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ANAIS DA XX JORNADA – GELNE – JOÃO PESSOA-PB

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UM ESTUDO PANCRÔNICO DE ORAÇÕES REDUZIDAS:

CONSIDERAÇÕES SOBRE CONEXÃO E PARÂMETROS DE INTEGRAÇÃO *

Edair Gorski, Maryualê Malvessi Mittmann, Guilherme May **

1. APRESENTAÇÃO

O presente trabalho traz uma análise dos processos de combinação de orações no português em sentenças complexas formadas por uma oração matriz e uma subordinada substantiva reduzida de infinitivo. Tais orações são classificadas como subjetivas de acordo com as gramáticas tradicionais (cf. Rocha Lima, 1972; Almeida, 1962; Cunha, 1977; entre outras).

Utilizamos a classificação tradicional como uma forma de recorte do fenômeno abrangente da combinação de orações, refinando nosso objeto ainda mais através da delimitação dos elementos que integram as sentenças. Analisamos sentenças que possuem em sua configuração:

a) na oração principal: verbo ser, estar ou ficar flexionado na terceira pessoa do singular (P3) seguido de um elemento nominal (adjetivo ou expressão nominal complexa);

b) na oração encaixada: verbo no infinitivo, com ou sem presença de sujeito, complementos ou adjuntos;

c) união entre as orações: com conector expresso (preposição de ou para) ou com

justaposição; resultando no esquema apresentado no quadro 1 abaixo, onde os elementos entre parênteses não são obrigatórios.

V P3 +N ADJ/EXP +(PREP)+(SUJ INF )+INF+(COMP/ADJUNTO)

(eu)

Ex.: É

fácil

(de/pra)

fazer

café.

Quadro 1. Configuração da sentença

Também foram consideradas ocorrências com alterações na ordenação desses constituintes, já que foram observados diversos casos de deslocamentos à esquerda do verbo finito. Exemplos:

(1) A teclinha pra acender o relógio é difícil (POA22L976) 1 .

(2) Mas isto é fácil de verificar, senhora [

(3) Pra chegar até o Rita Maria a pé seria fácil. (FLP2JL1073).

]. (As doutoras).

Objetivamos verificar nesse tipo de sentença combinada qual tem sido a forma preferida pelos usuários na conexão das orações, através do controle da freqüência de uso de diferentes formas de combinação, procurando também avaliar as conseqüências que cada escolha traz para a análise sintática do enunciado. Para isso confrontamos teorias tradicionais e funcionais sobre combinação e integração de orações. Realizamos a pesquisa em abordagem pancrônica, procurando captar diferentes estágios de mudança na forma de combinação das orações. A perspectiva sincrônica nos permite captar a

* Este trabalho está integrado ao projeto de pesquisa "Não está fácil (pra/de) a gente viver aqui": gramaticalização e variação de construções subjetivas, realizado com o apoio do CNPq/Brasil; e está vinculado ao Projeto Interinstitucional de Pesquisa VARSUL/UFSC. ** Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da Universidade Federal de Santa Catarina. 1 O código entre parênteses indica a cidade, o código identificador da entrevista e a linha onde o dado foi encontrado na transcrição, de acordo com as normas do Banco de Dados VARSUL (www.cce.ufsc.br/~varsul).

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variação e a mudança lingüísticas a partir do controle de gradação etária em “tempo aparente” (LABOV, 1972); já a perspectiva diacrônica objetiva associar a análise sincrônica a uma investigação histórica das construções em foco, à procura de evidências para a origem das formas e a trajetória de mudança por que passam. Na amostra sincrônica a variedade utilizada é a norma urbana da Região Sul, extraída do Banco de Dados VARSUL. A amostra diacrônica é composta por textos escritos representativos da norma urbana da região Sudeste do Brasil e do português europeu arcaico.

2. BASES TEÓRICAS DA ANÁLISE

Partimos da premissa de que é não só possível mas desejável realizar um estudo de fenômenos lingüísticos a partir de bases empíricas, e que as teorias sobre a linguagem devem servir de suporte para a análise dos fatos lingüísticos. As teorias devem, por sua vez, ser constantemente postas à prova, testadas e reformuladas de acordo com novas descobertas, na busca de atingir descrições e formulações sempre melhores sobre a linguagem. Assim, apoiamo- nos na literatura funcionalista e variacionista, que trabalha com a concepção de língua não homogênea, tentando desvendar alguns processos pelos quais uma língua muda, de modo a auxiliar na difícil tarefa que é explicar a diversidade de formas e a variabilidade das estruturas lingüísticas. Como apresentado na seção 1, existem diferentes formas de codificação lingüística para aparentemente uma mesma estrutura de base. Procuramos explicitar que as formas de codificação não são aleatórias, e podem também não ser resultado de uma única estrutura invariável. Tentamos demonstrar isso relacionando diferentes processos de combinação a diferentes graus de integração entre as orações combinadas, tendo como base a classificação de Hopper e Traugott (1993) e os parâmetros de integração de orações propostos por Lehmann (1988), no intuito de chegar a uma descrição mais precisa dos processos existentes no português. Também utilizamos como referencial teórico de base o princípio da adjacência de Givón (1995) bem como sua análise para sentenças combinadas no inglês (GIVÓN, 1993; 2001), similares às estudadas aqui. Hopper e Traugott (1993) classificam as sentenças complexas de acordo com diferentes estágios de integração, buscando esboçar um continuum que vai das sentenças combinadas menos integradas para as mais integradas, caracterizado pelo seguinte cline: PARATAXE> HIPOTAXE> SUBORDINAÇÃO. Teoricamente, tal esquema deve refletir o percurso de mudança lingüística na combinação de orações, mediante um processo de gramaticalização, motivado cognitivamente pelo que Givón denomina de “iconicidade diagramática”, correspondente a um paralelismo entre forma–função: “quanto mais dois eventos/estados estão semântica ou pragmaticamente integrados, mais integradas gramaticalmente estarão as cláusulas que os codificam”(GIVÓN, 1990, p.826). Para distribuir as orações combinadas numa escala de integração, são utilizados parâmetros semântico-sintáticos, os quais controlam, por exemplo, o constituinte da matriz ao qual a oração se vincula e o nível de vinculação sintática estabelecido; a ordem da oração marginal face à matriz; o grau de expansão/redução, indicado pela morfologia verbal e pelo comportamento do sujeito – apagado ou convertido em oblíquo; o grau de de entrelaçamento, avaliado pelo compartilhamento de elementos, explicitude do conector e quantidade de material intermediário (LEHMANN, 1988). Segundo esses parâmetros, uma sentença complexa será tanto mais integrada quanto mais a oração marginal apresentar:

a) vinculação sintática à constituinte da oração matriz;

b) variabilidade posicional restrita;

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c) morfologia verbal nominal (forma reduzida);

d) sujeito não expresso; e

e) ausência de conector.

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Neste estudo entendemos gramaticalização no sentido de Givón (1995), que a define como emergência de novas estruturas morfossintáticas através do tempo, podendo ser derivada de precursores sintáticos, lexicais ou pragmático-discursivos, decorrendo do uso real da língua e dependente da freqüencia para se estabelcer. Nesse sentido, pode-se pensar que estruturas atualmente estabilizadas um dia também emergiram por necessidades funcionais, ganhando espaço através da freqüência de uso. Essa argumentação se baseia no princípio da iconicidade, segundo o qual a língua se desenvolve de modo a existir um equilíbrio na associação de formas e funções. A iconicidade da gramática, entretanto, não é absoluta mas apresenta graus, sendo que na maioria das construções mecanismos mais icônicos combinam-se com mecanismos mais arbitrários, convencionalizados, já que a língua está sempre sujeita a pressões externas e internas que fazem emergir novas relações de formas e funções (GIVÓN, 1993; 1995; 2001). Dentre os princípios 2 de organização gramatical icônica (ou ‘regras’ da proto-gramática), nos interessam aqui os descritos abaixo (GIVÓN, 2001, p. 35):

(i) Regras de espacialização:

a. Proximidade e relevância: “Fatias de informação que conceptualmente estão juntas, são mantidas em proximidade espaço-temporal”.

b. Proximidade e escopo: “Operadores funcionais são mantidos mais próximos dos operandos aos quais são relevantes”.

(ii) Regras de seqüência:

a. Ordem e importância: “Uma fatia de informação mais importante é deslocada à esquerda”.

Tomando como base esse referencial teórico, buscamos verificar quais os graus de integração expressos por cada tipo de configuração realmente utilizada pelos falantes, e discutir se os tipos de combinação em jogo podem constituir ou ser decorrentes de um processo de gramaticalização, tal como definida acima. Nossa hipótese é de que construções de uso mais recente são decorrentes de estruturas mais estáveis, e as formas inovadoras devem seguir o percurso proposto por Hopper e Traugott (1993), sendo portanto mais integradas do que as formas originais. Alterações na ordenação dos elementos devem ser reflexo desse movimento de uma construção menos integrada para mais integrada, e orientadas pelos princípios anteriormente descritos. Grande freqüência de distribuição de elementos adjacentes deve refletir maior proximidade conceitual, resultando maior integração da estrutura global.

3. COLETA E TRATAMENTO DOS DADOS

Foram coletadas todas as ocorrências que obedecessem à estrutura esquematizada no quadro 1, incluindo diferentes ordenações dos constituintes. O córpus para a análise sincrônica foi extraído do Banco de Dados VARSUL (Variação Linguística Urbana da Região Sul do Brasil) 3 , concernente às capitais, Curitiba, Florianópolis e

2 Givón (1995) considera que os princípios não representam leis invioláveis, mas sim predições para a freqüência de distribuição dos elementos na cadeia da fala. 3 O Banco de Dados VARSUL é constituído por entrevistas sociolingüísticas de aproximadamente uma hora de duração, realizadas dentro da metodologia variacionista, com a finalidade de fornecer subsídios para estudos da variação lingüística da Região Sul. As entrevistas constituem uma amostra representativa da fala de habitantes de

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Porto Alegre. Esses dados foram coletados por Neves (2003; 2004) a partir das entrevistas transcritas impressas. Foram consultadas 28 entrevistas de Florianópolis, 16 de Curitiba e 18 de Porto Alegre, totalizando 62 entrevistas. Destas apenas 46 apresentaram as construções em estudo, sendo 20 de Florianópolis, 16 de Curitiba e 10 de Porto Alegre. Os informantes são considerados representativos para cada região onde a coleta foi realizada, e estão distribuídos por células segundo faixa etária, sexo e escolaridade (apenas na amostra de Florianópolis foram utilizadas 3 faixas etárias). Neste estudo não foram controlados tais fatores como variáveis independentes, pois se objetiva apenas comparar os resultados dos dados de escrita com dados de fala.

Para análise diacrônica o córpus formado compreende 23 textos escritos entre os séculos XV e XX. Procurou-se escolher textos que apresentassem, na medida do possível, uma linguagem próxima ao coloquial 4 , seja pelo tipo de texto (peças teatrais onde estão representados tipos populares) ou mesmo pelo estilo do autor (como p.ex., Lima Barreto, ou o romance do escritor americano John Steinbeck em sua tradução adaptada ao dialeto regional do Rio Grande do Sul). Os textos selecionados são os seguintes:

a) Século XV: Crônica de D. Pedro, de Fernão Lopes; e Crônica do Conde D. Pedro de Meneses, de Gomes Eanes de Zurara.

b) Século XVI: Auto da Fama, Auto da Barca do Inferno, Auto da Barca do Purgatório, Auto da Índia, Auto da Lusitânia e Comédia de Rubena, todas de Gil Vicente; O Auto de São Lourenço, de José de Anchieta; e A Carta de Caminha.

c) Século XVII: Auto dos dous ladrões, de Antônio de Lisboa; Diálogos das grandezas do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão; e Sermão da Sexagésima do Pe. Antonio Vieira.

d) Século XVIII: A vingança da cigana, de Domingos Caporalini.

e) Século XIX: As doutoras, de França Júnior; A casa de Orates, de Artur Azevedo; O Namorador ou a noite de S. João, de Martins Pena.

f) Século XX: No coração do Brasil, de Miguel Falabella; A garçonnière de meu marido, de Silveira Sampaio; Onde canta o sabiá, de Gastão Tojeiro; A vida tem três andares, de Humberto Cunha; e os romances As vinhas da ira, de John Steinbeck; Triste fim de Policarpo Quaresma; e Recordações do Escrivão Isaías Caminha, ambas de Lima Barreto.

Os dados coletados em ambas as amostras foram codificados de acordo com variáveis lingüísticas, objetivando estabelecer correlações entre a forma de conexão das sentenças e a ordenação de seus elementos a diferentes níveis de integração. Assim, as variáveis 5 foram distribuídas nos seguintes grupos de fatores:

a) Forma de conexão entre as orações

i. ausência de conector

ii. preposição de

iii. preposição para

quatro cidades de cada estado da região (PR, SC e RS), escolhidas por apresentarem características históricas e geográficas relevantes para a formação dos centros urbanos de cada estado. A coleta de dados nestas cidades foi iniciada em 1990 e concluída em 1996. As entrevistas encontram-se na forma de fita cassete, versão transcrita digital e versão transcrita impressa. 4 Nos períodos anteriores ao século XIX os registros escritos tornam-se de mais difícil acesso, nesse caso foram utilizadas as obras disponíveis, como sermões de Antônio Vieira e A Carta de Caminha, observando-se que tais fontes não representam o ideal de linguagem mais informal. 5 No grupo de fatores configuração da sentença, a variante iv foi recorrente apenas na escrita, e a variante v apenas na fala.

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b) Configuração da sentença (ordenação dos constituintes) i. Ordem canônica

V P3 +N+(PREP)+(SUJ INF )+INF+(COMP/ADJ)

ii. Oração combinada deslocada para a esquerda INF+(COMP/ADJ)+ V P3 +N

iii. Complemento do verbo infinito deslocado para a esquerda COMP/ADJ+ V P3 +N+(PREP)+(SUJ INF )+INF

iv. Elemento nominal deslocado para a esquerda N+V P3 +(SUJ INF )+ INF+(COMP/ADJ)

v. Outra expressão à esquerda do verbo finito (temporal, locativo ou anafóra) Exp. temp/anáf. + V P3 +N+(PREP)+(SUJ INF )+INF+(COMP/ADJ)

No trabalho de Mittmann (2003) foram levantadas em amostra diacrônica todas as possibilidades de deslocamentos nas sentenças em estudo (variabilidade posicional), controladas através do grupo de fatores configuração da sentença. Dessas possibilidades selecionamos para este estudo aquelas mais freqüentes e passíveis de comparação com os dados da amostra sincônica. Exemplos:

Oração combinada deslocada à esquerda do verbo finito (V) (4) Relembrar é muito bom, não é? (No coração do Brasil) (5) Assim, sair sozinha, assim, pra viajar, já é meio difícil. (FLP3JL367)

Complemento ou adjunto do verbo infinito deslocado à esquerda de V (6) Este foi bom d’embarcar. (Auto da barca do inferno) (7) Amigas é muito difícil arranjar hoje em dia, né? (FLPFJL1276)

Elemento nominal deslocado à esquerda de V (apenas para escrita) (8) Pior é morar aí em cima. (No coração do Brasil)

Expressão temporal ou anafórica à esquerda de V (apenas para fala) (9) Mas a bicicleta, naquele tempo, era difícil adquirir a bicicleta nova. (FLP4L166)

Também foi controlada, como variável independente, a procedência do dado. Assim, para a amostra sincrôncia temos o grupo de fatores cidade, constituído por Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre; e para a amostra diacrônica temos o grupo de fatores século: séc. XV, séc. XVI, séc. XVII, sécs. XVIII e XIX 6 , e séc. XX. Os dados foram codificados de acordo com as variáveis descritas, e submetidos a tratamento estatístico através do pacote VARBRUL 2S (PINTZUK, 1988; SCHERRE, 1993). Realizamos os cálculos estatísticas a partir do programa Makecell, tomando como variável dependente a forma de conexão entre as orações. O programa calcula as freqüências de ocorrência das variáveis controladas, permitindo a geração de tabelas com resultados percentuais de distribuição das ocorrências dos diferentes fatores testados em relação à variável dependente.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para avaliar o grau de integração das orações combinadas, um dos parâmentros propostos por Lehmann (1988) diz respeito à forma de conexão: a construção combinada será mais integrada se não houver entre as orações elementos intervenientes como conector. Assim, espera- se que estruturas menos integradas, mais antigas e portanto mais estáveis apresentem mais freqüentemente alguma forma de conexão. Na Tabela 1 a seguir pode-se observar a distribuição

6 Somamos as ocorrências para os séculos XVIII e XIX devido ao baixo número de ocorrências para o séc. XVIII (apenas uma obra consta na amostra) contando apenas com dois dados, distorcendo a distribuição dos percentuais.

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das freqüências de uso de cada conector ao longo do tempo. Nota-se que no séc. XV o uso de conector (especialmente de) perfaz 51% das ocorrências, concorrendo fortemente com a ausência de conector. Com o passar do tempo, a combinação sem conector parece se estabilizar.

ausência

De

Para

Total

 

N

%

N

%

N

%

N

%

séc. XV Séc. XVI Séc. XVII sécs. XVIII e XIX séc. XX

43

47

43

47

5

4

91

100

24

71

9

26

1

3

34

100

63

88

5

7

4

6

72

100

8

67

3

25

1

8

12

100

141

93

8

5

3

2

152

100

Total

279

77

68

19

14

4

361

100

Tabela 1. Distribuição da forma de conexão entre as orações na amostra diacrônica.

No século XX, nota-se predominância muito maior de construções sem conector, estas construções teriam então se tornado estáveis na língua devido à sua freqüência de uso. Ao mesmo tempo, uma análise gramatical tradicional confirma essa estabilização, como podemos conferir em Rocha Lima (1972, p.237), em que o autor faz menção a orações reduzidas introduzidas por preposição, que são apenas as completivas relativas e nominais, e não as subjetivas. Entretanto, se considerarmos os dados de fala apresentados na Tabela 2, notamos uma tendência contrária. Construções com presença de conector somam 61% das ocorrências nas três cidades pesquisadas, contrastando com 39% de ausência de conector. Nas cidades de Curitiba e Porto Alegre, a combinação através de conector se mantém muito superior à combinação de orações justapostas. Somente em Florianópolis ausência e presença de conetor parecem se manter em disputa.

ausência

De

Para

Total

 

n

%

N

%

N

%

n

%

Curitiba

12

26

19

41

15

33

46

100

Florianópolis

38

59

19

30

7

11

64

100

Porto Alegre

5

17

10

34

14

48

29

100

Total

55

39

48

35

36

26

139

100

Tabela 2. Distribuição da forma de conexão entre as orações na amostra sincrônica por cidade.

O gráfico 1 mostra uma comparação entre os resultados totais por período de tempo em cada amostra.

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4%

 

3%

6%

8%

 

2%

 

26%

7%

25%

5%

26%

47%

35%

47%

71%

87%

67%

93%

39%

séc. XV

séc. XVI

séc. XVII

sécs.XVIIIeXIX

 

séc. XX

fala séc. XX de para
fala séc. XX
de
para
 
  ausência

ausência

Gráfico 1. Comparação dos resultados de diacronia (escrita) e sincronia (fala).

Existe aqui uma diferença bastante significativa entre a freqüência de uso do conector nas duas amostras. Devemos considerar que (i) os dados diacrônicos foram extraídos de fontes escritas compondo um córpus heterogêneo e não-ideal e (ii) a escrita costuma ser conservadora quanto à normativização dos usos lingüísticos. Isso pode justificar por que na fala a freqüência de uso de combinação com conector seja superior à averiguada nas fontes escritas. Baseando-nos nos resultados da amostra escrita, podemos hipotetizar uma trajetória em que a combinação entre as orações sem a presença de conector foi se estabilizando ao longo do tempo, formando uma estrutura mais integrada. Porém, recentemente, na amostra oral, notamos uma provável reintrodução do conector, o que vai contra o parâmetro de Lehmann (1988) acima mencionado. Se, de acordo com o paradigma da gramaticalização, as mudanças são unidirecionais, como explicar o fato de que uma estrutura bem integrada possa mudar para uma estrutura menos integrada? Partimos então para a análise de outros parâmetros de integração, averiguando mudanças relacionadas. A variabilidade posicional é outro parâmetro importante para se avaliar o grau de integração de orações. Quanto menos os constituintes da oração combinada tiverem a possibilidade de deslocar-se ocupando posições diferentes na estrutura, mais integradas estarão as orações. Procuramos analisar em que medida a presença do conector propicia ou inibe deslocamentos dentro da estrutura, para então tentar estabelecer em que medida tais parâmetros se aplicam ou não aos processos de combinação de orações sob análise.

Ausência

De

Para

Total

n

%

n

%

N

%

n

%

ordem canônica 105 oração combinada à esq. de V comp/adjunto de inf. à esq. de V elemento nominal à esq. de

9

4

74

2

25

2

67

109

72

6

0

0

0

0

9

6

3

6

75

1

33

11

7

V

23

16

0

0

0

0

23

15

Total 141

100

8

100

3

100

152

100

Tabela 3. Variabilidade posicional em relação à forma de conexão – amostra da escrita.

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ausência

De

Para

Total

 

n

%

n

%

N

%

N

%

ordem canônica oração combinada à esq. de V

comp/adjunto de inf. à esq.

34

62

29

60

14

39

77

55

6

11

0

0

11

31

17

12

2

4

9

19

4

11

15

11

de

V

outra expressão à esq. de V

13

24

10

21

7

19

30

22

Total

55

100

48

100

36

100

139

100

Tabela 4. Variabilidade posicional em relação à forma de conexão – amostra da fala.

As tabela 3 e 4 apresentam os resultados totais para distribuição da variabilidade posicional em relação ao tipo de conector nas amostras diacrônica (apenas séc. XX) e sincrônica respectivamente. O gráfico 2 7 traz uma comparação entre os resultados das duas amostras.

3%

6%

 

33%

4%

11%

19%

11%

0%

0%

31%

75%

74%

67%

62%

60%

 
 

0%

39%

25%

ausência

de

para

ausência

 

de

 

para

escrita

fala

ausência   de   para escrita fala ordem canônica oração combinada à esq. de V comp/adjunto

ordem canônica

  de   para escrita fala ordem canônica oração combinada à esq. de V comp/adjunto de

oração combinada à esq. de V

fala ordem canônica oração combinada à esq. de V comp/adjunto de inf. à esq. de V

comp/adjunto de inf. à esq. de V

Gráfico 2. Ordenação dos constituintes em relação ao conector na escrita e na fala.

Quando o conector é mais utilizado, a ordenação dos elementos também apresenta maior variabilidade, o que representaria, segundo os parâmetros de Lehmann (1988), uma integração mais frouxa das orações. Entretanto observamos que o uso de um ou outro conector traz conseqüências diferentes na ordenação dos constituintes. A ordem canônica está mais presente quando não há nenhum tipo de conector na escrita. Quando é utilizado o conector para, parece haver, na fala, mais possibilidade de deslocamento de toda a oração combinada do que apenas do complemento do verbo infinito (como acontece na escrita). Exemplos:

(10) Pra se adquirir alguma coisa é muito difícil hoje. (CTB5L880) (11) E pra se entrar numa faculdade também não é fácil, né? (POA22L238)

O conector para indica normalmente finalidade, quando utilizado em constituintes com valor adverbial (potencialmente mais facilmente deslocáveis), favorecendo a alteração na ordem como observado nos exemplos (10) e (11). Ao mesmo tempo, quando há deslocamento de constituinte com a presença do conector de ligando as orações, o movimento mais expressivo é o do complemento/adjunto do verbo infinitivo. Observa-se que aparentemente de exerce uma “força” que retém o verbo infinitivo ao lado do adjetivo; esses itens lexicais passariam então a ser interpretadas pelo falante como adjacentes (GIVÓN, 1995). Como o uso da preposição de é típico para expressar relações (argumentais) entre nomes, possivelmente esse seja o motivo que impede o conector de de se deslocar, o que romperia a integração entre o adjetivo e seu complemento, nesse caso o verbo infinito, que passa a funcionar como um nome (com perda do sujeito). Exemplos:

7 Este gráfico deve ser analisado sendo levados em consideração os resultados numéricos absolutos apresentados nas tabelas 3 e 4. Por ex., 33% de ocorrência de para na escrita corresponde a apenas um dado.

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(12) Oh, detetive é massa! É complicado, bem complicado de jogar. (FLPMGJL1141) (13) Churrasco é bem fácil de preparar, né? (POA4L728)

Os dados levantados neste estudo representam um avanço em relação a pesquisas anteriores (MITTMANN, 2003; NEVES, 2003; 2004), entretanto ainda não são suficientes para se estabelecer correlações mais significativas e generalizações. É difícil dispensar um tratamento variacionista para este fenômeno, pois fatores sociais não mostraram grande relevância nesses estudos preeliminares, ao mesmo tempo em que nem todas as ocorrências indicam contextos de variação. A utilização de uma ou outra forma parece estar fortemente relacionada ao item nominal presente na oração matriz. É possível isolar os casos em que a variação é mais facilmente perceptível daqueles em que ela não ocorre categoricamente, e daqueles em que há dúvidas sobre a possibilidade ou não de variação no uso do conector. Essas informações nos fazem interpretar tal fenômeno em um estágio pouco avançado do processo de mudança, que começa a se configurar de maneira mais clara apenas no final do século XX.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados apresentados neste trabalho instigam à análise do fenômeno em diferentes direções. Por um lado, pode-se questionar se as diferentes formas de conexão constituem um objeto passível de ser estudado no âmbito da variação, pois a presença do conector de ou do conector para pode não veicular o “mesmo significado” em todos os casos observados, uma vez que em diversas ocorrências a preposição para pode ser interpretada como agregando um traço de finalidade ao enunciado, o que não ocorre com a preposição de. Entretanto, em diversos casos o enunciado não parece ser afetado pela preposição para. Vejam-se os exemplos extraídos da fala de um mesmo informante:

(14) Foi duro, né? pra estudar esses quatro anos (CTB7MAPL332). (15) Curitiba ainda é uma cidade boa pra viver (CTB7MAPL604).

daí fica duro de terminar a noitada, né? (CTB7MAPL634).

(17) Cada vez fica mais fácil de se viver (CTB7MAPL751).

(16) [

]

Por outro lado, o fenômeno também pode ser focalizado tendo-se em vista um processo de mudança; neste caso particular, o processo pelo qual sentenças tendem a se tornar mais integradas. Nas sentenças complexas estudadas aqui, as formas alternativas de conexão se refletem em possibilidades variadas de ordenação dos constituintes e, conseqüentemente, em diferenças nas relações sintáticas estabelecidas entre a oração matriz e a encaixada. Assim, é possível pensar em diferentes funções, relacionadas a diferentes níveis de integração, a serem codificadas por cada tipo de conector (de ou para). É plausível, portanto, formular hipóteses para o comportamento a ser assumido por cada conector:

I. O conector para deve codificar estruturas de finalidade ou a expressão de dativo quando o infinitivo vier acompanhado de sujeito.

II. Espera-se que de se torne mais freqüente na estrutura ADJ+DE+INF, liberando o

complemento do verbo infinito para ocupar outras posições na sentença. O deslocameto do complemento poderá então ser regulado por outros fatores, que podem estar atuando de forma complementar:

(i) regras de espacialização e de seqüência (GIVÓN, 2001);

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Quando há a atuação de um conector, seja ele de ou para, observamos que a classificação deste tipo de sentença combinada como subjetiva, ou seja, cumprindo a função sintática de sujeito da oração matriz, não é mais possível, ao menos sem ambigüidade. Os dados encontrados mostram uma diversidade muito grande no que se refere à configuração da sentença, sendo difícil agrupá-los e classificá-los. Isso reforça a idéia da existência de um processo de mudança, o qual parece ganhar força no final do século XX. As conseqüências que a inserção de um conector trazem para a análise da integração entre as orações devem ser analisadas com cuidado. O fato de a presença do conector se mostrar cada vez mais freqüente na fala não é por si um indício de menor integração entre as orações, pois não se pode isolar um único fator quando outros podem estar envolvidos. De acordo com os parâmetros de integração de sentenças apontados anteriormente, a ausência de conector assinalaria uma menor integração entre as sentenças. Entretanto observamos que:

a) Quando para é utilizado, a oração combinada preserva sua vinculação sintática em relação à matriz (tem mais características de oração substantiva subjetiva ou de adverbial final) e tem sua variabilidade posicional restrita.

b) Quando de é utilizado, o infinitivo pode ser analisado como um nome que funciona como complemento do adjetivo. Esta análise implica a formação de um novo constituinte (complemento nominal) e a transformação de uma estrutura complexa (orações combinadas) em uma estrutura simples (oração simples), portanto mais integrada.

REFERÊNCIAS

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