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DOMENICO PUGLIESE/DIVULGAÇÃO

ESTADO DE MINAS ● S Á BA D O, 6 D E F EV E R E I R O D E 2 0 1 6 ● E D I TO R A : S i l va n a A ra n t e s ● E D I TO R A - A S S I ST E N T E : Â n g e l a Fa r i a ● E - M A I L : c u l t u ra . e m @ u a i . co m . b r ● T E L E F O N E : (31) 3263-5 1 2 6

EM

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UMA TURISTA
ACIDENTAL
Visita de personagem
de Gorete Milagres à
região atingida por
desastre de Mariana
vira documentário

Publicação
de Minha
luta, de Adolf
Hitler, 70
anos após
sua morte,
divide
especialistas
e provoca
batalha
judicial. De
um lado, a
liberdade de
expressão.
Do outro,
discurso
de ódio
SHIRLEY PACELLI
“Por que o nazismo vende?”. De
ícone pop por Chaplin ao vilão Johann Schmidt, nazi-oficial em Capitão América, até às capas de revistas
de história nas bancas: Adolf Hitler
está lá. A pergunta vem da reflexão
do professor de filosofia José Costa
Júnior, do Instituto Federal Minas Gerais. Para ele, é preciso promover um
questionamento mais amplo para
amadurecer pontos de vista e trazer
essa preocupação à tona.
Desde 1º de janeiro, a obra Minha
luta, do líder nazista, entrou em domínio público e sua comercialização
tem despertado debates acalorados
na sociedade. Nesta semana, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ)
proibiu a comercialização, exposição
e divulgação do livro no estado – sob
multa de R$ 5 mil em caso de descumprimento. Em resposta, a União
Brasileira de Escritores (UBE) contestará com medida judicial a decisão
que, segundo a entidade, viola o direito constitucional à informação.
O professor José Costa reconhece
que, do ponto de vista prático, a obra
já está disponível na internet. Sendo
mais reflexivo, ele esbarra no debate:
tudo pode ser dito? “Dizem que o PCC
(Primeiro Comando da Capital) tem
um código de ética, até sofisticado em
termo de detalhamento. E se uma editora publicasse isso?”, questiona.
“Tem que se pensar na importância
de quem fala. É uma obra dura, que
prega hipóteses bastantes excludentes. Verborragia violenta”, explica Costa. Ele acredita que é preciso atingir
um equilíbrio entre a liberdade de expressão e a preocupação com as possíveis consequências. “O que o nazismo
fez impacta tanto que gera curiosidade. A curiosidade pode virar o quê?”,
lança. O professor acredita que uma
decisão dessa dimensão deveria ser
discutida com mais cuidado. “Seria legal a própria editora levantar um seminário”, sugere.
A Editora Centauro já comercializa o livro com o texto original
no Brasil. Em 20 dias, a primeira edição está praticamente esgotada. Foram vendidos cerca de 4 mil exemplares. Com a exposição midiática, a
procura pelo livro nunca foi tão
grande, revela Adalmir Caparros Faga, proprietário da editora.
Faga conta que o livro já fazia parte
do catálogo da empresa desde meados
de 2005, quando ainda era dirigida pelo pai dele. “Na época fomos comunicados que os direitos autorais eram do
governo da Baviera. Havia um engano
com a questão do ano que Hitler morreu”, explica. Os exemplares foram retirados de circulação e voltaram às livrarias este ano. “É um livro polêmico.
Uma história trágica, triste. Mas é conhecendo nosso inimigo que vamos
combatê-lo”, diz Faga.
A Centauro já se envolveu em outra polêmica com a edição de Os protocolos dos sábios de Cião, livro antis-

A controvérsia

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semita anônimo. “Fomos acionados
pelo Ministério Público e mandaram
recolhê-los. O processo ainda está sub
judice”, conta. O empresário retirou a
obra do catálogo e queimou os exemplares. “Minha luta eu mantenho. É de
domínio público. Mundialmente conhecido. Existe em várias línguas. Não
vou abrir mão”, diz.
A Geração Editorial já está em fase
de pré-venda de sua edição comentada
de Minha luta. A editora vai imprimir o
dobro do número de pedidos. Luiz Fernando Emediato, publisher da Geração,
diz que a decisão do TJ-RJ é inócua porque o livro pode ser baixado gratuitamente pela internet, em vários idiomas, incluindo o português. A editora
vai recorrer. “A Constituição Federal
nos garante o direito da livre expressão.
Acredito que o próprio juiz poderá rever sua decisão, ao verificar e confirmar
que nossa edição, crítica e comentada,
presta um serviço à humanidade, pois
desmente, refuta e condena as ideias de
Hitler”, afirma.
O livro terá mil páginas, sendo 450
só de complementos. Serão 278 notas e
apêndices de 10 historiadores norteamericanos para uma edição de 1939,
48 notas de um historiador brasileiro e
28 notas do tradutor William Lagos.
Além de um artigo do filósofo Nelson
Jahar Garcia, da Universidade de São
Paulo, outro de Eliane Hatherly Paz,
doutora pela Pontifícia Universidade
Católica do RJ e um de Emediato.

As últimas eleições
me mostraram que
o mito do brasileiro
cordial foi embora
quando a elite
perdeu o poder

■ Adriana Dias, antropóloga

Ainda não há uma capa definida.
Segundo Emediato, um layout em teste foi usado em um manifesto por um
grupo de intelectuais, liderado pelo escritor Ricardo Lisias, para convocar um
boicote à edição. No post no Facebook,
Lisias criticou a imitação da “estética
dos atuais best-sellers direcionados ao
público adolescente”. “Não creio que
nossa edição vá interessar aos jovens
leitores de livros de fantasia. Eles estão
em outra sintonia”, defende Emediato.

Discordância
entre entidades
O escritor Cláudio Aguiar, vencedor do prêmio Jabuti em 2015 por
Francisco Julião, uma biografia, diz
que não é contra a publicação de um
livro, mas não vê motivos para celebrar a comercialização do Minha luta. “Artistas que amam a liberdade e
prezam pela democracia, não podem
se entusiasmar e defender a veiculação só porque caiu em domínio público”, explica.
Como presidente do Pen Clube do
Brasil, organização de escritores fundada em 1936, ele não defende que a edição “seja perseguida”, como Hitler fez
queimando livros em praças públicas.
“Isso não me anima, nem me alegra
que ele esteja aí e seja tão falado. Daqui
a pouco vira best-seller. Há tendência
disso. Quantas vezes se vê o mal proliferando”, considera. O escritor teme
que a obra caia nas mãos da juventude
e princípios negativos se propaguem.
“Temos neonazistas em algumas cidades. Basta citar os nordestinos perseguidos em São Paulo”, lembra.
Já para Durval de Noronha Goyos,
presidente da UBE, fundada em 1942,
é um “grande exagero” o argumento
de que a comercialização da obra poderia dar força ao movimento neonazista no país. “Não se pode aceitar a
tutela do Estado na consciência do leitor”, defende. Ele destaca que a UBE é
contra a tentativa de censura. “Temos
a honra de ter combatido o nazismo.
Mandamos homens. Temos isso na
consciência nacional. O povo que exigiu nas ruas”, diz.
Para a Ube, a decisão do TJ-RJ, viola
o direito constitucional à informação.
“A publicação pode tanto evitar a repetição dos dramáticos acontecimentos,
como assegurar o registro histórico”,
explica. Segundo Goyos, em breve, a
entidade deve buscar apoio de outros
órgãos, como a Ordem dos Advogados
do Brasil. “Vamos entrar com um processo como amicus curiae para reverter isso”, diz o presidente.

Extrema-direita
Há 14 anos, a antropóloga Adriana
Dias, mestre doutoranda pela Unicamp, estuda o neonazismo. Ela se diz
a favor da liberdade de expressão e de
ideias. “O livro já está na internet, mas
sou contra de qualquer forma por representar um discurso de ódio”, afirma. Para ela, é complicado falar de melhor absorção crítica do conteúdo se
compararmos a Alemanha com o Brasil. “O discurso de Hitler atinge uma camada da população presente em todas
as classes: aquela que se sente prejudicada em crise econômica, não tem a
quem culpar e vai culpar a raça”, explica. Ela conta que o crescimento da extrema-direita no Brasil tem sido acelerado. “As últimas quatro eleições me
mostraram que o mito do brasileiro
cordial foi embora quando a elite perdeu o poder”, diz a antropóloga.
Apesar do elemento comum do
ódio ao judeu, ao negro e ao gay, segundo Adriana, em cada lugar o movimento neonazista tem uma configuração específica. “Nos Estados Unidos,
eles acham que o modelo americano
vai salvar o mundo. No Brasil, existe o
ódio aos nordestinos, como se fossem
sub-raças”, exemplifica.
Em 2007, quando fez mapeamento do movimento no Brasil, a pesquisadora encontrou 150 mil pessoas baixando este tipo de conteúdo no país.
“Uma coisa é você achar material
proibido dentro da internet e ler. Tem
a ideia da subversão. Outra coisa é a
chancela da editora, da publicação.
Poder comprar livremente”, pondera.
Para a pesquisadora, até mesmo a edição comentada é problemática.
“Quem está indo atrás do Minha luta,
não procura para entender a questão
nazista, mas por admiração. Hitler era
uma figura que tinha um carisma extremamente complicado. Ele fala com
um tipo de pessoa: aquela que quer
achar quem culpar pelo próprio fracasso”, considera.