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História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv

SÉCULOS XII A XIV
Conceitos-base:
Burguesia — Grupo social oriundo dos estratos populares que se individualiza na Idade
Média, cerca do século XII. O termo burgueses designa, inicialmente, os habitantes dos
burgos, em geral comerciantes e artesãos cuja riqueza assenta em bens móveis e não na
posse de terras, como o clero e a nobreza. Com o tempo, a burguesia incorpora outros
elementos sociais (homens de leis, funcionários) e adquire um estatuto mais elevado do que
o povo em geral.
Economia monetária — Sistema económico baseado nas trocas e na circulação de moeda.
Esta tornou-se não só um indispensável meio de pagamento como um valor em si, susceptível
de ser entesourado. A economia monetária tem subjacentes o espírito de lucro e o jogo da
oferta e da procura, orientando-se para a satisfação das necessidades de um mercado
consumidor. Este sistema económico afirmou-se definitivamente com o renascimento das
cidades, no século XIII, substituindo a economia de autoconsumo que vigorava na Europa
desde o fim do Império Romano.
Vassalidade — Relação hierárquica que se estabelecia entre dois indivíduos, criando entre
eles uma dependência pessoal, alicerçada numa reciprocidade de direitos e deveres
(fidelidade, ajuda, conselho). Essa dependência pessoal derivava do facto de um dos
senhores (o suserano) atribuir um bem (terra, castelo, rendas, cargo) — também chamado
de benefício ou feudo — a outro senhor (o vassalo).
Reconquista — Termo utilizado para designar as campanhas militares que os remos cristãos
da Península Ibérica dirigiram contra os muçulmanos, que a invadiram em 711. A Reconquista
ter-se-á iniciado em 718- 22, a partir do pequeno reino das Astúrias, e terminou em 1492,
com a conquista do reino mouro de Granada. A Reconquista foi um processo lento, de
avanços e recuos condicionados pelo relevo, pelas bacias hidrográficas, pela unidade/divisão
dos muçulmanos. Contou, ainda, com o apoio da Igreja.
Imunidade — Privilégio que consiste em interditar aos delegados do rei a entrada nas
terras de um nobre, de um bispado ou de uma abadia para aí exercer o poder público.
Mesteiral — Trabalhador especializado num ofício mecânico do artesanato. Os mesteirais
estavam organizados em agrupamentos designados de bandeira, corporação ou grémio.
Concelho — Termo derivado do latim concilium; designava um território de extensão
variável, cujos moradores (os vizinhos) eram dotados de maior ou menor autonomia
administrativa.
Carta de foral — Diploma emanado do rei ou de um senhor laico ou eclesiástico, no qual se
estabeleciam as regras e os direitos que regiam a vida das populações de uma certa
localidade, denominada de concelho. Diziam respeito a segurança, isenção ou redução
tributária; exclusão da servidão e de perseguições da justiça; concessão ou reconhecimento
de governo próprio.

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Isabel Valente

afinal. permitindo abrir mais profundamente o solo e fixar melhor as sementes. que se acentuou no século XIII. Este fenómeno. * O desenvolvimento agrícola O primeiro aspecto a considerar é a expansão da superfície cultivada. cada ano. onde este surto demográfico foi mais acentuado.». também. o mundo rural. senhores laicos. que substituiu a tradicional divisão da terra em apenas duas folhas (uma lavrada e outra em pousio). transformando-os em terras de lavoura.». nomeadamente na charrua. Ao mesmo tempo que aumentava a superfície cultivada. de um clima geral de paz e de um desenvolvimento económico em todos os sectores. etc. sobretudo. topónimos que. em muito. • O afolhamento com rotação trienal de culturas. datam desta época. Associada a estes arroteamentos esteve a fundação de novas povoações. que. permitiu granjear. os que mais capacidade tinham para enquadrar os camponeses. a Europa reencontrou. diminuiram também as epidemias porque.) e até cidades. amanharam baldios e secaram pântanos. Dispondo de bens essenciais. Entre o século XI e o século XIII. Todos estes aspectos se traduziram por um aumento da produtividade agrícola que. «um mundo cheio». Cister. os homens desbravaram bosques. «salvaterra» são. No decurso dos três séculos seguintes. no dizer dos historiadores. «vila nova de . antes de mais. entre os séculos XI e XIII. fornecer as primeiras sementes. auxiliou o esforço dos cultivadores. que registaram.. mas. 2 Isabel Valente . de imediato. ordens monásticas (Cluny. a população tornou-se mais resistente à doença. acompanhada pelo incremento da pecuária. um conjunto de progressos técnicos permitia um melhor aproveitamento do solo: • O emprego crescente do ferro nos utensílios agrícolas. em Portugal. de novo. Esta prosperidade atingiu. melhor alimentada. a Europa viu. Eram. em detrimento da terra cultivada. Na zona ocidental.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv O QUADRO ECONÓMICO E DEMOGRÁFICO: EXPANSÃO E LIMITES DO CRESCIMENTO Depois de longos séculos de crise e instabilidade. deixou as suas marcas no nome de muitas localidades: «aldeia nova de . finalmente. * O crescimento demográfico Nos tempos medievais.. cujos habitantes beneficiaram da concessão de terras e outros incentivos. a abundância de alimentos reflecte-se. a sua força e o seu espírito empreendedor. recuperaram do marasmo em que tinham mergulhado desde a queda do Império Romano. o Ocidente viveu um período de acentuada prosperidade económica. para o renascimento das cidades. grande desenvolvimento. geralmente.. à iniciativa conjunta de reis. a sua população prestes a duplicar. por parte dos senhores ou dos monarcas. Para além do sector agrícola. • A canga frontal para os bois e a coelheira rígida para os cavalos possibilitaram um melhor aproveitamento da força animal. fez crescer significativamente as disponibilidades alimentares da Europa. os instrumentos de trabalho. as florestas cobriam a Europa. saldando-se por um importante desenvolvimento agrícola. os materiais de construção. • A fertilização dos campos com marga (argila calcária) e cinzas e a maior utilização de estrume animal melhorou a qualidade dos solos. uma maior parcela de terreno. Estes grandes arroteamentos ficaram a dever-se à acção individual de muitos camponeses. no número de homens. ocupando uma enorme parte do solo. Quando as grandes fomes recuaram.. a Europa tornou-se. No ano mil. O seu dinamismo contribuiu. a prosperidade fez-se sentir no comércio e no artesanato.

antes que a mortífera Peste Negra venha dizimar boa parte dos seus habitantes. Havia também que evitar os aumentos exagerados dos preços. Um intenso comércio regional 3 Isabel Valente . legumes. às vezes de um milhar de habitantes. As ligações cidade-campo estabeleciam-se. as rendas senhoriais eram. Nelas se estabelecem mercadores. O mesmo se passava com mosteiros e abadias. a rede de trocas foi-se alargando a circuitos mercantis mais vastos e organizados. Proprietários de grandes domínios. Devemos ter presente que o conceito de cidade abrangia. * A dinamização das trocas locais e regionais Embora muitas cidades se animassem. derivando a sua importância da dignidade do nobre ou do bispo que as habitava. em permanente crescimento. A ela afluem nobres à procura de divertimentos e artigos de luxo. em determinadas épocas do ano. peregrinos em busca de hospitalidade. praticando um preço mais elevado. sobretudo. tomam o nome de burgueses. aglomerados bem pequenos. A partir do século XII. artesãos. pouco a pouco. que mandavam comercializar no mercado local. ovos. que para sempre permanecerá ligado à cidade e às suas actividades. banqueiros. de origem romana ou de fundação mais recente. Anteriormente eram. as cidades medievais assumem uma feição essencialmente económica. Era necessário garantir que os produtos chegassem ao seu destino. As medidas tomadas nesse sentido eram rígidas: limitavam-se as quantidades que cada um podia adquirir e puniam-se severamente todos os comerciantes que tentassem enganar o comprador. representava o maior volume de trocas desta época. por isso. o que estimulava o agricultor a produzir mais. os almocreves. contribuindo decisivamente para a afirmação da economia monetária. as cidades aumentam em número e em tamanho. estabelecendo uma ligação contínua entre a cidade e os campos mais próximos. abastecendo a cidade de géneros alimentícios e as zonas agrícolas de produtos manufacturados.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv * O surto urbano Em torno dos velhos castelos senhoriais. Embora pesadas. cujos excedentes chegavam regularmente à cidade. a burguesia. que as animam e enriquecem. Toda a vida económica beneficiou do seu impulso e. A cidade assume-se. centros políticos. com a realização de grandes feiras internacionais. militares ou religiosos. As necessidades de abastecimento da população urbana representavam para o camponês um mercado certo. neste caso. Regulamentar o mercado e abastecer eficazmente a cidade tornouse uma preocupação e um dever das autoridades urbanas. pois. lã. Evidentemente que só eram assíduos ao mercado os camponeses das aldeias mais próximas e esses não chegavam para satisfazer a procura. leigos e eclesiásticos. desenraizados na esperança de uma vida melhor. atingindo o seu auge no início do século XIV. pelo que se proibia a venda pelo caminho ou fora das horas regulamentares. que actuavam como intermediários. visto que o excedente revertia em seu benefício. Estima-se que a área de abastecimento de uma cidade de 10 a 20 mil habitantes pudesse abranger um raio de 50 km e essa distância não era. através de profissionais. São eles os mais característicos habitantes do burgo e. Para além de crescerem. Assim se individualiza um novo grupo social. lojistas. onde podia vender com proveito os seus excedentes: cereais. pela sua incansável repetição. normalmente. queijo. frangos. junto aos portos ou às vias de circulação. salvo raras ocasiões. eram os pequenos mercados de dominante agrícola que alimentavam a vida económica corrente. Este mercado local. as cidades transformam-se. Também de realçar é o papel dos senhores. como um pólo de atracção. que na cidade tinham os seus palácios. fixas. percorrida pelo camponês. Mas nem só de comerciantes e artesãos se anima a cidade medieval. recebiam parte das rendas em géneros. então.

as trocas se reactivaram. conhecida como Hansa Teutónica. ao Oriente. À prosperidade trazida pela indústria juntava-se a riqueza conseguida no comércio. onde se transacionam as peles. o sal e o azeite da Península Ibérica. lãs da Inglaterra. chegando a transportar. Dantzig. A Hansa Teutónica era. com as zonas industriais mais activas: o Norte. atraem-se e completam-se. a que uniu as cidades do mar do Norte e do mar Báltico. entre outras. eram cidades manufactureiras cujos tecidos chegavam a toda a Europa e até. Estes dois mundos. os vinhos. pois. Muito activos. em que se perdiam muitas vezes homens e mercadorias. Ingleses. a ela nos referimos simplesmente como «a Hansa». a cera e as madeiras da Rússia e da Noruega. utiliza o Mediterrâneo. atravessando os Alpes e a França. associações mercantis destinadas a assegurar a protecção dos comerciantes de uma cidade ou região e a defender os seus interesses: as hansas ou guildas. as peles. a madeira e a cera do Norte. Portugueses. Hamburgo. Ypres. Donai. tecidos da Flandres. entre muitas outras nacionalidades que aqui ocorriam para comprar e vender. De todas estas associações. uma activa indústria de lanifícios fez prosperar as cidades. com oficinas. que se desenvolve um terceiro pólo económico: as feiras da Champagne. navega e mercadeja no Atlântico. das cidades hanseáticas. armazéns. Gand. * O comércio da Hansa Quando. o alúmen da Síria e as especiarias do Oriente. 4 Isabel Valente . Bruges torna-se o local mais cosmopolita da Europa. A Flandres atraía. na Flandres. A sua ligação faz-se por via terrestre. do mar do Norte. locais de carga e descarga. com destaque para Bruges. numa longa estrada norte-sul. Traziam os produtos do Báltico e das longínquas regiões da Rússia. As cidades flamengas. por força da sua posição geográfica. no século XV. Lubeque eram as principais cidades hanseáticas. no mar do Norte e no Báltico. sem dúvida. nos seus tempos áureos) destinada a assegurar o monopólio do comércio do mar Báltico e. foi. grandes e pesados. geograficamente diferentes. depois por via marítima. flamengo e alemão. o Sul. as gorduras. mercadores dos quatro cantos da Europa: do Norte. as ligações entre os centros de produção e de consumo. uma vasta associação de cidades (cerca de 90. Transportavam produtos mediterrânicos e especiarias orientais. os Kogge. Bruges. liderado pelos mercadores italianos.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv reanimou as estradas e os rios europeus estabelecendo. acolhem os mercadores estrangeiros com privilégios. por intermédio dos italianos. o comércio à distância era uma aventura arriscada. primeiro por terra. Cedo se desenvolveram. com vinho e sal da França. de tal modo que. É nesta via de ligação. quanto possível. Do Sul chegavam os italianos. ainda e sempre via privilegiada de circulação. muitas vezes. em especial. Colónia e. onde se cruzam mercadores e mercadorias. concedendolhes residência e autorização para construírem as suas casas de comércio. os comerciantes hanseáticos carregavam os cereais da Prússia e da Polónia. De volta. a mais poderosa. no século XI. Desempenhavam igualmente um papel importante no comércio entre a Flandres e a Inglaterra. de novo. Franceses. enchiam os seus navios. azeite do Mediterrâneo. * A Flandres Desde cedo que. Com eles misturavam-se também Espanhóis. AS GRANDES ROTAS DO COMÉRCIO EXTERNO Nos séculos XII e XIII o comércio europeu organiza-se em dois conjuntos económicos que coincidem basicamente. Riga. mais de 70% das mercadorias inglesas para a Flandres. através do estreito de Gibraltar. por isso. vinham os alemães. as lãs de Inglaterra.

vendendo no outro. os mercadores eram sobretudo viajantes. as pedras preciosas. Garantiam. Amalfi. como o cheque e a letra de câmbio. a segurança dos mercadores. reis e senhores ofereciam condições vantajosas de alojamento e armazenamento. ao comércio marítimo. após a destruição do Império Romano e as conquistas do Islão. o alúmen. mantendo ligações com o Império Bizantino e. marcou o recuo definitivo do domínio muçulmano no Mediterrâneo e a sua abertura ao comércio europeu. em 1 095. as pérolas. bem como 5 Isabel Valente . Provins e Troyes. os primeiros seguros e os primeiros pagamentos em papel. natural que os mercadores medievais tenham inventado práticas novas que lhes proporcionassem facilidade e segurança nas suas transacções. os primeiros a demandarem o longínquo Oriente. Pisa e Veneza dedicaram-se. assentava a sua riqueza: leves. depressa alargaram a sua actividade. sobretudo. de fácil transporte. muito preciso e encadeado. quer na viagem de ida e volta. apesar de falarem a mesma língua. Para atrair os feirantes. Por elas faziam chegar aos mercados europeus as especiarias. industriosas e mercantis. Deslocavam-se incessantemente. falam as suas moedas de ouro. mercador veneziano. Entre todas as feiras medievais destacam-se as que. se a carga se não perdia. foi o relato das viagens de Marco Pólo.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv * As cidades italianas e o domínio do comércio mediterrânico De todas as regiões europeias. Estes. pois. acorrendo aos locais onde o negócio era mais certo ou prometia maiores ganhos. os tecidos. Nas especiarias. Durante mais de dois séculos. bem antes do século XI. na Champagne. «pés poeirentos» que calcorreavam as estradas europeias. bem como isenção ou redução dos impostos costumeiros. tinham a venda sempre garantida e nunca frustravam. ou homens capazes de afrontar os riscos do mar. estendia-se ao longo de todo o ano. as cidades italianas foram as que melhor preservaram. ao Egipto. e a ousadia dos seus mercadores. das suas riquezas e do seu poderio. Venezianos e Pisanos concorriam entre si nas rotas comerciais que levavam à Ásia Menor. Genoveses. com Alexandria. quer na própria feira. comprando num lado. Foi assim que surgiram as primeiras sociedades comerciais. também. Grandes negócios implicam grandes investimentos. * As novas práticas comerciais e financeiras O desenvolvimento comercial dos últimos séculos da Idade Média estimulou a criação de novas técnicas de negócio. até. O calendário das feiras. rapidamente. as feiras champanhesas eram o ponto de encontro dos mercadores da Europa e de tudo o que eles tinham para oferecer. Situadas em pleno eixo de ligação entre o Norte flamengo e o Sul italiano. sempre presentes nas feiras e nas principais praças comerciais. que alimentou a imagem do Oriente. Génova. o que tornava a Champagne num autêntico mercado contínuo. desenvolveram-se feiras periódicas que. Bar-sur-Aube. favorecidas pelas condições geográficas e pelos privilégios dos senhores. Inimigos e rivais. até os Portugueses desvendarem as Índias e os seus caminhos. a memória e o saber das ligações mercantis. * As feiras da Champagne Na época que estudamos. através de um conduto que os punha a salvo de agressões e processos judiciais (salvoconduto). as primeiras a serem cunhadas na «Europa nova». Da prosperidade das cidades italianas. grandes riscos e abundantes meios de pagamento. à Síria. atingiram dimensão internacional. Em apoio de todo este pioneirismo financeiro e comercial desenvolveu-se a actividade dos cambistas ou banqueiros. as expectativas de bons lucros. Em algumas regiões. aceitando depósitos e realizando transferências de dinheiro. É. onde era constante a troca de moedas. O desencadear da Primeira Cruzada. se realizavam nas cidades de Lagny.

auxílio militar e conselho para com Afonso VII. Afonso II. portanto. A paz definitiva só chegaria. com as conquistas de Santarém e Lisboa em 1147. o insubmisso Afonso Henriques invadiu a Galiza e Afonso VII retaliou. A independência de Portugal configurou. entrando hostilmente em terras portucalenses. o território dos seus remos. mostrou-se. De facto. graças à acção tenaz e empenhada de D. a Reconquista do reino de Portugal prosseguiu durante aproximadamente mais um século. poder! Mas também é verdade que tal acto teve a seu favor um contexto político. o direito à História. caíram em mãos dos Portugueses. Em 1179. Teresa. em Outubro de 1143. Decidido a pôr cobro a tal sujeição. na Conferência de Zamora. tão absorvido que esteve na organização da administração e na consolidação do poder real. apesar de ter sido menos feliz. expandiu-lhe o território. de Navarra a Aragão e a Portugal — alargaram. na expressão de Lucien Febvre. seu suserano. e assumir. o papa Alexandre III reconheceu. ávidos uns e outros de terra. de imediato. que condenava o lucro e o comércio de dinheiro. orgulhosamente ostentava desde 1139. AFONSO III Com origem no primitivo Condado Portucalense. Afonso Henriques (1109?-1185). mas. Em 1142. Consolidou o domínio da linha do Tejo. rei de 1223 a 1245. tal como seu pai. morreu Afonso Henriques. aliás. finalmente. primeiro rei de Portugal. um acto típico de rebeldia feudal. uma vez mais. revelou-se um monarca de acção militar inferior. Mérida e Badajoz. privilégios. o reino de Portugal autonomizou-se da restante península no século XII. A sul do Tejo perderam todas as posições. Como seria de esperar num tempo marcado pelos conflitos entre reis e senhores. foi no contexto da Reconquista que os monarcas cristãos da Península Ibérica — das Astúrias a Leão e Castela. um grande chefe guerreiro. A FIXAÇÃO DO TERRITÓRIO – DE D. firmou a presença portuguesa na linha do Sado com a conquista de Alcácer do Sal. pioneiras. a sua posição social reconhecida e o seu ganho legitimado pelos benefícios que a vida económica deles retirava. o governo do Condado Portucalense. mercadores e banqueiros viram. que ele. Afonso Henriques não foi excepção. Entre avanços e recuos. rei de 1211 a 1223. Logo em 1128. Em 1158. à excepção de Évora. que encomendou à Santa Sé e a quem prometeu um tributo anual em ouro. celebrado em 1137. lembrava a Afonso Henriques os seus deveres vassálicos de fidelidade. segurança. Deste modo se esboçaram as primeiras actividades bancárias tal como as concebemos hoje. AFONSO HENRIQUES A D. Do seu reinado 6 Isabel Valente . a fronteira portuguesa avança vitoriosamente no Alentejo. Profissões novas. quando Afonso VII reconheceu a Afonso Henriques o título de rex. Pouco durou. a quem a História chamaria o Conquistador. Em 1185. Com D. Em 1162 e 1165. consolidaram autonomias e fortaleceram os seus poderes. Sancho II. Depois vieram as peripécias da sua luta contra o primo Afonso Raimundes. D. militar e religioso favorável: a Reconquista cristã da Península Ibérica aos Muçulmanos. Não satisfeito com as fronteiras do condado que arrebatara a sua mãe e transformaria em reino. dispôs livremente do território portucalense. O Acordo de Tui. tinham conquistado. beneficiando da tomada leonesa das cidades muçulmanas de Cáceres. Afonso Henriques procurou o reconhecimento do seu título e do seu reino perante o chefe máximo da Cristandade: o Papa. D. Já D. durante séculos. o jovem príncipe mostrou as suas ambições ao derrotar as tropas de sua mãe. Beja e Évora. a condição de vassalo de Afonso Henriques era reiterada. contudo. rei-imperador de Leão e Castela com o nome de Afonso VII. a partir do século XII. Afonso Henriques como rei e Portugal como reino independente. Sancho 1 rei de 1185 a 1211. Logo em 1140. Inicialmente encarados com maus olhos pela Igreja. respectivamente. D. na batalha de São Mamede.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv operações de crédito. definiram fronteiras. através da bula Manifestis Probatum.

Aljustrel e Mértola. acabado de chegar ao trono. Com Leão e Castela outra luta se travaria. fixavam-se os limites territoriais dos dois remos hispânicos. o território português adquiria a sua configuração definitiva. os reis ibéricos passaram a considerar-se como os legítimos descendentes dos antigos monarcas visigóticos. ao mesmo tempo que se projectavam casamentos reais e uma paz de 40 anos baseada na «amizade e defesa mútuas». Beja. Em Março de 1249. em 1197. quando se inicia. Todos eles se revelaram auxiliares preciosos na conquista de terras alentejanas e algarvias. A relativa tolerância. para a conquista de Lisboa. os monges de Calatrava e de Santiago cerca de 1170. O Norte cristão anexava para sempre o Sul islâmico e a Reconquista portuguesa chegava ao fim. que tão bem defenderam e povoaram. concedendo indulgências aos que participavam na luta. reivindicou o ex-reino algarvio de Niebla (onde se incluía Silves). os Hospitalários cerca de 1150. a Reconquista foi uma questão de sobrevivência política para o pequeno reino das Astúrias. Com pequenas excepções. celebrado em 1297. em 1217. cujo reino os invasores muçulmanos tinham usurpado em 711. DO TERMO DA RECONQUISTA AO ESTABELECIMENTO E FORTALECIMENTO DE FRONTEIRAS Porém. Posteriormente. para nova tentativa de conquistar Silves. por sua vez. merecedora de tanta consideração como as cruzadas à Palestina. Pelo Tratado de Alcanises. o monarca apoderou-se do enclave isolado que os muçulmanos ainda detinham no Algarve. Foi assim que os reis peninsulares usufruíram de várias bulas papais que exortavam à expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica. as ordens militares e religiosas introduzidas na Península no século XII: os Templários em 1128. o carácter político da Reconquista. Moura. A designação de cruzadas do Ocidente para a Reconquista peninsular confirma aquele facto. também. alegando que a sua soberania lhe havia sido cedida pelo respectivo rei mouro. o que faz de Portugal o Estado europeu com as fronteiras mais antigas e estáveis. Aliás. a soberania portuguesa chegou ao Algarve oriental. através de uma campanha fulgurante. Entre 1234 e 1238. Jurumenha. do século X em diante. contornos de guerra santa. Por várias vezes. Em 1252. Afonso III (1248-1279) que. o qual fomenta. na conquista definitiva de Alcácer do Sal. que serviu aos monarcas ibéricos de meio de afirmação e engrandecimento. Toda a terra que ganhavam mais não era do que a recuperação de algo que legitimamente lhes pertencia. logo em 718-22. Dinis e Fernando IV de Castela. se concluiu a conquista do Algarve. há pouco. Foi no reinado de D. a radicalização dos cristãos. 7 Isabel Valente . os reis de Portugal puderam mesmo contar com a ajuda dos cruzados que estacionavam na nossa costa a caminho da Palestina: em 1147. Este pensamento viria a ser comum entre os reis de Portugal.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv datam as conquistas de Elvas. entre D. revestindo-se esta de um significado particularmente especial por se tratar de um afamado centro muçulmano. Desde finais do século XI. que parece ter existido e que era fruto de um convívio de quatro séculos. Para o fortalecimento do ideal de cruzada muito contribuíram. os aspectos religiosos adquirem um carácter mais vincado na luta que opôs os cristãos aos muçulmanos. para a conquista de Alvor e Silves. Serpa. A Reconquista assume. quase meio século haveria de decorrer entre o termo da Reconquista (1249) e o estabelecimento definitivo das fronteiras portuguesas (1297). esvai-se perante o fanatismo religioso de almorávidas e almóadas. O CARÁCTER POLÍTICO E RELIGIOSO DA RECONQUISTA Referimos. então. em 1189. Afonso X de Leio e Castela.

Denominou-se esta de presúria e mais não era do que a simples ocupação das terras consideradas vagas pela expulsão dos muçulmanos. no Baixo Alentejo e no Algarve. nos começos do século XIII. reconhecíveis nos abundantes topónimos de origem germânica do Entre Douro e Minho (Leomil. Calatrava recebeu vastas doações na região de Évora e Avis. os cistercienses de Alcobaça. O núcleo do seu couto estendia-se da serra dos Candeeiros até ao mar. gozavam. Atães. o cabido e o bispo da cidade. da parte de nobres e até de populares.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv OS SENHORIOS – SUA ORIGEM. Aí tiveram lugar as presúrias da fidalguia hispânica. Tais cargos faziam-se acompanhar de dotações territoriais que os retribuíam.. perante o rei.. Os Templários estabeleceram-se na Beira Baixa e no Alto Alentejo. mosteiros e ordens religiosas militares possuíam a sul do Mondego. transformaram terrenos inóspitos em terras altamente produtivas. vindo os seus elementos a designar-se de «freires de Avis». sobressaíram as casas das ordens religiosas dos Beneditinos. No Norte atlântico. os bens fundiários da Igreja ultrapassavam. na zona dos grandes senhorios da Igreja. no século XIV. Em 1198. O Centro e o Sul converteram-se. a sua sede foi transferida de Leça para o Crato. que. península de Setúbal. mesmo. sobretudo no Sul. viram-se reduzidos em virtude de amplas doações à nobreza e ao clero. Claro que a maioria dos territórios obtidos por presúria pertenciam ao rei. delegados pelos reis de Leão na nobreza condal. O Norte atlântico tornou-se a terra de eleição do senhorialismo nobre. com o tempo.). foram encarregadas da defesa da fronteira portuguesa com doações imensas. Salvador de Grijó. embora mais modestos. vulgarmente. Na Estremadura Central. tal como as sés de Braga e Porto. Eis a origem do termo honras com que são. a sul do rio Douro. exercia poderes sobre a terra e sobre os homens que nela residiam. Roriz. os mosteiros e as sés são o símbolo do poder clerical. Outro mosteiro famoso foi o de S. cujo detentor — o senhor —. Ocupar o território. Nas vertentes ocidentais da serra da Estrela estabeleceram-se os monges de Santa Cruz de Coimbra. receberam perto de 100 km de extensão. à medida que a Reconquista progredia. DETENTORES E LOCALIZAÇÃO Tal como na Europa além-Pirenéus. Resultado de doações régias e de legados à hora da morte. Aí também se exerceram os mais antigos cargos públicos. Entre as entidades religiosas de maior projecção económica. ambos eram conhecidos pelo nome de honores. O clero constituiu outro protagonista do senhorialismo do Norte atlântico. Se os castelos. numa largura de 20 km. os senhorios pertenciam ao rei — o chamado Dominus Rex (Senhor Rei) —. mosteiro surgido entre 1148 e 1153. torres e solares expressam o poder nobre. de isenção judicial. 8 Isabel Valente . recompensar serviços prestados e obter o favor divino foram os principais motivos que conduziram os nossos primeiros monarcas a alienarem significativas parcelas de propriedade territorial. fiscal e militar. Criados por uma carta de couto. designados os senhorios nobiliárquicos. os de qualquer outro proprietário do país. Pertencia aos cónegos regrantes de Santo Agostinho. Lalim. situavam-se as ordens religiosas militares. Chamavam-se reguengos e. em terras dos dois lados do Tejo! Também aqui dispunham os Hospitalários de domínios. à nobreza e ao clero e a sua origem remonta à apropriação do território pelos cristãos. É costume designar de coutos os senhorios da Igreja. com enorme implantação dominial na planície alentejana. Outra ordem foi Santiago da Espada. No caso português. mais ou menos extensa e nem sempre contínua. eram bem extensos os domínios que bispos. Com efeito. Tal se deve à sua origem. o senhorio peninsular configurou uma área territorial.

Foi com o apoio e a força dos infanções que o conde D. jurisdicionais e fiscais. inclusive. no nosso território. os cavaleiros foram deveras perturbadores. na força das armas e na autoridade sobre os outros homens residiam as bases da superioridade social dos nobres. de Sousa. Mais do que económica. assaltando igrejas e mosteiros. Trata-se de autênticos poderes públicos que. ao poder banal (bannus) da Europa alémPirenéus. em alusão aos séquitos militares que comandavam e sustentavam. em quem os condes de Portucale delegaram funções públicas de governação de terras (unidades administrativas) e castelos. dando lugar ao de fidalgo.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv O EXERCÍCIO DO PODER SENHORIAL: PRIVILÉGIOS E IMUNIDADES * Graus de nobreza A origem do poder senhorial encontra-se no Norte atlântico e teve como principal protagonista a nobreza senhorial do Entre Douro e Minho. Nas suas fileiras encontramos.23-B1. na origem. os infanções. a integrar o grupo dos ricos-homens. na cavalaria. O escudeiro não fidalgo deveria acompanhar o seu cavaleiro. Passam. se misturassem indistintamente nobres com indivíduos oriundos dos estratos populares Ldoc. que conferia aos senhores o comando. Quanto aos escudeiros. como nos restantes rei. No sangue (nascimento). * A natureza do poder senhorial O poder senhorial caracterizava-se não tanto pela posse e exploração de terras mas. de Riba Douro. destacaram-se cinco famílias que atingiram o topo da escala social no século XII. não prestando contas a quem lhos delegou. desde então. viajantes e peregrinos. com extensões para a terra de Santa Maria e a região de Arouca. no cúmulo dos abusos. usurpou aqueles poderes.nos cristãos ibéricos. à propriedade livre (simples alódios ou. Outros graus de nobreza medieval eram preenchidos com os cavaleiros e escudeiros. onde exerciam a jurisdição e gozavam de isenções fiscais. os ricos-homens constituíam o estrato dominante da sociedade portuguesa. o estado permanente da guerra levou a que. a punição. por delegação da autoridade régia ou condal (como administradores de terras e castelos). Em meados do século XIII. Eram também conhecidos por «senhores de pendão e caldeira». a sua base territorial situava-se entre o Lima e o Douro. Henrique governou o Condado Portucalense e Afonso Henriques concretizou a sua independência e alargou o território. no século XIV. viam já os seus poderes consideravelmente diminuídos. a coacção sobre os habitantes do senhorio. Chamavam-se cavaleiros todos os que eram admitidos à ordem militar da Cavalaria. pelo exercício de funções militares. territórios de outros senhores). O poder senhorial corresponde. de Baião e de Bragança. a nobreza senhorial obteve. o termo infanção cairá mesmo em desuso. sobretudo. o código de honra dos cavaleiros nem sempre fosse cumprido. De entre os infanções. Foram as famílias da Maia. espécie de alta nobreza que é chamada a intervir nos assuntos da corte. Em momentos de crise social. de início. Em Portugal. até. no poder económico. conforme nos elucida o Livro Velho de Linhagens. Os infanções. como aqueles que Portugal viveu de 1220 a 1245. dedicavam-se à guerra e deviam cumprir um rigoroso código de honra e de cortesia. e. assim. ajudá-lo a vestir as armas e combater na sua retaguarda. 9 Isabel Valente . tinham a particularidade de nem todos serem nobres. Talvez por isso. Com o tempo. estendeu-os aos seus domínios pessoais e. que se lhes seguiam. a sua natureza foi política. Os ricos-homens distinguiam-se pela posse de avultados domínios.

quer devido à densidade populacional. começando a exigir neles as exacções cobradas nas honras. Em segundo lugar. os domínios nobres do Norte atlântico. os infanções portucalenses tinham já os seus cavaleiros e peões armados. moinho e lagar) e sobre as actividades comerciais e os transportes (peagens e portagens). assim como as respectivas populações. pastos. 10 Isabel Valente . conhecida por quintã. frequentemente. O poder senhorial converteu-se. e daí conhecido. A EXPLORAÇÃO ECONÓMICA DO SENHORIO Para além do poder senhorial. pomares. Pelo facto de a maior parte das cartas de couto terem sido atribuídas à Igreja. prestações pagas por quem casasse fora do domínio senhorial. a propriedade de bens fundiários constituía outro dos sustentáculos das classes nobre e eclesiástica. eram os senhores que exerciam esses poderes. desde o século XI. no caso do Norte atlântico. couto tornou-se a expressão generalizada para designar os seus senhorios. Imediatamente a terra se considerava «honrada» pela presença. Baseava-se. entre as quais poderemos referir: — as banalidades. — a lutuosa e a manaria. a um conjunto de parcelas territoriais dispersas. quer à morfologia do solo. compreendiam uma reserva. por honras. que. a verdade é que o seu património era maioritariamente constituído. para ser «criado». — o jantar. que dificilmente ultrapassavam os 600 ha de área. A imunidade de uma honra resultava de o seu senhor ser um nobre que exercia os poderes públicos (por delegação. bosques. foi através de uma carta de couto. do jovem nobre. por isso. enquanto os eclesiásticos são conhecidos pelo nome de coutos. em factor de prestígio e de enriquecimento para infanções e ricos-homens. Finalmente. espécie de impostos de sucessão. Ambas eram a fonte de direitos dominiais. Esses bens chamavam-se domínios senhoriais e. No caso dos coutos. Referimos já que os senhorios da nobreza eram as honras. sobretudo.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv O poder senhorial comportava vários privilégios. na posse das armas e no comando militar. provenientes da exploração do solo pela massa de camponeses. em virtude da constituição de senhorios nobres e. A diferença entre uma honra e um couto deve-se ao modo como a imunidade foi conquistada. Tomemos. Pelo contrário. dever de alimentar o senhor e o seu séquito. que eram os casais. que deu lugar a abusos. «honrava» o respectivo território. ainda que breve. No século XI. com o tempo) e que. Ambos eram considerados territórios imunes. Um dos processos utilizados para o efeito consistia em pôr o filho de um nobre na casa de um camponês. que lhes permitiam organizar expedições ofensivas e controlar fortificações em lugares estratégicos. jamais adquiriram a extensão dos latifúndios de além-Pirenéus. em primeiro lugar. pois neles não entravam funcionários régios no desempenho das suas funções militares. — as osas ou gaiosas. Não admira pois que os senhores procurassem estender a imunidade aos seus simples domínios ou à propriedade livre (alódios). Resumiamse. o poder senhorial fazia-se sentir na exigência de multas judiciais. Era o chamado amádigo. assumiram os mecanismos do poder local na região do Norte atlântico. Com o avanço da Reconquista. conforme vimos. como exemplo de exploração económica do senhorio. e as unidades de exploração arrendadas. o poder senhorial afirmava-se na cobrança de crescentes e arbitrárias exigências fiscais. Embora muitos nobres também tivessem sido contemplados com cartas de couto. usurpação e herança. pois. vinhas. Relacionavam-se com o exercício de justiça por parte do senhor. Tal como no Ocidente medieval. o poder senhorial expandiu-se ao Centro e Sul de Portugal. distribuídos por campos de cereais. de grandes senhorios da Igreja. pelo uso dos instrumentos de produção (forno. judiciais e fiscais.

como o jantar. moços de lavoura. isto é. pois. Isto significou. clérigo ou o rei). empregues em trabalhos domésticos. viram. através do crescente afluxo de cativos mouros. para além dos estábulos. vilãos). Restavam os assalariados (cabaneiros. salienta-se o facto de a exploração económica ser aí mais rigorosa e o controlo senhorial mais absorvente. neste último caso. desde o século XIII.. Por sua vez. divididas em casais ou vilares. Se a servidão regredia. de preferência. que correspondiam aos mansos europeus. misturando-se neles as prestações dominiais com novas imposições de cariz senhorial. no âmbito da exploração dos casais. Tal aconteceu desde a segunda metade do século XI. E em bons pergaminhos se anotavam as rendas que cada casal devia pagar. passaram a ser sujeitos a prestações senhoriais. que podiam distar umas das outras. Em Portugal. a «ossadeira». celeiros e igreja. a lutuosa.. uma degradação do estatuto dos herdadores. proprietários de terras alodiais. Deixaram de se distinguir dos colonos. os verdadeiros direitos senhoriais. dificilmente ultrapassava a média de 10 ha. esta forma de exigência jamais foi tão gravosa como as corveias de outras regiões da Europa. A exploração da quintã cabia aos escravos. a menos que já vivesse inserido num senhorio. As rendas neles consignadas eram de dois tipos: fixas ou de parceria. a área de cada casal. a administração directa. No século XIII. também chamados de “caseiros”. demasiado na época das colheitas. no século XII. a anúduva. servos e colonos livres dos casais que aí prestavam serviços gratuitos e obrigatórios durante um certo número de dias por ano: eram as jeiras. A sociedade senhorial comportava a existência de servos: eram os descendentes de escravos libertos. malados. Na verdade.). incluía uma porção diminuta de terras. Esses contratos podiam ser perpétuos. pecuária) e nem os rendimentos régios dele estavam isentos! A SITUAÇÃO SOCIAL E ECONÓMICA DAS COMUNIDADES RURAIS DEPENDENTES Nos seus domínios e senhorios (honras e coutos). Exigia-lhes tributos e prestações. a entroviscada. subdividido. uma lei de Afonso II afirmava que todo o homem livre devia depender de um senhor (nobre. no artesanato e até na agricultura. o arrendamento por duas ou três vidas. A confusão entre domínio e senhorio era cada vez maior. os senhores preferiam o arrendamento das suas propriedades. também chamada de paço por nela se encontrar a morada do senhor.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv A quintã. Existiu. isto é. o que nos prova o desinteresse da nossa nobreza pela administração directa dos seus domínios. Nos começos do século XIII. Quanto aos domínios eclesiásticos. correspondendo. À semelhança dos caçadores. tanto mais quanto as jeiras também incidiram sobre estes. os contratos a prazo prevalecerem sobre os arrendamentos perpétuos. outros resultantes do exercício do poder político. que temos vindo a especificar: uns provenientes da exploração do solo (rendas e jeiras). e nem sequer forneceu o essencial da mão-de-obra. em glebas. 11 Isabel Valente . antes de mais. a escravatura aumentava. que os herdadores. que viviam do aluguer do seu trabalho. Prestações que eram pagas a um senhor ou ao rei. por sua vez. Nas suas granjas praticava-se. escasso no Inverno. mas a tendência foi para o emprazamento. a classe senhorial controlava uma multiplicidade de homens — os dependentes. os chamados direitos dominiais. a uma fracção das colheitas. homens livres que trabalhavam em terra alheia. Quanto aos colonos (chamados de foreiros. Recaía em 10% de toda a produção bruta (agrícola. a quem foram entregues casais para exploração e que eram especialmente sobrecarregados com as jeiras. colmeeiros e pastores (sobreviventes de antigas formas de organização económica). a «voz e coima». achavam-se mal integrados na lógica do sistema senhorial. mais precisamente em 1211. celebravam-se contratos entre os senhores e os colonos. a ramada. estava já instituído o pagamento da dízima à Igreja.

Com o seu séquito de funcionários e letrados. nem por isso menos gratas e ousadas. maior ou menor. do estabelecimento e dinamismo de uma rede comercial. onde se abrigava o túmulo do apóstolo. não menor engrandecimento derivava das suas funções eclesiásticas. territórios de forte presença urbana. que valoriza as transacções monetárias e onde comunidades de homens livres. O desenvolvimento urbano dependeu da proximidade dos eixos de comunicação. a sua reconquista e posterior restauro foram motivo de desmedido orgulho. concretamente. faz deste local um dos centros de devoção mais concorridos da Cristandade medieval. Tal significa que o espaço a norte do Mondego. exportar as suas produções rurais e artesanais. em simultâneo. pelo seu grau de superintendência jurídica. tomam nas mãos o exercício do poder local. readquirindo um dinamismo desconhecido há séculos. e não exclusivamente os senhores. Trata-se do país urbano e a sua pujança e protagonismo verificam-se do século XII em diante. Lisboa. na segunda metade do século XII. cada vez mais se distanciavam aqueles centros urbanos do país rural. que em breve fará parte do reino de Portugal. Ele explica-se. na verdade. nascido no Entre Douro e Minho. da facilidade dos transportes terrestres. que os monarcas e. Eis um dos motivos por que Afonso Henriques transfere a capital de Guimarães para Coimbra. A presença da corte. Ao surto urbano 12 Isabel Valente . Entretanto. para a consolidação das estruturas urbanas do reino nos seus primeiros séculos de existência. acrescentavam-se ao Norte tradicionalmente rural e senhorial. Referimo-nos. então verdadeiramente itinerante. O Porto e Guimarães. mas. a Reconquista prosseguia e. às vezes. Lisboa. a Estremadura. Évora) contribuiu. que o domínio muçulmano além de preservar soubera estimular. a cidade deve inserir-se numa vasta rede de trocas. onde as amarras senhoriais eram mais ténues ou praticamente inexistentes. às sedes de bispado. pela necessidade de atrair moradores a zonas que urgia defender e povoar: a Beira interior. é natural que os núcleos urbanos se revitalizem. com ela. Santarém e Évora como pólos estruturadores da futura evolução económica e política do reino de Portugal. Libertava-se das exigências da fidalguia nortenha. Para alimentar a sua população e.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv O PAÍS URBANO E CONCELHIO – A MULTIPLICAÇÃO DE VILAS E CIDADES CONCELHIAS O país rural e senhorial. cuja organização analisaremos mais adiante. Coimbra é definitivamente conquistada aos muçulmanos. por seu turno. em grande parte. Remontavam aos primeiros tempos de organização do Cristianismo na Península e. a construção da catedral de Santiago de Compostela. cedo se complementou com um país de cidades e vilas concelhias. A urbanidade de uma povoação media-se. o Alentejo. à cidade do Mondego juntavam-se. Em 1064. saem beneficiados. Leiria) e Sul (Santarém. A cidade e a vila concelhia dispunham. que o pusera no trono e angariava apoios de estirpes menos nobres. especialmente. Em 1075. Referimos já a conquista de Coimbra. Nestas regiões se situaram. Mas em que contexto as cidades e vilas irromperam e se desenvolveram em território português? Recuemos no tempo. se vê sulcado de peregrinos e caminhos que demandam a cidade do noroeste da Galiza. compreende-se o privilégio que representava a vida num concelho. pelo estado de guerra então vivido. é certo. face ao qual se sentiam mais poderosos e esclarecidos. nas cidades do Centro (Coimbra. predominantemente. a proliferação de serviços burocráticos e de forças militares. Num país que nasceu à sombra de castelos e igrejas. que herda os saberes artesanais e os contactos comerciais do mundo muçulmano. Doravante. por exemplo. um senhor lhe concederam através de uma carta de foral. as únicas a merecerem a designação de cidades. certamente. os concelhos perfeitos ou urbanos. de uma capacidade auto-administrativa. Com tal movimento. o Entre Douro e Minho ficará secundarizado face a um Centro e Sul que dele recebe excedentes demográficos. Se a presença régia prestigiava uma urbe.

da estância da corte régia. Lisboa e Évora. distinguia-se. De fundação cristã ou de influência muçulmana. mas porque nele se situavam os edifícios do poder e moravam as elites locais. no entanto. se localizavam num eixo nortesul paralelo à costa atlântica. Sucessivas invasões e contributos civilizacionais de Godos e Muçulmanos. a verdade é que as urbes medievais portuguesas já nada revelavam do urbanismo latino. destacava-se na paisagem por estar envolta numa cintura de muralhas. Ao dinamismo dos seus mercadores se deve a concessão das respectivas cartas de foral. reservada aos dirigentes. os citadinos gravavam. Portugal recuperou. a cidade medieval portuguesa. de um urbanismo muçulmano. a zona popular. aos paços do 13 Isabel Valente . Toda a cidade medieval comportava uma zona nobre. tanto mais quanto os contactos económicos e culturais não escasseavam. qual símbolo do poder e autonomia. um centro. Dinis. ao paço episcopal. Coimbra. mais nítido à medida que caminhamos para sul. Apesar de não faltarem no primeiro as ruas tortuosas e os becos sem saída. De maior ou menor perímetro. além de embelezá-la! Com indisfarçável orgulho. Muitos dos antigos arrabaldes (bairros extra-muros) bem como zonas rurais ficaram. o crescimento demográfico do reino e as movimentações populacionais estiveram na origem de reestruturações urbanísticas de vulto. Afonso V e terminaram no reinado de D. incluídos nas novas cinturas de muralhas e não tardaram a encher-se de construções e habitantes. desde o século XII. irradiava a partir de um centro. enquanto a cidade muçulmana se distribuía pela alcáçova. as muralhas. nos seus selos concelhios. aliás. Fernando. * Concluindo: Beneficiando das peregrinações a Santiago de Compostela.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv português não é. a muralha delimitava o espaço urbano. em princípio. à Sé ou igreja principal. que passou à História como o monarca construtor de cercas por excelência. um urbanismo cristão. estranho o ressurgimento comercial que o Ocidente medieval viveu a partir do século XII. o facto é que a urbe cristã sempre dispunha de uma ou mais praças (um luxo nas densas e labirínticas cidades do sul!) e. de um modo geral. do restauro das sés episcopais. a construção desorganizada e os acidentes de terreno somaram-se. quer no nosso território quer na restante Ibéria. A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO CITADINO * Urbanismo cristão e urbanismo muçulmano Embora os Romanos. que se distinguia do restante espaço. E dizemos nobre. Assim. prosseguiram com D. a integração das diferenças se processava. Referimo-nos ao castelo ou à torre de menagem do alcaide. Santarém. durante séculos. mesmo quando os dois mundos ferozmente se digladiavam. Não é por acaso que as urbes de maior dimensão. por conseguinte. do avanço da Reconquista. como as suas irmãs peninsulares ou os burgos europeus. com as suas ameias e os seus cubelos. a norte. dava-lhe segurança e proventos (pelas inúmeras taxas pagas nas suas portas e postigos). com o seu espírito prático e organizador. As obras iniciaram-se ainda com D. com a qual facilmente comunicavam. traços comuns no urbanismo medieval. há. como em qualquer cidade medieval que se prezava. uma fisionomia urbana. Desde o século XIII. para conferir um fácies à cidade portuguesa que não a afastava muito das suas congéneres peninsulares. da criação de concelhos e do dinamismo comercial. não porque nele habitassem os aristocratas de sangue — que. nos tivessem legado cidades regulares construídas segundo o sistema em quadrícula. * O espaço amuralhado Antes de mais. sofriam de várias limitações para construir casas na cidade —. e pela almedina. Porto. então. como Guimarães. e tanto mais também quanto. à medida que a Reconquista progredia.

História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv concelho. a aprendizagem das técnicas. vindo fixar-se à beira-rio onde deram origem ao próspero arrabalde de Miragaia. Caldeireiros. frequentemente. fétidas. a aquisição da matérias-primas. albergaram-nos dentro de muros. sob pena de expulsão. Mas nem por isso os cristãos deixaram de os recear: relegaram-nos. São edifícios altivos. Não longe deles estava o mercado principal numa praça ou rossio. os judeus viviam em bairros próprios. Chamavam-se ruas direitas e. não foi senhora de uma abastança comparável à dos judeus. para bairros próprios — as mourarias—. Em finais do século XV. dados à usura e ao negócio. as oficinas dos mesteirais. raramente calcetadas. Não faltavam. alfaiates. Donde os curiosos nomes das ruas dos Sapateiros. que hoje nos chocaria pelo amontoado das construções e pela falta de espaço que. cães e porcos focinhavam e mil perigos espreitavam. como vimos. se fixava nos arrabaldes. os mouros submetidos. de robusta pedra que desafia os tempos. Só no reinado de D. estavam próximos de cursos de água. da Bainharia ou dos Mercadores. por certo. até. na cidade medieval portuguesa. astrónomos. impediria uma boa panorâmica da catedral. cobradores de rendas. tantas vezes designadas de almuinhas (palavra de origem árabe). Facilitava-se. a comercialização de bens. pobres e doentes. também. mais abastados. Nele se encontravam as hortas. Correeiros. juízes e hierarquia religiosa. desceram as escarpas da sua acidentada cidade. desse modo. * O arrabalde Localizado fora de muros. Muitos dos judeus eram mesteirais (ourives. a sociedade portuguesa tolerou os judeus e as cidades. entendido como símbolo de dinamismo económico do burgo. mas houve-os também médicos. autênticas vielas para os nossos padrões. ligando duas das suas portas. aliás. Outros. sapateiros). por razões históricas. Mais largas que o habitual iam directamente de um ponto ao outro da cidade. escuras e poeirentas. e apesar do antagonismo religioso e de pontuais invejas motivadas pela sua superioridade económica e intelectual. enchiam de satisfação os citadinos. Durante séculos. lojas e estalagens. se bem que muitos outros mercados proliferassem no interior da cidade medieval. A fuligem e o barulho ensurdecedor que saía dos seus martelos e bigornas tornavaos tão indesejáveis. Pelames. Dinis se abriram ruas para servirem de eixo ordenador do espaço urbano. como os carpinteiros e calafates navais do Porto. Fora daquele centro. às moradias dos mercadores e mesteirais abastados. embora os humildes não faltassem. com os seus funcionários. Tudo o mais eram ruas secundárias. quanto os surradores e os carniceiros. a tal os predispunha). que fizeram situar no arrabalde. Os ferreiros eram outro grupo de mesteirais que. a cidade espraiava-se numa desordem total. que. Manuel obrigou os judeus à conversão. as judiarias. Uma curiosa compartimentação sócio-profissional levava a que os ofícios se agrupassem em ruas específicas. que a toponímia viria a perpetuar. albergarias e hospitais. Quanto à comunidade mourisca. na sinagoga que também era escola. as minorias étnicoreligiosas: os judeus e claro. no espaço intra-muros. que acolhiam peregrinos. Nelas se distribuíam as habitações populares. o arrabalde acabou por se transformar num prolongamento da cidade. tal como as ruas novas surgidas desde o século XII. onde os despejos se faziam a céu aberto. as tendas para a venda dos produtos e. que aí abriam as suas melhores oficinas. Mais letrados que o comum dos cristãos (as discussões teológicas. A opinião pública fixou a máxima do «trabalhar que nem um mouro» sinal da condição inferior dos islâmicos. Um grupo numeroso de judeus era. a convivência entre os dois credos romper-se-ia Referimonos ao momento em que um edicto de D. juntamente com os ofícios poluentes (pelames ou curtumes). 14 Isabel Valente . do Ouro.

Azurara e Mindelo. calçado ou as alfaias agrícolas de que estavam necessitados. ou vila. maiores de idade. Instalando as suas oficinas e lojas nas vias que conduziam às portas da cidade. Atraídos pelo mundo da pobreza e da exclusão. Trata-se dos concelhos. espaço circundante de olivais. um certo ar de marginalidade rodeava o arrabalde. Franciscanos e Dominicanos desempenharam com êxito a sua missão de assistência e protecção aos humildes e desenraizados. os estrangeiros e.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv Para muitos mesteirais e mercadores. sem antes transporem a muralha e adquirirem nas lojas uma peça de pano.. tinha lugar um bem fornecido mercado. Deles estavam excluídos os nobres e os clérigos. Eis o motivo por que as ordens mendicantes se instalaram nos arrabaldes desde o século XIII. nele impunha obrigações militares. nas cidades islâmicas. por seguirem o partido de D. cujos privilégios e obrigações ficaram consignados nas cartas de foral. Eram os chamados concelhos urbanos ou perfeitos. Nele exercia a jurisdição e o domínio fiscal. Durante os séculos XII e XIII concederam-se forais à maior parte das cidades e grandes aldeias. naturalmente. Aos vizinhos competia a 15 Isabel Valente . A tal dava direito a autonomia das cidades e vilas concelhias. Chamavamse vizinhos a todos os homens livres. que habitavam a área concelhia há um certo tempo e que nela trabalhavam ou eram proprietários. comunidades de homens livres. vinhas ou searas e aldeias várias incluídas. os mouros. sobretudo daqueles que lograram maiores capacidades de gestão governativa. o arrabalde constituía um local privilegiado. situava-se nas regiões fronteiriças das Beiras. Semanalmente. costumavam ser concedidas às comunidades cristã (moçárabe e judaica). levou monarcas e senhores a reconhecerem a autonomia político-administrativa de parcelas do território. esses párias que a sociedade medieval hostilizava. Os pedintes e os leprosos. Compreendiam a cidade propriamente dita. A AFIRMAÇÃO POLÍTICA DAS ELITES URBANAS Já referimos como a necessidade de repovoar o interior e o sul do país. cuja área de influência jurisdicional — o termo — incluía aldeias e uma vasta população rural. O número mais significativo de concelhos.. Já o Porto. viram o seu termo reduzido. as touradas. no fim das vendas. frequentemente. certamente. não partiriam. eram naturalmente os primeiros a abastecerem os que dela saíam e os que nela entravam. os aldeões do termo acorriam ao mercado que se realizava junto às portas da cidade. Vila Nova. receberia de presente Gaia. espraiava-se o termo. Referimo-nos. Sem o termo a cidade medieval não poderia viver. obtendo simultaneamente a ajuda militar das populações. O mesmo acontecia com as mulheres — excepção feita às viúvas —. No arrabalde semanalmente. * O termo Para além do arrabalde. os servos e escravos. em que vilas como Santarém. onde citadinos e aldeãos se cruzavam. Tal era o prestígio e a abastança oriundos da posse do termo que os monarcas o alargavam ou encurtavam se desejassem agraciar ou castigar as cidades! Foi o que aconteceu na Revolução de 1383-85. limitavam-se a sancionar formas embrionárias de organização local e tradições de autonomia existentes no Sul muçulmano. Não só as actividades menos limpas para ele eram remetidas. os judeus. a não ser que se submetessem às leis comuns e abdicassem dos seus privilégios. Traziam os indispensáveis produtos da terra. Beatriz. que tudo dera à causa do Mestre de Avis. por vezes. às liberdades que. na Estremadura e no Alentejo. confinavam-se ao seu espaço. O EXERCÍCIO COMUNITÁRIO DE PODERES CONCELHIOS. concretamente. Nem sequer animação lá faltava: aos habituais malabaristas e saltimbancos vinham juntar-se. sedes do concelho. Contudo.

as decisões da assembleia dos vizinhos regulamentavam questões económicas relacionadas com a distribuição de terras. os vizinhos integravam a assembleia (concilium). os homens-bons invocavam o pretexto de um elevado número de pessoas tornarem as reuniões conflituosas e inoperantes! A FRAGILIDADE DO EQUILÍBRIO DEMOGRÁFICO Durante a Idade Média. Mereciam um tratamento judicial reservado aos infanções. 16 Isabel Valente . Os alcaides ou juízes (dois ou quatro). todos os magistrados pertenciam à elite social do concelho. já que monopolizavam os cargos e as magistraturas do concelho. maioritariamente. Possuíam vastas competências legislativas e executivas. que. O procurador exercia o cargo de tesoureiro e representava externamente o concelho. o aproveitamento dos pastos e dos bosques. menos favorecidos economicamente. Fixemos seus nomes e funções. não descurando. derivado das suas riquezas e dos privilégios alcançados. Até ao século XIII desempenharam um papel fundamental na Reconquista e defesa do território a sul do Mondego. distinta da do senhorio que pertencia a um único titular. Serviam na guerra a cavalo. frequentemente. que era o grande órgão deliberativo do concelho. à assembleia dos vizinhos e aos restantes magistrados. Ceifava sobretudo as crianças. vindo a sobrepor-se. O desconhecimento dos princípios básicos da puericultura. o atraso da medicina. Conhecidas por posturas municipais. Até na composição da assembleia dos vizinhos. almotacés. estavam isentos do pagamento da jugada e dispensados de fornecer a pousadia. Os almotacés (doze no século XIII) estavam encarregados da vigilância das actividades económicas (mercados. os homens-bons se impuseram. A estes magistrados acrescentavam-se. que não conseguia curar doenças hoje benignas. Para o efeito. Eram. preços e medidas). nomeados pelo rei de entre os vizinhos. é verdade também. também chamados de alvazis. os vereadores (dois a seis). a falta da mais elementar higiene. os preceitos de higiene. as suas fortunas provinham. por terem alcançado uma idade tão excepcional. Do ponto de vista fiscal. sendo comummente chamados de homens-bons. Por isso. desde 1340. Eram proprietários rurais e donos de razoáveis cabeças de gado nas terras do interior. inclusivamente. Ao protagonismo social. a manutenção da concórdia e dos bons costumes entre os habitantes. morriam à nascença ou de tenra idade. precisamente aquelas que distinguiam um município perfeito de outro imperfeito. contribuíam para a elevada mortalidade. competia-lhe guardar o selo e a bandeira do concelho. do comércio. da sanidade e das obras públicas. os homens-bons somavam a preeminência política. Evitavam a todo o custo a participação dos nobres e dos próprios mesteirais nas vereações camarárias. a realeza os agraciara ao fazê-los cavaleiros-vilãos. não podendo receber açoites. porém. excluindo os peões. as fomes e as pestes as principais responsáveis pelo frágil equilíbrio demográfico dos tempos medievais. eram as que se relacionavam com a administração da justiça e a eleição dos magistrados. o abastecimento dos preços. eram os supremos dirigentes da comunidade. a morte era uma presença permanente. Mas as competências mais significativas do concelho. Mas.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv administração do concelho. Alcaides. É verdade que estes não possuíam a abastança e a disponibilidade necessárias para se deslocarem às reuniões na cidade ou vila. procuradores ou vereadores. Revestia o carácter de uma administração comunitária. já nas cidades do litoral. Chegar à idade adulta era já um privilégio e os que atingiam a velhice eram olhados com reverência e admiração. o exercício dos mesteres. Quanto ao chanceler. com as suas armas de ferro e os seus séquitos de peões. também.

são conhecidas. O Ocidente tornou-se. nos dejectos acumulados nas ruas. quase todo o século XIV é de escassez e subalimentação. 17 Isabel Valente .. As cidades e os mosteiros. como sabemos. No entanto. Normalmente. Mas esta multidão humana punha sérios problemas. a Peste Negra foi a mais mortífera e cujo agente se encontrava em toda a parte: nos homens. em 1348. as mortes ultrapassavam os nascimentos e a população diminuía.. um mau ano agrícola provocava. permitindo que a natalidade ultrapassasse significativamente a mortalidade. Mais. que os medievais interpretavam como um castigo divino para os pecados da Humanidade. a subida do preço do pão. que raramente era mudado. que coabitavam com os animais. Os séculos que acabámos de estudar (séculos XI a XIII) correspondem a um destes períodos mais felizes. como uma maldição sempre repetida: na Provença. a fome assumia proporções catastróficas. tornando ainda mais precárias as colheitas de cada ano. até ao século XVIII. as lavras intensas tinham esgotado os solos. fazendo as suas vítimas sem distinção de classe social. no vestuário predominantemente de lã. elas manifestaram-se de forma mais branda e espaçada. nas feitorias de Crimeia. As fomes e o cortejo de doenças que se lhes seguia deixavam um rasto de miséria e de morte. A fome regressou ao Ocidente. de meados do século XIV aos finais do século XV. sexo ou idade. nas épocas mais difíceis. pelo menos. Quando os anos de más colheitas se sucediam e as reservas se esgotavam. especialmente. O século XIV corresponde a um período de pluviosidade intensa e arrefecimento generalizado. a quantidade de alimentos que era possível produzir já não bastava para alimentar tantos homens. de imediato. um ano em cada três era de más colheitas. nos grandes centros urbanos. vinte e uma crises de subsistências. «um mundo cheio». em épocas de paz e de boas colheitas. entre 1348 e 1350. um terço da população foi ceifada pela Peste Negra que. Em Portugal. periodicamente irrompia. Foram tempos de paz e de prosperidade em que a população não cessou de crescer. Será. que rapidamente se propagavam numa população subnutrida. em parte. * A quebra demográfica do século XIV A fome No fim do século XIII. condenando à fome os mais pobres e desprotegidos. Inversamente. não deu tréguas à Europa.. A esta elevada mortalidade correspondia uma natalidade igualmente alta. As chuvas e o frio faziam apodrecer as sementes e as colheitas perdiam-se. no crescimento populacional anterior que devemos procurar as razões da quebra demográfica do século XIV. Ao esgotamento dos solos somaram-se as mudanças climáticas. mas que também afectaram a província. uma terrível epidemia a Peste Negra — abateu-se sobre o Ocidente. causando uma elevada mortandade. Em Navarra. A peste grassou durante meses a fio. sobretudo quando à fome e à peste se juntavam os efeitos devastadores da guerra.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv Nesta altura. No total. A grande peste Repentinamente. que se fizeram sentir. a população aumentava. Permanecendo endémica nas populações. foram particularmente atingidos. infestados de pulgas. seguiam-se as epidemias (genericamente designadas por pestes. Trazida do Oriente por marinheiros genoveses que haviam entrado em luta com os Tártaros. Embora a fome e as epidemias continuassem presentes. onde a concentração populacional era maior.

violações e assassínios eram atitudes comuns.História tema D Portugal no contexto europeu dos séculos XII A xiv A guerra Um terceiro flagelo contribuiu decisivamente para a quebra demográfica: a guerra. conflitos entre Estados ou revoltas populares ensombraram o quotidiano dos Europeus. um conteúdo violento e sombrio. 18 Isabel Valente . celeiros roubados. gado confiscado. Guerra civis. A aproximação de tropas. amigas ou inimigas. as malfeitorias não eram menores. Em suma. Nas cidades. Nesta época. nos séculos XIV e XV a vida assumia. os efeitos devastadores da guerra resultavam mais das violências exercidas pelos exércitos sobre as populações do que das batalhas propriamente ditas. de novo. temendo os povos pelos seus haveres e pelas suas vidas. punha os camponeses em pânico: searas espezinhadas. que deixavam atrás de si a fome e a destruição.

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