Você está na página 1de 26

Os Judeus e a Idade Média – Crises e estabilidades

Nelson Célio de Mesquista Jr.

Introdução

A população judaica ocupa uma posição ao mesmo tempo única e precária durante

a Idade Média. Ao mesmo tempo em que sofrem o preconceito e a violência por parte dos

cristãos, os judeus são parte necessária e essencial da sociedade da Europa Medieval. Uma das maiores importâncias do povo judeu reside no fato de que a Bíblia proíbe aos cristãos a “usura”, ou seja, o empréstimo de dinheiro. Como esta proibição não se estende ao povo judaico, todo o resto da sociedade depende dos empréstimos dos agiotas judeus. Se um nobre necessita de fundos para erguer um castelo ou armar um exército, ou se um camponês precisa reconstruir sua choupana que foi derrubada pela tempestade, ambos procuram um banqueiro judeu.

Uma das outras grandes importâncias do povo judeu, e pelo qual é muito

reconhecido, está na habilidade dos judeus como médicos e curandeiros. Tanto para os judeus quanto para os cristãos, o corpo de um finado é sagrado e merece um enterro digno. Para os judeus, porém, não é proibido o estudo dos cadáveres, contanto que estes sejam enterrados de modo completo e seguindo seus ritos sagrados. Através desta permissão, os judeus puderam recolher e documentar na língua hebraica um vasto conhecimento sobre

o funcionamento do corpo humano, o que os torna médicos sem par durante a Idade

Média. Muitos reis e nobres, ao perceberem que seus curandeiros são incapazes de tratar das doenças dos quais estão acometidos, buscam os serviços de um médico judeu.

As escrituras judaicas mais sagradas são a Torah. Escrito sempre em hebraico, este texto corresponde basicamente, apesar de algumas diferenças, ao Antigo Testamento

dos cristãos. A crença judaica, da qual praticamente toda a doutrina cristã se originou, afirma que quando a humanidade estiver pronta, Deus enviará o Messias ao mundo, para salvar a todos os homens. Quando este dia chegar, todos os que vivem e que já viveram retornarão ao mundo dos vivos, e este será um mundo perfeito, como Deus o havia imaginado antes do Homem ter-lhe desobedecido no Jardim do Éden. Os cristãos, por outro lado, acreditam que o Messias já veio ao mundo na forma de Jesus Cristo, que se sacrificou para salvar ao seu rebanho. Os judeus perguntam, então, por que, se o Messias

já veio ao mundo, ainda existe dor, fome, sofrimento, violência, morte? Com certeza,

quando a humanidade receber seu Messias, toda esta maldade será superada. Ou, alguns afirmam, o Messias apenas virá quando a humanidade, por si só, for capaz de superá-la. Como os judeus acreditam que a humanidade ainda não foi salva, não podem reconhecer que o Messias já tenha vindo ao mundo.

O outro grupo de escrituras que compõe a liturgia judaica é o Talmud. O Talmud

reúne as orações que um judeu deve desempenhar no seu dia-a-dia, além de ser um

conjunto de instruções feitas pelos antigos sábios para que os fiéis tenham uma vida mais saudável e mais respeitosa das tradições. No Talmud existe um conjunto de leis que concernem à alimentação dos judeus, chamado de Kosher. A alimentação Kosher proíbe

o consumo de carne de porco e o consumo de carne e leite na mesma refeição, entre outras regras.

A maioria dos judeus possui uma cópia do Talmud para seu uso diário. Já a Torah,

porém, é um livro sagrado, e não pode sair do recinto da sinagoga, o templo judaico. Apenas o rabino, o sacerdote, pode manuseá-la, e ele a lê em voz alta para toda a

congregação judaica na cerimônia do Shabat, toda Sexta-Feira ao anoitecer. O Shabat é um das práticas mais sagradas do Judaísmo, e consiste basicamente na proibição aos judeus de realizar qualquer trabalho aos Sábados. A população em geral da Europa Medieval responsabiliza, erroneamente, o povo judeu pela crucificação de Cristo; e isto os torna os perfeitos bodes expiatórios quando algum governante precisa direcionar a fúria de camponeses revoltosos. Com certeza, o modo de vida ao qual os judeus estão submetidos é dos mais precários. Por volta do ano 70 d.C., os romanos expulsaram os judeus de sua terra sagrada, a Terra de Canaã, e os espalhou ao redor do mundo, num episódio chamado de Diáspora. Portanto, durante a Idade Média, o povo judeu vive espalhado por todos os cantos da Europa, e costuma constituir pequenas aldeias nas zonas rurais, ou comunidades maiores nas grandes cidades. As autoridades cristãs, ao perceber o crescimento das populações judaicas, passaram a isolá-los em bairros apertados e superlotados nas partes mais desfavorecidas das cidades. Estas partes recebem o nome de “gueto”, e o gueto judaico de Praga é um dos maiores e mais conhecidos da Europa Oriental. Neste gueto, duas comunidades judaicas de origens diferentes convivem em condições precárias e insalubres. Aos Sábados, como os judeus não trabalham, a guarda da cidade tranca os portões do bairro judaico para que eles não possam sair. Algumas vezes, grupos de “desordeiros” invadem o gueto, matando, estuprando e queimando tudo o que encontram pelo caminho. Esta invasão violenta do gueto recebe o nome de pogrom; apesar das autoridades a proibirem, também não fazem nada para impedi-las, abandonando os judeus à própria sorte. Apesar de viverem em uma situação precária, os judeus são, talvez, o povo mais escolado, e, além disto, eles também gozam de uma longevidade muito maior que a média dos camponeses. A tradição judaica presa muito a cultura, e os garotos, ao atingirem a maioridade com treze anos de idade, ou aprendem um ofício, ou são levados para uma yeshivah, uma escola judaica. Numa yeshivah, os jovens aprendem o hebraico, as tradições de seu povo, as escrituras, a prática da medicina, e, algumas vezes, os segredos daKabalah. A Kabalah é um conjunto de crenças místicas desenvolvidas por um conjunto de sábios, ao longo da Idade Média, baseadas na Torah. Ela consiste basicamente em decifrar a verdadeira natureza da criação de Deus, através de 22 elementos, que correspondem às 22 letras do alfabeto hebraico, na qual a Torah foi escrita. Atribuindo para cada uma das letras um valor numérico, a Kabalah busca compreender o significado de todas as coisas através do valor numerológico de seus nomes. Alguns dizem que os kabalistas, ao serem capazes de decifrar o valor de todos os elementos do Universo, são capazes de compreender as forças que o compõem e controlá-las. Enfim, a situação em que vive o povo judeu na Idade Média é, no mínimo, ambígua. Por um lado, desprezados pelo resto da sociedade; por outro, indispensáveis para a mesma. Se existe uma verdade sobre a vida dos judeus nesta época é que ela realmente é muito difícil.

1. Visão geral

Na extensa introdução da monumental obra Israel Ba-Golá, Israel na Diáspora, o renomado historiador judeu polonês Ben Zion Dinur (1884-1973), baseando-se nas ideias dos historiadores modernos, faz uma divisão entre os diferentes períodos da História Judaica.[1] Para Dinur, idealizador do Museu do Holocausto, Yad Vashem, em Jerusalém, os diferentes tempos da nossa História devem ser analisados por meio de dois grandes blocos ou categorias: épocas de estabilidade, criatividade e desenvolvimento social-cultural e econômico e épocas de crise, repressão e diminuição do processo criativo do povo judeu.

Para realizar tamanha tarefa, apenas comparável com a polêmica tese da ascensão e queda das civilizações do historiador britânico Arnold Toynbee (1852-1883), Dinur definiu as principais características de cada categoria, determinando a existência de oito períodos históricos, quatro de estabilidade e quatro de crise; criando-se, assim, uma espécie de gráfico de contrastes, com fluxos e refluxos, alternando-se assim tempos de altos e baixos no decorrer da História Judaica.

Segundo Dinur, estes oito blocos cronológicos compõem a História do Povo Judeu durante sua longa permanência na Diáspora, ou seja, após a trágica destruição do Segundo Templo de Jerusalém: O primeiro período de estabilidade, de 636-1096; o período de crise, de 1096-1215; o segundo período de estabilidade, de 1215-1348; o segundo período de crise, de 1348-1496; o terceiro período de estabilidade, de 1496-1648; o terceiro período de crise, de 1648-1789; o quarto período de estabilidade, de 1789-1881; e o quarto período de crise, de 1881-1948.

O primeiro período de estabilidade, de 636 a 1096, inicia-se com o surgimento do

Islamismo e a liderança de Maomé e vai até a saída da Primeira Cruzada rumo a Jerusalém. Nessa época, existiam duas grandes forças emergentes que disputam à hegemonia mundial: o Islã e seus califados instalados na Síria e no Egito, a partir de 711 também na Espanha; e o Cristianismo do Sacro Império Romano Germânico de Carlos Magno. Os judeus participaram desse momento de várias formas, dentro das forças emergentes na Europa. Para Dinur, eles atuaram na maioria das vezes como: agentes colonizadores e construtores urbanos; comerciantes, intermediários e negociadores com outros povos; administradores e funcionários de califas e réis; cientistas, tradutores e mestres em várias áreas de pesquisa científica; difusores dos estudos talmúdicos. São lideranças presentes nas comunidades: Rosh Há-Golá, Nessyim, Gueonim e Rashei Ieshivot. Exemplo: Rabi Guershom Meor Há-Golá e suas “Taqanot”, Regras, para os judeus da Europa central e R. Saadia Gaon nas comunidades de Oriente.

O primeiro período de crise, que ocorre de 1096 a 1215, inicia-se nos massacres

dos cruzados em Jerusalém, e encerra-se com a publicação da legislação antijudaica do Papa Inocêncio III no Quarto Concílio Laterano. O período se caracteriza por manter um conflito permanente entre o Ocidente, Cristianismo, e o Oriente, Islã. As Cruzadas juntamente com a Reconquista dos territórios da Espanha, são acontecimentos centrais nessa luta pela hegemonia da Europa e do mundo. Há, também, uma forte tensão interna dentro do próprio mundo cristão, travando-se as famosas Guerras das Investiduras entre os Reis e o Papado. Para Dinur, o status dos judeus ficou marcado essencialmente pelo choque cultural no encontro dos judeus com culturas que não os aceitam como tais; pela falta de segurança pessoal e consequentemente perca do patrimônio material do elemento judaico; pela opressão religiosa com fortes restrições e proibições definidas na legislação local, sejam nos fueros espanhóis ou no corpus jurídico de cada nação européia; pelo libelo de sangue que já aparecera na época helenística, alcançará sua forma máxima e mais destrutiva nas falsas acusações de roubos e profanações de hóstias para rituais mágicos, como nos distúrbios organizados pela irada população cristã. A primeira acusação de derramamento de sangue cristã foi feita contra os judeus de Norwich na Inglaterra em 1144, ocorrendo casos famosos em Gloucester, 1168, em Blois na França, 1171, em Viena, 1181, e em Zaragoza, 1182.

Nas zonas rurais procura-se, constantemente, um bode expiatório pelos males que prejudicam a sociedade, como ser: secas, epidemias, pestes, fome. O elemento judaico será o bode expiatório, ao qual irão direcionadas a maioria das acusações. Testemunha- se um enfraquecimento das lideranças comunitárias judaicas tanto em Ocidente como no Oriente, e uma considerável diminuição dos contatos entre as diversas comunidades.

Diante do perigo das conversões forçadas, aumenta proporcionalmente o clima de efervescência messiânica, uma forte vontade da vinda de um redentor, da estirpe do rei Davi, que resgate a todos os judeus de uma realidade adversa e opressora.

A palavra de ordem na época é Kidush Hashem, ou seja, “Santificar-se em Nome

de Deus”. O maior exemplo é o movimento místico-asceta dos Chassidei Ashkenaz durante as Cruzadas. Esse movimento se difundiu rapidamente pelas comunidades da França e Alemanha; ganhando fortes traços do pensamento martiriológico judaico. Nessa época, a pergunta diária do judeu era: vale mais ganhar o mundo terreno ou obter o mundo vindouro?

O principal personagem e líder do mundo judaico na Europa será R. Moshé ben

Maimón, Maimônides ou Rambam, 1138-1204, um sábio construtor de respostas para todos os interrogantes da época. Maimônides era um especialista em Halachá, leis religiosas, completamente emaranhadas na vida intelectual contemporânea de então, cujos escritos envolviam tanto as tradições como as ciências judaicas. Sua reputação e autoridade se encontram sustentadas em dois trabalhos: seu código de compilação da lei judaica ou Mishné Torá, e seu tratado Guia para os Perplexos ou Morá Nebochim, um escrito destinado a comprovar que toda a tradição judaica é filosoficamente defensável.

O segundo período de estabilidade, de 1215 a 1348, inicia-se com a legislação

antijudaica de Inocêncio III e encerra-se com as trágicas consequências da Peste Negra de 1348. Dentre os acontecimentos mais significativos, ressaltem-se uma busca pela hegemonia da Igreja Católica na Europa e um aumento do fanatismo no mundo islâmico.

Em relação ao status dos judeus o período se caracteriza pela sua caracterização como servi camerae, servos da corte, ou seja, pertencem ao governante de turno e devem obedecer cegamente as leis do país. Os judeus adotam o conceito hebraico de Dina de- Malchutá Dina, As Leis do Reino são as leis que prevalecem.

Também pela exigência de uma tributação alta e, assim sendo, os impostos permitirão a sobrevivência da comunidade. A coleta de impostos é comunitária e cabe a cada judeu cumprir com esta obrigação para garantir a existência comunitária. Em outras palavras, um judeu é responsável pelo outro; havendo um destino, desígnio, coletivo.

O comportamento judaico deve, ainda, atender à legislação da Igreja e do Papado

que, por sua vez, encaminham suas vontades religiosas aos governantes de turno. Os Papas do período usavam concílios da Igreja para decretar leis que afetavam os judeus. Os judeus foram proibidos de ter empregados cristãos, de negociar com cristãos, de habitar na vizinhança cristã e inclusive o testemunho de um cristão prevaleceria ao de um judeu. O passo mais decisivo neste sentido foi dado pelo Quarto Concílio Latrão (1215) que criou a odiada insígnia judaica (estrela amarela) que rotulava cada judeu como um proscrito vergonhoso. Ele também decretou a separação por bairros entre judeus e cristãos

como também a proibição aos judeus de ocupar cargos públicos. A queda de Acre pelos

cruzados em 1291 e a conquista do Oriente pelos mongóis contribuíram para que o judeu

se

torne parte inseparável do mundo islâmico.

Mesmo limitado pela legislação cristã ou pelas leis dos Dhimi, súditos protegidos,

os

judeus continuam a participar de forma ativa da vida social e econômica da Europa.

Durante domínio do Islã, especificamente, judeus vivem sob o status de Dhimi e sua situação social é definida por um conjunto de regras conhecidas como o Pacto de Omar. Sob essas leis, as vidas e as propriedades ficavam garantidas e a prática de sua religião tolerada em troca do pagamento de impostos especiais. Judeus não poderiam construir novas sinagogas ou consertar as velhas, carregar armas ou andar a cavalo, além disso, deviam ainda usar roupas que os distinguisse dos muçulmanos. Para Dinur, entre 1215 e

1348, é possível falar em termos de “estabilidade servil” ou “estabilidade de subjugação”.

O judaísmo criaria, assim, uma espécie de espiritualismo a partir do sufismo, uma

filosofia árabe de caráter racionalista. Desenvolve também uma mística e um pensamento esotérico baseado nas idéias da Kabalá, difundidas na região da Catalunha, no leste da Espanha e no sul da França.

O segundo período de crise, que ocorre de 1348 a 1496, inicia-se com os trágicos

desdobramentos da Peste Negra na Europa, em 1348, e encerra-se com as expulsões dos judeus da Espanha, em 1492, e o batismo forçado imposto por Manuel I de Portugal em 1496. A Peste Negra aterrorizou a Europa dizimando 1/3 de sua população, sem discriminar judeus e cristãos. A multidão em pânico expressava e procurava minorar seu medo pelo fervor religioso extremado. Num clima de total histeria, circulou o rumor de que os judeus haviam causado a peste, envenenando poços de água potável. Centenas de comunidades foram destruídas em violentos distúrbios. Os judeus, aos poucos, voltaram, mas suas vidas tornaram-se restritas, miseráveis e instáveis. No curso do século 15, foram expulsos dos Estados alemães, da Europa central e da Espanha.

É esse, também, um período de violentas conversões forçadas, shemadot, em

hebraico, e massacres originários pelas Inquisições hispana e lusitana. Os fatos de maior repercussão foram, na opinião de Dinur, os massacres das comunidades de Castela em

1391, Guezerot Kana, e a política antijudaica estabelecida pelo rei D. João II de Portugal.

O conflito entre Ocidente e Oriente fica acentuado, pois turcos lutam contra cristãos em

Constantinopla em 1453, enquanto a Espanha trava uma luta de unificação contra o Islã em Granada, 1492, o último reduto árabe no Ocidente.

Os judeus estão cercados por duas forças: o Cristianismo, que converte, expulsa e reprime os judeus, confiscando seus bens; abrindo-se assim o tempo da Inquisição, e, além disso, após a Disputa de Tortosa, 1412-1414, o Judaísmo sefaradita perde sábios para o Cristianismo, enquanto outros abandonam definitivamente a Espanha; o

Islamismo, que, por sua parte, tolera os judeus como súditos protegidos por ter livros sagrados, porém, os humilha de diferentes formas, basicamente exigindo às comunidades

do Egito, Síria e Iêmen o pagamento de uma pesada carga tributária.

Há uma queda quantitativa e qualitativa de sábios e as comunidades ficam sem líderes, totalmente desamparadas, sem rumo e mergulhadas em profundas crises. A pergunta do judeu é: de que maneira deve o individuo de fé mosaica receber a sentença de conversão, Guezar Ha-Shemad? O Rambam já falecido nesses tempos é

frequentemente lembrado no seu Iggeret Teiman, Epístola dos Judeus do Iêmen, em que aborda o tema da conversão a outra religião, concluindo que todo judeu que se afastou do rebanho, por pressões ou não, continua sendo parte do Povo de Israel.

Surgem, nessa época, idéias e tendências fortemente escatológicas e messiânicas para implorar a redenção final, Gueulá, do povo judeu. Um exemplo de sábio sefaradita que abordará em seus textos a “Profecia do fim dos tempos” será o rabino Isaac Abravanel, autor de uma trilogia sobre o Messias.

O terceiro período de estabilidade, que vai de 1496 a 1648, inicia-se nas expulsões

dos judeus de Espanha e Portugal ocorridas de 1492 a 1496, e encerra-se nos terríveis massacres ocasionados em 1648 pelos cruéis cossacos de Bogdan Chemelnitzki. Os acontecimentos dessa época testemunham, também, a queda das comunidades judaicas na Ucrânia, e o inicio do desmembramento da Polônia e da Turquia. Devemos mencionar também as guerras de religião na Europa, a Reforma e Contra-Reforma, além da rápida expansão da Espanha, de Portugal e da Holanda como potências marítimas na era do Mercantilismo.

O status dos judeus ficou determinado primeiramente pela outorga de privilégios

e proteção a judeus por parte dos governantes, os Reis da Polônia e os Sultões da Turquia, havendo uma aceitação em lugares religiosamente mais tolerantes como na Holanda protestante, Amsterdã, em países e regiões que oferecem melhores possibilidades de crescimento econômico, sul da França, Países Baixos, Hamburgo; pela expansão de comunidades como resultado da dispersão hispano-portuguesa que levou inúmeros judeus

exilados à Europa e ao Novo Mundo, a América Espanhola e a América Portuguesa; pelo surgimento das comunidades judaicas em várias regiões da Polônia, cada uma com suas respectivas instituições comunitárias, cujo Judaísmo polonês, que chegou a ter mais de três milhões adeptos, foi destruído por Adolf Hitler no Holocausto, 1939-1945, durante a Segunda Guerra Mundial; pelo florescimento do centro espiritual de Safed na Terra de Israel sob domínio turco-otomano, 1517-1917, o maior centro do misticismo judaico, Kabala, desenvolvido principalmente pelo rabino Isaac Luria, Ari Hakadosh, no século 16; pelo crescimento da efervescência messiânica como resposta à dor e ao sofrimento do povo judeu durante o período inquisitorial, assim, na Espanha e em Portugal surgem dois falsos messias: David Reuveni e seu discípulo Salomão Molcho à procura da redenção, mas ambos são desmascarados e tidos como verdadeiros impostores; pela aparição de judeus na corte da Itália, mecenas de inventores e artistas famosos fez parte do Renascimento. Na Itália funcionava o principio de privilégio chamado de condotta, ou seja, onde havia necessidade de capital para investimento, comunidades de judeus recebiam a condotta para disponibilizarem o capital para empreendimentos maiores. Essa delicada situação social é o cenário da peça O Mercador de Veneza, de Shakespeare.

O terceiro período de crise, de 1648 a 1789, inicia-se com os massacres dos cossacos nas comunidades da Polônia e encerra-se com a outorga de igualdade de direitos aos judeus durante a Revolução Francesa em 1789. O fato que marca esse período é a queda de todas as estruturas feudais que ainda prevaleciam na Polônia e na Turquia, e o surgimento de estruturas burocráticas amparadas em elementos da burguesia.

Em relação aos judeus assistimos a uma diminuição na segurança e no status sócio-econômico das várias comunidades polonesas e turco-otomanas; ao aumento da

segurança e da inserção sócio-econômica em países que estimulam um progresso social como França e Alemanha; à crise e à dispersão de centros urbanos nos quais se concentra um número elevado de comunidades como resultado da crise ocasionada pelo falso messias de Esmirna, Shabatai Tzevi; ao aumento da pobreza em comunidades da Polônia, 1700, como consequência do surgimento do Chassidismo de R. Israel Eliezer Baal Shem Tov; e ao surgimento de disputas internas nas comunidades judaicas da Europa central, principalmente na Alemanha, sobre a real função a ser preenchida pelo Iluminismo judaico.

O quarto período de estabilidade, de 1789 a 1881, inicia-se na igualdade de

direitos reivindicada pelos judeus, durante a Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte e

o Sinédrio, e encerra-se com os massacres promovidos contra judeus pelo regime czarista entre 1881 e 1882. Há um estímulo de governos para iniciativas privadas e atividades econômicas, existindo um crescimento cultural na população. Na Europa, nota-se, também, uma união entre os povos, sempre sob o olhar de regimes social-democratas, exceto na Rússia.

Para Dinur, nesse período, o status dos judeus sofre modificações notórias como

a permissão de uma igualdade do elemento israelita perante a lei, possibilitando-se a

abertura de um despertar econômico parcial, controlado pelos regimes mais democráticos; na Rússia, estão presentes os fortes contrastes dentro das próprias comunidades judaicas, existindo algumas divergências religiosas e culturais com os não- judeus; a maioria do judaísmo asquenazita vive no schtetel, vilarejo judaico, lugar

densamente povoado que leva a uma situação de pobreza e inclusive miséria, retratado na arte de forma magnífica pelo pintor Marc Chagall, e na literatura pelo escritor Isaac Baschevis Singer.

A opção secular leva a um aumento das atividades sionistas. Surgem assim os

jovens “Amantes de Sion”, Chovevei Tzion, e a idéia de retorno à pátria milenar. O sonho sionista recebe um forte apoio da filantropia judaica por meio de indivíduos, Sir Moses Montefiore e Edmond de Rotschild, ou por intermédio de instituições filantrópicas como

a Aliança Israelita Universal, Kol Israel Chaverim, fundada em Paris, em 1860, com filiais nas diversas comunidades da Diáspora.

Acentua-se cada vez mais a diferença entre os judeus que moram no Ocidente daqueles que habitam no Oriente. Os primeiros, europeus, conseguem criar uma cultura para levar as comunidades a um renascer nacional, o Movimento da Haskalá, enquanto os últimos não produzem nenhum movimento cultural.

O quarto período de crise, de 1881 a 1948, inicia-se nos pogroms da Rússia

czarista, com as Leis de Maio de 1882, e encerra-se na criação do Estado de Israel reconhecida pela ONU em 14 de maio de 1948, após 30 anos, 1917-1947, de Mandato

Britânico na Palestina. O período se caracteriza por uma enorme vontade em afastar por todos os meios o judeu da sociedade. Essa realidade acarretou o aumento do antissemitismo na Europa. O fortalecimento dos nacionalismos levou a lutas entre povos

e nações pela fixação de fronteiras definitivas, gerando confrontos como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Segundo B.Z. Dinur, os judeus entendem que são tidas como pessoas pouco gratas nas sociedades, devido ao forte ódio e à declaração de guerra total contra o Judaísmo, atingindo o auge desse sentimento no extermínio de seis milhões de judeus pela Alemanha nazista entre 1933 e 1945.

O Holocausto levou os judeus a se unirem em torno de um único ideal: a obtenção

de um Estado nacional próprio, livre e soberano. A luta por um lar foi travada pelo ishuv (comunidade de judeus na Palestina) e, paralelamente, por uma campanha massiva de judeus norte-americanos.

Seria, assim, necessário, recriar valores nacionais revitalizados anteriormente, dentre eles garantir a língua hebraica como idioma oficial do Estado de Israel; aumentar

o movimento migratório judaico (1881-1920) rumo à Palestina e aos Estados Unidos de

América; estabelecer instituições judaicas que pudessem apoiar e concretizar as ideias do novo Estado nacional dos judeus.

O clima de renascimento nacional poderia ser sintetizado, assim, nas palavras do

poeta Naftali H. Imber, na letra do Hatikva, o hino do Estado de Israel: “Ser um povo

livre em nossa terra, a terra de Sion, Jerusalém”. Hoje, pode-se perceber também:

estabilidade ou crise.

A diáspora, por sua vez, continuará com sua própria contagem. Caberia indagar,

seguindo a teoria de Dinur, em qual época vivemos atualmente? Um período de estabilidade e criatividade ou um período de crise, produto do recrudescimento do antissemitismo no mundo?

Há aqueles que pensam na primeira opção. O Judaísmo, para eles, vive uma era

de ampla estabilidade e criatividade, pois afinal, o lar nacional já deixou de ser um sonho, convertendo-se numa realidade indiscutível. O jovem Estado de Israel foi reconhecido pela família das nações, superou suas dificuldades, consolidou uma sociedade pluralista

e democrática; atingindo um crescimento cultural e tecnológico digno de uma potência

de primeiro mundo. é difícil pensar na possibilidade que o Estado judeu alguma vez deixe de existir. No entanto, é o sionismo cultural ou espiritual de Achad Haam e Simon Dubnov aquele que prevaleceu, pois, segundo eles, sempre haverá dois centros judaicos, um na Diáspora e outro em Israel.

Por outro lado, há aqueles que, mesmo cientes que a criação do Estado de Israel pode ser considerada uma vitória; ainda pensam que hoje estamos atravessando por um complicado período de crises e pressões externas. Para estes, a fundação do Estado judaico aliviou a situação, mas ainda não deixou os judeus tranquilos. Problemas de convivência com os vizinhos árabes, principalmente com os palestinos, não foram totalmente resolvidos. Isso demonstra que não há nenhuma garantia de estabilidade e sossego. Para os defensores dessa ideia, devemos lembrar a escalada antissemita e anti- israelense de uma Comunidade Européia judeofóbica e pró-árabe.

O problema do exílio ou da denominada diáspora forçada, que definiu a História

Judaica e determinou o caráter do Judaísmo durante séculos, foi resolvido. Agora já existe

um Estado judeu. Novamente o judeu pode redefinir sua identidade judaica em termos de cidadania. Como qualquer israelense, um judeu da Diáspora pode falar a língua nacional,

celebrar as festividades e viver em meio aos restos físicos de um passado remoto judaico, entre cidadãos de antecedentes históricos similares. Esse judeu não precisa se agarrar a qualquer conjunto de crenças ou comportamentos tradicionais para ser considerado um israelense. Para esses judeus da Diáspora, a religião toma seu lugar entre os muitos aspectos da cultura nacional. No entanto, esse judeu que habita fora de Israel pode observar práticas religiosas judaicas, se assim escolher, ou pode abandoná-las, como a maioria dos israelenses fez, sem chegar a comprometer sua identidade judaica.

Para os judeus da Diáspora, hoje é mais fácil e mais aceitável ser um cidadão judeu em um país não judeu do que jamais o foi no curso inteiro da História Judaica. As democracias ocidentais garantem direitos civis a todos os cidadãos, seja lá qual for sua religião. O antissemitismo, que permeia a teoria de Dinur, pode não ter sido eliminado nos âmbitos mais altos e mais baixos da sociedade, mas na maioria dos regimes políticos os judeus são plenos cidadãos com todos seus direitos civis e religiosos.

O maior problema pelo qual atravessam os judeus na Diáspora, hoje, não foi

lembrado na teoria de Dinur. Trata-se da facilidade com que judeus abandonam a comunidade, agora que têm liberdade para isso. De um modo geral, o Judaísmo sempre mostrou uma tendência de se definir mais como uma religião do que como uma identidade nacional.

Cabe, pois, a cada judeu comprometido com o futuro da sua própria comunidade, debater nas instituições essa importante questão. A resposta não é nada fácil, mas formular a pergunta já é uma forma de acreditar que estamos cientes da importância do tema. Israel e a Diáspora enfrentam na atualidade novos desafios, mas nunca houve uma época melhor para fazer parte da História Judaica.

2. Judeus e cristãos na época medieval Tornado povo errante desde que começara a diáspora no século II, os judeus tiveram que habituar-se a viver como minoria no seio de sociedades estranhas e hostis a

eles.[2]

Convivendo com muçulmanos e cristãos Quando, a partir do século VII dC, a maré muçulmana cobriu o norte da África e, em seguida, espalhou-se para a península Ibérica, os islamitas autorizaram que os judeus que lá viviam mantivessem sua fé desde que pagassem aos califas o dhimmi, ou jizya, um imposto obrigatório para quem não seguisse a religião do profeta Maomé.

O problema maior do convívio dos judeus com os gentios deu-se com os cristãos

europeus, pois a nova fé que tomara conta do Império Romano decadente, e que depois converteu os bárbaros germanos recém chegados, os odiava por terem repudiado Jesus Cristo.

Não só isto, um dos seus discípulos mais próximos, Judas, traíra o Messias entregando-o aos romanos por 30 dinheiros. Agravava-se assim a imagem do judeu como alguém passível de traição, gente não merecedora de nenhuma confiança e que por um punhado de ouro ou prata punha em perigo quem o acolhia e dava abrigo. Ou como deles disse um Papa: “é o rato no bolso, a serpente em torno da cintura”.

Diáspora – êxodo dos judeus de Israel

Sefarditas – Norte da África, Itália, Espanha e Portugal (depois para Holanda). Convívio com muçulmanos, católicos e calvinistas. Asquenazis – Alemanha, Polônia, Estados Bálticos, Ucrânia e Rússia. Convívio com luteranos, católicos e cristãos ortodoxos.

As sanções antijudaicas Este arraigado preconceito de origem religiosa, fez com que diversas sanções e regulamentos fossem impostas ao então dito “povo da nação” ao longo da Idade Média. Não podiam ser proprietários de terras, lhes era vedado andar a cavalo ou assumir funções públicas. Casar com cristãos foi-lhes expressamente proibido em quase todos os reinos europeus. Em algumas cidades, para evitar uma aproximação com os gentios, obedientes ao quarto Concilio de Latrão, de 1215, exigiram que eles andassem nas ruas com uma rodela amarela (cor da traição) ou com o símbolo da estrela de Davi fixada no braço ou na lapela dos casacos, e, por vezes, com chapéus cônicos. Tornaram-nos os párias do medievo europeu, em “intocáveis”.

Houve

naqueles

tempos

uma

intensa

diabolização

deles

e

um

aumento

significativo da crença de uma conspiração semita visando “a ruína do cristianismo”.

Qualquer boato passou a ser uma ameaça à vida e aos bens dos judeus. Isto explica o motivo de muitos deles aceitarem o batismo cristão, quando se acirrava a política das conversões forçadas.

Exatamente por serem considerados indignos é que lhes permitiram dedicar-se à prática dos negócios, especialmente do empréstimo a juros (a usura) e dos penhores, atividades proibidas aos cristãos. Mas esta sempre foi uma função exercida por uma minoria.

Tirando-se os “judeus da corte” e os arrecadadores de impostos, a larga maioria dos assentamentos e dos lugarejos judaicos era composta por pequenos profissionais muito pobres (alfaiates, ferreiros, sapateiros, marceneiros, ourives, vendedores ambulantes, etc.).

Sendo que alguns mais dotados exerciam a medicina (os médicos judeus como o filósofo Maimônides foram famosos na Idade Média) ou tornavam-se rabinos, guias espirituais da comunidade.

O ódio que a plebe cristã lhes reservava vinha do fato de serem eles os únicos emprestadores de dinheiro aos quais podiam recorrer, em troca de um penhor, num tempo em que os poucos bancos que atuavam estavam reservados aos ricos e aos reis.

A política da separação Estavam, pois, por força das leis cristãs, obrigados a viver apartados da comunidade.

Como assegurou Maria J.Ferrero Tavaraes:

‘Por razões de segurança e de vida coletiva, as comunidades judaicas localizaram- se sempre nos centros urbanos, independentemente de uma ou outra família poder residir nas zonas rurais. A comuna cujo centro era a sinagoga, erguia-se no espaço municipal e tinha a sua existência conferida pela concessão de uma carta de privilégios, onde se encontravam nomeados todos os seus usos, costumes, e liberdades. A permissão para abrir ou construir uma sinagoga era dada a um mínimo de dez famílias, residentes numa localidade, pelo rei com o beneplácito do bispo, uma vez que a religião mosaica era tolerada na cristandade, com o objetivo de os seus crentes poderem vir a converter-se ao cristianismo’ (in Linhas de Força da História dos judeus em Portugal das origens a atualidade). Na Ibéria, desde 1412, seus aglomerados eram denominados de Juderias, na Alemanha de Judenhof ouJudenviertel e na Itália de ghetto. Todavia, o rancor antijudaico somente adquiriu foros marcadamente violentos a partir das Cruzadas contra os infiéis (a primeira começou em 1096; a segunda em 1147; e a terceira em 1189).

Naquela oportunidade, o papa Urbano II fez uma conclamação em Clermont- Ferrant para que os cavaleiros cristãos marchassem unidos para a Terra Santa a fim de libertá-la da presença profanadora dos turcos seldjúcidas, convertidos recentes à fé de Maomé. “Deus quer!” dissera o papa. Uma onda de fervor religioso e febre fanática então tomaram conta da cristandade.

A sensação que atingiu a maioria dos cristãos que aderiram à Guerra Santa proposta pela Igreja Católica foi de que não poderiam partir para rincões distantes deixando a retaguarda à mercê dos pérfidos judeus.

No exterior o inimigo era o Islamismo, no fronte interno era o Judaísmo. Foi então que uma onda de horror atingiu os pequenos conglomerados judaicos espalhados pela Europa Ocidental.

Primeiros pogroms [3] No fatídico verão de 1096, seus bairros viram-se atacados por turbas de desordeiros e pilhadores, quando não os próprios cavaleiros cruzados, antes de marcharem para os Santos Lugares, desejavam experimentar suas espadas nas costas dos judeus.

O historiador Steve Runciman observou que:

‘Para um fidalgo saía custoso equipar-se para a Cruzada; se não tinha terras nem possessões penhoráveis, via-se forçado a pedir um empréstimo aos judeus. Mas, era justo que ao marchar para lutar pela Cristandade tivesse que cair nas garras dos indivíduos da raça que havia crucificado a Cristo? O cruzado pobre já tinha dividas com os judeus. Era justo que se visse impedido dos seus deveres como cristão por obrigações contraídas com alguém de raça ímpia? Para alguns deles os judeus eram ainda piores do que os muçulmanos a quem iriam dar combate’.[4] Os destrutivos ataques que começaram a fazer aos bairros judeus foram muitas vezes estimulados pelas crescentes histórias que circulavam que diziam serem eles os promotores de sacrifícios infantis – de martirizarem crianças cristãs na época da Páscoa

judaica para usar o sangue dos inocentes como purificação -, ou ainda como profanadores das hóstias.

As perseguições se estenderam da Inglaterra (Norwich, Londres e Winchester) para a França (Rouen,Evreux, Paris, Dampierre e Ramerupt), até atingir o auge na Alemanha (Colônia, Mogúncia, Trier, Metz,Worms, Speyer, Wursburgo, Nuremberg, Rottenburg e Regensburg). Na região da Renânia alemã, o conde Emich von Leisingen, um licencioso líder de arruaceiros, ainda que aceitasse “compensações financeiras” para não atacar a comunidade judaica, liderou um massacre em Worms e vários incêndios de sinagogas em Colônia e Mogúncia.

A política das expulsões

A consequência lógica desta hostilidade geral, de crescente fobia ao judeu, foi a

adoção da política de expulsão por parte dos reis europeus. Não que os monarcas ou imperadores assim o desejassem ou que o Papado estimulasse, era o povo miúdo, dopado pelo fanatismo do baixo clero, quem exigia que dessem um fim neles. Para os interesses maiores do trono era melhor ter por perto gente habilitada em lidar com dinheiro e com empréstimos, visto que os reis sempre estavam carentes de recursos para financiarem suas guerras. Mas o peso da “opinião publica” marcadamente antijudaica – atiçada por monges e padres extremistas -, prevaleceu.

Deste modo, os de fé mosaica foram então banidos da Inglaterra (pelo rei Eduardo II, em 1290), da França (em 1306, por Filipe o Belo), da Espanha (em 1492, pelos reis católicos), e de Portugal (em 1496, por D. Manuel I).

Um tanto antes, em 1237, o Imperador Frederico II Hohenstaufen determinara que a condição deles fosse à de escravos ou servos do Tesouro Imperial, e, em 1230, São Luís, o rei da França, considerou-os servos do rei e dos senhores feudais ao tempo em que mandara queimar em praça pública exemplares do Talmude em Paris.

Pelo Estatuto de Toledo, tido como Los Estatutos de Limpieza de Sangre, aparecido em 1449, qualquer função pública estava proibida a eles. Foi o primeiro regimento racista que se conhece no Ocidente, separando os espanhóis em cristãos velhos (“autênticos”) e cristãos novos (judeus conversos mantidos sob suspeição), impedindo-os de assumirem funções de conselheiros, alcaides, juízes ou escrivães. Assim é que o poeta Lope de Vega diz por um dos seus personagens, orgulhoso da sua estirpe: Yo soy un hombre/aunque de villana casta/limpio de sangre y jamas/ de hebrea o mora manchada (Sou um homem que ainda que de baixa origem não tenho jamais manchado meu sangue por judeu ou mouro) –Peribañez.

E, evidentemente, quando se deu o terrível surto pestífero do século XIV, a Peste

Negra (1348), que dizimou um quinto da população da Europa Ocidental, os judeus logo foram apontados como os causadores da desgraça, atraindo incontida animosidade dos gentios.

Num outro episódio de pandemia, ocorrido em 1506, dois mil cristãos-novos (judeus convertidos) foram mortos pela populaça de Lisboa, estimulada por padres delirantes que os apontou como responsáveis pela tragédia.

Muitas das medidas reais de exclusão foram revistas, mas, em geral, a política de perseguição empurrou os judeus em direção ao Leste europeu, fixando-os majoritariamente na Polônia, Ucrânia, Rússia e Moldávia.

A Inquisição Durante setecentos anos, de 711 a 1492, a Espanha foi palco de uma intermitente guerra entre os cristãos e os invasores muçulmanos. A partir do século XII, tornou-se, com mais intensidade ainda, uma das fronteiras sangrentas das Cruzadas contra o Islã, sendo que os espanhóis em diversas batalhas contaram com o auxilio de cavaleiros cristãos vindos de outras partes da Europa. Neste cenário, os judeus sefarditas, pelo menos entre os séculos XI e XIII, não passaram de todo mal (o período foi apontado como o século de ouro da cultura judaica

e da literatura ladina na Espanha), até que os cristãos conseguiram a vitória final com a tomada de Granada, a última cidade muçulmana a cair nas mãos dos reis católicos Fernando e Isabel, em 1492.

Os sinais perigosos de antijudaísmo da parte dos cristãos já haviam sido anunciados um século antes quando se deram pogroms [5] insuflados pelos padres. No primeiro dia de Tamuz 5151 do calendário hebraico (4 de junho de 1391) ocorreram tumultos em Sevilha. Os portões da judería foram incendiados e muitas pessoas morreram. As sinagogas foram convertidas em igrejas e os bairros judeus preenchidos com colonos cristãos.

Instigados pelo sermonista São Vicente Ferrier, pregador apocalíptico, líder dos

“Flagelantes”, as desordens ampliaram-se para outros locais da Espanha, como Valência, Madri, Cuenca, Burgos e Córdoba, quando o fogo tomou conta dos templos, das oficinas

e das lojas depredadas por turbas católicas enlouquecidas.

Ao propósito da unificação política da península Ibérica liderada pela Monarquia Católica, associou-se a Igreja Católica, ambos convencidos em por um fim à diversidade religiosa que até então imperava na Espanha. Quem não aceitasse a fé oficial deveria deixar o reino.

O Decreto de Alhambra ou Édito de Granada, assinado pelos Reis Católicos em 31 de março de 1492, colocou os judeus na alternativa da conversão forçada ou do exílio (desde que deixassem seu patrimônio nas mãos do tesouro real). O grão-rabino Isaac Abravanel ainda tentou inutilmente demover suas majestades, mas elas foram pressionadas pelo inquisidor-mor D. Tomás de Torquemada a não voltar atrás. Milhares de judeus escolheram a apostasia para continuar morando em solo onde de há muito viviam, mas um número considerável dele teve que deixar o país para sempre. [6]

A polícia da consciência Autorizada pelo Papado a funcionar desde 1480, a Inquisição Espanhola (a de Portugal é de 1536) tornou-se uma poderosa máquina de perseguição político-religiosa projetando uma sombra grotesca e triste sobre a história da península Ibérica. Além de ser uma policia da consciência, o assim designado Tribunal do Santo Ofício foi uma arma eficaz para assegurar o monopólio da fé católica sobre a população em geral e fixar o predomínio dos cristãos velhos “de sangue limpo” sobre todos os demais.

A sua justificativa de ser era a desconfiança. Com tantos judeus (ditos, marranos)

e mouros (ditos, mouriscos) forçados a se converter ao cristianismo, era natural que

levantassem suspeitas quanto à sinceridade daquela adesão aos mandamentos de Jesus. Era preciso, pois, vigiá-los para ver se, secretamente, não cometiam crimes “contra a fé”.

Uma crescente burocracia, ordenada segundo as Instruções de Torquemada, então foi instituída para controlar os passos dos ditos cristãos-novos, isto é dos conversos. Bastava uma simples denúncia anônima para que os suspeitos se vissem presos às engrenagens do Santo Tribunal. Detidos e encarcerados, os réus eram submetidos à sistemática tortura do potro, da polé ou do garrote, até que algum tipo de confissão lhes fosse arrancada. Por vezes, bastava a simples exposição visual dos instrumentos de tortura – in conspecta tormentorum – para que ocorresse a auto-incriminação. Dependendo da magnitude do crime apurado, o suspeito era acusado e após ter sido julgado e seus bens expropriados era submetido a um auto-de-fé: uma cerimônia pública de expiação.

Conduzido pelas ruas trajando um sanbenito com um ridículo chapéu cônico à cabeça, com cartazes infamantes pendurados no peito e nas costas, apupado pela multidão, era levado até uma praça para que todos pudessem assistir os tormentos que o herege devia obrigatoriamente padecer. Nos casos mais graves – comprovada a prática de “coisa judaizante” – era condenado à morte na fogueira como exemplo de expiação dos seus pecados. Os que por um acaso conseguiam escapar eram executados em efígie, isto é, em imagem.

Entre 1485-1501, em Toledo, 250 foram entregues ao “braço secular”, isto é, executados em público e 500 outros em efígie. No mesmo período, em Valência, 643 sucumbiram no patíbulo enquanto 479 o foram simbolicamente. Até na aprazível ilha de Maiorca 120 foram supliciados até a morte e 107 o foram em efígie. [7] Nem aqueles que se refugiavam nas colônias dos impérios ibéricos estavam a salvo. A Inquisição, com certa regularidade, enviava Visitadores do Santo Oficio para o Novo Mundo para caçar os fujões. Sendo que na cidade de Lima, capital do vice-reino do Peru, o Santo Oficio se estabeleceu em caráter permanente, assim como na cidade do México, cujo tribunal foi inaugurado em 1569, conquanto que um terceiro foi estabelecido em Cartagena das Índias, Colômbia, em 1610.

Poucos anos depois desta política de extermínio de uma religião, a presença milenar da comunidade dos judeus sefarditas praticamente deixou de existir na Península

Ibérica, pondo fim definitivo ao convívio das três etnias (a espanhola, a judaica e a moura)

e das três religiões (a cristã, a mosaica e a islâmica) que até então a caracterizara.

3. Os Judeus e o Cristianismo Oriental

A Judéia sob o domínio bizantino [8] As tensões continuaram a aumentar na Judeia entre cristãos e judeus. Foi a política cristã oficial que converteu judeus ao cristianismo, e os líderes cristãos usaram o poder oficial de Roma nas suas tentativas. Em 351 dC. os judeus se revoltaram contra as pressões acrescidas de um mau governante chamado Gallus. Gallus sufocou a revolta e

destruiu todas as grandes cidades da Galiléia, onde a revolta começou. Tsipori e Lida (lugares de duas das principais academias jurídicas) nunca se recuperaram. Enquanto os judeus da Judeia lutaram contra a pressão cristã, a própria Roma sofria cisões e crises. Havia já dois reinos. Um deles, o reino do Ocidente, tinha sua capital em Roma. O segundo, o reino do Leste, tinha sua capital em Constantinopla. Ambos os reinos foram flagelados pela inflação, guerras civis, o governo de corruptos e saqueadores bárbaros que continuaram tentando conquistá-los.

Nessa época, em Tiberíades, Hillel II, fez um ato revolucionário. Ao invés de manter o controle político sobre o resto do mundo judaico, insistindo em que a diáspora aguardava a cada mês do calendário para a verificação da Judéia, ele criou um calendário oficial, que não precisava de avistamentos mensais da lua. Os meses foram criados, e o calendário não precisava de nenhuma outra autoridade da Judeia. Isso efetivamente mudou a autoridade judaica legal da Judeia para a Babilônia. Assim, os judeus babilônicosnão eram mais dependentes da Judeia para nada. Por volta do mesmo tempo, a academia de Tibério começou a escrever todas as partes da Mishná [9]combinando explicações e interpretações desenvolvidas por gerações de estudiosos que estudaram a filosofia de vida, após a morte de Judah. Eles organizaram este grande trabalho de acordo com a ordem da Mishná. Cada parágrafo da Mishná foi seguido por uma compilação de todas as interpretações, histórias e as respostas associadas a essa Mishná. Este texto é chamado o Talmud de Jerusalém. Os judeus da Judeia tiveram uma breve pausa em 363 dC, quando Juliano o Apóstata, tornou-se imperador do Reino Oriental. Ele tentou retornar ao reino de helenismo e encorajou os judeus a reconstruir Jerusalém. Os judeus estavam em êxtase, mas sua alegria foi de curta duração; Juliano foi assassinado, e os imperadores cristãos assumiram, para nunca perder o controle novamente. Em 476 dC, o reino ocidental de Roma foi conquistado pelas hordas bárbaras (como eram carinhosamente chamados pelos romanos). O Reino do Leste (chamado Bizantino) sobreviveu ao ataque e manteve a posse de suas terras, incluindo a Judeia. Os “bárbaros” estabeleceram-se no Império do Ocidente e tornaram-se cristãos. Tal como nunca tinha sido antes, Roma caiu, a estrutura bizantina política foi fortemente influenciada pela Igreja, e os judeus da Judeia continuaram a sofrer. No início do século V, o imperador Teodósio determinou que, considerando os judeus na qualidade de um grupo de pérfidos, e que haviam negado a Jesus, fossem perseguidos. Os judeus não podiam possuir escravos (tornando a agricultura difícil para eles). Eles não podiam construir novas sinagogas. Eles não podiam ocupar cargos públicos. Os tribunais dos judeus não podiam julgar casos entre um judeu e um não-judeu. Casamentos entre judeus e não-judeus eram uma ofensa capital, era como se um cristão se convertersse ao judaísmo. Além disso, Teodósio acabou com o Sinédrio e aboliu o cargo de “Nasi”.[10] Os judeus receberam uma carga fiscal extra também. A Igreja representada pelo governo bizantino estava lutando com sua própria identidade. Acabar com a heresia dentro da Igreja ocupou grande parte da energia dos líderes da Igreja. Com ele veio um virulento anti-semitismo. Os judeus eram acusados de todos os males imagináveis. João Crisóstomo, falando em Antioquia, emitiu uma série de sermões que se tornaram a fonte medieval cristã do anti-semitismo. Com Justiniano as coisas ficaram piores para os judeus. Ao manter os éditos de Teodósio, Justiniano acrescentou alguns detalhes para a lista em dois editais. Regulamento 37 proibiu os Judeus de ocupar o Norte de África. O edital mais escandaloso, porém, foi o Regulamento 146, criado em 553 dC. Os judeus foram proibidos de ler a Torá ou qualquer outro livro em hebraico. Apenas a versão grega (Septuaginta) poderia ser usada. O “Shemá “era

proibido. O estudo da Mishná foi proibido. Justiniano encorajou os cristãos a destruir sinagogas, lojas e casas de judeus. Felizmente, Justiniano e os bizantinos tiveram problemas fora da província da Judeia, e não havia tropas suficientes para cumprir estes regulamentos. Como resultado, ironicamente, o século VI viu uma onda de novas sinagogas serem construídas com belos pisos de mosaico. Judeus assimilaram em suas vidas as formas de arte da cultura bizantina. Encontram-se nessas construções mosaicos que mostram pessoas, animais, menorahs, zodíacos, e personagens bíblicos.

Excelentes exemplos destes pisos em sinagoga foram encontrados em Beit Alpha (que inclui a cena deAbraão sacrificar um cordeiro em vez do seu filho Isaac, juntamente com um lindo zodíaco), Tibério (não é uma surpresa, era o centro da vida judaica), Beit Shean e Tsipori. Os cristãos, entretanto, também fizeram a construção e sedimentação na Judeia. Apesar de seus mais importantes centros cristãos ficarem em Jerusalém e Cesareia, e isso foi por um motivo diferente: o monaquismo. Copiando-se diretamente da seita dos Essênios, do judaísmo, ordens monásticas foram estabelecidas no Cristianismo. Citando o mesmo texto bíblico de Isaías: “A voz de quem clama: Preparai no deserto o caminho do Senhor”. Os cristãos fundaram mosteiros, e em todos são percebidos provavelmente em toda a Judeia. Há um magnífico mosteiro em Jericó, o mosteiro de São George que foi inspirado por Wadi Kelt; Mar Saba está no deserto da Judeia, no meio do nada, e grandes mosteiros foram construídos emAvdat, Masada e Zohar. Igrejas foram estabelecidas em locais tradicionais (via do dedo real de Helena) de milagres na vida de Jesus. Tavcha tem um belo mosaico no chão cheio de pássaros e flores. Há um lindo mosteiro no alto do Monte Tabor, que comemora a transfiguração de Jesus perante seus discípulos.

Todos estes mosteiros, igrejas e sinagogas foram construídas durante os reinados anti-semitas, os imperadores pró-cristãos do Império Bizantino.

4. Os Judeus sem Pátria

Judaísmo, ruptura e continuidade [11]

Jean Delumeau fala-nos de uma ruptura, ou melhor, de uma sequência de rupturas

e continuidades. A presença ou ausência do templo, materializada em destruição e

edificação, aparece como um fator determinante na vida política e religiosa dos judeus. É

interessante olhar para o ponto de continuidade, exarado no texto da Torá, ofertada por Deus aos judeus, mesmo antes de lhes ser provido um espaço nação, assim como a importância que a Torá continuou a ter mesmo quando eles perderam o seu espaço novamente. Como afirma Paul Johnson: “As reformas de Josias, o exílio, o regresso do

exílio, a obra de Esdras, o triunfo dos Macabeus, a ascensão do farisaísmo, a sinagoga, as escolas, os rabis – todos esses acontecimentos haviam sucessivamente primeiro estabelecido, depois gradualmente consolidado o absoluto domínio da Torá na vida religiosa e social judaica.”Ao olhar para a terra santa, uma conquista no dizer de Delumeau. Foi verdadeiramente uma conquista nos dias de Josué, uma oferta nos dias de Abraão, um reapropriar nos dias de regresso do cativeiro em Babilônia, uma luta pela manutenção nos dias dos Macabeus e uma perca nos dias de Tito.Daí a tentativa de tentar

se conciliar estas três dádivas: a Torá, a Terra Santa e o Templo; percebendo-se o fato de que quando se afastaram da Torá perderam o resto e nunca mais conseguiram

apropriarem-se como nos dias de Salomão ou de Ezequias. Apesar dos avisos de Jeremias, foi o esforço de Ezequiel, com um texto tão prodigioso, quanto enigmático e complicado que trouxe os judeus de volta à Torá.A ruptura apresentada e à qual se dedica um pouco mais de atenção foi despoletada pela destruição que o general Tito infligiu à cidade de Jerusalém, no ano 70 da nossa era, destruindo por completo a cidade incluindo o Templo.

Os seus habitantes foram dispersos. Sem templo e sem terra necessitavam de um novo incentivo religioso que não deixasse a sua fé desaparecer, sendo as sinagogas um instrumento basilar permitindo que o povo pudesse intensificar os seus estudos, exercitar

a oração e a caridade, mesmo sem os sacrifícios do templo, em qualquer altura e em

qualquer parte do mundo onde se encontrassem.Realmente não foi a primeira vez que o

povo ficou sem templo, pois o primeiro tinha sido construído por Salomão, destruído pelo exército Babilônico nos dias dos profetas Ezequiel e Jeremias, reconstruído no tempo dos persas, “é também chamado de templo de Zerobabel.” e destruído no tempo de Antioco Epifâneo, “sua insaciável avareza fez com que ele não temesse violar-lhes também a fé, despojando o templo das muitas riquezas de que, sabia ele, estava cheio… afinal nada lá deixou”. Este templo que ficou tão desprezado e maltratado pelo novo uso que lhe foi dado, pois “mandou também construir um altar no templo e ordenou que lá se sacrificassem porcos…”, foi reconstruído por Herodes, o grande, sem o derribar, sendo acrescentados sucessivos melhoramentos pelos seus sucessores. Nos dias de Tito existia o templo, festas religiosas, sacrifícios, sacerdotes, a imponente Jerusalém e vários partidos que disputavam não só o poder, mas a forma como o judaísmo deveria ser seguido. Com a investida de Tito tudo veio a mudar. Se começarmos pelas sinagogas, falamos de instituições providas de um edifício que existiram em simultâneo com o templo e continuaram depois deste ter sido reduzido

a cascalho. “Quando o judaísmo foi finalmente constituído, em todas as comunidades

judaicas da palestina, da Diáspora e em Jerusalém, até ao lado de Templo, havia edifícios

onde não se celebrava nenhum culto sacrificial, mas onde havia reuniões para oração e para leitura dos ensinamentos da Lei, essas são as sinagogas”. Este equipamento servia o meio para pôr em prática a mensagem de Ezequiel: “só havia salvação através da pureza religiosa.” Este ensaísta de viver sem templo, exilado, sem pátria e sem sacrifícios, explicou à sua posteridade que isso era algo possível. Assim por todos os lugares onde os judeus andavam dispersos, a sinagoga representou um elo de coesão do judaísmo, visto que divulgou entre os pagãos a crença e o culto monoteísta. Com a implantação da sinagoga numa cultura gentílica, esta representava mais do que um lugar de culto. Era a escola, o lugar de convívio, um espaço onde se mantinha viva a língua hebraica, onde se tratava do apoio social aos órfãos e viúvas. Era um pouco de Jerusalém noutro qualquer lugar do planeta. Tito acabou com o Templo, com os sacrifícios, com todo o staff do Templo, contudo não acabou com as orações e estudos da Torá, que permaneceram pelos séculos como meio de interligação entre os judeus, dando-lhes uma identidade enquanto nação, mesmo que sem pátria e enquanto religião. Poderemos resumir com a expressão o judaísmo adaptou-se, mantendo-se fiel à Torá. Aparece à parte das sinagogas o trabalho de ensinar e preservar a Lei. Com a urgência de estudar, copiar e ensinar a lei durante e após o exílio babilônico, surge uma nova classe de eruditos, apelidados de escribas, como encontramos no livro de Esdras:

“… este Esdras subiu de Babilônia. E ele era escriba hábil na lei de Moisés, que o Senhor Deus de Israel tinha dado; e segundo a mão do Senhor seu Deus, que estava sobre ele, o rei lhe deu tudo quanto lhe pedira…”. Agora longe da sua terra, muitos anos depois de Esdras eram necessários mais do que a tradição oral para passar às gerações vindouras os ensinos da Torá e os preceitos

judaicos. Claro que a Torá continuou a ser para os judeus a palavra revelada de Deus, seu valor era inquestionável, mas era necessária a sua interpretação e adaptação ao quotidiano atual, bem diferente do quotidiano de Moisés no deserto. Foram desenvolvidos dois Talmudes, o primeiro por volta de 400 a.C. e o outro por 500 ou 600 a.C., em Israel e na Babilónia respectivamente. Estes documentos não são fruto de um dia, mas o juntar do trabalho de estudiosos ao longo de muitos anos, constituindo-se numa ajuda às comunidades judaicas desejosas de praticar a verdadeira religião e que por isso se dirigiam frequentemente às sinagogas espalhadas pela diáspora para aprender. Se Tito não tivesse oferecido aos judeus este momento duradouro de ruptura, eles continuavam sectarizados entre os seus partidarismos como: os saduceus, os fariseus, os zelotes e os essênios; acrescentados de alguns outros que, entretanto surgiriam. Cada um disporia da sua ideia, de forma déspota, lutando pela preponderância no Templo e diante do povo, discutindo mais problemáticas secundárias do que a essência da sua própria doutrina, centrando a sua crença no sacrifício de inúmeros animais de forma continuada, nos sacrifícios do Templo, não se alienando das festividades inerentes. Provavelmente os anos teriam roubado a atenção da essência da prática do Pentateuco e também se concentrado sob qualquer pormenor dos rituais do templo na história dos judeus. Não é tão fácil perceber a filosofia da história quando se estár vivendo as experiências estáveis ou instáveis. Assim, olhando para trás e vendo a história do povo judeu é que se percebe o quanto foi útil a dispersão. O mundo pôde ser enriquecido com a cultura e a religião judaica.

5. O Problema da Xenofobia

Xenofobia e racismo [12] As recentes revelações das restrições impostas há mais de meio século, à imigração de negros, judeus e asiáticos durante os governos de Dutra e Vargas chocaram os brasileiros amantes da democracia. Foram atos injustos, cometidos contra estes segmentos do povo brasileiro que tanto contribuíram para o engrandecimento de nossa nação.

Já no Brasil atual, a imigração de estrangeiros parece liberalizada e imune às manchas do passado, enquanto que no continente europeu marcha-se a passos largos na direção de conflitos raciais onde a marca principal é o ódio dos radicais de direita aos imigrantes.

Na Europa, a história se repete com o mesmo enredo centenário: imigrantes são bem-vindos para reforçar a mão-de-obra local em momentos de reconstrução nacional ou de forte expansão econômica; após anos de dedicação e engajamento à vida local, começam a ser alvo da violência e da segregação.

Assim vem sendo na Inglaterra, onde os recentes distúrbios na cidade de Bradford deixaram transbordar todo o ressentimento dos imigrantes paquistaneses e bengaleses que, nos anos 70 e 80, contribuíram para o boom da indústria têxtil local e que hoje, em um momento de recessão e fechamento das fábricas, têm dificuldade para encontrar novos empregos. Nesta cidade inglesa, os imigrantes chegam a representar 15% da população total, enquanto que em toda a Inglaterra é de 5% o total das minorias étnicas.

O

partido

Frente

Nacional,

pertencente

à

direita

radical,

vem

pregando

abertamente, em violentas manifestações públicas, que os asiáticos sejam repatriados.

Também na Áustria, onde os imigrantes turcos tiveram papel preponderante na reconstrução pós-guerra do país, o líder racista Joerg Haider, cujo partido recebeu quase um terço dos votos num país com apenas 4% de desemprego, continua fazendo suas pregações xenófobas, estimulando o ódio aos turcos, que estariam supostamente tirando os empregos dos nativos.

O mesmo clima de intolerância é encontrado na França, berço de uma revolução

que pregava a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O líder ultradireitista Le Pen promete aos seus eleitores que, se levado ao poder, deportará imediatamente três milhões de imigrantes, incluindo os filhos destes nascidos em solo francês. Uma recente pesquisa mostrou que 67% dos franceses são declaradamente xenófobos.

A hipocrisia atual foi acentuada nesta semana,[13] com a notícia de que a

Alemanha necessita admitir urgentemente 50 mil novos imigrantes por ano para compensar a baixa taxa de natalidade no país (a estimativa é de que a população germânica irá sofrer uma contração de 25% nos próximos 50 anos, reduzindo drasticamente o total de 82 milhões de habitantes atuais).

O anúncio oficial já traz embutidas as condições para o ingresso em território

alemão: ser jovem e ter conhecimento profissional. Imediatamente após a divulgação do plano governamental, os líderes de direita lançaram um slogan por todo o país: “Kinder statt Inder” – “Crianças ao invés de indianos”, conclamando o governo a aplicar os recursos na educação das crianças alemãs ao invés de fomentar a imigração. A Alemanha registrou um crescimento de 59% nas manifestações radicais de direita, crimes racistas e anti-semitas no ano 2000.

Todas as manifestações na Europa são, todavia, superadas em crueldade e indignidade pelo que vai acontecendo na Itália, onde se transformaram em uma praga nacional, com destaque para os estádios de esportes. As recentes cenas transmitidas por uma cadeia mundial de TV, durante uma partida de futebol, revelaram a que ponto pode chegar os extremistas raciais. Quando um jogador negro dominou a bola, uma verdadeira chuva de bananas foi jogada no campo aos gritos de “fora, negros” e “bananas para os macacos”. Um exemplo de intransigência são os torcedores do Lazio, que se transformam em verdadeiros filhos de Hitler quando assistem às partidas de seu time. As ofensas e agressões morais extrapolam até para agressões físicas. Algumas raras reações de jogadores indignados com os acontecimentos podem ser registradas. Por exemplo, as reações dos jogadores do time Treviso, que pintaram o rosto com graxa preta de sapato em solidariedade ao companheiro negro nigeriano Schengun Omolade, que foi ofendido pela própria torcida de seu clube com faixas que diziam: Não queremos um jogador negro em nosso time.”

A imprensa brasileira noticiou uma proposta milionária do Lazio da Itália, que

pretendia adquirir o passe do zagueiro Juan por 10 milhões de dólares. Este é o time cuja

torcida já agrediu o jogador brasileiro Antônio Carlos, do Roma, e perdeu o mando de campo por incitamento racista em pleno estádio.

O tal do anti-semitismo [14]

Os cerca de 400 delegados presentes ao encontro que celebrou em Nova Iorque o nonagésimo aniversário da Liga Anti-Difamação da B`nai B`rith, em fins de 2003, ouviram de Abraham Foxman, presidente da instituição, um alerta de extrema gravidade. Segundo ele, as ameaças à segurança do povo judeu são hoje “tão grandes – se não maiores – quanto as dos anos 30.” Assustou uma plateia composta, em sua maioria, por pessoas idosas, que viveram os horrores do nazismo.

Foxman não está sozinho nesta análise. Vários livros têm surgido, especialmente nos Estados Unidos, apontando a vigência de uma espécie de guerra contra os judeus. Phyllis Chesler, por exemplo, escreve em The New Anti-Semitism (citado por Brian Klug no artigo “The Myth of the New Anti-Semitism”, The Nation, 02/02/04): “Serei clara: a guerra contra os judeus está sendo travada em muitas frentes – militar, política,

econômica, propagandística – e em todos os continentes.” Estende esta ameaça para toda

a civilização ocidental. Avi Becker, secretário geral do Congresso Judaico Mundial, já dissera, em 2002: “Estamos vivendo os piores momentos de anti-semitismo na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial.” Também no Brasil repercutem as advertências. Em carta recentemente enviada ao

jornal O Pasquim 21, o presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, Osias Wurman, refere-se a uma “onda de anti-semitismo que temos presenciado em todo

o mundo.” Há, realmente, uma ressurgência generalizada do ódio anti-semita? Em caso positivo, que circunstâncias teriam levado a isso? Em caso negativo, por que estaria semeada esta impressão em muitos formadores de opinião?

Antes de mergulhar no tema, um esclarecimento. O anti-semitismo é velho conhecido dos judeus e tem demonstrado enorme resistência ao longo da História. Camaleônico, vestiu roupagens diferentes e mesmo antagônicas. Seria tolice ignorar ou escamotear estas evidências. É um inimigo ardiloso, que precisa ser enfrentado, no mínimo, com inteligência política, persistência pedagógica e conhecimento histórico. Neste artigo, entretanto, não se trata de reconhecer ou rejeitar a existência do anti- semitismo, o que seria uma discussão surrealista. Ele será focalizado como fenômeno social, com raízes localizáveis, e não como uma fatalidade genética. Veremos, com base em pesquisas e análises de diversas fontes, se está em curso um surto agudo de perseguição aos judeus, diferente e/ou mais intenso dos que aconteceram em outros períodos.

O documento mais completo que já se produziu sobre o assunto veio à luz em março de 2003 (“Manifestations of Anti-Semitism in the European Union”, Viena). Foi uma extensa pesquisa conduzida pelo Centro Europeu de Monitoração do Racismo e da Xenofobia em quinze países, recolhendo dados referentes ao primeiro semestre de 2002. As principais conclusões foram as seguintes:

1. Desde a eclosão da chamada Intifada de al-Aksa, em outubro de 2000, houve um incremento acentuado de incidentes anti-semitas em alguns países europeus. Eles se intensificaram na esteira dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, após os quais se espalhou também uma histeria antiislâmica. Os pesquisadores ressaltaram a pouca credibilidade estatística de muitas fontes de informação, na medida em que, por exemplo, muitos casos de críticas legítimas e respeitosas às políticas dos governos israelenses acabavam rotuladas como anti-semitismo. Também não há, entre os

países pesquisados, uma definição homogênea de anti-semitismo, o que dificulta uma análise criteriosa dos dados levantados.

2. É historicamente impróprio considerar a recente escalada de incidentes anti-

semitas como a pior desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Anthony Lerman, ex- diretor executivo do Institute for Jewish Policy Research, de Londres, pondera que “é um erro pensar que um aumento de incidentes implica necessariamente numa piora geral do clima de anti-semitismo”. Os pesquisadores alertam que se, além do número de incidentes, outros indicadores forem considerados, como atitudes antijudaicas, sucesso eleitoral de grupos de extrema-direita, discriminação social e legal dos judeus etc., o resultado não indica um aumento geral do anti-semitismo e, além disso, mostra claras diferenças entre países pesquisados.

3. O clímax dos incidentes aconteceu entre o fim de março e meados de maio de

2002, paralelo a uma violenta escalada no conflito palestino-israelense. Nos meses

posteriores, com poucas exceções, houve um declínio acentuado, aproximando-se dos índices médios observados nos países europeus em outros períodos.

4. Na França, Bélgica, Holanda e Inglaterra os ataques contra judeus e instituições

judaicas foram mais graves. Alemanha, Espanha, Áustria, Itália, Grécia, Dinamarca, Suécia, Portugal, Irlanda, Luxemburgo e Finlândia registraram números muito menores. Não existiu, portanto, uma onda, no sentido do encadeamento crescente e contagioso de eventos.

5. Poucas vezes os agressores são identificados. Quando isso ocorreu com algum

grau de exatidão, verificou-se que as agressões foram cometidas por militantes da extrema-direita e muçulmanos radicais, a maioria de origem árabe, que, ironicamente, são vítimas potenciais da nunca eliminada xenofobia européia. Na França, por exemplo, depois de interrogar 42 suspeitos (jovens imigrantes do norte da África e da região do Magreb), a polícia concluiu que eles eram “predominantemente delinquentes sem ideologia, motivados por uma hostilidade difusa contra Israel, exacerbada pela representação do conflito do Oriente Médio na mídia (…), conflito que eles percebem como uma reprodução do quadro de exclusão e fracasso do qual são vítimas”.

6. Houve casos em que as posições da extrema-esquerda se aproximaram das de

extrema-direita. Isso foi particularmente visível em manifestações pró-palestinas e antiglobalização, quando caricaturas anti-semitas acabavam se confundindo com slogans antiisraelenses. Eis aqui um elemento fundamental: a presença do fator político (ligado à questão do Oriente Médio) como detonador de ranços preconceituosos, que generalizam

“culpas” e desconhecem a variedade de posições políticas dos judeus, dentro e fora de Israel.

7. Com muito poucas exceções, a chamada grande imprensa européia não

veiculou material anti-semita. Este ficou confinado aos pasquins da extrema-direita e a páginas racistas da Internet. Alguns meios de comunicação ligados às comunidades árabe e muçulmana têm conclamado à luta não apenas contra Israel mas também contra todos os judeus. É importante destacar que isso é repudiado pelas lideranças institucionais destes grupos. Na França, onde a população muçulmana totaliza 5 milhões de pessoas, os principais líderes comunitários advertiram contra a estigmatização do povo judeu,

condenaram os ataques contra judeus e pediram moderação nas manifestações de solidariedade aos palestinos. Naser Khader, membro do parlamento dinamarquês, Hanna Ziadeh, presidente do Conselho de Integração de Copenhagen, e Mahmoud Issa, historiador, todos palestinos residentes na Dinamarca, escreveram uma carta aberta no diário Politiken, apelando a seus companheiros palestinos para que não deixassem que “suas críticas justas ao governo israelense se transformem em ódio a todos os judeus”. Enfatizaram que “nossa batalha é política e nada tem a ver com religião e etnicidade”. O artigo foi impresso em dinamarquês e árabe. 8. As velhas relações carnais entre Israel e EUA respingam sobre os judeus em todas as partes. O ódio à política imperial praticada pelo presidente George W. Bush acaba resvalando para seus aliados israelenses e, por caminhos enviesados, para os judeus. Acrescenta-se: a luta antiimperialista arrasta setores equivocados da esquerda a uma generalização descabida. Estes setores desprezam o fato de que muitos judeus e organizações judaicas se colocam abertamente contra as políticas de governos israelenses e eventualmente até contra os fundamentos do Estado judeu. Com isso, perdem a oportunidade de ampliar as alianças contra os verdadeiros inimigos quais sejam, a exploração capitalista em todas as suas dimensões, o preconceito e o colonialismo.

9. As populações judaicas são vistas como intimamente associadas ao Estado de Israel e à sua política. Assim, estes judeus acabam se tornando reféns involuntários das decisões e atitudes dos governos israelenses. Os números da tabela abaixo, referentes à proporção dos entrevistados que duvidam da lealdade dos judeus a seus países, são esclarecedores.

(% dos que concordam com a declaração)

Declaração

Bélgica

Dinamarca

França

Alemanha

Holanda

Os judeus são mais leais a Israel do que ao país onde moram

50

45

42

55

Inglaterra

Espanha

Itália

Áustria

34

72

58

54

48

De todas estas informações, pode-se concluir claramente que não está havendo uma escalada generalizada de incidentes anti-semitas na Europa. Houve, num curto intervalo e em dimensões variadas, um recrudescimento de atos contra judeus, paralelo à agudização do confronto armado entre israelenses e palestinos. Assim, em vez do tradicional leitmotiv anti-semita (conspiração judaica para dominar o mundo, sovinice, culpa de deicídio etc.), aparece um elemento político externo a países onde os judeus estão social, econômica e culturalmente integrados. Nas palavras de Henri Wajnblum, ex- presidente da União dos Judeus Progressistas, da Bélgica: “É certamente verdade que

observamos um aumento de incidentes anti-semitas no passado recente: grafitagens, depredações, que são preocupantes. É, entretanto, errado falar de uma onda de anti- semitismo varrendo a Europa. O que estamos vendo é o crescimento da hostilidade contra

Israel, particularmente entre os imigrantes árabes solidários aos palestinos. É a política israelense no Oriente Médio que está provocando, em grande medida, este incêndio e, neste sentido, o governo de Ariel Sharon tem parte da responsabilidade (…). O senhor Sharon quer mais judeus em Israel, ele quer tomar a dianteira na questão demográfica. Acaba explorando, ao menos em parte, os temores dos judeus europeus para persuadi-los

a emigrar.” (“Viewpoints: Anti-Semitism and Europe”, www.bbc.co.uk , 03/12/03)

A hostilidade contra o Estado de Israel é necessariamente uma manifestação de

anti-semitismo? A resposta é um redondo não. Verifica-se a palavra do professor de Ciência Política da Universidade Hebraica de Jerusalém Yaron Ezrahi: “A direita em Israel descreve qualquer crítica ao país como uma forma de anti-semitismo. É muito conveniente para o atual governo – o mais direitista da História israelense e encabeçado por um primeiro-ministro que não tomou a menor iniciativa diplomática em favor do processo de paz – acusar tudo de anti-semitismo (…). Quando Itzhak Rabin liderou o processo de paz, o comportamento popular na Europa foi extremamente positivo. Era muito raro ouvir falar de incidentes anti-semitas naquele período.” (do site da BBC citado no parágrafo anterior)

O sionismo não é um mandamento divino. Trata-se de uma doutrina política e

como tal deve ser tratado, analisado, apoiado ou rejeitado. Sua versão moderna surgiu no século XIX, em resposta ao anti-semitismo dos nacionalismos europeus. Assim, como bem lembra Uri Avnery no boletim do movimento pacifista Gush Shalom de 22/11/03, o preconceito antijudaico está em sua certidão de nascimento e sem ele é muito provável que não existisse o Estado de Israel. Avnery descarta a continuidade histórica do desejo da volta a Sion, lembrando que essa vontade sempre ficou circunscrita às orações. Dar-se um exemplo clássico: ao ser expulsos da Espanha, há cerca de 500 anos, a grande maioria dos judeus procurou refúgio em países do império otomano, onde foram bem recebidos. Só uns poucos rabinos se dirigiram a então Palestina. Isaac Deutscher (O Judeu Não- Judeu e Outros Ensaios, Civilização Brasileira) observou que a maioria dos judeus europeus foi hostil ao sionismo até a Segunda Guerra Mundial. Cairíamos, aí, numa situação esquizofrênica se igualássemos anti-semitismo a anti-sionismo: a maior parte do

povo judeu teria sido anti-semita. Por fim, crer-se ser absolutamente legítimo questionar

a viabilidade de um Estado democrático fundado numa supremacia demográfico-étnica

perpétua. Muitas lideranças comunitárias judaicas, e o Brasil não é exceção, tratam de montar blindagens em torno de Israel, evitando qualquer tipo de crítica e criando uma imagem idealizada do país. Ajudam a satanizar inimigos, reais ou imaginários, e comportam-se como ministros da propaganda de todos os governos israelenses, com os quais mantêm relações privilegiadas e aos quais atribuem todas as virtudes. Constatando este tipo de afinidade incondicional, o público tem a impressão de que as comunidades judaicas são indiferenciadas, abrindo caminho para distorções graves e preconceitos. A falta de isenção torna essas lideranças, ironicamente, cúmplices indiretas da animosidade anti-semita.

Alguém há de perguntar onde está a idealização. É preciso ater-se a um exemplo:

a tão difundida ideia de que Israel é a única sociedade democrática do Oriente Médio.

Democrática para quem? Não para os árabes israelenses, um milhão e 300 mil, discriminados em quase todos os aspectos da cidadania: dotação orçamentária inferior à

da população judaica (implicando em pior atendimento nas áreas de habitação, educação, saúde e cultura), restrições severas ao direito de adquirir terras e morar em locais de livre escolha e banimento de todas as esferas administrativas (ver editorial do jornal Haaretz de 18/12/03). Também não para os 3 milhões e 500 mil palestinos que vivem sob brutal ocupação militar e cujas condições de vida são catastróficas. O que dizer da situação dos quase 400 mil trabalhadores estrangeiros, muitos deles clandestinos, que são extorquidos por patrões inescrupulosos e vivem a permanente insegurança da deportação? Resumo da ópera: direitos apenas para a população comprovadamente judaica, ou seja, aquela que teve o nihil obstat do establishment religioso. Em nossoishuv o assunto é sonegado e o debate em torno dele simplesmente inexiste. A miopia patrioteira leva a erros monumentais. Entre nós, um caso tristemente conhecido foi o do escritor Luiz Fernando Veríssimo. Este doce gaúcho ousou criticar o governo Sharon, na mesma linha elegante que usa em seus textos. Foi o suficiente para ser taxado de anti-semita por judeus raivosos. Respondeu numa crônica admirável (“Heranças dilapidadas”, O Globo, 06/4/03), acusando seus detratores de desonestidade intelectual, opondo-a à boa tradição humanista de uma parte do povo judeu. Felizmente, Veríssimo não embarcou na onda dos provocadores. Estamos longe do isolamento e da indiferença que facilitaram, nos anos 1930, o trabalho sujo dos nazistas. Também não há hordas destruindo propriedades e vidas judaicas na proporção que pregam oportunisticamente, os alarmistas. A violência deve ser enfrentada se e onde ocorrer, mas suas causas imediatas devem ser identificadas para que a estratégia de combate seja eficiente. Hoje, o foco do mal-estar antijudaico está no Oriente Médio e é claramente político. Quanto mais se caminhar na direção de uma solução justa para o conflito palestino-árabe-israelense, menor será a fogueira anti-semita.

Conclusão É de esperar uma conclusão, ainda que seja em um trabalho tão conciso, retratar a história do povo judeu de modo tão entusiástico. É assim porque no período medieval os judeus se perpeturam pela Europa e chegarm às diversas partes do mundo, com sua religião, tradição e cultura.

Em meio a crises e estabilidades o povo judeu não se desapegou de suas práticas culturais, sendo pereservados pelo valor dado à sua tradição. Com isso, ganhou estabilidade e status, vivendo entre duas potências mundiais: a Igreja e os Islam. Todas as pessoas que procuravam um médico ou um banqueiro judeu para suprir as suas necessidades, quer em termos de saúde ou econômicos, podiam encontrar certamente um apoio, ainda que lhes custasse bem caro.

Por que tanto ódio dos judeus? Por que uma xenofobia? É bem verdade que os judeus foram e são descumpridores da Lei de Deus, deixando de fazer o que a Lei ensina, caminhando por caminhos estranhos, mas mesmo assim continua sendo o provo que Deus usa como sinal de sua presença no mundo. Foi justamente desse povo que veio o Senhor Jeus Cristo, o Messias. E, por serem trabalhadores e estudiosos, bem como grandes empreendedores, foram perseguidos e maltratados.

Podemos aprender muito com o povo judeu. Um povo que foi perseguido e maltratado na Idade Média, mas sempre procurou superar as adversidades, pelo valor à família, à comunidade, à religião e ao trabalho. Não é sem méritos que os judeus ocuparam e ocupam todos os segmentos das sociedades onde estiveram e onde estão inseridos.

[1] Cf. FAINGOLD, Reuven. Estabilidade e crise: na história judaica: uma reflexão em torno da teoria de B. Z. Dinur. O autor é Doutor em História e História

Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor do Colégio Iavne e no curso de pós-graduação de Artes Plásticas na FAAP em São Paulo e Ribeirão Preto, é ainda sócio fundador da Sociedade Genealógica Judaica do Brasil e membro doCongresso Mundial de Ciências Judaicas em Jerusalém. Cf. as seguintes referências bibliográficas:

BARON, S. W. A Social & Religious History of the Jews. New York: Columbia University Press, 1952-1976. BARON, S. W. History & Jewish Historians: Assays & Addresses. Philadelphia: Jewish Publication Society of America, 1964. BEN SASSON, H. H. (Ed.). History of the Jewish People. Cambridge, Massachusets: Harvard University Press, 1976. (Hebrew: Toledot Am Israel. 3 vols., The Hebrew University, Jerusalem 1969). BEN SASSON, H. H & Ettinger, S. (Ed.). Jewish Society Throughout the Ages. New York: Shoken Books, Inc., 1969. DINUR, B. Z. Israel Ba-Golá. Introdução a uma coleção de documentos de História Judaica. Tel Aviv 1958. FINKELSTEIN, Louis (Ed.). The Jews: Their History, Culture & Religion. New York:

Harper

GOITEIN, S. D. A Mediterranean Society: The Jewish Communities of the Arab World as Portrayed in the Documents of the Cairo Genizah. 3 vols. Berkeley: University of California Press, 1969-1974. MARGOLIS, Max L. & MARX, Alexander. A History of the Jewish People. Philadelphia: Jewish Publications Society of America, 1927. PARKES, James. Antisemitism: A Concise World History. New York: Quadrangle-The New York Books Company, 1964. RIVKIN, Ellis. The Shaping of Jewish History: A Radical New Interpretation. New York. Charles Scribner’s Sons, 1971. [2] SCHILLING, Voltaire. Judeus e cristãos na época medieval. Cf. a vasta bibliografia: Benanassar, Bartolomé – Historia de los Espanõles. Siglos VI- XVII Barcelona: Editorial Crítica, vol I, 1989. Caro Baroja, J.Los judíos en la España

Moderna y Contemporánea,. Madri: Istmo, 3 vols. 1978, 2.ª ed. Poliakov, León –História do anti-semitismo, – I De Cristo aos judeus da Corte. São Paulo: Editora Perspectiva, 1979. Rios, José Amador de los – Historia Social, Política y Religiosa de los Judíos de España y Portugal,. Madri:, Imprenta de T. Fortanet, 1875. Runciman, Steven – Historia de las Cruzadas. Madri: Alianza Editorial, vol I , 1973. Kamen, Henry – A Inquisição na Espanha. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. 1966. Villanueva, Joaquim P. e Bonet, Bartolome E. – Historia de la Inquisicion em España y America. Madri :

Biblioteca de Autores Cristianos, 2 vols.,1993. [3] Pogrom (do russo погром) é um ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). [4] RUNCIMAN, Steve – Historia de las cruzadas, vol I, pag. 137. [5] Pogrom (do russo погром) é um ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). [6] As provas arqueológicas indicam que presença judaica na Ibéria remonta ao ano de 482, por conseguinte muitos deles descendiam de famílias que já estavam lá há mil anos.

&

Row

Publishers,

1960.

[7] Cf. KAMEN, Henry – A Inquisição na Espanha, pág [8] Source: JewishGates.org Fonte: JewishGates.org

361.

[9] A Mixná ou Míxena, também chamada de Mishná, é uma compilação de opiniões e debates legais. As declarações contidas na Mixná são tipicamente concisas, registrando as opiniões breves dos rabinos debatendo algum tópico, ou registram apenas um veredito anônimo, que aparentemente representava uma visão consensual. Os rabinos registrados na Mixná são chamados de Tannaim. Na medida em que suas leis estão ordenadas pelo assunto dos tópicos, e não pelo conteúdo bíblico, e a Mishná discute cada assunto, individualmente, de maneira mais extensa que os Midrash, e inclui uma seleção muito maior de assuntos haláquicos. A organização da Mishná tornou-se, desta maneira, a estrutura do Talmud como um todo. Porém nem todos os tratados da Mishná possuem uma Guemarácorrespondente. Além disso, a ordem dos tratados do Talmud difere, em muitos casos, da do Mishná. [10] Política de privacidade. [11] Cf. Bloco de Notas do Pr. Samuel Antunes que faz uma síntese muito importante acerca da temática – Bibliografia: JOHNSON, Paul. História dos Judeus, 2ª ed, Rio de Janeiro, Imago editora, 1995; COLEMAN, William. Manual dos tempos e Costumes Bíblicos, 1ª ed, Belo Horizonte, Editora Betânia, 1991; VAUX, R. de. Instituições de Israel no Antigo Testamento, São Paulo, Editora Teológica, 2003; JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus- De Abraão à queda de Jerusalém– Obra completa, 11ª ed, Rio de Janeiro, CPAD, 2007; HERZOG, Chain e Gichon. Mordechai, As grandes Batalhas da Bíblia– Uma história Militar do Antigo Israel, Porto, Fronteira do Caos editores, 2008; CHAMPLIN, R. N. Ph.D. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia, 5ª ed, São Paulo, Editora Hagnos, 2001 [12] WURMAN, Osias, jornalista Artigo publicado em O GLOBO, dia 13/07/01. [13] Na data em que o artigo foi escrito. [14] Por GRUMAN, Jacques. Diretor da ASA- Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação, do Rio de Janeiro. Abril de 2004.