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Estilo como “uso” do sistema

:
a estilística de Mattoso em cinco teses
Sírio Possenti1
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Instituto de Estudos da Linguagem – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
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1. Introdução
Nesta breve fala em homenagem a Matoso Câmara, não pretendo mais do que
evocar algumas de suas teses sobre estilo e, ao final, formular uma pergunta e uma
hipótese. Considerarei o fato de que fui incitado a falar sob o guarda-chuva da fórmula
“sistema e uso”, que dá nome a esta mesa-redonda.
Provavelmente, pode-se dizer do estilo o que se pode dizer de qualquer outra
questão que tenha despertado o interesse de estudiosos: que é possível fazer dele muitas
abordagens. Talvez se possa dizer ainda que é um tema cujo prestígio decresceu nos
últimos tempos. Minha hipótese é que isso se deve ao fato de que é comumente associado à
esfera da individualidade e, por isso, pareceria pouco sistemático.
Mattoso diz que há duas grandes vertentes de estudo do estilo: uma privilegia seu
lado social e a outra, seu lado individual (sendo que, neste caso, o objeto típico é um
escritor). Mas isso parece um pouco vago. O que provavelmente falta mostrar é a conexão
que existe entre o que se considera social e o que se considera individual. Uma hipótese:
quando parece mais individual, o estilo garante, no entanto, uma identidade, uma pertença a
um grupo (seja pela gíria, seja pelo estilo de escolas literárias, por exemplo). O que mostra
que o que se toma como individual não pode existir sem um fundamento que seja de outra
ordem. Todos os exemplos de estilo individual podem ser reduzidos a formas de “explorar”
a língua, ou seja, algo que não é da ordem do individual. Talvez se pudesse dizer que
autores ou falantes encontram formas peculiares de condensar, ou melhor, de adensar o
sentido, ou, alternativamente, de “mostrar” uma característica identificadora.
Talvez o verdadeiro problema seja que queremos marcas, constâncias (frases curtas
ou longas, construções eruditas ou populares), quando, de fato, só nos são oferecidos
indícios, ou casos de alguma forma singulares. Gostaríamos que o estilo estivesse em toda a
parte, mas, de fato, ele se manifesta pela presença ou pela ausência de alguns pontos (uma
rima especial, uma característica prosódica localizada etc.). O que é igual, “não-marcado”,
fica é o pano de fundo, em relação ao qual sobressaem traços aqui e acolá. E só a esses
atribuímos efeitos de estilo.
No que se segue, apresento e comento rapidamente algumas teses de Mattoso
Câmara sobre estilo (estilística). Espero que elas ajudem a tornar substantivas as afirmações
genéricas feitas acima.

Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 73-76, 2005. [ 73 / 76 ]

. pois é um sistema simbólico que transponta do discurso” (p. portanto. segundo a qual a langue é social e a parole é individual. p. estilo é “um conjunto de processos que fazem da língua representativa um meio de exteriorização psíquica e apelo” (p. acinte e petulância’” (aqui Mattoso está citando George Krapp). ou seja. Outro efeito dessa maneira de interpretar a dupla de conceitos é que talvez seja estranho falar de sistema e uso. e. nem de longe. a gíria é comparável à expressão literária pelo seu fundo estético e mais ou menos sofisticado. 73-76.. ou investigar uma gíria. Seus trabalhos e mesmo exemplos ilustrativos o atestam claramente. e as funções de manifestação psíquica e de apelo). Estudos Lingüísticos XXXIV. é apenas meia verdade que o estilo é individual. Mattoso propõe que na língua se vejam várias funções. como um estilo popular coletivo. no âmbito literário.. assim visto. Nesse sentido. a circunstância de que o estilo tende a ser um denominador comum de um grupo humano coeso. Não pertencendo o estilo à esfera individual. como se pudesse haver usos em sistema. que seria a essencial. 136).. 2005. Segunda tese: O estilo se caracteriza pelo contraste entre representação e emoção. lato-sensu. podemos fazer a estilística de um sujeito falante especialmente dotado. quer ainda. com base na tripartição de Bühler (a função de representação – intelectiva -. Terceira tese: O estilo é ao mesmo tempo individual e coletivo. em que em geral se entende o termo inglês slang. mas essa se faz por meio da língua. pois este “também pertence à língua. Dessa forma de compreender a “oposição”. Mattoso interpreta a parole como a “enunciação vocal integralmente considerada”. concentrarmo-nos num poeta ou num prosador de nota. podemos no mesmo sentido tratar de uma época. Creio que vale fazer aqui uma longa citação (Câmara Jr. as duas “faces” não se opõem. quer entendida como um calão de malfeitores. não é possível associar. portanto. a “língua está contida no discurso” (que é para ele a tradução de parole). Assim. Pelos exemplos que veremos. o estilo. ou de uma classe social. 1977: 22-3): “É uma conseqüência do conceito de estilo .. 1961: 134). chiste.2. composta de certos elementos de vivacidade. Mattoso recusa a interpretação que usualmente se faz de Saussure. O que caracteriza a parole é ser um “fenômeno heterogêneo e emaranhado. o discurso (a parole) ao estilo. não está em toda a parte. resultante que é de ‘uma disposição de ânimo altamente colorida. Da parole se deduz o sistema. Dada. onde se exteriorizam recalques e impulsos afetivos. Cinco teses Primeira tese: O estilo é um traço da língua. Matoso conclui que. por outro lado. mas sua preferência vai para a outra alternativa. Visando à pesquisa da personalidade lingüística. ou de uma escola literária. 135). [ 74 / 76 ] .. Nesse último sentido amplo. Mattoso aceita claramente que haja uma perspectiva social de análise do estilo. pois é expressão da emoção. de que se pode tirar o tema de vários estudos distintos” (Câmara Jr. termos ante nós mais de um caminho e mais de um campo delimitado de exploração.

neste contexto específico. poderíamos começar a fazer perguntas. Veja-se. no espírito de Alberto de Oliveira. porque. ou com uso de palavras carregadas de tonalidade afetiva” (p. 1961: 139). pois se circunscreve ao domínio intelectivo” (p. Vejamos agora um exemplo de desvio sintático: em um poema de Gonçalves Dias. Quinta tese: O estilo é fruto de um desvio. Mattoso diz que aqui “vemos o impulso lírico de Gonçalves Dias preferir ... sem que seu uso individual provoque aquela ‘sanção do ridículo’. diz ele. / e. em “ele pegou nada. por outro.Quarta tese: Idiossincrasia não é estilo. há um apelo genuíno à nossa emoção em versos como estes. “há no emprego um valor estético. em que a ‘incorreção’ aparece robustecendo inegavelmente a frase. diz ele. e. como o estilo pode ao mesmo tempo ser “da língua” e ser um desvio? Pelos exemplos. de tristeza” (Câmara Jr. 73-76. querer explicar a diérese pela exigência métrica.. 1977: 24). para obtê-la. 24. implícitas em piedade e ansiedade respectivamente. Há estilo. o infinitivo pessoal. portanto: é apenas um uso pessoal e não há afeito expressivo. nota 3). não só de piedade. mais que piedade. 1977: 23)) (ou seja: esse desvio não expressa nada) e o que ocorre na diérese de grupos vocálicos átonos. O que caracteriza o primeiro caso é que. 2005. não um traço estilístico. por um lado. / de noturna e indizível ansiedade / é que eu vi teu olhar de piedade. p. de tristeza” (p. mas como um substantivo negativo – o oposto de alguma coisa” (Câmara Jr. qual transparece quando faz flutues um ditongo em rima com azuis (“Vem – segredava o luar – descerra uma por uma / as pétalas azuis! / Dou-te um lago de espuma. / e. a doçura d´alma e a tensão nervosa. mas apenas representativo. num soneto de Antero de Quental. ergueu nada. o contraste entre a anomalia inexpressiva que ocorre na “indistinção. / onde melhor flutues” (Câmara Jr. Ao contrário.. Mattoso detalha seu argumento: seria absurdo. mas é possível citar outros que Mattoso propõe. como aconteceria com um acento de insistência ou de altura. entre indicativos presentes dos verbos em -uir (ditongo /uy/) e os subjuntivos presentes dos verbos em -uar (terminação dissilábica /u-i/). pode-se ver Estudos Lingüísticos XXXIV. Quincas Borba). encontra-se um infinitivo flexionado onde se deveria encontrar um não flexionado: “Vem trazer-vos algemas pesadas / Com que a tribo tupi vai gemer. Vistas e rapidamente exemplificadas as teses fundamentais de Mattoso Câmara sobre estilo/estilística. “Assim. Por exemplo. por exemplo. não se trata de uma construção exclusiva nem característica de Machado de Assis. / Mesmo o piaga inda escravo há de ser”. fazendo-nos ver dolorosamente o gesto inane do pobre louco. O segundo caso é apenas “um uso pessoal da língua literária (. e cingiu nada” (Machado.. mas não na acentuação da preposição a em Alencar. como recurso para uma motivação sônica do significado. mercê do tratamento de nada não como mera partícula negativa. bastaria ao poeta escolher outra construção: “é que eu vi os teus olhos de piedade. Não se trata de caso de estilo por duas razões. 66). é que condicionam as pronúncias /pi-e-da’-de/ e /an-sye-da’-de/: “Num sonho todo feito de incerteza.).. O exemplo de Quincas Borba poderia ser suficiente para ilustrar essa tese. / Hão de os velhos servirem de escravos. [ 75 / 76 ] . 139-40).

CÂMARA JR. Como se se violasse localmente uma gramática com o aval do que ela permite (ou até exige) em outro lugar. Considerações sobre estilo.. Filosofia do estilo. por exemplo. Referências bibliográficas CÂMARA JR. GRANGER.. 2005. 3. M. como expressão de uma “personalidade”. 133-141. em sentido estrito. nem há propriamente uso. não se trata de função expressiva no lugar da representativa. J. 73-76. Algumas passagens de Matoso lembram nesse sentido a tese de Granger (1968) segundo a qual exploração do resíduo para produção de efeitos de estilo. o mostra.claramente que não se trata de fala. por gosto ou especialização. O caso de Quincas Borba mostra bem que o efeito é de intensificar um estado que. Além disso. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. nem há propriamente sistema em uma língua. se esta for entendida como a do escritor). para intensificar um efeito que o próprio texto produziria. Contribuição à estilística da língua portuguesa. Estudos Lingüísticos XXXIV. chamando a atenção simultaneamente sobre ela e sobre ele.-G.. como faríamos com uma roupa. fosse. 1968. Ou como se se tratasse de “enfeitar” o próprio instrumento. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico. Mas como se fosse descoberta outra “finalidade” para ele (como coçar a orelha com um lápis). que. porque ela seria suficientemente elástica para poder ser assim considerada. p. In: Dispersos. na economia da narrativa. Trata-se de efeitos que decorrem de uma exploração da língua. Talvez não seja à toa que chamamos de estilistas aos que criam roupas assim. segundo Mattoso. G. já é decisivo e denso. mas em alguns quase marginais. [ 76 / 76 ] . ou porque. Veja-se que. Talvez ocorra sempre uma espécie de uso do sistema. de um “uso” do sistema. Mattoso prefere bons casos de literatura a bons casos de gíria. Não no sentido banal de uso de um instrumento para a finalidade para a qual ele teria sido criado. Nem mesmo a torna subjetiva (isto é. eles não são em nenhum momento a expressão da emoção ou de estados d’alma de Machado ou de Antero de Quental. Como conclusão Creio que a conclusão a que se poderia chegar é que. p. 1977. 1961. mas de uma como que exploração de uma virtualidade da língua (tratar nada como um nome e produzir uma diérese no lugar de uma sinérese típica são antes formas de “esticar” a língua do que de violar uma regra). Paulo: Editora Perspectiva. M. se por isso se entender um comportamento que fuja a regras. ao mesmo tempo em que cobre o corpo. J. S. Observe-se que o desvio não se faz em qualquer domínio. Vê-se que. de fato. por exemplo. embora trate tipicamente de casos que alguém poderia associar o estilo a escritores como indivíduos. Mas isso não faz de sua estilística uma estilística literária. sem deixar de cobrir o corpo. elegante por si mesma.. quando se trata de efeitos emotivos. Ou seja: o que parece um desvio (localmente) encontra guarida no sistema da língua. mas a ela sobreposta.