“A existência quase real de Jaque Prozac”

Giovanna Artigiani
Nina acordava mais uma vez em seu pequeno apartamento por causa das muitas risadas vindas do teto.
Risadas femininas, gargalhadas abertas e explosivas, entremeadas por música alta. Nina gostava de acordar tarde
sempre que podia, mas os ruídos que a acordaram não a irritavam e sim a intrigavam.
Ela se sentou na cama e espreguiçou-se como um gato, lentamente. Colocou os pés descalços no chão frio.
Colocou os óculos, e o mundo ganhou novamente foco. Caminhou até o banheiro e olhou-se no espelho. Os
cabelos bagunçados escorriam pela camiseta velha que ela vestia, cinza, com mangas muito longas. O decote,
alargado à tesoura para trazer mais conforto, descobria o ombro direito.
Nina morava sozinha naquele prédio antigo, de corredores longos, cheios de portas. Um prédio sem
elevador, sem horários, sem roteiros. Não era difícil perceber que qualquer coisa podia acontecer ali. Os
moradores, dos mais diferentes tipos, expressavam uns pelos outros a cordialidade respeitosa de quem prefere
não rotular ninguém, mas ao mesmo tempo, por serem em sua maioria pessoas sozinhas, sabem que podem
precisar uns dos outros. O edifício, situado na região central de São Paulo, tinha andares residenciais e comerciais.
Os comerciantes, muitos deles profissionais liberais, faziam do lugar um pequeno mundo onde se podia colocar
um piercing, consertar um sapato, cortar o cabelo ou processar alguém, sem precisar nem mesmo colocar os pés
na calçada da rua.
Naquele dia, Nina cumpriu seu ritual diário, saindo para as aulas da universidade. A pele muito branca, em
contato com o sol da rua, ardia. Ela era uma rata de laboratório. Logo chegaria à sua toca e começaria seu dia,
tocando em frente os experimentos que a faziam sentir-se em casa. Ela trabalharia no laboratório de bioquímica
durante toda a tarde, tentando colocar em dia os trabalhos não feitos e muito atrasados pela recente semana de
provas. Parcos raios de sol ainda brilhavam no céu, quando ela tirou o jaleco surrado e manchado de diversos
reagentes e o pendurou atrás da porta em um cabideiro. O gesto revelava um corpo aparentemente sem curvas,
coberto por um jeans e uma camiseta reta, cujo destino próximo seria engolir qualquer coisa na lanchonete que
ficava no caminho das salas de aula.
Não, não pense você que a vida dessa dedicada estudante de farmácia era chata. Era rotineira e previsível,
como fórmulas. Dias replicáveis. Mas havia momentos com amigos, com festas, com namorados. Nina era uma
mulher muito jovem, inteligente, reservada; mas ela era sobretudo curiosa. E foi por isso que naquela noite, após
as aulas, ela subiu um lance a mais de escadas e percorreu, com as pupilas dilatadas e os ouvidos aguçados, todo
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o longo corredor que ficava exatamente acima do corredor que levava à sua casa. Chegou à porta do número 404,
exatamente acima do seu apartamento, onde se podia ver uma pequena tabuleta em que se lia “Aulas de
Burlesco”, escrito com letras enfeitadas. Havia também um telefone de contato da professora. A poesia Todas as
vidas, de Cora Coralina, estava colada com fita adesiva na porta, manuscrita em um papel sem pautas, no qual as
linhas escritas faziam discreto rumo ascendente. Pulgas para trás de orelhas, ainda que as orelhas fossem de
elefante, coisa pra ninguém botar defeito. A porta estava fechada com cadeado por fora, não havia ninguém em
casa.
Burlesco... Burlesco... que raio de coisa era aquilo? E aquela poesia macerando o coração, reverberando
no cérebro, aquele verso, “todas as vidas dentro de mim”, repetindo-se como um eco nos seus ouvidos.
Dormiu como uma santa, exausta do dia, tão logo pôde afastar do pensamento por um segundo a palavra
“burlesco”. Acordou mais uma vez com as risadas e a música e olhou no relógio, que marcava quase onze horas da
manhã. Vestiu-se rápido, agarrou um livro álibi e um sanduíche cúmplice; subiu as escadas e postou-se em frente
à porta, de ali-babá, sentada em posição de Buda, pronta para responder que esperava por alguém, caso fosse
perguntada.
A porta fechada exalava alegria, podia-se ouvir muita conversa, muita animação. Era um ensaio de dança,
a professora passava e contava passos, corrigia as posturas dos corpos. Em vez de dizer “encaixe”, como numa
aula de balé, a professora repetia sem parar “tente”, “solte” e “divirta-se”. Às doze horas e quinze minutos em
ponto a porta se abriu, exibindo toda uma caverna secreta recheada de tesouros inimagináveis: mulheres, as mais
diferentes, as mais felizes, as mais brilhantes. Aquele pequeno grupo tão heterogêneo era uma amostra do
quanto uma pessoa pode ser diferente da outra, exibindo os mais diferentes recursos da moda e da cosmética. De
uma forma absolutamente inquestionável, todas aquelas mulheres demonstravam sentir-se belíssimas.
Passaram por Nina, olhavam-na como quem sorri para um cãozinho sem dono que se vê no chão, e
seguiam, escada abaixo, deixando ali uma Nina pasma de espanto. Sentiu-se a mulher mais sem graça do mundo
inteiro. Nina precisava estudar, sentia essa vontade como uma febre que se sente e não se pode controlar.
Apresentou-se no laboratório levemente atrasada, cobriu-se com sua farda, quero dizer, seu jaleco, e
instalou-se no computador, pesquisando e estudando, enquanto o universo burlesco se revelava para ela.
Entendeu assim que o burlesco envolvia performances encenadas por mulheres que podiam expressar sua
feminilidade sem rótulos ou roteiros. Esse mundo era engraçado, muito sensual, permissivo. Uma proposta
antiga, modernidades do século XIX, nomeada com um termo derivado do latim que significa brincadeira, farsa.
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Nina não podia conceber outra forma de se aproximar de qualquer coisa que não fosse através do estudo.
Sentiu-se covarde por não ter batido na porta e se apresentado, “Oi, eu sou Nina, quero saber que festa é essa.
Posso me servir?” Ela jamais teria feito isso, quero dizer, ela jamais teria feito isso antes de estudar o tema. Nina
voltou para casa e não foi à aula naquela noite, subiu diretamente ao quarto andar e encontrou a porta do
número 404 entreaberta. Bateu de leve e entrou, foi recebida pelo sorriso aberto e franco e Meg Norah. A
professora esperava pelas alunas da aula daquela noite e convidou Nina a fazer uma aula experimental naquele
mesmo momento.
– Permita-se – convidou Meg Norah, provocativa e sorridente.
As mulheres presentes, como amigas íntimas, sugeriam umas para as outras figurinos e maquiagens,
movimentos e adereços. Balançavam seios enormes, remexiam os quadris largos, explodiam em longas
gargalhadas girando guizos e nipples. Nina, tímida, tentava fazer como elas e seguir as propostas da professora,
que ria e dizia alto: “Balança essas cadeiras, NI-NA!”. Ela gritava seu nome como se a estivesse apresentando no
palco de um circo: “Com vocês, senhoras e senhores, a grande NI-NA!”. A professora despediu-se dela naquela
noite, sorridente e gentil, deixando claro que as portas estariam sempre abertas.
Nina retornou à sua casa de sempre, mas ela já não era mais a Nina de sempre. Teria ela soltado um
chacra com aquele rebolado todo? O fato é que ela sentia que podia, também, ser uma pessoa diferente. Todas as
vidas nela, como diria Cora Coralina. Ela podia se sentir mais feliz e tinha agora uma ideia de como fazer isso.
Passou a frequentar as aulas de manhã, antes de ir ao laboratório; timidamente, no início. Meg Norah,
atenta e experiente, facilitava as experimentações. As colegas de aula, espontâneas e descomprometidas,
presenteavam-na com bijuterias e batons de tons mais fortes.
Nina passou a sonhar com plumas e luvas, cintas-ligas e pompons, chapéus e sapatos de salto alto. No
laboratório, as pessoas notavam que Nina sorria mais com seus lábios agora pintados, e o professor comentou
que Nina estava mais bonita. Seu corpo utilitário ganhava novos significados dia após dia.
Meg Norah começou a discutir com Nina a composição de sua personagem, era preciso que ela pensasse
um nome, um figurino, uma história para montar uma pequena performance. O poema Todas as vidas falou
muito forte, e Nina pensou em Jaque Prozac, alguém quimicamente interessante, que expressasse e induzisse
felicidade. A professora e as amigas passaram a trabalhar no figurino, no conceito, nas imagens que Jaque
expressaria, escolheram a música e testaram coreografias. Todas participavam do processo de criação das
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personagens, nutrindo umas nas outras uma forte sensação de acolhimento. O processo todo, muito esfuziante e
divertido, envolvia Nina de forma crescente. “Deve ser como gestar”, pensou.
A estudante estava pronta para fazer a estreia de sua personagem e sugeriu, com enorme aceitação, que a
sua performance de batismo fosse feita em seu apartamento, com a presença de sua turma de aula. Nina parecia
outra pessoa na pele de Jaque, vestida com botas brancas de salto alto e cano longo, meias arrastão, vestido de
couro branco, ultrajusto, com uma tarja preta na barriga. Ela saía de uma cápsula metade branca e metade verde
ao som de um solo de saxofone. Despia-se ao dançar, lentamente, sorridente, sensualmente. Último item a ser
despido, a queda do vestido exibiria uma inscrição, tatuada com henna, seguindo a linha superior da calcinha
preta rendada: “Posso causar dependência”. Palmas, palmas, palmas. A grande NI-NA, na pele de Jaque Prozac,
receberia muitas palmas em apresentações que passaram a se tornar muito mais frequentes do que qualquer um
poderia supor. Novas performances nasciam umas após as outras, num ciclo de retroalimentação.
Jaque passou a dividir com Nina o espaço do guarda-roupa. Passou a ocupar cada vez mais espaço na
agenda. Mudou hábitos. Mudou o cotidiano rotineiro e previsível. Jaque jogou fora as fórmulas de Nina. Não que
Nina tivesse abandonado os estudos ou mesmo desistido da carreira de farmacêutica e bioquímica para se tornar
dançarina de burlesco; ela conseguiu se formar antes de a criatura engolir a criadora e se tornou também um
ícone da dança burlesca na cidade. Ela tinha finalmente aprendido as palavras mágicas para abrir a caverna dos
tesouros sozinha, quando quisesse.
* Classificado entre os dez primeiros colocados na 9° edição do Concurso de Contos do Tijuco (2014) – ALAMI

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