livre
89
acesso para quem a via de fora. O pólo gastronômico com seus altos custos coíbe o acesso
de populações de mais baixa renda aos seus bares e restaurantes, reduzindo-lhes o Pontão a
pouco mais que um espaço gramado e calçado à beira do lago Paranoá, com seus aspectos
estéticos e bucólicos. O sistema de transporte público, por sua vez, ainda é escasso na
região e, especialmente nos períodos da noite ou em fins-de-semana, horários
tradicionalmente de pico para o uso de espaços de lazer em geral, o acesso ao local de
forma alternativa ao automóvel particular ou ao táxi é praticamente impossível. O serviço
terceirizado de segurança que realiza a vigia do espaço, por sua vez, parece ter adquirido
paradigmas de controle do uso e do acesso ao espaço do Pontão que se fundam sobre a
oposição direta a práticas de sociabilidade e expressões estéticas bastante específicas, não
necessariamente de grupos de renda mais baixa, mas, de uma forma ou de outra, atuando de
forma a coagir estes tipos de prática e expressão, sabotando suas possibilidades de presença
e negociação do uso do espaço – algo que acontece também, porém de forma mais velada,
nas propostas de ambiente e clima realizadas pelos próprios bares e restaurantes do Pontão,
e que de fato tolhe a possibilidade de propostas de sociabilidade diferenciadas.

O sistema dissimulado de controle de acesso do Pontão, se pensado como um


grande portal que filtra a entrada e saída da população, se divide e se dilui em diversos
pequenos pórticos, que vão desde o vistoso muro que o cerca até o privado controle
econômico do acesso às cadeiras de seus bares e restaurantes. Funda-se um verdadeiro jogo
das cadeiras, cujos vencedores são, invariavelmente, aqueles que são capazes de comprá-las
e de consumi-las. Resta aos sem-cadeira o píer, o calçadão, o gramado e o estacionamento,
assim como resta aos sem-música a possibilidade do violão, da voz, ou do silêncio, todos,
sempre sujeitos à atitude coercitiva da polícia da sociabilidade local, que é também polícia
do ambiente, polícia dos sons, das roupas, do sexo, dos cigarros, do ficar de pé no
estacionamento, da bebida alcoólica ingerida fora do espaço das cadeiras, etc. Tratar todas
essas atividades como formas absolutas de subversão ou de contra-uso do espaço do Pontão
seria, contudo, um excesso. Em oposição aos lá de dentro, usuários praticamente
inquestionáveis de um Pontão verdadeiramente oficial para os parâmetros de sua
administração, os aqui de fora, despojados de cadeiras e, após certos horários, também da
própria grama, parecem se enquadrar em uma espécie de limbo do uso e do contra-uso. Sua
situação de ambigüidade cria a possibilidade de uma tolerância ou intolerância incertas
90
perante os sistemas de controle locais. O Ébert, assim como a Andréia e suas amigas foram
toleradas ou mesmo aceitas pelos vigias sem serem importunadas, mas foram frustradas
pelo controle climático que impedia as formas de sociabilidade pelas quais esperavam –
equivocadamente, é verdade, e isso devido àquelas ambigüidades anteriores do Pontão,
situadas ainda em sua fachada. Já o grupo do Joca e do Everaldo não foi sequer tolerado e,
incomodado com a abordagem insistente de seguranças locais, cedeu, e partiu pouco tempo
depois. Seguindo os exemplos anteriores, também se frustraram com expectativas
equívocas sobre o clima que encontrariam no Pontão. Porém, ao contrário de Andréia,
Janaína, Rayssa e Maira, optaram por arriscarem-se a adentrarem ainda mais fundo dentro
do limbo do pólo 10 do Projeto Orla. Fazendo um uso inesperado do celular como
fabricador de atmosferas de sociabilidade, trouxeram consigo a música hip hop. Tentaram,
da maneira como podiam, subverter o ambiente em que se encontravam.

Se entendermos o limbo da vigilância como um simples espaço de indefinição do


julgamento a ser adotado, como que criando um espaço que concede livre jurisprudência
aos parâmetros de interpretação do seu quadro de vigias perante aquilo que deve ou não ser
controlado, torna-se então possível entender também a lancha como sendo parte deste
limbo. Se entendermos, contudo, a lancha como uma cadeira tão ou mais cadeira que as
outras, ela passa a fazer parte do seleto grupo dos usuários absolutamente oficiais do
Pontão. Tão absolutos que vencem a distância que existe entre o píer e a cozinha.
Consomem o garçom, que vai até eles. Criam um aqui fora, que na realidade é lá dentro.
Mas ao mesmo tempo, fabricam seu próprio ambiente, com sua própria música que não
definem nem como sendo de casalzinho, nem como sendo música-pra-se-mexer, mas sim,
como música-de-corno, que vence as caixas de som da Bier Fass e do Bargaço, e se
sobrepõe com facilidade ao som dos poucos violões que ainda restavam. Subvertem uma
das leis mais essenciais do sistema de controle do Pontão, que é a da proibição dos carros-
de-som. Subvertem outra, a do consumo de bebida alcoólica fora dos bares e restaurantes
locais. Talvez eles não estejam verdadeiramente fora. Talvez também não estejam
realmente do lado de dentro. Afinal, onde está a lancha?

Diante de tantas ambigüidades, a própria noção de público e de privado não se torna


muito mais do que ambígua. O Projeto Orla apresenta como uma de suas diretrizes gerais

91
expressas em seu documento base a proposta de “manutenção da orla livre para acesso e
uso públicos” (GDF/TERRACAP/IPDF, 1995-98). Mas o que é afinal o uso público? Se
levarmos em conta outros documentos já avaliados até aqui, podemos pensar que se trata de
um uso democrático, e aí então teremos que voltar ao ponto de partida. Podemos então
partir enfim para a definição que tentei utilizar ao longo de toda a etnografia – até como
forma de não inviabilizar de todo o seu uso, que me pareceu consideravelmente funcional
para uma melhor compreensão do que era proposto –, situando formas ideais de público e
de privado como parte de um dualismo flexível e repleto de gradações, cujos extremos eu
tomo como, de um lado, o espaço de uso e acesso absolutamente restrito, e do outro, o
espaço de uso e acesso absolutamente livre. Neste caso, é claro, o Pontão em si tenderia a
se encaixar em algum meio termo devidamente apropriado ao seu próprio caráter ambíguo,
que penso já ter descrito aqui até a exaustão. O importante aqui – até para cumprir um papel
de ressalva metodológica e epistemológica – é ressaltar o fato de que o uso geral que fiz
desta dualidade ao longo desta pesquisa se deu justamente no sentido de contrastar e
justapor os discursos que faziam uso deste vocabulário com as práticas que pude observar,
interpretar e analisar. Trata-se, contudo, de uma dualidade maleável, e é justamente essa
maleabilidade um dos principais fatores que permitem suas dissimulações, movendo as
gradações um pouco para a direita ou um pouco para a esquerda, percebendo as pessoas ou
não.

Público ou não, um espaço de lazer e sociabilidade como o do Pontão – assim como


tantos outros, especialmente quando voltados com ênfase maior para o consumo econômico
– parece verdadeiramente interditar a possibilidade do político. Político que entendo aqui
sempre como de acordo com a definição de Hannah Arendt (1998) para quem, em sua
forma ideal, se definiria resumidamente como se tratando de um espaço onde existam
relações face-a-face e onde a diferença, quando encontrada e possuindo caráter conflitual,
pudesse ser devidamente negociada. É neste sentido que digo que o político, dentro do
Pontão, parece se reduzir a uma relação que parte de suas bolhas de sociabilidade para
dentro. Suas diferenças, contudo, mesmo que provavelmente um tanto atenuadas posto que,
no caráter de um grupo reduzido acabe tendendo a ter um acesso seletivamente controlado,
continuam ainda assim existindo em algum grau, tendo de ser resolvidas em diversos níveis
e através de diversas estratégias de negociação – freqüentemente assumindo inclusive um
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caráter lúdico –, mas que não pretendo explorar agora.

O político das bolhas sociais, sendo um político de dentro para dentro, não se
relaciona com quem está do lado de fora. Não se preocupa em estigmatizar ou não. Reduzir
a tipificações, ou encaixar o outro em pacotes readymade de outridade. No mundo em que
o outro, mais do que um elemento político, se transforma em elemento de perturbação de
ambientes e de perfuração das frágeis paredes que protegem suas bolhas de sociabilidade, a
relação entre o aqui fora; fora dos bares, dos restaurantes, dos caixas, dos carros, das
lanchas, das mesas, das contas, das lâmpadas, dos postes de luz, da bebida, fora da música,
fora de hora e fora de lugar; e o lá dentro; dentro das paredes, dentro dos muros, dentro do
carro, dentro do controle e dentro do clima; é uma relação, enfim, que parece se tornar cada
vez mais distante, e composta por um fluxo cada vez menor de vocábulos. Ainda que a
própria Arendt (1987) insista que o seu “homem público” se afirma socialmente e se
transforma em sujeito político mesmo quando entrincheirado em seus lugares, e que
Jacques Rancière (1996) afirme por sua vez que o seu “espaço público” não se ergue na
conformidade das falas, mas na comunidade política do “desentendimento”, creio, contudo,
que resta talvez muito pouco de político nos desentendimentos de um espaço de consumo,
lazer e sociabilidade como o do Pontão. E mais do que isso, tenho sérias dúvidas sobre a
capacidade ou mesmo o desejo deste homem público arendtiano – caso ele freqüente de fato
o Pontão – de abandonar o espaço imperturbável de suas bolhas ou trincheiras de
sociabilidade em função de um ideal de transformação de si em sujeito político. Exprimir
seus incômodos de forma pública e política pode ser dispendioso demais para a diplomacia
tácita do silêncio que parece tanto envolver os de fora e os de dentro, tanto entre os dois
quanto dentro de si próprios. Para o Ébert, a Andréia, o Everaldo, o Joca, o Régis, a
Cristina, o Gilvan, e tantos outros, acima do político e do econômico, parecia estar o clima.
Delicado demais para incomodar-se em se deixar perturbar em demasia com o ganho ou
perda de cadeiras – um incômodo demasiado por si só. Fundar uma identidade própria para
algum tipo de atuação política seria invasivo demais para trincheiras tão dispersas e
acomodadas. Identificá-los como os que estão aqui fora e os que estão lá dentro é
fabricação identitária minha, com fins meramente funcionais e é, de qualquer forma,
deveras insuficiente para expor todas as oposições e estigmas que podem existir
simultaneamente, em uma mesma noite de Pontão. O melhor a fazer, afinal, parece ser
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mesmo tentar se agarrar às cadeiras que sobrarem. E se não der, ir para o gramado sem
reclamar. Ou reclamando, sim, mas em voz baixa. Do contrário, é perigoso que alguém
ouça. E aí, seria incômodo.

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