Boletim de D.

António Barroso

Director: Amadeu Gomes de Araújo, Vice-Postulador
Propriedade: Associação "Grupo dos Amigos de D. António Barroso". NIPC 508 401 852
Administração e Redacção: Rua Luís de Camões, n.º 632, Arneiro | 2775-518 Carcavelos
Tlm.: 934 285 048 – E-mail: vicepostulador.antoniobarroso@gmail.com
Publicação trimestral | Assinatura anual: 5,00€

III Série  .  Ano VI  .  N.º 16  .  Janeiro / Março de 2016

31.08.1918 - 31.08.2018

O CENTENÁRIO DA MORTE DE D. ANTÓNIO
BARROSO ESTÁ AÍ À PORTA
ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS
DE D. ANTÓNIO BARROSO

ASSEMBLEIA GERAL

MEMORIAL DE AFECTOS
Testemunhos que expressam a admiração e a devoção do
povo ao Bispo que foi Missionário em três continentes.
A Capela-Jazigo de D. António
Barroso, à entrada do Cemitério
da Freguesia de Remelhe-Barcelos,
foi inaugurada em 5 de Novembro de 1927. Antecedida por uma
galilé apoiada em duas colunas de
granito, apresenta, na face principal, várias placas de mármore, recordando grandes benemerências
do Bispo Missionário. No interior,
há um Livro de Visitas, onde as
pessoas podem assentar graças
recebidas ou pedidos feitos ao
Servo de Deus. Desde que ali foi
colocado, em 1928, até à actualidade, foram preenchidos 8 volumes, registando testemunhos de
muitas dezenas de milhares de visitantes, admiradores ou devotos.

Os Amigos de D. António Barroso, organizados em Associação por escritura pública
de 18 de Dezembro de 1992, vão reunir-se
em Assembleia, no Porto, em meados do
próximo mês de Setembro.
Criada com o objectivo de «divulgar e
promover o conhecimento da personalidade, das virtudes e da fama de santidade do
seu patrono», a Associação pretendia também que cada associado contribuísse com
uma quota (então fixada em cem escudos
mensais), para as despesas do processo de
canonização.
A proximidade do centenário da morte
de D. António e as novas perspectivas da sua
beatificação, sugerem que nos encontremos
para cuidar de aspectos de organização interna e para propor algumas iniciativas com
vista à celebração que se avizinha. Na convocatória a publicar no próximo n.º do Boletim,
informaremos sobre o programa, local, data
e hora do encontro.
D. António Augusto Azevedo (direita),
Bispo Auxiliar do Porto
D. Nuno Manuel dos Santos Almeida,
Bispo Auxiliar de Braga
———
Aos novos bispos nomeados pelo Papa Francisco para as dioceses do Porto e de Braga,
ambas empenhadas no Processo de D. António Barroso, o Boletim deseja-lhes uma
acção pastoral próspera e fecunda, a exemplo do Servo de Deus que foi Missionário e
Bispo insigne.

Fundador: Pe. António F. Cardoso
Design: Filipa Craveiro | Alberto Craveiro
Impressão: Escola Tipográfica das Missões - Cucujães - tel. 256 899 340 | Depósito legal n.º 92978/95 | Tiragem 2.200 exs. | Registo ICS n.º 116.839

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Boletim de D. António Barroso
A CAPELA-JAZIGO, INSPIRADORA DE PROJECTOS
PARA O CENTENÁRIO
Em 23 de Outubro de 1991, nasceu o
“Movimento Pró-Canonização de D.
António Barroso”, associado às comemorações dos Cinco Séculos de Evangelização e Encontro de Culturas. No mesmo
contexto, um grupo de leigos organizou-se
numa Associação de “Amigos de D. António Barroso”, propondo-se divulgar a
vida e a obra do Servo de Deus e ajudar
a angariar meios para a Causa. A petição
redigida pelos promotores da Canonização,
logo subscrita por alguns milhares de pessoas, levou D. Júlio Tavares Rebimbas, então
Bispo responsável pela Diocese do Porto, a
decidir, por decreto de 31 de Julho de 1992,
«introduzir a Causa de Canonização
de D. António José de Sousa Barroso», constituindo o respectivo Tribunal
Eclesiástico. Decidiu ainda, pelo mesmo decreto, nomear para Postulador desta Causa
o Dr. José Ferreira Gomes, advogado da
praça de Lisboa.
O pedido de introdução da Causa de
Beatificação e Canonização de D. António
Barroso, foi coadjuvado por todos os Bispos Portugueses: «O Arcebispo Primaz
e os Bispos da Província Eclesiástica
de Braga declaram-se, para os devidos efeitos, concordantes com o
pedido à Santa Sé da introdução da
Causa da Canonização de D. António
Barroso, que foi missionário em Angola, Moçambique, Índia, e Bispo do
Porto, onde faleceu a 31 de Agosto
de 1918».
O Processo diocesano ficou encerrado
em 5 de Novembro de 1994, e logo em 16
de Novembro deu entrada no Vaticano, na
Sagrada Congregação para as Causas dos
Santos. Houve então que nomear um Postulador residente em Roma que intermediasse junto da Congregação, e para tanto o
Bispo do Porto nomeou, em 4 de Fevereiro
de 1995, Mons. Doutor Arnaldo Pinto Cardoso, Conselheiro da Embaixada Portuguesa no Vaticano. O Dr. José Ferreira Gomes
passou então a Vice-postulador, para acompanhar e dinamizar a Causa em Portugal.
A Positio Super Vita, Virtutibus
et Fama Sanctitatis (327 pgs.) - documento fundamental para o andamento do
processo - ficou concluído e foi aceite pela
Congregação, ainda em 2005. Em 26 de Outubro de 2010, Amadeu Gomes de Araújo,
investigador da Universidade Católica, Lisboa, foi nomeado Vice-postulador, suceden-

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do a José Ferreira Gomes.
Entretanto, no dia 4 de Março de 2015,
foi encerrado por D. António Francisco, no
Paço Episcopal do Porto, o processo relativo a uma presumível cura miraculosa obtida por intercessão de D. António Barroso, e
logo a 10 daquele mês foi o mesmo processo entregue em mão, pelo Vice-postulador,
na Sagrada Congregação para as Causas
dos Santos.
O Centenário da morte de D.
António Barroso (31.08.1918 31.08.2018). Algumas sugestões.
Lendo as preocupações registadas ao
longo de quase um século, no Livro de Visitas da Capela-Jazigo, e prestando alguma
atenção às mensagens gravadas em mármore, à entrada, julgamos que elas podem sugerir algumas iniciativas para celebrar condignamente o centenário que se aproxima.
Por ora, relevamos três, que, de um modo
ou outro, já foram abordadas por colaboradores e Amigos de D. António Barroso,
neste Boletim, nomeadamente pelos P.e
Manuel Vilas Boas, Dr. Victor Pinho e Doutor Joaquim Candeias da Silva.
1. Um Congresso Missionário. Em
1 de Setembro de 1931 realizou-se em Barcelos o I Congresso Missionário Português,
em homenagem a D. António Barroso. O II
Congresso foi em 1954, ano centenário do
nascimento do bispo considerado modelo
de missionário. Espera-se que, em 2018, a
comemoração da sua morte, por doença
contraída em terras de missão, possa ser
um repto para os responsáveis pela dinamização missionária em Portugal. Cremos
que a Sociedade Missionária da Boa Nova,
empenhada no Processo de Canonização,
desde a primeira hora, «por considerar
D. António Barroso um dos seus filhos mais prestigiados», a Diocese do
Porto, a Universidade Católica Portuguesa
e a Câmara Municipal de Barcelos poderão,
se assim entenderem, abalançar-se a um
projecto desta natureza, associando-se às
Igrejas de Angola, Moçambique e Meliapor
(Índia).
2. Monumento aos Missionários
formados no Colégio das Missões
Ultramarinas. Por altura do I Congresso Missionário Português, inaugurou-se
em Barcelos, na Praça do Município, uma

volumosa estátua a D. António, justamente
considerado o maior dos missionários formados no Colégio de Cernache do Bonjardim. A celebração do centenário que vai
ocorrer em 2018, permite sonhar que, com
o empenho da Junta de Freguesia de Cernache, da Câmara Municipal da Sertã e do
Seminário das Missões, será possível fazer
erguer numa zona central da vila de Cernache do Bonjardim, um digno monumento
em homenagem aos 317 Missionários formados no Real Colégio das Missões. Dali
partiram para o Além-Mar, dedicando a vida
ao Padroado Português.
3. Exposição sobre as Missões
que estão ou estiveram a cargo de
missionários barcelenses. As várias
instituições missionárias que operam em
Barcelos, como os Padres Capuchinhos, os
Espiritanos e os Irmãos de S. João de Deus
poderiam, talvez, dar corpo a esta ideia:
uma grande exposição, sobretudo documental e iconográfica, sobre diversas Missões espalhadas pelo mundo, destacando a
acção de D. António Barroso e dos demais
missionários oriundos do Arciprestado de
Barcelos, Em 1954, ano centenário do nascimento de D. António Barroso, a Câmara
Municipal de Barcelos promoveu já uma
grande exposição missionária. Para o projecto que agora se propõe, a Câmara, além
do «know how», dispõe do dinamismo e
dos conhecimentos do seu Bibliotecário
Municipal e Investigador, Dr. Victor Pinho.
O rico espólio da casa que foi habitada por
D. António, em Remelhe, bem como as inúmeras peças que a Câmara e vários familiares e amigos de D. António têm, poderão
enriquecer, ilustrar, abrilhantar muito esta
exposição.
4. Outras sugestões: a criação de
uma página na internet, o lançamento de
uma antologia de textos de D. António,
uma ampla fotobiografia e um conjunto diversificado de actividades, como palestras
ao longo do ano, exposições itinerantes,
concursos escolares (com textos e artes
plásticas), concursos de artesanato (particularmente de cerâmica), jogos florais, romagens, uma edição filatélica, uma edição
medalhística, etc. Em breve voltaremos ao
assunto, porque 2018 está aí à porta.
Amadeu Gomes de Araújo

Boletim de D. António Barroso
PLACAS DE MÁRMORE (aqui em tamanho reduzido) COLADAS NA FACE PRINCIPAL DA CAPELA-JAZIGO. DE DIFERENTES ÉPOCAS E PROVENIÊNCIAS, AFIRMAM A CRENÇA DE MUITOS NAS VIRTUDES EXCELSAS DE D. ANTÓNIO E NO VALOR DA SUA PODEROSA INTERCESSÃO.

D. António Barroso
Romagem do Concelho de Barcelos.
22 de Dezembro de 1968

5 Séculos de Evangelização e Encontro de Culturas –
Abertura das Celebrações Nacionais.
19 . XI . 1989

Remelhe homenageando o seu filho mais ilustre,
D. António Barroso, no Cinquentenário da sua Morte.
31- 8 -1968

Ardere et Lucere: À Santa Memória do excelso
Bispo Missionário: A União dos Tarcísios do Porto.
30 - 5 - 1954

Na 1ª Romagem do Grupo Recreativo Olho Vivo,
a D. António Barroso.
10 - XI – 1963

Preito de Gratidão a D. António Barroso,
seu saudoso Fundador: Grupo das Mulheres Cristãs
aos pés de Maria.
Porto, 20 de Junho de 1965

Romagem de Gratidão e Saudade da Igreja
de Angola a D. António Barroso.
18.V.1991

Homenagem dos Barcelinenses admirados das
Virtudes do Saudoso Bispo D. António Barrozo.
31-VIII-1940

Comemorações Nacionais
1.º Centenário do Nascimento.
5 - 11 - 1954

Sentida Homenagem de Remelhe a D. António
Barroso, no 1º Centenário do seu Nascimento.
1854 – 1954

50 Anos da primeira Romagem dos Amigos de Barcelos
a D. António Barroso. Juntas de Freguesia de Arcozelo,
Barcelos e Remelhe.
01.Setembro.2013

D. António Barroso. Romagem da Freguesia
de Cernache do Bonjardim.
29-06-2008

Grande Romagem a D. António Barroso, de Barcelos
(manhã) e do Porto (tarde). 1.º Centenário do exílio
em Remelhe.
4 Setembro 2011

Câmara Municipal de Barcelos – Universidade
Católica Portuguesa. Nos 150 Anos do Nascimento
de D. António Barroso. 5 de Novembro de 2004

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Boletim de D. António Barroso
D. ANTÓNIO BARROSO E O RESSURGIMENTO
MISSIONÁRIO EM MOÇAMBIQUE

Por Francisco A. Correia, SJ *
Um olhar rápido sobre a
evangelização em Moçambique.
Teve o seu começo com a celebração
da Eucaristia, na ilha de S. Jorge, junto
à ilha de Moçambique, em 11 de Março de 1498, quando a armada de Vasco
da Gama por ali passou a caminho da
Índia. Não quer dizer que se tivesse seguido imediatamente a missionação organizada, mas foi um primeiro sinal de
evangelização ao qual muitos outros se
seguiram. O interesse de Portugal era a
Índia. Moçambique era um lugar de passagem que assegurava o abastecimento
dos navios e descanso aos marinheiros.
Os sinais de evangelização que se vão
multiplicando aparecem junto à costa.
Pero de Anaia chegou a Sofala em 1505
e começou a construção da fortaleza e
da igreja. Em 1506 fixaram-se os primeiros missionários na ilha de Moçambique
e depois em Mossuril em terra firme.
Em 1522 foi construída a capela de Nª
Sª do Baluarte, uma joia da arquitectura
manuelina. D. Manuel I ordenava, no regimento dos capitães das armadas que
doutrinassem os naturais da terra e recomendava os bons costumes para não
causarem escândalo.
S. Francisco Xavier, com dois companheiros, esteve cerca de seis meses
na ilha de Moçambique (Agosto 1541 Fev. 1542), mas quase sempre doente e

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foi sangrado sete vezes, como diz numa
carta aos companheiros de Roma.
Em 1560, o P. Gonçalo da Silveira e
companheiros, membros da Companhia
de Jesus, fundada havia 20 anos, levaram
o Evangelho ao interior, mas sem grande
sucesso e o P. Gonçalo foi martirizado
no Monomotapa, em Março de 1561.
Os dominicanos estabeleceram-se
na ilha de Moçambique em 1577 e alargaram a sua acção a Sofala, Sena, Tete e
ilhas Quirimbas, mas já em 1563 o rei D.
Sebastião lhes tinha doado a igreja paroquial do forte de S. Tiago Maior de Tete.
Em 1610 os jesuítas deram começo
a uma missão que se prolongará até à
expulsão pombalina, em 1759. Fundaram
missões e colégios. O colégio da ilha de
Moçambique era o mais vistoso e ainda
existe o edifício, transformado em museu.
Decadência missionária. O
vale do rio Zambeze foi o palco de grandes acções missionárias de dominicanos,
jesuítas e agostinhos, nos tempos áureos
dos séculos XVI, XVII e parte do XVIII.
Infelizmente houve uma decadência
progressiva da qualidade dos trabalhos,
influenciada por ideologias contrárias
aos ideais missionários. A expulsão dos
jesuítas do campo de trabalho diminuiu
o número de missionários obrigando os
outros a redobrar esforços em tempo
de cansaço e desânimo.
Ressurgimento missionário.
O século XIX é caracterizado pelo
ressurgimento missionário em todo o
mundo. A África aparece como o novo
campo de trabalho a ser privilegiado
pela Igreja Católica. Houve vários factores que despertaram o interesse por
este continente. Considerava-se a África
um continente abandonado e não se tinha penetrado no interior, exceptuando
as acções dos portugueses sobretudo
em Angola e Moçambique. Barreiras
naturais do próprio continente retardavam o avanço do cristianismo para
o interior. A perda das colónias ameri-

canas foi uma das razões da corrida à
África por potências europeias. Portugal
também começou a interessar-se mais
pela África, mas parece que não acertava na maneira de lá fazer obra válida.
O problema principal era a incapacidade
de levar avante a obra sem missionários
e a Conferência de Berlim (1885) exigia
a ocupação efectiva. Em Moçambique o
ressurgimento começou em l875 com o
envio dos primeiros missionários pelo
Colégio das Missões Ultramarinas (Cernache do Bom Jardim) organizado em
l856. Este Colégio manteve cerca de
50% do pessoal missionário em Moçambique até l9l0.
D. António Barroso. A figura
mais notável nesta época foi D. António
Barroso, Prelado de l89l a l897. Foi ele
o arquitecto deste ressurgimento missionário. Sabia que a situação religiosa
de Moçambique era desastrosa, a mais
abandonada de todas as colónias religiosa e politicamente. No seu relatório
sobre a Prelazia, apresentado dois anos
depois de ter chegado a Moçambique,
em 1894, ao Ministro do Ultramar (Padroado de Portugal em África – Relatório da Prelazia de Moçambique, Boletim da Sociedade de Geografia de
Lisboa, 14ª Série, 1895, p. 565-738) faz
uma síntese realista da história religiosa
de Moçambique e constata a degradação do século XVIII. Com a experiência que trazia de Angola interessava-se
por reflectir sobre o campo de acção a
ele confiado, sobretudo o humano, para
tornar compreensiva a mensagem evangélica.

À sua chegada havia, no vastíssimo território da sua Prelazia, 2l presbíteros, 9 regulares e l2 seculares. Destes últimos, 4 eram europeus (três do
Colégio das Missões e um francês), os
restantes eram da Índia.
* Arquivista da Província
Portuguesa da Companhia de
Jesus. Ex-Missionário em Moçambique.

Boletim de D. António Barroso
Recuando um pouco mais no tempo,
também diz que depois de 1830 eram
bem poucas as paróquias que tinham
pároco e em 1855 só havia um padre no
interior do território. D. António Barroso, em pouco tempo, desafiando todo o
tipo de desânimo, restaurou as antigas
paróquias que, por falta de padre, estavam abandonadas e fundou novas.
Inaugurou a missão de S. José de
Lhanguene em Julho de l892, perto de
Lourenço Marques e fundou o Instituto
de Ensino Rainha D. Amélia que inaugurou em Julho de l893, orientado pelas
Irmãs de S. José de Cluny e na Cabaceira
Grande (terra firma em frente à ilha de
Moçambique) o Instituto Leão XIII em
l895, também este, orientado por Irmãs
de S. José de Cluny. O Comissário Régio
em Moçambique, António Enes (1894),
admirava o dinamismo de D. António
que, em pouco tempo, conseguiu melhorar a disciplina do clero, restituir a
dignidade ao culto, aumentar o número
de missões, etc., apesar da escassez de
subsídios estatais.
Participou no 6º Concílio Provincial
de Goa realizado entre 1894 e 1895 e
assinou as Actas. Visitou toda a Prelazia
várias vezes e aproveitava as viagens
para estudos antropológicos, fitológicos,
etc. Deixava palavras de ânimo aos missionários e era conhecida a sua simpatia
e respeito pelos africanos. Apreciava o
seu clero e mostrava vontade que se
promovesse pelo estudo e reflexão.
Escreveu uma carta ao Ministro do Ultramar em Dezembro de 1896 acerca
do aluno para a Universidade Urbaniana
(Roma).
Em Setembro de 1895 teve que regressar a Portugal, aconselhado pelo
médico, mas continuou a dirigir a Prelazia. Manteve uma correspondência assídua com o Ministro do Ultramar a favor
de Moçambique. Apresentava projectos
para a criação de novas missões, nomeadamente a dos Trapistas, em 1896, pedia
a ida dos Salesianos para dirigirem a Escola de Artes e Ofícios, urgia a publicação de livros em línguas locais, etc.
Não deixava, também, de escrever
ao Comissário Régio com sugestões
para o Projecto Orçamental.
Em 11 de Agosto de 1897 foi nomeado bispo de Meliapor (Índia). Sucedeu-lhe D. Sebastião José Pereira que deu
entrada na Prelazia em sete de Julho de
1899.

VISITA DE D. ANTÓNIO BARROSO À MISSÃO
DE BOROMA
Na véspera da festa de S. Inácio, 31 de
Julho de 1894, começou D. António Barroso
a visita à missão. Chegou numa canhoneira portuguesa que aportou à praia do rio
Zambeze em frente à missão. Todos os cristãos, adultos e crianças, e, também, muitos
pagãos, sob a direcção dos Padres e das
Irmãs de S. José de Cluny, as primeiras missionárias a chegar a Moçambique em 1890,
estavam na margem à espera, em ambiente
de festa. O Superior, P. Ladislau Menyhárth,
jesuíta húngaro que chegara havia quatro
anos, com as Irmãs, envergava a capa apropriada para os momentos solenes. Podiam
ver-se toda as espécie de bandeiras.
Quando O Sr. Bispo desembarcou toda
a gente começou a cantar e a dançar. O P.
Menyárth aproximou-se e saudou D. António. Fez-se silêncio e o Prelado deu a bênção
e dirigiu-se à população visivelmente comovido. Organizou-se uma procissão para a
igreja que ainda não era a que ainda hoje se
pode apreciar no cimo da colina. Cantaram
o Te Deum e em seguida subiram a pequena
colina para a casa dos missionários. Depois
do almoço houve festa animada, com muitos
jogo, em honra de Sua Excelência.

Não faltaram exercícios escolares: leitura, cálculo, catecismo, etc.
D. António Barroso ficou na missão 2
semanas e administrou o crisma a 179 fiéis.
Visitou as escola e apreciou as oficinas.
Confessou, na despedida, que os dias, passados em Boroma, foram dos mais felizes da
sua vida apostólica em África (Cf. Hitória da
casa de S. José de Boroma, 1894, no Arquivo
da Companhia de Jesus em
Lisboa e o artigo da revista “Les Missions
Catholiques”, vol. XXVIII (1896), p. 545).
Ficou impressionado com o esforço
dos missionários que presenciou em Boroma e exprimiu-o de uma forma pública
e subtilmente crítica: “Boroma é um exemplo do que podia ser a nossa Zambézia, se
em lugar de uma missão tivesse um cento,
que apesar ded numerosas teriam custado
menos que a pólvora gasta pelos capitães
mores para a despovoarem em guerras
ruinosas e quase sempre injustas” (Cf. Relatório apresentado a Sua Ex.cia o Ministro e
Secretário de Estado dos Negócios de Marinha
e Ultramar, 1894, “Boletim da Sociedade de
Geografia de Lisboa”, 14ª Série (1895), p.
609).

Fotografia da visita de D. António Barroso à Missão de Boroma. Da esquerda para a direita. Em cima e
de pé: P. João Hubert Vollers, sj, holandês, natural de Uijk (Maastricht). Entrou na Companhia em 1881, já destinado à Missão da Zambézia. Estudou filosofia e parte da teologia em Dunbrody (África do Sul). Foi para Boroma em
1893. Faleceu no Atlântico, em 05 de Junho de 1907, na viagem para a Europa. P. Carlos Friedrich, sj, austríaco,
natural de Sokolov (Boémia), entrou na Compania em 1864 na Província austro-hungara e foi para Moçambique (Boroma) em 1890. Regressou definitivamente à Europa em 1899 e faleceu na Áustria em Março de 1917. Em baixo e sentados: P. Machado, D. António Barroso, Mons. Gustavo Couto e P. Ladislau Menyhárth, sj, húngaro, entrou na Companhia em 1866 na Província austro-húngara. Foi reitor do colégio de Kalocsa (Hungria) e era um
cientista de renome. Foi para Moçambique em 1890. Estudou a flora das regiões de Boroma e Miruro e fazia, também, observações meteorológicas que enviava para a Sociedade de Geografia de Lisboa. Corespondia-se com cientistas
amigos a quem chegou a enviar muitas plantas. Em Moçambique o Dr. António de Figueiredo Gomes e Sousa reconheceu o seu trabalho científico escrevendo vários artigos no “Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique” que foram publicados numa separata com o título Plantas Menyharthianas. Faleceu no Miruro em 16 de Novembro de 1897.

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Boletim de D. António Barroso
A CASA DOS RAPAZES DE BARCELOS

Por Victor Pinho *
A pacense Sílvia Cardoso, nascida,
em Paços de Ferreira, em 26 de Julho de
1882, e falecida, na mesma localidade, em
2 de Novembro de 1950, e cujo processo de beatificação, tal como o
de D. António Barroso, está a decorrer em Roma, foi uma das principais dinamizadoras da obra do padre Avelino Maria Ferreira que fundou a Cruzada
do Bem, em 1945.
Esta instituição de assistência, desenvolvida no âmbito da missão pastoral cristã, com sede no Porto, tutelou a Casa dos
Rapazes de Barcelos, que protegeu e educou rapazes pobres, tirando-os da mendicidade e do crime.
Em 17 de Maio de 1954, comprou a
Maria Beatriz Vessadas Salazar Morão de
Campos a casa dos Simões Duarte Lyra,
no nº 10 da rua Infante D. Henrique, onde

passou a ficar instalada a Casa dos Rapazes. Trata-se de um edifício comprido de
dois pisos, actualmente desabitado, mandado edificar nos finais do século XIX,
pelo P.e Domingos Simões Duarte Lyra,
cónego honorário da Sé de Braga.
Durante este período, a Casa dos Rapazes teve como principais directores e
dinamizadores o Dr. Manuel Faria, Conservador do Registo Predial em Barcelos,
Chefe da Junta local de Barcelos e Chefe
Regional de Braga do Corpo Nacional de
Escutas, e António Costa, seu ajudante na
referida Conservatória e 2º Comandante
e, depois, 1º Comandante dos Bombeiros
Voluntários de Barcelos.
O seu capelão era o padre Francisco
Ribeiro e teve como grandes benfeitores
a família Vieira Duarte liderada pelo industrial João Duarte.
Esta instituição, que chegou a proteger mais de 50 rapazes pobres, encerrou
as suas portas na década de oitenta. Foi
vendida pela Cruzada do Bem à autarquia
local.Teve uma Banda Musical dirigida pelo
célebre maestro Armindo dos Santos Barbosa que também dirigiu a afamada Banda
dos Escuteiros de Barroselas. A apresentação pública da Banda da Casa dos Rapazes ocorreu em 3 de Fevereiro de 1963. A
conhecida Banda do Galo, fundada oficialmente a 24 de Julho de 1994, nasceu também de um grupo de pessoas que tinham

integrado a Banda da Casa dos Rapazes.
A Casa dos Rapazes de Barcelos foi
fundada em 1945, e começou a funcionar
numa pequena casa com o nº 59 da rua
D. Diogo Pinheiro. Foi inaugurada oficialmente em 19 de Março do ano seguinte.
A sessão solene decorreu no salão de festas do Círculo Católico de Barcelos, que
funcionava e ainda funciona na mesma rua.
Incentivadas pelo referido padre Avelino Maria Ferreira, que já tinha fundado
em Gaia e em Évora outras Casas dos Rapazes, duas senhoras barcelenses, Joaquina
Vieira eMaria Guimarães Vale meteram
mãos à obra e deram corpo ao projecto.
Principiou com 25, mas pouco tempo
depois já protegia 35 rapazes. Era-lhes
ministrada a instrução primária e uma
pequena refeição, ao almoço, constituída
por uma sopa diária e um pedaço de pão
de milho que, à quinta-feira, era reforçada
com um prato de arroz e bacalhau.
Como a Casa dos Rapazes não possuía escola oficializada, os rapazes eram
matriculados numa escola oficial, a fim
de poderem fazer os exames de primeiro
e segundo grau. Depois de fazerem a 4º
classe, a instituição procurava empregar
esses rapazes em diferentes actividades
profissionais, dando-lhes um rumo à vida.
* Bibliotecário Municipal e Investigador

Sílvia Cardoso Ferreira da Silva, grande dinamizadora da Cruzada do Bem - instituição de assistência que
fundou a Casa dos Rapazes, em Barcelos. Contribuiu para arrancar à miséria e educar inúmeros barcelenses, nos
anos negros que se seguiram à II Guerra. Uma benemérita da cidade.
Natural de Paços de Ferreira, foi crismada por D. António Barroso, então bispo do Porto, em 25 de Outubro
de 1903, quando tinha 21 anos. Os dois processos de beatificação correm juntos em Roma.

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Boletim de D. António Barroso
NO 1º. CENTENÁRIO DA ASSOCIAÇÃO
DOS MÉDICOS CATÓLICOS - AMCP

Por João da Ponte *
No passado dia 12 de dezembro, a AMCP
encerrou, com um concerto na igreja da Lapa
no Porto, o ciclo comemorativo do seu primeiro centenário. Também os núcleos diocesanos da Associação promoveram concertos
nas cidades de Faro, Lisboa, Coimbra, Guarda
e Castelo Branco. As comemorações iniciaram-se em 17 de janeiro de 2015 com uma
Eucaristia de louvor e ação de graças, presidida pelo bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos. O ciclo foi enriquecido por
outras atividades com destaque para a reunião nacional de médicos católicos, em 2 de
maio no Porto, onde foi debatido o tema: “A
Relação Médico-Doente” e para o encontro
de jovens, em 28 de novembro, organizado
por médicos jovens, designado “Doc talks”.
Como noticiou a Voz Portucalense em 16 de
dezembro, “Momento alto na vida da AMCP
aconteceu em 11 de novembro quando a direção nacional foi recebida pela Conferência
Episcopal portuguesa na sua segunda assembleia plenária em 2015”.
Associando-me às comemorações que
testemunham como se concretizaram os
votos que D. António Barroso formulou na
abertura do “I Congresso dos Médicos Católicos”, gostaria de fazer-me eco da revista
Vida Católica que publicou o seu discurso, em
1915, na rubrica “Ciência e Religião”, com o
seguinte preâmbulo: “Notabilíssimo discurso
proferido por DOM ANTÓNIO BARROSO,
Bispo do Porto na inauguração do I Congresso dos Médicos Católicos. A atualidade
candente do assunto, a forma conceituosamente elevada como o benemérito Prelado
versa tão melindroso problema, numa síntese

Associação dos
Médicos Católicos
Portugueses

extremamente luminosa, são, por de sobejo,
motivo a acreditarmos que fazemos obra grata aos nossos leitores, encastoando na Vida
Católica a joia literária que é a brilhante oração de S. Ex.ª Rev.ma”.
Dada a extensão do texto, limitar-me-ei
ao cerne da mensagem, enfatizando momentos mais significativos. Depois da saudação
inicial, D. António regozija-se com este movimento associativo de largos horizontes: “É
com o mais vivo jubilo que saúdo os ilustres
e dedicados médicos, hoje aqui reunidos em
Congresso, em nome dos salutares princípios
católicos.” E enaltece a sua missão: “O médico é um admirável benfeitor da humanidade,
e no exercício da sua nobre e difícil profissão,
encontra-se não raro ao lado do padre, chamado pela voz imperiosa do dever à cabeceira do enfermo, para aureolar a alma com a
luz bendita da graça e lhe incutir coragem e
resignação nas aperturas do sofrimento.”
De seguida, partindo da afirmação “A vida
é bela”, descreve, com fino recorte literário,
várias das suas manifestações: “Estremece na
fibra da erva e no roble das florestas; palpita no inseto que rasteja no prado e na águia
que corta triunfantemente os ares; no peixe
que cruza o oceano e na fera que ruge nos
bosques; tem ostentações de força no leão e
fulgurações surpreendentes no homem.”
E interroga: “Donde vem, pois, a vida, tão
admirável no seu movimento íntimo e em todos os seus fenómenos?”
Para responder a esta pertinente questão

num congresso de homens da Ciência unidos na mesma Fé , começa por enunciar a
resposta dos “adversários da crença tradicional” para quem a vida flui “das forças físicas e
químicas”: Em contraponto, recorre às experiências de Pasteur e à afirmação de Virchow
no Congresso dos naturistas alemães em
Munique, em 1877: “A geração espontânea...
não está provada de modo algum... Duvidamos que ela possa ser aceite como patenteando a origem da vida”. Para concluir:
“Para explicar satisfatoriamente a
vida é preciso recorrer a Deus (…)
Razão e Fé são dois raios que partem do mesmo foco, dois rios que
correm da mesma fonte; esse foco,
essa fonte é Deus, Deus scientiarum
Dominus est”. E termina: “É em nome de
Deus, que o grande Newton não pronunciava
sem se descobrir, é em nome de Deus – Senhor de toda a luz e centro de toda
a verdade – que eu declaro aberto este
prestigioso Congresso dos médicos católicos
do meu país, desejando aos seus trabalhos o
mais seguro êxito para bem da nossa augusta
Religião e da nossa Pátria querida”.
Estão de parabéns os “Médicos Católicos” pelo seu trabalho ao longo de um século
e pelo patrono que os inspirou e acompanha.
* Pseudónimo de João Alves
Dias. Jornalista e escritor, integra a
direcção da Fundação Voz Portucalense e do Coro Gregoriano do Porto.

«A Associação dos Médicos Católicos Portugueses foi criada em 1915, por
iniciativa de D. António Barroso, na altura bispo do Porto. (...) A AMCP é
uma das mais antigas associações de médicos católicos no mundo».
Dr. Carlos Alberto da Rocha, presidente da AMCP.

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Boletim de D. António Barroso

OS MISSIONÁRIOS SÃO ANUNCIADORES
E TESTEMUNHAS DA MISERICÓRDIA
D. ANTÓNIO BARROSO ANUNCIOU A MISERICÓRDIA DO PAI EM TRÊS CONTINENTES.
MISSIONÁRIO E MISSIÓLOGO REFORMADOR, FOI TAMBÉM BISPO CORAJOSO NOS ANOS DIFÍCEIS DA I REPÚBLICA. COM AS CANDEIAS ACESAS, AGUARDEMOS QUE A IGREJA QUE TÃO BEM
SERVIU DECLARE A HEROICIDADE DAS SUAS VIRTUDES.

FLORES PARA OS visitantes
DE D. ANTÓNIO BARROSO
VISITAS À CAPELA-JAZIGO. Entre 1 de Dezembro e 29 de Fevereiro de 2016, há 159 registos no
livro de visitantes. Destes, 51 são familiares e amigos do jovem enfermo Diogo Amaral, e têm comparecido na Capela,
para rezar em grupo pela sua recuperação. Deslocam-se regularmente desde Barcelos, a pé, em oração. Os demais
visitantes registados em livro são de Remelhe (50), Famalicão (3), Vila Seca (4), Barcelos (6), Arcozelo (4), S. João da
Madeira (2), Carvalhal (1), S.Paulo / Brasil (1), S.Veríssimo (3),Várzea (1), Ovar (1), Aboim (2), Carapeços (1),Vila Nova
de Gaia (1), Fornelos (3), Silva (5), Esposende (1), Gamil (1),Trofa (5), Porto (2), Bélgica (2), Martim (1) Pereira (1),Vila
do Conde (2), Faria (3), Alvelos (1), Gilmonde (1).
Com a colaboração de Goretti Loureiro

CONTAS EM DIA
A última relação de contas (até 30 de Novembro de 2015) está disponível no Boletim n.º 15, III Série. Desde aquela
data, até 29 de Fevereiro de 2016, foram efectuadas as seguintes despesas: Escola Tipográfica das Missões. Execução e
expedição do Boletim n.º 15, III Série: 644.53 €; Consumíveis, expediente, comunicações, correio expresso (para Roma):
165.00 €. Soma: 809.53 €. Acresce a estas despesas um depósito de 5.000,00 € no Banco do Vaticano (I.O.R.): trabalhos
que decorrem junto da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos. TOTAL: 5.809,53 €.
No mesmo período, foram recebidos os seguintes donativos para apoio à Causa da Canonização e para as despesas deste Boletim: Dr. Serafim Anjos Martins Falcão: 10.00 €; Dr. António José Gonçalves Barroso: 50.00 €; D.ª Filomena
Maria Melo Rosa Amorim: 15.00 €; Dr. António Cruz Feliciano: 20.00 €; Dr. António Cruz Feliciano: 20.00 €; D.ª Leontina
Monteiro Cabral: 20.00 €; D.ª Maria Alice Araújo e Sr. Abílio Oliveira: 10.00 €; D.ª Maria de Lurdes Guimarães da Costa: 5.00 €;
D.ª Maria Adozinda Torres Gomes: 5,00 €; D.ª Maria da Costa Arantes: 5,00 €; Dra. Maria Adelaide Gomes de Araújo Simões: 25,00 €; Amadeu Gomes de Araújo: 40.00 €; TOTAL: 225.00 €.
Para transferências bancárias que tenham a bondade de fazer para apoio à Causa da Canonização de D. António Barroso e para as despesas deste Boletim, informamos que a conta em nome do
«Grupo de Amigos de D. António Barroso», na Caixa Geral de Depósitos, Oeiras, tem as seguintes referências:
NIB: 003505420001108153073. IBAN: PT50003505420001108153073. BIC: CGDIPTPL

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