“Andrômeda”

Giovanna Artigiani
Ela se despedia de uma amiga, distraída, numa esquina. Virou-se subitamente para continuar a vida e
deu de encontro com ele. Pronta para se desculpar, calou-se ao reconhecê-lo. Segurando-o firmemente pela
roupa, abraçou-o, esvaziando completamente o ar dos pulmões. Ele não ousou fechar os braços, temia não ser
capaz de abri-los novamente. Atordoado, não se lembrou de segurar a respiração, e quando se deu conta, já
estava invadido pelo cheiro dela, que lhe trazia as mais doces lembranças.
O professor tentou se despedir brevemente, mas ela, habilmente, sugeriu que conversassem um
pouco; como quem segura pelo cordão um balão de gás hélio, cujo instinto sempre é voar para o céu.
O apartamento do professor era próximo. Enquanto caminhavam, um vento sutil desmanchava pouco a
pouco o coque frouxo nos cabelos dela, deixando cair mechas na camiseta colorida da companhia de dança da
qual ela fazia parte – “no momento”, como dizia a bailarina, rindo da própria inconstância.
Ao chegarem à soleira do prédio, ela observou que a porta antiga, as escadas e o cumprimento do
porteiro rangiam cansados. Havia muitas pessoas no local, pareciam todos conhecidos entre si, e ela notou
que todos olhavam o professor com certa formalidade. Tratavam-no por “Senhor”. Talvez ele tivesse
envelhecido um pouco naqueles anos...
A abertura da porta do apartamento evidenciava as manias e os hábitos arraigados daquele local
desabituado a receber pessoas. Sabedora da silenciosa comunicação do professor, ela se sentou sem convite
ao seu lado e passou a lhe contar sobre os últimos quinze anos. Ele foi sintético ao dizer que nesse tempo
ensinou astronomia. A presença dela era doce, tanto alentadora quanto efêmera. Ele sabia disso e ela
também. Quem sabe dessa vez ela se esquecesse de partir. Quem sabe dessa vez ele pudesse dividir algo de
seu.
Ela relembrou em voz alta dois ou três fatos marcantes do tempo de universidade que compartilharam,
comentou notícias de alguns amigos em comum, lembrou do quanto comiam mal e moravam mal e também
do quanto as coisas eram simples e felizes naquele tempo. Descomplicadas.
Mas não foram essas memórias – ouvidas somente em parte pelos ouvidos masculinos do professor –,
e sim um movimento da bailarina que o fez se lembrar, com todo o corpo, que nas pintas das coxas dela ele
costumava desenhar com as pontas dos dedos algumas constelações. Aquela memória lhe causou um abalo
sísmico na alma e lhe tirou o mundo do eixo. Uma gigante onda de desejo lhe invadiu e se derramou sobre ela,
receptiva.
Como se nenhum minuto tivesse se passado, eles se conheciam muito.

1

Ele imaginava, acariciando os cabelos suados dela espalhados no seu peito, que se um dia uma cigana
lhe tivesse dito que amaria uma mulher marcada pela mitologia, ele teria certamente desdenhado dela. Talvez
tivesse sido o próprio Deus quem tivesse desenhado, a bico de pena, a constelação de Andrômeda na coxa
direita daquela mulher, para que ele reconhecesse a sua amada dentre todas as outras. Pensamento
delirante... Ele sabia que o acaso era caprichoso e que na verdade foi apenas uma coincidência deliciosa
aquela distribuição da pigmentação naquele corpo, naquele tempo e naquele espaço. Mas ele sabia, e por isso
a odiava, que em breve o encantamento perderia o sentido e tudo voltaria a ser como antes. Talvez, concluiu,
tivesse sido o próprio capeta que a marcou com ferro quente, com o propósito claro de lhe enlouquecer.
Ela sentia que naquele abraço poderia adormecer não só hoje, mas também todos os dias. Adorava
não precisar convencer, adorava não precisar agradar. Se ela pudesse ficar... Mas ela sabia o quanto ele se
sentia incomodado com intromissões em sua ordem. Talvez não dissesse nada se ela colocasse quadros na
parede, talvez os odiasse calado. Isso era o difícil, sempre foi, ela não se sentia de posse da chave de sua alma.
Ele era reservado demais. Encantadoramente reservado em um mundo onde todos são tão escachados. Talvez
por isso esse homem amasse as estrelas; brilhantes, mas sempre distantes, caladas e previsíveis. Todo o
tempo elas estão no céu, ainda que ninguém possa vê-las.
Ele lhe ensinou que para ver estrelas é preciso dedicação, gastar tempo nisso. Você acostuma os olhos
à ausência de luz e aprende como procurar e entender as imagens que o céu propõe. Depois de suas aulas
incidentais, o céu nunca mais foi o mesmo para ela. Depois dele, o mundo nunca mais foi o mesmo para ela.
Mas como ela poderia segurar a própria inquietude? Essa ânsia de pensar que há algo diferente na
próxima esquina. Até quando ela viverá das mais diferentes artes? Quando estará saciada de experimentar
cidades e pessoas? Ela secretamente invejou a própria irmã, que ostentava fotos de filhos na carteira como
troféus e se divertia com qualquer coisa. Queria que sua alma fosse simples; seu coração, satisfeito; seus
pensamentos, retilíneos. Gostaria de experimentar a vida com sabor de estabilidade.
Ele pensou em se mexer, o braço já formigava, mas temeu fazer com que ela de súbito fosse embora,
lembrando-se irritantemente que sempre tinha algo importante para fazer. No seu campo visual estava parte
da sala, metodicamente bagunçada, múltiplos objetos, montanhas de coisas por fazer. Sentia-se egoísta muitas
vezes. Beijou de leve o ombro cujas pintas formavam o cinturão de Órion.
Ela sentiu seu corpo, mapa de estrelas, agrilhoado em um encaixe perfeito. Sem pensar, disse que
queria se levantar um pouco.
Ela era leve como uma libélula, sua alma certamente não pesava, sua estrutura delicada e translúcida,
feita para voar, era muito sensível à ação da mais leve brisa. Ela precisava se mover em concordância com o
vento para se equilibrar, sabia modificar as rotas, ajustando-se ao seu entorno, pegava caronas na vida. Tentar
segurá-la era correr o risco de feri-la.

2

Ele pensou que talvez ela fosse como um cometa, que em sua longa órbita voltasse sempre no mesmo
trajeto, em ciclos de quinze anos. Mas, dessa vez, ela sabia para onde voltar se quisesse fazê-lo, se pudesse ao
menos admitir esse querer. E assim ela saiu, deixando um rastro de poeira cósmica.
* Classificado entre os dez primeiros colocados na 7° edição do Concurso de Contos do Tijuco (2012) – ALAMI e Publicado na
antologia de contos “Sangue, suor e palavras mal dormidas” da Editora Big Time (2013).

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