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Tribunal de Execução das Penas de Lisboa

Juiz 5

Av. D. João I I, Nº 1.08.01 A - 1990-097 Lisboa

Telef: 213182250

Fax: 211545122 Mail: lisboa.tep@tribunais.org.pt

CONCLUSÃO - 02-03-2016

(Termo eletrónico elaborado por Escrivão Auxiliar Luís Canhoto)

Fls. 433:

I.

Pague-se.

RELATÓRIO

=CLS=

**

*

Proc.Nº 824/13.9TXLSB-A

4529708

Identificação do recluso: Carlos Pereira Cruz Objeto do processo: apreciação da liberdade condicional (arts. 155.º n.º 1 e 173.º e ss., todos do código da execução das penas e medidas privativas da liberdade, de ora em diante designado CEPMPL) com referência ao marco dos dois terços da pena. Foi elaborado relatório pela equipa técnica única de tratamento prisional e reinserção social, versando os aspetos previstos no art. 173.º n.º 1 als. a) e b) do CEPMPL. O conselho técnico emitiu, por maioria, parecer desfavorável à concessão da liberdade condicional (art. 175.º do CEPMPL). Ouvido o recluso este, entre outros esclarecimentos, deu o seu consentimento à aplicação da liberdade condicional (art. 176.º do CEPMPL). O Ministério Público emitiu parecer desfavorável (art. 177.º n.º 1 do CEPMPL).

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II. FUNDAMENTAÇÃO A) De facto

i) Factos mais relevantes:

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1. Circunstâncias do caso: o recluso cumpre, à ordem do processo n.º

1718/02.9JDLSB, da 8.ª vara criminal de Lisboa, a pena de 6 (seis) anos de prisão pela prática, em dezembro de 1999/janeiro de 2000, de dois crimes p. e p. pelo art.

172.º n.ºs 1 e 2 do código penal [abuso sexual de crianças - perpetrados contra um menor de 13 anos e consubstanciados em, por duas vezes, ter manipulado o pénis do menor, masturbando-o, ter introduzido o pénis do menor na sua boca, chupando-o, enquanto manipulava o seu próprio pénis, o menor ter mexido no pénis do condenado, manipulando-o, o condenado ter introduzido o seu pénis na boca do menor, tendo-o este chupado e o condenado ter introduzido o seu pénis ereto no ânus do menor, aí o friccionando até à ejaculação, tendo entregado dinheiro ao adulto que levara o menor até si].

2. Marcos de cumprimento da pena: início em 02/04/2013 (beneficia de 1 ano

e 4 meses de desconto); meio em 02/12/2014, dois terços em 02/12/2015 e termo em

02/12/2017.

3. Vida anterior do recluso: tem 73 anos de idade; dos 6 aos 17 anos de

idade viveu em Angola, no seio de uma família que, fruto das atividades laborais e comerciais desenvolvidas nesse país, alcançou situação de desafogo financeiro; naquele país desenvolveu relação privilegiada com a elite cultural, levando a que se dedicasse a um vasto leque de atividades desportivas e tivesse alguma participação na vida política; aos 14 anos estreou-se como relator desportivo na emissora católica de Angola; concluiu o 12.º ano de escolaridade em Angola, com muito bom aproveitamento; frequentou, mas não completou, o curso superior de engenharia eletrotécnica no instituto superior técnico de Lisboa; em 1961 começou a desempenhar funções como relator desportivo na então emissora nacional; exerceu, ao longo de anos, funções na televisão, como locutor, jornalista, repórter e autor e produtor de

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diversos tipos de programas, alguns dos quais com grande audiência e impacto público; na televisão exerceu também cargos de direção de informação e de programas, a nível nacional e internacional; exerceu igualmente funções no teatro, no cinema, em revistas e jornais, na publicidade e na produção discográfica; em 1992 terá constituído uma empresa de produção audiovisual, tendo-se defrontado no seu âmbito com dificuldades diversas, na sequência do que passou para uma situação de inatividade; em 2000 assinou um contrato de trabalho com uma estação televisiva e posteriormente assinou contrato de publicidade com um grupo económico, o que lhe garantiu algum conforto financeiro; contraiu matrimónio a primeira vez em 1966, união que terminou passados cinco anos; entretanto estabeleceu outras relações amorosas e voltou a casar; o segundo casamento durou até 1996, tendo dessa união nascido uma filha, atualmente com 31 anos de idade; em 1997 iniciou nova união de facto; afirma que à data dos factos pelos quais está condenado vivia com essa sua companheira, com quem casou passados quatro anos sobre o início da união; fruto desta relação teve uma filha, atualmente com 13 anos de idade; o casal separou-se no decurso da fase de recurso do processo sobremencionado; o condenado regista patologias prévias à reclusão do foro oncológico, psiquiátrico e cardíaco; não tem antecedentes criminais.

4. Personalidade do recluso e evolução durante o cumprimento da pena:

atitude face ao crime nega a prática dos crimes por que vem condenado; reitera as suas anteriores declarações, no sentido de que “é um tipo de crime que me repugna violentamente, em relação ao qual eu sempre tive uma opinião crítica. Eu ponho este tipo de crime ao nível do homicídio. Acho que a sociedade tem a obrigação de criar mecanismos de prevenção, assim como mecanismo de tratamento de todos aqueles que têm esses comportamentos desviantes e, acima de tudo, deve usar e criar meios a

evitar as reincidências”; declara estar “condenado por uma ficção”; declara ter “respeito por quem foi abusado”; declara “estar convencido de que a maioria dos

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rapazes [do processo] foram de facto abusados. Tem compaixão e acha que devem ser ressarcidose afirma-se “heterossexual ativo e militante”; refere que, em abstrato, tem pena de qualquer vítima de qualquer tipo de crime e que tem o maior respeito pelo ser humano e pelos direitos humanos, sendo que as vítimas sexuais, por serem normalmente já vítima de outro tipo de abusos e negligências, ainda lhe causam mais pesar; afirma ser fortemente crítico face a qualquer abuso e que desde muito novo e face ao seu mediatismo teve o seu comportamento muito escrutinado, considerando que também isso o ajudou a desenvolver responsabilidade moral e social (sic); não vinha pagando à vítima a indemnização em que foi condenado, pelo que os seus rendimentos foram alvo de penhora movida pela vítima; saúde mantem acompanhamento clínico regular por parte de médicos da sua confiança, não apresentando sintomatologia de relevo nas áreas clínicas sinalizadas previamente à reclusão; começou a apresentar queixas ao nível da coluna, com diagnóstico de patologia cervical; comportamento não tem averbada qualquer punição, mantendo uma atitude institucional adequada; atividade ocupacional/ensino/formação profissional está laboralmente inativo; frequentou com aproveitamento o extra escolar de inglês e o extra escolar de educação física; programas específicos e/ou outras atividades socioculturais tem-se envolvido de forma regular e ativa em

atividades de âmbito sociocultural, nomeadamente no espaço de atividades e através da escrita de artigos no jornal do estabelecimento prisional; convidado a integrar o programa destinado a condenados por crimes contra a autodeterminação sexual, referiu ter a maior curiosidade intelectual em relação ao mesmo, mas não poder integrá-lo na medida em que “nunca cometeu nenhum crime, muito menos de natureza sexual; medidas de flexibilização da pena beneficiou de uma licença de saída jurisdicional, avaliada positivamente.

5. Rede exterior: enquadramento/apoio familiar/ perspetiva futura

recebe apoio regular de vários familiares e amigos, que o visitam no estabelecimento

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prisional; estabelece contactos telefónicos diários com a família e corresponde-se com vários amigos; mantem relações de amizade e proximidade com todas as suas ex- companheiras; em meio livre projeta viver junto da sua filha maior de idade; o condenado encontra suporte em meio livre na família, que apresenta uma dinâmica positiva entre os seus membros; conta com o apoio incondicional de um grupo restrito de amigos; para além deste, conta com ao apoio de amigos que se aproximaram na sequência do processo judicial; a filha com quem irá residir tem duas filhas menores de idade e refere trabalhar como diretora executiva de uma empresa de eventos, acrescendo ao seu vencimento rendimentos relacionados com atividades de publicidade e marketing; não são conhecidos sentimentos de rejeição à presença do condenado no meio residencial onde pretende enquadrar-se; perspetiva manter-se ativo, afirmando “parado não vou ficar”; projeta publicar uma autobiografia e declara pretender escrever ainda outros dois livros; existe possibilidade de vir a dedicar-se à criação de um canal de televisão via internet e de aceitar alguns convites que afirma ter para trabalhar em rádio e televisão; afirma ter sido convidado para sócio de uma empresa produtora de espetáculos; recebe uma pensão cujo valor líquido é de aproximadamente €3.200,00; sobre a mesma incidem uma penhora bancária no valor de aproximadamente €600,00, bem como a penhora sobremencionada, para pagamento da indemnização à vítima, no valor de €400,00 mensais; afirma ter como obrigação o pagamento de uma pensão de alimentos de aproximadamente €1.000,00 mensais, não liquidando por vezes a totalidade, com o acordo da sua ex-mulher, por não conseguir fazê-lo; afirma não ter qualquer património.

ii) Motivação da matéria de facto:

A convicção do tribunal no que respeita a matéria de facto resultou da decisão condenatória junta aos autos, da ficha biográfica do recluso, do seu certificado de

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registo criminal, do relatório junto aos autos elaborado pela equipa técnica única, dos esclarecimentos prestados pelo conselho técnico e das declarações do recluso de fls. 336 e ss. e 435.

B) De direito “A liberdade condicional tem como escopo criar um período de transição entre a reclusão e a liberdade, durante o qual o delinquente possa, de forma equilibrada, não brusca, recobrar o sentido de orientação social necessariamente enfraquecido por efeito do afastamento da vida em meio livre e, nesta medida, a sua finalidade primária é a reinserção social do cidadão recluso, sendo certo que, até serem atingidos os dois terços da pena, esta finalidade está limitada pela exigência geral preventiva de defesa da sociedade” (Anabela Rodrigues, in “A Fase de Execução das Penas e Medidas de Segurança no Direito Português”, BMJ, 380, pág. 26). Vale isto por dizer que, alcançados os dois terços da pena, com um mínimo absoluto de seis meses (cfr. art. 61.º n.º 3 do código penal, de ora em diante designado CP), e obtido o consentimento do recluso, como é o caso, o legislador abranda as exigências de defesa da ordem e paz social e prescinde do requisito da prevenção geral, considerando que o condenado já cumpriu uma parte significativa de prisão e que, por conseguinte, tais exigências já estarão minimamente garantidas. Donde, aos dois terços da pena, é único requisito material a expetativa de que o condenado, em liberdade, conduzirá a sua vida responsavelmente sem cometer crimes, ou seja, importa que se atente na prevenção especial na perspetiva de ressocialização (positiva) e de prevenção da reincidência (negativa). Na avaliação da prevenção especial, o julgador tem, pois, de elaborar um juízo de prognose sobre o que irá ser a conduta do recluso no que respeita a reiteração criminosa e o seu comportamento futuro, a aferir pelas circunstâncias do caso,

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antecedentes, personalidade e evolução durante o cumprimento da pena (art. 61.º n.º 2 do CP). A lei exige que, na análise da evolução durante o cumprimento da pena, o tribunal de execução das penas atenda designadamente à relação do recluso com o crime cometido (cfr. art. 173.º n.º 1 al. a) do CEPMPL). Significa isto, por um lado, que este tribunal - como não podia deixar de ser num estado de direito democrático tem como assente que o recluso praticou os crimes pelos quais vem condenado. Efetivamente, este não é o tribunal do julgamento, nem tão-pouco o tribunal de execução das penas tem poderes recursórios, devendo curar, exclusivamente, da execução da pena. Não pode acompanhar-se, como tal e sempre ressalvado o maior respeito, o entendimento de que deve ser salvaguardada a hipótese de “ter havido um erro judiciário”. Pelo contrário, a estabilidade e segurança jurídica ditam que, uma vez transitada em julgado uma sentença condenatória, a mesma não seja alvo de um escrutínio casuístico quanto à probabilidade ou improbabilidade da ocorrência dos factos. Por outro lado, ao determinar que o tribunal atenda à relação do recluso com o crime cometido, a lei está a significar que não é irrelevante a assunção ou não da prática de tal crime por parte do condenado. É certo que, em abstrato, a negação da conduta criminal só por si não constitui, sem mais, motivo para que não se conceda a um recluso a liberdade condicional. Contudo, sendo esta afirmação certa, em abstrato, o que se impõe ao tribunal é que, em concreto, afira da relevância da negação. Ora, no caso dos autos analisa-se a liberdade condicional a conceder ao autor de crimes de natureza sexual, mais concretamente dois crimes de abuso sexual de crianças. A questão é, pois, a de saber se, atenta a natureza dos crimes em questão, a negação assume ou não uma particular relevância quando apreciada a possibilidade de libertação antecipada de um recluso.

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A resposta é afirmativa, como de seguida se explicitará. Ao longo dos tempos têm sido aventadas várias explicações para o cometimento de crimes sexuais contra crianças, acreditando-se desde há cerca de 20 anos a esta parte que o mesmo assenta numa conjugação de fatores, quais sejam uma preferência sexual desviante, distorções cognitivas (por exemplo a de que a vítima gosta da experiência sexual, a de que foi a vítima quem fomentou o contacto sexual, etc.), défices de habilidades sociais necessárias para manter um relacionamento com uma parceira adulta que consinta e fatores de dimensão não sexual, tais como défices nas aptidões para a gestão de emoções negativas e na capacidade de resolver problemas ou mesmo perturbações da personalidade (Jean Proulx e Denis Lafortune, in “A diversidade dos agressores sexuais: implicações teóricas e práticas”, Tratado de Criminologia Empírica [Colecção Fundamental], 2003, pág. 374). Ora, o agressor sexual de menores que nega a respetiva prática, inviabiliza, desde logo, que se conheça e escrutine o fator criminógeno que esteve na base dessa prática. Isto é, por via da negação, não logra aferir-se por qual das razões acima apontadas o recluso praticou o crime e, logo, se ao longo do cumprimento de pena o recluso evoluiu de modo a que tal fator criminógeno haja sido debelado. Consequentemente, não se logra, também, no decurso do cumprimento da pena, direcionar a intervenção especializada para a problemática a trabalhar/tratar. Na verdade, os programas prisionais de intervenção dirigidos a agressores sexuais são de orientação cognitivo-comportamental, articulando-se em função de objetivos terapêuticos específicos relativos ao delito e em função de objetivos terapêuticos indiretamente ligados ao delito, sendo que, de entre os primeiros são trabalhados mormente a empatia em relação à vítima, a negação e a minimização, as distorções cognitivas, as fantasias sexuais desviantes e o conhecimento do ciclo da agressão (Jean Proulx e Denis Lafortune, in ob. cit. págs. 392 e 393).

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Isto é, com base no reconhecimento de que a negação obstaculiza uma intervenção com sucesso na prevenção da reincidência deste tipo de crimes, os vários programas - mormente o programa específico de reabilitação seguido no estabelecimento prisional da Carregueira têm como um dos seus primeiros objetivos a redução da negação (veja-se, a este propósito, também o estudo “The management of sex offenders. A discussion document”, de janeiro de 2009, da autoria do Offender Management Group do Department of Justice, Equality and Law Reform

E, não sendo ultrapassada a negação, os reclusos ou bem que não chegam a integrar o programa ou bem que são convidados a abandoná-lo, por se reconhecer que não é possível, em tal circunstância, identificar e tratar o específico fator criminógeno do recluso em questão. Ora, de entre os reincidentes (sendo que as taxas de reincidência no abuso de rapazes como é o caso rondam, de acordo com o estudo de Marshall & Barbaree, 1990, entre 13% e 40%), os agressores sexuais que completaram um programa de tratamento cognitivo-comportamental são em menor número (7,2%) do que aqueles que não frequentaram um programa dessa índole (17,6%) (Jean Proulx e Denis Lafortune, in ob. cit., pág. 394), pelo que é mister reconhecer que a negação, também por força da inviabilização da frequência de um programa direcionado para crimes sexuais, aumenta a probabilidade de reincidência (neste sentido conclui, também, o acórdão do Oberlandesgericht de Colónia [tribunal de 2.ª instância alemão], de 19/05/2014, publicado em Neue Zeitschrift für Strafrecht, Rechtsprechungsreport, 2015, 29). Aliás, os vários instrumentos de avaliação do risco de reincidência dinâmico em caso de crimes de natureza sexual apresentam como um dos indicadores a negação. Por todos, veja-se o SOTIPS (Sex Offender Treatment Intervention and Progress

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Scale) 2012, pág. 7 (disponível em http://www.nij.gov/funding/Documents/fy12- sotips-manual.pdf). Em suma, é inquestionável que a atitude do condenado relativamente ao crime por si cometido, mormente a negação da respetiva prática, é um aspeto crucial a atender na avaliação do risco de reincidência dos agressores sexuais e, logo, não pode deixar de ser tida em conta, mormente pelo tribunal de execução das penas aquando da decisão sobre a concessão da liberdade condicional. Não visa, portanto, obrigar-se os reclusos mormente os agressores sexuais - a assumir. Estes são livres de o fazer ou não. O estado não pode é eximir-se da obrigação de atender a esse fator enquanto relevante na apreciação das condições para a apreciação da liberdade condicional, posto que, como vimos, é mandatória, designadamente, a ponderação sobre o risco de reincidência. É descabida, portanto, a afirmação de que o tribunal de execução das penas “obriga” o recluso a assumir. Em primeiro lugar, porque esta afirmação parte do pressuposto de que o recluso é inocente e, logo, que uma assunção significa uma violentação do condenado, visão essa, porém, de todo incompatível com o caso julgado, ou seja, incompatível com o único ponto de partida admissível para o tribunal de execução das penas: o de que o recluso cometeu o crime pelo qual vem condenado (v. supra). Em segundo lugar, porquanto, pelas razões acima sobejamente apontadas, a atitude face ao crime, mormente a negação, deve (por lei e cientificamente) ser atendida enquanto elemento de escrutínio na evolução do cumprimento da pena e avaliação do risco de reincidência, muito particularmente nos crimes sexuais. Como se lê no acórdão da Relação do Porto, de 28/01/2015, proferido no processo n.º 1486/11.3TXPRT, se é certo que “o arrependimento e reconhecimento do ilícito perpetrado não são factores imprescindíveis à concessão da liberdade condicional […] o certo é que tais circunstâncias não podem deixar de ser

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ponderadas em sede de personalidade do condenado e reflectir-se na apreciação da evolução deste no cumprimento da pena”. Volvendo ao caso concreto, temos que o recluso cumpre pena por dois crimes de

abuso sexual de crianças, cuja prática nega, negação que invoca também para declinar

a frequência do programa destinado a agressores sexuais, existente no estabelecimento

prisional da Carregueira. Ou seja, aplicando ao caso dos autos as considerações tecidas supra, temos que continua a desconhecer-se o que em concreto motivou o recluso a cometer os crimes e, como tal, não pode também afirmar-se que evoluiu a este nível, mormente que hoje está munido de um qualquer inibidor endógeno. Por outro lado, os crimes sexuais pelos quais o recluso cumpre pena, por terem sido cometidos em ambiente extrafamiliar e terem tido por vítima um menor de sexo

masculino, preenchem dois dos indicadores de reincidência (veja-se o estudo levado a cabo por Proulx, Pellerin, Paradis, McKibben, Aubut e Ouimet, citado por Jean Proulx

e Denis Lafortune, in ob. cit., pág. 395), sendo certo que, de entre os vários tipos de

abuso possível, aquele em questão é especialmente invasivo, não se limitando a sexo oral ou manipulação peniana, o que, além de ser relevante na apreciação da personalidade do perpetrador (também revelada no facto de o condenado se ter aproveitado de um menor institucionalizado), eleva igualmente a ponderação de risco imposta ao tribunal. Na verdade, quanto mais sensíveis e carecidos de proteção os bens jurídicos ameaçados por uma possível reincidência, menor é a margem de risco a que o tribunal aceita sujeitar a sociedade por via da libertação antecipada. Acresce que o recluso, pese embora a sua idade, afirma ser sexualmente ativo, pelo que não se verifica uma minoração do risco de reincidência por força do fator idade. Por outro lado, ainda, muito embora o recluso seja um cidadão mediático, já detinha esta qualidade à data dos factos, sem que tal o impedisse de cometer os crimes

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por que vem condenado. Não se vê, portanto, que a sua exposição mediática seja impeditiva de uma reincidência. É certo que o condenado dispõe de amplo apoio em meio livre o que releva assertivamente ao nível da prevenção especial positiva -, mas certo é, também, que já contava com apoio familiar e social à data dos factos, sem que tal circunstância obviasse à prática dos crimes. Não pode, como tal, reconhecer-se a este apoio o desejado efeito contentor. Por sua vez, no que diz respeito ao item comportamento prisional (que se insere na vertente da evolução durante o cumprimento da pena), acompanha-se o que a este respeito vem sendo entendido na jurisprudência germânica: o comportamento institucional imaculado não releva tendencialmente de forma positiva quando está em causa a apreciação da liberdade condicional de um agressor sexual de menores, já que este, denotando tipicamente rigidez interna e um desfasamento entre a realidade e a

imagem que tem de si próprio [razão da negação da prática dos crimes, na maior parte dos

agressores sexuais, acrescentamos nós], apresenta frequentemente um comportamento institucional supernormativo (neste sentido, o acórdão do Oberlandesgericht de Colónia citado supra). Aliás, como se lê no acórdão do tribunal da relação de Lisboa, de 21/01/2015, proferido no processo n.º 7164/10.3TXLSB, o bom comportamento prisional não é nada que não seja exigível a um recluso - que conhece as consequências dos incumprimentos ao nível disciplinar - e não é suficiente para que seja concedida uma liberdade condicional. Em síntese, escalpelizados os aspetos a atender ao nível da prevenção especial negativa, não logra descortinar-se uma evolução do recluso no decurso do cumprimento de pena (daí que pouco ou nada releve o facto de não ser conhecido ao condenado o cometimento de crimes no largo período de tempo durante o qual esteve sob julgamento, altura em que, aliás, não seria de esperar que praticasse qualquer ato

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passível de agravar a sua situação) que permita afirmar um decrescimento das exigências de prevenção especial negativa (risco de reincidência) ou, nas palavras do citado acórdão da relação de Lisboa, de 21/01/2015, não se verifica in casu que em termos pessoais algo de relevante se tenha mudado no recluso e que ocorram situações ou circunstâncias exteriores ao cumprimento da pena ou ao meio prisional que nos levem a considerar que algo mudou para melhor e que justifique a concessão do benefício de sair da prisão antes de cumprir a pena que o tribunal da condenação achou adequada aos factos e à culpa. Assim o considerou também maioritariamente o conselho técnico e nesse sentido é o parecer do Ministério Público, cujas posições, pelas razões apontadas, se entende acompanhar, tanto mais que não é este o último momento possível para permitir que o condenado de uma forma equilibrada, não brusca, recobre o sentido de orientação social enfraquecido por efeito do afastamento da vida em meio livre (a cerca

de 9 meses do termo de pena verificar-se-á novo conhecimento sobre a possibilidade de concessão de liberdade condicional).

III. DECISÃO

Em face do exposto, não concedo a liberdade condicional a Carlos Pereira Cruz. A eventual concessão de liberdade condicional será reapreciada em renovação da instância, ou seja, em 07 de março de 2016. Para o efeito, deverá a secção solicitar, com 90 (noventa) dias de antecedência, o envio, no prazo de 30 (trinta) dias, de relatório versando os aspetos previstos no art. 173.º do CEPMPL, bem como a ficha biográfica e o certificado de registo criminal do recluso.

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Registe, notifique e comunique de acordo com o disposto no art. 177.º n.º 3 do CEPMPL.

Lisboa, 07 de março de 2016

(Processado mediante o uso de meios informáticos e revisto pela signatária, Sónia Kietzmann Lopes)