Você está na página 1de 16

MORAL E RELIGIÃO NO CÓDIGO CRIMINAL IMPERIAL OU

UMA APOLOGIA DA SOBERANIA EM TEMPOS DE ILUSTRAÇÃO

LUCIANO ROCHA PINTO *1

A Constituição do Império brasileiro, outorgada em 1824, determinou no artigo
179 número XVIII, a “necessidade de se organizar, quanto antes, um código civil e um
criminal, fundado em sólidas bases de Justiça e Equidade”. O código civil teve que
esperar até 1916, enquanto o criminal é promulgado em 16 de dezembro de 1830 e
publicado em 8 de janeiro do ano seguinte. Após a emancipação política, a organização
institucional da sociedade imperial esteve sob a incumbência dos magistrados e
bacharéis que, no estabelecimento da ordem após os tumultos oriundos da emancipação,
sustentaram o controle social e o estabelecimento da disciplina como prioridade. “Era
uma população inquieta, afeita às agitações e tumultos políticos” (NEVES, 2003: 400).
Até 1850 os magistrados formavam um grupo poderoso e articulado com a coroa
(SCHWARTZ, 1979), o que promovia certa continuidade com relação à tradição
jurídica herdada de Portugal.
O recém-criado Império do Brasil buscava uma legislação própria que reforçasse
sua autonomia, mitigasse as agitações e produzisse a ordem necessária à sua reiteração
temporal. A influência dos bacharéis formados em Coimbra e dos magistrados de
origem portuguesa contribuiria para a continuidade de antigos procedimentos penais em
novos moldes. O Império permaneceria aplicando “a velha legislação herdada dos
tempos coloniais sem proceder a grandes e radicais rupturas, adaptando-a as tradições
específicas dos brasileiros, à cultura jurídica então em formação e, sobretudo, aos
interesses econômicos das elites agrárias brasileiras” (FONSECA In NEDER, 2007:
115). Vale perceber a coexistência de uma monarquia constitucional com a escravidão e
a continuidade das penas de morte, galés e açoites. Práticas inscritas no código criminal
de 1830 e aplicadas aos escravos e aos livres em circunstancias específicas. Mesmo a

1

* Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História
(PPGH-UERJ).

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011

1

O direito se torna o campo de legitimação da hegemonia. 2007: 188). 223 – Ofensa pessoal para fim libidinoso causando dor ou mal corpóreo a alguma mulher sem que se verifique a cópula carnal * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. por violência. 222 – Ter cópula carnal. julho 2011 2 . . menor dezessete anos e ter com ela cópula carnal Art. 225 – Não haverá as penas dos três artigos antecedentes os réus. 226 – Tirar para fim libidinoso. A imoralidade da população e o desejo civilizatório Crimes de ordem moral estavam listados entre aqueles contra a segurança individual. 221 – Se o estupro for cometido por parente em grau que não admita dispensa para casamento Art. DOS CRIMES CONTRA A SEGURANÇA INDIVIDUAL (DE ORDEM MORAL) Art. principal influência normativa do Código Criminal Imperial. As ofensas à moral e à religião são as maiores causas de encarceramento nos crimes considerados policiais. que casarem com as ofendidas Art. art. por meio de violência. busque desvincular a relação entre infração e falta moral ou religiosa. (Constituição Política do Império do Brasil. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. Embora os princípios da Escola Penal Clássica. a tortura. principalmente os de ordem sexual. isso não aconteceu plenamente.2 elas continuavam ocorrendo e de modo legal. efetivamente. 179. dispostos a levar os ventos da mudança até as últimas conseqüências” (NEDER. sem que estivessem. e todas as mais penas cruéis”. 224 – Seduzir mulher honesta. 219 – Deflorar mulher virgem menor de 17 anos * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. que emergem como um problema político. controle e hierarquização. 2 PENA MÁXIMA PENA MÍNIMA 3 anos de desterro para fora da comarca em que residir a deflorada e dotar esta 6 anos de desterro para fora da província em que residir a deflorada e dotar esta 6 anos de desterro para a província mais remota da que residir a deflorada e dotar esta 12 anos de prisão simples e dotar a ofendida 6 meses de prisão simples e multa 1 ano de desterro para fora da comarca em que residir a deflorada e dotar esta 2 anos de desterro para fora da província em que residir a deflorada e dotar esta 2 anos de desterro para a província mais remota da que residir a deflorada e dotar esta 3 anos de prisão simples e dotar a ofendida 1 mês de prisão simples e multa 3 anos de desterro para fora da comarca 1 ano de desterro para fora da comarca 10 anos de prisão com 2 anos de prisão com “Desde já ficam abolidos os açoites. a marca de ferro quente.constituição tendo proibido as punições hediondas. “Adotaram de forma pragmática os pressupostos metodológicos da pedagogia iluminista. Esta flexibilidade caracteriza a disposição de não promover mudanças reais na estrutura social. com mulher honesta Art. A lei é redefinida como instrumento de disciplina. no XIX). 220 – Se o que cometer estupro tiver em seu poder ou guarda a deflorada * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art.

alguma mulher virgem. a má higiene e a precariedade das moradias e a má nutrição. Como possíveis causas físicas têm-se a insalubridade. a avareza. furtar alguma criança. 247 – Receber o eclesiástico em matrimônio contraentes que se não mostrem habilitados na conformidade das leis Art. os Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. ou sendo verdadeiramente prenhe. Esta ideia será consagrada mais tarde. a sede de prazeres.DOS CRIMES CONTRA A SEGURANÇA INDIVIDUAL (DE ORDEM MORAL) qualquer mulher da casa. que seja menor de dezessete anos Art. Como causas morais encontram-se a ignorância. Acreditava-se. ou fingir-se a mulher casada com um homem para o mesmo fim PENA MÁXIMA PENA MÍNIMA trabalho e dotar a ofendida 3 anos de prisão simples e dotar a ofendida trabalho e dotar a ofendida 1 ano de prisão simples e dotar a ofendida 1 ano de prisão simples e multa 2 meses de prisão simples e multa 1 ano de prisão simples 6 anos de prisão com trabalho e multa 3 anos de prisão com trabalho 3 anos de prisão com trabalho 2 anos de prisão simples e multa 2 meses de prisão simples 1 ano de prisão com trabalho e multa 1 ano de prisão com trabalho 1 ano de prisão com trabalho 4 meses de prisão simples e multa 6 anos de prisão com trabalho e multa 1 ano de prisão com trabalho e multa Há uma estatização do biológico e da sexualidade. 228 – Seguindo-se o casamento em qualquer destes casos. ou lugar em que estiver Art. 1999: 300-301). julho 2011 3 . a prostituição. na segunda metade do século XIX. Mas a sexualidade devassa teria efeitos também no nível populacional. não terão lugar as penas Art. ocultá-la ou trocá-la por outra Art. Os desvios de caráter seriam adquiridos pelas próximas gerações. 251 – Homem casado que tiver concubina teúda e manteúda Art. que a própria masturbação em excesso enfraquecia e deixaria a criança doente por toda a vida. por meio de afagos e promessas. 227 – Tirar de casa para fim libidinoso. não apenas com relação às doenças que se poderia adquirir e transmitir. 248 – Contrair matrimônio clandestino Art. 250 – Mulher casada que cometer adultério Art. 254 – Fingir-se a mulher prenhe e dar o parto alheio por seu. A regulação da vida sexual nada mais é que a tentativa de se apossar da vida e dos corpos nos seus atos mais íntimos e pessoais. mas. Tais espaços produzem as condições propícias à instalação de processos degenerativos. A sexualidade adquiriu uma importância estratégica justamente por se tratar de um fenômeno que atravessa o individual e o populacional. 249 – Poligamia Art. Individualmente o corpo pode ser acometido de doenças diversas. 255 – Fingir-se o homem marido de mulher contra a vontade desta para usurpar direitos maritais. ou reputada tal. segundo o saber médico/higienista. substituir a sua por outra criança. no que diz respeito à degeneração moral (FOUCAULT. Uma sexualidade indisciplinada pode trazer efeitos perversos nestas duas instâncias.

parecem sugerir um relacionamento estável. são versões portuguesas para a palavra espanhola “mantenuda”. um contrato que calcula a transmissão patrimonial. “amante” ou “amásia”. 249). Não estar conforme a lei ou casar-se de maneira clandestina pode estar relacionado ao casamento sem o consentimento dos pais. art. a punição ao eclesiástico que receber pessoas inabilitadas pela lei (CCIB. Previase o casamento com pessoas de mesma estirpe. A autoridade paterna neste assunto foi reforçada em Portugal no século XVIII e na reforma pombalina da legislação sobre o casamento. Além das motivações biológicas havia as econômicas. O discurso médico/higienista vai se apropriar dos espaços legais para regulamentar uma determinada disciplinada sobre os indisciplinados morais. relações externas por amor ou afeição eram comuns e toleradas. 251). entre muitas outras (SERPA JR. Era permitido sem gerar vínculos econômicos como o casamento (TORRES-LONDOÑO. As leis raramente eram aplicadas com relação ao adultério. Ao dizer que “Fulana é teúda e manteúda”. mas. tomadas conjuntamente. 1999: 21). Fenômeno marcado no Código é o entendimento do Estado como aquele que deve gerar o bem estar dos indivíduos em sociedade. ou seja. embora o código previsse de um a três anos de prisão com trabalho aos homens casados que tivessem concubina teúda e manteúda (CCIB. O casamento era um negócio. 248). mantida. Aparentemente. O amancebamento era pratica corriqueira. publicada em 1773 em Lisboa (LIMA in LIMA. 1987: 22).fanatismos. 1998: 18). Um bom exemplo sobre a relevância do casamento com finalidades econômicas está na obra de Bartolomeu Coelho Neves Rebelo. “Discurso sobre a inutilidade dos esponsais dos filhos celebrados sem consentimento dos pais”. Uma vez que o casamento era um negócio. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. A expressão “teúda e manteúda”. quer se dizer que “Fulana e tida e 3 A partir de agora CCIB. Um instrumento disciplinar era o domínio da sexualidade. A garantia de igualdade social impedia a dispersão dos bens. Busca-se normalizar o corpo individual e os acontecimentos aleatórios de uma multiplicidade biológica. indicam não apenas um sinônimo para “concubina”. Daí a preocupação com o matrimônio clandestino (Código Criminal do Império do Brasil. julho 2011 4 . art. art. 247) e a poligamia (CCIB.3 art. O concubinato designava relações maritais com mulheres inferiores ou de comportamento duvidoso.

julho 2011 5 . Muitas mulheres honradas. A Igreja foi a responsável por transformar aquela união em transgressão. mas não o aval de uma instituição: a Igreja. O concubinato era um estado de vida aceito publicamente. Muitos desimpedidos ao matrimônio não se casavam devido os altos custos que impediam a união legal dos casais mais pobres (LEWCOWICZ in LIMA. patrimônio. Como se vê o concubinato é muito diferente daquelas relações com moças de família (CCIB. arts. Até os clérigos viviam em consórcio público. 1987: 56). viúva de Joaquim Antonio Vianna e moradores na Bahia. É importante notar que o concubinato constituía-se. situação em muitos casos conhecida e tolerada. em quase casamento no Brasil. O concubinato era um infortúnio tolerado desde que mantida a discrição e a modéstia. exigiam penas maiores como o degredo. Assim como ele muitos outros. 1999: 80). Na sua ânsia de curar as almas a Igreja vai transformar o concubinato de ato público para pecado público. 219-228) que. que ela é “amásia/amante de alguém”. eram consideradas estupro e. 1999: 57). Entre 1741 e 1845 o concubinato em São Paulo chegava a 39% dos casais e em Minas Gerais à 90% (TORRES-LONDOÑO. que não podiam pagar o dote se entregavam a homens casados ou mesmo solteiros e mantinham vida estável em ambos os casos. de modo geral. O padre reconhecia seus filhos. Como o Império consagra o catolicismo como religião oficial a moral cristã passa a influenciar a vida social e a prática legal. No Rio de Janeiro do século XVIII homens e mulheres vivam juntos por anos. por isso. Nas devassas coloniais era o concubinato a transgressão mais freqüente. preocupava-se com sua educação e sua concubina ocupava-se de sua prole como qualquer mulher de seu tempo (TORRES-LONDOÑO. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo.mantida por alguém”. mas empobrecidas. no entanto. tinham filhos. Em 1814 o padre Francisco Agostinho Gomes assumia seus sete filhos com Dona Maria Luiza.

DOS CRIMES CONTRA A SEGURANÇA INDIVIDUAL Art. Esta Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. caso não fosse possível degredava o transgressor para minimizar a vergonha e exigia-se o dote (TORRES-LONDOÑO. A ideia é se livrar dos indesejáveis que afrontam a moral e os bons costumes. 219 – Deflorar mulher virgem menor de 17 anos * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. 224 – Seduzir mulher honesta. A mulher estaria fora do mercado de casamentos se não fosse virgem. menor dezessete anos e ter com ela cópula carnal PENA MÁXIMA PENA MÍNIMA 3 anos de desterro para fora da comarca em que residir a deflorada e dotar esta 6 anos de desterro para fora da província em que residir a deflorada e dotar esta 6 anos de desterro para a província mais remota da que residir a deflorada e dotar esta 3 anos de desterro para fora da comarca 1 ano de desterro para fora da comarca em que residir a deflorada e dotar esta 2 anos de desterro para fora da província em que residir a deflorada e dotar esta 2 anos de desterro para a província mais remota da que residir a deflorada e dotar esta 1 ano de desterro para fora da comarca A pena de desterro era aplicada aos crimes contra a segurança individual em dois casos: estupro e sedução de mulher honesta. Se não houvesse nada que comprometesse um possível casamento não seria aplicada a pena uma vez se casando os envolvidos. 220 – Se o que cometer estupro tiver em seu poder ou guarda a deflorada * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. pois às menores de dezessete anos não caberia outra coisa se não o concubinato ou a prostituição. Insiste-se no casamento como substituição à pena. Ele correspondia à sua parte da herança que os pais davam por ocasião de seu casamento para que suas filhas não ficassem desprotegidas. 221 – Se o estupro for cometido por parente em grau que não admita dispensa para casamento Art. O degredo poderia variar de um a seis anos fora da comarca que reside a vítima. 1999). Casando-se estava reparado o delito. julho 2011 6 .

roupas e demais coisas de valor (SILVA in NEDER. O desejo de moralidade seguia o de civilidade. “O reino dinástico era visto 4 Confira as aulas de 8 de fevereiro de 1978. de certa forma. o que. Em algumas regiões do país o pagamento era feito com cabeças de gado ou em número de escravos. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. In FOUCAULT. A religião e o governo dos indivíduos 4 A religião aparece no Código Criminal como um valor a ser resguardado. 2008: 168-243.prática implicava um cálculo dos bens familiares. jogos proibidos. contra a religião oficial do Estado. Destacam-se os crimes de imprensa. caso não fosse com seu agressor. ou que se dirigem a uma determinada coletividade. coletivos. joias. mendicância e uso de armas proibidas. artigos 276 e 277 e era um delito punido com prisão e multa. O Império professava. busca-se amparar aquela que estava fadada a não casar-se com outra pessoa. a Religião Católica. julho 2011 7 . A ofensa da religião emerge entre os crimes policiais. Ao exigir o dote como parte da pena. ajuntamentos públicos. A religião colaborava neste processo de docilização e condução dos indivíduos. 15 de fevereiro de 1978 e 22 de fevereiro de 1978. Tal atitude reforça o desejo de reiteração do modus vivendi das monarquias européias e auferia um ar de solenidade garantido pela soberania divina. a auxiliaria e minimizava seu prejuízo. Os crimes ditos “policiais” se referem aos atos públicos. 2007: 20-21). sociedades secretas. segundo o artigo 5º da Constituição.

A coroação de D.. Os casos que aparecem como maiores causas de encarceramento Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. pela graça de Deus e vontade unânime do povo.pela maioria dos homens como o único sistema “político” imaginável (. as paróquias forneciam as listas dos eleitores. art. No entanto.. Manifestações públicas acarretavam dispersão e multa que variava de 2$000 a 12$000. 2003: 406-409). por meio de papeis impressos ou discursos. o corpo político se apropriava de um corpo místico e “os seres humanos podiam assim ser considerados dentro de uma perspectiva ao mesmo tempo cristã e „natural‟” (MORSE.) Sua legitimidade deriva da divindade. Se houvesse zombaria do culto oficial do Império. O imperador. juro observar e manter a religião católica. prisão de um a seis meses e multa (CCIB. art. 278). doutrinas que diretamente destruam as verdades sobre a existência de Deus e da imortalidade da alma acarretaria pena de prisão de quatro meses a um ano e multa (CCIB.) e juro sobre os santos Evangelhos” (NEVES. Portugal não coroava seus reis desde Dom Sebastião (1557-1578) e nenhuma nação no Novo Mundo conhecera tal ritual. Os demais cultos eram permitidos desde que fosse doméstico e “sem forma alguma exterior do Templo” (CCIB. ou por discursos em reuniões públicas. art. 1991: 30). ou permaneciam juntas. e não das populações” (ANDERSON. A pertença dos indivíduos à nova nação era mediada pela continuidade do reino dinástico e da comunidade religiosa. juro observar e fazer observarem constitucionalmente as leis do Império (. a monarquia sagrada via sua legitimidade decaindo na Europa ocidental desde o século XVII (ANDERSON.. A pena de encarceramento está prevista em 54% dos casos. os sacramentos referendavam as questões civis como o nascimento e o casamento. Pedro I. Os Padres eram funcionários do Estado. julho 2011 8 . seguida pela multa com 25% dos casos. com as do Estado. as questões de fé se confundiam. a comunidade religiosa estaria referendando o reino diante dos indivíduos em sociedade. Propagar por meio de papeis impressos que se distribuírem por mais de quinze pessoas. imperador do Brasil. Ou seja.. Assim. 1991: 28). conduzido ao pé do Altar foi coroado e consagrado em 1º de dezembro de 1822 e ao final da missa proferiu seu juramento: “Eu. Pedro demonstra uma solenidade estranha em tempos de penetração do liberalismo. 1988: 43). 277). apostólica e romana. 276).

5% do total de cadeiras). O pleito tinha seu ponto de partida numa celebração religiosa. 23 eram clérigos (22. A pregação era voltada aos objetivos do processo eleitoral. A presença dos padres era sentida também junto à elite política imperial. Dos 102 deputados gerais eleitos para a primeira legislatura brasileira. Na segunda legislatura (1830-1833).estão ligadas à religião e à moral. No entanto a proximidade entre fé e política fazia das duas uma só coisa. Antes do início das eleições. As ideias de Deus. Uma missa era celebrada no dia marcado das eleições com a presença dos votantes e eleitores. Os registros religiosos permitiam ao Estado conseguir as informações para a realização das eleições. na Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. julho 2011 9 . imortalidade da alma e a própria doutrina eram protegidas pelo Código Criminal. cabia ao pároco afixar os editais de convocação dos votantes nas portas das suas igrejas. Também participavam das mesas eleitorais. elaborar as listas dos eleitores. elucidando possíveis dúvidas quanto aos votantes. que eram funcionários do Estado. A religião tende a impor um determinado comportamento. corresponderam a 22% dos deputados gerais. No recém formado Estado brasileiro não havia uma estrutura de pessoal com repartições que pudessem identificar a situação dos eleitores e votantes. Era de responsabilidade deles. um determinado agir pautado na noção de normalidade. O sagrado e o profano se faziam presentes numa simbiose perfeita. No caso do Brasil as esferas religiosa e civil estavam singularmente cingidas. A fé católica era a religião oficial do Império. de 1826. A moral implica um comportamento aceitável. até no processo eleitoral.

Ensinava como governar e como se deixar governar. de seus bens. que só podiam comer a relva mais tenra. que estabelecia uma série de procedimentos de como governar os homens individualmente e em conjunto. 24% e na quarta legislatura (1838-1841)16% (SOUZA. sem dúvida alguma.terceira legislatura (1834-1837). Desta forma. por herança judaica. deve ser reproduzida pelos homens.389) o primeiro a pensar uma arte de governar os homens pelo pastorado. porque sabia perfeitamente conduzir suas ovelhas dentro de uma determinada disciplina. Ásia Menor. O Deus dos cristãos. capazes de comer a relva mais dura.17). De modo especial o cristianismo se tornou um terreno fértil à este instrumento disciplinar que é poder pastoral. A percepção histórica de um Deus pastor e legislador são as primeiras características do pastorado. que se desloca com seu povo. o pastorado se torna um modelo de ação governamental. Um olhar cuidadoso sobre sua formação pode ampliar o olhar sobre o modo de governar aplicado no Brasil durante os primeiros decênios de governo em sua estratégia disciplinar. mas. Chegando a uma campina enviava primeiro as ovelhas mais jovens. é um Deus que caminha. 2008: 127-137). foi escolhido por Deus para conduzir o povo de Israel. julho 2011 10 . Esta aproximação não é acidental. A religião exerce sobre os indivíduos um tipo de poder de condução cotidiana. e te guia pelo caminho em que deves andar” (Isaías 48. em um comentário rabínico. que te ensina o que é útil. O poder pastoral é um tipo específico de dispositivo disciplinar que objetiva a condução dos indivíduos. a tarefa do pastor se manifesta em um dever: sustentar e zelar pelo rebanho. Os fundamentos da fé cristã tornam-se os elementos fundadores daquele novo modo de pensar os homens e hierarquizá-los. um modo de agir. “Eu sou o Senhor teu Deus. conduzir. O objetivo é a salvação do rebanho. Esta disposição de pastorear. Assim. depois as um pouco mais velhas e só depois as mais velhas de todas. em 329 . Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. vigiar. De modo especial o cristianismo faz surgir uma prática de submissão dos indivíduos que na modernidade será apropriada e adaptada pelo poder político. Seu objetivo é o governo dos homens a pretexto de levá-los à vida eterna. que o conduz pela vida a fora. Moisés. é um poder temporal. não muito diferente do objetivo do soberano em relação à pátria. consciências e desejos. ou seja. Chamava de “arte das artes” o governo das almas. Foi São Gregório de Nazianzo (Capadócia. alimentar.

Obedecer as leis é um modo de receber um julgamento benfazejo no final dos tempos e obedecer aos pastores é um modo seguro de chegar ao paraíso. Também elaborou os Dez Mandamentos. um código moral de conduta. apropriadas pelo poder político: o desejo de Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. controlar. Acautelar-se das condutas é importante para garantir que as “ovelhas doentes”. A implicação direta sobre as consciências é a exigência da obediência. O homem ocidental aprendeu a si considerar ovelha e a pedir condução. cujo comportamento contradiga ao esperado. julho 2011 11 . Mas a inspiração no Deus judaico-cristão também prevê a observância da lei. direção e/ou salvação a um pastor. É ele quem conduz até os verdes pastos. guiar e manipular os homens. Tem por objetivo encarregar-se dos homens individualmente e coletivamente por toda a vida e em cada instante. para julgar o seu povo” (Salmo 50. que proteja e cure as feridas. mas. “Chamará os céus lá do alto. separar as doentes e eliminar aquelas que podem contaminar todo o rebanho. Ele deve prestar contas no fim do dia de cada uma de suas ovelhas e de todo o rebanho. juiz. escolhido para conduzir às fontes de água e alimento. Deus não é apenas pastor e legislador. É um poder individualizante. de certa forma. não possam contaminar o rebanho com sua moléstia. três características fundamentais do poder pastoral que foram. dirigir. portanto. O pastorado cristão fomentou toda uma arte de conduzir. Elas são contadas ao amanhecer e recontadas ao entardecer. Mas para isso é preciso vigiar para que as ovelhas não se desgarrem. a Igreja configurou os papeis de pastor e ovelha por meio de um processo de individualização exacerbada na qual a “perfeição” é atingida com a supressão da própria vontade e do próprio “eu”. Nenhuma ovelha pode escapar de seu olhar. Deus aparece como um legislador. No livro do Levítico Deus dita para Moisés as leis necessárias para a condução do povo. guiando inclusive seus pensamentos e desejos mais íntimos. Alguém diferente. Com o poder pastoral. Um cuidado que se impõe sobre o rebanho e cada ovelha individualmente. tendo o poder pastoral como pano de fundo deste processo. O Estado moderno nasce com este modo de governar de maneira calculada e refletida a vida dos indivíduos. Vigiar é um dever. e a terra.O pastor está a serviço do rebanho. De modo geral há. Toda a humanidade deve se guiar pelas leis de Deus para que no fim dos tempos todos sejam salvos. O pastor deve estar de olho em todas e em cada uma delas.4).

lei e verdade são relacionais. Eles se perdem juntos. Com relação ao conceito de salvação existe uma reciprocidade. mas a Deus. registrar os acontecimentos. Salvação/civilização. sobre cada uma. São civilizados aqueles que conseguem pautar suas condutas pela lei. mas. pois. Desejava-se acabar com os miasmas da colônia e formar uma civilização. julho 2011 12 . caberia a Deus. Há um espaço de incerteza. É um mecanismo de poder destinado a impor certa ordem à multiplicidade dos indivíduos a fim de controlar os movimentos. verdade sobre a normalidade comportamental. eles prescrevem as leis e ensinam a verdade sobre o homem e sua vida. rotular. Quem conduz deve se impor e vigiar para não perder e quem se deixa conduzir deve colaborar. ao jurista. pois. descobrir o mal. o justo. o que implica na exaustiva vigilância sobre todas e. se for o caso. explorar seus recônditos mais profundos. A ovelha cuja corrupção ameaça o rebanho deve ser excluída para se preservar as demais ovelhas. Salvam-se aqueles que observam a lei e aderem à verdade por ela revelada. De modo especial no Brasil Império civilizar era uma obsessão. É preciso dar conta do rebanho. que vai modelar o modo de ser civilizado e. fiscalizar o trabalho. Este olhar atento sobre todos é o que Bentham denominou de Panópticon. enxergar sua periculosidade para curar a ovelha doente e dissipar o mal. o aceitável e o normal. A lei vai determinar a verdade. também o pastor. Cabe-lhe dirigir as consciências. O cristianismo é uma religião de salvação. No Estado moderno objetiva-se a civilização. Existe uma economia do mérito e do demérito que está vinculada à condução e ao conduzir-se.salvação. A força e a ameaça tentam minimizar a incerteza da civilidade e a certeza da periculosidade. No campo político a salvação dá lugar à civilidade. a salvação foge das mãos do pastor. a civilidade não cabe ao juiz. com todas as contradições de uma sociedade escravista. O pastor guia para a salvação assim como as autoridades do Estado para a civilização. contudo. Da mesma forma que a salvação não cabe ao pastor. portanto. ao policial ou quem quer que seja. ao mesmo tempo. Em última instância. Por Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. Esta vigilância exaustiva sobre os indivíduos objetiva o bem e a defesa da sociedade contra os indesejáveis. uma cumplicidade implícita entre quem dirige e quem é dirigido. foge do controle e o espaço de incerteza é garantido pela necessidade da repressão. Se o pastor deixa o rebanho se desgarrar não só o rebanho se perde. Estão ligados por relações de responsabilidade moral. o papel da lei e a conformação da verdade. localizar e. excluir os não adequados.

Quem é dirigido deve obedecer. A obediência para os cristão passa pela palavra do pastor. julho 2011 13 . ou seja. Há uma relação de submissão e de dependência da autoridade. que. a lei que ele ensina e a salvação que propõe. e que se aplicam a todos os homens sem distinção. o que faz ou deseja fazer a direção se renova e o olhar Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. exigi-lhes uma confissão de seus procedimentos. Isso lembra que o homem é pó e ao pó deve voltar. Desobedecer significar rejeitar o pastor. Morrer para si mesmo e viver para o outro. O pastorado organizou uma postura singular diante das leis. Como condutor do rebanho cabe a ele ensinar as leis. Ele ensina como devem se portar. darão os contornos do caminho à seguir. sem questionar. Essa palavra vem de húmus. Assim deve ser a perfeita obediência: obedecer em tudo. um dia. o estado de obediência perfeita que é a humildade. pois até quem conduz só o faz por ter recebido esta ordem de outro. numa relação de dependência. O pastor deve ensinar e extrair a verdade de suas ovelhas. que Foucault denomina de “obediência pura”. A prática da obediência é filha da direção das consciências. São Francisco de Assis dizia a seus irmãos que o frade verdadeiramente obediente deve se assemelhar a um corpo morto. nem murmurar. Nada pode escapar à vigilância cotidiana para que a condução seja perfeita.isso a lei deve ser rígida e meticulosa a fim de minimizar a incerteza e aumentar o controle. O cristão se coloca nas mãos de seu pastor. em função de uma vontade externa. Aonde quer que o coloquem ele fica. É um estado de obediência generalizada. mas também prevê a sujeição. O pastor conhece a lei e a ensina. Obedece-se a lei obedecendo a um homem que a ensina. A lei leva em consideração a não obediência. em si. Ao pastor cabe dar de conhecer as leis. aquela matéria orgânica oriunda da ação da decomposição das folhas secas. Na obediência cristã a finalidade é a própria obediência: obedece-se para ser obediente e alcançar. mas. É a obediência como modelo de conduta altamente valorizada. desejos mais profundos e atos mais íntimos. Ser obediente é estar na condição de húmus. que correspondem à vontade de Deus. Um dirige e outro é dirigido. pois. Ao saber por onde anda sua ovelha. mortificação do próprio “eu”. a obediência está na ordem da virtude. É uma relação de submissão de um indivíduo a outro. A finalidade da obediência e a condição de humildade é. de certa forma. da ação das minhocas etc.

está em relação com o discurso. Essa invenção do pastorado cristão é assumida pelo Estado nas suas diversas práticas de exame. ou publicamente em qualquer lugar. sendo em local público PENA MÁXIMA PENA MÍNIMA Serem dispersos pelo juiz de paz os que estiverem reunidos no culto. portanto. 280 – Praticar qualquer ação considerada pela opinião pública ofensiva da moral e bons costumes. Um bom exemplo é o Panópticon enquanto arquitetura Prisional. mas também escolas e hospitais.exaustivo da disciplina mantém seu controle. Assim. qualificar e. o culto de outra religião que não seja a do Estado Art. se preciso. demolição da forma exterior e multa 6 meses de prisão simples e multa 1 ano de prisão simples e multa 1 mês de prisão simples e multa 4 meses de prisão simples e multa 6 meses de prisão simples. O exame nada mais é que um olhar normalizador e uma vigilância que permite extrair determinados conhecimentos de quem é vigiado. multa A verdade. de modo a classificar. impondo a verdade do bom viver. castigar. como instrumento de dominação. Na falta delas. 276 – Celebrar em casa ou edifício que tenha alguma forma exterior de templo. Seu objetivo é manter a ordem. 279 – Ofender a moral pública em papéis impressos ou em estampas e pinturas que se distribuírem por mais de 15 pessoas e expostas publicamente à venda Art. zelar pelo cumprimento da lei. CRIMES POLICIAIS RELACIONADOS A MORAL E A RELIGIÃO Art. multa e perda do material. do seu valor 40 dias de prisão simples e multa 2 meses de prisão simples. na qual o exame busca descobrir a verdade da condição individual e produzir novos saberes. prevê uma individualização por sujeição. A lei. Na falta delas. portanto. é preciso dirigir a consciência. 278 – Propagar por meio de papeis impressos que se distribuírem por mais de 15 pessoas ou por discursos em reuniões públicas doutrinas que diretamente destruam as verdades fundamentais da existência de Deus e da imortalidade da alma Art. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. prever a periculosidade dos não adequados e excluí-los do corpo social. julho 2011 14 . A defesa da religião e da moral constam como crimes no Código Criminal. ele delimita o aceitável e o inaceitável moralmente. a lei instaura uma relação de obediência individual e prevê uma vigilância também individualizada. A lei. multa e perda do material. O Código Criminal revela mais que um comportamento aceitável. do seu valor 10 dias de prisão simples. O Código deve dar uma direção. modular a vida cotidiana. 277 – Abusar ou zombar de qualquer culto estabelecido no Império Art. é a verdade sobre o homem em sociedade. Esta vigilância generalizada do corpo social se dará por meio de um instrumento disciplinar que é a polícia. instrumento essencial do poder disciplinar. As práticas jurídicas são um exemplo desta vontade de verdade. Ao pastor não cabe somente ensinar a verdade. Ela cria um espaço de normalidade na qual cada um e todos devem se enquadrar.

A vida é assumida pelo Estado e vigiada para se garantir o esperado. Segurança. Petrópolis: Vozes. SCHWARTZ. Rio de Janeiro: Revan: FAPERJ. A boa esposa e a mulher entendida. Gizlene. adúlteros e padres: história e moral na sociedade brasileira. MORSE. SERPA JR. Corcundas e constitucionais: cultura e política (1820-1822). Mulheres. 2007a. 1987. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. Iluminismo jurídico-penal luso-brasileiro: obediência submissão. 2000 2ª edição. ______________. Gislene. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Gizlene (Org. Lana Lage da Gama. Legislação e Práticas familiares no Brasil colonial. SILVA. FONSECA. cuja sobrevivência do colonial contradiz o desejo de ilustração. Lúcia Maria Bastos Pereira das. Lana Lage da Gama. In NEDER.. Rio de Janeiro: Dois Pontos. 1987. São Paulo: Editora Ática. Rio de Janeiro: Revan. 1999. 1988. São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Companhia das Letras. Em tempos que a legislação adota posturas disciplinares a defesa da moral e da religião mais parece uma apologia à soberania. Rio de Janeiro: Dois Pontos. 2008. A cultura jurídica brasileira e a questão da codificação civil no século XIX. Lana Lage da Gama. Ricardo Marcelo. Revan. Referências bibliográficas ANDERSON. São Paulo: Martins Fontes.). Stuart. In LIMA. adúlteros e padres: história e moral na sociedade brasileira. Michel. São Paulo: Perspectiva. Rio de Janeiro: Te Corá Editora. História e Direito: jogos de encontros e transdisciplinaridade. História e Direito: jogos de encontros e transdisciplinaridade. LIMA. 2003. 1987. In NEDER. 2007. O. Richard M. FOUCAULT. LEWCOWICZ. Rio de Janeiro: Revan. Os não enquadrados devem ser separados e corrigidos. 1998. Em defesa da sociedade. Maria Beatriz Nizza da. e NEVES. território e população: curso dado no Collège de France (1977-1978). O Espelho de Próspero: cultura e ideias nas Américas. Nação e Consciência Nacional. ______________. A fragilidade do celibato. In LIMA. D. Benedict. julho 2011 15 . NEDER.balizá-la a partir do considerado certo e verdadeiro. 1979. 2007b. Mulheres. Ida. Mal-estar na natureza. 1991. Burocracia e sociedade no Brasil Colonial.

Acesso em 17 de março de 2011. ISSN 1808-8139.revistasusp. A outra família: concubinato. Fernando. Françoise Jean de Oliveira. Fontes Código Criminal do Império do Brasil (1830) Constituição Política do Império do Brasil (1824) Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. igreja e escândalo na colônia. .br/scielo. 1999. julho 2011 16 . São Paulo: Edições Loyola. n. 127-137. TORRES-LONDOÑO.8. pp.sibi.usp. Disponível em: http://www.php?script=sci_arttext&pid=S180881392008000800010&lng=pt&nrm=iso>.SOUZA. Religião e política no primeiro reinado e regências: a atuação dos padres-políticos no contexto de formação do Estado Imperial Brasileiro. 2008. In Almanack braziliense [online].