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O Mito e a Razão,

É sedutora a ideia de que o pensamento filosófico teria certidão de nascimento:

Jónia, Séc. VI A.C. É deslumbrante imaginar um grupo de homens corajosos, nas colónias gregas da Ásia menor, entre Mileto e Samos, Éfeso e Cólofon, desbravando um mundo novo, libertando o Logosdo Mito e descobrindo uma nova era, renovando o modo de pensar, como se de um golpe de génio ou de uma mutação intelectual, florisse o que havia de ser a pedra basilar da civilização ocidental.

Mas o facto de se poder situar no tempo e no espaço o surgimento de uma nova forma de pensar o mundo, de o questionar, dotando-se de poderosas ferramentas de dissecação do real, não permite afirmar que aquele grupo de intrépidos navegadores do pensamento deu à luz a Razão, como se de uma revelação se tratasse. Seriam esses homens os verdadeiros “inventores da filosofia [1] elevando-se acima de todos os outros homens, predestinados a marcar a história com uma descontinuidade radical e oferecendo à filosofia grega aquela putativa superioridade providencial, que se transmite por osmose a todo o pensamento ocidental?

A verdade é que as mais diversas civilizações se puseram as perguntas

fundamentais da existência, sejam elas da ordenação da Physysou do foro ontológico e da estupefação do Ser. E todas encontraram nas suas respostas melhor ou pior o caminho para a sobrevivência das suas sociedades, para a estruturação da sua vida comunitária e desenvolvimento de organizações sofisticadas. Servindo-se do Mito como arquitetura básica e estruturante da organização social, sociedades avançadas como os Babilónios, os Egípcios, os Gregos, para não citar as civilizações do subcontinente asiático, ou da américa pré-colombiana, foram bem-sucedidas na criação de cosmogonias complexas e muito ricas, dotando a sociedade de explicações satisfatórias, reconfortantes ou terríveis, cujo valor é tão significativo, quanto necessário à própria sobrevivência do grupo. A vida dos Deuses era a outra face da vida do Homem, emulando as

suas virtudes e defeitos, como a Teogonia de Hesíodo uma representação da tragicomédia da existência, dando sentido à vida e ao cosmos.

Esta sofisticação do pensamento mitológico e a atração que ainda hoje exerce sobre as nossas sociedades tecnológicas é muito mais do que uma curiosidade histórica ou matéria-prima da investigação antropológica. Trata-se na verdade de um dos pilares do que diferencia a espécie humana dos restantes seres: a sua capacidade (de certo modo também, a necessidade) de ir além, de se transcender, tocada que foi pela centelha do fogo sagrado dos Deuses.

Cornford, nos seus Principia Sapientiae, 1 defende que a ciência Jónica não se assemelha em quase nada à ciência tal como hoje a entendemos, desconhecendo a experimentação e não sendo tampouco o produto da inteligência observando directamente a natureza (pelo menos, não da mesma forma como hoje o fazemos). Na verdade, ela apenas (e quão titânico é este apenas) transpõe para o plano do pensamento abstrato, um sistema de representação que a mitologia elaborou. As cosmologias destes primeiros filósofos jónicos retomam e prolongam os mitos cosmogónicos, buscando uma resposta subtilmente diferente para o mesmo tipo de problema, a emergência de um mundo ordenado a partir do Caos. Servindo-se do mesmo material conceptual, pelas mãos dos novos fisiólogos, os fenómenos naturais começam a ser desnudados do seu manto mitológico, desvendando a nudez crua das suas leis naturais. É assim que os elementos dos Milésios já não são personagens míticas, como Ouranos ou Gaia, embora também ainda não se tenham afirmado como realidades concretas plenas, como Céu ou Terra. São antes poderes eternamente activos, divinos e naturais em simultâneo. E assim os Deuses são confrontados e tem que passar a coexistir, a partir de agora, com um campo paralelo, que busca sentido na própria intelecção das coisas e na explicação das suas causas, sem recorrer, para esse efeito, a uma narrativa de cariz antropomórfico.

1 Cornford, F. M. Principium Sapientiae: as origens do pensamento filosófico grego. Trad. Maria Manuela Rocheta dos Santos. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989;

Mas se isto é assim, por outro lado, quem melhor do que Platão se serve magistralmente da narrativa mitológica como forma de transmitir, de forma plena, a intencionalidade de uma visão já claramente racional, mas cuja destreza evocativa não se guinda, nem de longe, à potência do verbo mitológico?

Como falar pois de descontinuidade lógica onde só existe um lento abandonar da forma do Mito e uma aproximação progressiva ao novo “Logos” com a forma de Razão?

Jean Pierre Vernant, 2 citando ainda Cornford, afirma que “não se trata de uma vaga analogia. Entre a filosofia de Anaximandro e a Teogonia de um poeta inspirado como Hesíodo, as estruturas correspondem-se até ao pormenor. E mais, o processo que leva à construção naturalista do filósofo, estava já a ser trabalhado na obra de um hino de glória a Zeus, que celebra o poema de Hesíodo. O mesmo tema mítico de ordenação do mundo repete-se, com efeito, nas duas formas, que traduzem níveis diferentes de abstração.”

Também o que emana da harmonia dos números e da nova escala musical dos Pitagóricos, tem tanto de racional, na sua busca do desvendar das relações matemáticas escondidas por detrás da beleza auditiva das suas harmonias, como de mitológico, no imperativo de manutenção do bem ontológico supremo, a inserção harmónica do homem em um Cosmos governado por essas mesmas harmonias e seus números e sem as quais derivará irremediavelmente para a desordem e o Caos.

Inclino-me pois a aceitar como natural esta conexão orgânica entre o Mito e o novo Logosque comumente designamos por Razão, um novo modo de pensar, que progressivamente vai descobrindo que a compreensão do que são as coisas e das suas razões de ser, tem sentido “em si”, não carecendo de uma narrativa que lhe dê significado.

2 Vernant Jean-Pierre. Du mythe à la raison. La formation de la pensée positive dans la Grèce archaïque. In: Annales. Économies, Sociétés, Civilisations. 12e année, N. 2, 1957. pp. 183-206.

A inteleção da natureza e dos seus segredospassa, desde então a ser um

propósito por si, constituindo uma mudança de qualidade determinante na atitude perante os fenómenos naturais, que começam a ser objeto de observação apurada e crítica e tentativamente explicados, ainda que recorrendo muitas vezes a formas distantes do que hoje entendemos como Ciência.

É certo que a radicalidade de Leucipo (e depois de Demócrito) talvez roubasse

mais poder aos Deuses do que qualquer outro seu contemporâneo, recusando a possibilidade ontológica de outros mundos, remetendo para a realidade concreta tudo o que existe, o que se vê e o que não se vê, negando-se um sentido trans-físico

e uma razão para “Ser”.

Mas a verdade contudo é que este punhado de homens extraordinários, cada um

no

seu modo muito particular, sonhou e levou avante a possibilidade de desvendar

os

segredos do seu mundo natural, atrás do qual se escondem as leis imateriais que

governam. Homens cuja criatividade, inteligência e coragem intelectual lhes permitiu vencer as sombras que se reflectiam no fundo da caverna e decididos, ascenderam à superfície, acendendo a luz do conhecimento que iluminará para sempre todos os seus afortunados descendentes.

o

Lisboa, 10 de Novembro de 2015

José António do Amaral

BIBLIOGRAFIA

1. BURNET, John. Early Greek Philosophy. A & C Black, Londres, 1920, (3ª Ed.).

2. ARISTOTE, Métaphysique, traduction (éd. de 1953) de Jean Tricot (1893- 1963). Éditions Les Échos du Maquis (ePub, PDF), v. 1.0, Janvier 2014.

3. BERGOUGNAN, E. Hésiode (Théogonie, Les travaux et les jours, Le Bouclier). Trad. nouvelle Paris, Librairie Garnier Frères, 1998. (pp. 29-

57).

4. CORNFORD, F. M. Principium Sapientiae: As origens do pensamento filosófico grego. Trad. Maria Manuela Rocheta dos Santos., Lisboa. F.C. Gulbenkian, 1989. (3ª Ed.).

5. PEREIRA, Américo, Lições de História da Filosofia Antiga, Nº 1 a 8. UCP, 2015.

6. VERNANT, Jean-Pierre. Du mythe à la raison. La formation de la pensée positive dans la Grèce archaïque. In: Annales. Économies, Sociétés, Civilisations. 12 ème année, N. 2, 1957. (pp. 183-206).