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Interdisciplinaridade na teologia

Prof. Lino Rampazzo

Diálogo, interdisciplinaridade, integração: estes termos, nos dias de hoje, são
usados, com muita frequência, para indicar o método com o qual se quer caracterizar a
abordagem do “saber”.
Galileu, no século XVII, teve o mérito de tornar-se o pai da ciência moderna,
determinando o objeto específico da investigação e o método com o qual se atingia este
tipo de conhecimento. Mas a ciência moderna, com seu método, reduzia o campo da
análise do saber, limitando-se aos dados próximos, imediatos, perceptíveis pelos
sentidos ou por instrumentos: quer dizer, os dados da ordem material e física. Além
disso, esta “ciência” fazia nascer muitas “ciências”, com campos de especialização
sempre mais delimitados e uma conseqüente fragmentação do conhecimento. Hoje, é
muito difícil contar o número de especializações criadas pela ciência moderna.
Se tudo isso, sem dúvida, foi uma riqueza para a humanidade e produziu o
avanço científico e tecnológico, por outro lado, criou um cientista preso no seu campo
de conhecimento, possuidor de um saber parcial, desarticulado e incompleto. Além
disso, não raramente os produtos da tecnologia manifestaram atitudes de “destruição”,
seja do homem, como do meio ambiente. Como não pensar, a título de exemplo, às
emissões globais de gases do efeito estufa (PESSINI; BARCHIFONTAINE, 2007)? Ou
a toda a problemática ambiental, da qual se falou acima?
O que tudo isso tem a ver com a teologia?
Uma das características fundamentais da modernidade foi o desencantamento
do mundo, que permitiu a intervenção e manipulação da natureza. Esta, esvaziada de
sua dimensão sacral, foi fragmentada e reduzida a recursos naturais a serviço da
exploração humana. Essa visão alavancou o progresso técnico-científico e a
industrialização moderna trazendo para a humanidade, ao mesmo tempo, benefícios,
catástrofes e danos.
Hoje, o processo de desencantamento e fragmentação atinge o próprio ser
humano. As possíveis aplicações no campo da genética são promissoras para a cura de
inúmeras doenças e trarão grandes benefícios para a humanidade. Mas no rasto destas
terapias virão, certamente, manipulações genéticas não mais terapêuticas, mas baseadas

esquecendo toda a riqueza da “realidade”. aponta para o método da teologia: esta. que não dialoga com o sagrado. que tipo de desastre antropológico poderá ocasionar uma ciência. antes de tudo. “Ciência”. A ciência genética é. Verdade é “aquilo que é”. sempre mais convencido de que ninguém tem o monopólio da verdade. tudo o que existe: não pode. obrigatoriamente. a contribuição específica da teologia? Na tradição cristã da cultura ocidental a expressão de Santo Anselmo (10331109) fides quaerens intelectum. e. inclusive a nanobiotecnologia. E o homem. em que o objeto do saber é simplesmente o ser. consequentemente. quer dizer. simplesmente analisa a “realidade”. A “reconstrução” do mundo passa. Foi o processo moderno de secularização que esvaziou o significado do sagrado (JUNGES. E não serão leis jurídicas que poderão impedir estes desvios porque irão responder a demandas subjetivas criadas pela mentalidade cultural e transformadas em direitos com respaldo jurídico. Estas reflexões questionam o objeto e o objetivo do saber. pois. “a fé que procura a razão”. então. muito importante para ser deixada somente aos cientistas (PESSINI. a esse respeito. mítico etc. num diálogo mais amplo que procura voltar à “unidade do saber”. há a preocupação de receber contribuições de todo tipo de análise da realidade: seja por parte do saber popular. como também daquele filosófico. A “ciência”. “conhecimento”. “aquilo que existe”. Isso reduziu a natureza a pura quantidade. conseqüência da “unidade do ser”. reduzir ou fragmentar o seu campo de conhecimento. seu objeto específico. a partir dos dados da fé. o cientista de hoje precisa dialogar com as outras áreas do saber. procura um . Mas qual pode ser. 64-66). Diante disso. significa. estético. precisa redescobrir o significado originário do mesmo “termo” que a define.em desejos narcisísticos ou em pretensões eugênicas. a natureza não foi mais considerada como algo de sagrado a ser respeitado. “aquilo que existe”. “tudo aquilo que existe”. por uma nova concepção do homem que aceita apenas uma civilização a serviço do homem e nunca contra ele. Aceitando esta perspectiva. teológico. as “ciências” começam a dialogar entre elas: nasce a “interdisciplinaridade”. 2008). que reduziu o seu campo de exploração aos fenômenos do mundo material. que procura a verdade. Pergunta-se. agora. p. levou ao desastre ecológico. sensível. E. “saber”. Assim. 2008. sujeita a interesses mercadológicos. E este “saber” tem como objeto o ser. pois.

por outro. que nasceu historicamente de um “diálogo” entre teologia e filosofia. o conceito de pessoa aplicado a todo ser humano. 1979). um eforço constante de uma determinada comunidade de fé visando permanecer em contato com o mundo e seus problemas. a liberdade. 19 do documento Ex corde ecclesiae. como do fideísmo. tais como a dignidade da pessoa humana. quer dizer. pois. p. e o segundo se caracteriza por uma adesão religiosa não fundamentada racionalmente. o olhar da fé estimula a razão para se entender melhor. refere-se a determinadas fontes. Ficando apenas com o primeiro exemplo. a fé e a razão. pois. A teologia representa. totalmente estranho à filosofia grega. 17-18). suas dúvidas e projeto: confronta a fé com os problemas novos que a humanidade enfrenta (LATOURELLE. a teologia é a fé que assume o discurso da razão para melhor compreender o seu objeto: faz parte do “DNA” da fé dialogar com a razão. FLICK. é apresentada. tanto do racionalismo. que fala. a fraternidade etc. O primeiro aceita como verdadeiro apenas o que pode ser demonstrado racionalmente. constitui como que a “magna charta” das Universidades Católicas. no N. Por exemplo. No fundo. pois. Através do diálogo. da teologia para a antropologia. ambas. acabou sendo acolhido na área jurídica (RAMPAZZO. do enriquecimento que a Teologia recebe das outras disciplinas. A convicção de que o diálogo entre ciência e fé pode favorecer um enriquecimento recíproco. emprega um método de exata comunicabilidade (ALSZEGHY. 2009). 2000). para cuja redação contribuíram todas as universidades católicas do mundo. 1981. por meio de uma consulta que começou em 1986 (JOÃO PAULO II. precisa definir seus conceitos através dos quais apresenta os dados da fé. de maneira interessante. Um simples olhar para a história da filosofia ocidental mostra que o contato do cristianismo com a filosofia trouxe para esta novos olhares. aprovada pelo Papa João Paulo II.diálogo com a razão. do contributo da teologia às ciências e. a igualdade entre os homens. percebeu-se que tal conceito podia ser aplicado ao homem: e o conceito de pessoa se estende. A Constituição Apostólica Ex corde Ecclesiae. foi desenvolvido a partir do cristianismo: no começo para definir questões trinitárias e cristológicas. . Diferencia-se. apenas teológicas. Em outros termos. Depois. Este princípio. por um lado. a partir de Agostinho. podem se enriquecer reciprocamente.

Falava-se. A Teologia desempenha um papel particularmente importante na investigação de uma síntese do saber. experiencial (aspecto psicoemocional). Por outro lado. da morte. na procura de uma harmonia interna que obedece a uma tendência natural para a totalidade. ou o valor da família. Não explica os mistérios da dor. na qual Deus se insere. nasce do fato que o ser humano procura a solução do próprio mistério. Por sua vez. limitado.Como todos os documentos oficiais da Igreja. o conhecimento teológico ajuda o conhecimento racional a perceber mais seus limites. particularmente. não oferece sentido completo à vida humana. Veja-se. a interação com as outras disciplinas e suas descobertas enriquece a Teologia. Isso leva à importante ligação entre religião e ética. No fundo. mas também fornecendo uma perspectiva e uma orientação não contidas em suas metodologias. do ser humano. o texto que interessa. 2000. este também tem por título as primeiras palavras do texto latino: Ex corde ecclesiae. O conhecimento científico é. a teologia se enriquece através do diálogo com a razão: é ajudada a compreender “o mundo de hoje”. pois. ela dá um contributo a todas as outras disciplinas na sua investigação de significado. como consequência. quer dizer. (JOÃO PAULO II. E isso teve. e nasce também de uma relação com o mundo humano e material. (nascida) do coração da Igreja. experimenta uma sensação de plenitude através da vivência do sagrado. do mal. Nenhum microscópio de alta capacidade nos leva a descobrir a dignidade da pessoa humana. O texto fala de “uma perspectiva e uma orientação não contidas em suas metodologias”. 18-19). A visão religiosa do mundo. oferecendo-lhe uma melhor compreensão do mundo de hoje e tornando a investigação teológica mais adaptada às exigências de hoje. a apresentá-los com conceitos adequados. ajudando-nos a examinar o modo como suas descobertas influirão sobre as pessoas e sobre a sociedade. pois. da modernidade que esvaziou o mundo de sua dimensão sacral. Além disso. . Essas quatro dimensões básicas constituem sua estrutura experimental (aspecto geobiológico). existencial (aspecto socioambiental) e transcendental (aspecto sacrotranscendental). antes. Pode-se exemplificar. p. bem como no diálogo entre fé e razão. o desrespeito da natureza e. O homem é um ser bio-psico-sócio-espiritual. a sistematizar seus dados.

os animais e. Há. o “estar para” e o “estar in”. tudo se torna sagrado. partes e pode melhorar os seres humanos. Uma das origens etimológicas do termo “religião” é o verbo latino relegere (reler). Mas a estrutura antropológica existencial e transcendental. as plantas. entendido como Tudo que nos cerca e dentro do qual somos. a partir da análise do que é teologia especificamente cristã. Religião. com seus reflexos também no campo ético. homens que pensam e que falam. O sagrado é o constitutivo da moral (RIBEIRO. como social. O “estar entre” aponta para uma relação humana pobre. E o diálogo existe quando o “assunto” interessa às duas. O termo aponta para a atitude de re-ler a realidade. sem interação: acontece também entre os objetos. antes de tudo.Não se pode pensar a pessoa humana excluindo qualquer dessas dimensões. entramos necessariamente no conceito de ética como expressão profunda do respeito pelo Outro. a mulher. assim. por meio dessa re-leitura. seja ele o homem. e falam entre si porque pensam. a ecologia como vivência harmônica entre o homem e a natureza ou ambiente. Estabelece-se. como o lugar do diálogo. 2004). homens crentes. depois. Não é possível pensar uma moral social comunitária sem pensar o sagrado. a disponibilidade . pois. a religião. passou-se a refletir sobre o bem mais amplo fenômeno religioso. nos movemos e existimos. antes de falar da experiência religiosa. Para os homens falarem e dialogarem entre si. seja do ponto de vista pessoal. da ecologia. ou mais. e. é preciso partir da experiência de homens que falam entre si. Dentro dessa visão. o “estar com”. pode ser analisada também através da estrutura antropológica do “diálogo”. Mas o dialogo tem suas dimensões: o “estar entre”. nesse contexto. Descobrir o sagrado das coisas é descobrir o caminho da solidariedade entre os homens. a solidariedade como expressão máxima do humanismo. ao invés. vivenciando o diálogo com o diferente. O “estar com” indica. Como se pode perceber. da solidariedade. da qual se falou acima. não inclui o conceito de Deus num primeiro momento e se torna a expressão da vivência do outro pela comunhão e reverência com o outro. Isso porque. pressupõe-se que o “outro” seja um “valor”. Sagrado e ética tornam-se a dupla que dá sentido à experiência humana.

. ZACHARIAS. BARCHIFONTAINE. PESSINI. 8. de considerar o “outro” como “valor”. a incapacidade do diálogo. M. biotecnologias e sexualidade. rev. A experiência religiosa autêntica. a mesma atitude e é retribuído nisso. Z. São Paulo: Centro Universitário São Camilo. Leocir. 1981. São Paulo: Paulinas. Referências ALSZEGHY. Bioética: um grito por dignidade de viver. Temos. Tradução de Isabel Fontes Leal Ferreira. rev. pelo contrário. PESSINI. José Roque. São Paulo: Paulinas. pois. Como se faz teologia. de “estar com” o outro e “para” o outro. Neste não se encontra nem a vivência do sagrado. LATOURELLE. In: TRASFERETTI. Universidades católicas. aponta para uma vivência humana mais profunda. a níveis sempre mais profundos.). Léo. JOÃO PAULO II. 2008. 63-75. JUNGES. . Desafios das biotecnologias à teologia moral. O “estar in” é uma categoria única porque diz respeito somente ao “divino”. ed.quando o “outro” aparece para dizer que existe. que pode ajudar a “re-ler” a realidade e a descobrir nela outros aspectos a serem valorizados. Tradução dos Monjes Beneditinos de Serra Clara. Ser e Viver: Bioética. 2007. No fundo cada uma destas etapas é uma re-leitura. FLICK. José. 1990. quer ajudar o outro a ter. e ampl. Mas este outro depois se afasta e o diálogo não prossegue. 2008. da solidariedade. resposta última ao mistério da vida humana. 3. É a experiência da amizade sincera. São Paulo: Paulinas. Teologia: ciência da salvação. 2008). da realidade (VITOLO. Christian de Paul de. 1979. Problemas atuais de Bioetica. da co-responsabilidade e da alteridade. O “estar para” é um tipo de relação de quem. p. Uma análise atenta dos termos acima apresentados leva a questionar profundamente as atitudes que se manifestam no fenômeno do Bullying. René. Ronaldo (Orgs. São Paulo: Loyola. livremente. ed. nem dos consequentes princípios éticos do cuidado. e ampl. reciprocamente. São Paulo: Paulinas. Aparecida: Santuário.

Lino. genn. Lino. p. Teramo (Italia)./mar. Emilia G. p.RAMPAZZO. 11-42. n. SILVA. Adriano (Org. A contribuição da teologia patrística na formulação do conceito de pessoa: base para o reconhecimento jurídico. Psicologia. 63. religiosidade e fenomenologia. Cap. 2008. VITOLO. 97-100. Borriello. In: RAMPAZZO. 2009. Prospettiva Persona. 2004. 11-36. Jorge Ponciano. . Paulo Cesar da (Orgs. Campinas: Alínea. 1. La religione e le religioni. Pessoa. In: HOLANDA. anno XVII. p. Justiça Social e Bioética. Religião e Psicologia. RIBEIRO.).). Campinas: Alínea.