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DETERMINANTES DA ESCOLHA DE CURSO DOS ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR

1 Introdução

A questão dos determinantes de escolhas vocacionais e profissionais, no ensino superior,


constitui um fenómeno que tem merecido, em muitos países, várias pesquisas por parte dos
especialistas da área. Contudo, no nosso país, parecem ser escassas ou inexistentes as
pesquisas neste domínio, provavelmente pelo facto destes serviços não constituírem realidade
tangível nas instituições de ensino superior.
Entretanto, a necessidade de fazer uma decisão vocacional e profissional sempre foi um
momento conturbado por factores de ordem pessoal, sociocultural e político-económicos que
no momento da escolha incidem sobre o estudante. Tais factores criam condições para que o
processo de escolha do tipo de curso e da profissão seja difícil.
Este estudo, enquadra-se no âmbito da orientação escolar e profissional (OEP) e, tem como
tema: “Os determinantes da escolha de curso dos estudantes do Ensino Superior”.
A pesquisa foi realizada na Faculdade de Ciências Naturais e Matemática (FCNM) da
Universidade Pedagógica (UP) em Maputo, nos cursos de Bacharelato e Licenciatura em
Ensino de Biologia (EB), de Física (EF) e de Química (EQ), com um universo de
381estudantes dos quais 127, isto é, 33% constituem a amostra.

1.1 Problema e justificativa

O ponto de partida desta pesquisa surge do fenómeno das desistências, mudanças de curso e
insucesso escolar constatado nos cursos de EB, EF e EQ, segundos os dados da FCNM da UP.
(Anexo 1 e 2).
De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (Revista
da OCDE, 2005), muitos estudantes do ensino superior dispõem de poucas, ou mesmo
nenhumas, possibilidades de acesso a serviços de OEP. Os serviços são, muitas vezes,
escassos e não proporcionam aos estudantes a gama de actividades de que estes necessitam
para tomar decisões de carreira de forma fundamentada. Regista-se, também, falta de pessoal
qualificado para corresponder às necessidades de OEP dos estudantes do ensino superior.
(Ibidem).
Bock (2001), na sua tese de mestrado, considerando que os determinantes das escolhas
profissionais devem ser vistos numa perspectiva holística, onde a formação da identidade do
indivíduo é vista como sendo multi-determinada por factores de natureza biológica, isto é,

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individuais e factores de ordem histórica, na convivência social, advoga que, no momento da


escolha não deve existir a dominância de determinantes. O posicionamento de Bock, deve-se
ao facto de que a escolha de curso é multi-determinada e a sobrevalorização de um certo
grupo de determinantes resulta numa escolha que pode trazer consequências negativas.
O que se verifica, em relação a estes estudantes, é o facto de que, depois do término do
ensino pré-universitário, vêm-se tendo de fazer uma escolha referente ao curso que devem
seguir, todavia, na maior parte dos casos, não foram preparados para esse momento. É um
facto que o conhecimento para os estudantes sobre tipo de estudos se está mais apto ou qual
profissão adequa-se às suas particularidades individuais, não é de fácil acesso, posto que,
entre outras razões, suas aptidões são, por eles, desconhecidas ou parcialmente conhecidas.
Deste modo, a escolha parece ser influenciada pelos êxitos escolares ou pelo desejo da família
que impõe sua carreira tradicional, ou, ainda, por outros factores sociais, políticos e
económicos. (Ribeiro e Silva, 1970).
O resultado de escolhas desta natureza, naturalmente, é a existência de estudantes perdidos
nos cursos, com rendimento fraco ou nulo e com frequentes mudanças de curso e, também, de
futuros profissionais desmotivados. Isto acontece porque, muitas vezes, os estudantes pouco
ou nada sabem do variadíssimo e complexo mundo do trabalho, a família pelo carinho
excessivo ou pelo seu demasiado optimismo aliado as preocupações de ganho imediato ou de
posições brilhantes, o desconhecimento das condições técnicas, económicas e sociais das
actividades profissionais, por um lado, o grupo de amigos, por outro, não constituem juízes
imparciais que possam apreciar devidamente as aptidões. Estes são, entre outros, os
determinantes que condicionam as opções dos estudantes.
Os dados da FCNM-UP, referentes a estes cursos, mostram que, no período de 2004 a
2009, ano em que entrou em vigor o novo currículo da UP, com relação ao curso de EB, dos
257 estudantes admitidos, apenas 94 bacharéis e 25 licenciados foram graduados. Este curso
registou um número de nove desistências e 10 transferências. Quanto ao curso de EF,
ingressaram 161 estudantes, contudo, só foram graduados 52 bacharéis e 15 licenciados tendo
registado um número de 17 desistências e seis transferências. E por último, no concernente ao
curso de Química, ingressaram 205 estudantes, todavia, a FCNM-UP graduou, somente, 79
bacharéis e 47 licenciados tendo observado um número de 19 desistências e três
transferências. (cf. Anexos 1 e 2). Estes factos são bastante preocupantes pois traduzem, de
certa forma, algum insucesso escolar.

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Este cenário é condicionado pelos determinantes que influenciam as escolhas de curso


destes estudantes. Assim, colocamos a seguinte pergunta de partida:

- Quais são os determinantes que, no momento da escolha de curso, influenciam a


escolha de curso dos estudantes de Bacharelato e Licenciatura em EF de EB, de EQ?

A realização deste estudo justifica-se pelo facto de se pretender, por um lado, dar uma
contribuição para a compreensão da natureza e da dialéctica dos determinantes que
condicionam as preferências de curso dos estudantes que ingressam no ensino superior, por
outro lado, contribuir para uma intervenção vocacional e profissional baseada num
conhecimento substancial da realidade vivida por estes no momento da escolha de curso.
Constitui um facto de que há necessidade de melhorar a qualidade do processo de ensino-
aprendizagem e melhor integração institucional dos estudantes no ensino superior de modo a
garantir o sucesso escolar destes, isto é possível através de estudos com a camada estudantil, o
que se pretende com a presente pesquisa.

Outro dado, igualmente, importante é o facto de que diante das constantes transformações
socioculturais e político-económicas, que influenciam tanto as características do mercado de
emprego, bem como, a natureza da demanda pelo ensino superior impõem-se a necessidade de
pesquisas que poderão contribuir para a compreensão e intervenção vocacional no ensino
superior.

1.2 Objectivos

Constituem objectivos gerais:


- Conhecer quais são os determinantes de escolha do curso que influenciaram as
preferências dos estudantes de Bacharelato e Licenciatura em EB, EF e EQ;
- Mostrar a necessidade da criação de serviços especializados de OEP no ensino
superior.

Os objectivos específicos são:


- Identificar os determinantes que estão relacionados com as escolhas de curso;

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- Correlacionar a imagem sobre a profissão, motivação académica, identificação com o


curso, gosto pela área e informação sobre o mercado de emprego, auto-realização,
auto-percepção sobre as aptidões e resultados da aprendizagem com a escolha de
curso;
- Verificar quais os determinantes (imagem sobre a profissão, motivação académica,
identificação com o curso, gosto pela área e informação sobre o mercado de emprego,
auto-realização, auto-percepção sobre as aptidões e bom desempenho no nível pré-
universitário/resultados da aprendizagem), mais relevantes para os estudantes na
escolha de curso;
- Comparar a influência dos determinantes no contexto particular de cada curso;
- Diferenciar a influência dos determinantes no contexto do ano de frequência.

1.3 Hipóteses

- No momento da escolha, os estudantes dos cursos de Bacharelato e Licenciatura em


EB de EF, de EQ, parecem tender a fazer as suas opções tomando como base apenas
os determinantes externos da escolha.

- As escolhas dos estudantes dos cursos de Bacharelato e Licenciatura em EF de EB,


de EQ parecem tender a ser caracterizados por uma dominância de certos
determinantes (intrínsecos e extrínsecos).

Provavelmente, no momento da escolha de curso, estes estudantes fazem suas escolhas


considerando apenas factores externos ignorando o conhecimento das particularidades
individuais da sua personalidade. Outrossim, é provável que as escolhas destes estudantes
reflictam a dominância recíproca de certos determinantes, internos ou externos.

1.4 Operacionalização dos conceitos

A operacionalização dos conceitos tem em vista “…a ‘clarificação’ e ‘purificação’ dos


discursos científicos com vista a neles ser assumida uma distância efectiva em relação à
linguagem vulgar”. (Almeida e Pinto, 1990:48).

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1.4.1 Variáveis

Almeida e Pinto (1990:114) vêm a variável como sendo "...um conceito operacional e
classificatório que, através de um conjunto teoricamente relevante, assume vários valores."
Deste modo, explicitamos as variáveis da pesquisa e suas respectivas dimensões.

Variável independente

Constitui variável independente ou explicativa os determinantes de escolha de curso.

Variável dependente

A variável dependente circunscreve às escolhas de curso por parte dos estudantes.


Estas variáveis serão medidas através de um questionário fechado previamente elaborado
para o efeito. Contém 20 questões, cada um delas com as suas respectivas alternativas.
Determinantes internos são aqui entendidos como os aspectos individuais e, portanto,
intrínsecos em relação ao indivíduo. Enquanto que, os determinantes externos referem-se aos
factores socioculturais e político-económicos da sociedade onde o indivíduo se encontra
inserido.
A escolha de curso é vista, como sendo a decisão ou opção escolar e profissional que é feita
pelo estudante. É a preferência por um certo curso com sua profissão respectiva.

1.5 Teoria de base

O modelo teórico que serve de base à pesquisa resume-se à teoria sócio-histórica de Sílvio
Bock (2001), onde temos uma perspectiva holística e de multi-determinação oferecendo, deste
modo, uma base para a abordagem tanto os determinantes individuais, bem como, dos
determinantes externos na discussão do fenómeno de escolha de curso.
Entretanto, podemos referir que na decisão de escolha de curso os determinantes
extrínsecos, como sejam, os factores económicos, culturais e sociais condicionam o processo
de decisão e inserção escolar e profissional no ensino superior.

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Apesar de reconhecermos a validade e os contributos que as outras perspectivas teóricas


oferecem à investigação neste domínio, do nosso ponto de vista, esta perspectiva apresenta-se
como proposta mais útil e integradora, ao trazer uma concepção dialéctica dos determinantes.
É preciso referir que este modelo conceptual está alicerçado na teoria sócio-histórica de
Vygotsky que traz uma visão correlacionada indivíduo-sociedade, numa abordagem dinâmica
e dialéctica. Isto equivale dizer que esta nova concepção não dá ênfase a determinantes
internos, nem aos determinantes externos mas, traz uma visão inter-relacionada destes como
contribuindo, na mesma proporção para as decisões vocacionais e profissionais.
A opção por esta perspectiva, justifica-se, também, pelo facto desta proporcionar um
quadro conceptual que permite articular as variáveis pessoais e contextuais, superando as
abordagens polarizadas.

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CAPÍTULO 1 - DETERMINANTES DE ESCOLHA DE CURSO

O estudo dos determinantes de escolhas vocacionais, sempre, foi uma temática bastante
discutida no âmbito das teorias de desenvolvimento vocacional. Todavia, as teorias clássicas
trouxeram uma abordagem dos determinantes de escolhas vocacionais polarizadas ou em
factores internos da escolha (ênfase no determinismo individual), ou nos factores externos da
escolha (ênfase no determinismo económico e social). Contudo, a teoria sócio-histórica, na
sua abordagem dos determinantes de escolhas vocacionais, supera as abordagens polarizadas
considerando que não deve existir uma dominância mas, sim, uma abordagem holística e
dialéctica tanto dos determinantes internos, bem como, dos determinantes externos.
A decisão vocacional é um momento crucial que cruza a trajectória académica de qualquer
estudante. Lucchiari (1992), considera a escolha vocacional o momento em que o indivíduo
reflecte e articula aquilo que vai constituir o seu projecto de vida profissional, na perspectiva
de buscar uma trajectória que condiz com a sua futura relação produtiva no mundo mercado
de emprego. Ora, essa articulação deve incluir uma conjugação entre determinantes internos e
externos o que poderá contribuir para que esse projecto profissional obtenha sucesso. O
conjunto de factores internos e externos não devem ser negligenciados, mas conjugados.
Bohoslavsky (1998:88), traz a ideia da escolha ajustada como sendo aquela em que:

“...o auto-controlo permite que o adolescente faça coincidir seus gostos e


capacidades com as oportunidades exteriores, faça um balanço ou síntese,
que pode ser defensiva. Nela, não só intervém sua capacidade de controlo,
mas a síntese entre responsabilidade individual, consigo mesmo, e
responsabilidade social.

Esta abordagem de Bohoslavsky, mostra claramente que os elementos individuais da


escolha devem ser conjugados com as possibilidades e características do mercado de emprego
o que cria condições para que esta escolha possa ser considerada ajustada.
Campos (1990), categoriza dois grupos de determinantes de escolha vocacional (DEV),
nomeadamente: factores individuais e factores institucionais. Relativamente aos factores
individuais considera àqueles referentes às características dos jovens e as do meio próximo
em que se desenvolvem. Enquanto, no que diz respeito ao segundo grupo, aponta as
características do meio escolar englobando às condições anteriores e contemporâneas da
escolha e as características do meio social. Enquadra, também, neste grupo factores referentes
aos aspectos económicos das profissões e factores dependentes das condições socioculturais.

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Contudo, Falabella et. al. (Fonte: www.netpsi.com.br/artigos/041103.), apontam como


determinantes de escolha (DE) factores subjectivos, emocionais e pessoais que, igualmente,
não devem ser descriminados no estudo dos determinantes na orientação vocacional (OV),
entretanto, referenciam outros factores como o grupo social, o meio sociocultural, os
processos psíquicos inconscientes, os preconceitos com relação às profissões e suas distorções
cognitivas, crenças e mitos como condicionantes da escolha vocacional (Kowarski, 2009).
Todavia, é consensual a ideia de que existem certos determinantes internos e externos que
condicionam as escolhas escolares e profissionais.
Os determinantes submetidos à pesquisa foram: a imagem subjectiva sobre a profissão, a
motivação académica, a identificação com o curso e com a profissão, o gosto pela área e
informação sobre o mercado de emprego, a auto-percepção sobre as aptidões, a auto-
realização e os resultados da aprendizagem. À seguir, é feita uma abordagem mais detalhada
destes determinantes.

1.1 Imagem subjectiva sobre o curso

Quando falamos de imagem subjectiva sobre o curso, estamos a nos referir às


representações sociais. Jodelet (1989: 36 apud Félix, 1998: 438), afirma que a representação
social é “uma forma de conhecimento socialmente elaborado e partilhado, com uma
orientação prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto
social”. Portanto, entendemos a imagem subjectiva sobre o curso como sendo o conjunto dos
conhecimentos do indivíduo sobre as profissões, o prestígio destas, os estereótipos a elas
associados, isto é, as representações socioprofissionais. Estas representações são veiculadas
pela família, pelos pares ou grupo de amigos e por outros factores socializantes. (Campos, Op.
Cit.). O meio familiar, sobretudo, é o factor socializante que mais influência exerce na
formação da imagem sobre o curso, pois é onde o indivíduo comunga certos ideais e valores
sociais vigentes na sociedade. Bohoslavsky (Op. Cit.:58), afirma que “O grupo familiar
constitui o grupo de participação e de referência fundamental, e é por isso que os valores
desse grupo constituem bases significativas na orientação…”. É preciso dizer que, os pais,
em particular, tendem a transmitir aos filhos as competências sociais que eles consideram
essenciais para o sucesso profissional dos seus filhos. No momento da escolha de curso, as
imagens socioprofissionais que os estudantes trazem consigo acabam, em alguma medida, por
influenciar suas escolhas e, é de realçar que em momentos decisórios as pessoas diferem em

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relação àquilo que atribuem maior ou menor valor, isto em relação às escolhas escolares e
profissionais. (Giacalglia, 2003). A medição deste factor contribuirá para a percepção da sua
influência na preferência pelo curso.

1.2 Motivação académica

A motivação é, de longa data, uma variável reconhecida como de suma importância no


estudo e compreensão do comportamento humano. Vernon (1973, apud Deci, 1975), afirma
que se trata de uma força interna que emergiria, regularia e sustentaria todas as nossas acções.
Porém, pretende-se, aqui, falar da motivação no contexto académico.
A motivação académica é aqui vista como sendo o conjunto de aspirações, ideias e
princípios que sustentam a escolha académica do indivíduo, assim como, a sua atitude,
permanência e desenvolvimento na orientação escolhida. Investigações recentes na linha de
motivação para a realização académica, referem o facto de que os estudantes perseguem
diferentes objectivos de realização nas situações de ensino-aprendizagem. (Dweck, Chiu e
Hong, 1995; Machr e Nicholls, 1980; Nicholls, 1984 apud Rosário, 2005). Isto significa que,
alguns estudantes procuram aumentar a sua competência, enquanto outros estão preocupados
com a demonstração de níveis de capacidade superior. A motivação contém duas orientações -
intrínseca e extrínseca. A natureza da motivação vai ditar, por sua vez, a motivação da escolha
que o indivíduo vai fazer e os seus níveis de empenho e de interesse em relação à escolha
feita. Ao medir-se esta variável, pretendeu-se saber em que medida é que os estudantes destes
cursos se consideram motivados para o curso escolhido.

1.3 Identificação com o curso e com a profissão

Consideramos a identificação com o curso e com a profissão como sendo o vínculo que o
estudante estabelece entre os seus gostos, interesses e capacidades com o tipo de estudo a
seguir e a respectiva área profissional. No momento em que o estudante vai fazer a sua
decisão, deve fazer uma análise aprofundada buscando estabelecer uma correlação entre as
particularidades da sua personalidade com a profissão que vai representar a sua identidade
ocupacional. Esta ideia é consubstanciada por Bohoslavsky (1991:104), quando considera que

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“… uma boa escolha depende de identificações não distorcidas onde


surja, da análise dos sistemas de atitudes, um confronto entre a fantasia e a
realidade: o confronto do ego com o mundo exterior, do conhecido com o
desconhecido…dos estudos do 2º grau com os universitários…”.

Por isso a escolha de um curso que vai de acordo com o seu jeito particular é uma boa
opção para qualquer estudante. O que se pretende é avaliar em que medida os estudantes do
nosso estudo sentem-se identificados com o curso escolhido.

1.4 Gosto pela área e informação sobre o mercado de emprego

O gosto pela área é a inclinação pessoal e a satisfação do indivíduo por determinado curso.
Os estudantes, muitas vezes, optam por determinado curso porque gostariam de exercer
determinada actividade, sentem-se inclinados para determinado tipo de ocupação (Rosa,
1982), o que nós chamamos gosto pela área. É um facto que a tomada de qualquer decisão
exige a propensão e a satisfação do indivíduo, aliado a algum conhecimento substancial sobre
as profissões ou profissão em que deseja engrenar, o que poderá orientar e sustentar o seu
processo de tomada de tal decisão. A escolha de curso obedece a esta regra, o que significa
que ao pretender fazer a sua escolha por um determinado curso os estudantes, provavelmente
buscam um conjunto de informações relativas ao valor da respectiva profissão no mercado de
emprego, isto é, o que chamamos de informação sobre o mercado de emprego. Portanto,
entendemos a busca de informação sobre o mercado de emprego como sendo o processo de
procura de informação sobre cursos e profissões, informação que poderá dar sustentabilidade
à preferência por determinado curso e profissão.

1.5 Auto-percepção sobre as aptidões

A avaliação das aptidões representa uma esfera relevante para a compreensão do fenómeno
das decisões escolares e profissionais, sobretudo para os processos de intervenção. (Pinto,
2004). A auto-percepção sobre as aptidões está relacionada com àquilo que é o auto-conceito
do indivíduo mas, neste caso, particular em relação à maneira como o indivíduo avalia suas
aptidões gerais. A escolha vocacional parece, em grande escala, estar ligada à percepção que o
estudante tem das suas aptidões. No decurso do processo de aprendizagem, os estudantes vão
tendo percepções sobre as disciplinas em que conseguem obter sucesso e sobre as suas
competências o que acaba influenciando suas orientações escolares e profissionais. As

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aptidões condicionam, em grande medida, a aquisição de capacidades, todavia estas podem


permanecer ocultas e apenas potenciais dependentemente de factores orgânicos, psicológicos
e sociais. (Santos, 1963, Op. Cit.).

1.6 Auto-realização

A auto-realização que também pode ser expresso como motivo de realização é “…um
esforço persistente para o sucesso e um gosto por actividades nas quais as habilidades são
dirigidas a uma meta.” (Giacaglia, 2003:154). Alguns estudantes orientam as suas actividades
escolares para a meta de um objectivo ligado a satisfação pessoal, desenvolvimento do
máximo do seu potencial. Pretende-se, em relação a esta variável, avaliar qual é o seu valor
preditivo na escolha de curso.

1.7 Bom desempenho no nível pré-universitário/realização académica

Quando falamos de bom desempenho no nível pré-universitário ou realização académica


referimo-nos às experiências gratificantes que os indivíduos com bons resultados escolares
obtêm da sua escolaridade e que agem positivamente sobre suas aspirações, interesses e
valores. Para Campos (Op. Cit.),

“...o sucesso é sobre-determinado pelo sucesso, os bons alunos


tendem a investir mais na sua formação e, portanto, disponibilizam
mais recursos e utilizam-nos com maior sentido dos objectivos, para
exploração vocacional que conduz às escolhas adequadas”.

Isto significa que, o bom desempenho numa determinada disciplina é um determinante da


escolha da profissão. O desempenho académico, segundo afirma Souza (1997, apud Oliveira
et. al.), só é adequado quando o que o aluno aprendeu na sala de aula se estende e se incorpora
a outros conteúdos, previamente aprendidos, quando se manifesta na avaliação e, também,
sobretudo, quando tem uma relação com o quotidiano e aplicabilidade num contexto social
real influenciando a conduta do indivíduo. Para Esteban (Ibidem), o desempenho está
relacionado à quantificação do conhecimento do aluno. No momento da escolha do curso, o
sucesso nas disciplinas correlatas parecem fazer-se sentir influenciando as opções dos
estudantes. Com a medição desta variável, pretende-se saber em que medida as competências
percebidas dos estudantes influenciam nas suas escolhas de curso.

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CAPÍTULO 2 - METODOLOGIA

2.1 Tipo de pesquisa

O presente estudo constitui uma pesquisa não-experimental, uma vez que não é possível
manipular a variável independente e, por outro lado, procura estudar um fenómeno já
ocorrido, neste caso, as escolhas de curso. (Gil, 1999).

2.2 Campo de pesquisa

A pesquisa foi realizada na FCNM-UP, nos cursos de Bacharelato e Licenciatura em EB,


EF e EQ. A FCNM - UP, começou a funcionar a 05 de Agosto de 1986 e, localiza-se no
Bairro de Lhanguene. Lecciona, entre outros cursos, o Curso de Bacharelato e Licenciatura
em EB, EF e EQ onde localiza-se a nossa população.

2.3 População

População ou universo constitui:

“...o conjunto de seres animados ou inanimados que apresentam pelo menos


uma característica em comum.” A delimitação do universo consistirá em
explicitar que pessoas ou coisas, fenómenos etc. serão pesquisadas,
enumerando suas características comuns...” (Lakatos e Marconi, 1992: 108).

Constituiu a população do estudo um universo de 381 correspondente ao primeiro e quarto


ano de cada curso. Este universo apresenta características diversificadas em termos de sexo,
idade e ocupação. Deste modo, em termos específicos, no curso de Física tínhamos 43
estudantes e, no 4º ano, 78 estudantes. Quanto ao curso de Química, no 1º ano encontramos
39 estudantes e o 4º ano 84. Finalmente, no concernente ao 1º ano, do curso de Biologia,
tínhamos 39 estudantes e, no 4º ano 103 estudantes totalizando 381 o número global.

2.3.1 Amostra

Amostra diz respeito a “...uma porção ou parcela, convenientemente seleccionada do


universo (população); é um subconjunto do universo.” (Ibidem). Uma vez que, a técnica

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estatística a ser usada é a análise factorial é recomendável que a amostra seja no mínimo de 50
indivíduos e de preferência o tamanho da amostra deve ser maior que 100 indivíduos. Como
regra geral, o pesquisador deve garantir que no mínimo o número de indivíduos seja 5 vezes
maior que o número de variáveis a serem analisadas, e o tamanho mais aceitável seria uma
proporção de 10 para 1. (Anderson et. al., 2005).

Para a selecção da amostra usou-se a amostragem estratificada que segundo Gil (1999:102),
“...caracteriza-se pela selecção de uma amostra de cada subgrupo da população
considerada”. Assim, da população total constituída por 381 estudantes calculou-se, para a
obtenção da amostra, ⅓ do número total dos estudantes de cada turma, respectivamente,
primeiro e quarto ano de cada curso, representando, nesta perspectiva, o número total dos
estudantes ⅓ da população total, isto é, 33% do universo que constitui 127 estudantes. Deste
modo, relativamente a cada turma obteve-se:

- No 1º ano do curso de EB seleccionou-se 12 estudantes e, 34 estudantes no quarto


ano;
- O 1º ano do curso de EF, seleccionou-se 14 estudantes e, no 4º ano 26;
- No curso de EQ, seleccionou-se 13 estudantes do 1º ano e, 28 estudantes do 4º ano.
No total, a nossa amostra é de 127 estudantes.
Em relação aos elementos da amostra, estes foram seleccionados com base na amostragem
aleatória simples que consiste em dispor de uma base de sondagem onde todos os elementos
ou unidade da população alvos encontram-se listados (Sarndal et. al., 1992). A amostragem é
aleatória quando, a cada sorteio, todos os elementos da população têm a mesma probabilidade
de serem escolhidos para fazer parte da amostra. (Ibidem).

2.4 Caracterização da amostra

A descrição das características dos estudantes inqueridos reveste-se de grande importância


para a compreensão e interpretação dos resultados deste estudo. Segundo Triola (1999),
podemos dizer que o chute inicial para a análise e compreensão dos resultados duma pesquisa
começa com a caracterização da amostra em estudo de modo a identificar o tipo de pesquisa
da qual provém os dados. Assim, entre os 127 estudantes inqueridos, observou-se que a maior
percentagem encontra-se no curso de Biologia 36,22%, enquanto a segunda maior

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percentagem verificou-se no curso de Física 33,07% e no curso de Química encontramos


30,71%. (Gráfico 1).

Gráfico1: Distribuição dos estudantes por curso

curso
frequentado
curso de
Biologia
curso de
fisica
curso de
30,71%
36,22% quimica

33,07%

Grafico 1: Distribuicao por Curso

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

Em relação aos 127 estudantes inqueridos, verificou-se que 46 são do curso de EB dos
quais 34 são do quarto ano e 12 do primeiro ano. 42 são do curso de EF dos quais 25 são do
quarto ano e 17 do primeiro ano. 39 são do curso de EQ dos quais 26 são do quarto ano e 13
do primeiro ano. Fazendo um total de 42 estudantes do primeiro ano e 85 do quarto ano.
(Tabela 1).

Tabela 1: Curso vs ano de frequência

Count
ano que frequenta
primeiro ano quarto ano Total
curso frequentado curso de Biologia 12 34 46
curso de fisica 17 25 42
curso de quimica 13 26 39
Total 42 85 127

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

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2.5 Procedimentos

O prosseguimento da pesquisa deve ser norteado por certos princípios éticos dos quais
destacamos, aqui, ao pré-teste e alguns cuidados na administração do questionário, como
podemos constatar seguidamente.

2.5.1 Pré-teste

O questionário elaborado passou por um pré-teste que foi administrado colectivamente a


um grupo de 10 estudantes da população, correspondentes ao primeiro ano do curso de EF. O
pré-teste decorreu em sala de aula, no tempo concedido pelo director da referida turma. O
objectivo do pré-teste era de garantir a validade e a fidedignidade do questionário. O pré-teste
sugeriu algumas alterações em relação à inclusão de outras variáveis e modificações na
estrutura de algumas das questões.

2.5.2 Administração do instrumento de recolha de dados (questionário)

Os estudantes responderam ao inquérito em tempo de, aproximadamente, 30 minutos. O


questionário foi administrado pelo pesquisador sem a ajuda de terceiros. Todos os estudantes
conseguiram responder ao questionário dentro do tempo previsto. As questões foram lidas
pelo pesquisador e explicadas, aos estudantes, devidamente uma a uma até à última questão o
que facilitou a compreensão e resposta dos estudantes.

2.6 Técnica estatística – análise factorial

Segundo Anderson et al. (2005), análise factorial é um termo genérico de técnicas multi-
variadas, cujo propósito é a redução e sumarização de dados. Analisa as variáveis e tenta
explicá-las em termos das suas relações subjacentes comuns (factores). É uma técnica de
interdependência. A análise factorial tem como objectivo geral condensar a informação
contida num número de variáveis originais, em menor número de variáveis estatísticas
(factores) com perca mínima de informação.

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DETERMINANTES DA ESCOLHA DE CURSO DOS ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR

2.6.1 Princípios da análise factorial

Para poder-se aplicar a análise factorial, deve haver correlações entre variáveis e, a
estatística responsável para testar as correlações entre as variáveis é o KMO (Kaiser-Meyer-
Olkin) “...que varia entre zero e um, e compara as correlações de ordem zero com as
correlações parciais observadas entre as variáveis.” (Pestana e Gageiro, 2008:493). O KMO
perto de um indica coeficiente de correlações parciais pequenos, enquanto valores próximos
de zero indicam que a análise factorial pode não ser uma boa ideia, porque existe uma
correlação fraca entre as variáveis. (Ibidem). E, se essas correlações forem pequenas, é pouco
provável que partilhem factores comuns. Nesta pesquisa, as variáveis em questão estão
correlacionadas, visto que a medida de adequação amostral (KMO), encontra-se dentro dos
limites aceitáveis (KMO =0.632). Portanto, a aplicação da ACP sobre a amostra é adequada.
(Apêndice 2).

A medida da quantidade de informação explicada por cada dimensão geral é a sua variância
(Anderson, 2005) que é vista como sendo “… a soma do quadrado das diferenças entre os
valores da variável e a média, dividida pelo número total de observações…”. (Reis, 2000:
103).

Relativamente ao número de componentes a serem retidos observa-se na base de dados que


são sete determinantes principais. Assim, procura-se identificar as variáveis que pertencem a
cada determinante.

Uma determinante é escala múltipla, isto é, é uma combinação de diversas variáveis que
medem o mesmo conceito em uma única variável como tentativa de aumentar a confiabilidade
da medida. Na maioria das vezes, as variáveis separadas são somadas e então seu total ou
escore médio é usado na análise.

Serão usados os gráficos para comparar escores médios dos factores ao longo de algumas
variáveis nominais.

O processamento de dados foi feito com base no uso do programa Statistical Package for
Social Sciences (SPSS, versão 14.0).

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CAPÍTULO 3 – DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS DA CORRELAÇÃO


ENTRE A ESCOLHA DE CURSO E SEUS DETERMINANTES

3.1 Correlação no contexto geral

Os resultados foram obtidos com base no uso da análise factorial – uma técnica estatística
multi-variada.

3.1.1 Imagem sobre a profissão

Este determinante engloba os seguintes factores: o bom desempenho na disciplina ao longo


do curso; o auto-conceito; o aproveitamento geral na disciplina; a imagem actual do curso e
da respectiva profissão; o currículo atractivo correspondente às demandas do mercado de
emprego e o estatuto socioeconómico no país.
Em relação ao bom desempenho na disciplina ao longo do curso, 35,4% consideraram que
foram bons estudantes, 62,2% sempre foram estudantes razoáveis, 1,6% nunca foram bons
estudantes, e 0,8% escolheram a alternativa “outros”. (Apêndice 3, Tabela 11).
Quanto ao auto-conceito, 47,2% vêm-se com competência intelectual, 45,7% vêm-se com
interesse, 3,1% vêm-se desiludidos, 1,6% vêm-se sem competência intelectual e 0,8% vêm-se
sem interesse. (Apêndice 3, Tabela 13).
Em relação ao aproveitamento geral na disciplina, 0,8% estudantes consideraram que seu
aproveitamento é mau, 3,9% medíocre, 70,9% suficiente e 24,4% consideraram o seu
desempenho actual ser bom, 14 a 16 valores. (Apêndice 3, Tabela 14).
No que diz respeito à imagem actual do curso e da respectiva profissão 37,0% dos
inqueridos responderam que têm uma boa imagem do curso e da respectiva profissão, 32,3%
têm uma imagem muito boa e os restantes 26,0% consideraram ter uma imagem razoável
sobre o curso e a respectiva profissão. (Apêndice 3, Tabela 17).
No que concerne à atractividade do currículo e correspondência às demandas do mercado
de emprego, 41,7% dos estudantes consideram que o currículo é atractivo e corresponde às
demandas do mercado de emprego em Moçambique, 17,3% responderam a esta questão
negativamente, 39,4% tiveram uma resposta moderada, isto é, optaram pela alternativa “mais
ou menos” e 1,6% optaram pela alternativa “outros” não especificando quais. (Apêndice 3,
Tabela 19).

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Quanto ao estatuto socioeconómico no país os dados do inquérito indicam que 52,8% dos
estudantes consideram que o licenciado na sua área pode ter um bom estatuto socioeconómico
no país, enquanto 12,6% consideram que o licenciado na sua área não pode ter um bom
estatuto socioeconómico no país e os restantes 33,9% optaram pela alternativa “mais ou
menos” significando alguma reserva quanto a este assunto. (Apêndice 3, Tabela 20).
O aproveitamento geral na disciplina representa o factor de maior peso com 70,9% dos
estudantes a considerarem que têm o seu aproveitamento é suficiente, isto é, de 11 a 13
valores, numa escala de zero a 20. Este dado revela que, a maioria destes estudantes não
obtêm, na sua formação, notas superiores a 14 valores nas avaliações, o que revela que
enfrentam dificuldades na sua formação que têm como consequências as desistências, pedidos
de transferências e desmotivação.

Tabela 2: Determinante 1 e seus factores

Componente Explicada Variância

Determinante1: Imagem sobre a profissão 15.09%


Bom desempenho disciplina ao longo do percurso estudantil
Auto-conceito
Aproveitamento geral na disciplina
Imagem actual do curso e da respectiva profissão
Atractividade do currículo e correspondência às demandas do mercado de emprego
Bom estatuto socioeconómico no país

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

Esta componente é a variável com maior percentual de explicabilidade. Explica cerca de


15.09% da variância das correlações entre as variáveis individuais, influenciando em cerca de
15% na escolha do curso. (Tabela 2).
O facto da imagem sobre a profissão aparecer como primeiro determinante, revela que as
escolhas destes estudantes são influenciadas, em grande medida, por factores extrínsecos. A
família, sobretudo, o meio social, incluindo o grupo de amigos, exercem uma grande
influência, directa ou indirectamente, na decisão de escolha destes estudantes, uma vez que as
representações socioprofissionais, a atribuição de maior ou menor valor aos cursos e,

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consequentemente, às profissões são formadas e interiorizadas no meio familiar. Este


argumento é consubstanciado por Paixão (2004: 395), que afirma na sua obra “A avaliação
dos factores e processos motivacionais” que,

“…a organização subjectiva do futuro constitui uma dimensão


motivacional que influencia diversas áreas do desenvolvimento pessoal,
nomeadamente no desenvolvimento vocacional…funcionando como suporte
cognitivo e afectivo da realização de múltiplas tarefas e actividades de
carácter instrumental ou exploratório: realização de escolhas e ponderação
de opções ao longo de todo o ciclo de vida…”.

A imagem sobre o curso constitui, de facto, um factor motivacional bastante significativo


que, no caso da nossa amostra condicionou, de acordo com os resultados obtidos a decisão de
escolha de curso.

3.1.2 Motivação académica

Esta componente agrupa factores como o desempenho académico actual do estudante, o


nível motivacional, os interesses predominantes e as expectativas quanto ao mercado de
emprego.
Com relação ao desempenho académico actual do estudante observou-se que, 81,1% dos
estudantes consideraram-se criativos, 8,7% consideram-se não serem criativos e os restantes
10,2% optaram pela alternativa “outros”. (Apêndice 3, Tabela 9).
Em relação ao nível motivacional, 67,7% da amostra consideraram-se muito motivados,
29,1% pouco motivados e os restantes 2,4% sem nenhuma motivação. (Apêndice 3, Tabela
10).
Os interesses foram medidos sob o ponto de vista dos interesses científicos, humanitários e
económicos ao que os estudantes responderam em número de 70% que os seus interesses
predominantes são científicos, 11,0% consideram ter interesses humanitários, 17,3%
interesses económicos e os restantes 1,6% optaram pela alternativa “outros”. (Apêndice 3,
Tabela 12).
No que concerne às expectativas quanto à inserção no mercado de emprego, 38,6% dos
estudantes esperam uma fácil inserção, 32,3% difícil inserção, 24,4% esperam uma inserção
demorada e os restantes 4,7% escolheram a alternativa “outros”. (Apêndice 3, Tabela 21).
O factor desempenho académico actual revelou-se como o de maior significância entre os
estudantes com 81,1% destes que se consideram “estudantes criativos”, facto que é
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DETERMINANTES DA ESCOLHA DE CURSO DOS ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR

consubstanciado pelos dados que indicam que 67,7% dos estudantes têm um bom nível
motivacional.
O determinante motivação académica explica 8.89% da variância das correlações entre as
variáveis individuais, influenciando em cerca de 9% na escolha de curso (Tabela 3). Este
determinante representa o segundo com mais explicabilidade nas escolhas, como ilustram os
dados que 67,7% da amostra consideram-se com um bom nível motivacional. Na sua maioria,
podemos dizer que estes estudantes possuem uma motivação intrínseca, pois 70%, número
bastante expressivo, têm interesses científicos ou académicos (descobrir algo novo,
desenvolver ideias, fazer pesquisas no campo das ciências físicas, biológicas e outras).
Portanto, este facto justifica que este determinante apareça como o segundo com mais
significância.

Tabela 3: Determinante 2 e seus componentes

Componente Explicada Variância

Determinante 2: Motivação académica 8.89%


Desempenho académico actual do estudante
Nível motivacional
Interesses predominantes
Expectativa quanto à inserção no mercado de trabalho

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

3.1.3 Identificação com o curso

Este determinante abarca três factores, nomeadamente: necessidades que determinaram a


preferência pelo curso, a identificação com a profissão e a imagem do curso e da profissão
antes do ingresso.
No concernente às necessidades que determinaram a preferência pelo curso 34,6% dos
estudantes consideraram terem escolhido o curso por necessidades académicas (aquisição de
um nível académico superior), 4,7% afirmaram terem escolhido por necessidades económicas
(fazer face à falta de oportunidades de emprego), 2,4% foram influenciados por necessidades
sociais (busca de ascensão social através do estudo), e os restantes 58,3% consideram ter

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escolhido o curso por necessidade de adquirir competência e autonomia na área. (Apêndice 3,


Tabela 4).
Quanto à identificação com a profissão 56,7% dos estudantes identificam-se com ela,
11,8% não se identificam com a profissão e 24,4% têm um posicionamento moderado, isto é,
optaram pela alternativa “mais ou menos”. (Apêndice 3, Tabela 6).
Em relação à imagem do curso e da profissão antes do ingresso, 28,3 % da amostra tinham
uma imagem muito boa, 42,5% uma boa imagem, 21,3% uma imagem razoável, 5,5% uma
imagem má e os restantes 1,6% uma imagem muito má do curso e da profissão. (Apêndice 3,
Tabela 16).
Este determinante identificação com o curso explica 7,87% da variância das correlações
entre as variáveis individuais, influenciando em cerca de 8% na escolha de curso (Tabela 4).
Representa o terceiro com maior explicabilidade, facto que já é significativo, o que significa
de acordo com Bohoslasvky (1998, Op. Cit.) que as identificações destes estudantes não são
distorcidas, houve, embora em menor medida, por parte destes, análise dos seus sistemas de
atitudes, um confronto entre a fantasia e a realidade: o confronto da sua personalidade com as
possibilidades do mercado de emprego, do que conheciam e do que ainda não conheciam.
Porém, esta identificação pode ter explicação no facto destes estudantes serem, na sua
maioria, professores da disciplina ligada ao seu respectivo curso. Segundo os dados da
pesquisa 37,8% dos estudantes consideram a sua escolha como sendo uma escolha ponderada,
o que reflecte, até certo ponto, a identificação dos estudantes com o curso influenciando suas
opções escolares.

Tabela 4: Determinante 3 e seus factores

Componente Explicada Variância

Determinante 3: Identificação com o curso 7.87%


Necessidades que determinaram a preferência pelo curso
Identificação com a profissão
Imagem do curso e da profissão antes do ingresso

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

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3.1.4 Gosto pela área e informação sobre o mercado de emprego

Quanto a este determinante, podemos referir que agrupa factores como a história sobre a
escolha, o conhecimento das possibilidades de mercado de emprego que o curso oferece e as
expectativas profissionais.
Em relação à história sobre a escolha, 26,8% da amostra beneficiaram de algum
aconselhamento, 14,2% consideraram que procuraram alguma informação on line, 6,3%
procuraram algum serviço de orientação vocacional e profissional. A maioria dos estudantes -
52,8% respondeu a alternativa “outros”. (Apêndice 3, Tabela 2).
Quanto ao conhecimento das possibilidades de mercado de emprego que o curso oferece os
estudantes consideraram em número de 55,1% tinham o conhecimento das possibilidades de
mercado de emprego que o curso oferece, 18,1% não tinham esse conhecimento e os restantes
26% mostraram ter alguma dúvida quanto a esta questão. (Apêndice 3, Tabela 8).
No que diz respeito às expectativas profissionais, 41,7% dos estudantes responderam que
esperam dedicar-se ao ensino, 9,4% esperam seguir o ramo empresarial, 25,2% esperam se
dedicar à investigação, 11,0% esperam seguir área afim, 7,1% esperam seguir qualquer área e
os restantes 5,5% escolheram a alternativa “outros”. (Apêndice 3, Tabela 18).
Em relação à história sobre a escolha 52,8% dos estudantes consideraram que não
beneficiaram de nenhum aconselhamento para fazerem a sua escolha pelo curso, facto que
revela, tanto a escassez de serviços de OEP, bem como, a inexistência da cultura de procura
de serviços de orientação e aconselhamento, por parte dos estudantes, para a tomada de
decisões escolares e profissionais.
O determinante gosto pela área e informação sobre o mercado de emprego, explica 6,87%
da variância das correlações entre as variáveis individuais, influenciando em cerca de 7% na
escolha de curso (Tabela 5). Este determinante não tem uma grande significância em
comparação com os três primeiros determinantes, se bem que os estudantes não se consideram
perdidos nestes cursos mas, em relação à informação sobre o mercado de emprego os dados
revelam que apenas 14,2%, número correspondente a 18 estudantes, procuraram alguma
informação sobre o curso para fazerem suas decisões.

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Tabela 5: Determinante 4 e seus factores

Componente Explicada Variância

Determinante 4: Gosto pela área e informação sobre o 6.87%


mercado de emprego
História sobre a escolha
Conhecimento das possibilidades de mercado de emprego que o curso oferece
Expectativas profissionais

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

3.1.5 Auto-realização

Este determinante contém um único factor que é o significado da escolha. Quanto a este
factor, 15,7% dos estudantes afirmaram que a sua escolha representa uma solução para o
desemprego, 18,9% a busca de inserção social, 59,1% a procura de auto-realização e 4,7%
optaram pela alternativa “outros”. (Apêndice 3, Tabela 7).
O determinante auto-realização explica 6,65% da variância das correlações entre as
variáveis individuais, influenciando em cerca de 7% na escolha de curso, o que significa que
para a amostra analisada, de uma forma geral, este determinante não foi relevante (Tabela 6).
Todavia, 59,1% consideraram que a sua escolha significa a procura de auto-realização, o que
evidencia a influência de um determinante intrínseco significativo na escolha de curso.

Tabela 6: Determinante 5 e seus factores

Componente Explicada Variância

Determinante 5: Auto-realização 6.65%


Significado da escolha

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

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3.1.6 Auto-percepção sobre as aptidões

Esta componente contém, igualmente, um único factor constituindo as aptidões pessoais.


No que concerne às aptidões predominantes, 32,3% dos estudantes consideraram terem
aptidões burocráticas, 37,8% aptidões numéricas, 10,2% aptidões espaciais e 19,7% aptidões
motoras. (Apêndice 3, Tabela 15).
A auto-percepção sobre as aptidões explica 6,18% da variância das correlações entre as
variáveis individuais, influenciando em cerca de 6% na escolha de curso (Tabela7). Este
determinante não se revelou bastante significativo na influência da decisão de escolha facto
que pode encontrar resposta nestes mesmos dados, pois dos elementos da nossa amostra
37,8%, valor abaixo de 50%. Este dado ajuda a fazer a leitura de que, de facto os estudantes
não podem por si só apreciar devidamente suas aptidões e saber como usá-las devidamente no
sentido de uma decisão vocacional profícua. Todavia, aptidões numéricas constituem um
requisito essencial para qualquer estudante que deseje ingressar nestes cursos, daí o facto da
maioria dos estudantes ter escolhido esta alternativa.

Tabela 7: Determinante 6 e seus factores

Componente Explicada Variância

Determinante 6: Auto-percepção sobre as aptidões 6.18%


Aptidões pessoais

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

3.1.7 Bom desempenho no nível pré-universitário/resultados da aprendizagem

Este determinante contém as seguintes variáveis: a influência sobre a escolha e


características da escolha.
Quanto à influência sobre a escolha, 3,9% dos estudantes foram influenciados pela família,
6,3% pelos amigos, 12,6% pela escola, 1,6% pela procura de um status económico-social,
33,9% pelo bom desempenho na disciplina, 11,0% pelo facto de terem sido professores da
disciplina, 12,6% pela oportunidade que surgiu no momento, 4,7% pela conveniência de

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serviço, 5,5% pela ausência de alternativas e os restantes 7,9% por outros factores não
especificando quais. (Apêndice 3, Tabela 3).
Em relação à característica da escolha, 37,8% dos estudantes fizeram uma escolha
ponderada, 25,2% uma escolha espontânea, 31,5% escolha possível no momento, os restantes
5,5% caracterizam a sua escolha com base noutros factores não indicando quais. (Apêndice 3,
Tabela 5).
O determinante bom desempenho no nível pré-universitário/resultados da aprendizagem
explica 6,40% da variância das correlações entre as variáveis individuais, influenciando em
cerca de 6% na escolha de curso (Tabela 8). Esta componente, também, não representou, para
os estudantes, um determinante significativo. Os factores subjacentes a este determinante
revelam uma diversidade de opiniões quanto à influência deste na decisão de escolha de
curso.

Tabela 8: Determinante 7 e seus factores

Componente Explicada Variância

Determinante 7: Bom desempenho no nível pré- 6.40%


universitário/resultados da aprendizagem
Influência sobre a escolha
Característica da escolha

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

No total, todos os determinantes conseguem explicar 56.89% da variância das correlações


entre as variáveis individuais. O que significa que os determinantes aqui apresentados
explicam em cerca de 50% a decisão de escolha do curso.
Podemos concluir parcialmente que, de acordo com a teoria sócio-histórica de Bock (Op.
Cit.), os resultados do estudo revelam uma polarização das escolhas por parte dos estudantes,
isto é, os estudantes deram maior relevância ao determinante extrínseco em detrimento dos
factores intrínsecos, pois o determinante com maior explicabilidade na escolha do curso é a
imagem sobre o curso e sobre a profissão que explica cerca de 15% da variância total das
variáveis individuais. Conforme já se referiu, este dado revela que as famílias, sobretudo o
meio social, exercem uma grande influência nas decisões de escolhas escolares e profissionais
dos estudantes, isto porque a família pela sua função socializadora, constitui o meio aonde o
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DETERMINANTES DA ESCOLHA DE CURSO DOS ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR

indivíduo vai fazer as aprendizagens mais essenciais da vida, onde o indivíduo vai construir as
suas representações profissionais que, no momento da escolha, vão, sobre ele, exercer
influência. Portanto, é perfeitamente aceitável que a imagem sobre a profissão apareça como o
de maior relevância, visto que estas imagens são formadas na família – grupo de pertença e de
referência do indivíduo. De referir que, em uma pesquisa sobre “O Secundarista e o Processo
de Escolha da Profissão”, os resultados apontam que 86,56% da amostra foi influenciada
pela família na sua escolha. (Ramos e Lima, 1996). Um dado importante, sobre a família é
que, como é sabido, esta tem uma grande contribuição, nomeadamente, pela influência do seu
estatuto socioeconómico e cultural, isto é, os estudantes provenientes de famílias com poucos
recursos e os níveis de educação e profissional dos pais longe do ideal, acabam sendo
orientados pelas oportunidades educativas, pelos modelos e pelas práticas de socialização dos
pais. (Campos, Op. Cit.). Isto por um lado, por outro lado, o conhecimento das profissões, as
próprias representações socioprofissionais, o prestígio e os estereótipos associados às
profissões são veiculados, igualmente, em larga escala, pela família o que significa que os
pais transmitem aos filhos as competências sociais que eles próprios consideram essenciais
para o ingresso e sucesso, tanto escolar e no mercado de trabalho. (Idem).
A teoria sócio-histórica que preconiza que os determinantes de escolhas vocacionais não
devem ser polarizados nem em determinantes internos e nem em determinantes externos. Pelo
facto destes estudantes considerarem mais os determinantes externos, no momento da escolha,
observamos que a sua escolha não é ajustada, se vemos a escolha ajustada como sendo aquela
em que o sujeito tem um autocontrolo que o permite fazer coincidir seus gostos, aptidões,
capacidades e interesses com as oportunidades exteriores - possibilidades de mercado de
emprego. (Bohoslavky, Op. Cit.). A abordagem de Bohoslavky, coincide com a perspectiva
sócio-histórica de Bock, na medida em que, não sobrevaloriza determinantes internos em
detrimento de determinantes externos e vice-versa. Contudo, os resultados evidenciam o
contrário de uma escolha ajustada.
O facto de estes estudantes serem influenciados, maioritariamente, por determinantes
externos, deve-se, provavelmente, ao facto de não terem beneficiado, na sua grande maioria,
de serviços de orientação vocacional, como ilustram bem os resultados, apenas oito
estudantes, isto é, 6,3% procuraram serviços de orientação vocacional e profissional.
É preciso dizer que os resultados são, de certa forma, preocupantes, posto que mostram que
a inexistência de serviços especializados de orientação vocacional e profissional, no ensino
superior, cria condições para que as escolhas tenham esta natureza, isto é, para que sejam

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escolhas não ajustadas à realidade, escolhas irrealistas, escolhas que têm variadas
consequências negativas.

3.2 Correlação no contexto do curso

Os determinantes de escolha de curso variam de curso para curso. O gráfico de linha abaixo
mostra este facto.

Gráfico 2: Determinantes de escolha de curso e curso de frequência

Imagem sobre a
profissao
Motivacao
academica
Identificacao com o
0,25000 curso
Gosto pela area e
informacao sobre o
mercado de
emprego
Auto-realizacao
Auto-percepcao
Mean

sobre as aptidoes
0,00000
Bom desempenho
no nivel pre-
universitario

-0,25000

curso de Biologia curso de fisica curso de quimica

curso frequentado

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

O determinante imagem sobre a profissão exerce mais influência no seio dos estudantes do
curso de EF e, em contra partida, tem menor influência no seio dos estudantes do curso de
EQ. Neste último, o determinante motivação académica é o determinante de maior influência.
Enquanto que, os estudantes do curso de EB são subjugados na sua maior parte pelos
determinantes gosto pela área e informação sobre o mercado de emprego e auto-realização.
Em geral, observa-se que estes determinantes não têm a mesma influência nos três cursos, isto
é, a escolha de cada curso, tem os seus factores subjacentes que são determinantes na decisão
da escolha do respectivo curso. No curso de EB o determinante menos relevante é a

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DETERMINANTES DA ESCOLHA DE CURSO DOS ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR

motivação académica que é o mais relevante, como referido, no curso de EQ. O determinante
bom desempenho no nível pré-universitário/resultados da aprendizagem praticamente tem a
mesma relevância nos três cursos, visto que tem a haver, simplesmente, com a escolha do
curso. O determinante auto-percepção sobre as aptidões, praticamente, tem as mesmas
características que o determinante imagem sobre a profissão, isto em relação ao curso de EF.
(Gráfico 2).
Os estudantes do curso de EF são influenciados pelo determinante imagem sobre o curso e
sobre a profissão, provavelmente, porque apesar de se tratar de um curso considerado pelos
estudantes como bastante difícil os estudantes procuraram fazê-lo pelo prestígio,
reconhecimento e estatus. Os estudantes do curso de EQ são influenciados pelo determinante
motivação académica, o que pode se justificar com o facto de pretenderem se desenvolver em
termos de aprofundamento do conhecimento sobre a área, aquisição de competência e
autonomia. Quanto aos estudantes do curso de EB, são influenciados pelo determinante gosto
pela área e informação sobre o mercado de emprego e auto-realização, provavelmente por se
tratar de um curso muito menos difícil, em comparação com os outros curso já abordados, os
estudantes escolhem o curso pelo gosto que advém do contacto com a disciplina no nível pré-
universitário. De uma forma geral, podemos referir que cada um destes determinantes não
interfere na decisão de escolha de forma particular mas, sim, de forma multi-determinada. A
imagem do professor, o contacto com os conteúdos de aprendizagem, as representações
socioprofissionais transaccionadas, no meio familiar, no grupo de amigos, no meio escolar e
noutros círculos de socialização são juntamente com outros determinantes condicionantes da
decisão de escolha de curso.

3.3 Correlação no contexto do ano de frequência

O cruzamento de determinantes de escolha de curso e ano de frequência mostra claramente


a mudança de opinião relativamente ao curso escolhido ao longo do decurso do mesmo.

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DETERMINANTES DA ESCOLHA DE CURSO DOS ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR

Gráfico 3: Determinantes da escolha e ano de frequência

Imagem sobre a
0,30000 profissao
Motivacao
academica
0,20000 Identificacao com o
curso
Gosto pela area e
informacao sobre o
0,10000
mercado de
emprego
Auto-realizacao
0,00000 Auto-percepcao
Mean

sobre as aptidoes
Bom desempenho
-0,10000 no nivel pre-
universitario

-0,20000

-0,30000

-0,40000

primeiro ano 4

ano que frequenta

Fonte: Dados empíricos do questionário do autor

Os estudantes do primeiro ano julgam que o determinante auto-realização tem maior


importância na escolha do curso, todavia os estudantes do quarto ano têm a percepção de que
este determinante é o de menor importância. Eles avaliam o determinante auto-percepção
sobre as aptidões como sendo o de maior importância, enquanto que os estudantes do
primeiro ano têm a percepção de que este determinante é de menor importância. Praticamente,
entre os outros determinantes observa-se um comportamento similar. (Gráfico 2).
Com relação à influência diferenciada dos determinantes em função do ano de frequência, é
preciso dizer que os estudantes do primeiro ano, estes são influenciados pelo determinante
auto-realização, provavelmente porque buscam realização académica. O nível académico
superior, constitui um factor extremamente importante de auto-realização. Todavia, depois do
ingresso no ensino superior, a medida em que a integração académica vai acontecendo, as
aptidões, capacidades, habilidades e os interesses do sujeito, vão se tornando mais claros, isto
é, vão-se evidenciando. Ora, este processo de integração académica favorece o auto-
conhecimento o que condiciona o facto de este determinante ir perdendo importância ao longo
da formação académica, levando a que os estudantes do quarto ano o percepcionem como
sendo de menor importância. Para os estudantes do quarto ano o determinante auto-percepção

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sobre as aptidões é o determinante de maior importância, o que mostra que procuram


realização profissional.
Um dado não menos importante, é o facto de que no inicio do curso a expectativa é maior
relativamente ao emprego, pois a aquisição de um nível académico superior é visto pelos
estudantes como uma forma de combate ao desemprego e à exclusão social, contudo, ao longo
do curso vemos que esta perspectiva dos estudantes não prevalece, provavelmente porque as
suas concepções de vida ligadas ao prestígio social, sucesso profissional vão se diferenciando,
isto é, os horizontes dos estudantes vão-se ampliando ao longo da formação e é verosímil que
estes já não vejam na aquisição de um nível académico superior a sua realização, estes
estudantes, a estas alturas, podem procurar explorar outras saídas profissionais ligadas, se
calhar ao empreendedorismo e promoção do auto-emprego.

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CAPÍTULO 4 - CONCLUSÕES E SUGESTÕES

4.1 Conclusões

Esta pesquisa teve como objectivo conhecer quais são os determinantes que influenciam as
escolhas de curso dos estudantes dos cursos de EB, EF e EQ da UP. Quanto aos resultados
alcançados, pode-se referir que a pesquisa atingiu seus objectivos. Este estudo, trouxe
resposta à questão básica da pesquisa e permitiu identificar a imagem sobre o curso, a
motivação académica e a identificação com o curso como os determinantes com maior
explicabilidade na escolha de curso.
As hipóteses da pesquisa foram confirmadas, visto que foi possível verificar que o
determinante com maior relevância no momento da escolha de curso é, de facto, externo o que
mostra uma sobrevalorização e polarização deste em relação aos determinantes internos.
No momento da escolha, deve existir um multi-determinismo, isto é, tanto os determinantes
intrínsecos, assim como, os determinantes extrínsecos devem ser tomados em conta. Esta
abordagem só é possível com a intervenção de serviços especializados de OEP que, numa
abordagem sócio-histórica, poderão auxiliar aos estudantes no processo de escolhas escolares
e profissionais através da conciliação de determinantes individuais e de determinantes
económicos e sociais.
A pesquisa permitiu identificar que estes determinantes exercem uma influência
diferenciada variando de curso para curso, isto é, enquanto o determinante de maior
relevância no curso de EF é a imagem subjectiva sobre o curso, no curso de EQ este
determinante não tem grande importância, passando a ter relevância a motivação académica.
O mesmo se verifica em relação ao curso de EB onde o determinante de maior importância é
o gosto pela área e a informação sobre o mercado de emprego, não tendo relevância os
determinantes que têm relevância noutros cursos.
Outro facto importante, é que com relação ao ano de frequência, no primeiro ano, o
determinante de maior relevância é a auto-realização, contrariamente ao quarto ano onde o
determinante maior relevância é a auto-percepção sobre as aptidões.
De forma geral, os determinantes identificados explicam, no teu todo, cerca de 50% da
variância das correlações entre as variáveis individuais, facto que é bastante elucidativo para a
pesquisa quanto à compreensão da dinâmica da escolha de curso.

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DETERMINANTES DA ESCOLHA DE CURSO DOS ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR

É preciso reconhecer as limitações desta pesquisa, a começar pela variedade de factores


difíceis de avaliar, entre outros, os que podemos denominar de ocasionais, que concorrem,
juntamente com outros factores, para que o estudante decida ingressar numa ou noutra área de
formação superior. O que acontece é que muitas vezes, o curso escolhido pelo estudante pode
representar a escolha de conveniência, o que melhor se podia escolher no momento ou a única
possibilidade, em termos de curso disponível, a ausência de alternativa, e, também, o fracasso
de ingressar na área realmente pretendida.
O elevado número de sujeitos da amostra do presente estudo torna mais generalizáveis os
resultados, não obstante estes serem obtidos a partir da dimensão de sete variáveis, devem ser
interpretados considerando-se o conjunto dos itens referentes aos determinantes internos e
externos que foram usados na construção do instrumento de pesquisa. Resultados diferentes
poderiam ser obtidos se fossem usados inventários, escalas com outros itens comportamentais
e outras demandas situacionais. Futuras pesquisas poderiam avaliar, de maneira mais
abrangente, os determinantes de escolhas de curso tendo como base outras variáveis e em
outros contextos situacionais.

4.2 Sugestões

Conforme o exposto, a importância do processo de escolha profissional exige uma reflexão


por parte das instituições de ensino superior e da sociedade em geral. Deste modo, avançamos
algumas alternativas possíveis para dar vazão à problemática vivenciada pelos estudantes do
ensino superior:

a) Tratar a escolha da profissão enquanto processo e efectivá-las em todos os cursos;


b) Capacitar os professores para subsidiar o estudante no processo de escolha
profissional promovendo o auto-conhecimento e o conhecimento do mundo do
trabalho;
c) Sistematizar programas de orientação profissional que permitam aos estudantes
integrar a sua escolha à multiplicidade de elementos que aí se encontram em jogo;
d) Estruturar programas específicos de OEP;
e) Desenvolver acções conjuntas que promovam a integração universitária:
disponibilidade, por parte dos departamentos em oferecer informações aos estudantes;
promoção de palestras e debates sobre a realidade das profissões; elaboração de

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material informativo sobre as profissões técnicas e universitárias, sem deixar de lado


as técnicas de estudo e do trabalho científico.

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