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EDUCAÇÃO E LITERATURA INTERCULTURAL

Andréa Marques da Silva

Graduanda do curso de Letras da UEPB

E-mail: marquessar@gmail.com

RESUMO:
Esse artigo tem por objetivo trazer uma breve reflexão acerca da interculturalidade
tão presente em nosso dia a dia. Como surgiu a questão da interculturalidade e
porque ela existe e tem sido tema de discussões no meio acadêmico, religioso e
político. Analisaremos o livro de Luís Puntel, Missão no Oriente, que relata com
muita propriedade a vida e os costumes Japoneses, assim como a vida dos
Dekasseguis, estrangeiros descendentes de Japoneses que chegam ao Japão em
busca de uma vida melhor. Refletiremos sobre esse encontro de gerações, culturas
e costumes diferentes, que por muitas vezes é tão impactante. Veremos como a
literatura infantil tem contribuído para o conhecimento de culturas tão diferentes e
milenares como é o caso do Japão. A literatura intercultural tem sim, contribuído e
muito para que crianças e jovens conheçam não apenas a geografia de um país,
mas que se tenha uma visão real da forma de pensar de determinado povo, levando-
nos a uma verdadeira conscientização e respeito à individualidade de cada um.

Palavras-Chave: Interculturalidade. Literatura. Educação.

A questão da interculturalidade nunca antes foi tão discutida, seja no meio


acadêmico, político, religioso e etc. Vivemos num mundo globalizado onde as
diferenças se encontram e muitas vezes se divergem drasticamente, é preciso que
haja uma conscientização e respeito à individualidade do outro. É certo que o
contato com a cultura do outro pode nos chocar, mas ao tentarmos conhecer a
diferença deste outro podemos também crescer em aprendizagem e humanidade.

Essa interculturalidade, no entanto, não é algo recente, ela tem inicio desde
os tempos da Grécia Antiga e o Império Romano que com suas invasões tinham
contato direto com povos, culturas, religiões e línguas diferentes. É claro que, neste
período de constantes invasões prevalecia a cultura e a língua da nação dominante,
mas não podemos negar a grande contribuição, que esses povos dominados deram
a tais nações e suas culturas.

Já o século XX, foi marcado pela criação do comércio mundial e pelo


crescente fluxo migratório que permitiu as nações uma maior interação entre si.
Essas migrações, no entanto, ocasionaram um choque cultural. Ao deixar sua terra o
imigrante levava consigo suas crenças e modo de vida, essa crença muitas vezes
servia de chacota ou era duramente repreendida pela classe dominante. Isso
aconteceu no Brasil com os afro-descendentes que após a abolição da escravatura
foram jogados na sociedade sem nenhum preparo ou apoio da classe dominante da
época, o resultado disso foi, discriminações raciais, sociais e culturais, pois os novos
“cidadãos” brasileiros eram rechaçados por não saberem falar o português padrão
da época, por serem pobres e terem suas próprias crenças, costumes e culinária.

Em busca de melhores oportunidades muitos imigrantes nordestinos, por


exemplo, rumaram para o centro-sul do país, chegando lá também foram fortemente
discriminados por terem uma cultura e jeito de falar diferente dos habitantes do
centro-sul do Brasil. Da mesma forma ocorreu com os imigrantes japoneses,
italianos, dentre outros que deixaram seus países e se aventuraram em terras
brasileiras em busca de uma nova vida. E porque não falar da discriminação que
imigrantes brasileiros sofrem em outros países como no caso do Japão, país
culturalmente tão diferente do nosso.

É importante destacarmos a importância que a educação tem em promover a


igualdade entre etnias diferentes. No livro Pedagogia da Autonomia Paulo Freire
declara que: “A prática preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a
substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia”. Daí,
entendemos que é papel também da educação formal, ou seja, da escola promover
uma conscientização das novas gerações de que vivemos numa sociedade
multicultural e que para se viver como cidadãos conscientes e ativos, é necessário
conviver e respeitar as diversas manifestações culturais que há numa determinada
sociedade.

Um dos objetivos gerais descrito no pcn de língua portuguesa para o ensino


fundamental é que o aluno deve “conhecer e valorizar a pluralidade do matrimonio
sociocultural brasileiros, bem como aspectos culturais de outros povos e nações,
posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de
classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e
sociais.”

O que discutimos hoje, não é algo recente, a multiculturalidade está presente


em nossa sociedade e em outras há muito tempo, recente é a consciência que
temos desta multiculturalidade. Como educadores, é nosso papel promover uma
melhor compreensão das culturas nas sociedades modernas para que, haja uma
maior capacidade de comunicação entre as pessoas de diferentes culturas e que se
tenha uma maior interação social.

A educação intercultural faz-nos questionar e aprofundar o conhecimento,


deixando o ego/etnocentrismo de lado e adotando um novo paradigma – “o Outro
como ponto de partida”. Essa educação tem contribuído e muito para a cidadania,
através dela vemos surgir uma maior abertura a diversidade cultural, a igualdade de
oportunidade, a democracia e ao respeito pela vida.

Como auxilio a educação intercultural surge a literatura intercultural que tem


se tornado ferramenta imprescindível para compreensão da interculturalidade
existente no mundo globalizado em que vivemos. A literatura intercultural promove
conhecimento e reflexão aos futuros cidadãos que participarão ativamente nas
mudanças sociais desenvolvendo níveis mais elevados de igualdade de
oportunidades para todos.

A literatura é uma importante ferramenta para educação, pois, tem contribuído


para que crianças e jovens compreendam as diferenças étnicas que existe na
sociedade ao seu redor, facilitando a integração e a diminuição de atitudes
preconceituosas dentro e fora da escola contra outras crianças.

É importante dizer que o papel da literatura intercultural é suscitar a reflexão


sobre a diferença. Expor o conhecimento do outro e o porquê desta diferença, levar-
nos a uma discussão em torno de ideais como igualdade e liberdade por exemplo. A
literatura que é multicultural apresenta valores e princípios que são diferentes dos
nossos, divulga e descreve cenários e ambientes culturais diversos.

Livros que apresentem marcas dessa diversidade cultural existente dentro da


sociedade podem e devem ser vistos como um meio de partilhar e trocar saberes e
valores. Para ilustrar o que até então foi exposto, utilizaremos o livro “Missão no
Oriente” de Luiz Puntel, para exemplificar tudo isso que foi dito, mostrando um
pouco desta interculturalidade que fora discutida.

Luiz Puntel é um autor que se preocupa muito com a realidade do nosso país
e, procura abordar temas atuais em seus romances. Dentre eles temos “Açúcar
Amargo” que conta a história de trabalhadores rurais, bóias-frias que enfrentam a
dura realidade de ter que trabalhar num serviço tão pesado e sentem a dificuldade
de ter que trabalhar e estudar. Em “Menino sem Pátria”, outro livro do escritor a
história baseada em fatos reais se passa durante o golpe militar de 1964 e, retrata
bem a difícil tarefa de adaptação em outros países, os jovens personagens exilados
do Brasil são obrigados a conviver com culturas distintas, tendo que aprender
palavras que não lhe faziam o menor sentido, comendo comidas que para ele eram
esquisitas.

Como vemos esse mineiro que hoje reside em Ribeirão Preto além de ser
professor de português, literatura e redação, dedica-se a escrever livros infanto-
juvenis com temas que retratem a realidade social em que vivemos e abordando
assuntos que nos leva a conhecer a diversidade cultural que há em outros países e
no nosso. Luiz Puntel é também diretor da Oficina Literária Puntel, onde se dedica
ao ensino de língua portuguesa para jovens e adultos.

Puntel defende que “para formar cidadãos mais críticos é necessário começar
pelo incentivo à leitura e a educação multidiciplinar e que esse incentivo é
determinante para se criar uma sociedade melhor”. Esse escritor brasileiro escreveu
muitos livros para coleção vaga-lume da editora Ática, inclusive o livro “Missão no
Oriente” publicado em 1997, que será abordado aqui.

O tema enfocado pelo autor na estória de seu livro “Missão no Oriente” é a


pluralidade cultural que tanto presenciamos no mundo atual. Refletiremos sobre as
diferenças culturais encontradas entre a sociedade brasileira e japonesa e, veremos
que a literatura infanto-juvenil tem contribuído muito para a promoção da igualdade
racial e étnica.

Em “Missão no oriente”, o autor mostra a dura realidade dos operários


imigrantes, da difícil adaptação aos hábitos japoneses, das condições dos
alojamentos e da dificuldade com a língua, mostra também cenários
importantíssimos na história do Japão e rela eventos que marcaram a história do
país como a bomba de Hiroshima na segunda guerra mundial, que matou milhões e
mutilou milhares, o ataque terrorista com gás sarin ao metrô de Tóquio, e o
terremoto em Kobe, ocorrido em 1995.

Na narrativa de Luis Puntel, “Missão no Oriente”, através das personagens


percebemos claramente o choque cultural que sofrem os imigrantes brasileiros, os
chamados Dekasseguis, termo utilizado pelos próprios japoneses para designar
todos os trabalhadores migrantes. A narrativa mostra bem a vida desses
dekasseguis, a forma como trabalham exaustivamente, recebendo salários e
benefícios inferiores aos padrões japoneses e, deixa claro que, todos os imigrantes
que rumam para o Japão vão com o sonho de prosperar financeiramente, juntar
dinheiro e depois voltar ao Brasil. Um ponto interessante a se destacar na narrativa
é a solidão que muitos imigrantes enfrentam no Japão, muitos jovens deixam suas
casas, famílias e nação em busca de uma vida melhor, mas se vêem diante de uma
nova cultura que é extremamente distinta da nossa. Sem nenhum preparo
psicológico, muitos imigrantes infelizmente não agüentam a pressão e, sentindo-se
sozinho e acabam suicidando-se.

O choque cultural entre brasileiros e japoneses é de fato muito grande, em


“Missão no Oriente”, o autor descreve a maneira discreta de ser dos japoneses. No
país oriental até o ato de falar alto em público é considerado no mínimo deselegante.
O namoro no Japão também é bem diferente do namoro no Brasil: as meninas
pedem os meninos em namoro dando um chocolate, e os meninos podem aceitar ou
não lhe dando um chocolate branco; outra particularidade no namoro é que os
Japoneses não dão grandes demonstrações de carinho em público.

Todos esses episódios são vividos pelas personagens da trama de Luís


Puntel, que está sempre em contato com o diferente, às vezes chocando-se, às
vezes tirando para si grandes lições de vida. Conforme a estória vai se desenrolando
e como os problemas e assuntos abordados vão sendo resolvidos, somos levados a
refletir sobre esse modo tão diferente de se viver.

Diante dessas e outras realidades existentes num país como o Japão que tem
uma cultura milenar e que preserva essa cultura de maneira a manter viva a cultura
e os costumes de seu povo, os migrantes brasileiros sentem-se chocados. Mas a
narrativa de Puntel nos traz algumas lições. Com ela aprendemos que devemos
estar sempre abertos a conhecer novas formas de pensamento e que é importante
preservar certos costumes de nosso povo. Apesar de todo avanço tecnológico,
sendo o Japão um país economicamente e tecnologicamente tão avançado seria
comum pensar que não há necessidade de preservar valores tão antigos como os
que o Japão tem, no entanto, os japoneses sentem orgulho de sua história e de suas
raízes, desde a segunda guerra mundial o Japão tem dado mais abertura aos
costumes ocidentais e apesar de terem uma disciplina bastante rígida, hoje o país é
governado por um regime democrático.

Num mundo globalizado e individualista como o que vivemos hoje, adquirir


valores é um ótimo caminho para paz e para o bem viver. Promover um ambiente de
diálogo intercultural, que estimule um processo de ensino/aprendizagem crítico é
urgente e importantíssimo para que educadores e alunos possam aprender entre si
o valor da amizade, solidariedade, amor e, deixar de lado o preconceito seja ele
racial, étnico, social ou religioso.

REFERENCIAS:

VIEIRA, Ana Mônica Caldeira. O CONTRIBUTO DA LITERATURA INFANTIL PARA


A EDUCAÇÃO INTERCULTURAL Experiência em contexto de sala de aula. Lisboa,
2006.

PUNTEL, Luiz. Missão no Oriente. 4 ed. Editora Ática. São Paulo, 1999.