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LÓGICA JURÍDICA

Introdução

A lógica sempre foi considerada, tradicionalmente, uma


disciplina fundamental para qualquer atividade científica, cujo estudo
deveria proporcionar, para além de um instrumento, o desenvolvimento
da habilidade para o raciocínio, necessário para todas as áreas do
conhecimento.

Podemos sintetizar lógica como:

Parte da filosofia que trata das formas do pensamento em


geral (dedução, indução, hipótese, inferência etc.) e das
operações intelectuais que visam à determinação do que é
verdadeiro ou não.

Fábio Ulhoa Coelho, em seu Roteiro de Lógica Jurídica, ao


tratar da relação entre a lógica e a realidade, rememora importantes
passagens do conhecido filósofo Zenão de Eléia, discípulo de Parmênides
que, por sua vez, possuía uma tese diferente da de Heráclito sobre a
essência do ser.

Apenas para fins de recordação, Parmênides é tido como o


filósofo do imobilismo, da eternidade, da imutabilidade, da indivisibilidade
etc., enquanto que Heráclito, contrariamente, postula a multiplicidade do
real e seu constante fluir, i.é, o real em fluência é sua essência.

O conhecimento, com tais postulações, ficou difícil de


prosperar.

Zenão de Eléia, discípulo de Parmênides, procurou defender


que o conhecimento somente é possível através da razão e não dos
sentidos. Noutros termos, nossa visão sobre a realidade não é proveniente
pelo que nos chega através dos sentidos, mas sim pelo que pensamos
acerca dela (a realidade).

Há dois argumentos famosos a respeito: o da flecha e o da


corrida entre a tartaruga e Aquiles. Em ambos a tentativa do filósofo é a
de provar que o movimento não existe e, para tanto, traça uma infinidade
de pontos entre o ponto de partida da flecha e o alvo, expondo a
impossibilidade de a mesma alcançar este; na corrida entre o quelônio e
Aquiles argumento parecido é desenvolvido, de forma que a tartaruga,
apesar de sua lentidão, nunca será alcançada pelo mais veloz corredor da
Antiguidade.

Lógico que tais argumentos contrariam o que vemos na


realidade, ou seja, o fluir constante das pessoas, o vento etc., tanto que
Diógenes de Sinope tentou provar seu erro, andando de um lugar para
outro na sala de aula. Todavia, necessário lembrar que um argumento
deve ser rejeitado com outro argumento.

Fábio Ulhoa Coelho afirma que nem Zenão e nem nós estamos
errados acerca do movimento, porque a lógica não confere,
necessariamente, com a realidade.

A premissa de Zenão de Eléia é a continuidade do espaço


(entre dois pontos), decorrendo daí a conclusão inafastável que o
movimento não existe. Entretanto, a premissa não é verdadeira porque
não corresponde à realidade, pois embora haja um espaço infinito entre
dois pontos (ponto A e ponto B), tal consideração de continuidade
somente existe em meu ato de pensar.

Zenão de Eléia elaborou um argumento rigoroso, mas sem


conferir com a realidade.

Nesse contexto:

A lógica é uma maneira específica de pensar; melhor dizendo:


de organizar o pensamento. Não é a única, nem a mais
apropriada para muitas das situações em que nos
encontramos, mas tem a sua importância, principalmente no
campo do direito.

Veremos, agora, a construção de alguns temos da lógica.

Às vezes nos ocorrem idéias acerca de inúmeras situações,


como: estou passando mal – está muito calor etc. São situações ou
contingências despertadas por sentimentos ou emoções, ou ainda
lembranças, e que, por isso, não estão concatenadas.

Não temos, em tais situações, um pensamento.

O pensamento é uma conjugação de idéias. Todavia,


devemos lembrar que nem todo pensamento é raciocínio, i.é, podem
estabelecer ligações entre idéias sem que umas fundamentem outras.

Síntese:

O pensamento é raciocínio quando relaciona duas idéias


tomando uma como premissa e a outra como conclusão. Se
uma idéia serve de ponto de partida para outra, se a sustenta,
a fundamenta, então esse vínculo tem uma característica
própria. A idéia fundamentadora, chamada premissa, implica a
idéia fundamentada, e esta, denominada conclusão, decorre
daquela. Nenhuma idéia, em si mesma, é premissa ou
conclusão. Será premissa quando relacionada com outra idéia
nela fundamentada e será conclusão se ligada a outra que a
fundamente.
Premissas e conclusões

O termo raciocinar é o processo pelo qual passamos de


verdades claramente conhecidas ou aceitas para verdades não
claramente conhecidas ou discutíveis. Quando expresso em linguagem,
este processo recebe o nome de argumento. Podemos dizer que um:

Argumento é um conjunto de proposições tal que uma delas


deriva das outras, as quais são consideradas provas evidentes
da primeira.

Sentença e proposição

Os lógicos distinguem entre sentença (conjunto de palavras


de uma frase) e proposição (conteúdo informativo de uma sentença), por
exemplo:

João ama Inês, e

Inês é amada por João.

São duas sentenças diferentes, mas que constituem uma


única proposição.

Premissas

As proposições consideradas como provas evidentes de uma


outra são denominadas de premissas do argumento. Noutro sentido, as
premissas traduzem as razões ou justificações para a conclusão.

A proposição que é derivada das outras é a conclusão do


argumento.

Exemplo:

Ela se indispôs com quase todos os membros da comissão;


consequentemente, é pouco provável que ela seja aprovada.

Inferência

O processo pelo qual passamos das premissas para a


conclusão é chamado de inferência. O interesse do lógico reside apenas
na conexão que o argumento afirma existir entre as premissas e a
conclusão, sendo que alguns designam o termo inferência como a
própria conclusão.

Implicação

O termo implicação designa, em sentido amplo, aquilo que


decorre da afirmação mesma, e, em sentido estrito, o que decorre
necessariamente ou logicamente.
A diferença gramatical é importante, neste caso: as pessoas
inferem e, as premissas, implicam.

Identificação das premissas e conclusões

A questão da identificação das premissas e das conclusões é


importante num argumento, devendo ser lembrado que a conclusão não
está, sempre e sempre, ao final do argumento, obedecendo uma espécie
de ordem. Existem termos e expressões indicadores de conclusão, tais
como portanto, logo, por conseguinte etc., bem assim, termos ou
expressões indicadores de premissas, tais como porque, desde que,
uma vez que etc. Entretanto, apesar de tais termos serem indicadores, em
muitos argumentos eles não ocorrem.

Exemplo:

Não existem raposas nesta região. Não encontramos nenhuma


ao longo do dia.

Nestes casos, para encontrar a conclusão, é preciso


determinar qual o objetivo do argumento, ou qual a tese que seu autor
pretende estabelecer, e da qual pretende convencer os leitores. Os fatos,
apresentados para servirem de apoio ou justificação para a tese,
constituem as premissas. Deste modo, no argumento acima, somos
levados a identificar como conclusão a sentença não existem raposas
nesta região, e como premissa, a parte restante.

Noutros casos, torna-se necessário recorrer ao contexto em


que se insere o argumento.

Exemplo:

Se o Código Penal proíbe o suicídio, isso não constitui um


argumento válido na Igreja; e, além disso, a proibição é
ridícula; pois que penalidade poderá assustar um homem que
não teme a própria morte?

Aplicando as indicações explicitadas descobrimos que a


conclusão é que a proibição do suicídio pelo Código Penal é ridícula, e
que a premissa, oferecida em seu apoio, é que nenhuma penalidade
pode assustar um homem que não teme a própria morte.

Vários argumentos em um texto

Alguns textos mais extensos podem conter mais de um


argumento. Portanto, a sucessão de argumentos pode resultar numa
interligação tal que uma conclusão erige-se em premissa para o
argumento seguinte.

Exemplo:
Não é necessário – nem de muita conveniência – que o
legislativo esteja sempre em atividade; mas é absolutamente
necessário que o poder executivo esteja, pois não há uma
necessidade permanente de elaboração de novas leis, mas é
sempre imprescindível a execução das leis promulgadas.

O trecho pode ser analisado como contendo dois


argumentos. Em um deles a conclusão é que não é necessário que o
legislativo esteja sempre em atividade, baseada no fato de que não há
uma necessidade permanente de elaboração de novas leis. No outro, a
conclusão de que é absolutamente necessário que o poder executivo
esteja (em exercício contínuo) baseia-se no fato de que é sempre
imprescindível a execução das leis promulgadas.