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TEMPO PASCAL. TERCEIRA SEMANA.

QUINTA-FEIRA

65. O PÃO QUE DÁ A VIDA ETERNA


– O anúncio da Sagrada Eucaristia na sinagoga de Cafarnaum. O Senhor pede-nos uma fé
viva. Hino Adoro te devote.

– O mistério da fé. A Transubstanciação.

– Os efeitos da Comunhão na alma: sustenta, repara e deleita.

I. EU SOU O PÃO DA VIDA. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e


morreram. Este é o pão que desceu do céu para que todo aquele que dele
comer não morra1. É o surpreendente e maravilhoso anúncio feito por Jesus
na sinagoga de Cafarnaum e que lemos hoje no Evangelho da Missa. O
Senhor continua: Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer
deste pão, viverá eternamente. E o pão que eu hei de dar é a minha carne
para a salvação do mundo2.

Jesus revela o grande mistério da Sagrada Eucaristia. As suas palavras


são de um realismo tão grande que excluem qualquer outra interpretação.
Sem a fé, essas palavras não têm sentido. Pelo contrário, se pela fé
aceitamos a presença real de Cristo na Eucaristia, a revelação de Jesus
torna-se clara e inequívoca, e mostra-nos o infinito amor de Deus para
connosco.

Adoro te devote, latens deitas, quae sub his figuris vere latitas: “Adoro-vos
com devoção, Deus escondido, que sob estas aparências estais
verdadeiramente presente”, dizemos à Sagrada Eucaristia, com palavras do
hino composto por São Tomás e que há muitos séculos foi adotado pela
liturgia da Igreja. É uma expressão de fé e piedade que nos pode servir para
manifestar o nosso amor, pois constitui um resumo dos principais pontos da
doutrina católica sobre este sagrado mistério.

“Adoro-vos com devoção, Deus escondido”, repetimos bem devagar na


intimidade do nosso coração, com fé, esperança e amor. Os que estavam
naquele dia na sinagoga entenderam o sentido profundo e realista das
palavras do Senhor; se as tivessem entendido num sentido simbólico ou
figurado, não se teriam deixado invadir pelo assombro e pela confusão, como
São João diz a seguir, nem teria havido muitos que abandonaram o Senhor
naquele mesmo dia. Duras são estas palavras. Quem as pode ouvir?3, dizem
aqueles homens enquanto se retiram. São duras – continuam a ser duras –
para os que não têm o coração bem disposto, para os que não admitem sem
sombra de dúvida que Jesus de Nazaré, Deus que se fez homem, se
comunica desse modo aos homens, por amor. “Adoro-vos com devoção,
Deus escondido”, dizemos-lhe na nossa oração, manifestando-lhe o nosso
amor, o nosso agradecimento e o assentimento humilde com que o acatamos.
É uma atitude imprescindível para nos aproximarmos deste mistério de Amor.

Tibi se cor meum totum subiicit, quia te contemplans totum deficit: “A Vós
se submete o meu coração por inteiro e se rende totalmente ao contemplar-
vos”. Sentimos necessidade de repetir estas palavras muitas vezes, porque
são muitos os incrédulos. O Senhor também nos pergunta a nós, a todos os
que queremos segui-lo de perto: Também vós quereis partir?4 E ao vermos a
desorientação e a confusão em que andam tantos cristãos que se separaram
do tronco da fé, que têm a alma indiferente às realidades sobrenaturais, o
nosso amor reafirma-se: “A Vós se submete o meu coração por inteiro”.

A nossa fé na presença real de Cristo na Eucaristia deve ser muito firme:


“Cremos que, assim como o pão e o vinho consagrados pelo Senhor na
Última Ceia se converteram no seu Corpo e no seu Sangue, os quais pouco
depois seriam oferecidos por nós na Cruz, assim também o pão e o vinho
consagrados pelo sacerdote se convertem no Corpo e no Sangue de Cristo,
que está sentado gloriosamente no Céu; e cremos que a presença misteriosa
do Senhor, sob a aparência daqueles elementos, que continuam a aparecer
aos sentidos da mesma maneira que antes, é verdadeira, real e substancial”5.

II. NÃO SE PODEM MITIGAR as palavras do Senhor: O pão que eu hei de


dar é a minha carne para a salvação do mundo. “Eis o mistério da fé”,
proclamamos imediatamente depois da Consagração na Santa Missa. Essa
foi e é a pedra de toque da fé cristã. Pela transubstanciação, o pão e o vinho
“já não são o pão comum e a comum bebida, mas sinal de uma coisa
sagrada, sinal de um alimento espiritual; mas além disso adquirem um novo
significado e um novo fim enquanto contêm uma «realidade» que com razão
denominamos ontológica; porque sob as referidas espécies já não existe o
que antes havia, mas algo completamente diferente [...], visto que, uma vez
convertida a substância ou natureza do pão e do vinho no Corpo e no Sangue
de Cristo, já nada resta do pão e do vinho, a não ser as aparências: debaixo
delas está presente Cristo todo inteiro, na sua realidade física, corporalmente,
ainda que não do mesmo modo que os corpos estão num lugar”6.

Olhamos para Jesus presente no Sacrário, talvez a poucos metros de nós,


ou vamos com o coração à igreja mais próxima, e lhe dizemos que sabemos
pela fé que Ele está ali presente. Cremos firmemente nas promessas que fez
em Cafarnaum e que realizou pouco depois no Cenáculo: Credo quidquid dixit
Dei Filius: nihil hoc verbo veritatis verius: “Creio em tudo o que disse o Filho
de Deus; nada de mais verdadeiro que esta palavra de verdade”.

A nossa fé e o nosso amor devem manifestar-se especialmente no


momento da Comunhão. Recebemos o Pão vivo que desceu dos céus, o
alimento absolutamente necessário para chegarmos à meta. Recebemos o
próprio Cristo, perfeito Deus e homem perfeito, misteriosamente escondido,
mas desejoso de comunicar-nos a vida divina. Nesse momento, mediante a
sua Humanidade gloriosa, a sua Divindade actua na nossa alma com uma
intensidade maior do que quando esteve aqui na terra. Nenhum daqueles que
foram curados – Bartimeu, o paralítico de Cafarnaum, os leprosos... – esteve
tão perto de Cristo – do próprio Cristo – como nós o estamos em cada
Comunhão. Os efeitos que este Pão vivo, Jesus, produz na nossa alma são
incontáveis e de uma riqueza infinita. A Igreja resume-os nestas palavras:
“Todos os efeitos que a comida e a bebida materiais produzem na vida do
corpo, sustentando, reparando e deleitando, realiza-os este sacramento na
vida espiritual”7.

Oculto sob as espécies sacramentais, Jesus espera-nos. Ficou para que o


recebêssemos, para nos fortalecer no amor. Examinemos hoje como é a
nossa fé, vejamos como é o nosso amor, como preparamos cada Comunhão.
Dizemos ao Senhor com Pedro: Nós cremos e sabemos que tu és o Santo de
Deus8. Tu és o nosso Redentor, a razão do nosso viver.

III. A COMUNHÃO SUSTENTA a vida da alma de modo semelhante ao de


como o alimento corporal sustenta o corpo. A recepção da Sagrada Eucaristia
mantém o cristão na graça de Deus, pois a alma recupera-se do contínuo
desgaste que sofre devido às feridas que nela permanecem após o pecado
original e os pecados pessoais. Mantém a vida de Deus na alma, livrando-a
da tibieza; e ajuda a evitar o pecado mortal e a lutar eficazmente contra os
veniais.

A Sagrada Eucaristia aumenta também a vida sobrenatural, fá-la crescer e


desenvolver-se. E, ao mesmo tempo que sacia espiritualmente, aumenta na
alma o desejo dos bens eternos: Os que me comem terão ainda mais fome, e
os que me bebem terão ainda mais sede9. A comida material converte-se
naquele que a come e, consequentemente, restaura-lhe as perdas e
acrescenta-lhe as forças vitais. A comida espiritual, porém, converte nela
aquele que a come, e assim o efeito próprio deste sacramento é a conversão
do homem em Cristo, para que não seja ele quem vive, mas Cristo nele; e,
em consequência, tem um duplo efeito: restaura as perdas espirituais
causadas pelos pecados e deficiências e aumenta as forças das virtudes”10.

Por último, a graça que recebemos em cada Comunhão deleita aquele que
comunga com as devidas disposições. Nada se pode comparar à alegria da
Sagrada Eucaristia, à amizade e proximidade de Jesus presente em nós.
“Jesus Cristo, durante a sua vida mortal, não passou nunca por lugar algum
sem derramar as suas bênçãos abundantemente, e daí podemos deduzir
como devem ser grandes e preciosos os dons de que participam aqueles que
têm a felicidade de recebê-lo na Sagrada Comunhão; ou, para dizê-lo melhor,
como toda a nossa felicidade neste mundo consiste em receber Jesus Cristo
na Sagrada Comunhão”11.

A Comunhão é “o remédio para as nossas necessidades quotidianas” 12,


“remédio de imortalidade, antídoto contra a morte e alimento para vivermos
para sempre em Jesus Cristo”13. Concede a paz e a alegria de Cristo à alma,
e é verdadeiramente “uma antecipação da bem-aventurança eterna”14.

De todos os exercícios e práticas de piedade, não há nenhum cuja eficácia


santificadora possa comparar-se à digna recepção deste sacramento. Nele
não somente recebemos a graça, mas o próprio Manancial e Fonte donde ela
brota. Todos os sacramentos se ordenam para a Sagrada Eucaristia e têm-na
por centro15.

Jesus, oculto sob os acidentes do pão, deseja que o recebamos com


frequência: o banquete, diz-nos Ele, está preparado 16. São muitos os
ausentes e Jesus espera-nos, ao mesmo tempo que nos envia a anunciar aos
outros que também os espera a eles no Sacrário.

Se o pedirmos à Santíssima Virgem, Ela nos ajudará a abeirar-nos da


Comunhão cada vez mais bem preparados.

(1) Jo 6, 48-50; (2) Jo 6, 51; (3) Jo 6, 60; (4) cfr. Jo 6, 67; (5) Paulo VI, Enc. Credo do povo de
Deus, 24; (6) Paulo VI, Enc. Mysterium Fidei, 3-IX-1965; (7) Conc. de Florença, Bula
Exsultate Deo; Dz 1322-698; (8) Jo 6, 70; (9) Jo 6, 35; (10) São Tomás, Coment. ao livro IV
das Sentenças, d. 12, q. 2, a. 11; (11) Cura d’Ars, Sermão sobre a Comunhão; (12) Santo
Ambrósio, Sobre os mistérios, 4; (13) Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, 20; (14)
cfr. Jo 6, 58; Dz 875; (15) cfr. São Tomás, Suma Teológica, 3, q. 65, a. 3; (16) cfr. Lc 14, 15 e
segs.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)